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Não há milagres

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.08.17

O trabalho que a edição de hoje do Público nos dá a conhecer, da autoria da jornalista Cristina Ferreira, é capaz de causar náuseas a muita gente, e não é aconselhável a pessoas sensíveis. Mas pior do que confirmar tudo aquilo de que já se suspeitava é saber que até agora, em Portugal, continua tudo em águas de bacalhau.

Um país que se deixou governar em termos tais que permitiram que acontecesse tudo o que nessa reportagem se descreve não pode queixar-se de nada. Muito menos de "qualquer um" se querer aí instalar. Estão já todos instalados, e bem instalados, há décadas, aguardando serenamente que chegue a hora das abluções. Está feito e é irreversível.

Gestão danosa? Há quem chame outros nomes menos consensuais.

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Até não restar nada para queimar

por Pedro Correia, em 15.08.17

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O País arde. Literalmente. Nunca ardeu tanto como agora. Mais de um terço da mancha florestal europeia queimada ao longo deste ano em toda a União Europeia pertence a este pequeno país com reiterados sonhos de grandeza: 140 mil hectares de zona verde tornaram-se área interdita, carbonizada, danificada, inutilizada. O equivalente a cento e quarenta mil campos de futebol.

Num único dia, sábado passado, houve 268 incêndios - novo e triste e lamentável máximo nacional.

Em muitos destes casos - talvez mesmo na maioria - onde havia árvores nada mais haverá doravante do que mato rasteiro e daninho, futura matéria combustível. Em qualquer dos casos, muitas das populações afectadas - talvez mesmo a maioria - não viverão tempo suficiente para ver crescer árvores outra vez à dimensão de outrora. Numa espécie de prenúncio da morte ainda em vida.

 

Vejo este país a arder. Hoje em Vila de Rei ou Tomar como ontem em Pedrógão. Hoje em Oliveira do Hospital como ontem em Alijó. Hoje em Sabrosa como ontem em Mértola. Hoje em Ferreira do Zêzere e Cantanhede como ontem em Mação ou Abrantes.

As chamas não devastam apenas a paisagem física: destroçam também a paisagem humana e social. Porque as parcelas do País que ardem são as do Portugal desfavorecido, envelhecido, esquecido. Um país que há-de emergir das cinzas ainda mais distante do risonho e soalheiro país litoral, que ocupa sempre a fatia mais volumosa das telediários e das publirreportagens invasoras em grau crescente dos espaços noticiosos, algumas das quais a recomendar-nos hotéis de luxo e restaurantes polvilhados de estrelas Michelin a preços obscenos.

 

Vejo a minha Gardunha a arder, vejo as chamas invadindo essa jóia irrepetível que é a aldeia de Castelo Novo, na vertente sul da serra - e sinto o que sentem tantos outros portugueses perante a destruição de paisagens familiares que lhes são tão queridas.

A fúria, a mágoa, a frustração, a impotência perante o crime e os palradores de sofá em Lisboa que nos intervalos das tricas políticas ainda ousam apontar o dedo acusador aos poucos que persistiam em morar nas zonas agora devoradas pelas chamas, acusando-os de plantar o que não deviam.

Ali quase não havia eucaliptos: havia muitos castanheiros, muitos carvalhos, muitos pomares - com destaque para os cerejais em que se ancorava boa parte da frágil economia local. Tudo isto já pertence ao passado.

 

Empreguei sem reservas nem remorsos a palavra crime porque é disso mesmo que se trata perante fogos iniciados em simultâneo, quase sempre de noite ou de madrugada, em fragas e penedias de difícil acesso. 

É uma palavra de que os políticos fogem, preferindo outras - sem asperezas, sem rugosidades, naquele discurso redondo que tanto cultivam e nada tem a ver com a linguagem comum. Falam nas mudanças climáticas, nos "efeitos do aquecimento global" e nas "décadas de desordenamento das nossas florestas", como se só em Portugal houvesse temperaturas altas e florestas desordenadas.

Refugiam-se no abstracto para iludir responsabilidades concretas.

Nem uma só vez oiço qualquer deles aludir à palavra que parece queimar também. A palavra crime.

 

Enquanto não houver uma mobilização nacional contra os fogos criminosos, enquanto os políticos continuarem a contornar a questão, enquanto não houver a noção inequívoca de que os responsáveis por esta  catástrofe ambiental e humana não podem permanecer impunes, o País continuará a arder.

Até não restar nada para queimar.

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Entrava pelos olhos

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.07.17

"Nunca vi uma direcção capaz de organizar uma campanha política em torno de zero de fundamentos, a propósito de um tema como a morte das pessoas. 

Os partidos da oposição deviam pedir desculpa por se terem enganado e terem corrido atrás de uma especulação para a qual não havia o menor fundamento. São erros de táctica juntos a um erro de estratégia que não tem volta. O homem que teve o infeliz episódio dos suicídios devia pensar, não é duas vezes, dez vezes antes de voltar a falar em coisas deste tipo."  

 

"Dá ideia de que o número de 64 mortos não era suficiente. É uma coisa perfeitamente impensável que nos últimos dias se tenha alimentado esta discussão, que ainda por cima era assente numa especulação, (...) especulação que nos últimos dias foi sendo alimentada pelos partidos da oposição. (...) De facto, é surrealista a oposição achar que nos tempos que correm, como dia Marcelo Rebelo de Sousa, numa país que é democrático, não pode ser comparado, como muitas pessoas têm feito, com as cheias de 65 [67]. Nós não vivemos no Estado Novo, vivemos numa democracia (...). Não faz sentido nenhum pensar que o Governo tinha uma lista escondida de mortos. (...) Então quantos mortos é que o PSD precisava para levar o caso à Assembleia da República para ter o seu debate urgente? (...) É isso que o PSD e o CDS estão a discutir? Eu acho que o Governo cometeu muitos erros (...). O Governo pode ter errado, mas a oposição consegue, é uma habilidade deles, não capitalizar com os erros do Governo, embora este caso não se preste a capitalizações. E é nisto que eu acho que o PSD e o CDS cometeram um erro de morte, que é pensar que podiam ter tido vantagens partidárias de uma tragédia destas. (...) É errado do ponto de vista ético e político. (...) É o grau zero da política."  

