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Perspectivas

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.01.17

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(Doug Mills, The New York Times) 

"A bill decriminalizing domestic violence passed its first reading of the Duma on Wednesday, with 368 votes in its favor (one parliamentarian voted against it, and one abstained). Should the bill pass its second reading, now under preparation, domestic violence will only be a criminal offense if it’s considered an act of “hooliganism” or borne out of hatred."

 

Com as audições de ontem em Capitol Hill, em especial com as respostas dadas a Marco Rubio por mais uma das bizarras escolhas de Donald Trump para a sua equipa governativa, Rex Tillerson, o presidente e ex-CEO da Exxon Mobil Corporation, ficou ainda mais patente a impreparação, o comprometimento e a incompetência do escolhido para o cargo de Secretário de Estado, assim como a falta de senso de quem o indicou. Até um canal como a Fox News esclareceu os seus telespectadores que Rubio "grelhou" (sic) Tillerson. De facto, Tillerson revelou-se incapaz de dar as respostas que todos os estado-unidenses esperavam ouvir, nomeadamente quanto à futura relação com os russos, e deixou no ar muitas dúvidas sobre a futura mancebia da Casa Branca com a Rússia.

Rússia onde, por seu turno, a Duma se prepara para descriminalizar a violência doméstica, dando assim mais um passo  em direcção à idade das trevas e elementos acrescidos para o estudo do "putinismo".

Se os deputados da Duma e Putin consideram normal que as mulheres russas, as suas próprias mulheres, levem uns estaladões e uns abanões entre uns tragos de vodka nos intervalos do jogos de hóquei no gelo, desde que esse comportamento não seja interpretado como um acto de holiganismo, no ar ficará a dúvida sobre o modo como interpretarão a violência que seja exercida pelos militares e ocupantes russos sobre os "estrangeiros" e as mulheres dos outros em cenários de guerra, ocupação militar ou conflito latente, como por exemplo na Síria, na Crimeia, na Chechénia ou na Geórgia.

É claro que a preocupação de Donald Trump em matéria de conflitos de interesses ou direitos humanos é igual a zero. Como é também a de Putin, comprovada ainda recentemente no aprofundamento da sua relação com as Filipinas de Duterte, onde é o próprio presidente quem estimula uma justiça tribal contra traficantes de droga, consumidores, simples suspeitos ou qualquer cidadão que se incompatibilize com o vizinho por causa das galinhas e seja por este denunciado e morto à paulada como potencial traficante.

A Rússia prepara-se, e já mostrou toda a sua disponibilidade, para vender submarinos, aviões, tanques e armas pesadas e ligeiras a Manila. Os seus almirantes são recebidos pelo Presidente Duterte, o qual lhes deu as boas-vindas e disse que ali os militares russos serão sempre bem recebidos, podendo lá ir quando quiserem e muitas vezes com os seus vasos de guerra, nem que fosse só para "se divertirem", convite enfatizado pelo Presidente das Filipinas entre gargalhadas. Afigura-se, pois, como previsível um aumento da circulação de panças e de rublos em Makati e na infame Mabini Street, onde desaguam as adolescentes filipinas que fogem da miséria no interior e vão em busca de melhores condições de vida na capital, gente que perante o convite de Duterte aos militares, depois de ter estado ao serviço da satisfação das pulsões e bebedeiras dos tropas dos EUA estacionados em Subic Bay, poderá agora passar a servir de objecto de divertimento da armada russa com o beneplácito presidencial. 

Enquanto nos EUA o presidente eleito dá uma conferência de imprensa surreal, de tal forma que o antigo campeão mundial de xadrez Gary Kasparov afirmou que o que por lá aconteceu lhe fazia lembrar as conferências de imprensa de Putin, na Europa, que acabou de perder Zygmunt Bauman, aguarda-se o resultado do Brexit e teme-se pelo que sairá das eleições que aí vêm em França, na Holanda e na Alemanha. Ou pelo que irá acontecer durante 2017 em Israel, na Síria, no Irão, na Turquia, na África subsariana e na bacia do Chade, no Congo, no Brasil, na Venezuela, na Birmânia ou na Argentina, ou, ainda, o que sucederá com aquele urso esquizofrénico da península coreana.

O que actualmente se passa em Washington e Moscovo não pode deixar de nos levar a questionarmo-nos sobre a sanidade e seriedade desta gente que se prepara para tomar conta do mundo à custa da liberdade, da democracia, do respeito e da tolerância para com o outro. E, em especial, sobre aquele que tem sido o trabalho das elites mundiais para a sua defesa, bem como da paz e dos padrões civilizacionais que pelos menos desde o pós-II Guerra se tem procurado preservar.

As perspectivas de dentro de alguns meses o mundo ser dominado por ignorantes misóginos, mais preocupados com os vídeos que possam aparecer com as suas proezas sexuais do que com a paz mundial, por mentirosos, líderes religiosos ortodoxos, corruptos, ditadores autocráticos ou simples mentecaptos são hoje bastante elevadas e colocam já o último discurso de Obama proferido em Chicago numa espécie de museu da civilização.

Não admira que com este cenário Charles M. Blow escrevesse ontem no New York Times que ao escutar o discurso de despedida tivesse sido tocado pelo violentíssimo golpe de decência e dignidade, solenidade e esplendor, sobriedade e literacia que Obama trouxe consigo para o exercício da função presidencial, o que em seu entender será de tal forma anómalo e extraordinário que cada geração só pode aspirar a ter isso uma única vez num presidente.

o que Obama fez em matéria ambiental já o guindaria a um lugar único na história dos EUA, mas saber que se vai embora e nos vai deixar a todos entregues a essa fauna que se perfila no horizonte não é coisa que nos tranquilize.

Não quero aqui assustar ninguém, mas apenas recordar que este cenário reforça a expectativa no trabalho do novo secretário-geral das Nações Unidas. Estará, pois, na hora de António Guterres, lá no seu pedestal de Nova Iorque, se quiser com a ajuda do padre Melícias e das suas orações, isso é lá com ele, nos mostrar que Deus ainda existe. E que não dorme.

