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2017, o ano do renascimento do Czar Putin

por Alexandre Guerra, em 02.01.17

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A eleição de Donald Trump veio colocar Vladimir Putin numa posição de enorme relevância no sistema internacional, talvez como nunca tenha tido antes, porque, pela primeira vez, tem em Washington um interlocutor que lhe parece reconhecer o seu poder czarista e autoritário sem qualquer constrangimento ou julgamento moral. Mais, Trump parece estar disposto a aceitar e a respeitar as regras do jogo definidas por Putin, naquilo que poderá ser um paradigma com algumas semelhanças ao sistema de Guerra Fria em matéria de delimitação de zonas de influência. Perante isto, e à luz daquilo que se tem vindo a saber, é muito provável que Putin venha novamente a estar num plano de igualdade com o seu homólogo norte-americano. Trump parece querer conceder-lhe esse privilégio, já que não o deverá fazer a mais nenhum chefe de Estado. Além disso, do que se vai percebendo, Trump acreditará que o mundo pode ser gerido novamente pelas duas potências, numa divisão de influências, onde a China e outros Estados emergentes não lhe merecem grande atenção (quantas vezes ouvimos Trump falar do Brasil, da Índia ou até mesmo do Reino Unido ou da Alemanha???). Hoje, mais do que nunca, é importante perceber quem é Putin, como pensa e como age.

 

Acompanho com atenção o percurso de Vladimir Putin ainda antes de ter sido eleito Presidente da Rússia pela primeira vez em 2000. Quando a 9 de Agosto de 1999 o então já falecido Presidente Boris Yeltsin demitia o seu Governo e apresentava ao mundo uma nova figura na vida política russa, poucos eram aqueles que conheciam Vladimir Putin. Aos 46 anos, Putin, ligado ao círculo de São Petersburgo, e antigo oficial do KGB (serviços secretos), assumia a chefia do novo Executivo, com a motivação manifestada por Yeltsin de que gostaria de vê-lo como seu sucessor nas eleições presidenciais de 2000. Segundo alguns registos, Putin nunca terá tido a intenção de seguir uma carreira política, no entanto, teve sempre um alto sentido de servidão ao Estado, como aliás fica bem evidente na recente biografia de Steven Lee Myers, "O Novo Czar" (2015, Edições 70). Na altura, terá confessado que jamais tinha pensado no Kremlin, mas outros valores se erguiam: “We are military men, and we will implement the decision that has been made”, disse Putin. Muitos viram na decisão de Yeltsin o corolário de uma carreira recheada de erros e que conduzira o país a um estado de sítio. A ascensão de Putin era vista como mais um erro. Citado pelo The Moscow Times, Boris Nemtsov, na altura um dos líderes do bloco dos "jovens reformistas" na Duma e que viria a ser assassinado em Fevereiro de 2015, disse que Putin causou uma fraca impressão na primeira intervenção naquela câmara. "Não era carismático. Era fraco." Também ao mesmo jornal, Nikolai Petrov, do Carnegie Moscow Center, relembrava que Putin deixou uma "patética imagem", sendo um desconhecido dos grandes círculos políticos, e que demonstrava ter pouco à vontade com aparições públicas, chegando mesmo a ter alguns comportamentos provincianos. 

 

Apesar disso, a Duma acabaria por aprovar a sua nomeação para a liderança do Governo, embora por uma margem mínima. É preciso não esquecer que Putin reunia apoio nalguns sectores, nomeadamente naqueles ligados aos serviços de segurança, que o viam como um homem inteligente e com grandes qualidades pessoais. E, efectivamente, após ter assumido os desígnios do Governo, Putin começou de imediato a colmatar algumas das suas falhas, nomeadamente ao nível de comunicação, e a desenvolver capacidades que se viriam a revelar fundamentais na sua vida política. É o próprio Nemtsov que reconheceu o facto de Putin se ter tornado mais agressivo e carismático, dando às pessoas a imagem do governante que os russos prezam. Características que se encaixaram na perfeição ao estilo musculado necessário para responder às explosões que ocorreram em blocos de apartamentos de três cidades russas, incluindo Moscovo, em Setembro de 1999, vitimando sensivelmente 300 pessoas, colocando o tema da segurança no topo da agenda da vida política russa, para nunca mais sair de lá. Em Outubro desse ano, como resposta, Putin dava ordem para o envio de tropas para a Chechénia.

 

Nas eleições presidenciais de 2000, Putin obteve 53 por cento dos votos, contrastando com os 71 por cento conquistados quatro anos mais tarde. Por motivos de imposição constitucional que o impedia de concorrer a um terceiro mandato presidencial, Putin teve que fazer uma passagem pela chefia do Governo entre 2008 e 2012, mas era claro que nunca teve verdadeiras intenções de deixar os desígnios da nação nas mãos do novo ocupante do Kremlin. Conhecendo-se um pouco da história política russa e da sua liderança, facilmente se chegaria à conclusão de que Putin era o homem por detrás do poder, enquanto o novo Presidente em exercício, Dimitri Medvedev, seria apenas um "fantoche". Medvedev compreendeu bem o seu papel nesta lógica de coabitação, remetendo-se praticamente a uma mera representação institucional, sem ousar discutir com Putin a liderança da política russa. Como na altura se constatou, a forma seria apenas um pormenor porque o que estava em causa era a substância da decisão. Ouvido pela rádio Ekho Moskvy, na altura, o analista russo Gleb Pavlovsky ia directo à questão central: "We can forget our favourite cliche that the president is tsar in Russia." E neste caso o Czar é Vladimir Putin que tanto o poderia ser na presidência, na chefia do Governo ou noutro cargo qualquer, desde que fizesse as devidas alterações constitucionais e que continuasse acompanhado dos seus "siloviki".

 

Aparentemente, Putin tem em Washington um parceiro que não o recriminará e que respeitará a sua liderança, desde que o Presidente russo não mexa com os interesses norte-americanos que, diga-se, nem será assim um exercício tão difícil de aplicar. Actualmente, Moscovo joga algumas das suas prioridades geoestratégicas e geopolíticas em tabuleiros que Trump já deu a entender não estar interessado. Agora, é ver a partir de dia 20 de Janeiro como o Czar Putin e o populista Trump se vão entender.

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Entretanto, na Rússia

por José António Abreu, em 16.11.16

Enquanto Trump se prepara para entrar na Casa Branca e a cotação do dólar dispara, gerando receios de problemas nos mercados emergentes e do reacendimento da crise do euro (as taxas de juro da dívida pública estão a subir e a política do BCE poderá ter de mudar com o eventual aumento da inflação), Putin, a braços com os efeitos da estagnação económica (causada em parte pelas sanções internacionais que ele espera ver Trump abolir), intensifica as purgasfazendo prender Alexey Ulyukayev, ministro da Economia, defensor de uma maior separação entre o Estado e o sector empresarial, e que até pode ser culpado do acto de corrupção de que o acusam mas nunca seria detido se Putin não desejasse afastá-lo.

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до свидания, António Guterres!

por Luís Menezes Leitão, em 05.10.16

A Rússia está a declarar que apoia uma mulher do Leste para a ONU. Conforme escrevi aqui, tratava-se de algo mais do que previsível, levando a que Guterres tenha acabado de ouvir em russo o adeus – до свидания (Dasvidanya) – à sua candidatura. Mas na verdade a sua candidatura estava morta à nascença, porque António Guterres tem dois graves pecados originais: nasceu rapaz e ainda por cima na freguesia de Santos-o-Velho em Lisboa. Trata-se de duas situações que ele não pode alterar e que o tornam absolutamente inapto para um cargo que neste momento é  reservado a mulheres da Europa do Leste. Até agora ainda ninguém se tinha apercebido disso?

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"Brincadeiras" que um dia podem correr muito mal

por Alexandre Guerra, em 23.06.16

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Lançamento na Quarta-feira de um dos dois mísseis de médio alcance Musudan com a presença de Kim Jong-un/Yonhap 

 

Nos últimos anos vai-se tendo cada vez mais a impressão de que, a acontecer qualquer drama militar de dimensões cataclísmicas, começará numa "brincadeira" para os lados da Ásia oriental. Se é na Península da Coreia (que, "by the way", continua formalmente em estado de guerra), no Mar do Japão ou no Mar Oriental ou Sul da China, ainda está para se ver (esperemos que não). Além dos interesses territoriais inconciliáveis entre várias nações que se jogam naquelas paragens, esta região é, no actual contexto geopolítico e geoestratégico, uma espécie de ponto de confluência de várias "placas tectónicas". Porque, além dos actores regionais directamente envolvidos nas disputas territoriais, tais como a China, o Japão, a Coreia do Norte, a Coreia do Sul, a Rússia, o Vietname, as Filipinas, entre outros, o jogo de alianças e de interesses acaba por envolver também os EUA, sobretudo pela sua ligação aos aliados nipónicos e a Taiwan.

 

Qualquer acidente ou incidente que por ali aconteça (e têm acontecido alguns) pode acender o rastilho para algo de dimensões problemáticas. Da disputa das Ilhas Curilhas, entre o Japão e a Rússia, à das Ilhas Spratly, entre Pequim e várias nações, tais como as Filipinas ou o Vietname, passando pelas "escaldantes" Ilhas Senkaku (ou Diayou para os chineses), sob administração japonesa mas reclamadas por Pequim, os factores de ignição são muitos. São recorrentes os episódios militares hostis, sobretudo por parte de Pequim, com Washington, por exemplo, à distância, a ir dizendo que não permitirá qualquer ameaça à integridade territorial do Japão. Isto já para não falar do "dossier" Taiwan. Mas é principalmente de Pyongyong que vem a maior ameaça sistémica. A Coreia do Norte não abdica da sua retórica bélica e provocadora e tem dado claros sinais de que a acompanha com uma escalada militar. Ainda ontem testou mais dois mísseis balísticos de médio alcance, conhecidos no Ocidente como Musudan, tendo o primeiro falhado, mas o segundo alcançado os objectivos. E trata-se de informação já confirmada pela Coreia do Sul e EUA.

 

Se ainda estou recordado das aulas de Problemática e Controlo de Armamentos, um míssil balístico de médio alcance (MRBM/IRBM) poderá ter um raio de acção entre os 500 quilómetros e os 5000. A partir daí estamos a falar de mísses Intercontinentais (ICBM). Este míssil norte-coreano terá voado 400 quilómetros, o que, segundo os especialistas, representa uma melhoria em relação ao teste anterior. Há poucas dúvidas de que se o regime de Pyongyang continuar a testar os seus mísseis, irá conseguir desenvolver na sua plenitude de forma eficaz estes vectores de lançamento de eventuais ogivas nucleares. E, por isso, o líder norte-coreando, Kim Jong-un já veio dizer que o seu país está em condições de atacar interesses dos Estados Unidos na ilha de Guam, no Pacífico. Se é certo que muitas das vezes a retórica proveniente dos líderes daquele regime é mera propaganda, desta vez, e a julgar por algumas reacções, as palavras de Kim Jong-un estão a ser levadas mais a sério.

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A tendência histórica da Rússia para o absolutismo

por Alexandre Guerra, em 17.06.16

Muitos ficaram surpreendidos com as recentes declarações de Sergei Lavrov, ao classificar de “absolutamente inaceitável” a detenção de adeptos de futebol russos pelas autoridades francesas. A questão é que as palavras do ministro russo dos Negócios Estrangeiros não têm nada de surpreendente e inserem-se na mesma lógica de sempre: o desrespeito completo pelas práticas e hábitos que regem as sociedades democráticas ocidentais. Para os líderes russos pouco importam as circunstâncias que norteiam o quotidiano legal e jurídico dos chamados Estados de Direito, porque a “Mother Russia” não é tolerante nem compreensiva com os estrangeiros que tentam aplicar a lei contra os seus concidadãos. Esse é um exclusivo do Estado russo.

 

As lideranças russas e os seus cidadãos têm um “contracto” social muito diferente daquele que rege a relação entre governantes e governados nas sociedades democráticas. É um “contracto” que dá muito músculo a quem manda e poucos direitos e garantias a quem é mandado. E o problema é que historicamente essa diferença nunca foi compreendida, e muito menos aceite, por quase todos os líderes ocidentais. Mas a verdade é que desde sempre que a Rússia tem uma tendência histórica para o absolutismo. Uma tendência sempre cultivada pelas elites que, por um lado, oprimiam e puniam o seu povo e ao mesmo tempo também eram capazes de o elevar à condição de herói intocável.

