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O pior de dois mundos

por José António Abreu, em 27.11.14

José Sócrates foi o pior primeiro-ministro da terceira república e um dos três políticos portugueses mais importantes das últimas três décadas e meia (estou a recuar apenas até à morte de Sá Carneiro mas provavelmente poderia ir até 1974). Conseguiu-o unindo as piores características dos outros dois: Cavaco Silva e Mário Soares.

 

Como tem sido abundantemente referido, Cavaco lançou o modelo económico baseado em investimento público em infra-estruturas, desinteresse pelo sector de bens transaccionáveis, sistema de ensino mais baseado na massificação do acesso do que na qualidade, sector público cada vez maior e mais difícil de controlar. Mas Cavaco ainda pode apresentar uma desculpa: em 1985, quando chegou ao poder, Portugal era muito diferente. Justificava-se algum investimento em obras públicas, para mais quando estavam disponíveis fundos comunitários para o efeito (poucos se lembrarão mas não existia sequer uma auto-estrada completa entre Lisboa e Porto). Justificava-se claramente a reforma do sistema fiscal (uma alteração que queda esquecida, nesta época em que não convém dizer bem de Cavaco). Justificava-se a tentativa de abrir o sistema de ensino ao maior número de alunos possível, após décadas de salazarismo, ainda que fazê-lo demasiado depressa acarretasse riscos – comprovados – de quebra na qualidade. Apesar de ter sido feita por motivos eleitoralistas, justificava-se em parte a reforma do sistema retributivo da Função Pública, muito mal paga durante o salazarismo (e, sim, um país evoluído necessita de uma boa Função Pública, o que implica salários convenientes). O grande problema dos governos de Cavaco (em especial dos maioritários, em especial do segundo) foi o descontrolo em que se entrou – e (um ponto indesculpável) o desprezo a que foi votado o sector de bens transaccionáveis, com o desmantelamento forçado (começo a soar como o PC mas, de longe a longe, serve como purgante) da capacidade instalada em vários sectores, entre os quais a agricultura (hoje em crescimento). Mas, se Cavaco lançou o modelo, ninguém depois dele foi capaz de o ir corrigindo à medida das necessidades. O sector público, pejado de corporações, tornou-se demasiado forte; os empresários do regime, muitos dos quais ligados à construção civil e à banca, manobraram para que os dinheiros públicos continuassem a fluir na sua direcção; a baixa de juros conseguida com a introdução do euro iludiu toda a gente, gerando níveis insustentáveis de endividamento, potenciados durante longo tempo pelo Estado através de bonificações ao crédito e benesses em sede de impostos sobre os rendimentos. Quando Durão Barroso afirmou que o país estava «de tanga» e urgia tomar medidas desagradáveis, todos lhe caíram em cima – da comunicação social a Jorge Sampaio, passando por um Partido Socialista que saíra do poder com referências ao «pântano» mas as esqueceu de imediato para tombar no populismo e na demagogia habituais. E depois veio Sócrates. E foi então que o modelo a que Cavaco entretanto descobrira as falhas atingiu o esplendor máximo, em particular após a crise financeira internacional abrir portas à versão de que era urgente estimular a economia, devendo o controlo do défice ser preocupação para mais tarde (foi-o e todos sabemos com que consequências).

 

A influência de Mário Soares no período Sócrates é mais subtil mas ainda mais perniciosa. Soares, que sempre se moveu numa esfera de inimputabilidade, representa uma maneira de ser (talvez mais do que «agir») bastante disseminada na sociedade portuguesa, assente em grupos de amizade e troca de favores. Mais do que o socialismo, a ideologia de Mário Soares é o bem-estar pessoal e dos seus próximos. Daí não ter tido quaisquer problemas em, enquanto primeiro-ministro, implementar medidas do FMI similares às que nos últimos anos criticou. Daí nunca ter mostrado reticências em dar preferência a pessoas e organizações fora do quadrante ideológico a que presumivelmente pertence – pense-se em Savimbi e na UNITA. Soares move-se num mundo onde os que estão do lado dele são intrinsecamente bons e não merecem sujeitar-se às minudências das regras – ou mesmo (veja-se Craxi ou as declarações actuais sobre a detenção de Sócrates) das leis. Move-se também num mundo cosmopolita, de ideias e frases (feitas) grandiosas. É um bon vivant. Embora consiga mostrar-se à vontade entre o «povo» (num registo apenas ocasionalmente manchado por uma certa condescendência), aprecia dar-se com pessoas importantes e faz questão de que se saiba que o faz (mon ami Mitterrand). Muitos já o afirmaram: mais do que as diferenças políticas (durante muito tempo, tão ligeiras quanto as diferenças entre o estilo de governação tradicional dos governos do PS e do PSD), foi esta faceta que o afastou de Cavaco. Para Soares, Cavaco era – e é – plebeu, inculto, grosseiro (relembre-se a famosa fatia de bolo-rei). Nada como Soares, como os seus amigos socialistas ou mesmo como os líderes anteriores do PSD. E, no entanto, carregado com todos estes defeitos, vindo de fora do sistema (Cavaco afirma frequentemente não ser um político, o que é quase verdade quando o seu percurso é comparado ao de Soares), Cavaco retirou Soares e os seus do poder, conseguindo a então quase mítica maioria absoluta. Imperdoável. Anos mais tarde, para tentar impedir Cavaco de chegar a Belém, Soares incompatibilizar-se-ia mesmo com um velho amigo, Manuel Alegre, sofrendo a sua mais estrondosa derrota política (como deve ter doído a um homem que cruzou armas com – e venceu, apesar de pelo menos num dos casos tal ter sucedido por falta de comparência – políticos da estirpe de Álvaro Cunhal e Sá Carneiro). Hoje, quando a idade já não lhe permite alinhavar as ideias de forma a criar uma versão inteiramente coerente e pessoalmente vantajosa de acontecimentos que lhe desagradam (algo em que Sócrates é mestre), alguns acusam Soares de senilidade. Não nos conceitos por trás do discurso. Os conceitos são os de sempre: ele e aqueles que lhe agradam são impolutos e, acima de tudo, intocáveis.

 

José Sócrates constitui a pior amálgama possível das características dos dois – e, por conseguinte, o pináculo dos piores defeitos nacionais. De Cavaco, herdou a tendência autoritária (que, no fundo, embora em registo soft, Soares também possui), levando-a muito para além do que deveria ser politicamente (e talvez criminalmente) aceitável. Em ambos, vislumbra-se a sombra de um Salazar que ainda há não muitos anos foi eleito o maior português do século XX. Terem sido os únicos a conseguir maiorias absolutas para os seus partidos é sinal revelador da necessidade de pastoreio que os portugueses continuam a sentir. Sócrates herdou também de Cavaco a tendência para meter o Estado em todos os recantos da actividade económica e não vale a pena pretender que, num caso como no outro, isso não originou corrupção. Mas Cavaco tinha – ou parecia ter – mais um ponto em comum com Salazar: a frugalidade. Esta é uma característica que Sócrates, crescido no país novo-rico que as políticas de Cavaco originaram, claramente dispensa. Pelo contrário: como Soares, Sócrates quer viver da forma a que julga ter direito. Quer dar-se com pessoas importantes (à falta de Mitterrand, arranjam-se Chávez e Kadhafi), vestir e comer bem, ser olhado com admiração (uma diferença substancial em relação a Soares – e Cavaco: confunde admiração com temor ou, pior, até gosta de ser temido). Quer decidir, conceder favores, controlar tudo. São estes factores, e não convicções ideológicas, que o levam a aumentar o papel do Estado na Economia (um Estado grande faz com que Sócrates seja mais necessário, mais bajulado – em suma, mais poderoso) e também às manobras para controlar a comunicação social. Está no centro de um grupo de «amigos» (talvez sem aspas, não sei) que surgem em inúmeros negócios com o Estado ou controlam neste posições-chave. Atira meia dúzia de ossos à esquerda (as «causas fracturantes») e mantém um discurso de defesa do Estado Social enquanto gere o interesse público com os amigos e em função deles. (Cavaco também teve um círculo de amigos de carácter duvidoso mas nunca pareceu privilegiá-los, pelo menos durante o tempo em que exerceu funções públicas – a dada altura, até parecia farto deles.) Apanhado na teia de vários escândalos, escapa às questões da Justiça, onde alguns dos referidos amigos ocupam posição de poder, e responde às da comunicação social com a assinalável capacidade para, independentemente do teor das perguntas, repetir ad nauseum e em tom ultrajado meia dúzia de frases feitas. Estávamos nos tempos em que a comunicação social já era abjecta (enfim, alguma comunicação social, que outra, por convicção, interesse ou medo, continuava a apoiá-lo) mas em que a Justiça, dispensando-o das explicações (até poderia estar inocente mas a acumulação de indícios era excessiva para tamanha indiferença), decidia bem. Hoje, que lhas pediu, a Justiça é um antro de conspiradores. Dizem-no os seus amigos. Di-lo o seu mais dilecto pai espiritual, Mário Soares. Estão todos certos. Gente superior não merece tal tratamento. Merece passar por entre as gotas da chuva - e ser aplaudida, em vez de questionada, por tão fabulosa capacidade.

