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Brexit by Steph

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.06.17

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Um magnífico cartoon de Steph na edição matutina do HojeMacau. Ou de como em dois traços se pode retratar a realidade. 

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Reino Unido: balanço eleitoral

por Pedro Correia, em 09.06.17

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 Theresa May pronta a dar lugar a... Theresa May

 

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Os actuais conservadores britânicos, indignos discípulos de Winston Churchill, revelam-se especialistas em inventar problemas. David Cameron convocou um referendo europeu, submetendo-se à pressão de franjas políticas e da imprensa tablóide, e levou com o Brexit em cima. Agora Theresa May, dispondo de uma confortável maioria na Câmara dos Comuns, antecipou legislativas confiando nos ventos da fortuna soprados pelas sondagens para negociar com maior dureza a saída do país das instituições europeias. Sai mais fragilizada do escrutínio de ontem.

 

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Destas eleições emerge o parlamento mais bipartido deste século, somando os resultados dos dois principais blocos políticos, que em conjunto recolheram 26 milhões de votos. Os conservadores, com mais 5,5% (mas menos 13 deputados) do que nas anteriores legislativas, obtiveram 42,5%; os trabalhistas, progredindo 9,5% (e conseguindo eleger mais 32 parlamentares), alcançaram 40%. Excepto na Escócia e na Irlanda do Norte, o mapa eleitoral britânico está agora praticamente pintado a duas cores: o azul conservador, dominante sobretudo na Inglaterra rural do centro e do sul, e o vermelho trabalhista, revigorado na cintura das duas principais cidades (Londres e Birmingham) e no País de Gales. O UKIP, que os tudólogos de turno há um ano anteviam como força imparável da política britânica, foi  varrido do mapa parlamentar.

 

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Apesar do fracasso do partido antes liderado por Nigel Farage, o Brexit não foi negado nesta consulta aos britânicos. Isto porque a única força política de dimensão nacional no Reino Unido que advogava sem rodeios um regresso à integração europeia, com a convocação de um novo referendo, era o Partido Liberal Democrata, que registou um ligeiro recuo em percentagem (fica-se pelos 7,4%, perdendo 0,5%) embora tenha feito eleger mais três parlamentares - num total de 650. E o Partido Nacional Escocês, abertamente pró-europeu, recebeu uma severa reprimenda dos eleitores (sai com menos 19 deputados e baixa 1,7% na percentagem global). O que afasta do horizonte a possibilidade de um novo referendo sobre a independência escocesa, já rejeitada nas urnas em 2014.

 

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Theresa May exerce funções governativas desde 2010 - primeiro como ministra e desde o ano passado como chefe do Executivo. É compreensível que tenha sofrido um desgaste, acentuado pela ziguezagueante campanha eleitoral que protagonizou, marcada por erros incompreensíveis - a começar pela recusa em debater com o líder trabalhista, Jeremy Corbyn, que a criticou duramente por ter desmobilizado quase 20 mil membros das forças da segurança enquanto tutelou a pasta da Administração Interna. Um facto tornado ainda mais chocante com o atentado de 3 de Junho em Londres, que causou oito mortos já na recta final da campanha.

 

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Dito isto, há que não perder de vista os factos. Este resultado eleitoral não pode ser comparado com expectativas nem com sondagens: há que compará-lo com outras eleições. E a verdade é que os conservadores, embora com margem mais estreita e forçados a um acordo pós-eleitoral, venceram estas legislativas. Parlamentos sem maioria absoluta monopartidária e governos de coligação são realidades comuns em toda a Europa. E já também no próprio Reino Unido, onde em 2010 Cameron ficou a 20 lugares da maioria absoluta, vendo-se forçado a formar com os liberais democratas um Executivo que durou cinco anos. Até à vitória eleitoral de 2015, em que os eleitores o premiaram enfim com uma maioria mais ampla, que aliás de pouco lhe serviu.

 

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Outro facto: o Partido Trabalhista não vence uma eleição nacional no Reino Unido desde 2005, quando ainda era liderado por Tony Blair. Nestes doze anos de jejum a principal força de oposição britânica já teve três líderes (Gordon BrownEd Miliband e Jeremy Corbyn). Todos falharam no decisivo teste eleitoral, incluindo o agora tão incensado Corbyn, que viu o seu partido ficar com menos 56 deputados do que os conservadores. Não seguiu os  conselhos de Blair - veterano vencedor de três eleições legislativas - e fez mal. Como se costuma dizer no futebol, o segundo lugar é o primeiro dos últimos.

 

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É possível perder nas urnas e vencer nos telediários? Sem a menor dúvida: este escrutínio britânico demonstra bem isso. Desde ontem à noite, vemos desfilar nas pantalhas analistas políticos de diversas cores zurzindo May como "a grande perdedora" das legislativas britânicas, consideradas "um desastre" para os conservadores. Voltamos ao confronto entre expectativas e resultados, que costuma contibuir para a deturpação dos factos.

 

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Mas as coisas são o que são e não como gostaríamos que fossem. Afinal Theresa May prepara-se para suceder a Theresa May: ao fim da manhã de hoje foi encarregada pela Rainha de formar governo e dará agora total prioridade a um acordo entre os conservadores e os unionistas da Irlanda do Norte (conservadores também), iminente no momento em que escrevo estas linhas. Juntos, os Tories e o DUP norte-irlandês reúnem 328 assentos parlamentares - mais dois do que o limiar da maioria absoluta. Aliás na prática mais seis, pois os sete eleitos pelo Sinn Fein, também na Irlanda do Norte, por tradição não tomam lugar na Câmara dos Comuns. Esta rapidez de decisão é um exemplo para seguir em Portugal, onde por vezes se demora mais de um mês para iniciar um novo ciclo político. Será assim tão difícil? Aposto que não.

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Jogar e perder.

por Luís Menezes Leitão, em 09.06.17

Não há jogadas seguras em política. Uma eleição nunca está garantida, pois depende de factores imprevisíveis, como na teoria do caos em que a borboleta que bate as asas em Pequim provoca um temporal em Nova Iorque.

 

Theresa May, perante as dificuldades políticas do Labour de Jeremy Corbyn, julgou que poderia calmamente convocar eleições, e ter uma maioria que lhe garantisse um mandato forte para as negociações de um "hard Brexit". Mas a verdade é que não se pode vender a pele do urso antes de o ter morto, e Corbyn revelou-se um osso muito duro de roer na campanha, apostando em cumprir o slogan que imediatamente surgiu: "Let's make June the end of May". Por outro lado, Theresa May mostrou uma absoluta incompetência política, ameaçando os ingleses com mais impostos, como o "imposto sobre a demência", a fazer lembrar o poll tax que precisamente deitou abaixo Thatcher. Desde Mondale que se sabe que em eleições não se anunciam novos impostos e ponto final.

 

E agora? Dificilmente May continuará a liderar o governo, e mesmo que os conservadores continuem no poder, o Brexit pode tornar-se tão soft que ninguém dê por ele. E nem é de excluir a hipótese de Corbyn conseguir imitar António Costa e montar uma geringonça no Reino Unido, para fazer também as reversões prometidas, como a renacionalização dos transportes. Aconteça o que acontecer, o Reino Unido está metido num grande sarilho. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

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Theresa's fiasco

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.06.17

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Com a contagem dos votos praticamente no fim, hoje torna-se evidente o desastre que foi a campanha do Brexit e a monumental incompetência política e falta de visão estratégica de quem conduziu o Reino Unido à actual situação. Não fosse o injusto sistema eleitoral vigente e o resultado obtido pelos conservadores teria sido muito pior.

As eleições de ontem serviram, tal como se esperava, para aumentarem a confusão, confirmando o erro e a irresponsabilidade de populistas oportunistas como Boris Johnson e Nigel Farage. Se bem nos recordamos, Theresa May convocou estas eleições para reforçar a sua maioria em Westminster e se apresentar com uma legitimidade reforçada perante Bruxelas. Os resultados indicam que a sua figura será mais a de um Egas Moniz de baraço ao pescoço.  

Da abstenção não podem os Tories queixar-se porque houve nestas eleições uma maior afluência às urnas. Desde 2001 que a participação não era tão elevada, tendo atingido 68,38% (Em 2015 foram 66,1%, em 2010 a participação foi de 65,1%, em 2005 de 61,4% e em 2001 de 59,4%). Ou seja, os eleitores não foram indiferentes ao Brexit e tentaram corrigir esse desastre.

Por outro lado, apesar do sistema maioritário, Theresa May e os conservadores conseguiram a façanha de perder a maioria e arranjar um "hung parliament", ou seja, um parlamento onde vai ser necessário fazer acordos para se poder governar. Os críticos nacionais dos sistemas de representação proporcional podem agora agarrar-se à lição inglesa: à reconhecida injustiça soma-se agora a instabilidade.

À hora a que escrevo, numa altura em que faltam atribuir apenas 29 mandatos, já se sabe que os conservadores perderam votos e mandatos para os trabalhistas e os liberais. O Labour conquistou até agora 30 novos mandatos, os liberais mais 5, confirmando-se o resultado desastroso do Scotish National Party que também já perdeu 18 mandatos.

Percentualmente, os trabalhistas têm apenas menos 2% do que os conservadores, o que vem confirmar, por um lado, os resultados de sondagens que referiam o bom acolhimento das propostas mais radicais do programa eleitoral dos trabalhistas, designadamente quanto à nacionalização de alguns sectores e empresas cujas privatizações se revelaram desastrosos, e, por outro lado, a má imagem de Corbyn junto do eleitorado do partido. Corbyn não era o homem indicado, nem ofereceu aos eleitores a confiança suficiente para poder vir a executar o programa do seu partido.  

O UKIP de Paul Nuttall e desse xenófobo vendedor de ilusões e banalidades, que ainda há dias esteve nas Conferências do Estoril a fazer figura de importante, foi arrasado e ficou sem o seu único deputado. Também por aqui os eleitores podem agradecer a convocação das eleições antecipadas.

A libra já começou a vir por aí abaixo. Os conservadores saem destas eleições em estado de choque. Depois de terem cavalgado a onda trumpista, populista, anti-refugiados, anti-islâmica e anti-europeia, enfiando tudo e todos num só saco, podem agora começar por arrumar as ideias, ir tratando das mazelas e limpar a casa.

Os Tories fizeram a cama em que queriam que os eleitores se deitassem. Estes recusaram. Os Tories e o UKIP tiveram o que mereciam. A democracia voltou a vencer.

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Reino Unido: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 07.06.17

Lembrei aqui quem foram os inquilinos da Casa Branca, ano a ano, durante o último meio século. E aqui foram recordados os titulares do Palácio do Eliseu também durante os mais recentes 50 anos.

Na véspera das eleições legislativas no Reino Unido, em que se confrontam a conservadora  Theresa May e o trabalhista Jeremy Corbyn, recordo hoje quem chefiou o Governo britânico durante o mesmo período.

Volto a segmentar este meio século por cinco blocos, cada qual correspondente a uma década, para uma consulta mais fácil. Pintando de vermelho os primeiros-ministros trabalhistas e de azul os chefes do Governo conservadores. Cumpre acrescentar que nenhum outro partido liderou o Executivo londrino de 1967 para cá.

 

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1967/76

1967 - Harold Wilson

1968 - Harold Wilson

1969 - Harold Wilson

1970 - Edward Heath

1971 - Edward Heath

1972 - Edward Heath

1973 - Edward Heath

1974 - Harold Wilson

1975 - Harold Wilson

1976 - James Callaghan

Predomínio trabalhista nesta década, iniciado durante os chamados Swinging Sixties por terras de Sua Majestade. Com um interlúdio conservador liderado por Edward Heath.

 

 

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1977/86

1977 - James Callaghan

1978 - James Callaghan

1979 - Margaret Thatcher

1980 - Margaret Thatcher

1981 - Margaret Thatcher

1982 - Margaret Thatcher

1983 - Margaret Thatcher

1984 - Margaret Thatcher

1985 - Margaret Thatcher

1986 - Margaret Thatcher

Os anos 80 britânicos tiveram hegemonia conservadora. Com Margaret Thatcher, vencedora de três eleições consecutivas, a impor-se sem discussão.

 

 

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1987/96

1987 - Margaret Thatcher

1988 - Margaret Thatcher

1989 - Margaret Thatcher

1990 - Margaret Thatcher

1991 - John Major

1992 - John Major

1993 - John Major

1994 - John Major

1995 - John Major

1996 - John Major

Segunda década com predomínio conservador: após o longo consulado de Thatcher seguiu-se o mandato de Major, que tinha sido um dos principais colaboradores da Dama de Ferro.

  

 

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1997/2006

1997 - Tony Blair

1998 - Tony Blair

1999 - Tony Blair

2000 - Tony Blair

2001 - Tony Blair

2002 - Tony Blair

2003 - Tony Blair

2004 - Tony Blair

2005 - Tony Blair

2006 - Tony Blair

O "novo trabalhismo" de Blair domina por inteiro a década, grande parte da qual em sintonia cronológica e programática com os EUA de Bill Clinton e a Alemanha de Gehrard Schröder. 

 

                            

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2007/16

2007 - Gordon Brown

2008 - Gordon Brown

2009 - Gordon Brown

2010 - David Cameron

2011 - David Cameron

2012 - David Cameron

2013 - David Cameron

2014 - David Cameron

2015 - David Cameron

2016 - David Cameron

Nova década dominada pelo Tories. E nem a queda de Cameron, provocada pelo Brexit, alterou a cor política na residência oficial de Downing Street, entretanto ocupada por Theresa May.

 

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Balanço: clara prevalência dos governos conservadores ao longo deste meio século (percentagem: 58%). Com cinco primeiros-ministros: Heath, Thatcher, Major, Cameron e May (esta ainda há menos de um ano em funções, pois só ascendeu à chefia do Executivo em 13 de Julho de 2016).

O Partido Trabalhista teve quatro inquilinos em Downing Street durante este período: Wilson, Callaghan, Blair e Brown (42% do total).

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“Enough is enough”, disse May. Mas só agora?

por Alexandre Guerra, em 05.06.17

Na ressaca de mais um atentado terrorista em Londres, Theresa May, confrontada com aquilo que de pior pode acontecer a um líder político – que é o de não conseguir garantir a segurança dos seus concidadãos –, disse uma coisa extraordinária e reveladora da impotência da chefe de Governo na luta antiterrorista que, como se sabe, é sobretudo feita ao nível da prevenção. “Enough is enough”, disse May à porta do Nº 10 de Downing Street, palavras que só podem causar estranheza pelo timing em que foram proferidas, se atendermos ao histórico sangrento do Reino Unido em matéria de terrorismo. A ideia que transparece é que só agora May chegou à conclusão de que “já é de mais” toda esta violência, que havia uma linha vermelha que só agora foi cruzada pelos terroristas islâmicos. Só agora? Um desastre completo em matéria de “public relations”, já para não falar nas acusações disparatadas às grandes empresas tecnológicas, por, supostamente, permitirem “safe space” para os terroristas difundirem a sua propaganda ideológica através das várias plataformas da Internet.

