Segunda-feira, 17 de Junho de 2013
por jaa | 17.06.13 | 6 denúncia(s) | favorito
Depois de meses a exigir a demissão do governo, exigiu hoje apenas a demissão do Ministro da Educação.
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Domingo, 16 de Junho de 2013
por jaa | 16.06.13 | 25 denúncia(s) | favorito

Sendo favorável à existência de um sistema público de ensino (e, mais ainda, de um sistema público de saúde), momentos como o actual fazem-me pensar que, tal como sucede noutros sectores (as empresas públicas de transportes, por exemplo), os inconvenientes podem afinal superar as vantagens. As medidas propostas pelo governo não são simpáticas (nunca o poderiam ser) e algumas talvez nem sejam justas. Mas – sabemo-lo há mais de uma década – o Estado tem de cortar na despesa e o sistema de ensino, com uma relação professores/aluno acima da média europeia (e, sim, eu sei que há mil e uma justificações para tal, todas dignas de reformas que as façam desaparecer), não pode ficar de fora dos cortes. Por outro lado, também no sector privado há centenas de milhares de trabalhadores insatisfeitos com decisões do seu empregador. Trabalhadores que, como os professores, viram os seus rendimentos diminuir e que, como os professores, receiam vir a perder o emprego (nem vale a pena mencionar os que já o perderam). E, contudo, não fazem greve. Porquê? Porque sabem que apenas se prejudicariam a eles mesmos; porque sabem que os contribuintes não salvarão a sua empresa. Revoltados ou resignados, essas centenas de milhares de trabalhadores estão a ajudar o país a sair da crise. Os professores (que gostam de afirmar ser a educação fundamental para atingir tal objectivo) necessitam de decidir se querem juntar-se-lhes ou continuar a exigir-lhes que paguem a factura. Mais importante: necessitam de pensar nos alunos que tiveram à frente durante nove meses e decidir se a luta, nos termos em que a delinearam, compensa sacrificá-los. Ainda por cima, provavelmente para nada. Os professores (ou, para ser mais preciso, os sindicatos dos professores) jogaram forte, ao escolher a data da greve. Mas talvez não tenham avaliado bem (ironias...) a firmeza do governo e as consequências deste não ceder. A perturbação de Mário Nogueira, na sexta-feira à tarde, ao sair da reunião no Ministério da Educação, mostra como os sindicatos estão conscientes de que, amanhã, e ainda que a greve tenha adesão elevada, poderão ter jogado a cartada mais forte sem outros resultados práticos que não alienar parte da opinião pública. O que farão a seguir? Boicotar outros exames? Nuno Crato e o governo parecem ter entendido que não podiam ceder. Ficaria tudo em causa: as reformas na Educação e em todos os outros sectores. Até onde estão os professores dispostos a ir?

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por jaa | 16.06.13 | 2 denúncia(s) | favorito
Claro que PSD e CDS preferem que as eleições autárquicas estejam despachadas antes da apresentação do Orçamento de Estado para 2014. E claro que os partidos da oposição prefeririam uma data posterior à sua apresentação, na esperança do governo lhes fornecer argumentos extra para a campanha. Mais importante no caso do PS: de modo a não existir a mínima hipótese de ter que discutir seriamente o orçamento. É este ponto que faz com que a decisão de as marcar para Setembro seja a correcta. Tanto os partidos da oposição como os eleitores possuem argumentos mais do que suficientes para a campanha (haverá alguém que precise do orçamento de 2014 para decidir uma posição?) e a demagogia extra que qualquer campanha arrasta consigo é perfeitamente dispensável durante o debate orçamental. O nível habitual de demagogia (i.e., ligeiramente abaixo do patamar atingido este fim-de-semana por António José Seguro) bastará.
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por Rui Rocha | 16.06.13 | favorito

Prossegue a Taça Davis em pingue-pongue blogosférico. Depois do confronto renhido entre apoiantes de Martim Neves e de Raquel Varela, temos agora uma disputa taco a taco entre os defensores de Vítor Cunha e os  de Inês Gonçalves. De tudo, retiro que nem para o Martim nem para a Inês é conveniente permanecerem muito tempo neste campeonato. Se tomarmos a retórica daqueles que, de ambos os lados, se entretiveram a avaliar a conduta de um e de outro, chegaríamos à conclusão de que nem um miúdo de 16 anos pode ter umas ideias engraçadas e fazer umas t-shirts, nem uma miúda de 18 pode ter ideias políticas e uma visão de sociedade que, não sendo a de outros, é a sua, sem que ele seja apelidado de esclavagista  e ela de infiltrada. Se virmos bem, quem se arrogou o direito de etiquetar o Martim e a Inês logo que tentaram pôr a cabeça de fora foi gente velha, velha demais. São os mesmos que virão um dia destes queixar-se de que esta juventude de agora não tem iniciativa, não tem ideais, não tem vontade de intervenção política. É por estas e por outras que, em Portugal, não há cidadania nem empreendedorismo. O espaço está tomado por quem, de um lado e do outro da barricada, teima em ler o mundo a partir de uma cartilha que já não serve. Eu, se fosse ao Martim e à Inês, marcava um encontro e fazia uma parceria. Juntava o melhor que um e outro certamente têm e procurava aliar num único projecto empreendedorismo e cidadania. E não me deixaria envelhecer antes de tempo, escolhendo o meu caminho longe de soluções cansadas, chavões e frases feitas. Quanto à Taça Davis em pingue-pongue, creio que será decidida, como normalmente acontece nestas competições, numa partida de pares.

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Quarta-feira, 12 de Junho de 2013
por Rui Rocha | 12.06.13 | 39 denúncia(s) | favorito

Uma das características mais intrigantes do modo de ser lusitano é a busca incessante de casos de sucesso de compatriotas por esse mundo fora. Não há meio de comunicação social que se preze que não tenha uma referência diára a situações tão extraordinárias como a do padeiro do Marco de Canaveses que saiu de casa aos  cinco anos e tem agora, quarenta e quatro anos e três meses decorridos, uma considerável fortuna pessoal em Aracaju, no estado brasileiro de Sergipe. É claro que tal sucesso se deve exclusivamente aos 60 meses que o dito passou exposto aos ventos continentais vindos da terra quente transmontana, à proximidade do Douro vinhateiro e, é justo dizê-lo, ao copito de jeropiga que a mãe lhe deu a fazer de mata-bicho e ao par de estaladas diário que o pai lhe propinava para lhe enrijecer o espírito e as carnes. É evidente que os outros 531 meses que passou fora do solo pátrio são um pormenor insignificante. Todos sabemos que é de pequenino que se torce o pepino. E quando, por excepção, passa um dia em que não se destaca um português, logo aparecem mais dois ou três. Se não forem cidadãos portugueses de papel passado, serão sobrinhos de um tio que namorou com a neta de uma portuguesa de Macieira de Rates. Se não for no Panamá, há-de ser mais para lá. Se não for um beirão, pode ser um cão. Quem não sente um calafrio quando houve o ino nacional? Quem não se arrepia quando toma consciência que Obama, esse mesmo, nos momentos em que analisa os registos diários de actividade que o Google lhe envia, tem a seus pés Bo, um cão de água português? Quem não se comove ao imaginá-lo, ao cãopatriota, na nobre tarefa de marcar território pelos cantos da Sala Oval? Nestas coisas, o futebol tem sempre uma palavra a dizer. Veja-se o caso do Chelsea. Para os meios de comunicação social, o Chelsea não é dos sócios, nem do Abramovich, nem dos gasodutos. O Chelsea é de Paulo Ferreira e de Hilário que têm, juntos, mais tempo de banco que o Ricardo Salgado. O Mónaco, por exemplo, não é do Alberto nem da Stephanie. Agora, é o Mónaco de Moutinho. E de Ricardo Carvalho. Que já não vê bola desde que a Nívea deixou de fazer publicidade na praia. E o Traktor é de Toni. Sim, que no Irão mandam os portugueses que lá estão. Significa isto que não há insucessos portugueses na frente internacional? Claro que há. Mas os insucessos são colectivos e as histórias de glória são individuais. Camané Alves de Jesus, algarvio da Foia, emigrou para a Suiça, conquistou nos anos cinquenta a loira Jacqueline Desmarets ao som dos Olhos Castanhos do Francisco José e tem hoje uma rede de lavandarias na região de Grenoble. Em contrapartida, são sempre portugueses não identificados que dormem na estação de Genebra. Jesus ganhou de letra ao Fenerbache, mas foi o Benfica que perdeu com o Chelsea. O que é curioso nisto tudo é que estes portugueses  que reluzem nos quatro cantos do mundo e também nos da Sala Oval, eram, antes de emigrarerem, uns sacanas, uns cretinos ou, na melhor das hipóteses, uns borra-botas. Tirando o Ferreira Fernandes, de quem quase toda a gente diz bem, a única hipótese de um português ter sucesso em Portugal é ter feito merda. Veja-se o caso do Futre e da conferência de imprensa dos chineses. Veja-se o caso da Sara Norte. Aliás, a Sara Norte reúne mesmo todas as condições de sucesso. Fez merda e esteve presa no estrangeiro. Veja-se o caso do Jorge Jesus. Repare-se que o Vítor Pereira ganhou o campeonato, mas não serve. Vai para o Al Ahly. O Jesus fica e aumentam-lhe o ordenado. Porque fez merda. O outro vai para o Al Ahly e já vem. Mas quando vier, traz a aura de ter ganho a taça das cidades com praças viradas para Meca, coisa que lhe vai tornar o currículo muito mais valioso. E o mesmo se passa com Cláudio Braga. De acordo com o JN, trata-se de um treinador português que faz carreira nos melhores clubes da Holanda. Nada mais, nada menos. Da Holanda, esse país com um campeonato interno verdadeiramente portentoso em que o jogos costumam acabar com resultados que, por cá, só vemos no hóquei em patins. Pois bem, se lermos a notícia, veremos que o homem treina os sub-17 do Utrecht. Uma espécie de Marítimo lá do sítio. Ora, o treinador dos sub-17 do Marítimo cá do sítio nunca  merecerá tal destaque. Porquê? Porque está cá e não está na Holanda. A única hipótese de ter reconhecimento é sair. Ou ficar a fazer merda. Ir a Marrocos buscar um carregamento de droga ou beber uns copos antes de uma conferência de imprensa. É por isso que a diáspora portuguesa não é bem isso. É muito mais uma síndroma de internodeficiência congénita que só se cura com várias doses de os portugueses pelo mundo. O Benfica, por exemplo, tem sofrido muito com a doença. Sabendo que os portugueses internamente não têm sucesso a menos que façam merda, constitui a sua equipa à base de brasileiros e de sérvios. Todavia, fica com um treinador português com muito sucesso no país (isto é, que fez merda) e por isso não ganha nada. Quando chega lá fora, faltam-lhe portugueses para ter sucesso (e sabemos como os portugueses são bons a ter sucesso lá fora) e por isso continua sem ganhar. É claro que tal situação está muito mais ligada com o modo de ser português, do que com qualquer maldição do pobre do Bela Guttman que, se bem se recordam, era estrangeiro.

