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Fazedor de chuva

por jpt, em 01.11.17

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O cardeal de Lisboa, Manuel Clemente, anunciou que quer fazer chuva. Associo-me ao seu benéfico esforço partilhando imagem de um dos seus colegas, sito entre os Kxatla (na África do Sul), aqui rodeado dos seus paroquianos enquanto promovia chuvadas, cerca dos anos 1920s (eu suponho que a fotografia é do grande Isaac Schapera mas não consigo comprovar isso).

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Santa Páscoa!

por Teresa Ribeiro, em 15.04.17

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Dedico este post aos católicos que são assim, como a criatura de Deus que aparece na foto, quando vêm à discussão assuntos polémicos sobre a sua Igreja e que rilham os dentes quando lhes falam do seu Papa Francisco,"esse 'comuna' que só veio desestabilizar".

Em tempo de Páscoa, por favor meditem nas palavras do padre Anselmo Borges, que transcrevo a partir da entrevista que deu ao Expresso, para esta última edição, e cuja leitura integral recomendo:

"É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima"; "A Igreja é misógina"; "A Igreja não pode impor como lei aquilo que Jesus entregou à liberdade. É preciso acabar com as vidas duplas" (a propósito do celibato obrigatório dos padres); "A hierarquia vive na ostentação e não se bate pelos direitos humanos"; "Este Papa é um cristão no sentido mais radical, não é apenas baptizado, ele segue Jesus". 

São críticas velhas, mas quando vêm de um homem da ICAR com a sua envergadura intelectual, têm outro valor.

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Todas as horas de um homem

por Pedro Correia, em 14.04.17

«Morrer por uma religião é mais simples do que vivê-la com plenitude; lutar em Éfeso contra as feras é menos duro (milhares de mártires obscuros o fizeram) que ser Paulo, servo de Jesus Cristo; um acto é menos que todas as horas de um homem.»

Jorge Luis Borges, O Aleph

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Uma Mesquita em Lisboa

por João André, em 31.05.16

Não acompanhei o assunto no início e cheguei a ele pelo post do Luís. Depois vi uma partilha do texto de João Miguel Tavares (um comentador de quem não gosto por diversas razões - que pouco têm a ver com as suas opiniões) no Facebook.

 

Deixo apenas o texto que um amigo, o Paulo Granja, colocou na sua página do Facebook e que me pareceu bastante melhor - independentemente das opiniões - que o de JMT.

 

JMT não sabe do que fala

Antes de mais, a intervenção urbana que tem sido reduzida à construção de uma mesquita insere-se numa operação de maior dimensão de requalificação urbana “entre o Martim Moniz e o Intendente, com o nome Praça-Mouraria”, e prevê a criação de um jardim, uma sala polivalente, de uma praça coberta e de uma ligação entre a Rua da Palma e a Rua do Benformoso, para além da referida mesquita (creio que também se prevê a requalificação/integração do Arquivo fotográfico municipal, já existente num edifício contíguo, mas não me recordo agora se o Arquivo será ou não formalmente integrado no projeto), sendo que o interior da mesquita ficará a cargo da comunidade muçulmana (creio que mais precisamente a cargo do Centro Islâmico do Bengladesh). A construção da mesquita neste bairro, e neste local em particular, justifica-se pela forte comunidade muçulmana do Bangladesh aí existente. De facto, já existiram 3 mesquitas em edifícios próximos, estando a última, frequentada por cerca de 600 pessoas, localizada num edifício para habitação, se não estou em erro, no Beco de S. Marçal, compreensivelmente com grande incomodo para moradores e para a vizinhança.

Segundo, o projeto de intervenção insere-se no Plano de Urbanização do Núcleo Histórico da Mouraria (o único ponto em que admito que JMT possa ter alguma razão é na aparente contradição entre a exigência feita ao proprietário/PUNH e a intervenção projetada, mas a legislação prevê que os poderes possam estabelecer exceções às regras e planos que os próprios fizeram aprovar, em nome do interesse público – como creio que foi feito com o PDM para a construção do novo Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia -, mas se isso é bom ou mau é já outra discussão), e está a ser pensado desde 2009, altura em que mereceu apoios do FEDER/QREN. O projeto final de arquitetura foi apresentado a discussão pública e votado favoravelmente por todas as forças partidárias com representação na Assembleia Municipal de Lisboa em 2012.

Em terceiro lugar, sim, a CML também patrocina igrejas, sinagogas e templos de Shiva (se o deveria fazer ou não é outra questão…). Que me lembre, a CML já apoiou o Centro Ismaili, O Centro Hindu, O Museu Judaico e a (re)construção de várias igrejas católicas – estou a lembrar-me da Nova Catedral de Lisboa, a construir perto da Parque Expo. Nalguns casos (Museu Judaico e Igreja Católica), os apoios financeiros chegam também aos vários milhões de euros, já para não falar nas operações urbanísticas envolvidas (creio que no caso do Museu Judaico está prevista a intervenção/requalificação de vários edifícios no centro histórico de Alfama, mesmo ao lado da Igreja de S. Miguel).

Resumindo, não se trata apenas de pagar uma mesquita.
Não houve falta de discussão pública, nem atropelos à legislação e regulamentos camarários – se houve, serão dirimidos em local próprio, os tribunais.
Não foi uma proposta socialista ou sequer de esquerda feita a revelia dos partidos de direita, a direita também votou favoravelmente o projeto.
E sim, a CML, e não o Partido Socialista, apoia financeira e logisticamente, várias outras confissões religiosas.

JMT pode contentar-se em comentar artigos publicados no jornal onde escreve sem se dar ao trabalho de se informar. Isso também eu posso fazer, a diferença é que não sou jornalista e não me pagam para isso.

 

Leitura complementar: A mesquita da Mouraria, o Google e o Facebook.

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Vá, não custa nada:

por Fernando Sousa, em 24.05.16

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 Estão abertas as inscrições para o próximo ano lectivo. A Celestina passou por lá.

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O Papa que ri

por Teresa Ribeiro, em 28.02.16

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O ódio contra o Papa Franciso grassa. Não me espanta. Entrou no seu pontificado como um elefante em loja de santinhos e partiu a loiça toda. Falou dos casos de pedofilia, da corrupção no Vaticano e dos seus crimes económicos, dos católicos divorciados, dos católicos gays... Demasiados issues. Uma poeira que não assenta. Quem é ele para expor assim as fragilidades de uma instituição que se quer sólida e vista como a referência moral e espiritual do ocidente?

Não me surpreende o ódio da hierarquia e de todos os que beneficiam directamente do statu quo, o que me encanita é a reacção das "bases". Dos católicos que desconfiam do seu chefe supremo porque prescindiu da gravitas da função e prefere chegar às pessoas, porque não assobia para o lado e, ao contrário, faz mea culpa, em nome da Igreja, por todos os podres que se lhe reconhecem. Porque denuncia, ao estilo de Cristo, tudo o que no mundo deve ser, aos olhos de um verdadeiro cristão, abominável. Finalmente porque usa e abusa da palavra de Deus para confrontar as suas ovelhas com contradições e hipocrisias quotidianas. Mas não é essa a função de um líder espiritual?

Esta parte, a das consciências, é a que mais mói.  É este ódio que nasce da incomodidade que anda, não duvido, a envenenar parte da comunidade católica. Há dias li no El Mundo, assinada por Fernando Sánchez Dragó, uma crónica intitulada  "Incapacitación" que põe à discussão a necessidade imperiosa de desencadear o impeachment de Francisco: "Es necesario meter en cintura al hereje Francisco si se niega a cambiar el rumbo de su pontificado o a dimitir", escreve este romancista, ensaísta e crítico literário, conhecido pelo seu conservadorismo social e ultra-liberalismo económico. Aqui está um bom discurso de ódio. Das primeiras acusações veladas que começaram a circular no início do pontificado às críticas mais inflamadas foi um passo. Mas agora já entrámos noutro domínio, o dos apelos à rebelião.

