Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Muito bem

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.06.17

IMG_20170611_145910.jpg

"A Europa é nessa matéria [refugiados] uma vergonha. Dito isto por parte de uma pessoa que faz parte de uma nação como é Portugal, que já teve emigrantes, que já teve imigrantes, andou pelos cinco continentes e todas as partes do mundo. A mim faz-me muita confusão. Eu vi, praticamente, o sistema de decisão da Europa colapsar por causa de um milhão de refugiados. Esse um milhão de refugiados de que se fala foram recebidos pela Alemanha. Do que estamos a falar é do resto. E do resto, a mim faz-me muita confusão que haja países da União Europeia que não tenham acolhido nem um refugiado. Estão muito esquecidos de há uns tempos atrás, de umas décadas atrás, em que se não fosse a solidariedade do mundo teriam ficado a sobreviver debaixo da pata do comunismo. Houve países do Leste da Europa que não receberam um refugiado. E isto envergonha-nos a todos."

Tirando uma pequena grande gafe, esteve muito bem neste aspecto. E foi bom que tivesse dito o que disse sobre os refugiados por ocasião de mais um Dez de Junho. Há valores que não são nem da direita nem da esquerda, são de todos nós. E é nisso que enquanto Portugueses devemos estar unidos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Masoquismo militante

por Pedro Correia, em 06.06.17

bashar_al_assad_20150930[1].jpg

 

O ditador sírio, agarrado com unhas e dentes ao poder que permanece nas mãos do clã Assad desde 1971, protagoniza uma guerra contra o seu próprio povo que já terá provocado 470 mil mortos e quase sete milhões de desalojados - metade dos quais crianças.

Os do costume, do lado de cá, apontam a "culpa" à Europa.

 

Redes de traficantes de seres humanos, sem o menor escrúpulo, enriquecem à custa das economias de muita gente que foge daquela guerra, embarcando homens, mulheres e crianças em barcos da morte.

Os do costume, do lado de cá, apontam a "culpa" à Europa.

 

O chamado 'estado islâmico', composto por extremistas que querem impor a sua ideologia à lei da bala, transforma várias porções de países do Médio Oriente em terra queimada.

Os do costume, do lado de cá, apontam a "culpa" à Europa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que é preciso é animar em Malta

por Rui Rocha, em 04.02.17

melilla.jpg 

Podemos, naturalmente, pensar o que quisermos de Trump. Eu penso mal. Ponto. Mas há um grupo alargado de oportunistas a quem Trump dá muito jeito. E essa é, aliás, mais uma razão para o efeito Trump ser nocivo. Para os tais oportunistas, é útil que Trump encarne o Mal para que eles possam aparecer como manifestação do Bem. Tomemos o exemplo do Dr. Costa. Ainda ontem proclamou em Malta a sua satisfação por a Europa não se esconder atrás de muros. Ora, para não irmos mais longe, o Dr. Costa sabe perfeitamente que existe uma vedação em Melilla que divide Marrocos de território da União Europeia. E se essa barreira não seria capaz de deter as vacas voadoras em que só o Dr. Costa acredita, sabemos que foi construída para evitar que seres humanos a transponham, prevenindo a imigração ilegal e o contrabando comercial. Estas são questões densas e complexas em que a única coisa evidente é a hipocrisia de artistas de segunda categoria como o Dr. Costa que se aproveitam de circunstâncias humanas desesperadas para se apresentarem como sacerdotes da pureza. Quando das profundezas da sua fanfarronice congénita utiliza o muro de Trump, o Dr. Costa cuidando estar a subir mais um degrau na escada da sua própria santidade, define-se como anão moral que realmente é. O Dr. Costa, fiquemos todos cientes, fará tudo o que puder para preservar a democracia por palavras que pessoalmente o engrandeçam. Mas, tal como dizia Gene Hackman em Crimson Tide, não está cá para dar-se ao trabalho de excercê-la.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Refugiados e terrorismo

por Diogo Noivo, em 28.07.16

RefugiadosSirios.jpg

 

O Líbano é dos países que mais sofrem com a crise dos refugiados sírios. Acolhe cerca de 1,1 milhões de refugiados, o que significa que 1 em cada 5 habitantes é um migrante em fuga da guerra. É o Estado que, per capita, mais refugiados alberga. Em termos absolutos, e com base em dados do Alto Comissariado da ONU para os refugiados, só o Paquistão e a Turquia o ultrapassam. Assumindo que Portugal tem 11 milhões de habitantes, teríamos que receber 2.2 milhões de refugiados para enfrentar um desafio (político, económico, humanitário, de segurança) semelhante. Semelhante, não igual. Importa ter presente que o território libanês é aproximadamente um terço da área total do nosso Alentejo.

 

O quadro desenhado por estes números é avassalador e explica bem a atenção dada ao Líbano quando se fala de refugiados sírios. Essa atenção fez soar os alarmes quando, em Setembro de 2015, o Ministro da Educação libanês afirmou que cerca de 2% dos refugiados sírios são terroristas do auto-denominado Estado Islâmico. Não foi o ministro do Interior, o ministro da Defesa, o ministro dos Negócios Estrangeiros, nem tão-pouco o Primeiro-Ministro. Foi o ministro da Educação.  Felizmente, este governante libanês tinha pela frente um jornalista – e não um jornaleiro – que o inquiriu sobre a fonte da qual provinha essa percentagem. O ministro foi honesto. Poderia ter respondido “não posso revelar”, ou então “fontes seguras”, ou ainda “é uma estimativa preliminar das nossas Forças e Serviços de Segurança”. Mas não. O ministro disse abertamente que os 2% eram um “gut feeling”. Como nunca devemos permitir que os detalhes estraguem uma boa história, estes 2% continuam a circular pela imprensa e pelos blogues com o valor de dado científico. Claro, sempre que há um problema de segurança provocado por um refugiado, os 2% são inflacionados para 100%, mas isso já é tema para outro post. Por agora, importa perguntar se estes 2%, imaginando que são reais, justificam que se lance um anátema sobre os restantes 98%.

 

Não abundam estudos recentes que analisem a relação entre terrorismo e refugiados. Porém, os trabalhos existentes descartam qualquer relação entre estes dois fenómenos. Mais, as estatísticas disponíveis reforçam essa conclusão: os Estados Unidos da América acolheram 784.000 refugiados desde o dia 11 de Setembro de 2011; destes, apenas 3 foram detidos por envolvimento em actividades terroristas. Se formos mais abrangentes e incluirmos todo o tipo de criminalidade, os resultados não diferem muito: na Alemanha, entre 2014 e 2015, os crimes cometidos por refugiados aumentaram 79%, sendo certo que nesse mesmo período o número de refugiados aumentou 440%.

Estes números não explicam a associação, que se vai lendo e ouvindo, entre terrorismo e refugiados. Mas há outros que talvez sim. Um estudo de opinião, realizado pelo Pew Research Center, sugere que a relação entre violência terrorista e vagas de refugiados é produto de preconceitos e de apofenia (percepção de padrões e relações com base em informação aleatória ou inconclusiva).

