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Pendências

por José Navarro de Andrade, em 26.11.12
 
É bem possível que o mundo não acabe em 21 de Dezembro de 2012 conforme tem sido previsto por astrólogos e “maiólogos” (vem de Maia, não de Maya) de melhor reputação e ainda por alguns xamanes Hopi de impecável currículo. Isto não vai acontecer, presumo, porque já toda a gente sabe que a Europa só acabará em 2014.

É em 2014 que a Escócia votará no referendo para a independência. Se o “sim” vencer, acontecerá aquilo que o status quo europeu, ou seja o diretório da EU, tem andado a evitar há alguns anos talvez imitando o pequeno Hans Brinker. Para que não fiquem desiludidos os adeptos das teorias da conspiração, gente de ideias irrefutáveis, cá vai a perguntinha misteriosa a que ninguém respondeu, sequer ousou formular:

Como foi possível e tolerável que no próprio coração da Europa um país seríssimo e maduro como a Bélgica estivesse desde 13 de Julho de 2010 nada menos do que 535 dias (!!!) sem governo? (E ninguém os tivesse chamado de irresponsáveis, antidemocráticos, incapazes ou selvagens, que são mimos geralmente reservados aos trigueiros meridionais?)

O assunto foi assobiado para o ar à espera que apodrecesse, porque a única solução referendada, pragmática e óbvia, seria aceitar a divisão da Bélgica nas duas nações antagónicas e irredutíveis que a constituem, acabando com a pura ficção política que sempre foi o país da batata frita. Estava tudo parvo? Não, estava tudo com medo e o medo às vezes traz a prudência.

O fim da Bélgica produziria um efeito de dominó que a breve trecho varreria a Europa, extinguindo as nações actuais, rasurando os mapas desenhados em Yalta, que bem ajudaram aos 60 anos de quietação e relativa paz que temos gozado, e fazendo a Europa regressar à fragmentada configuração tardo-feudal anterior a Vestefália, mas agora sem os impérios continentais, multitudinários e agregadores. Este formidável retrocesso, acrescentado à patética debilidade económica e ao desnorte financeiro do velho continente, seria decerto a sua irremediável certidão e óbito.

É com este fogo que os – desculpem a precisão – idiotas dos catalães andam a brincar e que os escoceses irão atear. Só que os celtas de saias são ultraperiféricos e não passam de um punhado de castiços, assaz irrelevantes salvo no râguebi, ao passo que os catalães estão entalados entre nós e as linhas de caminho-de-ferro decentes. Ou seja, neste roda-bota-fora, nenhum proveito obteríamos de nos tornarmos de facto a maior região autónoma numa península acantonada, porque acabaríamos ainda mais desligados do centro, como se estivéssemos no meio do mar.

E aí, nessas líquidas paragens, apenas sobreviveria a Madeira, que num esfregar de olhos também ela declararia a independência e se tornaria na única micro-região economicamente viável ao converter-se num gigantesco off-shore e capaz de capturar o negócio que tem feito as delícias da Guiné-Bissau.

A questão até que faz sentido: porque diabo Barcelona, Edimburgo, Funchal, Milão, Ajaccio, Namur e Antuérpia, não hão de poder falar directamente com Bruxelas, sem ter que passar por Madrid, Londres, Lisboa, Roma e Paris? Haverá outra solução que não a catástrofe?

Enquanto faltar resposta a esta questão, o que irá demorar enquanto a UE tiver barriga para ir empurrando o assunto, qualquer português que rejubile com os devaneios da Catalunha é um grandessíssimo tolo, salvo se que tiver um qualquer comércio que lhe traga lucro imediato.

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