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Os Habsburgos na RTP2

por João Pedro Pimenta, em 21.12.17

Apesar das séries de TV - ou agora até da net, ou de um híbrido entre as duas - estarem em grande, suplantando mesmo o cinema, não sou grande seguidor. A oferta é imensa, tem inúmeras categorias, e a obrigatoriedade de seguir os episódios, sobretudo quando há várias épocas, implica um esforço de fidelidade que tem os seus custos. 

 

Quando não são extensas acompanho uma ou outra. E há algumas que não sendo especialmente mediáticas têm o seu interesse. É o caso de uma produção que passou na RTP2 até há cerca de duas semanas, com o título português Maximiliano: Poder e Amor (no original Maximilian: Das Spiel von Macht und Liebe), que narra o encontro do herdeiro do trono do Sacro Império que dá nome à série com a duquesa da Borgonha. Centrando-se na particular relação entre os dois, com as habituais sub-tramas de romances pelo meio, a série mostra-nos um período charneira da história da Europa, entre o fim da Idade Média e o início do Renascimento. Constantinopla caíra poucos anos antes, na mesma altura em que findava a Guerra dos Cem Anos, e Portugal tinha iniciado a expansão africana. A história começa com a notícia da morte de Carlos, o Temerário, na batalha de Nancy, e das atribulações que a sua filha Maria teve de passar, em particular com a burguesia flamenga (a duquesa da Borgonha tinha a sua corte na então próspera Gand), pouco afecta à casa ducal e mais próxima da França de Luís XI, inimigo jurado do Temerário, com cujo filho (quase uma criança) pretendia casar Maria, anexando o velho ducado e seus territórios, que então se estendiam da Borgonha propriamente dita até à actual Holanda, aos territórios franceses. Dando a volta a estas maquinações, Maria casar-se-ia com Maximiliano.

 

Não querendo fazer demasiadas revelações caso a série volte a passar na TV um dia destes, compreende-se melhor assim o fim de uma potência, a Borgonha, que a ter sobrevivido como estado (e como reino, como pretendia o Temerário) mudaria bastante a geopolítica da Europa como a conhecemos, e a ascensão de outra. O Sacro Império passava por inúmeros problemas, numa altura em que os exércitos eram sobretudo constituídos por mercenários, para cuja manutenção era preciso dinheiro, que não abundava nos cofres dos Habsburgos. Para mais, estavam rodeados de poderosos inimigos - a França a oeste e a leste a Hungria do poderoso Matias Corvino e seus estados vassalos, como a Valáquia do célebre Vlad, o Empalador. Ironicamente, a coroa da Hungria seria mais tarde ostentada pelos Habsburgos. Mas todos esses problemas são retratados na série, onde começa a formar-se a dinastia que dominaria a Europa no futuro próximo. Se então a Borgonha passava por uma crise dinástica, Castela passava por outra, que acabou com o triunfo de Isabel, a Católica, sobre a pretendente apoiada por Portugal, Joana, a Beltraneja. A resolução das duas acabaria por ficar umbilicalmente ligada: o filho de Maximiliano e de Maria, Filipe, o Belo, casar-se-ia com a filha dos Reis Católicos (de Castela e de Aragão), Joana, a Louca, e o filho de ambos, que a História recorda como Carlos V, herdaria os títulos de Imperador do Sacro-Império, Duque de Borgonha (embora a região com esse nome tivesse sido anexada pela França) e Rei de Castela e Aragão, com todos os territórios inerentes e ainda os do Novo Mundo. O seu filho Filipe seria também, a partir de 1580, Rei de Portugal, como se sabe.

 

Claro que grande parte destes acontecimento não vêm narrados na série, que decorre num período de cinco anos. Nela cabem o romance, a intriga, a traição, a desobediência e a guerra, num ambiente algo pesado e penumbroso. Tem também uma excelente fotografia e alguns aspectos curiosos, como o facto de todos falarem na respectiva língua e em mais nenhuma - o austríaco falava com a borgonhesa em alemão e esta respondia-lhe em francês, ao passo que em Gand se falava flamengo. Nem uma palavra em inglês. Só é pena que não tenha sido referido um pormenor: o de Maximiliano e Maria, que antes do casamento nunca se tinham visto (e casam mesmo por procuração) serem já primos, uma vez que a mãe dele, já morta na altura dos acontecimentos, e a avó dela eram sobrinha e tia, ambas portuguesas, ambas da casa de Aviz (filha de D. Duarte e de D. João I, respectivamente). Tirando a omissão lusa e outras de menor importância, e só lamentando não haver mais cenas de batalha, a série cumpre perfeitamente a função didáctica. Que haja mais.

 

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O jornalismo perdeu por goleada

por Pedro Correia, em 16.09.17

Será talvez pleonástico, mas a RTP cumpriu a sua obrigação de serviço público, sem aspas. Anteontem à noite, ao juntar no mesmo estúdio os 12 candidatos à presidência da Câmara de Lisboa, num debate bem moderado por António José Teixeira. Oportunidade para ouvirmos alguns dos que actuam no chamado "campeonato dos pequenos", com aspas. Só assim denominado porque outros canais televisivos, como a  SIC e a TVI, decidiram apostar apenas nos mesmos - os do costume, os de sempre.

Critério jornalístico, dizem. Se a pauta que aplicam aos candidatos fosse aplicada pelos espectadores às televisões, nunca ambas, TVI e SIC, teriam destronado o canal público.

 

À mesma hora em que os doze de Lisboa debatiam na RTP, a TVI dava um exemplo inverso, de mau jornalismo, ao reunir num debate cinco dos sete candidatos à câmara de Loures (e porquê Loures e não Odivelas, ou Sintra, ou Matosinhos, ou Almada, ou Gaia, ou Barreiro?) apenas para dar palco ao estridente e histriónico candidato do PSD. Que foi o primeiro a falar, por amável deferência da imoderadora Judite Sousa, e também o único que falou o tempo todo, monopolizando a sessão. Tudo menos um debate, afinal.

Vendo bem, o que estava ali em jogo era uma tentativa quase desesperada da TVI de roubar por 90 minutos - o tempo que dura, em regra, um desafio de futebol - um protagonista habitual da sua concorrente CMTV, que já a ultrapassou em audiência nos canais por cabo. O cabeça de proa do PSD, travestido de Tea Party em Loures, teve o seu momentinho de glória perante a benevolente Judite e o ar acabrunhado dos figurantes neste pseudo-debate onde o melhor da política, que todos dizem ser a que se desenrola no plano autárquico, deu lugar ao pior do futebol.

 

Levado ao colo pela jornalista incapaz de arbitrar, o tipo que só quer aparecer e diz tudo o que possa dar-lhe audiência no campeonato dos cromos televisivos - incluindo injuriar sportinguistas, destratar ciganos e mandar às malvas o Código Penal - ganhou por goleada. Derrotando não os rivais que com ele surgirão nos boletins de voto mas o jornalismo sem aspas, que ainda enaltece a isenção e o pluralismo como imperativos éticos e virtudes cívicas.

As autárquicas só serviram de pretexto.

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Inculta e infantil

por Pedro Correia, em 13.10.16

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Câmara Municipal de Montreal: "hotel de cidade", como lhe chama a RTP

 

O canal 2 da RTP autodefine-se, desde há uns tempos, como uma alternativa "culta e adulta" aos raros telespectadores que a frequentam. Não faço a menor ideia de onde partiu este slogan, mas quem o concebeu acertou ao lado: não conheço ninguém verdadeiramente culto que proclame ter tal qualidade e, como é sabido, só os adolescentes insistem em considerar-se adultos.

Faria bem melhor a RTP 2 em não se presumir tão culta. Para não tornar demasiado evidentes os atentados de lesa-cultura que vai cometendo. Ainda há dias abri a boca de espanto com um deles, durante a exibição de um documentário francês de promoção turística sobre o Quebeque, inserido numa série denominada (vá-se lá saber porquê) Flavors.

O referido programa mostrava edifícios históricos da cidade de Montreal. Às tantas ouvimos a seguinte frase, proferida na locução portuguesa: "A arquitectura do seu hotel de cidade reflecte todas as influências da sua história movimentada."

Câmara municipal ou prefeitura - hôtel de ville, em francês - foi assim traduzida à letra pela absurda expressão "hotel de cidade" por quem ignora os rudimentos da língua francesa. Só podia dar asneira.

Procurei a ficha técnica portuguesa, na expectativa de ver quem assinava a tradução e a locução deste documentário. Em vão: a coisa é anónima. Não pode haver maior incentivo para a asneira.

Nada culto, portanto. E nada adulto num canal de televisão capaz de cometer erros tão infantis. Com o dinheiro de todos nós.