Enquanto Dragó traçava estas linhas, o Papa dava um passo que por si só seria suficiente para inscrever o nome de Francisco como um dos mais notáveis na história da ICAR. Em Cuba reunia-se com o chefe da Igreja Ortodoxa, algo que não se via desde 1054.

Nada que esmoreça os que o odeiam de coração. Pelo contrário. Para estes, quanto melhor ele estiver, pior.

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Natal com o Menino Jesus

por José António Abreu, em 24.12.15

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A fé na qual me educaram foi-se esvaindo na racionalidade (na minha racionalidade) e na indiferença (não acredito mas, acima de tudo, não penso no assunto). Ainda assim, incomoda-me o carácter cada vez mais laico do Natal. Incomodam-me os esforços que se fazem para extrair dele a religião, alegando respeitos para com quem não deveria ter motivos para se sentir desrespeitado: a matriz de um país - feita também da religião que, mal e bem, o foi construindo - não deveria agredir quando celebrada, apenas quando imposta. A substituição progressiva mas inexorável do Menino Jesus pelo Pai Natal (e eu acho piada à figura acolhedora e transbordante de bonomia do Pai Natal), o frenesi consumista, a repetição anual de reportagens televisivas ocas, os actos formais de prazer duvidoso (os presentes que se compram porque tem de ser, os sublimes jantares de empresa), as manifestações de cariz turístico-comercial que se tornam lugar de semi-indiferente peregrinação (quantas vilas-Natal há hoje em dia?), parecem-me tentativas desesperadas para encontrar um sentido para a quadra, fora daquele que ela possui há séculos. Tentativas inglórias, como seria de esperar: cada vez mais as pessoas julgam pueris os seus esforços e se sentem mais isoladas.

Expurgamos a religião do Natal, esquecendo (ou ignorando) que quase todas as nossas celebrações estão ligadas a ela: a Páscoa, os dias de Todos-os-Santos e de Finados, até esse momento de origem pagã, o Carnaval, último excesso antes da Quaresma. E, na verdade, é melhor quando assim ocorre. Os feriados religiosos têm uma densidade, um peso histórico, social, identitário, que nenhum dos restantes consegue atingir, ainda que pretendam celebrar o país (25 de Abril, 10 de Junho, 5 de Outubro, 1 de Dezembro) ou direitos conquistados (1 de Maio). Não é preciso celebrar a religião para aceitar que o Natal deve ser celebrado com ela. Basta saber aceitar a história e os valores que formam uma verdadeira comunidade: desde logo, a «inclusão» e a «tolerância» de que tanto se fala. Permitam-me pois que os votos de um ateu (creio) sejam de um Santo Natal para todos. 

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A fé em alegria

por Isabel Mouzinho, em 12.05.15

Acho que devia ter uns sete anos quando estive em Fátima. Terá sido a primeira e a única vez. Guardo dessa visita imagens um pouco difusas, mas na verdade nunca tive vontade de lá voltar. Porque é um lugar  que associo a uma vivência da fé que me diz pouco, que entendo mal, que me parece excessivamente sofredora, dolorosa, como uma imensa lamúria. É bonita, de certo modo, a "procissão das velas"; mas há naquele "Avé, Avé.." arrastado, qualquer coisa que me deprime. Que respeito, mas que não tem nada a ver comigo.

Na verdade é muito mais com a alegria espanhola que me identifico e tenho pela Virgen del Rocío uma devoção como a que muitos terão por Fátima. Maio é também, por isso, mês de Romaria para mim. Mas é num outro mundo, em que a fé se celebra em festa e na exultação da vida. Esta romaria andaluza, que reune numa aldeia da província de Huelva, nos limites do Parque Nacional de Doñana, milhares de" romeiros" vindos de toda Espanha e do mundo, acontece sempre no Pentecostes e até já calhou coincidir com o nosso 13 de Maio.

Foi há exactamente dois anos, que escrevi este texto. Ele explica brevemente do que se trata; e porque penso muito em tudo isto durante o mês de Maio, hoje tive vontade de o trazer até aqui.

 

O Rocío colado ao coração

 

 

Esta é a semana do Rocío, a que antecede o fim de semana da Romería, que se celebra sempre  no Pentecostes. Por esta altura, as mais de cem hermandades preparam-se para fazer o caminho até à  Aldea del Rocío, a pé, a cavalo, em carroça, levando consigo o sinpecado (insígnia com a figura da Virgem do Rocío)  e a carreta que o transporta, os vestidos de flamenca, chapéus e flores nos cabelos, medalhas de romeiro ao peito e o coração cheio de alegria e de fé, na ilusão de viver uma vez mais um reencontro de amigos e de "irmãos", que se juntam, cada ano, naquela enorme festa, que parece sempre igual mas nunca  é a mesma, para rezar à Blanca Paloma e celebrar a vida.

 

 

 

 

 

 

Durante todo o fim de semana e até segunda-feira, quando acaba a Romería, o Rocío é uma aldeia que não dorme, em clima de festa permanente levada até ao limite do que o corpo aguenta, as casas de portas abertas, misturando o canto e a dança, a guitarra, a flauta e o tamboril com o trote dos cavalos e o chiar das carroças em incessante vai e vem pelas ruas de areia.

No Sábado, o dia é marcado pelas apresentações à Virgem, um desfile de hermandades que dura todo o dia e se vive em alegria, entre vivas e olés, palmas a compas de sevillanas, chapéus lançados ao ar, foguetes e lágrimas incontidas.

Mas é na madrugada de Domingo que toda a  aldeia converge para junto da ermita, para assistir ao momento mais alto e comovente da Romería:  a saída da Virgem, num silêncio imenso, quebrado pelas  palmas da multidão emocionada, unida pela força desabrida da fé, no momento tão ansiado em que se avista a imagem dourada surgir na noite,  sob o céu estrelado. E, até  ao amanhecer, a Virgem percorre a aldeia,  a visitar as hermandades, regressando de novo ao seu altar, na ermita branca, quando o sol já vai alto. 

 

 

 

E, no entanto, o Rocío é muito mais do que tudo isto. Porque para lá da realidade dos factos está, principalmente, o que não pode contar-se. Como se explica o Rocío a quem nunca o viveu? Como exprimir em palavras, o que é só sentimento e emoções à flor da pele?

Como transmitir a frescura do rebujito com sabor a hortelã? A comoção de ver chegar as hermandades com o cheiro dos pinheiros e o pó do caminho ainda agarrados à pele, o corpo cansado e os olhos brilhantes por chegar enfim à aldeia? Como revelar o som enlouquecido e cadenciado dos sinos,  tocando sem cessar? Ou  a calma tranquilidade do entardecer quieto e silencioso da marisma, a contrastar com o bulício da festa? Que palavras poderão dizer a sensação do recolhimento no meio da multidão, em silêncio diante da Virgem, sentindo a força da sua protecção, experiência única  de reencontro com o mais fundo de nós? Ou a magia dos instantes em que a festa se interrompe, às duas da manhã, e as luzes se apagam para entoar a Salve,  num coro arrebatado em que todas as vozes se unem e soam como um só clamor:  olé olé olé olé olé al Rocío yo quiero volver pa cantarle a la virgen con fe, con un olé, olé olé olé olé... 

Só quem já viveu o Rocío, nem que seja uma vez, pode entender aquilo de que falo. Há naquele lugar, na verdade,  um encanto especial que  se nos cola à vida e se guarda no coração. Porque há lugares assim, que se tornam nossos para sempre.

        

 

Depois de 2000, quando tive o privilégio de estar na Romería pela primeira vez, já voltei mais sete vezes. E em cada ano que não vou, como este, é como se alguma coisa se quebrasse no mais fundo da minha alma, o que faz com que, à medida que a data vai ficando mais próxima, alastre no peito o sentimento doloroso de não estar onde devia.

E quer vá, quer não, quando chega o mês de Maio penso muito na Romería, momento fundamental do meu ano, com aquela dimensão espiritual que nos aproxima da nossa essência, como têm a Páscoa, ou o Natal, por exemplo.

