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Sophia

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.07.14

"Da política nem falo. Ou melhor falo. É uma política dominada pela exterioridade, pela vaidade e pela leviandade machista. (...) Graças a Deus sou mulher e por isso não sinto necessidade de triunfo de carreira. Aliás penso que um artista não deve ser governo, mas sim influenciar os governantes." Março, 1978, in Sophia de Mello Breyner & Jorge de Sena, Correspondência 1959-1978

 

Os mesmos que a colocaram no Panteão são os mesmíssimos que recebem e acolhem Obiang em Lisboa e que o acolherão em Díli, de braços abertos, no dia 23 de Julho. Não sei que escreveria ela a contar ao seu amigo Jorge de Sena se soubesse disto e depois ouvisse Cavaco Silva dizer o que disse, logo ele que confundindo a função com os gostos pessoais recusou estar no funeral do único Nobel da literatura português, coisa por que ela tanto lutou. Relendo o que Sophia escreveu é caso para dizer que a hipocrisia e a desfaçatez não conhecem limites em Portugal. E fazem escola.

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O que sobra dos discursos

por Ana Lima, em 03.07.14

O deve e o haver.

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Esse é o verdadeiro problema

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.07.14

"(...) Sem qualquer ponto de contacto entre as realidades apresentadas pelo Governo e pela oposição, tivemos um debate sobre nações distintas, que de comum tinham apenas o nome: Portugal.
Ao comparar o teatro a um parlamento, Piscator argumentava que o teatro deve induzir o público a envolver-se politicamente. Terá o debate de ontem aproximado os cidadãos da política? Parece improvável, sobretudo quando nenhuma das intervenções nas mais de quatro horas de debate abordou a crescente descrença dos portugueses em relação aos seus representantes políticos: menos de 10% confiam nos partidos e 85% estão insatisfeitos com o funcionamento da democracia nacional, o mais alto nível de insatisfação da UE. E esse é também o estado da nação."- Carlos Jalali, Público

 

Perante este facto incontornável, que vai diariamente afundando o regime e a democracia, os actores entretêm-se com jogos florais. Quem sabe se não será altura dos responsáveis por este estado de coisas se inscreverem nesta prestimosa associação? Talvez esta pudesse ajudar os Coelhos, os Seguros e os Portas a ver melhor.  

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Postais de Portugal

por Pedro Correia, em 01.07.14

Erupção de patriotismo em Tavira

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Mundial no sofá (8)

por João André, em 30.06.14

Vi pouco futebol nos últimos dias, mas fica aqui a reflexão, especialmente sobre a saída de Portugal.

 

Portugal - Gana

Tacticamente, do meu ponto de vista, Paulo Bento não fez grandes asneiras. No papel Veloso seria a melhor opção para o lado esquerdo da defesa, de forma a poder subir no corredor e fazer cruzamentos de pé esquerdo e tentar aproveitar a fraqueza dos centrais ganeses. As suas subidas seriam compensadas pelo posicionamento de Ruben Amorim, que cobriria as suas costas. No lado direito João Pereira não precisaria de subir tanto, uma vez que Nani seria um extremo teoricamente mais clássico. William Carvalho funcionaria como médio mais recuado, como segurança defensiva (Quinito chamou em tempos a essa posição "líbero do meio campo").

 

No papel nada a apontar, o problema é que o futebol se joga no campo. Veloso estava obviamente sem ritmo, Nani não existiu durante 85 minutos (cada vez que passava a bola correctamente eu suspirava de alívio) e João Pereira também não anda bem. Aqui se viu a falta que Coentrão fez à equipa, tal como um segundo lateral para quem o pé esquerdo seja mais que para correr. Também se viu que Éder deve ser solteiro, bom rapaz e é esforçado, mas quem lhe viu qualidades de ponta de lança deveria passar pelo oculista. Igualmente que Varela deveria ter começado a ser titular ao segundo jogo, uma vez que em 30 minutos (bem espremidos entre 3 jogos) fez mais que Nani.

 

Isso quanto às escolhas e à táctica. Já quanto a Ronaldo, sinceramente, não lhe aponto nada. Falar-se-á mais do cabelo que do futebol, mas a verdade é que a quem aparece a 50% e ainda se esforça como ele se esforçou não se pode pedir muito mais. Tal como não se lhe pode pedir que seja o líder verdadeiro da equipa. Não o é, não tem temperamento para tal. Entreguem já a braçadeira a Moutinho, Patrício, William ou outro qualquer. Retirem esse peso a Ronaldo. É como se pedissem a Bruno Alves que se mexesse ou se concentrasse sem falhas por 90 minutos. Não funciona.

 

Habituemo-nos a isto. O próximo europeu não deve estar em causa, até porque será mais difícil a não qualificação. Mas as vacas emagreceram e muito.

 

Outras notas

Scolari continua o mesmo de sempre. Equipas unidas e com grande espírito, mentalidade de cerco, táctica básica e fé em um ou dois jogadores para resolver, e de resto porrada neles. Neste mundial ele beneficia disso, porque ninguém quer despachar o Brasil demasiado cedo. Mas, muito a contragosto, tenho que apontar que Scolari não tem sorte. Parece, mas não tem. Quem tem sorte tantas vezes e em momentos tão importantes não é sortudo: é alguém que procura esses acasos felizes. Nisso, tem muito mérito.

 

Tenho pena que o Chile tenha saído. Gostei do futebol deles, cheio de energia, feito de pressão e crença que podem derrotar qualquer um. Gostei do treinador, que corre tanto para cima e para baixo na área técnica que deve deixar um sulco no chão. Tenho pena que tenham saído.

 

Espero que se comece a notar que a Holanda não é das equipas mais interessantes do mundial. Poderão ganhar, mas a táctica pouco mais é que uma actualização mais sofisticada da de há 4 anos. Reconhecer que não tem uma boa defesa e compensá-la, porrada nos adversários para quebrar o ritmo e fé em Robben. Este é o facto decisivo: sem Robben a Holanda estaria já fora. As duas principais diferenças entre a Holanda e Portugal são Robben vs Ronaldo e Juventude vs Veterania. Claro que isso em muito deve a van Gaal.

 

Grécia está fora: é pena, gosto dos tipos, mesmo que o futebol seja chato. Costa Rica continua mais uma ronda: é agradável, mas a defesa subida deles deverá ser um gelado para o Robben nos quartos de final.

 

Hoje joga a Alemanha e não deverá ser desta que a Argélia exorciza 1982 e Gijón. No entanto ando à espera do momento em que a Alemanha impluda por causa de guerras internas entre jogadores. Está divertido: a Holanda faz o papel de Alemanha e a Alemanha de Holanda. O mundo de pernas para o ar: o mundial é no hemisfério sul.

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Im Büro*

por João André, em 26.06.14

18' - duas oportunidades falhadas. A primeira apenas meia. O Ronaldo não é de invenções no remate e por isso julgo que queria cruzar. A segunda num cabeceamento que deveria ter dado golo. Ao menos esforçam-se.

23' - duas oportunidades para o Gana. Aqueles centrais já deveriam ter sido recambiados para Portugal. William Carvalho parece o Busquets quando tem a bola. É daqueles que tem mais tempo que os outros.

30' - 1-0. sorte, é verdade, mas é um começo. A equipa está a atacar bem, Veloso está a subir como tem que subir e Amorim tenta compensar. A táctica não está má. Considerando o resultado necessário, é isto que a equipa precisa de fazer. mesmo sabendo dos riscos. (no jogo da Alemanha, um jogador americano mergulhou depois de acertar com a cabeça no ombro do árbitro).

38' - olha, o Nani está em campo. Pensei que estivéssemos a jogar com 10, que os outros estavam lesionados.

41' - de tão anjinho, o Éder deve ser solteiro e bom rapaz.

43' - os ganeses decidiram que a melhor forma de parar Portugal é à cacetada no Moutinho. Não estarão errados.

 

Intervalo - o Éder não salta, mas corre. O Boye (defesa que fez o auto-golo) deve estar comprado (ainda não foi pago). O comentador alemão acabou de dizer que Portugal faria melhor em colocar a bola na sua direcção que na do Ronaldo. Se o Nani não sai depois desta miséria o resto da equipa vai acabar de rastos.

 

50' - sempre que o Bruno Alves faz um passe a mais de 80 cm, a bola é perdida.

54' - as decisões do Nani são tão más que se ele pegasse agora nuns óculos escuros eu sacaria do guarda-chuva. (só para me chatear ainda marca um).

55' - os alemães macaram. Já só nos faltam 3.

56' - agora só nos faltam 4. Ao Gana 1. Tchauzinho cara.

60' - a sério que o Veloso era central nas camadas jovens?

69' - Éder sai, correcto. Mas que está o Nani a fazer em campo? O Varela fez mais em 5 minutos. E deveria era entrar o Rafa.

72' - Nani a ponta de lança? A sério? Se é para evitar que faça estragos, metam-no no banco.

73' - Já quase estou pelo Gana, só para que sigam para os oitavos de final.

79' - o Boye mereceu mesmo o bónus. O português, claro.

86' - a coisa não corre mal. No jogo de palpites apostei numa vitória por 2-1 de Portugal e num 1-1 dos boches com os americanos. Força Dempsey.

88' - Eduardo? Ainda bem que o mundial acaba para nós, só levámos 3 guarda-redes.

92' - Ronaldo está a golear em oportunidades falhadas. O Nani só precisou de 90' para aquecer. Agora é que vai resolver o jogo para Portugal.

Fim - a Alemanha fez a sua obrigação. Portugal despede-se pelo menos com uma vitória. A equipa médica de Portugal deve estar feliz com a eliminação, já não tinham espaço na enfermaria.

 

Obrigado a quem quer que tenha tido paciência para estes comentários. Amanhã logo analiso a coisa.

 

* - No escritório. Hoje tive de aqui ficar para ver Portugal. Os bares estão todos com a Alemanha.

