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Outras lições nórdicas

por José António Abreu, em 25.07.15

Alexander Stubb, o ministro das Finanças finlandês, esteve em destaque durante a sequência de reuniões do Eurogrupo sobre a questão grega. Interventivo, adepto do Twitter, sem papas na língua a reflectir as reservas dos seus concidadãos (diz-se, ainda assim, ter sido bastante mais comedido nas declarações em inglês do que nas que emitiu em finlandês), merece-me esta nota por algo que pouca atenção despertou em Portugal.

Cai-Göran Alexander Stubb foi deputado ao Parlamento Europeu entre 2004 e 2008, ministro dos negócios estrangeiros entre 2008 e 2011 e ministro dos assuntos europeus e do comércio externo entre 2011 e 2014. Em Junho desse ano, Jyrki Katainen, líder do partido de Stubb e primeiro-ministro, demitiu-se. Stubb assumiu ambos os cargos. Nas eleições de Maio último, o seu partido obteve apenas o segundo lugar no número de votos e o terceiro no número de assentos no Parlamento. Na sequência das negociações que se seguiram para a formação do governo, Stubb transitou do lugar de primeiro-ministro para o de ministro das finanças.

Não estou a ver um político português fazer algo similar. Aceitar este tipo de «despromoção» num país em que até se tornou regra a demissão do líder do principal partido derrotado. Sinais de falta de maturidade democrática, dirão alguns. Certo. Mas não apenas dos políticos e não apenas «democrática»; também «social». O líder derrotado demite-se e nunca faria o que Stubb fez por muito mais do que vaidade pessoal ou crença genuína de ser essa a melhor solução para o país. Fá-lo também porque, de outro modo, perderia o respeito dos portugueses. E isto permite extrapolar para áreas que não a da política. Permite compreender como Passos está certo ao salientar o estigma que, em Portugal, tende a cair sobre os desempregados (sobre quem perde o emprego). Os portugueses gostam de discursos empolgados acerca de respeito e de solidariedade, oferecem empenhadamente um quilo de arroz ou de massa nas campanhas do Banco Alimentar contra a Fome mas, raspada a camada superficial de verniz, estão longe de constituir uma sociedade respeitadora do esforço, do risco pessoal e da consequência mais negativa destes: o ocasional insucesso.

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Faltou referir um critério

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.07.15

Eu ouvi Ana Catarina Mendes dizer quais é que eram os critérios. E concordei. E compreendo perfeitamente que haja uma mescla de veterania, experiência e juventude. Mas é evidente que há escolhas que não têm nada a ver com os critérios enunciados, porque os maus resultados políticos, o rasto de desilusão, o serviço às mais diversas "coligações", a defesa de interesses pessoais e de grupo em prejuízo da comunidade, a falta de visão política e a gestão local não recomendavam assomos à janela. Quanto mais a pretensão de lugares de proa. 

Tenho pena que assim seja, mas reconheço que há um critério que continua a imperar e que foi o mesmo que os levou a apoiar todos os líderes anteriores e o actual sempre com a mesma convicção. E interesse. Falo do amiguismo. E por isso é que, perdoe-se-me a presunção, estou como o Jorge de Sena. Tenho imensas saudades do país, das gentes, dos amigos, da família, de todos vós. Do Portugal que suportam, não. E aqui, neste meu exílio voluntário, "é evidente que não alterei em nada a minha posição, nem a minha firmeza. Apenas cada vez melhor vejo as engrenagens da política, e desespero da incompetência, que vejo mais generalizada e prestigiosa".

É a vida, eu sei. E com ela não me conformo. Mesmo longe.

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José Ribeiro e Castro

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.07.15

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Li e reli. A entrevista de José Ribeiro e Castro ao Público. Já o tinha ouvido antes e a conclusão é sempre a mesma: o mal não está à direita, à esquerda ou ao centro. O mal é uma certa forma de fazer política que tomou conta do país e dos partidos. Quando se entregam os navios à rataria, é natural que a gente séria e limpa não se sinta bem nos camarotes que lhe destinam. Ninguém gosta de ficar limitado ao convés e ao que vê da sua escotilha.

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O relato da Agência Lusa, transmitido para vários órgãos de comunicação social, entre os quais a TSF, sobre o que se passou com a elaboração da acta relativa à XIV Conferência de Ministros da Justiça da CPLP, designadamente sobre o desacordo final (quem diria!) quanto à sua redacção e a escolha da grafia "oficial", representa, lamentavelmente, bem mais do que aquilo que à primeira vista possa parecer. À partida não está em causa, apenas, uma simples discordância sobre a forma de grafar um termo com um sentido comum a todos os países lusófonos. Uma acta é um documento em que se descreve e regista aquilo que de relevante se passa numa reunião. Em causa está, desde logo, por simples falta de vistas, teimosia, estupidez e ausência de sentido de Estado, digo eu, mais um acto (com "c") de desprezo para com Portugal - leia-se o seu poder político legítimo - por parte dos seus pares na CPLP.

O simples facto de todos os funcionários públicos em geral, os militares, os magistrados e os diplomatas, como servidores públicos que são, serem obrigados a cumprir com todas as instruções que um poder político que não sabe conjugar o verbo haver lhes dita, conformando-se com o que de mais tolo e contra a natureza das coisas lhes é imposto, já de si seria triste. Que numa matéria como a da língua se chegue perante os demais Estados que compõem a CPLP a passar por um tão grande absurdo, sujeitando-se um ministro da Justiça de um Estado soberano desde a Conferência de Zamora, em 1143, a ter de ouvir o que, com toda a razão, lhe foi recordado pelo representante de Angola, assume contornos de humilhação política. Era perfeitamente evitável que Portugal tivesse de passar pela situação de lhe ser recordado que o Acordo Ortográfico não foi ratificado por Angola, também ele um estado soberano lusófono, não podendo por isso mesmo ser utilizado no documento em questão. Esse já não foi um acto de humilhação do País e de desprezo pelo seu poder político. Aí, e isso é que é mais grave, é já a própria língua portuguesa, aquela que recebemos dos que nos precederam e que os angolanos agora defendem, que está a ser objecto de humilhação e chicana com a conivência do Governo português.

A notícia da Lusa não nos diz qual terá sido o papel do representante de Portugal nesta contenda. Nem se ao representante da Guiné-Equatorial, um novo Estado "lusófono" ditado pela mais mercenária e subserviente "diplomacia económica", por algum momento passou pela cabeça apontar a solução castelhana de se utilizar o substantivo feminino "acta" (do latim acta) para resolver a disputa que culminaria com a caricata, mas salvadora solução de compromisso proposta por Cabo Verde e que serviu para evitar maior vergonha, de se usar num texto internacional a grafia do novo Acordo Ortográfico "como base e, em cada caso, a grafia pré-Acordo Ortográfico, entre parêntesis", numa verdadeira salganhada linguística da qual só Portugal sai mal.

Quando numa cimeira entre Estados lusófonos se chega à situação de que a Lusa dá conta, talvez seja este o momento de se voltar a perguntar aos que em Portugal, à viva força e contra todas as evidências, se afadigaram a impor o (des)Acordo Ortográfico de 1990, se a solução a que se chegou não recomenda um apelo à inteligência e ao bom senso, antes que este tipo de danos, que não são colaterais, se multiplique.  Para vergonha de todos os cidadãos que em todo o Mundo se expressam na língua que lhes é mais querida, naquela que lhes revela os afectos, as paixões e as lágrimas da saudade, e que os torna dignos da herança daqueles que, como Vasco Graça Moura ou Maria Lúcia Lepecki, dedicaram toda uma vida a lutar pela divulgação e pela dignidade do único e verdadeiro património que a História nos legou.

Património que ao longo dos séculos permitiu a convivência - e o amor - entre povos das mais diversas origens, ultrapassando as suas minúsculas fronteiras naturais para se enraizar mundo fora sem que para tal se trocassem os substantivos pelas formas verbais. Tudo bem longe da paupérrima visão e dos despachos da casta de amanuenses que há séculos ocupou o Terreiro do Paço, convencida de que a decência e a respeitabilidade de uma nação milenar se compram com euros, submarinos, computadores e bandeiras chinesas na lapela dos casacos.