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2017, o ano do renascimento do Czar Putin

por Alexandre Guerra, em 02.01.17

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A eleição de Donald Trump veio colocar Vladimir Putin numa posição de enorme relevância no sistema internacional, talvez como nunca tenha tido antes, porque, pela primeira vez, tem em Washington um interlocutor que lhe parece reconhecer o seu poder czarista e autoritário sem qualquer constrangimento ou julgamento moral. Mais, Trump parece estar disposto a aceitar e a respeitar as regras do jogo definidas por Putin, naquilo que poderá ser um paradigma com algumas semelhanças ao sistema de Guerra Fria em matéria de delimitação de zonas de influência. Perante isto, e à luz daquilo que se tem vindo a saber, é muito provável que Putin venha novamente a estar num plano de igualdade com o seu homólogo norte-americano. Trump parece querer conceder-lhe esse privilégio, já que não o deverá fazer a mais nenhum chefe de Estado. Além disso, do que se vai percebendo, Trump acreditará que o mundo pode ser gerido novamente pelas duas potências, numa divisão de influências, onde a China e outros Estados emergentes não lhe merecem grande atenção (quantas vezes ouvimos Trump falar do Brasil, da Índia ou até mesmo do Reino Unido ou da Alemanha???). Hoje, mais do que nunca, é importante perceber quem é Putin, como pensa e como age.

 

Acompanho com atenção o percurso de Vladimir Putin ainda antes de ter sido eleito Presidente da Rússia pela primeira vez em 2000. Quando a 9 de Agosto de 1999 o então já falecido Presidente Boris Yeltsin demitia o seu Governo e apresentava ao mundo uma nova figura na vida política russa, poucos eram aqueles que conheciam Vladimir Putin. Aos 46 anos, Putin, ligado ao círculo de São Petersburgo, e antigo oficial do KGB (serviços secretos), assumia a chefia do novo Executivo, com a motivação manifestada por Yeltsin de que gostaria de vê-lo como seu sucessor nas eleições presidenciais de 2000. Segundo alguns registos, Putin nunca terá tido a intenção de seguir uma carreira política, no entanto, teve sempre um alto sentido de servidão ao Estado, como aliás fica bem evidente na recente biografia de Steven Lee Myers, "O Novo Czar" (2015, Edições 70). Na altura, terá confessado que jamais tinha pensado no Kremlin, mas outros valores se erguiam: “We are military men, and we will implement the decision that has been made”, disse Putin. Muitos viram na decisão de Yeltsin o corolário de uma carreira recheada de erros e que conduzira o país a um estado de sítio. A ascensão de Putin era vista como mais um erro. Citado pelo The Moscow Times, Boris Nemtsov, na altura um dos líderes do bloco dos "jovens reformistas" na Duma e que viria a ser assassinado em Fevereiro de 2015, disse que Putin causou uma fraca impressão na primeira intervenção naquela câmara. "Não era carismático. Era fraco." Também ao mesmo jornal, Nikolai Petrov, do Carnegie Moscow Center, relembrava que Putin deixou uma "patética imagem", sendo um desconhecido dos grandes círculos políticos, e que demonstrava ter pouco à vontade com aparições públicas, chegando mesmo a ter alguns comportamentos provincianos. 

 

Apesar disso, a Duma acabaria por aprovar a sua nomeação para a liderança do Governo, embora por uma margem mínima. É preciso não esquecer que Putin reunia apoio nalguns sectores, nomeadamente naqueles ligados aos serviços de segurança, que o viam como um homem inteligente e com grandes qualidades pessoais. E, efectivamente, após ter assumido os desígnios do Governo, Putin começou de imediato a colmatar algumas das suas falhas, nomeadamente ao nível de comunicação, e a desenvolver capacidades que se viriam a revelar fundamentais na sua vida política. É o próprio Nemtsov que reconheceu o facto de Putin se ter tornado mais agressivo e carismático, dando às pessoas a imagem do governante que os russos prezam. Características que se encaixaram na perfeição ao estilo musculado necessário para responder às explosões que ocorreram em blocos de apartamentos de três cidades russas, incluindo Moscovo, em Setembro de 1999, vitimando sensivelmente 300 pessoas, colocando o tema da segurança no topo da agenda da vida política russa, para nunca mais sair de lá. Em Outubro desse ano, como resposta, Putin dava ordem para o envio de tropas para a Chechénia.

 

Nas eleições presidenciais de 2000, Putin obteve 53 por cento dos votos, contrastando com os 71 por cento conquistados quatro anos mais tarde. Por motivos de imposição constitucional que o impedia de concorrer a um terceiro mandato presidencial, Putin teve que fazer uma passagem pela chefia do Governo entre 2008 e 2012, mas era claro que nunca teve verdadeiras intenções de deixar os desígnios da nação nas mãos do novo ocupante do Kremlin. Conhecendo-se um pouco da história política russa e da sua liderança, facilmente se chegaria à conclusão de que Putin era o homem por detrás do poder, enquanto o novo Presidente em exercício, Dimitri Medvedev, seria apenas um "fantoche". Medvedev compreendeu bem o seu papel nesta lógica de coabitação, remetendo-se praticamente a uma mera representação institucional, sem ousar discutir com Putin a liderança da política russa. Como na altura se constatou, a forma seria apenas um pormenor porque o que estava em causa era a substância da decisão. Ouvido pela rádio Ekho Moskvy, na altura, o analista russo Gleb Pavlovsky ia directo à questão central: "We can forget our favourite cliche that the president is tsar in Russia." E neste caso o Czar é Vladimir Putin que tanto o poderia ser na presidência, na chefia do Governo ou noutro cargo qualquer, desde que fizesse as devidas alterações constitucionais e que continuasse acompanhado dos seus "siloviki".