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Postais de Portugal

por Pedro Correia, em 23.06.14

Tavira, ao cair desta noite de São João

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Contas.

por Luís Menezes Leitão, em 23.06.14

 

Já Vasco Pulido Valente tinha aqui referido que "qualquer indivíduo com mais de seis neurónios pode ver que a aventura da selecção portuguesa duplica em miniatura a aventura do défice e da dívida. Primeiro, o silêncio, até cairmos sem remédio no fundo do poço. A seguir, o espanto fingido ou a corajosa afirmação de irresponsabilidade. E, no fim, acusações sobre acusações, para disfarçar o facto de que toda a gente colaborara no desastre. Nós, como Ronaldo, somos manifestamente os “melhores do mundo”. Só que, de quando em quando, nos cai a Alemanha na cabeça ou uma dívida inexplicável, que levará a pagar 30 e tal anos". Eu acrescento algo mais. Depois do desastre, começamos a fazer contas, julgando poder obter o impossível, seja ele a qualificação para os oitavos-de-final ou o pagamento da dívida. Da mesma forma que os partidos do arco da governação, com Cavaco Silva à cabeça, acham que conseguimos reduzir a dívida para 60% do PIB em 2035, bastando para isso, imagine-se obter um saldo primário do PIB de 3% em todos esses anos, na selecção anda-se agora a fazer contas para o apuramento para a fase seguinte.

 

Essas contas em ambos os casos não passam, porém, de um sonho de uma noite de Verão. No caso da selecção, era preciso que uma equipa de aleijados, cujos jogadores ficam lesionados aos primeiros minutos em campo, fosse golear por 5-0 uma das equipas mais fortes fisicamente deste campeonato. Mas depois ainda era necessário que a Alemanha ganhasse aos EUA, sabendo-se que a tendência natural dessas duas equipas, que ainda por cima têm dois treinadores alemães, vai ser jogar para o empate, que as apura a ambas, e as poupa para a fase seguinte. Dizer que neste caso o apuramento é possível é tão absurdo como dizer que Portugal vai pagar a dívida, sabendo-se que para isso precisa de um saldo primário que nunca foi obtido e que é apenas 10 vezes o esperado para este ano de 2014. Como dizem os brasileiros, caiam na real.

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Mundial no sofá (6)

por João André, em 22.06.14

E pronto, Portugal joga hoje. Não vi o jogo EUA-Gana por isso não posso fazer análises tácticas. Klinsmann não é dado a grandes tácticas, mas é excelente na motivação e preparação física. Os EUA têm alguns belos jogadores (Michael Bradley ou Clint Dempsey) e são muito dinâmicos. Se Portugal jogar a pastar como no primeiro jogo, o resultado não será bonito. Teremos que esperar para ver. Sei que não verei o jogo: não tenho televisão em casa e neste momento ando sem internet. Verei o resultado pela manhã.

 


 

O jogo de ontem demonstrou uma Alemanha muito permeável pelas alas. Löw levou mais laterais (Grosskreutz e Durm) mas não tem confiança neles, prefere os centrais. Fica sem largura e sofre contra jogadores energéticos e rápidos. O Gana, com mais experiência e calma, poderia ter vencido o jogo. Os alemães ainda são um dos favoritos, mas não impressionam. O jogo com Portugal acabou por ser tão simples que camuflou as deficiências existentes. Valha o sempiternamente anti-vedeta Miroslav Klose.

 


 

Entre os favoritos apenas a França me impressionou. Num mundial de velocidade e força, Matuidi, Pogba, Sissoko, Giroud, Benzema e Valbuena têm-se sentido como peixes na água. Falta-lhes um médio defensivo mais posicional, mas se Varane se mantiver bem e os laterais não cometerem erros, a França parece-me ser, até agora, o mais forte dos favoritos.

 


 

Não quero que a Nigéria seja eliminada. Não serão muito interessantes, mas têm o guarda-redes mais subvalorizado do torneio: Vincent Enyeama. Fosse ele mais alto (tem apenas 1,82 m) e europeu/sul-americano e seria sem dúvida considerado um dos melhores do mundo. Outro do género é o costa-riquenho Keylor Navas. Nos dias bons, é intransponível. Nos maus, até Diana Ross marcaria. Ainda no assunto da diversão, fiquemo-nos por Joel Campbell. Forte, rápido (joga em fast-forward), habilidoso e com excelentes decisões. O Arsenal tem ali uma jóia.

 


 

A Argentina desilude? Não faz mal. Tem Messi.

 


 

Tenho saudades de Ibrahimovic. Falta-me alguém com o seu carisma para este mundial ser ainda melhor. Mas tem sido extremamente divertido de ver.

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Penso rápido (5)

por Pedro Correia, em 18.06.14

Os heróis de ontem são os vilões de hoje. Os mesmos que há 48 horas endeusavam até à náusea a equipa portuguesa apressam-se a figurar na primeira fila do apedrejamento aos ídolos de véspera. É um velho desporto nacional, a que as redes sociais conferem nova e mais ruidosa dimensão: vergastar quem está na mó de baixo. Pepe, vítima de um aparente curto-circuito nos neurónios, simulou agredir um adversário no chão. De repente, eis Portugal transformado num país de Pepes.

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Mundial no sofá (4)

por João André, em 17.06.14

 

Portugal 0 - 4 Alemanha

 

Muito sinceramente não sabia o que escrever. Por alguma coisa quis fazer a minha antevisão ontem, para poder deixar clara a minha capacidade de análise ou, em alternativa, para não poder fugir à evidência de uma antevisão errada.

 

Na minha previsão de equipa titular do lado alemão falhei com Schürrle. Jogou antes Götze. Já no resto parece-me que não me enganei com nada de especial. Özil de facto andou a arrastar os centrais pelo campo fora (fosse à casa de banho e Bruno Alves segui-lo-ia), o segundo golo veio de uma bola parada e Bruno Alves teve a tradicional paragem cerebral que deu o 3-0. Já a falta de apoio a Coentrão deu em alemães a acelerar por aquele flanco como se em trânsito entre Munique e Berlim. Neste aspecto antecipei que Boateng não daria muito apoio, mas não foi bem verdade. Soube subir o suficiente para oferecer mais uma linha de passe e ajudar às triangulações.

 

Portugal até começou bem a meio-campo. Veloso pressionou bem Lahm, Meireles caiu sobre Kroos e Khedira, ainda sem ritmo, não conseguia mudar o rumo. Foi no entanto sol de pouca dura e questão apenas da Alemanha ajustar o estilo de jogo. Kroos descaiu para o meio campo para ajudar a transformar o 4-2-3-1 num 4-3-3-0 e os portugueses perderam completamente o controlo do jogo. Os alemães passaram a ter duas linhas de três jogadores no meio campo que conseguiam fazer triangulações e passes e a mais avançada destas era exímia a correr para as costas da defesa e aproveitar as bolas dos restantes jogadores.

 

O único caminho que Portugal procurava eram as bolas longas para Almeida tocar para Ronaldo e um ou outra iniciativa individual de Nani. Este esteve tão mal nas suas decisões e na sua insistência em jogar individualmente que só abona em favor de Jorge Mendes que tenha renovado no ano passado o contrato com o Manchester United. A lesão de Almeida foi um golpe duro, no entanto. Éder oferece mais movimento e energia, mas luta e ocupa menos os centrais adversários, que era o necessário para dar espaços a Ronaldo.

 

Quando Pepe foi expulso, a descida de Meireles para a defesa não me pareceu opção descabida para o resto do jogo. Sem avançado de referência do lado adversário, colocar um médio nessa posição não seria assim tão má ideia. Além disso, mais um jogador capaz de sair a jogar e colocar uma ou outra bola longa em Ronaldo poderia ter ajudado a manter a chama viva. Só que Portugal tinha a cabeça já no intervalo e não soube manter a concentração. Mais uma vez se provou que Ronaldo não tem líder em campo. Ronaldo é capitão, mas não é aquele líder capaz de manter a equipa focada, como Figo, Fernando Couto ou outros o teriam feito.

 

A segunda parte foi morna. A Alemanha manteve energias e foi ensaiando acções de ataque, tratando o resto do jogo como um treino. Mais que o quarto golo, o pior da segunda parte foi mesmo a lesão de Coentrão, que não tem substituto natural (canhoto) que dê largura ao corredor e ofereça liberdade a Ronaldo. Assumindo que a lesão é daquelas que dá para mês e meio de estaleiro, a melhor opção de Paulo Bento para os outros dois jogos poderá ser enfiar Veloso naquele lado e fazer entrar William Carvalho. André Almeida é voluntarioso e até poderia cumprir o papel no lado direito, mas a falta de pé esquerdo é aqui um problema.

 

Não sei que fará Bento, mas precisa de colocar ordem na equipa. Como não acredito que os alemães façam tanto jeitinho a Klinsmann, é bem possível que duas vitórias cheguem para passar. Muito dependerá da resposta que os jogadores derem a este resultado.

 

Três notas finais:


1. A grande penalidade é discutível, obviamente. Götze deixa-se cair sem que João Pereira tivesse feito muito para isso. Há no entanto puxões do defesa e ao alemão só restou deixar-se cair. Se fosse ao contrário talvez o árbitro não marcasse, mas segundo as regras de beneficiar o atacante, é difícil criticar demasiado o árbitro. Além disso, poderia ter dado o vermelho.


2. Pepe demonstrou uma enorme infantilidade e mereceria que o enfiassem num avião de volta a Portugal. Há 5 ou 10 anos levaria um amarelo e ficaria o assunto resolvido. Hoje em dia os árbitros têm indicação para darem vermelho. Claríssimo. O facto de ser provocado é indiferente.


3. No ecrã onde vi o jogo era difícil dizê-lo, mas fiquei com a sensação que Éder teria sido mesmo travado em falta (não percebi se houve ou não contacto). Um golo não teria mudado nada nesse jogo, mas teria dado outro lustro ao resultado (os alemães talvez abrandassem ainda mais com um satisfatório 3-1) e outra confiança a Ronaldo.

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Um comentário que resume quase tudo

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.06.14

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In der Kneipe*

por João André, em 16.06.14
* - no bar.

Intervalo: ver o jogo com amigos num bar alemão só dá gozo se Portugal estiver a jogar bem.
No post anterior falei nos movimentos de Özil a atrair defesas, nas bolas paradas e nos erros de Bruno Alves. 3 golos. Também falei na importância de William Carvalho para que Veloso apoiasse Coentrão. A ala direita alemã está como na Autobahn sem Stau.
Os brasileiros a jogar por outras selecções no Brasil parecem gostar de cabeçadas.
Neste momento a única solução é tentar manter a bola e rezar para que a Alemanha decida descansar no calor.

52' o que está Nani ainda a fazer em campo?
63' acabou o mundial para Coentrão
78' vou para casa. Amanhã escrevo sobre o desastre. Boa noite.
(em actualização)

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Mundial no sofá (3)

por João André, em 16.06.14

  

Portugal - Alemanha (antevisão)

 

Ahh, futebol e Alemanha. São 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha. Muda aos 5 e acaba aos 10. Os alemães são uma máquina trituradora. A bola é redonda. Força da técnica contra a técnica da força. Sul contra norte da Europa. Clichés, clichés, clichés...