 

Vladimir Putin venerou sempre o sacrifício dos russos ao derrotarem – nas palavras de Eric Hobbswam – a "máquina de guerra mais formidável do século XX". O Exército Vermelho vergou a Alemanha nazi, e tal como já tinha acontecido contra as forças napoleónicas, os soldados russos impediram que uma potência estrangeira se apropriasse do território da sua nação. Pagando o elevado preço de 27 milhões de mortos, a Rússia pôde sair vitoriosa da II Guerra Mundial e assumir-se como uma superpotência das relações internacionais. Tal como em tempos passados, a grandiosidade do Estado russo sustentou-se no sacrifício do povo.

 

A história da Rússia é particularmente penosa e sofrida, marcada por uma escuridão constante que se reflecte no modo de estar do seu povo. Do autoritarismo czarista ao totalitarismo estalinista, os últimos trezentos anos moldaram a mentalidade de um povo que, desde sempre, viveu sob um modelo de sociedade hermeticamente fechada, sem espaço para usufruir as ondas de choque provocadas pelas revoluções europeias. “Para leste das potências atlânticas, ficava um Estado que se situava na Europa, mas que não fazia parte da Europa (…) Com excepção de alguns pouco frequentes e confusos contactos, tais negociações diplomáticas com Roma e com Viena em finais do século XV e com a Inglaterra no século XVI, seguidos por alguns encontros florescentes no século XVII com a Polónia, Suécia e Áustria, manteve-se isolada da Europa ocidental, até praticamente, Pedro I, o Grande. Mas, mesmo por alturas da morte de Catarina, a Grande, a ocidentalização manteve-se dentro de limites bastante restritos”, escreve S. E. Fiener, proeminente cientista político e historiador de Oxford, na sua obra “História do Governo”.

 

O iluminismo de Auguste Comte ou o liberalismo de John Lock permaneceram ausentes do pensamento russo. Numa altura em que a Europa fervilhava em ideias, que alimentavam revoluções e contra-revoluções, a Rússia do século XIX mantinha-se incólume a este tipo de tendências. “O núcleo da sociedade russa manteve-se profundamente intocável” e as sementes da Revolução Francesa espalhadas por toda a Europa através do império napoleónico não conseguiram florescer em território russo.

 

O isolamento da Rússia, “quase absoluto” até ao século XV, conduziu aquele país “em linhas completamente diferentes dos Estados ocidentais. A principal influência intelectual e religiosa foi a de Bizâncio, embora a língua grega não fosse habitualmente utilizada (…). O país nunca utilizou o latim, nunca acolheu o equivalente à filosofia escolástica ocidental, nunca teve a experiência da reforma Protestante, do Renascimento ou de um iluminismo nativo”, acrescenta Fiener.

 

Mas, um dos factores mais importantes que ajuda a compreender melhor as posições autoritárias do Presidente Putin e a aceitação destas por parte da população, é a ausência histórica da tradição do “carácter vinculativo da lei”. Ou seja, o Direito Romano, pedra angular dos modelos de sociedade dos Estados europeus ditos ocidentais, nunca fez doutrina na Rússia.

 

De acordo com alguns historiadores, a “teoria e a prática do direito na Rússia foram inspirados por uma fonte muito diferente e muito estranha, comparada com a do Ocidente, ou seja, os mongóis”. Na verdade, as raízes do centralismo e autoritarismo russos, hoje visíveis na pessoa de Vladimir Putin, podem ser encontradas nas tradições mongóis, que serviram de inspiração para Ivan IV, o Terrível (1533-1584), aquando da sua autoproclamação como Czar de Toda a Rússia, em 1547. “(…) o seu modelo não foi o imperador bizantino (há muito extinto, aliás) mas o Cã tártaro (que se denominava a si próprio, em russo, czar). Pretende-se que foi esta a primeira autoridade centralizada que os príncipes russos tiveram de enfrentar e foi a partir desta fonte que aprenderam tudo sobre o absolutismo (…).”

 

Os russos nunca experimentaram outro tipo de regime (talvez, salvo raras excepções) e jamais se abriram aos seus vizinhos europeus. Esta vivência foi acumulando um pessimismo reinante, ensombrando qualquer perspectiva sobre o futuro da sociedade. Uma realidade que se tornou particularmente evidente nos anos de Boris Yeltsin, na ressaca da queda do império e na emergência de um clima de anarquia e caos.

 

De um momento para o outro, os russos viam-se sem a tradicional liderança forte e absoluta, assistindo à deterioração do império e de toda a estrutura social sem compensações evidentes. Democracia e liberdade, tal como os ocidentais as entendem, são conceitos estranhos àquela sociedade. Há uns anos, Richard Pipes, professor de História na Universidade de Harvard e director do departamento de assuntos soviéticos da Europa de Leste no Conselho de Segurança Nacional em 1981-82, escreveu um extraordinário artigo na “Foreign Affairs”, especificando o que de facto os russos queriam para a sua sociedade.

 

Uma das ideias chave defendidas pelo autor referia que os russos apoiavam o estilo “antiliberdade e antidemocrático” de Putin, sustentando com estudos de opinião, em que apenas um em cada dez russos se interessava por “liberdades democráticas e direitos civis”. Na verdade, estes e outros conceitos, como propriedade privada e justiça pública, nunca fizeram parte da tradição russa. Por exemplo, apenas cerca de um quarto da população russa considerava que a propriedade privada é importante como direito humano.

 

Pipes sustentou as suas afirmações em estudos levados a cabo pelo All-Russian Center for Study of Public Opinion e pelo Institute of Complex Social Studies da Academia de Ciências Russa. De acordo com os dados obtidos na altura, 78 por cento dos russos considerava que a “democracia é uma fachada para um governo controlado pelos ricos e grupos poderosos". Apenas 22 por cento expressava preferência pela democracia, contra os 53 por cento que se lhe opunham. Sobre os eventuais benefícios das eleições multipartidárias, 52 por cento dos russos considerava que estas eram prejudiciais, sendo apenas 15 por cento a percentagem de russos que as viam como positivas.

 

Numa outra sondagem do Centro de Estudos Sociológicos da Universidade de Moscovo, citada por Pipes, 82 por cento dos russos estavam convictos de que não tinham qualquer influência no Governo nacional, e 78 por cento acrescentava mesmo que não influenciava os desígnios do governo local. Mais interessante, mas pouco surpreendente, era a escolha feita entre “liberdade” e “ordem”. Oitenta e oito por cento dos inquiridos na província de Voronezh manifestaram preferência pela “ordem”. Apenas 11 por cento afirmaram não estar dispostos a abdicar das suas liberdades de expressão e de imprensa em troca de estabilidade. Na verdade, um outro estudo, conduzido no Inverno de 2003-04, pela Romir Monitoring, sustentava que 76 por cento dos russos eram favoráveis à reposição da censura nos “media”.

 

Estes números reflectiam uma avidez, por parte do povo russo, de autoritarismo governativo. Uma exigência apreendida pelos políticos que, segundo Pipes, se manifestou nas eleições para a Duma, em Dezembro de 2003, nas quais nenhum dos partidos mais votados utilizou, sequer por uma vez, a palavra “liberdade”. Um dos outros anseios do povo russo prendia-se com o poder da sua nação, sendo que 78 por cento “insiste que a Rússia tem de ser uma grande potência”. Embora estes números já tenham vários anos, é muito provável que a percepção da sociedade russa não se tenha alterado substancialmente.

 

A Rússia é um território imenso que, desde o século XIX, tem tentado manter o estatuto de potência entre as potências. Hoje, tal como no século XIX, em que a Rússia tentava expandir a sua presença sobre a Sublime Porta e Balcãs, os interlocutores de Putin terão de compreender os seus intentos e suas sensibilidades. “Para Metternich, o problema posto pela Rússia não era tanto o de como conter a sua agressividade, mas o de como temperar as suas ambições”, escreve Henry Kissinger, no seu livro Diplomacia, relatando as preocupações do chanceler do império austro-húngaro face à Rússia. Antes, assim como hoje, também o czar Alexandre I suscitava a desconfiança de alguns líderes europeus. A Rússia era tida como “instável e intrometida” nos interesses que se jogavam no Velho Continente, mas particularmente nas zonas de influência eslava.

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O regresso da Rússia.

por Luís Menezes Leitão, em 15.04.16

Desde o colapso do Império Soviético em 1991 que deixámos de ter um mundo bipolar, passando os Estados Unidos a ser a única superpotência dominante. O isolacionismo que tem caracterizado a presidência de Obama tem, porém, permitido que o espaço deixado vazio pelos Estados Unidos esteja a ser progressivamente ocupado pela Rússia. Essa situação pode ser extremamente perigosa para a Europa, até porque esta tem demonstrado uma fragilidade brutal, especialmente desde o disparatado apoio ao derrube do governo pró-russo da Ucrânia.

 

Na Ucrânia Putin ganhou em toda a linha. Conseguiu obter a anexação da Crimeia sem disparar um tiro e fomentou a rebelião em Donetsk e Lugansk, que hoje vivem separadamente da Ucrânia. Ninguém ontem reparou que o jogo entre o Braga e o Shaktar Donetsk foi jogado em Lviv, uma cidade do Oeste da Ucrânia, quase na fronteira com a Polónia, que fica a mais de 1.000 km de Donetsk. Mesmo o próprio clube da cidade já a abandonou. Mas a verdade é que também a União Europeia faltou completamente com o apoio que prometeu à Ucrânia, e o recente referendo em que os holandeses disseram não ao tratado com a Ucrânia foi um claro indicador de que a Europa não tem quaisquer condições de subtrair a Ucrânia à influência russa.

 

Na Síria, só a intervenção da Rússia permitiu infligir derrotas ao Estado Islâmico, e a Europa já se conformou com a manutenção do regime de Assad, vendo que a alternativa seria muito pior. Mas a Rússia avança ainda mais pelo Médio Oriente, fazendo agora uma aliança com o Irão, o que vai reforçar claramente a influência xiita na região. Tal será visto como uma ameaça, quer pelo que resta do Iraque, quer pela Arábia Saudita, mas a verdade é que os Estados Unidos não estão dispostos a intervir em apoio destes Estados. Até no Báltico, na zona de influência da NATO, os aviões russos chegam ao ponto de provocar navios norte-americanos.

 

Curiosamente, o país que neste momento parece fazer mais frente à Rússia é a Turquia. Esta já abateu mesmo um avião russo e parece pouco disposta a tolerar a cada vez maior influência russa no Médio Oriente. Não deixa, aliás, de ser significativo o reacendimento recente do velho conflito de Nagorno-Karabach, que coloca um Estado pró-russo, a Arménia, contra um Estado pró-turco, o Azerbaijão. Mas nem a Turquia será capaz de conseguir paralisar este avanço da influência russa, especialmente a partir do momento em que Moscovo já conta com os apoios de Damasco e Teerão.  

 

Neste momento, a novidade do actual xadrez internacional é o regresso da Rússia à categoria de superpotência. Mas desta vez, a guerra corre o risco de não ser fria mas antes muito quente. Habituem-se.

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Entretanto, na Rússia

por Bandeira, em 04.03.15

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(José Bandeira/DN)

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A esquerda cega e surda

por Pedro Correia, em 28.02.15

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 Boris Nemtsov, opositor de Putin, ontem assassinado no centro de Moscovo

 

Na Rússia de Putin é assim: esmaga-se o pluralismo, segregam-se as minorias religiosas, discriminam-se os homossexuais, silenciam-se os jornalistas incómodos, armam-se milícias para invadir países estrangeiros, anexa-se a Crimeia à margem do direito internacional. E matam-se os opositores políticos, a dois passos do Kremlin, com quatro tiros nas costas.

Na Venezuela de Maduro é assim: fecham-se canais de televisão e jornais críticos, transforma-se o poder judicial numa delegação do poder político, condena-se a população à maior penúria do continente americano. E prendem-se "preventivamente" os opositores políticos. Incluindo os que foram  eleitos pela população.