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Das prioridades no cumprimento das promessas

por José António Abreu, em 19.06.15

Nas eleições legislativas portuguesas de 2011, Passos Coelho admitiu que os anos seguintes seriam difíceis mas prometeu não efectuar cortes adicionais aos já anunciados. Quebrou a promessa, com a justificação de que nas contas do Estado existiam buracos escondidos (as empresas públicas, por exemplo) e de que a alternativa seria pior para os portugueses. Apesar das perspectivas serem hoje menos más do que as existentes na altura, é constantemente acusado de ter mentido. Nas eleições legislativas gregas de 2015, Tsipras prometeu repor cortes já efectuados e impedir cortes adicionais, melhorando dessa forma a situação dos gregos. A economia grega está hoje pior do que estava há seis meses (ver relatório do Banco Central da Grécia, que a - mui democrática - presidente do Parlamento devolveu, classificando-o como «inaceitável») e os gregos encontram-se no limiar do colapso financeiro mas muitos dizem que ele falou verdade e cumpriu todas as promessas feitas.

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Um país que só existe nos cromos fica perigoso quando se torna real

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.06.15

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Com uma crise que se manifesta aos mais diversos níveis da vida colectiva - nos planos social, ético, moral, demográfico e ortográfico, nos sistemas de justiça, de saúde e de segurança social, na educação, na banca, nos impostos, no sistema eleitoral, no sistema de partidos, nos índices de confiança nas instituições políticas e judiciárias, na polícia, na política, e em sei lá mais o quê -, o país divide-se entre as razões dos catedráticos da bola.

Nas televisões abrem-se os jornais noticiosos com as transferência de treinadores de futebol e de jogadores por verbas astronómicas. Repetem-se filmes com a vida dos eleitos, com as suas visitas aos cafés e tabernas do bairro, ilustrados com o discurso da vizinha ou do taberneiro. Gordos e magros, carecas e cabeludos, altos e baixos, autarcas encartados, palermas diplomados, todos comentam com a sua melhor verborreia e argumentos para mentecaptos aquilo que a CMVM ainda não sabe sobre as sociedades desportivas cujos títulos são cotados em bolsa.

Um clube com um passivo acumulado de milhões, que passa décadas sem ganhar um título nacional, contrata um treinador que vem de um clube com um passivo similar, mas com mais pergaminhos, títulos e receitas, por dezoito milhões de euros. Para um período de apenas três anos.

Um ex-presidente do clube contratante aponta o "manicómio" como o destino adequado para o presidente em exercício desse mesmo clube. E embora não se saiba de onde virá o dinheiro para pagar a vedeta contratada, é-nos assegurado, à laia de razão de estado, que a massa não vem de Angola, nem da China, nem da Guiné-Equatorial.

As rádios e televisões não encontraram outro tema para ocupar horas a fio ao longo de todo o dia, repetindo banalidades até à exaustão, do que a contratação de um treinador de futebol. Tudo isto acontece num país que saiu há pouco mais de um ano de um programa de resgate internacional, a quatro meses de umas eleições legislativas e a seis de umas eleições presidenciais, com greves e pacotes de privatizações em curso, sem se saber o que vai acontecer com as reformas, com os escalões do IRS ou com a TSU dentro de alguns meses. Ninguém sabe quando o próximo Governo tomará posse, nem até quando se irá viver sem o Orçamento de Estado para 2016. Quem vindo de fora acompanhe o que se escreve nos jornais e se diz nas rádios e televisões facilmente concluirá que a vida da nação e a saúde do regime dependem da melena de um borra-botas qualquer. 

Enquanto isso, num país de dez milhões de habitantes há 5% de analfabetos (pessoas com mais de dez anos que não sabem ler nem escrever), a grande maioria da população que andou na escola, e até ministros, dá erros de palmatória, não há acordo quanto às regras da escrita, muitos milhares assinam com a impressão digital, as suspeitas pela prática de crimes de branqueamento de capitais, prevaricação, peculato, falsificação, fraude fiscal e outros de igual calibre fazem manchetes quase diárias, o primeiro-ministro elogia e apadrinha por igual mercenários da política e gente sem carácter e há um ex-primeiro-ministro e altos funcionários da Administração presos e a aguardarem julgamento por suspeitas, entre outros crimes "menores", de corrupção, tudo sem que haja ainda a mínima garantia de se vir a ter nos próximos anos um Presidente da República digno do cargo e das responsabilidades inerentes.

Uma coisa é gostar de futebol. Outra, bem diferente, é viver num país de alienados e dementes. O Júlio de Matos é já ali. Convém não perder o sentido da realidade. E das proporções.

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Verdades inconvenientes em tempo de renovação dos votos

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.05.15

"O rating da República que estava no lixo antes da chegada do "Messias", no lixo ficou. A dívida pública, nuns lastimáveis 93,4% do PIB em 2010, está hoje, depois da terapêutica, nos 128,9% do produto. E o défice, alfa e ómega de toda a narrativa, não é líquido, de acordo com todas as instituições internacionais, que cumpra o objetivo de ficar abaixo dos 3%. Mas há as taxas de juro em mínimos históricos, dizem-nos em jeito de medalha no currículo. Pois, mas convém explicar que, mesmo aí, o mérito não é do médico mas do "canhão Draghi" e da intervenção do Banco Central Europeu." - Nuno Saraiva, DN, 17/05/2015

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Portugal combate o Estado islâmico.

por Luís Menezes Leitão, em 11.05.15

Há muito que acho que o combate ao Estado islâmico é para levar a sério. Tão a sério que nem preciso de acrescentar eufemisticamente o "autoproclamado", como se todos os Estados não fossem autoproclamados até outro país os reconhecer. Trata-se de um Estado terrorista, que demonstra uma crueldade monstruosa contra os desgraçados que têm o azar de cair nas suas garras. Mas o mais grave é que tem um forte potencial para funcionar como elemento agregador do terrorismo islâmico a nível mundial, como se viu na Nigéria, onde o Boko Haram já lhes prestou vassalagem. O Ocidente deveria estar por isso a preparar uma coligação de ataque a esse novo Estado terrorista antes que ele se torne ainda mais forte do que já é.

 

Dito isto, parece-me absolutamente ridícula a iniciativa do Ministro da Defesa, que decidiu com pompa e circunstância mandar 30 militares para combater o referido Estado islâmico. Aliás, "combater" é outro eufemismo pois o que os militares vão fazer é apenas "dar formação e treino" aos militares iraquianos, os quais irão, esses sim, combater sozinhos os terroristas islâmicos. A eficácia da medida é aliás salientada pelo Ministro da Defesa que nos esclarece que "quando fazemos formação e treino estamos a reforçar a capacidade das forças". Só que o avião que deveria levar esses militares ao Iraque nem sequer chegou a partir por problemas técnicos. Espero bem que esses problemas técnicos não se repitam se por acaso o novo califado instituído pelo referido Estado islâmico decidisse invadir Portugal. Afinal não seria nada de diferente do que o califado islâmico original fez no séc. VII.

 

Em qualquer caso, esta iniciativa de combater o Estado Islâmico com trinta militares, não em formação, mas a dar formação, só me fez lembrar Eça de Queiroz, que há mais de um século já muito bem definia o estilo português. Como bem dizia a personagem principal de O Mandarim, aquele Teodoro, bacharel e amanuense do Ministério do Reino, que queria substituir o mandarim Ti Chin-Fu, apesar de apenas saber dizer "chá" em chinês: "E todavia, general, no meu país, quando, a propósito de Macau, se fala do Império Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e dizem negligentemente: «Mandamos lá cinquenta homens, e varremos a China»".

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A região mais perigosa do país?

por José António Abreu, em 28.04.15

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Estrada Nacional 2, perto de Lamego.

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Caramba, ainda acabo a votar num socialista...

por José António Abreu, em 22.04.15

Sublinhando que ainda não analisou ao pormenor o documento dos economistas escolhidos por António Costa, o ex-empresário e ex-deputado socialista Henrique Neto notou ainda que a preferência do PS pelo aumento do consumo privado, através da reposição mais rápida dos cortes salariais, da diminuição da sobretaxa de IRS e da TSU para os trabalhadores, tem um revés: “conduz quase sempre a um aumento das importações”.

E por isso o candidato independente a Belém tem reticências. “Obviamente não tenho nada contra o aumento das medidas a favor do consumo, mas antes disso é preciso medidas de substituição em certos sectores para não corrermos o risco de desequilibrar a balança comercial”, disse.

Henrique Neto, no Observador.

 

(Desta vez não resisti; passei «setores» a «sectores». Até por estar convencido - sinceramente - de que, ao sair da mente de Henrique Neto e ser atirada - indefesa - para a atmosfera, a palavra vinha com a consoante muda no lugarzinho dela.)