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Simples, simples é cobrar aos pobres e remediados

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.07.17

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Eu já tinha sido alertado para esse problema, só que estando longe por vezes tenho mais dificuldade em aperceber-me dos contornos do que vai acontecendo em Portugal.

Desta vez recebi um email dessa mais do que centenária instituição criada por "Carta de Lei de 10 de Abril de 1876, no reinado de D. Luís, sendo na altura Ministro da Fazenda Serpa Pimentel e presidente do 34º Governo Constitucional Fontes Pereira de Melo". Inicialmente criada para recebimento de depósitos obrigatórios, quatro anos depois da sua fundação viria a ser determinada – Carta de Lei de 26 de Abril de 1880 – a criação da Caixa Económica Portuguesa, administrada pela Junta do Crédito Público, por intermédio da Caixa Geral de Depósitos, cujo objectivo era "o recebimento e a administração de depósitos voluntários de pequenas quantias, com o propósito expresso de difundir, promover e incitar nas classes menos abastadas o espírito de economia".  

Os tempos mudaram e depois de múltiplas vicissitudes, a CGD acabaria por se transformar numa sociedade anónima de capitais públicos com uma natureza de banco universal e puramente concorrencial. Apesar disso, a CGD continua a referir ser sua missão "a oferta de soluções para as necessidades financeiras das famílias portuguesas ao longo dos vários momentos do seu ciclo de vida, fomentando a poupança e o investimento nacional".

Não vou perder tempo com a lengalenga que a CGD verteu para o seu site na Internet, mas gostaria de chamar a vossa atenção para o problema que me leva a escrever estas linhas e que, penso eu, afecta largas centenas de milhares, eventualmente milhões de portugueses que desde sempre contaram com a CGD para se protegerem dos BES, dos BANIF, dos BPN e dos BPP da nossa praça.

Acontece que, depois de ter servido de porto de abrigo para clientelas várias, dando emprego a múltiplos comissários políticos, e distribuindo o dinheiro que estava à sua guarda de múltiplos pequenos, médios e grandes depositantes por negócios ruinosos, sem quaisquer das garantias que pedia a um pequeno contribuinte que precisasse de uma dúzia de euros para comprar um apartamento T1 na Brandoa, a CGD vai entrar, presumo que com o aval do Presidente da República e dos responsáveis pela nomeação da actual administração, numa fase em que de banco dos portugueses pobres, reformados e remediados, das pequenas e médias empresas, dos emigrantes e dos pequenos aforradores, se vai transformar num banco para ricos num país onde os ricos têm o dinheiro noutros bancos e em bancos fora de portas, não precisando da CGD para nada.

Na sequência de uma notícia de Junho passado", a CGD anunciou que vai mudar as condições das contas bancárias para criar, diz a publicidade, uma "conta caixa à medida". Pensava eu que seria à medida dos seus clientes, isto é da maioria dos seus depositantes, e que isso seria feito tendo em atenção a sua missão de "oferecer soluções financeiras para as famílias portuguesas", "fomentando a poupança  e o investimento nacional", dando mostras de "uma actuação socialmente responsável", respeitando os "interesses confiados" e os princípios da "não discriminação, tolerância e igualdade de oportunidades". Mas não, enganei-me. As contas de depósito na CGD vão deixar de respeitar todos esses princípios que são apregoados pela instituição e que seriam de esperar da actuação de um banco público responsável e socialmente comprometido.

Com efeito, de acordo com esse referencial de sensibilidade social e respeito pelos mais desfavorecidos que é o Dr. Paulo Macedo, a partir de agora só os clientes com mais de 65 anos de idade e pensão de reforma inferior a 835,50 euros é que continuarão a não pagar pela conta à ordem. Todos os outros, que em tempos foram convidados a abrir contas na CGD para domiciliação dos seus rendimentos – salários e/ou pensões – ou com património financeiro igual ou superior a 5.000 euros, o que na perspectiva do Dr. Paulo Macedo e de quem o nomeou deve fazer deles uns "Gulbenkians", vão passar a pagar para ter o seu pouco dinheiro guardado na CGD.

Perante o que me foi esclarecido pela instituição e vem no jornal, esses ricaços, se quiserem manter uma isenção de pagamento para serem clientes da CGD, "passam a ser obrigados a ter cartões de débito e de crédito e a utilizá-los pelo menos uma vez por mês, o que implica uma despesa efectiva, tendo em conta o custo (anuidade) destes produtos, a que podem acrescer ainda juros, se passarem a utilizar o fraccionamento dos pagamentos a crédito".

Uma vez que os juros que a CGD já hoje paga são absolutamente ridículos para quem lá tem as suas poupanças, calculo que seja por esta via que esse banco onde ainda existem, ao que me dizem mas poderei estar enganado, "capitais públicos", deve pretender estimular a poupança dos portugueses, captar os depósitos dos emigrantes e cumprir a sua função social, de acordo com os referidos princípios da não-discriminação, da tolerância e da igualdade de oportunidades, dando a todos, incluindo desempregados, reformados e pensionistas a possibilidade de imaginarem que continuam a sustentar os desvarios da maltosa dos defuntos BES e BPN, bem como de todos os outros cujos administradores e accionistas se encheram convivendo alegremente com o poder político enquanto o país e os portugueses empobreciam.

Com os novos critérios da CGD, quem lá tiver rendimentos domiciliados, vencimento ou pensão ou for titular de património financeiro acima de cinco mil euros, com um cartão de débito, que é hoje algo indispensável no nosso quotidiano, terá de pagar numa "Conta S" a módica quantia de 30,00 euros por ano. Sem isso irá pagar 40 euros anuais. Se for parar a uma "Conta M" vai pagar entre 48 e 72 euros anuais, e numa "Conta L" pagará entre 84 e 108 euros por ano. Em termos sumários é isto.