Rússia e Venezuela: duas lamentáveis manchas no mapa político internacional. Que continuam, apesar disso, a merecer o aplauso e o apoio de uma certa esquerda, que integra o bloco da  Esquerda Unitária Europeia no Parlamento Europeu. Uma esquerda cega e surda aos sinais dos tempos e à inapelável evidência dos factos.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 12.02.15

«A Rússia - ao contrário do que o estatuto que lhe é habitualmente atribuido de país emergente pode fazer crer - é hoje uma potência em declínio, ameaçada por uma verdadeira catástrofe demográfica e incapaz de explorar adequadamente os seus imensos recursos naturais. Encurralada entre o espaço político ocidental e a China, é natural que olhe com desconfiança para qualquer modificação que ocorra na sua vizinhança. Foi isso o que se verificou na Ucrânia. Nem valerá a pena recordar a importância simbólica de Kiev como local de nascimento da nação russa para compreendermos a relevância estratégica objectiva que o território ucraniano tem para um país que se constituiu em torno do projecto do duplo acesso aos mares Báltico e Negro. No rescaldo da implosão soviética, os russos puderam conviver com a ideia de uma Ucrânia independente e politicamente autodeterminada; o que lhes custaria e custará sempre admitir é a perspectiva de uma Ucrânia plenamente integrada, dos pontos de vista político, económico e militar, na esfera ocidental.»

Francisco Assis, no Público

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Putin acalma os russos

por Rui Rocha, em 26.12.14

O país tem reservas de vodka suficientes para enfrentar a baixa do preço do petróleo.

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Esperem pela pancada.

por Luís Menezes Leitão, em 18.12.14

 

Tudo o que se está a passar hoje estava há muito previsto num livro de Samuel Huntington de 1996, denominado O Choque das Civilizações. Nessa obra, o autor denunciava já a força do Ressurgimento Islâmico como nova realidade geopolítica, considerava que existiam várias civilizações no mundo, lideradas cada uma pelo seu Estado dominante, e assegurava que a III Guerra Mundial se iniciaria por um Estado dominante não respeitar a esfera de influência de outro. Curiosamente o Autor previa que a guerra se iniciaria por os Estados Unidos não quererem aceitar a pertença de Taiwan à esfera de influência chinesa. Mas nesse ponto enganou-se: a guerra inicia-se pela subtracção da Ucrânia à esfera de influência russa.

 

Uma das armas dessa guerra que agora está a ser utilizada é a queda do preço do petróleo. Como é óbvio, em face da lei da oferta e da procura, face à actual procura de petróleo, a queda do preço só é possível com um brutal aumento da oferta do produto no mercado. Foi precisamente o que se passou, com a Arábia Saudita a encharcar o mercado de petróleo. Pode parecer um gesto contraproducente para um país produtor, mas numa guerra vale tudo, e relação saudita com os EUA vale mais que uma baixa do preço do petróleo.

 

É evidente que a força económica de países como a Rússia depende de petróleo alto, até porque têm custos de extracção muito mais elevados do que os países do golfo. São assim profundamente afectados e até pode ocorrer o colapso total da economia russa. Pareceria assim que foi uma arma de guerra eficaz. Só que há um problema: os russos têm uma história longa e estão habituados a sofrer em guerras. Entregaram Moscovo em chamas a Napoleão, obrigando-o a recuar, e sofreram vinte milhões de mortos para resistir a Hitler. Não me parece por isso que Putin apareça com a corda ao pescoço a pedir perdão ao Ocidente e a devolver a Crimeia à Ucrânia. Mais facilmente é capaz de se lembrar de carregar no botão, que muita gente parece esquecida de que ainda funciona.

 

Mas a verdade é que nem precisa de o fazer. Toda a gente sabe que o petróleo é um bem finito e já se atingiu o pico da exploração petrolífera. Por isso, desça o que descer agora, o preço do petróleo só pode subir no futuro. É só uma questão de saber aguentar e os russos são um povo que já demonstrou que suporta o que for preciso em defesa da sua pátria.

 

Só que no entretanto vai haver danos colaterais que até podem atingir Portugal. Se a Rússia é afectada com a queda do preço do petróleo, mais afectada é Angola onde o petróleo representa 66% do PIB e 98% das exportações. Já se fala na imediata entrada  de Angola em recessão.  Ora, a crise em Portugal só não foi pior devido ao investimento angolano nos últimos tempos. Uma recessão em Angola terá efeitos dramáticos para o nosso país.

 

Desengane-se por isso quem neste momento se congratula com os resultados desta guerra geoeconómica. Já não estamos nos anos 40 em que Portugal podia assistir do camarote a uma guerra na Europa sem nela se envolver ou ser por ela afectado. Hoje em dia, esperem pela pancada.

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Aventureirismo russo na Ucrânia e na Crimeia em 2014 vira-se contra Putin

 

Andaram alguns ao longo do ano a glorificar as extraordinárias façanhas militares do musculado czar do Kremlin, que decidiu anexar a Crimeia numa grosseira violação da Carta das Nações Unidas e enviar mercenários russófilos para o leste da Ucrânia, em manifesta colisão com os princípios do direito internacional, e afinal confirma-se hoje que essa arrogância bélica apenas se destinava a camuflar um gigante com pés de barro.

A queda abrupta do preço do petróleo - principal produto de exportação russa e fonte de 68% das receitas do país - originou a depreciação progressiva do rublo, que vale hoje só 50% do que valia no início do ano em relação ao dólar. A situação é crítica, alerta o banco central russo. "A economia russa caminha rapidamente para o colapso", sublinha o editorial de hoje do El País.

 

Não sei o que a Rússia possa ter ganho ao anexar a Crimeia. Mas sei o que já perdeu.
Está mais isolada diplomaticamente. Sofre sanções que lhe são impostas pela comunidade internacional.
Vê agravar-se os problemas económicos do país, que importa 60% do que come, ao iniciar um braço-de-ferro com os países membros da União Europeia e da NATO.
Arrisca-se a perder os melhores parceiros económicos, que estão precisamente na Europa Ocidental.
Vê aumentar exponencialmente os focos de turbulência nas suas zonas fronteiriças - nada mais natural, pois quem semeia ventos colhe tempestades. Nem a fiel Bielorrússia se sente tranquila perante o expansionismo russo, já para não falar da China, que nunca deixou de alimentar sérias suspeições nesta matéria.
E, acima de tudo, desenterra velhos fantasmas da História numa réplica anacrónica do pior da Guerra Fria. Precisamente todos aqueles fantasmas que ninguém desejaria ver desenterrados, a ocidente ou oriente dos Montes Urais.

 

tumblr_m07vfr4Zc31qd65vgo1_400[1].jpgOs russos não diversificaram o tecido económico, têm uma agricultura que não supre as necessidades alimentares da população e uma indústria em grande parte anquilosada (excepto a indústria de armamento). Estão demasido dependentes das exportações de petróleo e gás natural para manterem a tímida taxa de crescimento económico que vêm registando.
Ora o fornecedor precisa dos clientes: se estes partirem em busca de outros mercados resta-lhe venderem a energia a si próprios.

 

Moscovo tem tudo a perder se abrir uma guerra energética com a UE aproveitando o facto de parte significativa do continente europeu depender (em cerca de 30%) do abastecimento do seu gás. Esta factura é essencial na economia russa.
Essa guerra dará origem, nomeadamente, à exploração em larga escala das vastas reservas naturais de gás norte-americanas que provocará uma redução drástica do preço deste combustível nos mercados internacionais. Quem acabará por ganhar, além dos EUA, são os actuais produtores concorrentes da Rússia, nomeadamente a Argélia, já hoje a principal fornecedora de gás a países como Portugal.

É uma guerra perdida de antemão, como alerta Larry Elliott, editor de economia do Guardian.


A geopolítica servia-nos de chave para a interpretação do mundo até ao fim da Guerra Fria. Hoje nada se entende de essencial no capítulo das relações internacionais sem conhecimentos elementares de geoeconomia. Como Putin começa a aprender por amarga experiência própria. E o conjunto da população russa também.

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Perfeitamente ridículo.

por Luís Menezes Leitão, em 30.10.14

 Acho tão ridícula esta história de o MInistro da Defesa andar a dizer que andamos a "interceptar aviões militares russos" como o foi há cem anos a captura dos navios alemães que estavam pacificamente no porto de Lisboa. O problema é que é com estas bravatas que nós nos metemos em guerras a que somos totalmente alheios. Por isso, preparemo-nos para cantar: "Contra os russos, marchar, marchar".

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O xadrez de Putin

por Rui Herbon, em 01.09.14

Vladimir Putin joga xadrez na Ucrânia. Move peças e pensa na jogada seguinte, antecipa os movimentos do rival. Quer recompor o que em tempos foi o império dos czares e depois a poderosa União Soviética.

 

O problema mais sério da Rússia é a sua geografia. Um general de Catarina, a Grande, disse à imperatriz que a Rússia só estaria segura se de ambos os lados da fronteira houvesse soldados russos. Paradoxalmente, ou não, o país mais extenso sente-se inseguro. Por essa razão foi invadindo e conquistado territórios vizinhos.

 

Ao longo da sua história a Rússia foi vítima de sucessivas invasões de mongóis, suecos, prussianos, franceses e alemães. Os tártaros governaram o centro do seu território durante mais de dois séculos. Mas, como assinala Pushkin, ao contrário do que os árabes fizeram na Península, «não trouxeram a álgebra nem Aristóteles». A sua vulnerabilidade deixou à Rússia outro legado: o governo centralizado e autoritário, independentemente do regime. Como recorda Margaret MacMillan no seu livro sobre as causas da Grande Guerra, na história da Rússia descreve-se o povo russo, originário da Ucrânia, como «um povo em busca de um salvador». Um autor do século XII dizia que «toda a nossa terra é grandiosa e rica, mas carece de ordem. Alguém venha governar e reinar sobre nós».

 

O país mais extenso sente-se inseguro. A Ucrânia é para a Rússia o que Aachen foi para o império carolíngio ou o que Turin foi para a unidade italiana. Putin quer recuperar a Ucrânia. Ainda que lhe custe muito caro. Ainda que o poder se evapore. Este é o grande perigo de tudo quanto ocorre no leste desse país. A Rússia não quer estranhos num território que considera o núcleo fundacional de um grande império. Por isso Putin vai fazendo avançar as suas peças no tabuleiro com precisão de mestre. O problema é que estamos no mundo real, a lidar com seres humanos de carne e osso, e não com peças de madeira, vidro ou mármore.

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Os sonâmbulos.

por Luís Menezes Leitão, em 29.08.14
Aproveitei este período de férias para ler o livro Os sonâmbulos (The Sleepwalkers), de Christopher Clark, que explica perfeitamente como a Europa se deixou de disparate em disparate arrastar para a guerra em 1914, que levou à destruição dos países envolvidos e à reformulação geopolítica do continente. O autor demonstra claramente como a causa próxima do conflito, o tiro disparado pelo sérvio bósnio Gravilo Princip, foi afinal o simples rastilho de uma guerra que foi desencadeada pela inconsciência dos governantes europeus, que se deixaram arrastar de escalada em escalada até à guerra total.  

 

É precisamente o que hoje se está a passar na Ucrânia. Sempre achei que a questão ucraniana tem que ser tratada com pinças, uma vez que é um estado dividido ao meio entre um ocidente pró-europeu e um leste pró-russo e cuja importância estratégica para a Rússia é absolutamente decisiva. Lenine dizia que os soviéticos podiam perder a cabeça mas não podiam perder a Ucrânia e Putin tem exactamente o mesmo posicionamento. Precisamente por isso desde a queda de Ianukovitch que me parece que tudo se encaminha para um confronto directo do Ocidente com a Rússia. A situação poderia ter sido evitada com a eleição de Poroshenko, mas este optou por esmagar a rebelião de Donetsk e Lugansk pela força das armas, lançando o exército ucraniano contra os rebeldes. Ora, era evidente que Putin não iria permitir o esmagamento dos rebeldes russos na Ucrânia, pelo que quanto mais vitórias Poroshenko tivesse no terreno, mais se tornaria inevitável a intervenção da Rússia. No fundo, a situação não é diferente da guerra da Coreia, em que a tomada de Pyongyang por McArthur arrastou imediatamente a China para o conflito, obrigando os EUA a voltar a recuar para sul do paralelo 38, uma vez que a única alternativa — e que foi proposta por McArthur — era uma guerra nuclear dos EUA com a China.

 

 

Neste momento, já é a própria diplomacia alemã a reconhecer que a situação na Ucrânia ameaça ficar fora de controlo. O que me espanta é que a diplomacia alemã não se tenha apercebido disso desde o início. Mais uma vez, o que isto lembra é 1914. O Kaiser e o Czar trocavam telegramas em que se tratavam carinhosamente por Willy e Nicky, enquanto arrastavam os seus países para o apocalipse.

