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O objectivo

por José António Abreu, em 27.02.15

Acontece que para os gregos, o euro não é apenas uma moeda a que a sua economia esteja mais ou menos adaptada. É um projecto político, um ideal: é a possibilidade de, um dia, viverem num país onde o Estado, dominado por interesses de todo o tipo (sindicais, empresariais, corporativos, clientelares, etc.), não abuse da moeda para servir esses interesses à custa de todos os outros cidadãos. É isso que os exercícios de análise económica não apanham, nem o discurso corrente da integração europeia, que reduz tudo a uma questão técnica: como conter, numa união monetária, economias divergentes e políticas contraditórias.

Rui Ramos, no Observador.

 

Não somente para os gregos. Para os portugueses também. De resto, não será apenas coincidência que, em Portugal, não obstante as incapacidades próprias do governo, as mil e uma obstruções que enfrentou e os interesses corporativos dos partidos que o formam, os últimos anos tenham revelado uma progressiva «limpeza» na relação entre o Estado e outras entidades. A forma como não se salvou o grupo Espírito Santo, a profusão de casos judiciais contra políticos e empresários, a limitação do (ou, pelo menos, a pressão pública contra o) poder discricionário de conceder favores (veja-se a polémica actual sobre o planeado perdão da autarquia de Lisboa a uma entidade com tantos fãs como o Benfica) são também efeitos de uma moeda que deixou de ser um fantoche nas mãos dos políticos.

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Regresso ao futuro.

por Luís Menezes Leitão, em 25.02.15

Portugal sob vigilância de Bruxelas por desequilíbrios económicos excessivos.

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Dr. Jekyll & Mr. Hyde

por José António Abreu, em 25.02.15

“Em Portugal, os amigos são para as ocasiões, e numa ocasião difícil em que muitos não acreditaram que o país tinha condições para enfrentar e vencer a crise, a verdade é que os investidores chineses disseram ‘presente’, vieram, e deram um grande contributo para que Portugal pudesse estar na situação em que está hoje, bastante diferente daquela em que estava há quatro anos”, disse António Costa.

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As galinhas não vão a Milão

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.15

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Em Outubro de 2014 já alguém tinha perguntado se seria verdade que Portugal não iria estar presente na Exposição Universal de Milão 2015. Ninguém fez caso do assunto. A confirmação chegou esta manhã.

O Público revela que por uma "bagatela" de 8 milhões de Euros, Portugal não estará presente na Expo 2015. O evento abrirá portas no próximo dia 1 de Maio. Dos países lusófonos Portugal e Timor-Leste serão os ausentes. Mas estarão lá outros 145 países.

A decisão, ao que parece, reside na ministra das gravatas, Assunção Cristas. E pese embora o tema da Expo 2015 ser "Alimentar o Planeta, Energia para a Vida", a ministra achou preferível prestar mais esse serviço, em nome do Governo que integra e do CDS-PP que a indicou, aos agricultores e exportadores portugueses. Ficando em casa também não correm o risco de se constiparem em Milão com a porcaria dos ares-condicionados, agravando as despesas do Serviço Nacional de Saúde na hora do regresso.

O secretário-geral da CAP diz que não sabe como foi possível deixar passar esta oportunidade. Luís Mira não sabe? Anda desatento, é o que é, pois só assim se percebe que não tivesse ficado calado. 

Compreende-se perfeitamente que promover Portugal e a sua produção agro-alimentar, dando consistência à tão apregoada diplomacia económica, não deverá inserir-se nas tarefas da ministra Cristas. E ir a Milão não é a mesma coisa que ir ao Brasil ou aos Estados Unidos ou vender chouriças em Macau.  

Acrescenta o jornal que o MNE mandou perguntar o que se passou ao gabinete do vice primeiro-ministro. Fez muito bem porque consta que Paulo Portas terá a responsabilidade pela diplomacia económica. Mas como este ministro não sabia de nada, o seu gabinete do ministro mandou perguntar ao Ministério da Agricultura. O procedimento seguido mostra que este foi mais um passo do guião para a reforma do Estado, pelo que lá seguiu, presumo, o ofício da praxe. Ou, quem sabe, a comunicação electrónica por recurso às novas tecnologias do defunto socratismo. De qualquer modo, confesso que já não sei se Paulo Portas ainda tem a responsabilidade pela diplomacia económica ou se só pela campanha eleitoral para as legislativas. Admito que para o caso seja indiferente. O ministro está sempre a ser traído pela pose de estadista e a agenda que de tempos a tempos nos dá a conhecer, mas quem o ouça percebe logo que tudo, com excepção do que dá para o torto, se insere nas suas tarefas. 

E também não vejo qual seja o espanto da ausência portuguesa. É natural que um país que apostou na diplomacia económica e que só num ano exportou 5450 milhões de euros de produtos agrícolas queira poupar cerca de 8 milhões de euros para não ter o incómodo de se mostrar num certame cujo número de visitantes se estima nuns míseros 20 milhões.

Esta ausência de Portugal da Expo 2015 é, aliás, reveladora da coesão da equipa governativa e do pensamento que o CDS-PP e o senhor primeiro-ministro têm da diplomacia económica. Trata-se, evidentemente, de mais uma demonstração da solidariedade portuguesa para com a Grécia, a Itália e a Espanha, que assim poderão ver os seus produtos ocuparem o espaço que estaria destinado aos mandriões dos empresários e agricultores portugueses.

Além do mais, estou certo de que todos concordarão que nos 150 milhões de euros que Portugal irá poupar todos os anos com os juros resultantes da antecipação dos reembolsos à troika - quem o disse foi aquela funcionária  do ministro Schäuble - seria muito difícil ir buscar o dinheiro necessário ao investimento para a participação portuguesa.

E também reconheço que seja mais fácil obrigar os portugueses a arranjarem o dinheiro necessário para se safar os estafermos do BPN e do BES do que fazer uma colecta entre os empresários portugueses que estivessem disponíveis para  financiarem a participação portuguesa. Isso não faz parte das tarefas de quem enche a boca com os agricultores e os pescadores portugueses e se dedica a perorar em tudo o que é feira e romaria entre um copo de tinto e um pastelinho de bacalhau, enquanto pisca o olho ao inquilino de Belém.

E mais do que compreender tudo isso, não posso deixar de aplaudir a coerência e a sábia estratégia que está por detrás da decisão de estar ausente de Milão. Todos sabiam que depois do descalabro socialista os portugueses teriam que viver com muito menos. Teriam de empobrecer até ao tutano para serem ainda mais felizes. Milão não é destino para donas de casa poupadinhas e arrumadinhas.

O único reparo que faço à estratégia seguida é que o seu programa de governo não tivesse revelado atempadamente aos portugueses que a imagem do seu impante Galo de Barcelos iria ser substituída pela de um galinheiro. Um galinheiro dependente de um par de matronaças somíticas, que de quando em vez se dignam ir à bolsa do seu avental buscar umas côdeas e umas couves que atiram para os frangos debicarem, assim mantendo os capões, outrora galos tonitruantes, à distância, com as cristas baixas e dependentes dos esclarecimentos que lhes queiram ser prestados. 

Não há imagem mais perfeita do caminho percorrido, do reconhecimento do trabalho de um tal Pedro Reis, das conquistas conseguidas com a troika, da excelência dos nossos produtores, da reforma do Estado e do apoio do Governo à estratégia de diplomacia económica, do que a do galinheiro. A imagem de um galinheiro, espelhada na indigência das nossas preocupações de Estado, no trânsito de ofícios entre ministérios e na notável e salazarenta avareza de que as nossas madamas dão mostras, é a única conjugável com a satisfação dos capões e o aumento de volume da pança dos novos "Tenreiros".   

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Da dignidade do Estado.

por Luís Menezes Leitão, em 22.02.15

Há uma coisa que há muito se perdeu em Portugal que é o sentido da dignidade do Estado. Mesmo antes do memorando, quando Sócrates foi chamado a despacho a Berlim por Angela Merkel devido à subida dos juros da dívida portuguesa, fui de opinião que um primeiro-ministro de Portugal não se deveria sujeitar a esse tipo de tratamento. E muito menos me pareceu aceitável que quando Sócrates foi derrubado — a meu ver já tarde porque Passos Coelho insistia obstinadamente em mantê-lo no cargo — a chanceler alemã tivesse o descaramento de ir criticar a decisão do parlamento português no parlamento alemão. Estou por isso muito à vontade para achar inaceitável que, entre duas reuniões do Eurogrupo, a Ministra das Finanças vá prestar vassalagem a Berlim, aceitando que o país seja exibido carinhosamente por Schäuble como exemplo a seguir. O governo pode naturalmente tomar as decisões que entender nas reuniões do Eurogrupo, contra ou a favor da Grécia. Mas já não me parece que o Ministro das Finanças de um Estado soberano deva contribuir para uma clara operação de spin do Ministro das Finanças alemão, na altura em que ele é contestado no seu próprio governo, precisamente pela sua instransigência em relação à Grécia.