 

Pronto, já aliviei a coisa. Quem quiser clichés, que use um dos de cima. Na análise abaixo tentarei evitá-los.

 

A forma como o jogo vai ser visto depende enormemente de Cristiano Ronaldo. Tanto nós como os alemães compreendem que ele vai ser a personagem principal do jogo. Nós esperamos que Ronaldo domine a acção, os alemães desejam que ele seja notório pela sua ausência. Desde 2006 que Ronaldo, por uma ou outra razão, não está a 100% numa fase final. A grande questão é se estará a 100% por períodos suficientes dos 90 minutos que Portugal for jogando. Com Ronaldo na equipa, Portugal é a espaços uma equipa que joga com 10 contra 11. Mas vale por vezes a pena.

 

Neste jogo os alemães estão a ser obsequiosos: não vão jogar com o gigante Gomez (que ficou em casa) e que tem o ADN perfeito para fazer estragos aproveitando as falhas de concentração de Bruno Alves. Lahm vai quase de certeza jogar a meio campo, o que significa que Ronaldo não terá que o enfrentar e que os alemães vão jogar para a posse de bola. As laterais serão provavelmente ocupadas por dois centrais, Boateng à direita e Höwedes à esquerda, o que significa que não poderão sobrecarregar o lado esquerdo da defesa portuguesa (Ronaldo não ajuda muito defensivamente, o que expõe Coentrão). No papel, os alemães irão apresentar tácticas que ajudarão os portugueses. Difícil melhor.

 

Por outro lado há qualidade para dar e vender na equipa alemã, mesmo sem alguns jogadores. Os irmãos Bender, Gündogan, Reus ou Gomez provavelmente entrariam de caras na equipa portuguesa, mas os alemães não os têm à disposição. Podolski provavelmente estará no banco, tal como Götze, Schweinsteiger, Draxler e Klose. É ridículo. O ataque poderá passar pela frente de ataque Özil como falso 9 e apoiado por Müller, Kroos e Schürrle. O meio campo terá provavelmente Lahm e Khedira. A Alemanha poderá ter posse de bola de níveis guardiolianos, mas a incisão irá depender em grande parte dos movimentos de Müller e Schürrle vindos das alas e de Özil a fugir aos centrais. Será essencial ter bom posicionamento e não ser traído pelo movimento de Özil e Kroos. Por outro lado, é muito provável que as bolas paradas sejam fundamentais. Com 4 centrais no onze inicial e Kroos a bater as bolas paradas, seria burrice da parte alemã não as aproveitar. Mais importante ainda que os cantos serão os livres indirectos, a aproveitar agressividade excessiva do meio campo português.

 

Portugal terá que optar entre lutar de igual para igual num jogo baseado em posse de bola ou, preferivelmente (do meu ponto de vista), compreender que Ronaldo terá de ser usado em contra-ataque e jogar mais em 4-4-2 com Postiga ou Hugo Almeida a tentar criar espaço para Ronaldo aproveitar. No caso do 4-4-2, poder-se-à começar com Veloso ou Nani no onze inicial. No primeiro caso Veloso cairía sobre a esquerda e Meireles sobre a direita e no segundo Meireles estaria à esquerda e Nani à direita. Nani já jogou como médio direito no passado e pode fazê-lo novamente. William Carvalho e Moutinho terão, claro está, que começar o jogo.

 

Os problemas portugueses estarão nos momentos das substituições (o banco é limitado) e nas bolas aéreas para a zona dos laterais (são baixos e têm opositores directos bons de cabeça). Postiga e Hugo Almeida não duram 90 minutos e terão de ser substituídos, o que queima logo uma substituição. Se Portugal se vir a perder provavelmente não terá forma de ir atrás do resultado.

 

Em resumo: há que aproveitar o contra-ataque (de forma semelhante ao que foi feito com a Suécia), poupar Ronaldo durante os 90 minutos, evitar faltas que ofereçam bolas paradas, e é necessário que os centrais não sejam atraídos pelo movimento de Özil e Kroos (será fundamental ter William Carvalho). Depois, há que deixar Ronaldo correr com espaço em direcção à defesa adversária e dar oportunidade a Moutinho para fazer os seus passes. O jogo será, no mínimo, interessante e poderá ser tacticamente, pelo menos em termos de sistema, semelhante ao Espanha-Holanda. Esperemos que acabe também com uma vitória da equipa mais reactiva.

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"Na interpretação que têm feito da Constituição os juízes vêm modelando os princípios à la carte, em função das novas medidas. E vão encontrando novos princípios ou vão formulando novos condicionalismos";

 

"Alguns dos juízes cuja candidatura foi proposta por nós criaram a ilusão de que tinham uma visão filosófico-política que seria compatível com aquilo que é o projecto reformista que temos para Portugal no âmbito da integração na União Europeia";

 

"É verdade que foi revogado esse procedimento, isso não quer dizer que a aclaração não seja um princípio fundacional da ordem jurídica".

 

Senhor Presidente da República: Se não condecorou esta senhora, por favor, peço-lhe humildemente que o faça. Camões nunca compreenderia o esquecimento e a Nação jamais lhe perdoaria se esta distinta representante do regime ficasse de fora das quase 1000 medalhas e comendas que o seu mandato já fez sair do pesado bornal que consigo carrega.

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Confrangedor

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.06.14

 

(foto da Lusa)

 

Ano após ano, a lista repete-se com uma assustadora previsibilidade e um traço comum que é a desvalorização da noção de serviço à comunidade, à causa pública, numa repetição parola e cada vez mais pungente daquilo que devia ser o reconhecimento de uma cidadania de excepção. Ao invés, continua-se a valorizar a banalidade, a misturar o azeite mais puro com o detergente barato, a colocar no mesmo patamar a carreira construída a pulso, com trabalho e empenho, com a carreira construída à sombra da sorte, do favor político e empresarial, da porta que se abriu em nome do apelido ou da origem da casta. Como se a atribuição de medalhas a eito no Dia de Portugal devesse ser eternamente uma celebração barata e ordinária com ofertas de brindes, recepções e espectáculos anódinos para o povo ignorante se entreter antes de se entregar aos tendões de Cristiano Ronaldo. Como se o momento mais importante para a exaltação de uma cidadania de excepção, talhada no rigor, na seriedade intelectual, na força do carácter, pudesse ser tão recorrentemente desvirtuado perante a complacência e vacuidade dos frequentadores de salões, o silêncio dos partidos políticos e seus dirigentes e a acomodação dos espíritos livres.

Que me perdoe Eduardo Lourenço, mas quando um dia a República num acto de inteligência fizer a contabilidade das condecorações que os seus Presidentes atribuíram numa democracia adulta e consolidada, não será bonito de ver os nomes alinhados. E mais triste será ver os nomes de quem as atribuiu.

No dia em que o Dia de Portugal for celebrado por Portugal e pelos portugueses não haverá este espectáculo boçal e boçalizante das condecorações. E o Presidente da República será mais um no meio dos seus. E nesse dia, então, o cidadão número um será capaz de perceber por que razão um dia se fez Portugal e Portugal nunca se cumpriu. Só nesse dia a República atingirá a idade adulta. Portugal cumprir-se-á. E poderá, finalmente, sair da letargia em que vive há décadas controlada na sombra por meia dúzia de estupores. E levantará a cabeça para honrar os seus verdadeiros heróis, recordar a sua obra, recolher a sua lição e projectar um futuro que faça jus à dimensão do sonho camoniano.

A única e verdadeira medalha que enquanto portugueses estaremos em condições de poder receber, celebrar e honrar.

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Ma Man Kei

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.05.14

Nasceu em Nanhai, nas proximidades de Foshan, provincía de Guangdong, em 1919. Nessa altura viviam-se tempos conturbados na China. Dois anos antes tinha Sun Yat-Sen instalado o governo militar de Cantão. Seu pai fora mercador, um dos muitos que se revoltara contra o governo corrupto dos Qing. Após a morte do pai, em 1934, ficou a tomar conta dos seus negócios, mas quando em 1938 as tropas imperiais japonesas tomaram Cantão, fugiu para Hong Kong. Três anos depois instalou-se em Macau, aproveitando o estatuto de neutralidade deste antigo território português. A partir de então desenvolveu múltiplas actividades empresariais e políticas, tendo enriquecido e granjeado prestígio e influência. Em Macau, mas também na China, da qual, após a revolução, se tornaria no representante local dos seus interesses. Esteve  envolvido durante mais de meio século em todos os acontecimentos importantes de Macau, tornando-se, juntamente com Ho Yin, num dos líderes da comunidade chinesa. Em 1950 foi escolhido para presidente da Associação Comercial de Macau, em cuja sede, ainda antes do 25 de Abril de 1974, se vendiam abertamente e sem que a PIDE pudesse fazer alguma coisa os exemplares do Livro Vermelho do Presidente Mao. Na crise de 1952 integrou a delegação enviada pelo governador Almirante Marques Esparteiro para negociar com os representantes do Exército Popular de Libertação o restabelecimento do fornecimento de víveres à então colónia portuguesa. Teve  papel crucial na crise do "Um, Dois, Três" e após 1974 viria a tornar-se deputado da Assembleia Legislativa de Macau, órgão para o qual foi eleito em sucessivas legislaturas por sufrágio indirecto, em representação dos interesses económicos. Abandonou a Assembleia Legislativa na última legislatura. Nesse percurso foi ainda vice-presidente da Comissão de Redacção da Lei Básica da RAEM, vice-presidente da 8ª, 9ª, 10ª e 11ª Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, da qual fez parte até agora, e foi nessa qualidade que integrou o Presidium do Congresso Nacional Popular do Partido Comunista Chinês. Amigo de Portugal e dos portugueses, reconhecido pela China como um "capitalista patriota", já depois de doente e internado no Hospital Militar de Pequim viu a sua influência uma vez mais confirmada com a visita que recebeu, em 2007, de Hu Jintao. Faleceu na madrugada de segunda-feira, com 95 anos, e as suas exéquias terão lugar no próximo domingo em Macau. Deixou sete filhos, um dos quais é o actual presidente da Associação Comercial de Macau, duas filhas e um império comercial. Um dos seus netos é actualmente deputado na Assembleia Legislativa de Macau.