A questão é que, provavelmente, gigantes como a Google ou a Facebook têm feito muito mais dentro das suas competências e possibilidades do que o Governo liderado por May em matéria de contra-terrorismo. "Blaming social media platforms is politically convenient but intellectually lazy", dizia à BBC News a este propósito, Peter Neumann, director do International Centre for the Study of Radicalisation (ICSR) no King's College de Londres. É claro que muito mais pode ser feito por estas empresas na restrição do acesso por parte dos terroristas às suas plataformas, mas a questão que deve ser ponderada pelas agências anti-terroristas e forças de segurança britânicas é se a estratégia que está a ser seguida é a mais indicada. Existem muitas dúvidas em relação a essa matéria e, apesar de Theresa May já ter anunciado que vai rever a estratégia global contra-terrorista, neste momento, não parece estar à altura dos acontecimentos e vamos ver até que ponto isso não se irá reflectir nos resultados das legislativas de Quinta-feira.

Convém, aliás, não esquecer que May foi Secretária da Administração Interna entre 2010 e 2016, tendo Jeremy Corbyn, líder do Labour, acusado-a de nesses anos ter cortado no financiamento às polícias. A Sky News mostrava esta Segunda-feira de manhã um gráfico arrasador para May, em que mostrava um decréscimo anual do número de polícias durante os anos em que tutelou a Administração Interna. O mesmo Corbyn, juntamente com o líder dos Democratas Liberais, Tim Farron, pressionaram ontem à noite a primeira-ministra para divulgar um relatório sobre os supostos financiamentos aos movimentos jihadistas que operam no Reino Unido. Um documento que devia ter sido apresentado na Primavera do ano passado, mas que até ao momento não saiu da gaveta, tendo, entretanto, o Governo informado que ainda não está pronto para ser divulgado. O problema é que esse relatório incide sobre a Arábia Saudita, um país a quem o Reino Unido vendeu nos últimos dois anos cerca de 3,3 mil milhões de libras em armamento.

Numa altura em que o Reino Unido precisa de um líder forte para enfrentar um dos períodos mais difíceis da sua história moderna, May está demasiado frágil para levar por diante essa combate que é preciso travar. E se na Quinta-feira não conseguir obter, pelo menos, uma maioria com 12 deputados de diferença – que é aquela que existe actualmente, herdada de David Cameron –, a sua força política ficará comprometida e os terroristas verão nisso uma oportunidade para espalhar ainda mais terror.

 

Texto publicado originalmente no Diplomata.

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Brexit: negociar a negociação

por Diogo Noivo, em 07.04.17

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Em regra, negociar é difícil. Negociar na arena política é especialmente difícil, sobretudo no plano internacional. No entanto, o Brexit está a levar a dificuldade de negociar a um novo patamar: não só é uma negociação difícil per se, como as partes não estão de acordo quanto à forma de negociar. Primeiro terão, portanto, que negociar a negociação. O Reino Unido defende que se trate da saída da União ao mesmo tempo que se negoceiam os termos de uma relação futura. Já Bruxelas não quer conversas paralelas e prefere uma abordagem sequencial. Se “Brexit means Brexit”, defende Bruxelas, então saiam e depois logo veremos em que termos colaboramos.

O artigo 50º do Tratado de Lisboa não ajuda a dirimir o conflito. Lê-se neste artigo que a desvinculação de um Estado-Membro passa por “um acordo que estabeleça as condições da sua saída, tendo em conta o quadro das suas futuras relações com a União”. Ou seja, e mesmo sem especiais dotes de retórica, é possível defender que o artigo 50º autoriza as duas abordagens.

 

A União Europeia quer deixar claro que está a negociar a desvinculação do Reino Unido, e não os termos de uma futura relação. O discurso oficial argumenta que a negociação paralela contaminará os dois processos. Mas, na verdade, esta posição política pretende demonstrar que a Europa não está refém do Reino Unido. Como afirmou Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu, “teremos saudades. Obrigado por tudo e adeus”. Curto e seco.

Mais do que pundonor, para a União trata-se de uma estratégia negocial assente em dois objetivos: (i) definir condições de desvinculação que dissuadam outros Estados-Membros de pretensões de ruptura; (ii) reduzir a margem negocial de Londres – se os dois dossiers, saída e relação futura, forem negociados em simultâneo, o Reino Unido pode obrigar Bruxelas a fazer “horse trading”, o que evidentemente colide com o primeiro destes dois objectivos.

 

Theresa May não está impressionada. A Chefe do Executivo britânico afiançou que não chegar a acordo é melhor do que chegar a um mau acordo. O Governo britânico, além de desejar a margem negocial que Bruxelas lhe quer tirar, considera que uma negociação a dois tempos prolongará o clima de incerteza económica, em parte porque atrasará eventuais acordos bilaterais a estabelecer entre Londres e outras capitais. Para o Reino Unido, o Brexit é um processo make it or break it.

O drama é que esta postura parece ser para levar a sério. Simon Tilford, investigador no Centre for European Reform e um dos mais notáveis analistas de política europeia, considera provável que o Brexit acabe sem acordo e, dessa forma, com uma saída desenquadrada. Olhando para as projecções do FMI sobre as economias europeias, e em particular para as referentes ao Reino Unido, escreve Tilford que “[t]he forecast for the UK assumes that the British government succeeds in negotiating far-reaching access to the EU’s single market, which is unlikely. Indeed, there is probably a greater likelihood of negotiations between Britain and the EU breaking down, resulting in the UK leaving without any agreement in place. Under this scenario, the outlook for UK growth would be far worse than forecast by the IMF."

Extremar posições na fase inicial de uma negociação é normal e expectável. Mas continuar a extremá-las desta forma levará ambos os lados a um ermo do qual não poderão sair sem perder a face. O tempo passa, mas não saímos do Brexit à bruta.

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Brexit à bruta

por Diogo Noivo, em 14.03.17

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O Parlamento Britânico autorizou ontem o Governo a accionar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, a norma que contempla a saída de um Estado-Membro da União Europeia. Theresa May fica então com o caminho livre para avançar de imediato para o processo de desvinculação da União Europeia, muito embora a imprensa britânica afirme que a Chefe do Executivo esperará pelo final do mês para dar esse passo. Associada a esta proposta estava uma garantia de direitos aos cidadãos europeus a residir no Reino Unido. Votada a proposta, esta garantia de direitos foi chumbada graças a Conservadores e Trabalhistas - os Liberais foram os únicos a opor-se a este hard stance
São duas as razões que explicam a recusa de uma garantia de direitos. Por um lado, em ambos os lados do Parlamento há quem tema que oferecer esta garantia crie um efeito-chamada, isto é, que de repente entre no Reino Unido uma vaga de cidadãos europeus em busca de residência antes da oficialização do Brexit. Por outro lado, o Reino Unido quer usar este assunto como bargaining chip: antes de oferecer garantias a cidadãos oriundos dos Estados-Membros da União, Londres quer ver que garantias serão oferecidas aos cidadãos britânicos a residir em solo comunitário. Em suma, os direitos dos cidadãos ficam em carteira como moeda de troca para as conversas sobre a operacionalização do Brexit.
Porém, e como quase sempre sucede, existe ainda a matemática de mercearia, típica da política partidária. Theresa May, Chefe do Governo e membro do Partido Conservador, não quer ser ultrapassada pela direita dentro do seu partido. Como escreveu John McTernan no Telegraph em Julho do ano passado, é o mundo ao contrário. Enquanto políticos profundamente conservadores como Andrea Leadsom não hesitam em oferecer garantias aos europeus a residir no Reino Unido (estão de tal forma à direita que oferecer estas garantias não constitui um capitis diminutio político junto do eleitorado Conservador), Theresa May, supostamente mais ao centro, opta pela abordagem dura. 
Entretanto, o Governo Britânico continua sem uma estratégia para o Brexit que aparente um mínimo de consistência (pelo menos em público), a libra sofre uma desvalorização acentuada, e os estrangeiros residentes no Reino Unido vão de incerteza em incerteza até uma muito provável angina de peito final. Do lado da União a abordagem não é mais meiga, sob pena de abrir um precedente que incentive outros a abandonar o projecto comunitário. Se a tendência de extremar posições se mantém chegará o momento em que será impossível recuar sem perder a face.

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O espírito de Westminster

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.02.17

 

Falar de democracia é falar do que se passa no Reino Unido e no parlamento britânico. Neste caso numa das suas câmaras, a House of Commons. Ontem foi votada a lei que permitirá à primeira-ministra Theresa May iniciar o processo negocial de saída do Reino Unido da União Europeia. Depois de suceder a David Cameron na liderança dos Tories, em Julho passado, May foi obrigada pelo Supremo Tribunal, na sequência de uma decisão que teve 8 votos favoráveis e 3 contra, a pedir autorização ao parlamento para desencadear o mecanismo legalmente previsto para o abandono. Na sequência dessa autorização, o assunto foi levado ao parlamento que ontem deu o seu acordo à lei e autorizou a primeira-ministra a accionar o processo do artigo 50.º do Tratado de Lisboa.

Theresa May não chegou ao poder em resultado de uma qualquer vitória eleitoral, mas em consequência do referendo conduzido pelo seu antecessor David Cameron, mas nem por isso tem menos legitimidade política de acordo com as regras vigentes em Westminster. Já se esperava que a lei fosse aprovada e isso veio efectivamente a ocorrer com uma votação esmagadora de 498 a favor e 114 contra. Entre estes últimos estão os 49 votos dos deputados do Scotish National Party. Dir-se-á que uma vez mais a democracia funcionou, embora possa haver quem estranhe o resultado desequilibrado da votação tendo em atenção a distribuição de deputados entre os diversos partidos. Mas sobre este ponto a explicação é simples: a democracia funcionou. Apesar de 47 deputados trabalhistas terem violado a disciplina de voto imposta pela direcção do Partido Trabalhista aos seus parlamentares, o Labour votou a favor.

Em tudo isto, apesar do que possa à primeira vista parecer, há uma coerência notável. Até mesmo por parte daqueles que votaram contra o diploma mantendo-se fiéis às suas convicções. E encontra explicação naquele que terá sido, porventura, um dos mais notáveis discursos dos últimos anos proferido naquela casa. Refiro-me ao discurso de Sir Keir Starmer, deputado do Partido Trabalhista eleito pelo círculo de Holborn and St. Pancras. Convido os leitores a ouvirem esse discurso na íntegra e as explicações que ele dá para o sentido de voto do Labour, apesar da sua oposição à saída da União Europeia, e que se resume numa única frase: "We are in the Labour Party, above all, democrats". E como democratas limitaram-se a respeitar a vontade do povo cumprindo o formalismo necessário.

Quando oiço as palavras de Starmer e recordo o que ele disse, ao olhar para o que habitualmente se passa em Portugal, na Assembleia da República, não posso deixar de registar o quanto estamos longe disto. O Reino Unido poderá sair da União Europeia, certamente irá fazê-lo, mas a Europa jamais se livrará do exemplo que vem do outro lado da Mancha, do espírito de Westminster. Democracia foi o que ali se passou ontem. Tomem nota.

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O medíocre Corbyn

por Pedro Correia, em 08.09.16

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De um líder político esperam-se posições claras sobre os assuntos mais relevantes. Tudo quanto Jeremy Corbyn não revelou na recente campanha referendária no Reino Unido. Refugindo-se no silêncio, sem participar nos debates, enquanto todos no seu partido iam manifestando posições desassombradas (na grande maioria favoráveis à permanência do país na Europa), o dirigente trabalhista só se pronunciou enfim após o trágico desaparecimento da sua deputada Jo Cox, activista pró-União Europeia, assassinada por um fanático "nacionalista".

E fê-lo mesmo assim com uma ambígua e relutante declaração, que semeou mais dúvidas do que certezas quanto à sua verdadeira posição nesta matéria. Sabendo-se que no referendo de 1975 votara contra a permanência do Reino Unido no espaço comunitário.

 

Não por acaso, alguns dos maiores nichos eleitorais do Brexit situaram-se em regiões de tradicional influência trabalhista, como Birmingham, onde os membros da outrora orgulhosa classe operária inglesa não hesitaram em transferir directamente o voto para alimentar as teses do UKIP, que lhes acenou com o medo aos estrangeiros ao vincar que o Reino Unido não pode continuar a receber um milhão de imigrantes por década e divulgando um miserável cartaz de campanha com uma foto de dezenas de refugiados sírios procurando entrar na Eslovénia. Nenhum deles, ao contrário do que a propaganda xenófoba insinuava, chegará a terras britânicas. Aliás o Reino Unido manteve-se à margem da rede de solidariedade europeia de acolhimento de refugiados.

Corbyn foi assistindo à derrapagem britânica para fora do euro com uma chocante indiferença, bem reveladora da sua mediocridade. Depois do descalabro sofrido nas eleições locais, onde o Partido Trabalhista foi varrido do mapa eleitoral da Escócia, onde conseguia sempre bons resultados, e após ter assistido a uma rebelião do seu próprio grupo parlamentar na questão da solidariedade ao povo sírio, a sua falta de liderança deixou de ser caricata para se tornar chocante.

 

Jeremy Corbyn está há décadas na política. Nunca desempenhou uma função executiva. Nunca se distinguiu em nada excepto na teimosa manutenção de um lugar em Westminster: é deputado desde 1983, eleito sempre pela mesma circunscrição da área metropolitana londrina. Eterno parlamentar de segunda linha, tornou-se líder do partido em 2015 impulsionando pelas "redes sociais", declarando a intenção de "defender causas e promover debates", o que diz tudo sobre a retórica balofa deste homem que militou contra o "imperalismo britânico", detesta o Estado de Israel, admira o Syriza e considera Karl Marx uma "fascinante figura".

Aliado dos republicanos irlandeses que durante décadas pegaram em armas contra os britânicos no Ulster, indignou os próprios correligionários ao convidar dois membros do IRA a discursar em Londres escassos dias após o atentado bombista promovido em Outubro de 1984 pela organização separatista no congresso do Partido Conservador em Brighton. Um atentado que matou cinco pessoas, incluindo um deputado, e do qual a primeira-ministra Margaret Thatcher só escapou ilesa por um triz.

Corbyn encolheu os ombros.

 

Com ele ao leme, o Labour está mais forte?

Não: está dividido como nunca. Logo após o Brexit, mais de três quartos dos 229 parlamentares trabalhistas votaram uma moção de rejeição do líder. Registou-se uma  debandada do Governo-sombra, com dois terços dos seus membros - incluindo o prestigiado Hilary Benn, responsável pelos negócios estrangeiros - recusando colaborar com o eurocéptico Corbyn, que parece manter-se congelado desde a década de 70, época em que desfilava nas ruas em defesa do "desarmamento unilateral" da Europa ameaçada pelos mísseis soviéticos e da renacionalização em larga escala da falida indústria britânica. 