 

Portugal segue com absoluto fanatismo uma estratégia que está completamente errada e que só pode trazer o desastre. O Syriza é um partido radical de esquerda, que em caso algum deveria estar à frente de um governo europeu. Se o está, é precisamente devido às constantes humilhações a que foram sujeitos os gregos pela troika, humilhações igualmente praticadas em Portugal, como agora Juncker veio reconhecer, para desgosto dos fanáticos que acham que ainda nos submetemos o suficiente. E nesse aspecto, se esta deriva não for invertida, a situação só pode ficar muito pior. As pessoas que hoje festejam a "hollandização" de Tsipras, devem pensar que a seguir a Hollande virá inevitavelmente Marine Le Pen, assim como um falhanço do Syriza na Grécia atirará o país para as mãos do Aurora Dourada. Numa altura em que a Rússia adopta uma nova atitude expansionista, que ameaça redesenhar o mapa da Europa, continuo a achar que os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo.

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As razões do pânico

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.02.15

"Seven years into the crisis, the eurozone economy is doing much worse than the United States, worse than Japan during its lost decade in the 1990s and worse even than Europe in the 1930s: GDP is still 2 percent lower than seven years ago and the unemployment rate is in double digits. The policy stance set by Angela Merkel’s government in Berlin, implemented by the European Commission in Brussels, and sometimes tempered — but more often enforced — by the European Central Bank (ECB) in Frankfurt, remains disastrous. (...)

The belief that Greece has little leverage in its negotiations with eurozone authorities is false. If no agreement is reached and Greece is illegally forced out of the euro by Berlin and Frankfurt, it would doubtless default on all its debts to both eurozone governments and the ECB, as well as the Bank of Greece’s Target 2 liabilities. Speculation would soon start about which country might be next to exit the euro — Portugal? — and the single currency would suddenly look eminently revocable.

Do Berlin and Frankfurt really want to push Athens over the brink? I doubt it. Especially since, freed of its external debt and an overvalued exchange rate, Greece would doubtless be growing again once the immediate chaos subsided. After all, even an economy as badly managed as Argentina started growing again only a year after the government defaulted and junked its dollar peg in 2002." - Foreign Policy

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.02.15

"Neste plano, a Alemanha surge como a maior detentora de dívida contingente, que atinge 145% do PIB, seguida da Holanda com 111%, apresentando a Grécia um dos valores mais baixos com cerca de 17% e Portugal cerca de 70% do PIB. Quer isto dizer que se fizermos uma análise mais rigorosa e transparente da dívida pública teremos de adicionar a divida formal à dívida contingente, o que tem como resultado que a Irlanda terá a maior dívida pública com 234% do PIB, seguida da Alemanha com 222%, à frente de Portugal com 198% e da Grécia com 192% do PIB." - Miguel Santos Neves, OJE

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Café da manhã p'ra dois sem saber o que virá depois, bem bom!

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.02.15

jean-claude-juncker-fac9.jpgEntão este tipo não foi aquele que Passos Coelho e o Governo português consideraram o melhor candidato à sucessão de Durão Barroso? Não foi este sujeito que veio a Lisboa pedinchar apoios? Não foi este um daqueles a quem o Governo português prestou vassalagem? Não era com ele que ficávamos em óptimas mãos? Não era este gajo que conhecia a Europa de todos os ângulos POSSÍVEIS? E que enquanto primeiro-ministro do Luxemburgo ajudou uns quantos a safarem os euros do fisco? E agora o tipo vem reconhecer as borradas e fazer um acto de contrição, para salvar a face perante o gajo da Grécia, e mandam o Marques Guedes fazer de conta que é o Lomba? Que será feito do Moedas? Andará a contar cêntimos ou a comprar peúgas em Bruxelas? O tipo não diz nada? Não tem autonomia para isso? Será que Passos Coelho pensa que lá por estarmos no Ano da Cabra somos todos uns cabrestos?

O Carlos Carreiras ou o Duarte das vírgulas devem estar a preparar um texto magnífico para justificar mais esta ..... (completar de acordo com o estado de espírito do momento).

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Tivoli

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.02.15

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(foto DN)

O hotel já foi um símbolo de Lisboa. Depois tornou-se num símbolo da cartilha liberal da Avenida da Liberdade. Em matéria de presunção não faltava nada aos executivos que o frequentavam à hora do almoço.

Agora ficamos a saber que também estão falidos. Nem dinheiro para a água e a luz têm. Um desastre. Quando se fizer o levantamento do que se arruinou na presente legislatura, sempre com o beneplácito do inquilino de Belém e dos incompetentes da troika, dando alegre continuidade ao que já vinha da anterior legislatura, não será bonito de se ver. Bastará olhar para o índice. Metade do país e da classe política presa seria pouco.

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"Bild Zeitung has devoted two pages to warnings that Grexit would cost Germany €65bn, or much more once the Bundesbank's Target2 payments though the ECB system are included. The unpleasant discovery that Germany's Target2 exposure can in fact go up in smoke - despite long assurances that this could never happen - might make it untenable to continue such support.

It is unfair to pick on Portugal but its public and private debts are 380pc of GDP - the highest in Europe and higher than those of Greece - making is acutely vulnerable to toxic effects of deflation on debt dynamics.

Portugal's net international investment position (NIIP) - the best underlying indicator of solvency - has reached minus 112pc of GDP. Public debt has jumped from 111pc to 125pc of GDP in three years. The fiscal deficit is still 5pc. The country's ranking in global competitiveness is close to that of Greece" - The Telegraph

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Portugal não é a Grécia.

por Luís Menezes Leitão, em 11.02.15

Desta vez não tenho quaisquer dúvidas sobre o rigor absoluto desta frase. Enquanto Portugal se assumiu sempre como um protectorado, a Grécia afirma preto no branco que não é um protectorado e que têm de saber com quem se estão a meter.

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É claro que isto só lá vai com dinamite

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.02.15

"Fernando Seara, o líder da oposição social-democrata na Câmara de Lisboa, decidiu colocar como assessor do gabinete de apoio aos três vereadores do PSD o anterior presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica.

Rodrigo Gonçalves, que é actualmente vice-presidente da bancada social-democrata na Assembleia Municipal de Lisboa e vice-presidente da concelhia local do partido, foi acusado pelo Ministério Público, no Verão passado, pela prática do crime de corrupção passiva no exercício das suas funções autárquicas em São Domingos de Benfica. (...)

Desde o início deste mandato, em Outubro de 2013, o PSD já contratou oito assessores e funcionários administrativos para apoio aos seus vereadores. Entre esses assessores está a mulher de Rodrigo Gonçalves, que entretanto rescindiu o contrato. (...)

Entre os actuais assessores do PSD na câmara encontra-se Jorge Santos, administrador de uma agência de comunicação, que recebe 1500 euros por mês e Diogo Agostinho, um jovem economista que tem uma avença de 900 euros mensais e foi contratado no ano passado para o Gabinete de Auditoria Interna da Misericórdia de Lisboa. Um outro membro do gabinete é Magalhães Pereira, candidato derrotado à presidência da Junta de Campolide em 2013, que tem uma avença mensal de mil euros." - José António Cerejo, Público, 07/02/2015

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Não desperdiçar capital em negociações

por José António Abreu, em 06.02.15

Por isso, é defensável que Portugal tenha uma posição clara e inflexível sobre o assunto: queremos exatamente as mesmas condições que forem oferecidas aos gregos. Se quiserem usar esquemas que só se apliquem a eles, estamos contra, em nome da igualdade na Europa. Se as negociações não forem a lado nenhum, não temos problema com isso. Não defendemos as propostas gregas, não temos de concordar com elas, nem podemos ser contados como aliados de ninguém nas negociações ou gastar qualquer capital em nenhuma negociação. Entramos nas reuniões mudos e saímos calados.

Ricardo Reis, no Dinheiro Vivo. Vale a pena ler o resto do artigo, no qual se abordam as questões da conversão da dívida grega em perpetuidades e do pagamento indexado à taxa de crescimento da economia.

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A Mardis fechou

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.02.15

i.axd.jpgForam poucos dias. Suficientes para encarar a realidade que deixei para trás. Quando se está fora é sempre mais fácil olhar para dentro. Para trás idem. E imaginar como tudo teria sido se também eu tivesse ficado. Quando se vê o fio dos dias sem se conhecer o dia seguinte, vendo a esperança esvair-se na confrontação do seu reflexo, o que de material se possa ter deixado perde significado. Só o reconhecemos ao mergulhar de novo na piscina de onde se saiu e onde agora tantos tentam manter-se à tona.

