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Provocações (4)

por Rui Herbon, em 25.09.17

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De uma entrevista da Adília Lopes, que pode ser lida na íntegra aqui.

 

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Convidados: TIAGO NENÉ

por Pedro Correia, em 19.09.17

 

Três poemas

  

 

O que tenta ensaiar esta beleza

na sua violência prematura, nas linhas do seu submundo.

Observo-a como um guarda nocturno

numa fábrica de relógios, procuro-a

com uma fome que me isola de mim. E os vidros e as vidas

desta fábrica tornam-se um sequestro da mesma realidade

que entre o futuro e o futuro do futuro

espreita o cruzamento de todo o tempo.

 

Sob a estrela cadente o céu atravessa todos os nomes,

não sei se faz vento interior ou sobram átomos

de matérias que procuram a inutilidade das coisas.

Escuto uma lua de açúcar pela garganta das nuvens,

não estou do lado de fora da memorização da espera

e do eco soterrado de um pó evanescente.

 

Que membros húmidos recebem o hálito do caminho,

que vertigens sobre o torpor das janelas.

Sinto a eficácia mecânica das emoções,

cada sintonizador absorvendo os limites

de uma fissura de luz.

 

 ....................................................

 

O que se descreve é como cotovelos no parapeito,

pode ser tão sombrio

quanto uma interrogação em círculo,

tão viril quanto este caminho mau,

tão minucioso quanto esta perspectiva não infinita.

E onde começa o esquecimento

termina o que a ilha de sono denuncia,

o que o intervalo do vento alcança

quando descende do infindável

onde tudo é calmo e sereno.

E então, que te administrem menos memória,

a ti cujos olhos abrangem

um botão que te desperta do que pensas ver em voz alta,

do que se transforma como um eco

exactamente igual a ti.

 

 ....................................................

 

Talvez tenha faltado ao meu próprio encontro,

e na dor que persiste sinto naturalmente

os últimos suspiros do crepúsculo nos primeiros arrepios da madrugada,

um cutelo na memória, a porta que bate com estrondo,

um relógio com tentáculos,

por vezes estranhas figuras que nascem e desaparecem,

deixando as metamorfoses da sua ilusão e realidade.

 

Pois nesta dor que persiste sinto naturalmente

todos os cheiros do céu e dos astros, o canto de um galo,

apertos de mão numa fogueira extinta,

eixos de uma dúvida incapacitante.

 

Mas não me coibo de pensar o que seria de mim

se não tivesse faltado ao meu próprio encontro,

se não seria agora uma retórica feliz na praia,

uma estrela em movimento sobre o mar,

os pulmões de milhões de seres,

um rio escondido na extensão dos cabelos.

 

 

Tiago Nené

(autor do livro ESTE OBSCURO OBJECTO DO DESEJO)

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Ladaínha dos Póstumos Natais

por Isabel Mouzinho, em 25.12.16

Há-de vir um Natal e será o primeiro 

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

 

                                                David Mourão-Ferreira

 

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 13.06.16

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Livro dez: Bairro Ocidental

Edição D. Quixote, 2015

55 páginas

 

Acompanho com interesse o que se vai escrevendo de poesia em Portugal. Não faltam vozes talentosas, que dominam bem a carpintaria do idioma e exprimem uma paleta larga de emoções poéticas – umas vezes num imediatismo espontâneo quase comovente, noutras vezes num minucioso rendilhado nunca isento de erudição.

Mas não cesso de me espantar com a persistente ausência nesta poesia de um olhar disponível para o mundo contemporâneo. Aqui não me refiro aos chamados versos de intervenção, que confundiam arte literária com propaganda política, mas ao escritor enquanto sujeito de uma oração que exige verbo e complemento directo. A produção poética actual transborda de sujeitos em transe solipsista. Como se esbracejassem no vácuo. Como se a realidade circundante pudesse conspurcar o círculo imaculado mas restrito do seu imaginário.