Eu compreendo que seja necessário pagar os salários do Dr. Paulo Macedo e daquela catrefa de administradores, entre executivos e não-executivos, que a CGD tem, e que também importe pagar os desmandos das últimas décadas, as reformas com valores mensais de muitos milhares de euros de gente tão respeitável como o Eng.º Mira Amaral, a Dra. Celeste Cardona ou o Dr. João Salgueiro, e de outros que por lá passaram durante uma dúzia de meses; ou os empréstimos que a CGD  andou a fazer para financiar as compras de acções noutros bancos com o dinheiro dos depositantes e contribuintes, empréstimos que depois tem dificuldade em cobrar. Como também compreendo que seja necessário recuperar os quase quatro mil milhões de euros que a CGD perdeu em seis anos, mais os créditos de cobrança duvidosa dos empréstimos aos amigos e os prejuízos de 38,6 milhões decorrentes das saídas do pessoal, já sem falar nas aventuras algarvias.

Mas para além da informação que é dada para a maioria dos clientes que são abrangidos pelas novas regras ser pouco clara e confusa, também confesso que não percebo por que razão clientes como eu e outros que em nada contribuímos para os desmandos que ocorreram na CGD ao longo de décadas, com o aval do poder político, para enriquecimento da cambada que com pouco ou nenhum esforço se aproveitou da democracia para singrar, destruir a economia nacional e empobrecer o país, vamos agora ter de pagar a virtuosa gestão do Dr. Paulo Macedo e seus compinchas, e bem ou mal a dos que os antecederam, acabando todos "empacotados" em "contas-pacote".

Não sei de quem foi esta brilhante ideia de colocar uma vez mais os portugueses com poucos rendimentos e que não têm hipóteses de colocar o seu dinheiro no Luxemburgo, nas BVI ou em Hong Kong, a pagarem os desvarios de quem nos (des)governou. De qualquer modo, sem  estímulos à poupança em Portugal, com a CGD a comportar-se desta forma desonesta e esportuladora para com os portugueses que nela confiaram ao longo de várias gerações, penso que o melhor mesmo será começarmos todos à procura de alternativas numa instituição que, ainda que não pagando ou pagando juros ridículos pelo que lá colocamos, não nos cobre para guardar os nossos modestos rendimentos e poupanças.

A CGD e a sua administração, em vez de cortarem nos salários dos administradores, nas mordomias destes, no papel, nas cadernetas, na burocracia, nos elefantes que criaram, resolveram investir contra os seus clientes mais desfavorecidos.

A CGD e a sua administração não merecem a confiança dos portugueses, ainda que continuem a merecer a confiança política do Primeiro-Ministro e do Ministro das Finanças.

E como pequeno aforrador e, já agora, emigrante, tenho vergonha de que isto esteja a acontecer com essa instituição que em cada dia que passa se vai esquecendo dos únicos que lhe deviam merecer confiança e respeito. Isto é, aqueles que ao longo dos anos lhe confiaram as poupanças contribuindo para o seu engrandecimento e que nunca lhe ficaram a dever tostão ou avo. É esta a compensação – empacotados pelo Dr. Paulo Macedo e pagando pelo empacotamento – que os portugueses recebem pelo apoio dado à CGD durante décadas. Uma inqualificável vergonha.

(Nota: este texto foi editado pelo seu autor para alteração do título, visto que o anterior podia induzir algumas pessoas em erro e se afigurou excessivo face ao sentido do texto)

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Portugal está na moda

por Pedro Correia, em 04.07.17

 

ABC: «Un robo de armamento en Portugal desata la alarma internacional.»

 

New York Times: «Grenades, ammo stolen in daring raid at Portugal army depot.»

 

Le Figaro: «Des grenades et des munitions volées à l' armée portugaise.»

 

Corriere della Sera: «Portogallo: rubato arsenale di armi e munizioni, caccia ai possibili responsabili.»

 

BBC: «Portuguese president speaks out over stolen weapons arsenal.»

 

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Pontaria ao andar de baixo

por Pedro Correia, em 03.07.17

 

«No meu país não acontece nada.»

Ruy Belo

 

Ao 18.º dia decorrido desde a tragédia de Pedrógão, nem uma demissão nas estruturas sob a tutela do malogrado ministério da Administração Interna - a que podemos chamar ministério da Desorganização Interna, enredado em passa-culpas de soma zero. Nada de novo: regressámos à rotina pasmacenta neste quente mês de Julho.

Ao menos no ministério da Defesa, sem ter ocorrido um só óbito, já houve exonerações: cinco oficiais situados em patamares médios da cadeia de comando foram removidos "para não interferirem nas averiguações" em curso - espantosa justificação que vale para o  assalto aos paióis de Tancos mas não se aplica aos inquéritos que decorrem para apurar causas e culpas na catástrofe de Pedrógão. Perante a maior pilhagem de armamento de guerra confiado à guarda do Estado em Portugal, os altíssimos comandos castrenses permanecem nos seus postos, reconfigurando a noção de ética militar. Imitam afinal o criativo conceito de "responsabilidade" garbosamente assumido pelo ministro da tutela: em perfeita sintonia, todos fazem pontaria ao andar de baixo. Enquanto aguardam que o País vá tranquilamente a banhos.

Como escreveu Ruy Belo, "a boca é p'ra comer e p'ra trazer fechada / o único caminho é direito ao sol".

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Ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.07.17

A querela é esta: os eucaliptos são ou não perigosos para a nossa floresta? Vejamos os factos. Diz o INE que Portugal tem 23% da sua área florestal entregue aos eucaliptos, ou cerca de 760 mil hectares. Só quatro países do mundo têm mais eucaliptal em termos absolutos do que Portugal: a China (mas é 104 vezes maior do que Portugal), o Brasil (92 vezes), a Austrália (83 vezes) e a Índia (36 vezes). Em termos relativos, nenhum país no mundo tem a superfície de eucaliptos de Portugal. Aos que me respondem com o argumento de “dá dinheiro”, pergunto só por que é que a Alemanha ou a Espanha não correm para este El Dorado. A resposta é que é perigoso, não é que os empresários alemães ou espanhóis sejam estúpidos. Sim, o nosso desordenamento florestal é grave, o abandono rural gravíssimo – mas é um desordenamento que promove os eucaliptos (77% do investimento na floresta em 2015 foi para eucaliptos), que são perigosamente combustíveis, sobretudo se plantados como o estão a ser. Portanto, mais vale travar a fundo e salvar a floresta deste negócio pirómano.