Só os que, como eu, trazem este lugar consigo, marcado no peito e na pele para sempre, mais forte e mais fundo que  uma tatuagem, conseguem entender a nostalgia que me enche o coração, o pensamento a fugir para muito longe daqui, a querer levar-me para o Rocío nestes dias, detendo-se naquela aldeia tão extraordinária, onde nos evadimos e abstraímos do resto do mundo, tão diferente de tudo que chega a parecer irreal, como uma utopia onde o sonho e realidade se misturam e a vida se reinventa e ganha maior sentido.

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A Oxford University Press, uma das maiores editoras do mundo, começou a avisar os autores de livros escolares para banirem a palavra “porco” ou qualquer referência ao animal. O objetivo é não ofender judeus e muçulmanos, já que para ambas as religiões o porco é considerado um animal impuro.

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E tão poderoso não será

por Rui Rocha, em 10.01.15

Se precisa que outros matem por Ele.

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Religião é incomodidade

por Teresa Ribeiro, em 04.01.15

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Sendo cristã, mas tendo feito a minha formação religiosa numa igreja evangélica baptista, sempre tive uma relação distante com o catolicismo, tanto quanto se pode ter quando se nasce e vive num país católico. Até hoje nunca nenhum Papa me conquistou ao ponto de me reconhecer nele sem reservas. A Francisco, que mais uma vez foi eleito em diversos meios da comunicação social uma das Figuras do Ano, vejo como um cristão, muito mais do que como o chefe da ICAR. Um cristão como eu imagino que seriam os pioneiros, destemido e apostado em erguer a bandeira do cristianismo muito acima da igreja, pois que esta é apenas - não podemos esquecer - obra dos homens.

Muitos católicos, ciosos do que consideram ser as marcas da sua identidade, não estão a aceitar a forma desassombrada com que o seu líder supremo coloca à discussão dos fiéis temas fracturantes e interpela a hierarquia, convidando-a a saltar do andor para chegar mais perto dos homens. Esta frontalidade bem como a humildade que Francisco coloca em cada um dos seus gestos, mostra-lhes um homem mais próximo do pescador de almas que a Bíblia reclama do que da figura do "santo padre" que a ICAR há muito entronizou. É este back to basics que está a encantar alguns cristãos - católicos e não católicos - e a confundir os que vêem na religião um baluarte inexpugnável, garante de uma moral e sobretudo de uma estética que precisam de preservar para seu próprio conforto de espírito. 

Estes acérrimos defensores da tradição esquecem-se que todas as Igrejas, sem excepção, abusam do nome de Deus e que as diferenças entre as várias confissões religiosas de inspiração cristã se alguma coisa provam é que a verdade universal não é exclusivo de nenhuma. Desta evidência devia retirar-se a primeira lição de humildade, que é algo que tem faltado a toda esta gente que torce o nariz à discussão e reclama para si o morno sono dos justos.   

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O cinema a despir a religião

por João André, em 03.11.14

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Uma tendência recente em Hollywood é a de voltar a temas religiosos e míticos, umas vezes criando novos objectos, outras simplesmente refazendo-os. Infelizmente, uma tendência crescente destes filmes é tentar uma desconstrução do tema, por exemplo despindo-o dos elementos que o tornam míticos (Tróia sem deuses é um exemplo) ou acrescentando outros elementos desconhecidos de forma a humanizar as personagens (o Noé do filme é consideravelmente diferente do da Bíblia).

 

Obviamente que não argumento existir uma única forma de abordar um tema - qualquer tema. Tão pouco ignoro que a escolha de determinadas histórias é propositada para poder fazer o exercício de reflexão sem ter de criar um cenário inicial. Em Noé, o estudo sobre o tipo de pessoa que a personagem bíblica seria, de um ponto de vista humano, é simplificado por não ter de se explicar em demasiado qual o contexto da história. Estamos à partida parcialmente familiarizados com Noé e o Dilúvio, pelo que não se torna necessário explicar muito. Já se o objecto deste estudo de Aronofsky tivesse sido Abraão (na minha opinião, mais adequado às conclusões finais), a sua história teria de ser explicada em detalhe, uma vez que seria menos conhecida de quem não esteja familiarizado com a Bíblia.

 

Seja como for, penso que despir um filme dos elementos mais básicos da sua história o torna menos forte no tema que aborda. Um dos principais aspectos dos filmes baseados em religiões é o imaginário que evocam. Visualmente estes filmes deveriam ser imediatamente impressionantes. Não é por acaso que Lawrence da Arábia, não sendo um filme religioso, evoca esse imaginário retratando T.E. Lawrence como uma figura semi-mitológica. Também não é por acaso que autores ateus como Pasolini, o próprio Aronofsky, Buñuel, Rossellini ou John Huston sempre estiveram fascinados pelo imaginário - e visual - religioso. É também por isso que filmes fiéis a esse imaginário continuam a ser hoje em dia fascinantes, mesmo para ateus como eu. E é por isso que quando os filmes tentam humanizar ou contextualizar as acções divinas com explicações seculares, o cinema só tem a perder.

 

Abordo este tema por duas razões: primeiro porque, segundo leio, Ridley Scott pretende, no seu novo filme Exodus (nova variação sobre a história de Moisés baseado no mesmo livro da Bíblia) criar explicações cientificamente mais aceitáveis para os milagres (segundo parece, um terramoto explicaria a passagem do Mar Vermelho). Por outro lado vamos vendo hoje uma muito pobre exploração da imagética religiosa usando e abusando das CGIs, sendo um exemplo o filme de Aronofsky ou Imortais, de Tarsem Singh. Estes dois filmes, sendo visualmente muito interessantes (especialmente o segundo), são também preguiçosos, deixando de lado a fotografia para usarem a solução mais básica do digital. Veja-se a diferença de imagens entre o filme de Aronofsky e o de Huston (em A Bíblia, a encimar o post). o segundo retrata a arca contra o sol, mostrando claramente a chegada dos animais em pares e de forma ordeira, como Deus ordenaria. No segundo, temos uma arca estranha, num panorama preguiçoso e com os animais a chegar em debandada, como que a mostrar a qualidade da reconstrução digital.

 

Hollywood pode estar de facto a tentar aproveitar o filão aberto por Ridley Scott com a sua recriação dos filmes de espadas e sandálias (Gladiador), os quais serão uma tentativa de explorar o desejo de temas simples e transcendentais, longe do frenesim da modernidade e secularidade (as razões deste ressurgimento darão certamente muitas teses de doutoramento). No entanto, do ponto de vista artístico, penso que estes filmes só terão a perder na comparação com os clássicos do passado. Aquilo que ficou perfeito não deve ser recriado. As cópias saem sempre a perder.

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Religião, realidade e felicidade

por João André, em 31.07.14

Nos últimos tempos um estudo que indica que as crianças religiosas são menos capazes de distinguir fantasia e realidade tem feito umas piscinas no Facebook. Todos os dias algum dos meus contactos o indica, seja para o apresentar, defender ou denegrir. Não tendo possibilidade de ler o estudo científico original, decidi dar uma espreitadela a artigos que o citam e acabei a ler outros artigos que referem mais uns estudos dentro da mesma área.

 

Antes de mais o óbvio: o estudo que toda a gente refere foi feito com 66 crianças e, pormenor importante, não estabelece uma clara distinção em relação às histórias fantásticas (que no exemplo usam um nome muito facilmente identificável como bíblico). As crianças seculares terão maior tendência para identificar a história fantástica como não real, mas de acordo com as notícias não existe uma divisão absoluta neste aspecto entre elas e as crianças religiosas. Num outro estudo referido aqui, o mesmo tipo de teste mas algo diferente foi também administrado a crianças. A diferença é que no segundo estudo foram usados episódios bíblicos ou, segundo o artigo, com inspiração em episódios bíblicos.