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As medidas do PS

por José António Abreu, em 21.04.15

Há quem considere este governo incompetente e, em mais aspectos do que seria desejável, talvez seja - mas de vez em quando mostra notável capacidade política. Duas propostas apresentadas pela ministra das Finanças na semana passada (redução da TSU e devolução dos cortes em 4 anos) podiam parecer extemporâneas e prejudiciais para as eleições. Hoje, o PS validou-lhes a lógica.

- Tendo obviamente que prometer devolver os cortes num período mais curto, os socialistas dispunham dos números '0', '1', '2' e '3'. Escolheram o '2'. Como há uns tempos advogavam o '0', não é de excluir que, se chegarem ao governo, apliquem o '4'.

- Mais hilariante, após clamar contra a descida da TSU, alegando que afectaria a sustentabilidade da Segurança Social, o PS também se propõe baixar baixá-la (em 4%). De onde viria o financiamento? De cortes nas pensões dos otários à espera de as receber a partir de 2021 (se votarem no PS, é bem feito) ou de qualquer outra solução que o governo da altura encontrar. É forçoso elogiar-se a coerência: seguindo a forma catita como Sócrates empurrou para o futuro os encargos com as PPP, o objectivo primordial dos socialistas continua a ser proteger votos e interesses instalados (perdão: adquiridos); quem vier depois que se desenrasque. (Eles cá estarão para prometer outras coisas e lixar ainda mais os seguintes.) Há pior, contudo: o PS dispõe-se a fazer incidir o corte na TSU sobre os 11% descontados pelos trabalhadores em vez de sobre sobre os 23,75% suportados pelas empresas. Este ponto autoriza maniqueísmos do género «o PSD alinha com o capital enquanto o PS está ao lado dos trabalhadores», que não deixarão de ser usados em campanha eleitoral, mas mostra também a diferença fundamental entre PS e PSD (não tenho a certeza quanto ao CDS) no que respeita ao modelo de desenvolvimento pretendido para o país. Enquanto o PSD anuncia a intenção de continuar a apostar na captação de investimento e no aumento da competitividade das empresas, de modo a que a actividade destas compense um aumento paulatino do consumo, os socialistas, inamovíveis pelo menos desde Guterres, continuam a acreditar que o simples estímulo ao consumo interno trará crescimento sustentável. Infelizmente, isso revelar-se-á falso (outra vez) e os estímulos apenas farão a balança de transacções pender para o lado errado (outra vez). O anúncio da eliminação da descida gradual do IRC (nascida de um acordo entre o governo e o PS, que os socialistas atiram agora para o lixo) segue exactamente a mesma lógica.

Das restantes medidas anunciadas, várias contêm o inevitável aumento da despesa pública, a compensar com receitas provenientes de um crescimento económico que, após meses a acusar o governo de optimismo descabido, o PS prevê ainda mais forte, e por aumento nos valores previstos para o défice (em comparação com os cenários do governo), mas há duas que me chamaram especialmente a atenção:

- Enquanto o PS de Sócrates garantia ir admitir apenas um funcionário público por cada dois que saíssem, o PS de António Costa promete adoptar a relação de uma entrada para uma saída. Com Costa, portanto, não haverá reduções adicionais de pessoal na função pública. (Se os socialistas governassem tão bem como sabem captar votos, estávamos todos ricos.)

- A intenção de limitar os contratos a prazo é piedosa mas havia de fazer um bem espectacular à taxa de desemprego.

 

Globalmente, as propostas socialistas são menos radicais do que muitos esperariam, podendo até desiludir alguns apaniguados da linha Galamba - Varoufakis. Ainda assim, revelam a incapacidade de sempre: perceber que o país necessita de ir alterando o seu modelo de desenvolvimento económico, sem o que todas as medidas de estímulo serão efémeras e, a prazo, contraproducentes. Mas que o PS não entenda isto dificilmente pode surpreender: afinal, trata-se do partido que, em 2011, levou o país à falência e, em 2015, está ele próprio quase falido.

 

Leitura complementar: Os gatos e os ratos, por Paulo Ferreira, no Observador.

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A Finlândia, então

por José António Abreu, em 20.04.15

A Finlândia é um país com cerca de 57% do PIB em despesa pública. Nos tempos que correm, pouquíssimas economias suportam valores destes (a Alemanha anda nos 44%, a Holanda nos 46%, a Suécia nos 50%), ainda por cima quando acabaram de sofrer golpes significativos (por exemplo: as sanções à Rússia fizeram cair as exportações, a Nokia entrou em queda e a sua divisão de telemóveis é hoje da Microsoft). Apesar disto, o défice público finlandês tem-se mantido abaixo dos 3%, a dívida  pública está razoavelmente controlada (em 2014 deverá ter ficado em torno dos 60%) e os números do desemprego, não sendo brilhantes, não podem ainda ser considerados catastróficos (abaixo de 9%). Também o nível de poupança dos finlandeses (cerca de 19,5% do PIB) é razoável, apesar de ter vindo a descer. (Em Portugal, o trajecto é o inverso: a poupança subiu de 9% do PIB em 2009/10 para mais de 15% em 2014.) Ou seja: a Finlândia tem margem para reformas e, mais coligação, menos coligação decorrente das eleições de ontem, provavelmente os finlandeses tratarão de as implementar, como fizeram no início da década de 1990. Em Portugal, com um sistema político menos fragmentado, elas têm-se revelado impossíveis - algo que não deixará de irritar os finlandeses, se alguma vez voltarem a ter de enviar dinheiro para cá. 

 

Dados: FMI, World Economic Outlook Database, Abril de 2015.

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Apesar, pois claro

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.04.15

Apesar de ser um badameco é primeiro-ministro

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Encargos e competitividade

por José António Abreu, em 17.04.15

O principal problema do país é a economia. Abebe Selassie, representante do FMI na «troika» (por cá ainda lhe chamamos assim?) durante a maior parte do período de resgate, disse-o em pelo menos um par de entrevistas: Portugal até pode ter um modelo de sociedade ao estilo nórdico desde que crie uma economia capaz de o sustentar. Note-se a ordem dos factores: primeiro a economia, depois o modelo social. A esquerda sempre achou que o inverso daria o mesmo resultado. Não dá. Não dá em Portugal, nem na Grécia, nem na Venezuela, nem sequer nos países nórdicos - que, perante quedas da economia, fazem o que nós recusamos fazer: ajustam o modelo social para a estimular (por isso a Suécia tem um sistema de pensões que a esquerda portuguesa recusa, por isso a «flexissegurança» nasceu na Dinamarca, por isso a Finlândia vendeu a maioria dos bancos a estrangeiros há cerca de 20 anos, por isso todos os países nórdicos têm um modelo de sistema de Justiça que a Constituição portuguesa impossibilita).

Como uma recuperação sustentada da economia portuguesa só pode basear-se nas empresas (de modo a - toda a gente o sabe hoje em dia - aumentar as exportações e diminuir as importações de bens e serviços), tudo o que puder fazer-se para lhes aumentar a competitividade é crucial. Daí as declarações de Manuela Ferreira Leite não fazerem qualquer sentido: é evidente que os encargos com o pessoal - e, especificamente, os encargos fiscais e contributivos - são importantes para muitas empresas. Porque, se menores, lhes permitiriam ser mais concorrenciais, ganhando encomendas e quota de mercado, ou até porque lhes possibilitariam aproveitar uma eventual folga para diminuir o nível de endividamento (uma ameaça para o futuro), investir em inovação e design, contratar novos funcionários (para os departamentos de inovação e design, por exemplo) e/ou motivar os existentes através de bónus ou aumentos de salário.

Mais abaixo, num texto intitulado O problema é outro, o Sérgio de Almeida Correia menciona a PT e o BES para defender que existem outros factores com implicação na saúde das empresas. Com certeza que sim. Porém, na actividade, na dimensão, nas margens decorrentes de negócios pouco expostos a concorrência global (ninguém por cá pode usar a rede AT&T e a maioria dificilmente obterá crédito num banco chinês), a PT e o BES não representam a empresa típica portuguesa. E, por importantes que os sectores financeiro e de telecomunicações sejam, também não representam o tipo de empresas em que Portugal necessita de apoiar-se para construir uma economia competitiva. Quanto ao facto de uns conseguirem e outros não, depende - como quase tudo na vida - de capacidades próprias e da conjuntura. Um governo não pode criar melhores empresários por decreto - mas pode e deve tentar melhorar a conjuntura (fiscal, burocrática, judicial) em que os que existem se movimentam.