 

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Teias

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.06.17

"Segundo o The New York Times, por trás do Grupo HNA, ac[c]ionista da TAP por via do consórcio Atlantic Gateway – e da companhia brasileira Azul – estará Wang Qishan, dire[c]tor do órgão máximo de combate à corrupção na China. O mesmo, aliás, que alegadamente domina a Capital Airlines, segundo denúncia de Guo Wengui, bilionário chinês exilado nos Estados Unidos."

 

O extracto é deste editorial. O artigo do New York Times está aqui.

Convém que em Portugal não falte a luz. É que não se perde nada em ir lendo e acompanhando. Por causa das surpresas.

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O país atávico no país moderno

por Pedro Correia, em 21.06.17

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 Foto: Rafael Marchante/Reuters

 

O país das startups, da Web Summit, das ciclovias citadinas, do partido dos animais, dos chefs da moda, dos quarenta e tal novos hotéis lisboetas, despertou por estes dias para um horror atávico que o pôs no mapa da imprensa mundial pelos piores motivos. Desta vez não por ser um dos "mais bem guardados segredos turísticos" em foco nas publirreportagens de revistas elegantes mas por não conseguir poupar vidas humanas quando a inclemência da natureza - eventualmente associada à incompetência humana - lhe bate à porta.

É um país ainda demasiado semelhante ao das inundações de Novembro de 1967, tragédia sem nome que vitimou centenas de pessoas e nem a férrea censura salazarista conseguiu silenciar.

 

É o país modernaço, das dez mil rotundas e dos cento e cinquenta pavilhões municipais e dos dez estádios construídos de raiz ou totalmente remodelados para o Europeu de futebol. O país onde a palavra modernidade provoca contínuos suspirinhos de comoção. O país que continua demasiado dependente da bondade de estrangeiros para sustentar necessidades básicas e um número incontável de vícios. O país que quer continuar a atrair turistas enquanto descura o património histórico e reduz a cinzas boa parte do seu património natural.

Um país sempre tão sujeito à avaliação externa, submergido por estes dias com títulos como Portugal, a Country Helplessly Prone to Forest Fires (no New York Times), Portuguese wildfires: early warnings hindered by damaged phone lines (no Guardian), Le Portugal en proie aux incendies meurtriers (no Le Monde), Incendie au Portugal: après les larmes, la colère (no Figaro), Crecen las dudas sobre la gestión del incendio de Portugal (no El País), Caos en el mayor incendio de la historia de Portugal: 64 muertos, un avión fantasma y 27 aldeas evacuadas (no El Mundo).

 

São títulos que parecem falar-nos de outro país, assombrado pela impotência face à calamidade.

Mas não: falam-nos deste. Do nosso.

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Reviver o passado em Caminha

por Pedro Correia, em 15.06.17

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Devido à profissão dos meus pais, ambos professores, passei a infância a saltitar de terra em terra. Quando fiz 12 anos vivia já na oitava casa onde morei, em cinco terras muito diferentes.

Na altura, como julgo ser normal acontecer com qualquer miúdo nas mesmas circunstâncias, isso entristecia-me. Porque me sentia incapaz de cultivar amizades de infância que perdurassem para a vida. Hoje, pelo contrário, considero que esta constante itinerância produziu efeitos muito mais positivos do que negativos. Graças a ela, posso gabar-me de ter várias terras em vez de uma só.

 

Há quem não valorize isto, mas eu gosto de sentir que fui dispersando raízes por diversos quadrantes a que de algum modo posso chamar meus. Mesmo quando estou muitos anos sem visitá-los. Tem-me acontecido por estes dias, aproveitando as férias de Junho. Passei toda a semana anterior numa das minhas terras adoptivas: Tavira, que frequento com raras intermitências desde há vinte anos.

De um dia para o outro, no entanto, decidi rumar do extremo sudeste ao extremo noroeste do País. Confirmando que bastam oito horas para atravessarmos Portugal de lés a lés. E cá estou em Caminha, onde não pousava há três décadas. Não por falta de vontade mas por falta de oportunidade.

 

Ainda bem que voltei. Porque esta é uma das paisagens da minha infância. Vivi três anos em Viana do Castelo e fazíamos praia um pouco onde calhava, ao longo da estrada nacional 13: Carreço, Afife, Vila Praia de Âncora. Há poucas horas passei defronte da antiga Pensão Meira, hoje um orgulhoso hotel de Âncora, onde a família se alojava durante parte da estação estival.

Mas as minhas melhores memórias infantis de Verão são daqui, da foz do Rio Minho que tenho neste preciso momento defronte dos meus olhos. Do areal de Moledo, onde pela primeira vez vi pára-ventos, presença obrigatória nas praias minhotas batidas pela nortada. Das águas plácidas do rio, que frequentávamos quando o oceano ficava mais agitado. Da aprazível mata do Camarido, com o seu parque de campismo e os seus aromas a flores silvestres. Das caldeiradas em família no entretanto desaparecido Pirata, situado junto ao posto da velha Guarda Fiscal

 

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Regressei. E fiz bem. Calcorreando no presente os trilhos do passado quase como se não houvesse décadas de permeio. Eis-me de volta à marginal, que acompanha o vasto rio fronteiriço - semelhante aos cenários que transplantámos para todas as paragens onde deixámos marca, do Rio de Janeiro a Díli, de Luanda a Macau, de Goa a São Tomé.

A paisagem do passado ecoando no presente: a muralha seiscentista, a matriz, as tílias na praça central, a torre do relógio, o Coura desaguando no Minho, a silhueta tutelar da Serra d' Arga e a massa imponente do Monte de Santa Tecla, na Galiza, atraindo-nos para o outro lado da foz.

Sinto-me miúdo outra vez enquanto cruzo estas ruas. Quando cá vínhamos, abancávamos por vezes na Adega do Chico, típico restaurante familiar. Nunca mais soube dele até há dois dias, quando deparei com ele quase por acaso. Está praticamente na mesma: só deixou de haver serradura no chão, como era habitual nas adegas daquele tempo.