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Terrenos legítimos

por José António Abreu, em 24.11.14

É verdade que a detenção de José Sócrates causa problemas a António Costa, um homem que o acompanhou desde o início e que nunca se demarcou das suas políticas. Mas abre também caminho para que qualquer menção ao seu legado político seja enfrentada com acusações escandalizadas de mistura entre os planos político e judicial. Que fique então claro: seja Sócrates formalmente acusado ou não, a sua acção política - e o papel de Costa nela - será sempre terreno legítimo de combate político. Mais ainda: será sempre legítimo discutir se um Estado metido em tudo o que mexe, como o que - dos Magalhães e da PT à construção civil - ele implementou e Costa parece defender, gera ou não riscos acrescidos de corrupção.

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Aguardemos com calma, pois então

por José António Abreu, em 23.11.14

Não deixa de ser curioso reparar na prudência com que a esquerda à esquerda do PS comenta a detenção de Sócrates. Seria certamente diferente se estivéssemos perante um ex-ministro do PSD ou do CDS. E nem mencionemos aqueles humanos para quem o ónus da prova parece inverter-se: empresários de forma geral, banqueiros em particular.

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Continua a campanha de promoção externa de Portugal

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.11.14

El ex primer ministro socialista de Portugal, José Sócrates, fue detenido hoy por su presunta vinculación con un caso sobre fraude fiscal, blanqueo de capitales y corrupción. - El Pais

Sócrates fue arrestado, sobre las 23.10 horas, a su llegada al aeropuerto de Lisboa en un vuelo procedente de París, según informan los medios lusos. - El Mundo

 M. Socrates fait partie d'un groupe de quatre personnes interpellées au cours des derniers jours, dont trois ont été présentées au juge vendredi, indique le ministère public dans un communiqué. - La Libre.be

L'enquête porte sur des opérations bancaires et des transfers d´argent d´origine inconnue, et n'a pas lien avec l'opération Monte Branco, un coup de filet qui avait entraîné l'arrestation en juillet de l'ancien PDG de la banque Espirito Santo (BES), Ricardo Salgado. - Le Monde

Efforts to contact Socrates through the Socialist Party’s Lisbon press office outside of regular business hours were unsuccessful. No personal telephone number is publicly listed for him.- Bloomberg

Portugal's former Socialist prime minister Jose Socrates was arrested on Friday as part of an inquiry into tax fraud, corruption and money laundering, the public prosecutor's office announced - Strait Times

The news of Socrates' arrest comes hard on the heels of another scandal which cost Portugal's Interior Minister Miguel Macedo his job on Sunday. Macedo resigned after several senior government officials were arrested as part of a probe into money laundering and influence peddling around so-called "golden visas". - Channel News Asia

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Nova campanha de promoção de Portugal no estrangeiro

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.11.14

"No government members are suspected of any involvement, the attorney general’s office said in a statement. But the case is nevertheless a deep embarrassment for Prime Minister Pedro Passos Coelho, whose government had trumpeted the golden visas as a resounding success. The scheme has now cost him a key minister less than a year before a general election, while Mr Portas has agreed to be questioned on the issue by a parliamentary committee. The investigation comes only months after the collapse of the Espírito Santo business empire in one of Europe’s biggest financial failures for years."

 

"The police have arrested several high-ranking officials, including the head of the country’s immigration and border service, under the investigation. Searches were carried out last week at several locations, including the interior ministry."

 

"The detentions are a blow to the centre-right government, which has promoted its "golden visa" scheme as the most successful in Europe."

 

"Police arrested the head of Portugal's immigration and border service as part of an investigation into corruption linked to the issuing of so-called "golden visas" to wealthy foreign investors."

 

"An investigation into alleged corruption linked to the issuing of so-called “golden visas” to wealthy foreigners in Portugal has claimed another scalp."

 

Alguém vai ter de conter este estrondoso sucesso internacional do programa dos "golden visa". Nunca tão poucos criaram tanto emprego, captaram tanto investimento produtivo e dinamizaram a economia em tão pouco tempo e sem recursos. Estão todos de parabéns.

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Indiferença

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.11.14

Tirando os habituais comentários e os textos indignados de meia dúzia de articulistas encartados, o que torna tudo mais real e ao mesmo tempo assustador é a indiferença com que tudo isto é visto pelo cidadão comum. Como algo normal e corriqueiro. Porque o pagamento de comissões, a troca de favores, a agilização de procedimentos e a facilitação de negócios duvidosos está institucionalizada. Como se não houvesse vida depois de amanhã. Como se esta pessegada dos "vistos gold", patrocinada pelo Presidente da República e o Governo, fosse uma coisa normal num Estado de direito respeitável. Como se o significado da diplomacia económica fosse vender apartamentos de cento e tal mil euros por mais de quinhentos mil e repartir o remanescente em comissões entre portugueses e intermediários chineses. Como se isto fosse uma actividade respeitável. Como se pudesse haver seriedade no limbo. Como se o trigo e o joio se tivessem por milagre reunido para constituírem a nossa natureza. Como se mil milhões, dos quais seguramente trinta a quarenta por cento foram para o pagamento de "comissões", valessem o escândalo, a imagem de abandalhamento que fica das instituições, a credibilidade e a reputação do Estado. Como se tudo isto fossem coisas menores.

 

De um povo de indiferentes resignados só se pode esperar a indiferença. A moleza. É este o preço que andamos a pagar há décadas enquanto nos acenam com a esperança. E que vamos continuar a pagar. Com toda a indiferença.

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O que as estatísticas dizem sobre nós

por Ana Lima, em 18.11.14

A mim, que ando diariamente de transportes públicos e que, a partir de Janeiro do próximo ano, não poderei sequer levar as minhas filhas ao médico de carro porque, de acordo com as novas regras de circulação na Zona de Emissões Reduzidas em Lisboa, ele é velho de mais para circular no percurso entre a minha casa e o consultório, há determinadas notícias que me conseguem surpreender. E não é inveja que sinto (pronto, talvez um bocadinho). É mesmo incredulidade.

E cito: "o crescimento do mercado é liderado essencialmente pelos países que passaram por uma situação de resgate financeiro". É como se os portugueses, numa tentativa, frustrada, na minha opinião, de fazerem humor, mostrassem aos seus financiadores externos que estão numa fase de franca recuperação. Mas não é isso mesmo que esses países, produtores dos bens que nós insistimos em comprar, querem que aconteça?

Muitas coisas estão em jogo, sabemos, nomeadamente o facto das empresas portuguesas que vendem para a indústria automóvel também beneficiarem com esta situação. Numa economia global é claro que, num mesmo território, há sempre quem ganhe e quem perca com os comportamentos económicos dos consumidores. 

Mas, perante esta liderança nas vendas de um bem como o automóvel e a situação da maioria das famílias portuguesas, não posso deixar de pensar que é a um espelho que o Zé Povinho faz o seu gesto. No fundo é a chamada re...

Zé Povinho.jpg

 Imagem copiada da net

 

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Números

por José António Abreu, em 18.11.14

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Aproveito o facto de ter mencionado a Finlândia no texto anterior para voltar a esta tabela. Publiquei-a há quase dois anos, acompanhada da frase «se em 2013 o PIB português cair menos de 3% e em 2014 já crescer qualquer coisinha poderemos dar-nos por muito satisfeitos». Sempre achei curioso o post não ter suscitado um único comentário. Pois bem, apesar de tudo, podemos dar-nos por satisfeitos: entre 2011 e 2013 o PIB português caiu cerca de 60% do que caiu o finlandês entre 1991 e 1993 (dados actuais do FMI: -1,3/-3,2/-1,4 contra -6,0/-3,5/-0,8) e caiu igualmente menos do que qualquer dos restantes casos apresentados na tabela. Se é verdade que, no primeiro ano de recuperação, o PIB finlandês cresceu 3,6% e o português deverá crescer aproximadamente 1%, nessa altura a taxa de desemprego na Finlândia ainda andava pelos 16,6% e apenas desceu dos 14% no terceiro ano de crescimento do PIB. Pertencer à União Europeia (esse monstro incapaz de solidariedade a que a Finlândia aderiu logo a seguir) e ao euro (que diminui o ritmo da recuperação mas aumenta as probabilidades de que ela seja sustentável) é de facto trágico.

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PT

por José António Abreu, em 17.11.14

1. Enternece ver tanta gente defendendo o controlo nacional de uma empresa que, na prática, é brasileira - e se tornou brasileira sem grande contestação. Apetece perguntar onde diabo andavam todas estas almas quando a Sonae oferecia dez vezes mais do que a PT vale hoje. Dando vivas a José Sócrates e Ricardo Salgado, evidentemente, enquanto estes manobravam para que Belmiro falhasse a OPA. Dando vivas a um processo que levou à descapitalização da empresa (era preciso convencer os accionistas a não vender), à parceria com uma operadora brasileira de segunda linha (era do «interesse nacional» que a PT mantivesse presença no Brasil), ao aprofundamento da promiscuidade entre a PT e o GES (o resultado da OPA deixou não apenas claro quem mandava como que o fazia com bênção do governo), à fragilidade da situação actual. A PT (Passos Coelho tem toda a razão) constitui o paradigma do que se obtém quando um Estado controlador e incompetente (por cá, um pleonasmo) decide meter-se onde não devia, em nome de um difuso «interesse nacional» que, na prática, se consubstancia em assegurar lugares para boys apreciadores de robalos. No final da década de 90, após a crise financeira que atingiu os países nórdicos, 60 % das instituições financeiras finlandesas passara para mãos estrangeiras. Ainda recentemente, a divisão de telemóveis da Nokia foi vendida à Microsoft. Por cá, grita-se escândalo sempre que qualquer empresa de capitais nacionais com dimensão suficiente para abrir noticiários televisivos 'corre o risco' de ser vendida a estrangeiros (curiosamente, parece que os brasileiros não o são). Os socialistas, coerentes na via como tendem a 'resolver' os problemas (mesmo os que foram criados exactamente pela aplicação dessa via), clamam por intervenção governamental. O professor Marcelo, intocável no posto de populista esclarecido, acha «imperdoável» ter-se prescindido da golden share. A mensagem é clara: as empresas podem ser privadas desde que pertençam a alguém que agrade ao governo. Incorrigíveis. Incapazes de aprender. Economicamente salazarentos. Mas depois estranham a falta de investimento estrangeiro de longo prazo em Portugal.