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Sábado, 8 de Junho de 2013
por Pedro Correia | 08.06.13 | 12 denúncia(s) | favorito

 

Retemperar energias no regresso cíclico às raízes. Contemplar o panorama que fixei desde a mais remota infância. Respirar o ar da serra. Escutar de novo o sotaque da região, praticado com desenvoltura por parentes e amigos. Ver as cerejas prontas a colher, transbordando das árvores, na encosta norte da Gardunha. Mirar fotos antigas, vindas dos confins dos tempos, fixando instantes de eternidade.

Verificar o que mudou, reparar no que permance.

Comer devagar, matando saudades da gastronomia beirã, à mesa da Hermínia. Peço um arroz de carqueja com enchidos da região que traz um rasto de tempos imemoriais, quando a "cozinha de autor" ainda não tinha sido inventada e a arte culinária era transmitida através de inúmeras artesãs anónimas, junto às panelas e frigideiras, geração após geração.

 

Acabo de beber meia garrafa de tinto, o Praça Nova, produzido pela adega do Fundão. Restaurante quase cheio. Uma senhora de idade muito avançada marca mesa para um almoço de grupo, amanhã às 13. "O que tem?" Cabrito assado no forno. "Muito bem. Mas que seja mesmo cabrito: não quero borrego."

Na mesa ao lado, um dos ídolos da minha infância, baluarte da defesa do Sporting, um dos homens que trouxeram para Portugal a Taça das Taças. Apetece-me felicitá-lo pelas emoções futebolísticas que me proporcionou em garoto. Mas ele sai primeiro, fica para outra ocasião.

Chegam turistas perguntando a direcção para Alcongosta. Vêm à fresca, apesar do tempo incerto.

"Temos pudim de cereja à sobremesa." Venha ele.

Um periódico de Lisboa que tenho à minha frente, com aquela esquizofrenia típica de um certo discurso jornalístico, alternando prosas apocalípticas sobre a crise com o elogio destemperado a "spots da moda" onde uns tantos consomem como se não houvesse amanhã, gaba as putativas virtudes gustativas de um bar recém-inaugurado, enaltecendo um "combinado de sushi, sashimi, makis e nagiris" por módicos vinte e tal euros - muito mais do que pagarei por este almoço inteiro, inigualável, num local que felizmente jamais figurará no circuito das bempensâncias gastronómicas.

 

Sem horário, sem obrigações, sem programa: sinto-me como se tivesse todo o tempo do mundo. O que fazer? Talvez a digestão, num longo passeio a pé. Sentir a brisa leve mordiscando a pele. Percorrer veredas remotas, como nas intermináveis tardes inundadas de sol da minha infância.

No alto da serra, espreita um vistoso arco-íris. Como se estivesse a puxar-me para lá.

 

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Sábado, 25 de Maio de 2013
por Ana Vidal | 25.05.13 | 4 denúncia(s) | favorito

 

Um português com o espantoso nome de "Lenine Relvas" (!!) provoca uma pequena revolução na pacatíssima Suécia. Saímos da terrinha e lá se vão os brandos costumes.

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Quarta-feira, 8 de Maio de 2013
por Ana Lima | 08.05.13 | 8 denúncia(s) | favorito

A primeira tarefa dos assessores jurídicos no "processo de privatização em curso" nos CTT será, certamente, acompanhar a desafiante tarefa de notificar cidadãos eleitores cuja situação eleitoral venha a ser alterada com a aprovação do novo mapa das freguesias.  Depois da generalização do uso dos meios electrónicos, nunca uma operação desta envergadura tinha sido posta em marcha. A comissão de trabalhadores alertou já para a necessidade de providenciar bebidas frescas. É que parece que vai ser preciso lamber muito selo...

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Sexta-feira, 3 de Maio de 2013
por jaa | 03.05.13 | 2 denúncia(s) | favorito

Isto admitindo que, por entre a contestação de funcionários públicos e pensionistas, os recursos para o Tribunal Constitucional e a má vontade de uma fracção do próprio governo, o discurso é para levar a sério. A «redefinição das funções do Estado» está longe de ser óbvia mas convenhamos que parte da utilidade do conceito é prolongar os debates, adiando o momento em que se faz realmente alguma coisa.

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por jaa | 03.05.13 | favorito

Há seis milhões de portugueses que hoje nem ele conseguirá fazer deixar de sorrir.

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Terça-feira, 30 de Abril de 2013
por jaa | 30.04.13 | 6 denúncia(s) | favorito

Segunda-feira, 22 de Abril

De manhã, aproveitando uma conferência de imprensa de outro modo inútil, o ministro Poiares Maduro fartou-se de mencionar a palavra «consenso». António José Seguro, sempre iludido acerca da sua própria importância no grand scheme of things, resmungou ser tarde para consensos. Assumindo que merece a reputação de inteligência que tanta gente lhe atribuiu no último par de semanas, o ministro Poiares Maduro não terá ficado nem surpreendido nem demasiado incomodado: como se comprovaria três dias mais tarde, a pessoa que devia ouvir e apreciar os apelos ao consenso, ouvira-os e apreciara-os (ver quinta-feira, 25).

À tarde, o ministro Santos Pereira, revelando estar finalmente a conseguir agir como ministro, apresentou um plano inútil repleto de clichés e intenções grandiosas. Foi severamente criticado por ter demorado uma eternidade a apresentá-lo e por as intenções nele expressas não serem suficientemente grandiosas.

 

Terça-Feira, 23 de Abril

É estranho, até um pouco assustador, mas não me lembro de um único pormenor deste dia. Tê-lo-ei passado a dormir? Tê-lo-ei eliminado da memória em resultado de uma experiência traumatizante? Mas, neste caso, que experiência poderia levar-me a uma reacção tão definitiva? Um assassinato? Um sonho húmido com a Ana Gomes? Uma tentativa para ler um livro do José Rodrigues dos Santos?

 

Quarta-Feira, 24 de Abril

Estive presente numa reunião com pessoas simpáticas e faladoras. Foi tão produtiva como os últimos conselhos de ministros.

 

Quinta-feira, 25 de Abril

O presidente Cavaco Silva mostrou que: (1) ouvira os apelos ao consenso que o ministro Poiares Maduro, por ordem/sugestão (riscar a que parecer menos adequada) do presidente Cavaco Silva, lançara na direcção do PS; (2) não gostara da resposta do PS. Fez tudo isto nas comemorações do 25 de Abril, através de um discurso inesperadamente inteligente e sensato. Esqueceu-se, porém, de que o 25 de Abril, não obstante todos os seus pontos positivos, é muito mais acerca de fervor revolucionário e grandes quimeras do que acerca de sensatez. A oposição reagiu com a ferocidade e demagogia que lhe competiam. Ainda assim, António José Seguro não exigiu a realização de eleições antecipadas para a Presidência da República.

 

Sexta-Feira, 26 de Abril

Acordar para o mundo real no dia 26 de Abril é sempre difícil.

A secretária de Estado Maria Luís Albuquerque explicou que o governo conseguira reduzir em 170 milhões de euros (uau) as perdas potenciais de 3000 milhões de euros (17,6 vezes uau) a que as empresas públicas se haviam arriscado, na sequência da contratação de instrumentos financeiros que os seus gestores, mais habituados a calcular prémios de desempenho, estariam longe de compreender. Evidentemente, nada disto significa que as empresas públicas devam ser fechadas, privatizadas ou concessionadas. Não significa sequer que os seus custos operacionais devam ser reduzidos, excepto se puderem ser reduzidos sem custos. Significa antes que coisas assim são uma vergonha e que os envolvidos deviam ser presos e que é preciso garantir que, sem mudar o que quer que seja, no futuro tudo se passará de forma diferente, o que talvez recomende a constituição de um grupo de trabalho incumbido de apresentar um «plano», e que... bla bla bla ad nauseum. Pelo menos – feliz o país em que, por levar o epíteto de evolução, isto merece registo – o caso fez perder o lugar a dois secretários de Estado.

 

Sábado, 27 de Abril

Ouvi algures (seria o televisor da vizinha?) que decorria um congresso do Partido Socialista mas resolvi prestar-lhe atenção apenas depois de esgotadas todas as opções televisivas mais excitantes, como as televendas, os programas do canal BabyTV e as receitas do chef Hélio Loureiro.

 

Domingo, 28 de Abril

Continuei sem ver uma imagem do congresso do Partido Socialista mas, pelo final da tarde, ouvi dizer (tenho mesmo de ter uma conversa com a vizinha) que o plano de António José Seguro para resolver os problemas do país é tão infalível que se encontra apenas dependente da boa vontade de terceiros. Uma das alíneas passará pela redução dos rácios de solvabilidade dos bancos nacionais. Tsk, tsk. Esvaíram-se depressa, os desejos de mais regulamentação.

Para evitar pensar no Seguro ou na vizinha, pus-me a rever A Noite da Iguana, em DVD. Quando o filme terminou passei para a televisão de forma imperdoavelmente displicente (estaria ainda sob os efeitos da Ava Gardner) e José Sócrates encheu-me o ecrã. Atarantado, carreguei no botão mais ao dedo e Richard Burton sobrepôs-se-lhe. Suspirei de alívio. As personagens de Tenessee Williams podem ser problemáticas e até desagradáveis mas pelo menos mantêm uma possibilidade de redenção.

 

Segunda-Feira, 29 de Abril

Vesti um pólo de manga curta mas a manhã esteve fresca. Toda a gente se meteu comigo.

O ministro Vítor Gaspar entrou no jogo dos apelos ao consenso. Fê-lo alertando para a inevitabilidade de o consenso ter de se formar em torno da reestruturação e do redimensionamento do Estado. É nestes pormenores que se detecta que o ministro Vítor Gaspar não é muito bom a acompanhar o sentido dos tempos. O consenso na sociedade portuguesa já é outro.

 

Terça-Feira, 30 de Abril (hoje)

Ocorre mais um (interminável?) conselho de ministros na interminável série de intermináveis conselhos de ministros em que, desde a sapientíssima decisão dos treze vultos mais insignes da nação, o governo anda embrenhado, sem conseguir chegar a decisões sobre onde e como cortar num Estado que ainda representa quase metade do PIB. Cambada de neoliberais.

 

Quarta-Feira, 1 de Maio (amanhã)

Não é altura de lhe mudar o nome para dia do trabalhador e da trabalhadora?

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Domingo, 28 de Abril de 2013
por Pedro Correia | 28.04.13 | 37 denúncia(s) | favorito

 

Pares de andorinhas varrem os ares, em voos vertiginosos, no incessante labor de alimentar as crias. Naturalistas garantem que 41% destas aves que nos são tão familiares extinguiram-se desde 1998, o que é uma excelente notícia para os insectos. Mas estas, na marginal junto à Ria Formosa, teimam em contrariar as estatísticas: regressam todas as Primaveras aos mesmos ninhos, nos mesmos beirais. Já lhes conheci pais e avós desde que frequento estas paragens.