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Pausa no modo campanha

por José António Abreu, em 16.04.15
PSD e CDS podem estar em modo eleitoral mas o governo, ainda que forçado pelas regras europeias, parece não ter perdido completamente o sentido da realidade. A oposição aproveitará para cavalgar a onda de desagrado e no início do Outono ver-se-á se a maioria dos portugueses aprendeu a principal lição que pode ser retirada dos últimos anos: quão doloroso é o custo das ilusões. Provavelmente, não. Pelo menos até um governo do PS ser obrigado a estilhaçá-las de novo, implementando medidas similares - ou piores, quiçá após pedir ajuda a um qualquer sucedâneo do «Grupo de Bruxelas».

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Olhando à volta, só posso estar doente

por José António Abreu, em 13.04.15

Estou-me razoavelmente nas tintas para as presidenciais.

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Por uma vez, concordo com o PS

por José António Abreu, em 10.04.15

Marcos Perestrello contesta a reorganização do sector das águas porque «com este sistema, o governo esbulha as câmaras municipais que geriram bem os seus sistemas, integrando o seu património na nova empresa, onde são também integrados os sistemas deficitários em milhões de euros». Passando por cima do excesso de «sistemas», tenho de reconhecer que Perestrello tem razão; é assim como os países que geriram bem as suas economias terem de assumir os prejuízos dos que não souberam ou quiseram fazê-lo.

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Quem é (ou, vá, era) amiguinho do BES?

por José António Abreu, em 28.03.15

Câmara Municipal de Lisboa permite que empresa ligada ao BES construa quase o dobro do que o dono anterior.

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Estabilidade é isto

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.03.15

Num outro local já tinha chamado a atenção para o que estava a suceder. Hoje li a confirmação. Continuamos no lixo. Não ignoro que a dívida pública continua subir, já passou os 130% mas, que diabo, não há-de ser isso a lixar-nos. A melhoria da balança de exportações, os cofres cheios, a antecipação do pagamento de uma parte das dívidas, o reconhecimento da chanceler Merkel e dos parceiros europeus, o percurso "imaculado" dos meninos do coro, a reeleição do Presidente da República, homem que era tu cá tu lá com os mercados e um referencial de solvabilidade do regime, o malandro do Sócrates metido no xilindró e a ver o sol aos quadradinhos, a supervisão do Costa a funcionar às mil maravilhas e a fazer um trabalho exemplar, o outro Costa a dizer aos chineses que estamos muito melhor, enfim, tanta coisa boa, todo um manancial de boas acções, de resultados positivos, de êxitos, e no fim continuamos no lixo. Porque será que a troika desconfia das perspectivas de médio prazo? Porque continuam as agências de rating insatisfeitas? Não há populistas nem partidos anti-sistema a subirem nas sondagens, a extrema-direita é inexistente, o centrão refina-se, a esquerda vegeta e definha entregue aos mesmos de sempre, o Lello continua com as lentes velhas, riscadas e embaciadas a botar discurso, os autarcas cerram fileiras. Entretanto, o primeiro-ministro diz no Japão que antevê Portugal como uma das nações mais competitivas do mundo. Os japoneses ficaram impressionadíssimos. Do mundo e arredores, faltou acrescentar esta parte. 

Quando um povo convive habitualmente com o lixo acaba por se habituar ao cheiro. O céu azul e o sol nos olhos cegou-o. Desde que o lixo não lhe tape o sol, a gente não se importa porque mesmo cega tem sol, mar e quem lhe dê música. Se um dia lhes tirarem o lixo ainda irão estranhar. Com medo que o sol que os faz assim lhes falte. 

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Justamente indignados, os cidadãos começam a agir

por José António Abreu, em 26.03.15

Cão do juíz Carlos Alexandre foi envenenado.

 

(Afinal, era o canídeo que tinha de se cuidar.)

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Listas VIP dos tempos de Sócrates e Pinto Monteiro

por José António Abreu, em 25.03.15

«No tempo do Dr. Pinto Monteiro, quem tinha processos mediáticos, como regra, acabava com um processo disciplinar», afirma. «Com este tipo de atitude não havia grande incentivo para investigar pessoas poderosas.»

António Ventinhas, presidente do sindicato do Ministério Público. Noutros tempos - desculpem-me o trocadilho primário -, iam-lhe às ventinhas.

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Notas rápidas

por José António Abreu, em 24.03.15

Estamos em tempo de invenção de polémicas. Qualquer dia, basta um ministro espirrar mais intempestivamente (o que me recorda algo). Agora foi a expressão «cofres cheios», de Maria Luís Albuquerque. Felizmente Tsipras e Varoufakis continuam por aí, chamando-nos a atenção para o quão preferível é tê-los vazios.

 

O socialista Henrique Neto avança para uma candidatura à presidência. Costa diz que lhe é indiferente, o que já significa muito. Vários apoiantes de Costa (e de Sócrates) são menos subtis. Augusto Santos Silva, sempre elegante, apelida Neto de «bobo». José Lello prefere chamar-lhe «Beppe Grillo» (nas entrelinhas, «palhaço», mostrando existir um elevado grau de coordenação no PS oficial, pelo menos em relação a certos temas). As reacções entendem-se: concorde-se ou não com todas as suas ideias (eu não aprecio uma certa visão dirigista que ele tem do Estado), Henrique Neto nunca se coibiu de criticar as políticas dos governos Sócrates. Para este PS, é bom que o presidente seja socialista – mas não que tenha ideias próprias e, pior, topete suficiente para as exprimir (algo que Guterres, lá do seu cargo dourado, nunca fez, e Vitorino - bom, fiquemos pelo «habituem-se» de 2005).

 

António Costa está claramente em modo de campanha, aparecendo um pouco por todo o país. Suponho que, para além de se gerir sozinha, a Câmara de Lisboa continua a pagar-lhe o salário. Fosse Costa líder do PSD ou do CDS e estaria a ser crucificado pelas mentes bem-pensantes que infestam as televisões.

 

Entretanto, Carlos César garante que um governo do PS compensará os lesados do BES. Enternece ver socialistas prometerem pagar prejuízos privados com dinheiros públicos. Mas não surpreende: já o fizeram no caso do BPN. Quaisquer esperanças de que tivessem aprendido a lição acabam de se esfumar. Uma das maiores mágoas de Ricardo Salgado só pode ser não ter encontrado António Costa como primeiro-ministro quando precisou de dinheiro público para salvar o grupo.

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Subscrevo

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.03.15

"Alguém me pode explicar por que razão é que o “não” dos responsáveis governamentais valia mais do que o testemunho de centenas de pessoas e das afirmações claramente sólidas do Sindicato? Mas o “não” de Passos e Núncio valia mais do que a denúncia de um facto e a palavra do Sindicato? Pois é, valia mas não valia. Só a subserviência ao poder explica que tão facilmente se aceite a palavra dos governantes. E Passos Coelho, que conhecia a notícia da Visão, não tem um assessor que lhe diga “seja prudente enquanto não se esclarecer esta história da acção de formação”, porque era isso que tinha que ser esclarecido? Não. O poder vive da hierarquia e uma mentira navega muito bem pela hierarquia acima quando é conveniente.

Homens sem qualidades não assumem responsabilidades." - José Pacheco Pereira, aqui, com todas as letras.

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Outra diferença

por João André, em 17.03.15

Outra diferença: José Sócrates não teve um BCE a comprar dívida.

Mais uma: Passos Coelho parece não ser alvo de prefácios, independentemente daquilo que faça.

 

Sabemos que Sócrates não é um menino de coro, mas é escusado andar a branquear a incompetência do governo de Passos Coelho.

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Uma diferença

por José António Abreu, em 17.03.15

Há muitas, nem todas confinadas ao plano político. Várias são importantes. Uma é fundamental. José Sócrates conduziu o país exactamente para onde os seus críticos afirmavam que ia conduzir: o limiar da bancarrota. Por muitos erros que lhe possam - e devam - ser imputados, Passos Coelho desmentiu os críticos: não houve espiral recessiva, nem segundo resgate, nem saída do euro. Evidentemente, isto também diz algo sobre a qualidade dos críticos - e as lições que, por incapacidade, conveniência ou má vontade, não se aprendem.