 

2. Há contudo uma área em que o Estado tem um papel crucial: a garantia da concorrência. Num sector com apenas três grupos fortes, a PT não pode acabar por, abertamente (através de uma fusão) ou de forma enviesada (através de conjugação de estratégias), constituir uma extensão de um dos seus actuais concorrentes.

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Deve Portugal ser um país independente?

por Rui Rocha, em 10.11.14

 

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Ingenuidades

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.11.14

Xanana_2011.jpgPoucos, entre os quais não me incluo, conhecerão objectivamente as razões que ditaram o afastamento dos magistrados portugueses e de um oficial da PSP, creio, que estavam ao serviço em Timor-Leste ao abrigo da cooperação judiciária com aquele Estado. Por isso mesmo, não me abalanço a fazer juízos, nem a retirar conclusões apressadas sobre o que aconteceu. Mas parece-me cristalino que a reacção do Governo de Timor-Leste foi excessiva, ofensiva para Portugal e para a dignidade dos visados. As declarações de Xanana Gusmão, manifestando o seu espanto pela reacção portuguesa, só podem radicar no foro da ingenuidade, o que para um líder da sua estirpe e com a sua experiência será sempre difícil de engolir.

Para quem tem a sua vida organizada e cumpre uma função de interesse público, neste caso do interesse de Timor-Leste, convenhamos que uma ordem de expulsão com a amplitude e consequências daquela que foi tomada, para ser cumprida em 48 horas, e com acusações de incompetência à mistura, não é fácil de digerir.

E inaceitável na perspectiva do relacionamento entre dois Estados soberanos com relações de amizade e cooperação a diversos níveis, partilhando o mesmo património cultural e linguístico.

O primeiro-ministro timorense, pura e simplesmente, esqueceu-se do papel desempenhado por Portugal e pelos portugueses no caminho que foi cumprido desde a invasão indonésia até à proclamação de independência e consolidação do Estado timorense. Dizer que com a declaração de expulsão não se visou Portugal nem os portugueses, sabendo-se que estes seriam os primeiros atingidos, e sem pensar nas consequências, evidencia laivos de hipocrisia. As declarações subsequentes agravam esse sentimento. Deste modo, só posso manifestar a minha compreensão pelas palavras do primeiro-ministro português e aplaudir as declarações da ministra da Justiça sobre esta matéria. República das bananas mas não tanto. Nada de confusões.

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Lucidez

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.11.14

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 "Acontece com os intelectuais o mesmo que acontece com a política: o descrédito (e estou a falar da Europa) em que caíram os políticos europeus e portugueses, e não só, é imenso. As percentagens de abstenção nos actos eleitorais são enormes. Porquê? Porque ultrapassámos aquilo que era normalmente admitido, uma certa taxa de mentira, que é própria do discurso político. E ultrapassámos isso com um descaramento extraordinário. O descaramento passou a ser uma das características do discurso político e em Portugal isso é extraordinário. O chico-espertismo português generalizou-se em Portugal. Isso faz com que a população se afaste cada vez mais e não acredite." - José Gil, numa deliciosa entrevista ao Carlos Morais José, Hoje Macau, 06/11/2014

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Da falta de bom senso ao consenso

por Ana Lima, em 30.10.14

Quando, aqui há uns anos, Lili Caneças pronunciou a frase "estar vivo é o contrário de estar morto", não houve quem não gozasse com tal tirada. Afinal, vemos agora que, para alguns, essa distinção não é assim tão clara. Mas depois de os profissionais do Hospital de Aveiro, durante algum tempo, não saberem se deveriam dar alta, dar baixa ou dar em doidos, parece que o assunto lá se resolveu... 

 

(apesar do post escrito em tom jocoso, esta situação seria tudo menos divertida e, mesmo com as justificações dadas, não se compreende como é que se pode criar uma norma daquelas)

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Injustiçado fui eu...

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.10.14

mario-soares-isaltino-c2d0.jpg... por nunca ter querido usar aventais, recusar ser sacristão em paróquias alheias e fazer questão de pagar os meus charutos e viagens com o produto do meu trabalho.

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Postais de Portugal

por Pedro Correia, em 06.10.14

 

Santa Luzia, sotavento algarvio, 1 de Outubro

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Guincho

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.10.14

 Quando não me lembrar de nada lembrar-me-ei de ti.

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Como ainda não perdi completamente as esperanças de um dia voltar a Portugal, continuo a receber semanalmente as actualizações sobre empregos nas minhas áreas de interesse e, de tempos a tempos, dou uma espreitadela ao que vai sendo publicado em jornais. Uma coisa que vou notando com frequencia é a aversão que os anúncios (ou anunciantes) parecem ter a identificar a empresa ou frequentemente sequer a área de actividade. Nas descrições de anúncios, as funções são igualmente de tal forma vagas que quase qualquer pessoa com as habilitações literárias indicadas se poderia candidatar. Há, por último, um curioso hábito de pedir para posições de chefia experiência em funções semelhantes.

 

Este é o tipo de anúncios que via quando andava a estudar (já lá vão 15-20 anos) e que parecem não ter mudado em Portugal. Estranhamente, as empresas parecem não ter ainda entendido que é do seu interesse anunciar que estão a contratar (sinal de saúde). No caso das descrições de funções ou qualificações, têm uma rede de captação tão grande que irão apenas aumentar o trabalho de triagem de cartas e anúncios (perdendo assim tempo e dinheiro). Por fim, parece ainda não se ter percebido que, alguém que suba dentro de uma empresa a cargos de chefia, dificilmente mudará de empresa (com todas as dificuldades subjacentes) para o mesmo cargo (ou, pelo menos, para um salário semelhante).

 

Estas são lições que vejo aprendidas por toda a Europa. O tecido empresarial português ainda não o parece ter percebido. Também nisto há muito que mudar a nível de mentalidades.

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Marinho e Pinto, pós «barriga de aluguer»

por José António Abreu, em 12.09.14

Não é inesperada mas não deixa de ser irónica, a forma como os mais estridentes críticos das 'jogadas' na política são os seus mais perfeitos executantes.

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E Portugal não diz nada?

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.14

A RAE de Macau atravessa um período de instabilidade política e social, a qual tem tido eco quer na imprensa local e regional, quer na internacional. Em Portugal também não têm faltado algumas notícias, ainda que esporádicas, ao que por aqui se passa. 

Depois das manifestações de Maio e Junho, que trouxeram para as ruas largos milhares de pessoas, até então silenciosas e submissas, por causa da preparação de um diploma que visava atribuir aos actuais governantes, à beira de cessarem funções, e aos que já há muito terminaram, um conjunto de escandalosas benesses de natureza pecuniária e jurídica visando o seu injustificado enriquecimento e protecção, e do despedimento de académicos, pelo menos num dos casos com expressa invocação de razões políticas, a Região volta a ser confrontada com momentos de tensão.

Decorrendo neste momento a "campanha eleitoral" do candidato único à chefia do Executivo da RAEM, traduzida em contactos informais com associações profissionais, culturais, sociais, empresariais, comerciais e industriais, incluindo algumas de matriz portuguesa e genuinamente macaense, onde normalmente sem perguntas o candidato discursa, distribui cumprimentos e faz brindes, pede desculpa pelo que correu mal, promete um mundo maravilhoso e faz pungentes declarações de amor à Pátria e a Macau, o que certamente ninguém esperaria era que, a uma semana do acto eleitoral que entronizará Fernando Chui Sai On para um segundo mandato, as ruas fossem de novo invadidas por manifestantes - trabalhadores dos casinos agrupados na denominada Forefront of Macau Gaming - que reclamam melhores salários e condições de vida dignas, e que Macau voltasse às páginas dos jornais pela repressão ao exercício de direitos de manifestação e de liberdade de expressão política, a ponto de suscitar a apreensão da Amnistia Internacional.

O problema reside agora no facto de três organizações da sociedade civil (Macau Consciência, Juventude Dinâmica e Sociedade Aberta de Macau), politicamente bastante activas e organizadas, terem desencadeado um processo de auscultação da opinião pública para saber se as pessoas têm confiança no Chefe do Executivo e se querem que a próxima escolha seja por sufrágio universal. Deram-lhe, erradamente, o nome de "referendo civil", com o que quiseram imitar um processo idêntico verificado em Hong Kong, no qual participaram quase oitocentas mil pessoas.

