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Sede interminável

por Pedro Correia, em 20.03.17

- E para beber, o que deseja?

- Uma cola.

- Não temos. Só Pepsi. Pode ser?

- Pode. Pepsi também é cola.

- Como disse?

- Nada...

- E deseja a Pepsi fresca?

- Claro.

- Gelo e limão?

- Limão, não. Só gelo.

- Não deseja limão?

- Não. Só gelo.

- E quantas pedras?

- Duas ou três.

- Uma palhinha?

- Não é preciso. Detesto palhinhas.

- Como disse?

- Nada...

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Não perguntes

por Bandeira, em 31.01.17

Passo algum tempo no Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social. Algumas caras de assunto perfunctório, outras que podiam ser cavadas num vaso grego. Um homem põe a senha dele a dez centímetros da minha cara. Se faço o favor de lhe dizer em que número vai a senha “C”. O monitor está a dois metros de nós; infiro que não veja os números por estar sem óculos. “Vai no 64”. É o número dele. Observo-o enquanto se atira contra a pesada porta de vidro. Vai aflito. Espero que não perca a casa, o carro, os filhos. Senta-se, a funcionária corresponde aos bons dias. Consigo imaginar o diálogo que se segue. “Enviámos-lhe vários avisos por carta”. “Não duvido, minha senhora, mas vocês ficaram com os meus óculos e eu, sem eles, não sou capaz de ler”.

Não perguntes por quem dobram os sinos.

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Da Gravidade

por Bandeira, em 23.01.17

Um amigo de infância – crescemos ambos em Lisboa, na parte desfavorecida da Avenida de Roma – faz-me notar que a alopecia nos está a invadir o outrora hirsuto couro cabeludo (Alopecia era a deusa liechtensteinense do cheque careca, sincretizada pelos romanos aquando da conquista do principado por três legionários etilizados que o confundiram com um Burguer King; sabemos por Salústio que terá revelado a Júlio César, num sonho, um truque para disfarçar as entradas, a saber, pentear as melenas na direcção da testa.)

Não apenas carecas, old chap, como diziam na parte favorecida da avenida, não apenas carecas, mas irreparavelmente deselegantes. “Fala por ti”, dirás. Não preciso, outros o fazem bem melhor do que eu e sem precisar de palavras. Ontem, em passeio dominical pelas faldas do Tejo, topei com uma roulotte de venda de comes e bebes. Era fim de tarde, havia alguns bolos mas de salgados sobrava apenas uma empada, que solicitei me fosse entregue para que a devorasse. A menina da roulotte nem se mexeu. Manteve os cotovelos apoiados no balcão, as mãos nas axilas que adivinhei quentinhas, e disse melancólica, “Desculpe, mas já só tenho uma de legumes”.

Permaneci alguns segundos em completa imobilidade, usando uma técnica Zazen que me permite intuir a natureza da Existência ou, em alternativa, não cair redondo no chão. Então disse, a voz embargada pelo choque: «Espere. Deixe-me ver se percebi. A menina olhou para mim e pensou, “Eis aqui um carnívoro de quase cem quilos; um homem com uma percentagem de DNA neandertal superior aos comuns 3 ou 4% e que, em podendo, se alimentaria exclusivamente de carne crua nas suas cinco ou seis refeições diárias; alguém para quem a ideia de gourmet consiste numa salada de coiratos, pé de porco e caracoletas, tudo regado com muita cerveja. O aparelho gástrico deste cavernícola é incapaz de digerir uma empada de vegetais.” Foi isso? Diga lá. Foi?».

Ela riu-se muito, decerto do nervoso, deitou um olhar carente de solidariedade para a Judas que me acompanhava (e que também se ria a bandeiras despregadas), negou que eu fosse um cavernícola, pelo menos não um dos mais hirsutos (lá está, alopecia), e com um gesto receoso, como quem dá um amendoim ao babuíno que lhe estende a mão traiçoeira, entregou-me a empada de legumes. Antes, porém, ainda hesitou – também isso eu percebi – e perguntou-se a si mesma se eu iria requerer um guardanapo.

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A Peste

por Bandeira, em 15.01.17

Os centros de saúde mudaram muito desde os tempos da peste bubónica, maleitoso leitor. Agora estão todos informatizados, há ecrãs, dinguedongues, apitos tipo Espaço 1999, numa palavra, eficiência. Logo à entrada das instalações, dou com um monitor táctil (note que o facto de estar à entrada já transmite uma ideia de planeamento e funcionalidade que seria impensável vinte anos atrás, quando o teriam instalado no bar em frente com abertura às dez da noite, peça a chave no intervalo do show à menina que dança no varão e não se esqueça de lhe pagar uma bebida pelo trabalho). Por motivos claramente arbitrários, o monitor exibe meia dúzia de opções. A primeira permite “Obter receituário”. A segunda, “Obter credenciais e receituário”. A terceira não pode ser reproduzida na presença de menores. Escolho a primeira opção. Vou clicando aqui e ali, admito que de forma aleatória, até ao ponto em que me é solicitado o cartão de cidadão. Este deverá ser introduzido na ranhura (disponibilizada) para que uma espécie de cópula informática tenha lugar. Durante este processo, “o sistema” ficará a saber tudo sobre mim, até porque estarei com todos os meus dados pessoais à vista. Mas não há química entre o meu cartão e a ranhura (disponibilizada) e sou informado de que serei obrigado, afinal, a “introduzir manualmente”. Semicerro os olhos, aponto as cataratas na direcção das formiguinhas no cartão e digito no teclado numérico, piscina de bactérias patogénicas (nada contra, não sangram elas também quando as picam etc.), o meu número de utente. Sucesso! Surge uma mensagem informando-me de que a minha senha está a ser impressa e que é minha obrigação aguardar um bocadinho. Várias horas depois (note: tenho fraca noção da passagem do tempo, uso a bateria do iphone para contar os minutos), torna-se óbvio que a senha *não está* a ser impressa.