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Verão de 2014

por Rui Herbon, em 25.08.14

A Europa está de férias: as auto-estradas de França registam engarrafamentos de quilómetros, as pessoas procuram o mar ou refugiam-se nas montanhas, muitos andam colados ao seu telemóvel procurando saber o que ocorre no mundo — vivem a realidade a golpe de títulos mediáticos. Quando começou a Grande Guerra, faz agora cem anos, o escritor austríaco Stephan Zweig encontrava-se de férias perto do porto belga de Ostende. Relatava que os turistas se deitavam na praia junto às suas barracas de cores vivas ou se banhavam no mar, as crianças faziam voar os seus papagaios, os jovens dançavam frente aos cafés ou no passeio junto ao muro do porto. Toda a gente se divertia amigavelmente. 

 

Escreve Margaret MacMillan no seu livro sobre as causas que levaram à guerra de 1914-18 que em Maio do ano anterior, no breve interlúdio entre as duas guerras balcânicas, os primos Jorge V de Inglaterra, Nicolau II da Rússia e Guilherme II da Alemanha se reuniam em Berlim para o casamento da única filha do kaiser. Nada fazia pressagiar que dentro de um ano estariam os três em guerra, uma guerra que ninguém queria e que toda a gente temia fatalmente. Tentou-se travar a Áustria para que não declarasse guerra à Sérvia após o atentado de Serajevo, pressionou-se a Rússia para que não entrasse no conflicto em aliança com a França e a Inglaterra. O que um punhado de homens quis evitar sucedeu de forma calamitosa para toda a Europa: mais de nove milhões de mortos. Ninguém o queria mas todos, inclusive a opinião pública, se entregaram àquela carnificina humana com entusiasmo. 

 

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 30.07.14

«Vladimir Putin está a cometer demasiados erros de avaliação, o que é perigoso. A tragédia do avião da Malásia mostrou os riscos da sua política ucraniana e da perda de controlo sobre os bandos "separatistas". A seguir, perdeu a oportunidade de contribuir para uma desescalada sem perder a face. Está agora confrontado com a perspectiva de sanções mais duras, que poderão constituir uma séria ameaça para a economia russa. Na sua lógica, não recuará -- isto é, calcula que não pode recuar por razões de prestígio e de poder doméstico -- e ampliará consequentemente a dimensão da crise.»

Jorge Almeida Fernandes, no Público

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A guerra no horizonte.

por Luís Menezes Leitão, em 26.07.14

 

 

A revista Time está convencida de que o abate do avião da Malaysia Airlines por parte dos rebeldes pró-russos corresponde a um regresso à guerra fria. Efectivamente, a situação faz lembrar o abate do avião da Korean Airlines pela URSS sobre a ilha de Sacalina em Setembro de 1983, quando a guerra fria estava no seu auge. Parece-me, no entanto, que o que se está a passar não representa qualquer regresso à guerra fria. Por muito que Putin queira reconstituir o antigo espaço soviético, o back in the USSR não é hoje mais possível. O que se está a passar é antes um regresso a 1914. Na altura também houve um crime bárbaro, o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand pelo terrorista Gravilo Princip, o que serviu de motivo para que a guerra se iniciasse para esmagar todos os "sérvios regicidas". Agora, porque os rebeldes russófonos da Ucrânia cometeram também o bárbaro crime de abater um avião civil, Putin é sumariamente declarado culpado desse crime e a União Europeia vai aplicar sanções para mergulhar a Rússia na recessão. Parece assim que todo o povo russo vai agora expiar uma culpa colectiva pelos crimes cometidos pelos rebeldes pró-russos da Ucrânia.

 

Quem conhece um pouco da história da Rússia, sabe perfeitamente que estas sanções não vão vergar a Rússia, só podendo pelo contrário conduzir à guerra. Primeiro, é evidente que Putin não pode deixar de apoiar os russos da Ucrânia, sob pena de ser considerado um traidor na Rússia, o que facilmente acontecerá em virtude da fúria nacionalista que esta ameaça de sanções já está a gerar. Segundo, mesmo que suporte um verdadeiro inferno, o povo russo sempre resistiu aos ataques ao seu país. Quando Napoleão conquistou Moscovo, os russos entregaram-lhe a cidade em chamas, obrigando-o à retirada. Na segunda guerra mundial, mesmo depois de terem sofrido vinte milhões de mortos, os russos vergaram as tropas de Hitler, obrigando-as a retirar e ocuparam Berlim. Terceiro, o isolamento mundial também nunca assustou a Rússia. Estaline não hesitou em adoptar a fórmula do socialismo num só país, isolando a Rússia do resto do mundo, quando a revolução mundial desejada por Lenine não se verificou.

 

Não tenho dúvidas de que, se Putin for colocado entre a espada e a parede, terá que optar pela espada. É por isso que me parece que nesta história das sanções à Rússia, os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo. A guerra não irá assim ser fria. Quem vai ter frio será o norte da Europa, quando falhar o abastecimento do gás russo. Já a guerra será muito quente. No fundo 2014 está a replicar 1914. Sem que ninguém se aperceba, andam todos a preparar o apocalipse.

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Outras perspectivas

por João André, em 21.07.14

A tragédia na Ucrânia é enorme, infelizmente não se limita apenas aos passageiros de um avião. Não sei se será um dia possível saber exactamente o que se passou com este caso. Provavelmente os rebeldes receberam uns mísseis terra-ar, umas instruções básicas sobre como os utilizar, e pensaram estar a abater algum avião militar ucraniano. Isto não desculpa nada, mas é importante saber aquilo que se está de facto a passar, até porque os separatistas (ou as forças armadas ucranianas) não teriam, qualquer interesse em abater um avião de passageiros.

 

É uma tragédia, como escrevi, mas a pior é que vai ocorrendo directamente no terreno. Os ucranianos vão sendo usados pela Rússia e Europa num combate geoestratégico pela dominância política na região sem que alguém pense nas consequências que tal tem nas pessoas em si. Como em muitos outros conflitos do género, o monstro começa a querer pensar pela sua própria cabeça e a sair do controlo do dono. Penso ser esse o caso com os separatistas e Putin, que poderá ter cada vez menos controlo sobre eles. Do lado do governo ucraniano é possível que se mantenha unido para já, a ver vamos o que sucede no futuro.

 

Entretanto vamos esquecendo outras consequências enquanto a Europa sua num Verão morninho. Dentro de uns meses começará o frio, ligar-se-ão os aquecedores na Europa Central e ver-se-à que não vem calor nenhum. Não haverá gás. Nos países ricos comprar-se-à gás aos EUA. Nos outros morrerão pessoas. Na Ucrânia... bom, difícil pensar. E entretanto a Rússia irá ficando sem dinheiro e cada vez mais entranhada em si mesma.

 

Houve no passado quem avisasse para o risco de uma balcanização da Rússia. Putin e o dinheiro do petróleo e do gás natural conseguiram impedir esse efeito - até agora. Quando passam 100 anos do início da Guerra Mundial de 1914-1945, talvez não seja má ideia lembrar nos equívocos que a iniciaram ao fim de um longo período de paz.

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O declínio do Ocidente.

por Luís Menezes Leitão, em 18.06.14

 

Enquanto anda tudo entretido com o Mundial há alguma coisa de novo a Leste. Em primeiro lugar, depois dos seus sucessos na guerra civil síria, a Al-Qaeda ameaça agora tomar conta do Iraque, pretendendo construir desde já um Estado islâmico radical nesse território, denominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, na versão inglesa). Será algo absolutamente novo e que demonstrará uma derrota absoluta dos Estados Unidos na denominada guerra contra o terrorismo. Na verdade, o que era até há pouco tempo apenas uma organização terrorista, com recursos consideráveis, é certo, mas sem qualquer base territorial, pode a partir de agora começar a gerir um Estado, a partir de território sírio e iraquiano, iniciando a realização da sua ambição de reconstituir o califado. Trata-se de algo muito mais ameaçador do que qualquer Saddam Hussein, mas a verdade é que Barack Obama não se mostra disposto a nova intervenção militar no Iraque, preferindo deixar os iraquianos à sua sorte. Aposto que vão ser presa fácil para a Al-Qaeda e que em breve um país com a importância estratégica do Iraque estará a servir para o desenvolvimento do terrorismo.

 

 

Na Ucrânia as coisas não estão melhores. Poroshenko, legitimado pela sua vitória eleitoral e estimulado pelo apoio da União Europeia, achou que uma situação altamente complexa como a que herdou podia ser resolvida com uma simples bravata. Garantiu resolver a questão no Leste numa semana, através de uma ofensiva brutal contra os rebeldes russos. A iniciativa era ridícula, uma vez que a manutenção do Leste ucraniano depende muito mais de concessões aos rebeldes, depois da desconfiança criada pelo golpe de Estado, do que de uma ofensiva militar. Era evidente que a Rússia não toleraria um massacre dos rebeldes pró-russos. Mas a reacção de Putin, apesar de curiosamente contida, foi extremamente eficaz. Limitou-se a cortar o gás à Ucrânia, matando com isso dois coelhos de uma só cajadada. Efectivamente, não apenas a Ucrânia vai ser economicamente muito prejudicada, como especialmente a Europa vai morrer de frio no Inverno, o que seguramente lhe vai arrefecer os ímpetos de intervir em zonas que Putin considera de influência russa. Naturalmente que, depois dessa resposta, a Poroshenko nada mais restou do que ir negociar com Putin, engolindo assim a bravata inicial.

 

 

De tudo isto resulta que estamos a assistir neste século XXI a um profundo declínio do Ocidente, associado a um ressurgimento islâmico e ao regresso da Rússia. E neste aspecto ter uma União Europeia exclusivamente dominada pela Alemanha é altamente contraproducente. Uma União Europeia só poderia ter força se efectivamente congressasse os povos europeus. Mas hoje, quando os líderes europeus acham que podem ignorar os votos dos cidadãos e escolher o Presidente da Comissão numa canoa num lago sueco, parece evidente que a Europa está neste momento a meter muita água. Por este caminho arrisca-se a ir ao fundo.

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O conflito entre a União Europeia e a Rússia.

por Luís Menezes Leitão, em 15.05.14

 

A crise na Ucrânia evoluiu de tal forma que está em risco de ocorrer uma guerra civil prolongada, que só não levará a uma intervenção externa se a Rússia não quiser. Sempre achei que foi uma grande ingenuidade a União Europeia ter-se envolvido nesta questão com o apoio precipitado a um grupo de manifestantes, que desencadearam um golpe de Estado para depor um governo hostil à União Europeia. O resultado foi a sua substituição por um governo hostil à minoria russa, que desencadeou a sublevação das regiões do país em que esta minoria reside. Depois da Crimeia, são agora as regiões de Donetsk e Lugansk que decidem em referendo a secessão da Ucrânia. Actualmente bem se pode proclamar a ilegalidade destes referendos, mas esta proclamação soa a estranho vinda de um governo eleito numa praça, e sabendo-se que a própria Ucrânia se proclamou independente da URSS graças a um referendo.

 

Como bem salientou Gerhard Schröder, a União Europeia nunca poderia assinar um tratado de associação com um país tão dividido como a Ucrânia sem acautelar os interesses da minoria russa. Por vezes as pessoas vivem em países tão etnicamente unidos que não compreendem que noutros países há questões muito sensíveis com minorias, que se vêem como próximas de Estados vizinhos, e que não aceitam uma política hostil a esses Estados. Neste momento, na Ucrânia a Europa é sinónimo de Alemanha, e o actual Governo é visto como um Governo pró-alemão e hostil à Rússia, que até inclui grupos nacionalistas radicais, como o Sector Direito e o Swoboda. Aliás, a sua primeira decisão foi proibir a língua russa no país. Só uma grande insensatez dos actuais dirigentes europeus é que podia levar à assinatura de um Tratado de Associação com um governo destes. O resultado disto vai ser a implosão da Ucrânia, e provavelmente não se vai ficar por aqui, uma vez que a Moldávia pode ser o próximo país a ser objecto de uma revolta da população russa.

 

É preciso ter consciência de que neste momento há uma clara disputa de zonas de influência entre a Rússia e a União Europeia. Esta ambiciona estender a sua influência até às fronteiras da Rússia. Por sua vez a Rússia ambiciona construir uma união euro-asiática, onde manteria as suas tradicionais esferas de influência. Já houve guerras que começaram por menos.