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Sair da casca

por João Campos, em 26.06.16

Na RTP, promove-se a partida entre a Inglaterra e a Islândia a dizer algo do género (cito de memória): "afinal, a Inglaterra não quer sair do Euro, mas a Islândia é a favor do Brexit." Há dias, durante o jogo que opôs as selecções da Rússia e de Gales, um dos comentadores contou a história de uma actriz pornográfica que teria oferecido a um dos jogadores russos 16 horas de sexo se ele marcasse aos galeses (não marcou, evidentemente, o que só torna a cuscovilhice mais divertida). No mesmo jogo, perante a imagem de um adepto de Gales a chorar, comentou-se que ele (o adepto) ou estaria emocionado pela prestação da equipa, ou talvez tivesse apenas constatado que já não tinha trocos para a cerveja. E estes nem foram casos isolados: nos trechos promocionais dos jogos que transmite têm imperado os trocadilhos (muito secos, admita-se, mas ainda assim), as alusões humorísticas a algum contexto da actualidade, e os comentários durante as partidas têm sido marcados por inúmeras piadas e referências no mínimo invulgares às equipas, aos jogadores, aos treinadores, aos adeptos ou a outra coisa qualquer que passe pela cabeça dos comentadores de serviço.

 

É impressão minha, ou isto do europeu de futebol deu a volta ao miolo da emissora pública? Enfim, se deu, então já não era sem tempo, como se costuma dizer. Nestes dias tão sisudos é salutar ver a RTP a sair da casca e a adquirir sentido de humor. Esperemos que seja para manter, e que não se resuma a um epifenómeno suscitado por um torneio de futebol. 

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Quando terrorista parece turista

por Pedro Correia, em 17.06.16

«Hoje ninguém mais discute que, apesar de ser uma língua só, temos a variante brasileira e a variante portuguesa, iguais em quase tudo mas diferentes especialmente no vocabulário (o que é natural) e na pronúncia (como pode ser constatado em qualquer canal da TV portuguesa).

Na pronúncia portuguesa, há uma forte tendência de queda das vogais átonas. "Pelotão", na voz dos âncoras da RTP, soa como "plutão". Luís Fernando Veríssimo conta que assistiu a uma chamada sobre os atentados de Paris e demorou a perceber que o "turismo" de que tanto falavam era, na verdade, "terrorismo". Esse processo teve um impacto direto na pronúncia dos pronomes átonos, que lá ficaram anêmicos, praticamente reduzidos a uma mera consoante. Em "dá-me", por exemplo, o "me" é realizado como /m'/, em "devo-te", o "te" vira /t'/, literalmente uma cuspidinha.

Aqui no Brasil, porém, ocorreu exatamente o contrário: o sol dos trópicos fez muito bem às vogais, deixando gordos e saudáveis nossos pronomes.»

 

Cláudio Moreno, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor d' O Prazer das Palavras, em artigo de opinião na revista Veja 

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Terapia

por Francisca Prieto, em 15.02.16

Apesar de não costumar assistir a ficção portuguesa, comecei a ver na diagonal a Terapia, na RTP1, por ser amiga de uma das actrizes. Três episódios mais tarde, ainda nem se vislumbrava no ecrã um cabelo da tal amiga, e já estava rendida à série. Ao invés do registo noveleiro a que a televisão portuguesa nos tem habituado, em Terapia assistimos a um registo muito próximo do universo cinematográfico. Com a particularidade de ser um formato que exige excelência do trabalho dos actores, porque é disso que se trata: de dissecar a alma humana até ao seu fio mais descarnado. E ninguém aguentaria assistir a minutos sem fim de texto, em grande plano, se este não fosse muito bem interpretado.

No primeiro episódio, a Soraia Chaves aguenta-se bem, mas num papel ingrato: o de mulher destrambelhada que se faz valer pela sedução (já a tínhamos visto fazer isto, e bem, pelo que não nos caem os queixos).

É no segundo episódio que nos rendemos com um Alex interpretado pelo Nuno Lopes, que nos diverte, ao mesmo tempo que nos esmurra o estômago. E ao longo de todas as terças feiras, a personagem vai ganhando cada vez mais corpo, ao ponto de a dissociarmos do actor. Tão bom, mas tão bom, que é imperdível.

Depois, quando liguei a televisão na primeira quarta feira da série, dei com uma adolescente chamada Catarina Rebelo que me fez entregar os pontos. O raio da miúda é tão bem malcriada que estamos sempre à espera de ver quando é que o Virgílio Castelo perde a paciência.

A minha amiga aparece mais à frente, como mulher do Virgílio Castelo, o psiquiatra de serviço. Primeiro de mansinho, em cenas curtas, mas depois, às sextas feiras, com mais protagonismo, durante as sessões de terapia de casal com a Ana Zannati (impecavelmente igual a si própria, num desempenho tranquilíssimo).

Ora eu estava habituada a ver esta minha amiga noutro tipo de registo. Concretamente no de Manoel de Oliveira, onde fazia de senhora do Douro, ou descia dos céus feita ninfa no meio da guerra colonial, ou então era uma freira, ou até uma rapariga pobre do Raul Brandão, a falar francês pelo filme fora. Sempre tudo muito devagarinho e com olhares enigmáticos.

Sempre bem, sempre em obras de eleição, mas num universo etéreo, como se fosse fora do mundo.

Era-me muito difícil avaliar o seu trabalho de actriz porque ficava invariavelmente desconcertada. Tinha sempre a sensação de que aquela senhora era uma espécie de sósia da minha amiga a quem digo montes de disparates sem qualquer cerimónia, e isto, de alguma maneira, não fazia sentido.
Na sexta feira passada quando a vi, na Terapia, fiquei banzada. Provavelmente porque a personagem se move num universo que me é mais próximo, pela primeira vez consegui olhar para a Leonor actriz sem que fosse através de uma cortina de organza. Deparei-me com uma força extraordinária, que se movimenta pelo texto fora (e que difícil que era o raio do texto e que violenta era a tensão do momento cénico) e que derruba tudo, com uma fluidez irrepreensível e uma linguagem corporal de se lhe tirar o chapéu.

Parabéns à direcção de actores, parabéns aos actores e, se me permitem, uma grande salva de palmas à minha amiga de quem tanto me orgulho.

 

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Um dia em grande

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.06.15

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E assim se encerra uma semana plena de êxitos desportivos. À tarde foi a vitória de Miguel Oliveira no Grande Prémio da Holanda, em mais uma indiscutível demonstração de todas as suas qualidades no Campeonato do Mundo de Motociclismo. À noite, já madrugada, chegou a extraordinária exibição da selecção nacional de futebol, categoria de sub-21, no Campeonato da Europa, a decorrer na República Checa, dando uma lição de futebol, em termos técnicos e tácticos, à rapaziada alta e loura da chanceler Merkel. Um resultado de 5-0 numa meia-final de um campeonato europeu é sempre um grande resultado. Contra a Alemanha, que cilindrara o Brasil há um ano no Mundial, em circunstâncias idênticas nos mais velhos, tem o sabor de um abraço para o outro lado do Atlântico, como quem diz "não nos esquecemos do que vos aconteceu". E qualquer que venha a ser a classificação final, nas motas ou no futebol, esta juventude já mostrou que está para lavar e durar.

Pena foi que a RTP Internacional, uma vez mais, não tivesse cumprido os serviços mínimos. Se quanto ao motociclismo isso é normal, o mesmo não se pode dizer e é incompreensível quanto ao futebol. Desta vez, valeram a Internet e o site da UEFA. Mesmo sem locução. Porque em Macau, depois de ter sido anunciada a transmissão, os portugueses tiveram direito a ouvir Júlio Isidro a entrevistar Ana Isabel num programa para encher chouriços. Não houve transmissão do jogo da selecção nacional de sub-21 porque a zona não estava no "pacote". Dinheiro só há para carros novos, propaganda e mandar reabrir as embaixadas onde se irão colocar, "à mama" do défice, os boys e as girls do Pedrinho, do Maduro e dessa referência das laranjadas e pirolitos nacionais que andou a queimar etapas na Câmara de Gaia.    

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Sem notícias, sem uma explicação (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.05.15

O Delito de Opinião deve ter muita força. Hoje, às 20 horas de Macau, a RTP Internacional voltou a emitir para os seus telespectadores na China o Jornal da Tarde. Aqui deixo o registo e também o meu agradecimento, em nome dos portugueses que beneficiam desse serviço, a quem fez o favor de ter a iniciativa que determinou a sua reposição.