 

Aparentemente, Putin tem em Washington um parceiro que não o recriminará e que respeitará a sua liderança, desde que o Presidente russo não mexa com os interesses norte-americanos que, diga-se, nem será assim um exercício tão difícil de aplicar. Actualmente, Moscovo joga algumas das suas prioridades geoestratégicas e geopolíticas em tabuleiros que Trump já deu a entender não estar interessado. Agora, é ver a partir de dia 20 de Janeiro como o Czar Putin e o populista Trump se vão entender.

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Entretanto, na Rússia

por José António Abreu, em 16.11.16

Enquanto Trump se prepara para entrar na Casa Branca e a cotação do dólar dispara, gerando receios de problemas nos mercados emergentes e do reacendimento da crise do euro (as taxas de juro da dívida pública estão a subir e a política do BCE poderá ter de mudar com o eventual aumento da inflação), Putin, a braços com os efeitos da estagnação económica (causada em parte pelas sanções internacionais que ele espera ver Trump abolir), intensifica as purgasfazendo prender Alexey Ulyukayev, ministro da Economia, defensor de uma maior separação entre o Estado e o sector empresarial, e que até pode ser culpado do acto de corrupção de que o acusam mas nunca seria detido se Putin não desejasse afastá-lo.

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O regresso da Rússia.

por Luís Menezes Leitão, em 15.04.16

Desde o colapso do Império Soviético em 1991 que deixámos de ter um mundo bipolar, passando os Estados Unidos a ser a única superpotência dominante. O isolacionismo que tem caracterizado a presidência de Obama tem, porém, permitido que o espaço deixado vazio pelos Estados Unidos esteja a ser progressivamente ocupado pela Rússia. Essa situação pode ser extremamente perigosa para a Europa, até porque esta tem demonstrado uma fragilidade brutal, especialmente desde o disparatado apoio ao derrube do governo pró-russo da Ucrânia.

 

Na Ucrânia Putin ganhou em toda a linha. Conseguiu obter a anexação da Crimeia sem disparar um tiro e fomentou a rebelião em Donetsk e Lugansk, que hoje vivem separadamente da Ucrânia. Ninguém ontem reparou que o jogo entre o Braga e o Shaktar Donetsk foi jogado em Lviv, uma cidade do Oeste da Ucrânia, quase na fronteira com a Polónia, que fica a mais de 1.000 km de Donetsk. Mesmo o próprio clube da cidade já a abandonou. Mas a verdade é que também a União Europeia faltou completamente com o apoio que prometeu à Ucrânia, e o recente referendo em que os holandeses disseram não ao tratado com a Ucrânia foi um claro indicador de que a Europa não tem quaisquer condições de subtrair a Ucrânia à influência russa.

 

Na Síria, só a intervenção da Rússia permitiu infligir derrotas ao Estado Islâmico, e a Europa já se conformou com a manutenção do regime de Assad, vendo que a alternativa seria muito pior. Mas a Rússia avança ainda mais pelo Médio Oriente, fazendo agora uma aliança com o Irão, o que vai reforçar claramente a influência xiita na região. Tal será visto como uma ameaça, quer pelo que resta do Iraque, quer pela Arábia Saudita, mas a verdade é que os Estados Unidos não estão dispostos a intervir em apoio destes Estados. Até no Báltico, na zona de influência da NATO, os aviões russos chegam ao ponto de provocar navios norte-americanos.

 

Curiosamente, o país que neste momento parece fazer mais frente à Rússia é a Turquia. Esta já abateu mesmo um avião russo e parece pouco disposta a tolerar a cada vez maior influência russa no Médio Oriente. Não deixa, aliás, de ser significativo o reacendimento recente do velho conflito de Nagorno-Karabach, que coloca um Estado pró-russo, a Arménia, contra um Estado pró-turco, o Azerbaijão. Mas nem a Turquia será capaz de conseguir paralisar este avanço da influência russa, especialmente a partir do momento em que Moscovo já conta com os apoios de Damasco e Teerão.  

 

Neste momento, a novidade do actual xadrez internacional é o regresso da Rússia à categoria de superpotência. Mas desta vez, a guerra corre o risco de não ser fria mas antes muito quente. Habituem-se.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 12.02.15

«A Rússia - ao contrário do que o estatuto que lhe é habitualmente atribuido de país emergente pode fazer crer - é hoje uma potência em declínio, ameaçada por uma verdadeira catástrofe demográfica e incapaz de explorar adequadamente os seus imensos recursos naturais. Encurralada entre o espaço político ocidental e a China, é natural que olhe com desconfiança para qualquer modificação que ocorra na sua vizinhança. Foi isso o que se verificou na Ucrânia. Nem valerá a pena recordar a importância simbólica de Kiev como local de nascimento da nação russa para compreendermos a relevância estratégica objectiva que o território ucraniano tem para um país que se constituiu em torno do projecto do duplo acesso aos mares Báltico e Negro. No rescaldo da implosão soviética, os russos puderam conviver com a ideia de uma Ucrânia independente e politicamente autodeterminada; o que lhes custaria e custará sempre admitir é a perspectiva de uma Ucrânia plenamente integrada, dos pontos de vista político, económico e militar, na esfera ocidental.»

Francisco Assis, no Público

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Desperta, Europa

por Pedro Correia, em 06.02.15

Timothy Garton Ash no Guardian: «Este conflito armado [na Ucrânia] já provocou cerca de cinco mil mortos e mais de 500 mil desalojados. A Europa, preocupada com a Grécia e a zona euro, vai deixando outra Bósnia deflagrar à sua frente. Desperta, Europa. Se a História nos ensinou alguma coisa é que devemos travar Putin.»

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Aventureirismo russo na Ucrânia e na Crimeia em 2014 vira-se contra Putin

 

Andaram alguns ao longo do ano a glorificar as extraordinárias façanhas militares do musculado czar do Kremlin, que decidiu anexar a Crimeia numa grosseira violação da Carta das Nações Unidas e enviar mercenários russófilos para o leste da Ucrânia, em manifesta colisão com os princípios do direito internacional, e afinal confirma-se hoje que essa arrogância bélica apenas se destinava a camuflar um gigante com pés de barro.