Este é um pequeno paraíso para ornitólogos amadores: melros, poupas e pegas-rabudas esgravatam em liberdade nos jardins; gaivotas imitam patos flutuando nas águas plácidas da ria; garças aproveitam a maré baixa para petiscar em áreas lodosas; pombos arrulham cumprindo o destino que lhes está confiado até aos confins dos tempos, indiferentes ao incessante chilrear dos vizinhos pardais; uma cegonha de asas majestosas eleva-se no céu correspondendo ao suave embalo do vento e mira-nos lá de cima com olímpica indiferença.

À mesa da Noélia, ainda longe das enchentes de Verão, mato saudades das pataniscas de polvo com arroz de coentros. Na mesa ao lado, um jovem casal encomenda ao empregado "duas sopinhas" e uma dose de conquilhas para partilhar: a crise manifesta-se, um pouco por toda a parte, das formas mais imprevistas.

Saio a andar. Gosto de ler placas toponímicas. Passo pela Rua Dr. João Amaral, um deputado de quem fui amigo. Percebemos que estamos a envelhecer quando gente que conhecemos bem desaparece do nosso convívio e reaparece como nome de rua.

Outra placa anuncia a Rua José Luís do Carmo Pereira, um pescador nascido em 1951 e falecido (num naufrágio?) em 2003. Interrogo-me, a propósito: quantas ruas portuguesas terão sido baptizadas com nomes de pescadores?

Mais adiante, junto à sonolenta sede do clube columbófilo, dois velhotes de boné na cabeça discutem futebol com típico sotaque do sotavento algarvio. "O Arbeloa está lesionado mas o Messi não", argumenta um deles. Sinal inequívoco de que o último reduto do patriotismo português - o futebolístico - já foi abalado até aos alicerces nesta era de globalização da bola.

Vejo árvores familiares que catalogo mentalmente: amoreiras, casuarinas, magnólias, araucárias, choupos brancos ainda sem folhas. E vou escutando múltiplos sons de bichos que me devolvem às intermináveis tardes de infância na província: cigarras, grilos, osgas, rãs...

Cabanas, 28 de Abril de 2013: ao contrário do que dizia o outro, devemos regressar sempre aos lugares onde já fomos felizes. Há 16 anos que te conheço, há 16 anos que não resisto a este impulso cíclico de voltar para ti. Amor à primeira vista, amor para sempre.

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Quarta-feira, 17 de Abril de 2013
por jaa | 17.04.13 | 8 denúncia(s) | favorito

O PSD não teve coragem para assumir que a lei de limitação dos mandatos constituía um acto de marketing político e nada mais. É por isso bem feito que os tribunais, obrigados a pronunciarem-se sobre um assunto que não lhes devia ter chegado, estejam a decidir contra as pretensões dos candidatos sociais-democratas. Veremos, todavia, se no jogo da interpretação do corpo e do espírito da lei, instâncias judiciais superiores não acabarão validando a intenção escondida (mas real) do legislador em vez da sua intenção declarada (mas falsa).

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Sexta-feira, 12 de Abril de 2013
por jaa | 12.04.13 | 16 denúncia(s) | favorito

Mário Soares acha possível «um entendimento bastante grande» entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda. Por uma vez, concordo com ele. A deriva do PS para a esquerda, adoptando posições cada vez mais parecidas com as do Bloco, pode permiti-lo. O problema seria após formarem governo, quando o realismo voltasse a entrar no Largo do Rato. O realismo que forçou o mestre da fantasia que o liderou antes a apresentar, de mão estendida em Bruxelas, PEC após PEC com medidas de austeridade. O realismo que leva Hollande a nada de essencial ter mudado em França desde que foi eleito. O realismo que o pessoal do BE adoraria.

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Quarta-feira, 10 de Abril de 2013
por jaa | 10.04.13 | 2 denúncia(s) | favorito

António José Seguro aplaude e toma notas.

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por jaa | 10.04.13 | 6 denúncia(s) | favorito

Verificar o nível de respeito que tantas almas, partidárias ou comentaristas, exigem pela decisão do Tribunal Constitucional, bem como as formas reclamadas, implícita ou explicitamente, para que tal respeito se manifeste (concordância, silêncio), gera em mim uma imensa ternura ou o mais profundo asco, consoante tenha acabado de ouvir uma bela música ou entalado o dedo numa gaveta. Neste país onde o sistema de Justiça merece integralmente a imagem que tem e, na sua acepção mais negativa, o próprio qualificativo de «sistema», apenas um tribunal me suscita verdadeiro respeito. Previsivelmente, levando em conta quem sou e o país onde me encontro, trata-se do mais irrelevante de todos, daquele cujas decisões podem ser e quase sempre foram ignoradas: o de Contas. Pelo menos lutou durante anos, contra tudo e contra todos, para evitar que falíssemos.

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Terça-feira, 9 de Abril de 2013
por jaa | 09.04.13 | 27 denúncia(s) | favorito

Artigo 13.º

Princípio da igualdade

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.

2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

 

Com base neste artigo, o Tribunal Constitucional determinou que os trabalhadores do Estado não podem ver o seu rendimento diminuído sem que tal suceda igualmente aos trabalhadores de entidades privadas. Pergunto: o inverso também se aplica?

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Segunda-feira, 8 de Abril de 2013
por jaa | 08.04.13 | 6 denúncia(s) | favorito

Tabacaria do piso superior do Centro Comercial Cidade do Porto, hora de almoço. Quatro homens folheiam jornais desportivos. Dois homens (reprimo a vontade de colocar aqui um ponto de exclamação) e duas mulheres folheiam revistas como a Vip e a Nova Gente. Um homem paga ao balcão um exemplar do Jornal de Notícias. Uma mulher olha para a zona do expositor onde se encontram as revistas de viagens, literatura, música e história. E um homem olha para as outras pessoas e pensa que estatísticas apressadas só podem mesmo conduzir à obtenção de imagens distorcidas do país.

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Domingo, 7 de Abril de 2013
por Ana Vidal | 07.04.13 | 9 denúncia(s) | favorito


Sábado cultural: visita à exposição da Clarice Lispector, na Gulbenkian. Magnífica e imaginativa forma de expor tantas palavras essenciais. O mistério de Clarice intacto, apresentado em gavetas que ora escondem ora revelam. Como ela própria. Um aplauso a quem teve a ideia.
A seguir, visita à exposição da Joana Vasconcelos, na Ajuda. Depois de Versailles já não é arrojo, já não é coragem. Coragem teria sido começar aqui a "profanação" de um palácio real, assim é apenas a repetição de uma receita de sucesso. Uma batota que infelizmente repete a fórmula do costume e revela a sempiterna saloice nacional: primeiro a segurança da aprovação dos outros, depois o reconhecimento fácil e garantido.
Finalmente, à noite, o filme Night train to Lisbon. De novo o jogo de espelhos entre nós e os outros. Um Jeremy Irons sem surpresas, sempre superlativo. E a estranheza de uma história nossa, caseira, vista por olhos estrangeiros. Aí, sim, a surpresa da intensidade com que de repente nos vemos a nu: trágicos, labirínticos, incumpridos e infinitamente nostálgicos.

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por jaa | 07.04.13 | 11 denúncia(s) | favorito

The consolidation is underpinned by a mixture of revenue increases, which account for 80 percent of the total adjustment, and expenditure cuts.

[…]

With the tax-to-GDP ratio already in line with peers and the 2013 budget set to push this ratio even higher, a large part of the medium-term fiscal adjustment will need to come from expenditure restraint. This would help bring the adjustment mix closer to the original program objective—one third revenue, two thirds expenditure. And given that Portugal’s spending is heavily concentrated on pensions and public wages—accounting for about two-thirds of total spending, these outlays will have to be at the center of spending reforms.

Do relatório da sexta avaliação, Dezembro de 2012 (páginas 55 e 56).

 

Claramente, estes tipos não contavam com a nossa augusta Constituição. Vai-se a ver e estão mais habituados a países com Constituições que permitem gráficos assim:

Do relatório da nona avaliação ao programa irlandês, Abril de 2013 (página 36).

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Sábado, 6 de Abril de 2013
por jaa | 06.04.13 | 18 denúncia(s) | favorito

1. O Partido Socialista tem razões para estar satisfeito. Ainda que se mantenha fora do governo, a decisão do TC praticamente obriga a que a receita que vem defendendo (confrontar a Troika com uma exigência de renegociação) seja aplicada. Ganhaste, Tozé. Logo veremos os resultados.

(Eu aposto em mais um aumento de impostos.)

 

2. Seria bom que isto acabasse de uma vez por todas com a noção de que é possível aplicar receitas de direita, ou liberais, ou neoliberais, ou o que raio quiserem chamar-lhes, em Portugal. Se nem um governo que baseou a consolidação orçamental na recolha de impostos conseguiu escapar...

(Mas claro que não vai acontecer.)

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Sexta-feira, 5 de Abril de 2013
por jaa | 05.04.13 | 19 denúncia(s) | favorito (2)

1. LOL!

 

2. Logo agora que o governo, forçado pelas circunstâncias, ia ter de começar a fazer o que devia ter feito há ano e meio. Coincidências.

  

3. E no fim de contas o memorando estava mesmo (muito) mal desenhado: nem um terço do ajustamento pelo lado da despesa será constitucional, quanto mais dois.

 

4. Evidentemente, concordo com a Ana Margarida Craveiro. Em parte por culpa própria, em parte por desvios a que foi obrigado (vide decisão anterior do TC ou polémica sobre a TSU), o governo já se encontrava demasiado longe não apenas do que parecia ser o seu plano original mas de qualquer solução razoável para a crise (vide Irlanda ou países nórdicos no início da década de 90), pelo que não deve agora afundar-se ainda mais, fingindo ter alternativas. Demita-se.

 

5. Depois, levando em conta as ilusões que continua a ser necessário estilhaçar e o quão manietado qualquer executivo fica após esta decisão, (será constitucional cortar ainda mais o subsídio de desemprego ou fechar hospitais e escolas, despedindo os funcionários?) a via mais razoável passaria pela realização de eleições.

 

6. Mas claro que Cavaco assim não o entenderia. E ficaríamos (ficaremos?) então com alguém de mãos atadas à frente de um concentrado de interesses contraditórios com olhos em eventuais eleições. Os resultados só poderiam ser brilhantes.

 

7. De certo modo, mais valeria arranjar um governo que aplicasse as políticas do BE e do PC; também se estilhaçariam muitas ilusões mas pelo menos todas as medidas seriam constitucionais.

 

8. Seja como for, o equilíbrio orçamental fica mais longe e os mercados de dívida deverão adorar os próximos tempos. Segundo resgate, anyone?