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Os amigos escolhem-se

por Rui Herbon, em 30.04.14

Há um conflito na Ucrânia que ameaça a paz na Europa e, na passada segunda-feira, o presidente Putin abraçou o ex-chanceler alemão, Gerhard Schröder, que celebrava o seu septuagésimo aniversário em São Petersburgo. É uma bofetada na política externa alemã, um gesto que mancha a conduta de ex-governantes que vendem a sua influência por soldos muito suculentos. Os parentes não se escolhem, mas os amigos sim. Se o ex-governante quer celebrar o seu aniversário com o amigo Putin é livre de fazê-lo. Mas foi chanceler da Alemanha e sabe que esta acção terá uma interpretação política.

Schröder foi contratado pela russa Gazprom poucos meses após deixar a chancelaria. É o chairman da empresa que fornece boa parte da energia consumida pela Ucrânia, Alemanha e outros países da Europa central e de leste. Obteve o lugar pela sua condição de ex-chanceler que, incidentalmente, havia estabelecido as relações amistosas e contratuais com dita empresa.

Os seus correligionários social-democratas estão no governo com Merkel. Deixa-os numa posição muito delicada e podia, nesta ocasião, ter mantido algum distanciamento relativamente a Putin, que tenta alterar o direito internacional nas fronteiras ocidentais russas. Violou as regras do jogo com a anexação da Crimeia e impulsiona a brutalidade dos pró-russos da Ucrânia que pretendem repetir a estratégia na parte oriental do país.

Ninguém pretende um confronto aberto com Putin. Mas que um ex-chanceler europeu se preste a dar credibilidade à política expansionista do líder russo é de todo inaceitável. Schröder pode ganhar muito dinheiro mas perderá credibilidade entre os seus. O destino final dos políticos não pode ser tornarem-se milionários nem continuar a influenciar a vida pública como quando estavam no poder.

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Ucrânia: a irresponsabilidade europeia (III).

por Luís Menezes Leitão, em 11.04.14

 

Este texto do Pedro Correia e este texto do Luís Naves justificam que volte ao assunto do que considero ser a irresponsabilidade europeia na Ucrânia e cujo resultado está à vista de todos. É muito fácil demonizar a Rússia como agressor, mas tal implica esquecer o óbvio: que a União Europeia apoiou um governo de extremistas, formado na Praça Maidan, que incluía partidos fortemente hostis à minoria russa. Ora, era manifesto que esta não deixaria de pedir auxílio a Moscovo e que a Rússia não iria ficar quieta. Basta olhar para o mapa acima para perceber o risco de guerra civil que o golpe poderia causar, ainda mais quando estimulado por uma União Europeia que prometeu mundos e fundos à Ucrânia, os quais não tem para dar a Portugal ou à Grécia.

 

 

A comparação com a II Guerra Mundial, ao contrário do que se afirma é bem elucidativa. O mapa acima demonstra, ao contrário do que se julga, a força com que a Alemanha saiu do tratado de Versalhes. É que anteriormente tinha vários impérios em seu redor, e depois passou a ter pequenos Estados, que facilmente poderia influenciar. Kissinger já uma vez escreveu que o grande erro de Hitler foi ter estado obcecado em travar uma guerra enquanto era novo. Bastar-lhe-ia esperar e conseguiria o domínio alemão na Europa, não por força das armas mas pelo poder económico.

 

Neville Chamberlain sabia perfeitamente disso, e acreditou ingenuamente que Hitler não precisava de uma guerra. Mas fê-lo por razões pragmáticas. Disse pura e simplesmente perante o ataque à Checoslováquia que, por muito que respeitasse a fraqueza de um Estado europeu perante um vizinho forte e poderoso, não podia envolver todo o Império Britânico numa guerra por esse motivo. A Inglaterra não estava disposta a uma guerra por causa da Checoslováquia, mas já estava por causa da Polónia. É assim que a guerra se inicia quando Hitler invade a Polónia, coisa que ele muito estranhou, pois quem queria combater no futuro era a URSS. E a intervenção da França e da Inglaterra na II Guerra foi um desastre, como se viu logo em Dunquerque, que levou a que a França fosse ocupada e logo a seguir a Inglaterra sistematicamente bombardeada. O que provocou a viragem na guerra foi a entrada dos EUA depois de Pearl Harbor e especialmente o ataque de Hitler à Rússia, que na altura pareceu um erro estratégico, mas que constituía o objectivo de Hitler desde o início. 

 

 

Ao contrário do que se refere, quem especialmente ganhou com a II Guerra foi a URSS, como se pode ver pelo mapa acima, que descreve a cortina de ferro de que Churchill se queixava, a qual aliás ainda foi prolongada com a adesão da Jugoslávia e da Albânia ao bloco comunista. A Inglaterra não só não conseguiu a libertação da Polónia, como também teve que dar o Império Britânico como perdido no momento simbólico em perdeu Singapura para o Japão, como Churchill também reconheceu. Já a URSS não cedeu um milímetro de território conquistado, empurrando a Polónia para Ocidente e dividindo a Alemanha. É assim que se dá por decisão dos EUA o ressurgimento alemão. Qualquer pessoa poderia olhar para este mapa e ver que não seria possível parar o avanço russo sem a Alemanha.

 

Quando se inicia a guerra da Coreia, o avanço comunista parecia imparável. Foi parado apenas por MacArthur, que com uma estratégia militar brilhante chegou a tomar Pyongyang. Só que isso desencadeou a entrada da China no conflito e ele viu que não podia derrotar o exército chinês. MacArthur pediu então a Truman para lançar bombas atómicas sobre a China, o que este recusou, por saber que isso implicava uma guerra nuclear com a Rússia. Na altura afirmou que a estratégia americana era limitar a guerra à península da Coreia e que MacArthur era demitido por não concordar com a estratégia. Ficou-se a saber que a URSS e a América travariam guerras ao domicílio mas não um conflito nuclear global. Mais uma estratégia de apaziguamento que não deixou libertar o quinto cavaleiro.

 

A excepção a esta regra era a Europa. Todos sabiam que não se podia ganhar uma guerra convencional na Europa contra o exército soviético, que em 36 horas podia ocupar todo o continente. Por isso ficou estabelecido que qualquer avanço russo teria como consequência uma resposta nuclear. Na altura foi dito que bastava um polícia da Alemanha de Leste perseguir um ladrão em Berlim Oeste, ou um carro de bombeiros do Leste vir ajudar a combater um incêndio em Berlim Oeste, para os EUA responderem com o nuclear. Kruschev dizia que Berlim eram os testículos do Ocidente, já que podia atacar em todo o mundo excepto em Berlim.

 

A queda do muro de Berlim permitiu a reunificação alemã e os governantes alemães, de Kohl a Merkel, não quiseram mais repetir o erro de Hitler. A conquista de influência já não precisava de ser militar, pois podia ser apenas económica. Só que isso podia implicar o desmantelamento de Estados, o que não deixaria de levar à guerra. Foi assim que a Europa, por influência alemã, apoiou a independência da Eslovénia e da Croácia, sabendo-se que a Sérvia iria reclamar os territórios ocupados pelos seus habitantes com uma inevitável guerra civil. Apoiou depois a indepedência do Kosovo, desde sempre um território sérvio, embora esmagadoramente ocupado por albaneses. A Rússia, tradicional aliada da Sérvia, e pela qual tinha travado uma guerra sangrenta em 1914, não reagiu.

 

Mas em 2008 tudo mudou. Quando a Geórgia decidiu pôr em causa a autonomia das suas províncias separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia a Rússia reagiu pela força militar, pelo que era óbvio que não deixaria de o fazer na Ucrânia. Por isso quando a União Europeia, especialmente por influência alemã, decidiu apoiar a colocação na Ucrânia de um governo hostil aos russos, Putin resolveu responder da mesma forma que a União Europeia tinha feito na Jugoslávia: apoiar a secessão de sucessivas regiões da Ucrânia, onde a população russa é considerável. Pelo caminho, propõe-se uma "federação", que depois facilmente se dissolve, como aconteceu na Jugoslávia.

 

É por isso que antes de a União Europeia se ter posto a apoiar golpes e governos extremistas na Ucrânia, devia considerar que a Rússia não é hoje a mesma que aceitou pacificamente o desmembramento da Jugoslávia e da Sérvia. A Rússia de hoje não vai abdicar de ter uma zona de influência própria e não vai aceitar a expansão da União Europeia para Leste. Quanto à União Europeia, o facto de ser um gigante económico não afecta o facto de continuar a ser um anão político, e pior ainda, um anão militar, que ainda por cima deixou de ter o guarda-chuva americano. Como bem escreveu Vasco Pulido Valente, "o Ocidente demonstrou ao mundo inteiro que recusa um novo conflito, na Ucrânia ou no pólo Norte: a América porque, ao fim de uma guerra perdida no Iraque e no Afeganistão, o eleitorado está maciçamente contra uma nova aventura; a Europa porque não tem dinheiro, nem poder militar para ameaçar ninguém (Obama até pediu que a França, a Inglaterra e a Alemanha investissem em armamento um pouco mais do que investem hoje)". Uma vez tive um encontro com um juiz do Supremo Tribunal Americano, que me confessou não acreditar na União Europeia, dizendo que a bandeira europeia só teria significado no dia em que aparecesse alguém disposto a dar o seu sangue por ela. A verdade é que continua a não haver ninguém disposto a esse sacrifício. Eu queria ver aqueles que agora criticam a Rússia pela sua intervenção na Ucrânia dispostos a alistarem-se num exército de defesa da Ucrânia contra a Rússia. No tempo da guerra civil espanhola houve muitos voluntários internacionais que combateram em Espanha. Hoje, não havendo nada disso, era preferível que a União Europeia tivesse algum sentido da realidade. Porque as pífias sanções económicas não assustam ninguém.

 

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Os discípulos de Chamberlain

por Pedro Correia, em 09.04.14

Neville Chamberlain cumprimentando Hitler em Munique (1938)

 

É comum ouvir-se por estes dias, a propósito da política de canhoneira aplicada por Vladimir Putin na Ucrânia, um conceito desenterrado dos mais bafientos baús da História.

Que conceito é esse? O de "apaziguamento".

 

Em síntese, os defensores desta tese recomendam a atitude dos três macaquinhos da fábula: há que vendar os olhos, cobrir os ouvidos e emudecer perante sucessivas violações do direito internacional para não indispor os prevaricadores. Se for preciso inverte-se até o ónus da prova, transformando o agressor em agredido e o agredido em agressor. Como o Grande Irmão de Orwell, que instituiu um Ministério da Verdade para melhor disseminar as mentiras enquanto incentivava as massas a urrarem o mais cruel e acéfalo dos paradoxos: "Guerra é paz!"

Não há nada de original nisto. Quando escuto os apóstolos do apaziguamento recordo-me sempre do mais infausto e patético de todos os primeiros-ministros britânicos: Arthur Neville Chamberlain. Céptico perante os aliados, crédulo perante os inimigos. De uma granítica intransigência face às vozes que o alertavam contra os riscos do compromisso a todo o preço, sempre pagos mais tarde a custos elevadíssimos. E de uma benevolência sem limites face à ofensiva totalitária.

De tanto querer a paz, na sua indesmentível boa fé, facilitou o caminho aos promotores da guerra. Da mais sangrenta, devastadora e homicida das guerras.

 

Recordo em particular o acalorado debate na Câmara dos Comuns travado a 25 de Junho de 1937 -- em que, não por coincidência, foi invocado várias vezes o nome de Portugal.

Era a primeira vez que Chamberlain ali discursava sobre política internacional desde que fora empossado como chefe do Governo conservador britânico, no mês anterior. E logo ali ficou bem patente o seu anseio em levar à prática uma política de "apaziguamento" com as feras totalitárias que faziam da guerra civil espanhola terreno experimental para um incêndio muito mais vasto que não tardaria a deflagrar no mundo.

Comentando a aparente resignação de Berlim na sequência do recente afogamento de um navio alemão ao largo da costa espanhola, o antecessor de Churchill não hesitou em elogiar o regime de Hitler por "ter demonstrado um grau de moderação que devemos reconhecer". O massacre de Guernica, cometido pela tenebrosa Legião Condor, ocorrera dois meses antes...