 

(notas coligidas com o auxílio do Hoje Macau, do Ponto Final e do Macau Daily Times)

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Mais um que vai ser proscrito pelos jotinhas que nos governam

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.05.14

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 08.05.14

 

Portugal - A Economia de uma Nação Rebelde, de José Manuel Félix Ribeiro

Ensaio

(edição Guerra & Paz, 2014)

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Alguns países adiam-se, outros destroem-se

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.04.14

"O Estado português investiu muito dinheiro na minha formação, no liceu, na faculdade, e na formação de outras pessoas, para eu agora estar a dar aulas a alunos e alunas ingleses e de outros países. Faço-o numa universidade inglesa onde o meu currículo e a minha formação são apreciados. Lá estão a reconhecer esta formação que foi financiada pela população portuguesa e cujos frutos não podem vir para Portugal. Estou lá, em cada dia que passa, com muito pesar, porque sinto que a minha geração tem um contributo para dar a Portugal. Tenho muita pena de ter tido de ir lá para fora. Não vou negar que lá há condições de trabalho óptimas, e isso é aliciante. Mas não estou a devolver o meu conhecimento ao país que me formou e que ajudou a financiar a minha formação." - Maria do Mar Pereira, 32 anos, professora na Universidade de Warwick (Reino Unido), vencedora do Prémio Internacional para o Melhor Livro em Investigação Qualitativa feito entre 2010 e 2014, Público, 14/04/2014

 

Enquanto isso, em Macau, Nuno Crato discute, à porta fechada, o futuro da Escola Portuguesa. E promete reforçar a cooperação com o Instituto Politécnico de Macau para criar mais oportunidades para os estudantes aprenderem a língua portuguesa. Tudo se conjuga, pois, para que as promessas continuem e os poucos recursos que temos prossigam a sua saída pela janela mais próxima sem qualquer garantia de retorno.

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Portugal no Seu Melhor

por Francisca Prieto, em 10.04.14

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O novo mapa cor-de-rosa.

por Luís Menezes Leitão, em 03.04.14

 

Como bem se salienta aqui, esta nova proposta de mapa do território marítimo faz lembrar a obsessão do Estado Novo com a extensão do enorme império colonial português. É normal em épocas de crise Portugal ficar obcecado com sonhos de grandeza, perdendo qualquer ligação com a realidade geopolítica, como foi o caso da aventura do mapa cor-de-rosa no séc. XIX, que nos custou a humilhação do ultimato inglês.

 

Hoje, no entanto, a ambição ainda é mais irreal, resultante nesta proposta de extensão da plataforma continental a um enorme território oceânico onde não existe qualquer plataforma continental. Que eu saiba, os Açores ficam no meio do Oceano e são de formação vulcânica, pelo que, a falar de continente, só pode ser o continente perdido da Atlântida. E onde não há plataforma continental, não há qualquer utilidade na extensão territorial, uma vez que o aproveitamento económico dos fundos oceânicos é praticamente impossível. Portugal quer construir assim um novo império marítimo, reinando como Neptuno sobre os abismos oceânicos. É por isso que o Governo proclama entusiasmado que Portugal é Mar. Na verdade, todos os dias se afunda.

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Timocratas

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.04.14

Saber se os pagamentos foram legais ou se ilegais não é uma questão de somenos. Mas no contexto da austeridade vivida em Portugal, que não começou ontem, com cortes a torto e a direito, reformas amputadas, e o "estado social" de pantanas, não deixa de ser curiosa a forma como alguns autarcas, profissionais da política no pior sentido e simples carreiristas, se foram "abotoando" com dinheiros públicos. Mesmo que os recebimentos tivessem sido legais, seria sempre eticamente duvidoso e moralmente criticável que autarcas a tempo inteiro, que por sê-lo já têm todo um conjunto de benesses que a maioria não alcança, ainda pudessem receber senhas de presença pagas com dinheiros públicos para participarem em reuniões às mesmas horas em que exercem as suas funções de autarcas. Vinte mil euros num ano é o que muitos, ainda que qualificados, não conseguem receber nesse mesmo período. Recebê-lo em senhas de presença, procurar depois justificar o que se recebeu comprando pareceres jurídicos, e acabar a subscrever o discurso da austeridade, diz bem, para usar uma expressão de Passos Coelho, de que matéria é feita "essa gente". A que nos governa.

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Manifestamente...

por José António Abreu, em 12.03.14

E, de repente, umas quantas almas agonizando entre a confusão (o Estado deve ser reformado mas ao mesmo tempo deve ficar como está), o despeito (por que não lhes seguem as ideias sempre luminosas e coerentes?) e a amnésia (Portugal terá chegado ao limiar da bancarrota por uma infeliz conjugação astral e não por políticas defendidas – e, em alguns casos implementadas – por elas) juntam-se a outras, reconhecidamente insensatas (a ponto de continuarem a defender o modelo económico venezuelano), e a dois meses do final do programa de ajustamento propõem uma reestruturação das condições de pagamento da dívida pública (que, em parte e de forma discreta, já foi alvo de reestruturações e voltará a sê-lo no futuro). Felizmente, com excepção da comunicação social, que vê qualquer ruído entrópico como boas notícias, e uns quantos bloggers, que fazem questão de opinar sobre tudo o que pareça «estar a dar» (pois, mea culpa), ninguém leva esta colorida agremiação de putativos notáveis a sério, por majestáticas qualificações e extrema boa vontade de que padeçam. Nem aqueles (teoricamente assustadiços) a quem o Estado português continua a pedir dinheiro para manter os gastos que já se provou não poderem ser cortados. O que – pensando bem – é capaz de ser um erro colossal. Um destes dias a loucura (admitamos caritativamente que bem intencionada) ainda recupera o poder, deixando-os (e a nós, uma vez que entre eles se contam os bancos nacionais) a olhar para buracos nas contas que farão o do BPN parecer questão de trocos. Mas pelo menos a beleza de uma reestruturação ficará evidente para todas as partes envolvidas, já que pelos vistos não ficou quando a reestruturação da dívida grega não apenas não resolveu os problemas da Grécia como causou uns problemitas nos bancos cipriotas.

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Assim não, António

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.03.14

 

Muita gente tem escrito sobre a necessidade da transparência como elemento essencial da qualidade das democracias. Muitos em Portugal a têm prometido, sem que dêem continuidade e execução à promessa, a começar pelo actual primeiro-ministro. E desde 25 de Abril de 1974 longo foi o caminho que se percorreu em termos teóricos, políticos e jurídicos, e legislativos até vermos consagrado esse princípio nos nossos instrumentos de governo e de controlo da Administração Pública.

Greg Michener e Katherine Bersch ("Conceptualizing the quality of transparency", Political Concepts, Comittee on Concepts and Methods, 49, Maio 2011) enfatizaram a importância do conceito de transparência e dele disseram ser o "primeiro bloco da construção de democracias sólidas e mercados". Porque a transparência é inimiga da opacidade e esta é "o primeiro refúgio da corrupção, da ineficiência e da incompetência". E quando definiram o conceito não se esqueceram de referir que a sua génese está muitas vezes associada aos trabalhos de George Akerlof, de Michael Spence e do reputadíssimo Joseph Stiglitz, que recebeu o Nobel em 2011. E, citando aqueles autores numa tradução livre, acrescentaram que "a transparência tornou-se não apenas num instrumento para a criação de visibilidade e para manter os decisores políticos escrutináveis, mas um meio para melhorar as práticas standard mantendo acessíveis os dados que possibilitaram a decisão". Ou seja, resumindo, a transparência para poder funcionar exige duas qualidades fundamentais: visibilidade e inferability.

Visibilidade e inferability significam tornar a informação acessível e completa. Não basta afirmar a transparência como instrumento de governo, é preciso que a informação seja visível de qualquer ângulo e que a informação prestada seja completa, clara e verificável. A isto eu só acrescentaria que constitui uma péssima prática obrigar os cidadãos a uma via-sacra administrativa e judicial de cada vez que querem ter acesso à informação, à que lhe diz directamente respeito e à que é pública por natureza, ou devia ser, numa sociedade democrática assente em sólidos padrões de decência.

Posto isto, confesso que não compreendo a posição da Câmara Municipal de Lisboa relativamente a esta questão que a opõe ao Público. Para mim é algo que não faz nenhum sentido.

Na nossa vida pública nada deverá ser mais transparente do que a decisão política ou administrativa. Porque é esta a única que interessa à democracia e aos cidadãos e não é possível construir uma sociedade política civilizada enquanto a transparência não for a pedra de toque do funcionamento de qualquer instituição do Estado ou da Administração, central ou local, directa ou indirecta.

E menos ainda percebo o que pode levar um homem sério e inteligente, que sabe qual é a importância de ter uma cultura cívica de transparência enraizada para a segurança de uma democracia e dos seus cidadãos, a queimar "cartuchos" numa contenda desta natureza, a ponto de se obrigar à intervenção do Tribunal Constitucional. Em questão de tal cristalinidade, a última coisa que havia a esperar seria que fosse necessário recorrer ao Constitucional para dirimi-la. Mas tendo chegado até aí, faço votos de que não se repita. 

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"Economia portuguesa vulnerável ao fator externo, diz Bruxelas. Contribuição das exportações para o crescimento vai descer, inflação vai continuar baixa, desemprego vai subir e custos reais do trabalho vão continuar a cair em Portugal, concluem as "Previsões de inverno" da Comissão Europeia." - Expresso, 26/02/2014

 

"Nos próximos dias, a idade de reforma aumentará para os funcionários públicos já que, segundo apurou o Diário Económico, o Presidente da República promulgou o diploma da convergência das pensões. Com a aprovação de Belém, além do aumento da idade de reforma, de 65 para 66 anos, as novas pensões da CGA também sofrerão cortes significativos." - Diário Económico, 26/02/2014

 

"A Caixa junta-se, assim, ao BCP e ao Santander Totta na cobrança de comissões em transferências de montantes inferiores a 100 mil euros, mesmo nas operações nacionais feitas nas páginas dos bancos na internet ['homebanking'], sem intervenção de operador." - Jornal de Negócios, 26/02/2014

 

"A Caixa Geral de Depósitos (CGD) aumentou a comissão de acompanhamento e gestão cobrada nas linhas de crédito, multiplicando por dez o encargo para as empresas." - Jornal de Negócios, 26/02/2014

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Para os lados de Massamá os panchões são de estalo

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.01.14

"Tal como na China, o Novo Ano Lunar é celebrado em Portugal, ilustrando claramente os importantes laços que nos unem e a riqueza da nossa diversidade" - Passos Coelho, mensagem alusiva ao Novo Ano Lunar do Cavalo enviada ao Consulado-Geral de Portugal em Macau

 

E onde é que estão os "lai see" (利市/利是) para os portugueses? Ou estes são só para o dr. Catroga e os seus amigos da EDP e da REN? E a tolerância de ponto do dia 30? E o feriado do último dia do Ano Lunar da Cobra? E os feriados do segundo e terceiro dia do Novo Ano Lunar do Cavalo? E as férias judiciais do último dia do Ano Lunar até ao sexto do Novo Ano Lunar? A EDP já dá esses dias aos seus trabalhadores? Em Portugal as escolas também encerram? É o líder da JSD quem anda a aconselhá-lo? O dr. Portas sabe que o senhor anda a escrever estas pérolas? É em Massamá que os portugueses costumam celebrar? O senhor estará a pensar tirar um mestrado em Pequim? O senhor sabe o que é a seriedade na política?