 

Enfim, nada disto interessa. Como escreveu Peter Pomerantsev na revista Granta, vivemos num mundo pós-facto, onde imperam as “tecno-fantasias” ao alcance de um click, suficientemente diversificadas para validar toda e qualquer convicção pessoal. A realidade, mais do que acessória, é um incómodo. Testemunhos como o de Matilde, sobrinha da nossa Francisca Prieto, serão caridade inocente. Testemunhos como o de Helena Araújo, no Destreza das Dúvidas, serão propaganda. Como será propaganda o caso notável de Mohamed Al Uattar, um médico sírio a exercer no centro de saúde de Estremoz. Trabalhou na Cruz Vermelha, colabora com o INEM e presta assistência na CERCI, o que, segundo os detractores do Islão, será certamente uma estratégia rebuscada do autoproclamado Estado Islâmico para meter Portugal de burqa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Exemplos de Vida

por Francisca Prieto, em 20.04.16

Hoje a minha sobrinha Matilde foi ao programa do Medina Carreira prestar o seu testemunho enquanto voluntária num campo de refugiados na Grécia. Desde que chegou que tem tido vários convites e eu sigo sempre tudo, muito atenta, de olhos colados ao ecrã. Porque tenho um imenso orgulho na forma como estabeleceu prioridades na sua vida, mas também porque tenho um raio de um defeito de profissão que me faz analisar a pertinência das perguntas e o peso de cada palavra no resultado da comunicação.

Gosto da forma como ela resiste em cair em histórias sensacionalistas, mesmo quando há insistência da parte do entrevistador. E gosto da forma como se ri e oferece uma resposta curta quando quer escapar a um tema sobre o qual prefere não falar.

Gosto desta ética. Da forma como não assume que os episódios hediondos que lhe passarem pela frente são sua propriedade. Que o sofrimento extremo de terceiros, mais do que uma boa história para contar, é matéria para respeitar.

No outro dia perguntavam-lhe em tom afirmativo se após esta experiência se tinha tornado uma pessoa diferente. É preciso não conhecer a Matilde para não perceber que ter estado num campo de refugiados, em situações limite, é apenas mais um degrau no caminho de vida que tem construído na ajuda ao próximo.

Não acontece a uma miúda qualquer acordar um dia e debandar para um campo de refugiados. Há um percurso que já se fez, há uma cabeça que já estabeleceu prioridades, há um coração que cresceu até ficar maduro.

Só está preparado para uma missão destas quem já lidou de perto com a morte, com cenários de pobreza extrema e com pessoas em registo de sobrevivência. Só sabe fazer isto quem desenvolveu o instinto de agir antes de olhar a juízos de valor. Quem aprendeu a ler o sofrimento alheio e a perceber que ferramentas tem para o poder minimizar.

E quem conhece a Matilde sabe que ela já tinha aprendido tudo isto antes de embarcar para a Grécia. É por isso que a experiência, ainda que brutal, não representa mais do que um dos muitos degraus que tem vindo a escalar.

É por isso que ouvi-la falar é comoventemente inspirador.

 

Matilde.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Brincar com coisas sérias.

por Luís Menezes Leitão, em 10.04.16

 

Em Portugal tem-se uma tendência irreprimível para brincar com coisas sérias, o que tem como efeito a sua banalização. Nesse âmbito não consigo conceber exercício mais disparatado do que o da Plataforma de Apoio aos Refugiados que lançou um programa para as crianças nas escolas dizerem se fossem refugiadas o que levariam nas mochilas. Para as crianças o exercício deve ser muito engraçado, já que, da mesma forma que brincam aos polícias e aos ladrões, também podem brincar aos refugiados. Duvido é que se aparecesse alguma criança no grupo que tivesse sido mesmo refugiada, ela achasse alguma graça a recordar essa sua experiência, ainda que a pretexto de uma brincadeira dos colegas.

 

Mas o assunto salta rapidamente das crianças para os adultos e então começam as figuras públicas também a brincar com a situação de refugiado. Mas o politicamente correcto impõe que se dê uma resposta correcta, sob pena de ser decretada uma espécie de morte civil nas redes sociais. Foi o que se passou a Joana Vasconcelos que respondeu que se fosse refugiada levava o iphone, o ipad e todas as suas jóias. Curiosamente não terá sido essa a sua intenção, mas até agora foi a personalidade que deu a resposta mais correcta. É que o que um refugiado deve levar consigo são bens de valor, dos quais naturalmente terá que se desfazer para chegar ao seu destino. Quem não se lembra do filme Casablanca, onde o Capitão Reynaud exigia aos refugiados dinheiro para lhes fornecer um visto, e se eles não o possuíam propunha-se dormir com as suas mulheres a troco daquela simples oportunidade de fugir, mas que para os refugiados era tudo? 

 Mas se toda a gente verberou Joana Vasconcelos, ninguém estranhou a resposta do presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que do assento etéreo onde subiu pode dizer os disparates que quiser, que ninguém liga absolutamente nenhuma. O que disse Marcelo? Que levaria alguns objectos de valor estimativo pessoal como fotografias, recordações de família. Levaria ainda uma Bíblia e um livro, possivelmente o Guerra e Paz, embora o Presidente também considere A Condição Humana, de Hannah Arendt, ou Ulisses, de James Joyce. Por último, o Presidente levaria ainda um telemóvel e carregador, já que o resto é supérfluo. Pelos vistos, o que deve ser essencial é transportar os quatro volumes da Guerra e Paz de Tolstoi pela zona de guerra, uma vez que a viagem é aborrecida, e nada melhor que uma obra sobre a guerra napoleónica na Rússia para estarmos entretidos na viagem. Esses livros também devem ser muito úteis para atravessar fronteiras, pois consta que os militares da zona andam ansiosos por ler e rapidamente deixariam passar um intelectual que trouxesse consigo obras clássicas tão interessantes.

 

Para um refugiado de guerra a sério, não interessa nada o que leva na sua mochila. Aliás normalmente nem tem tempo para a fazer, debaixo das bombas. O que lhe interessa mesmo é chegar a um lugar seguro, e ter-se colocado a si e aos seus a salvo da guerra. E quem tem que andar dias e dias em fuga só pode trazer consigo o essencial para sobreviver: água, comida, e eventualmente algum bem de valor com que possa pagar a viagem, uma vez que até a moeda do país deixa de valer nessas alturas. Alguém sabe que os traficantes cobram mil euros para fornecer a um refugiado um simples lugar num barco pneumático, que se pode virar à primeira onda, e onde naturalmente não entra qualquer mochila, pois nesse espaço entra outro refugiado? Há coisas dramáticas demais para que se queira brincar com elas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da empatia

por Rui Rocha, em 09.04.16

empatia.png 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Casas no lugar de muros

por João André, em 17.02.16

A crise dos refugiados está a demonstrar a mentira da solidariedade europeia. Os austríacos acolheram enquanto foi politicamente vantajoso e A Fotografia circulava. Agora fecham as portas. Os alemães foram arrefecendo o entusiasmo e agora andam a tornar-se algo gélidos em relação ao tema, especialmente depois do Ano Novo, quando vários ilegais e requerentes de asilo roubaram e assediaram sexualmente diversas mulheres em Colónia. O pior é mesmo a atitude dos países de Visegrád, que numa tentativa de mostrar músculo (em alguns casos devido a eleições próximas), querem fechar fronteiras para impedir a entrada de pessoas que lá não querem ficar.