 

Então a senhora que se segue a mim na fila entende explicar-me, passo a passo, como proceder para obter receituário. Faz exactamente o mesmo que eu havia feito, incluindo tentar que a ranhura (disponibilizada) e o meu cartão mantenham uma relação estável. Durante todo o tempo explico timidamente que já havia feito tudo aquilo. Mas eis que, sucesso! – surge uma mensagem dizendo que a minha senha está a ser impressa e que é minha obrigação aguardar um bocadinho. Algumas horas depois (ler nota acima) torna-se evidente que a minha senha *não está* a ser impressa. É este o momento em que o segurança de serviço decide oferecer os seus préstimos. “Qual é o seu problema?”, pergunta com a doçura possível num homem de 120 quilos que só deve ter conseguido o emprego após ameaçar o futuro patrão de que se o não contratasse lhe furaria os pneus do Toyota Celica, incluindo o sobressalente. Explico-lhe tudinho. “Isso acontece”, diz fazendo uma boquinha de selfie, “porque não escolheu a opção ‘Obter credenciais e receituário’”. Humildemente protesto: não quero obter credenciais, apenas receituário. Ele faz uma pausa para respirar fundo, revira os olhos e pergunta-me: “Sabe por que razão deve escolher “Obter credenciais e receituário?”. Admito que não, não sei, peço desculpa mas não sei. “Porque”, explica-me com paciência de Job, “a opção ‘Obter receituário’ não está a funcionar”. E como que para tornar ainda mais óbvio o quanto teria sido simples resolver a questão se eu não estivesse determinado a complicar a vida dos utentes que fazem fila atrás de mim, pressiona a tecla correspondente a “Obter credenciais e receituário”. Sem mais nada, sem um ruído, sem um queixume, o monitor expele uma senha com os dizeres “D071”. Sinto na nuca o olhar odiento dos restantes utentes. Julgo que um deles chega a dar-me um calduço por cima do cachecol. Orgulhoso do seu desempenho (jornalistas, por favor, parem de dizer “performance”!), o segurança vira costas e vai fazer algo verdadeiramente útil, no caso ler o Record. Sento-me e olho (como uma vaca olhando o prado, é como me sinto, que quer) para o ecrã de chamadas. Ignoro os AA, os BB e os CC. A senha D corrente é a 019. Após vinte minutos sem qualquer alteração, começo a suspeitar de que o dia não vai ser fácil – mas nada, nada me fará voltar a passar pelo segurança sem o receituário na mão.

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A (des)organização do trabalho

por Pedro Correia, em 16.12.16

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 Fotograma do filme Playtime, de Jacques Tati (1967)

 

Esta notícia de que o Governo espanhol equaciona a redução dos horários de trabalho, fixando as 18 horas como padrão do fim do dia laboral, demonstra até que ponto continuamos atrasados nestas matérias. Por cá, toda a discussão se centra nos aumentos periódicos da massa salarial, à revelia dos ganhos de produtividade, quando devíamos debater outras questões, não menos importantes. O incentivo ao teletrabalho, por exemplo. Ou a generalização dos horários flexíveis nas empresas, o que contribuiria para descongestionar o tráfego, encurtar as distâncias entre domicílios e empregos, e diminuir os níveis de poluição associados aos engarrafamentos rodoviários.

É o que já sucede em países como a Suécia, que tem vindo a adoptar com sucesso a jornada laboral de seis horas diárias, que permite uma conciliação exemplar entre o trabalho e a vida familiar, sem prejuízo da produtividade global. Pelo contrário, os especialistas acentuam que a motivação de um trabalhador é directamente proporcional à racionalização dos horários. Que o digam os executivos da Toyota, que em 2002 fixaram as seis horas diárias de trabalho na sua fábrica sueca em Gotemburgo: os lucros da empresa aumentaram 25% e ninguém equaciona um regresso ao horário anterior.

Entre nós, lamentavelmente, a revolução tecnológica continua dissociada da organização do trabalho. Trabalhamos em rede, com instrumentos sofisticados e uma rapidez de obtenção de dados inimaginável há duas décadas, mas este mundo digital do século XXI insere-se em absurdas rotinas laborais que remontam ao século XIX. Ter toda a gente concentrada nos mesmos espaços físicos em simultâneo, sujeita aos mesmos custos de contexto, é tão absurdo como o regresso às antiquadas máquinas de escrever e aos obsoletos telefones de disco.

Os pioneiros da era digital sonhavam com novas sociedades em que a redução do tempo de permanência nos postos de trabalho decorria naturalmente da rapidez das telecomunicações, ampliando a qualidade de vida. Hoje o mundo inteiro está para qualquer de nós à distância de um clique num dispositivo portátil. Com ganhos de eficiência garantidos – desde logo em tempo e dinheiro. Acontece que estas conquistas geraram por sua vez novas necessidades, numa voragem que parece não conhecer limites. Em vez da natural redução da vida laboral, que aliás em grande parte pode hoje ser desempenhada na casa de cada um, os horários reais alargam-se a níveis absurdos. Toda a gente continua a seguir os mesmos percursos casa-trabalho às mesmas horas, tornando cada vez mais caótico o fluxo do trânsito e cada vez mais generalizado o desperdício de tempo – que é, ninguém duvide, o bem mais precioso.

Gostaria de ver a nossa concertação social pelo menos tão ocupada a debater tudo isto como a discutir o aumento do salário mínimo. Se outro pretexto não existir, que sirva ao menos este: já se encontra na agenda política e empresarial espanhola. Quantos anos demorará a atravessar a fronteira?

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O saber não ocupa lugar

por Pedro Correia, em 19.11.16

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Já não há cavalheiros

por Pedro Correia, em 18.11.16

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Chego ao multibanco para levantar dinheiro, já com o cartão na mão. Da direcção oposta surge uma senhora quase ao mesmo tempo. Cedo-lhe a vez, estendendo o braço na direcção dela.