  

9. Entretanto, a Irlanda, sobrecarregada com uma Constituição imperfeita que lhe permitiu cortar nos sítios certos, cresceu cerca de 0,7% em 2012 enquanto o défice público descia de 13,4% do PIB em 2011 para 7,7% em 2012.

 

10. Finalmente, o mais marado nem é oficializar-se o sequestro de parte do país por outra parte; é assistir às manifestações da Síndrome de Estocolmo.

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por jaa | 05.04.13 | 5 denúncia(s) | favorito

O irrealismo é de Passos Coelho e companhia. Ao PS assiste uma luz superior que não o deixa errar. É um jardim infantil em que os meninos brincam à vontade e, quando os contrariam, vão ao Parlamento chorar e berrar.

Vasco Pulido Valente, no Público de hoje.

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Quinta-feira, 4 de Abril de 2013
por jaa | 04.04.13 | 5 denúncia(s) | favorito

O ministro Miguel Relvas demitiu-se. Acho bem. Devia, aliás, tê-lo feito bastante mais cedo. Contudo, mais do limitar-me à constatação da sua saída do governo, quero realçar outra: Miguel Relvas demitiu-se após um processo de auditoria desencadeado pelo próprio governo, na sequência de notícias acerca do modo como se licenciou, o qual produziu resultados tão contrários ao interesse do governo que outro ministro vai ter que anular a licenciatura e/ou (existem versões contraditórias quanto aos poderes de Nuno Crato) enviar o caso para o Ministério Público. Era bom que este nível de isenção servisse de precedente porque, apesar da minha memória já não ser o que era, quer-me parecer que as coisas nem sempre funcionaram assim.

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Terça-feira, 2 de Abril de 2013
por jaa | 02.04.13 | 4 denúncia(s) | favorito
Sindicatos exigem o aumento do salário mínimo. Confederações patronais dizem que sim, senhor, é justo – desde que tal não represente um aumento de custos para as empresas. Quadratura do círculo? Era não conhecer este país. Sindicatos e patrões reúnem-se e congeminam um plano a que a falta de originalidade é incapaz de retirar brilhantismo: o Estado que pague. Num tocante gesto de boa vontade (sindicatos e patrões ouviram dizer que as contas públicas passam por algumas dificuldades), só lhe é pedido que assegure 80% do custo total.
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Terça-feira, 26 de Março de 2013
por jaa | 26.03.13 | 13 denúncia(s) | favorito

Passos Coelho e Vítor Gaspar não conhecem o país.

Com uma parte desta acusação é fácil simpatizar: eu também preferiria que a carreira profissional dos actuais líderes políticos fosse mais rica. Mas convém não ter ilusões: em Portugal como noutros países (afinal, que carreira fora da política teve François Hollande, essa momentaneamente imprescindível referência da esquerda?), os líderes políticos emergem dos partidos, pouco mais tendo feito na vida que não política. Nem sequer é difícil perceber a razão: muitos empresários e gestores preferem quedar-se na sombra, beneficiando de um regime de interesse mútuo, e os restantes, aqueles verdadeiramente dinâmicos e competentes, não têm tempo nem apetência para os meandros insalubres do jogo político (excepção feita a esse expoente da qualidade governativa e do conhecimento das necessidades dos cidadãos chamado Silvio Berlusconi, evidentemente). Esta última razão aplica-se também a médicos, académicos, juristas, economistas, cientistas, contabilistas, funcionários de escritório, comentadores televisivos e surfistas. Sendo que conviria reconhecer um ponto importante: quando muito, a diferença no conhecimento do «mundo real» – ou, noutra expressão adorável, do «país real» – entre políticos como Passos Coelho ou Vítor Gaspar (ou António José Seguro) e a maioria dos médicos, académicos, juristas, economistas, cientistas, contabilistas, funcionários de escritório, comentadores televisivos e surfistas não ultrapassa dois ou três pontos numa longuíssima escala – e estou a ser simpático para os médicos, académicos, juristas, economistas, cientistas, contabilistas, funcionários de escritório, comentadores televisivos e surfistas. Na verdade, quem se pode reclamar da capacidade de conhecer o «país»? Mais: o que é «o país»? Um pescador de caxinas, um maquinista da CP, um doutorado pela Católica, um reformado sentado num banco de jardim, um broquista da indústria da cortiça, o Fernando Ulrich, o sem-abrigo que dorme junto à porta do balcão da Praça da Galiza do BPI (no kidding), o proprietário de um café em Olhão, um investigador bolseiro, o emplastro que aparecia na televisão atrás de políticos e desportistas, um elemento dos No Name Boys, o António Lobo Antunes, o pensionista que, em conluio com o patrão, passou anos a declarar apenas três dias de trabalho por semana e agora se queixa do montante da pensão de reforma, uma dona de casa de Castelo de Vide, um cirurgião da unidade cardiotorácica dos Hospitais de Coimbra, um pastor da Serra da Estrela, a presidente da Assembleia da República e a sua reforma aos 42 anos, o vimaranense que gritou «Messi, Messi, Messi» porque o Ronaldo não lhe ligou às miúdas? Ou será o próprio Ronaldo e o seu Lamborghini Aventador? O país é demasiadas coisas para que alguém possa reclamar conhecê-lo bem e não são três, dez ou vinte anos numa empresa (ou em duas ou em três), ou numa universidade, ou num escritório de advocacia que permitem conhecê-lo. Não da forma como parecemos exigi-lo aos líderes políticos. Mas talvez consigamos chegar a uma resposta satisfatória acerca do que significa «o país» e, muito especialmente, «conhecer o país» notando que Sócrates, com o seu currículo de ligações a câmaras municipais e a projectos manhosos, com as suas políticas beneficiando invariavelmente os empresários amigos e as classes habituadas a serem prioritárias em qualquer decisão governamental, raramente ouviu a acusação. Deve ser isto, então, «conhecer o país»: estar mergulhado nos seus vícios e disponível para os perpetuar. De resto, só assim se entende que alguns comentadores incluam nos pontos negativos a circunstância de Passos, Gaspar e Seguro, para além de nunca terem tido um emprego «normal», nunca terem sequer desempenhado cargos em governos anteriores ou autarquias – o que, equivalendo a acusá-los de fazerem parte do sistema por não terem desempenhado um papel oficial no sistema, tem lógica porque, na realidade, o que toda a gente continua a desejar é continuidade: as políticas e a retórica do costume. Só que Portugal não precisa de continuidade. Precisa de mudança. E, infelizmente, para a implementar, talvez Passos – como muitas pessoas em torno dele; como Seguro – ainda conheça o país demasiado bem. Só assim se explicam a força inabalável com que avançou para os aumentos de impostos e todas as dúvidas que parecem restar-lhe quanto ao corte da despesa.

 

Eles só olham para os números; as pessoas não são números.

Depois de tantas previsões falhadas por parte de Vítor Gaspar, esta parece hoje uma acusação incongruente mas, há três ou quatro meses, o Bloco de Esquerda, benza-lhe Deus o voluntarismo, até colocou a segunda parte da frase num cartaz. É verdade que, nas últimas décadas, à medida que as pessoas iam conseguindo melhores níveis de vida do que em alguma outra época da História, o calor humano parecia descer. A posse – nisto os marxistas tinham razão – implica egoísmo. É também verdade que muita gente em cargos de responsabilidade possui mais bagagem teórica do que experiência prática. Mas o nosso problema não advém de os nossos governantes olharem demasiado para os números. Pelo contrário: o problema nasceu ou, pelo menos, agravou-se muito para além do necessário por, ao longo de anos, não terem olhado o suficiente. Tivessem-no feito, e tivessem agido em função do que viam, e as pessoas estariam hoje melhor. As mesmas pessoas que, não sendo números, deviam aprender que eles querem dizer algo, que têm consequências práticas nas suas vidas – e deviam aprender a exigir aos políticos que olhassem bem para eles e não apenas numa perspectiva de curto prazo. Mas ignorar os avisos (enquanto o pau vai e vem, folgam as costas, certo?) ou até, como no caso do Bloco de Esquerda, do PC, da CGTP, exigir continuamente medidas que agravam as hipóteses de «os números» virem a ter consequências nefastas e depois regurgitar clichés é tão mais fácil, não é?

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Sábado, 23 de Março de 2013
por Teresa Ribeiro | 23.03.13 | 3 denúncia(s) | favorito

"Os ricos são todos iguais, os pobres é que são todos diferentes", afirma hoje ao "i" o Francisco José Viegas, claramente frustrado com a sua recente aventura política. A frase lembrou-me um outro artigo que li há dias sobre o livro "Os Dabney, Uma Família Americana nos Açores" a reconstituição da sociedade faelense feita a partir da história de uma família americana que se radicou na ilha no século XIX.

Organizada por Maria Filomena Mónica e Paulo Silveira e Sousa, a obra é baseada no registo diarístico feito por um dos elementos da família que ali viveu ao longo de três gerações, até 1892. Anti-esclavagista e  reflectindo valores que radicam na moral e na ética protestante, os Dabney desenvolveram com a comunidade uma relação cortês que se estendeu a todas as classes sociais, em flagrante contraste com as elites autóctones, "que ignoravam a extrema pobreza em que o povo vivia, passando por ele como se fosse transparente".

O registo deste choque cultural dá-nos uma perspectiva interessante dos portugueses. Não dos que nos são contemporâneos, mas dos nossos igrégios avós. Os que nos transmitiram as chaves desta sociedade em que a mobilidade vertical se mantém difícil, a pobreza se perpetua, não existe por parte dos ricos uma cultura de serviço à comunidade e hábitos de filantropia e os privilegiados vivem enquistados nos seus próprios interesses, circulando em circuito fechado, longe de olhares indiscretos. Vou lê-lo um dia destes. Quem sabe talvez me ajude a perceber melhor o que derrota quem passa pelo poder, sobretudo os que não dependem da política para viver e podem, por esse motivo, falar sem sofismas da entropia da coisa.

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Sexta-feira, 22 de Março de 2013
por Ana Margarida Craveiro | 22.03.13 | 7 denúncia(s) | favorito (1)

A confirmar-se o chumbo do Tribunal Constitucional, o Governo só tem de se demitir. Amigo não empata amigo: se o TC é um tribunal político e tem aspirações a decidir a política nacional, então o Governo só tem de passar a bola. É simples, ou não? Na verdade, tudo isto é uma verdadeira república das bananas. O executivo não pode decidir, porque o TC recusa, o legislativo recusa-se a decidir, e manda leis para os tribunais decidirem casuísticamente. Este país cansa-me, a sério.

 

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Quinta-feira, 21 de Março de 2013
por jaa | 21.03.13 | 21 denúncia(s) | favorito

Mark my words: este homem íntegro, determinado, inteligente (livra, quase escrevi esperto), modesto, bondoso, cem por cento democrata, que sempre privilegiou o crescimento económico, ainda há-de chegar a presidente de um país que é muito capaz de merecer tudo o que lhe acontece.

