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As melhores praias portuguesas (15)

por Pedro Correia, em 30.06.16

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Pópulo (São Miguel, Açores)

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Portugal, Espanha e o Brexit

por Diogo Noivo, em 30.06.16

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Os portugueses votaram nos partidos que compõem a actual maioria de governo, mas não a validaram nas urnas. Já os espanhóis tiveram esse privilégio. Durante os últimos seis meses, o PSOE, o segundo partido mais votado nas eleições legislativas de Dezembro, tentou repetidamente formar uma maioria de governo com o Podemos e com o Ciudadanos. O objectivo era impedir o Partido Popular, o mais votado, de governar. Meio ano depois, estes partidos submeteram-se novamente ao voto popular e o resultado é claro: PSOE perde votos e mandatos, obtendo o pior resultado de sempre; o Ciudadanos perde votos e mandatos, tornando-se ainda menos relevante; o Podemos, apesar de coligado com a Izquierda Unida, não consegue mais mandatos, perde mais de 1 milhão de votos e falha o lugar de principal força de esquerda. O Partido Popular, inimigo público número 1 para os três partidos que pugnaram por um arranjo parlamentar, reforça a vitória obtida em Dezembro com mais 14 deputados e mais 600 mil votos. Em Espanha, ensaiou-se uma maioria para desalojar o partido mais votado, e os partidos envolvidos nesse empreendimento foram seriamente penalizados. Já o partido que foi impedido de assumir funções saiu mais forte do acto eleitoral. Talvez seja uma coincidência.

 

Terá sido o Brexit?

É impossível determinar com exactidão o efeito real do Brexit nas escolhas feitas pelos eleitores espanhóis. No entanto, os dados sugerem que esse efeito foi marginal. Em primeiro lugar, PSOE e Ciudadanos, dois dos três partidos mais penalizados, têm fortes convicções europeístas e são contrários ao Brexit. Por isso, é pouco plausível que o eleitorado os tenha sancionado por força do “sim” no referendo.

Em segundo lugar, a flutuação de votos em relação às eleições de 20 de Dezembro sugere que os resultados do passado domingo se devem maioritariamente a assuntos internos. Isto é especialmente visível quando olhamos para a coligação entre Podemos e Izquierda Unida, o Unidos Podemos. Com excepção de Barcelona, o Unidos Podemos foi penalizado em todos os municípios onde governa o Podemos, o que indicia eleitores com motivações locais. Subamos agora um degrau na escala político-administrativa e olhemos para as comunidades. Em Madrid, na Catalunha e na Comunidade Valenciana, o Unidos Podemos perdeu os votos que pertenciam à Izquierda Unida, o que sugere um desagrado dos votantes comunistas causado por guerras internas da extrema-esquerda (cada vez mais audíveis). Por último, se o Unidos Podemos fosse prejudicado por causa do seu anti-europeísmo, seria expectável que houvesse uma transferência de votos do UP para partidos defensores da causa europeia (em particular, para o PSOE). No entanto, o número de votos perdidos pelo Unidos Podemos é praticamente igual ao número de novos abstencionistas.

A motivação dos eleitores é diversificada e cheia de subtilezas, logo não existem causas únicas para explicar resultados eleitorais. No entanto, em Espanha, os dados sugerem motivações de política interna. Assim sendo, coincidência ou não, insisto: os três partidos que tentaram desalojar o partido mais votado foram todos penalizados.

 

Bipartidarismo

No que respeita ao bipartidarismo, há semelhanças entre os vizinhos ibéricos. Em Portugal, nas últimas eleições legislativas, a ameaça à hegemonia do PSD e do PS era substancialmente menor do que a ameaça sentida pelos dois principais partidos espanhóis. No entanto, embora com um cenário parlamentar mais fragmentado, PP e PSOE continuam a ser os principais partidos nacionais. A “nova política” chegou a Espanha, mas ainda não se instalou.

À esquerda encontramos mais parecenças: em Portugal como em Espanha, os socialismos e as extremas-esquerdas na oposição não capitalizaram nas urnas o descontentamento popular contra os governos neo-liberais, contra os Executivos que tinham na austeridade uma opção ideológica, contra a direita subserviente a Berlim, contra aqueles que aniquilam o estado social. Era um aproveitamento inevitável, segundo boa parte da imprensa ibérica. Porém, não aconteceu. Haverá nesta pequena península um divórcio entre a opinião pública e a opinião publicada?

 

Pactos de Governo

Tal como em Portugal, a soma dos derrotados em Espanha ultrapassa a barreira da maioria absoluta. Juntos, PSOE, Unidos Podemos e Ciudadanos contam com 188 deputados (são necessários 176 para a maioria absoluta). A aritmética bate certo, mas a política dificilmente a viabilizará. Ciudadanos e Unidos Podemos são incompatíveis e o perfil Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, não se coadunará com cedências de princípios a troco de lugares ou de influência legislativa. Rivera fará exigências que a coligação de extrema-esquerda não poderá cumprir. E vice-versa. Por outro lado, estes últimos seis meses degradaram bastante as relações entre socialistas e podemitas. O acordo entre estas duas forças políticas é teoricamente possível, mas são várias as personalidades de relevo no PSOE que o rejeitam. Vale o que vale, mas o sms enviado por Pablo Iglesias a Pedro Sánchez continua sem resposta – esta terça-feira, na primeira entrevista televisiva depois do acto eleitoral, o líder do Podemos queixou-se do silêncio socialista.

Apesar de derrotados nas urnas, PSOE, Ciudadanos e Unidos Podemos, mantêm o veto a Mariano Rajoy. Em política tudo é possível e 48 horas são uma eternidade que permite vários avanços e recuos. Vão aparecendo sinais de mudança. Mas, para já, as linhas vermelhas são praticamente as mesmas.

 

Principais diferenças de contexto entre Portugal e Espanha

Das várias diferenças entre os cenários políticos de Portugal e de Espanha, três são especialmente significativas: (i) houve maior utilitarismo na esquerda portuguesa; (ii) perante a possibilidade real de integrar um Governo, a extrema-esquerda espanhola viu-se obrigada a apresentar um programa de governo que fosse para além das utopias e dos protestos habituais – e os eleitores do centro ficaram horrorizados com o que viram; (iii) em Espanha houve seis meses de debate e de escrutínio das intenções partidárias, nomeadamente dos propósitos socialistas. Os seis meses de interregno entre escrutínios foram importantes. O eleitorado falou e não ficou tudo na mesma.

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As melhores praias portuguesas (14)

por Pedro Correia, em 29.06.16

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Cabanas (Tavira)

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As melhores praias portuguesas (13)

por Pedro Correia, em 28.06.16

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Tocha (Cantanhede)

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As melhores praias portuguesas (12)

por Pedro Correia, em 27.06.16

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Figueirinha (Arrábida, Setúbal)

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As melhores praias portuguesas (11)

por Pedro Correia, em 26.06.16

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Comporta (Alcácer do Sal)

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As melhores praias portuguesas (10)

por Pedro Correia, em 25.06.16

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Zambujeira do Mar (Odemira)

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As melhores praias portuguesas (9)

por Pedro Correia, em 24.06.16

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Adraga (Sintra)

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As melhores praias portuguesas (8)

por Pedro Correia, em 23.06.16

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Guincho (Cascais)

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Verde-água

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.06.16

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(Max Rossi/Reuters)

E lá passámos aos oitavos de final do Euro 2016. Depois de tantos apertos, durante mais três dias, vai ser possível recuperar energias, secar os microfones que foram ao charco e dar algum trabalho aos barbeiros. Após o jogo de ontem com a Hungria, é caso para dizer que o melhor do jogo, tirando aqueles três golos que a Selecção Nacional alcançou em momentos de inspiração de Nani e Ronaldo, foi o apito final do árbitro.

É certo que se tratou de uma qualificação sofrível, alguns dirão "merdosa", tal a forma como foi conseguida por uma selecção que reclama ser uma das melhores do mundo e arredores e ainda surge como a sexta classificada, salvo erro, no ranking da FIFA. De parecido com a forma como esta qualificação foi obtida só estou a ver a vitória da Porsche nas 24 Horas de Le Mans do passado fim-de-semana. Isto é, ao cair do pano, a minutos do fim e na sequência dos percalços dos adversários.

Para quem depois do primeiro jogo, com a habitual cagança, dizia que a Islândia não tinha futebol para estar em França e ia ser corrida na fase de grupos, só apetece dizer que nós nem à Áustria conseguimos ganhar. Convenhamos que com o grupo que nos calhou em sorte, com tantas estrelas no plantel, o senhor engenheiro devia ter feito muito melhor.

O seleccionador nacional e os jogadores terão no próximo sábado, frente à Croácia, uma oportunidade para se redimirem do que fizeram na frase de grupos. A Croácia é uma selecção que joga um belíssimo futebol - a Espanha que o diga -, tem jogadores de uma excelente craveira técnica e tanto é capaz de jogar aberto e com velocidade como esperar por uma jogada de contra-ataque para arrumar com o jogo. Portugal tem atributos que não nos deixam atrás. Daí que seja tentado a dizer que o que irá fazer a diferença no próximo jogo, mais do que a sorte, será a inteligência, o acerto no passe e nas marcações e a confiança na hora do remate.

Penso que Fernando Santos já terá feito todas as experiências necessárias, assim o espero, e neste momento a constituição da equipa não deverá oferecer dúvidas. Rui Patrício, apesar das suas habituais limitações, tem estado bem e não foi ele quem comprometeu, apesar de no jogo com a Hungria me ter parecido que por duas vezes se fez demasiado tarde à bola. Ou não viu a bola partir ou está a precisar de mudar as lentes. De qualquer modo é para continuar. E a defesa que ontem jogou no essencial deverá manter-se. No essencial porque se Eliseu voltar ao banco ninguém se espantará. Ontem, por duas ou três vezes lançou-se no ataque desguarnecendo o seu sector. Quando isso aconteceu procurou recuperar, mas valeu que foi sempre convenientemente dobrado. Eliseu é um poço de força, mas esta não é a maior amiga do talento e da classe. Vieirinha pode fazer muito mais e melhor. Os centrais estiveram num nível superior ao dos jogos anteriores, não obstante as dificuldades que Ricardo Carvalho tem em disfarçar os anos que leva em cada perna.