 

Os estudos são portanto limitados na extensão e poderão não ser os ideais em termos de metodologia. Haveria também que contabilizar a localização: se os estudos forem feitos em regiões de maior fervor religioso, é óbvio que a influência da religião será superior, em ambos os grupos de crianças (as crianças seculares receberiam uma educação mais reactiva à influência do meio religioso circundante).

 

Outro aspecto a considerar seria então a influência da religião ao educar crianças para serem adultos na sua sociedade. Nesse aspecto parece, segundo outro estudo, que as crianças religiosas têm uma melhor saúde mental, são mais equilibradas e felizes. Como qualquer bom cientista, o autor aponta para o facto de a causalidade não estar provada, sendo que poderá estar aqui envolvida uma questão do tipo ovo ou galinha. Por outro lado, outros estudos indicam que a religião não é necessariamente um factor importante para o desenvolvimento mental da criança. Muita da sua importância estará relacionada, mais uma vez, com o meio ambiente: num meio religioso, a religião serve como factor identificativo e de integração para a criança e - igualmente importante - a sua família. Em meios seculares, seriam crianças seculares a integrarem-se melhor.

 

Por fim há a questão da idade a considerar: estas diferenças acentuam-se durante o tsunami emocional/hormonal da adolescência mas reduzem-se na idade adulta. Isto demonstra que, no final de contas, a religião não é assim tão decisiva (positiva ou negativamente) na formação das crianças e adultos quanto muitas pessoas poderão pensar. Influencia obviamente a felicidade em função da sociedade em que o indivíduo está inserido, mas também escolhas políticas, desportivas ou amorosas o poderão fazer. Para quem é intrínsecamente religioso, a religião oferece conforto e uma sensação de pertença a algo de superior, de transcendente. Para quem é, como eu, intrínsecamente ateu, essa falta de crença oferece um outro tipo de conforto, mais intelectual e que ajuda a admirar as maravilhas pelo lado dos factos.

 

No fim de contas, o essencial será a sociedade em que cada indivíduo está inserido. Enquanto ateu, cresci num país essencialmente católico. A minha bússola moral demonstra-o claramente quando me comparo com protestantes. O mesmo se pode dizer para um amigo, ateu que cresceu num país muçulmano e outro, judeu, que cresceu num país católico. Isto deveria ser óbvio para qualquer pessoa sem ter necessidade de contar argumentos científicos (a ironia...) como espingardas.

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Os conselhos do Conselho

por Rui Herbon, em 09.04.14

 

 

Tenho a honra, ou não, de apresentar-lhes o Conselho de Ideologia Islâmica, cuja missão terrena é, segundo a sua página, a de avisar o governo paquistanês sobre as leis que são repugnantes para o islão. Como o Conselho é um organismo semi-oficial, as suas decisões não são irrelevantes, nem inocentes. Por sorte, não são de cumprimento obrigatório, mas no frágil e complexo Paquistão é evidente que não são avisos menores. Não esqueçamos que esse país é considerado a mãe de todos os problemas ligados ao integrismo islamita. Portanto, se o órgão que os assessora na delicada relação entre as leis civis e a charia islâmica diz o que diz, a dimensão do problema dispara.

 

Façamos as apresentações deste interlocutor entre a palavra de Deus e a do governo paquistanês. Estas são as últimas lindezas consideradas anti-islâmicas: não aceita os testes de ADN como prova em casos de violação, porque deve manter-se o preceito islâmico de quatro testemunhas oculares masculinas. Quer dizer, se a mulher não for violada em público não há castigo. Também negou a penalização dos que fazem falsas acusações de blasfémia, que permanecem impunes. Se tivermos em conta a perseguição de cristãos e outras minorias sob essa acusação ou pretexto, e a morte de muitos deles, a questão tão-pouco é menor. E, para terminar o rol de exemplos, o Conselho também protestou contra a ideia de que o homem que queira casar-se com outra mulher – a poligamia é legal para os homens – deva pedir permissão às mulheres da casa.

 

Mas o que me leva a chamar à colação tão simpático organismo é a sua última bondade, a de considerar contrária ao islão qualquer legislação que proíba o nikah (casamento com meninas). Na sua extrema misericórdia, consideram que não se pode perpetrar o rukhsati (consumação sexual) se ainda não têm o período, mas sabe-se perfeitamente que nem esse subtil princípio se cumpre. A má notícia, pois, é que estes conselhos da santa inquisição em versão muçulmana não estão proscritos à categoria de extremistas alucinados, senão que conformam o corpo legal de muitos países islâmicos. A boa notícia é que cada vez têm menos aceitação. Por exemplo, o parlamento de Sindh, uma das quatro províncias paquistanesas, pediu a dissolução do Conselho, secundado pela mobilização de dezenas de entidades ligadas aos direitos humanos. Se a mulher é, portanto, o centro da maldade nesta ideologia misógina e violenta, também é o centro das lutas dos muçulmanos que querem acabar com o poder do integrismo. Deviam tê-lo em consideração alguns que, no ocidente, no seu afã por defender a multiculturalidade, acabam por converter estes radicais nos interlocutores das comunidades islâmicas.

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Comungar ou não comungar, eis a questão

por Teresa Ribeiro, em 18.01.14

Digamos que do ponto de vista católico, D. Januário considera algumas das práticas deste governo "anticonstitucionais".

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Allah-o-Akbar!

por Fernando Sousa, em 30.10.13

O xeque Ali al Hemki, membro do Conselho dos Estudiosos da Arábia Saudita, emitiu uma fatwa, um decreto islâmico, proibindo as viagens a Marte, noticiou o jornal Ah Hayat, citado pela EFE - e o DN. Allah-o-Akbar! Quem comprou bilhetes, aconselho que os devolva. 

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A caminho do céu

por Rui Rocha, em 10.10.13

A deslocação da imagem de Nossa Senhora de Fátima a Roma é bem o exemplo da complementaridade necessária entre ciência e religião. A viagem de avião propriamente dita está, convenhamos, bem mais dependente do efeito de Bernoulli do que de manifestações do Divino. Todavia, tratando-se de um voo da TAP, só mesmo a intervenção do Altíssimo poderá evitar que a estátua chegue significativamente atrasada.

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Violação do espaço aéreo

por José António Abreu, em 15.08.13

É claro que hoje em dia a assunção de Nossa Senhora seria imediatamente travada por um míssil Patriot.

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Blogue da semana

por Fernando Sousa, em 29.07.13

O tema religião continua  limitado entre nós a uns quantos colunistas, por exemplo Frei Bento Domingues, no Público, aos domingos, Fernando Calado Rodrigues, no Correio da Manhã, às sextas, e Anselmo Borges e Tolentino Mendonça, respectivamente no Diário de Notícias e Expresso, aos sábados. Não é ainda parte da nossa cultura, tradicionalmente laica e republicana. Nem - infelizmente - uma especialidade jornalística a cultivar. Por isso escolhi como blogue da semana o Religionline, um trabalho colectivo de Manuel Pinto, professor da Universidade do Minho, do jornalista António Marujo, ex-Público, com anos de experiência acumulada, e de Joaquim Franco. Contra o que possa parecer não é um blogue proselitista, é um espaço voltado para o “sentido da vida, a dimensão religiosa e a cultura”, com “notas, notícias, procuras e interrogações”, abrangente, atento e crítico. 

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Imagem de Nossa Senhora de Fátima analisada ao detalhe.