Depois de terem visto negada a autorização para o uso de espaços públicos e do Tribunal de Última Instância, prudentemente, se ter colocado à margem da controvérsia, dessa forma evitando comprometer-se e dando uma no cravo e outra na ferradura, iniciaram o processo de recolha de opiniões em diversos locais da via pública, usando "Ipad's", e através de um site na Internet. Os organizadores contam recolher opiniões até às 12h de 31 de Agosto, dia em que ocorrerá a escolha do novo Chefe do Executivo, mas tiveram o cuidado de, desde logo, avisar que o resultado da sua consulta só seria divulgado depois de conhecidos os resultados oficiais.  

A posição das autoridades da RAEM, aliás fazendo eco da opinião que desde a primeira hora foi veiculada pelo porta-voz do Governo, foi no sentido de considerar ilegal o "referendo", dizendo que o mesmo não estava previsto na lei. A partir daí, e a despeito da pouca sensatez política e jurídica dos argumentos, que quanto à sua substância jurídica foram inteligentemente desmontados, entre outros, por António Katchi, nas páginas do Ponto Final, o Governo persistiu na sua posição e no Domingo, 24 de Agosto, primeiro dia do "referendo", procedeu à detenção dos organizadores invocando a recolha "ilegal" de dados pessoais e a prática de crimes de desobediência qualificada, argumentos a que também já foi dada resposta.

Se neste processo os organizadores da consulta não estiveram bem na estratégia utilizada - politicamente criticável pela sua ingenuidade, discurso utilizado e persistência num discurso que servia os interesses das autoridades locais -, cuja primeira atitude deveria ter sido a alteração do nome da consulta de referendo para sondagem logo que as críticas dos sectores pró-governamentais e do próprio Governo surgiram, certo é que o Governo da RAEM tem reagido mal e de forma desproporcionada ao que está acontecer. Ao dar ao assunto a importância que aquele não tem, o Governo da RAEM conferiu-lhe escusada projecção e dimensão internacional, transmitindo uma imagem de grande insegurança na sua actuação, de falta de estratégia política e de confiança na acção do sistema judicial, deixando escapar de forma expressa - porque implícita sempre esteve presente - a ideia de manipulação da Administração Pública e das forças policiais, bem como de incapacidade para lidar com a crítica e a liberdade de expressão.

É evidente que a recolha de dados pessoais para um fim específico e autorizada pelos próprios, cidadãos maiores, politicamente responsáveis e conscientes, como seja a identificação ou o número do respectivo documento de identificação, como é normal em qualquer país democrático para subscrição de petições públicas ou até para participação em sorteios ou recebimento de ofertas promocionais de empresas comerciais, não se confunde com a recolha não autorizada, escondida e à revelia dos visados dos seus dados pessoais para criação de bases de dados para utilização duvidosa, que aqueles desconhecem e ninguém controla. E a prova de que as pessoas não se sentiram lesadas nem desconfiaram do procedimento foi que logo a seguir à detenção dos organizadores aumentou o afluxo de participantes via Internet para participarem na sondagem. A desproporção de meios entre as autoridades e os organizadores da consulta é óbvia, tornando-se ridículo que a detenção de Jason Chao, conhecido activista que lidera o movimento, tenha ocorrido num momento em que este se dirigia para uma casa de banho e as autoridades de Macau tenham passado pelo vexame dele se recusar a falar, garantindo o seu direito ao silêncio, recusando-se a fornecer quaisquer dados inerentes à consulta aos elementos das forças policiais, incluindo, e bem, a rejeição de lhes facultar a identidade dos participantes com o argumento simples e eficaz de que só o faria com uma ordem judicial.  

Escusadamente, Macau volta a estar nas páginas da imprensa internacional. Pelas piores razões e justificando a atenção dos media, da opinião pública mundial e das organizações de protecção dos direitos humanos. Em causa, de novo, questões que se prendem com a participação política e o direito ao sufrágio universal. Mas tal como noutras questões que não foram suficientemente acauteladas pelos negociadores portugueses, também nesta matéria Portugal esteve mal ao não ter conseguido que na Declaração Conjunta Luso-Chinesa tivesse ficado, ao contrário do que aconteceu com a Basic Law de Hong Kong, através do artigo 45.º, o direito ao sufrágio universal, pelo menos como meta a atingir num futuro próximo: "The method for selecting the Chief Executive shall be specified in the light of the actual situation in the Hong Kong Special Administrative Region and in accordance with the principle of gradual and orderly progress. The ultimate aim is the selection of the Chief Executive by universal suffrage upon nomination by a broadly representative nominating committee in accordance with democratic procedures". Esta última é uma frase que faz toda a diferença entre um lado e o outro do estuário do rio das Pérolas, e que diz bem da diferente postura de portugueses e ingleses.

Enfim, nada que não fosse previsível vir a acontecer e que os portugueses ficaram a dever, entre muitas mais, ao povo de Macau. Mas quanto a isto, o melhor mesmo é os portugueses perguntarem ao Presidente da República, Cavaco Silva, por que razão tal não ficou consagrado. É que foi este senhor quem, em última instância, em 13 de Abril de 1987, foi a Pequim assinar em nome do Governo Português o documento que formalizou os termos para a transferência de Administração de Macau para a RPC, fixando a agenda para os 50 anos pós-1999.

Como se vê, volvidos apenas meia dúzia de anos, a História não perdoa erros de tão grande miopia política. Jason Chao tinha menos de seis meses quando a Declaração Conjunta foi assinada. Trocar princípios ou vistos de residência por patacas e euros nunca poderia dar bom resultado. A não ser para os bolsos dos que à custa disso se tornaram empresários, fizeram fundações, promoveram o BPP ou puderam mudar-se para a Quinta Patiño.

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O padrão

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.08.14

Os nomes são o que menos importa, embora um deles seja de antologia. São casos que se repetem, aqui e ali, de cada vez que há lugares em disputa num partido. Ou porque moram todos na mesma casa, ou porque pura e simplesmente não existem e quem controla as estruturas de base de alguns partidos não tem idoneidade política, ética e moral para andar por lá. Mas, apesar disso, continua a gozar do apoio dos compinchas, da protecção dos que dependem e dos seus votos, e dos dirigentes que enterrando a cabeça na areia lhes vão aparando os golpes. À socapa.

É um padrão que se repete de Norte a Sul e que não é exclusivo dos partidos. Olhe-se para a banca. Veja-se o que se passa em muitas grandes empresas e até na gestão das finanças de algumas autarquias. Assumem formas moluscóides que se reproduzem com grande facilidade em determinados meios e gozam de aceitação e condescendência social. Da família da alta finança, cujos filhos estudaram na Suíça, ao laparoto da concelhia do partido que quer garantir a senha de presença e os "contactos" na assembleia da terriola, salvo raríssimas excepções de meia dúzia de postergados que preferem o anonimato e a desesperança a terem de vergar, o modelo aplaudido é sempre o mesmo. Com ou sem variantes.

Aquilo que devia dar cadeia justifica-se com o facto das eleições serem concorridas, a dimensão do negócio, a interpretação mais favorável ou o currículo do candidato que por acaso, e só mesmo por acaso, é filho de quem é. As regras que se acomodem. Nós somos assim e temos orgulho em ser assim. Estamos conversados.

Tempo houve em que a culpa era dos fascistas. Depois passou a ser do Otelo e dos comunistas. De caminho foi dos retornados, antes de passar a ser da abstenção e da União Europeia, e de dar lugar à Constituição, ao BPN, ao BES, sem esquecer a Lusófona, a Internacional, a Lusíada, e toda a série de falcatruas, cambalachos e maroscas que tomou conta do país e encheu os bolsos de quem manda. Agora estamos no ponto em que a culpa é da participação. A malta entusiasma-se, quer participar, e aqui vai disto. É o salve-se quem puder.

Podem continuar a fazer reformas como até aqui, a promover primárias, directas, prós e contras, comissões de inquérito, novos acordos ortográficos, a constituir fundações e a endeusarem desportistas ricos, que sendo muito bons no que fazem não deixam de ser quem são, e miúdas giras. Daquelas que usam telemóvel "xpto" com a boca cheia e levam a faca à boca enquanto mostram os aveludados seios fartos nos matutinos e revistas da sociedade.

Enquanto permitirem a sobrevivência do modelo, enquanto tivermos um padrão que é intrínseca e estruturalmente desonesto em quase todas as suas manifestações, tudo continuará recorrentemente como até aqui. E para o caso é irrelevante que estejamos a falar do primeiro magistrado da nação, do diplomata jubilado que assessora autarquias e promove "golden visas" para chineses ou de um trolha. A pobreza sente-se na bolsa, na vida, no quotidiano noticioso, nas declarações dos dirigentes, nos casos do dia. Da política ao desporto.

Não há, não pode haver, nunca haverá excelência, rigor, educação, cultura, decência, numa palavra apenas, civilização, entre ervas daninhas. Se não matarem o padrão; enquanto, parafraseando o Rui Rocha, não se livrarem do cabrão lusitano não entrarão no reino dos céus. Por mais que gemamos a cantar o fado ninguém terá piedade de nós.