A exibição de ontem voltou a mostrar as insuficiências da equipa e a falta de inteligência e eficácia no miolo. William Carvalho continua a ser um jogador desengonçado, que tem dificuldade em fazer passes à flor da relva, levantando muitas vezes a bola sem qualquer sentido, no que está bem acompanhado por Pepe. Ambos falham passes e  comprometem sem jogadas sem necessidade e apenas porque não pensam. Carvalho defende melhor do que ataca, o que pode ser um problema quando se precisam de golos como de pão para a boca. André Gomes é um jogador de muita classe, só que também ainda não conseguiu encontrar o equilíbrio. Frente à Hungria voltou a falhar passes mas ficou com o mérito de ter sido o primeiro a fazer um remate digno desse nome à baliza adversária. Pode fazer muito mais e seria bom que o fizesse rapidamente. Moutinho entrou claramente em fase descendente e é hoje a sombra do excelente jogador que foi. Falha passes como se fosse um William Carvalho, falta-lhe pulmão, está lento, sem ritmo. Deve ficar no banco. Renato Sanches já devia ter merecido mais minutos nos jogos anteriores. Perdeu uma bola junto à linha lateral que não podia ter perdido, mas bolas como a que perdeu também já as vimos Ronaldo, Nani, João Mário e Quaresma perderem, não tendo estes sido alvo da chacota que aquele mereceu nas redes sociais. Ontem pediu muitas vezes a bola sem que esta lhe fosse passada, já que João Mário e William Carvalho preferiam jogar entre si e ignorar o companheiro que pedia a bola. Quando pôde, Renato Sanches mostrou que fazia a diferença, quer a atacar quer a defender. Os aplausos de Ronaldo às suas aberturas não levantam dúvidas sobre o seu valor, já que os fora-de-jogo não são da sua responsabilidade. João Mário esteve francamente melhor do que nos jogos anteriores, embora não tenha mostrado ainda ser o jogador que o seu clube apregoa. Danilo foi apenas mais um, enquanto lá na frente Nani, Ronaldo e Quaresma estiveram bem. Ronaldo não jogou pior nem melhor, simplesmente não teve o azar dos jogos anteriores. Concretizou, cumpriu marcou dois golos, não se lhe pode pedir mais. Pareceu estar mais concentrado e isso é bom. Nani dá a ideia de se cansar depressa, havendo momentos em que desaparece do jogo. Quaresma merece a oportunidade de ser titular contra a Croácia paras se ver se rende mais quando os outros também estão frescos. Tanto ele como Renato Sanches criam muitos problemas aos adversários e é um desperdício deixá-los no banco durante a primeira parte dos jogos.

Um ponto que Fernando Santos deverá rever é a marcação de livres. Como há dias era sublinhado numa estatística, Ronaldo não consegue marcar um golo de livre. Ultimamente são mais as vezes que lhe saem mal do que aquelas em que a bola vai à baliza com perigo. Talvez não fosse mau de vez em quando dar oportunidade a outros para marcarem os livres. Podia ser que se perdessem menos bolas para as bancadas.

Vamos, pois, aguardar, fazendo votos de que a exibição verde-água de ontem possa dar lugar a um jogo exuberante, com raça e inteligência. Um jogo vermelho-vivo, cor de fogo, que nos catapulte para os quartos de final. Como se exige e se espera de uma grande equipa que prometeu mundos e fundos aos seus adeptos. 

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As melhores praias portuguesas (7)

por Pedro Correia, em 22.06.16

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 Moledo (Caminha)

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As melhores praias portuguesas (6)

por Pedro Correia, em 21.06.16

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Porto Santo

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As melhores praias portuguesas (5)

por Pedro Correia, em 20.06.16

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Praia Verde (Castro Marim)

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As melhores praias portuguesas (4)

por Pedro Correia, em 19.06.16

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Odeceixe (Aljezur)

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As melhores praias portuguesas (3)

por Pedro Correia, em 18.06.16

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Baleal (Peniche)

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As melhores praias portuguesas (2)

por Pedro Correia, em 17.06.16

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Quiaios (Figueira da Foz)

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Navegar é preciso

por Pedro Correia, em 16.06.16

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Filho e neto de emigrantes, com familiares espalhados por quatro continentes, aos 25 anos eu próprio emigrei. Tinha emprego em Portugal, tinha aquilo a que hoje se chama uma "carreira" por cá. Mesmo assim, emigrei. Passei dez anos longe do País. Regressei com horizontes mais largos, novos conhecimentos, uma enriquecedora experiência profissional adquirida junto de gente com crenças, culturas e línguas diferentes. Foi uma etapa insubstituível da minha vida que jamais esquecerei. Depois, quando colegas mais jovens confrontados com desafios profissionais além-fronteiras me pediam opinião sobre a opção a tomar, sempre os incentivei a partir também. Alguns confiaram no que lhes disse, nenhum deles lamentou ter feito a mala e demandado outras paragens. A vocação universalista dos portugueses confirma-se nesta constante procura de novos horizontes: somos capazes de edificar o nosso lar em qualquer recanto do mundo.

Por tudo isto, venho acompanhando com perplexidade o debate em curso sobre o novo ciclo de emigração eventualmente aberto aos portugueses. Descendentes não dos que partiram mas dos que ficaram, muitos dos que agora se insurgem contra esta perspectiva eram os mesmos que há meia dúzia de anos recomendavam que Portugal devia receber de braços abertos imigrantes oriundos das mais diversas origens, sugerindo até que esse fluxo migratório permitiria salvaguardar a segurança social pública nacional. Alguns deles foram assistindo nos últimos anos sem um esgar de espanto à contínua partida de compatriotas para Angola, onde passaram a residir mais de 150 mil portugueses. São os mesmos que só agora lamentam o facto de haver jovens prontos a trabalhar a milhares de quilómetros do habitual local de residência de pais e avós. Não entendo a contradição: por que motivo havemos de saudar a imigração e chorar a emigração?

Faz-me impressão esta visão paroquialista do mundo contemporâneo que pretende ver cada povo arrumado no seu reduto. António Costa, por exemplo, anda a ser muito criticado por ter apontado França como possível destino de professores portugueses. Como sucedeu a Passos Coelho antes dele. Esquecem tais críticos que vários países são o que são também porque noutras épocas, já recuadas, houve outros portugueses que lá chegaram - quando ainda nem países eram. Basta pensar no Brasil.

Nada mais óbvio: os países lusófonos e os nossos parceiros comunitários, tal como nós inseridos no Espaço Schengen, são um destino natural para qualquer cidadão deste vasto espaço cultural e afectivo alicerçado no idioma que nos é comum ou na cidadania europeia que nos irmana a 27 Estados. Porque haveria isso de ser motivo de controvérsia pública?

Situar as questões no seu contexto é um dos requisitos básicos para um debate político civilizado e construtivo. O resto é ruído.

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As melhores praias portuguesas (1)

por Pedro Correia, em 16.06.16

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São Rafael (Albufeira)

 

Reedito a partir de hoje uma série que mantive no DELITO DE OPINIÃO no Verão de 2009

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Prato requentado

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.06.16

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"Não fizemos um jogo brilhante mas sim um jogo médio-baixo. Faltou-nos uma melhor decisão no terço final, nos cruzamentos e nas acelerações do jogo. Tínhamos obrigação de fazer mais porque tínhamos de desestabilizar a Islândia jogando [nas] entrelinhas e com acelerações de jogo" - Fernando Santos 

 

O Pedro Correia já aqui referiu a apatia manifestada em Saint-Étienne pelos portugueses que ali se deslocaram para apoiarem a equipa das quinas. Eu acredito que se não tivéssemos a comunicação social que temos, que delira antes dos jogos de cada vez que um técnico ou jogador estrangeiro diz que Portugal é uma equipa muito forte e que os seus jogadores são os melhores do mundo, e que se não se vivesse tanto o jogo virtual, como se fosse o real, fazendo do futebol a panaceia de todas as nossas desgraças, talvez fosse mais fácil ter outra atitude em campo e se tornasse desnecessário o seleccionador nacional vir dizer o óbvio.

Quem em casa já tinha visto correr irlandeses, polacos, galeses, belgas, suíços ou húngaros, só para dar alguns exemplos, estaria seguramente à espera que a Selecção Nacional tivesse entrado no jogo com a Islândia com outra garra, com outra precisão no passe, outro fulgor no remate, não perdendo infantilmente bolas pela linha lateral, não atirando bolas de qualquer maneira para as bancadas, demorando menos tempo a armar o remate na hora da verdade, adornando menos os lances junto à área adversária, jogando mais pela relva e menos pelo ar, discutindo menos as decisões dos árbitros, enfim, não se deixando cair ao mais leve toque e, em especial, não se mostrando fiteiros e afastando-se da imagem de que estão sempre à espera do apito do árbitro para assinalar uma falta muitas vezes inexistente.

Fernando Santos tem a noção dos problemas e das dificuldades, mas parece que não conseguiu transmitir isso aos seus (nossos) jogadores. Em todo o caso, será bom dizê-lo, a equipa é a de todos nós. As escolhas é que são as dele e, pelo que se viu, as de ontem não terão sido todas as mais acertadas. Todos têm momentos menos felizes e esperamos que o de Fernando Santos se tenha esgotado já. Muitos jogadores estiveram abaixo daquilo que é normal, mas de outros todos temos a noção de que não é expectável que possam vir a render mais, seja pela falta de jeito ou pela má época que fizeram, compreendendo-se mal como puderam ter sido primeiras escolhas.