 

Sejamos honestos: fechar as fronteiras não resolverá o problema. Há centenas de milhar (senão milhões) de pessoas em trânsito pela chamada "rota dos Balcãs" que não deixarão de avançar mesmo que lhes fechem as portas. Se os muros forem construídos irão usar traficantes, destruir o muro onde puderem, saltá-lo, contorná-lo ou simplesmente subornar quem possam. Se necessário voltarão ao Mediterrâneo e procurarão um porto de entrada mais a leste. Ou irão simplesmente ficar por onde estão, indesejados, escorraçados e sem quaisquer perspectivas.

 

Só que, e é aqui que está o problema, eles arriscarão tudo, até mesmo viver nas ruas de Atenas, Skopje, Belgrado ou outras, porque a situação será sempre melhor que aquela que deixaram para trás. Viver nas ruas mas em paz é melhor que viver nas ruas de um país em guerra. Arriscar fome e maus tratos é melhor que arriscar a vida ou tortura. Estas são pessoas que deixaram tudo o que tinham para trás e arriscaram um percurso extremamente arriscado para procurar outra vida, qualquer que fosse. Por vezes fizeram-no sabendo que arriscavam também filhos pequenos.

 

Fechar as portas não ajuda e só destruirá a UE. Os refugiados acumular-se-ão por uns tempos na Grécia antes de começar a tentar outros pontos de entrada. A Grécia colapsará sob o peso da hipocrisia europeia e deixará a UE - no que será o primeiro passo para a sua desintegração. Os refugiados procurarão outros pontos - talvez entrem na Bulgária através da Turquia; talvez procurem caminhos pela Albânia (onde há imensas máfias prontas a lucrar) mesmo sendo muito mais arriscado; outros irão em barcos até à Itália, Croácia ou França. Barcos afundarão (ou serão afundados), pessoas morrerão em passagens traiçoeiras por montanhas e vales, outras serão assassinadas por criminosos ou simples gangues racistas.

 

À medida que este processo continua, os refugiados reduzir-se-ão. A Grécia terá deixado a UE - porquê ficar se só recebe ordens de todo o tipo e é deixada para se afogar sem ajuda? - e outros países (talvez a Croácia, talvez a Bulgária) começarão a ser questionados. Se a solidariedade quebra por um membro porque não quebrará por outro? O processo continuará e a UE começará a criar as famosas duas (ou mais velocidades) que deixarão inclusivamente os países de Visegrád para trás. Com o tempo voltaremos a uma CECA com mais um ou outro membro e o projecto europeu morrerá a sua morte lenta.

 

Este cenário não é inevitável nem que os muros sejam construídos, mas não consigo deixar de pensar que será muito provável. Os europeus têm sido sempre muito criativos com as suas fugas para a frente, mas têm-no feito esquecendo a pura natureza humana, aquela que não cabe numa folha de Excel ou slide de Powerpoint. Pessoas em sofrimento arriscarão tudo quanto podem para melhorar a sua condição, nem que seja um poucochinho que seja. Fechar-lhes a porta e não os integrar (o que faria até sentido economicamente) não é só desumano (sabendo que morrerão em largos números): é estúpido por arriscar o próprio futuro.

 

No fundo, é uma questão de construir casas em vez de muros. Os custos seriam semelhantes e os lucros muito superiores. Talvez isso venha a ser percebido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da Valentia do Trabalho Anónimo

por Francisca Prieto, em 10.02.16

Quando o pai da Matilde, que era amigo cá de casa, foi para o céu, a Matilde tinha catorze anos. Quis o destino, ou a sua própria vontade, que a ela se fosse gradualmente aproximando da nossa família, ao ponto de hoje ter um lugar no nosso coração tão grande como qualquer um dos nossos sobrinhos, e uma intimidade muitas vezes superior.

A Matilde tem um percurso francamente diferente do da maior parte das raparigas da sua idade porque contrabalança na perfeição o seu tom cor de rosa betinho, com uma desarmante capacidade de compaixão para com o próximo.

A Matilde realiza-se no exercício do consolo e, por isso, nos últimos anos tem procurado, por iniciativa própria, diferentes formas de dar colo a quem desespera por um gesto de ternura.

Durante uns anos, integrou-se numa organização de distribuição de alimentos aos sem-abrigo. O que quer dizer que, quando calhava ir com ela jantar para as bandas da avenida da Liberdade, tínhamos sempre de abrandar o passo enquanto ela cumprimentava uma data de gente enfiada em sacos-cama pelas ombreiras das portas, avenida acima. Se íamos para fora e a levávamos connosco, já sabíamos que tínhamos de guardar as embalagens de champô dos hotéis porque ela era perita em convencer os sem-abrigo a irem tomar duche aos banhos públicos. Para confirmar que a operação se realizava, e que não havia margem para desculpas, apresentava-se à hora combinada, em cima da sua Vespa cor de rosa, frente ao edifício dos duches, com o frasco do champô e a imprescindível moeda de cinquenta cêntimos.

Depois, por alturas das férias da Páscoa, começou a ir em missões para o interior do país, oferecer os seus préstimos a lares de terceira idade. Vieram também as procissões e os campos de férias onde, no seu papel de monitora, conseguia enturmar na perfeição miúdos de famílias estruturadas com crianças problemáticas de instituições.

No meio disto tudo, chegou a altura da faculdade. Optou por enfermagem e está algures a meio do curso.

Um dia destes disse-me que queria ir para um campo de refugiados, que não podia olhar para o que se estava a passar e ficar de braços cruzados. Mas que tinha estado a investigar e que os voluntários tinham de pagar a viagem e a estadia do seu próprio bolso. Pediu-me ajuda para arranjar dinheiro, de maneira que coloquei a minha velha expertise pedinchona de angariação de fundos em acção e após uns posts no facebook e uns emails a amigos mais próximos, conseguiu-se em 24 horas ultrapassar a quantia necessária.

Lá embarcou a Matilde para a ilha de Lesbos, na Grécia, onde ficou durante os cerca de vinte dias que as suas férias da faculdade permitiam.

Voltou com as histórias com que tinha de voltar. Com o olhar de quem assistiu ao sofrimento humano na sua forma mais crua.

Perguntámos-lhe o que fazia no campo. Respondeu prontamente que tratava das “pontas soltas”. Isto, para quem a conhece, sabe que quer dizer que andou à procura dos aflitos mais aflitos para consolar. Que fez inúmeras visitas às lojas do chinês da cidade para, com o dinheiro que lhe sobrava, comprar gorros e sapatos para as crianças que se apresentavam de chinelos num lugar onde as temperaturas chegavam abaixo de zero. Que deslindou, das cinco mil pessoas que a rodeavam, quem precisava das luvas que ela própria tinha calçadas, ou quem tinha de seguir imediatamente para o hospital.