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O declínio francês

por José António Abreu, em 23.01.14
Aviso prévio: No texto que se segue não será abordada a vida amorosa de qualquer presidente francês, por muito normal que seja este e anormal que seja aquela. Em contrapartida, o texto inclui muitas percentagens.

Durante séculos, o Portugal que se imaginava culto ambicionava ser francês. França era o exemplo e a inspiração. Hoje somos bastante mais influenciados pelo universo anglo-saxónico mas a velha ligação ainda tem consequências. Já mencionei isto no blogue um par de vezes mas repito-o: num debate das últimas eleições presidenciais francesas, Hollande referia a cada cinco minutos como a França perdera terreno para a Alemanha; a certa altura, Sarkozy atirou-lhe: «Mas a Alemanha fez há dez anos aquilo que o senhor ainda recusa que se faça em França.» Bingo. Nem por isso Sarkozy venceu as eleições. E, como seria de esperar, desde a eleição de Hollande a França continuou basicamente a fazer o oposto do que a Alemanha fez há mais de uma dúzia de anos (e do que os países nórdicos fizeram há cerca de uma vintena). Os resultados? Comecemos por um número curioso. Se olharmos apenas para o PIB, pouco mudou. Em 2001, o PIB francês representava 73,6% do PIB alemão. Em 2012 (último ano do qual existem estatísticas razoavelmente definitivas), mantinha-se nos 73,1% (com uma ligeira vantagem de oito décimas para o lado da Alemanha, ambos cresceram cerca de 12% nesses onze anos). Por trás do crescimento quase igual, há no entanto diferenças enormes na evolução da competitividade das duas economias. Tome-se o sector automóvel como exemplo. Em 2001, a Renault tinha acabado de comprar uma posição maioritária na Nissan e o grupo PSA começava a multiplicar gamas. Actualmente, a Renault compensa prejuízos com os lucros da Nissan (e da Dacia) e a PSA procura desesperadamente convencer o grupo chinês Dongfeng de que seria um cônjuge útil e leal. Em 2001, na Alemanha que ainda suportava os custos da reunificação e começava  a reformar as leis laborais e o sistema de segurança social, BMW e Daimler iam-se apercebendo de que teriam de deixar cair a ideia de tornar lucrativas Rover e Chrysler, respectivamente. Hoje, as marcas alemãs dominam a Europa e o objectivo do grupo VAG de atingir o número um mundial em 2018 parece não apenas realista como inevitável. Mas talvez seja preferível que nos concentremos nas estatísticas. Em 2001, a partir de uma população representando 72,0% da população alemã, as exportações francesas de bens e serviços representavam 61,1% das exportações alemãs. Em 2012, tendo a população – que aumentou em França e diminuiu ligeiramente na Alemanha – passado para os 77,4% da população alemã, limitavam-se a 46,8% (se excluirmos os serviços, a evolução é ainda mais reveladora: de 56,6% para 40,4%). No que a volume de exportações diz respeito, Hollande poderá até reclamar um prémio (e, se quiser ser justo, partilhá-lo com o antecessor) pela anedota fonética de ter visto a França ser ultrapassada pela Holanda, um país com 26,4% da população francesa. (Por habitante, a Holanda consegue a proeza de exportar mais do dobro da Alemanha: 47,1 versus 20,4 mil dólares, quedando-se a França pelos 12,3 – e Portugal pelos 7,8.) Sem surpresas, a taxa de desemprego acompanhou estes números. Em 2001, era de 8,2% em França e de 7,9% na Alemanha; em 2012, subira para 10,3% em França e descera para 5,5% na Alemanha. Tudo isto – será conveniente relembrar – quando, em percentagem, o PIB francês subiu sensivelmente o mesmo que o alemão (ou que o holandês) nos onze anos desde o fim do euro. Ou seja, a economia francesa, antes ligeiramente menos competitiva do que a alemã, fechou-se sobre si mesma, derivou para sectores não exportadores e em grande medida apoiou-se no Estado (percentualmente, a despesa pública francesa é a mais elevada da zona Euro; entre 2001 e 2012, subiu de 51,7 para 56,7% do PIB enquanto a alemã desceu de 47,6 para 44,7%). No fundo, salvaguardando a diferença de escala, que a torna too big to fail (escrever isto em inglês é provocação suplementar), a França tem exactamente o mesmo tipo de problemas e a mesma mentalidade vigente que Portugal. Permanecer agarrado à ideia da defesa do Estado Social, em vez de o defender efectiva e realisticamente, dá nisto. E as velhas influências demoram a morrer.

Notas

1. Encontra-se implícito mas, de modo a que não restem dúvidas, acrescente-se que dificilmente se poderá culpar o euro pela totalidade dos problemas franceses. As situações de partida não eram assim tão diferentes.

2. Nas exportações, o problema de Portugal nem foi de ter registado uma queda – no período 2001-2012 desceram de 5,0% para 4,9% das alemãs – mas de serem demasiado baixas logo à partida e não ter conseguido fazê-las subir pelo menos ao ritmo da Holanda.

3. Dos quatro países constantes dos gráficos, França e Portugal foram os únicos que nunca apresentaram receitas superiores às despesas durante os vinte e dois anos considerados e foram também os que mais fizeram crescer a diferença entre umas e outras na sequência da crise de 2008 (ver gráfico abaixo).

4. Certas más-línguas poderiam apontar como factor-chave na diferença de capacidade de reforma entre França e Alemanha o facto de, em 2001 como hoje, a fatia da população dependente do Estado (ver despesa pública em relação ao PIB) ser maior em França. Acrescentariam (as tais más-línguas) que os privados protestam menos, têm sindicatos mais disponíveis para estabelecer compromissos e dificilmente conseguem paralisar o país em que vivem.

5. Hollande promete agora aumentar a competitividade da economia francesa através de um alívio da carga fiscal recaindo sobre as empresas, a ser compensado por cortes de cinquenta mil milhões de euros na despesa pública. Veremos se a medida avança. Prova da falta de juízo que grassa em França (e da importância excessiva das aparências que grassa um pouco por todo o lado) é a intenção de criar uma comissão pública para avaliar se as empresas não estão a abusar da benesse.

6. Como os dados das exportações de vários países revelam e ainda que se desconte o efeito da valorização do euro, o tremendo pessimismo que muitos europeus mostram perante os resultados da globalização é exagerado. Sendo difícil, pode continuar-se competitivo pagando salários altos (mesmo em sectores onde tal pareceria improvável; exemplo: mais de 20% das exportações dinamarquesas de bens vêm do sector agro-pecuário). Já o peso do Estado (e, por conseguinte, das prestações sociais pagas por este) não pode continuar a subir ao ritmo a que subiu nas últimas décadas, até por pressões demográficas que apenas uma gigantesca dose de imaginação permitirá atribuir aos chineses ou ao sistema financeiro.

Fontes: Organização Mundial do Comércio para os dados relativos às exportações, Fundo Monetário Internacional (World Economic Outlook Database, Outubro de 2013) para os restantes.

 

(Clicar nas imagens - e depois uma segunda vez - para aceder a versões maiores. O ano de 1991 foi escolhido para permitir obter um retrato da situação na época imediatamente após a reunificação alemã. A Base do FMI não inclui os dados da despesa e da dívida da Holanda para os anos anteriores a 1995.)

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Súbitas alterações de humor

por José António Abreu, em 16.01.14

Roubar costuma ser mau. Roubar justificando que, através do exagero de taxas e impostos, o Estado também rouba costuma ser especialmente mau para certas fatias ideológicas. Roubar a partir de uma posição de empresário capitalista, nem se fala. Mas todos estes pontos são esquecidos quando o roubo é feito pelo patrão de um restaurante da Mealhada e os alvos do roubo uns deputados do CDS. Então aplaude-se e diz-se que foi bem feito. Ainda veremos gente que parecia sensata minimizando a gravidade de homicídios, desde que tenham sido cometidos sobre a vítima «certa» e justificados com os cortes na Saúde.

(Os deputados do CDS até merecem que se lhes diga «bem feito». Mas não por isto. Antes porque quem aprecia leitão banal e, mesmo nos instantes de honestidade do patrão, demasiado caro merece tudo o que de mau lhe acontece.)

 

Como sabemos, as agências de rating são instituições execráveis. Quando não mentem por interesse, erram por incompetência (é capaz de haver aqui uma dicotomia com piada mas estou sem tempo para pensar no assunto). Nunca se deve confiar nelas. Bom, nunca excepto quando alertam para a fragilidade financeira de grupos que acabam de vencer processos de privatização. Nessa altura, os seus AA+ e BB- ficam mais sagrados que os dez mandamentos.

(Parece-me bem. Mas eu faço parte do clube – pequenino; reunimo-nos num T1 e há quem traga o cão – dos que sempre as acharam demasiado laxistas.)

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Desabafo

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.01.14

Os resultados do trabalho de investigação da Universidade Católica e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento, para os quais a Teresa Ribeiro já havia oportunamente chamado a atenção e de que a edição de 15 de Janeiro pp. do Público dá conta, para lá de enfatizarem aquilo que é mais chocante, ou seja, de que os portugueses quanto mais instruídos e mais ricos menos solidários são, revelam a falta de uma dimensão essencial, a mais importante da educação, que é a dimensão humana e relacional. Este aspecto é ademais sublinhado pelo investigador Lourenço Xavier de Carvalho quando refere que essa dimensão “está cada vez mais afastada dos currículos”e que “as prioridades do sistema educativo estão completamente erradas”. As pessoas embora tornando-se competitivas e tecnicamente preparadas tornam-se insensíveis aos outros.