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Hugo Chávez no conclave

por jpt, em 14.03.13


[Bonecos de Chávez são vendidos nesta terça-feira (12) nas ruas de Caracas (Foto: Ronaldo Schemidt/AFP)]

 

Para Nicolás Maduro, Presidente em exercício da Venezuela, o falecido Presidente Hugo Chávez terá tido alguma influência na eleição de um Papa argentino. “Nós sabemos que o nosso comandante subiu até às alturas, que está em frente de Cristo. Alguma coisa influenciou para que tenha sido escolhido um Papa sul-americano, alguma mão nova chegou a Cristo e lhe disse: chegou a hora da América do Sul. Assim nos parece”, disse Maduro em declarações transmitidas pela televisão oficial venezuelana. (nos jornais)

 

Em Portugal Boaventura Sousa Santos escreve um texto sobre Chavez de verdadeira ciência política, debruçando-se sobre a "química" chaveziana, base do seu poder, o socialismo de XXI. Culmina BSS com uma crítica aos políticos democratas (capitalistas) europeus, pois quando morrem não são chorados em sofrimento popular. Constate-se a mudança neste o teórico socialista: não só o sufrágio universal é insuficiente, as eleições não legitimam o poder, como também as "arruadas", antes tão convocadas, são insuficientes. Agora o critério de validade progressista, da legitimidade política, transitou para a dimensão dos rios de lágrimas apaixonadas (pre mortem e post mortem) que os políticos causam. O "condoímento" é o condimento desta teoria? 

 

Os bloguistas e leitores desta esquerda pós-iluminista (e defensora da teocracia iraniana - já agora, quantas lágrimas de pesar colherá Ahmadinejad?) "linkam" e "laicam". Os intelectuais apoiam. Os académicos apoiam. E, mais do que tudo, citam e referenciam. A imprensa remunera. O XXI português, o seu discurso político, resplandece. Deve ser da "química" do "carisma". 

 

Poderosa química, até alquímica. Pois, e como diz o lugar-tenente de Chavez, até Cristo, lá no sagrado Alto, lhe é sensível. Têm então os crentes, os praticantes e até os infiéis, um Papa Chaveziano.

 

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Como Thaxton e Pearcey demonstram no livro The Soul of Science [A alma da ciência], por mais de 300 anos, entre a ascensão da ciência moderna no século XVI até o final do século XIX, o relacionamento entre ciência e religião pode ser descrito como de aliança. Até o final do século XIX, os cientistas eram tipicamente cristãos que não viam nenhum conflito entre a ciência e a fé deles (casos de Kepler, Boyle, Maxwell, Faraday, Kelvin e outros).

Em 1896, o presidente da Universidade Cornell, Andrew Dickson White, publicou um livro com o título A History of the Warfare of Science with Theology in Christedom [História da batalha da ciência com a teologia na cristandade]. Por influência de White, a metáfora da “batalha” para descrever as relações entre a ciência e a fé cristã espalhou-se generalizadamente durante a primeira metade do século XX. Do ponto de vista cultural, a visão dominante no Ocidente — mesmo entre os cristãos — passou a ser que ciência e religião não estão aliadas na busca pela verdade, antes são adversárias.

Entretanto, na última parte do século XX inicia-se  um florescente diálogo entre ciência e religião nos Estados Unidos e na Europa. O notável físico britânico P. T. Landsberg, por exemplo, passou a explorar as implicações teológicas da teoria da ciência e afirmou: falar das implicações da ciência para a teologia numa reunião científica parece quebrar um tabu; mas os que pensam assim estão desatualizados: esse tabu foi removido ao longo dos últimos 15 anos e, ao falar sobre a interação entre ciência e teologia, estou, na verdade, a acompanhar a maré.


Já na segunda década do século XXI, surge o corolário desta nova abordagem. Jesus (quem mais poderia ser?) avança com a proposta radical da fusão entre as duas áreas, com a apresentação pública dos 5 mandamentos da ciência.


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Só isso justifica que tenha prescindido da vaca e do burro e que deixe ficar o Gaspar.

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EUA: a hora dos católicos

por Pedro Correia, em 05.09.12

 

Pela primeira vez na História bissecular dos Estados Unidos, não há nenhum protestante branco entre os candidatos à presidência e à vice-presidência, o que constitui um significativo sinal dos tempos. No campo republicano, o candidato à Casa Branca, Mitt Romney, professa a religião mórmone. O seu braço direito, como candidato à vice-presidência, é Paul Ryan, um católico assumido - tal como Joe Biden, recandidato ao lugar de vice-presidente pelo Partido Democrata.

Mas o recuo dos protestantes na vida pública norte-americana tem muitos outros sinais visíveis. O democrata que preside ao Senado, Harry Reid, é mórmone. A Câmara dos Representantes tem um presidente republicano: John Boehner, católico. E entre os nove membros do Supremo Tribunal federal há seis católicos e três judeus. Algo sem precedentes nos EUA.

Resta nas hostes protestantes o próprio Presidente Barack Obama, que cresceu sem educação religiosa e se baptizou já adulto, em 1988, aos 27 anos. Mas por ser afro-americano também ele foge ao padrão clássico. Estamos muito longe dos tempos em que John F. Kennedy - primeiro e até agora único presidente católico dos EUA - teve de proclamar solenemente, num discurso marcante, que jamais se deixaria influenciar pelas opiniões de bispos ou até do Papa. E mesmo ele escolheu para vice-presidente o senador Lyndon Johnson, um protestante oriundo do sul do país.

A verdade é que o mapa sociológico norte-americano está a mudar rapidamente. Os protestantes não ultrapassam hoje 51% da população, a nível nacional, enquanto os católicos são já cerca de 25%, o que corresponde a quase 70 milhões de fiéis - a quarta maior comunidade nacional católica a nível mundial, após o Brasil, o México e as Filipinas. Mas assumem o primeiro lugar enquanto confissão religiosa autónoma, uma vez que as diversas igrejas protestantes estão muito fragmentadas. E em estados como Rhode Island e a Pensilvânia ultrapassam 50% da população.

"Acredito numa América onde a separação entre a Igreja e o Estado seja absoluta. Acredito numa América que não seja oficialmente católica, protestante ou judaica - onde nenhum membro da administração pública solicite ou aceite instruções do Papa, do Conselho Nacional das Igrejas ou de qualquer outra fonte eclesiástica", declarou o então jovem candidato Kennnedy nessa memorável alocução, proferida a 12 de Setembro de 1960, a menos de dois meses de derrotar Richard Nixon na corrida à Casa Branca.

Se fosse hoje, tenho a certeza, não precisaria de fazer esse discurso. Joe Biden que o diga. E Paul Ryan também.

 

Imagem: John F. Kennedy, o primeiro presidente católico dos EUA, em visita à Irlanda (Junho de 1963)

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De retorno

por Helena Sacadura Cabral, em 20.08.12

Para retorno de férias aqui está uma apresentadora que não tem medo de dizer o que pensa, nem de enfrentar as consequências. Embora o estilo tenha algo de agreste - que, pessoalmente, não aprecio -, o conteúdo merece reflexão. Sobretudo para Estados que não são laicos, o que, felizmente, não é o nosso caso.

A religião não deveria ser, nunca, poder político. É algo profundamente pessoal, que deverá constituir uma escolha e jamais uma imposição. E os ateus têm tanto direito a sê-lo como aqueles que o não são.

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Corte na aldeia

por Laura Ramos, em 13.07.12


Por esta altura decorrem as festas da cidade. É fácil alhearmo-nos. O som e a alacridade são os mesmos de sempre, as procissões de ida e volta entre as margens do Mondego agregam, inexplicavelmente, os milhares de caminhantes do costume. O kitsch desfila em apontamentos repetidos de diversos tamanhos, às centenas, erráticos e sem um trilho cénico, alienígenos, incompreensíveis e pungentes: são as Rainhas Santas de todas as idades, desde as que vão ao colo às que percorrem a pé as pedras tortas da calçada, novas, maduras, gordas, magras. De negro ou rosa vivo, emolduradas em véus de tule hirto e vestes com galões de debrum de ouro, baratucho.
Nem faltam Dons Dinises…

Mesmo assim houve este ano o bom gosto de reduzir o tempo dos fogos-de-artifício: nem se deu pão, nem circo, quando a austeridade assola todos por igual.

E até o anfitrião temporário  da imagem (aquela belíssima escultura de Teixeira Lopes) não se furtou a invectivar os tempos, pondo os dedos nas feridas sem dó nem piedade.

Tudo pesado, neste culto, vejo que há coisas - coisas ditas menores - que são de facto maiores do que todos nós.