Incapaz de ler os sinais da História, Chamberlain pedia "cabeça fria" no Parlamento britânico e recomendava aos próprios jornalistas que "medissem as palavras" para não ferir as susceptibilidades dos inimigos da democracia. E rematou assim, cego perante as evidências: "Se todos formos prudentes, pacientes e cautelosos seremos capazes de salvar a paz na Europa."

 

O antigo primeiro-ministro liberal David Lloyd George respondeu-lhe da melhor maneira. Observando sem rodeios que Hitler violara já três acordos internacionais subscritos pelo Estado alemão. Ao inutilizar o Tratado de Versalhes (1919) reintroduzindo o serviço militar obrigatório. Ao rasgar o Pacto de Locarno (1925), invadindo e remilitarizando a Renânia. E ao transformar em letra morta o Acordo de Não-Intervenção na Guerra Civil de Espanha (1936), disponibilizando instrutores, armamento e aviação a Franco.

E Lloyd George retorquiu a Chamberlain: "Precisamos de cabeças frias, sim, mas também de corações fortes."

Solidários com os que sofrem as agressões, não com aqueles que as praticam. E aprendendo sempre com as lições da História.

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A repressão avança na Crimeia

por Pedro Correia, em 28.03.14

«The warning signs are clear. In Crimea, the crackdown is coming. But the repression won’t be televised.»

Salil Shetty, secretário-geral da Amnistia Internacional

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Ucrânia: a irresponsabilidade europeia.

por Luís Menezes Leitão, em 27.03.14

 

Ao contrário do que sustenta o Pedro Correia, parece-me evidente, como aqui escrevi, que o comportamento da União Europeia na crise ucraniana foi de uma gigantesca irresponsabilidade, especialmente devido à excessiva influência alemã na Europa. Como é óbvio, tal não implica considerar que a Rússia não tenha sido agressora neste âmbito, mas quem conhecesse um mínimo de lógica geopolítica sabia que isso iria acontecer e poderia e deveria tê-lo evitado. É isso o que se faz todos os dias na arena internacional onde, por muito que gostássemos, as coisas não são a preto e branco, e todos sabem que não se pode alterar o status quo sem haver consequências, podendo as coisas ficar muito piores.

 

Kissinger referiu que, durante a presidência de Nixon, os EUA foram avisados pela URSS de que poderia haver um litígio com a China. Em linguagem diplomática, isso significa que preparavam uma guerra, tendo tido a imediata resposta de que os EUA não ficariam indiferentes perante um ataque à China, o que levou a que a guerra não tivesse ocorrido. Em 1990 Saddam Hussein perguntou à embaixadora dos EUA o que pensava de um litígio entre o Iraque e o Kuwait tendo tido como resposta de que os EUA não tinham opinião sobre litígios entre países árabes. Naturalmente que o Kuwait foi invadido e os EUA viram-se obrigados a travar uma guerra com muitos mais custos neste âmbito.

 

Hoje sabe-se que os EUA, depois da crise e com a presidência Obama, deixaram de estar disponíveis para ser o polícia do mundo. Sabe-se também que a dissolução da URSS criou um seriíssimo problema de populações russas espalhadas pelas antigas repúblicas soviéticas, cuja protecção foi assumida por Moscovo, e que têm vivido de forma mais ou menos autónoma em relação ao país onde estão. Quando em 2008 a Geórgia decidiu ocupar pela força as suas regiões da Ossétia do Sul e da Abkházia, de maioria russa, teve imediatamente uma invasão da Rússia, tendo ficado bem claro para todos que a Rússia não deixaria de agir em defesa das suas populações, estivessem elas onde estivessem. E argumentar que a maioria era outra antes das deportações da época soviética, como sucedia com os tártaros na Crimeia, é anunciar que pode haver novas deportações, agora de russos. Só que não é possível fazê-lo sem entrar em guerra com a Rússia, como esta já deixou bem claro.

 

Todos sabiam isto quando começou a crise ucraniana. Ora, Ianukovich podia ser um bandido, mas fora eleito democraticamente, com os votos das populações russas, podendo ter sido substituído nas eleições subsequentes. Apenas porque ele tomou a decisão de não assinar o acordo com a União Europeia, foi deposto num putsch à antiga, e substituído por um governo de extremistas, formado na Praça Maidan, que declarou ilegal o uso da língua russa no país. Como é óbvio, esta atitude poderia atirar a Ucrânia para a guerra civil, pois é claramente uma declaração de guerra aos russófonos, dizendo-lhe que os seus votos já não contam pois o governo passa a ser eleito na praça. Alguém imagina que as populações russas não reagiriam e que a Rússia ficaria quieta? Imagine-se o que teria sido se em Portugal em 1975 dissessem ao resto do país que os governos iam passar a ser formados por uma manifestação de extremistas no Terreiro do Paço. O norte do país não aceitaria e o leste da Ucrânia também hoje não o admite, como se vê por esta manifestação em Donetsk.

 

O bom senso implicaria que a União Europeia tivesse imediatamente dito que o novo governo não era reconhecido e que só assinaria o acordo de associação com um governo democraticamente eleito por todo o país. Foram a correr reconhecer o novo Governo, prometeram mundos e fundos aos novos governantes, e já assinaram o acordo, só que já não sabem com que Ucrânia. É por isso evidente que a actuação europeia foi de uma enorme irresponsabilidade. Se isso não desculpa a invasão russa, também não deve levar a que não se apurem as responsabilidades europeias por este desastre. Desastre de que ainda só vimos o princípio, pois parece-me que a procissão ainda vai no adro. 

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Confundir agredido com agressor

por Pedro Correia, em 26.03.14

 

Leio hoje, num jornal diário português, um artigo que aponta o dedo acusador à União Europeia pelo actual conflito entre russos e ucranianos. Tudo se deveria, segundo o articulista, à "irresponsabilidade" dos dirigentes europeus, que pretendem alargar o limite das suas fronteiras orientais ao território ucraniano, despertando a compreensível ira de Moscovo. Como se a vontade de Vladimir Putin devesse sobrepor-se à decisão soberana do povo ucraniano, que deve ser o único a pronunciar-se nesta matéria.

Este texto, à semelhança de vários outros que tenho lido nas últimas semanas, pretende ser um eco do senso comum em questões internacionais, transformando a geopolítica em bússola orientadora. Que a Crimeia seja ocupada pela tropa russa como se fosse um tabuleiro de xadrez é um pormenor irrelevante em raciocínios deste tipo. Pensamento semelhante levou muitos a apoiar a invasão das Malvinas, em 1982, em sintonia com a repugnante ditadura militar argentina.

 

A Crimeia, no primeiro censo realizado no século XX, tinha ainda maioria de população tártara. Esta população foi alvo das maiores atrocidades -- incluindo deportações em massa -- tanto no período czarista como no estalinismo, abrindo caminho aos colonos eslavos que se apropriaram das suas terras e das suas casas.

Hoje há apenas 12% de tártaros na península. Os russos são 58%.
Ou seja: primeiro expulsam-se os habitantes autóctones; depois proclama-se o princípio da soberania com base num critério demográfico, etno-racial, que nos faz retroceder alguns séculos. Um pouco como aquele indivíduo que matou os pais e procurou depois invocar a sua condição de órfão como atenuante em tribunal.
É uma mistificação histórica, e uma inaceitável manipulação, fazer o que Putin faz: justificar a anexação da Crimeia para fazer coincidir poder estatal com nacionalidade, à semelhança do que sucedia no século XIX.

 

Se começamos a invocar tudo em nome dos sacrossantos "interesses estratégicos" -- que são sempre interpretados à luz da conveniência de quem agride -- acabaremos por justificar e até aplaudir a anexação de Gibraltar pelas força militar espanhola, por exemplo. Ou de Cuba pelos Estados Unidos, cujos "interesses estratégicos" não toleram um regime hostil a escassos 150km de distância da sua costa.
O paralelo não é descabido pois os EUA até têm uma base militar em território cubano (Guantánamo), tal como a Rússia tem uma base em território ucraniano (Sebastopol).

 

Não poupemos nas palavras: estamos perante um claro retrocesso civilizacional.
Neste caso há um agressor e um agredido.

O agredido é o estado ucraniano.

O agressor é Putin, que procura legitimar-se perante a opinião pública interna com este anacrónico exercício de musculatura, totalmente inaceitável.
Confundir agressor com agredido é abrir todas as portas à pura arbitrariedade, condenando o direito internacional a tornar-se letra morta.
É por este "novo mundo" que pugnamos? A minha resposta é clara e simples: não.

 

Foto: Serguei Ilnitsky/AFP

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Putin mau, Putin bom

por Pedro Correia, em 12.03.14

 

Não há nada como mostrar músculo para ganhar popularidade. Ainda há um mês, Vladimir Putin recebia críticas de vários quadrantes pelas suas detestáveis tendências autocráticas que o levaram a promulgar leis discriminatórias dos homossexuais, banindo-os dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi -- os mais caros de sempre, orçados em 51 mil milhões de dólares (10 mil milhões acima das Olimpíadas de 2008 em Pequim).

Bastou-lhe invadir um país soberano, à margem do direito internacional e das regras de convivência civilizada entre países soberanos, para calar certas vozes críticas. Por estes dias tenho reparado no silêncio de alguns: tão indignados com Putin há um mês, tão complacentes com Putin agora.

Dizia Woody Allen, com irresistível ironia, que evitava ouvir Wagner para não sentir a tentação de invadir a Polónia. Apetece perguntar que música o autocrata russo gosta de escutar -- e também alguns dos que agora o apoiam, nem que seja apenas através do silêncio conivente perante a agressão russa à Ucrânia. 

Foto AP/Valentina Petrova

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Contra a lei de Talião

por Pedro Correia, em 10.03.14

 

 

Depois da Ucrânia, a Moldávia. Depois da Moldávia, os estados bálticos: o direito internacional pode ser hoje violado a todo o momento, na Crimeia ou noutro quadrante, porque já houve muitas violações no passado. Fantástica tese, que vou vendo repetida até por gente que me habituou a argumentar com inteligência noutras ocasiões.

Subjaz a este raciocínio que não devemos colher qualquer ensinamento dos erros -- e até dos crimes -- anteriormente cometidos. Esta visão do mundo que justifica as arbitrariedades presentes pela ocorrência de arbitrariedades passadas condena a Humanidade a uma eterna pena de Talião: olho por olho, dente por dente. E absolve de antemão futuros agressores, alegando que também eles terão sido vítimas. Ou, se não foram eles, terão sido os pais. Ou os avós.

Nada é para mim tão inaceitável como esta equivalência moral que alguns pretendem estabelecer entre quem agride e quem é agredido. Com estas premissas será sempre possível justificar as maiores atrocidades -- em qualquer época, em qualquer lugar.

A civilização começa no preciso momento em que recusamos com firmeza a lei de Talião e nos demarcamos sem ambiguidades de todos quantos a praticam, seja sob que pretexto for.

Foto Reuters

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Ucrânia: a história repete-se? (III)

por Luís Menezes Leitão, em 10.03.14

 

Há exactamente 75 anos, nas fronteiras da Checoslováquia, proclamava-se: "Camaradas alemães dos sudetas: a hora da libertação chegou. As nossas tropas preparam-se para colocar a vossa região sob a égide do Reich". Para as pessoas de etnia alemã, era o tempo da alegria. Para os checos, o da tristeza e das lágrimas. Mas, ao contrário do que se esperava, Hitler não parou nos sudetas. Ocupou Praga e declarou a todo o mundo que a Checoslováquia tinha deixado de existir. Ninguém se atreveu, no entanto, a contestar o poderio alemão. Apenas Churchill tinha avisado: "A crença de que se consegue a paz na Europa lançando aos lobos um pequeno Estado é um erro fatal".

 

 

Hoje os russos da Crimeia festejam a sua primavera russa, há tanto aguardada, ansiando pelo regresso à Mãe-Pátria da qual tinham sido separados em 1954. E as tropas russas lá estão para garantir que ninguém se oporá a esse desejo. E efectivamente ninguém parece ter capacidade para se opor. A União Europeia não existe politicamente, e está dependente do fornecimento do gás russo. Quanto aos Estados Unidos, acham que é um problema europeu, e não estão dispostos a intervir no mesmo, por muito que isso lese a União Europeia. Como disse a assistente do Secretário de Estado, Victoria Nuland, ao embaixador dos EUA na Crimeia "fuck the European Union".