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Isto é Portugal (3)

por Joana Nave, em 15.03.15

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Aveiro | Portugal 

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O plural majestático

por José António Abreu, em 12.03.15

Hesito sempre que escrevo um texto sobre Portugal e os portugueses. Estando ciente de que Portugal e os portugueses são muitas coisas, há momentos (aqueles em que se mencionam estatísticas, por exemplo) em que ou se escreve como se perante uma entidade homogénea (e não, vá lá, com tendências aparentemente homogéneas) ou não se escreve. E é nesses momentos que surge o problema do plural majestático. «Não podemos fazer isto», «devíamos fazer aquilo», «somos assim ou assado» transmite a ideia de que me arrogo o direito de falar por todos. Mas escrever «Portugal é isto» ou «os portugueses fazem aquilo» causa-me outro problema. Por muito que frequentemente me sinta deslocado, sou português. E se o plural majestático pode indiciar presunção, as outras formas parecem-me ainda piores. É como se procurasse saltar fora do barco. Evitar dizer «nós» equivale a dizer «vocês».

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Um episódio que resume dois mandatos

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.03.15

O Prof. Reis Novais relatou no Prós e Contras um episódio a propósito da forma como o Presidente da República tentou convenientemente apropriar-se de um parecer pedido por Mário Soares aos Profs. Gomes Canotilho e Vital Moreira que é mais um exemplo, a juntar a tantos outros, da falta de estatura do actual titular do cargo. Os historiadores do regime vão ter um trabalho dos diabos para polirem o desempenho político do Prof. Cavaco Silva. Mudar de opinião não é coisa que se confunda com conveniências pessoais, oportunismo político e falta de coerência intelectual (para não dizer outra coisa). 

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Isto é Portugal (2)

por Joana Nave, em 07.03.15

_DSC1432.JPGMonserrate | Portugal

 

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Isto é Portugal (1)

por Joana Nave, em 06.03.15

_DSC0044.JPGZambujeira | Portugal

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Uma resposta brilhante.

por Luís Menezes Leitão, em 02.03.15

 

Quando questionada sobre se os Tratados europeus previam alguma reacção da UE em caso de comentários ofensivos entre chefes de governo de Estados Membros, a porta-voz da Comissão Europeia apenas relembrou que "existe um artigo sobre a liberdade de expressão."

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O eixo Espanha-Portugal

por Luís Menezes Leitão, em 01.03.15

Numa reunião do comité central do Syriza, o presidente desse partido Alexis Tsipras, afirmou o seguinte: "Descobrimos um eixo de poderes liderado pelos governos de Espanha e de Portugal que, por motivos políticos óbvios, tentou levar a Grécia para o lado, para o abismo durante todas as negociações". E acrescentou que "o plano deles era e é desgastar-nos, derrubar o nosso governo ou levar o nosso Executivo a uma rendição incondicional antes que o nosso trabalho comece a dar frutos e que o exemplo da Grécia afecte outros países, sobretudo antes das eleições em Espanha". Trata-se de liguagem tipicamente partidária, para consumo interno do Syriza, mas que não deixa de ter um fundo de verdade. Afinal de contas não foi a imprensa alemã que noticiou que Maria Luís Albuquerque tinha pedido a Schaeuble para ser duro em relação à Grécia?

 

Portugal e Espanha ficaram obviamente ofendidíssimos com as acusações de Alexis Tsipras. E para assegurar que não formam eixo nenhum, resolveram enviar um protesto conjunto em carta assinada por ambos — importam-se de repetir? — destinada aos presidentes da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e do Conselho Europeu, Donald Tusk. Presumo assim que estejam cortadas as relações diplomáticas com a Grécia, pois caso contrário seria de esperar que o protesto fosse enviado por via diplomática a este país. Claro que é altamente original governos protestarem por declarações feitas num encontro partidário, mas a confusão é tanta que já ninguém conhece as regras.

 

Em qualquer caso, esta reacção conjunta demonstra claramente que afinal Tsipras estava cheio de razão. Há, de facto, presentemente um eixo Espanha-Portugal. O que demonstra a falta que estão a fazer as comemorações do 1º de Dezembro no nosso país.

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O objectivo

por José António Abreu, em 27.02.15

Acontece que para os gregos, o euro não é apenas uma moeda a que a sua economia esteja mais ou menos adaptada. É um projecto político, um ideal: é a possibilidade de, um dia, viverem num país onde o Estado, dominado por interesses de todo o tipo (sindicais, empresariais, corporativos, clientelares, etc.), não abuse da moeda para servir esses interesses à custa de todos os outros cidadãos. É isso que os exercícios de análise económica não apanham, nem o discurso corrente da integração europeia, que reduz tudo a uma questão técnica: como conter, numa união monetária, economias divergentes e políticas contraditórias.

Rui Ramos, no Observador.

 

Não somente para os gregos. Para os portugueses também. De resto, não será apenas coincidência que, em Portugal, não obstante as incapacidades próprias do governo, as mil e uma obstruções que enfrentou e os interesses corporativos dos partidos que o formam, os últimos anos tenham revelado uma progressiva «limpeza» na relação entre o Estado e outras entidades. A forma como não se salvou o grupo Espírito Santo, a profusão de casos judiciais contra políticos e empresários, a limitação do (ou, pelo menos, a pressão pública contra o) poder discricionário de conceder favores (veja-se a polémica actual sobre o planeado perdão da autarquia de Lisboa a uma entidade com tantos fãs como o Benfica) são também efeitos de uma moeda que deixou de ser um fantoche nas mãos dos políticos.

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Regresso ao futuro.

por Luís Menezes Leitão, em 25.02.15

Portugal sob vigilância de Bruxelas por desequilíbrios económicos excessivos.

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Dr. Jekyll & Mr. Hyde

por José António Abreu, em 25.02.15

“Em Portugal, os amigos são para as ocasiões, e numa ocasião difícil em que muitos não acreditaram que o país tinha condições para enfrentar e vencer a crise, a verdade é que os investidores chineses disseram ‘presente’, vieram, e deram um grande contributo para que Portugal pudesse estar na situação em que está hoje, bastante diferente daquela em que estava há quatro anos”, disse António Costa.

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50 sombras de Abril

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.02.15

schneider-81817114_109208b.jpgNão tenho nada contra, apesar de não me parecer bem, digo-o já, que comentem em público desta forma despudorada o que andam a fazer em privado. Vir desvendar para os jornais que tiveram um "convívio", por sinal de natureza "íntima", que meteu almoço, na sede da Associação 25 de Abril, não creio que seja o mais curial para o bom nome das instituições que representam. Bem sei que o cavalheiro, embora um militar de Abril, sempre com o dedo no gatilho, não será o Marlon Brando. Nem a senhora presidente da Assembleia da República é a Maria Schneider. Mas, ainda assim, um pouco de recato não ficaria mal. Fico satisfeito por saber que foi "quente e agradável", pois é sinal de que o objectivo foi atingido. Ainda bem. Escusado era mandar o gabinete dizer que "vai repetir-se". Fica a vizinhança toda a saber e à espreita da próximo "convívio", o que pode inibir a performance, dando cabo da intimidade do momento. Além de que há pormenores que ninguém quer saber. E filmes que não são para todas as audiências.

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As galinhas não vão a Milão

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.15

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Em Outubro de 2014 já alguém tinha perguntado se seria verdade que Portugal não iria estar presente na Exposição Universal de Milão 2015. Ninguém fez caso do assunto. A confirmação chegou esta manhã.

O Público revela que por uma "bagatela" de 8 milhões de Euros, Portugal não estará presente na Expo 2015. O evento abrirá portas no próximo dia 1 de Maio. Dos países lusófonos Portugal e Timor-Leste serão os ausentes. Mas estarão lá outros 145 países.

A decisão, ao que parece, reside na ministra das gravatas, Assunção Cristas. E pese embora o tema da Expo 2015 ser "Alimentar o Planeta, Energia para a Vida", a ministra achou preferível prestar mais esse serviço, em nome do Governo que integra e do CDS-PP que a indicou, aos agricultores e exportadores portugueses. Ficando em casa também não correm o risco de se constiparem em Milão com a porcaria dos ares-condicionados, agravando as despesas do Serviço Nacional de Saúde na hora do regresso.

O secretário-geral da CAP diz que não sabe como foi possível deixar passar esta oportunidade. Luís Mira não sabe? Anda desatento, é o que é, pois só assim se percebe que não tivesse ficado calado. 

Compreende-se perfeitamente que promover Portugal e a sua produção agro-alimentar, dando consistência à tão apregoada diplomacia económica, não deverá inserir-se nas tarefas da ministra Cristas. E ir a Milão não é a mesma coisa que ir ao Brasil ou aos Estados Unidos ou vender chouriças em Macau.  