O seu antecessor, Ed Miliband, é o primeiro a pedir que se demita. O mesmo fizeram muitas outras personalidades oriundas das fileiras trabalhistas - dos ex-primeiros-ministros Tony Blair e Gordon Brown ao economista Thomas Piketty. Mas Corbyn, apegado ao que lhe resta do poder interno, não hesita em fragmentar ainda mais o partido, agora mergulhado numa acesa campanha interna até ao próximo dia 24 em que o ainda líder enfrenta o deputado Owen Smith, um dos muitos que o foram abandonando. Entre os apoiantes de Smith figura o presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, popular político de origem paquistanesa, primeiro muçulmano a ocupar este cargo.

 

A deriva trabalhista para a esquerda radical já causou profundos estragos ao partido num passado não muito longínquo, com a traumática ruptura de 1981 que levou à criação do Partido Social-Democrata, conduzida por quatro ex-ministros dos executivos de Harold Wilson e James Callaghan: Roy Jenkins, David Owen, William Rodgers e Shirley Williams.

O medíocre Corbyn, indiferente ao naufrágio iminente da maior força da oposição no Reino Unido, continua a pedalar furiosamente rumo a lugar nenhum.

 

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Duas notas sobre Espanha e Reino Unido

por Alexandre Guerra, em 05.09.16

1. Quando, há poucos anos, Espanha viu surgir novos (em idade e notoriedade) actores políticos, fiquei bastante expectante em relação ao que eles trariam de refrescante para a cena política do país vizinho. Pedro Sánchez, Albert Rivera e Pablo Iglesias, todos eles entre os 35 e 45 anos, portanto jovens para os cânones da política, davam ares de tempo novo, de sofisticação, libertos das amarras da velha e bafienta partidarite que, em certa medida, tinha Mariano Rajoy como a sua personificação. Sánchez e Rivera, ambos com boa imagem e ar de bons rapazes, tinham trunfos para ir buscar uma parte do eleitorado flutuante "mainstream" ao PP. Já Iglesias, uma espécie de Catarina Martins numa versão mais tolerável, representava as novas tendências sociais, muitas delas de protesto, tinha muito potencial para ir recolher votos junto do eleitorado mais jovem e urbano (como aliás o chegou a fazer). Este "tríptico" tinha tudo para "agarrar" a Espanha e relegar o PP de Mariano Rajoy para uma oposição minoritária. Mas, chegados até aqui, com a Espanha num impasse político, duas legislativas no espaço de poucos meses e a caminho das terceiras eleições num intervalo de um ano, não só Rajoy continua no poder, como reforçou a sua votação nas últimas eleições, face à perda dos seus principais opositores. Sánchez, Rivera e Iglesias não conseguiram imprimir uma dinâmica regeneradora e vitoriosa e deixaram-se enveredar pelos piores males da política: a vaidade, a arrogância, a cegueira e, sobretudo, e perda de noção pelo interesse maior, que é a Espanha e os seus cidadãos. Obviamente, que o comportamento de cada um dos três merece uma análise mais detalhada e cuidada, já que existem importantes nuances entre Sánchez, Rivera e Iglesias, mas no final de contas, é Rajoy, aquele político que durante anos foi gozado e que muitos diziam que jamais chegaria a chefe do Governo, que continua a merecer a confiança da maior parte dos espanhóis. Dá que pensar.     

 

2. Uma solução para a problemática do Brexit é aquilo que proponho a Theresa May, primeira-ministra britânica, e que foi, juntamente com David Cameron, defensora da manutenção do Reino Unido na União Europeia. May já veio dizer (e bem) que não irá realizar um segundo referendo e que pretende cumprir com a vontade da maioria dos ingleses que votaram no referendo, mas já alertou que vai ser um processo longo e demorado, com as primeiras fricções a surgirem entre ela e Boris Johnson, chefe da diplomacia, e o principal rosto do Brexit. Após alguma reflexão, vislumbra-se uma saída para toda esta questão e que, por um lado, permitiria legitimar popularmente o poder de May e, por outro, abrir uma oportunidade democrática para que o processo pudesse parar. E que via seria essa? Simples, a de eleições antecipadas. Embora a tradição democrática inglesa veja com normalidade a sucessão de chefes de Governo sem irem a eleições (aconteceu com Churchill em 1940), nos dias que correm seria perfeitamente aceitável que May quisesse (ou venha a querer) legitimar o seu cargo com o voto popular. E caso isso viesse a acontecer, May apresentar-se-ia aos eleitores com o seu programa, o qual teria como prioridade inverter o processo de Brexit. Perante este cenário, ninguém poderia criticar May por querer ir a eleições e muito menos por ter no seu programa uma convicção que sempre defendeu. E nestas eventuais eleições, não havia qualquer impedimento que um outro candidato conservador defensor do Brexit se pudesse apresentar. Boris Johnson poderia fazê-lo. Tal como todos os outros candidatos dos diferentes partidos estariam livres de o fazer, defendendo ou não o Brexit. E aqui, os eleitores tinham duas escolhas: ou dariam a vitória a um candidato que defendesse o Brexit e tudo seguiria o seu curso; ou então dariam o seu voto a May ou a um mais que provável candidato trabalhista que se oporia à saída do Reino Unido. E se este último cenário acontecesse, alguém teria coragem de ir contra a vontade da maioria dos eleitores? Dificilmente, até porque aquilo que é apresentado e legitimado em eleições democráticos teria, à partida, mais peso político do que algo que foi referendado. 

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A Europa a duas velocidades

por Pedro Correia, em 16.08.16

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 Rajoy, Sánchez, Rivera, Iglesias: Espanha está há 240 dias sem Governo

 

A 23 de Junho realizou-se no Reino Unido o histórico referendo que ditou o fim de 43 anos de integração do país no espaço comunitário europeu. Horas após o apuramento dos resultados, o primeiro-ministro britânico David Cameron, vendo a sua política integracionista derrotada nas urnas, anunciou que renunciaria àquelas funções.

Abriu-se um processo de sucessão interna no Partido Conservador, com vários candidatos. Venceu Theresa May, a 11 de Julho. Dois dias depois aceitou a  indigitação da Rainha para substituir Cameron, iniciando nessa mesma quarta-feira as funções de primeira-ministra. A 14 de Julho, foram conhecidos os nomes dos ministros e no dia 17  todos os restantes membros do elenco governativo estavam nomeados.

Apesar da turbulência política provocada pelo resultado do referendo, o processo de sucessão de Cameron concluiu-se em três semanas.


Entretanto Espanha mantém-se há oito meses - 240 dias, a completar amanhã - com um Executivo em mera gestão corrente. Um Executivo incapaz de produzir leis, sem efectiva fiscalização do Parlamento, incapacitado de elaborar o orçamento do Estado - instrumento essencial da acção governativa.

O desfecho das urnas foi inconclusivo nas legislativas de 20 de Dezembro: perante o impasse político a que se chegou, os complexos mecanismos constitucionais do Estado espanhol forçaram a realização a 26 de Junho de um segundo acto eleitoral, igualmente inconclusivo. E desde então os partidos continuam com o seu tacticismo calculista. Todos dizem rejeitar o cenário de uma terceira eleição, que de acordo com os prazos previstos na lei fundamental só poderia ocorrer em Dezembro, mas comportam-se como se não pensassem noutra coisa. Isto quando já se avizinham eleições autonómicas na Galiza e no País Basco, marcadas para 25 de Setembro, e se agrava a crise constitucional aberta pela minoria separatista da Catalunha.

O interesse partidário primeiro, o interesse nacional muito depois. Isto apesar de, na ausência de um Orçamento do Estado para 2017 aprovado até 15 de Outubro, Espanha arriscar uma pesadíssima multa de cinco mil milhões de euros da Comissão Europeia por incumprimento do défice e o fecho da torneira do Banco Europeu de Investimento, que em 2015 emprestou 12 mil milhões de euros a Madrid. Além do inevitável congelamento de 1,1 mil milhões de euros em fundos estruturais.

 

Duas Europas, duas velocidades. Duas maneiras opostas de fazer política.

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Afinal, House of Cards nasceu na Inglaterra

por José António Abreu, em 01.07.16

Os bastidores da luta pelo poder no Partido Conservador. Ou como manobrar para levar o favorito (Boris Johnson) a ganhar o referendo e depois desistir.

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Consequências da idiotia

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.07.16

“He has ripped the Tory party apart, he has created the greatest constitutional crisis in peacetime in my life,” (...) “He has knocked billions off the value of the savings of the British people.” - Lord Heseltine sobre o passageiro que mandou parar o táxi e agora se recusa a sair do veículo

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 29.06.16

Chris Patten, no El País: «Com o Brexit vimos o populismo de Donald Trump desembarcar na Grã-Bretanha.»

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A primeira vítima do Brexit

por Pedro Correia, em 28.06.16

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Pablo Iglesias: menos 1,1 milhões de votos seis meses depois

 

Durou pouco a euforia dos eurocépticos que festejaram a vitória do populismo abrindo garrafas de champanhe para festejar o Brexit em nome dos sacrossantos princípios soberanistas contra as forças do mal encarnadas na "burocracia de Bruxelas".

Passados cinco dias, os estragos provocados pelo referendo são já evidentes: Reino Unido sem governo, pulsões racistas à solta, o separatismo a ganhar terreno na Escócia, campanhas de subscrição pública para uma nova consulta popular sobre a Europa no mais curto prazo possível, tentativas desesperadas de protelar o divórcio decretado nas urnas por parte de alguns que mais o defenderam na campanha, os dois principais partidos mergulhados em convulsões internas, uma  crise política com inevitáveis consequências no plano financeiro da segunda maior economia europeia, uma fractura social de que só agora vislumbramos os primeiros contornos, uma sensação geral de irresponsabilidade que no fim só afastará ainda mais os cidadãos das instituições.

Um quadro de desorientação a que por enquanto só parece escapar o UKIP, que deu o tom e visibilidade máxima à campanha referendária para pôr fim à relação de 43 anos entre o Reino Unido e o espaço comunitário. O mesmo UKIP xenófobo que clama contra a absorção de "um milhão de imigrantes por década" no país e ao qual o neo-soberanista Pacheco Pereira acha muita graça: na última edição da Quadratura do Círculo o ex-líder parlamentar do PSD chegou a elogiar um slogan eurofóbico do partido de Nigel Farage: "Mais vale o buldogue inglês do que a couve de Bruxelas." Perante o óbvio e compreensível constrangimento de Jorge Coelho e Lobo Xavier, seus parceiros de painel.

 

Em política há males que vêm por bem. Acontece que o Brexit começou a funcionar como vacina para os europeus. Isso acaba de verificar-se em Espanha, onde os eleitores acorreram às urnas pela segunda vez em seis meses. Premiando o Partido Popular de Mariano Rajoy, inabalavelmente pró-europeu, ao qual confiaram mais 700 mil votos, e castigando o populismo de Pablo Iglesias, o Alexis Tsipras espanhol, que perdeu mais de 1,1 milhões de votos em relação ao anterior escrutínio apesar de contar nesta campanha com o que resta do outrora influente Partido Comunista, agora reduzido a estilhaços. O aventureirismo galopante de Iglesias, com as suas prédicas de tele-evangelista anti-sistema, foi duramente penalizado ao surgir desta vez abraçado nos palcos eleitorais à Esquerda Unida que sempre combateu a opção europeia de Espanha.

Os nacionalismos aliados ao populismo mais desbragado ameaçam produzir muitos estragos em pouco tempo num continente que pagou em sangue e cinzas o preço de dois conflitos mundiais que nele tiveram o epicentro. Dois conflitos provocados precisamente pelas mesmas receitas que alguns, à esquerda e à direita, hoje advogam irresponsavelmente no espaço público.

Estes pregadores que rasgam as vestes em nome da soberania nacional contra a União Europeia menosprezam o instinto de preservação dos povos, sedimentado pelas lições da história. No Reino Unido ficaram com o Brexit nos braços sem saber o que fazer com ele. Por cá, desenvolvem uma retórica delirante sobre o destino da Europa, que voltaria a incendiar-se se eles alguma vez saltassem das pantalhas televisivas para os centros de decisão política.

É deixá-los estar nas televisões e nos jornais, onde apesar de tudo produzem menos estragos.

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The perfect English fool

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.06.16

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We are passengers locked in the back of a mini-cab with a wonky sat nav driven by a driver who doesn’t have perfect command of English and going in a direction, frankly, we don’t want to go.” - Express, 16 de Abril de 2016

"The crucial thing is that we are in a situation that we can’t control and at the moment. It is though I have got into an unlicensed mini-cab, and the guy does not know which way to go, he does not speak very good English, and we are going into a destination I can’t control. That is exactly what is happening now with the EU Grant." - The Sun, 19 de Junho de 2016

"There is now no need for haste” - The Guardian, 24 de Junho de 2016

 

Imediatamente antes do referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, o ex-Mayor de Londres e principal protagonista da campanha anti-europeia transmitia aos eleitores a imagem de que os ingleses eram passageiros de um táxi sem licença, do qual não podiam sair e que eram conduzidos por um motorista que não sabia para onde ir e não possuía um domínio adequado do inglês. Depois, voltou a repetir essa imagem várias vezes, a últimas das quais à beira do dia decisivo.

Agora que os seus compatriotas lhe fizeram a vontade e votaram pela saída, tendo ele uma oportunidade de mandar parar o táxi de imediato e sair no primeiro apeadeiro, Boris vem dizer, dando a imagem típica do populista arrogante e chico-esperto, que não há pressa em sair do táxi, não se importando de continuar às voltas dentro de uma viatura que não sabe para onde vai e a ser conduzido por esse mesmo motorista que não sabe falar correctamente o seu idioma.

Se não houvesse melhor imagem do que esta do táxi, a que fica da salganhada do referendo inglês é a de que em matéria de questões europeias qualquer idiota pode ir a votos e ganhar, mesmo que no fim não se distinga de nenhum daqueles que guiam o táxi. It's the democracy, stupid

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Algumas observações sobre o Brexit

por Alexandre Guerra, em 24.06.16

1. De sublinhar a elevada taxa de participação, a maior desde 1992 em votações nacionais. Segundo a YouGov, o erro das projecções e a vitória do “Leave” ficou-se a dever a uma taxa de participação acima do expectável em zonas partidárias da saída do Reino Unido da UE.

 

2. Uma das consequências mais importantes deste referendo vai fazer-se sentir dentro do próprio Reino Unido e não tanto com a União Europeia, e tem a ver com o “choque” geracional. Os resultados são claríssimos em termos de “gap” geracional em relação à distribuição de votos. Confirmou-se aquilo que já era expectável: os mais jovens, na sua grande maioria, votaram para ficar no Reino Unido, enquanto os mais velhos seguiram a tendência oposta. Esta divisão tão evidente poderá vir a criar graves problemas sociais em Inglaterra, já que, mais do que visões diferentes sobre o papel do Reino Unido no mundo, estão em causa visões divergentes em relação à forma como os mais jovens e os mais velhos querem estar em sociedade. Estes mostram-se mais conservadores na manutenção dos seus direitos adquiridos e receosos à imigração. Os mais jovens procuram os seus sonhos numa europa mais unida e integrada. Durante o dia de hoje, seja nas redes sociais ou em artigos de jornais, já é possível sentir a crispação, a frustração e até alguma raiva que é demonstrada por eleitores mais jovens em relação aos mais velhos. Este é um dos muitos comentários que se podem ler, neste caso publicado no Financial Times e citado pelo The Guardian. E esclarecedor: “The younger generation has lost the right to live and work in 27 other countries. We will never know the full extent of lost opportunities, friendships, marriages and experiences we will be denied. Freedom of movement was taken away by our parents, uncles and grandparents in a parting blow to a generation that was already drowning in the debts of its predecessors.”