 

Por vezes penso que falta um Manuel Alegre pronto a sacudir o marasmo desta poesia tão incapaz de interpretar os sinais do vento como de captar os ruídos da rua. Mas não falta. Porque Alegre, com  80 anos enérgicos recém-completados, continua a escrever e a publicar poesia. O seu mais recente título, Bairro Ocidental, estabelece aliás uma curiosa rima interna com os dois iniciais, Praça da Canção e O Canto e as Armas.

Não há amores como os primeiros: meio século depois, o poeta revisita um território afectivo que tão bem conhece. É um território partilhado, a que ele chama pátria sem pedir licença aos patrulheiros de turno.

Indigna-se em ‘Variações sobre o desconcerto do mundo’: “Está tudo inverso: o longe o perto o certo o incerto / no grande desconcerto tudo aberto / direito avesso um verso onde tropeço / e um som disperso um tom onde me perco / horizonte encoberto.”

Magoa-o a ‘Hora inversa’: “Como chegar onde ninguém responde? / Sombra de sombra um rosto vem e foge / não há tempo no tempo não há onde. / Harpas do vento trazem-me o arpejo / de um desejo a morrer na praia extrema.”

Sente-se habitante de um amargo ‘Bairro Ocidental’: “Na Eurolândia tudo é permitido / bruxela-se um país berlina-se outro / um dia ao acordares estás eurodido / e o teu país efemizado é só um couto.”

E canta a ‘Libertação’: “Contra as palavras que não são de aqui / contra o cifrão contra a agiotagem / contra o défice nosso de cada dia.”

 

É uma poesia que se intromete no quotidiano e se compromete com a cidadania sem se submeter a cartilhas de feira ideológica: “A História entrou pelas meias pelas botas / entrou até pelo fato camuflado. / Entrou na pele e ficou lá. Como ser / neutro inespacial intransitivo?”

O melhor Alegre de volta. O melhor Alegre que nunca deixou de estar no local de sempre.

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Dois anos sem o Vasco

por Isabel Mouzinho, em 27.04.16

O Acordo é uma barbaridade, feita inconsiderada e precipitadamente, mantida por obstinação e teimosia, e conducente a um resultado exactamente oposto ao pretendido.

 

(Entrevista ao Expresso. 26.05.2012)

 

Foi neste dia, há dois anos, que o "Príncipe das Letras", como tão justamente lhe chamaram, nos deixou. É sempre cedo demais para ver partir aqueles de quem gostamos, porque mesmo que nos fiquem as palavras e as lembranças, sobra a saudade e um grande buraco vazio que não pode preencher-se.

Hoje, fará muita falta à sua família e amigos mais chegados, naturalmente, mas também ao país e ao mundo; e, acima de tudo, faz falta à língua portuguesa, que tanto e tão bem defendeu, e cuja luta é agora quase só ausência e esquecimento, encolher de ombros, deixar andar.

Ah, a falta que o Vasco (nos) faz...

 

O suporte da música pode ser  a relação

entre um homem e uma mulher, a pauta

dos seus gestos tocando-se, ou dos seus

olhares encontrando-se, ou das suas


vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,

ou dos seus obscuros sinais de entendimento,

crescendo como trepadeiras entre eles.

O suporte da música pode ser uma apetência


dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se

ramifica entre os timbres, os perfumes,

mas é também um ritmo interior, uma parcela

do cosmos, e eles sabem-no, perpassando


por uns frágeis momentos, concentrando

num ponto minúsculo, intensamente luminoso,

que a música, desvendando-se, desdobra,

entre conhecimento e cúmplice harmonia.

 

                                                                 (Vasco Graça Moura)

 

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Boas iniciativas

por Isabel Mouzinho, em 23.03.16

Já foi há dois dias, mas a iniciativa pareceu-me interessante e original. Para comemorar o Dia Mundial da Poesia, alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais prepararam uma surpresa aos passageiros do comboio da linha, percorrendo as carruagens do comboio da manhã, ou permanecendo nas estações, a declamar poemas, a distribuir livros gratuitamente e, acima de tudo, a divulgar a poesia de autores portugueses, tantas vezes tão injustamente esquecida. E chamaram-lhe "O comboio da poesia", que é também um bonito nome.