A queda abrupta do preço do petróleo - principal produto de exportação russa e fonte de 68% das receitas do país - originou a depreciação progressiva do rublo, que vale hoje só 50% do que valia no início do ano em relação ao dólar. A situação é crítica, alerta o banco central russo. "A economia russa caminha rapidamente para o colapso", sublinha o editorial de hoje do El País.

 

Não sei o que a Rússia possa ter ganho ao anexar a Crimeia. Mas sei o que já perdeu.
Está mais isolada diplomaticamente. Sofre sanções que lhe são impostas pela comunidade internacional.
Vê agravar-se os problemas económicos do país, que importa 60% do que come, ao iniciar um braço-de-ferro com os países membros da União Europeia e da NATO.
Arrisca-se a perder os melhores parceiros económicos, que estão precisamente na Europa Ocidental.
Vê aumentar exponencialmente os focos de turbulência nas suas zonas fronteiriças - nada mais natural, pois quem semeia ventos colhe tempestades. Nem a fiel Bielorrússia se sente tranquila perante o expansionismo russo, já para não falar da China, que nunca deixou de alimentar sérias suspeições nesta matéria.
E, acima de tudo, desenterra velhos fantasmas da História numa réplica anacrónica do pior da Guerra Fria. Precisamente todos aqueles fantasmas que ninguém desejaria ver desenterrados, a ocidente ou oriente dos Montes Urais.

 

tumblr_m07vfr4Zc31qd65vgo1_400[1].jpgOs russos não diversificaram o tecido económico, têm uma agricultura que não supre as necessidades alimentares da população e uma indústria em grande parte anquilosada (excepto a indústria de armamento). Estão demasido dependentes das exportações de petróleo e gás natural para manterem a tímida taxa de crescimento económico que vêm registando.
Ora o fornecedor precisa dos clientes: se estes partirem em busca de outros mercados resta-lhe venderem a energia a si próprios.

 

Moscovo tem tudo a perder se abrir uma guerra energética com a UE aproveitando o facto de parte significativa do continente europeu depender (em cerca de 30%) do abastecimento do seu gás. Esta factura é essencial na economia russa.
Essa guerra dará origem, nomeadamente, à exploração em larga escala das vastas reservas naturais de gás norte-americanas que provocará uma redução drástica do preço deste combustível nos mercados internacionais. Quem acabará por ganhar, além dos EUA, são os actuais produtores concorrentes da Rússia, nomeadamente a Argélia, já hoje a principal fornecedora de gás a países como Portugal.

É uma guerra perdida de antemão, como alerta Larry Elliott, editor de economia do Guardian.


A geopolítica servia-nos de chave para a interpretação do mundo até ao fim da Guerra Fria. Hoje nada se entende de essencial no capítulo das relações internacionais sem conhecimentos elementares de geoeconomia. Como Putin começa a aprender por amarga experiência própria. E o conjunto da população russa também.

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Um desastre.

por Luís Menezes Leitão, em 04.09.14

 

Para se ver o resultado da presidência de Durão Barroso na comissão europeia, basta comparar o que era a União Europeia em 2004, altura em que se deu o grande alargamento e tudo parecia possível, com o que é hoje dez anos depois. Nestes dez anos a comissão europeia, que tinha a função de guardiã dos tratados, apagou-se completamente e hoje a Alemanha põe e dispõe, levando a que no resto do mundo a Europa tenha passado a ser sinónimo de Alemanha. É por isso que a Europa mergulhou precipitadamente na questão ucraniana, uma questão que se sabia desde o início ser explosiva e que tinha que ser tratada por diplomatas experientes e não por políticos imponderados. Como se dizia na célebre série Yes, Prime Minister, na diplomacia pretende-se sobreviver até ao próximo século, enquanto na política se pretende sobreviver até sexta-feira à tarde.

 

Mostrando o jeito que tem para a diplomacia, apesar de ter sido Ministro dos Negócios Estrangeiros, Durão Barroso achou que podia divulgar uma conversa telefónica particular com Putin em que ele lhe terá dito uma coisa óbvia: que a Rússia, se quisesse, podia tomar Kiev em duas semanas. Aliás, desde os tempos da guerra fria que o exército russo tem condições de ocupar a Europa Ocidental até em menos tempo, só tendo sido travado pelo guarda-chuva nuclear americano. Não me espantaria nada, por isso, que Putin lhe tivesse dito que, se quisesse também podia ocupar Berlim, Bruxelas e até Lisboa, embora as consequências dessa iniciativa levassem necessariamente a um conflito nuclear com a Rússia, conflito esse que só a diplomacia pode evitar. Foi por isso muito pouco diplomático Durão Barroso ter ido revelar o conteúdo dessa conversa telefónica aos 28 membros do Conselho Europeu, sabendo-se evidentemente que estes iriam, como os doze apóstolos, espalhar a boa nova por todo o lado.

 

Putin é que não se ficou e ameaçou divulgar o conteúdo da conversa telefónica com Durão, que terá gravado, se este não se retratasse imediatamente. Durão Barroso foi por isso obviamente obrigado a engolir publicamente o que tinha dito. A aceitação pelo Presidente da comissão europeia de um ultimato da Rússia, numa altura em que a União Europeia ameaça a Rússia com sanções, constitui no plano das relações internacionais uma situação absolutamente ridícula. Justifica-se por isso que se questione o que terá sido dito nessa conversa, que pelos vistos era mais prejudicial a Durão Barroso do que a Putin.

 

Durão Barroso foi um desastre tão grande para a Europa que é possível que, nos últimos dias do seu mandato, ainda nos consiga fazer mergulhar numa guerra com a Rússia. Rezemos para que ele deixe rapidamente Bruxelas e regresse a Lisboa. Se isto demora muito mais tempo, ainda é capaz de vir com o exército russo atrás.

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O xadrez de Putin

por Rui Herbon, em 01.09.14

Vladimir Putin joga xadrez na Ucrânia. Move peças e pensa na jogada seguinte, antecipa os movimentos do rival. Quer recompor o que em tempos foi o império dos czares e depois a poderosa União Soviética.