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Sem notícias, sem uma explicação

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.05.15

Nos últimos anos, para quem acompanha as emissões da RTP Internacional na Ásia, era normal ver o Jornal da Tarde, em directo, por volta das 20 ou das 21h locais, dependendo da diferença horária ser de 7 ou 8 horas. A RTP Internacional teve, inclusivamente, um anúncio em que avisava os seus telespectadores asiáticos de que já podiam acompanhar os noticiários à hora local mais conveniente. Confesso que isso, e um ou outro programa cultural ou desportivo, normalmente a desoras, era o pouco que se conseguia ver. Agora, de repente, de há duas ou três semanas para cá, sem aviso, a programação foi alterada e ninguém sabe porquê. Não há uma notícia, não há um horário fiável, a programação é um enigma, e volta não volta lá levamos com a repetição de mais um enlatado entre o Preço Certo, o Jorge Gabriel, a Ágata e as notícias dos arraiais na Madeira. À hora que seria habitualmente a do Jornal da Tarde  passámos a ser brindados com novelas requentadas da "produção nacional" e por volta das 21h, quando aquelas acabam, começa o "5 Para a Meia-Noite", que como todos sabem é um programa altamente educativo, com bolinha vermelha no canto superior direito, para que a miudagem se divirta à brava antes de se ir deitar. O Dr. José Cesário, que dentro de dias estará de novo e pela enésima vez em excursão por Macau para visitar os seus compinchas do partido, dizer no seu estilo paroquial que está atento e a trabalhar e distribuir os habituais brindes do 10 de Junho, o que acontece numa altura em que mais dois secretários de Estado também andaram a "exportar" Portugal no Oriente, talvez possa, entre os seus afazeres partidários, dar uma palavrinha à nova Administração da RTP e trazer uma explicação. Compreende-se que as eleições legislativas, as eleições para o Conselho das Comunidades Portuguesas, os afazeres empresariais e a distribuição de comendas ocupem grande parte do seu tempo, mas já agora se pudesse contribuir para alguma coisa de útil, e que é do interesse de toda a comunidade, também não seria mau.     

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Um trabalho excepcional

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.05.15

Em 2010, escolhi o seu Tempo Contado como o meu blogue da semana. Foi uma das minhas primeiras escolhas pelas razões que ali ficaram a constar. E que hoje repetiria. Depois disso continuei a apreciar a sua escrita e estou sumamente agradecido a Francisco José Viegas, a quem não tive oportunidade de dizer quando o vi na Rota das Letras, pelo trabalho de edição da sua obra. Ontem, tive o prazer de poder ver e ouvir o extraordinário documentário, e peço desculpa por não me conter, que António Pedro Vasconcelos e Leandro Ferreira realizaram sobre essa personagem fascinante que é J. Rentes de Carvalho. Gostava de vos poder aqui deixar o link para verem o programa, mas tudo o que consegui foi o horário das próximas emissões da RTP. Se puderem não percam, pois trata-se de uma verdadeira pérola de excelência no mau serviço público que normalmente é prestado aos portugueses que estão fora e que a acompanham pelas  emissões da RTP Internacional. 

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Benefício da esperança

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.03.15

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Passada a fase mais troglodita da gestão PSD/CDS da RTP, de que o ex-ministro Miguel Relvas foi nos últimos anos o expoente máximo, e de despachada a gestão cervejeira de Alberto da Ponte, parece que finalmente aquela casa começa a ter um rumo.

A nomeação de Nuno Artur Silva para os conteúdos já fora para mim uma agradável surpresa. Conhecer esta manhã os novos nomes para a direcção de informação foi agora sinal de satisfação. Gente como Paulo Dentinho, Daniel Deusdado, João Paulo Baltazar e Teresa Paixão não merecem o benefício da dúvida. Merecem o benefício da esperança numa área que tem sido tutelada por um ministro que, sendo um jurista de excepção, se tornou num verdadeiro papagaio político ambulante. A "falha", em boa hora verificada, já com o difícil período das legislativas no horizonte, um Governo de pantanas e um Presidente da República colapsado, só confirma aquela que tem sido a regra. Do mal o menos.

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Verdadeiro serviço público.

por Luís Menezes Leitão, em 26.01.15

Acho inconcebível que esteja a passar despercebida aquela que considero, depois de Yes, Minister mas agora num registo sério, a melhor série de televisão alguma vez feita sobre política: Borgen, de segunda a sexta-feira na RTP2. Borgen, que significa castelo em dinamarquês, corresponde à designação comum do palácio de Christiansborg, sede do parlamento e do governo dinamarquês e lugar de trabalho do Primeiro-Ministro. A série relata a ascensão ao cargo de Primeira-Ministra da Dinamarca de uma jovem mulher, Birgitte Nyborg, que consegue montar uma coligação num parlamento dividido, oferecendo o apoio do seu partido na condição de ser designada Primeira-Ministra.

 

Neste âmbito, a série dá-nos um retrato extremamente realista dos meandros de um governo de coligação e das rivalidades entre os ministros, abordando mesmo os problemas pessoais e familiares que ocorrem a uma mulher que ascende a um cargo tão importante. E nem sequer falta a relação com a imprensa, mostrando como hoje a política passa muito mais pela influência sobre os media do que pelos debates parlamentares. Quase nunca vemos uma sessão parlamentar, mas passamos todo o tempo a ver o spin doctor Kasper Juul a manobrar os jornalistas como peças de xadrez.

 

O que achei curioso na série é a semelhança com a política portuguesa, mesmo sendo os países tão diferentes. Mas a série demonstra igualmente a humanidade e a fragilidade dos políticos que não há spin doctor que consiga esconder. Um dos episódios é sobre a nomeação do comissário dinamarquês, obrigando a Primeira-Ministra a conciliar a esse propósito simultaneamente conflitos no governo e no partido com as pressões do presidente  da comissão, que condiciona a atribuição de uma pasta importante à nomeação de alguém com peso político efectivo.  Mas quando a Primeira-Ministra consegue um nome que a todos satisfaz, o nomeado sofre um AVC quando lhe dizem que iria ser sujeito a um interrogatório de seis horas no parlamento europeu. Não há desígnio político que consiga superar a fragilidade humana dos protagonistas.

 

Esta série é um verdadeiro serviço público que a RTP2 nos proporciona.

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"Serviço público"

por Pedro Correia, em 26.12.14

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RTP Informação, hoje, 19.29: «Marco Silva está nesta altura por um fio. O anúncio da saída do técnico do Sporting deverá acontecer a qualquer momento.»

RTP Informação, hoje, 19.32: «A verdade é que, ao que tudo indica, Marco Silva vai mesmo ficar no Sporting. Acaba de falar na Sporting TV Bruno de Carvalho, garantindo a continuidade do técnico.»

 

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Quando a primeira "notícia" foi para o ar no serviço público de televisão - sem estar confirmada junto de fontes credíveis, como mandam as boas regras jornalísticas - Bruno de Carvalho já tinha publicamente deixado claro, em declarações emitidas às 19.06 na Sporting TV, que o treinador do Sporting continua em funções. A CMTV, apercebendo-se disso, reproduziu essas declarações no seu serviço noticioso logo a partir das 19.08.

Lamentavelmente, a RTP foi a última a perceber. Entre a notícia e o boato, preferiu o boato.

 

ADENDA: Às 20 horas, como comprova a foto aqui em baixo, o Telejornal da RTP insistia ainda, nas legendas em rodapé, que «Marco Silva deverá abandonar o comando técnico do Sporting».

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Assunto resolvido é um imbróglio à vista

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.12.14

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A actual administração da RTP foi escolhida pelo Governo em funções da maioria PSD/CDS-PP. Sobre o assunto RTP disse Miguel Relvas, com a sua habitual petulância, ainda antes de sair pela porta dos fundos, que estava resolvido, acrescentando que "A RTP tem hoje um dos melhores gestores à sua frente, tem uma excelente equipa de profissionais e vai deixar de ser notícia, porque passa a ter a partir de hoje todas as condições para resolver todos os seus problemas".

Ainda o mandato deste Governo não chegou ao fim e a RTP voltou a ser notícia pelas piores razões. Os melhores gestores viram o seu plano estratégico chumbado por duas vezes. Alberto da Ponte dizia há dias que não se demitia e que estava a defender os interesses da empresa. O ministro que substituiu Miguel Relvas na tutela da empresa veio acusar o gestor de "falta de lealdade". Um mimo "irrevogável".

Agora ficamos a saber que os "melhores gestores" foram destituídos pelo mesmo Governo que os escolheu, assim mostrando a excelência das decisões tomadas relativamente à RTP, pelo que talvez seja altura de Miguel Relvas, que foi repescado no último congresso do PSD para voltar a desempenhar funções políticas no partido, ou o primeiro-ministro, viessem esclarecer se estavam errados quando promoveram os demitidos à liderança da RTP ou se é Poiares Maduro quem tem razão. E não se esqueçam de divulgar o valor das indemnizações que serão pagas. Se for o caso, é claro.