E que, apesar de se ocupar prioritariamente das crianças, eram os homens quem lhe fazia mais pena. “Porque para os homens nunca chegava nada. Era quem dormia ao relento quando já não havia espaço, era quem ficava sem comer quando não chegava para todos, era quem ficava sem cobertor quando a pilha acabava”.

E eu ouvi isto calada, primeiro porque não consigo imaginar o que é gerir uma enormidade destas, mas sobretudo porque de alguma maneira tudo parece menos cruel na doce voz da Matilde.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Facto internacional de 2015

por Pedro Correia, em 04.01.16

 6409bd912d8b4941a64da233081705da_18[1].jpg

 

A CRISE DOS REFUGIADOS

Mais de um milhão de desalojados de guerra ou emigrantes impulsionados pela crise económica - oriundos do continente africano, do Médio Oriente e até de paragens mais longínquas como o Bangladeche e o Afeganistão - acorreram em 2015 à Europa, procurando neste continente santuário e asilo. O país mais desejado, na rota da esmagadora maioria destas pessoas, todas contempladas com o duvidoso rótulo mediático de "migrantes", foi a Alemanha, o que tem suscitado ampla polémica no país. Com o aparecimento de movimentos como o Pégida e contestação aberta, nas próprias fileiras democratas-cristãs, à chanceler Angela Merkel, que proclamou Berlim e outras urbes germânicas como "cidades abertas" ao fluxo de refugiados.

A maioria destas pessoas foge da sangrenta guerra civil da Síria, que já provocou mais de 250 mil mortos em quatro anos e pelo menos quatro milhões de exilados, em grande parte concentrados em campos improvisados nos países limítrofes - Líbano, Jordânia e Turquia. A somar-se à guerra ocorreu em 2015 a ocupação de cerca de um terço de território sírio pelas hordas do Daesh, que ali impõem a lei do terror - que visa sobretudo a forte minoria cristã da Síria, avaliada em cerca de 10% da população.

A crise dos refugiados, presente em todos os debates políticos europeus, foi o facto internacional do ano, segundo o critério do DELITO DE OPINIÃO. Na eleição, em que participaram 23 autores deste blogue (que podiam votar em mais de um tema), este recebeu 17 votos, seguindo-se o fundamentalismo do chamado "Estado Islâmico" (já eleito facto internacional de 2014), com sete votos. 

Apenas dois outros acontecimentos de 2015 receberam votos solitários: o restabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos e a possível cura contra o cancro realizada por investigadores da Universidade de Copenhaga. Boas notícias que infelizmente não bastaram para ofuscar as más.

 

Facto internacional de 2010: revelações da Wikileaks

Facto internacional de 2011: revoltas no mundo árabe

Facto internacional de 2013: guerra civil na Síria

Facto internacional de 2014: o terror do "Estado Islâmico"

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mais que uma música, mais que um vídeo

por Tiago Mota Saraiva, em 19.11.15

 

Solo andata - Canzoniere Grecanico Salentino

Autoria e outros dados (tags, etc)

Imagino a consternação dos familiares dos refugiados sírios que chegaram a Portugal quando souberam que a mãe do terrorista é da Póvoa de Lanhoso.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tu, o guardião das fronteiras

por Rui Rocha, em 15.11.15

Pensa numa sala de espectáculos. Por exemplo, o Bataclan, em Paris. Pode ser? Agora, imagina que, por absurdo que possa parecer, durante um concerto, o Bataclan é tomado de assalto por terroristas. Estão lá dentro terroristas, três ou quatro, e muitos inocentes. Imagina agora que te cabe a ti tomar uma decisão sobre uma questão fundamental: em nome da segurança dos que estão cá fora, podes mandar fechar as portas e manter uns e outros lá dentro, abandonando-os à sua sorte. Uma decisão terrível, não é? Pois é precisamente essa a decisão que queres que seja tomada quando defendes que se fechem as fronteiras da Europa aos refugiados.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"However, a U.S. intelligence official told CBS News the Syrian passport might be fake. The official said the passport did not contain the correct numbers for a legitimate Syrian passport and the picture did not match the name."

 

Isto é, impõe-se prudência na análise dos factos. Há pelo menos as seguintes possibilidades: a) o terrorista utilizou um passaporte falso para entrar na Grécia; b) o FBI tinha informação prévia sobre a fotografia ou o nome e estes não batem certo com os dados do passaporte; c) o refugiado vendeu o passaporte ou este foi-lhe roubado; d) o passaporte pode ou não pertencer ao terrorista. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O terrorismo alimenta-se do ódio. Uma Europa que acolhe refugiados fura o cerco do ressentimento, dá exemplo de solidariedade. Não há nada mais devastador para o discurso dos sanguinários. Um passaporte de um refugiado sírio no local de um dos ataques nada nos diz sobre a forma como lá chegou. Quem mata inocentes com gélida indiferença, também leva consigo um passaporte forjado, roubado, para instigar no lado dos bons a irracionalidade que lhe convém. E ainda que se comprove que alguém se infiltrou para abusar da boa vontade dos que recebem, continua a ser fundamental não fazer o jogo do terror. Ainda aí é preciso separar o trigo do joio, não tomar a árvore pela floresta. Vencer é, para começar, resistir ao alarmismo e às conclusões precipitadas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ser ou não ser soberano na UE

por Pedro Correia, em 22.09.15

imm_1826826c[1].jpg

 

É curioso: alguns dos que se apressaram a contestar a suspensão da aplicação das regras vigentes no Espaço Schengen, por decisão soberana de Estados-membros da União Europeia, costumam estar na primeira linha da crítica à UE por desrespeitar as soberanias nacionais.

Eis que, no momento em que há países a adoptar medidas que consideram de estrito interesse nacional, as mesmíssimas vozes fazem-se escutar em contestação intransigente desse exercício de soberania.
Sem sequer repararem na contradição em que tombam.

 

A suspensão provisória das regras de Schengen para cidadãos extra-comunitários é plenamente justificada pelo imenso afluxo de pessoas oriundas da Síria, Iraque, Eritreia, Somália, Líbia, Sudão, Etiópia, Nigéria, Iémene, Afeganistão, República Democrática do Congo, República Centro-Africana, Mali, Paquistão, Nepal e Bangladeche que - salvo raríssimas excepções - procuram a Alemanha ou a Suécia como destinos finais.

Segundo dados do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, cerca de 450 mil já terão chegado ao continente europeu desde o início do ano: é aqui que encontram refúgio e esperança numa vida melhor. Fora da Europa, apenas a Turquia (dois milhões, o equivalente a 2% da sua população, o Líbano (um milhão, cerca de 28% da sua população) e a Jordânia (600 mil, o que corresponde a 10% do número de habitantes do país) têm acolhido estes imigrantes, que em grande parte escapam a situações de guerra - mas também à mobilização militar obrigatória decretada pela ditadura síria e a condições de penúria económica existente nos continentes africano e asiático.