 

O problema mais sério da Rússia é a sua geografia. Um general de Catarina, a Grande, disse à imperatriz que a Rússia só estaria segura se de ambos os lados da fronteira houvesse soldados russos. Paradoxalmente, ou não, o país mais extenso sente-se inseguro. Por essa razão foi invadindo e conquistado territórios vizinhos.

 

Ao longo da sua história a Rússia foi vítima de sucessivas invasões de mongóis, suecos, prussianos, franceses e alemães. Os tártaros governaram o centro do seu território durante mais de dois séculos. Mas, como assinala Pushkin, ao contrário do que os árabes fizeram na Península, «não trouxeram a álgebra nem Aristóteles». A sua vulnerabilidade deixou à Rússia outro legado: o governo centralizado e autoritário, independentemente do regime. Como recorda Margaret MacMillan no seu livro sobre as causas da Grande Guerra, na história da Rússia descreve-se o povo russo, originário da Ucrânia, como «um povo em busca de um salvador». Um autor do século XII dizia que «toda a nossa terra é grandiosa e rica, mas carece de ordem. Alguém venha governar e reinar sobre nós».

 

O país mais extenso sente-se inseguro. A Ucrânia é para a Rússia o que Aachen foi para o império carolíngio ou o que Turin foi para a unidade italiana. Putin quer recuperar a Ucrânia. Ainda que lhe custe muito caro. Ainda que o poder se evapore. Este é o grande perigo de tudo quanto ocorre no leste desse país. A Rússia não quer estranhos num território que considera o núcleo fundacional de um grande império. Por isso Putin vai fazendo avançar as suas peças no tabuleiro com precisão de mestre. O problema é que estamos no mundo real, a lidar com seres humanos de carne e osso, e não com peças de madeira, vidro ou mármore.

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Pet shop boys

por Rui Rocha, em 02.08.14

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 30.07.14

«Vladimir Putin está a cometer demasiados erros de avaliação, o que é perigoso. A tragédia do avião da Malásia mostrou os riscos da sua política ucraniana e da perda de controlo sobre os bandos "separatistas". A seguir, perdeu a oportunidade de contribuir para uma desescalada sem perder a face. Está agora confrontado com a perspectiva de sanções mais duras, que poderão constituir uma séria ameaça para a economia russa. Na sua lógica, não recuará -- isto é, calcula que não pode recuar por razões de prestígio e de poder doméstico -- e ampliará consequentemente a dimensão da crise.»

Jorge Almeida Fernandes, no Público

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A guerra no horizonte.

por Luís Menezes Leitão, em 26.07.14

 

 

A revista Time está convencida de que o abate do avião da Malaysia Airlines por parte dos rebeldes pró-russos corresponde a um regresso à guerra fria. Efectivamente, a situação faz lembrar o abate do avião da Korean Airlines pela URSS sobre a ilha de Sacalina em Setembro de 1983, quando a guerra fria estava no seu auge. Parece-me, no entanto, que o que se está a passar não representa qualquer regresso à guerra fria. Por muito que Putin queira reconstituir o antigo espaço soviético, o back in the USSR não é hoje mais possível. O que se está a passar é antes um regresso a 1914. Na altura também houve um crime bárbaro, o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand pelo terrorista Gravilo Princip, o que serviu de motivo para que a guerra se iniciasse para esmagar todos os "sérvios regicidas". Agora, porque os rebeldes russófonos da Ucrânia cometeram também o bárbaro crime de abater um avião civil, Putin é sumariamente declarado culpado desse crime e a União Europeia vai aplicar sanções para mergulhar a Rússia na recessão. Parece assim que todo o povo russo vai agora expiar uma culpa colectiva pelos crimes cometidos pelos rebeldes pró-russos da Ucrânia.

 

Quem conhece um pouco da história da Rússia, sabe perfeitamente que estas sanções não vão vergar a Rússia, só podendo pelo contrário conduzir à guerra. Primeiro, é evidente que Putin não pode deixar de apoiar os russos da Ucrânia, sob pena de ser considerado um traidor na Rússia, o que facilmente acontecerá em virtude da fúria nacionalista que esta ameaça de sanções já está a gerar. Segundo, mesmo que suporte um verdadeiro inferno, o povo russo sempre resistiu aos ataques ao seu país. Quando Napoleão conquistou Moscovo, os russos entregaram-lhe a cidade em chamas, obrigando-o à retirada. Na segunda guerra mundial, mesmo depois de terem sofrido vinte milhões de mortos, os russos vergaram as tropas de Hitler, obrigando-as a retirar e ocuparam Berlim. Terceiro, o isolamento mundial também nunca assustou a Rússia. Estaline não hesitou em adoptar a fórmula do socialismo num só país, isolando a Rússia do resto do mundo, quando a revolução mundial desejada por Lenine não se verificou.

 

Não tenho dúvidas de que, se Putin for colocado entre a espada e a parede, terá que optar pela espada. É por isso que me parece que nesta história das sanções à Rússia, os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo. A guerra não irá assim ser fria. Quem vai ter frio será o norte da Europa, quando falhar o abastecimento do gás russo. Já a guerra será muito quente. No fundo 2014 está a replicar 1914. Sem que ninguém se aperceba, andam todos a preparar o apocalipse.

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A repressão avança na Crimeia

por Pedro Correia, em 28.03.14

«The warning signs are clear. In Crimea, the crackdown is coming. But the repression won’t be televised.»

Salil Shetty, secretário-geral da Amnistia Internacional

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Confundir agredido com agressor

por Pedro Correia, em 26.03.14

 

Leio hoje, num jornal diário português, um artigo que aponta o dedo acusador à União Europeia pelo actual conflito entre russos e ucranianos. Tudo se deveria, segundo o articulista, à "irresponsabilidade" dos dirigentes europeus, que pretendem alargar o limite das suas fronteiras orientais ao território ucraniano, despertando a compreensível ira de Moscovo. Como se a vontade de Vladimir Putin devesse sobrepor-se à decisão soberana do povo ucraniano, que deve ser o único a pronunciar-se nesta matéria.