Os resultados do estudo não constituem propriamente uma novidade para quem ande na rua, acompanhe o dia-a-dia, fale com adultos e menos adultos e, em especial, se predisponha a ouvir o que a maioria dos nossos dirigentes vai debitando.

A assinatura do memorando de entendimento com a troika, na linha do que já antes vinha dos “famigerados” PEC, o que em tempos fomos ouvindo a Teixeira dos Santos, ao ex-primeiro ministro e a alguns dos membros do seu executivo, ou que posteriormente escutámos a Passos Coelho, Vítor Gaspar, Hélder Rosalino, Mota Soares, Maria Luís Albuquerque e tantos outros, para só me referir aos mais próximos e aqueles cuja “desfaçatez” está mais presente, será apenas a ponta de um iceberg que foi paulatinamente crescendo sem que a maioria das pessoas se apercebesse das suas verdadeiras consequências e da dimensão, este sim, não o outro, do “monstro”.

É o “monstro”da insensibilidade que acompanha o desenvolvimento da ignorância global sobre a nossa própria condição e nos impede de ver o mal que daí resulta para o desenvolvimento e crescimento saudável de qualquer sociedade. Sou a favor da competição, sou um acérrimo defensor do mérito e da valorização das competências técnicas e profissionais, que fique bem claro. Mas continuo a não conceber que desenvolvimento e que tipo de sociedade será possível alcançar se os seus padrões de qualificação desvalorizam a dimensão humana das acções que nela se produzem.

E aqui, quer se queira quer não, voltamos a entrar na velha discussão sobre o papel da escola, sendo para o caso indiferente se essa é pública ou privada. Porque, se virmos bem as coisas, quando a família falha, quando o núcleo fundamental se desestrutura, seja por os tempos serem outros e vivermos numa sociedade “pós-modernista”, seja porque a indiferença se substituiu a um simples olhar para quem está ao lado, assistindo-se ao crescimento de manifestações de índole individualista que desviam a atenção do essencial e desvalorizam a dimensão humana da nossa relação com a economia, com as finanças, com a ciência, com a arte, enfim, com o mundo, falham os próprios pressupostos da formação.

O acto de ler, por exemplo, sendo um acto profundamente individualista, e não me refiro à leitura pública de textos, é um acto que nos aproxima dos outros e é incomensuravelmente mais humano e saudável do que os videojogos que invadiram as casas de todos nós e atiram adolescentes em idade de ler, ver um bom filme ou ouvir um bom disco para o recolhimento dos seus quartos ou para sofás de onde a custo se levantam na hora das refeições ou quando a bexiga aperta.

Quando a família falha e a escola também em igual medida, e ambas de uma forma crassa como se vê pelos resultados do estudo, é preciso que o Estado, que as suas instituições, aquelas para as quais os nosso impostos contribuem, fosse capaz de aparecer e colmatar o vazio, preenchendo essa vertente da formação.

No caso português a falha tem tal dimensão que não só nos mostrámos absolutamente incapazes de nos governarmos – o que significa que os dirigentes que a sociedade formou para a dirigir para além de serem recorrentemente mentirosos e aldrabões são igualmente maus do ponto de vista da gestão colectiva – como, ainda por cima, cultivámos um padrão de desenvolvimento que é a vergonha da herança de Erasmo, de Montaigne ou de Thomas More.

Dinheiro, poder, estatuto, cartões de crédito platina, bons carros, fatos de fino corte, sapatos de luxo, viagens à Cochinchina em classe executiva, refeições estreladas pela Michelin, tudo isso tem o seu espaço numa sociedade equilibrada sem que para corrigir excessos seja necessário cortar na reforma dos mais humildes, dos que mais trabalharam e dos que mais pagaram para não terem de viver os últimos anos das suas vidas sujeitos às contingências de lares e casas de repouso, sujeitos a maus tratos e à caridade de terceiros, nem despachar os mais capazes para o outro lado do mundo contando com as remessas deles e dos seus filhos para pagarem os vícios e os excessos dos incapazes e ignorantes que tomaram de assalto todas as zonas de conforto da política, da sociedade, da diplomacia e do Estado em geral, sem nunca nada de útil terem feito para merecê-lo. Não pode haver uma sociedade equilibrada enquanto se desvalorizar tanto o olhar sobre os outros, enquanto todas as críticas forem tomadas a peito pelos visados e vistas como ofensas pessoais, enquanto o humor for sempre interpretado como chacota, gozo e inveja, e, pior que tudo, se condescender com a disfuncionalidade social e juvenil ou comportamentos aberrantes dos titulares de cargos políticos, tratando-os como inevitabilidades do século XXI ou o preço a pagar pelo desenvolvimento.

Se não formos capazes de atalhar caminho começando por “educar” os nossos dirigentes e mostrando-lhes o caminho para onde deverão seguir, com troika ou sem troika, visto que aqui a componente económico-financeira até será a mais desprezível e ainda que não possamos descurar o cumprimento das nossas obrigações internacionais, o problema jamais terá uma solução adequada que nos liberte de fantasmas e nos faça reencontrarmo-nos com o nosso passado, sem necessidade de se continuar numa espera eterna por um qualquer vulto saído do mais tacanho sebastianismo, de um vendedor de pátrias e de credos, ou iluminado vendedor de banha-da-cobra que um dia acorda com vontade de ser primeiro-ministro.

Nunca a aposta na educação foi tão fundamental para se garantir a liberdade e a independência de um povo. Nunca o Estado moderno foi tão importante. Nunca os portugueses precisaram tanto de um Estado forte e de partidos políticos e dirigentes à altura do momento. 

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Quanto mais ricos, menos solidários

por Teresa Ribeiro, em 15.01.14

Um estudo, que vai ter debate público amanhã, revela que quanto mais ricos e instruídos, menos solidários são os portugueses. Nesta notícia a educação orientada para o carreirismo e o individualismo que lhe está subjacente são apontados como possíveis culpados. Não querendo desvalorizar os seus efeitos pergunto-me se aqui na oligarquia alguma vez o altruísmo fez escola entre as nossas elites. Se a resposta é não, então isto não é defeito, é feitio.

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Facto nacional de 2013

por Pedro Correia, em 09.01.14

CRISE POLÍTICA DE JULHO

O Governo não chegou a cair, mas abanou muito. E não voltou a ser o mesmo. Aconteceu em Julho: a crise alastrou da esfera económica para a área governativa e abalou as bolsas europeias. Com dois protagonistas: Vítor Gaspar e Paulo Portas. O primeiro partiu, o segundo ameaçou fazer o mesmo mas acabou por ficar. Numa posição aparentemente reforçada.

Foi a semana mais turbulenta do ano político, que o DELITO DE OPINIÃO elegeu em votação interna - por estreita margem - o facto de 2013 em Portugal.

Inesperadamente, Passos Coelho perdeu aquele que considerava o seu número dois: o ministro de Estado e das Finanças. Vítor Gaspar bateu com a porta, tornando pública a carta de demissão.

"O nível de desemprego e desemprego jovem são muito graves [sic]. Requerem uma resposta efectiva e urgente a nível europeu e nacional. (...) Esta evolução exige credibilidade e confiança. Contributos que, infelizmente, não me encontro em condições de assegurar. O sucesso do programa de ajustamento exige que cada um assuma as suas responsabilidades. Não tenho, pois, alternativa senão assumir plenamente as responsabilidades que me cabem", escreveu o ministro demissionário nesta carta, datada de 1 de Julho.

O primeiro-ministro não tardou a designar Maria Luís Albuquerque para o lugar de Vítor Gaspar. Mas, subitamente, Paulo Portas demitiu-se. Com carácter "irrevogável", como acentuou a 2 de Julho. Seguiram-se dias de forte tensão na coligação governativa e o espectro das eleições antecipadas chegou a pairar em São Bento. Até que Portas recuou. E Passos elevou-o a vice-primeiro-ministro, no âmbito de uma remodelação governamental.

 

Num segundo lugar muito próximo, entre os factos nacionais de 2013, situou-se a enorme corrente migratória: cerca de 120 mil portugueses emigraram no ano que terminou. As vitórias eleitorais de independentes nas autárquicas de Setembro e a manifestação de polícias nas escadarias de São Bento, em Novembro, também foram votadas, havendo ainda um voto na frustrada tentativa de cantar a Grândola feita pelo ex-ministro Miguel Relvas.

Em 2010 elegemos como facto nacional do ano a crise financeira e em 2011 a chegada da troika a Portugal.

Foto Daniel Rocha/Público

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Resumo

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.13

"Porque as grandes felicidades aqui são todas feitas de escapar à tragédia, uma e outra vez, até ninguém ser mais capaz de escapar à tragédia. Porque é isso que acontece. Com o tempo, a atrocidade abrevia tudo a toda a gente, e o que sobra é de uma tristeza para sempre. A tristeza para sempre é o que mais identifica esta comunidade. Ainda que a heroicidade não o mostre, não o permita aos olhos descuidados de quem vê apenas em passagem." - Valter Hugo Mãe, Adiar, Público, 29/12/2013.

 

Poucos se atrevem a ser tão claros. Por isso podia ser um resumo de Portugal em 2013.

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O que seria de nós sem o TC?

por José António Abreu, em 20.12.13

Sem protecção constitucional da despesa pública, a Irlanda viu a economia crescer 1,5% no terceiro trimestre. Portugal terá provavelmente mais um aumento de impostos.

 

(O qual – e se isto diz imenso sobre o país que somos, diz ainda mais sobre o país que nunca fomos nem nunca seremos – causará incomparavelmente menos polémica do que quaisquer cortes, para além de zero suspeitas de inconstitucionalidade.)

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Francisco Gonçalves Pereira

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.12.13

(06/12/1946 - 15/12/2003)

 

Em 1986, o Hong Kong Law Journal publicou um artigo que tinha por título "The Political Status and Government Institutions of Macao". Com o tempo tornou-se num texto de referência para quem queria compreender a situação jurídico-política desse antigo território sob administração portuguesa. Foram autores Rui Afonso e Francisco Gonçalves Pereira. Sendo ambos advogados, cada um à sua maneira, graças a uma intervenção política e cívica regular, deu o seu contributo à construção das instituições que hoje conhecemos na Região Administrativa Especial de Macau.