Fiz múltiplas tentativas. Fui às páginas brancas e às amarelas. Procurei na Internet. Nada. Havia números que continuavam a chamar, outros com uma gravação que dizia que não estavam atribuídos, e os que restavam nem sequer davam sinal. Seria possível terem alterado todos os números? Decidi-me a passar por lá quando fosse a Lisboa. Conhecia a casa há mais de vinte anos. Desde o momento em que consegui comprar o meu primeiro Alfa Romeo, os meus carros nunca conheceram outras mãos. Primeiro sob a batuta do Sr. Augusto, até este dar uma queda e se reformar. Depois com a atenção do Leonel, que se tornaria no chefe da oficina, e dos seus colegas. As meninas da recepção, senhoras, sempre atenciosas. Ali, eu sabia que aquela gente não perdia tempo, conhecia os pormenores, não confundia o barulho de um amortecedor velho ou danificado com um apoio do motor partido. Sabiam o que faziam e faziam-no bem, de forma competente, razoavelmente económica, não esquecendo que os meus carros eram, para além de uma paixão, uma extensão prática de mim, pelo que tinham pouco tempo para se entregarem aos seus cuidados. De quando em vez lá ficavam mais um dia, para uma revisão mais profunda, mas era raro. Sempre impecáveis, sempre a brilharem, com uma sonoridade única.

Quando lá cheguei dei com as portas fechadas. Os vidros cheios de pó. Estacionei e fui ler o aviso amarelado que estava afixado: Estimados Clientes: Informamos V. Exas. de que esta oficina estará encerrada entre os dias 11 e 30 de Agosto. Percebi logo o filme. Sem saber o que fazer, aventurei-me a entrar pela drogaria do lado e perguntei ao proprietário se sabia o que tinha acontecido aos vizinhos da oficina, se sabia onde parava o pessoal. O homem levantou os olhos, olhou-me fixamente e disse: "Fecharam e nunca mais abriram. Uma casa com mais de quarenta anos. Às vezes ainda passa por aí um dos mais velhos para levantar a correspondência, mas há muito tempo que não vejo ninguém. Isto está uma desgraça. Não sei onde irá parar".

Eu também não sei. Normalmente, quando não cai, a montanha-russa só pára no fim. Não se consegue sair a meio. Logo agora, ao fim deste tempo todo, e com o pouco tempo que tenho, ter de ir à procura de alguém que saiba olhar para os meus carros, que conheça a marca, a história, a tradição. Das últimas vezes já desconfiara da falta de stocks, da necessidade de combinar primeiro o que queria fazer para depois passar por lá. Agora acabou-se. A Mardis fechou. Finou-se.

A Mardis é apenas um caso. Ficava ali na Luciano Cordeiro. E no seu meio era uma casa cujas máquinas eram tão afamadas quanto as do seu não menos conhecido vizinho. Cada um no seu ramo, é certo. Mas embora trabalhando a horas diferentes, penso que não se podia dizer que a qualidade de serviço da Mardis fosse inferior à do Elefante Branco.

Casos como o da Mardis repetem-se por esse país. Muito antes fora assim no Algarve. Faro desertificara. A Rua de Santo António já era em 2013 uma sombra do passado. Até o Constantino, do Baía, fechara portas e abalara. Ficou o António Manuel. Para ir ficando com os espaços que fechavam. Em Cascais fora o mesmo. É só começar a descer a Rua Direita. É porta sim, porta sim. Tudo às moscas. Num restaurante, que em tempos foi uma referência e um ex-libris da vila, há gente com três meses de salários em atraso. E parece que a patroa se amofinou quando a mulher de um dos trabalhadores lá foi tirar satisfações. Queria saber quando é que o marido iria receber. A fidalga.

Penso que nunca comi tão barato como nas últimas semanas. As lojas de roupa sobrevivem com vestuário a preços que quase não deve dar para pagar a matéria-prima. Sapatos quase de borla. As prateleiras cheias. Clientes nem vê-los. Da FNAC à Labrador, da Bulhosa à Bertrand, da Wesley à Boss, da Hélio à Loja das Meias. Nesta última, ali nas Amoreiras, eram mais os empregados que os clientes. Alguém terá de lhes pagar os ordenados.

Andei por aí. Fui ao Lidl, ao Jumbo, ao Continente. Olhei para as pessoas. Sem querer reparava no que levavam enquanto esperava a minha vez nas caixas. Algumas vezes me senti desconfortável com o que levava. Nada de especial. Mas quando se levam duas garrafas de um vinho decente e mais meia-dúzia de coisas que perfazem mais de uma centena de euros e se encontra alguém na caixa, com idade para ser minha avó, a quem falta 1,20 euros para pagar uma conta de 13,00 euros de um pequeno cabaz de iogurtes, leite, pão e duas maçãs, a gente fica sem jeito. Deixe estar, minha senhora, pode levar as compras. Eu pago o que falta. O olhar agradecido, envergonhado, um obrigado recolhido enquanto guardava os poucos cêntimos que restavam.

Ao mesmo tempo, na Urgência do Hospital de Cascais não havia lugares para uma pessoa se sentar. Eu ia para ficar à espera. Não era utente, quero dizer. Na TSF, num desses habituais fóruns onde se bota discurso, discutiam-se as mortes nas urgências, as taxas moderadoras. Alguém falava em cerca de  30,00 pela consulta e pelo exame que lhe mandaram fazer. Na farmácia fiquei a saber que os medicamentos para as hemorróidas não tinham comparticipação. O das unhas também não. Um fulano perguntava se de um outro medicamento não havia genérico. O farmacêutico dizia que sim, havia mas não lhe podia vender porque o médico colocara a cruzinha. E o homem insistia. Queria o genérico. Não tinha dinheiro. Havia um parecido, mais barato, não era bem aquilo mas fazia o mesmo efeito. Não ia voltar à consulta e a médica não saberia de nada. Então levo esse, disse ele.

De caminho passei por duas universidades. Almocei numa delas. Dois estudantes vieram sentar-se ao pé de mim. Tinham vindo colaborar com a organização e assistir à conferência. Afáveis, eu era convidado, sentaram-se ao pé de mim. Fizeram-me companhia. Falei com eles. Eu comi o prato do dia, bebi um refrigerante, no final a sobremesa e um café. Tudo por menos de cinco euros. Eles comeram uma sanduíche de ovo e beberam água. Pão e água. Falei com eles. Senti-me mal, como fosse responsável pela sua situação. Nenhum deles se queixou. Queriam acabar os cursos. Um era músico nas horas vagas. Iria nesse fim-de-semana para um bailarico. No Alentejo. Sempre era uma ajuda para as propinas. Nesse dia jantei em Lisboa. Ali para o Príncipe Real. Quando no final me pediram 16,00 euros pensei que se tinham enganado. Com o que comemos? Sim, está tudo incluído, o vinho também. Fiquei em silêncio. Paguei a minha parte. Como se pertencesse a outro mundo. A outra gente.

Não posso voltar para trás. Ninguém pode. Lá atrás só ficam os que não conseguem escapar. E os que roubaram. Dois milhões é obra. Falo de pobres. A raspadinha não é o BES nem a SLN. Não dá tanto.

Em Portugal, a urze cresce em qualquer lado. A pobreza é uma espécie de urze. Os pobres vivem dentro das suas possibilidades. Quando se vive dentro das possibilidades não se pode voltar para trás. Não há dinheiro para isso. Os pobres vivem dentro das suas possibilidades. Os pobres são como os velhos: também não podem voltar para trás. Pelo menos enquanto respirarem. Depois também não voltam para trás. Já ficaram para trás. Eles e as suas necessidades.

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O maior apoio que Passos Coelho já recebeu?

por José António Abreu, em 05.02.15

Alberto João Jardim admite candidatura à Presidência da República mas sem apoio do PSD porque «a minha relação com Passos é inconciliável.»

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Depois quero saber dos outros

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.01.15

Congratulo-me com a decisão e a postura assumida pela senhora Presidente do Conselho das Ordens Nacionais. Espero, aliás, que idêntico procedimento seja seguido em relação a todos os que se encontram na mesma situação ou que venham a estar. Não só por respeito pelo princípio da igualdade mas, igualmente, para que aos poucos se possa ir corrigindo a desbunda anual da atribuição de comendas e medalhas às mais obscuras personagens, protegendo-se aqueles que efectivamente as mereceram e não podem ficar no mesmo saco de quem, como se vê, não foi digno de as merecer.

E também espero que a cor política, seja ela rosa, laranja, azul bebé ou amarelo às riscas, não seja impedimento à actuação dos agentes do Estado que têm a responsabilidade de ajudar a República a recuperar, aos poucos, os seus princípios e a sua própria dignidade, deixando de ofender os portugueses e quem, como o Infante D. Henrique, não devia ter o seu nome envolvido no escândalo.

Escusava de ser assim, mas se a correcção da falta de critério, e também de algum bom senso de quem as tem proposto e atribuído ao longo de 40 anos de democracia, não pode ser feita de outra forma, então que seja assim. Já basta a choldra anual.