Sem o menor gesto de agradecimento, abre a mala, tira de lá a carteira, abre-a e recolhe o cartão acompanhado de um papel. Depois põe os óculos de ver ao perto e contempla o papel com meticulosa atenção.

Enfia o cartão na ranhura e tecla uns números que me parecem intermináveis. Algo falha na operação, que volta ao princípio. Sai cartão, entra cartão, novo exame minucioso ao papel.

E tudo falha outra vez. A senhora pega então no telemóvel, numa aparente tentativa de falar para alguém. Arrisco então perguntar-lhe:

- Não se importa que eu avance? Preciso apenas de levantar dinheiro, são só alguns segundos.

Mostra enfim ter-se apercebido da minha presença. Sem me olhar limita-se a dizer, em tom ríspido:

- Vai ter de aguardar pela sua vez.

Depois de falar, mirou-me enfim, de sobrolho franzido, como se pensasse: "Já não há cavalheiros."

E se calhar pensou mesmo.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 15.09.16

Noite de calor insuportável. Chego à cozinha e dou com as Prietas de impermeáveis vestidos, uma delas a jantar de gorro de orelhas. Explicam-me que fizeram uma breve interrupção nas suas investigações. Que são espias russas e que já encontraram uma data de pistas para a resolução do enigma. Mostram-me a lista, escrevinhada à pressa num pedaço de papel rasgado de um bloco:

  • Duas balizas de futebol
  • Uma bicicleta
  • Um carro amarelo

E eu digo, tá bem, e fico descansada por terem tido o bom senso de se agasalharem enquanto investigam casos sérios na Sibéria.

Uma mãe preocupa-se sempre com os agasalhos dos filhos, mesmo que pertençam ao KGB.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 07.09.16

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Ser mãe de rapazes é dar com "Lord Eder" escrevinhado na poeira do capô do carro.

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 07.09.16

Mãe e filho, pela estrada fora, com o ipod (da mãe) em versão shuffle. Às tantas, calha-nos o Space Oddity do David Bowie. Quando me preparava para suspirar de nostalgia pelo Major Tom, oiço uma voz enfadada a perguntar se não dava para mudar para a Mega Hits.
É por estas e por outras que decidi instituir um regime totalitário na minha viatura.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 03.09.16

Rita Prieto, oito e meia da manhã:
Mãe, quem foi a Floribela Espanca?


(mãe ainda emudecida com o choque)

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 01.08.16

Mãe e filho, pela estrada fora, com o ipod (da mãe) em versão shuffle. Às tantas, calha-nos o Space Oddity do David Bowie. Quando me preparava para suspirar de nostalgia pelo Major Tom, oiço uma voz enfadada a perguntar se não dava para mudar para a Mega Hits.
É por estas e por outras que decidi instituir um regime totalitário na minha viatura.

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Grito do Ipiranga

por Francisca Prieto, em 07.07.16

Sou um guichet. Olham para mim e fazem-me pedidos, perguntas, requisições, exigências. E queixam-se. Que não cumpri os meus deveres a horas, ou com a competência necessária.

Estou sempre em falta. Agora, por exemplo, devia estar a cortar as unhas dos pés a um rapaz de catorze anos, como se isso fosse razoável.

Repito dia após dia tarefas invisíveis.

Uma vez li uma história de um senhor de idade a quem perguntaram o que tinha feito na vida e ele, por mais que puxasse pela memória, só se lembrava de passar os dias a pagar contas da electricidade. Sinto-me como este senhor. Atafulhada pela burocracia, afogada na logística, enterrada num buraco de obrigações que não valem nada, mas que alguém tem de cumprir.

Esta semana, ao final do dia, esqueci-me de ir buscar uma filha. Para piorar a situação, era a que tem cromossomas a mais. Quando lhe perguntaram se sabia o telefone do pai e da mãe, apressou-se a verbalizar as devidas sequências numéricas. Só por causa disto merecia que me tivessem levado para a prisão.

O problema das tarefas invisíveis é este. Se não as cumprimos, ficamos nus em praça pública. Somos uns incompetentes, pessoas pouco dignas de confiança.

Amanhã vou experimentar fechar o guichet por umas horas. Só para ver o que acontece.

Talvez o mundo não venha abaixo.  

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 11.06.16

Rita Prieto, zangadíssima por eu a ter contrariado, declarou que a partir daquele momento não me conhecia. De maneira que, quando a interpelei daí a uns minutos, respondeu-me que a mãe dela não a deixava falar com desconhecidos.
E atreveu-se a acrescentar que eu era a pior desconhecida que ela conhecia. Aí os irmãos confrontaram-na com a incoerência. “Se não conheces a mãe, não podes dizer que é uma desconhecida que conheces”. Rita, já no cúmulo da fúria, avança para a declação bombástica: “És a pior desconhecida que desconheço”.

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Um homem mata a mulher, de quem estava separado, e uma amiga dela, suicidando-se a seguir. Escassas semanas depois, a tragédia repete-se - com outro assassino e outras vítimas.

Aconteceu há três anos em Portugal. Mas podia ter sido ontem.

 

Não tardaram na altura os depoimentos televisivos a desresponsabilizar os actos criminosos. Há sempre teses socialmente correctas para justificar os actos mais repugnantes.

Um canal generalista abordou o assunto, com a seguinte legenda em letras maiúsculas: "Crise e problemas financeiros explicam depressão social". Enquanto a voz da jornalista procurava configurar a situação desta forma: "Um futuro sem esperança para um presente em crise".

Os crimes concretos, com vítimas concretas, diluem-se nesta amálgama de frases destinadas a "explicar" a inadmissível violência homicida por factores sociais e até políticos. E nestas ocasiões nunca faltam psiquiatras a conferir um atestado de respeitável validade à tese implícita de que o gatilho é premido pela "sociedade" e não pelos assassinos.

"Numa sociedade deprimida há uma grande falta de esperança, as pessoas não têm perspectiva de futuro. Esta desesperança pode levar algumas pessoas a atentar contra si e contra outros", explicava um psi.