De qualquer modo, nada está perdido. Não se faça do resultado de ontem um drama, já que esta também não é a primeira vez que as coisas não começam tão bem como o desejado. E espera-se que já no próximo sábado se endireitem, que não falte uma voz forte nas bancadas e que o treinador e os jogadores sejam capazes de rectificar o que de mal fizeram no jogo com a Islândia, deixando uma melhor imagem e assumindo um estatuto mais adequado aos seus pergaminhos, às promessas que nos foram feitas e às expectativas que legitimamente todos temos. Quanto mais não seja pelo tempo de antena e espaço nos jornais que lhes tem sido dado. E, por favor, não queiram fazer de Ronaldo o patinho feio. Uma equipa faz-se de onze jogadores e os que começaram o jogo no banco também contam, ainda que as suas tatuagens, os seus tiques ou os penteados que exibem não sejam os mais populares.

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Um europeu sereno

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.06.16

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 Aqui já se joga.

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Vícios privados, públicas virtudes

por José António Abreu, em 09.06.16

Brada-se há quase uma década (o tempo voa, mesmo quando não nos divertimos) contra o salvamento dos bancos pelos contribuintes. Justificadamente, admita-se. Os erros de gestão foram gigantescos, quando não criminosos. Todavia, a irritação pareceu e parece dirigir-se apenas ao salvamento dos bancos privados. Pouca ou nenhuma comoção se detectou ou detecta na sequência dos aumentos de capital da Caixa Geral de Depósitos, igualmente realizados à custa dos contribuintes (como se sabe, o próximo é de 4 mil milhões de euros). Ora a CGD até constitui o banco-refúgio dos portugueses; imagine-se a situação em que estaria sem todos os depósitos que esse estatuto lhe proporcionou. Ainda assim, e ao contrário do que se passou no BPN, no BES e no BANIF, cenários de venda ou de resolução encontram-se afastados e os actos da gestão não irritam vivalma nem (cruz credo) constituem fundamento para inquérito parlamentar. Sem grande oposição, o governo propõe-se até subir os ordenados dos administradores.

Mas não espanta. Em 2011 como nos anos seguintes, também ninguém pareceu irritar-se com o salvamento da totalidade do sector público, tão mal gerido e tão falido como os bancos, pelos contribuintes. Fica evidente que a má gestão privada desagrada muito mais do que a má gestão pública - certamente porque a primeira é motivada pelo lucro enquanto a segunda (ouvem violinos?) decorre quase sempre de boas intenções. (Na verdade, nem sequer se trata de desagradar mais ou menos; imensa gente defende com entusiasmo a gestão pública ruinosa: basta ver o que se passa em torno da «geringonça».) E, claro, fica também (ainda mais) evidente a diferença no nível de respeito suscitado pelos trabalhadores de um e outro sector. Como já se viu com pessoal do têxtil, da construção civil ou da restauração, bancários de bancos privados atirados para o desemprego (muitos foram-no, outros estão a sê-lo) geram infinitamente menos empatia do que professores, enfermeiros ou maquinistas de comboio forçados a trabalhar com supressão de regalias e cortes moderados em salários globalmente simpáticos.

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O mar e os submarinos

por Alexandre Guerra, em 30.05.16

Os portugueses adoram o seu mar, orgulham-se dele e banham-se nele. Os políticos, académicos, jornalistas e toda a alma pensante cá do burgo vêem no imenso oceano a salvação do País, tal como já o foi nos tempos em que corajosos aventureiros nas suas caravelas se fizeram à vida para outras paragens. Ao fim e ao cabo, é o mar que faz de Portugal um país especial no contexto europeu e mundial e que, apesar de tudo, lhe deu uma dimensão geopolítica e geoestratégica relativamente significativa no sistema internacional, se se tiver em consideração a pequena dimensão do país. Naturalmente, que essa importância foi evoluindo de acordo com as contingências históricas, no entanto, basta recuarmos um pouco até à II GM para se perceber facilmente a relevância que o mar português teve para os Aliados. Já durante a Guerra Fria, essa importância manteve-se, materializada com a entrada de Portugal na NATO enquanto membro fundador daquela organização. Sem correr grande risco de exagero, pode dizer-se que, atendendo à extensa faixa costeira de Portugal Continental e dos respectivos arquipélagos, o nosso país foi sempre uma espécie de "guardião" de parte do Atlântico Norte, sobretudo no que diz respeito à sua imensa Zona Económica Exclusiva (ZEE), uma das maiores do mundo e que poderá aumentar, caso as Nações Unidas reconheçam os argumentos das autoridades nacionais para a extensão da Plataforma Continental portuguesa.

 

A questão principal, e um pouco à semelhança do que aconteceu no século XIX com o princípio da "ocupação efectiva" imposto aos governantes portugueses no território africano, não basta que políticos e cidadãos em geral olhem para o mar e digam que ele é bonito e que providencia boas sardinhas. É preciso exercer soberania efectiva sobre a actual ZEE, porque só dessa forma se pode potenciar e proteger os seus recursos de todo o tipo de ameaças. Este é um ponto fundamental e que, à luz daquilo que se vai lendo e vai ouvindo, não parece ainda estar bem percebido. Os anos passam, mas continuam a ser habituais os artigos de imprensa (como ainda esta Segunda-feira) sobre os tão polémicos submarinos, Arpão e Tridente, que estão ao serviço desde 2010. As suas despesas de manutenção são um tema recorrente, como se o erário público estivesse a ser usado para divertimento de alguns almirantes. Na verdade, trata-se de uma abordagem pouco acertada por parte da nossa "intelligentsia", já para não falar do povo, geralmente menos sabedor destas coisas. Mas admite-se que parte do problema está no facto dos Governos envolvidos na compra dos submarinos (e foram tanto do PS como do PSD) nunca terem tido a arte de explicar objectivamente as razões estratégicas que sustentaram a aquisição daqueles equipamentos. Porque, efectivamente, existiam e existem razões válidas e importantes à luz dos interesses nacionais que mereciam ser conhecidas pelos portugueses. 

 

É certo que Portugal actualmente não tem os problemas de outros países no que diz respeito à disputa militar de territórios insulares, sendo que aqui o território está claramente demarcado em relação aos seus vizinhos mais directos, Espanha e Marrocos. No entanto, muitos outros problemas surgem nas águas portuguesas directamente relacionados com questões de soberania e de interesse nacional. É certo que em termos geoestratégicos e geopolíticos o conceito de soberania vai hoje muito além do território físico do Estado, porém, a sua defesa e o seu controlo efectivo continuam a ser vectores basilares para qualquer Governo responsável. E aqui Portugal tem uma missão hercúlea na defesa do seu espaço marítimo. Uma defesa feita a vários níveis, tais como militar, económico, ambiental e até mesmo social. A vertente militar no sentido mais clássico está hoje mais atenuada, sobretudo depois do fim da Guerra Fria. Em contrapartida, assistiu-se nos últimos anos a uma ameaça crescente aos interesses económicos, ambientais e sociais de Portugal no mar.  

 

A defesa da economia do mar deve merecer a maior atenção por parte das autoridades portuguesas porque quanto menor for o controlo do seu território marítimo, maior serão as delapidações dos recursos feitas por terceiros, como acontece com as pescas. Além das imposições de quotas legais de Bruxelas, os portugueses certamente que desconhecem as incursões ilegais feitas por embarcações de pesca espanholas e marroquinas em águas portuguesas. Dizia há uns anos uma fonte militar ao autor destas linhas, que até "histórias de tiro" costumava haver entre embarcações de patrulha e de vigilância portuguesas e barcos de pesca espanhóis e marroquinos.

 

O controlo e a vigilância dos mares assume hoje uma particular importância na defesa do ambiente e neste capítulo Portugal tem uma enorme responsabilidade. O caso da tragédia ambiental de 2002 na Galiza, provocada com o derrame de petróleo do Prestige, é um bom exemplo de como os interesses nacionais foram ameaçados no mar. A determinada altura do processo de gestão de danos, no qual a Espanha estava sem capacidade de resposta, Portugal foi obrigado a intervir com a sua marinha para evitar que os espanhóis "empurrassem" o Prestige para as águas nacionais. Este foi um episódio muito grave, mas muitos outros casos há. A existência de uma capacidade naval forte é totalmente justificada quando se tem uma ZEE que é corredor de passagem para todo o tipo de navios de várias partes do mundo. É por isso vital que a Marinha portuguesa esteja atenta contra todo o tipo de ameaça à integridade ambiental do seu território, tais como pequenos derrames, lavagens de tanques, despejo de detritos no oceano, e por aí fora. 

 

Muito do trabalho preventivo e reactivo que é desempenhado pela Marinha a este nível (e também por outros ramos, como é o caso da Força Aérea) não é do conhecimento público e, seguramente, não é valorizado quando as pessoas se banham alegremente nas águas limpas das belíssimas praias portuguesas de Norte a Sul do país. Ou então, quando diariamente chega às lotas portuguesas o pescado que delicia os portugueses e alimenta uma boa parte da economia. Para garantir a integridade do mar, é preciso muito esforço e investimento. Custa dinheiro e que ninguém tenha qualquer dúvida disso. 

 

Socialmente, a defesa do mar é também um pilar basilar dos interesses nacionais. O combate à imigração ilegal, ao tráfico humano ou ao contrabando de armas e de droga tem de ser uma obrigação do Estado português. Trágicas realidades para a qual a Marinha portuguesa tem de estar preparada para as enfrentar. Um Estado responsável e desenvolvido deve ter em consideração todos estes factores. Mesmo no que diz respeito aos compromissos militares propriamente ditos, Portugal deve estar dotado de capacidade naval para dar resposta aos compromissos internacionais, como o tem feito exemplarmente, inclusive com o Arpão e o Tridente, que nestes seis anos de actividade já participaram em inúmeros exercícios e missões, algumas das quais de combate ao terrorismo. Os submarinos não devem ser vistos como realidades isoladas, mas sim como parte de um modelo naval ajustado aos desafios do século XXI, no qual todos os tipos de navios, embarcações e sistemas de vigilância costeiros se complementam. 