Acrescenta o jornal que o MNE mandou perguntar o que se passou ao gabinete do vice primeiro-ministro. Fez muito bem porque consta que Paulo Portas terá a responsabilidade pela diplomacia económica. Mas como este ministro não sabia de nada, o seu gabinete do ministro mandou perguntar ao Ministério da Agricultura. O procedimento seguido mostra que este foi mais um passo do guião para a reforma do Estado, pelo que lá seguiu, presumo, o ofício da praxe. Ou, quem sabe, a comunicação electrónica por recurso às novas tecnologias do defunto socratismo. De qualquer modo, confesso que já não sei se Paulo Portas ainda tem a responsabilidade pela diplomacia económica ou se só pela campanha eleitoral para as legislativas. Admito que para o caso seja indiferente. O ministro está sempre a ser traído pela pose de estadista e a agenda que de tempos a tempos nos dá a conhecer, mas quem o ouça percebe logo que tudo, com excepção do que dá para o torto, se insere nas suas tarefas. 

E também não vejo qual seja o espanto da ausência portuguesa. É natural que um país que apostou na diplomacia económica e que só num ano exportou 5450 milhões de euros de produtos agrícolas queira poupar cerca de 8 milhões de euros para não ter o incómodo de se mostrar num certame cujo número de visitantes se estima nuns míseros 20 milhões.

Esta ausência de Portugal da Expo 2015 é, aliás, reveladora da coesão da equipa governativa e do pensamento que o CDS-PP e o senhor primeiro-ministro têm da diplomacia económica. Trata-se, evidentemente, de mais uma demonstração da solidariedade portuguesa para com a Grécia, a Itália e a Espanha, que assim poderão ver os seus produtos ocuparem o espaço que estaria destinado aos mandriões dos empresários e agricultores portugueses.

Além do mais, estou certo de que todos concordarão que nos 150 milhões de euros que Portugal irá poupar todos os anos com os juros resultantes da antecipação dos reembolsos à troika - quem o disse foi aquela funcionária  do ministro Schäuble - seria muito difícil ir buscar o dinheiro necessário ao investimento para a participação portuguesa.

E também reconheço que seja mais fácil obrigar os portugueses a arranjarem o dinheiro necessário para se safar os estafermos do BPN e do BES do que fazer uma colecta entre os empresários portugueses que estivessem disponíveis para  financiarem a participação portuguesa. Isso não faz parte das tarefas de quem enche a boca com os agricultores e os pescadores portugueses e se dedica a perorar em tudo o que é feira e romaria entre um copo de tinto e um pastelinho de bacalhau, enquanto pisca o olho ao inquilino de Belém.

E mais do que compreender tudo isso, não posso deixar de aplaudir a coerência e a sábia estratégia que está por detrás da decisão de estar ausente de Milão. Todos sabiam que depois do descalabro socialista os portugueses teriam que viver com muito menos. Teriam de empobrecer até ao tutano para serem ainda mais felizes. Milão não é destino para donas de casa poupadinhas e arrumadinhas.

O único reparo que faço à estratégia seguida é que o seu programa de governo não tivesse revelado atempadamente aos portugueses que a imagem do seu impante Galo de Barcelos iria ser substituída pela de um galinheiro. Um galinheiro dependente de um par de matronaças somíticas, que de quando em vez se dignam ir à bolsa do seu avental buscar umas côdeas e umas couves que atiram para os frangos debicarem, assim mantendo os capões, outrora galos tonitruantes, à distância, com as cristas baixas e dependentes dos esclarecimentos que lhes queiram ser prestados. 

Não há imagem mais perfeita do caminho percorrido, do reconhecimento do trabalho de um tal Pedro Reis, das conquistas conseguidas com a troika, da excelência dos nossos produtores, da reforma do Estado e do apoio do Governo à estratégia de diplomacia económica, do que a do galinheiro. A imagem de um galinheiro, espelhada na indigência das nossas preocupações de Estado, no trânsito de ofícios entre ministérios e na notável e salazarenta avareza de que as nossas madamas dão mostras, é a única conjugável com a satisfação dos capões e o aumento de volume da pança dos novos "Tenreiros".   

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Da dignidade do Estado.

por Luís Menezes Leitão, em 22.02.15

Há uma coisa que há muito se perdeu em Portugal que é o sentido da dignidade do Estado. Mesmo antes do memorando, quando Sócrates foi chamado a despacho a Berlim por Angela Merkel devido à subida dos juros da dívida portuguesa, fui de opinião que um primeiro-ministro de Portugal não se deveria sujeitar a esse tipo de tratamento. E muito menos me pareceu aceitável que quando Sócrates foi derrubado — a meu ver já tarde porque Passos Coelho insistia obstinadamente em mantê-lo no cargo — a chanceler alemã tivesse o descaramento de ir criticar a decisão do parlamento português no parlamento alemão. Estou por isso muito à vontade para achar inaceitável que, entre duas reuniões do Eurogrupo, a Ministra das Finanças vá prestar vassalagem a Berlim, aceitando que o país seja exibido carinhosamente por Schäuble como exemplo a seguir. O governo pode naturalmente tomar as decisões que entender nas reuniões do Eurogrupo, contra ou a favor da Grécia. Mas já não me parece que o Ministro das Finanças de um Estado soberano deva contribuir para uma clara operação de spin do Ministro das Finanças alemão, na altura em que ele é contestado no seu próprio governo, precisamente pela sua instransigência em relação à Grécia.

 

Portugal segue com absoluto fanatismo uma estratégia que está completamente errada e que só pode trazer o desastre. O Syriza é um partido radical de esquerda, que em caso algum deveria estar à frente de um governo europeu. Se o está, é precisamente devido às constantes humilhações a que foram sujeitos os gregos pela troika, humilhações igualmente praticadas em Portugal, como agora Juncker veio reconhecer, para desgosto dos fanáticos que acham que ainda nos submetemos o suficiente. E nesse aspecto, se esta deriva não for invertida, a situação só pode ficar muito pior. As pessoas que hoje festejam a "hollandização" de Tsipras, devem pensar que a seguir a Hollande virá inevitavelmente Marine Le Pen, assim como um falhanço do Syriza na Grécia atirará o país para as mãos do Aurora Dourada. Numa altura em que a Rússia adopta uma nova atitude expansionista, que ameaça redesenhar o mapa da Europa, continuo a achar que os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo.

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As razões do pânico

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.02.15

"Seven years into the crisis, the eurozone economy is doing much worse than the United States, worse than Japan during its lost decade in the 1990s and worse even than Europe in the 1930s: GDP is still 2 percent lower than seven years ago and the unemployment rate is in double digits. The policy stance set by Angela Merkel’s government in Berlin, implemented by the European Commission in Brussels, and sometimes tempered — but more often enforced — by the European Central Bank (ECB) in Frankfurt, remains disastrous. (...)

The belief that Greece has little leverage in its negotiations with eurozone authorities is false. If no agreement is reached and Greece is illegally forced out of the euro by Berlin and Frankfurt, it would doubtless default on all its debts to both eurozone governments and the ECB, as well as the Bank of Greece’s Target 2 liabilities. Speculation would soon start about which country might be next to exit the euro — Portugal? — and the single currency would suddenly look eminently revocable.

Do Berlin and Frankfurt really want to push Athens over the brink? I doubt it. Especially since, freed of its external debt and an overvalued exchange rate, Greece would doubtless be growing again once the immediate chaos subsided. After all, even an economy as badly managed as Argentina started growing again only a year after the government defaulted and junked its dollar peg in 2002." - Foreign Policy

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.02.15

"Neste plano, a Alemanha surge como a maior detentora de dívida contingente, que atinge 145% do PIB, seguida da Holanda com 111%, apresentando a Grécia um dos valores mais baixos com cerca de 17% e Portugal cerca de 70% do PIB. Quer isto dizer que se fizermos uma análise mais rigorosa e transparente da dívida pública teremos de adicionar a divida formal à dívida contingente, o que tem como resultado que a Irlanda terá a maior dívida pública com 234% do PIB, seguida da Alemanha com 222%, à frente de Portugal com 198% e da Grécia com 192% do PIB." - Miguel Santos Neves, OJE

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Café da manhã p'ra dois sem saber o que virá depois, bem bom!