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Portugal, passado e futuro próximos

por José António Abreu, em 06.01.15

A grande diferença entre Portugal e a Grécia foi que, aqui, houve uma coligação de governo que, sob escrutínio do Presidente, durou e sustentou o ajustamento durante quatro anos. A actual maioria de direita teve ainda este efeito fundamental: dispensou o PS de se comprometer e deu-lhe uma razão para se impor, à esquerda e entre os descontentes, como o líder necessário de uma maioria alternativa. Deste modo, os partidos tradicionais do regime retiveram os seus eleitorados, sem deixar muito espaço até agora para novos populismos e extremismos.

[…]

Convém não esquecer como isto começou. O projecto do Euro pressupunha uma nova fase de modernização das sociedades inflacionistas do sul da Europa. Em vez disso, o crédito barato do euro serviu para alimentar o endividamento e adiar o confronto com os parasitismos (sindicais, empresariais e corporativos). O resultado foram economias ainda menos competitivas e sobrecarregadas com a incerteza das dívidas.

A questão continua a ser política: é preciso que o regime, se quer preservar o quadro da moeda única, adquira o poder necessário para resistir ao facilitismo e contrariar os interesses instalados. Ora, neste momento aproximamo-nos do prazo de validade das condições de estabilidade dos últimos quatro anos. Em 2015, a actual maioria pode não ser renovada. Em 2016 o Presidente será necessariamente substituído. Como será encontrada uma “solução governativa estável, sólida e consistente” numa assembleia em que, por hipótese, nem a aliança do PSD e do CDS, nem o PS sozinho possam garantir uma maioria absoluta?

Rui Ramos, no Observador.

 

E depois há a questão do PS, garantindo uma maioria absoluta, ter de esquecer o futuro cor-de-rosa com que anda a acenar (enfim, Costa pode sempre torcer para que a Grécia conquiste para os países do Sul o direito ao laxismo orçamental, à custa de transferências massivas de fundos a partir dos do Norte) e continuar (ou, em alguns casos, iniciar) reformas que actualmente contesta. A mudança (implícita no texto de Rui Ramos) apenas surpreenderia os ingénuos do costume mas são eles que lhe podem dar a vitória nas legislativas.

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PPP à grande vitesse

por José António Abreu, em 05.01.15

25 O modelo para a implementação da rede ferroviária de alta velocidade em Portugal, sem paralelo em termos internacionais, assentava em seis contratos PPP cujos encargos para os parceiros públicos ascenderiam a 11,6 mil milhões de euros. 
26 Os riscos de procura relevantes recairiam sobre a CP e a REFER, empresas públicas economicamente deficitárias. Em contrapartida, os pagamentos pela disponibilidade da infraestrutura às concessionárias gozariam de estabilidade, característica típica das rendas. 

 

64 Os estudos preliminares demonstraram que o investimento na rede ferroviária de alta velocidade não apresentava viabilidade financeira.

65 Os mesmos estudos demonstraram que o eixo Lisboa-Madrid, o primeiro que se previa vir a ser implementado, também seria financeiramente inviável. 

 

77 Não há evidências de um plano de negócios, no âmbito do setor público, que tivesse contextualizado a viabilidade financeira do projeto, tendo em especial consideração a concreta situação económica e financeira das entidades do setor público direta e indiretamente envolvida.

 

83 No contrato da concessão Poceirão-Caia os fundos acionistas representavam menos de 4% do financiamento do projeto e previa-se uma TIR acionista de 11,9%.  
84 Tendo em conta que as receitas comerciais não financeiras corresponderiam a cerca de 0,073%, a rentabilidade acionista referida decorreria, quase totalmente, dos pagamentos dos parceiros públicos. 
85 Mais de 71% do total dos fundos aplicados no projeto corresponderiam a pagamentos dos parceiros públicos.

 

86 A comportabilidade dos encargos, para o Estado e para a REFER, com a concessão Poceirão-Caia foi analisada no respetivo estudo estratégico.  
87 Esta avaliação teve caráter preliminar, não teve em conta o efeito do investimento na situação financeira da REFER e baseou-se em premissas que deixaram de se verificar, tais como as relativas às taxas de crescimento reais do PIB e aos limites admissíveis para o défice público. 
88 As estimativas não foram atualizadas durante o processo de contratação e em sede de visto não foi demonstrado o cabimento dos encargos do Estado, nem dos encargos a satisfazer pela REFER
 

Do relatório do Tribunal de Contas. Tem de se reconhecer, porém, que os juízes não tiveram em consideração o aumento de tráfego que uma oportuna paragem em Évora poderia trazer, agora que tantos residentes em Lisboa a elegeram como destino de peregrinação.

 

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Facto nacional de 2014

por Pedro Correia, em 03.01.15

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DERROCADA DO GRUPO ESPÍRITO SANTO

O facto nacional do ano - e talvez até da década - foi, para uma clara maioria de membros do DELITO DE OPINIÃO (15 em 26), a derrocada do Grupo Espírito Santo, que tinha Ricardo Salgado como figura de referência. Um facto que representou também o fim da última dinastia familiar na área financeira em Portugal.

Formalizada a 18 de Julho de 2014, a insolvência do GES - que foi notícia um pouco por todo o mundo - abalou não só a banca portuguesa mas também grande parte do tecido empresarial do País, na medida em que o Banco Espírito Santo era o maior financiador das pequenas e médias empresas portuguesas.

O "buraco" superior a mil milhões de euros detectado nas contas do Grupo - que em 2011 havia recusado um empréstimo posto à disposição da banca portuguesa no âmbito da assistência de emergência ao País - forçou a intervenção do Banco de Portugal, que dividiu os activos financeiros do GES em "banco mau" e "banco bom", dando este origem ao Novo Banco, entretanto posto à venda perante o aparente interesse de 17 potenciais compradores.

O caso deu origem a um megaprocesso judicial e a uma comissão parlamentar de inquérito que decorrerá pelo menos ao longo do primeiro trimestre de 2015 na Assembleia da República. Nunca os portugueses acompanharam com tanto interesse um caso ligado à alta finança - na certeza de nos dizer respeito um pouco a todos nós.

 

O segundo facto mais votado do ano, embora a larga distância do primeiro (quatro votos), foi a detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, que irá prolongar-se por 2015. Em terceiro lugar (três votos), a saída da troika e o fim do programa de assistência financeira externa a Portugal.

Houve ainda dois votos na justiça, sem especificação de casos, e votos isolados distribuídos pela mudança de secretário-geral no PS e o aparecimento do jornal digital Observador.

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

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O pior de dois mundos

por José António Abreu, em 27.11.14

José Sócrates foi o pior primeiro-ministro da terceira república e um dos três políticos portugueses mais importantes das últimas três décadas e meia (estou a recuar apenas até à morte de Sá Carneiro mas provavelmente poderia ir até 1974). Conseguiu-o unindo as piores características dos outros dois: Cavaco Silva e Mário Soares.

 

Como tem sido abundantemente referido, Cavaco lançou o modelo económico baseado em investimento público em infra-estruturas, desinteresse pelo sector de bens transaccionáveis, sistema de ensino mais baseado na massificação do acesso do que na qualidade, sector público cada vez maior e mais difícil de controlar. Mas Cavaco ainda pode apresentar uma desculpa: em 1985, quando chegou ao poder, Portugal era muito diferente. Justificava-se algum investimento em obras públicas, para mais quando estavam disponíveis fundos comunitários para o efeito (poucos se lembrarão mas não existia sequer uma auto-estrada completa entre Lisboa e Porto). Justificava-se claramente a reforma do sistema fiscal (uma alteração que queda esquecida, nesta época em que não convém dizer bem de Cavaco). Justificava-se a tentativa de abrir o sistema de ensino ao maior número de alunos possível, após décadas de salazarismo, ainda que fazê-lo demasiado depressa acarretasse riscos – comprovados – de quebra na qualidade. Apesar de ter sido feita por motivos eleitoralistas, justificava-se em parte a reforma do sistema retributivo da Função Pública, muito mal paga durante o salazarismo (e, sim, um país evoluído necessita de uma boa Função Pública, o que implica salários convenientes). O grande problema dos governos de Cavaco (em especial dos maioritários, em especial do segundo) foi o descontrolo em que se entrou – e (um ponto indesculpável) o desprezo a que foi votado o sector de bens transaccionáveis, com o desmantelamento forçado (começo a soar como o PC mas, de longe a longe, serve como purgante) da capacidade instalada em vários sectores, entre os quais a agricultura (hoje em crescimento). Mas, se Cavaco lançou o modelo, ninguém depois dele foi capaz de o ir corrigindo à medida das necessidades. O sector público, pejado de corporações, tornou-se demasiado forte; os empresários do regime, muitos dos quais ligados à construção civil e à banca, manobraram para que os dinheiros públicos continuassem a fluir na sua direcção; a baixa de juros conseguida com a introdução do euro iludiu toda a gente, gerando níveis insustentáveis de endividamento, potenciados durante longo tempo pelo Estado através de bonificações ao crédito e benesses em sede de impostos sobre os rendimentos. Quando Durão Barroso afirmou que o país estava «de tanga» e urgia tomar medidas desagradáveis, todos lhe caíram em cima – da comunicação social a Jorge Sampaio, passando por um Partido Socialista que saíra do poder com referências ao «pântano» mas as esqueceu de imediato para tombar no populismo e na demagogia habituais. E depois veio Sócrates. E foi então que o modelo a que Cavaco entretanto descobrira as falhas atingiu o esplendor máximo, em particular após a crise financeira internacional abrir portas à versão de que era urgente estimular a economia, devendo o controlo do défice ser preocupação para mais tarde (foi-o e todos sabemos com que consequências).