 

Publicado originalmente em O Diplomata

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Ser Presidente até ao último dia

por Alexandre Guerra, em 28.05.16

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Barack Obama na Sala Oval, 19 de Maio (Foto: White House/Pete Souza) 

 

Num dos episódios da realista série The West Wing, com o título "365", a equipa da presidência de Josiah Bartlet (Martin Sheen) vê-se confrontada com a inevitável aproximação do final do segundo mandato, num misto de nostalgia, desmotivação e desânimo. Normalmente, os poderes executivos, sejam Governo (em sistemas parlamentares ou semi-parlamentares) ou chefes de Estado (sistemas presidencialistas), olham para os últimos tempos de funções como um mero cumprimento de calendário, aguardando passivamente o dia em que os seus sucessores lhes tomem o lugar. Regra geral, a um, dois anos do término do mandato, há uma espécie de ideia tácita que pouco já nada há fazer, adiando-se grandes decisões e políticas para o próximo Executivo. Em países como Portugal, por exemplo, existe um consenso político-partidário em que os governantes que se encontrem nessa situação, ou seja, com a porta da rua semi-aberta, já não podem ousar assumir grande protagonismo, correndo o risco de serem acusados de estarem a condicionar o trabalho dos seus sucessores. 

 

Mas a verdade, é que um primeiro-ministro ou um Presidente está de plenos poderes até ao último dia do mandato e, como tal, deve exercê-los com a mesma determinação e convicção como se estivesse a iniciar funções. Nesse episódio aqui referido, e perante o "baixar de braços" do Presidente e de quase todo o "staff", conformados com o fim à vista do seu mandato, entra em cena Leo McGarry (John Spencer), chefe de Gabinete da Casa Branca, experiente e sábio, que, num discurso emotivo, lembra à sua equipa que ainda faltam 365 dias para o mandato terminar e que em cada um destes dias eles tinham o poder, como mais ninguém tinha, de fazer algo pelo bem comum.  

Como em tantas outras passagens daquela série, também esta parece ter sido premonitória em relação ao que Barack Obama viria a fazer (e está a fazer) nos seus dois últimos anos de mandato, aproveitando todas as oportunidades para fazer história. Acordo do clima de Paris, Tratado Trans-Pacífico, reatamento das relações diplomáticas com Cuba, reaproximação ao Irão e agora a visita a Hiroshima, são apenas alguns eventos da agenda externa de Obama dos últimos meses, carregados de significado e importância histórica. Também a nível interno, Obama tem mantido uma actividade política constante, até porque ainda tem alguns dossiers da máxima importância para resolver. Tudo leva a crer que nestes meses finais Obama não irá abrandar a sua acção governativa. E caso isso se confirme, é assim mesmo que deve ser... Presidente até ao último dia.      

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Ponto de divergência

por José António Abreu, em 16.05.16

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 Bate tão certo que até parece mentira.

 

Fonte: BCE.

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Bafio

por José António Abreu, em 25.04.16

Alexandre Homem Cristo tem razão. Quarenta e dois anos depois, o 25 de Abril corporiza a resistência à mudança. Transformado em dogma, não apenas constitui pecado mortal equacionar hipóteses que lhe possam diminuir o simbolismo – p. ex., que parte das conquistas obtidas desde então se devem a factores apenas indirectamente com ele relacionados: o acesso aos fundos europeus possibilitado pela adesão à UE, a irresponsabilidade orçamental permitida pela adesão ao euro – mas, acima de tudo, evoca-se para defender o status quo. Os portugueses podem estar mais viajados e ter acesso aos mesmos livros e às mesmas séries que se lêem e vêem no exterior mas, tirando meia dúzia de jovens – especialmente empresários –, o Portugal de hoje permanece o Portugal de 1973: conservador, assustado, fechado à realidade e à mudança. Um país onde se trocaram ilusões de grandeza imperial por ilusões de riqueza imediata e sem esforço. Um país que (à imagem da época pós-Marquês de Pombal) trocou a falta de democracia pela falta de rigor. (Como é possível que apenas sob dois déspotas Portugal tenha crescido de forma sustentada?) As grandes diferenças entre 1973 e 2016 não se encontram pois na mentalidade. Encontram-se no número – hoje muito superior – dos que se alimentam do poder ainda e sempre sufocante do Estado (agradeçam-no aos fundos comunitários e à dívida) e na identidade dos respectivos parceiros ideológicos: antes, uma direita bafienta; hoje, uma esquerda que – apesar de todas as «causas fracturantes» – não o é menos.

Dir-me-ão que posso escrever textos como este. Sim, resta a liberdade. É a liberdade que eu agradeço ao 25 de Abril. Ciente de que muitos dos que o fizeram – ou dele se apropriaram – não a tinham como objectivo. Ciente de que, assentes no poder da captação e alocação dos recursos e das noções do politicamente correcto – como antes o Estado Novo se servia da Igreja, da noção de moral e do conceito de Pátria –, os seus descendentes agem para que seja cada vez mais difícil escrevê-los.

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O mausoléu sindical

por Diogo Noivo, em 20.04.16

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O Público noticia hoje que a CGTP perdeu cerca de 64 mil afiliados nos últimos quatro anos. Na UGT, segundo Carlos Silva, foram 80 mil. Note-se, contudo, que esta sangria não é um problema exclusivamente português. Em Março deste ano, a revista Cambio 16 publicou uma interessantíssima reportagem sobre as estruturas sindicais em Espanha e o panorama não é diferente: em conjunto, as duas grandes centrais sindicais – Confederación Sindical de Comisiones Obreras (CC.OO.) e Unión General de Trabajadores (UGT) – perderam 400 mil afiliados durante a crise.

 

À primeira vista, parece um contra-senso. O aumento do desemprego, da precariedade, o enfraquecimento da negociação colectiva e as reformas laborais que recortaram “direitos adquiridos” deviam fortalecer as estruturas sindicais, não só em número de associados, mas também em força política. Porém, enquistados num espaço e num tempo que não é o de hoje, os sindicatos portugueses e espanhóis existem sobretudo para trabalhadores com contratos estáveis e do sector público. Em declarações à Cambio 16, Andrew J. Richards, docente na Universidade Carlos III, afirma que, directa ou indirectamente, as receitas sindicais provêm do Estado, razão pela qual as centrais sindicais estão pouco interessadas em abranger precários, contratados a termo e desempregados. E por isso minguam.

 

Sendo o problema comum aos dois países, seria expectável que as reacções sindicais de ambos os lados da fronteira fossem semelhantes. Mas não. Há um mundo que separa Portugal e Espanha.

 

Fernando Lezcano, secretário para a organização e comunicação nas CC.OO., faz o acto de contrição e concede que foram cometidos erros. Reconhece que as últimas greves gerais prejudicaram os sindicatos. Admite que a representação sindical aumenta consideravelmente conforme aumente o tamanho da empresa, assumindo que o sucesso dos sindicatos passa por enquadramentos legais e financeiros que beneficiem as empresas. A este respeito, Lezcano acaba por reconhecer também que os sindicatos espanhóis estão presos a uma economia de grandes empresas, sendo portanto obsoletos num país onde proliferam PME e startups. O dirigente das CC.OO. assume ainda que as centrais sindicais têm que se repensar para incluir trabalhadores precários, trabalhadores a tempo parcial, desempregados e voluntários (uma forma de trabalho que, segundo a inefável Catarina Martins, é “uma treta”). Concluindo, e como disse Fernández Toxo, secretário-geral das CC.OO., ou a central sindical se reinventa ou “se la lleva el viento de la historia.”

 

Já em Portugal lança-se mão à adversativa. Graciete Cruz, membro da comissão executiva da CGTP e responsável pelo departamento de organização, atribui a culpa pela redução de afiliados à crise, mas destaca outros sectores onde o saldo entre os que saíram e os que entraram é positivo. Ponto. Tudo está bem no reino sindical português. Resta saber se acabará bem.

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O absurdo no trato

por Diogo Noivo, em 10.04.16

Tenho um amigo madrileno que foi professor de espanhol (castelhano, para os puristas) em Lisboa. Após anos a leccionar em países como França, Inglaterra, Hungria e Polónia, a profissão trouxe-o à nossa capital. Dos vários países onde andou, Portugal era o preferido da sua mãe. Pela proximidade a Espanha e consequente facilidade de estar com a família, pensei. Mas não. A razão era outra. De todos os países por onde o filho passou, incluindo o país onde nasceu, este era o único onde ele, licenciado em História, era tratado por doutor. Do cartão de débito à conta da luz, o ‘dr.’ português cobria o seu querido filho de merecida glória.

 

Mais do que um sinal de provincianismo serôdio, que o é, o apego irrefreável a títulos académicos é talvez a face mais visível de um preconceito de classe que teima em não desaparecer. Podia aqui introduzir copiosos apontamentos profissionais. Por exemplo, reuniões onde quem presidia apresentou o Dr. X, o Eng. Y, o Arq. Z e o senhor (muita ênfase em “senhor”) Manuel Silva. Isto é, ainda antes do início das hostilidades, fica claro que há macacos de primeira e de segunda e, caso houvesse dúvidas ou resistências, a apresentação encarregou-se de distribuir uns e outros pelos respectivos galhos. À medida que a reunião avança, os Dr., Eng. e Arq. exibem uma resistência digna de vigas estruturais, enquanto o Sr. e o respectivo apelido são atirados às malvas, sobrando apenas um Manel abandonado. Já na universidade, porque o uso de títulos académicos aí se justifica, a altivez é por vezes levada a níveis de pedantismo raras vezes vistos noutras paragens. Na política, segundo a opinião publicada, abdicar conscientemente da potestade doutoral indicia um tipo de parolice que só pode vir de um estrangeirado.