E eu gosto de ter por padroeira uma mulher.

Isabel de Portugal, à parte o seu carisma milagreiro herdado, enredo incluído, da sua tia-avó Isabel da Hungria, foi uma pessoa admirável.

De carne e osso, incansável obreira, recidiva infractora, incorrigível na sua liberdade de, como hoje se diria, ser solidária.
Provocadoramente, até merecer castigo e a reprovação do clero que enfrentou, desafiando sem medo a cristandade oficial, foi compassiva, sim, mas foi activa, interventora e até diplomata ao evitar, de facto, diversas guerras fratricidas.

 


"Levava uma vez a Rainha Santa moedas no regaço para dar aos pobres, / Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava, / ela disse, levo aqui rosas. E rosas viu el-Rei não sendo tempo delas".

Por mim, prefiro ver nesta lenda o registo de uma falsa candura que a sua inteligência soube apresentar à oficialidade assim, desta maneira:

- Tomem lá o que querem, a minha passividade. Vede rosas, Senhor...
E foi à sua vida.

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Sobre os encantos desta vida

por José António Abreu, em 08.04.12

Jesus ressuscitou mas não ficou cá por baixo.

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Bom senso ou double standards?

por Rui Rocha, em 16.03.12

Em 9 de Março, o New York Times publicou um anúncio colocado pela Freedom From Religion Foundation. No anúncio, apelava-se a que os respectivos fiéis abandonassem a Igreja Católica. O principal fundamento apontado foi o dos escândalos sexuais com envolvimento de padres e a cumplicidade da hierarquia da Igreja. Uns dias depois, Pamela Geller, líder do movimento Stop Islamization Now (conhecida, é bom dizê-lo, por posições radicais e inaceitáveis) solicitou ao jornal a publicação de um anúncio "simétrico" em que se apelava ao abandono do Islão com fundamento principal na falta de respeito pelas mulheres e pelos não islâmicos. 

Desta vez, o New York Times recusou a publicação apesar de Geller estar disposta a pagar os mesmos 39.000 USD cobrados pela colocação do primeiro anúncio. De acordo com as explicações prestadas pelo jornal, não se trata de uma recusa definitiva, mas de um adiamento da publicação, motivado pela violência desencadeada no Afeganistão na sequência do episódio em que foram queimados exemplares do Corão e pelo temor de que vidas fossem postas em causa por novas reacções exacerbadas. A matéria é delicada. Mas, o que a decisão tem subjacente é o entendimento de que a liberdade de expressão deve ser limitada a partir de uma avaliação da perigosidade dos fiéis das duas religiões. Terá o NYT agido correctamente? Ou demonstrou apenas que utiliza inaceitáveis double standards editoriais?

 

* Mais detalhes sobre a notícia podem ler-se aqui.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 26.02.12

«Como dizia José Régio, os que falam da religião como alienação suprema não podem compreender de quantas alienações ela nos liberta. A esperança de que a própria morte é trânsito misterioso para o grau mais evoluído da existência é profundamente humanista.»

Frei Bento Domingues, no Público

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Imagem do Papa Bento XVI retirada de campanha

por Cláudia Köver, em 17.11.11

Percebo a revolta contra o uso  comercial da imagem do Papa. É coerente e uma atitude que já se esperava do Vaticano. Agora, chamar-lhe ofensiva. Porquê?

Não é uma campanha que pretenda gozar a igreja, a fé e os crentes. É uma campanha que tem como base uma mensagem de paz e muitas roupas coloridas. Quem nos dera a nós que as imagens propostas pela Benetton fossem reais.

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Uma chave para decifrar o mundo

por Pedro Correia, em 27.09.11

    

 

Ouço com alguma frequência opiniões negativas sobre o ensino das religiões - e da religião cristã em particular. São opiniões que fazem tábua rasa de dois mil anos de história da Humanidade e que, se fossem levadas à letra, conduziriam ao desconhecimento generalizado de uma das nossas bases civilizacionais. A história da pintura, da escultura, da arquitectura e de parte significativa da música ocidental torna-se incompreensível a quem ignora os fundamentos do cristianismo e as inúmeras personagens dos livros da Bíblia. Isto nada tem a ver com crença -- tem a ver com cultura, no sentido mais lato, profundo e nobre do termo.

A ignorância das religiões -- em nome do princípio da laicidade levado ao extremo -- conduz até à incompreensão e à irrelevância de boa parte dos maiores autores ateus, agnósticos e anticristãos -- de Voltaire a Nietzsche. Leio, de momento, uma das obras mais emblemáticas de Karl Marx: está cheia de alusões bíblicas, provavelmente ininteligíveis para todos os apóstolos da "indiferença", que fogem da religião como o diabo da cruz em vez de procurarem entender a importância da religiosidade e da espiritualidade como parte integrante da condição humana, da criação artística e do pensamento filosófico através de todas as épocas - incluindo a nossa.

O Moisés, de Miguel Ângelo, a Última Ceia, de Leonardo, a Paixão Segundo São Mateus, de Bach, a catedral de Chartres ou a de Brasília (criada pelo ateu Óscar Niemeyer), para serem devidamente apreciadas enquanto veículos de fruição artística e emanações do melhor da nossa cultura, necessitam de referências que só o conhecimento das religiões (neste caso a religião cristã) nos proporciona. Isto vale também para a Mesquita Azul de Istambul, o Buda Reclinado de Banguecoque, Machu Picchu ou Angkor Wat.

Ao criticarem o estudo das religiões, os arautos desta tese estão no fundo a fazer a apologia da ignorância. Assumi-la em nome da "laicidade" é ainda mais grave. Por constituir uma perversão da genuína laicidade - a que vem expressa, pela voz de Cristo, nos Evangelhos: "Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus."

É uma frase muito antiga -- e tão "moderna" como se tivesse sido impressa no jornal desta manhã. Conhecê-la -- e saber por que foi proferida e os efeitos devastadores que causou numa concepção teocrática do poder político -- ultrapassa em muito o reduto da fé: é um acto de cultura. Da mesma forma que alguém sem o menor conhecimento bíblico é incapaz de interpretar esta extraordinária frase, contida num dos romances de Graham Greene: "Prefiro ter sangue nas mãos do que água como Pilatos."

Religião também é isto: uma chave para decifrar o mundo, uma pista para descobrirmos novos mundos. Às vezes longínquos, outras vezes situados bem próximo de nós.

 

Imagens: Voltaire e Nietzsche

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Da importância das palavras

por Pedro Correia, em 20.08.11

 

Um grupo de manifestantes que protestasse nas ruas de Madrid ou de qualquer outra capital europeia contra a visita de um dirigente espiritual islâmico seria logo rotulado de "antimuçulmano". Os participantes nessa manifestação ganhariam de imediato o epíteto de "islamófobos" e não faltaria quem sublinhasse a necessidade de combater ódios religiosos em nome da liberdade de crença e do respeito pela fé alheia.

Tudo muda quando esse dirigente espiritual é o Papa. Os manifestantes passam a ser "laicos", nenhum deles é descrito como anticatólico e muito menos como vaticanófobo. Os gritos de "Papa nazi", "assassinos", "ignorantes", "pedófilos" e "filhos da puta" com que nestes dias alguns destes "laicos" têm brindado centenas de milhares de jovens católicos inserem-se na naturalíssima liberdade de manifestação que justifica aplauso dos mesmos que se indignariam com uma ruidosa reunião de "islamófobos".

Isto deve fazer-nos reflectir sobre a importância das palavras no espaço comunicacional. Nenhuma delas é neutra, nenhuma delas é irrelevante: todas nos chegam carregadas de ideologia. Compete ao bom jornalismo evitar as armadilhas da linguagem que estabelecem dois pesos e duas medidas para situações similares. Porque o preconceito ataca quando menos se espera. Sobretudo o preconceito daqueles que se proclamam livres de preconceitos.