 

A influência de Mário Soares no período Sócrates é mais subtil mas ainda mais perniciosa. Soares, que sempre se moveu numa esfera de inimputabilidade, representa uma maneira de ser (talvez mais do que «agir») bastante disseminada na sociedade portuguesa, assente em grupos de amizade e troca de favores. Mais do que o socialismo, a ideologia de Mário Soares é o bem-estar pessoal e dos seus próximos. Daí não ter tido quaisquer problemas em, enquanto primeiro-ministro, implementar medidas do FMI similares às que nos últimos anos criticou. Daí nunca ter mostrado reticências em dar preferência a pessoas e organizações fora do quadrante ideológico a que presumivelmente pertence – pense-se em Savimbi e na UNITA. Soares move-se num mundo onde os que estão do lado dele são intrinsecamente bons e não merecem sujeitar-se às minudências das regras – ou mesmo (veja-se Craxi ou as declarações actuais sobre a detenção de Sócrates) das leis. Move-se também num mundo cosmopolita, de ideias e frases (feitas) grandiosas. É um bon vivant. Embora consiga mostrar-se à vontade entre o «povo» (num registo apenas ocasionalmente manchado por uma certa condescendência), aprecia dar-se com pessoas importantes e faz questão de que se saiba que o faz (mon ami Mitterrand). Muitos já o afirmaram: mais do que as diferenças políticas (durante muito tempo, tão ligeiras quanto as diferenças entre o estilo de governação tradicional dos governos do PS e do PSD), foi esta faceta que o afastou de Cavaco. Para Soares, Cavaco era – e é – plebeu, inculto, grosseiro (relembre-se a famosa fatia de bolo-rei). Nada como Soares, como os seus amigos socialistas ou mesmo como os líderes anteriores do PSD. E, no entanto, carregado com todos estes defeitos, vindo de fora do sistema (Cavaco afirma frequentemente não ser um político, o que é quase verdade quando o seu percurso é comparado ao de Soares), Cavaco retirou Soares e os seus do poder, conseguindo a então quase mítica maioria absoluta. Imperdoável. Anos mais tarde, para tentar impedir Cavaco de chegar a Belém, Soares incompatibilizar-se-ia mesmo com um velho amigo, Manuel Alegre, sofrendo a sua mais estrondosa derrota política (como deve ter doído a um homem que cruzou armas com – e venceu, apesar de pelo menos num dos casos tal ter sucedido por falta de comparência – políticos da estirpe de Álvaro Cunhal e Sá Carneiro). Hoje, quando a idade já não lhe permite alinhavar as ideias de forma a criar uma versão inteiramente coerente e pessoalmente vantajosa de acontecimentos que lhe desagradam (algo em que Sócrates é mestre), alguns acusam Soares de senilidade. Não nos conceitos por trás do discurso. Os conceitos são os de sempre: ele e aqueles que lhe agradam são impolutos e, acima de tudo, intocáveis.

 

José Sócrates constitui a pior amálgama possível das características dos dois – e, por conseguinte, o pináculo dos piores defeitos nacionais. De Cavaco, herdou a tendência autoritária (que, no fundo, embora em registo soft, Soares também possui), levando-a muito para além do que deveria ser politicamente (e talvez criminalmente) aceitável. Em ambos, vislumbra-se a sombra de um Salazar que ainda há não muitos anos foi eleito o maior português do século XX. Terem sido os únicos a conseguir maiorias absolutas para os seus partidos é sinal revelador da necessidade de pastoreio que os portugueses continuam a sentir. Sócrates herdou também de Cavaco a tendência para meter o Estado em todos os recantos da actividade económica e não vale a pena pretender que, num caso como no outro, isso não originou corrupção. Mas Cavaco tinha – ou parecia ter – mais um ponto em comum com Salazar: a frugalidade. Esta é uma característica que Sócrates, crescido no país novo-rico que as políticas de Cavaco originaram, claramente dispensa. Pelo contrário: como Soares, Sócrates quer viver da forma a que julga ter direito. Quer dar-se com pessoas importantes (à falta de Mitterrand, arranjam-se Chávez e Kadhafi), vestir e comer bem, ser olhado com admiração (uma diferença substancial em relação a Soares – e Cavaco: confunde admiração com temor ou, pior, até gosta de ser temido). Quer decidir, conceder favores, controlar tudo. São estes factores, e não convicções ideológicas, que o levam a aumentar o papel do Estado na Economia (um Estado grande faz com que Sócrates seja mais necessário, mais bajulado – em suma, mais poderoso) e também às manobras para controlar a comunicação social. Está no centro de um grupo de «amigos» (talvez sem aspas, não sei) que surgem em inúmeros negócios com o Estado ou controlam neste posições-chave. Atira meia dúzia de ossos à esquerda (as «causas fracturantes») e mantém um discurso de defesa do Estado Social enquanto gere o interesse público com os amigos e em função deles. (Cavaco também teve um círculo de amigos de carácter duvidoso mas nunca pareceu privilegiá-los, pelo menos durante o tempo em que exerceu funções públicas – a dada altura, até parecia farto deles.) Apanhado na teia de vários escândalos, escapa às questões da Justiça, onde alguns dos referidos amigos ocupam posição de poder, e responde às da comunicação social com a assinalável capacidade para, independentemente do teor das perguntas, repetir ad nauseum e em tom ultrajado meia dúzia de frases feitas. Estávamos nos tempos em que a comunicação social já era abjecta (enfim, alguma comunicação social, que outra, por convicção, interesse ou medo, continuava a apoiá-lo) mas em que a Justiça, dispensando-o das explicações (até poderia estar inocente mas a acumulação de indícios era excessiva para tamanha indiferença), decidia bem. Hoje, que lhas pediu, a Justiça é um antro de conspiradores. Dizem-no os seus amigos. Di-lo o seu mais dilecto pai espiritual, Mário Soares. Estão todos certos. Gente superior não merece tal tratamento. Merece passar por entre as gotas da chuva - e ser aplaudida, em vez de questionada, por tão fabulosa capacidade.

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Terrenos legítimos

por José António Abreu, em 24.11.14

É verdade que a detenção de José Sócrates causa problemas a António Costa, um homem que o acompanhou desde o início e que nunca se demarcou das suas políticas. Mas abre também caminho para que qualquer menção ao seu legado político seja enfrentada com acusações escandalizadas de mistura entre os planos político e judicial. Que fique então claro: seja Sócrates formalmente acusado ou não, a sua acção política - e o papel de Costa nela - será sempre terreno legítimo de combate político. Mais ainda: será sempre legítimo discutir se um Estado metido em tudo o que mexe, como o que - dos Magalhães e da PT à construção civil - ele implementou e Costa parece defender, gera ou não riscos acrescidos de corrupção.

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Aguardemos com calma, pois então

por José António Abreu, em 23.11.14

Não deixa de ser curioso reparar na prudência com que a esquerda à esquerda do PS comenta a detenção de Sócrates. Seria certamente diferente se estivéssemos perante um ex-ministro do PSD ou do CDS. E nem mencionemos aqueles humanos para quem o ónus da prova parece inverter-se: empresários de forma geral, banqueiros em particular.