"As situações de crise, com desemprego e endividamento, são fundamentais na saúde mental dos portugueses", justificava outro.

A voz da jornalista insistia: "O consumo de antidepressivos aumentou, os casos de depressão também."

 

Pasmo com tudo isto - incluindo a sugestão de relação directa entre o consumo de antidepressivos e a morte de mulheres às mãos de maridos e companheiros. Pasmo com a pseudo-modernidade a pretender "contextualizar" os mais bárbaros atavismos com palavras de compreensiva condescendência. Pasmo com este cíclico jogo de passa-culpas dotado de um pretenso aval científico.

Como se os algozes fossem vítimas e estas, para merecerem um mínimo de respeito público, tivessem de ser assassinadas segunda vez.

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The times they are a’changin’

por Bandeira, em 07.05.16

Escorrego na calçada molhada e quase caio, mas aguento-me. Um taxista pára o carro, abre a janela do passageiro e diz “Grande tombo que ia dando, hã?”, e eu querendo fugir ao dilúvio, “Pois, mas não houve azar”, e o enorme bigode insistindo, “Não pisou merda, era o chão mesmo, ali não havia merda”, e eu já ensopado, “Pois não, obrigado pelo cuidado”, e ele “Estava a ver que tinha de ir levantá-lo do chão”, e eu a pensar que já cá faltavam a cultura clássica e a literatura.

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Da Eternidade

por Francisca Prieto, em 04.05.16

Senhora idosa, para cima de oitenta e tal anos, na caixa do banco: "Preciso de fazer uma transferência para a minha sogra".

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Como se o tempo ficasse suspenso

por Pedro Correia, em 30.04.16

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Um pisa-papéis, um mata-borrão, um selo de correio: três inesperados objectos defronte de mim. Todos, na minha infância, tinham uso quotidiano. Tal como o tinteiro para caneta de aparo ou a lousa onde se escrevia a giz.

Passaram uns anos - mas parece ter decorrido uma eternidade. Estes objectos tornaram-se peças de museu e vários deles são hoje quase incompreensíveis para uma geração viciada em gadgets electrónicos, que nunca brincou ao pião ou não faz a menor ideia para que serve um dedal.

Tempos agitados, vertiginosos, de uma volatilidade estonteante. Os objectos mais familiares no quotidiano dos nossos avós pareciam vir desde os alvores da Humanidade, davam um toque de permanência num mundo que só era verdadeiramente sobressaltado por factores exógenos - uma guerra, um ano de más colheitas no campo, uma epidemia. Nada a ver com o frenesim actual, em que tudo é novidade - e em que o próprio conceito de novidade se vai alterando e adulterando em função da espuma dos dias. Os objectos que nos preenchem o quotidiano - como muitas palavras que usamos, como os nossos próprios laços afectivos - têm uma vida cada vez mais breve, um fôlego cada vez mais curto, um prazo de validade cada vez mais exíguo.

Pegue-se num livro de Camilo Castelo Branco: como decifrar o significado de uma grande parte daquele português castiço na era da incessante troca de mensagens telefónicas, onde o domínio vocabular é cada vez mais escasso e a abreviatura predomina? Consequência disso, o pensamento comprime-se, torna-se esquemático e utilitário, perde elasticidade e subtileza, passa a satisfazer apenas impulsos imediatos. Toda a elaboração teórica sedimentada por séculos de cultura no mundo ocidental se torna virtualmente incompreensível nestes dias em que o significado se subordina ao mais elementar significante.

                            

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Felizmente o sol ainda não é sintético e high tech. Este sol que entra no escritório pela frincha da janela é o mesmo que os nossos mais remotos antepassados contemplaram com espanto virginal à medida que se sucediam as estações e em relação ao qual vários povos acenderam altares votivos.

Com este sol oblíquo que me ilumina pego num corta-papéis - outro objecto que ficou sem uso - e vou abrindo lentamente dois livros que há muito tinha adormecidos na biblioteca: Sobre as Falésias de Mármore, de Ernst Jünger, e O Escravo, de Isaac Bashevis Singer.

As páginas desfolham-se com um vagar antigo enquanto regresso às tardes da minha infância noutro escritório, o do meu pai, enquanto executava exactamente a mesma operação a vários livros por inaugurar que ia encontrando nas estantes. Foi uma das primeiras tarefas graves e sérias, dignas de um adulto, que me lembro de executar no meu universo infantil. Uma tarefa que me ajudou a mergulhar, quase por acaso, no mundo dos livros.

Regresso a ela com o vagar de então, ocasionalmente revivido. Como se o tempo ficasse suspenso e os rumores do mundo mais não fossem do que um eco distante, dissolvido no ar do outro lado da porta.

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Os coentros

por Helena Sacadura Cabral, em 20.12.15
 

Eu tinha organizado a minha vida toda para não ter que andar na rua nestes dias. Mas, azar dos Távoras, a minha plantação de coentros não chegava para as necessidades e resolvi dar um pulo ao supermercado mais perto de casa, visto que na zona onde vivo foi morrendo de morte lenta tudo o que era comércio de bairro. Agora existem cinco restaurantes, quase pegados uns aos outros, e a única mercearia que sobreviveu pratica preços de monopólio.
O meu problema foi mesmo ter ido ao super porque antes de chegar aos coentros fui "atacada" por uma pessoa que só reconheci quando me disse o nome. E que ficou atónita por eu não me lembrar dela, que não via há cerca de vinte e cinco anos.
Além de me brindar com um "estás na mesma, rapariga", perguntou-me pelo Natal, se continuava a ir para a neve, se estava só ou acompanhada, se agora estava mais cá ou em França, se, se, se. Tive de cortar o inquérito pessoal, mas fiz mal, porque se lhe seguiu a sua história que eu não tinha pedido para ouvir e em que os "ses" de que dependia o seu Natal - eu diria mesmo a sua vida - eram tantos, que nem consigo enumerá-los. E os ditos pareciam, de facto, estar a dar-lhe cabo da existência. 
Quando pude finalmente falar, tentei explicar-lhe que não adianta nada sofrer por antecipação e que, possivelmente, nada do que ela estava a imaginar iria acontecer. Atrevi-me, até, a sugerir-lhe que fizesse o raciocínio ao contrário, ou seja que pensasse na alegria que ia ter porque, "se" Deus quisesse nenhuma das suas pessimistas previsões iria acontecer.
Quando, por fim, cheguei aos coentros já só havia salsa e hortelã...