 

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Álvaro de Campos Revisited

por Francisca Prieto, em 30.01.16

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Lamechices Colesterólicas

por Francisca Prieto, em 21.12.15

saltitavam de mão dada

melosos

que nem cubo de marmelada

beijinho aqui,

beijinho ali

miminho

saltinho

abracinho

segredinho

coceguinhas

repenicadas

e ele:

és uma boneca

das que se compram em Badajoz

 e ela envergonhada:

 não me fales em Badajoz

que me fazes lembrar caramelos

minha gema de rubi em ovo estrelado

meu molotoff almofadado

com fios de ovos enrodiscados

em cafuné de açucar pilé”

que bonito,

aletria da minha alegria

meu arroz adocicado

tigeladazinha coalhada

agora fiquei enjoada

senta-te ao meu colo

pronto, pronto, já passou

toma lá uns sais de frutos

 e mais

beijinho aqui,

beijinho ali

miminho

saltinho

abracinho

segredinho

e

coceguinhas

repenicadas.

 

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Declaração Amigável

por Francisca Prieto, em 19.12.15

as companhias de seguros

ao invés de nos impingirem papelada

com declarações amigáveis

deviam arranjar formulários

onde se pudessem escrever cartas de amor

 

de cada vez que (bummm)

dois carros chocassem de frente

os condutores em vez de reclamarem

podiam beijar-se ao relento

 

depois preenchiam os dados

com cuidado

nas perguntas indiscretas

em vez de cruzes

podiam escolher corações

e escreveriam palavras doces

nas notas adicionais

 

no verso, porque é verso,

deixariam poemas de amor

e no fim, só no fim,

escreveriam em letra miudinha

um número de telefone

não se fosse dar o caso

de terem provocado danos irreparáveis

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Praia de Ipanema

por Francisca Prieto, em 18.12.15

Na praia de Ipanema

Passa Luísa no embalo da brisa

Passa José queimando o pé

Lá vai Juracema com carga pequena

Segue serena como Milena.

O sol abrasa na beira da esteira

Uns carregam a vida

Outros vão de bobeira.

 

Canta-se o mate, empadinha ou pastel

Agora de queijo, depois de mel.

Rostos curtidos por vezes aflitos

Vendem biquinis ou panos bonitos

Tatuam imagens, vendem massagens

Praia imensa, festa de Babel.

 

Horácio pensou e logo inventou

Que sem mercadoria p’ra desfilar

E precisando de grana para o jantar

Lhe sobrava somente o violão.

Dedilhou três acordes, soltou vozeirão

Juntou três versos de afeição

E numa fome de poesia ou alento

Gritou sua alma p’ra ganhar seu sustento

 

Madame Olívia, granfina astuta

Mandou chamar o pobre trovador

Pediu que cantasse canções de amor

E Horácio coitado, rezou ao Senhor

P’ra camuflar seu dissabor.

Por qualquer inspiração divina

Abriu em nota cristalina

E em todo o posto se fez esplendor.

 

Para casa levou uns trocados

No bolso velho já em retalhos

Madame Olívia, por sua vez

Logo esqueceu a actuação

Pegou suas tralhas num saco dourado

Deixou pela areia aquela canção

 

É assim a praia de Ipanema

Uns vão levando a vida

Outros carregam problema

 

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Bukowski

por Francisca Prieto, em 17.12.15

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Andar à volta da poesia e ir de encontro a um poema de Bukowski que meu Deus.
(como é que o homem é tão javardo e contudo tão sensível, caramba)
 

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Desaforismos

por Francisca Prieto, em 09.12.15

A poesia do Natal é entrar numa pastelaria e pedir um sonho.

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Ana Hatherly

por Isabel Mouzinho, em 05.08.15

 

Carta de Amor Informático

 

Penetraste no meu coração

Como um virus no meu processador

 

Vindo de lado nenhum

 Ofereces-me agora

O vazio da não opção

 

Estragaste-me o real

Obrigaste-me a reinventá-lo:

Para quê?