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.02.15

jean-claude-juncker-fac9.jpgEntão este tipo não foi aquele que Passos Coelho e o Governo português consideraram o melhor candidato à sucessão de Durão Barroso? Não foi este sujeito que veio a Lisboa pedinchar apoios? Não foi este um daqueles a quem o Governo português prestou vassalagem? Não era com ele que ficávamos em óptimas mãos? Não era este gajo que conhecia a Europa de todos os ângulos POSSÍVEIS? E que enquanto primeiro-ministro do Luxemburgo ajudou uns quantos a safarem os euros do fisco? E agora o tipo vem reconhecer as borradas e fazer um acto de contrição, para salvar a face perante o gajo da Grécia, e mandam o Marques Guedes fazer de conta que é o Lomba? Que será feito do Moedas? Andará a contar cêntimos ou a comprar peúgas em Bruxelas? O tipo não diz nada? Não tem autonomia para isso? Será que Passos Coelho pensa que lá por estarmos no Ano da Cabra somos todos uns cabrestos?

O Carlos Carreiras ou o Duarte das vírgulas devem estar a preparar um texto magnífico para justificar mais esta ..... (completar de acordo com o estado de espírito do momento).

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Tivoli

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.02.15

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(foto DN)

O hotel já foi um símbolo de Lisboa. Depois tornou-se num símbolo da cartilha liberal da Avenida da Liberdade. Em matéria de presunção não faltava nada aos executivos que o frequentavam à hora do almoço.

Agora ficamos a saber que também estão falidos. Nem dinheiro para a água e a luz têm. Um desastre. Quando se fizer o levantamento do que se arruinou na presente legislatura, sempre com o beneplácito do inquilino de Belém e dos incompetentes da troika, dando alegre continuidade ao que já vinha da anterior legislatura, não será bonito de se ver. Bastará olhar para o índice. Metade do país e da classe política presa seria pouco.

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"Bild Zeitung has devoted two pages to warnings that Grexit would cost Germany €65bn, or much more once the Bundesbank's Target2 payments though the ECB system are included. The unpleasant discovery that Germany's Target2 exposure can in fact go up in smoke - despite long assurances that this could never happen - might make it untenable to continue such support.

It is unfair to pick on Portugal but its public and private debts are 380pc of GDP - the highest in Europe and higher than those of Greece - making is acutely vulnerable to toxic effects of deflation on debt dynamics.

Portugal's net international investment position (NIIP) - the best underlying indicator of solvency - has reached minus 112pc of GDP. Public debt has jumped from 111pc to 125pc of GDP in three years. The fiscal deficit is still 5pc. The country's ranking in global competitiveness is close to that of Greece" - The Telegraph

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Portugal não é a Grécia.

por Luís Menezes Leitão, em 11.02.15

Desta vez não tenho quaisquer dúvidas sobre o rigor absoluto desta frase. Enquanto Portugal se assumiu sempre como um protectorado, a Grécia afirma preto no branco que não é um protectorado e que têm de saber com quem se estão a meter.

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É claro que isto só lá vai com dinamite

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.02.15

"Fernando Seara, o líder da oposição social-democrata na Câmara de Lisboa, decidiu colocar como assessor do gabinete de apoio aos três vereadores do PSD o anterior presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica.

Rodrigo Gonçalves, que é actualmente vice-presidente da bancada social-democrata na Assembleia Municipal de Lisboa e vice-presidente da concelhia local do partido, foi acusado pelo Ministério Público, no Verão passado, pela prática do crime de corrupção passiva no exercício das suas funções autárquicas em São Domingos de Benfica. (...)

Desde o início deste mandato, em Outubro de 2013, o PSD já contratou oito assessores e funcionários administrativos para apoio aos seus vereadores. Entre esses assessores está a mulher de Rodrigo Gonçalves, que entretanto rescindiu o contrato. (...)

Entre os actuais assessores do PSD na câmara encontra-se Jorge Santos, administrador de uma agência de comunicação, que recebe 1500 euros por mês e Diogo Agostinho, um jovem economista que tem uma avença de 900 euros mensais e foi contratado no ano passado para o Gabinete de Auditoria Interna da Misericórdia de Lisboa. Um outro membro do gabinete é Magalhães Pereira, candidato derrotado à presidência da Junta de Campolide em 2013, que tem uma avença mensal de mil euros." - José António Cerejo, Público, 07/02/2015

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Não desperdiçar capital em negociações

por José António Abreu, em 06.02.15

Por isso, é defensável que Portugal tenha uma posição clara e inflexível sobre o assunto: queremos exatamente as mesmas condições que forem oferecidas aos gregos. Se quiserem usar esquemas que só se apliquem a eles, estamos contra, em nome da igualdade na Europa. Se as negociações não forem a lado nenhum, não temos problema com isso. Não defendemos as propostas gregas, não temos de concordar com elas, nem podemos ser contados como aliados de ninguém nas negociações ou gastar qualquer capital em nenhuma negociação. Entramos nas reuniões mudos e saímos calados.

Ricardo Reis, no Dinheiro Vivo. Vale a pena ler o resto do artigo, no qual se abordam as questões da conversão da dívida grega em perpetuidades e do pagamento indexado à taxa de crescimento da economia.

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A Mardis fechou

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.02.15

i.axd.jpgForam poucos dias. Suficientes para encarar a realidade que deixei para trás. Quando se está fora é sempre mais fácil olhar para dentro. Para trás idem. E imaginar como tudo teria sido se também eu tivesse ficado. Quando se vê o fio dos dias sem se conhecer o dia seguinte, vendo a esperança esvair-se na confrontação do seu reflexo, o que de material se possa ter deixado perde significado. Só o reconhecemos ao mergulhar de novo na piscina de onde se saiu e onde agora tantos tentam manter-se à tona.

Fiz múltiplas tentativas. Fui às páginas brancas e às amarelas. Procurei na Internet. Nada. Havia números que continuavam a chamar, outros com uma gravação que dizia que não estavam atribuídos, e os que restavam nem sequer davam sinal. Seria possível terem alterado todos os números? Decidi-me a passar por lá quando fosse a Lisboa. Conhecia a casa há mais de vinte anos. Desde o momento em que consegui comprar o meu primeiro Alfa Romeo, os meus carros nunca conheceram outras mãos. Primeiro sob a batuta do Sr. Augusto, até este dar uma queda e se reformar. Depois com a atenção do Leonel, que se tornaria no chefe da oficina, e dos seus colegas. As meninas da recepção, senhoras, sempre atenciosas. Ali, eu sabia que aquela gente não perdia tempo, conhecia os pormenores, não confundia o barulho de um amortecedor velho ou danificado com um apoio do motor partido. Sabiam o que faziam e faziam-no bem, de forma competente, razoavelmente económica, não esquecendo que os meus carros eram, para além de uma paixão, uma extensão prática de mim, pelo que tinham pouco tempo para se entregarem aos seus cuidados. De quando em vez lá ficavam mais um dia, para uma revisão mais profunda, mas era raro. Sempre impecáveis, sempre a brilharem, com uma sonoridade única.

Quando lá cheguei dei com as portas fechadas. Os vidros cheios de pó. Estacionei e fui ler o aviso amarelado que estava afixado: Estimados Clientes: Informamos V. Exas. de que esta oficina estará encerrada entre os dias 11 e 30 de Agosto. Percebi logo o filme. Sem saber o que fazer, aventurei-me a entrar pela drogaria do lado e perguntei ao proprietário se sabia o que tinha acontecido aos vizinhos da oficina, se sabia onde parava o pessoal. O homem levantou os olhos, olhou-me fixamente e disse: "Fecharam e nunca mais abriram. Uma casa com mais de quarenta anos. Às vezes ainda passa por aí um dos mais velhos para levantar a correspondência, mas há muito tempo que não vejo ninguém. Isto está uma desgraça. Não sei onde irá parar".

Eu também não sei. Normalmente, quando não cai, a montanha-russa só pára no fim. Não se consegue sair a meio. Logo agora, ao fim deste tempo todo, e com o pouco tempo que tenho, ter de ir à procura de alguém que saiba olhar para os meus carros, que conheça a marca, a história, a tradição. Das últimas vezes já desconfiara da falta de stocks, da necessidade de combinar primeiro o que queria fazer para depois passar por lá. Agora acabou-se. A Mardis fechou. Finou-se.