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Sexta-feira, 8 de Março de 2013
por jpt | 08.03.13 | 5 denúncia(s) | favorito

Acabo de ler que faleceu o Senhor João Rocha, o grande (enorme) Presidente do Sporting. Ainda, até hoje, o meu presidente. Comovo-me.

 

Sobre essa grande personalidade cito a nota do Record:

 

"João Rocha foi presidente entre 1973 e 1986. Além de competente gestor, João Rocha relançou as modalidades – casos do atletismo, andebol, basquetebol, hóquei em patins e ciclismo – a um patamar nunca antes alcançado. Durante os seus mandatos o clube conquistou 1.210 títulos nacionais, 52 taças de Portugal e oito taças europeias várias modalidades, que nessa altura eram 22 e movimentavam 15.000 praticantes. No futebol conquistou inúmeros títulos, tendo logo na primeira época resultados brilhantes: o Sporting foi campeão nacional, venceu a Taça de Portugal e chegou às meias-finais da Taça das Taças. Yazalde recebeu a Bota de Ouro pelos 46 golos que marcou e que ainda hoje constituem recorde na Europa. O número de sócios triplicou com João Rocha, cuja ação foi decisiva para a construção da bancada nova, de doze ginásios, dos pavilhões polivalentes, da pista de tartan, da Loja Verde, tribuna de honra do estádio, sala de bingo, centro de estágio de ciclismo, sala de convívio Joaquim Agostinho, e 6 mil novos lugares nos topos norte e sul."

 

Uma breve nota que não lembra que João Rocha ascendeu à presidência num contexto de crise do clube. E que o fez o crescer no meio das convulsões que se sucederam ao 25 de Abril de 1974 (abençoadas e democratizadoras, mas na altura com toda a certeza a "confusionarem" a administração de um clube desportivo). Servindo-o, e à comunidade.

 

Foi o presidente da minha juventude. De quando era um prazer ser do Sporting. E de quando era um orgulho ter um presidente como ele.

 

Seria, mais tarde vim a desconfiar, um homem de outro tempo. Não destes últimos tempos, destas últimas décadas. Nos quais, no dirigismo desportivo e não só, Portugal precisaria de Homens como este.

 

Mas não os tem.

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Quinta-feira, 7 de Março de 2013
por jaa | 07.03.13 | 6 denúncia(s) | favorito

Carlos Abreu Amorim, candidato do PSD à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, em entrevista à Sábado de hoje:

O seu projecto limita-se a continuar a obra de Menezes?

Sei que na política portuguesa a frase que vou dizer tem outras conotações, mas as frases não ficam marcadas para sempre... É uma evolução na continuidade. Temos um projecto considerado valioso por toda a gente, tirando os partidos de extrema-esquerda.

[…]

Menezes não fez nenhum erro de gestão?

Falamos do melhor presidente de câmara da história do poder democrático português, com um apoio entre os 60% e os 70%.

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por jaa | 07.03.13 | 7 denúncia(s) | favorito

No domingo passado distraí-me e acabei assistindo aos comentários do Professor Marcelo na TVI (*). A dada altura, ele explicou-nos (a nós, telespectadores, e a uma embevecida Judite de Sousa) que os resultados das eleições italianas, parecendo originar um problema de difícil resolução, revelar-se-ão afinal muito positivos, na medida em que obrigarão Angela Merkel a prestar atenção às reivindicações dos países do Sul. Segundo o Professor Marcelo, os alemães não ligam peva (o termo é meu mas o sentido é dele) à Grécia, nem a Portugal, nem sequer à Espanha, mas respeitam a Itália e sabem que esta lhes pode causar um montão de problemas bicudos (a expressão é minha mas o sentido é dele). Minutos depois, escalpelizando já o tema da alteração das condições dos empréstimos europeus a Portugal e à Irlanda, o Professor Marcelo anunciou que, obviamente, os prazos serão alargados e a curva de pagamentos suavizada mas que não se pode avançar demasiado depressa por necessidade de desenhar formas que, disfarçando a cedência dos governos dos países credores, evitem alienar os seus cidadãos e permitam as aprovações parlamentares necessárias. Referiu explicitamente a Alemanha e o jogo de cintura a que Angela Merkel, em pleno ano de eleições, se vê forçada.

Sendo que o Professor Marcelo – desculpe lá, Professor; almas gémeas na paixão pelo ténis, eu até gosto de si – não fez mais do que expressar o que muitos pensam, tudo isto é bonito e de uma coerência inatacável. Ora recapitulemos. Em Itália, castigam-se os políticos por terem ignorado a vontade popular; em Portugal, onde acusações idênticas aos políticos nacionais são às dúzias por hora, aplaude-se – diz-se que é a democracia a funcionar e, num glorioso corolário, exige-se que o governo alemão aprenda a lição e altere o rumo, ainda que contra a vontade dos cidadãos alemães. Em simultâneo, na Alemanha o governo parece utilizar subterfúgios para executar políticas que não corresponderão à vontade popular; em Portugal, com reservas porque continua a dar jeito ter a quem apontar o dedo, aplaude-se – diz-se que já não era sem tempo e exige-se mais. Convenhamos: a começar no PM que sonha ser PR, gostamos da democracia quando ela se molda às nossas tendências para a realpolitik.

 

(*) Pergunto-me sempre se ele teria atingido níveis de fama e respeito similares com um primeiro nome mais comum (tipo António, Carlos ou João) ou fora de moda e, por isso mesmo, ligeiramente incongruente (tipo Anacleto, Barnabé ou Frutuoso). Imagine-se Judite de Sousa dizendo: «É altura do comentário semanal do Professor Anacleto. Boa noite, Professor Anacleto. Que livros nos traz esta semana?»

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Segunda-feira, 4 de Março de 2013
por Gui Abreu de Lima | 04.03.13 | 7 denúncia(s) | favorito

Chegou para matar a fome, sempre a dele, à minha frente, e a dos seus, que só presumo, e trazia novidade. Tinha ido a uma entrevista! e vinha cheio de esperança. Fosse a arrumar prateleiras, a entregar mercadoria ou até sentado à caixa, desde que revisse a tabuada, haveriam de o meter. Que alegria, meu menino, quando a vida pode mudar. Saberás o que te espera? O que é estudar e trabalhar, essa rima incessante, desde que o sol se ergue até à hora do jantar? Uma pessoa não quer ver alminhas desta alvura a perderem inocência. Sabes quanto vais ganhar? E levar para casa?

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Domingo, 3 de Março de 2013
por Teresa Ribeiro | 03.03.13 | 9 denúncia(s) | favorito

Pasmado, o país assistiu outra vez às enchentes que lhe invadiram as ruas nos idos de 70. As mesmas palavras de ordem : "O povo, unido...", as mesmas músicas: "Aprende a nadar companheiro..." Um anacronismo inusitado. Houvesse mais barbas e patilhas compridas e seria como uma viagem no tempo, inquietante como tudo o que parece contra-natura.

Seria? Não. A ilusão só funcionou em plano aberto. Vistos de perto os manifestantes de ontem eram o reverso dos que desfilaram no passado. Sem esperança e com medo do futuro, exactamente nos antípodas dos outros que os precederam. Mesmo os novos, mais velhos que os velhos que há quase quarenta anos tropeçavam, cheios de adrenalina, na letra da Grândola Vila Morena. 

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Sábado, 2 de Março de 2013
por jaa | 02.03.13 | 16 denúncia(s) | favorito

Funcionária – «jornalista» parece-me exagero – da SIC Notícias entrevista criança de 5 ou 6 anos no Terreiro do Paço.

«Porque estás aqui?»

«Porque… não sei.»

«Não sabes? Mas percebes que é importante cá estar?»

«Uhhh…»

«Um dia perceberás.»

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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013
por jaa | 20.02.13 | 28 denúncia(s) | favorito

A acção de luta que consistiu em cantar Grândola Vila Morena no Parlamento foi inteligente. Teve uma subtileza cortante que é rara neste tipo de acções – e em Portugal, onde sempre fomos mais dados à manifestação, expressa e reiterada, do óbvio (veja-se o humor, que felizmente a invasão de programas televisivos anglo-saxónicos tem vindo a refinar). Os mestres-cantores (até Hans Sachs concordaria que eles cantaram bem) da Assembleia foram mesmo ao ponto de não resistir às ordens de expulsão. Evidentemente, tratava-se de profissionais conscientes de que a imagem da dignidade ofendida possui mais força do que a da arruaça. Após esse momento, com a contradição de ter nascido para exigir o que os cantores da Assembleia manifestamente tiveram afastada por inconveniente (nuns casos) e falta de memória (noutros), Grândola Vila Morena tinha caminho aberto para se tornar no hino da actual contestação, ocupando o posto onde alguns tentaram há uns tempos colocar um débil tema dos Deolinda. Havia dois tipos de risco, o do excesso de exposição (semanas a ouvir gente nos mais diversos cantos do país entoando Grândola Vila Morena perante membros do governo era capaz de se tornar tão repetitivo que o efeito contestatório se diluiria) e o de alguém utilizar a canção como base de partida para acções violentas, mas cantar Grândola Vila Morena poderia de facto constituir-se numa forma ao mesmo tempo elegante e acerada de mostrar desagrado – bem como de disfarçar a míngua de ideias – a que alguns membros do governo reagiriam certamente pior do que outros.

 

Isto ainda é possível mas o segundo risco concretizou-se depressa. O modo como o tema foi ontem usado em jeito de preâmbulo para berros e insultos contra Miguel Relvas prejudica desde já a sua futura utilização. Goste-se ou não de Relvas (e, repetindo-me porque há sempre quem apenas lembre as partes que lhe fortalecem as ideias feitas, eu considero a reforma do mapa autárquico insuficiente, a não-solução do caso RTP desapontante, as aparições dele em processos que não lhe deviam dizer respeito preocupante e a sua permanência no governo após as notícias sobre a licenciatura inaceitável), por contraponto à histeria ululante dos manifestantes, ele pareceu sensato e ponderado. Aguentou, tentou responder e só cometeu o erro de, logo no início, se juntar ao coro. Percebe-se a ideia (era uma forma de dizer: posso cantar a Grândola Vila Morena porque sou tão democrata como vocês) mas da atitude transpareceu nervosismo e arrogância. Precisamente o tipo de hipótese a que me referia no final do parágrafo anterior. Tivessem os manifestantes ficado por aí, Relvas seria hoje alvo de chacota generalizada e eu não estaria a escrever este post. Mas os manifestantes continuaram. Partiram para os gritos e para os insultos. E Miguel Relvas, encurralado, manteve assinalável serenidade, tentou responder às perguntas que, na verdade, não o eram, e deixou bem visível (para quem quiser ver) como a berraria não equivale a ideias nem, muito menos, a soluções. Cometeu um segundo erro, já à saída, mas foi ligeiro: assediado pelos repórteres, tentou passar a mensagem de que a noite fora normal. Não fora e pretendê-lo apenas revelou insegurança. Foi como se dissesse: está tudo bem, nada disto põe em causa a continuidade do governo. Compreensível mas desnecessário e, no limite, até contraproducente. Quanto a Grândola Vila Morena, ninguém terá dúvidas de que, agora que a moda se instalou, será novamente cantada em breve, algures no país ou mesmo no estrangeiro. Resta saber se de forma a aumentar-lhe, se a diminuir-lhe os efeitos.