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Dramas humanos

por Rui Rocha, em 22.06.14

Sónia Araújo está a viver uma fase conturbada na carreira. A apresentadora da RTP está prestes a ver o ordenado ser reduzido de 11 800 euros para metade. À família e aos amigos mais próximos, a cara do programa ‘Aqui Portugal', das tardes de sábado, já demonstrou preocupação com a redução do vencimento, principalmente por causa do futuro dos três filhos, todos menores: Carolina, de 11 anos, e os gémeos Francisco e Tomás, de apenas cinco.


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Uma televisão para a malta das "minis"

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.06.14

No dia das eleições europeias, exactamente à hora a que eram anunciados os resultados eleitorais e se iniciavam os debates em estúdio, a RTP Internacional resolveu cortar a emissão da RTP1 e retransmitir, pela segunda vez e em diferido, a procissão do Senhor Santo Cristo.

Hoje, mantendo a coerência, dia em que o Rei de Espanha anunciou a sua abdicação a favor do filho, o noticiário da RTP Internacional abriu às 20h de Macau com o autocarro da selecção nacional de futebol e a notícia de que suas excelências, os homens da bola, vão almoçar com o Presidente da República.

Para o futuro de Portugal esse almoço deve ser incomparavelmente mais importante do que a decisão do monarca espanhol, tal é o tempo de antena que lhe é concedido.

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A ética escondida atrás da sigla

por Pedro Correia, em 04.04.14

Confrontado com a polémica de que foi alvo, por perturbar o habitual tempo de antena que o canal público de televisão proporciona ao antecessor de Passos Coelho, José Rodrigues dos Santos respondeu com elevação e substância num longo texto que constitui uma lição de jornalismo.

«O entrevistador não é nem pode ser uma figura passiva que está ali para oferecer um tempo de antena ao político. O entrevistador não é o "ponto" do teatro cuja função é dar deixas ao actor. Ele tem de fazer perguntas variadas, incluindo perguntas incómodas para o entrevistado. Não deve combinar perguntas com os políticos, mas deve informá-lo dos temas. No acto da entrevista o entrevistado "puxa" pela sua faceta positiva e o entrevistador confronta-o com a sua faceta potencialmente negativa. Espera-se que o espectador veja as duas facetas», escreve Rodrigues dos Santos. Dando o nome e a cara.

Exactamente ao contrário do que fez uma autoproclamada Associação de Telespectadores, que se apressa a invocar palavras de grande peso, como ética e deontologia, num lamentável comunicado que procura tirar ao jornalista aquele que constitui o seu único poder: o da pergunta. E não existe mais nenhum.

Como ensinou Larry King -- celebrizado durante um quarto de século de presença contínua na CNN -- numa conferência em Portugal a que tive o prazer de assistir, um jornalista nunca esgota o cardápio das perguntas. "Quando não há outra, é sempre possível perguntar 'porquê'? Podemos estar o dia inteiro a perguntar porquê." E nenhuma pergunta pode ser confundida com "emboscada".

Alguém faça o favor de explicar isto à putativa ATV. Eu não posso: simplesmente por ignorar quem sejam os catedráticos de jornalismo que integram esta associação de corajosa gente que insiste em dar sermões de "ética" aos outros sem assinar por baixo. Com nomes e rostos, não com uma sigla.

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"Gorduras do Estado" (94)

por Pedro Correia, em 03.02.14

RTP gasta 80 mil euros para motivar trabalhadores

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Frases de 2014 (1)

por Pedro Correia, em 31.01.14

"Há gente na RTP que não faz puto."

Alberto da Ponte, presidente do Conselho de Administração da RTP

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Miserável

por Teresa Ribeiro, em 12.10.13

Quantas comissões, horas e horas de debates sobre o futuro da televisão estatal. Quanto capital intelectual perdido nas gavetas de gente estreita, frágil, sem rasgos, tolhida por compromissos. O dossier RTP é todo um tratado sobre o exercício do poder em Portugal. No essencial nada mudou. Nem a desfaçatez com que no fim nos apresentam a conta de tanta inépcia na factura da electricidade.

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RTP requalificada

por Teresa Ribeiro, em 09.09.13

Ontem no "magazine de actualidades" Só Visto, um programa da RTP, assisti a uma "reportagem" com Luís Esparteiro e família a fazer compras no supermercado Continente para o regresso às aulas. Enquanto ouvia a repórter perguntar à filha mais velha do actor qual era o material escolar que mais a empolgava na hora das compras, lembrei-me que os defensores do Estado mínimo já não discutem o fecho do segundo canal, mas a abertura de um terceiro.

À discussão não deve ser alheia esta requalificação do conceito de serviço público.

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O efeito Sócrates a médio prazo

por Teresa Ribeiro, em 22.03.13

Lembram-se da Assunção Cristas, ou da outra senhora que está na Justiça, como é que ela se chama? E do primeiro ministro, um tal de Passos. E do Relvas? Desse muito se falava, mas agora é como se tivesse desaparecido em combate. Em combate é uma força de expressão porque a paz reina nos gabinetes ministeriais, nas secretarias de Estado. Até o Álvaro anda mais descontraído e o Gaspar, mesmo o Gaspar tem sido bastante poupado apesar das derrapagens. El sombrero, qual herói de telenovela mexicana, mantém-nos longe dos olhares inquisidores dos desempregados e dos esmifrados do país, à sombra do seu imenso chapéu. É assim desde que foi contratado para fazer comentário político na RTP. Uma ideia de génio, conforme admitiram reiteradamente fontes socialistas. Reiteradamente, reiteradamente, reiteradamente. 

 

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O regresso

por João Campos, em 21.03.13

Não sei se a ideia fazer Sócrates regressar aos seus idos de paineleiro* televisivo neste início de Primavera de 2013 tem como objectivo servir de cortina de fumo/balão de oxigénio ao (des)Governo ou de argumento a favor da necessidade de privatizar a RTP (arrisca-se a ser bem sucedida em ambas as frentes). Mas serve para ilustrar na perfeição quase todos os problemas do comentário político em Portugal. 

 

*A expressão, muito oportuna, foi cunhada pelo João Gonçalves

 

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Longe de mais

por Leonor Barros, em 21.03.13

Mas alguém achará que esta contratação é inocente? Hoje ninguém fala de outra coisa. O melhor é irem aos bancos ver se ninguém vos foi à conta ou se ainda têm emprego. Enquanto o povo brade e se descabela pelo regresso do Sócrates pago com o dinheiro dos contribuintes, que bela jogada a do estratega por trás disto, esquece-se por momentos dos cerca de 18% de desempregados e outros tantos que vivem em condições deploráveis, mas são pobres e exigentes, querem as suas vidas de volta, deixá-los à míngua.  Fazer-nos levar com o Sócrates no canal público de televisão é de mais, porque o Sócrates é, como a outra, quer é festa. Quaisquer cinco minutos de fama são poucos. E por quê cinco minutos se se pode ter um programa? Já há muito que esta gente que nos governa ultrapassou todos os limites. Todos os dias são dias a mais.

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Sem medo nem vergonha

por Teresa Ribeiro, em 21.03.13

Ouvi ontem no programa da SIC Notícias "Negócios da Semana" o empresário têxtil Luís Guimarães dizer que a carta aberta que escreveu a este governo jamais escreveria ao anterior por receio de represálias. O comentário, vindo de uma pessoa que se queixa do actual executivo, era suficientemente insuspeito, por isso deixou-me a pensar. Medo? Lembrei-me então de vários casos que ocorreram no tempo de Sócrates. O do professor da Dren Fernando Charrua, que levou a uma condenação do Estado, o do blogger António Balbino Caldeira, o afastamento de Mário Crespo do JN, da Manuela Moura Guedes da TVI, do José Manuel Fernandes do Público. Penso que nunca um governo moveu tantos processos contra jornalistas como o de Sócrates. Medo? O Luís Guimarães não aprofundou. Pena. Gostaria de saber pormenores, porque ter medo de falar é muito grave.

Por coincidência, na manhã seguinte o homem aparece. E nem sequer está nevoeiro. Alcandorado à posição de senador - não é o que todos eles passam a ser quando se tornam comentadores? - vai falar ao povo da tribuna da RTP, a televisão do Estado. Feito Gungunhana, diz aqui em baixo o Rui? Se a sua presença na pantalha aproveita ao governo é porque se revela um tudo nada aviltante para a maioria dos portugueses. Ele, como não é ingénuo, sabe-o e ainda assim quer falar, sem vergonha e presumo que sem medos. Isso, devo dizer, é exactamente o que mais me revolta o estômago.