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Os porquinhos vão ter de voltar à escola e rever os objectivos

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.08.14

"Portugal and private funds can rescue the bank. Its problems are not related to its core business but to the actions of the family shareholders, in particular former chairman and chief executive Ricardo Salgado, 70, has been arrested and is being examined by a judge as part of an investigation of large scale money laundering.
The question remains whether the authorities should have stepped in sooner.
Salgado is a very prominent businessman in Portugal, Europe and Brazil. After he announced his intention to retire, and hand the reins to his cousin José Maria Ricciardi, some skeletons were found in the cupboards related to investments in Angola (a former Portuguese colony) and dodgy tax filings that threatened to pull the entire house of cards down." - Marcel Michelson, Forbes

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Sophia

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.07.14

"Da política nem falo. Ou melhor falo. É uma política dominada pela exterioridade, pela vaidade e pela leviandade machista. (...) Graças a Deus sou mulher e por isso não sinto necessidade de triunfo de carreira. Aliás penso que um artista não deve ser governo, mas sim influenciar os governantes." Março, 1978, in Sophia de Mello Breyner & Jorge de Sena, Correspondência 1959-1978

 

Os mesmos que a colocaram no Panteão são os mesmíssimos que recebem e acolhem Obiang em Lisboa e que o acolherão em Díli, de braços abertos, no dia 23 de Julho. Não sei que escreveria ela a contar ao seu amigo Jorge de Sena se soubesse disto e depois ouvisse Cavaco Silva dizer o que disse, logo ele que confundindo a função com os gostos pessoais recusou estar no funeral do único Nobel da literatura português, coisa por que ela tanto lutou. Relendo o que Sophia escreveu é caso para dizer que a hipocrisia e a desfaçatez não conhecem limites em Portugal. E fazem escola.

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O que sobra dos discursos

por Ana Lima, em 03.07.14

O deve e o haver.

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Esse é o verdadeiro problema

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.07.14

"(...) Sem qualquer ponto de contacto entre as realidades apresentadas pelo Governo e pela oposição, tivemos um debate sobre nações distintas, que de comum tinham apenas o nome: Portugal.
Ao comparar o teatro a um parlamento, Piscator argumentava que o teatro deve induzir o público a envolver-se politicamente. Terá o debate de ontem aproximado os cidadãos da política? Parece improvável, sobretudo quando nenhuma das intervenções nas mais de quatro horas de debate abordou a crescente descrença dos portugueses em relação aos seus representantes políticos: menos de 10% confiam nos partidos e 85% estão insatisfeitos com o funcionamento da democracia nacional, o mais alto nível de insatisfação da UE. E esse é também o estado da nação."- Carlos Jalali, Público

 

Perante este facto incontornável, que vai diariamente afundando o regime e a democracia, os actores entretêm-se com jogos florais. Quem sabe se não será altura dos responsáveis por este estado de coisas se inscreverem nesta prestimosa associação? Talvez esta pudesse ajudar os Coelhos, os Seguros e os Portas a ver melhor.  

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Postais de Portugal

por Pedro Correia, em 01.07.14

Erupção de patriotismo em Tavira

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Mundial no sofá (8)

por João André, em 30.06.14

Vi pouco futebol nos últimos dias, mas fica aqui a reflexão, especialmente sobre a saída de Portugal.

 

Portugal - Gana

Tacticamente, do meu ponto de vista, Paulo Bento não fez grandes asneiras. No papel Veloso seria a melhor opção para o lado esquerdo da defesa, de forma a poder subir no corredor e fazer cruzamentos de pé esquerdo e tentar aproveitar a fraqueza dos centrais ganeses. As suas subidas seriam compensadas pelo posicionamento de Ruben Amorim, que cobriria as suas costas. No lado direito João Pereira não precisaria de subir tanto, uma vez que Nani seria um extremo teoricamente mais clássico. William Carvalho funcionaria como médio mais recuado, como segurança defensiva (Quinito chamou em tempos a essa posição "líbero do meio campo").

 

No papel nada a apontar, o problema é que o futebol se joga no campo. Veloso estava obviamente sem ritmo, Nani não existiu durante 85 minutos (cada vez que passava a bola correctamente eu suspirava de alívio) e João Pereira também não anda bem. Aqui se viu a falta que Coentrão fez à equipa, tal como um segundo lateral para quem o pé esquerdo seja mais que para correr. Também se viu que Éder deve ser solteiro, bom rapaz e é esforçado, mas quem lhe viu qualidades de ponta de lança deveria passar pelo oculista. Igualmente que Varela deveria ter começado a ser titular ao segundo jogo, uma vez que em 30 minutos (bem espremidos entre 3 jogos) fez mais que Nani.

 

Isso quanto às escolhas e à táctica. Já quanto a Ronaldo, sinceramente, não lhe aponto nada. Falar-se-á mais do cabelo que do futebol, mas a verdade é que a quem aparece a 50% e ainda se esforça como ele se esforçou não se pode pedir muito mais. Tal como não se lhe pode pedir que seja o líder verdadeiro da equipa. Não o é, não tem temperamento para tal. Entreguem já a braçadeira a Moutinho, Patrício, William ou outro qualquer. Retirem esse peso a Ronaldo. É como se pedissem a Bruno Alves que se mexesse ou se concentrasse sem falhas por 90 minutos. Não funciona.

 

Habituemo-nos a isto. O próximo europeu não deve estar em causa, até porque será mais difícil a não qualificação. Mas as vacas emagreceram e muito.

 

Outras notas

Scolari continua o mesmo de sempre. Equipas unidas e com grande espírito, mentalidade de cerco, táctica básica e fé em um ou dois jogadores para resolver, e de resto porrada neles. Neste mundial ele beneficia disso, porque ninguém quer despachar o Brasil demasiado cedo. Mas, muito a contragosto, tenho que apontar que Scolari não tem sorte. Parece, mas não tem. Quem tem sorte tantas vezes e em momentos tão importantes não é sortudo: é alguém que procura esses acasos felizes. Nisso, tem muito mérito.

 

Tenho pena que o Chile tenha saído. Gostei do futebol deles, cheio de energia, feito de pressão e crença que podem derrotar qualquer um. Gostei do treinador, que corre tanto para cima e para baixo na área técnica que deve deixar um sulco no chão. Tenho pena que tenham saído.

 

Espero que se comece a notar que a Holanda não é das equipas mais interessantes do mundial. Poderão ganhar, mas a táctica pouco mais é que uma actualização mais sofisticada da de há 4 anos. Reconhecer que não tem uma boa defesa e compensá-la, porrada nos adversários para quebrar o ritmo e fé em Robben. Este é o facto decisivo: sem Robben a Holanda estaria já fora. As duas principais diferenças entre a Holanda e Portugal são Robben vs Ronaldo e Juventude vs Veterania. Claro que isso em muito deve a van Gaal.

 

Grécia está fora: é pena, gosto dos tipos, mesmo que o futebol seja chato. Costa Rica continua mais uma ronda: é agradável, mas a defesa subida deles deverá ser um gelado para o Robben nos quartos de final.

 

Hoje joga a Alemanha e não deverá ser desta que a Argélia exorciza 1982 e Gijón. No entanto ando à espera do momento em que a Alemanha impluda por causa de guerras internas entre jogadores. Está divertido: a Holanda faz o papel de Alemanha e a Alemanha de Holanda. O mundo de pernas para o ar: o mundial é no hemisfério sul.

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Im Büro*

por João André, em 26.06.14

18' - duas oportunidades falhadas. A primeira apenas meia. O Ronaldo não é de invenções no remate e por isso julgo que queria cruzar. A segunda num cabeceamento que deveria ter dado golo. Ao menos esforçam-se.

23' - duas oportunidades para o Gana. Aqueles centrais já deveriam ter sido recambiados para Portugal. William Carvalho parece o Busquets quando tem a bola. É daqueles que tem mais tempo que os outros.

30' - 1-0. sorte, é verdade, mas é um começo. A equipa está a atacar bem, Veloso está a subir como tem que subir e Amorim tenta compensar. A táctica não está má. Considerando o resultado necessário, é isto que a equipa precisa de fazer. mesmo sabendo dos riscos. (no jogo da Alemanha, um jogador americano mergulhou depois de acertar com a cabeça no ombro do árbitro).

38' - olha, o Nani está em campo. Pensei que estivéssemos a jogar com 10, que os outros estavam lesionados.

41' - de tão anjinho, o Éder deve ser solteiro e bom rapaz.

43' - os ganeses decidiram que a melhor forma de parar Portugal é à cacetada no Moutinho. Não estarão errados.

 

Intervalo - o Éder não salta, mas corre. O Boye (defesa que fez o auto-golo) deve estar comprado (ainda não foi pago). O comentador alemão acabou de dizer que Portugal faria melhor em colocar a bola na sua direcção que na do Ronaldo. Se o Nani não sai depois desta miséria o resto da equipa vai acabar de rastos.

 

50' - sempre que o Bruno Alves faz um passe a mais de 80 cm, a bola é perdida.

54' - as decisões do Nani são tão más que se ele pegasse agora nuns óculos escuros eu sacaria do guarda-chuva. (só para me chatear ainda marca um).

55' - os alemães macaram. Já só nos faltam 3.

56' - agora só nos faltam 4. Ao Gana 1. Tchauzinho cara.

60' - a sério que o Veloso era central nas camadas jovens?

69' - Éder sai, correcto. Mas que está o Nani a fazer em campo? O Varela fez mais em 5 minutos. E deveria era entrar o Rafa.

72' - Nani a ponta de lança? A sério? Se é para evitar que faça estragos, metam-no no banco.

73' - Já quase estou pelo Gana, só para que sigam para os oitavos de final.

79' - o Boye mereceu mesmo o bónus. O português, claro.

86' - a coisa não corre mal. No jogo de palpites apostei numa vitória por 2-1 de Portugal e num 1-1 dos boches com os americanos. Força Dempsey.

88' - Eduardo? Ainda bem que o mundial acaba para nós, só levámos 3 guarda-redes.