 

Putin tem assim o caminho aberto para a anexação da Crimeia. Resta saber se vai parar por aí. Hitler não parou. Pensou naturalmente que se tinha conseguido obter os territórios checos, apenas devido a uma população levemente maioritária de alemães nos sudetas, o que o impedia de reivindicar Danzig, que tinha em 1939 uma população de 95% de alemães? Putin pode perfeitamente pensar o mesmo. Afinal, a Transnístria não fica assim tão longe e a Moldávia é muito mais fácil de vergar que a Ucrânia. Aguarda-se pelas cenas dos próximos capítulos.

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Sobre a Ucrânia (3)

por Pedro Correia, em 09.03.14

Ucrânia: a grande questão. Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.

"Homenzinhos verdinhos" alargam influência na Crimeia. Do José Milhazes, no Da Rússia.

Úteis lições da História. De João Ferreira do Amaral, no 31 da Armada.

Jugocrânia. Do Luciano Amaral, na Crise Crónica.

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Crimeia, a coutada do novo czar

por Pedro Correia, em 07.03.14

 

Por enquanto as televisões, que filmam com crescentes precauções para evitarem ser alvos de represálias, ainda conseguem mostrar-nos fragmentos do que se passa na Crimeia ocupada manu militari por tropa russa sem insígnias: quem ousar por estes dias manifestar-se a favor da ligação à Ucrânia nas ruas de Simferopol é logo arrastado por bandos de jagunços incapazes de conviver com opiniões "dissidentes". Impossível ver ali sequer desfraldada uma bandeira ucraniana, confirmando-se não existirem condições mínimas de liberdade para realizar uma campanha referendária. Como pode haver um referendo minimamente credível sem campanha? E como pode realizar-se já no dia 16 -- ou seja, daqui a cinco dias úteis -- uma consulta popular com 30 mil militares e paramilitares russos a impor às urnas a vontade das armas?

Estes jagunços são todos homens e têm especial predilecção por agredir mulheres perante a passividade da tropa ocupante russa, que serve de guarda pretoriana às manifestações locais pró-Moscovo. Algo que dá que pensar, em vésperas de comemoração do Dia Internacional da Mulher. Não por acaso, a enviada especial da CNN à Crimeia viu-se hoje impedida de sair do hotel em reportagem.

Pior sorte teve o enviado das Nações Unidas: Robert Serry foi ameaçado por milícias armadas e forçado a rumar ao aeroporto. Isto enquanto o chefe do Governo da região autónoma, ferozmente pró-russo, chama "traidores" aos defensores da soberania ucraniana na península -- deixando assim bem evidente que não existem garantias de imparcialidade das autoridades locais para promoverem o referendo. Observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa foram impedidos de entrar na Crimeia, pelo segundo dia consecutivo, por elementos das forças especiais russas ali plantados como vigilantes de uma coutada -- a coutada particular do novo czar Vladimir Putin, que pretende anexar a Crimeia à maneira dos vetustos senhores feudais, exímios praticantes do direito de pernada.

 

Eis uma versão revista e actualizada da Lebensraum hitleriana: onde houver comunidades russas, Moscovo estenderá o seu domínio de fuzis em riste -- à revelia do direito internacional, que garante a integridade territorial e o exercício da soberania dos Estados cuja independência é reconhecida pela ONU. Mandando às malvas os direitos das minorias étnicas, tal como sucede na Rússia com as minorias sexuais.

Ao contrário do que pretendem alguns admiradores do presente exercício de musculatura do Kremlin, a Crimeia é um mosaico de línguas e etnias. Onde vivem russos (58%), ucranianos (24%) e tártaros (12%), entre habitantes de outras origens. E muito mais tártaros ali existiriam se nas décadas de 30 e 40 Estaline não tivesse sujeitado grande parte desta população a deportações em massa para a Sibéria e as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Menor para ceder mais "espaço vital" ao neocolonialismo russo.

 

Nada me surpreende em tudo isto excepto o aplauso basbaque de alguns autoproclamados "progressistas" à política de canhoneira do Kremlin. Tão velha como a mais antiga lei que remonta aos confins da História: a do mais forte.

A comovida homenagem que certo "progresso" faz ao retrocesso civilizacional nunca deixará de me espantar.

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Ucrânia: a história repete-se? (II)

por Luís Menezes Leitão, em 07.03.14

 

Depois do que aqui escrevi, a situação na Ucrânia evoluiu num sentido que parece ir conduzir à inevitável divisão do país, com uma parte do seu território, senão anexado, pelo menos sob tutela da Rússia. Efectivamente, a invenção da "democracia espartana" que passava por eleger um Governo na praça Maidan não passou de uma declaração de guerra aos ucranianos orientais. Depois de estes terem permitido com os seus votos a eleição de Ianukovich, as novas vanguardas revolucionárias pró-europeias declararam que esses votos deixavam de contar. Depois dessa declaração, é evidente que a Ucrânia oriental não reconheceria o novo regime, ao contrário do que precipitadamente fez a União Europeia. Quanto à Crimeia, esta sempre foi um terrritório russo, tendo sido "oferecido" à Ucrânia por Kruschev em 1954, oferta que o Parlamento Russo já tinha anulado logo após o fim da URSS, sem no entanto fazer de imediato a competente reivindicação territorial. Com a queda de Ianukovitch é evidente que a Crimeia faria a imediata secessão da Ucrânia, a que se poderão seguir os restantes territórios orientais. A partilha da Ucrânia está assim hoje em cima da mesa.

 

Em qualquer caso, parece evidente que o isolacionismo americano, instituído pela presidência de Obama, está a permitir um claro ressurgimento da Rússia. Ao contrário do que foi dito, não se trata, porém, de um regresso à guerra fria, como pretendem os saudosistas do back in the USSR. A Rússia de hoje não pretende criar um estado multi-nacional, através da expansão de uma ideologia pelo mundo. A Rússia de hoje pretende unir sob a sua bandeira os russos que vivem fora das suas fronteiras. É por isso que já tivemos a ocupação das províncias russófonas na Geórgia, e amanhã poderemos assistir à reivindicação da Transnístria na Moldávia ou mesmo à intervenção para protecção das minorias russas nos Estados Bálticos. A Rússia intervirá para proteger os russos, onde quer que eles se encontrem. E perante uns Estados Unidos distantes e uma União Europeia cada vez mais enredada nas suas próprias contradições, nada parece haver que a afaste desse objectivo. 2014 parece definitivamente uma reedição de 1914. A Europa, sem disso se aperceber, está a provocar o seu apocalipse. 

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Uma visão sobre a situação na Ucrânia

por João André, em 05.03.14

Antes de mais a ressalva: não sou especialista nem na Rússia nem na Ucrânia. Nunca lhes estudei a história nem as sociedades. Saberei talvez um pouco mais que o cidadão comum sobre os dois países e os seus povos, mas será apenas como "dano colateral" de certas incidências de vida. Conheço razoavelmente bem a personalidade dos eslavos em geral (e não especificamente de ucranianos e russos) devido às muitas amizades que tenho. Alguns desses amigos favorecem a Rússia, outros a Ucrânia, outros culpam toda a gente e outros estão-se completamente nas tintas. Feito o esclarecimento, fica a minha visão (longa).

 

Enquanto portugueses temos a visão dos países como territórios algo imutáveis, como entidades que são fundadas, poderão perder a sua independência por uns 60 anos mas que terão aquele desenho definido e inultrapassável. Talvez seja por isso que não nos enfurecemos quando vemos o país a perder soberania, mas isso é reflexão para outra altura. Os eslavos têm uma visão diferente: o país é aquele espaço físico onde vivem e que tem fronteiras policiadas e vigiadas e (geralmente) respeitadas mas que poderá não existir nessa forma por mais que uns 20 a 50 anos. Já a nação é um conceito diferente, que se prende à língua, à religião, ao sangue, às tradições e à história. Perceber esta distinção é fundamental para tentar entender aquilo que se passa na Ucrânia, ainda antes de tentar entender (dentro do possível) as acções de Putin.

 

Como já muita gente explicou, a Ucrânia é uma mistura de povos e é uma região fronteiriça (a mais habitualmente referida origem para o nome da Ucrânia indica que significa "na fronteira") onde vários impérios foram procurar novos territórios. É por isso que tem uma mistura de ucranianos e russos, os quais se distinguem através das linhas referidas acima. Apesar disso, esta distinção torna-se ainda mais ténue na Ucrânia: a língua, por exemplo, não é ainda um factor de diferenciação assim tão forte. Há muitos ucranianos não-russos que têm o russo como língua materna. O campeão da Alemanha, Vitali Klitchko é um deles. É resultado da acção russo-soviética que impôs a superioridade da Rússia a todos os seus estados. Aliás, não é por acaso que aquando do desmembramento da URSS e da CEI, que muitos desportistas ucranianos tiveram a opção de competir por outros países, sendo que alguns dos que o fizeram até nem eram "russos".

 

Quando a revolução ucraniana, sem pai nem mãe fora da Maidan, triunfou em expulsar Ianucovitch, muita gente ficou sem saber o que compreender. Os eslavos gostam de seguir cegamente os líderes em cavalos brancos. Em Maidan os líderes eram eles próprios e a única coisa que (per)seguiam era o fantasma de alguém detestado. Quando ele caiu, apareceram vários cavaleiros no horizonte, mas nenhum deles inspira muita confiança - pelo menos para já. No vazio de poder instalado, alguns arrivistas decidiram marcar presença tratando de ódios antigos: um deles os russos, os quais eram protegidos pelo regime cleptómano de Ianucovitch. Vai daí e avança-se com uma lei para remover o russo da lista de línguas oficiais das zonas de maioria russa.

 

Pelas razões que mencionei acima, e vendo algumas Banderas (sem gralha) em Maidan, os russos (que como bons eslavos têm uma memória colectiva muito longa e selectiva) viram a lei como a primeira salva de um ataque contra eles. Mesmo sem alguma vez tendo colocado os meus pés em terra ucraniana, penso que não exagerarei ao dizer que imaginariam já os soldados a caminhar em direcção a eles para os deportar ou assassinar. Perante esta situação, e porque o pânico ganha rapidamente uma vida muito própria, os russos ucranianos pediram de imediato auxílio aos seus "irmãos" do outro lado da fronteira.

 

E aqui trago à acção Vladimir Putin. Putin tem poder porque poderia ter sido ele próprio o Príncipe de Maquiavel, porque tem o dinheiro do petróleo e gás a apoiá-lo e porque compreende (ou compreendeu no passado, actualmente tenho dúvidas) o pensamento do russo comum. O russo comum, mais uma vez tal como os outros eslavos, tem uma memória selectiva que o faz lembrar as glórias do passado. Enquanto Portugal olha para o passado e vê o fracasso, o russo olha para o passado e vê o sucesso. O português vê o sucesso e pensa: foi bom enquanto durou. O russo vê o sucesso e pensa: é o nosso direito natural. Putin percebe-o e é por isso que mesmo num país autocrático, com liberdades cada vez mais reduzidas, com carências cada vez mais evidentes e que os petro-rublos já não maquilham, continua a ter um poder inigualável. Putin faz os russos pensarem que não estão tão mal - no palco mundial - como no passado e isso vale quase tanto para um russo como liberdade ou pão.

 

Quando Ianucovitch indicou que poderia aceitar a proposta europeia, Putin (que, como referido neste artigo, tem uma visão de soma-zero da geopolítica) colocou imediatamente pressão sobre a Ucrânia para evitar aquilo que via como perda de poder e perda de face. Quando Ianucovitch fugiu, Putin inicialmente esperou para ver. Quando a lei acima mencionada passou, Putin soube que tinha de agir: não para proteger os seus "irmãos" russos, mas para passar a ideia à sua população que o estaria a fazer. É também nesta perspectiva que tem que se entender a propaganda russa na Rússia, muito mais agressiva que aquela que tenta passar para fora do país. Tem que passar a mensagem que está a proteger a Mãe Rússia, a Rodina.