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Longe demais

por Teresa Ribeiro, em 07.07.15

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As pessoas deixam rasto. Os animais sabem-no bem. Os animais e as mães. As boxers que ficaram esquecidas na roupa suja, a caneca ainda com um resto de leite, a cama desfeita, o rasto morno da ausência sente-se no ar.

O som dos passos e da voz, que é a brisa do corpo, o doce marulhar que assinala a presença de gente que se ama, quando desaparecem alteram o sentido das coisas. O quarto desarrumado, antes cheio e vibrante passa a ter apenas destroços, farrapos de objectos sem utilidade, ao passo que as não-coisas ganham importância: o lugar onde esteve a mala, o lugar onde se sentou, o sítio que...

As memórias, essas horrorosas que servem para tapar os buracos da existência, vão saindo do armário ordenadas, à medida que o tempo avança depois de uma despedida. Aos poucos ocupam os seus lugares, substituindo o real pelo imaginário e um filho passa a ser o que é durante quase todos os dias do ano: o retrato de um filho, ou a imagem via skype de um filho. Algo assim. Inodoro, intangível, pixelizado. De palpável fica aquela dor enquistada e a inveja das famílias que crescem juntas, que podem dar-se ao luxo de crescerem juntas.

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Encantos da vida na cidade

por Isabel Mouzinho, em 03.07.15

Lisboa parece às vezes uma cidade parada no tempo, arrastando-se vagarosa por ruas estreitas e antigas, deambulando como quem não tem pressa ou não sabe que rumo tomar, em  romântica e sedutora incerteza.

Delicia-me essa lentidão quando entro no eléctrico na Estrela, me sento junto da grande janela aberta, solto o cabelo na brisa da tarde, demoro o olhar no azul mais claro do céu ou mais escuro do rio e a observo nos seus mais ínfimos detalhes de pessoas, lugares, cores, cheiros e sons, como se não a conhecesse ainda, ou ela tivesse sempre uma novidade para mim. 

E deixo-me levar até à Baixa naquele balanço pachorrento que me sossega a alma e deixa no corpo o mesmo torpor molengão de quem acaba de acordar de uma sesta, e encosto o meu coração ao coração da cidade de que eu tanto gosto e, como no conto de Mário Dionísio, dá-me vontade de começar a assobiar baixinho.

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Coisas que Vemos por Aí

por Francisca Prieto, em 09.06.15

Não quero ser bota de elástico, mas esta senhora pareceu-me muito infantil quando passou por mim de trotinete. Dei-lhe um piparote e depois fiquei cheia de vontade de lhe afundar os patinhos na banheira.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 24.05.15

Caiu um dente ao Pinto. Claro que o perdeu. Estava no caixote do lixo embrulhado num guardanapo de papel. O Ratón Perez trouxe-lhe 5 euros e deixou um post-it a agradecer.

(O Ratón é galego, claro, para não haver hipótese de ser apanhado no portuñol dos post-its que escreve)

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Férias da Páscoa

por Teresa Ribeiro, em 06.04.15

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"Pai! Pai! Pai!" Era uma urgência, um clamor, mas sobretudo uma disputa com a irmã, pouco mais velha, talvez com uns nove anos. De temperamento menos nervoso, ataviada com a roupa de sair com o pai, a menina falava baixinho. Tão baixinho que o pai tinha de se curvar até quase roçar a cabeça dela. "Hã? Repete lá!" Em volta o miúdo sitiava-os, inventando números de circo. "Não te pendures aí, podes cair!" A voz do adulto saía controlada. Era a voz de passear os filhos em público.

"Pai! Pai! Pai!" E agora abanava-o, para o desviar dos sussurros da irmã. Mas a menina ignorava-o, prosseguindo a sua história interminável em surdina. Sem nunca perder a consciência de que estava a ser observado por estranhos, o homem tentava partir-se em dois, evitando acusar sinais de impaciência. Os garotos, também sem perder a consciência de que estavam a ser observados por estranhos, tentavam tirar o máximo partido da situação, esticando-o como se fosse uma corda. Cada um a puxá-lo pela sua ponta e um risco ao meio do terreno.

- Pai! Pai! Pai!

- Não grites, não vês que incomodas as pessoas?

Sempre em tom civilizado, desta vez com a menina a prender-lhe a cintura, tentava acalmar o filho, mas este continuava num desatino, a lutar contra o tempo, porque o comboio estava a chegar e antes que viesse ele queria, mais que tudo no mundo, ele queria, queria, queria que o pai o visse.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 15.03.15

Uma pessoa põe uma filha na ordem e, quando chega à cama, tem uma ameaça destas em cima da almofada. Céus.

 

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A utilidade das filas

por José Maria Gui Pimentel, em 04.03.15

Volto a um tema que já aqui abordei: a estranha teimosia das filas. No caso, referia-me a filas em restaurantes, mas o mesmo fenómeno estende-se a outros estabelecimentos comerciais e parece (-me), pelo menos em Lisboa, estar mesmo a aumentar.

Voltei a 'tropeçar' neste tema ao ler um texto recentemente publicado no New York Times, da autoria de Tyler Cowen, um dos autores do blog de economia Marginal Revolution. Neste artigo, Cowen tenta reabilitar o estatuto da espera em filas, argumentando que estas são, em última análise, vantajosas para os consumidores (como um todo). 