Francisco Gonçalves Pereira acabaria por se embrenhar no estudo de Macau, do seu estatuto jurídico-político, da sua elite e das relações entre Portugal e a China. Daí que, em resultado desse trabalho de investigação, reflexão e análise, em 1995 tenha sido publicado um conjunto de textos reunido num volume a que foi dado o título de "Portugal, a China e a Questão de Macau", onde pela primeira vez se abordava de uma forma consistente e sustentada a presença tutelar da RPC e a formação da elite política de Macau. Na altura ficou famosa a sua metáfora do jogo de sombras chinesas para ilustrar o peso e influência de algumas instituições informais chinesas no tecido político, administrativo e social desse território.

Posteriormente, Francisco Gonçalves Pereira tomaria a opção de prosseguir a sua carreira académica e de investigação no âmbito do doutoramento que encetou na London School of Economics and Political Science. Não quis o destino que a tese em que investiu o melhor do seu gosto e talento conhecesse o resultado que se espera de qualquer trabalho científico dessa natureza, isto é, que pudesse ser discutida e publicamente defendida pelo seu autor no tempo e local próprios. De qualquer modo, nas palavras do seu orientador, o prof. Michael Yahuda, Francisco Gonçalves Pereira deixou-nos o "primeiro estudo da história completa das negociações sino-portuguesas sobre Macau desde o final da Segunda Guerra Mundial em 1945 até à transição de 1999" (Ponto Final, 13/12/2013).

Graças ao empenho dos seus familiares e amigos, e ao apoio do Centro Cultural e Científico de Macau, em 2 de Dezembro pp. foi apresentado em Lisboa o livro com o trabalho do Francisco ("Accommodating Diversity: The People's Republic of China and the ´Question of Macao´"). Ao mesmo tempo sairá uma nova edição do seu livro de 1995 e a tradução chinesa do mesmo, para que possa ser lido por um público mais vasto

Menos conhecida, mas nem por isso menos importante, foi a sua faceta empresarial, no que contou com o incontornável apoio do também colega e amigo Frederico Rato, ao dar um impulso decisivo para a defesa da liberdade de imprensa e a formação de uma consciência cívica adulta e responsável em Macau, refundando aquele que seria indiscutivelmente um dos mais importantes, senão mesmo o mais importante e influente jornal de opinião durante toda a década de 90, o semanário Ponto Final, que ainda hoje subsiste como diário e que, tendo sido dirigido por Pedro Correia, Luís Ortet, Ricardo Pinto, Henrique Nolasco, entre outros, constituiu e constitui um dos portos de abrigo da liberdade de imprensa no sul da China.

No momento em que passa o décimo aniversário da partida de Francisco Gonçalves Pereira, o IPOR (Instituto Português do Oriente) e a Associação dos Advogados de Macau,  instituição de que aquele foi um dos principais mentores enquanto garante da autonomia, liberdade e independência da profissão, em boa hora tomaram a iniciativa de se associar à homenagem que a família e os amigos lhe queriam prestar na terra em que deu o seu melhor enquanto homem, advogado e pensador.

Graças à disponibilidade do Cônsul-Geral de Portugal em Macau, a residência consular, sita no antigo Hotel Bela Vista, vai abrir as suas portas para que possa ser prestada uma mais do que merecida homenagem a um dos homens que pela sua discrição a maioria dos portugueses mal conhece, mas que honrou na Ásia, como poucos, de forma indelével, o legado cívico, cultural, científico e jurídico da nação que o viu nascer.

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Eu ia ler isto hoje no pavilhão da ciência no âmbito do evento Portugal é Agora, organizado pelo Fernando Alvim, depois improvisei:)

A grande diferença entre ser-se uma pessoa – ou povo culto – não está no dinheiro, está na cultura geral. Dito isto, frase que ouvi uma vida inteira de um tio autodidacta que nunca teve a oportunidade de ir à escola, mas que aprendeu a ler e sabia distinguir as suites de Bach, posso ser acusada de falta de originalidade já que a ideia que trago é quase – reforço o quase – banal.

Este ano o meu filho mais velho foi, com 17 anos, para a universidade e, como todos os adolescentes, detesta e não compreende por que carga de água é que o sistema de ensino o anda a castrar há anos. É a versão dele. Não me admira, eu tive o mesmo sentimento.

Agora, quase a fazer 43, posso dizer sem qualquer sentimento de amargura: abençoada educação que tive. Tudo se resume a isto. À educação.

Querem mudar o país? Força.

Mas temos de mudar a forma como a educação está integrada nas famílias e nas escolas. Começo pelas famílias por saber que a maioria dos miúdos não tem os suportes que deveria ter, nem as possibilidades que eu tive.

O meu tio-avô, por se achar, porventura, em desvantagem, achou por bem enfiar-me num caldo de educação e cultura semelhante à sopa da pedra. Sim, porque a educação, ou a cultura, não se resume a saber um canto dos Lusíadas ou a conhecer Bach ou a não responder, como sucedeu no início deste ano lectivo, à porta das universidades, que Leonardo di Caprio pintou a Mona Lisa.  A educação implica saber que os gestos de cidadania são uma forma de estar em sociedade e que podem contribuir para mudar o mundo. O racismo existe e é preciso falar dele. Os abusos nas famílias são, estatisticamente, assustadores e a estatística não mostra tudo. De Janeiro a Maio deste ano, 27 mulheres foram mortas pelos maridos. Há miúdos que passam fome e há uma comunidade de sem abrigos, mesmo aqui ao lado, na Gare do Oriente, onde já não se vêem apenas os drogados, os alcoólicos, vêem-se famílias.

Mudar o país? Começa em casa. Começa por sabermos viver sem medo e sem nos escudarmos no anonimato para apresentar queixa. Ou, se preferirem, passa ainda por não ir para as redes sociais mal dizer tudo e todos. Os portugueses são, por reputação, pessimistas. É um facto. Não aprendemos a celebrar o sucesso do outro e, nos dias que correm, tão pouco sabemos ter tempo para o outro ou simplesmente para ouvir. Educar também é isto. Ouvir. Explorar. Deixar falar. Não ter planos para o futuro dos filhos que não são a nossa folha de excell.

Educar não é o papel exclusivo das famílias, os miúdos estão no mundo e, nos dias que correm, têm mais acesso à informação do que alguma vez tiveram. Tudo está disponível. Uma mãe, um pai, não faz ideia do que se passa na cabeça de um adolescente. Os adultos são mais previsíveis, portanto eles dão-nos a volta com facilidade. Mas, voltando à educação, não sendo exclusivo das famílias, teremos de aceitar que não é uma tarefa que possa ser entregue a cem por cento aos professores. E não me importam os maus professores, há maus professores, maus pais, maus jornalistas, maus escritores, maus homens do lixo. Mas há os bons. A educação eficaz é um compromisso entre a família e a escola e, uma vez na escola, os miúdos são expostos a realidades distintas.

Há dois anos, numa conversa mais séria, fui acusada de não educar os meus filhos para serem salsichas nobre. Eles não encaixam no padrão. Eu também não encaixava. Quando a acusação me foi feita, por um adolescente, meu filho, pois limitei-me a dizer que sim, sim, ok, mas se tivermos de voltar atrás, faço tudo como fiz, mal ou bem, e aos 20 anos, com um pouco de sorte, o dito rapaz fará o favor de me agradecer. Ou queixar-se ao psiquiatra.

 

 

Nós, nascidos na década de 70, fazemos parte da geração que não fez o 25 de Abril, temos uma democracia muito nova do ponto de vista histórico, são apenas 40 anos. A única vez que nos manifestámos antes da Troika? Não se lembram? Foi por Timor-Leste. Portugal saiu à rua por um país que abandonou em 1975. Um dos países mais jovens do mundo. E se tivesse que  fazer um país de novo, e no nosso caso é uma utopia e até por termos as fronteiras mais antigas da Europa, continuaria a apostar fortemente na educação.

Porque a escola é o espaço mais democrático que temos: todas as crianças têm acesso e direito à educação, a escolaridade obrigatória é finalmente de doze anos, os mesmos conhecimentos e valores são ensinados a todos.

A democracia começa na escola, aí onde nos são dadas as ferramentas essenciais para o desenvolvimento intelectual e social dos jovens.

Independentemente da classe social, do estatuto económico, da religião dos pais, da etnia, todos têm acesso à educação.

Dentro da escola, todos os alunos são iguais e aprendem a viver em comunidade.

A partir dos anos 90, a escola acelerou o seu processo de democratização, começado anteriormente, após o 25 de Abril: turmas em que se aprende consoante as capacidades, a ritmos diferentes, a educação centrada no aluno.

Criaram-se os territórios de intervenção prioritária onde, à semelhança de outros países da Europa, nas zonas de maior carência económica, o

investimento é ainda maior e mais personalizado.

A educação de adultos estendeu-se a todo o país, não apenas para tirar a 4ª classe obrigatória para a carta de condução, mas para aprender a ler e escrever, para progredir no emprego, para acabar com o fosso entre pais e filhos.

Pela 1ª vez, a percentagem de analfabetismo desceu dos 2 dígitos que caracterizava o nosso país.

 

Mas é preciso não desinvestir, o trabalho em educação exige que não haja retrocessos, pode perder-se em curto espaço de tempo o trabalho das últimas 3 décadas.

 

Em resumo: O que importa? Não se pode só criticar, tem de se dizer que o papel da escola na construção da democracia é essencial, assim como na luta contra a violência, na construção de uma ideia de paz, liberdade, cidadania e solidariedade. Ter uma boa caixa de ferramentas para o mundo e, naquilo que me respeita, não mandar as crianças pensar no futuro num outro país já que este, apesar do escárnio e mal-dizer, dá cartas desde o desporto à ciência, da literatura ao património. Ou seja, somos ou não somos uma boa sopa da pedra? Parece que somos.

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E não há fumo sem fogo, não é?

por Rui Rocha, em 10.12.13

Baterista dos Jafumega acusado de desviar 1,4 milhões de euros.

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Pobre, nem por isso; mal-agradecido, certamente

por José António Abreu, em 08.12.13

A excepção concedida aos políticos madeirenses, permitindo-lhes acumular salários e pensões, é inqualificável (como a Teresa Ribeiro já salientou). Que Alberto João Jardim retribua prometendo um reforço da luta pela autonomia é não só típico da criatura como muito bem feito para quem lhe apara os golpes.