Até o prato mais emblemático ainda é o célebre bacalhau à Chico.

 

É o que peço, sentado na esplanada, enquanto escrevinho estas linhas, acompanhadas de goles de um fresquíssimo verde de Ponte de Lima - outra paisagem da minha infância que quero revisitar.

Cada vez mais me convenço que a felicidade em abstracto não passa de uma utopia: existem, isso sim, múltiplos momentos felizes.

Este é um deles. E há que aproveitá-los todos: cada qual é um pedaço de eternidade.

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Terceiro Mundo é isto

por Inês Pedrosa, em 21.05.17

«A cantora terá também pedido ao Benfica para o filho treinar no centro de estágio do Seixal. O treinador anunciou  aos jogadores da equipa de sub-12 das Águias que passariam a treinar no campo nº 1, devido ao facto de contarem com o filho de uma estrela da música mundial

(de uma notícia sobre a provável mudança de Madonna para Lisboa)

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Há noites assim

por Diogo Noivo, em 18.05.17

Andei a ruminar os dias de triunfo póstumo de Salazar. Ruminava, mas não chegava a qualquer conclusão. Estava numa espécie de letargia induzida por uma dose cavalar de comprimidos Melhoral. Hoje a coisa aclarou-se graças ao artigo de Paulo Tunhas. Acertou na mouche.


Faltou-lhe, contudo, referir os efeitos nefastos da bebedeira. O problema, como sempre, está nas misturas: Fado (versão redux), futebol, Fátima, e a economia a crescer. Qualquer adulto sabe que, se é para ficar alegre, o melhor é beber sempre do mesmo. Mas não. Bebeu-se de tudo e houve bêbados para todos os gostos: alegres, depressivos, esperançosos, rezingões, quase todos chatos. A coisa é especialmente preocupante porque já andávamos a fazer as figuras tristes que nos levaram a valentes dissabores. Quando passar o efeito etílico, a dor de cabeça será de tal ordem que vão achar que têm anões hiperactivos com picaretas dentro do crânio.

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Traços da portugalidade

por Rui Rocha, em 14.05.17

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Portugal: destaque internacional

por Pedro Correia, em 14.05.17

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Visita do Papa Francisco a Fátima:

Destaques no El País, El Mundo, Estado de São Paulo, The Guardian, O Globo, La Stampa, ABC, La Reppublica, Folha de São Paulo.

 

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Vitória de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão:

Destaques no El País, El Mundo, Le Figaro, The Guardian, Daily Telegraph, ABC, Le Monde, La Reppublica, Independent, New York Times.

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À atenção do Governo da República

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.04.17

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O tempo não é elástico, as solicitações são muitas, o espírito nem sempre é o melhor, mas é preciso voltar, regressar aos combates de todos os dias, voltar a percorrer o caminho.

Num país que nos últimos anos viu sair muitos dos seus jovens profissionais, alguns bastante qualificados, para paragens longínquas, admira-me que ainda ninguém tivesse levantado a questão. Não vai passar de hoje porque já não é caso virgem, e vou contá-lo em termos tão resumidos quanto possível.

Duas arquitectas portuguesas, ambas actualmente a estudar e a trabalhar na Austrália, para onde se mudaram de armas e bagagens à procura de uma vida melhor, viram-se na necessidade de se inscreverem no equivalente local da Ordem dos Arquitectos – Architects Accreditation Council of Australia –, a fim de verem reconhecidas as suas qualificações na terra que as acolheu e onde agora residem. Cada uma delas tratou de solicitar aos serviços competentes da universidade pública que ambas frequentaram a emissão dos documentos pertinentes, a saber: uma certidão académica contendo os nomes das disciplinas e respectivos créditos e uma certidão do programa de licenciatura em arquitectura contendo uma descrição sucinta das matérias leccionadas e incluídas em cada uma das disciplinas. Aparentemente seriam dois documentos corriqueiros, em tudo idênticos tratando-se de arquitectas que foram colegas de curso e do mesmo programa de estudos (pré-Bolonha).

O problema é que o resultado obtido com a emissão das certidões requeridas é de bradar aos céus. Sumariamente, só para perceberem o que cada uma das requerentes conseguiu da mesma entidade emitente, foi o seguinte:

a) Nas duas certidões académicas as disciplinas de Estática II, do 2.º ano, e de Teoria da Arquitectura II, do 4.º ano, estão descritas como disciplinas semestrais, sendo atribuídos 1 e 2 créditos, respectivamente, quando pelo Despacho nº 1723/2002, publicado no DR n.º 19, II Série, de 23/01/2002, as disciplinas de Estática II e Teoria de Arquitectura II são anuais, conferindo-se-lhes 2,5 e 4 unidades de crédito, o que significa que estavam as duas erradas apesar de terem tido um custo de € 80,00 cada;

b) Uma certidão contendo o conteúdo programático das disciplinas tinha o inacreditável número de 188 páginas, levou dois meses a ser emitida, e teve o custo de € 157,00, a outra tinha "apenas" 68 páginas;

c) Numa certidão a disciplina de Arquitectura I apresenta 18 páginas de descrição, enquanto na outra ocupa apenas 2 páginas;

d) Na certidão com 188 páginas, quanto à maioria das disciplinas, os ano lectivos correspondentes e as datas foram removidos de forma "artesanal";

d) Numa das disciplinas em que o ano lectivo não foi removido, o nome da disciplina foi escrito à mão como “Projecto II”, quando no rodapé se identificou a disciplina como “Projecto IV”;

e) Nesse mesmo documento e em relação a essa mesma disciplina, o ano lectivo que surge na descrição desta disciplina é 2003/2004, o qual não corresponde à realidade, visto a requerente frequentou a disciplina de Projecto II no ano lectivo de 200/2006;

f) Este documento incluía cópias de um plano de estudos que fora alterado, omitindo a rectificação que corrigiu uma inexactidão anterior que trocava um total "semestral" por um total "semanal";

g) Na certidão com 68 páginas faltava uma disciplina do 3.º ano;

h) Uma das certidões não incluiu a coluna dos créditos das disciplinas...