A suspensão temporária que agora vigora decorre da necessidade de proporcionar condições mínimas de acolhimento a quem chega e de identificar devidamente todos quantos demandam o espaço comunitário. Para prevenir males maiores a curto prazo, pois os efeitos perversos da política de portas escancaradas são facilmente previsíveis. Desde logo, para travar o crescimento de movimentos extremistas e xenófobos um pouco por toda a Europa, inflamados pela retórica anti-imigrante. Além disso, para impedir uma sensação crescente de insegurança no espaço da UE: é fácil prever que o chamado 'estado islâmico' tem capacidade para infiltrar estas correntes migratórias que circulam de país em país muitas vezes sem documentação e quase sempre sem controlo.


Não accionar agora este travão provisório acabaria fatalmente por condicionar em definitivo um dos pilares da construção europeia, que é a liberdade de circulação. Só a Baviera recebeu desde 31 de Agosto cerca de 70 mil pessoas oriundas de outras latitudes e muitos milhares continuam em movimento - sempre de leste para oeste e de sul para norte.

Perante tanta demanda, a capacidade de acolhimento torna-se limitada. Sendo inquestionável que nenhum genuíno refugiado será remetido à procedência: quem escapou do terror da guerra e da opressão de regimes tirânicos tem o direito de encontrar asilo num continente que se gaba de ser livre.

 

Enquanto este escrutínio começa a ser feito, na medida do possível, vou escutando alguns indignadinhos de sofá no conforto da Europa Ocidental clamando contra a "repressão" e a "desumanidade" na UE.

São os mesmos que até hoje não proferiram o mais leve sussurro contra a brutal ditadura de Assad, responsável pelo banho de sangue em curso na Síria, com 240 mil mortos já confirmados.

São os mesmos que não ousam indignar-se contra a Rússia de Putin - aliada nº 1 da tirania síria - e as milionárias monarquias do Golfo Pérsico, que até agora não acolheram um só refugiado.

São os mesmos que, num exercício de chocante duplicidade moral, ousam até imputar ao Ocidente o patrocínio moral das atrocidades do auto-intitulado "estado islâmico".

Os mesmos que desatariam a lançar pragas se vissem multidões de refugiados a rondar-lhes os bairros, os prédios e os quintais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Caminhando para a escolha de Hobson europeia

por João André, em 21.09.15

Na questão da entrada dos refugiados faz falta colocar duas perguntas:

 

1 - Quantos refugiados "queremos" deixar entrar? 

2 - Que tipo de refugiados (e migrantes) aceitamos? 

 

Estas questões são fundamentais por dois motivos: por um lado há quatro milhões de refugiados entre Jordânia, Líbano e Turquia - que fazer com eles? Por outro, fica por saber se abrimos a porta apenas a sírios, a todos os refugiados que fujam da guerra, ou aceitamos também abrir as portas a quem procura escapar à miséria a que está sujeito, mesmo se em condições de paz? 

 

Para responder a estas questões podemos também olhar para a demografia europeia e as suas necessidades de trabalho. Há vários países (incluindo a Alemanha) que não são capazes de preencher os postos de trabalho que a sua economia vai produzindo. Poderão ir pescar aos países vizinhos (ou do espaço UE) mas isso não resolve problemas demográficos, apenas os adia. A imigração alivia o problema de forma mais directa. 

 

Claro que esta imigração levanta outros problemas: o influxo é muito grande e rápido, pelo que é necessário oferecer infraestruturas de apoio a quem for aceite (tecto, comida, escolas, roupa, etc) ao mesmo tempo que se tenta que se integrem na sociedade (língua, metodologias, regras, etc). Há a questão cultural, obviamente, mas esta questão só se coloca por um prisma: é possível absorver tantos muçulmanos de uma só vez? Considerando que a UE tem uma população de mais de 500 milhões (dos quais 2% serão muçulmanos), absorver 4 milhões de pessoas (nem todos muçulmanos) deveria ser relativamente desde que todos trabalhem para isso.

 

Até que estas questões sejam respondidas, toda e qualquer reflexão sobre a actual crise de refugiados sofrerá do seu carácter ad hoc. Sem existir um objectivo, não pode existir uma estratégia. Se não se aceitarem todos os refugiados e migrantes, será necessário decidir o que fazer na origem, na Síria, Iraque e outros países. Uma intervenção militar? Tentar apoiar antes os campos de refugiados nos países da região? Outros? Estas decisões urgem, não só para tentar ao máximo evitar a morte dos refugiados (que aumentará à medida que o tempo piorar) mas também para evitar que a união europeia se desmembre.

 

A liberdade de movimentos será, pelo menos no imaginário da população europeia, o mais óbvio resultado da União Europeia. A economia surge mais tarde (mesmo que tenha sido o verdadeiro motor inicial de integração dos países). Se os países começarem a agir apenas em torno dos seus próprios interesses, a solidariedade europeia desintegrar-se-à (já não andava famosa) e todo o edifício da UE cairá.

 

Eu não tenho dificuldades em imaginar a Hungria como motivada por egoísmo e xenofobia. O passado do governo de Órban, que tomou medidas popular-nacionalistas para tentar conter o crescimento do Jobbik, indiciam que a sua preocupação não são as regras de asilo da UE nem as fronteiras de Schengen. O populismo também justifica a decisão da Eslováquia e Holanda de voltar a controlar as fronteiras, dado que a percentagem de pessoas que entrarão directamente nesses países será bastante reduzida. Tentar justificar os controles com a necessidade de limitar os traficantes não é só errado - é estúpido. Como se diz na região dos balcãs: enquanto houver ovelhas, haverá camisolas.

 

Como já muita gente escreveu, a Grécia foi (e continuará a ser) um teste da solidariedade da UE. A crise de refugiados é cada vez mais um teste de Litmus, mas ameaça avançar para se tornar em breve uma escolha de Hobson.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ironias da História

por Pedro Correia, em 18.09.15

migrants-864x400_c[1].jpg

 

Schengen entra em colapso devido à pressão sobre as suas fronteiras externas. Depois da Hungria, da Alemanha e da Áustria, também a Eslovénia e a Croácia suspenderam as regras sobre livre circulação, reforçando o controlo policial das fronteiras.

"A Eslovénia tem a obrigação de proteger a fronteira externa de Schengen", sublinhou o primeiro-ministro esloveno, Miro Cerar, anunciando drásticas restrições à entrada de pessoas oriundas de países não pertencentes à UE.

A Croácia, por sua vez, encerrou ontem sete dos oito postos fronteiriços com a Sérvia após a entrada em território croata de mais de 13 mil cidadãos extra-comunitários em apenas 48 horas. "Não temos condições para receber mais ninguém", advertiu o ministro do Interior, Ranko Ostojic. O chefe do Governo croata, Zoran Milanovic, fala mesmo em "despachá-los".