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Sócrates, o Gungunhana de Passos Coelho

por Rui Rocha, em 21.03.13

Devo ser claro. Não acredito na neutralidade política da RTP. E, se alguém por aí acredita, que levante o braço. Alguém? Pois. Ora, é à luz deste ponto de partida e do actual contexto político que deve ser analisado o regresso de Sócrates à RTP. O que temos então? Temos uma televisão pública dependente do poder político. E uma contexto de degradação das condições políticas do actual governo. Olhemos por um momento para o executivo, para percebermos melhor. O primeiro-ministro está, desde o princípio, prisioneiro de promessas eleitorais que foi quebrando, uma a uma. E de um discurso politicamente imberbe ao qual foi adicionando, nos piores momento, uma boa dose de  hostilidade em relação aos portugueses (as alusões à pieguice, ao desemprego como oportunidade, etc.), ao mesmo tempo que mostrava uma intolerável complacência com todas as distorções instaladas. O seu putativo braço direito, Miguel Relvas, revelou-se, pelas razões que todos conhecemos, o seu pé esquerdo. Alguma dignidade que restasse, ficou irremediavelmente comprometida quando entendeu partilhar com o país os dotes de barítono, entoando a Grândola. O ministro das finanças está completamente descredibilizado. Chegámos ao ponto de a Ordem dos Cartomantes, na pessoa do bastonário Marcelo Rebelo de Sousa, se permitir mandar o ministro ver se chove. O ministro da economia, por seu lado, é a nulidade que se conhece, perfil aliás absolutamente alinhado com a intenção governativa inicial de estabelecer um diktat das finanças. O resto do governo, bem, é o resto do governo, com Paulo Portas sempre fora, mesmo nas poucas ocasiões em que está cá dentro. No mais, temos uma situação económica e financeira insustentável, uma dívida impagável, e terminaremos, mais cedo ou mais tarde, por embater (ainda mais) violentamente com a realidade. Ora, sendo tudo isto assim, o regresso de Sócrates ao espaço público e mediático só pode ser entendido como um facto ao qual o actual governo não só não se opõe como, na verdade, deseja. À falta de factos relevantes de governação, de reformas estruturais, de presente e, sobretudo, de futuro, nada melhor do que a exposição periódica do responsável pelo passado. Sócrates, completamente descredibilizado pessoal e politicamente, coisa que só os apaniguados mais veementes e o próprio não entendem, é a cortina de fumo ideal para lançar sobre a situação do país, recordando em permanência aos portugueses quem é o principal responsável pela situação. Que o governo participe nesta manobra de diversão, diz bem da sua fraqueza. Que Sócrates se preste a ser exibido publicamente como o Gungunhana de Passos Coelho só será surpreendente para alguns: aqueles que esquecem a sua imensa vaidade, o seu desproporcionado autoconceito e a entranhada falta de vergonha que sempre ostentou.

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RTP

por José António Abreu, em 28.01.13

As soluções de Miguel Relvas eram péssimas. A solução de Paulo Portas mantém o status quo. Parabéns a ambos.

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Foi para isto que chumbaram o PEC IV?

por Rui Rocha, em 23.11.12

Portugal desiste do Festival da Canção por razões financeiras.

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Pedras atiradas em São Bento atingem RTP.

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Os riscos dos "directos"

por Pedro Correia, em 12.11.12

Reportagem "em directo" no canal de notícias da RTP. Repórter junto do aeroporto de Figo Maduro, à distância, aguardando a chegada do avião que transporta a chanceler alemã. Ninguém nas redondezas? Ninguém não: aproximam-se aqueles dois patuscos, o Jel e o irmão, que ganharam um festival de cançonetas promovido pela própria TV pública.

Que fazem eles ali? Nada de especial: só querem protagonismo. Publicidade gratuita. Quem não quer?

"Trazemos uma prenda para a Merkel", dizem entre risos, mostrando um grande embrulho. Está-se mesmo a perceber o que é, mas a repórter da RTP, necessitando de encher chouriços (a expressão vem muito a propósito), insiste: quer ver do que se trata. Eles lá desembrulham aquilo e salta de lá um... exemplar de típica louça regional das Caldas, tamanho XL.

Tudo em directo, ao vivo e a cores. O jornalismo "de referência" capturado pelo entertainment puro e duro.

De Merkel, claro, nada se viu. "A chanceler optou por uma saída alternativa. É uma informação que não conseguimos confirmar em absoluto. É uma desilusão para as poucas dezenas de pessoas que aqui estão com cartazes com palavras pouco abonatórias para Angela Merkel", esclareceu outro repórter da RTP destacado para Figo Maduro.

Merkel não recebeu a prenda. Ficou ali, nas mãos do Jel, como símbolo de uma reportagem falhada.

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Pirataria nos greens

por Ana Vidal, em 11.11.12

A RTP2 tem estado a passar um documentário cuja sinopse, apresentada no próprio site da RTP, é esta: "A pirataria marítima e as suas adversidades - Documentário contando a história do "boom" da pirataria, junto às cidades costeiras da Somália devastada pela guerra, a operação a bordo de navios de guerra no Golfo de Aden e a situação dos reféns". O autor da peça jornalística é James Rogan e o título original "The Trouble With Pirates".


Pois pasmem, senhores. A tradução do título que a RTP2 achou por bem fazer é esta pérola: "O Problema dos Piratas do Golfe". É assim que aparece no guia de programas do canal e no próprio genérico do documentário. E é este o serviço público que queremos defender.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 03.09.12

«Ninguém contesta que a SIC Notícias, a TVI 24 e a TSF prestam um bom serviço público. E são privadas. Ao invés, a programação da RTP Internacional é medíocre. Apesar de ser do Estado. Conclusão: é um erro sobrevalorizar o público e estigmatizar o privado ou vice-versa. Num e noutro há coisas boas ou más.»

Luís Marques Mendes, no Correio da Manhã

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RTP (2)

por José António Abreu, em 30.08.12

1. Ajudada pela restante comunicação social, pouco interessada no aumento da concorrência, e pelo Partido Socialista (já lá vamos), a RTP tem-se esforçado por passar a ideia de que dá lucro. Não dá. A RTP, cuja situação financeira na última década melhorou muito mais à custa de transferências obscenas de dinheiro público do que por mérito próprio (ainda que algum seja de admitir), exige anual e directamente (isto é, sem as transferências do orçamento do Estado) 140 milhões de euros aos contribuintes. Uma empresa que necessita de injecções anuais de dinheiro dos accionistas não dá lucro. Aliás, seguindo esta lógica, seria sempre possível fazer com que a RTP desse lucro: bastaria ir ajustando a taxa do audiovisual na proporção adequada.

 

2. Politicamente, a actuação do governo tem sido desastrosa: hesitante, incoerente, fazendo avançar quem se devia manter em silêncio e recuar quem devia dar a cara; já a actuação do PS tem sido simplesmente vergonhosa: sabemos que as promessas são baratas e que o povo costuma apreciá-las, mas contestar soluções como se os problemas não existissem é a táctica mais básica que um partido pode utilizar. A parte positiva é nem valer a pena perder muito tempo com as intenções de Seguro e companheiros: tão cedo não haverá dinheiro para repor o que quer que seja.

 

3. A RTP é um luxo demasiado caro para um país falido, mesmo no cenário cor-de-rosa (perdão: cor-de-laranja) de «só» lhe custar 140 milhões de euros por ano. Mas, ainda que os portugueses aceitassem continuar a pagá-los para receber parte daquilo que a RTP hoje lhes fornece (e apenas parte, visto o cenário do «equilíbrio» pressupor apenas um canal), o risco de derrapagens futuras, que, seja qual for o modelo escolhido (de concessão a privados ou de empresa pública), o contribuinte acabaria pagando, é demasiado real. Também por isso se torna crucial diminuir o nível de custos.

 

4. A Constituição Portuguesa, esse texto pejado de incongruências que, nas actuais circunstâncias, o PS, necessitado de parecer um partido de esquerda, nunca aceitará rever, obriga a que exista um serviço público televisivo. Fica assim estabelecido um custo para os contribuintes. Resta saber o que é isso de «serviço público», para depois se poder avaliar quanto dinheiro é preciso. Constituirá a informação serviço público quando ela está disponível noutros canais e é cada vez mais obtida por outros meios? E as novelas? Os concursos? Os programas humorísticos? As transmissões de jogos de futebol (e de tudo o que os antecede e das intermináveis análises que se lhes seguem)? Programas de música como o Top Mais? E, permitam-me uma pergunta de algibeira, que canal associariam mais depressa a documentários de qualidade, a RTP1 ou a SIC? No fundo, da programação actual da RTP1, o que não se obtém noutros canais de sinal aberto? O Prós e Contras? OK, salvemos a Fatinha. Constatada esta realidade, torna-se muito mais fácil chegar aos únicos modelos simultaneamente lógicos e que permitem poupar dinheiro aos contribuintes.