 

Agora estás

No meu cemitério de textos

Já não te posso reencaminhar

 

Arquivei-te no lixo da memória

Do meu Pentium IV

Que aliás já vendi

 

Troquei-o por um lap top

Mais leve

Mais portátil

Mais facilmente descartável

 

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W. B. Yeats, 1865 - 1939

por Patrícia Reis, em 23.07.15

An Irish Airman Foresees His Death I know that I shall meet my fate Somewhere among the clouds above; Those that I fight I do not hate Those that I guard I do not love; My country is Kiltartan Cross, My countrymen Kiltartan’s poor, No likely end could bring them loss Or leave them happier than before. Nor law, nor duty bade me fight, Nor public man, nor cheering crowds, A lonely impulse of delight Drove to this tumult in the clouds; I balanced all, brought all to mind, The years to come seemed waste of breath, A waste of breath the years behind In balance with this life, this death.

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Gui, Zé, Cácá, Lili,

metiam-me na ordem

e encaixavam-me

na bagageira da bicicleta

estrada fora

em curvas rápidas

de cem à hora

(menos a Gui

que nunca aprendeu

a andar de bicicleta)

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

riam-se da minha meminice

e troçavam da tontice

às vezes

mandavam-me calar

e eu fechava o bico

para não dar chatice

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

tinham segredos

de crescidos

que eu não podia saber

mas faziam corridas

comigo às cavalitas

davam-me gelados

e levavam-me

sempre atrelada.

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

são agora

do meu tamanho

e às vezes

pedem-me ajuda

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Dia Mundial da Poesia

por Joana Nave, em 23.03.15

O Dia Mundial da Poesia já passou, foi no dia 21 de Março, um dia meio cinzento, pouco primaveril, mas que teve outros encantos. Um dia que começou com uma caminhada junto ao rio, com o vento a bater na cara e a levar para longe as palavras da boa conversa que preencheu este hiato de tempo. O dia seguiu o seu rumo, entre risos e leituras, entre devaneios e tormentos, e chegou ao fim com o desejo insistente de ir à pequena Feira do Livro da Poesia. Meia dúzia de barraquinhas de madeira, edificadas num dos vértices do jardim do bairro e onde, pousando o olhar sobre vários títulos e autores, haveria eu de escolher o que me traria as memórias quentes dos poemas lidos num Agosto longínquo, era eu então uma adolescente fervorosa e ávida de grandes romances, daqueles que causam dor pela profundidade que alcançam.

 

Deixa-me ser tua amiga, Amor,

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor,

A mais triste de todas as mulheres.

 

Que só, de ti, me venha mágoa e dor

O que me importa a mim?! O que quiseres

É sempre um sonho bom! Seja o que for,

Bendito sejas tu por mo dizeres!

 

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...

Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

 

Beija-mas bem!... Que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos,

Os beijos que sonhei prà minha boca!...

 

in Sonetos, Florbela Espanca

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Cem anos depois no dia delas

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.03.15

Facto

 

Tenho aprendido muito convosco, ó amigos homens,

a gostar de aventuras e, sobretudo,

mulheres ao alto, ao lado, ao fundo

e, adormecido, sonhar fora do mundo.

 

(Ruy Cinatti, 08/03/1915 -12/10/1986)

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Luísa Dacosta

por Patrícia Reis, em 16.02.15


Chamamento

Da margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossível jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar.

UM POEMA DE LUÍSA DACOSTA(Via Maria José Ramôa) ChamamentoDa margem do sonho  e do outro lado do mar alguém me estremece sem me alcançar.Um bafo de desejo chega, vago, até mim. Perfume delido de impossível jasmim.É ele que me sonha? Sou eu a sonhar? Sabê-lo seria  desfazer, no vento, tranças de luar.Nuvens, barcos, espumas desmancham-se na noite.E a vida lateja, longe, num outro lugar.