 

3. Quanto à Escócia, era de esperar que aquele país fosse aproveitar o momento para agitar a bandeira independentista. E, neste aspecto, a primeira-ministra Nicola Sturgeon não falhou e adoptou um discurso firme, deixando bem claro que o seu país quer fazer parte da União Europeia e falou na possibilidade de um referendo independentista. Foi hábil na forma como usou a desilusão com os resultados na Inglaterra para enfatizar as diferenças entre os dois países. No fundo, o que ela está a fazer é colocar a responsabilidade de um eventual referendo da Escócia nos ombros dos ingleses. Ou seja, a Escócia tentou seguir um caminho conjunto, mas foi a Inglaterra que não quis. É assim que as coisas estão a ser apresentadas pelos escoceses. Com este resultado, deu-se uma alteração muito substancial no contexto da relação entre os dois países sob a coroa da Rainha. A partir daqui, a Escócia tem toda a legitimidade para seguir o seu caminho. E, não é por acaso, que logo a seguir ao discurso de Nicola Sturgeon, o Partido Nacionalista Escocês (SNP) e a organização Mulheres para a Independência (WFI) começaram a receber pedidos de adesão e donativos para ajudar a realizar o referendo. Nicola Sturgeon avisou ainda que vai pedir à Comissão Europeia e aos Estados-membros reuniões com carácter de urgência para manifestar a sua vontade de adesão. Entretanto, várias personalidades e empresas que se têm manifestado sempre contra a independência Escócia, admitem agora rever as suas posições.

 

4. Mas, talvez aquele que possa ser o problema mais complicado para os líderes ingleses, e que está a ser muito pouco falado, tem a ver com o futuro de Londres, uma realidade completamente à parte do resto do Reino Unido. Na “city”, tal como na Escócia, os resultados foram igualmente expressivos e claros a favor do “Remain”. Ora, isto vai criar uma questão política muito complicada, já que é a “city” o elo de ligação entre o Reino Unido e a União Europeia. Ou seja, na prática, é pela “city” e por tudo o que ela representa, e não tanto pelo “countryside” de Inglaterra, que este assunto ganha tanta relevância histórica. Aliás, Sadiq Khan, que percebeu perfeitamente isso, já passou uma mensagem de tranquilidade a todos os europeus que vivem naquela cidade, dizendo que eles são bem-vindos e que não vão sofrer consequências com o resultado deste referendo. Dirigiu-se também às empresas e investidores, num tom tranquilizador e, de certa forma, deixando a ideia de que se há-de arranjar uma solução que contorne eventuais restrições ao investimento e economia.

 

5. Perante tudo isto, é particularmente significativo que Nicola Sturgeon e Sadiq Khan tenham falado hoje, algo que poucos analistas têm mencionado, mas que é muito, mas muito importante. Sturgeon disse “que existe claramente uma causa comum” entre a Escócia e Londres. Entretanto, já começou nas redes sociais a campanha #Scotlond, onde precisamente se apela à permanência conjunta da Escócia e de Londres na União Europeia.

 

6. No que diz respeito à cena política inglesa, estamos agora na fase da mudança de lideranças. A decisão de David Cameron foi acertada, tendo o cuidado de sublinhar que não havia pressa, mas abrindo caminho para uma nova liderança. Naturalmente, que Boris Johnson se coloca na linha dianteira, no entanto, tem sido prudente nas suas declarações e, para já, não deu sinal de disputa pelo poder. Quanto a Jeremy Corby, que nunca foi propriamente um líder muito popular, poderá ter os dias contados à frente dos trabalhistas. A par de Boris Johnson, Nigel Farage, líder do UKIP, é o outro dos grandes vencedores deste referendo.

 

7. Chamo a atenção para o excelente e oportuno discurso do Governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney. Além do conteúdo da sua mensagem, garantindo, entre outras coisas, a liquidez suficiente no sistema financeiro, foi sobretudo o seu tom pausado e firme que mais fez lembrar a estóica e heróica tradição "churchilliana". Aliás, logo a seguir, na CNN, Richard Quest dizia que não se lembrava de ver o Governador do Banco de Inglaterra a reagir desta maneira a um assunto.

 

8. A posição da União Europeia, ao dar o “recado” a Londres para sair o mais rápido possível, revela, pela primeira vez em muito tempo, alguma unidade e firmeza. Até Martin Schulz concorda que prolongar este processo é prejudicial para os interesses europeus. E perante esta firmeza da UE, que pretende “arrumar” rapidamente o assunto Reino Unido, percebe-se a posição de Boris Johnson, quando agora vem dizer que “não há pressa” neste processo. Pois claro, já que Jonhson não tem interesse que o artigo 50º do Tratado de Lisboa seja rapidamente aplicado, pelo menos enquanto não chegar a primeiro-ministro através de eleições, porque tem a noção de que o que vem aí não será o Paraíso na Terra, e quando se começarem a sentir os efeitos práticos da saída do Reino Unido da UE (hoje já se sentiram com a queda da libra e dos mercados) os adeptos do “Leave” podem esmorecer o seu entusiasmo. O jornal The Independent já referia hoje que o processo acelerado iria ser “painful” para a Inglaterra.

 

9. Hoje, Angela Merkel tocou no ponto essencial ao dizer que a ideia do projecto europeu é uma ideia de paz. As pessoas esquecem-se de que há setenta anos os povos europeus matavam-se uns aos outros no coração do Velho Continente. É preciso ter bem a noção de que em termos históricos, a Europa nunca conheceu tanta prosperidade e paz como no período do projecto europeu no pós-II GM. Hoje em dia, muita gente esquece essa perspectiva ampla e alargada, sobretudo os líderes europeus, que passam o dia-a-dia em discussões bizantinas, praticamente a contar números e a olhar para relatórios de Excel. Houve uma dimensão política, humanista e social que se perdeu na governança europeia, mas mesmo assim a Europa continua a ser um farol de liberdade e prosperidade.  

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Um muro no Canal da Mancha

por Pedro Correia, em 24.06.16

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Por margem tangencial, os eurofóbicos venceram. Prevaleceu a campanha do Brexit, assente no ódio ao estrangeiro numa sociedade que só em 2015 recebeu cerca de 330 mil imigrantes e no medo de que a "burocracia europeia" adulterasse a ´"singularidade" britânica - num país que mantém Isabel II como chefe do Estado, conserva a libra esterlina como divisa, tem garantida a City como uma das principais praças-fortes financeiras mundiais e ficou à margem do Espaço Schengen. Não por acaso, Marine le PenDonald Trump foram os primeiros a saudar o resultado no referendo do Reino Unido, que impõe a retirada do país do espaço comunitário. Nunca antes tinha acontecido: um Estado sair pelo seu pé da União Europeia, que assim se restringe de 28 a 27 membros.

É sempre mais fácil congregar os eleitores recorrendo a argumentos negativos, como as manchetes dos dois principais tablóides britânicos - The Sun e Daily Mail, com mais de três milhões de exemplares vendidos por dia - foram demonstrando ao longo de meses nas suas histéricas manchetes contra o "perigo" europeu. Tudo valeu nesta espécie de jornalismo transformada em trincheira de guerra - até inventar um suposto apoio da Rainha ao Brexit.

Por amarga ironia, prevaleceu o espírito da aldeia do Astérix entre os ingleses, que preferem prosseguir o caminho orgulhosamente sós, erguendo um muro metafórico no Canal da Mancha - os escassos 33 quilómetros que separam a principal ilha britânica do continente.

 

Não adianta iludir a questão: a retirada do Reino Unido - segunda maior economia do espaço comunitário, - responsável por 17,6% do PIB europeu - constitui o maior desaire até hoje infligido ao sonho dos pioneiros da UE, que asseguraram as seis décadas de maior paz e estabilidade registadas na antiga e dilacerada Europa. Mas a comunidade europeia existia antes da integração britânica, entre 1957 e 1973, e continuará sem ela. De algum modo, o Brexit agora consumado acaba por dar razão ao polémico gesto do Presidente De Gaulle, que em 1963 e 1967 impôs o veto francês à integração de Londres no mercado comum europeu.

Sendo má notícia para a Europa, o resultado deste referendo é sobretudo uma péssima notícia para o Reino Unido - que nunca esteve tão desunido como agora. Escoceses e irlandeses do norte, ao contrário dos ingleses e galeses, votaram pela manutenção do Estado britânico na UE. O Brexit vai reacender a pulsão independentista escocesa e contribuirá para aproximar o Ulster da República da Irlanda, uma das economias em maior expansão do espaço comunitário.

 

David Cameron, que já anunciou a  demissão do cargo de primeiro-ministro, é o maior derrotado deste processo em que pagou bem cara a cedência ao populismo do UKIP de Nigel Farage, principal força motriz do Brexit. Ao convocar o referendo, por sua livre iniciativa, Cameron visava solucionar um problema interno no Partido Conservador, onde a corrente eurocéptica sempre foi muito forte: afinal, em vez de apagar a fogueira, ateou várias outras.

É também uma derrota para o maior partido da oposição: o seu líder, Jeremy Corbyn, só nos últimos dias saiu do silêncio a que se tinha remetido durante a campanha, após o assassínio da deputada trabalhista Jo Cox, grande activista eurófila, com uma ambígua e relutante declaração pró-Europa. Não custa prever que passe a ser ainda mais contestado nas fileiras do partido.

 

O vencedor é Farage. Do outro lado da Mancha, Marine já festeja com champanhe: vai seguir-se um referendo em França se a Frente Nacional ganhar no próximo ano a corrida ao Palácio do Eliseu - um cenário que deixou de ser mera especulação teórica para se tornar cada vez mais plausível.

Por cá, também uns quantos eurofóbicos festejam, cheios de pressa de dizer "adeus à Europa". Como se não vivessem neste momento no Reino Unido cerca de 500 mil portugueses. Como se pudéssemos, com uma cruzinha num boletim de voto, despedir-nos da história e virar costas à geografia. Somos europeus, não há volta a dar. A questão é se preferimos uma Europa com Angela Merkel, Matteo Renzi e Manuel Valls ou uma Europa dirigida por Farage, Le Pen, os xenófobos da Liga Norte italiana ou Frauke Petry, que lidera a Alternativa para a Alemanha. Cada um por si e o diabo por todos.

Dizem alguns, iludidos, que esta é a "nova" Europa. Mas não. Esta é a Europa mais velha que existe. A do ódio fratricida que incendiou o continente durante séculos e conduziu às duas maiores catástrofes que a história registou.

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Os votos da imprensa britânica

por Pedro Correia, em 23.06.16

É curioso avaliar as linhas editoriais dos jornais pelas primeiras páginas da imprensa britânica de hoje. Nos tablóides, o Brexit ganha por maioria absoluta. Com o Sun a soltar um berro patrioteiro, chamando "Dia da Independência" a esta quinta-feira em que 46 milhões de eleitores são chamados a escolher se querem o Reino Unido dentro ou fora da União Europeia.

O Daily Mail, outro diário eurofóbico, estampa em letras garrafais quatro supostas "mentiras" propaladas pelos parceiros comunitários de Londres. E o Daily Express, sem vocação nem paciência para subtilezas, transforma toda a capa num grito de guerra favorável à saída.

Só o Mirror, único tablóide conotado com a esquerda trabalhista, navega na direcção contrária - e com a mesma falta de subtileza. Comparando o Brexit a um gigantesco "salto no escuro" ilustrado da forma possível, com um vertiginoso abismo que poderia servir de ilustração ao Inferno de Dante - que lá no jornal talvez alguém conheça, da selecção brasileira e do campeonato alemão.

 

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Na chamada imprensa "séria", que por vezes se leva demasiado a sério sem justificação para tal, o tom é mais comedido. Mas o espírito de trincheira está lá, embora envolto em rodriguinhos semânticos e gráficos.

O vetusto Times puxa por uma manchete supostamente anódina mas onde o verbo escolhido é precisamente leave [sair], palavra-chave dos eurofóbicos. Opção semelhante à do Guardian, embora enfileirando na facção oposta: no título principal deste diário de centro-esquerda lá surge a palavrinha stay, que funciona como lema da militância eurófila.

Um pouco mais escondido, mas ainda assim em destaque, é o remain que o Independent exibe no segundo título mais destacado da sua capa. Nada a ver com a histeria do Mirror, claro. Mas um leitor atento percebe que também aquele título tão independente prefere afinal manter o reino de Sua Majestade ancorado na União Europeia.

O mais sóbrio e contido é o Financial Times, que tem uma linha editorial pró-Europa mas não confunde jornalismo com militância política. Talvez esteja fora de moda, neste tempo em que a lógica das chamadas "redes sociais" infecta os conteúdos informativos, mas ainda não foi inventado modelo melhor.

Por isso, e sem desprimor para os demais, é a este periódico que tiro o meu chapéu. De coco.

 

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Dez reflexões sobre o referendo

por Pedro Correia, em 22.06.16

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1

Vai haver um referendo amanhã no Reino Unido, vital para o destino europeu. Ninguém diria, vendo a televisão portuguesa – com destaque para o chamado “serviço público”. A avaliar pelos vários canais que confundem notícias com futebol, e confundem futebol com as mais ocas futilidades, o que importa é o penteado de Ronaldo, o sorriso de Ronaldo, a mãe de Ronaldo, o filho de Ronaldo, o penálti falhado de Ronaldo ao poste.

 

2

Também amanhã a Europa arrisca ver uma bola embater no poste. Há dois anos estava em causa a eventual saída da Grécia, que vale menos de 3% do PIB da União Europeia. A dimensão do problema é agora muito mais vasta: estamos perante a possível retirada do Reino Unido, segunda economia europeia e  terceiro maior contribuinte líquido do orçamento comunitário. Basta isto para se perceber que o problema não é “deles” – é também nosso. E de uma amplitude muito superior à da improvável derrota da selecção portuguesa esta tarde frente à da Hungria.

 

3

Durante décadas habituámo-nos a olhar para a Europa como a solução. Hoje sabemos que a Europa começa por ser o maior dos problemas pela ausência de respostas institucionais face ao tropel dos desafios. Enquanto este dilema não encontrar resposta todos os outros permanecerão em aberto – crise económica, crise demográfica, crise migratória, crise de modelo social, crise de segurança. Porque as dificuldades são de tal forma avassaladoras que exigem soluções à escala continental para encontrar antídoto eficaz. "As grandes questões do nosso tempo transcendem as fronteiras nacionais", lembrou o Guardian no artigo de fundo em que justificava a sua opção editorial eurófila. Nesta matéria todas as bolas têm embatido no poste.