Este rol poderia continuar, mas o que fica basta para exemplificar o modo como, depois de tantas "reformas", continuam a funcionar alguns serviços da nossa administração pública.

Para lá do custo exorbitante do papel, do inacreditável número de páginas dos documentos e dos erros, imaginem o que fica a pensar das instituições e de Portugal, a entidade australiana junto da qual aquelas profissionais têm de fazer prova das suas qualificações para poderem exercer a sua actividade profissional. Isto sem esquecer a quantidade de questões que suscitam a quem recebe esses documentos, que deviam ser em tudo idênticos, de quem os apresenta, como se algum deles, ou ambos, tivesse sido rasurados ou falsificados pelos apresentantes. 

Depois, é preciso não esquecer o tempo que tudo isto leva a resolver. O tempo que se perde a escrever para explicar os disparates, mais o tempo e as despesas acrescidas para os documentos serem devolvidos, antes de no final as requerentes humildemente pedirem que as certidões devidamente corrigidas lhes sejam passadas no mais curto prazo, sem custos acrescidos, visto que os erros não foram da sua responsabilidade. Como se estivessem a pedir um favor a quem em nome do Estado português emitiu tais documentos.

Desconheço se as autoridades públicas têm a noção do transtorno que tudo isto causa a quem precisa de trabalhar, que teve de sair de Portugal para poder fazê-lo e que ainda por cima está longe, não podendo deslocar-se pessoalmente aos serviços para resolver o assunto.

Trago por isso mesmo este caso ao conhecimento dos leitores, deixando aqui publicamente uma sugestão que já tive oportunidade de recentemente fazer ao Secretário de Estado das Comunidades: que o Governo português encontre rapidamente um modelo único de documento, se possível em português e inglês, que seja emitido por todas as instituições de ensino universitário e, eventualmente, pelas ordens profissionais, que de uma forma simples, clara e uniforme, com um número de páginas razoável e um custo aceitável e acessível a qualquer bolsa, possa ser apresentado internacionalmente com a chancela do Estado português, de maneira a evitarem-se problemas como o descrito aos cidadãos nacionais, assim lhes facilitando a vida dentro e fora de portas.

O que se passou com as duas arquitectas portuguesas, uma residente em Sidney e a outra em Melbourne, para lá da incompetência que revela por parte de quem emitiu os documentos, dá sinal de uma terrível incapacidade de reforma e modernização das instituições públicas e de uma tremenda e persistente ineficiência.

Por isso mesmo peço desta tribuna a intervenção urgente do Governo português sobre esta matéria, para que não continuemos a ser vistos como uma espécie rara, como um povo de suicidas, e não volte alguém como o Manuel Laranjeira a escrever a um qualquer Unamuno que (cito de cor) "em Portugal a única crença ainda digna de respeito é a crença na morte libertadora".

 

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À sombra dos abrigos

por Pedro Correia, em 04.04.17

É um fenómeno que acontece ciclicamente na política, como sucede com as marés ou as estações do ano: volta e meia, surgem umas personalidades envoltas no nevoeiro mediático que logo alguns começam a apontar como novos messias. Não falta mesmo quem assegure que só tais personalidades são capazes de “regenerar o sistema”, aproximar eleitos de eleitores e conferir à vida política portuguesa a respeitabilidade que lhe vem faltando.

Acontece à esquerda e à direita. Gente de fato cinzento e discurso cinzento obtém coloridos aplausos da tribo dos comentadores, sempre pronta a elogiar não quem vai à luta mas quem se resguarda das dificuldades no sossego dos biombos e só aparece quando o vento amaina, as dificuldades diminuem e as hipóteses de mudança de ciclo se tornam muito fortes.

 

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A Reprodução Interdita, de René Magritte

 

É um intrigante hábito político e jornalístico nacional, este de entoar hossanas a quem se cala, a quem cruza os braços, a quem se amedronta nos momentos difíceis, a quem permanece na sombra e se limita a gerir o silêncio entrecortado por umas frases enigmáticas logo transformadas em títulos bombásticos e setas viradas para cima nas colunas dos jornais.

Se o destino de Portugal estivesse dependente do calculismo destas personalidades que optam pela comodidade pessoal no momento em que mais se exigiria delas total empenho nos combates políticos estaríamos certamente condenados a perder todos os desafios do futuro.

Porque os nossos problemas enquanto sociedade só conseguirão ser ultrapassados com protagonistas que não estejam sempre a medir o impacto de cada palavra e as consequências de cada gesto, por mínimos que sejam. Só conseguirão ser superados com determinação e coragem por gente que não vira a cara à luta. Só conseguirão ser vencidos por quem age a pensar nas próximas gerações e não nos títulos dos jornais da manhã seguinte.

 

Não precisamos de políticos de pose esfíngica, que se calam quando deviam falar e falam quando deviam permanecer em silêncio. Não precisamos de políticos que valorizem mais a opinião dos comentadores do que a opinião dos cidadãos. Não precisamos de políticos que só dão nas vistas em tempo de bonança enquanto se eclipsam em dias de tempestade.

Precisamos de políticos que personifiquem as virtudes enunciadas por Sophia de Mello Breyner num dos seus mais célebres poemas: « Porque os outros se compram e se vendem / E os seus gestos dão sempre dividendo. / Porque os outros são hábeis mas tu não. / Porque os outros vão à sombra dos abrigos / E tu vais de mãos dadas com os perigos. / Porque os outros calculam mas tu não.»

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Jaime Gama lê o DELITO

por Diogo Noivo, em 23.03.17

Em entrevista à Antena 1, Jaime Gama afirmou que “há uma ilusão geral muito grande em relação à economia portuguesa”. Acrescentou que “a opinião pública está anestesiada porque lhe é escamoteada a compreensão do problema (da dívida) e lhe é permanentemente afirmada a oferta ilusória que é impraticável”. E, como é evidente, a "realidade far-se-á sentir na altura própria”.