 

Duas notas finais: quem acha os acontecimentos de ontem um modo adequado de contestar o governo e não somente o ministro Relvas, é favor imaginar a grávida Assunção Cristas no lugar dele; e trata-se de uma melhoria significativa em relação ao passado recente que as pessoas insatisfeitas consigam entrar nos locais onde os governantes se encontram e que, aparentemente, a polícia ainda não tenha invadido a sede de qualquer sindicato.

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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013
por jaa | 19.02.13 | 6 denúncia(s) | favorito

Boa noite, Senhor. Viste (claro que sim) como o professor Boaventura Sousa Santos disse lamentar a saída de Cândida Almeida, «uma procuradora de alta qualidade», do lugar de directora do DCIAP? Podes informar-me, Senhor, se por «alta qualidade» ele queria dizer ter sido capaz de boicotar os (ou, no mínimo – não quero ser injusto, Senhor –, alguns dos) inquéritos sob a sua responsabilidade enquanto dava entrevistas sobre os riscos insidiosos da corrupção? Não respondes? OK, não faz mal. Digo-te que compreendo bem o lamento do professor. Les bons esprits se rencontrent (é tão bom que sejas poliglota, Senhor), defendem-se uns aos outros e preferem botar discurso a apresentar resultados palpáveis. Pois eu, que não sou vingativo (Tu sabe-lo, Senhor), só lamento que a doutora Cândida não esteja também a lamentar a saída do professor Boaventura do lugar de presidente do Observatório da Justiça. Ou melhor: a lamentar a extinção do Observatório da Justiça.

 

Entretanto, Senhor, Cavaco Silva condecorou o ex-Procurador Geral da República Pinto Monteiro e o ex-Presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César – e o ex-Presidente do Tribunal Constitucional, Rui Moura Ramos, mas no caso deste eu acho justo, Senhor: os juízes do Tribunal Constitucional encontram-se acima de qualquer crítica e merecem todas as distinções, sejam elas medalhinhas para pendurar na lapela, diplomas para pendurar na parede ou pensões de reforma para depositar na conta bancária, uma vez que, por definição – como Tu, Senhor –, nunca erram. Agora os outros dois, Senhor... Não foi Pinto Monteiro uma nódoa (estou a tentar seguir os Teus conselhos, evitando escrever palavrões) como procurador? Não pode Carlos César ser considerado um bom líder regional apenas por comparação com o vizinho ligeiramente mais barrigudo e significativamente mais espalhafatoso do outro arquipélago português no Atlântico? É a história de Vítor Constâncio, de Durão Barroso e de tantos outros mais uma vez, Senhor. Façam as merdas (ooops, perdão, Senhor) que fizerem, acabam sempre como grandes homens (ocasionalmente, grandes mulheres), que, «pela sua entrega à causa pública e ao serviço de Portugal, quantas vezes com prejuízo da sua vida pessoal», são cobertos de elogios e prebendas. Honestamente, Senhor, melhores serviços ao país e, por conseguinte, mais digno de ver Cavaco apoiar um joelho nos ladrilhos do Palácio de Belém e colocar-lhe uma fita na coleira, vem prestando o meu cão. E – uau, Tu sabes mesmo tudo, Senhor – eu nem sequer tenho cão.

 

(Daí ladrar eu. Mas ando a pensar desistir, Senhor, que é inútil e dá-me cabo da garganta.)

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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2013
por jaa | 15.02.13 | 24 denúncia(s) | favorito

Folheio a Ler numa tabacaria. Há mais de ano e meio que não a compro. Passo os olhos por dois artigos, um sobre Joyce Carol Oates, o outro, de Rogério Casanova, sobre O Bom Soldado Svejk. Em condições normais, qualquer deles seria suficiente para eu gastar cinco euros. Reparo no editorial. João Pombeiro despede-se. Escreve: Por decisão da administração do Grupo Bertrand Círculo (do qual faz parte a Fundação Círculo de Leitores), decisão que respeito integralmente, deixo hoje a direção da LER. Vou às últimas páginas verificar a tiragem da revista. 10000 exemplares. Há um ano e meio era de 12000. Resultado da crise? É possível. Tenho pena? Não. Certas dificuldades são merecidas. Como noutros casos (imprensa escrita, maioria das editoras de livros), a adopção do Acordo Ortográfico terá originado poucos ou nenhuns efeitos positivos (quem é que passou a comprar a Ler porque nela se aboliram as consoantes mudas?) mas vários efeitos negativos. Um (posso garanti-lo), cem, talvez dois mil efeitos negativos. Em época de crise, provocar clientes é capaz de não ser grande ideia. Fica, a partir deste meu cantinho de irrelevância, uma mensagem para o futuro diretor da Ler ou para a «administração do Grupo Bertrand Círculo»: revertam a decisão e a revista ganhará de imediato mais um leitor. Talvez cem, quiçá dois mil.

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Domingo, 10 de Fevereiro de 2013
por jaa | 10.02.13 | favorito

A narrativa da crise de António Costa parte de um pressuposto simples: as políticas seguidas em Portugal foram instigadas pela União Europeia e, portanto, esta tem a obrigação de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para nos ajudar. É uma narrativa que, condizendo com a tendência nacional para a desculpabilização (não por acaso tanta gente parece gostar de Costa):

1. Está errada: não foi a União Europeia que escolheu, delineou e implementou os projectos de investimento (as auto-estradas, os estádios, o Magalhães, as obras da Parque Escolar) nem que multiplicou observatórios, institutos e fundações, nem que autorizou prejuízos cada vez mais elevados nas empresas públicas, nem que fechou os olhos aos excessos do poder local e regional, nem que subiu prestações sociais e salários do sector público acima da taxa de crescimento económico.

2. Transforma Portugal num país de inimputáveis (parece que, com ou sem Troika, não temos vontade própria) e os governos Sócrates em fantoches de Bruxelas (nem a mim tal coisa me passaria pela cabeça).

3. Implica admitir que, fossem os estímulos bons ou maus, as políticas seguidas pelos últimos governos estavam erradas.

É mesmo isto que quer dizer, Dr. Costa?

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Domingo, 3 de Fevereiro de 2013
por José Gomes André | 03.02.13 | 7 denúncia(s) | favorito

Portugal vive de ciclos mediáticos. País tacanho e medíocre, mobiliza-se com as vagas de fundo promovidas pela comunicação social e rapidamente perde o interesse assim que os focos de luz se apagam. Discute durante meses a fio o aborto e logo o esquece para sempre. Debate a Europa, mas cedo deixa cair o tema na obscuridade. Emociona-se com crianças "que passam fome" até mergulhar numa árida discussão sobre bancos ou violência suburbana, a qual tem também curta duração. Vive por blocos. Desperta, vocifera, entusiasma-se, e em seguida é vencido por uma súbita inércia. Até que novo tema mediático o arranque da sua letargia. Portugal existe algures no seio desta bipolaridade que o alimenta e simultaneamente o turva.

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por Rui Rocha | 03.02.13 | 2 denúncia(s) | favorito

Afirmar o paralelismo entre a situação de Portugal e a do Sporting constitui um recurso discursivo demasiado tentador. Todavia, se quisermos ser rigorosos nos argumentos que utilizamos, devemos reconhecer que a analogia entre situações não é perfeita. Portugal, apesar de tudo, regressou aos mercados, situação que constitui um sinal de retoma de credibilidade, independentemente de sabermos se tal se deve a factores internos ou externos. O Sporting, por seu lado, saiu do mercado de Janeiro ainda mais enxovalhado. Há, todavia, um aspecto em que o país e o clube apresentam semelhanças evidentes. Refiro-me, naturalmente, à submissão e cedência perante os interesses do BES.

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2013
por jaa | 01.02.13 | 13 denúncia(s) | favorito

Bolas, se tivesse ido aos almoços do Delito já conheceria pessoalmente um membro do governo. Quanto custará uma caixa de robalos?

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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013
por jaa | 31.01.13 | 18 denúncia(s) | favorito

Vejamos então, da frente para trás para que os nossos cérebros extenuados possam ir suavemente relembrando os gloriosos pormenores do passado recente. Os governos de José Sócrates constituíram o paradigma da teimosia suicida, tendo conduzido o país ao limiar da bancarrota. A curto prazo dificilmente serão ultrapassados em arrogância, miopia, estupidez. O governo de Santana Lopes foi um curto mas intenso concentrado de trapalhadas acerca do qual (e das quais) quanto menos se disser, melhor. O governo de Durão Barroso começou com o discurso certo e, perante a resistência dos poderes instalados e uma comunicação social ignorante e hostil, acabou em desistência e fuga. Os governos de António Guterres aproveitaram a abundância de dinheiro barato proporcionado pela descida das taxas de juros para distribuir benesses e fazer crescer o Estado. Fugiram sempre de qualquer medida que suscitasse pigarreio à oposição ou às corporações (as quais, pelo papel cada vez mais decisivo do Estado na economia, se iam tornando mais fortes) como o diabo foge da cruz (analogia em honra do catolicismo de Guterres que, talvez por causa dele, foi até agora o único a admitir pecados) e acabaram no famoso – mas largamente ignorado – discurso do pântano. Os governos maioritários de Cavaco Silva aproveitaram a abundância de dinheiro europeu para estabelecer o modelo baseado no Estado e nas obras públicas que nunca mais foi possível alterar. Ah, e também o modelo da arrogância, que Sócrates emulou e – no que parecia impossível – melhorou através da injecção de uma dose cavalar de histrionismo. O governo minoritário de Cavaco Silva foi excelente a aproveitar o trabalho do governo anterior (já lá vamos) e as primeiras consequências da entrada na então CEE. O governo de Mário Soares e Mota Pinto enfrentou uma situação de pré-bancarrota com coragem e determinação mas também mais instrumentos do que hoje se encontram disponíveis e um Estado que, por menos pesado (cerca de 36,5% do PIB), gerava menos inércia. O governo de Pinto Balsemão levou o país ao limiar da bancarrota e o melhor que se poderá dizer é que o fez com mais ingenuidade e muitíssimo menos arrogância do que o de Sócrates. O governo de Sá Carneiro e Freitas do Amaral estabilizou o sistema político ao demonstrar que a direita (uma direita muito centrista mas era a possível) podia ocupar o poder. A nível económico, porém, não merece os mesmos elogios, tendo aproveitado a retoma que se seguiu à pré-bancarrota de 1978 para políticas eleitoralistas (sensivelmente o mesmo que Cavaco faria em 1985). Os governos de Maria de Lurdes Pintassilgo, Mota Pinto e Nobre da Costa foram períodos da mais pura e inadulterada confusão política e económica. Por culpas próprias e inevitabilidades dos tempos conturbados que se viviam, os primeiros governos de Mário Soares (em 1978, com apoio parlamentar do CDS), conduziram o país ao limiar da bancarrota. Com os governos de Pinheiro de Azevedo, Vasco Gonçalves e Adelino da Palma Carlos não vale a pena perder tempo, até porque o meu cérebro extenuado foi ficando cada vez mais extenuado, encontrando-se agora tão lento como um computador de 1995 tentando correr o Windows 8. Ou se calhar o Vista. Ou o cérebro de António Guterres tentando calcular uma percentagem do PIB.