92' - Ronaldo está a golear em oportunidades falhadas. O Nani só precisou de 90' para aquecer. Agora é que vai resolver o jogo para Portugal.

Fim - a Alemanha fez a sua obrigação. Portugal despede-se pelo menos com uma vitória. A equipa médica de Portugal deve estar feliz com a eliminação, já não tinham espaço na enfermaria.

 

Obrigado a quem quer que tenha tido paciência para estes comentários. Amanhã logo analiso a coisa.

 

* - No escritório. Hoje tive de aqui ficar para ver Portugal. Os bares estão todos com a Alemanha.

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Postais de Portugal

por Pedro Correia, em 23.06.14

Tavira, ao cair desta noite de São João

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Contas.

por Luís Menezes Leitão, em 23.06.14

 

Já Vasco Pulido Valente tinha aqui referido que "qualquer indivíduo com mais de seis neurónios pode ver que a aventura da selecção portuguesa duplica em miniatura a aventura do défice e da dívida. Primeiro, o silêncio, até cairmos sem remédio no fundo do poço. A seguir, o espanto fingido ou a corajosa afirmação de irresponsabilidade. E, no fim, acusações sobre acusações, para disfarçar o facto de que toda a gente colaborara no desastre. Nós, como Ronaldo, somos manifestamente os “melhores do mundo”. Só que, de quando em quando, nos cai a Alemanha na cabeça ou uma dívida inexplicável, que levará a pagar 30 e tal anos". Eu acrescento algo mais. Depois do desastre, começamos a fazer contas, julgando poder obter o impossível, seja ele a qualificação para os oitavos-de-final ou o pagamento da dívida. Da mesma forma que os partidos do arco da governação, com Cavaco Silva à cabeça, acham que conseguimos reduzir a dívida para 60% do PIB em 2035, bastando para isso, imagine-se obter um saldo primário do PIB de 3% em todos esses anos, na selecção anda-se agora a fazer contas para o apuramento para a fase seguinte.

 

Essas contas em ambos os casos não passam, porém, de um sonho de uma noite de Verão. No caso da selecção, era preciso que uma equipa de aleijados, cujos jogadores ficam lesionados aos primeiros minutos em campo, fosse golear por 5-0 uma das equipas mais fortes fisicamente deste campeonato. Mas depois ainda era necessário que a Alemanha ganhasse aos EUA, sabendo-se que a tendência natural dessas duas equipas, que ainda por cima têm dois treinadores alemães, vai ser jogar para o empate, que as apura a ambas, e as poupa para a fase seguinte. Dizer que neste caso o apuramento é possível é tão absurdo como dizer que Portugal vai pagar a dívida, sabendo-se que para isso precisa de um saldo primário que nunca foi obtido e que é apenas 10 vezes o esperado para este ano de 2014. Como dizem os brasileiros, caiam na real.

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Mundial no sofá (6)

por João André, em 22.06.14

E pronto, Portugal joga hoje. Não vi o jogo EUA-Gana por isso não posso fazer análises tácticas. Klinsmann não é dado a grandes tácticas, mas é excelente na motivação e preparação física. Os EUA têm alguns belos jogadores (Michael Bradley ou Clint Dempsey) e são muito dinâmicos. Se Portugal jogar a pastar como no primeiro jogo, o resultado não será bonito. Teremos que esperar para ver. Sei que não verei o jogo: não tenho televisão em casa e neste momento ando sem internet. Verei o resultado pela manhã.

 


 

O jogo de ontem demonstrou uma Alemanha muito permeável pelas alas. Löw levou mais laterais (Grosskreutz e Durm) mas não tem confiança neles, prefere os centrais. Fica sem largura e sofre contra jogadores energéticos e rápidos. O Gana, com mais experiência e calma, poderia ter vencido o jogo. Os alemães ainda são um dos favoritos, mas não impressionam. O jogo com Portugal acabou por ser tão simples que camuflou as deficiências existentes. Valha o sempiternamente anti-vedeta Miroslav Klose.

 


 

Entre os favoritos apenas a França me impressionou. Num mundial de velocidade e força, Matuidi, Pogba, Sissoko, Giroud, Benzema e Valbuena têm-se sentido como peixes na água. Falta-lhes um médio defensivo mais posicional, mas se Varane se mantiver bem e os laterais não cometerem erros, a França parece-me ser, até agora, o mais forte dos favoritos.

 


 

Não quero que a Nigéria seja eliminada. Não serão muito interessantes, mas têm o guarda-redes mais subvalorizado do torneio: Vincent Enyeama. Fosse ele mais alto (tem apenas 1,82 m) e europeu/sul-americano e seria sem dúvida considerado um dos melhores do mundo. Outro do género é o costa-riquenho Keylor Navas. Nos dias bons, é intransponível. Nos maus, até Diana Ross marcaria. Ainda no assunto da diversão, fiquemo-nos por Joel Campbell. Forte, rápido (joga em fast-forward), habilidoso e com excelentes decisões. O Arsenal tem ali uma jóia.

 


 

A Argentina desilude? Não faz mal. Tem Messi.

 


 

Tenho saudades de Ibrahimovic. Falta-me alguém com o seu carisma para este mundial ser ainda melhor. Mas tem sido extremamente divertido de ver.

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Penso rápido (5)

por Pedro Correia, em 18.06.14

Os heróis de ontem são os vilões de hoje. Os mesmos que há 48 horas endeusavam até à náusea a equipa portuguesa apressam-se a figurar na primeira fila do apedrejamento aos ídolos de véspera. É um velho desporto nacional, a que as redes sociais conferem nova e mais ruidosa dimensão: vergastar quem está na mó de baixo. Pepe, vítima de um aparente curto-circuito nos neurónios, simulou agredir um adversário no chão. De repente, eis Portugal transformado num país de Pepes.

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Mundial no sofá (4)

por João André, em 17.06.14

 

Portugal 0 - 4 Alemanha

 

Muito sinceramente não sabia o que escrever. Por alguma coisa quis fazer a minha antevisão ontem, para poder deixar clara a minha capacidade de análise ou, em alternativa, para não poder fugir à evidência de uma antevisão errada.

 

Na minha previsão de equipa titular do lado alemão falhei com Schürrle. Jogou antes Götze. Já no resto parece-me que não me enganei com nada de especial. Özil de facto andou a arrastar os centrais pelo campo fora (fosse à casa de banho e Bruno Alves segui-lo-ia), o segundo golo veio de uma bola parada e Bruno Alves teve a tradicional paragem cerebral que deu o 3-0. Já a falta de apoio a Coentrão deu em alemães a acelerar por aquele flanco como se em trânsito entre Munique e Berlim. Neste aspecto antecipei que Boateng não daria muito apoio, mas não foi bem verdade. Soube subir o suficiente para oferecer mais uma linha de passe e ajudar às triangulações.

 

Portugal até começou bem a meio-campo. Veloso pressionou bem Lahm, Meireles caiu sobre Kroos e Khedira, ainda sem ritmo, não conseguia mudar o rumo. Foi no entanto sol de pouca dura e questão apenas da Alemanha ajustar o estilo de jogo. Kroos descaiu para o meio campo para ajudar a transformar o 4-2-3-1 num 4-3-3-0 e os portugueses perderam completamente o controlo do jogo. Os alemães passaram a ter duas linhas de três jogadores no meio campo que conseguiam fazer triangulações e passes e a mais avançada destas era exímia a correr para as costas da defesa e aproveitar as bolas dos restantes jogadores.

 

O único caminho que Portugal procurava eram as bolas longas para Almeida tocar para Ronaldo e um ou outra iniciativa individual de Nani. Este esteve tão mal nas suas decisões e na sua insistência em jogar individualmente que só abona em favor de Jorge Mendes que tenha renovado no ano passado o contrato com o Manchester United. A lesão de Almeida foi um golpe duro, no entanto. Éder oferece mais movimento e energia, mas luta e ocupa menos os centrais adversários, que era o necessário para dar espaços a Ronaldo.

 

Quando Pepe foi expulso, a descida de Meireles para a defesa não me pareceu opção descabida para o resto do jogo. Sem avançado de referência do lado adversário, colocar um médio nessa posição não seria assim tão má ideia. Além disso, mais um jogador capaz de sair a jogar e colocar uma ou outra bola longa em Ronaldo poderia ter ajudado a manter a chama viva. Só que Portugal tinha a cabeça já no intervalo e não soube manter a concentração. Mais uma vez se provou que Ronaldo não tem líder em campo. Ronaldo é capitão, mas não é aquele líder capaz de manter a equipa focada, como Figo, Fernando Couto ou outros o teriam feito.

 

A segunda parte foi morna. A Alemanha manteve energias e foi ensaiando acções de ataque, tratando o resto do jogo como um treino. Mais que o quarto golo, o pior da segunda parte foi mesmo a lesão de Coentrão, que não tem substituto natural (canhoto) que dê largura ao corredor e ofereça liberdade a Ronaldo. Assumindo que a lesão é daquelas que dá para mês e meio de estaleiro, a melhor opção de Paulo Bento para os outros dois jogos poderá ser enfiar Veloso naquele lado e fazer entrar William Carvalho. André Almeida é voluntarioso e até poderia cumprir o papel no lado direito, mas a falta de pé esquerdo é aqui um problema.