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Continua a campanha de promoção externa de Portugal

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.11.14

El ex primer ministro socialista de Portugal, José Sócrates, fue detenido hoy por su presunta vinculación con un caso sobre fraude fiscal, blanqueo de capitales y corrupción. - El Pais

Sócrates fue arrestado, sobre las 23.10 horas, a su llegada al aeropuerto de Lisboa en un vuelo procedente de París, según informan los medios lusos. - El Mundo

 M. Socrates fait partie d'un groupe de quatre personnes interpellées au cours des derniers jours, dont trois ont été présentées au juge vendredi, indique le ministère public dans un communiqué. - La Libre.be

L'enquête porte sur des opérations bancaires et des transfers d´argent d´origine inconnue, et n'a pas lien avec l'opération Monte Branco, un coup de filet qui avait entraîné l'arrestation en juillet de l'ancien PDG de la banque Espirito Santo (BES), Ricardo Salgado. - Le Monde

Efforts to contact Socrates through the Socialist Party’s Lisbon press office outside of regular business hours were unsuccessful. No personal telephone number is publicly listed for him.- Bloomberg

Portugal's former Socialist prime minister Jose Socrates was arrested on Friday as part of an inquiry into tax fraud, corruption and money laundering, the public prosecutor's office announced - Strait Times

The news of Socrates' arrest comes hard on the heels of another scandal which cost Portugal's Interior Minister Miguel Macedo his job on Sunday. Macedo resigned after several senior government officials were arrested as part of a probe into money laundering and influence peddling around so-called "golden visas". - Channel News Asia

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Nova campanha de promoção de Portugal no estrangeiro

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.11.14

"No government members are suspected of any involvement, the attorney general’s office said in a statement. But the case is nevertheless a deep embarrassment for Prime Minister Pedro Passos Coelho, whose government had trumpeted the golden visas as a resounding success. The scheme has now cost him a key minister less than a year before a general election, while Mr Portas has agreed to be questioned on the issue by a parliamentary committee. The investigation comes only months after the collapse of the Espírito Santo business empire in one of Europe’s biggest financial failures for years."

 

"The police have arrested several high-ranking officials, including the head of the country’s immigration and border service, under the investigation. Searches were carried out last week at several locations, including the interior ministry."

 

"The detentions are a blow to the centre-right government, which has promoted its "golden visa" scheme as the most successful in Europe."

 

"Police arrested the head of Portugal's immigration and border service as part of an investigation into corruption linked to the issuing of so-called "golden visas" to wealthy foreign investors."

 

"An investigation into alleged corruption linked to the issuing of so-called “golden visas” to wealthy foreigners in Portugal has claimed another scalp."

 

Alguém vai ter de conter este estrondoso sucesso internacional do programa dos "golden visa". Nunca tão poucos criaram tanto emprego, captaram tanto investimento produtivo e dinamizaram a economia em tão pouco tempo e sem recursos. Estão todos de parabéns.

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Indiferença

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.11.14

Tirando os habituais comentários e os textos indignados de meia dúzia de articulistas encartados, o que torna tudo mais real e ao mesmo tempo assustador é a indiferença com que tudo isto é visto pelo cidadão comum. Como algo normal e corriqueiro. Porque o pagamento de comissões, a troca de favores, a agilização de procedimentos e a facilitação de negócios duvidosos está institucionalizada. Como se não houvesse vida depois de amanhã. Como se esta pessegada dos "vistos gold", patrocinada pelo Presidente da República e o Governo, fosse uma coisa normal num Estado de direito respeitável. Como se o significado da diplomacia económica fosse vender apartamentos de cento e tal mil euros por mais de quinhentos mil e repartir o remanescente em comissões entre portugueses e intermediários chineses. Como se isto fosse uma actividade respeitável. Como se pudesse haver seriedade no limbo. Como se o trigo e o joio se tivessem por milagre reunido para constituírem a nossa natureza. Como se mil milhões, dos quais seguramente trinta a quarenta por cento foram para o pagamento de "comissões", valessem o escândalo, a imagem de abandalhamento que fica das instituições, a credibilidade e a reputação do Estado. Como se tudo isto fossem coisas menores.

 

De um povo de indiferentes resignados só se pode esperar a indiferença. A moleza. É este o preço que andamos a pagar há décadas enquanto nos acenam com a esperança. E que vamos continuar a pagar. Com toda a indiferença.

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O que as estatísticas dizem sobre nós

por Ana Lima, em 18.11.14

A mim, que ando diariamente de transportes públicos e que, a partir de Janeiro do próximo ano, não poderei sequer levar as minhas filhas ao médico de carro porque, de acordo com as novas regras de circulação na Zona de Emissões Reduzidas em Lisboa, ele é velho de mais para circular no percurso entre a minha casa e o consultório, há determinadas notícias que me conseguem surpreender. E não é inveja que sinto (pronto, talvez um bocadinho). É mesmo incredulidade.

E cito: "o crescimento do mercado é liderado essencialmente pelos países que passaram por uma situação de resgate financeiro". É como se os portugueses, numa tentativa, frustrada, na minha opinião, de fazerem humor, mostrassem aos seus financiadores externos que estão numa fase de franca recuperação. Mas não é isso mesmo que esses países, produtores dos bens que nós insistimos em comprar, querem que aconteça?

Muitas coisas estão em jogo, sabemos, nomeadamente o facto das empresas portuguesas que vendem para a indústria automóvel também beneficiarem com esta situação. Numa economia global é claro que, num mesmo território, há sempre quem ganhe e quem perca com os comportamentos económicos dos consumidores. 

Mas, perante esta liderança nas vendas de um bem como o automóvel e a situação da maioria das famílias portuguesas, não posso deixar de pensar que é a um espelho que o Zé Povinho faz o seu gesto. No fundo é a chamada re...

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 Imagem copiada da net

 

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Números

por José António Abreu, em 18.11.14

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Aproveito o facto de ter mencionado a Finlândia no texto anterior para voltar a esta tabela. Publiquei-a há quase dois anos, acompanhada da frase «se em 2013 o PIB português cair menos de 3% e em 2014 já crescer qualquer coisinha poderemos dar-nos por muito satisfeitos». Sempre achei curioso o post não ter suscitado um único comentário. Pois bem, apesar de tudo, podemos dar-nos por satisfeitos: entre 2011 e 2013 o PIB português caiu cerca de 60% do que caiu o finlandês entre 1991 e 1993 (dados actuais do FMI: -1,3/-3,2/-1,4 contra -6,0/-3,5/-0,8) e caiu igualmente menos do que qualquer dos restantes casos apresentados na tabela. Se é verdade que, no primeiro ano de recuperação, o PIB finlandês cresceu 3,6% e o português deverá crescer aproximadamente 1%, nessa altura a taxa de desemprego na Finlândia ainda andava pelos 16,6% e apenas desceu dos 14% no terceiro ano de crescimento do PIB. Pertencer à União Europeia (esse monstro incapaz de solidariedade a que a Finlândia aderiu logo a seguir) e ao euro (que diminui o ritmo da recuperação mas aumenta as probabilidades de que ela seja sustentável) é de facto trágico.

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PT

por José António Abreu, em 17.11.14

1. Enternece ver tanta gente defendendo o controlo nacional de uma empresa que, na prática, é brasileira - e se tornou brasileira sem grande contestação. Apetece perguntar onde diabo andavam todas estas almas quando a Sonae oferecia dez vezes mais do que a PT vale hoje. Dando vivas a José Sócrates e Ricardo Salgado, evidentemente, enquanto estes manobravam para que Belmiro falhasse a OPA. Dando vivas a um processo que levou à descapitalização da empresa (era preciso convencer os accionistas a não vender), à parceria com uma operadora brasileira de segunda linha (era do «interesse nacional» que a PT mantivesse presença no Brasil), ao aprofundamento da promiscuidade entre a PT e o GES (o resultado da OPA deixou não apenas claro quem mandava como que o fazia com bênção do governo), à fragilidade da situação actual. A PT (Passos Coelho tem toda a razão) constitui o paradigma do que se obtém quando um Estado controlador e incompetente (por cá, um pleonasmo) decide meter-se onde não devia, em nome de um difuso «interesse nacional» que, na prática, se consubstancia em assegurar lugares para boys apreciadores de robalos. No final da década de 90, após a crise financeira que atingiu os países nórdicos, 60 % das instituições financeiras finlandesas passara para mãos estrangeiras. Ainda recentemente, a divisão de telemóveis da Nokia foi vendida à Microsoft. Por cá, grita-se escândalo sempre que qualquer empresa de capitais nacionais com dimensão suficiente para abrir noticiários televisivos 'corre o risco' de ser vendida a estrangeiros (curiosamente, parece que os brasileiros não o são). Os socialistas, coerentes na via como tendem a 'resolver' os problemas (mesmo os que foram criados exactamente pela aplicação dessa via), clamam por intervenção governamental. O professor Marcelo, intocável no posto de populista esclarecido, acha «imperdoável» ter-se prescindido da golden share. A mensagem é clara: as empresas podem ser privadas desde que pertençam a alguém que agrade ao governo. Incorrigíveis. Incapazes de aprender. Economicamente salazarentos. Mas depois estranham a falta de investimento estrangeiro de longo prazo em Portugal.

 

2. Há contudo uma área em que o Estado tem um papel crucial: a garantia da concorrência. Num sector com apenas três grupos fortes, a PT não pode acabar por, abertamente (através de uma fusão) ou de forma enviesada (através de conjugação de estratégias), constituir uma extensão de um dos seus actuais concorrentes.