Eslovenos e croatas - que já suspenderam as ligações ferroviárias - mantêm as forças militares e policiais em estado de alerta. Enquanto dirigentes europeus trocam acusações, nenhuma solução se divisa no horizonte.

A larga maioria dos cidadãos deslocados - muitos dos quais são sírios que já estiveram internados em campos de refugiados na Turquia, no Líbano ou na Jordânia - caminha numa direcção precisa: de leste para oeste, de sul para norte. Interrogados pelos jornalistas acerca do destino que têm em vista, todos dizem uma só palavra: "Alemanha".

Ironias da História: há 80 anos, milhões tentavam fugir da Alemanha. Agora outros tantos sonham chegar lá.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Voltar a recordar a história

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.09.15

hungarian refugees.jpg

O Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados e alguns outros funcionários dessa entidade recordaram há dias o que aconteceu durante a crise de 1956 que levou mais de 200.000 húngaros a sair do seu país. Cerca de 180 000 fugiram através da Áustria e 20 000 pela Jugoslávia. Entre o fim-de-semana de 4 de Novembro e o final desse mês passaram 113 000. Na altura foram inúmeros os países que abriram as portas para receber e apoiar os húngaros que escapavam à repressão soviética. Começaram a sair de um dia para o outro para a Áustria, um país que ainda prestava apoio a 150 000 refugiados da II Guerra Mundial. E que apesar da sua pequenez, argumento que também tem sido abusivamente usado para justificar a acção do governo de Viktor Orbán, não fechou portas a quem se refugiava.

Não existiam os mecanismos de apoio e cooperação que hoje temos, e apesar de estar em vigor a Convenção de 1951, mesmo os estados que não eram parte não regatearam esforços para acolher os refugiados.

Entre os países que se prontificaram a acolher refugiados húngaros também estava o Portugal bem comportado e obediente de Salazar, que se predispôs a receber temporariamente um número até 7 000 crianças. 

Inclusivamente, e este é outro ponto que tem sido referido para defender a posição húngara em relação aos refugiados que procuravam dirigir-se para a Alemanha, quando em 1956 o representante da Arábia Saudita junto das Nações Unidas levantou a questão da falta de documentos dos que fugiam, o representante austríaco respondeu que essas questões deviam ser tratadas depois de serem satisfeitas as necessidades básicas dos refugiados. Como aqui se escreve, também nesse tempo muitos do que fugiam utilizaram traficantes para poderem fazê-lo, porque não tinham alternativa para escapar ao flagelo comunista. Não foi a falta de documentos de identificação que impediu a sua aceitação como refugiados e não foram erguidos muros. O paralelo que se tem tentado estabelecer entre os que fogem da guerra e os refugiados económicos que procuravam entrar por outros locais não tem comparação possível, apesar de merecer igualmente atenção. Como a própria chanceler Merkel sublinhou, uma coisa são os que fogem da guerra, outra os que procuram melhores condições de vida. As situações não são comparáveis.

Por outro lado, também já em 1956 o sistema de quotas foi discutido de maneira a que o peso do apoio fosse repartido por todos os países em função dos números das respectivas populações, face à diminuta capacidade da Áustria em acolher condignamente todos os que fugiam. No final, a Áustria foi aliviada do peso dos refugiados no seu território e reembolsada dos 12 200 000 USD que gastou pelas contribuições feitas por outros países, directamente ou através do Secretário-Geral da ONU e do ACNUR. 

E, já agora, convém deixar aqui alguns números sobre o destino final dos refugiados de 1956:

"First of all, most of the Hungarian refugees were relocated or resettled outside Austria. Eventually 410 refugees settled in Austria, the others left for 36 other states: Argentina (1,020), Australia (11,680), Belgium (5,850), Brazil (1,660), Canada (27,280), Chile (270), Colombia (220), Costa Rica (30), Cuba (5), Cyprus (2), Denmark (1,380), Dominican Republic (580), Ecuador (1), Federation of Rhodesia and Nyasaland (60), France (12,690), Germany (15,470), Iceland (50), Ireland (540), Israel (2,060), Italy (4,090), Luxembourg (240), Netherlands (3,650),New Zealand (1,090), Nicaragua (4), Norway (1,590), Paraguay (7), Portugal (4), Spain (19), Sweden (7,290), Switzerland (12,870), Turkey (510), Uruguay (37), Venezuela (780), Union of South Africa (1,330), United Kingdom (20,990), and the United States (40,650). Even more states had offered to accept Hungarian refugees: Bolivia had offered places for 500 families, Guatemala, Honduras and Tunisia had offered 100 places each, and Peru had offered 1,000 places." (Marjoleine Zieck, The 1956 Hungarian Refugee Emergency, an Early and Instructive Case of Resettlement).

Sasha Nagy lembrou o que aconteceu ao seu próprio pai em 1956, mas muitos mais exemplos haverá. Não será assim de admirar que havendo quem tenha sofrido  o drama de 1956 agora escreva que o que está a acontecer envergonha a Hungria

542382263.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

O poder de uma só imagem

por João André, em 14.09.15

Um dos problemas de estar de fora é que quando se chega atrasado a uma discussão da actualidade já se perdeu o elemento de surpresa ou de choque. No mundo moderno isso é tanto mais certo por as discussões decorrerem a um nível quase instantâneo, com as notícias e fotos e vídeos a serem reproduzidos no Twitter, Facebook, blogues e outros no espaço de segundos. Os retweets e as partilhas das notícias pelas nossas redes de contacto garante que ainda antes de vermos a notícia no jornal da noite, já ela nos entrou pelos ecrãs adentro. O ciclo noticioso de um evento, que há 30 anos seria de duas semanas, há 20 de uma semana e a meio da década passada se mediria em três ou quatro dias, é hoje de 24 horas no máximo. Depois disso o efeito dilui-se.

 

Uma excepção aconteceu quando surgiu a foto do menino afogado a fugir para a Europa. Na verdade nem era uma única foto, eram várias, não havia uma mais emblemática que a outra, embora todos nós tivéssemos uma que nos moveu mais oue as outras. É uma foto que muda a opinião pública de um evento corrente por ser forte num nível especial. Durante a fome de 1993 no sul do Sudão, centenas de imagens de crianças esfomeadas invadiram os nossos jornais e televisões (como em 84-85 no caso da Etiópia). Houve no entanto uma que ficou para sempre na memória. O mesmo com esta crise de refugiados. Não importa que não fosse a primeira criança a morrer e que não seja sequer a última. A imagem do seu corpo sem vida ficará. 

 

Porquê? Por vários motivos, mas são simples de elencar. Antes de mais pela paz da imagem. Poderia estar a dormir, mas sabemos que não é assim. Agita os medos de qualquer mãe ou pai que terá ido ver se o filho ainda respirava num momento de sono mais profundo. Poderia estar a dormir. Mas não está. Por outro lado, está bem vestido. A roupa não está em farrapos. É garrida, como imaginamos numa criança cuidada e amada. Não está sujo, talvez o resultado da acção do mar, mas é mais fácil ignorar quando há sujidade, quando parece pouco cuidado. Há ainda o elemento "racista" na história: não é preto, poderia ser natural de muitos países europeus (não me imagino racista, mas acredito que uma criança negra me impressionaria menos). 