A Mardis é apenas um caso. Ficava ali na Luciano Cordeiro. E no seu meio era uma casa cujas máquinas eram tão afamadas quanto as do seu não menos conhecido vizinho. Cada um no seu ramo, é certo. Mas embora trabalhando a horas diferentes, penso que não se podia dizer que a qualidade de serviço da Mardis fosse inferior à do Elefante Branco.

Casos como o da Mardis repetem-se por esse país. Muito antes fora assim no Algarve. Faro desertificara. A Rua de Santo António já era em 2013 uma sombra do passado. Até o Constantino, do Baía, fechara portas e abalara. Ficou o António Manuel. Para ir ficando com os espaços que fechavam. Em Cascais fora o mesmo. É só começar a descer a Rua Direita. É porta sim, porta sim. Tudo às moscas. Num restaurante, que em tempos foi uma referência e um ex-libris da vila, há gente com três meses de salários em atraso. E parece que a patroa se amofinou quando a mulher de um dos trabalhadores lá foi tirar satisfações. Queria saber quando é que o marido iria receber. A fidalga.

Penso que nunca comi tão barato como nas últimas semanas. As lojas de roupa sobrevivem com vestuário a preços que quase não deve dar para pagar a matéria-prima. Sapatos quase de borla. As prateleiras cheias. Clientes nem vê-los. Da FNAC à Labrador, da Bulhosa à Bertrand, da Wesley à Boss, da Hélio à Loja das Meias. Nesta última, ali nas Amoreiras, eram mais os empregados que os clientes. Alguém terá de lhes pagar os ordenados.

Andei por aí. Fui ao Lidl, ao Jumbo, ao Continente. Olhei para as pessoas. Sem querer reparava no que levavam enquanto esperava a minha vez nas caixas. Algumas vezes me senti desconfortável com o que levava. Nada de especial. Mas quando se levam duas garrafas de um vinho decente e mais meia-dúzia de coisas que perfazem mais de uma centena de euros e se encontra alguém na caixa, com idade para ser minha avó, a quem falta 1,20 euros para pagar uma conta de 13,00 euros de um pequeno cabaz de iogurtes, leite, pão e duas maçãs, a gente fica sem jeito. Deixe estar, minha senhora, pode levar as compras. Eu pago o que falta. O olhar agradecido, envergonhado, um obrigado recolhido enquanto guardava os poucos cêntimos que restavam.

Ao mesmo tempo, na Urgência do Hospital de Cascais não havia lugares para uma pessoa se sentar. Eu ia para ficar à espera. Não era utente, quero dizer. Na TSF, num desses habituais fóruns onde se bota discurso, discutiam-se as mortes nas urgências, as taxas moderadoras. Alguém falava em cerca de  30,00 pela consulta e pelo exame que lhe mandaram fazer. Na farmácia fiquei a saber que os medicamentos para as hemorróidas não tinham comparticipação. O das unhas também não. Um fulano perguntava se de um outro medicamento não havia genérico. O farmacêutico dizia que sim, havia mas não lhe podia vender porque o médico colocara a cruzinha. E o homem insistia. Queria o genérico. Não tinha dinheiro. Havia um parecido, mais barato, não era bem aquilo mas fazia o mesmo efeito. Não ia voltar à consulta e a médica não saberia de nada. Então levo esse, disse ele.

De caminho passei por duas universidades. Almocei numa delas. Dois estudantes vieram sentar-se ao pé de mim. Tinham vindo colaborar com a organização e assistir à conferência. Afáveis, eu era convidado, sentaram-se ao pé de mim. Fizeram-me companhia. Falei com eles. Eu comi o prato do dia, bebi um refrigerante, no final a sobremesa e um café. Tudo por menos de cinco euros. Eles comeram uma sanduíche de ovo e beberam água. Pão e água. Falei com eles. Senti-me mal, como fosse responsável pela sua situação. Nenhum deles se queixou. Queriam acabar os cursos. Um era músico nas horas vagas. Iria nesse fim-de-semana para um bailarico. No Alentejo. Sempre era uma ajuda para as propinas. Nesse dia jantei em Lisboa. Ali para o Príncipe Real. Quando no final me pediram 16,00 euros pensei que se tinham enganado. Com o que comemos? Sim, está tudo incluído, o vinho também. Fiquei em silêncio. Paguei a minha parte. Como se pertencesse a outro mundo. A outra gente.

Não posso voltar para trás. Ninguém pode. Lá atrás só ficam os que não conseguem escapar. E os que roubaram. Dois milhões é obra. Falo de pobres. A raspadinha não é o BES nem a SLN. Não dá tanto.

Em Portugal, a urze cresce em qualquer lado. A pobreza é uma espécie de urze. Os pobres vivem dentro das suas possibilidades. Quando se vive dentro das possibilidades não se pode voltar para trás. Não há dinheiro para isso. Os pobres vivem dentro das suas possibilidades. Os pobres são como os velhos: também não podem voltar para trás. Pelo menos enquanto respirarem. Depois também não voltam para trás. Já ficaram para trás. Eles e as suas necessidades.

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O maior apoio que Passos Coelho já recebeu?

por José António Abreu, em 05.02.15

Alberto João Jardim admite candidatura à Presidência da República mas sem apoio do PSD porque «a minha relação com Passos é inconciliável.»

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Depois quero saber dos outros

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.01.15

Congratulo-me com a decisão e a postura assumida pela senhora Presidente do Conselho das Ordens Nacionais. Espero, aliás, que idêntico procedimento seja seguido em relação a todos os que se encontram na mesma situação ou que venham a estar. Não só por respeito pelo princípio da igualdade mas, igualmente, para que aos poucos se possa ir corrigindo a desbunda anual da atribuição de comendas e medalhas às mais obscuras personagens, protegendo-se aqueles que efectivamente as mereceram e não podem ficar no mesmo saco de quem, como se vê, não foi digno de as merecer.

E também espero que a cor política, seja ela rosa, laranja, azul bebé ou amarelo às riscas, não seja impedimento à actuação dos agentes do Estado que têm a responsabilidade de ajudar a República a recuperar, aos poucos, os seus princípios e a sua própria dignidade, deixando de ofender os portugueses e quem, como o Infante D. Henrique, não devia ter o seu nome envolvido no escândalo.

Escusava de ser assim, mas se a correcção da falta de critério, e também de algum bom senso de quem as tem proposto e atribuído ao longo de 40 anos de democracia, não pode ser feita de outra forma, então que seja assim. Já basta a choldra anual.

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Portugal, passado e futuro próximos

por José António Abreu, em 06.01.15

A grande diferença entre Portugal e a Grécia foi que, aqui, houve uma coligação de governo que, sob escrutínio do Presidente, durou e sustentou o ajustamento durante quatro anos. A actual maioria de direita teve ainda este efeito fundamental: dispensou o PS de se comprometer e deu-lhe uma razão para se impor, à esquerda e entre os descontentes, como o líder necessário de uma maioria alternativa. Deste modo, os partidos tradicionais do regime retiveram os seus eleitorados, sem deixar muito espaço até agora para novos populismos e extremismos.

[…]

Convém não esquecer como isto começou. O projecto do Euro pressupunha uma nova fase de modernização das sociedades inflacionistas do sul da Europa. Em vez disso, o crédito barato do euro serviu para alimentar o endividamento e adiar o confronto com os parasitismos (sindicais, empresariais e corporativos). O resultado foram economias ainda menos competitivas e sobrecarregadas com a incerteza das dívidas.

A questão continua a ser política: é preciso que o regime, se quer preservar o quadro da moeda única, adquira o poder necessário para resistir ao facilitismo e contrariar os interesses instalados. Ora, neste momento aproximamo-nos do prazo de validade das condições de estabilidade dos últimos quatro anos. Em 2015, a actual maioria pode não ser renovada. Em 2016 o Presidente será necessariamente substituído. Como será encontrada uma “solução governativa estável, sólida e consistente” numa assembleia em que, por hipótese, nem a aliança do PSD e do CDS, nem o PS sozinho possam garantir uma maioria absoluta?

Rui Ramos, no Observador.

 

E depois há a questão do PS, garantindo uma maioria absoluta, ter de esquecer o futuro cor-de-rosa com que anda a acenar (enfim, Costa pode sempre torcer para que a Grécia conquiste para os países do Sul o direito ao laxismo orçamental, à custa de transferências massivas de fundos a partir dos do Norte) e continuar (ou, em alguns casos, iniciar) reformas que actualmente contesta. A mudança (implícita no texto de Rui Ramos) apenas surpreenderia os ingénuos do costume mas são eles que lhe podem dar a vitória nas legislativas.

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