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Deve Portugal ser um país independente?

por Rui Rocha, em 10.11.14

 

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Ingenuidades

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.11.14

Xanana_2011.jpgPoucos, entre os quais não me incluo, conhecerão objectivamente as razões que ditaram o afastamento dos magistrados portugueses e de um oficial da PSP, creio, que estavam ao serviço em Timor-Leste ao abrigo da cooperação judiciária com aquele Estado. Por isso mesmo, não me abalanço a fazer juízos, nem a retirar conclusões apressadas sobre o que aconteceu. Mas parece-me cristalino que a reacção do Governo de Timor-Leste foi excessiva, ofensiva para Portugal e para a dignidade dos visados. As declarações de Xanana Gusmão, manifestando o seu espanto pela reacção portuguesa, só podem radicar no foro da ingenuidade, o que para um líder da sua estirpe e com a sua experiência será sempre difícil de engolir.

Para quem tem a sua vida organizada e cumpre uma função de interesse público, neste caso do interesse de Timor-Leste, convenhamos que uma ordem de expulsão com a amplitude e consequências daquela que foi tomada, para ser cumprida em 48 horas, e com acusações de incompetência à mistura, não é fácil de digerir.

E inaceitável na perspectiva do relacionamento entre dois Estados soberanos com relações de amizade e cooperação a diversos níveis, partilhando o mesmo património cultural e linguístico.

O primeiro-ministro timorense, pura e simplesmente, esqueceu-se do papel desempenhado por Portugal e pelos portugueses no caminho que foi cumprido desde a invasão indonésia até à proclamação de independência e consolidação do Estado timorense. Dizer que com a declaração de expulsão não se visou Portugal nem os portugueses, sabendo-se que estes seriam os primeiros atingidos, e sem pensar nas consequências, evidencia laivos de hipocrisia. As declarações subsequentes agravam esse sentimento. Deste modo, só posso manifestar a minha compreensão pelas palavras do primeiro-ministro português e aplaudir as declarações da ministra da Justiça sobre esta matéria. República das bananas mas não tanto. Nada de confusões.

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Lucidez

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.11.14

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 "Acontece com os intelectuais o mesmo que acontece com a política: o descrédito (e estou a falar da Europa) em que caíram os políticos europeus e portugueses, e não só, é imenso. As percentagens de abstenção nos actos eleitorais são enormes. Porquê? Porque ultrapassámos aquilo que era normalmente admitido, uma certa taxa de mentira, que é própria do discurso político. E ultrapassámos isso com um descaramento extraordinário. O descaramento passou a ser uma das características do discurso político e em Portugal isso é extraordinário. O chico-espertismo português generalizou-se em Portugal. Isso faz com que a população se afaste cada vez mais e não acredite." - José Gil, numa deliciosa entrevista ao Carlos Morais José, Hoje Macau, 06/11/2014

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Da falta de bom senso ao consenso

por Ana Lima, em 30.10.14

Quando, aqui há uns anos, Lili Caneças pronunciou a frase "estar vivo é o contrário de estar morto", não houve quem não gozasse com tal tirada. Afinal, vemos agora que, para alguns, essa distinção não é assim tão clara. Mas depois de os profissionais do Hospital de Aveiro, durante algum tempo, não saberem se deveriam dar alta, dar baixa ou dar em doidos, parece que o assunto lá se resolveu... 

 

(apesar do post escrito em tom jocoso, esta situação seria tudo menos divertida e, mesmo com as justificações dadas, não se compreende como é que se pode criar uma norma daquelas)

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Injustiçado fui eu...

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.10.14

mario-soares-isaltino-c2d0.jpg... por nunca ter querido usar aventais, recusar ser sacristão em paróquias alheias e fazer questão de pagar os meus charutos e viagens com o produto do meu trabalho.

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Postais de Portugal

por Pedro Correia, em 06.10.14

 

Santa Luzia, sotavento algarvio, 1 de Outubro

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Guincho

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.10.14

 Quando não me lembrar de nada lembrar-me-ei de ti.

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Como ainda não perdi completamente as esperanças de um dia voltar a Portugal, continuo a receber semanalmente as actualizações sobre empregos nas minhas áreas de interesse e, de tempos a tempos, dou uma espreitadela ao que vai sendo publicado em jornais. Uma coisa que vou notando com frequencia é a aversão que os anúncios (ou anunciantes) parecem ter a identificar a empresa ou frequentemente sequer a área de actividade. Nas descrições de anúncios, as funções são igualmente de tal forma vagas que quase qualquer pessoa com as habilitações literárias indicadas se poderia candidatar. Há, por último, um curioso hábito de pedir para posições de chefia experiência em funções semelhantes.

 

Este é o tipo de anúncios que via quando andava a estudar (já lá vão 15-20 anos) e que parecem não ter mudado em Portugal. Estranhamente, as empresas parecem não ter ainda entendido que é do seu interesse anunciar que estão a contratar (sinal de saúde). No caso das descrições de funções ou qualificações, têm uma rede de captação tão grande que irão apenas aumentar o trabalho de triagem de cartas e anúncios (perdendo assim tempo e dinheiro). Por fim, parece ainda não se ter percebido que, alguém que suba dentro de uma empresa a cargos de chefia, dificilmente mudará de empresa (com todas as dificuldades subjacentes) para o mesmo cargo (ou, pelo menos, para um salário semelhante).

 

Estas são lições que vejo aprendidas por toda a Europa. O tecido empresarial português ainda não o parece ter percebido. Também nisto há muito que mudar a nível de mentalidades.

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Marinho e Pinto, pós «barriga de aluguer»

por José António Abreu, em 12.09.14

Não é inesperada mas não deixa de ser irónica, a forma como os mais estridentes críticos das 'jogadas' na política são os seus mais perfeitos executantes.

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E Portugal não diz nada?

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.14

A RAE de Macau atravessa um período de instabilidade política e social, a qual tem tido eco quer na imprensa local e regional, quer na internacional. Em Portugal também não têm faltado algumas notícias, ainda que esporádicas, ao que por aqui se passa. 

Depois das manifestações de Maio e Junho, que trouxeram para as ruas largos milhares de pessoas, até então silenciosas e submissas, por causa da preparação de um diploma que visava atribuir aos actuais governantes, à beira de cessarem funções, e aos que já há muito terminaram, um conjunto de escandalosas benesses de natureza pecuniária e jurídica visando o seu injustificado enriquecimento e protecção, e do despedimento de académicos, pelo menos num dos casos com expressa invocação de razões políticas, a Região volta a ser confrontada com momentos de tensão.

Decorrendo neste momento a "campanha eleitoral" do candidato único à chefia do Executivo da RAEM, traduzida em contactos informais com associações profissionais, culturais, sociais, empresariais, comerciais e industriais, incluindo algumas de matriz portuguesa e genuinamente macaense, onde normalmente sem perguntas o candidato discursa, distribui cumprimentos e faz brindes, pede desculpa pelo que correu mal, promete um mundo maravilhoso e faz pungentes declarações de amor à Pátria e a Macau, o que certamente ninguém esperaria era que, a uma semana do acto eleitoral que entronizará Fernando Chui Sai On para um segundo mandato, as ruas fossem de novo invadidas por manifestantes - trabalhadores dos casinos agrupados na denominada Forefront of Macau Gaming - que reclamam melhores salários e condições de vida dignas, e que Macau voltasse às páginas dos jornais pela repressão ao exercício de direitos de manifestação e de liberdade de expressão política, a ponto de suscitar a apreensão da Amnistia Internacional.

O problema reside agora no facto de três organizações da sociedade civil (Macau Consciência, Juventude Dinâmica e Sociedade Aberta de Macau), politicamente bastante activas e organizadas, terem desencadeado um processo de auscultação da opinião pública para saber se as pessoas têm confiança no Chefe do Executivo e se querem que a próxima escolha seja por sufrágio universal. Deram-lhe, erradamente, o nome de "referendo civil", com o que quiseram imitar um processo idêntico verificado em Hong Kong, no qual participaram quase oitocentas mil pessoas.

Depois de terem visto negada a autorização para o uso de espaços públicos e do Tribunal de Última Instância, prudentemente, se ter colocado à margem da controvérsia, dessa forma evitando comprometer-se e dando uma no cravo e outra na ferradura, iniciaram o processo de recolha de opiniões em diversos locais da via pública, usando "Ipad's", e através de um site na Internet. Os organizadores contam recolher opiniões até às 12h de 31 de Agosto, dia em que ocorrerá a escolha do novo Chefe do Executivo, mas tiveram o cuidado de, desde logo, avisar que o resultado da sua consulta só seria divulgado depois de conhecidos os resultados oficiais.  