 

4

Arrumemos ideias. É fundamental que o Reino Unido permaneça na União Europeia tal como há dois anos era fundamental que a Escócia permanecesse no Reino Unido. Não tanto porque Londres seja a maior praça financeira mundial, metade das trocas comerciais britânicas tenha como origem ou destino o espaço comunitário, oito dos dez principais parceiros económicos do Reino Unido pertençam à UE e os súbditos de Isabel II contribuam para 17,6% do PIB europeu. Mas sobretudo por motivos políticos: tal como uma suposta Escócia independente instigaria o rastilho nacionalista, inaugurando uma sucessão de reivindicações soberanistas por toda a Europa, também a vitória do Brexit no referendo de amanhã abriria um péssimo precedente, como se a unidade europeia tivesse a consistência de uma porta giratória: não por acaso, Marine le Pen já se apressou a reivindicar um referendo em França para 2017. Hoje os escoceses estão na primeira linha do apoio à manutenção do Reino Unido no espaço comunitário. Eles bem sabem de que lado sopram os ventos da economia: a cada segundo exportam 38 garrafas de scotch - um terço das quais, livres de barreiras alfandegárias, se destinam aos restantes países da UE.

 

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Tal como sempre estive convencido de que os nacionalistas escoceses perderiam o referendo de 2014 e que a eleição plebiscitária na Catalunha se saldaria num claro recuo do separatismo, julgo que o Brexit será derrotado amanhã nas urnas pelos eleitores, mais racionais nas suas escolhas do que as manchetes do jornalismo tablóide deixam antever ao trocarem o histórico pelo histérico.

 

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Neste referendo, os eurófilos mobilizam-se por valores – desde logo o da integração europeia, que por estes dias se joga muito para além dos estádios franceses anfitriões do campeonato de futebol. É a concretização do ideal concebido pelos artífices do maior período de paz e prosperidade já conhecido no Velho Continente – homens como Churchill, Adenauer, Spaak, De Gasperi e Monnet. Um ideal em boa parte tornado realidade: com apenas 7% da população do globo, a Europa produz cerca de 25% da riqueza mundial e sustenta 50% das despesas de carácter social do planeta. Os eurofóbicos, pelo contrário, mobilizam-se pela negativa contra os "eurocratas" dispostos a impor-lhes "passaporte e hino", segundo alegou o Sun num texto em que recomendava o sim ao Brexit. Hoje não hesitam em recorrer à mais rançosa retórica xenófoba, insurgindo-se contra a livre circulação de pessoas e bens. Amanhã não tardarão a insurgir-se contra a livre circulação de ideias.

 

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Aqueles que um pouco por todo o território britânico repetem o estribilho de que “a Europa suga-nos dinheiro e manda-nos imigrantes” esquecem que o próprio país é fruto da imigração – começando pelos saxões e pelos normandos que na Idade Média iniciaram a configuração étnica e cultural desse mosaico tão multifacetado que é hoje o Reino Unido da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Esquecem também que nunca a soberania de Londres esteve em causa no processo de integração: os britânicos mantêm-se fora do sistema monetário europeu e do Espaço Schengen, conservam a Rainha no trono e no hino, continuam a pagar as contas em libras esterlinas e até têm três selecções a disputar o Euro 2016 (Inglaterra, Gales e Irlanda do Norte), privilégio que não é reconhecido a nenhum outro Estado.

 

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A campanha referendária que agora termina foi marcada por uma tragédia: o assassínio da jovem deputada trabalhista Jo Cox, firme defensora da manutenção do vínculo europeu do Reino Unido. As cerimónias fúnebres, com a campanha interrompida, constituíram um momento de compreensível consternação nacional, com o primeiro-ministro David Cameron a prestar um comovido tributo à malograda activista eurófila e o líder da oposição trabalhista, Jeremy Corbyn, a expressar um oportuno apelo à decência no espaço comunicacional, conspurcado pelo ódio à solta nas chamadas redes sociais: na política não pode valer tudo.

 

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A campanha trouxe no entanto algumas notícias positivas. Eis a primeira: a mobilização das gerações mais jovens pela causa europeia. Um eleitor médio britânico com mais de 43 anos tende a ser eurofóbico, enquanto os restantes já se habituaram, em grau crescente, a encarar a UE como casa comum de 500 milhões de pessoas num continente que antes da integração sempre foi devastado pelos demónios da tirania e da guerra. Não deixa de ser irónico que os jovens tenham aprendido esta lição que os mais velhos persistem em ignorar: a Europa é uma construção política demasiado frágil para podermos adormecer confiados em sonhos de paz perpétua. Os ingleses, que combateram Filipe II, Napoleão e Hitler, deviam saber isso melhor que ninguém.

 

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Outra boa notícia que este referendo no Reino Unido já trouxe: a mobilização dos intelectuais eurófilos, que pareciam ausentes em parte incerta. Figuras tão díspares como o cientista Stephen Hawking, os escritores John Le Carré, Julian Barnes e J. K. Rowling, as actrizes Emma Thompson, Kristin Scott Thomas e Keira Knightley, o cineasta Ken Loach e os historiadores Brendan Simms e Timothy Garton Ash, entre muitas outras, pronunciaram-se a favor do Remain – isto é, querem o reino unido à Europa, não desunido. “O meu receio é que a vitória do Brexit produza uma separação geral e que, com o decorrer do tempo, a Europa volte a deparar-se com os seus velhos e aterradores fantasmas”, observou Ian McEwan, outro escritor eurófilo. Vale a pena reflectir neste testemunho ontem publicado no El País. Para que a Europa deixe de falhar penáltis e de marcar golos na própria baliza: são estes os lances que realmente interessam.

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Brexit, um debate pouco inteligente

por Alexandre Guerra, em 08.06.16

Quando morreu Ralf Dahrendorf, faz sete anos no próximo dia 17, escrevi que ele era uma "síntese em si mesmo", sendo uma das poucas pessoas que se conseguia definir ao mesmo tempo como alemão e como britânico. É importante relembrar que Dahrendorf era cidadão britânico e membro da Câmara dos Lordes desde 1988, mas nascera em Hamburgo, a 1 de Maio de 1929. Em tempos perguntaram-lhe numa entrevista que cidade ele considerava a sua casa e a resposta foi clara: "Sou um londrino." 

 

Mas Dahrendorf combinou sempre o liberalismo político com uma visão social da economia. O sociólogo político, que entre 1974 e 84 foi presidente da London School of Economics and Political Science, era ainda um europeísta sincero ao mesmo tempo que via no eixo atlântico uma necessidade natural. Entre 1987 e 1997 foi decano do St. Antony's College da Universidade de Oxford. Acima de tudo, Dahrendorf era um homem da democracia política, enquanto veículo para se alcançar a liberdade. Aliás, já na altura, citei um artigo da Teresa de Sousa no Público em que referia que o  "amor [de Dahrendorf] pela liberdade talvez o tenha aprendido nos anos da sua juventude, quando teve de conviver com dois totalitarismos. Disse muitas vezes que os dois anos mais importantes da sua vida tinham sido 1945 e 1989".

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Olivença? Não conheço.

por Ana Vidal, em 05.06.16


Acabo de chegar de Inglaterra. Enquanto os portugueses estão preocupados com as sanções da UE, temendo a expulsão (como se isso alguma vez fosse acontecer, qualquer que seja o défice) desta confraria que já ninguém sabe exactamente o que é nem para onde caminha, os ingleses estão mortos por sair dela. Muitos deles, muitos mais do que se pensa. Cameron farta-se de fazer discursos inflamados - aflitos, diria mesmo - apelando ao Sim no referendo de dia 23, sinal claro de que não é nada improvável uma vitória do Brexit. Até o funcionário do aeroporto que me despejou a mala inteira numa mesa (por causa de um maldito creme de 30 ml que eu não pus no maldito saquinho de plástico) e revistou tudo com o ar enfadado de quem considera pertencer a uma casta superior, me disse, antipático: "Da próxima vez que cá vier, esse documento que tem na mão já não lhe vai servir de nada". Fingi não ter percebido e perguntei-lhe se o meu BI estava ilegível ou fora de prazo. Respondeu-me, no mesmo tom seco, "Não, mas vai precisar de um passaporte porque nós já não estaremos na UE. Não precisamos da Europa para sabermos quem somos." Respondi-lhe que nós, portugueses, também não. E acrescentei, de nariz empinado - apesar do pouco edificante espectáculo dos meus soutiens e outras intimidades espalhados na mesa entre nós - "Talvez o senhor não saiba que Portugal tem as fronteiras mais antigas da Europa," (eu sei que não é exactamente assim, mas cheguei para ele) "mas, sabe, achamos que a Europa precisa de nós". O resultado foi uma cara ainda mais antipática e algum tempo extra de inspecção aos meus pertences, mas saí dali consolada.

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(Fotografia - Chema Madoz)

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Brexit.

por Luís Menezes Leitão, em 01.06.16

Sempre me considerei eurocéptico, mesmo quando políticos, como Pacheco Pereira ou Freitas do Amaral, que hoje dizem da União Europeia o que Maomé não disse do toucinho, faziam intensamente campanha pela ratificação do Tratado de Maastricht, como é óbvio sem referendo, porque as elites iluminadas nunca querem ouvir os cidadãos. Para mim a União Europeia nunca passou de um processo para conseguir que os Estados pequenos fossem absorvidos pelos grandes, e que estes por sua vez se subordinassem ao eixo franco-alemão. Neste momento, esse objectivo foi plenamente conseguido. Quando o Presidente da República, num verdadeiro acto de vassalagem, vai a Berlim pedir que não haja sanções a Portugal, fica-se a saber quem verdadeiramente manda na Europa e como as instituições europeias não passam neste momento de um verbo de encher.

 

É por isso compreensível que o Reino Unido neste momento esteja a equacionar seriamente a saída da União Europeia. A acontecer, não será novidade nenhuma. A Gronelândia também já saiu num referendo, levando a que nessa altura a então CEE tivesse perdido metade do seu território. Mas a Gronelância é uma pequena economia, cuja saída não teve grande impacto. Já o Reino Unido é a quinta economia do mundo e a sua saída terá um impacto devastador, não apenas para a Europa, mas também para o mundo em geral. Mas apesar disso, o povo britânico está profundamente dividido, com os jovens a encarar seriamente a saída, enquanto que os mais velhos optam pela continuação.

Pessoalmente, se fosse britânico, não votaria pela saída do Reino Unido da União Europeia. Em primeiro lugar, o Reino Unido conseguiu um opt-out numa série de matérias, incluindo a não participação no euro, o que leva a que a participação na União Europeia lhe seja mais benéfica do que prejudicial. Se saísse, ficaria na mesma posição da Noruega, que tem que adoptar todas as directivas europeias para comerciar com o espaço europeu, mas não participa no processo de decisão. Por outro lado, há partes do país, como a Escócia, que são fortemente contrárias à saída, pelo que, a concretizar-se esta, poderia conduzir a breve trecho à dissolução do país.

 

Mas o povo britânico é muito cioso da sua independência, e a verdade é que a União Europeia está há muito tempo transformada numa organização que só serve à Alemanha, que goza calmamente dos seus excedentes, enquanto o resto da Europa todos os dias definha. É por isso fácil à campanha do Brexit continuar a apresentar o estatuto especial britânico como um caso de dominação, como se vê no cartoon abaixo.

O que se deve, por isso, perguntar é o seguinte: Se os ingleses, apesar de todo o estatuto especial que conseguiram, se vêem como meros vassalos europeus, o que dirão então os portugueses? Seja qual for o resultado do referendo, é bom que o mesmo sirva para se perceber que a União Europeia tem que levar uma grande volta. Como está, não pode continuar.

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A Rainha

por Pedro Correia, em 20.04.16

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«A dissimulação é a ciência dos reis.»

Cardeal Richelieu

 

Quando ela ascendeu ao mais alto cargo do seu país, José Estaline era ainda o senhor absoluto da Rússia vermelha. Nos Estados Unidos, mandava Harry Truman, então sem saber o que fazer dos soldados atascados no inferno da Coreia. E na Grã-Bretanha o primeiro-ministro era Winston Churchill, herói da guerra.

 

Ela viu tudo, ouviu todos.

Quando se sentou no trono herdado de seu pai, Mao Tsé-Tung mandava na China continental, Chiang Kai-Shek pontificava na Formosa, Hirohito mantinha-se como imperador do Japão mesmo após a rendição do seu país aos pés do general Douglas MacArthur. Havia nessa altura outros imperadores no mundo: Hailé Selassié na Etiópia, o xá Reza Pahlevi no Irão. As monarquias eram em número bem superior ao actual: havia-as da Grécia (com o rei Paulo) ao Egipto (com o rei Faruk). E até na Líbia do rei Idris, que um tal coronel Kadhafi viria a derrubar 17 anos mais tarde, em 1969.

 

Nesse mês de Fevereiro de 1952, quando a jovem Isabel se tornou Rainha da Grã-Bretanha, com apenas 25 anos, o planeta era governado por figuras que hoje têm lugar garantido nos livros de História: Sukarno na Indonésia, Perón na Argentina, Tito na Jugoslávia, Franco na Espanha, Nehru na Índia, Ben-Gurion em Israel, Getúlio Vargas no Brasil, Salazar em Portugal.

Conheceu muitos deles, numa sucessão de encontros ao longo de 56 anos – tempo suficiente para ter visto aparecer e desaparecer Elvis Presley, os Beatles e os Pink Floyd.

Coexistiu com seis Papas (Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco), nove presidentes franceses (Vincent Auriol, René Coty, De Gaulle, Pompidou, Giscard d’Eistang, Mitterrand, Chirac, Sarkozy e Hollande), oito chanceleres alemães (Adenauer, Erhard, Kiesinger, Willy Brandt, Helmut Schmidt, Kohl, Schroeder e Angela Merkel), 12 presidentes norte-americanos (Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho e Obama). E 18 chefes do Estado brasileiros – de Getúlio a Dilma. E nove presidentes de Portugal (Craveiro Lopes, Américo Thomaz, Spínola, Costa Gomes, Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa) e 18 primeiros-ministros portugueses, da ditadura ao actual regime constitucional, passando pelo período revolucionário, onde em menos de dois anos houve seis Executivos.

 

Sábia, serena, sibilina, Isabel II foi reinando ao longo de todo este tempo de convulsões no mundo.
Assistiu a guerras no Congo, no Vietname, no Biafra, no Médio Oriente e nos Balcãs. Testemunhou a descolonização de África, a chegada do homem à Lua, o desmoronar do bloco soviético. Viu as monarquias chegarem ao fim em países tão diferentes como o Iraque, o Afeganistão e o Nepal. E serem restauradas noutros, como em Espanha e no Camboja.
Trabalhou com 12 primeiros-ministros – oito conservadores (Churchill, Anthony Eden, Harold MacMillan, Alec Douglas-Home, Edward Heath, Margaret Thatcher, John Major e David Cameron) e quatro trabalhistas (Harold Wilson, James Callaghan, Tony Blair e Gordon Brown).