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Texte trouvé dans une église de Baltimore (1692)

por Helena Sacadura Cabral, em 16.11.14
Allez tranquillement parmi le vacarme et la hâte et souvenez-vous de la paix qui peut exister dans le silence.
Sans aliénation, vivez, autant que possible en bons termes avec toutes les personnes.
Dites doucement et clairement votre vérité.
Écoutez les autres, même les simples d'esprit et les ignorants, ils ont eux aussi leur histoire.
Évitez les individus bruyants et agressifs, ils sont une vexation pour l'esprit.
Ne vous comparez avec personne : il y a toujours plus grands et plus petits que vous.
Jouissez de vos projets aussi bien que de vos accomplissements.
Ne soyez pas aveugle en ce qui concerne la vertu qui existe.
Soyez vous-même.
Surtout, n'affectez pas l'amitié.
Non plus ne soyez pas cynique en amour car, il est, en face de tout désenchantement, aussi éternel que l'herbe.
Prenez avec bonté le conseil des années en renonçant avec grâce à votre jeunesse.
Fortifiez une puissance d'esprit pour vous protéger en cas de malheur soudain.
Mais ne vous chagrinez pas avec vos chimères.
De nombreuses peurs naissent de la fatigue et de la solitude.
Au delà d'une discipline saine, soyez doux avec vous-même.
Vous êtes un enfant de l'univers, pas moins que les arbres et les étoiles.
Vous avez le droit d'être ici.
Et, qu'il vous soit clair ou non, l'univers se déroule sans doute comme il le devait.
Quels que soient vos travaux et vos rêves, gardez dans le désarroi bruyant de la vie, la paix de votre cour.
Avec toutes ses perfidies et ses rêves brisés, le monde est pourtant beau.

Tachez d'être heureux.

 

Este texto, que me foi enviado por uma amiga, é uma verdadeira conversa/meditação de cada um consigo mesmo. Mas pode, igualmente, ser uma lindíssima oração. De uma qualquer crença ou religião que acredita na natureza humana.

 

Nota: O poema foi atribuído a Max Ehrmann, que o terá escrito em 1927, com o título Desiderata. A ser verdade a tradução aqui apresentada é tão bela quanto o original em inglês que um comentador teve a gentileza de dar a conhecer.

 

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Luísa Jardim

por Patrícia Reis, em 08.10.14

Pergunta-me o que o vento acende
se me voltarei a encontrar
para que saiba
que é para ti que soltei o perfume do mar

Quem me dera
o meu próprio destino
aquela viagem mil vezes por mim adiada

Quem me dera
nenhuma palavra
só sonhos, um apenas
daqueles que nunca desertou "

 

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Para Quem Sofre de Neura de Domingo à Noite

por Francisca Prieto, em 05.10.14

POEMA DO BECO

(Manuel Bandeira)

 

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

- O que eu vejo é o beco.

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Faz hoje trinta anos

por Pedro Correia, em 12.08.14

 

Era já madrugada e nós seguimos

quilómetro a quilómetro a corrida

Era já madrugada e nós corríamos

com aquele que levava ao peito as quinas

Era já madrugada e nós não víamos

o loiro Menelau e as belas crinas

dos imbatíveis cavalos do Atrida.

 

Era só Carlos Lopes que nós víamos

e com ele ganhámos a corrida

aquela madrugada e toda a vida.

 

Manuel Alegre

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Delitos poéticos (33)

por Rui Herbon, em 02.08.14

[The Poet, Gregory Eanes]

 

O OFÍCIO DA POESIA

 

O ofício da poesia é itinerante, como o seu desígnio.

Antes fosse o silêncio do poeta no triclínio.

 

Porque pelo amor viajante, ao som longo do piano, a compasso

Melhor fora o poeta consumir a eternuridade pelo espaço.

 

Mas ele sabe que há balas, cenas!, semas!

Para matar e para morrer sem poemas.

 

Então o ofício do poeta, sendo crente, é enrolar-se

Num corpo de explosivos à AL QAEDA

 

E jogar o destino num corpo amante

Como se fora um deus menor tecido a seda.