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O fosso

por Teresa Ribeiro, em 08.12.13

Leio sobre os cientistas portugueses que estão a marcar pontos na investigação sobre a vacina para a malária e encho-me de orgulho. Temos gente de muita qualidade. A trabalhar em investigação científica, mas também a abrir caminhos na economia. Todas as semanas chegam aos media notícias frescas sobre o talento nacional. Ainda há dias se falou no impulso que a indústria do calçado levou e dos sucessos que está a arrecadar. A criatividade dos portugueses não é novidade. Há anos que ganham prémios internacionais em feiras e concursos de ideias, nas mais variadas áreas. Ao contrário do que se diz temos garra, inventiva e gente inspiradora. Gente que em nada se parece com esta rapaziada, que enche a boca com a palavra coragem mas que não consegue enfrentar os seus tiranetes de estimação. Gente que admira a idiota da Sarah Palin e expõe o próprio país ao ridículo. Gente que na hora da verdade é incapaz de abdicar dos seus interesses pessoais em troca de um gesto simbólico e apaziguador.

É cada vez maior o fosso entre as elites que nos governam, desmoralizam e envergonham e as que nos representam no que temos de melhor.

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Problemas de consciência

por José António Abreu, em 05.12.13

A vitória do SPD nas negociações alemãs para a formação de uma coligação governamental não é tanto uma vitória sobre Merkel e a CDU (embora, após uma derrota clara nas urnas, também o seja – e não particularmente democrática) como uma vitória sobre o SPD de Schröder que, há pouco mais de uma década, numa altura em que a Alemanha se esforçava por 'encaixar' os custos combinados da reunificação e da globalização, iniciou as reformas que permitiram o relativo bem-estar actual. Apesar desta pequena ironia, a posição do SPD compreende-se. A esquerda preocupa-se bastante mais com o que deve ser – e, mais ainda, como o que  devia ser – do que com o que pode ser (embora frequentemente apresente consequências negativas, a utopia não deixa de constituir um dos seus encantos). Daqui resulta a tendência para privilegiar o papel do Estado, sobrecarregar a economia com taxas e impostos e recusar concessões no campo dos «direitos adquiridos», ainda que fazê-lo coloque em risco direitos similares em processo de constituição (noutro ponto a favor da esquerda, admita-se que, no momento em que ficar evidente não ser possível ressarci-los, berrará ainda mais alto). Quando, chegadas as épocas de crise (e chegarão sempre, em qualquer tipo de sistema político ou económico), se torna necessário aplicar uma dose de pragmatismo, os partidos de esquerda apanhados no poder experimentam graves problemas de identidade. E assim, logo que a economia o permite, a reacção instintiva dos seus políticos é atacar ferozmente quaisquer indícios de concessões feitas à lógica da direita, ainda que dessas concessões tenham saído excelentes resultados (como claramente saíram no caso alemão). Vistas as coisas por este prisma, não é sequer difícil entender a sanha com que alguns veneráveis socialistas lusitanos atacam as medidas de contenção orçamental e todos os reais e imaginados defensores destas. É uma sanha que pretende apagar o facto de, em tempos – e com excelentes resultados –, terem «metido o socialismo na gaveta».

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Alívios

por José António Abreu, em 03.12.13

Passos Coelho olha para a reacção dos portugueses à pantomima de Blatter e dos adeptos portistas a um conjunto de resultados medianos e, não obstante um ou outro exercício aeróbico de step na escadaria do Parlamento, só pode pensar: «Ainda bem que isto não é futebol.» Mas, evidentemente, a racionalidade pode assumir um papel muito secundário nas questões em que a maioria das pessoas tem apenas investida paixão.

 

E perdoe-se-me o «apenas».

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Convicção profunda

por Pedro Correia, em 01.12.13

 

«A pátria, em momentos difíceis, descobre-se que existe.»

Vergílio Ferreira, Conta Corrente, 2 (1º de Dezembro de 1978)

 

Voltaremos a celebrar o 1º de Dezembro (com nome de mês maiúsculo) como feriado nacional. Tal como o 5 de Outubro, aliás. Porque a identidade dos povos impõe a evocação cíclica de símbolos que se perpetuam através da rotação das gerações. E é feita de datas inapagáveis, que não se vergam ao sabor episódico das circunstâncias. E também porque as nações podem sofrer inúmeros dissabores, mas não mudam de pele.

 

Quadro: Aclamação de D. João IV, de Veloso Salgado

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Tempos bem modernos

por Fernando Sousa, em 29.11.13

 

Charlie Chaplin, 1936, "futurista" e tudo...

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Indignidades

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.11.13

A riqueza nunca me afligiu. Sempre convivi bem com ela mesmo quando tinha muito pouco. Porém, não deixo de pensar sobre o sentido que terá a elaboração dos rankings dos mais ricos, dos mais opulentos, dos mais ostensivos na exibição. O voyeurismo é um passatempo de todos os tempos a que sempre se dedicaram alguns pobres de espírito. Mas num momento como este, que Portugal e uma boa parte do mundo cruzam, em que a pobreza cresce a olhos vistos, em que a imprensa relata casos de crianças que chegam à escola sem pequeno-almoço, e outras ainda nem sequer adolescentes que se limitam a ter uma exígua refeição diária, faz algum sentido anunciar aos quatro ventos, como ainda há dias se dizia na rádio, que a fortuna de 870 milionários portugueses cresceu 715 mil milhões de euros, apesar da crise económica?

Saber, segundo revelava um relatório da UBS, que há mais 85 milionários no meu país devia ser motivo de satisfação. Lamento que não seja esse o caso. As novas teorias da relativização da pobreza substituíram a velha teoria da relatividade. Não sei se alguém saberá hoje qual o quadrado da distância que separará aqueles novos milionários dos novos pobres, nem se existe alguma relação proporcional entre ambas. São equações que me ultrapassam. Saber que os ricos estão mais ricos ou que aumentou o número de milionários só pode ser motivo de satisfação numa sociedade civilizada quando esse crescimento corresponde a um enriquecimento global, a uma diminuição do número de miseráveis, de sem-abrigo e de pobres em geral. Uma sociedade que se compraz a atribuir prémios de mérito a ricos que enriquecem num ambiente de miséria, desconstrução social e desestruturação dos laços de solidariedade em que assenta uma comunidade, é uma sociedade em estado terminal. E não é preciso um tipo chamar-se Mário ou Francisco para percebê-lo. Basta abrir os olhos. A pobreza e a forma como ela cresce em Portugal, perante a indiferença de uma casta de serventuários do poder, é que me aflige e nos torna a todos ainda mais indignos do chão que pisamos.

A Exame e outras revistas e jornais de negócios e de economia deviam dedicar-se à elaboração de rankings dos mais pobres. Deviam dá-los a conhecer, dar-lhes as capas das melhores revistas, o melhor papel, os melhores fotógrafos, o melhor espaço na comunicação social. Essa gente merece. A luta que diariamente travam pela sobrevivência vale mais do que o conforto de qualquer gabinete. E podia ser que dessa forma aparecessem uns quantos "Amorins" para os irem tirando da pobreza.

Uma sociedade que se alheia da pobreza que medra no seu meio está condenada a desaparecer. E temo que o que se siga não seja melhor, porque o problema não se resolve com bancos alimentares. As pessoas ainda sentem. Felizmente.

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Portugal no caminho da glória.

por Luís Menezes Leitão, em 20.11.13

 

Vencemos. Somos os maiores. Apesar dos golpes baixos dos suecos, que nem sequer hesitaram em recorrer à magia negra, sob o alto patrocínio da água da mesma cor vendida pela Pepsi, Cristiano Ronaldo demonstrou que é um super-herói. Graças a ele Portugal redescobriu o caminho para as terras de Vera Cruz, imitando o feito de Cabral há mais de quinhentos anos. Perante a gloriosa exibição de ontem, não há dúvidas que no Mundial arrasaremos todos os nossos opositores. Quanto à crise financeira, podemos estar seguros que, com as nossas brilhantes capacidades futebolísticas, irá seguramente ser ultrapassada.  Quem é que depois da exibição de ontem pode duvidar que Portugal irá ter um sucesso glorioso no regresso aos mercados? Nunca jamais em tempo algum seremos sujeitos a um programa cautelar, quanto mais a um segundo resgate. Ooops!

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Pepitas de ironia

por José António Abreu, em 08.11.13

Com receio de Costa, o preferido dos socratistas, Seguro endureceu posições. Agora vê Costa criticá-lo e posicionar-se como o moderado sensato. Restaria conhecer a opinião dos socratistas sobre a vontade de temperança de Costa se os socratistas não fossem acima de tudo pragmáticos: atingir o poder com um dos deles à frente do partido é tudo o que lhes interessa. Ligeiramente chato para eles seria Costa estar a preparar uma candidatura ao cargo de Presidente da República e não ao de Primeiro-Ministro.

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Qual futuro?

por Teresa Ribeiro, em 30.10.13

Uns saem, outros ficam, mas não se multiplicam para que o mal de viver não cresça. O país começa a parecer-se com uma doença infecto-contagiosa.

Os demógrafos dizem que assim não há futuro.

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Traseiras

por jpt, em 27.10.13

Os tanques de lavar a roupa estão nas traseiras.

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Espionagem

por jpt, em 26.10.13

 

O avanço de Obama para a presidência foi simpático, principalmente pela afronta aos preconceitos racistas, nos Estados Unidos tão misturados com o fundamentalismo cristão popularucho. Mas teve um lado oposto, mais para a minha terra, sintomático que foi da imbecilidade militante de alguma esquerda, identitarista, caída de fervores pelo obamismo. "Eu sou obamista" passou a ser um pin político, "alfinete de peito", iman de geleira, de qualquer candidato a colunista do "Público" ou de comentarista fedorento.

 

À revelia do real Obama, "Obama" é, olhando Portugal, um símbolo do vazio intelectual da primeira década de XXI. Lembro-me disso agora, quando se sabe que os EUA andam espiando tudo e todos, uma série de políticos aliados, etc. O que diriam os democráticos identitaristas, os teclistas do eixo BE-PS, se o presidente americano fosse Bush, pai, filho ou irmão? Mas sendo este presidente devem estar a alisar os posters, lá nos quartos adolescentes. Retardados. 

 

E os outros continuam a lê-los. E a rir-se das piadinhas na TV. Retardados?

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Não tivessem entretanto aumentado os impostos

por José António Abreu, em 16.10.13

e o governo teria finalmente apresentado um muito razoável orçamento para o ano de 2012.

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