 

Primamos a tecla » de modo a fazer avanço rápido até ao presente e sejamos claros: como tanta gente afirma com admirável convicção, o governo actual é péssimo. Honestamente: péssimo. Usa e abusa dos aumentos de impostos, garante o que devia saber não poder garantir, adia medidas que não devia adiar, tem ministros que não deviam ser ministros há cerca de um ano e melhor seria nunca o terem sido, permite excepções a regras anunciadas como universais, faz reformas tímidas quando pagaria quase o mesmo preço fazendo reformas a sério, permite, por culpa própria, especulação em torno de processos que deviam ser transparentes, etc, etc. E, contudo, sendo péssimo, numa perspectiva de mérito (ou, se preferirem, da relação esforço desenvolvido / dificuldades encontradas), trata-se provavelmente – e ponderei o que vou escrever durante, sei lá, para cima de cinco segundos – do melhor governo que tivemos nas últimas duas dúzias de anos, quiçá em toda a Terceira República. Por mim, apenas o do Bloco Central e o primeiro da AD podem disputar-lhe o lugar. Os restantes ou foram catastróficos ou governaram em tempo de vacas gordas sem pensar no futuro – e assim é fácil. Apesar de todos os seus erros – muitos, enormes –, este é o único desde há décadas que se encontra verdadeiramente a procurar corrigir o modelo de funcionamento da economia portuguesa no sentido da sustentabilidade. Coisa de somenos, está bem de ver, destinada, como a história do pós-25 de Abril amplamente demonstra, ao mais tonitruante aplauso público e retumbante sucesso.

 

Mas, na realidade, nem precisamos de ficar pelo 25 de Abril. Atendendo a que os governos imediatamente anteriores ao dito também não eram recomendáveis, para encontrar melhor (ou menos mau) teremos de recuar até... até... credo, é demasiado deprimente pensar nisso. Tal como constatar quão repletas de nada as alternativas permanecem, incluam ou não esse estandarte da boa gestão da coisa pública (é o que ouço dizer) chamado António Costa, devidamente acolitado pelos saudosistas do grande flâneur dos boulevards parisienses.

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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2013
por jaa | 29.01.13 | 1 denúncia(s) | favorito

Cuide da saúde. Escolha os transportes públicos e ande a pé.

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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013
por jaa | 28.01.13 | favorito

As soluções de Miguel Relvas eram péssimas. A solução de Paulo Portas mantém o status quo. Parabéns a ambos.

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por jaa | 28.01.13 | 2 denúncia(s) | favorito

No emprego, enviam-me uma mensagem de correio electrónico com a informação de que algo é "mentira" (assim mesmo, com aspas).

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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013
por jaa | 10.01.13 | 16 denúncia(s) | favorito

1. Em finais de 2010, no primeiro orçamento que o parlamento irlandês aprovou depois de recorrer a auxílio externo, previa-se um esforço de equilíbrio das contas públicas de 6 mil milhões de euros, dos quais cerca de 3,9 mil milhões de euros eram cortes na despesa e, destes, cerca de 2 mil milhões eram cortes em salários e pensões. Por lá (onde, em 2007, antes da crise financeira, os gastos do Estado representavam 36,4% do PIB, contra 44,4% neste cantinho soalheiro), parece que é constitucional fazer coisas destas. A economia irlandesa, ajudada pelas exportações (por sua vez ajudadas pela taxa de IRC de 12,5% e, presumo, por sistemas de Justiça e burocracia menos kafkianos), já está a crescer desde 2011 (apenas cerca de 0,5% em 2012 but still). Se a economia europeia não atrapalhar, a taxa de desemprego (na ordem dos 14%) deverá começar a descer este ano.

 

2. Tipicamente, em Portugal as coisas são menos claras e demora-se muuuuuuuuito mais tempo a discuti-las. Apesar disso, no que respeita à Constituição, estamos perto de eliminar quase todas as dúvidas. Se fazer o esforço de correcção dos desequilíbrios do Estado recair algo mais sobre funcionários do próprio Estado e cortar pensões de reforma acima de 1350 euros por mês forem medidas inconstitucionais, restará apenas saber se ela foi elaborada por irresponsáveis ou tem precisamente por objectivo acautelar os interesses instalados em vez do interesse geral.

 

3. Se o chumbo acontecer, e ao contrário do que se ouve e lê por aí, o governo não necessitará de um plano B. Considerando que o A foi chumbado em 2012 pelo mesmo tribunal e que depois existiu a tentativa de reduzir a taxa social única, estaremos no mínimo perante a necessidade de um plano D. O que faz com que aquelas proclamações bombásticas sobre o governo estar a seguir um programa ideológico maquiavélico e bem definido só possam ser tentativas de humor. Quando muito, não constituísse a frase um oximoro, é maquiavélico porque não está bem definido.

 

4. Entretanto, em nota acessória a que não resisto, volta a ser enternecedor observar como tantas pessoas parecem acreditar que a decisão de um tribunal pode fazer a austeridade desaparecer.

 

5. Evidentemente, não fará. Evidentemente também, a grande questão é: se as medidas forem chumbadas, o que se passa a seguir? Bom, as taxas do IRS ainda estão longe dos 100% e há outras medidas que talvez sejam constitucionais: cortar a totalidade dos subsídios a todos os trabalhadores e parte das pensões a todos os pensionistas, reduzir comparticipações e períodos de apoio, reforçar co-pagamentos, etc. Mais ou menos a receita proposta no famigerado – e óbvio – relatório do FMI. Quem corta 4 mil milhões, corta 5 ou 5,5.

 

6. Pode ainda – se for constitucional, claro; nem a realidade é mais importante do que isso – despedir-se umas (muitas) dezenas de milhares de pessoas na função pública e respectivos anexos. Por exemplo, diminuir as Forças Armadas para, vá lá, trezentos humanos, dois cães, um carro de combate, um furgão de transporte de tropas (um camião seria exagero), um F16 e um Alouette, um barco a remos e, por motivos sentimentais (e quiçá constitucionais) o navio-escola Sagres, vendendo-se o restante equipamento a uma ditadura simpática (a quanto estará o quilo de submarino?).

 

7. E enquanto nos entretemos com estas fascinantes questões, só possíveis num país com uma Constituição demasiado perfeita (afinal, como quase todas as nossas leis), a incerteza faz a economia definhar: ninguém, nas escolas, hospitais, câmaras e museus, mas também nas empresas privadas, sabe que dinheiro terá disponível dentro de meses – ou semanas. Não importa: demora-se o tempo que for preciso e, revelando-se necessário, abraçados ao estandarte dos direitos adquiridos e da putativa igualdade entre sector público e privado, afundar-nos-emos todos juntos. (Enfim, se cortar pensões acima de 1350 euros por mês for inconstitucional, todos constituirá exagero.)

 

8. Porque – e, para apreciadores de humor negro, isto é verdadeiramente divertido – inconstitucionalidade a inconstitucionalidade, as hipóteses de sobrevivência deste Estado pesado e corroído por interesses, onde o governo mexeu até agora tão pouco que só pode concluir-se estar a tentar protegê-lo, vão diminuindo.

 

9. O que faz com que, em simultâneo, se vá delineando uma luta de classes paralela à tradicional (aquela entre pobres e ricos, com a burguesia – hoje conhecida por classe média – a servir de tampão): entre os que geram dinheiro e os que, sendo ricos ou remediados à custa do Estado, dele usufruem. Decorre de uma visão simplista e com uma pitada de maniqueísmo mas, nestes processos, tal é a modos que inevitável. Por exemplo, um maquinista da CP confessava há dias numa reportagem televisiva estar ciente de ser odiado. Pois.

 

10. Finalmente, e de modo a arredondar o número de pontos deste texto, já referi que a economia irlandesa está a crescer desde 2011?

 

Dados relativos à economia irlandesa:

FMI, World Economic Outlook, Outubro de 2012.
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por Pedro Correia | 10.01.13 | 15 denúncia(s) | favorito

«Pela primeira vez na nossa História a fasquia dos 100 mil nascimentos/ano não foi este ano atingida. Ficámo-nos pelos 90.206, o que representa um decréscimo alarmante. Além de ser o pior da Europa, Portugal é um dos três ou quatro países piores do mundo em taxa de natalidade (1,2 filhos por mulher, sendo a taxa de reposição geracional de 2,1). O último ano em que houve substituição de gerações foi em 1982 (já lá vão 30 anos).»

Carlos Peixoto, no i

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por Ana Lima | 10.01.13 | 44 denúncia(s) | favorito

Confesso que quando vi este vídeo pensei: é a Samsung a experimentar uma via alternativa de publicidade. Assim como quem diz: isto vai correr pelas redes sociais que nem água a jorrar de uma represa em período de cheia (se assim for, este post, mostra que a estratégia foi bem sucedida). Mas, pensando melhor, pode ser uma jogada muito arriscada. É que poderá haver quem não queira ter um equipamento de uma marca associada a um vídeo deste calibre.

Também pode acontecer tratar-se de uma actriz paga para fazer uma rábula e, nesse caso, há que dar os parabéns porque nos põe realmente bem dispostos.

Mas já me passou pela cabeça, num pensamento que tento afastar a todo o custo, que esta rapariga existe mesmo, que tem "uma voz"; que acabou, com alívio, a sua tese faz agora um ano; que está a trabalhar o que, coitada, lhe rouba algum tempo mas que lhe permite juntar dinheiro para concretizar um dos seus grandes desejos para 2013: "ter uma daquelas malas clássicas que ficam bem com tudo" e que são "uma conquista". Não pensemos, no entanto, que os desejos desta jovem são todos deste grau de importância. Não. Para equilibrar, também estão na lista a felicidade e o amor o que a ajudará a "fazer mais coisas... ter mais experiências".

À medida que escrevo penso: mas afinal, com tantos exemplos de pessoas, naquele grupo de idade, que lutam diariamente para sobreviver no nosso país qual é o problema de existirem jovens, como esta, que irradiam bem estar, sucesso e auto-estima? É verdade que outros há que, com o seu esforço, atingem metas importantes, pessoais ou que se reflectem positivamente na vida de outros. Estarei a ser preconceituosa? Talvez. Mas a verdade é que, neste caso concreto, estou desejosa que me digam que o guião foi escrito por alguém das Produções Fictícias e que a Filipa não existe mesmo. Não existe, pois não?