Como escreve o Expresso, Jaime Gama, embora sem mencionar o actual Executivo, diz que “todos (os atuais protagonistas da solução governativa) preferem esconder-se numa cortina de sombras para não tratar ou secundarizar as questões essenciais”. Está visto que o antigo presidente da Assembleia da República leu o nosso pensamento da semana.

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Em relação ao passado, ele até pode ter razão. Mas, por favor, alguém lhe diga que o Elefante Branco fechou e o Pérola Negra já não é o que era.

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O «êxito» nacional - rapidinhas

por José António Abreu, em 27.02.17

O crescimento.

Ficou abaixo do que o PS prometera. Ficou abaixo do que, segundo o PS, teria sido com um governo PSD-CDS. Ficou abaixo do que foi em 2015. Ficou acima das previsões mais pessimistas.

 

A dívida.

A resolução do Banif foi precipitada para 2015. A recapitalização da Caixa foi adiada para 2017. Ainda assim, subiu em termos absolutos e talvez em percentagem do PIB.

 

A austeridade.

Foi transferida dos salários para os equipamentos e para o material, dos funcionários públicos para a generalidade dos cidadãos, desapareceu dos noticiários e, por conseguinte, terminou.

 

Os juros.

«Para o infinito e mais além», anunciaria Buzz Lightyear.
 

O investimento.

Foi aplicado em publicidade institucional.

 

A transparência e a ética republicana.

Completamente garantidas pela inviolabilidade das mensagens sms.

 

O PCP e o Bloco.

Desta vez são cúmplices.

 

O presidente.

O indivíduo deslumbrado que tenta parecer um gajo porreiro, emite opinião sobre tudo, inventa factos e distribui facadinhas nas costas. Que melhor representante do país se poderia arranjar?

 

O défice.

Com ou sem o perdão fiscal, o congelamento do investimento, a venda dos F-16, as cativações, a reavaliação de activos, o atraso nos pagamentos a fornecedores?

 

«O défice mais baixo da democracia portuguesa.»

Onde é que já ouvi isto?

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2016

por José António Abreu, em 31.12.16

A economia cresceu menos do que em 2015. O crescimento deveu-se não ao previsto aumento do consumo interno mas ao turismo e às exportações. Agora o governo diz que a aposta são o investimento e as exportações. Tudo indica que o crescimento permanecerá anémico.

A dívida pública aumentou. Apesar das medidas do BCE, as taxas de juro subiram, tanto no mercado primário como no secundário.

A operação de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos foi adiada para 2017. O processo incluiu uma tentativa governamental para contornar legislação existente. Seria mais grave noutros tempos.

Descontando operações de recapitalização de bancos, o défice público deverá baixar cerca de 0,5% em 2016 (contra uma média superior a 1,3% nos cinco anos anteriores). 0,3% dessa redução ficará a dever-se a um perdão fiscal a que o governo não gosta de chamar perdão fiscal. Além disso, as cativações permanentes subiram e os pagamentos em atraso provavelmente também.

Apesar da construção de hotéis e da abertura de espaços vocacionados para o turismo no centro de Lisboa e do Porto, o investimento caiu. Em percentagem do PIB, o investimento público caiu para níveis da década de 1950. Parece que até os socialistas entendem que é necessário apertar em algum lado. Há uns anos, quem imaginaria que o fizessem aqui?

A taxa de desemprego desceu. É uma boa notícia. Provavelmente teria descido mais com mais investimento. De preferência, privado.

Os impostos indirectos aumentaram. Em 2017 continuarão a aumentar.

Os «lesados» do BES vão ser salvos pelos contribuintes. Com um pouco de boa vontade, a Cornucópia também.

O sistema de Educação conseguiu bons resultados a nível internacional. A análise ainda não abrangeu as mudanças introduzidas pelo actual governo.

Na Concertação Social, o governo conseguiu um acordo para aumentar o salário mínimo. Logo a seguir, um ministro comparou os parceiros sociais a gado. Estes nem mugiram.

Marcelo viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies. Considerando que tomou posse apenas no início de Março, em 2017 deverá conseguir viajar, falar e tirar selfies ainda mais. Poderá ter problemas em manter taxas de crescimento significativas a partir de 2018.

A «geringonça» aguentou-se. Parabéns a António Costa. Bloco e PCP estão mais domados do que CDS alguma vez esteve. Como se viu no caso da TSU, até os termos dos «acordos de entendimento» já podem ser violados.

 

Mas, globalmente, parece que os portugueses andam satisfeitos. Óptimo. Sempre apreciámos o status quo. E, no fundo, estamos habituados à mediania.

Bom 2017.

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As melhores praias portuguesas (150)

por Pedro Correia, em 13.11.16

Almoxarife.jpg

 

Almoxarife (Faial, Açores)

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As melhores praias portuguesas (149)

por Pedro Correia, em 12.11.16

Três Irmãos (Alvor, Portimão).jpg

 

Três Irmãos (Alvor, Portimão)

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As melhores praias portuguesas (148)

por Pedro Correia, em 11.11.16

Castelejo, Vila do Bispo.jpg

 

Castelejo (Vila do Bispo)

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As melhores praias portuguesas (147)

por Pedro Correia, em 10.11.16

Malhada do Baraço, Lagoa.jpg

 

Malhada do Baraço (Lagoa)

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As melhores praias portuguesas (146)

por Pedro Correia, em 08.11.16

Barra, Ílhavo.jpg

 

Barra (Ílhavo)

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As melhores praias portuguesas (145)

por Pedro Correia, em 07.11.16

Porto Dinheiro.jpg

 

Porto Dinheiro (Lourinhã)

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As melhores praias portuguesas (144)

por Pedro Correia, em 06.11.16

afife,VC.jpg

 

Afife (Viana do Castelo)

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As melhores praias portuguesas (143)

por Pedro Correia, em 05.11.16

Ribeira-do-cavalo-2[1].jpg

 

Ribeira do Cavalo (Sesimbra)

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As melhores praias portuguesas (142)

por Pedro Correia, em 04.11.16

Quinta do Lago Loulé.jpg

 

Quinta do Lago (Loulé)

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As melhores praias portuguesas (141)

por Pedro Correia, em 03.11.16

Riviera, Praia da Vitória, Terceira.jpg

 