 

Há quem encontre a origem desta prática em mais uma herança do Estado Novo. Percebo, mas julgo tratar-se um problema de sexo. Embora o fenómeno não tenha um exclusivo de género, a obsessão pátria com os títulos académicos é essencialmente masculina – poucas são as mulheres que conheço que se preocupam com isto. Assim sendo, só vejo uma explicação possível: um complexo de Édipo mal resolvido. Ao licenciarem-se, os homens portugueses ouvem com entusiasmo o orgulho das respectivas mães, avós e tias, normalmente expresso na frase “Ai que o meu rico menino já é dr!”. Daí em diante, e não obstante a passagem do tempo transformar os ricos meninos em pedantes velhinhos, o ego dos homens licenciados permanece ancorado à necessidade de agradar às respectivas mãezinhas. A ostentação do título académico resultará, portanto, de uma legião de intelectos masculinos parqueados na etapa fálica do desenvolvimento psicossexual.

 

Paulo Rangel propôs no último Congresso do PSD pôr fim ao uso de títulos académicos. Como é óbvio e bem assinala o Luís Menezes Leitão no i, fazer disto a única proposta fracturante que se apresenta a um congresso onde, por vontade própria, se esperava crítica é, no mínimo, não ter noção do ridículo. Mas continuarmos a alimentar uma forma de trato que resulta da fragilidade freudiana de egos sequestrados pelas nossas mãezinhas não é menos absurdo.

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"Vivemos só na espuma dos dias"

por Pedro Correia, em 07.04.16

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  Foto: Nelson Garrido

 

Faz falta mais clareza de opiniões na nossa vida cívica, nos nossos meios culturais e nos nossos debates políticos. Pensei nisto ao fim da tarde de hoje, no auditório da Biblioteca Nacional, enquanto assistia ao lançamento do mais recente livro de Manuel Alegre, intitulado Uma Outra Memória. Um livro com notória carga confessional, em que o autor de Senhora das Tempestades percorre na sua prosa límpida diversos episódios da sua biografia pessoal, da sua vida literária e da sua intervenção política. Com saborosos e expressivos retratos de figuras tão diversas como Sophia de Mello Breyner, Amália Rodrigues, Humberto Delgado, Pedro Homem de Melo, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Fernando Assis Pacheco, Eugénio de Andrade, José Afonso e Herberto Helder, entre vários outros.

Numa breve intervenção, após detalhada apresentação da obra por José Manuel dos Santos, Alegre fez um vibrante apelo à generalização do "estudo da História" - vital, como sublinhou, neste tempo de dispersão colectiva à mercê dos impulsos momentâneos das redes sociais, tão fugazes como ondas que se dissipam na superfície das praias.

"Há hoje uma grande crise de memória. Vivemos todos apenas na espuma dos dias", declarou o poeta, reclamando contra os "inaceitáveis preconceitos" que nos levam a ocultar factos estruturantes do nosso percurso como antiga nação de corpo inteiro: "Ninguém fala de Aljubarrota para não chatear os espanhóis."

Quantas pessoas se expressam em Portugal com tanta clareza nos dias que vão correndo?

Felizmente Manuel Alegre, em vésperas de festejar 80 primaveras, foge à regra e insiste em falar sem comer vogais nem mutilar consoantes ou ocultar ideias. Que nunca a voz lhe doa.

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Manhã de luz

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.03.16

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(foto: lifestyle.sapo.pt)

 

Jurou emocionado e sem tremer. Portugal tem um novo Presidente da República.

É uma excelente notícia neste quase início de Primavera. Mais do que isso, é um sinal de esperança confirmado pela sondagem da Aximage/CM divulgada esta manhã: 89% dos portugueses espera um mandato melhor do que o do seu antecessor. Uma esperança de 89% é uma grande esperança.

Que os ventos corram de feição ao novo Presidente da República. E vão correr com toda a certeza. Porque Portugal e os portugueses têm o direito de voltar a viver a democracia em condições de normalidade. E de ver a luz das suas manhãs sabendo que têm de trabalhar e de ser muito melhores sem terem medo da sua sombra e dos mercados.

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A terceira categoria

por José António Abreu, em 07.03.16

Como muitos outros antes dela, talvez Maria Luís Albuquerque não devesse poder aceitar o cargo que aceitou. Porém, mais lamentável do que ela tê-lo feito - às claras e aparentemente sem infringir a lei - é, uma e outra vez, estes casos apenas servirem propósitos de demagogia barata. As promiscuidades devem ser investigadas (desde logo, beneficiou Maria Luís Albuquerque a Arrow Global enquanto ministra?) e é provável que a lei das incompatibilidades deva ser alterada - mas não no sentido do populismo defendido pelo Bloco de Esquerda. Afinal, em que poderá trabalhar um ex-ministro das Finanças se lhe for vedado o acesso ao sector financeiro? Que cargo poderá aceitar um ex-ministro da Economia se a gestão de empresas privadas (a ninguém parece incomodar que possa ir contratar swaps para uma entidade pública) lhe for interdita? (Pense-se em António Pires de Lima, por exemplo.) A que actividade poderá dedicar-se um ex-ministro da Justiça se os escritórios de advocacia (e há imensos negócios cinzentos em torno deles) constituírem terreno onde não possa entrar?

Cair no populismo de impedir ex-governantes de trabalhar em empresas do sector que tutelaram nos seis anos subsequentes ao abandono do governo (como o Bloco pretende) faria com que este constituísse cada vez mais um feudo de profissionais da política, sem outra visão do mundo que a da «distrital», dos cargos públicos e dos jogos de solicitação e distribuição de benesses. Hoje mesmo, quase só aceitam integrar o governo três categorias de pessoas: as que têm posses suficientes para não ficarem demasiado incomodadas com a perda de rendimento; as que, podendo ter currículo e até boa vontade, esperam lucrar após a saída; e as que, tendo feito toda a «carreira» nos meandros da política, não ganhariam mais noutro lugar e para quem os «benefícios», obtidos durante e/ou após o desempenho do cargo, constituem frequentemente objectivo de vida. Uma lei das incompatibilidades decente necessita de conjugar eventuais «períodos de nojo» com formas de os compensar e com aumentos remuneratórios ou os governos ficarão definitivamente reduzidos a elementos da terceira categoria (sim, há aqui um duplo sentido). A categoria onde muitas vezes são colocados Pedro Passos Coelho e António Costa, onde «vultos» como João Soares têm assento cativo, e onde também encaixam os principais líderes do Bloco de Esquerda.

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Uma sina

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.02.16

"Exercer o poder, em Portugal, foi sempre a capacidade para satisfazer clientelas, com truques como as alterações às leis orgânicas, como forma de criar um álibi formal para poder concretizar mudanças nas chefias. Nenhum - repito, nenhum! - ciclo político português escapou até hoje a este lamentável tropismo."

 

Sempre actual e retemperadora, a leitura de Seixas da Costa

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As lapas são mais asseadas

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.02.16

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No dia 15/02/2016 foram as notícias sobre a Parque Expo, os cambalachos cristãos e mais uma salganhada em que o CDS-PP se envolveu à custa da sua presença no Governo de Passos Coelho. No dia seguinte, no Público, José António Cerejo pôs-nos ao corrente das contratações republicanas na Câmara de Lisboa. Logo a seguir vem mais um episódio da novela da TAP, por causa dos chineses da Hainan Airlines. Como não chegava a vergonha que foi o processo de privatização, agora cai-nos na sopa mais uma mosca, desta vez "patrocinada" pelo Governo de António Costa, fazendo-se de conta que ninguém sabia da existência de um acordo desde Setembro de 2015 entre os chineses e os que ficaram com a companha aérea nacional. Como se toda a gente, em Novembro de 2015, não soubesse já o que se estava a passar entre chineses e brasileiros. Até em Macau se sabia.

Não há um dia que os portugueses não sejam confrontados com estas surpresas, que de tão rotineiras se tornaram numa banalidade. Não há nada que seja claro, que seja realizado de forma limpa, transparente, explicado numa linguagem acessível a qualquer leigo, em termos tais que todos possam desde logo compreender e julgar os caminhos que o interese público e os governantes percorrem sem necessidade de esclarecimentos adicionais. Continua-se a "queimar etapas" e a "agilizar processos", mas fazêmo-lo seguindo por becos mal iluminados, por estreitas veredas, através de caminhos pantanosos, deixando que o lodo salpique os contratos que nunca vimos e que se entranhe no calçado com que marchamos. E o pior de tudo isto é que depois queremos que o lodo saia batendo com os contratos no tampo da secretária, esfregando os pés na calçada ou com uma condecoração do Presidente da República do tipo "Torre e Espada lava tudo".

As lapas podem ser arrancadas e, pelo menos, são limpas, autênticas e saborosas. O lodo pesa no calçado. E como não se descalçam à entrada de S. Bento ou de Belém, para não ficarem com os pés frios, deixam tudo patinhado.

 

(fica aqui mais um link para acerto de contas)

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O pavilhão do nosso descontentamento

por Ana Lima, em 13.02.16

Um dos carrinhos de supermercado estava cheio. O outro ainda podia levar mais algumas coisas. Para além desses dois carrinhos os pertences eram um conjunto de mantas e cartões dispostos de forma a tornar mais confortável aquele vão de porta. Num vão ao lado repetia-se o cenário. Sem carrinhos de supermercado desta vez. Eram dois homens. Pareciam ser eles os únicos ocupantes  do edifício (se é que se pode chamar ocupante de um edifício a quem só ocupa o vão de uma porta).