 

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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013
por José Navarro de Andrade | 09.01.13 | 1 denúncia(s) | favorito

Alfredo Cunha 

 

 Alfredo Cunha


Nuno Calvet, 1984


Augusto Alves da Silva, "Ferrari", 1999  

 

Manuel Roberto, 2004  

 

Lara Jacinto, 2012
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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012
por Laura Ramos | 27.12.12 | 20 denúncia(s) | favorito

- Boa tarde. Candidatou-se a uma oportunidade de trabalho neste serviço público. Lemos o seu CV e concluímos que possui as habilitações necessárias ao desempenho do cargo que temos necessidade absoluta de preencher. Está interessada?

- Sim, porque estou desempregada. Tenho trabalhado como operadora de lojas de vestuário e acessórios; angariadora de contratos de adesão ao Dreamcard em centros comerciais; e ultimamente como operadora de caixa no hipermercado Universal.

(muitas queixas)

- Está, portanto, habituada às funções de atendimento ao público. Não terá dificuldade em lidar com várias centenas de pessoas que se dirigirão a este espaço para consultar bibliografia especializada. Trata-se da sala de leitura da nossa biblioteca.

- Sim, seria uma experiência óptima. Gosto muito de livros e trabalharia sentada, a sala é muito acolhedora, tem muita luz, computadores… E o horário?

- Normal, das 9 às 5 e meia, salvo alguma necessidade especial.

- O contrato é o modelo habitual do Instituto de Emprego? Um ano, prorrogável por mais 6 meses?

- Exactamente. Terá é de começar a trabalhar já amanhã, uma vez que é o último dia útil do ano civil e a prestação tem obrigatoriamente de iniciar-se em 2012. Depois só voltará ao serviço no dia 2 de Janeiro.

- Ai, isso é que não pode ser. Tenho uma viagem marcada.

(o júri entreolha-se, aturdido)

- Pois, entendo. Por nós não haveria problema algum, mas a questão é que a sua não integração até ao dia 31 de Dezembro invalidará todo o processo. Teremos de voltar à estaca zero. Novo cabimento prévio, nova candidatura a esta Medida, nova abertura de vaga, novas audições. Provavelmente nem voltará a ser seleccionada, como compreende.

- Pois. Mas eu tenho esta viagem.

- Para o estrangeiro?

- Não, mas já está paga.

- Claro, compreendemos o prejuízo. Mas perceba que estas regras são impositivas e compreensíveis. A sua aceitação só nos chegou há 3 dias. E nós temos absoluta necessidade de admitir uma pessoa. Tem consciência de qua sua não disponibilidade a fará perder uma oportunidade de trabalho durante, provavelmente, os próximos meses? E de que nós próprios corremos o risco de deixar de garantir o modelo de funcionamento deste espaço público, que deve estar aberto durante 9 horas diárias?

- Tenho. Mas não dá mesmo.

- Pense bem, Maria das Dores.

- Não posso. Tenho esta viagem.

(segue-se uma acta peculiar. Ou o que nos calha em sorte).

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Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2012
por Luís Menezes Leitão | 24.12.12 | 5 denúncia(s) | favorito

Este caso é um sintoma do estado do nosso país. Quando nos anos 60 Portugal travava uma guerra colonial sem sentido, o regime dizia que não tínhamos outra alternativa e que o mundo acabaria por nos dar razão. O mundo, porém, deixava-nos completamente isolados. Precisamente por isso quando houve uns pândegos que se resolveram mascarar de sheiks árabes em visita ao país foram recebidos pelas mais altas instâncias nacionais e objecto de grande cobertura mediática. Depois o país descobriu estupefacto que tudo não passava de uma brincadeira e que os verdadeiros árabes não nos ligavam absolutamente nenhuma.

 

Hoje o país trava igualmente uma guerra perdida, sendo que os resultados do combate ao défice que são anunciados correspondem a derrotas sucessivas. Mas mesmo assim o Governo prossegue inabalável até ao colapso final. O país sonhava por isso que aparecesse alguém com credibilidade internacional a chamar a atenção do Governo para os riscos em que estava a colocar o país e o sofrimento que causava às pessoas. E nestes casos há sempre alguém disposto a aproveitar a oportunidade, bastando invocar uma qualquer pertença internacional, que os indígenas acolhem-no veneradamente. Para isso as Nações Unidas eram o organismo ideal. Assim, se alguém aparecesse a dizer que vinha da ONU a avisar da preocupação do organismo com o estado do país, naturalmente que teria tempo de antena e exigir-se-ia que o Governo o ouvisse. E se ele dissesse que tinha uma tropa de capacetes azuis pronta a invadir Portugal para pôr o Governo na ordem, continuariam a dar-lhe o mesmo crédito.

 

Como nos anos 60, o país acaba assim a descobrir que as Nações Unidas também não ligam nada a Portugal e que o país vai afundar-se completamente sozinho. O que é grave é que esta credulidade é um péssimo sintoma do actual estado dos portugueses.

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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012
por Luís Menezes Leitão | 21.12.12 | 4 denúncia(s) | favorito

 

Se há algo que achava impensável assistir neste país era a que nuestros hermanos do país vizinho dissessem que o nosso Governo está a vender Portugal. Mas para piorar tudo isto, essa venda está a ser feita a pataco, por tuta e meia, com o Conselho de Ministros a pedir dinheiro ao potencial comprador logo na sua própria reunião. Neste momento, empresas públicas portugueses de longa tradição, como a TAP e a ANA, vendem-se como se fossem produtos da feira do relógio. Será possível termos descido tão baixo?

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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012
por jaa | 17.12.12 | 5 denúncia(s) | favorito

s. m. (plural)

Pessoas que iam salvar o país (talvez o mundo) e que, depois de conseguirem apenas afundá-lo, insistem ainda saber como o fazer.

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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012
por jaa | 06.12.12 | 1 denúncia(s) | favorito

Dezassete meses após a tomada de posse do governo, o (mui tímido) projecto de lei da redefinição do mapa autárquico é discutido hoje no Parlamento. Já as mudanças na RTP parecem ter hibernado com a chegada do frio. Torna-se, pois, oficial: Miguel Relvas demora mais tempo a implementar as reformas que tem a seu cargo do que demorou a licenciar-se. Mas os efeitos práticos deverão ser os mesmos: simbólicos, acima de tudo.

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Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2012
por José Navarro de Andrade | 05.12.12 | 12 denúncia(s) | favorito

 

No domingo passado pinguepongueva na raia, ora sobre Espanha, ora em céu português, um desses teco-tecos rotativos e fumacentos, só de uma hélice. Seria droga? Face à horrenda violação da nossa soberania espacial, a Força Aérea de Portugal, na ânsia de juntar mais uma medalha ao seu vastíssimo historial de proezas, sem ligar a despesas ou proporções, mandou dois caças F-16 interceptarem o prevaricador. Isto, para leigos, foi como enviar dois Ferraris cuja embraiagem não permitisse uma velocidade inferior a 100kms/h, em perseguição de uma Famel-Zundapp. Resultado: ninguém sabe da avioneta. Valeu o passeio, o teste ao material e as horas de vôo averbadas na caderneta dos pilotos. Força Portugal!

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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012
por José Navarro de Andrade | 04.12.12 | 7 denúncia(s) | favorito

Tom Stoddard, "Sarajevo"

 

Descuidei-me e li o texto da Gui. Já ia a meio quando quis voltar para trás, mas foi como os desastres de automóvel, a partir de um determinado ponto não há como não ir até ao fim. Creio que durante essas fracções de segundo, menos do que a vida a desfilar na nossa mente, é a vida que tivemos e estamos a instantes de perder que recordamos já com nostalgia. Isto de uma pessoa ver-se ao espelho de outra é deixar de ser dona de si, é olhar demasiado para a frente em vez de ir vendo onde põe os pés, este aqui, o outro a seguir, a única maneira de caminhar pelo mato, onde desapareceram os rastos – está aí alguém?

Daqui a um ano contaremos as cabeças e logo se verá quantas almas escaparam do inferno. Há cinco anos esperava outra coisa disto, o vento enchia as velas e a prudência serviu-me de pouco. Pode ser pior? Espera pelo dia de amanhã e logo verás quanto pode.

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Sábado, 1 de Dezembro de 2012
por Pedro Correia | 01.12.12 | 2 denúncia(s) | favorito

 

«A pátria, em momentos difíceis, descobre-se que existe.»

Vergílio Ferreira, Conta Corrente, 2 (1º de Dezembro de 1978)

 

Voltaremos a celebrar o 1º de Dezembro (com nome de mês maiúsculo) como feriado nacional. Tal como o 5 de Outubro, aliás. Porque a identidade dos povos impõe a evocação cíclica de símbolos que se perpetuam através da rotação das gerações. E é feita de datas inapagáveis, que não se vergam ao sabor episódico das circunstâncias. E também porque as nações podem sofrer inúmeros dissabores, mas não mudam de pele.

 

Quadro: Aclamação de D. João IV, de Veloso Salgado

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Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012
por jaa | 29.11.12 | 10 denúncia(s) | favorito

Parece que chegámos finalmente ao ponto em que a realidade está prestes a embater na Constituição. Mas talvez a realidade se desvie. Aliás, esperemos que sim porque já se percebeu que a Constituição não o fará; a Constituição é um obstáculo imóvel.

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Terça-feira, 27 de Novembro de 2012
por jaa | 27.11.12 | 6 denúncia(s) | favorito

Panfleto distribuído à entrada de espectáculos incluídos no programa de Guimarães 2012. Desconheço se o conteúdo tem razão de ser mas não me custa a acreditar que sim. Este tipo de projectos é propenso a megalomanias em que as considerações económicas são detalhes mundanos e irritantes, afastados com garantias de ganhos significativos mas nunca directamente contabilizáveis. Os benefícios de «imagem», a criação de «hábitos», o desenvolvimento de uma «indústria cultural» e mais uma catrefada de chavões vencem sempre o cepticismo. No fundo, tudo não passa de um afinal provinciano desejo de parecer culto e inteligente; tão provinciano que acaba invariavelmente misturado com a satisfação de interesses particulares – pois se artistas «menores» e colaboradores diversos correm o risco de não serem pagos, as «mentes» organizadoras, os seus amigos e os artistas consagrados nunca têm razões de queixa. Claro que muitas vezes também é bem feito para os tais artistas menores, que vêem nestas feiras de vaidades uma oportunidade para se «afirmarem» e ganharem muito dinheiro de repente, à custa do erário público. Mas talvez o mais curioso seja que, depois, valeu sempre a pena, foi sempre um sucesso retumbante. Com o lixo empurrado para debaixo do tapete, as críticas desvanecidas pelo tempo e pelo cansaço, e as contas pagas pelo contribuinte. Cultura? Provincianismo puro.

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