Especificamente, o autor sugere que, em muitos casos, os retalhistas usam as filas para segmentar os consumidores, entre aqueles que não se importam de pagar mais (e saltar a fila) e aqueles com menos poder de compra, mas muitas vezes também com um menor custo de oportunidade do tempo, que não se importam de esperar. Em concreto, a existência de filas dispensa investimento no alargamento do espaço, o que por seu lado permite não aumentar os preços. Mesmo que esta segmentação seja pouco exequível em muitos casos (não me lembro de ver um restaurante com 'primeira classe', por exemplo), a existência de filas poderá continuar a ser vantajosa, uma vez que os clientes mais predispostos a esperar tenderão a ser aqueles com mais actividade nas redes sociais, sendo, portanto, muito valiosos para os retalhistas. Ora, sem a possibilidade do recurso a filas, estes consumidores ficariam fora do mercado.

Mas não é tudo. Partindo desta linha de raciocínio, Cowen aproxima-se das hipóteses já exploradas Gary Becker num paper antigo. Por um lado, a possibilidade de a existência de filas ter, em si mesma, valor para os retalhistas, por se traduzir publicidade gratuita. Por outro lado, a possibilidade de as mesmas filas conferirem também utilidade aos consumidores, a quem o serviço parecerá mais valioso e exclusivo. 

Finalmente, Cowen destaca ainda dois factos que importa ter em conta no fenómeno do (aparente) aumento do recurso a filas no mundo capitalista. Por um lado, a espera é cada vez mais tolerável, dada a profusão de smartphones e outras distracções. Por outro lado, e pelo menos por enquanto, é muito raro ver filas no acesso a bens ou serviços essenciais.

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Resumo da semana

por José Navarro de Andrade, em 27.02.15

Quando a casa começa a arder, vai tudo à procura do culpado. E quem procura culpados acaba sempre por encontrá-los.

Do mesmo modo, quem procura a verdade já sabe de que verdade anda à procura. Assim, mesmo que lhe passem diante dos olhos outras verdades, muito transparentes apesar das evasivas, não as consegue ver, porque não são as verdades ou os culpados que procura.

E no fim toda a gente diz que já percebeu, precisamente porque não percebeu nada.

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A força dos fracos e a fraqueza dos fortes

por Helena Sacadura Cabral, em 11.02.15

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Quantas vezes não tenho assistido à tolerância com que se encaram as atitudes dos que são tomados por frágeis e a manifesta intolerância que é usada nos julgamentos daqueles que são considerados como sendo fortes?

É natural que assim seja, dirão uns. Mas então onde é que os fracos terão, alguma vez, o estímulo para deixarem de o ser, se forem sempre acarinhados e protegidos?

Fui sempre considerada uma mulher forte, vá lá saber-se porquê. Calculo que o epíteto se terá ficado a dever à circunstância de eu não ser pessoa de grandes queixumes e de tentar, quase sempre, dar a volta ao que me corre menos bem.

Por outro lado, conheço muito boa gente que queixando-se amargamente da existência e nada fazendo para a mudar, goza da compreensão de quase todos à sua volta.

Ainda recentemente assisti a algo que ilustra o que acabo de dizer. Uma amiga minha enviuvou e a vida dela sofreu um abalo psíquico e até económico, porque de duas pensões ficou só com uma. Pois bem, quando eu lamentava o que lhe sucedera, houve logo quem se apressasse a dizer “não te preocupes. Ela é uma mulher muito forte e por isso vai, seguramente, sair da situação. Pior está a irmã, também viúva, que é de uma enorme fragilidade e não consegue recuperar”. Na altura indignei-me com a diferença de tratamento face a uma mesma situação.

Ora agora, pergunto eu, os fortes não terão também direito aos seus momentos de fraqueza e à benevolência que se tem para com os mais fracos?!

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 02.02.15

Rita Prieto entra pela CUF a dentro e comenta aos berros que já lá esteve uma vez que teve (e passo a citar) "uma infecção ordinária".

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Daqui a nada...

por Isabel Mouzinho, em 01.01.15

Passada a alegria forçada das festas de fim de ano, a vida retoma aos poucos a habitual normalidade.

Daqui a nada os dias começam as crescer, vem a Primavera e depois as férias, num ciclo que se repete infinitamente e faz parecer que tudo ocupa o seu lugar sem sequer nos apercebermos dos efeitos da passagem do tempo em nós.

Janeiro traz consigo a ideia de recomeço e de início, ainda que para mim, que sou da escola, é muito mais em Setembro do que em Janeiro que sinto em cada ano que tudo começa de novo.

É talvez por isso que não sou muito de reflexões e de balanços nesta época, que não quero saber de projectos nem de desafios, de mágoas e de alegrias passadas, de tristezas ou de emoções, nem de horas boas e más.

Prefiro viver o ano novo na alegria e na surpresa de um dia atrás do outro, porque é nessa diversidade que reside a magia do tempo e da vida.

Basta-me saber que daqui a pouco volta a Primavera que amplia a luz e o sol numa exuberância colorida e perfumada que me faz acreditar que tudo é possível e pode ser melhor ainda, e me deixa sempre extasiada diante da natureza a renascer pujante e esplendorosa, em contagiante e arrebatadora alegria.

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Como se quiséssemos o sol todo só para nós

por Pedro Correia, em 01.01.15

 

Queremos mudar o mundo, queremos mudar o sistema, queremos mudar a sociedade. Tudo seria mais fácil se começássemos por mudar a nossa relação com os outros. Se adquiríssemos o talento de unir o que vemos fragmentado, de congregar o que está disperso. Se soubéssemos ir ao encontro de quem nos rodeia. Às vezes basta um gesto apaziguador, uma palavra amável, um sorriso que se rasga na face sempre sisuda. "Na superfície das coisas vê-se a essência das coisas", escreveu Saul Bellow em Ravelstein.

A sociedade, o sistema, o mundo não mudam se não começarmos por mudar também algo de essencial na nossa relação com os outros. Nos actos mais singelos do quotidiano.