 

Outro aspecto fundamental a lembrar é o facto de ser na Crimeia que a Rússia tem a sua base naval do Mar Negro. Perdê-la seria um golpe duríssimo em termos estratégicos e um enorme problema em termos tácticos (imagine-se a quantidade de infraestrutura que poderia estar subitamente disponível para inspecção por parte de estrageiros). O pior golpe seria, mais uma vez, na imagem da Rússia. Ao perder um símbolo do seu poder militar, Putin estaria a demonstrar fraqueza interna. Isso seria o equivalente a perder o poder de todo. Putin, como se depreende pela sua história pessoal, nunca estaria na disposição de o aceitar. As suas soluções para os problemas interno são sempre as mesmas: dinheiro do petróleo e força. Com o dinheiro a ser rejeitado (e a não poder ser oferecido de novo - na sua lógica pessoal), sobrava a força. Daí o avanço para a Crimeia.

 

Putin tem uma fraca percepção de certos aspectos da realidade moderna, especialmente da força da internet e da forma como esta permite que a informação flua. Vê-a, com tiques de espião, como um truque dos seus inimigos - e por extensão da Rússia também - para desestabilizar o país. Por isso não percebe de imediato que a sua propaganda é transparente. Compreende no entanto que não pode recuar sem obter certas concessões. Por isso, e porque como um bom jogador de xadrez precisa de dar oportunidade ao adversário para mover as suas peças, espera agora para ver o que o Ocidente - e a Ucrânia - lhe oferecem.

 

Tenho uma visão singular destas crises geopolíticas: qualquer solução pacífica é preferível à guerra. Ou, por outra, uma má paz é preferível à melhor guerra. Assim sendo, o Ocidente deveria simplesmente abster-se de atiçar mais a fogueira. Não deve, de maneira nenhuma, recuar no seu apoio à revolução ucraniana - sob pena de perder outro país - mas deve aconselhar prudência. O melhor a fazer agora seria a Ucrânia reconhecer o erro da lei que retira o estatuto de segunda língua ao russo e sublinhar que respeita a população russa da Crimeia como russos e como sendo parte integral da Ucrânia. Ao mesmo tempo, deveria reafirmar o respeito pelo acordo que permite a presença naval russa. Note-se que Putin rejeita que os soldados na Ucrânia sejam soldados regulares russos. Isto não é - na minha perspectiva - simples propaganda. É, antes de mais, uma jogada que lhe permite retirar os soldados sem que alguma vez tenha invadido o país. É essencialmente uma jogada legal, mais que qualquer outra coisa. Isso dá espaço de manobra à Rússia, à Ucrânia e ao Ocidente.

 

Com o tempo Putin terá de sair. Talvez acossado pelas multidões de alcatrão e penas nas mãos - à semelhança do fantoche Ianucovitch - ou talvez por pressão ocidental. Seja como for, este não é o momento para forçar essa saída. Porque Putin, como qualquer animal acossado, pode tornar-se perigoso. E as principais vítimas seriam os ucranianos, independentemente de que lado linguístico estejam.

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Linha de rumo

por Pedro Correia, em 04.03.14

 Manifestação popular contra os tanques de Moscovo durante a invasão de Praga (Agosto de 1968)

 

Polónia, 17 de Setembro de 1939

 

Finlândia, 30 de Novembro de 1939

 

Lituânia, 15 de Junho de 1940

 

Estónia, 16 de Junho de 1940

 

Letónia, 16 de Junho de 1940

 

Hungria, 4 de Novembro de 1956

 

Checoslováquia, 20 de Agosto de 1968

 

Afeganistão, 24 de Dezembro de 1979

 

Geórgia, 7 de Agosto de 2008

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Sobre a Ucrânia (2)

por Pedro Correia, em 03.03.14

Desinformação para justificar erro de cálculo russo. Do José Milhazes, no Da Rússia

Outros tempos. Do Luís Naves, no Fragmentário.

As invasões boas. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Um luxo ao alcance de poucos. Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.

"Events, dear boy, events!" De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

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Sobre a Ucrânia

por Pedro Correia, em 03.03.14

Le Monde:

«Appelons les choses par leur nom: la Russie vient de s'emparer de la Crimée, territoire appartenant à l'Ukraine. Elle l'a fait par la force, au mépris du droit international et de tous les traités qu'elle a elle-même signés. C'est un acte de guerre froide. Il est signé Vladimir Poutine.»

 

New York Times:

«The United States and the European Union have few effective levers short of military force, which is not an option, to compel President Putin of Russia to back down, but they must make clear to him that he has stepped far outside the bounds of civilized behavior, and that this carries a steep price in international standing and in economic relations.»

 

El País:

«En escenarios tan volátiles y emocionalmente cargados, cualquier incidente puede desencadenar una situación fuera de control. Nada es más urgente, en línea con lo advertido ayer por Washington y la OTAN, que Moscú deje de pretender obtener ventaja de los acontecimientos. Putin debe hacer buena su promesa de cooperar con Occidente para atajar la crisis de Ucrania.»

 

Corriere della Sera:

«Le acrobazie di Putin, per quanto brillanti, non possono nascondere la distanza che separa una rivolta popolare da un intervento armato. Non possono mascherare quella che da parte russa è una reazione ampiamente prevedibile, ma non per questo meno inaccettabile.»

 

Guardian:

«The scale of the Kremlin's duplicity is breathtaking, but hardly a shock. Mr Putin's Russia, lest we forget, is a country where human rights are trampled on, pro-democracy demonstrators frequently beaten up or jailed, reporters can be murdered, newspapers shut down and inquisitive foreign journalists harassed and expelled.»

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Alguém sabe como se diz Lebensraum em russo?

por Pedro Correia, em 02.03.14

O espaço vital russófono e russófilo, tal como é entendido por Vladimir Putin, faz evocar as piores recordações do século XX na Europa.

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O divórcio de Putin

por Rui Rocha, em 08.06.13

Mantendo-se a regra de alternância que tem sido seguida na política russa, será agora a vez de Medvedev casar com Lyudmila.

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A teimosia do Ministro da Economia e das Finanças francês.

por Luís Menezes Leitão, em 07.01.13

 

Parece que o Ministro da Economia e das Finanças francês vai insistir na tributação de 75% sobre os mais ricos, mesmo depois de o Conseil Constitutionnel a ter declarado inconstitucional e de Dépardieu já estar alegremente nos braços de Putin, já tendo sido até convidado para Ministro da Cultura de uma  república russa chamada Mordóvia. Há uma explicação muito clara para esta teimosia do Ministro da Economia e Finanças Francês. O homem chama-se Pierre Moscovici. Este nome Moscovici não vos diz nada?

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As avózinhas que representam a Rússia no Festival da Canção são uma delícia. E a babushka mais baixinha é mesmo um encanto:

 

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Défice democrático

por João Carvalho, em 07.12.11

"Considero que as autoridades só podem tomar uma decisão: anular os resultados das eleições e organizar nova votação." Estas palavras sobre o processo eleitoral na Rússia são do ex-presidente russo Mikhail Gorbatchev, personalidade de peso que teve um papel decisivo na democratização do país. Mas parece que essa democratização ainda sofre de um défice considerável.

Pode ser uma maldade tentar encontrar uma semelhança entre o trânsito eleitoral na Rússia e em Timor-Leste, mas a receita aparentemente comum a Vladimir Putin e a Xanana Gusmão devia deixar-nos desconfortáveis, como portugueses.

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O PCP ainda chora pela URSS

por Pedro Correia, em 19.08.11

 

A ala mais extremista do PCP, que domina a direcção do partido, mantém-se fiel à linha de rumo que, noutros tempos, levou os comunistas portugueses a apoiar a invasão da Hungria e da Checoslováquia, às ordens de Moscovo, pelos blindados do Pacto de Varsóvia. Isto fica bem evidente num comunicado repassado de nostalgia pela defunta União Soviética em que o PCP, vinte anos depois, volta a manifestar o apoio à clique golpista que em 19 de Agosto de 1991, à margem de toda a legalidade "socialista", procurou derrubar Mikhail Gorbatchov através de um putsch militar digno de uma qualquer república das bananas.

«Com o desaparecimento do poderoso contra-peso que a URSS e o sistema socialista representavam em relação ao imperialismo e à sua política exploradora e agressiva, e a brutal alteração da correlação de forças daí resultante, o mundo tornou-se mais injusto, mais perigoso, mais desumano. Vinte anos depois revela-se com toda a nitidez a falsidade e hipocrisia dos argumentos “democráticos” e “humanos” que presidiram à campanha anti-soviética e anti-comunista em torno dos acontecimentos de 19 de Agosto de 1991, falsidade e cinismo que o PCP desde logo denunciou, enfrentando com firmeza as operações de falsificação e calúnia que visavam, em Portugal, desprestigiar, enfraquecer e dividir o colectivo partidário, confirmando e afirmando os seus princípios e identidade revolucionária e expressando inteira confiança no ideal e no projecto comunista» , refere o comunicado.

Gostava de saber se António Filipe, actual vice-presidente da Assembleia da República, o ex-secretário-geral comunista Carlos Carvalhas, o antigo líder da bancada parlamentar do PCP, Octávio Teixeira, o deputado Honório Novo e o dirigente máximo da GCTP, Manuel Carvalho da Silva, entre vários outros conhecidos militantes do partido, se revêem nesta linguagem saudosista de um regime que já foi condenado sem equívocos pelo povo russo e pela História.

 

Foto: fragmento do Muro de Berlim, numa altura em que - segundo o PCP - o mundo era menos desumano, menos injusto e menos perigoso.

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Definição do xadrez em curso

por Paulo Gorjão, em 09.01.09

aqui chamei a atenção para o erro. As análises do diferendo entre a Rússia e a Ucrânia que se centram apenas na componente económica/energética, desfocam por completo a compreensão do que está em curso, na medida em que ignoram aquilo que é verdadeiramente importante, i.e. a sua vertente política. Faço minhas as palavras de Peter Brookes: "Russia's decision to cut off natural-gas shipments to Ukraine -- and essentially 13 other European states that receive gas via its pipelines -- is a lot more than a business decision based on failed year-end contract negotiations. A lot more. (…) In fact, Moscow is likely using the cover of a seemingly straight-forward business dispute to do some good ol' fashioned arm-twisting of its Ukrainian and European neighbors. First, the Kremlin is unhappy with how things have gone politically in Kiev since the 2004 Orange Revolution, when a pro-West ticket won the presidency over Moscow's man. (…) Cutting off gas in the depths of winter is a warning to Kiev - now in the midst of a financial crisis and facing elections next year - reminding it that Moscow can still call some shots there. (…) Russia also wants Ukraine to knuckle under on extending the lease for Russia's Black Sea Fleet base in Crimea beyond the agreement's 2017 expiration. (Kiev said it won't be renewing the pact.) The cut-off is also a shot across Europe's bow. It gets nearly 40 percent of its natural gas (and one-third of its oil) from Russia - and it's clear: Moscow is in no mood to be messed with. Russia is displeased with Europe about its support for a planned US missile-defense system in Eastern Europe, for Kosovo's independence from Moscow's ally Serbia last spring and for Georgia during Russia's invasion last summer - to name just a few matters. At the very least, Russia might hope Europe will use tools such as potential European Union membership and aid to pressure Ukraine to pay greater heed to Moscow. (…) No doubt: Russia will continue to use energy as a weapon - indeed, it has replaced the Red Army as the prime source of Russian power. It's high time Europe diversifies its energy sources, casting off the yoke of its dogged reliance on Russian oil and gas."

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Ascensão do Império Russo

por André Couto, em 06.01.09

Orfã da grandeza soviética, consumou-se o declínio da Rússia nas últimas duas décadas. Depois da calamitosa governação Iéltsin, Vladimir Putin, com métodos tão questionáveis como eficazes e populares internamente, recupera a Rússia como potência, restaurando o famoso temor reverencial mundial.

Os Estados Unidos, via NATO, tentaram promover a ocidentalização da Geórgia e da Ucrânia. Agora, perante o ranger de dentes da Rússia, assobiam para o lado. Só por instantes Dick Cheney pensou intervir militarmente na Geórgia. (In)coerentemente, nos últimos dias, perante o aperto à Ucrânia, não se vêem nos Estados Unidos ou União Europeia vozes, braços e "peitos feitos" atrás da Ucrânia na batalha do gás.

Em pouco tempo os governos pró-ocidentais desta duas antigas Repúblicas Socialistas Soviéticas serão substituídos, sucumbindo internamente ao assédio pró-russo das oposições. Nesse dia a Rússia não terá apenas ganho a batalha diplomática pela via de um ostentado destemor, como terá recuperado dois preciosos aliados estratégicos que lhe haviam fugido. Onde terminará esta crise?

 

Todos enfrentaram, todos fogem.

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