Este texto, à semelhança de vários outros que tenho lido nas últimas semanas, pretende ser um eco do senso comum em questões internacionais, transformando a geopolítica em bússola orientadora. Que a Crimeia seja ocupada pela tropa russa como se fosse um tabuleiro de xadrez é um pormenor irrelevante em raciocínios deste tipo. Pensamento semelhante levou muitos a apoiar a invasão das Malvinas, em 1982, em sintonia com a repugnante ditadura militar argentina.

 

A Crimeia, no primeiro censo realizado no século XX, tinha ainda maioria de população tártara. Esta população foi alvo das maiores atrocidades -- incluindo deportações em massa -- tanto no período czarista como no estalinismo, abrindo caminho aos colonos eslavos que se apropriaram das suas terras e das suas casas.

Hoje há apenas 12% de tártaros na península. Os russos são 58%.
Ou seja: primeiro expulsam-se os habitantes autóctones; depois proclama-se o princípio da soberania com base num critério demográfico, etno-racial, que nos faz retroceder alguns séculos. Um pouco como aquele indivíduo que matou os pais e procurou depois invocar a sua condição de órfão como atenuante em tribunal.
É uma mistificação histórica, e uma inaceitável manipulação, fazer o que Putin faz: justificar a anexação da Crimeia para fazer coincidir poder estatal com nacionalidade, à semelhança do que sucedia no século XIX.

 

Se começamos a invocar tudo em nome dos sacrossantos "interesses estratégicos" -- que são sempre interpretados à luz da conveniência de quem agride -- acabaremos por justificar e até aplaudir a anexação de Gibraltar pelas força militar espanhola, por exemplo. Ou de Cuba pelos Estados Unidos, cujos "interesses estratégicos" não toleram um regime hostil a escassos 150km de distância da sua costa.
O paralelo não é descabido pois os EUA até têm uma base militar em território cubano (Guantánamo), tal como a Rússia tem uma base em território ucraniano (Sebastopol).

 

Não poupemos nas palavras: estamos perante um claro retrocesso civilizacional.
Neste caso há um agressor e um agredido.

O agredido é o estado ucraniano.

O agressor é Putin, que procura legitimar-se perante a opinião pública interna com este anacrónico exercício de musculatura, totalmente inaceitável.
Confundir agressor com agredido é abrir todas as portas à pura arbitrariedade, condenando o direito internacional a tornar-se letra morta.
É por este "novo mundo" que pugnamos? A minha resposta é clara e simples: não.

 

Foto: Serguei Ilnitsky/AFP

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E depois da Crimeia?

por Luís Menezes Leitão, em 16.03.14

 

Seguramente que, no final do dia de hoje, Putin dirá que a Crimeia já cá canta e agora seguir-se-á o resto, ou seja, o leste da Ucrânia, a Transnístria, e se calhar até territórios dos estados bálticos que lhe permitam o acesso terrestre a Kaliningrad, a antiga Königsberg. Já alguém disse que o mal da Europa era ter demasiada história para tão pouca geografia. Eu digo que neste momento o mal da Europa é ter-se transformado numa plutocracia, em que os mercados são reis e senhores e os governos estão nas mãos do poder financeiro. Foi por isso que a resposta pífia da Europa ao avanço russo passou apenas por ameaçar a Rússia com sanções económicas. Putin ri-se das sanções económicas. Não só é a maior parte da Europa que está dependente do gás russo como, ao contrário do que sucede no ocidente, Putin não se deixa influenciar pelo poder financeiro. Pelo contrário, os milionários russos sabem que só serão milionários enquanto Putin quiser. Basta ele não querer para que surja qualquer acusação criminal que lhes tirará a fortuna toda, se não forem mesmo atirados para a prisão. É por isso que a Europa nada pode contra Putin. Quanto aos Estados Unidos, desde a presidência de Obama que voltaram a um cíclico isolacionismo, o qual já pagaram muito caro em ocasiões anteriores. Já a ONU, será naturalmente paralisada pelo veto russo. Putin tem assim o caminho livre para reconstituir o império russo. Resta saber se será o único. Depois da vitória russa, será que a China não encarará isto como um precedente que lhe permita avançar também para Taiwan? Quando se começa a ceder, nunca se sabe onde as cedências param.

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Putin mau, Putin bom

por Pedro Correia, em 12.03.14

 

Não há nada como mostrar músculo para ganhar popularidade. Ainda há um mês, Vladimir Putin recebia críticas de vários quadrantes pelas suas detestáveis tendências autocráticas que o levaram a promulgar leis discriminatórias dos homossexuais, banindo-os dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi -- os mais caros de sempre, orçados em 51 mil milhões de dólares (10 mil milhões acima das Olimpíadas de 2008 em Pequim).

Bastou-lhe invadir um país soberano, à margem do direito internacional e das regras de convivência civilizada entre países soberanos, para calar certas vozes críticas. Por estes dias tenho reparado no silêncio de alguns: tão indignados com Putin há um mês, tão complacentes com Putin agora.

Dizia Woody Allen, com irresistível ironia, que evitava ouvir Wagner para não sentir a tentação de invadir a Polónia. Apetece perguntar que música o autocrata russo gosta de escutar -- e também alguns dos que agora o apoiam, nem que seja apenas através do silêncio conivente perante a agressão russa à Ucrânia. 

Foto AP/Valentina Petrova

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Crimeia, a coutada do novo czar

por Pedro Correia, em 07.03.14

 

Por enquanto as televisões, que filmam com crescentes precauções para evitarem ser alvos de represálias, ainda conseguem mostrar-nos fragmentos do que se passa na Crimeia ocupada manu militari por tropa russa sem insígnias: quem ousar por estes dias manifestar-se a favor da ligação à Ucrânia nas ruas de Simferopol é logo arrastado por bandos de jagunços incapazes de conviver com opiniões "dissidentes". Impossível ver ali sequer desfraldada uma bandeira ucraniana, confirmando-se não existirem condições mínimas de liberdade para realizar uma campanha referendária. Como pode haver um referendo minimamente credível sem campanha? E como pode realizar-se já no dia 16 -- ou seja, daqui a cinco dias úteis -- uma consulta popular com 30 mil militares e paramilitares russos a impor às urnas a vontade das armas?