 

Não sei que fará Bento, mas precisa de colocar ordem na equipa. Como não acredito que os alemães façam tanto jeitinho a Klinsmann, é bem possível que duas vitórias cheguem para passar. Muito dependerá da resposta que os jogadores derem a este resultado.

 

Três notas finais:


1. A grande penalidade é discutível, obviamente. Götze deixa-se cair sem que João Pereira tivesse feito muito para isso. Há no entanto puxões do defesa e ao alemão só restou deixar-se cair. Se fosse ao contrário talvez o árbitro não marcasse, mas segundo as regras de beneficiar o atacante, é difícil criticar demasiado o árbitro. Além disso, poderia ter dado o vermelho.


2. Pepe demonstrou uma enorme infantilidade e mereceria que o enfiassem num avião de volta a Portugal. Há 5 ou 10 anos levaria um amarelo e ficaria o assunto resolvido. Hoje em dia os árbitros têm indicação para darem vermelho. Claríssimo. O facto de ser provocado é indiferente.


3. No ecrã onde vi o jogo era difícil dizê-lo, mas fiquei com a sensação que Éder teria sido mesmo travado em falta (não percebi se houve ou não contacto). Um golo não teria mudado nada nesse jogo, mas teria dado outro lustro ao resultado (os alemães talvez abrandassem ainda mais com um satisfatório 3-1) e outra confiança a Ronaldo.

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Um comentário que resume quase tudo

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.06.14

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In der Kneipe*

por João André, em 16.06.14
* - no bar.

Intervalo: ver o jogo com amigos num bar alemão só dá gozo se Portugal estiver a jogar bem.
No post anterior falei nos movimentos de Özil a atrair defesas, nas bolas paradas e nos erros de Bruno Alves. 3 golos. Também falei na importância de William Carvalho para que Veloso apoiasse Coentrão. A ala direita alemã está como na Autobahn sem Stau.
Os brasileiros a jogar por outras selecções no Brasil parecem gostar de cabeçadas.
Neste momento a única solução é tentar manter a bola e rezar para que a Alemanha decida descansar no calor.

52' o que está Nani ainda a fazer em campo?
63' acabou o mundial para Coentrão
78' vou para casa. Amanhã escrevo sobre o desastre. Boa noite.
(em actualização)

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Mundial no sofá (3)

por João André, em 16.06.14

  

Portugal - Alemanha (antevisão)

 

Ahh, futebol e Alemanha. São 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha. Muda aos 5 e acaba aos 10. Os alemães são uma máquina trituradora. A bola é redonda. Força da técnica contra a técnica da força. Sul contra norte da Europa. Clichés, clichés, clichés...

 

Pronto, já aliviei a coisa. Quem quiser clichés, que use um dos de cima. Na análise abaixo tentarei evitá-los.

 

A forma como o jogo vai ser visto depende enormemente de Cristiano Ronaldo. Tanto nós como os alemães compreendem que ele vai ser a personagem principal do jogo. Nós esperamos que Ronaldo domine a acção, os alemães desejam que ele seja notório pela sua ausência. Desde 2006 que Ronaldo, por uma ou outra razão, não está a 100% numa fase final. A grande questão é se estará a 100% por períodos suficientes dos 90 minutos que Portugal for jogando. Com Ronaldo na equipa, Portugal é a espaços uma equipa que joga com 10 contra 11. Mas vale por vezes a pena.

 

Neste jogo os alemães estão a ser obsequiosos: não vão jogar com o gigante Gomez (que ficou em casa) e que tem o ADN perfeito para fazer estragos aproveitando as falhas de concentração de Bruno Alves. Lahm vai quase de certeza jogar a meio campo, o que significa que Ronaldo não terá que o enfrentar e que os alemães vão jogar para a posse de bola. As laterais serão provavelmente ocupadas por dois centrais, Boateng à direita e Höwedes à esquerda, o que significa que não poderão sobrecarregar o lado esquerdo da defesa portuguesa (Ronaldo não ajuda muito defensivamente, o que expõe Coentrão). No papel, os alemães irão apresentar tácticas que ajudarão os portugueses. Difícil melhor.

 

Por outro lado há qualidade para dar e vender na equipa alemã, mesmo sem alguns jogadores. Os irmãos Bender, Gündogan, Reus ou Gomez provavelmente entrariam de caras na equipa portuguesa, mas os alemães não os têm à disposição. Podolski provavelmente estará no banco, tal como Götze, Schweinsteiger, Draxler e Klose. É ridículo. O ataque poderá passar pela frente de ataque Özil como falso 9 e apoiado por Müller, Kroos e Schürrle. O meio campo terá provavelmente Lahm e Khedira. A Alemanha poderá ter posse de bola de níveis guardiolianos, mas a incisão irá depender em grande parte dos movimentos de Müller e Schürrle vindos das alas e de Özil a fugir aos centrais. Será essencial ter bom posicionamento e não ser traído pelo movimento de Özil e Kroos. Por outro lado, é muito provável que as bolas paradas sejam fundamentais. Com 4 centrais no onze inicial e Kroos a bater as bolas paradas, seria burrice da parte alemã não as aproveitar. Mais importante ainda que os cantos serão os livres indirectos, a aproveitar agressividade excessiva do meio campo português.

 

Portugal terá que optar entre lutar de igual para igual num jogo baseado em posse de bola ou, preferivelmente (do meu ponto de vista), compreender que Ronaldo terá de ser usado em contra-ataque e jogar mais em 4-4-2 com Postiga ou Hugo Almeida a tentar criar espaço para Ronaldo aproveitar. No caso do 4-4-2, poder-se-à começar com Veloso ou Nani no onze inicial. No primeiro caso Veloso cairía sobre a esquerda e Meireles sobre a direita e no segundo Meireles estaria à esquerda e Nani à direita. Nani já jogou como médio direito no passado e pode fazê-lo novamente. William Carvalho e Moutinho terão, claro está, que começar o jogo.

 

Os problemas portugueses estarão nos momentos das substituições (o banco é limitado) e nas bolas aéreas para a zona dos laterais (são baixos e têm opositores directos bons de cabeça). Postiga e Hugo Almeida não duram 90 minutos e terão de ser substituídos, o que queima logo uma substituição. Se Portugal se vir a perder provavelmente não terá forma de ir atrás do resultado.

 

Em resumo: há que aproveitar o contra-ataque (de forma semelhante ao que foi feito com a Suécia), poupar Ronaldo durante os 90 minutos, evitar faltas que ofereçam bolas paradas, e é necessário que os centrais não sejam atraídos pelo movimento de Özil e Kroos (será fundamental ter William Carvalho). Depois, há que deixar Ronaldo correr com espaço em direcção à defesa adversária e dar oportunidade a Moutinho para fazer os seus passes. O jogo será, no mínimo, interessante e poderá ser tacticamente, pelo menos em termos de sistema, semelhante ao Espanha-Holanda. Esperemos que acabe também com uma vitória da equipa mais reactiva.

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"Na interpretação que têm feito da Constituição os juízes vêm modelando os princípios à la carte, em função das novas medidas. E vão encontrando novos princípios ou vão formulando novos condicionalismos";

 

"Alguns dos juízes cuja candidatura foi proposta por nós criaram a ilusão de que tinham uma visão filosófico-política que seria compatível com aquilo que é o projecto reformista que temos para Portugal no âmbito da integração na União Europeia";

 

"É verdade que foi revogado esse procedimento, isso não quer dizer que a aclaração não seja um princípio fundacional da ordem jurídica".

 

Senhor Presidente da República: Se não condecorou esta senhora, por favor, peço-lhe humildemente que o faça. Camões nunca compreenderia o esquecimento e a Nação jamais lhe perdoaria se esta distinta representante do regime ficasse de fora das quase 1000 medalhas e comendas que o seu mandato já fez sair do pesado bornal que consigo carrega.

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Confrangedor

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.06.14

 

(foto da Lusa)

 

Ano após ano, a lista repete-se com uma assustadora previsibilidade e um traço comum que é a desvalorização da noção de serviço à comunidade, à causa pública, numa repetição parola e cada vez mais pungente daquilo que devia ser o reconhecimento de uma cidadania de excepção. Ao invés, continua-se a valorizar a banalidade, a misturar o azeite mais puro com o detergente barato, a colocar no mesmo patamar a carreira construída a pulso, com trabalho e empenho, com a carreira construída à sombra da sorte, do favor político e empresarial, da porta que se abriu em nome do apelido ou da origem da casta. Como se a atribuição de medalhas a eito no Dia de Portugal devesse ser eternamente uma celebração barata e ordinária com ofertas de brindes, recepções e espectáculos anódinos para o povo ignorante se entreter antes de se entregar aos tendões de Cristiano Ronaldo. Como se o momento mais importante para a exaltação de uma cidadania de excepção, talhada no rigor, na seriedade intelectual, na força do carácter, pudesse ser tão recorrentemente desvirtuado perante a complacência e vacuidade dos frequentadores de salões, o silêncio dos partidos políticos e seus dirigentes e a acomodação dos espíritos livres.

Que me perdoe Eduardo Lourenço, mas quando um dia a República num acto de inteligência fizer a contabilidade das condecorações que os seus Presidentes atribuíram numa democracia adulta e consolidada, não será bonito de ver os nomes alinhados. E mais triste será ver os nomes de quem as atribuiu.