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Existem várias formas de paralisar a argumentação sobre questões religiosas. Desde logo, há quem defenda que a religião não se discute. Esta posição vem, normalmente, de quem professa uma determinada religião. E significa, na verdade, que não se discute essa determinada religião que é professada. Já todas as outras são  passíveis de discussão. Do alto da superioridade moral da religião que não se aceita discutir. Uma outra forma consiste em manifestar uma intransponível equidistância relativamente a todas as religiões. É uma posição própria de quem está ou quer colocar-se fora do círculo religioso. Dela decorre, por exemplo, que quando existe um conflito extremado entre correntes religiosas, se possa sair airosamente dizendo que estamos perante radicalismo de ambas as partes. O que nos alivia do pesado fardo de tomar partido por uma delas. Ora, parece-me que nenhuma das duas posições é aceitável. Explico. A religião, para os que a professam, não constitui um mero caminho interior, individual, de ligação com o divino. A religião apela a uma ideia de comunidade e de prática. Nessa medida, de exteriorização. Que tem impacto na sociedade dos Homens. O respeito pela fé professada por cada um não pode ser entendido como dirigido à religião em si mesma. Pelo contrário, resulta do respeito pela radical liberdade e dignidade  do indivíduo nas suas múltiplas expressões: artísticas, culturais, profissionais e, naturalmente, religiosas. Daí que a religião possa e deva ser discutida sempre que as suas manifestações contendam ou se desviem do projecto social comum. Por outro lado, a equidistância acaba por levar à mesma consequência de não questionar o essencial. Queira-se ou não, o fenómeno religioso é uma das manifestações mais evidentes do ser humano. Mesmo os que se colocam de fora, devem admitir este facto como dado histórico inquestionável. Como dado inquestionável é a importância da religião na conformação do substrato social de valores. Deste modo, não se deve prescindir de comparar religiões pelas consequências que estas têm nas sociedades humanas. Como não se pode deixar de comparar o estado de evolução das diversas sociedades, sempre tendo presente que a sociedade perfeita não existe e que o valor fundamental é a dignidade humana. O que está aqui em causa é que a única forma de dar resposta a quaisquer actos de violência religiosa é uma intervenção  que garanta a liberdade e a igualdade dos cidadãos. De todos eles. Mas, isto não significa neutralidade. Significa uma defesa sem quartel de todos os que são acossados pela sua crença religiosa. E um ataque igualmente intransigente a todas as formas de perturbação da liberdade de expressão, religiosa ou outra, dos cidadãos. Neste particular, não podem ser colocados em pé de igualdade os que condenam qualquer forma de violência e aqueles outros que, perante actos violentos como os ocorridos em Alexandria em 31 de Dezembro de 2010, se remetem a um ensurdecedor silêncio. Da mesma maneira que não merecem o nosso silêncio todos os que têm da convivência religiosa a interpretação estrita que resulta do versículo 5:5 do Corão: O you who believe! do not take the Jews and the Christians for friends; they are friends of each other; and whoever amongst you takes them for a friend, then surely he is one of them; surely Allah does not guide the unjust people. Precisamente a interpretação que é negada por tantos muçulmanos mas que se ouvia nos últimos tempos na boca de certos Imãs em algumas mesquitas de Alexandria. Tal como não se pode calar a condenação a representantes da Igreja copta que afirmaram que os muçulmanos são convidados no Egipto. Perante situações como estas, ou quaisquer outras em que seja questionada a tolerância e a convivência pacífica, não serve calar. Importa afirmar os valores da dignidade humana. Os únicos relativamente aos quais se justifica uma defesa activa e radical. Que deve sobrepor-se a uma certa moda do religiosamente correcto. E que, se não vejo mal, só podem ser protegidos no contexto de uma organização social laica e interventiva em que, como diz Savater, as crenças filosóficas ou religiosas sejam um direito de cada um. Mas, não o dever de ninguém e menos ainda a obrigação geral da sociedade no seu conjunto. O que é precisamente o contrário de ser-se anti-religioso.

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Em Teerão: luzes, câmara... condenação

por Rui Rocha, em 23.12.10

Jafar Panhai (na foto) é um cineasta iraniano. Foi preso pelo regime de Teerão em Fevereiro deste ano. Sob a acusação de rodar um filme sem autorização (sic) e de incitar os protestos oposicionistas com a sua obra. Há um par de dias foi conhecida a decisão de condenação a 6 anos de prisão e de 20 anos de interdição de qualquer actividade cinematográfica. Na mesma altura, foi igualmente condenado Mohammad Rassoulof que com ele colaborava.

O cineasta, já premiado em Cannes e Veneza tem, para além de talento indiscutível, hábitos nada recomendáveis em certas paragens onde o iluminismo das sombras é de tal forma intenso que ofusca: o de pensar pela sua cabeça e o de exteriorizar o que pensa. Na verdade, Jafar Panhai apoiou o candidato da oposição ao regime nas últimas eleições presidenciais e manifestou publicamente a sua posição política. Estes são alguns dos argumentos da defesa que apresentou ao Tribunal:

 - "I do not comprehend the charge of obscenity directed at the classics of film history, nor do I understand the crime I am accused of,"

- "If these charges are true, you are putting not only us on trial but the socially conscious, humanistic and artistic Iranian cinema as well,"

- "My case is a perfect example of being punished before committing a crime. You are putting me on trial for making a film that, at the time of our arrest, was only 30 percent shot,".

A condenação de Panahi por Delito de Opinião confirma, se necessário fosse, a obscenidade de um regime incapaz de conviver com os princípios mínimos da decência. Para além disso, priva-nos do contacto com uma sociedade iraniana que, para lá da cortina de ferro do fundamentalismo teocrático, se apresentava em alguns filmes de Panahi com modos de vida simples que deixavam imagens de simpatia  e de gente comum. Isto porque os filmes de Panahi sempre foram retratos sociológicos e nunca questionaram de forma directa o poder político ou a religião. Trata-se, pois, de mais uma cena de barbárie rodada em Teerão. Perante factos como este, todas as tentativas de branquear o regime que os encena são filmes. Da pior qualidade.

* o texto integral da defesa de Panahi pode encontrar-se aqui (em inglês).

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Tema(s) enriquecedor(es)

por João Carvalho, em 05.07.10

Sobre o blogue desta semana que a Ana Sofia escolheu aqui, assistam ao vídeo incluído no post. No final, aparecem mais vídeos correlacionados (numa barra inferior), o primeiro dos quais é o mesmo. Prestem atenção aos outros. Recomendo vivamente (repito: recomendo vivamente) que vejam o segundo e o terceiro. São muito enriquecedores. E mais não digo.

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Católicos ma non troppo

por Teresa Ribeiro, em 13.05.10

Vão à missa regularmente, fazem as suas peregrinações, rezam muito aos santos da sua devoção, mas confessar-se para poder comungar, nem pensar. A avaliar pela quantidade de católicos praticantes que conheço avessos ao confessionário, não será abusivo concluir que são muitos os que preferem acarretar com o fardo dos seus pecados do que arrepender-se, ainda que a prazo, das suas prevaricações.

Se for para reincidir, de facto não vale a pena investir em padres-nossos e avé-marias, além de que é arriscado desafiar o altíssimo com falsos arrependimentos. Reconheço pragmatismo e honestidade neste gesto, embora não seja um comportamento lá muito católico (eh!eh!).

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Size matters

por Pedro Correia, em 12.05.10

"Para a sociedade laica [a visita do Papa] não representa mais nem menos do que representaria a visita de Jacob Zuma ou Ólafur Grímsson. Ponto", escreve Eduardo Pitta. Questiono-me se será mesmo assim. Se os presidentes da África do Sul ou da Islândia visitassem Portugal, o autor do blogue Da Literatura provavelmente não se mostraria tão preocupado com a contagem de cabeças no Centro Cultural de Belém. Catorze? Centro e quarenta? Mil e quatrocentas? Para a "sociedade laica" tanto faz. Ou talvez não.