 

5. Com esse ou outro nome, a RTP2 permanece um canal público, dedicando-se essencialmente a conteúdos alternativos: filmes antigos e/ou pouco comerciais, teatro (por que desapareceu dos ecrãs?), música, documentários, debates, magazines de divulgação cultural, desporto amador, etc. Talvez um par de espaços informativos por dia mas com imagens que poderiam muito bem ser fornecidas pelos operadores privados (por acordo entre estes, concurso público, whatever). Custando actualmente a RTP2 cerca de 40 milhões de euros, não há razões para o novo canal custar muito mais (até porque, não concorrendo verdadeiramente com os privados, deveria estar livre para recolher algumas receitas publicitárias). Mas, considerando ainda outros custos (por exemplo, a questão da manutenção do arquivo da RTP), admitamos como razoável um orçamento de 60 a 70 milhões de euros. Este valor permitiria não só evitar transferências do orçamento de Estado como reduzir para metade a taxa do audiovisual, o que, para um governo que começou por alardear convicções liberais, devia constituir um incentivo (antes) e um motivo de orgulho (depois).

 

6. Resta a questão da RTP1, para a qual há duas soluções: privatização ou fecho. Pessoalmente, gostaria de ver o mercado funcionar; se o Estado conseguisse uma oferta razoável, excelente (não estamos em tempo de desperdiçar dinheiro). Mas, claro, isso exigiria aceitar a hipótese de um canal televisivo de acesso geral vir a ser controlado por estrangeiros (sejamos directos: por angolanos) e de o mercado publicitário não chegar para todos os players (é assim que se diz, não é?). Como, por cá, preferimos «almofadar» as decisões e não chatear empresários instalados, talvez a melhor opção seja partir desde já para o encerramento. Necessitando o novo canal público de muito menos gente, de muito menos equipamento e de instalações muito mais modestas (boa parte dos conteúdos deveria ser contratada a empresas externas, de modo a permitir ajustar mais facilmente os gastos ao orçamento disponível), as indemnizações aos funcionários da RTP seriam compensadas pela venda do edifício e do equipamento da RTP.

 

 7. Nah, por agora chega.

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Baixa política

por Teresa Ribeiro, em 29.08.12

O argumento de que a RTP era um sorvedouro de dinheiro, que sugava aos contribuintes 1 milhão por dia, sensibilizou-me. De resto, há muito que me interrogava sobre o interesse de manter dois canais, sobretudo em manter um canal com características indistintas dos outros canais generalistas, com o dinheiro do Estado. Agora, do nada, caem do céu números que nos apresentam outra realidade e que - pasme-se - são grosso modo corroborados pelo governo.

Sabendo-se que a privatização de mais um canal vai rebentar com o mercado publicitário, base de sustentação dos media e que essa crise vai ter um efeito dominó, afectando não só as televisões como todos os outros órgãos de informação,  porque raio não se fecha pura e simplesmente um dos canais? Se afinal o "sorvedouro" até já pode dar lucro, chamem as coisas pelos nomes e não afirmem que é por razões financeiras que querem descartar o canal público de televisão. Não vou sequer discutir aqui a importância de manter o serviço público. Propositadamente limitei-me às razões financeiras, as que sempre têm sido invocadas para defender a necessidade de despachar a RTP.

Mas se dúvidas houvesse, percebe-se agora que esta decisão é política e de forte base ideológica. E se é política e lesiva para um sector estratégico como o da Comunicação Social, então é muito grave o que se está a preparar.

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Estás com medo? Ou estás com medo?

por André Couto, em 28.08.12

Afinado coro, o das últimas horas, a pedir a demissão da Conselho de Administração da RTP, por este ter opinado contra a concessão da empresa a privados. Surgiram-me, entretanto, uma dúvida e uma certeza. A dúvida é a de não perceber se o anúncio do Mr. Goldman Sachs é, afinal, uma medida oficial, debatida e aprovada em Conselho de Ministros. Opinar sobre cenários durante um debate não me parece motivo de demissão, a menos que se lide mal com a liberdade de opinião. A certeza foi ter percebido o medo que está por trás das sugestões de demissão: gestores públicos, sérios e honestos, que fazem empresas públicas entregarem lucro ao Estado e não aos privados com os quais pouco tem a ver? "Eh lá! É melhor correr com eles não vão as pessoas perceber que a gestão pública, se séria e honesta, como se supõe, reverte o lucro a favor do Estado e não dos interesses da malta...".

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silly season TV

por José Navarro de Andrade, em 26.08.12

Jeff Wall, "A sudden gust of wind (after Hokusai)", 1993

 

A RTP1 é invendável por falta de comprador – repitam como um mantra: “não há mercado, não há mercado…”

A RTP1 só poderia tornar-se apetecível se for subsidiada pela taxa. Ideia genial: a taxa não sai dos cofres do Estado mas do bolso dos consumidores de eletricidade. Donde a “concessão de gestão” sugerida pelo sr. António Borges.

Mas uma RTP1 de operação privada e subsidiada seria um atentando – pode-se dizer criminoso? – contra as regras normais de um mercado normal. Com esta fórmula, um concorrente teria acesso à cabeça a uma fonte de receita vedada aos outros, graças a um mero dispositivo legal de circunstância.

Porque não haveriam os srs. Balsemão e Pais do Amaral ter também o direito a parte igual dessa taxa? Não são também eles afinal concessionários de uma frequência que é pertença do Estado? E a RTP1 continuaria com a restrição de 6 minutos por hora de publicidade em vez dos 12 minutos dos operadores privados, ou será uma questão de somenos para o fulminante, embora etéreo, espirito do sr. António Borges?

Agora que este problema está resolvido, proponho que o sr. António Borges nos diga que planos tem para a comercialização do bosão de Higgs – segundo creio ele também não percebe nada de física…

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Pergunta de algibeira

por Ana Vidal, em 25.08.12

É impressão minha ou o ministro com pasta Aguiar Branco desautorizou completamente o ministro sem pasta António Borges?

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RTP

por José António Abreu, em 25.08.12

A forma interessa-me pouco. De resto, que a hipótese tenha sido avançada por António Borges parece-me mais um modo (tristemente infantil mas também tristemente comum) de a testar do que um verdadeiro anúncio. O conteúdo, esse interessa-me bastante mais. Não sendo contra o princípio da concessão do serviço público, tenho uma dúvida: extinta a RTP 2 (que custa 40 milhões por ano mas, apesar de inúmeras falhas, ainda se percebe ter uma programação alternativa), o que constituiu afinal o serviço público de televisão? Por outras palavras: os portugueses vão entregar os 150 milhões de euros da taxa do audiovisual à Ongoing (perdão: ao consórcio vencedor) para garantir exactamente o quê?

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Do comentário futebolístico

por Pedro Correia, em 24.07.12

Quando comecei a ver futebol, e a interessar-me pelas coisas do futebol, havia excelentes comentadores que faziam tudo já não digo para ser isentos mas para parecer isentos. O Carlos Pinhão era benfiquista mas escrevia como se o não fosse, o Vítor Santos era do Sporting, mas também escrevia como se o não fosse.
A partir de certa altura os órgãos de informação passaram a privilegiar os comentadores de emblema e cachecol. Houve até uma época em que a palavra de ordem parecia ser esta: quanto mais fanático e sectário pareceres, melhor. Dava "boas audiências" e o resto não interessava.
Assim se formou uma geração de jovens espectadores fanatizados, cada vez mais sectários, incapazes de reconhecer mérito a uma equipa adversária, adoptando como lema frases do género "ou vai ou racha".

Tudo porque dava jeito às sacrossantas "audiências".