Riviera (Praia da Vitória, Terceira)

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As melhores praias portuguesas (140)

por Pedro Correia, em 02.11.16

Miramar, Gaia.jpg

 

Miramar (Gaia)

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As melhores praias portuguesas (139)

por Pedro Correia, em 01.11.16

Paredes da Vitória, Alcobaça.jpg

 

Paredes da Vitória (Alcobaça)

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As melhores praias portuguesas (138)

por Pedro Correia, em 31.10.16

baía s. lourenço, st maria.jpg

 

São Lourenço (Santa Maria, Açores)

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As melhores praias portuguesas (137)

por Pedro Correia, em 30.10.16

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Costa Nova (Ílhavo)

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As melhores praias portuguesas (136)

por Pedro Correia, em 29.10.16

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Vieira (Leiria)

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As melhores praias portuguesas (135)

por Pedro Correia, em 28.10.16

Torreira, murtosa.jpg

 

Torreira (Murtosa)

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As melhores praias portuguesas (134)

por Pedro Correia, em 27.10.16

Valmitão, Lourinhã.jpg

 

Valmitão (Lourinhã)

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As melhores praias portuguesas (133)

por Pedro Correia, em 26.10.16

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Porto de Mós (Lagos)

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As melhores praias portuguesas (132)

por Pedro Correia, em 25.10.16

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Formosa (Santa Maria, Açores)

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As melhores praias portuguesas (131)

por Pedro Correia, em 24.10.16

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Ali Babá (Mafra)

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As melhores praias portuguesas (130)

por Pedro Correia, em 23.10.16

Coelhos.jpg

 

Coelhos (Arrábida, Setúbal)

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As melhores praias portuguesas (129)

por Pedro Correia, em 22.10.16

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Ribeira d' Ilhas (Ericeira)

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As melhores praias portuguesas (128)

por Pedro Correia, em 21.10.16

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Poço da Cruz (Mira)

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As melhores praias portuguesas (127)

por Pedro Correia, em 20.10.16

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Rio Cortiço (Óbidos)

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As melhores praias portuguesas (126)

por Pedro Correia, em 19.10.16

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Moinho de Baixo (Meco, Sesimbra)

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As melhores praias portuguesas (125)

por Pedro Correia, em 18.10.16

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Formosa (Funchal)

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Gestão de um falhanço

por José António Abreu, em 17.10.16

A estratégia do governo para a economia falhou rotundamente. É o próprio governo a reconhecê-lo, no orçamento para 2017, ao abandonar a via do consumo interno (prevê-se que o consumo privado aumente 1,5% e que o consumo público caia 1,2%) pela das exportações (previsão de aumento de 4,2%). Ou seja: Costa e o PS tomaram o poder após uma derrota eleitoral para, um ano decorrido, começarem a admitir a validade das opções do governo PSD-CDS. Infelizmente para o país, esta correcção de rota significa pouco: muitas medidas, já implementadas ou a implementar, servem de lastro a uma estratégia coerente e com um mínimo de hipóteses de sucesso. Não estamos somente perante um ano desperdiçado (um ano crucial, com o BCE a ajudar na frente da dívida pública) mas também perante a destruição de um ambiente favorável, que este governo nunca conseguirá recuperar - até porque, de forma a agradar às clientelas e aos parceiros da «geringonça», continua a introduzir medidas erradas e a evitar reformas necessárias. Na prática, o PS encontra-se entalado entre, por um lado, as pressões de Bruxelas, dos mercados (seria este orçamento igual se não fosse necessário convencer a DBRS?) e do BCE (onde se desespera ao ver a forma como vários governos aproveitaram a política monetária para adiar reformas) e, por outro, as pressões do PCP, do Bloco e das promessas irrealistas que Costa fez em 2015, com suporte técnico de Centeno, Galamba, Trigo Pereira, etc.

Mas a situação do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda é ainda mais difícil. Todos sabemos por que motivo o PCP aceitou integrar a «geringonça»: não podia autorizar a cedência a privados da gestão dos serviços públicos de transportes, pois isso representaria abdicar de toda a sua capacidade reivindicativa. Quanto ao Bloco, acossado pelo Livre, viu uma oportunidade para retirar PSD e CDS do governo e amarrar o PS às suas políticas. Há um ano, PCP e Bloco ainda conseguiram impor medidas relevantes a António Costa. Hoje, essa capacidade desvaneceu-se. Sendo o ónus de derrubar o governo demasiado pesado, aceitam tudo o que Costa está disponível para lhes dar. Neste orçamento, ele permitiu-se deixá-los a papaguear e a gesticular enquanto ia até à China; no regresso, como faria a qualquer arrumador de veículos, deu-lhes os trocos que tinha no bolso. Catarina e Jerónimo passarão semanas a queixar-se de que não estamos perante um orçamento de esquerda, mas aprová-lo-ão. E, não obstante a sobrevivência da sobretaxa de IRS e a inexistência de aumentos salariais na função pública, a CGTP permanecerá fora das ruas. «Assim se vê a força do PC», o velho slogan comunista, é hoje uma punchline.

Se, nos finais de 2015, ainda existia alguma margem para a dúvida, agora tal já não acontece. O orçamento para 2017 demonstra à saciedade que o governo de Portugal se encontra integralmente assente em interesses pessoais e partidários de curto prazo. Convicções genuínas e visão de futuro não existem ou são irrelevantes. Enquanto isto, o país aguarda, afundando-se devagar. Algo que os portugueses, atávicos no seu complexo de inferioridade mas também no medo em relação a toda e qualquer mudança comportando risco, parecem achar bem.

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As melhores praias portuguesas (124)

por Pedro Correia, em 17.10.16

são bernardino, peniche.jpg

 

São Bernardino (Peniche)

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As melhores praias portuguesas (123)

por Pedro Correia, em 16.10.16

Barrinha7[1].JPG

 

Barrinha (Faro)

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As melhores praias portuguesas (122)

por Pedro Correia, em 15.10.16

Vale dos Homens, aljezur.jpg

 

Vale dos Homens (Aljezur)

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