No dia em que o Dia de Portugal for celebrado por Portugal e pelos portugueses não haverá este espectáculo boçal e boçalizante das condecorações. E o Presidente da República será mais um no meio dos seus. E nesse dia, então, o cidadão número um será capaz de perceber por que razão um dia se fez Portugal e Portugal nunca se cumpriu. Só nesse dia a República atingirá a idade adulta. Portugal cumprir-se-á. E poderá, finalmente, sair da letargia em que vive há décadas controlada na sombra por meia dúzia de estupores. E levantará a cabeça para honrar os seus verdadeiros heróis, recordar a sua obra, recolher a sua lição e projectar um futuro que faça jus à dimensão do sonho camoniano.

A única e verdadeira medalha que enquanto portugueses estaremos em condições de poder receber, celebrar e honrar.

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Ma Man Kei

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.05.14

Nasceu em Nanhai, nas proximidades de Foshan, provincía de Guangdong, em 1919. Nessa altura viviam-se tempos conturbados na China. Dois anos antes tinha Sun Yat-Sen instalado o governo militar de Cantão. Seu pai fora mercador, um dos muitos que se revoltara contra o governo corrupto dos Qing. Após a morte do pai, em 1934, ficou a tomar conta dos seus negócios, mas quando em 1938 as tropas imperiais japonesas tomaram Cantão, fugiu para Hong Kong. Três anos depois instalou-se em Macau, aproveitando o estatuto de neutralidade deste antigo território português. A partir de então desenvolveu múltiplas actividades empresariais e políticas, tendo enriquecido e granjeado prestígio e influência. Em Macau, mas também na China, da qual, após a revolução, se tornaria no representante local dos seus interesses. Esteve  envolvido durante mais de meio século em todos os acontecimentos importantes de Macau, tornando-se, juntamente com Ho Yin, num dos líderes da comunidade chinesa. Em 1950 foi escolhido para presidente da Associação Comercial de Macau, em cuja sede, ainda antes do 25 de Abril de 1974, se vendiam abertamente e sem que a PIDE pudesse fazer alguma coisa os exemplares do Livro Vermelho do Presidente Mao. Na crise de 1952 integrou a delegação enviada pelo governador Almirante Marques Esparteiro para negociar com os representantes do Exército Popular de Libertação o restabelecimento do fornecimento de víveres à então colónia portuguesa. Teve  papel crucial na crise do "Um, Dois, Três" e após 1974 viria a tornar-se deputado da Assembleia Legislativa de Macau, órgão para o qual foi eleito em sucessivas legislaturas por sufrágio indirecto, em representação dos interesses económicos. Abandonou a Assembleia Legislativa na última legislatura. Nesse percurso foi ainda vice-presidente da Comissão de Redacção da Lei Básica da RAEM, vice-presidente da 8ª, 9ª, 10ª e 11ª Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, da qual fez parte até agora, e foi nessa qualidade que integrou o Presidium do Congresso Nacional Popular do Partido Comunista Chinês. Amigo de Portugal e dos portugueses, reconhecido pela China como um "capitalista patriota", já depois de doente e internado no Hospital Militar de Pequim viu a sua influência uma vez mais confirmada com a visita que recebeu, em 2007, de Hu Jintao. Faleceu na madrugada de segunda-feira, com 95 anos, e as suas exéquias terão lugar no próximo domingo em Macau. Deixou sete filhos, um dos quais é o actual presidente da Associação Comercial de Macau, duas filhas e um império comercial. Um dos seus netos é actualmente deputado na Assembleia Legislativa de Macau.

 

(notas coligidas com o auxílio do Hoje Macau, do Ponto Final e do Macau Daily Times)

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Mais um que vai ser proscrito pelos jotinhas que nos governam

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.05.14

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 08.05.14

 

Portugal - A Economia de uma Nação Rebelde, de José Manuel Félix Ribeiro

Ensaio

(edição Guerra & Paz, 2014)

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Alguns países adiam-se, outros destroem-se

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.04.14

"O Estado português investiu muito dinheiro na minha formação, no liceu, na faculdade, e na formação de outras pessoas, para eu agora estar a dar aulas a alunos e alunas ingleses e de outros países. Faço-o numa universidade inglesa onde o meu currículo e a minha formação são apreciados. Lá estão a reconhecer esta formação que foi financiada pela população portuguesa e cujos frutos não podem vir para Portugal. Estou lá, em cada dia que passa, com muito pesar, porque sinto que a minha geração tem um contributo para dar a Portugal. Tenho muita pena de ter tido de ir lá para fora. Não vou negar que lá há condições de trabalho óptimas, e isso é aliciante. Mas não estou a devolver o meu conhecimento ao país que me formou e que ajudou a financiar a minha formação." - Maria do Mar Pereira, 32 anos, professora na Universidade de Warwick (Reino Unido), vencedora do Prémio Internacional para o Melhor Livro em Investigação Qualitativa feito entre 2010 e 2014, Público, 14/04/2014

 

Enquanto isso, em Macau, Nuno Crato discute, à porta fechada, o futuro da Escola Portuguesa. E promete reforçar a cooperação com o Instituto Politécnico de Macau para criar mais oportunidades para os estudantes aprenderem a língua portuguesa. Tudo se conjuga, pois, para que as promessas continuem e os poucos recursos que temos prossigam a sua saída pela janela mais próxima sem qualquer garantia de retorno.

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Portugal no Seu Melhor

por Francisca Prieto, em 10.04.14

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O novo mapa cor-de-rosa.

por Luís Menezes Leitão, em 03.04.14

 

Como bem se salienta aqui, esta nova proposta de mapa do território marítimo faz lembrar a obsessão do Estado Novo com a extensão do enorme império colonial português. É normal em épocas de crise Portugal ficar obcecado com sonhos de grandeza, perdendo qualquer ligação com a realidade geopolítica, como foi o caso da aventura do mapa cor-de-rosa no séc. XIX, que nos custou a humilhação do ultimato inglês.

 

Hoje, no entanto, a ambição ainda é mais irreal, resultante nesta proposta de extensão da plataforma continental a um enorme território oceânico onde não existe qualquer plataforma continental. Que eu saiba, os Açores ficam no meio do Oceano e são de formação vulcânica, pelo que, a falar de continente, só pode ser o continente perdido da Atlântida. E onde não há plataforma continental, não há qualquer utilidade na extensão territorial, uma vez que o aproveitamento económico dos fundos oceânicos é praticamente impossível. Portugal quer construir assim um novo império marítimo, reinando como Neptuno sobre os abismos oceânicos. É por isso que o Governo proclama entusiasmado que Portugal é Mar. Na verdade, todos os dias se afunda.

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Timocratas

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.04.14

Saber se os pagamentos foram legais ou se ilegais não é uma questão de somenos. Mas no contexto da austeridade vivida em Portugal, que não começou ontem, com cortes a torto e a direito, reformas amputadas, e o "estado social" de pantanas, não deixa de ser curiosa a forma como alguns autarcas, profissionais da política no pior sentido e simples carreiristas, se foram "abotoando" com dinheiros públicos. Mesmo que os recebimentos tivessem sido legais, seria sempre eticamente duvidoso e moralmente criticável que autarcas a tempo inteiro, que por sê-lo já têm todo um conjunto de benesses que a maioria não alcança, ainda pudessem receber senhas de presença pagas com dinheiros públicos para participarem em reuniões às mesmas horas em que exercem as suas funções de autarcas. Vinte mil euros num ano é o que muitos, ainda que qualificados, não conseguem receber nesse mesmo período. Recebê-lo em senhas de presença, procurar depois justificar o que se recebeu comprando pareceres jurídicos, e acabar a subscrever o discurso da austeridade, diz bem, para usar uma expressão de Passos Coelho, de que matéria é feita "essa gente". A que nos governa.

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Manifestamente...

por José António Abreu, em 12.03.14

E, de repente, umas quantas almas agonizando entre a confusão (o Estado deve ser reformado mas ao mesmo tempo deve ficar como está), o despeito (por que não lhes seguem as ideias sempre luminosas e coerentes?) e a amnésia (Portugal terá chegado ao limiar da bancarrota por uma infeliz conjugação astral e não por políticas defendidas – e, em alguns casos implementadas – por elas) juntam-se a outras, reconhecidamente insensatas (a ponto de continuarem a defender o modelo económico venezuelano), e a dois meses do final do programa de ajustamento propõem uma reestruturação das condições de pagamento da dívida pública (que, em parte e de forma discreta, já foi alvo de reestruturações e voltará a sê-lo no futuro). Felizmente, com excepção da comunicação social, que vê qualquer ruído entrópico como boas notícias, e uns quantos bloggers, que fazem questão de opinar sobre tudo o que pareça «estar a dar» (pois, mea culpa), ninguém leva esta colorida agremiação de putativos notáveis a sério, por majestáticas qualificações e extrema boa vontade de que padeçam. Nem aqueles (teoricamente assustadiços) a quem o Estado português continua a pedir dinheiro para manter os gastos que já se provou não poderem ser cortados. O que – pensando bem – é capaz de ser um erro colossal. Um destes dias a loucura (admitamos caritativamente que bem intencionada) ainda recupera o poder, deixando-os (e a nós, uma vez que entre eles se contam os bancos nacionais) a olhar para buracos nas contas que farão o do BPN parecer questão de trocos. Mas pelo menos a beleza de uma reestruturação ficará evidente para todas as partes envolvidas, já que pelos vistos não ficou quando a reestruturação da dívida grega não apenas não resolveu os problemas da Grécia como causou uns problemitas nos bancos cipriotas.

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