 

Todos estes elementos contribuíram para este impacto. O de uma criança que até ao último momento não saberia o que se passava. No fundo, o impacto da imagem de uma criança que poderia ser a nossa, que vemos como a nossa. Neste ponto, o pormenor mais importante é o de não lhe vermos a cara. É fácil colocarmos aquela que mais nos impressionaria a nós. 

 

Uma imagem que muda o curso da história, espero. Infelizmente foi necessária. E aquilo que acaba a impressionar-me mais é: quantas crianças morreriam se esta imagem não tivesse surgido? 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A ebulição das espécies

por Rui Rocha, em 10.09.15

Apesar de tudo, encontramos ainda motivos para acreditar na Humanidade. Mesmo os exemplares mais retrógrados e providos de natural boçalidade são capazes de evoluir, tornando-se seres empáticos e profundamente preocupados com o bem-estar do seu semelhante. Veja-se, por exemplo, o caso de tantos que se insurgiram contra a criação do rendimento mínimo: que ia estimular a malandragem e tal. Pois ou me engano muito ou são os mesmos que, numa fervurinha e com uma lágrima terna de compaixão ao canto do olho, estão agora, naturalmente, muito preocupados com os portugueses pobres a quem devíamos acorrer em lugar de andarmos a acolher refugiados.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eu, refugiado

por Rui Rocha, em 10.09.15

RETORNADOS.jpg

Foi há quarenta anos. Não me lembro de tudo. E não sei se me lembro de memória minha, ou se são imagens construídas sobre histórias que fui ouvindo. Lembro-me (ou contaram-me?) das ventoinhas nos tectos, dos flamingos, dos mosquiteiros, das noites quentes na Restinga com frascos cheios de pão que serviam de engodo para os peixes. Lembro-mo do nome do Calita, amigo de brincadeiras, mas não me lembro da cara dele. Lembro-me do meu cavalo de pau numa varanda porque ainda tenho ali uma fotografia que confirma que o tive. Lembro-me, e disso lembro-me, num lampejo, de subir a Colina da Saudade ao fim da tarde, na Opel, com o meu pai, para irmos buscar a minha mãe ao Liceu onde ensinava. Não me lembro se depois fomos ao Kurika da Etelvina e do Santos, que mais tarde tiveram a Residencial Paradouro na Almirante Reis em Lisboa, comer o meu bife: Etelva, quero o meu bife. Mas é provável que tenhamos ido, como íamos tantas vezes. E lembro-me, ai como me lembro, de ter dores de barriga e de pedir à minha mãe para me levar ao Pinto Coelho, o médico do Lobito. E lembro-me de uma viagem pela estrada do Kubal em que vimos os Xinganges. E do Carnaval em que as lavadeiras me arrancaram dos braços desconfiados da minha mãe para dançaram comigo. Lembro-me de nomes mas já não sei o que tinham dentro deles: o Hotel Terminus, a Catumbela. E Benguela onde o avô Rocha tivera a recauchutagem e onde morava o Oliveira Makeiro. Mas já não sei se era o Oliveira Makeiro que andava na rua de pijama ou se era outro de que já não me lembro. Lembro-me que o tio Fernando e a tia Lina ainda ficaram. Que vieram umas semanas mais tarde. Que a Carina, que a tia Lina carregava então na barriga, nasceu ainda lá e ficou deficiente profunda por falta de assistência no parto. Lembro-me de ouvir contar que muitos vieram em traineras. Que outros fugiram para  a África do Sul. Que alguns partiram em paquetes. Talvez no Príncipe Perfeito que uns tempos antes o meu pai me levara a ver no Porto do Lobito. Lembro-me de ouvir o Miguel, que uma tarde me levou de bicicleta aos musseques antes de me devolver, já anoitecendo, aos braços nervosos da minha mãe, falar dos comícios do Agostinho Neto e do Savimbi. O Savimbi falava bem. Sabia várias línguas. O Agostinho Neto? Xi, Patrão, pergunta não: O Agostinho Neto estava bêbedo nos comício do Lobito, pá. Lembro-me de a minha mãe contar que uma noite, alta madrugada, se levantou para atirar pela janela fora os crachás do MPLA, da UNITA e da FNLA que o Lúcio Lara, do MPLA, uma irmã (assim se chamavam entre si os simpatizantes do Holden Roberto) e o Jonas Malheiro da Unita do Lobito me tinham dado. Tinham dito à minha mãe que as milícias de um partido e dos outros entravam pelas casas dentro e obrigavam os proprietários a engolir os crachás dos adversários. Lembro-me que eu era pelo Holden Roberto porque gostava de ouvir-lhe o nome. E que era da UNITA porque gostava de dizer kwacha e do MPLA, apesar do Agostinho Neto estar bêbedo no comício, porque o Lúcio Lara me dava crachás bonitos. Lembro-me, ou ter-me-ão contado, desse dia em que carregámos meia-dúzia de malas para o aeroporto do Lobito. Do meu pai a correr para o Dakota para nos meter lá dentro. De o ver tropeçar e cair no meio da pista e de o ver levantar-se agarrado à mão. Do barulho dos motores do Dakota já a sobrevoar o Lobito, o meu pai ao meu lado com o braço ao peito, amparado por um lenço castanho e vermelho. Do barulho das rajadas de metralhadora e dos morteiros enquanto o Dakota subia. O mesmo barulho que já tinha ouvido quando tropas portuguesas respondiam do telhado do prédio onde vivíamos às FAPLA que estavam no Terreiro do Pó. Ou será que o barulho das rajadas de metralhadora e de morteiros foi quando levantámos, dois dias depois, de Luanda? Lembro-me que o meu pai veio só para nos trazer para Portugal, mas que tinha intenção de voltar a Angola. E que nunca mais voltou. Lembro-me que o Jumbo (era um Jumbo, não era?) levantou de Luanda e uma hora depois voltou para trás por ter uma avaria. Lembro-me da cara do meu pai que sabia que em Luanda nos esperavam outra vez metralhadoras e morteiros. Lembro-me de não saber dar nome à cara do meu pai mas sei agora que era pavor. Por mim, pela minha mãe. Por ele. Lembro-me de dormir no Aeroporto de Luanda em cima de uma mala enquanto esperávamos por outro avião para a metrópole. E dos morteiros e das metralhadoras. Ou será que tinha sido no Lobito? Lembro-me de dormirmos dezenas de crianças num quarto de hotel em Lisboa no dia em que conseguimos chegar. Lembro-me que as malas se perderam. E que com elas se perdeu o pouco que ainda tínhamos. Com excepção de um frigorífico, de um bar com incrustações de madrepérola e de duas arcas em cânfora que chegaram de barco umas semanas mais tarde. O frigorífico que foi nosso ainda durante muitos anos já em Braga. E as arcas e o bar que ainda tenho lá em baixo na garagem. Lembro-me de chorar, ai como me lembro, porque numa das malas iam um casaco e umas calças, ambos de ganga, e um outro conjunto igual mas de sarja branca, de que gostava muito. Lembro-me do frio de Agosto quando saímos do nevoeiro do dia seguinte para bater à porta, sem nada nas mãos, da casa da avó Palmira em Silvalde. Lembro-me, ou foi o meu pai que me contou, do peso do falhanço que lhe vergava os ombros. Do pé atrás de muitos que nos receberam. Da desconfiança. Dos olhares contrariados. Dos sussurros sobre nós mesmo quando estávamos com família. Dos passos que se afastaram quando esperávamos, pelo menos, um sorriso. Da diferança de costumes. De não ter para onde voltar e de estar num lugar onde não nos queriam. De nos chamarem retornados e da raiva ou do desdém com que o faziam. Lembro-me que ser retornado era uma etiqueta que nos pesava. Que nos definia para lá de sermos boas ou más pessoas. Os de cá tinham uma família. Um passado. Coisas boas ou más que tinham feito. Nós não. Éramos só retornados. E de o meu pai responder sempre que não era retornado mas refugiado porque não tinha nascido . E que eu também tinha nascido . Lembro-me e não guardo rancor. Percebo os medos, os receios, as frustrações dos que já estão onde outros chegam. Da angústia da perda do pouco ou nada que se tem. Da injustiça de haver  quem passasse muito mal sem nunca ter sido ajudado e de ter de se ajudar quem chega sem ser convidado. Mas não percebo que os que estão não percebam o que é fugir da guerra, ficar sem nada, chegar de mão estendida, chegar com a vida falhada. Que não percebam as crianças. Não percebo a facilidade das soluções simples, dos discursos de trincheira. Do certo e do errado que nunca trocam de lado. Não percebo, não percebo. E não percebo porque me lembro. Ou porque me contaram coisas de que ainda me lembro.