Saberão eles que aquele é por quase todos considerado um óptimo exemplar de boa arquitectura e boa engenharia em Portugal? Que depois da Expo 98 várias utilizações esporádicas se foram sucedendo? Que a Câmara Municipal de Lisboa já o considerou o espaço ideal para aí instalar um equipamento cultural? Que a Parque Expo, ao ser extinta, transferiu o edifício para o Estado? Que o Governo o transferiu para a Universidade de Lisboa que supostamente o transformará  num espaço dedicado à promoção cultural e científica? Que o próprio arquitecto Álvaro Siza Vieira, há uns anos atrás, chegou a dizer: "a solução mais lógica, depois de tantos anos passados, é demoli-lo"?

Saibam ou não provavelmente continuarão a dormir naqueles vãos. Pelo menos até que alguma das ideias que foram surgindo passem à prática. Quanto aos que passeiam sob a famosa estrutura continuarão a pensar que, pelo menos, no Verão, é muito agradável ter ali uma sombra. E isso, apetece dizer como no espaço de humor da TSF, já não é mau!

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Detenha-se a vítima

por José António Abreu, em 03.02.16

Por um lado, é de toda a conveniência que de vez em quando um político (deputado ou ex-deputado, governante ou ex-governante) seja apanhado pelas burocracias e incongruências do sistema de Justiça nacional; afinal, terá ajudado a criá-las. Por outro, que alguém seja preso por não ter comparecido numa diligência onde seria informado do seu «estatuto de vítima» é algo que faria Kafka rir às gargalhadas.

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Ora, o que é um salário mínimo de diferença?

por José António Abreu, em 19.01.16

Salário médio do sector privado: 1140 euros.

Salário médio do sector público: 1621 euros.

Pelo menos as 35 horas servirão para repor alguma justiça. Ah, espera...

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Eternos cultores do curto prazo

por José António Abreu, em 13.01.16

Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque propunham-se economizar nos juros, antecipando pagamentos ao FMI. Como José Sócrates e Teixeira dos Santos em 2009 (relembre-se a delícia que constituiu a renegociação dos contratos das PPP), Costa e Centeno preferem assumir mais juros e adiar o pagamento das dívidas. A partir de 2018 (terá entretanto ocorrido nova crise económica? Permanecerão os mercados de dívida abertos para Portugal? Será comportável o custo de a eles aceder?) logo se verá como pagar. Sendo improvável que os cofres continuem cheios, pode sempre exigir-se um perdão.

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Facto nacional de 2015

por Pedro Correia, em 03.01.16

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ACORDOS PARLAMENTARES À ESQUERDA

O facto nacional do ano - reconhecido por gente das mais diversas tendências políticas - foi a celebração de acordos entre António Costa e os líderes dos partidos situados à sua esquerda (BE, PCP e PEV) que permitiram ao PS formar Governo, empossado a 26 de Novembro.

Costa já havia referido, na campanha para as eleições legislativas de 4 de Outubro, a sua intenção de alargar o chamado "arco da governação" para incluir nele os comunistas e bloquistas, geralmente encarados apenas como militantes de partidos de protesto.

Os acordos de incidência parlamentar assinados a 10 de Novembro - em separado e sem a presença de jornalistas, numa sala fechada da Assembleia da República - permitiram a investidura de Costa como sucessor de Passos Coelho nas funções de primeiro-ministro, ainda que tivesse sido este o vencedor das legislativas, por maioria relativa. E mereceram o destaque do DELITO DE OPINIÃO, com 13 votos entre os 23 autores do nosso blogue que participaram nesta escolha (podendo cada um votar em mais que um tema).

 

O segundo acontecimento nacional mais mencionado (8 votos) foi a entrada em funções do XXI Governo Constitucional, que trouxe de regresso os socialistas ao poder, quatro anos depois.

Seguiram-se votos solitários nos seguintes factos: a polémica dos cartazes do PS durante a pré-campanha das legislativas; a "saída limpa" do programa de ajustamento financeiro; os 27 dias que marcaram a curtíssima duração do XX Governo Constitucional, liderado por Passos Coelho; a conquista do bicampeonato pelo Benfica; e a polémica transferência de Jorge Jesus para o Sporting.

 

Para o ano há mais votações. E talvez também mais transferências.

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

Facto nacional de 2014: derrocada do Grupo Espírito Santo

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Não concordo

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.12.15

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 (Miguel Baltazar/Negócios)

 

"O Governo é legítimo e não podemos continuar a falar dele como ilegítimo”

 

Penso que a senhora não está a ver bem o problema. Poder podem. E até penso que o ideal era deixá-los continuarem a discutir essa questão até à exaustão, até todos perderem o pio. Os que contestam a legitimidade do Governo e os que o apoiam e lhes dão o troco.

Porque a avaliar pelo debate da moção de rejeição do programa do Governo, pela compostura nas bancadas da oposição, pelas risadas, os apartes, o gozo, o palavrório das interpelações e o nível da linguagem da rapaziada das jotas, até parecia que tinham regressado todos às lutas académicas. Por momentos vi o Telmo Correia a discursar num dos anfiteatros da Faculdade de Direito de Lisboa, numa Assembleia de Representantes, nos idos de 80, a falar para a malta e a pedir uma recontagem dos votos do Costa e do Apolinário. E depois o chumbo da moção, os aplausos e a risada geral.

Um espectáculo que os portugueses devem ter sumamente apreciado, e comentado, enquanto emborcavam uma lambreta e comiam uns tremoços no Café do Zé. 

É sempre bom voltar à adolescência, é sempre bom recordar velhos tempos. 

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Sinais

por José António Abreu, em 03.12.15

1. Não vou discutir questões de pedagogia. Os exames do quarto ano podem ou não fazer sentido. Mas a inexistência de qualquer análise prévia à decisão de os eliminar, bem como a não implementação de outro método para avaliar escolas e professores, faz com que a pedagogia seja pouco relevante. Muitos pais aplaudirão: é menos «stresse» para os filhos e hoje em dia o mais importante é as crianças não sentirem «stresse», em especial porque ele se reflecte nos pais. Quase todos os professores e directores de escola aplaudirão: é menos um elemento de avaliação do seu trabalho. O novo ministro da pasta... Ora, o que importa o que o novo ministro pensa quando os superiores interesses do Bloco e do PCP se levantam?

 

2. Em 2012, Vítor Gaspar implementou a Lei dos Compromissos e Pagamentos em Atraso. O objectivo era forçar as entidades do sector público a pagar a horas. Desde então, a dívida global das autarquias reduziu-se para cerca de metade (1500 milhões de euros em vez de 3000 milhões) e o montante em dívida há mais de 90 dias caiu para menos de um quinto (300 milhões em vez de 1600 milhões). Agora, o recém-empossado secretário de Estado das Autarquias Locais (por extraordinária coincidência, ex-presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras) promete revê-la. Não se esperava outra coisa.

 

3. Ontem, no Parlamento, Costa respondeu às reservas de Jerónimo com a cristalina frase: «Aquilo que o PCP não está disponível para apoiar, é aquilo que nós não estamos disponíveis para propor». Já sabíamos que o programa do governo não é o mesmo que o PS levou às eleições onde foi derrotado. Já desconfiávamos que, mais do que uma obra do PS, será o que PCP e Bloco desejarem que seja. Ontem, Costa confirmou que as famosas «linhas vermelhas» são mesmo as do PCP.

 

4. Ainda ontem, ainda no Parlamento, o deputado do PSD Miguel Morgado citou um livro de Mário Centeno para ilustrar a contradição entre as ideias que este defendia para o mercado de trabalho e as ideias defendidas pelo governo que Centeno agora integra - e, com a sua pretensa imagem de seriedade, cauciona. A resposta do ministro foi a mais extraordinária de toda a sessão: «Não tente transpor conclusões de artigos científicos para a legislação nacional, porque se tentar fazer isso é um passo para o desastre.» Centeno admite pois ter andado a inventar e a defender modelos não passíveis de aplicação prática. Mais: estende esse carácter puramente teórico a qualquer conclusão de qualquer estudo científico. Seriedade? Não fosse a inconsciência, tê-la-ia pelo menos na assumpção da hipocrisia.

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Primeiro de Dezembro

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.12.15

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Aparentemente, é um problema sem solução. Nunca se sabe de onde parte, nem quem faz o favor de trazê-lo para a praça pública, mas sabe-se sempre onde acaba, normalmente escarrapachado na primeira página dos jornais, nas televisões a abrir os telejornais, ao que parece também com uma apetência especial por essa bíblia do jornalismo "popular" que diariamente derrama sangue, suor e fluidos vários sobre os seus leitores e os dos outros em nome da liberdade de imprensa.

Desta vez as vítimas foram Miguel Macedo e os arguidos do "caso dos vistos Gold". Espanta-me que os que ainda recentemente criticaram uma decisão judicial relativamente ao "caso Sócrates", e que acusaram os tribunais de quererem colocar uma mordaça no sacrossanto direito à informação, ainda não tenham vindo aplaudir a divulgação pública das imagens e dos registos áudio dos interrogatórios ao ex-ministro da Administração Interna e a Jarmela Palos.

Como também me espanta o silêncio desse artilheiro do oportunismo e da bagunça política, sempre pronto a disparar contra tudo o que mexa sem avental ou capa laranja, que num dos seus momentos de delírio dizia que um ex-primeiro-ministro só estava preso porque o seu partido estava no Governo. Presumo que, de acordo com a respectiva lógica, as sucessivas e cada vez mais graves violações do segredo de justiça, designadamente as verificadas no "caso dos vistos Gold" também só tenham ocorrido porque esse mesmo partido esteve no poder até ao passado dia 26 de Novembro.

Reafirmo, por isso mesmo, o que escrevi em 25 de Setembro pp., não retirando uma vírgula ao que ali ficou, pois que não é por agora os arguidos serem de outra cor política que como cidadão ou advogado iria ter uma apreciação diferente do que na essência está em causa.