Estes jagunços são todos homens e têm especial predilecção por agredir mulheres perante a passividade da tropa ocupante russa, que serve de guarda pretoriana às manifestações locais pró-Moscovo. Algo que dá que pensar, em vésperas de comemoração do Dia Internacional da Mulher. Não por acaso, a enviada especial da CNN à Crimeia viu-se hoje impedida de sair do hotel em reportagem.

Pior sorte teve o enviado das Nações Unidas: Robert Serry foi ameaçado por milícias armadas e forçado a rumar ao aeroporto. Isto enquanto o chefe do Governo da região autónoma, ferozmente pró-russo, chama "traidores" aos defensores da soberania ucraniana na península -- deixando assim bem evidente que não existem garantias de imparcialidade das autoridades locais para promoverem o referendo. Observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa foram impedidos de entrar na Crimeia, pelo segundo dia consecutivo, por elementos das forças especiais russas ali plantados como vigilantes de uma coutada -- a coutada particular do novo czar Vladimir Putin, que pretende anexar a Crimeia à maneira dos vetustos senhores feudais, exímios praticantes do direito de pernada.

 

Eis uma versão revista e actualizada da Lebensraum hitleriana: onde houver comunidades russas, Moscovo estenderá o seu domínio de fuzis em riste -- à revelia do direito internacional, que garante a integridade territorial e o exercício da soberania dos Estados cuja independência é reconhecida pela ONU. Mandando às malvas os direitos das minorias étnicas, tal como sucede na Rússia com as minorias sexuais.

Ao contrário do que pretendem alguns admiradores do presente exercício de musculatura do Kremlin, a Crimeia é um mosaico de línguas e etnias. Onde vivem russos (58%), ucranianos (24%) e tártaros (12%), entre habitantes de outras origens. E muito mais tártaros ali existiriam se nas décadas de 30 e 40 Estaline não tivesse sujeitado grande parte desta população a deportações em massa para a Sibéria e as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Menor para ceder mais "espaço vital" ao neocolonialismo russo.

 

Nada me surpreende em tudo isto excepto o aplauso basbaque de alguns autoproclamados "progressistas" à política de canhoneira do Kremlin. Tão velha como a mais antiga lei que remonta aos confins da História: a do mais forte.

A comovida homenagem que certo "progresso" faz ao retrocesso civilizacional nunca deixará de me espantar.

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Uma visão sobre a situação na Ucrânia

por João André, em 05.03.14

Antes de mais a ressalva: não sou especialista nem na Rússia nem na Ucrânia. Nunca lhes estudei a história nem as sociedades. Saberei talvez um pouco mais que o cidadão comum sobre os dois países e os seus povos, mas será apenas como "dano colateral" de certas incidências de vida. Conheço razoavelmente bem a personalidade dos eslavos em geral (e não especificamente de ucranianos e russos) devido às muitas amizades que tenho. Alguns desses amigos favorecem a Rússia, outros a Ucrânia, outros culpam toda a gente e outros estão-se completamente nas tintas. Feito o esclarecimento, fica a minha visão (longa).

 

Enquanto portugueses temos a visão dos países como territórios algo imutáveis, como entidades que são fundadas, poderão perder a sua independência por uns 60 anos mas que terão aquele desenho definido e inultrapassável. Talvez seja por isso que não nos enfurecemos quando vemos o país a perder soberania, mas isso é reflexão para outra altura. Os eslavos têm uma visão diferente: o país é aquele espaço físico onde vivem e que tem fronteiras policiadas e vigiadas e (geralmente) respeitadas mas que poderá não existir nessa forma por mais que uns 20 a 50 anos. Já a nação é um conceito diferente, que se prende à língua, à religião, ao sangue, às tradições e à história. Perceber esta distinção é fundamental para tentar entender aquilo que se passa na Ucrânia, ainda antes de tentar entender (dentro do possível) as acções de Putin.

 

Como já muita gente explicou, a Ucrânia é uma mistura de povos e é uma região fronteiriça (a mais habitualmente referida origem para o nome da Ucrânia indica que significa "na fronteira") onde vários impérios foram procurar novos territórios. É por isso que tem uma mistura de ucranianos e russos, os quais se distinguem através das linhas referidas acima. Apesar disso, esta distinção torna-se ainda mais ténue na Ucrânia: a língua, por exemplo, não é ainda um factor de diferenciação assim tão forte. Há muitos ucranianos não-russos que têm o russo como língua materna. O campeão da Alemanha, Vitali Klitchko é um deles. É resultado da acção russo-soviética que impôs a superioridade da Rússia a todos os seus estados. Aliás, não é por acaso que aquando do desmembramento da URSS e da CEI, que muitos desportistas ucranianos tiveram a opção de competir por outros países, sendo que alguns dos que o fizeram até nem eram "russos".

 

Quando a revolução ucraniana, sem pai nem mãe fora da Maidan, triunfou em expulsar Ianucovitch, muita gente ficou sem saber o que compreender. Os eslavos gostam de seguir cegamente os líderes em cavalos brancos. Em Maidan os líderes eram eles próprios e a única coisa que (per)seguiam era o fantasma de alguém detestado. Quando ele caiu, apareceram vários cavaleiros no horizonte, mas nenhum deles inspira muita confiança - pelo menos para já. No vazio de poder instalado, alguns arrivistas decidiram marcar presença tratando de ódios antigos: um deles os russos, os quais eram protegidos pelo regime cleptómano de Ianucovitch. Vai daí e avança-se com uma lei para remover o russo da lista de línguas oficiais das zonas de maioria russa.