 

Churchill não escondeu a ternura paternal que sentia pela jovem monarca. Ela retribuía-lhe a simpatia, sem quebrar o rígido dever de imparcialidade que os costumes do reino lhe impõem, mas não falta quem garanta que o primeiro-ministro favorito dela foi Harold Wilson, com os seus ares de filósofo de cachimbo na swinging London dos anos 60. E que Thatcher terá sido a líder do governo que mais detestou. O que não a impediu de comparecer no seu funeral de Estado, em Abril de 2013.

A verdade sobre isto e tudo o resto não será apurada num livro de memórias com selo real. Isabel II, a monarca britânica há mais tempo no trono, nunca escreverá esse livro.

 

Num mundo em mutação, onde tudo passa, tudo se esgota e tudo se esquece, ela é uma referência de estabilidade. Lembramo-nos dela desde sempre, são já poucos os que conheceram outro chefe do Estado no Reino Unido. O tempo dela foi sulcado por todas as modas – do chapéu de coco ao punk, passando pela mini-saia de Mary Quant.

Só ela nunca passou de moda.

 

O que sente, o que pensa, o que esconde?

Só ela sabe: por detrás do suave sorriso protocolar, subsiste a esfinge nesta monarca que ninguém tem a ilusão de conhecer.

"A dissimulação é a ciência dos reis", dizia o cardeal Richelieu. Uma legenda que bem se aplica a Isabel II, Rainha da Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Jamaica, Barbados, Bahamas, Granada, Papuásia-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e as Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda, e São Cristóvão e Névis.

 

Isabel II celebra amanhã 90 anos.

Texto reeditado e actualizado

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Sim, Senhor Ministro (1)

por Pedro Correia, em 24.02.16

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Sir Humphrey Appleby - Bruxelas vai introduzir um bilhete de identidade europeu, para uso de todos os cidadãos da CEE. O Ministério dos Negócios Estrangeiros vai aceitar para poder negociar a montanha de manteiga, o lago de vinho, o oceano de leite, a guerra do carneiro e o cheirete a bacalhau. O primeiro-ministro, como é lógico, quer que seja o senhor a apresentar [aos ingleses] a nova legislação.

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Eu?!

Sir Humphrey - Sim. O senhor é conhecido como pró-europeu e, a longo prazo, esta legislação poderá ser benéfica para a nossa administração.

Ministro - Boa ideia, não acham?

Frank Weisel, conselheiro político - Boa ideia?!!

Ministro - Boa ideia?!!

Sir Humphrey - Não é boa ideia?

Frank - É um suicídio político!

Ministro - Obrigar os ingleses a usar um documento de identificação! Vão dizer que estou a introduzir um estado policial. Foi para isto que combatemos em duas guerras mundiais?!

Sir Humphrey - Vendo bem, ministro, isto é pouco mais do que uma carta de condução.

Ministro - É o último prego no meu caixão!

Frank - Porque não tratam os Negócios Estrangeiros disto?

Sir Humphrey - Foi  essa a sugestão inicial do primeiro-ministro. Mas os Estrangeiros disseram que era questão para o Interior. E o Interior disse que se tratava de um assunto administrativo e o primeiro-ministro acabou por concordar.

Frank - Andam todos a passar a batata quente!

Ministro - Não admira, se vai explodir.

Sir Humphrey - Receio que esta venha a ser a último acção deste departamento: um excelente cavalo de batalha para os eurocépticos.

Ministro - Os Estrangeiros não vêem o mal que isto vai causar ao ideal europeu?

Sir Humphrey - Claro que vêem. Por isso mesmo é que procedem desta maneira.

Ministro - Os Negócios Estrangeiros não são pró-europeus?!

Sir Humphrey - Sim e não... se me permite a expressão. São pró-europeus porque, no fundo, são anti-europeus. A nossa administração pública sempre fez tudo para que o Mercado Comum [europeu] não funcionasse. Por isso entrámos nele.

Ministro - De que é que você está a falar?!

Sir Humphrey - Senhor ministro, há pelo menos 500 anos que a Inglaterra tem a mesma política no plano internacional: criar uma Europa desunida. Por isso nos aliámos aos holandeses contra os espanhóis, aos alemães contra os franceses, aos franceses contra os alemães e os italianos. Dividir para reinar. Porque haveríamos de alterá-la agora se tem resultado tão bem?

Ministro - Isso é história antiga!

Sir Humphrey - Isto é gestão corrente. Para destruir tudo tínhamos que entrar para lá. Tentámos destruir de fora, mas não resultou. Agora que estamos dentro podemos transformar aquilo numa bagunça. Pôr alemães contra franceses, franceses contra italianos, italianos contra holandeses. Os Negócios Estrangeiros estão satisfeitíssimos. É como nos velhos tempos.

Ministro - Mas estamos empenhados no ideal europeu...

Sir Humphrey - [Ri-se]

Ministro - Então porque é que apoiamos a entrada de novos Estados-membros?

Sir Humphrey - Pela mesma razão. É como na ONU. Quantos mais países tiver, mais zaragatas haverá, mais inútil se torna.

Ministro - Que cinismo terrível!

Sir Humphrey - Nós chamamos-lhe diplomacia, senhor ministro.

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"What we know about fascists is that they need to be defeated."

Um dos melhores discursos de que há memória na Câmara dos Comuns, aplaudido por parlamentares em todas as bancadas. John Crace, no Guardian, chamou-lhe "um Sermão da Montanha aos trabalhistas". Foi pronunciado quinta-feira por Hilary Benn, ministro-sombra dos Negócios Estrangeiros britânico, em colisão com a tese do líder do seu Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, opositor da intervenção de Londres contra as hordas totalitárias do chamado Estado Islâmico na Síria.

Sessenta e seis deputados trabalhistas contrariaram a orientação de Corbyn, votando ao lado do Governo conservador de David Cameron para autorizar os bombardeamentos aéreos britânicos aos islamofascistas do Daesh. A votação no Parlamento britânico foi categórica: 397 votos a favor, 223 contra.

No Reino Unido ou em qualquer outro país, esta é a única forma inteligente e patriótica de fazer oposição: o combate ao Governo termina onde começa a defesa do bem comum sem miopias partidárias e do interesse nacional sem espírito de trincheira.

Hilary Benn - filho de Tony Benn, ex-ministro e ex-deputado que chegou a liderar a ala esquerda do Labour - percebeu as lições da história no país que em 1939 com tanta coragem se ergueu contra os esbirros de Hitler e Mussolini. Resta saber se Corbyn, tão louvado por algumas boas almas lusas, percebeu também.

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O radicalismo trabalhista.

por Luís Menezes Leitão, em 14.09.15

Depois do desastre que foi a liderança de Ed Miliband, o Red Ed, cuja viragem à esquerda conduziu os trabalhistas a uma derrota histórica, esperava-se que os militantes do partido trabalhista ganhassem algum juízo e escolhessem um líder credível que os conduzisse novamente à vitória eleitoral. Mas não. Foram escolher Jeremy Corbyn, defensor de uma esquerda ainda mais radical, que propõe estabelecer o desarmamento inglês, um aumento colossal de impostos, e sucessivas impressões de moeda. Se alguma vez fosse eleito, o Reino Unido voltaria num ápice aos desastrosos anos 70 do século passado. Como David Cameron acaba de escrever no twitter: "The Labour Party is now a threat to our national security, our economic security and your family's security". Está tudo dito.

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A Rainha

por Pedro Correia, em 09.09.15

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«A dissimulação é a ciência dos reis.»

Cardeal Richelieu

 

Quando ela ascendeu ao mais alto cargo do seu país, José Estaline era ainda o senhor absoluto da Rússia vermelha. Nos Estados Unidos, mandava Harry Truman, então sem saber o que fazer dos soldados atascados no inferno da Coreia. E na Grã-Bretanha o primeiro-ministro era Winston Churchill, herói da guerra.

 

Ela viu tudo, ouviu todos.

Quando se sentou no trono herdado de seu pai, Mao Tsé-Tung mandava na China continental, Chiang Kai-Shek pontificava na Formosa, Hirohito mantinha-se como imperador do Japão mesmo após a rendição do seu país aos pés do general Douglas MacArthur. Havia nessa altura outros imperadores no mundo: Hailé Selassié na Etiópia, o xá Reza Pahlevi no Irão. As monarquias eram em número bem superior ao actual: havia-as da Grécia (com o rei Paulo) ao Egipto (com o rei Faruk). E até na Líbia do rei Idris, que um tal coronel Kadhafi viria a derrubar 17 anos mais tarde, em 1969.

 

Nesse mês de Fevereiro de 1952, quando a jovem Isabel se tornou Rainha da Grã-Bretanha, com apenas 25 anos, o planeta era governado por figuras que hoje têm lugar garantido nos livros de História: Sukarno na Indonésia, Perón na Argentina, Tito na Jugoslávia, Franco na Espanha, Nehru na Índia, Ben-Gurion em Israel, Getúlio Vargas no Brasil, Salazar em Portugal.

Conheceu muitos deles, numa sucessão de encontros ao longo de 56 anos – tempo suficiente para ter visto aparecer e desaparecer Elvis Presley, os Beatles e os Pink Floyd.

Coexistiu com seis Papas (Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco), nove presidentes franceses (Vincent Auriol, René Coty, De Gaulle, Pompidou, Giscard d’Eistang, Mitterrand, Chirac, Sarkozy e Hollande), oito chanceleres alemães (Adenauer, Erhard, Kiesinger, Willy Brandt, Helmut Schmidt, Kohl, Schroeder e Angela Merkel), 12 presidentes norte-americanos (Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho e Obama). E 18 chefes do Estado brasileiros – de Getúlio a Dilma. E oito presidentes de Portugal (Craveiro Lopes, Américo Thomaz, Spínola, Costa Gomes, Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva) e 17 primeiros-ministros portugueses, da ditadura ao actual regime constitucional, passando pelo período revolucionário, onde em menos de dois anos houve seis Executivos.

 

Sábia, serena, sibilina, Isabel II foi reinando ao longo de todo este tempo de convulsões no mundo.
Assistiu a guerras no Congo, no Vietname, no Biafra, no Médio Oriente e nos Balcãs. Testemunhou a descolonização de África, a chegada do homem à Lua, o desmoronar do bloco soviético. Viu as monarquias chegarem ao fim em países tão diferentes como o Iraque, o Afeganistão e o Nepal. E serem restauradas noutros, como em Espanha e no Camboja.
Trabalhou com 12 primeiros-ministros – oito conservadores (Churchill, Anthony Eden, Harold MacMillan, Alec Douglas-Home, Edward Heath, Margaret Thatcher, John Major e David Cameron) e quatro trabalhistas (Harold Wilson, James Callaghan, Tony Blair e Gordon Brown).

 

Churchill não escondeu a ternura paternal que sentia pela jovem monarca. Ela retribuía-lhe a simpatia, sem quebrar o rígido dever de imparcialidade que os costumes do reino lhe impõem, mas não falta quem garanta que o primeiro-ministro favorito dela foi Harold Wilson, com os seus ares de filósofo de cachimbo na swinging London dos anos 60. E que Thatcher terá sido a líder do governo que mais detestou.

A verdade sobre isto e tudo o resto não será apurada num livro de memórias com selo real. Isabel II, a monarca britânica há mais tempo no trono, nunca escreverá esse livro.

 

Num mundo em mutação, onde tudo passa, tudo se esgota e tudo se esquece, ela é uma referência de estabilidade. Lembramo-nos dela desde sempre, são já poucos os que conheceram outro chefe do Estado no Reino Unido. O tempo dela foi sulcado por todas as modas – do chapéu de coco ao punk, passando pela mini-saia de Mary Quant.

Só ela nunca passou de moda.

 

O que sente, o que pensa, o que esconde?

Só ela sabe: por detrás do suave sorriso protocolar, subsiste a esfinge nesta monarca que ninguém tem a ilusão de conhecer.

"A dissimulação é a ciência dos reis", dizia o cardeal Richelieu. Uma legenda que bem se aplica a Isabel II, Rainha do Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Jamaica, Barbados, Bahamas, Granada, Papuásia-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e as Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda, e Saint Kitts and Nevis.

 

Isabel II subiu ao trono a 6 de Fevereiro de 1952 por morte de seu pai, Jorge VI. Tornou-se hoje a monarca há mais tempo em funções no Reino Unido.

Texto reeditado

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As eleições britânicas.

por Luís Menezes Leitão, em 08.05.15

Há dois vencedores claros das eleições do Reino Unido: os conservadores e os nacionalistas escoceses.

 

O primeiro vencedor são os conservadores. Ao conseguir a maioria absoluta, o partido conservador tem agora campo livre para continuar a governar o país, dispensando o incómodo apêndice dos liberais-democratas. Cameron está assim em condições de cumprir a promessa de referendar a permanência na União Europeia, o que contribuirá ainda mais para pôr Bruxelas em sentido e liquidar definitivamente o UKIP.

 

Quanto aos nacionalistas escoceses passaram a ser praticamente um partido único na Escócia. A derrota no referendo acabou assim por ser positiva para o SNP que consegue o melhor de dois mundos: vota as questões da Escócia no parlamento escocês e ainda vota as questões da restante parte do Reino Unido no parlamento de Londres. Resta saber quanto mais tempo vão os ingleses aceitar esta situação.

 

Quanto aos derrotados, o maior é o partido trabalhista. Deu uma gigantesca guinada à esquerda, com o seu líder Ed Miliband, o Red Ed, e agora paga o preço dessa condução desastrosa com o colapso eleitoral do seu partido. O outro são os liberais-democratas com Clegg a pagar o preço da sua ambivalência na união com os conservadores.

 

Estas eleições são por isso um bom aviso para os políticos portugueses. António Costa, que também prometeu uma viragem à esquerda no PS, pode ver as consequências. Já Portas teve o cuidado de voltar a coligar-se com o PSD, pelo que não terá pelo menos o destino de Clegg. Na verdade, estou convencido que, se o CDS fosse sozinho às urnas, seria trucidado.

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Entretanto, em Londres

por Rui Rocha, em 02.06.14

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Carlos, o Breve.

por Luís Menezes Leitão, em 22.05.14

 

A monarquia inglesa só tem conseguido sobreviver, graças ao facto de os monarcas nunca se ingerirem em política, deixando a condução dos negócios do Estado ao governo eleito, e só intervindo quando este o solicita. Infelizmente, o Príncipe Carlos há muito que foge a esta regra, costumando exprimir desassombradamente as suas opiniões em público. No momento em que ele compara Putin a Hitler, corre um sério risco de atear uma fogueira mundial. O argumento de que ele é livre de falar como cidadão comum não faz qualquer sentido. O herdeiro do trono tem um manifesto dever de reserva relativamente a declarações que podem incendiar as relações entre o Reino Unido e a Rússia, o qual se estende a qualquer declaração que implique um envolvimento político da monarquia. Se quer falar como cidadão comum, tem que renunciar ao trono, mas aí ninguém mais o ouve.