A forma como se vulgarizou a violação dos direitos de defesa dos arguidos, o modo como são publicamente enxovalhados por factos em segredo de justiça - o facto de agora já não estarem não retira gravidade ao que que aconteceu - e a leviandade com que isso é feito por parte de quem vai escapando impune, dia após dia, caso após caso, fazem do nosso país um caso de estudo, de vergonha e, acima de tudo, de indignidade nacional.

A ministra da Justiça, em quem o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, pela voz de António Ventinhas, já reconheceu todas as capacidades para fazer um bom lugar, tem agora uma oportunidade de dar a volta a esta situação tão aberrante quanto sinistra, retirando o segredo da justiça da sarjeta onde está. Ou, quem sabe, em alternativa, mantendo-o de vez nesse buraco imundo onde tem medrado e dando conta disso mesmo aos advogados e seus constituintes logo no início dos processos, aquando da respectiva constituição como arguidos, facultando-lhes desde logo, "às claras", as mesmas armas que a acusação, a CMTV, o Correio da Manhã, a TVI, a SIC, o Sol, a Sábado e muitos mais dispõem quando se trata de devassar os factos da investigação, muitos para lá da fronteira do interesse público por já dizerem respeito à esfera da intimidade de cada um e à reserva da sua vida privada. Factos que, não raro, são essenciais para defesa dos visados mas ainda nem sequer são destes conhecidos quando publicamente divulgados.

A única garantia que neste momento podemos ter é a de que em Portugal qualquer arguido tem o direito, quer queira quer não, de ser exposto, insultado, vilipendiado e se possível linchado pela turba em função do tratamento que for dado à violação dos factos em investigação, o que acontecerá antes de qualquer acusação, antes de ter um julgamento de acordo com as regras de um Estado de direito democrático ou de uma qualquer condenação.

Espero, pois, que Francisca van Dunem aproveite esta oportunidade que lhe foi dada para fazer a diferença e impor um verdadeiro Primeiro de Dezembro no Terreiro do Paço e respectivas adjacências.

Já é tempo de libertar os tribunais dos Vasconcelos que por lá pululam e que diariamente fazem a vergonha do nosso sistema judicial. É tempo de defenestrá-los com as garantias de defesa e a dignidade que aos outros têm sido negadas. Os portugueses deviam ser os primeiros a saírem à rua para o exigirem. De cara destapada, sem medo, em todas as cidades, se quiserem proteger a sua cidadania e honrar a memória dos que fizeram deste dia o que ele é. Apesar de muitos deles, alguns ex-ministros e infelizes deputados profissionais, desconhecerem o significado da data.

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Até no dia da posse

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.11.15

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Se tinha dúvidas não aceitava a solução proposta e dizia-o logo, assumia-o, no limite até podia ter arranjado outra solução. Não podia era aceitar a solução que lhe foi oferecida e depois criticar a posse que ele próprio conferiu. Muito menos fazer ameaças veladas. No mesmo dia. Um fraco traído pelo seu próprio carácter. Não esteve à altura das circunstâncias, não soube honrar o seu destino, foi igual a si próprio, incapaz de disfarçar o azedume, incapaz de um gesto de elevação. Nisso foi coerente até ao fim.

A História não o absolverá porque não perderá tempo a julgá-lo. 

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Treze gráficos

por José António Abreu, em 26.11.15

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Atente-se no gráfico sobre o investimento: até 2003, em Portugal investiu-se sempre mais do que na Irlanda - com muito piores resultados. Não interessa: há quem continue a ver o Estado como o principal dinamizador da economia. Repare-se também no gráfico sobre a despesa pública: após o disparo causado pelo salvamento dos bancos, a Irlanda centrou a correcção nos cortes de despesa e regressou a níveis inferiores a 40% do PIB. Portugal não atinge esse patamar desde a década de 1980; não atinge sequer um nível em torno dos 42% ou 43% - que já seria incrivelmente libertador para a economia - desde a de 1990. Não importa: há quem continue a defender que um Estado pesado não trava o desenvolvimento de uma economia débil. Veja-se o curioso gráfico acerca dos trabalhadores sindicalizados: com um modelo menos apoiado no sector público, a Irlanda consegue apresentar uma percentagem mais elevada. De somenos: o papel dos sindicatos é defender leis laborais rígidas e a manutenção de empresas deficitárias na esfera pública. Analise-se a taxa de mortalidade infantil (um dos justificados orgulhos de Portugal, que afinal a Troika não destruiu): parece que também pode ser garantida por um sistema de saúde em que o Estado chegou a despender anualmente menos 1,5% do PIB (conforme o gráfico sobre os gastos públicos com saúde). Que importa? Os números não dizem tudo; a saúde tem a ver com «pessoas». Mas, a propósito de pessoas, estude-se o gráfico sobre o coeficiente de Gini: com menos dinheiro público, a Irlanda criou uma sociedade mais igualitária (nota adicional: ao contrário do que afirmam muitas vozes, em Portugal não houve aumento da desigualdade com a chegada da Troika mas uma ligeira redução). Vergonhoso, fazer tal referência: o papel do Estado é apoiar quem precisa, sem olhar a custos. Notem-se ainda o saldo das contas públicas, o PIB per capita (indicador de produtividade e justificação de factores tão irrelevantes como o nível salarial), a taxa de desemprego, o nível da poupança (depauperado em Portugal e na Grécia pelo crédito barato e por estímulos públicos errados), o valor dos salários. Irrelevante, uma e outra vez: o modelo de desenvolvimento seguido em Portugal e na Grécia está correcto. Os problemas advêm do euro, da «austeridade» e da Alemanha.

Uma e outra vez, recusamos as evidências e cometemos os mesmos erros. Guterres sabia o que era necessário fazer mas desistiu antes de começar. Durão foi eleito prometendo fazê-lo mas fugiu quando isso se revelou difícil. Sócrates garantiu tudo e o seu oposto e só fez o oposto. Apenas Passos avançou realmente no sentido correcto. Timidamente. Com erros, constrangimentos (incluindo os gerados por facções dentro do PSD e CDS), adiamentos (fatais, num país de tamanha inércia). Enfrentando bloqueios constitucionais e níveis recordes de demagogia (por parte do PS, que levara o país à beira do abismo, mas também de inúmeras vozes com direito a tempo de antena). Obteve resultados ténues (tudo isto demora, exige paciência e capacidade de perseverança) mas encorajadores. Nos próximos meses, Costa e Centeno, agrilhoados às fantasias utópico-revolucionárias de Jerónimo, Catarina e Arménio, inverterão o ciclo. O sector público será novamente privilegiado à custa do privado. O investimento e o emprego (este muito em particular se a CGTP conseguir juntar o reforço da contratação colectiva e a limitação dos recibos verdes ao já programado aumento do salário mínimo) ressentir-se-ão. É verdade que, no imediato, haverá mais dinheiro disponível e tudo parecerá correr melhor. Depois, os problemas regressarão - mais graves, esgotada a acção do BCE e o capital de simpatia conseguido junto dos parceiros europeus, com os investidores cada vez menos predispostos a apostar num país que muda de ideias a cada governo e uma economia mundial que dificilmente escapará a uma crise (basta a FED subir as taxas de juro e os BRICs ressentir-se-ão).

Em Portugal - como na Grécia, como na maioria dos países da América Latina, como até em Itália e em França -, continua a acreditar-se que a riqueza é gerada através da despesa pública, da governação por decreto, da perseguição ao lucro. Acontece desta forma porque os cidadãos temem a mudança e porque dá jeito aos políticos que assim seja: um Estado leve, com menos a distribuir (empregos, contratos, obras, apoios), não liberta apenas a economia; liberta também os eleitores.

Treze gráficos. E podiam ser mais. Mas para quê? Em Portugal, poucos os querem ver, menos ainda os desejam perceber.

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Verdades simples de um homem às direitas

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.11.15

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"Foi indigitado na terça-feira o novo Primeiro-Ministro. Como olha para este Governo, resultante de uma maioria de esquerda no parlamento? Na ala direita houve quem falasse em golpe de estado...

Esses qualificativos são um disparate. Eu creio que que a PÀF [coligação Portugal à Frente] se bateu pela maioria absoluta, era indispensável ter a maioria absoluta. A coligação de listas conjuntas era um tiro de uma só bala. Ou se tinha a maioria absoluta, e se ganhava, ou não se tinha, e se perdia. E não se conseguiu e perdeu-se. Tem havido grandes discussões sobre o funcionamento da Constituição: "criou-se um precedente gravíssimo, a direita não poderá governar sem ter maioria absoluta". Sempre foi assim. Esta legislatura teve algumas coisas que são completamente novas e que não tinham acontecido. O PSD é o maior grupo parlamentar e a PÀF não tem maioria parlamentar. Nunca tinha acontecido que o partido mais votado não tivesse uma maioria no seu campo, ou à direita ou à esquerda, e isso aconteceu. E aconteceu existir uma maioria de esquerda e o partido líder de uma maioria de esquerda não ser o partido mais votado, também nunca tinha acontecido. É uma coisa que é frequente noutros países. Fartamo-nos de ver isso na Bélgica, na Dinamarca. Um Governo ser liderado não pelo partido mais votado, mas pelo segundo. Mas, de facto, era evidente na noite das eleições que, havendo uma maioria de esquerda, que havia uma possibilidade de se entenderem para formar Governo e foi isso que aconteceu. Eu acho que é perfeitamente normal que isto acontecesse, anda aí uma grande perturbação de ânimos quanto a isso. Acho, todavia, que tem uma legitimidade questionável. Eu não vou dizer que é ilegítimo. É um Governo perfeitamente legítimo, só que tem uma componente política que é nova e de que ninguém estava à espera. Sou completamente contra governos de gestão, o Governo de Passos Coelho caiu no Parlamento, acho que Cavaco Silva fez bem em designar Primeiro-Ministro o líder do segundo maior partido. Nem podia ter sido feito de outra maneira: nós temos um país democrático, temos um Parlamento a funcionar, o Parlamento exerceu as suas prerrogativas constitucionais. Concordemos ou não concordemos, rejeitou a investidura do Governo, há uma maioria parlamentar que oferece uma outra solução de Governo, tem que se seguir. Depois é uma questão da legislatura poder ser abreviada, e termos eleições antecipadas, que se realizariam em fim de Maio ou Junho, na melhor das hipóteses, e isso é que eu acho que um candidato presidencial devia dizer. Há aqui um fenómeno que cria instabilidade, que cria incerteza, que cria falta de cooperação parlamentar entre os partidos, porque a PÀF sente-se desrespeitada, diz que não colabora e está numa atitude de grande confrontação, e portanto devemos ouvir o soberano. O soberano é o povo. Se se mantiver a situação deteriorada, irmos para novas eleições. Essa é a solução que eu daria. Acho que este debate político que aqueceu o nosso dia-a-dia devia ser canalizado para as eleições presidenciais, porque é o Presidente que viermos a eleger que tem uma palavra a dizer sobre isso."