Escrevo estas linhas enquanto o sol vem espreitar-me da janela: é quanto basta para sentir-me grato por este primeiro dia do novo ano. Penso nos que sofrem sob o mesmo sol que me aquece e me inspira e me ilumina. E questiono-me o que poderei fazer para atenuar a angústia ou aliviar a dor de alguém. Não da Humanidade em abstracto, como me sugerem os demagogos de plantão, mas de uma pessoa em concreto.

Uma palavra, um sorriso, um gesto, um abraço, um olhar. Às vezes só isto é necessário. E somos incapazes de dar esse passo. Como se quiséssemos o sol todo só para nós.

 

Texto reeditado

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Família alargada

por Pedro Correia, em 29.12.14

I

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 II

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 III

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Lisboa, Natal de 2014

por Pedro Correia, em 22.12.14

Ao fim da tarde de hoje, na Avenida da Igreja:

- Ora viva, colega. Arranja-me dois euros, pá.

- Tome quarenta cêntimos. Não tenho mais.

- Isso não quero. Guarda para ti, pá!

Dizendo estas palavras, o pedinte grisalho saiu da sua zona de conforto e foi exercer o seu peculiar empreendedorismo financeiro para o passeio oposto. Notei-lhe uma ligeira arrogância neoliberal.

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 09.12.14

Então e quando a malta vai jogar às escondidas para a rua e grita "coito, cooooito, cooooooooito" aos berros e uma mãe não pode fazer mais nada senão morrer de vergonha e sentir-se parva e ficar ali caladinha à espera que ninguém oiça?

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Sinais dos tempos

por Pedro Correia, em 19.11.14

O incentivo à exposição pública dos mais diversos pormenores da vida privada através das chamadas "redes sociais" funciona como uma droga dura. Todos os dias assistimos a novos recuos no direito à intimidade, lesado por contínuas cedências voluntárias ao domínio público. Eis mais um.

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 05.11.14

Rita Prieto, do alto dos seus sete anitos, resolve com toda a limpeza o velho conflito ideológico da origem da humanidade: “Olha mãe, sabes quem foram os primeiros seres vivos do planeta, sabes? Adão, Eva e os macacos”.

É o que dá ter uma filha num colégio católico com irmãos que discutem as teorias de Darwin.

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Portugueses ao volante

por Pedro Correia, em 25.10.14

Esta tarde, acesso à ponte 25 de Abril, sentido Almada-Lisboa.

Um veículo entra por lapso no corredor da Via Verde. Apercebendo-se disso ainda a distância considerável da portagem, o condutor tenta desviar para a faixa à sua direita, destinada às viaturas que não estão habilitadas com Via Verde ou Via Card.

Pensa, com alguma lógica, que por estarmos num sábado, este ser o fim de semana mais longo do ano (os relógios atrasam de madrugada, entrando no horário de Inverno) e a temperatura se manter mais amena do que em muitos dias de Verão não faltará uma alma benévola que lhe dispense uns metros de asfalto durante escassos segundos, tanto quanto necessita para aceder à rota da portagem.

Engana-se. Por gestos pede, roga, implora - sem sucesso.

Todos parecem ter demasiada pressa para lhe ceder lugar. Até que um matulão de palito ao canto da boca, conduzindo uma furgoneta, esboça um sinal equívoco que parece convidá-lo a entrar na fila.

Está no entanto apenas a divertir-se à sua custa: quando o automóvel se encaminha para ocupar o espaço momentaneamente vazio, a furgoneta acelera de repente e o matulão ri-se, fazendo-lhe um gesto obsceno.

Colado à traseira da furgoneta, sem conservar a elementar distância de segurança, segue um táxi. "Queres entrar, meu cabrão? Arreda lá para trás!", atira o fogareiro, dedo indicador espetado à retaguarda, esticando a cabeça para fora da janela.

Tudo acontece num instante: entusiasmado com o som da própria voz, o fogareiro deixa embater com estrondo o táxi na furgoneta imobilizada logo adiante. O matulão não tarda a sair para avaliar os estragos, sempre de palito nos beiços, e lá ficam ambos a discutir. Abrindo assim espaço, involuntariamente, para que o primeiro condutor aceda enfim à fila da portagem. Acabaram ambos por consumir ali largos minutos, no mínimo, quando não queriam desperdiçar uns segundos...

Testemunha incidental deste episódio, pus-me a reflectir uma vez mais sobre a falta dos mais elementares gestos de cortesia dos portugueses ao volante. Quantos daqueles que não permitiram passagem ao automóvel se indignariam com isso se as posições se invertessem? Quantos deles não se queixarão por vivermos numa sociedade onde são cada vez mais raros os pequenos gestos de tolerância cívica? E quantos não apregoarão a solidariedade em abstracto, mostrando-se incapazes de ser solidários nas mais ínfimas situações concretas?

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Para Quem Sofre de Neura de Domingo à Noite

por Francisca Prieto, em 05.10.14

POEMA DO BECO

(Manuel Bandeira)

 

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

- O que eu vejo é o beco.

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Census

por Francisca Prieto, em 22.09.14

 

Entro na farmácia de receita em punho, “Boa tarde, queria uma embalagem de Eutirox 137, se faz favor”. “Eutirox não temos, nem nunca tivemos” responde-me o farmacêutico com a certeza de quem conhece a fundo todas as gavetas do armazém. “Então e consegue-me arranjar?”, pergunto com o receio de quem possa estar a pedir uma substância ilícita. Responde afirmativamente, mas que só para o dia seguinte. Pergunto-lhe se quer ficar com os meus dados. Diz que não, que para ali nunca vai haver dúvidas acerca do destinatário do medicamento.

Conclusão: A quem possa interessar, posso garantir com toda a certeza que no concelho de Vila do Bispo TODOS os habitantes têm tiróide.