Eu, no entanto, sou do tempo em que conseguia aprender a ver e ler futebol pela voz ou pela pena de jornalistas do meu clube (o Fernando Correia, que felizmente se mantém no activo, é um excelente exemplo disso) ou de clubes rivais (e jamais esquecerei o Pinhão ou até o Alfredo Farinha da era pré-Vale e Azevedo).
Isso perdeu-se. E sou o primeiro a lamentar. Mas o que mais lamento é ver programas como Zona Mista pretenderem fazer a quadratura do círculo: conciliar o cachecol com a análise objectiva. Isto é um lapidar erro editorial de que o benfiquista João Gobern foi vítima ocasional, no final de Março, só porque não sabia que estava a ser filmado no momento em que o seu clube do coração marcava um golo e ele levantou os braços num impulso eufórico - algo que, suponho eu, qualquer um de nós no lugar dele faria caso fosse o nosso clube a marcar. Prepara-se agora, quatro meses depois, para assumir o emblema clubístico num programa também do canal público onde é obrigatório exibir cachecol. Talvez porque o anterior locatário da cadeira, Júlio Machado Vaz, não revelasse suficiente fervor encarnado. Assim se completa um círculo bem demonstrativo dos circuitos dominantes na opinião futebolística do momento...

 

Defendo uma clara delimitação editorial, sobretudo tratando-se de um canal com especiais responsabilidades de serviço público, como é a RTP. Pode e deve haver programas com adeptos de clubes. Mas por maioria de razão também pode e deve haver programas sobre futebol feitos por jornalistas, que não esquecem os seus deveres deontológicos de imparcialidade e rigor.

Confundir as duas coisas - informação e "entretenimento" - é o pior de tudo. E que acaba por ter os resultados que já se viram, com o Provedor do Telespectador da RTP, após "cerca de 103 reclamações" (deliciosa expressão...), a recomendar ao canal público a adopção de uma "carta de princípios" destinada a "tornar claros e concretos os deveres dos colaboradores, autores e jornalistas".

Deixem lá a Sónia Araújo usar o cachecol azul e branco quando o seu clube ganha o campeonato. Não queiram é cobrir o rigor informativo e a análise isenta com um cachecol.

Foto do Blog da Sónia Araújo

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José Hermano Saraiva (1919-2012)

por Luís Menezes Leitão, em 20.07.12

 

José Hermano Saraiva foi indiscutivelmente uma figura polémica, que como todos os seres humanos tem as suas luzes e sombras. Mas na altura da sua morte, devemos concentrar-nos nas luzes com que iluminou o nosso presente e esquecer as sombras. Os clássicos diziam que mors omnia solvit. Não me interessa por isso que José Hermano Saraiva fosse um fervoroso apoiante de Salazar, tendo chegado a qualificá-lo de "antifascista" ou que tenha sido o Ministro da Educação que efectuou uma repressão duríssima sobre os estudantes aquando da crise académica de Coimbra. Aliás, como bem salientou Pacheco Pereira, essa crise académica é hoje objecto de uma verdade oficial, nunca se falando de que acabou com um pedido de desculpas dos dirigentes associativos a Américo Thomaz, o que causou grande indignação entre os estudantes. Recordo-me de que há uns anos ia havendo um tumulto no Parlamento quando esse episódio foi recordado.

 

O que me interessa recordar de José Hermano Saraiva é o brilho das suas magníficas exposições sobre a História de Portugal, que a tornava acessível a todos. Nem sempre os seus argumentos me convenciam, como a sua tese sobre Camões de que a macaense Dinamene seria afinal a bem portuguesa D. Ioana Noronha de Andrade (DINA) e Menezes (MENE). Mas era extraordinária a simplicidade com que respondia às questões que lhe punham. Porque é que o Porto, que deu nome ao país, nunca foi a sua capital? Porque o Porto era do bispo. Os trabalhos que fez no fim da sua vida de expor a história de quase todos os concelhos do país são um verdadeiro serviço público, que ficará na memória de todos. Da mesma forma, foi altamente meritória a sua chamada de atenção constante para a degradação do nosso património, com exemplos concretos de abandono por parte do Estado.

 

José Hermano Saraiva foi também um grande jurista, tendo deixado obras marcantes como O Problema do Contrato e A Crise do Direito. Será, no entanto, como historiador e mais precisamente como divulgador da história que será recordado. Impressionou-me particularmente a forma como soube envelhecer. Quando tantos outros se reformam antecipadamente e ficam inactivos até ao fim da vida, ele continuava sempre incansável no seu constante labor. Podíamos ver que não estava nas suas melhores condições físicas, mas nunca se notava uma diminuição na qualidade dos seus programas.

 

Não sei se num canal privado de televisão seria alguma vez possível assistir a um programa de José Hermano Saraiva. É curioso que nos tenha deixado precisamente na altura da privatização da RTP, que pode acabar de vez com esta forma de fazer televisão. Na altura da sua morte, apetece-me por isso recordar uma frase que, como ele, ficou na memória da nossa televisão: As árvores morrem de pé!

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Isto é serviço público

por Pedro Correia, em 18.07.12

 

Nelson Mandela - Os caminhos da liberdade: excelente reportagem de uma equipa da RTP encabeçada pelo jornalista António Mateus. No dia em que Nelson Mandela - um dos maiores ícones universais do nosso tempo - festeja 94 anos vale a pena recordar a evolução da África do Sul desde os dias de chumbo do regime racista de P. W. Botha até à actualidade.

António Mateus - que conhece bem a África do Sul, onde foi correspondente durante largos anos - recolhe os testemunhos de dois obreiros desta admirável transformação do mais próspero país do continente africano, anteriormente banido da comunidade internacional, num exemplo de multirracialismo, democracia e liberdade: Desmond Tutu e Frederik de Klerk. Ambos galardoados com o Nobel da Paz - o primeiro em 1984, pelo seu corajoso combate aos esbirros do apartheid, o segundo dez anos depois (em parceria com Mandela) por ter liderado enquanto chefe do Estado o processo de transição, que atingiu um dos seus momentos culminantes na hora da libertação do histórico líder do Congresso Nacional Africano, em Fevereiro de 1990, acompanhada com emoção em todo o mundo.

De Klerk, num depoimento emocionado, diz uma frase carregada de sabedoria: «Não devemos deixar que o futuro seja minado pelas amarguras do passado.»

Os cínicos de serviço, que lançaram os maiores anátemas à Primavera árabe iniciada em 2011 - e já traduzida em eleições na Tunísia, no Egipto e na Líbia - deviam ver com atenção esta reportagem.

Fazia-lhes bem.

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Pontos nos is (17)

por João Carvalho, em 16.07.12

DÉJÀ VU

Nada me incomodam os grupos de pressão que pretendem defender interesses comuns, por muito discutíveis que esses interesses possam ser. Porém, incomodam-me os lobbies escondidos ou disfarçados que tantas vezes se movem neste país pequeno em tantos jogos de sombras.

I

Cheiro à légua o jogo de bastidores que anda a desenrolar-se no caso da licenciatura de Miguel Relvas. Na verdade, estou farto de ouvir defender que o ministro devia afastar-se para não criar maior desconforto ao Governo, mas ainda não consegui descortinar qualquer ilícito que ele pudesse ter cometido. A licenciatura levanta muitas dúvidas? Pois é capaz de levantar, mas ainda não ouvi dizer que a Universidade Lusófona é que pode ter-se colocado numa situação desconfortável.

 

 

Não se tratando de uma auto-licenciatura, que seria impossível, e estando o curso assegurado e confirmado pela universidade visada, cada vez que olho para o ministro ganha relevo esta impressão de déjà vu.

II

Onde é que eu já vi isto? Já sei: na primeira linha estão os mesmos jornais do caso recente que envolveu o Público e, portanto, estão representados os mesmíssimos grupos de comunicação interessados em travar um processo que os deixa em pânico e que está a ser conduzido por Miguel Relvas: a privatização da RTP.

Tal como escrevi no princípio, não me incomoda que haja quem se oponha à privatização da RTP, embora me incomode muito andar a pagar há tanto tempo a má gestão sucessiva do sorvedouro escandaloso que ela tem sido. Oponham-se, os que pensarem de outro modo, mas organizem-se e façam-no às claras.

Quando eu vir que o lobby não se esconde e que combate de forma visível com armas lícitas, então talvez eu encontre paciência bastante para tentar concluir se o ministro deve ceder o lugar, se a universidade é que não honra o lugar que ocupa ou qualquer outra coisa.

Até lá, mantenho que já vi isto e que isto não me parece sério. Mais: palpita-me que outros episódios hão-de seguir-se. Sempre obscuros, como é próprio dos medrosos.

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A última fronteira do desconhecido

por Rui Rocha, em 10.07.12

De acordo com o próprio site do programa, o Prós e Contras de ontem reuniu cientistas, homens de Deus (Deus parece continuar a dar-se mal com as mulheres) e filósofos para debater o Bosão de Higgs e como este interfere na nossa vida... na nossa consciência... e mais que tudo (sic, digo, RTP), na EXISTÊNCIA DE DEUS. Depois do programa de ontem, admito que nada possa ser como dantes. Todavia, o mistério mais denso permanece. Nenhum dos presentes seria capaz de apresentar uma explicação plausível para a existência do próprio Prós e Contras.