A posição das autoridades da RAEM, aliás fazendo eco da opinião que desde a primeira hora foi veiculada pelo porta-voz do Governo, foi no sentido de considerar ilegal o "referendo", dizendo que o mesmo não estava previsto na lei. A partir daí, e a despeito da pouca sensatez política e jurídica dos argumentos, que quanto à sua substância jurídica foram inteligentemente desmontados, entre outros, por António Katchi, nas páginas do Ponto Final, o Governo persistiu na sua posição e no Domingo, 24 de Agosto, primeiro dia do "referendo", procedeu à detenção dos organizadores invocando a recolha "ilegal" de dados pessoais e a prática de crimes de desobediência qualificada, argumentos a que também já foi dada resposta.

Se neste processo os organizadores da consulta não estiveram bem na estratégia utilizada - politicamente criticável pela sua ingenuidade, discurso utilizado e persistência num discurso que servia os interesses das autoridades locais -, cuja primeira atitude deveria ter sido a alteração do nome da consulta de referendo para sondagem logo que as críticas dos sectores pró-governamentais e do próprio Governo surgiram, certo é que o Governo da RAEM tem reagido mal e de forma desproporcionada ao que está acontecer. Ao dar ao assunto a importância que aquele não tem, o Governo da RAEM conferiu-lhe escusada projecção e dimensão internacional, transmitindo uma imagem de grande insegurança na sua actuação, de falta de estratégia política e de confiança na acção do sistema judicial, deixando escapar de forma expressa - porque implícita sempre esteve presente - a ideia de manipulação da Administração Pública e das forças policiais, bem como de incapacidade para lidar com a crítica e a liberdade de expressão.

É evidente que a recolha de dados pessoais para um fim específico e autorizada pelos próprios, cidadãos maiores, politicamente responsáveis e conscientes, como seja a identificação ou o número do respectivo documento de identificação, como é normal em qualquer país democrático para subscrição de petições públicas ou até para participação em sorteios ou recebimento de ofertas promocionais de empresas comerciais, não se confunde com a recolha não autorizada, escondida e à revelia dos visados dos seus dados pessoais para criação de bases de dados para utilização duvidosa, que aqueles desconhecem e ninguém controla. E a prova de que as pessoas não se sentiram lesadas nem desconfiaram do procedimento foi que logo a seguir à detenção dos organizadores aumentou o afluxo de participantes via Internet para participarem na sondagem. A desproporção de meios entre as autoridades e os organizadores da consulta é óbvia, tornando-se ridículo que a detenção de Jason Chao, conhecido activista que lidera o movimento, tenha ocorrido num momento em que este se dirigia para uma casa de banho e as autoridades de Macau tenham passado pelo vexame dele se recusar a falar, garantindo o seu direito ao silêncio, recusando-se a fornecer quaisquer dados inerentes à consulta aos elementos das forças policiais, incluindo, e bem, a rejeição de lhes facultar a identidade dos participantes com o argumento simples e eficaz de que só o faria com uma ordem judicial.  

Escusadamente, Macau volta a estar nas páginas da imprensa internacional. Pelas piores razões e justificando a atenção dos media, da opinião pública mundial e das organizações de protecção dos direitos humanos. Em causa, de novo, questões que se prendem com a participação política e o direito ao sufrágio universal. Mas tal como noutras questões que não foram suficientemente acauteladas pelos negociadores portugueses, também nesta matéria Portugal esteve mal ao não ter conseguido que na Declaração Conjunta Luso-Chinesa tivesse ficado, ao contrário do que aconteceu com a Basic Law de Hong Kong, através do artigo 45.º, o direito ao sufrágio universal, pelo menos como meta a atingir num futuro próximo: "The method for selecting the Chief Executive shall be specified in the light of the actual situation in the Hong Kong Special Administrative Region and in accordance with the principle of gradual and orderly progress. The ultimate aim is the selection of the Chief Executive by universal suffrage upon nomination by a broadly representative nominating committee in accordance with democratic procedures". Esta última é uma frase que faz toda a diferença entre um lado e o outro do estuário do rio das Pérolas, e que diz bem da diferente postura de portugueses e ingleses.

Enfim, nada que não fosse previsível vir a acontecer e que os portugueses ficaram a dever, entre muitas mais, ao povo de Macau. Mas quanto a isto, o melhor mesmo é os portugueses perguntarem ao Presidente da República, Cavaco Silva, por que razão tal não ficou consagrado. É que foi este senhor quem, em última instância, em 13 de Abril de 1987, foi a Pequim assinar em nome do Governo Português o documento que formalizou os termos para a transferência de Administração de Macau para a RPC, fixando a agenda para os 50 anos pós-1999.

Como se vê, volvidos apenas meia dúzia de anos, a História não perdoa erros de tão grande miopia política. Jason Chao tinha menos de seis meses quando a Declaração Conjunta foi assinada. Trocar princípios ou vistos de residência por patacas e euros nunca poderia dar bom resultado. A não ser para os bolsos dos que à custa disso se tornaram empresários, fizeram fundações, promoveram o BPP ou puderam mudar-se para a Quinta Patiño.

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O padrão

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.08.14

Os nomes são o que menos importa, embora um deles seja de antologia. São casos que se repetem, aqui e ali, de cada vez que há lugares em disputa num partido. Ou porque moram todos na mesma casa, ou porque pura e simplesmente não existem e quem controla as estruturas de base de alguns partidos não tem idoneidade política, ética e moral para andar por lá. Mas, apesar disso, continua a gozar do apoio dos compinchas, da protecção dos que dependem e dos seus votos, e dos dirigentes que enterrando a cabeça na areia lhes vão aparando os golpes. À socapa.

É um padrão que se repete de Norte a Sul e que não é exclusivo dos partidos. Olhe-se para a banca. Veja-se o que se passa em muitas grandes empresas e até na gestão das finanças de algumas autarquias. Assumem formas moluscóides que se reproduzem com grande facilidade em determinados meios e gozam de aceitação e condescendência social. Da família da alta finança, cujos filhos estudaram na Suíça, ao laparoto da concelhia do partido que quer garantir a senha de presença e os "contactos" na assembleia da terriola, salvo raríssimas excepções de meia dúzia de postergados que preferem o anonimato e a desesperança a terem de vergar, o modelo aplaudido é sempre o mesmo. Com ou sem variantes.

Aquilo que devia dar cadeia justifica-se com o facto das eleições serem concorridas, a dimensão do negócio, a interpretação mais favorável ou o currículo do candidato que por acaso, e só mesmo por acaso, é filho de quem é. As regras que se acomodem. Nós somos assim e temos orgulho em ser assim. Estamos conversados.

Tempo houve em que a culpa era dos fascistas. Depois passou a ser do Otelo e dos comunistas. De caminho foi dos retornados, antes de passar a ser da abstenção e da União Europeia, e de dar lugar à Constituição, ao BPN, ao BES, sem esquecer a Lusófona, a Internacional, a Lusíada, e toda a série de falcatruas, cambalachos e maroscas que tomou conta do país e encheu os bolsos de quem manda. Agora estamos no ponto em que a culpa é da participação. A malta entusiasma-se, quer participar, e aqui vai disto. É o salve-se quem puder.

Podem continuar a fazer reformas como até aqui, a promover primárias, directas, prós e contras, comissões de inquérito, novos acordos ortográficos, a constituir fundações e a endeusarem desportistas ricos, que sendo muito bons no que fazem não deixam de ser quem são, e miúdas giras. Daquelas que usam telemóvel "xpto" com a boca cheia e levam a faca à boca enquanto mostram os aveludados seios fartos nos matutinos e revistas da sociedade.

Enquanto permitirem a sobrevivência do modelo, enquanto tivermos um padrão que é intrínseca e estruturalmente desonesto em quase todas as suas manifestações, tudo continuará recorrentemente como até aqui. E para o caso é irrelevante que estejamos a falar do primeiro magistrado da nação, do diplomata jubilado que assessora autarquias e promove "golden visas" para chineses ou de um trolha. A pobreza sente-se na bolsa, na vida, no quotidiano noticioso, nas declarações dos dirigentes, nos casos do dia. Da política ao desporto.

Não há, não pode haver, nunca haverá excelência, rigor, educação, cultura, decência, numa palavra apenas, civilização, entre ervas daninhas. Se não matarem o padrão; enquanto, parafraseando o Rui Rocha, não se livrarem do cabrão lusitano não entrarão no reino dos céus. Por mais que gemamos a cantar o fado ninguém terá piedade de nós.

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Os porquinhos vão ter de voltar à escola e rever os objectivos

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.08.14

"Portugal and private funds can rescue the bank. Its problems are not related to its core business but to the actions of the family shareholders, in particular former chairman and chief executive Ricardo Salgado, 70, has been arrested and is being examined by a judge as part of an investigation of large scale money laundering.
The question remains whether the authorities should have stepped in sooner.
Salgado is a very prominent businessman in Portugal, Europe and Brazil. After he announced his intention to retire, and hand the reins to his cousin José Maria Ricciardi, some skeletons were found in the cupboards related to investments in Angola (a former Portuguese colony) and dodgy tax filings that threatened to pull the entire house of cards down." - Marcel Michelson, Forbes

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