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Penso rápido (24)

por Pedro Correia, em 14.07.14

Paradoxos do progresso: hoje em dia, um miúdo de seis anos já domina os rudimentos de um computador mas é incapaz de algumas das mais simples operações manuais - atar os cordões de um sapato, por exemplo. Muitas crianças estão totalmente à vontade perante um teclado digital, mas revelam dificuldades crescentes na escrita manual: a caligrafia vai-se deteriorando à medida que a máquina impera. Um adolescente japonês gaba-se de só ter amigos virtuais e de namorar há dois anos com uma jovem que apenas conhece via computador. E já chegou ao ponto de confessar que nem pretende conhecê-la pessoalmente para não estragar uma relação que considera "perfeita".

Ganhamos certamente muito com este predomínio da técnica sobre o homem. Mas devemos deixar que seja ela a servir-nos em vez de nos deixarmos escravizar e desumanizar por ela.

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Penso rápido (13)

por Pedro Correia, em 01.07.14

Entramos num restaurante, jantamos sempre com ruído: há "música de fundo" ou o som intrusivo emanado de um enorme televisor.

Andamos na rua: os ruídos multiplicam-se.

Andamos num transporte público: novamente a "música de fundo" ou um aviso sonoro ou o telemóvel estridente que toca ao nosso lado, logo seguido de uma conversa ainda mais estridente.

Entramos num elevador - e lá está ela, a música que não nos larga. E já nem falo na televisão, que berra a cada intervalo publicitário, ou de certos blogues, que nos convidam a entrar a troco de mais barulho.

Vivemos submergidos pelo ruído. Num tempo em que o silêncio se tornou um dos bens mais escassos. Não tenho a menor dúvida: muitos dos problemas contemporâneos resolviam-se com curas periódicas de silêncio. Um antigo e apetecível e ansiado silêncio.

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Penso rápido (12)

por Pedro Correia, em 30.06.14

Vivemos num tempo fragmentado, que convida à dispersão. E somos vítimas crescentes dessa fragmentação. A nossa capacidade de concentração é cada vez mais escassa. Paramos a série televisiva a meio para ver não importa o quê, tornámo-nos incapazes de assistir a um filme de duas horas sem interrupções, espreitamos a todo o momento o ecrã do telemóvel em busca de novas mensagens mesmo sem esperarmos mensagem alguma, as redes sociais solicitam-nos adesões ou indignações contínuas, os dias vão-se dissolvendo em 24 horas de espuma. Este estúpido frenesim em que mergulhámos graças aos avanços tecnológicos impede-nos quase sempre de pensar. E afinal era nisto que devíamos investir muito mais do nosso tempo: pensar.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 18.06.14

"Uma vez, no acampamento dos escuteiros, encontrámos droga atrás da tenda. Era Cannabis".
(e eu, para mim, que sim, que havia de ser cannabis daninha)

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 16.06.14

Esta semana, Xiquinha Prieto leu NA-NI nas costas de uma camisola do Manchester United. Do ponto de vista dos rapazes cá de casa, o objectivo académico deste ano escolar está cumprido.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 12.06.14

Um dia na vida, do Pedro Santos Guerreiro.

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Da Auto-Censura

por Francisca Prieto, em 04.06.14

Uma amiga veio-me visitar e trouxe-me uma caixa de cerejas. Apeteceu-me escrever sobre isto, mas percebi que dava um mau poema.

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Hoje em fragmentos

por Patrícia Reis, em 20.03.14

Hoje, a subir a Avenida da Liberdade, quase junto ao senhor marquês, ouvindo a rádio, feliz por ver o sol, a pensar em não sei quantas coisas, de repente, vejo uma jovem com um cartaz: SE AMAS ALGUÉM LIGA OS 4 PISCAS.
Podia ser só isto, mas dez metros à frente estava outro cartaz e os carros começaram todos a piscar. Não sei o que era, porventura uma manobra da publicidade, mas foi lindo ver tanto amor ali mesmo, nos piscas dos carros à minha frente.

 

Hoje, sem saber o que fazer, fui conversando e ouvindo, comendo peixe. Estávamos numa bolha, duas mulheres, loucas, com vidas loucas, de empregos e contas, de filhos e mais coisas, filmes, livros, pensamentos de horas incertas.

 

Hoje, o meu filho disse que teria saudades do professor Viveiros, o professor que é temido pelos alunos e por quem o meu filho nutre o maior amor.

 

Hoje, a minha mãe perguntou-me cinco vezes se preciso de alguma coisa.

 

Hoje, também eu liguei os 4 piscas.

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Tudo depende do ponto de vista

por Pedro Correia, em 14.03.14

Sexta-feira, onze da manhã.

Um optimista dirá: é quase fim de semana.

Um pessimista dirá: é quase segunda-feira.

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Sem truques

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.02.14

Espero que alguém em Moçambique mostre estes segundos de arte ao Coluna. A ver se ele melhora depressa.

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Home alone

por Patrícia Reis, em 04.02.14

Hoje, por razões que pouco importam, passei o dia em casa.

Li no on-line de vários jornais o drama do quadro do Miró, os estudantes que querem ser, acham que têm direito, a ser humilhados, o Miguel Sousa Tavares a pontificar sobre o Facebook como lugar para encontrar putativos namorados ou namoradas.

E ainda: Xanana Gusmão lança um livro.

Li sobre o testamento que Nelson Mandela deixou escrito e que é de uma enorme inteligência, digo eu por experiências idiotas com partilhas de bens. Tudo isto e mais umas coisas sem ligar a televisão. Choveu horrivelmente, o que torna mais difíicl a tarefa de aliviar o cão, mas tudo bem, parece que precisamos de chuva e que vamos ter muita nos próximos tempos.

Dizem os cientistas que o tempo está a mudar. Ok. A minha avó já o diz há mais de dez anos.

Não foi um dia perdido, nada disso, e não me estou a queixar.

Quem se queixou foi o miúdo mais novo que foi revistado na escola.

Para minha felicidade não tinha nada de suspeito consigo.

Há dias em que não vale a pena querer saber do mundo? Nunca acreditei nesta ideia, ou no isolamento, mas começo a ajustar-me aos seus méritos.

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