 

* os parêntesis são meus; as reticências, a eventual falta de vírgulas e a utilização de maiúsculas são da exclusiva responsabilidade da RTP e duvido que esta possa alegar, com legitimidade, motivos alheios à sua vontade.

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O diabo está nos pormenores

por Pedro Correia, em 02.05.12

RTP Informação, canal público. Prestando o mesmo serviço público que a SIC Notícias - canal privado - ao transmitir em directo, com tradução simultânea, o debate François Hollande-Nicolas Sarkozy que poderá ser decisivo nesta recta final da campanha presidencial francesa. Acompanho com natural interesse este longo frente-a-frente, apreciando o trabalho dos tradutores da RTP, atentos às réplicas mordazes dos candidatos. Mas no melhor pano cai a nódoa. Em rodapé no ecrã algum iluminado lembra-se de inserir a seguinte legenda: "Se Hollande vencer será a primeira vez que um presidente em exercício não renova o mandato."

Legenda mentirosa: em 1981, o presidente Valéry Giscard d' Estaing foi derrotado na corrida presidencial pelo candidato François Mitterrand. Prestar informação errada aos telespectadores, por negligência ou falta de cultura política, desvirtua - no espírito e na letra - o serviço público.

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Direito à multiplicação de cachecóis

por Pedro Correia, em 05.04.12

O João Gobern tem todo o direito de se assumir como adepto benfiquista. E, sendo convidado para fazer comentário futebolístico na RTP precisamente como analista de cachecol, tem naturalmente também o direito - e neste caso quase o dever - de assumir a sua condição de benfiquista. Nada a objectar quanto a isto. Sendo assim, quem poderá espantar-se que vibre em directo com a marcação de um golo da sua agremiação ao minuto 92 de um jogo contra um clube que ameaça disputar-lhe o título? Fará sentido compará-lo ao ex-ministro Manuel Pinho que foi afastado do Governo socialista por ter feito um feio gesto a um deputado da oposição na respeitável sede da democracia que é a Assembleia da República?

Quanto a mim, o caso pode e deve servir de pretexto para a indignação sportinguista mas sem ter Gobern como alvo. Quem merece críticas é a RTP, que inclui há quatro anos na grelha regular do seu espaço informativo um programa de comentário futebolístico, intitulado Zona Mista, que apenas permite um adepto de cachecol. O do Benfica. À revelia das suas obrigações de serviço público que lhe impõem normas acrescidas de isenção, pluralismo e equidade. Como se uns cachecóis fossem mais iguais que outros...

A questão é só esta. E é quanto basta para merecer debate. E suscitar legítima indignação.

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O enviado-acompanhante

por João Carvalho, em 19.03.12

RTP1, Telejornal. No alinhamento, José Rodrigues dos Santos chega à notícia da tragédia numa escola judaica em Toulouse e anuncia o enviado especial ao local, Paulo Dentinho. Seguem-se as imagens genéricas já transmitidas a outras horas e em outros canais, até que aparece o enviado especial. A uma pergunta de José Rodrigues dos Santos, Paulo Dentinho responde dizendo o que a France Press emitiu. Ou seja: responde aquilo que em Portugal e no mundo inteiro todos sabem, que é pouco ou nada se saber sobre o criminoso. Mesmo assim, quando Paulo Dentinho desaparece logo a seguir, José Rodrigues dos Santos olha para nós e não se contém: «Paulo Dentinho a acompanhar o rescaldo do caso.» Afinal, o que justificaria um enviado especial a Toulouse? Fiquei esclarecido: foi acompanhar o rescaldo. O que significa vá lá saber-se o quê, não é?

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Por que será?

por João Carvalho, em 04.03.12

Dou por mim a ouvir distraidamente o jornalista Manuel Queirós na RTP-1. O Manuel Queirós é a Felisbela Lopes dos domingos, por isso não é justo ouvi-lo distraidamente, pois não? Mas a dúvida fica: por que será que a RTP acha que a gente não entende o que vem nos jornais aos sábados e aos domingos? Mais: por que será que os jornalistas da RTP precisam das ajudas externas e não são capazes de nos transmitir com lucidez e clareza as notícias?

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O teatro e o desacordo ortográfico

por João Carvalho, em 21.01.12

Não preciso de ser detetive nem ténico para contatar com os novos textos dos espetáculos teatrais e perceber que estamos no fim exato da interação entre atores e espetadores. Para os atuais diretores de teatro, ratores dos velhos princípios, as regras passaram a ser exceções e a antiga exceção é a regra atual. Confesso que não sou um adeto disto nem vou adotar este sistema de fraco impato.

· • o • ·

Felizmente, nesta casa, continuamos a dar lições diárias de bom português. Por sinal, ao contrário do que faz o serviço público da RTP todas as manhãs, dessa RTP paga por nós para se dar ao luxo de conseguir achar tantas vezes, entre uma chusma de disparates de bradar aos céus, dois modos diferentes de dizer a mesma coisa e considerar pacífica e alegremente que ambos são "bom português".

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A remar para o mesmo lado, com a Fátima.

por Luís M. Jorge, em 16.01.12

Ainda se lembram do "trabalho notável"? O escândalo, o opróbrio, as profundezas da miséria socialista? Parece que chegou a continuação

 

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Pontos nos is (3)

por João Carvalho, em 22.11.11

CHOURIÇOS

Estou farto de ouvir dizer cobras-e-lagartos de João Duque e do relatório da comissão que liderou sobre o futuro da RTP. Dizem os opinadores correntes que ele nada sabe de televisão, que as conclusões constituem uma aberração e que o serviço público televisivo deve ser garantido pelo Estado. Ora, como eu também sou parte do Estado, nada mais razoável do que pedir licença para apontar o que penso sobre o assunto. Divido o apontamento nos mesmos três pontos que tanto andam a excitar os comentadores do costume: o que João Duque e a comissão ad hoc sabem de televisão, as consequências do relatório e o papel da RTP.

 

Primeiro, manifesto já o meu enorme espanto por haver tanta gente a achincalhar João Duque. Como é que um tão grande número de iluminados pode acusá-lo de nada saber de televisão, é para mim um mistério. Pois se há tantos a saber tanto sobre televisão ao ponto de tentarem desmontar todo o trabalho realizado, se até é uma característica bem portuguesa todos nós termos uma opinião a emitir sobre tudo, faz algum sentido deixar de fora João Duque? Não faz. Só por preconceito, o que retira imediatamente qualquer valor aos que andam a perorar.

Depois, há que reconhecer um aspecto que ainda não vi focado: ao contrário dos hábitos que nos são mais familiares, a comissão foi célere. Não andou a perder tempo ou a enrolar uma meada sem fim. Foi nomeada, trabalhou como lhe competia, registou o que entendeu e despediu-se. Num ápice, honra lhe seja feita. Concluiu bem ou mal? Na verdade, para se ser justo é preciso que se diga que nem concluiu de facto, porque a última palavra pertence ao poder político. O que a comissão (que integrou nomes reconhecidamente sabedores de televisão, sublinhe-se) fez foi analisar a realidade e acordar numa saída para uma situação claramente insustentável. Cabe ao poder político aceitar ou recusar o trabalho e decidir com a legitimidade obtida recentemente em eleições.

Em terceiro lugar, o serviço público que se esperaria da RTP (usando o exemplo inevitável do canal principal em sinal aberto) está muito, muito longe dos mínimos desejáveis. Ora porque se cola à programação das televisões privadas com o olho nas audiências, ora porque não se cola e não sabe o que há-de fazer além de encher chouriços — chouriços que ficam pela hora da morte, mais caros que as morcelas gourmet da mesa do rei — o certo é que andamos todos a pagar ordenados principescos que seriam obscenos mesmo que fossem entregues aos melhores profissionais do mundo. Convém lembrar ainda que o número de pessoas da RTP, incluindo os que ganham sem trabalhar nem encher chouriços, corre o risco de ultrapassar o dos funcionários da Administração pública.

 

Para terminar, já que nenhum daqueles opinadores habituais o referiu, deixem-me que lembre que o presidente da RTP foi recentemente à Assembleia da República explicar perante os deputados de uma comissão os seus pontos de vista. Disse ele, em resumo, que a RTP é quase fantástica, mas que até consegue fazer melhores enchidos com menos gorduras. Fazer mais com menos? É isso? E ninguem lhe pergunta porque é que não fez? Palpita-me que João Duque seria incapaz de reconhecer que andava a fazer menos com mais. Seguramente, por não ter o perfil dos que sabem imenso de chouriços e de televisão. Ainda bem.

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