 

Curiosamente esta situação já há muito que tinha sido prevista numa extraordinária série televisiva, House of Cards (a original inglesa e não este novo produto americano, muito inferior). Naquela série, o Rei — claramente o actual príncipe Carlos — decide apoiar a oposição contra o Primeiro-Ministro eleito. Este, após ser reeleito, obriga naturalmente o Rei a abdicar do trono. Neste extraordinário diálogo, faz-lhe ver quão fraca é a legitimidade de um monarca, a partir do momento em que este se envolve no combate político.

 

Prevejo por isso um tão curto reinado para o Príncipe Carlos, que será seguramente conhecido como Carlos, o Breve. Isto admitindo que consegue chegar ao trono, o que já é duvidoso.

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Em louvor de Clement Attlee

por Pedro Correia, em 26.02.14

 Attlee com a mulher, Violet, logo após a vitória eleitoral dos trabalhistas em 1945

 

Clement Richard Attlee (1883-1967) era um homem destituído de carisma. Um esforçado militante de esquerda que, superando inúmeras crises nas suas hostes, alcançou em 1935 a liderança do Partido Trabalhista britânico.

Estavam então no poder os conservadores -- primeiro liderados por Stanley Baldwin, depois por Neville Chamberlain. Quando ocorreu a guerra -- a mais devastadora de todas as guerras -- outro conservador, Winston Churchill, ascendeu à chefia do Governo londrino.

Attlee podia ter-se refugiado na trincheira partidária. Mas não: assumiu uma atitude patriótica, aceitando integrar o executivo liderado por Churchill. Sempre na segunda linha, inicialmente apenas como ministro, depois como vice-primeiro-ministro -- posto até aí inexistente, criado especialmente para ele.

Foi de uma lealdade inquebrantável a Churchill durante os cinco penosos anos de guerra. O governo de unidade nacional -- que integrava ainda os liberais, além dos conservadores e dos trabalhistas -- funcionou sempre como um bloco. Sem que a liderança de Churchill fosse alguma vez discutida, sem que a lealdade de Attlee fosse alguma vez posta em causa.

 

Vencida a guerra, em Maio de 1945, a coligação dissolveu-se e realizaram-se eleições. E os mesmos britânicos que aplaudiram a gestão de Churchill durante o conflito que deixou o Reino Unido depauperado, tanto em vidas humanas como nas finanças públicas, disseram nas urnas que era tempo de confiar a outro político os destinos do país.

Ganhou Attlee, com 47,7%, contra 36% de percentagem atribuída aos conservadores: pela primeira vez o Partido Trabalhista dispunha de uma larga maioria na Câmara dos Comuns. E nos anos seguintes, sob a sua liderança, a esquerda britânica assumiu o poder. Governando com tanta eficácia a Grã-Bretanha em tempo de paz como Churchill a governara nos dias incertos da guerra.

Depois de enterrar os mortos, chegara o tempo de cuidar dos vivos -- como ensinou o nosso Marquês de Pombal. Attlee soube cuidar dos vivos: lançou as bases do Serviço Nacional de Saúde britânico, de base universal e gratuita, alargou a segurança social e delinelou um ambicioso programa de habitação pública -- marcos modelares daquilo a que por estes dias chamamos "Estado Social". De tal maneira modelares que Churchill manteve-os inalterados quando regressou ao poder, em Outubro de 1951.

 

Attlee, o político sem carisma, é hoje recordado como um dos melhores primeiros-ministros britânicos de todos os tempos. Quando morreu, em Outubro de 1967, o Guardian acertou em cheio ao prever que a passagem do tempo só engrandeceria a sua figura. Assim aconteceu. Uma sondagem realizada pelo Times em 2010 considerou-o o mais qualificado de todos quantos governaram no século XX.

 

Porquê?

Porque soube agir em dois tempos, conforme as circunstâncias exigiam: baixou bandeiras partidárias quando era esse o seu dever patriótico no momento em que a soberania britânica estava em risco e foi recompensado por isso com dois mandatos sucessivos que lhe permitiram enfim aplicar o seu programa de vastas reformas sociais. Deixando o país numa situação de pleno emprego e a crescer ao ritmo de 3% ao ano.

 

Por vezes lembro-me de Attlee ao analisar o percurso de certos políticos contemporâneos. E concluo sempre que o seu exemplo ganharia em ser seguido por todos quantos, manifestamente equivocados, ambicionam o máximo para o momento seguinte. Como se não houvesse amanhã. Como se o decurso do tempo funcionasse como adversário e não como aliado. Como se a política não fosse sobretudo um exercício inteligente e laborioso de persuasão e persistência. Como se os livros de História pesassem menos do que as manchetes da manhã seguinte.

 

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Teme-se o pior

por Rui Rocha, em 26.07.13

Em todas as fotografias do bebé real que já foram divulgadas as orelhas estão tapadas.

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Margaret Thatcher: as ideias contam

por Pedro Correia, em 17.04.13

 

«She redefined leadership.»

Editorial do Financial Times, 9 de Abril

  

Ao fazer o elogio fúnebre de Margaret Thatcher na Câmara dos Comuns, com uma elegância perante os adversários políticos em que os britânicos são exímios, o líder trabalhista Ed Miliband prestou-lhe o maior dos tributos ao declarar: «As ideias contam.»

De facto, em política as ideias contam. E Margaret Thatcher nunca as ocultou. Os eleitores que lhe deram três grandes vitórias eleitorais sabiam em quem votavam e as consequências do seu voto. Foi precursora da globalização ao advogar a liberdade dos mercados. Vitoriosa na Guerra Fria, contribuiu para a derrocada do "socialismo real". Influente na Europa, recusou com firmeza as políticas federalistas, incluindo a moeda única.

Sim, ela pôs as ideias em primeiro lugar. Ela pertencia a um tempo em que a política precedia tudo o resto na acção governativa, em que havia escolhas claras nas urnas - um tempo de esquerda e direita que se combatiam com frontalidade e lealdade, não a direita liofilizada e a esquerda descafeinada que surgiram depois, quase gémeas siamesas, cada qual copiando o projecto da outra ao ponto de quase se confundirem.

  

 

Thatcher, primeira mulher a ascender à chefia de um Executivo na Europa, ultrapassando em longevidade governativa todos os restantes primeiros-ministros britânicos no século XX, era inconfundível com qualquer dos adversários trabalhistas que defrontou nas urnas - James Callaghan em 1979, Michael Foot em 1983 e Neil Kinnock em 1987. Chegou ao poder em Maio de 1979, com 53 anos, dizendo claramente ao que vinha: devolver ao Reino Unido (a que ela chama sempre Britain, com entoação orgulhosa) a prosperidade económica e o prestígio internacional entretanto perdidos, combater a influência soviética no mundo e reforçar a parceria atlântica com os Estados Unidos, evitando a sujeição do seu país ao federalismo europeu e àquilo a que designava desdenhosamente de "burocracia de Bruxelas".

 

Houve sombras no seu mandato, como sempre sucede em mandatos longos. Os adversários acusaram-na de insensibilidade social - e muitas vezes tinham razão. Foi incapaz de solucionar o bloqueio político na Irlanda do Norte - e ainda hoje causa perplexidade a forma impiedosa como deixou morrer na prisão alguns grevistas de fome que militavam no IRA, incluindo Bobby Sands. Não faltou, dentro das próprias fileiras conservadoras, quem a criticasse por ser arrogante - e nada podia estar mais certo. 

Já aos dez anos, ao vencer um concurso de poesia na escola, a pequena Maggie revelava essa faceta da sua personalidade: ao entregar-lhe o prémio, a professora elogiou-a por ser uma miúda "com sorte". Réplica imediata da visada: "Eu não tive sorte. Eu mereci este prémio." Mais tarde, aos seus compatriotas, nunca se cansou de referir que nada se alcança sem esforço.

 

  

No essencial, Margaret Hilda Roberts Thatcher, cujo funeral decorreu esta manhã com honras de Estado em Londres, teve razão. Contra a esquerda sua contemporânea, que demasiadas vezes a contestou por razões erradas e viria a adoptar boa parte do seu legado.

Teve razão ao fazer recuar as fronteiras de um Estado ineficaz e tentacular, que mergulhara o Reino Unido num longo Inverno recessivo, abrindo espaço à iniciativa privada. 

Teve razão ao recusar manter o aparelho estatal como motor da economia, pondo fim ao ciclo inflacionista que conduzira o país à ruína económica e transformando Londres num baluarte do sistema financeiro internacional. 

Teve razão ao combater com tenacidade os velhos dinossauros comunistas na Europa de Leste enquanto encorajava a acção reformista de Gorbatchov em Moscovo, dizendo ao mundo que ele era um homem com quem se podia "trabalhar": sem a sua firmeza diplomática, talvez o Muro de Berlim não tivesse caído tão cedo. 

Teve razão ao insurgir-se contra o centralismo de Bruxelas, ao recusar a diluição da libra esterlina no sistema monetário europeu e ao lançar repetidos alertas contra a Europa federal, em defesa do Estado-nação: o pesadelo em que se transformou a União Europeia dirigida por burocratas sem visão política acabou por dar razão às suas advertências. 

Teve razão ainda ao defender com firmeza a soberania britânica nas Malvinas, correspondendo ao desejo quase unânime dos habitantes do arquipélago, e ao enfrentar a política de canhoneira do general Galtieri, na altura apoiada por muitas vozes "progressistas" na Europa em nome do anticolonialismo. A vitória militar britânica no Atlântico Sul permitiu que a Argentina se libertasse enfim daquela que foi provavelmente a mais repugnante de todas as ditaduras militares da América do Sul. 

 

 Raros políticos emprestaram o seu nome ao vocabulário comum. Aconteceu com Margaret Thatcher: o thatcherismo foi um vocábulo que entrou no dicionário. Definindo, no essencial, um conceito que alarga as fronteiras da liberdade: também aqui ela esteve no lado certo. "Não pode haver liberdade sem liberdade económica", declarou num dos seus discursos esta filha de um merceeiro de província que na infância morou numa casa sem WC interno nem água corrente. 

"Ela transformou toda a economia britânica do lado da oferta", observou Patrick Minford, professor de Economia em Cardiff. Quando Thatcher deixou Downing Street em Novembro de 1990, empurrada pelos barões do seu partido e não pelos eleitores, o número de accionistas privados no país subira de 3 para 12 milhões e a inflação caíra de 22% para 4%. O crescimento anual médio do Reino Unido, nesses 11 anos, foi de 2,3% - o aumento real do PIB cifrou-se em 4% em 1986, 4,6% em 1987 e 5% em 1988. "Entre 1980 e 2000, registou-se o primeiro período em que o PIB per capita do Reino Unido cresceu mais do que em qualquer outra grande economia europeia desde o século XIX", sublinhava há dias Martin Wolf no Financial Times

Escolhas políticas claras somadas ao sucesso económico: não admira que o prestigiado The Times tenha votado nela como a quinta melhor chefe do Governo britânico, entre 50, desde o século XVIII (logo atrás de Churchill, Lloyd George, Gladstone e William Pitt). Quando chegou ao poder, o Reino Unido vivia mergulhado na decadência social e na asfixia económica. Com ela, recuperou a sua voz autorizada e prestigiada na cena política internacional. 

 

"Ela será sempre para nós, polacos, um ícone do mundo livre e da luta pela liberdade", disse o eurodeputado polaco Jacek Saryusz-Wolski em declarações difundidas pela Euronews neste dia em que o funeral da antiga Dama de Ferro decorreu na presença de representantes de 170 países e com 1200 jornalistas credenciados para esse efeito em Londres. 

Um dos seus adversários políticos, o ex-primeiro-ministro trabalhista Tony Blair (1997-2007), foi um dos primeiros a prestar-lhe homenagem com estas palavras divulgadas mal foi conhecida a morte da sua antecessora, a 8 de Abril: "Muito poucos líderes conseguem mudar não só o panorama político do seu país mas do próprio mundo. Margaret Thatcher foi um desses líderes. E algumas das mudanças que introduziu na Grã-Bretanha foram, pelo menos em certas áreas, mantidas pelo Governo trabalhista a partir de 1997 e foram adoptadas por governos de todo o mundo." 

Não por acaso, quando certa vez perguntaram à mulher que derrubou Galtieri qual havia sido a maior marca do seu mandato, ela respondeu com humor tipicamente britânico: "Tony Blair." 

As ideias contam, afinal.

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Margaret Thatcher 1925-2013.

por Luís Menezes Leitão, em 08.04.13

 

Faleceu hoje uma das personalidades mais marcantes de todo o séc. XX. Margaret Thatcher foi o exemplo de alguém que soube impor ao mundo as suas convicções, ao mesmo tempo que defendeu sem esmorecer o interesse do seu país. Não hesitou em combater e derrotar os generais argentinos, que se tinham atrevido a atacar as Malvinas sem aviso. Exigiu a devolução do cheque britânico à Comunidade Europeia, obrigando Delors, a quem ela chamava o líder dos funcionários não eleitos, a ceder. E no fim soube opor-se à entrada da Grã-Bretanha no euro, avisando que a Europa só teria uma moeda única quando desaparecesse a Câmara dos Comuns. Nenhum inimigo externo a vencia, pelo que apenas caiu pela desistência dos seus próprios seguidores, que a quiseram substituir por um John Major sem chama. Quando hoje assistimos a governantes sem qualquer convicção, totalmente submissos a imposições externas, temos saudades de personalidades como Margaret Thatcher. Afinal se a Grã-Bretanha não entrou na armadilha do euro que sufoca toda a Europa é a ela que o deve.

 

A melhor homenagem que lhe foi feita consistiu no nome Dama de Ferro, que curiosamente lhe foi atribuído pelos russos quando ainda era líder da oposição, devido à violência dos ataques que lhes deferia. Ela não hesitou em assumir o epíteto: "Os meus inimigos chamaram-me Dama de Ferro. Estão absolutamente certos. Sou-o mesmo". Dificilmente a Grã-Bretanha voltará a ter um líder dessa grandeza. 

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O caso da enfermeira.

por Luís Menezes Leitão, em 10.12.12

 

O caso da enfermeira revela a meu ver duas coisas. Em primeiro lugar, uma grande ingenuidade da própria, e em segundo lugar uma enorme falta de sensibilidade dos jornalistas, que, ao se depararem com essa ingenuidade, deveriam ter imediatamente posto termo à brincadeira. 

 

Há uns anos aconteceu um episódio absolutamente ao inverso. O papa João Paulo II telefonou para um hospital suíço, apresentando-se com um "daqui fala o papa". A resposta que ouviu da enfermeira foi: "se o senhor é o papa eu sou a imperatriz da China". Passando algum tempo a situação foi esclarecida. Era mesmo o papa que pretendia saber notícias de um bispo suíço, seu amigo, que tinha sido internado de urgência nesse hospital. Naturalmente que a reacção normal de qualquer enfermeiro é duvidar que está a falar com uma pessoa famosa. A enfermeira Jacintha Saldanha era ingénua ao ponto de admitir que a rainha lhe ligaria pessoalmente para saber da Duquesa de Cambridge e cometeu a atitude — grave para os padrões de um hospital — de transmitir dados de saúde dos pacientes ao telefone. Provavelmente por isso estaria na iminência de receber uma punição disciplinar severa.