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Um contraste chocante

por Pedro Correia, em 11.05.10

 

Neste momento, os "altos representes do Estado" - católicos, agnósticos, ateus - acotovelam-se para receber Bento XVI, no início da visita do Papa a Portugal. Ninguém quer ficar fora da fotografia, para mais tarde recordar. Nada tenho a objectar ao gesto aberto, generoso e hospitaleiro dos representantes do Estado português neste acolhimento a um líder espiritual que é também Chefe do Estado do Vaticano, além de representante da principal confissão religiosa do País. Um verdadeiro Estado laico não é aquele que ignora ou desrespeita as religiões: é aquele que sabe dialogar, conviver e cooperar com todas elas. Mas, até por isto, é chocante o contraste da recepção agora dispensada ao Papa com a atitude envergonhada dos mesmos "altos representantes" quando aqui veio o Dalai Lama, que apenas alguns deles receberam, e sempre pela porta das traseiras. O líder espiritual tibetano, também venerado por milhões de pessoas, além de prestigiado Prémio Nobel da Paz, merecia o tratamento digno que o Estado português lamentavelmente lhe negou.

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Tão intolerantes, os tolerantes

por Pedro Correia, em 11.05.10

A bancada do PS, muito tolerante com o seu vice-presidente Ricardo Rodrigues, não dá tolerância de ponto aos seus funcionários durante a visita do Papa. Em nome da laicidade do Estado. Isto apesar de o líder parlamentar socialista, Francisco de Assis, ter defendido há três semanas a decisão do Governo e da câmara de Lisboa com argumentos que pareciam sensatos: "É precisamente porque vivemos num Estado laico, e que essa característica fundamental não está em causa, que o Governo pode tomar uma posição dessa natureza."

Nesta matéria, pelos vistos, a opinião de Miguel Vale de Almeida pesa mais do que a de Assis, o que não admira: o líder parlamentar tem nome de santo. Fico agora a aguardar uma decisão idêntica da mesmíssima bancada a 3 de Junho, feriado religioso em que se assinala o Dia do Corpo de Deus, e a 13 de Junho, Dia de Santo António, feriado municipal em Lisboa: mais religioso que este é difícil.

Haja coerência, senhores, haja coerência.

 

ADENDA: Ler 'O direito à festa e as novas inquisições', do António Marujo (via Cibertúlia).

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A burka, segundo Ussía

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 12.01.10

Sábado passado, enquanto esperava no bar dum hotel de Burgos, li no La Razon este texto de Alfonso Ussía. Onde, designadamente, se diz:

  • «(...)Y las feministas profesionales mudas. Para ellas, el burka es sinónimo de tolerancia y modernidad. Protestan por un par de tetas en un anuncio y callan ante la humillación de una norma que impide a la mujer mostrar su rostro. Le sobra razón al Cardenal Miroslav  Vik, Arzobispo de Praga, cuando afirma que la renuncia a defender las raíces cristianas en Europa nos está llevando a una imparable islamización. A ellos no les importan nuestras tradiciones, y menos aún, nuestras leyes. Les importan las suyas y no esconden su objetivo de imposición. Un burka en una calle de Madrid es un insulto. Un insulto a la igualdad del hombre y la mujer, un insulto a nuestra Constitución, un insulto a nuestra educación y un insulto a nuestra cultura. Si quieren tapar a sus mujeres, que se queden en su tierra. Si quieren lapidar a sus mujeres, que lo hagan en sus pueblos. En unos años van a obligar a los cocheros de Sevilla a cambiar sus caballos por dromedarios. Modernidad y alianza de civilizaciones. (...)»

Não podia estar mais de acordo.

 

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O livro sobre as caricaturas de Maomé

por Jorge Assunção, em 13.08.09

Sem as caricaturas de Maomé: Yale University and Yale University Press consulted two dozen authorities, including diplomats and experts on Islam and counterterrorism, and the recommendation was unanimous: The book, The Cartoons That Shook the World, should not include the 12 Danish drawings that originally appeared in September 2005. What’s more, they suggested that the Yale press also refrain from publishing any other illustrations of the prophet that were to be included.

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Muito respeitinho

por Pedro Correia, em 31.03.09

  

 

"Difamar as religiões constitui um grave atentado à dignidade humana levando à restrição da liberdade religiosa e à incitação ao ódio religioso e à violência.” Acabo de citar uma proclamação do Papa, confrontado com as críticas recebidas na Europa durante a sua recente deslocação a África? Nada disso: é um trecho de uma resolução aprovada há dias pelo prestigiadíssimo Conselho dos Direitos Humanos da ONU, sob proposta do Paquistão, em nome da Organização da Conferência Islâmica. Aprovada por 23 votos, registando-se 11 contra e 13 abstenções, a resolução exprime “viva inquietação” sobre a “difamação” de que as religiões têm vindo a ser alvo, nomeadamente nos órgãos de informação, e aos estereótipos a que são reduzidas. Um esclarecedor exemplo assinalado no texto: “O Islão é frequentemente associado a violações dos direitos humanos e ao terrorismo.”

Os países europeus, o Canadá e o Chile votaram contra. Mas os países muçulmanos e outros representantes daquilo a que outrora se convencionava chamar o “Terceiro Mundo não alinhado, progressista e anti-reaccionário”, votaram a favor. É uma ironia dos tempos modernos: o laicismo está hoje em vigor, verdadeiramente, quase só nos países pertencentes ao que também outrora se convencionava integrar na esfera do “capitalismo mais agressivo, retrógrado e explorador dos povos”.
A partir de agora é favor tratar os assuntos religiosos com o conveniente respeitinho. O Conselho dos Direitos Humanos da ONU assim o ordena.

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Ser cardeal

por João Carvalho, em 15.01.09

A gente gosta ou não gosta de um cardeal, como a gente gosta ou não gosta do que ele possa dizer aqui ou ali. Mas sejamos rigorosos. Não direi que é preciso passar pelo mesmo que passa um político norte-americano para chegar à Casa Branca. Convenhamos, no entanto, que chegar a cardeal, no Vaticano, é assim como chegar a presidente do Senado, na política.

Talvez mal comparado, mas é só para termos presente que vale a pena pararmos para pensar mais um pouco no contexto e nas palavras, quando um cardeal fala. Mais ainda se ele for Patriarca. Ou então não paramos e passamos adiante.

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Onde está, afinal, o erro de D. José Policarpo?

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 14.01.09

Recordo-me ter lido há uns anos um livro (não me lembro do título) escrito por uma inglesa (não me lembro do nome) que casou com um cidadão do Iémen do Sul.  Foi viver para aquele país, teve de se sujeitar à vida de lá, não gostou, queria vestir roupas ocidentais, quis fugir, deve ter levado os encontrões do marido e dos familiares, deixou de poder sair de casa. Um dia lá conseguiu fugir do Iémen, voltou a Inglaterra, escreveu um livro que vendeu bem, ganhou carradas de dinheiro e tornou-se uma espécie de heroína.

Confesso que, quando li o livro, não endeusei a mulher. Instruída, sabia muito bem que, ao casar com um muçulmano, ao ir viver para um país muçulmano, teria de se sujeitar às regras desse casamento, desse país e daquela religião.

Não pretendo discutir se são melhores as regras dos católicos ou as dos muçulmanos. O que importa salientar, por agora, é que são regras diferentes e nem sempre compagináveis numa vida a dois.

Foi apenas isto o que pretendeu - creio - dizer D. José Policarpo. Não vejo, por isso, motivo para tanto bruá. Nem vejo motivo para que a Comunidade Islâmica se sinta magoada.  A questão é apenas esta: estará uma mulher portuguesa preparada para viver um casamento segundo as regras do marido muçulmano? E estará um marido muçulmano preparado para casar com uma portuguesa que vive segundo as regras comummente aceites pelo mundo ocidental?

Na dúvida, acho que fez bem D. José Policarpo em chamar a atenção para o facto. Como também acharia bem que o líder da comunidade muçulmana o fizesse.

 

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