 

Pelas razões que mencionei acima, e vendo algumas Banderas (sem gralha) em Maidan, os russos (que como bons eslavos têm uma memória colectiva muito longa e selectiva) viram a lei como a primeira salva de um ataque contra eles. Mesmo sem alguma vez tendo colocado os meus pés em terra ucraniana, penso que não exagerarei ao dizer que imaginariam já os soldados a caminhar em direcção a eles para os deportar ou assassinar. Perante esta situação, e porque o pânico ganha rapidamente uma vida muito própria, os russos ucranianos pediram de imediato auxílio aos seus "irmãos" do outro lado da fronteira.

 

E aqui trago à acção Vladimir Putin. Putin tem poder porque poderia ter sido ele próprio o Príncipe de Maquiavel, porque tem o dinheiro do petróleo e gás a apoiá-lo e porque compreende (ou compreendeu no passado, actualmente tenho dúvidas) o pensamento do russo comum. O russo comum, mais uma vez tal como os outros eslavos, tem uma memória selectiva que o faz lembrar as glórias do passado. Enquanto Portugal olha para o passado e vê o fracasso, o russo olha para o passado e vê o sucesso. O português vê o sucesso e pensa: foi bom enquanto durou. O russo vê o sucesso e pensa: é o nosso direito natural. Putin percebe-o e é por isso que mesmo num país autocrático, com liberdades cada vez mais reduzidas, com carências cada vez mais evidentes e que os petro-rublos já não maquilham, continua a ter um poder inigualável. Putin faz os russos pensarem que não estão tão mal - no palco mundial - como no passado e isso vale quase tanto para um russo como liberdade ou pão.

 

Quando Ianucovitch indicou que poderia aceitar a proposta europeia, Putin (que, como referido neste artigo, tem uma visão de soma-zero da geopolítica) colocou imediatamente pressão sobre a Ucrânia para evitar aquilo que via como perda de poder e perda de face. Quando Ianucovitch fugiu, Putin inicialmente esperou para ver. Quando a lei acima mencionada passou, Putin soube que tinha de agir: não para proteger os seus "irmãos" russos, mas para passar a ideia à sua população que o estaria a fazer. É também nesta perspectiva que tem que se entender a propaganda russa na Rússia, muito mais agressiva que aquela que tenta passar para fora do país. Tem que passar a mensagem que está a proteger a Mãe Rússia, a Rodina.

 

Outro aspecto fundamental a lembrar é o facto de ser na Crimeia que a Rússia tem a sua base naval do Mar Negro. Perdê-la seria um golpe duríssimo em termos estratégicos e um enorme problema em termos tácticos (imagine-se a quantidade de infraestrutura que poderia estar subitamente disponível para inspecção por parte de estrageiros). O pior golpe seria, mais uma vez, na imagem da Rússia. Ao perder um símbolo do seu poder militar, Putin estaria a demonstrar fraqueza interna. Isso seria o equivalente a perder o poder de todo. Putin, como se depreende pela sua história pessoal, nunca estaria na disposição de o aceitar. As suas soluções para os problemas interno são sempre as mesmas: dinheiro do petróleo e força. Com o dinheiro a ser rejeitado (e a não poder ser oferecido de novo - na sua lógica pessoal), sobrava a força. Daí o avanço para a Crimeia.

 

Putin tem uma fraca percepção de certos aspectos da realidade moderna, especialmente da força da internet e da forma como esta permite que a informação flua. Vê-a, com tiques de espião, como um truque dos seus inimigos - e por extensão da Rússia também - para desestabilizar o país. Por isso não percebe de imediato que a sua propaganda é transparente. Compreende no entanto que não pode recuar sem obter certas concessões. Por isso, e porque como um bom jogador de xadrez precisa de dar oportunidade ao adversário para mover as suas peças, espera agora para ver o que o Ocidente - e a Ucrânia - lhe oferecem.

 

Tenho uma visão singular destas crises geopolíticas: qualquer solução pacífica é preferível à guerra. Ou, por outra, uma má paz é preferível à melhor guerra. Assim sendo, o Ocidente deveria simplesmente abster-se de atiçar mais a fogueira. Não deve, de maneira nenhuma, recuar no seu apoio à revolução ucraniana - sob pena de perder outro país - mas deve aconselhar prudência. O melhor a fazer agora seria a Ucrânia reconhecer o erro da lei que retira o estatuto de segunda língua ao russo e sublinhar que respeita a população russa da Crimeia como russos e como sendo parte integral da Ucrânia. Ao mesmo tempo, deveria reafirmar o respeito pelo acordo que permite a presença naval russa. Note-se que Putin rejeita que os soldados na Ucrânia sejam soldados regulares russos. Isto não é - na minha perspectiva - simples propaganda. É, antes de mais, uma jogada que lhe permite retirar os soldados sem que alguma vez tenha invadido o país. É essencialmente uma jogada legal, mais que qualquer outra coisa. Isso dá espaço de manobra à Rússia, à Ucrânia e ao Ocidente.

 

Com o tempo Putin terá de sair. Talvez acossado pelas multidões de alcatrão e penas nas mãos - à semelhança do fantoche Ianucovitch - ou talvez por pressão ocidental. Seja como for, este não é o momento para forçar essa saída. Porque Putin, como qualquer animal acossado, pode tornar-se perigoso. E as principais vítimas seriam os ucranianos, independentemente de que lado linguístico estejam.

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Ah?!!!

por Patrícia Reis, em 04.03.14

Leio no portal do Sapo: Putin candidato a Nobel da Paz.

Nem sei comentar. A perplexidade toma conta de mim e talvez seja melhor agarrar numa pastilha e dormir.

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a sério?

por Patrícia Reis, em 04.03.14

Obama diz que Putin não engana ninguém.

Na televisão, um jovem estudante ucraniano, a viver em Portugal tenta explicar a razão pela qual um conflito terá repercussões no ocidente. A jornalista ignora e pergunta se são muitos os que se manifestaram em frente à embaixada russa.

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A chamada

por Rui Rocha, em 03.03.14

 

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