 

Quanto aos jornalistas, quiseram fazer de facto uma brincadeira. Segundo eles, estavam à espera que lhes desligassem o telefone na cara. Mas quando isso não aconteceu, a meu ver deveriam ter terminado imediatamente com a brincadeira, antes de lhes revelarem os dados de saúde. Não só tinham o dever de não explorar a vida privada de terceiros, mesmo pertencendo à família real, como também tinham obrigação de saber as consequências para a enfermeira da sua actuação. Não podiam prever a sua morte, mas podiam prever as consequências disciplinares e de vexame público à escala global que a enfermeira sofreria.

 

Efectivamente, a enfermeira tornou-se alvo de chacota mundial pela sua ingenuidade. Mesmo que o hospital não a tivesse sancionado, sabia que nunca poderia dissociar do seu nome a indiscrição que tinha cometido em relação a uma paciente famosa. E neste mundo indelével da internet até lhe seria negado o direito a esquecer esse episódio infeliz da sua vida. Não sei se se suicidou por esse motivo, mas acho muito provável que o tenha feito.

 

É por isso que acho absolutamente impróprio o comportamento dos jornalistas que quiseram explorar essa ingenuidade da enfermeira para efeitos de diversão dos seus ouvintes. Pirandello fez uma vez uma análise do D. Quixote de Cervantes, que acho absolutamente apropriada a este caso. Segundo ele o D. Quixote tem cenas absolutamente hilariantes, mas os leitores não riem, e é nisso que está o génio de Cervantes. Tal sucede porque a figura de D. Quixote provoca nos leitores um enorme sentimento de piedade e essa piedade impossibilita o riso. Foi esse sentimento de piedade que me parece que faltou aos jornalistas neste episódio.

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Regresso ao suicídio da enfermeira que terá facilitado a obtenção de informações sobre a gravidez de Kate Middleton. Para além da tragédia pessoal e familiar que naturalmente implica, a situação só merece reflexão se pudermos estabelecer um nexo de causalidade entre a actuação da enfermeira e a sua decisão de pôr termo à vida. Parto então desse princípio (que é, em si mesmo, questionável). Ora, admitindo que uma qualquer causalidade existe, é curioso notar que a maioria das análises que se vão fazendo acaba por apontar para a responsabilidade dos jornalistas que se apresentaram com falsa identidade. Ora é nessa visão das coisas que não me reconheço.

 

Na verdade, o problema, a existir, está noutro lado. Vejamos. Se a enfermeira Jacinta tivesse facilitado informações relativas a qualquer outra pessoa internada no hospital, o desfecho seria o mesmo? Não creio. Existiria uma quebra de sigilo, uma imprudência, um comportamento negligente. Mas, qualquer que fosse a actuação dos responsáveis do hospital (actuaria sequer o hospital?) é muito difícil acreditar que alguém acabasse por suicidar-se por uma situação dessas. Afinal de contas, não morreu ninguém para além de Jacinta, nenhum acto médico deixou de ser praticado, a integridade física e os cuidados de saúde estiveram sempre salvaguardados. Isto significa que o que terá estado em causa é a percepção da insignificância de uma modesta enfermeira perante a infinita relevância da informação sigilosa relativa aos enjoos de um membro da Casa Real. Se Jacinta se suicidou por alguma coisa, foi por considerar que a sua vida não valia perante o significado transcendente da quebra de informação relativa às náuseas de Kate Middleton, a escolhida.

 

O que está mal nesta história, se alguma coisa está, é a desproporção entre o desvalor da vida de uma Maria Ninguém e a profunda relevância  de tudo o que diga respeito a um Filho de Algo. O que está mal é que a própria Jacinta se tenha convencido, ou a tenham convencido os que contra o seu deslize reagiram (e como devem ter reagido) que ela cometera um gravíssimo acto de lesa-majestade. Não consigo criticar os jornalistas porque vejo ali a intenção de dessacralização de um poder desproporcionado e injustificado. É antes nesse poder que reside o problema. Como em qualquer poder que impõe a priori uma sugestão de diferença no valor intrínseco das pessoas. Como em qualquer poder que não seja transitório, efémero, circunstancial e exercido em nome e no exclusivo interesse da comunidade e que negue, por actos, palavras ou omissões, a identidade de valor ontológico e radical de cada vida humana. Mesmo que esta passe pelo mundo com a infelicidade de o fazer com um par de orelhas como aquelas que o Príncipe Carlos ostenta.

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Há palavras que podem matar

por Pedro Correia, em 08.12.12

A brincadeira - inicialmente muito celebrada nas redes sociais - de dois animadores de uma rádio australiana conduziu ao suicídio de uma enfermeira do Hospital Rei Eduardo VII, em Londres, onde esteve internada a duquesa de Cambridge, que se encontra grávida. Este caso, tão dramático, sublinha uma evidência demasiadas vezes esquecida: a da responsabilidade social de todos os comunicadores, sejam jornalistas ou não. Porque "comunicadores", nesta era dos internautas, somos todos nós. E há palavras, gestos e atitudes que podem matar.

Os autores do 'furo' radiofónico, efémeros heróis à escala planetária, já estão a ser transformados em vilões pela mesma máquina implacável de produção de celebridades instantâneas. Ovacionados ontem, apedrejados hoje. Pelos mesmos que não tardarão em vitoriar outros efémeros ídolos ao virar da primeira esquina, repetindo-se o ciclo de rápida subida aos céus seguido de uma vertiginosa descida ao inferno. Com o mecanismo de sempre: muita exaltação irreprimível e muita indignação efervescente nas redes sociais.

Quase toda esta gente que dispara frases como se fossem tiros ignora que a palavra pode ser a mais cruel das armas. Como ainda agora voltou a confirmar-se.

 

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Kate Middleton está grávida.

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Pensando bem, uma fotografia rara

por Rui Rocha, em 21.09.12

Tanto quanto é possível observar, estavam todos vestidos:

 

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República 3, Monarquia 0

por Rui Rocha, em 11.05.12

 

Enquanto o Príncipe herdeiro do trono do Reino Unido apresenta o boletim meteorológico, limitando-se a explicar as consequências da Low Pressure situada sobre as ilhas britânicas,  a  Ministra da Agricultura da República Portuguesa, também conhecida por "Cristas de Baixas Pressões", manda chover. Penso que estamos conversados quanto à eficácia de uns e de outros.

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Gerhard Richter, "Mustangs", 1964

 

Talvez porque o tráfego do aeroporto de Frankfurt seja dos mais intensos e extenuantes da Europa, os controladores aéreos têm fama de arrogantes e impacientes. Depois de conduzirem os pilotos durante a fase de aterragem, limitam-se a informar qual é a porta para onde devem dirigir o avião, presumindo que sabem a sua localização e como hão-de lá chegar, prescindindo de fornecer mais orientações.

Uma vez sucedeu este diálogo entre a torre de controlo e um 747 da British Airways (BA):

[estas conversas são convencionalmente em inglês em toda a parte, mas faz-se aqui uma tradução nada técnica e muito leiga]

BA – Frankfurt, já desobstruímos a pista de aterragem.

Torre – BA, circule até à porta Alpha Um-Sete.

O avião saíu do taxiway [zona de circulação da pista] e parou.

Torre – BA, não sabe para onde deve ir?

BA – Por favor aguarde torre, estou a verificar a localização da porta.

Torre (denotando ríspida altivez) – BA, nunca esteve em Frankfurt?

BA (voz calma) – Sim, estive aqui duas vezes em 1944, mas estava escuro… e não aterrei.

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A Rainha

por Pedro Correia, em 05.02.12

 

"A dissimulação é a ciência dos reis."

Richelieu

 

Quando ela ascendeu ao mais alto cargo do seu país, José Estaline era ainda o senhor absoluto da Rússia vermelha. Nos Estados Unidos, mandava Harry Truman, então sem saber o que fazer dos soldados atascados no inferno da Coreia. E na Grã-Bretanha o primeiro-ministro era Winston Churchill, herói da guerra.

Ela viu tudo, ouviu todos. Quando se sentou no trono herdado de seu pai, Mao Tsé-Tung mandava na China continental, Chiang Kai-Shek pontificava na Formosa, Hirohito mantinha-se como imperador do Japão mesmo após a rendição do seu país aos pés do general Douglas MacArthur. Havia nessa altura outros imperadores no mundo: Hailé Selassié na Etiópia, o xá Reza Pahlevi no Irão. As monarquias eram em número bem superior ao actual: havia-as da Grécia (com o rei Paulo) ao Egipto (com o rei Faruk). E até na Líbia do rei Idris, que um tal coronel Kadhafi viria a derrubar 17 anos mais tarde, em 1969.
 
Nesse mês de Fevereiro de 1952, quando a jovem Isabel se tornou Rainha da Grã-Bretanha, com apenas 25 anos, o planeta era governado por figuras que hoje têm lugar garantido nos livros de História: Sukarno na Indonésia, Perón na Argentina, Tito na Jugoslávia, Franco na Espanha, Nehru na Índia, Ben-Gurion em Israel, Getúlio Vargas no Brasil, Salazar em Portugal. Conheceu muitos deles, numa sucessão de encontros ao longo de 56 anos – tempo suficiente para ter visto aparecer e desaparecer Elvis Presley, os Beatles e os Pink Floyd. Coexistiu com seis Papas (Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI), oito presidentes franceses (Vincent Auriol, René Coty, De Gaulle, Pompidou, Giscard d’Eistang, Mitterrand, Chirac e Sarkozy), oito chanceleres alemães (Adenauer, Erhard, Kiesinger, Willy Brandt, Helmut Schmidt, Kohl, Schroeder e Angela Merkel), 12 presidentes norte-americanos (Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho e agora Obama). E 18 chefes do Estado brasileiros – de Getúlio a Dilma. E oito presidentes de Portugal (Craveiro Lopes, Américo Thomaz, Spínola, Costa Gomes, Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva) e 17 primeiros-ministros portugueses, da ditadura ao actual regime constitucional, passando pelo período revolucionário, onde em menos de dois anos houve seis Executivos.
 
Sábia, serena, sibilina, Isabel II foi reinando ao longo de todo este tempo de convulsões no mundo. Assistiu a guerras no Congo, no Vietname, no Biafra, no Médio Oriente e nos Balcãs. Testemunhou a descolonização de África, a chegada do homem à Lua, o desmoronar do bloco soviético. Viu as monarquias chegarem ao fim em países tão diferentes como o Iraque, o Afeganistão e o Nepal. Trabalhou com 12 primeiros-ministros – oito conservadores (Churchill, Anthony Eden, Harold MacMillan, Alec Douglas-Home, Edward Heath, Margaret Thatcher, John Major e David Cameron) e quatro trabalhistas (Harold Wilson, James Callaghan, Tony Blair e Gordon Brown).
Churchill não escondeu a ternura paternal que sentia pela jovem monarca. Ela retribuía-lhe a simpatia, sem quebrar o rígido dever de imparcialidade que os costumes do reino lhe impõem, mas não falta quem garanta que o primeiro-ministro favorito dela foi Harold Wilson, com os seus ares de filósofo de cachimbo na swinging London dos anos 60. E que Thatcher terá sido a líder do governo que mais detestou. A verdade sobre isto e tudo o resto não será apurada num livro de memórias com selo real. Isabel II, a monarca britânica que mais anos reinou desde a Rainha Vitória, nunca escreverá esse livro.
Num mundo em mutação, onde tudo passa, tudo se esgota e tudo se esquece, ela é uma referência de estabilidade. Lembramo-nos dela desde sempre, são já poucos os que conheceram outro chefe do Estado no Reino Unido. O tempo dela foi sulcado por todas as modas – do chapéu de coco ao punk, passando pela mini-saia de Mary Quant. Só ela nunca passou de moda.
 
O que sente, o que pensa, o que esconde? Só ela sabe: por detrás do suave sorriso protocolar, subsiste a esfinge nesta monarca que ninguém tem a ilusão de conhecer. "A dissimulação é a ciência dos reis", dizia o cardeal Richelieu. Uma legenda que bem se aplica a Isabel II, Rainha do Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Jamaica, Barbados, Bahamas, Granada, Papuásia-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e as Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda, e Saint Kitts and Nevis.
 
Isabel II subiu ao trono a 6 de Fevereiro de 1952, por morte de seu pai, Jorge VI. Faz amanhã 60 anos.

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A longa vida dos líderes políticos

por Pedro Correia, em 08.05.10

 

A política dá saúde. Pelo menos no Reino Unido. É esta a conclusão óbvia a que chegamos ao analisarmos a lista dos primeiros-ministros britânicos das últimas sete décadas. Dos oito já falecidos, metade ultrapassou a barreira dos 90 anos. Mais do que uma questão de genes, é caso para pensar que a actividade política, usualmente tão depreciada, proporciona boa condição física e mental. A não ser assim, como explicar que o bubedor e fumador Winston Churchill (1874-1965), que chefiou o Governo de Londres em dois períodos – primeiro entre 1940 e 1945, depois entre 1951 e 1955 – tenha morrido com 90 anos? Uma longevidade partilhada por três dos seus sucessores. Harold Macmillan, primeiro-ministro entre 1957 e 1963, viveu até aos 92 anos, falecendo em 1986. Alec Douglas-Home, que liderou o Governo entre 1963 e 1964, morreu com 92 anos, em 1995. E James Callaghan, primeiro-ministro de 1976 a 1979, faleceu em 2005, com uns invejáveis 93 anos.
Os restantes quatro chefes do Executivo britânico que integraram este lote também tiveram uma vida longa. Clement Attlee (primeiro-ministro entre 1945 e 1951) morreu em 1967, com 84 anos. Outro trabalhista, Harold Wilson (chefe do governo de 1964 a 1970 e depois no período 1974-76), faleceu com 79 anos, em 1995. o conservador Anthony Eden (líder do Governo de 1955 a 1957) morreu em 1977, igualmente aos 79 anos. E Edward Heath, igualmente conservador, faleceu em 2005, com 89 anos. Havia chefiado o Governo britânico entre 1970 e 1974.
O longo tempo que passam em gabinetes e a troca acalorada de argumentos nos debates parlamentares terão contribuído para que estes políticos ultrapassassem a esperança média de vida? John Major (primeiro-ministro entre 1990 e 1997), o seu sucessor Tony Blair (que chefiou o Governo na década 1997-2007) e o actual chefe do Executivo, Gordon Brown, serão talvez ainda demasiado novos para responder. Mas a pergunta pode ser dirigida a Margaret Thatcher, primeira-ministra entre 1979 e 1990 – o mandato mais longo de um chefe do Executivo britânico durante todo o século XX, Vai já a caminho dos 86 anos, o que parece garantir a continuação desta excelente média.
Dizem que os jovens estão cada vez mais afastados da vida política. Ora aqui está um exemplo que talvez possa contribuir seriamente para que mudem de opinião.

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Olhar para Londres de Lisboa

por Pedro Correia, em 06.05.10

O nosso José Gomes André estará à meia-noite nos estúdios da TVI24 para comentar as legislativas britânicas. Com o Luís Naves e o Miguel Morgado.

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