 

* a fotografia é do Público.

Autoria e outros dados (tags, etc)

quem somos? para onde vamos?

por Patrícia Reis, em 04.09.15

A morte de uma criança devia mudar o mundo. Devia ser tão simples quanto isso. A situação dos refugiados não se limita à morte de uma criança. Abomino as pessoas que escrevem e dizem coisas tão bárbaras - e pouco humanistas - como: temos que ter cuidado, os refugiados podem ser terroristas, não têm estudos. POR FAVOR! Não aguento a falta de humanismo, de solidariedade. É chocante como as pessoas dizem tanto e fazem o mínimo possível pelos outros. Alguns dizem-se crentes, meu Deus! Há uma série de linhas de apoio aos refugiados, por favor, especulem menos, estejam calados com o moralismo e tacanhez e apoiem. Trata-se do nosso caminho como Humanidade. Quem somos? Para onde vamos? O que queremos? Em pleno século XXI, uma fotografia de uma criança morta nas águas do mediterrâneo devia ter o poder de mudar o mundo? Somos nós que mudamos o mundo na forma como agimos, no que defendemos, no que dizemos e como nos manifestamos. É, no mínimo, bizarro ver países construir muros depois de terem manifestado imensa alegria com a queda do muro de Berlim. É mais sinistro perceber os que decidem que não querem perceber ao estado a que tudo isto chegou. A Europa dos valores morreu? Talvez nunca tenha existido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Penso rápido (70)

por Pedro Correia, em 04.09.15

Por estes dias - dominados pela lógica das "redes sociais", que nada hierarquiza e descreve a realidade como um interminável plano horizontal - alguns comparam as vedações fronteiriças erguidas em determinadas zonas limítrofes do Espaço Schengen (começando pelos enclaves espanhóis de Ceuta e Melilha, em Marrocos), chamando-lhes Muros da Vergonha.

Lamento discordar, mas Muro da Vergonha só houve um: aquele que impedia os próprios habitantes de abandonar Berlim-Leste, semicidade onde ninguém queria entrar naqueles anos de chumbo da Guerra Fria. Berlim Ocidental estava sitiada por todos os lados (e teve de ser abastecida pelo ar durante anos) mas era muito mais livre do que a parte comunista da antiga capital do Reich. Onde os habitantes não tinham a mais elementar das liberdades - a de circulação.

Não percamos a memória: o Muro de Berlim foi erguido por um regime ditatorial para impedir os seus próprios cidadãos de sair do país e assassinando-os à bala, se fosse preciso (o que infelizmente aconteceu em centenas de casos entre 1961 e 1989).

Comparar seja o que for ao Muro da Vergonha é conspurcar a memória dos resistentes e dos combatentes pela liberdade. Incluindo todos quantos lá morreram, vitimados pela guarda pretoriana do "socialismo real".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 03.09.15

«A Alemanha percebe de refugiados. Em 1945, enquanto o III Reich se desmoronava, uma vaga de 12 milhões de civis germânicos (Gie Vertriebenen) foi expulsa do Báltico, da Polónia, da Checoslováquia, da Jugoslávia... Entre 500 mil e dois milhões terão perecido nesse ano, 'ano zero' da Alemanha. Também eles foram vítimas da criminosa desmesura hitleriana. Comparado com isso, a actual 'crise de refugiados' é uma coisa pequena e manejável. O governo de Merkel (sem esquecer a generosa Suécia) tem assumido as posições politicamente mais correctas e moralmente mais decentes sobre este assunto. Muitas são as variáveis (pode sobreviver uma UE sem polítca externa e de segurança?). Muitas são as incertezas (será legítimo distinguir entre um refugiado político e um económico?). Mas há dois absolutos: qualquer resposta deve assumir que a condição de refugiado é uma prova de fogo que separa a mentira da verdade em matéria de direitos humanos; e ela deve ter uma dimensão europeia, implicando partilha de valores e responsabilidades.»

Viriato Soromenho-Marques, no Diário de Notícias

Autoria e outros dados (tags, etc)

centro de refugiados

por Patrícia Reis, em 22.03.12

Alguns dados sobre os refugiados que estão atualmente no CPR:

- 20 crianças: uma de 1 mês, outra de 8 meses e 18 crianças dos 2 aos 17 anos

1 mulher grávida e 1 idosa.

- adultos, ambos os géneros: 105 pessoas

- necessidades, além dos referidos antes, também frescos, fruta e leguminosas, e cebolas, alhos, sal, açúcar, cenouras, óleo, manteiga.

Além de alimentos: produtos de higiene: sabonetes, pastas de dentes, champô.

 

Quem preferir, também pode fazer donativos em dinheiro: transferência para o NIB da conta bancária do CPR - 0019 0007 00200021478 20, indicando a referência "ALIMENTOS". O recibo pode ser deduzido no IRS. Para o receber, remeter por e-mail (geral@cpr.pt) os seguintes dados: Nome da pessoa / Entidade / Empresa (se possível um contacto); Morada para onde deve ser enviado o recibo; Número de Contribuinte.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D