 

Não superando a falta que nos irá fazer no Parlamento, a excelente entrevista que José Ribeiro e Castro deu ao Ponto Final poderá, mais logo, ser lida (e relida) na íntegra aqui.   

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Primeiro de Dezembro à vista

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.11.15

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"As informações recolhidas nas reuniões com os parceiros sociais e instituições e personalidades da sociedade civil confirmaram que a continuação em funções do XX Governo Constitucional, limitado à prática dos a[c]tos necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos, não corresponderia ao interesse nacional." - Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República 

 

Espero que a coligação PSD/CDS-PP não se esqueça de propor um voto de louvor à actuação do Senhor Presidente da República. É o mínimo. O homem não conseguiu fazer melhor. E não foi por falta de esforço ou por se esquecer dos amigos.

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Acabado de aterrar mas ainda a tempo de ser ouvido

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.11.15

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Um tipo que nesta altura do campeonato ainda ouve os empresários, os agricultores e os sindicalistas, depois de já ter estudado todas as soluções, também devia receber em Belém a Associação Nacional de Treinadores de Futebol e D. Duarte de Bragança. Em especial este, não vá alguém, entretanto, sabe-se lá, lembrar-se de interditá-lo. Ou enfiar-lhe uma rolha. A ele e ao outro.

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Está tudo explicado, bolas!

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.11.15

Um país que tem um programa destes na televisão é um país profundamente doente, um país de alienados e anormais. A situação política é um reflexo da popularidade e longevidade de programas como este. E de alguns ainda piores.  

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Estímulos

por José António Abreu, em 11.11.15

Devolver cortes para estimular o consumo, garantem. É provável que nisto tenham razão. Que estimule. Com péssimas consequências a prazo mas ignoremo-las por um instante e avaliemos a outra hipótese: a de que afinal não estimule assim tanto. Seria curioso ver os portugueses mostrarem-se cientes da fragilidade de um futuro construído por Costa, Catarina, Jerónimo e Arménio e optarem antes por reforçar poupanças - dentro e, quase certamente, fora dos bancos. Improvável? Admito que sim. Porque com essa mentalidade não seriam portugueses. Seriam alemães. Enfim, seriam talvez alemães; é difícil imaginar a Alemanha moderna a braços com um governo de convicções terceiro-mundistas.

 

(E a propósito: há pouco mais de 20 anos Portugal chegou a ter níveis de poupança ligeiramente superiores aos da Alemanha; em 2010, não atingiam 40%.)

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Nada disto tem sentido

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.11.15

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Tudo o que tem vindo a acontecer desde a altura em que o Presidente da República marcou a data das eleições legislativas para 4 de Outubro revela o anacronismo do nosso sistema político. A falta de correspondência com a realidade raia o absurdo e é bem sintomática da ausência de sentido útil e de desfasamento da realidade em que os nossos actores políticos exercem as suas funções.

Um sistema eleitoral que vive longe dos eleitores, um modelo de representação que grosso modo representa apenas metade do país, partidos sem militantes, entregues às suas camarilhas, desligados dos simpatizantes e dos eleitores, querelas inexplicáveis entre órgãos institucionais, tudo numa dimensão e com uma coreografia que só é compreensível à luz da pequenez dos titulares dos cargos e da ausência de uma elite política que crescesse com a democracia.

Esta manhã li no Expresso que durante dois dias a digníssima Assembleia da República e os comissários dos partidos que por lá se encontram, mais conhecidos como deputados, irão discutir o programa de um Governo que nasceu morto. Durante dois dias e umas intermináveis horas, para gáudio dos jornais e televisões, cumprindo-se o formalismo necessário à sua anunciada rejeição pela maioria dos deputados.

É claro que em causa não está a legitimidade do órgão ou de qualquer solução de governo saída da Assembleia da República.

A legitimidade dos deputados eleitos é igual entre todos e qualquer solução que dali desponte será do ponto de vista político inatacável, por muito que isso custe aos apaniguados da coligação. Poder-se-á falar de ética, de moral, de "golpada política", de falta de seriedade, do que quiserem, tudo isso é discutível, mas jamais de falta de legitimidade.

Uma coisa é o que nós desejaríamos que acontecesse, outra a vontade dos decisores políticos, dos mandatários.

Os eleitores escolheram os seus representantes. Vivemos num sistema de representação proporcional, o que eles fizerem de bom ou de mal, usurpando o mandato, excedendo os limites do contrato que estabeleceram com o eleitorado, dando-lhe outro sentido, correndo riscos desnecessários, promovendo soluções que não foram eleitoralmente sufragadas, tudo isso será eventualmente criticável e deverá ser discutido à luz dos factos, mas por agora é irrelevante e só será sancionado na altura própria pelos eleitores quando ocorrer o próximo acto eleitoral.

Por agora, limito-me a verificar o quão distante tudo isto está da vida dos portugueses, dos seus anseios enquanto comunidade, do seu sentir enquanto pessoas e cidadãos que pagando impostos gostariam de poder viver num país melhor, mais decente, menos desequilibrado e mais civilizado.

O tempo que agora alguns irão perder num inconsequente exibicionismo parlamentar, enquanto o país aguarda que apareça quem governe e aprove um orçamento, é bem a imagem do nosso atraso, da distância que afasta a democracia dos eleitores e da importância de se terem elites a governar, em vez de funcionários subservientes, provincianos e dependentes de tenças políticas, de cronómetros e de calendários eleitorais.

Infelizmente, Portugal hoje é isto, e pouco mais do que isto.

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A garantia da sobrevivência das clientelas

por José António Abreu, em 30.10.15

A mão dada ao PS também não é surpresa. Há quarenta anos que o PCP tenta arrastar o PS para uma “maioria de esquerda” (expressão inventada pelo PCP), e nunca como agora o PCP e o BE precisaram tanto do poder: o PCP, para conservar os seus sindicalistas, ameaçados pela concessão dos transportes públicos; e o BE para tentar fixar, com os recursos do Estado, uma base de apoio volátil.

[…]

Um governo do PS nas mãos do PCP e do BE agravará despesas e impostos até onde contribuintes e credores do Estado aguentarem, mas suspenderá as reformas no país. É essa a questão.

O problema português é que demasiada gente (empresas, corporações, classes profissionais, etc.) vive de “rendas”, isto é, de rendimentos que dependem unicamente do poder político. São estas as clientelas com que os oligarcas contam para exercer influência ou para ganhar eleições. O ajustamento de 2011-2014 abalou o sistema. Caíram grupos financeiros, o sindicalismo do sector público viu-se ameaçado, e a justiça expôs a promiscuidade político-empresarial. A eventual “maioria de esquerda” será, no fundo, o último e desesperado esforço de sobrevivência daquele regime que, antes da crise, era encarnado por Ricardo Salgado, a CGTP e José Sócrates. Para oxigenar o velho sistema, os oligarcas confiam no BCE, nos fundos estruturais e na máquina fiscal. E para impedirem reformas, confiam no PCP e no BE: em 1975, eles foram uma ameaça aos poderes então dominantes; agora, pelo contrário, são a sua garantia.

Rui Ramos, no Observador.

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Semelhanças

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.10.15

"Mas fosse o Governo cair daqui a 12 dias, a 12 meses ou a 12 anos, há um nome que nunca poderia constar de uma lista de ministeriáveis de uma democracia digna, responsável e madura. Refiro-me ao novo ministro da Administração Interna, João Calvão da Silva.

Há 14 milhões de razões para João Calvão da Silva não poder ser nomeado ministro, uma por cada euro que Ricardo Salgado recebeu do construtor José Guilherme. E nenhuma razão para que alguém se lembre de o pôr à frente da Administração Interna, tendo em conta que ele foi um dos dois distintos professores de Direito de Coimbra a assinar um parecer atestando a idoneidade de Ricardo Salgado para continuar à frente do BES após ter embolsado a famosa “liberalidade”. - João Miguel Tavares, Público

 

Um recebia empréstimos de milhões do amigo para viver acima das suas possibilidades. Outro viajava para Bruxelas para tratar dos assuntos de terceiros e só recebia as despesas de transporte e alojamento. Um outro serviu o país e a Europa tão desinteressadamente que hoje acumula dezenas de tenças; e ainda há aquele velhote que recebe centenas de milhares de euros dos chineses, diz ele, "por mérito". Este de que fala agora João Miguel Tavares vai a ministro depois de ser pago para justificar "liberalidades" de 14 milhões dadas a um banqueiro que se esquecia de declarar milhões ao fisco e levou um dos bancos do regime à falência, deixando os portugueses a arder e a pagarem pelos desmandos que praticou.

Enfim, tudo gente altruísta cujo espírito de serviço público é atestado por quem lhes dá posse. A idoneidade, essa, já foi atestada pelo cartão do partido, pelos fatos de bom corte e, em especial, pela subserviência a quem lhes paga o sebo que os faz brilhar nos salões. É Portugal no seu melhor. O deles.

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