 

 

José-Alberto Marques

Hiperlíricas, 2004

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Blogue da semana

por Ana Lima, em 20.07.14

O prazer proporcionado pela leitura de um poema é sempre algo de muito pessoal. Ao publicá-lo num blogue partilhamos com outros as nossas escolhas e acontece, por vezes, que essa partilha dá a conhecer novos poetas ou divulga outros junto de quem, por vários motivos, não os conhecia. Por estes dias os poemas têm andado por aqui. Mas como a poesia nunca é demais escolhi para blogue da semana o "da luz & da sombra". 

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Cinepoema

por Rui Herbon, em 13.07.14

Mais informação AQUI.

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Foi-se a Copa? Não faz mal.

Adeus chutes e sistemas.

A gente pode, afinal,

cuidar de nossos problemas.

 

Faltou inflação de pontos?

Perdura a inflação de fato.

Deixaremos de ser tontos

se chutarmos no alvo exato.

 

O povo, noutro torneio,

havendo tenacidade,

ganhará, rijo, e de cheio,

a Copa da Liberdade.

 

Publicado no Jornal do Brasil de 24 de Junho de 1978

 

Carlos Drummond de Andrade escreveu este poema em 1978. Nesse ano, na Argentina, o Brasil, depois de vencer a Itália, ficou em 3º lugar no campeonato do mundo (curiosamente, a Alemanha, na fase de grupos desse campeonato, tinha dado 6-0 ao México). Os militares que impunham um brutal regime de ditadura no país anfitrião, viram a sua selecção vencer a Holanda na final.

Os campeonatos do mundo de futebol continuarão. Quanto ao povo que, no Brasil, sentia também, em 1978, os efeitos de um regime ditatorial, está agora, felizmente, num outro patamar. Mas ganhar a "Copa da Liberdade" é ainda, por enquanto, um desejo poético demasiado ambicioso. Por outro lado, poderão os desejos poéticos ser demasiado ambiciosos?

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Delitos poéticos (6)

por Rui Herbon, em 06.07.14

Gravura do castelo de Kronborg em Elsinore (Helsingør)

 

YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

 

Entre nós e as palavras há metal fundente

entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar

do mais fundo de nós o mais útil segredo

entre nós e as palavras há perfis ardentes

espaços cheios de gente de costas

altas flores venenosas      portas por abrir

e escadas e ponteiros e crianças sentadas

à espera do seu tempo e do seu precipício

 

Ao longo da muralha que habitamos

há palavras de vida há palavras de morte

há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar

há palavras acesas como barcos

e há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição

 

Entre nós e as palavras, surdamente,

as mãos e as paredes de Elsinore

 

E há palavras nocturnas palavras gemidos

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

palavras diamantes palavras nunca escritas

palavras impossíveis de escrever

por não termos connosco cordas de violinos

nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar

e os braços dos amantes escrevem muito alto

muito além do azul onde oxidados morrem

palavras maternais só sombra só soluço

só espasmos só amor só solidão desfeita

 

Entre nós e as palavras, os emparedados

e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

 

MÁRIO CESARINY

Pena Capital, 1957

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O que sobra dos discursos

por Ana Lima, em 03.07.14

O deve e o haver.

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Penso rápido (2)

por Pedro Correia, em 15.06.14

Miguel Sousa Tavares, evocando sua mãe, menciona a palavra poetisa, agora tão em desuso. Gosto deste substantivo feminino. Tenho pena que algumas pessoas a desconsiderem em nome do combate a "estereótipos de género" ou sei lá o quê. É uma palavra muito bonita: pelo sentido, pelo significado, pela sonoridade, pela elegância.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 07.06.14

 

 

Metáforas para o Fogo, de Marisa Silva

Poesia

(edição de autor, 2014)

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Da Auto-Censura

por Francisca Prieto, em 04.06.14

Uma amiga veio-me visitar e trouxe-me uma caixa de cerejas. Apeteceu-me escrever sobre isto, mas percebi que dava um mau poema.

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Mário de Sá-Carneiro, 124 anos

por José Navarro de Andrade, em 19.05.14
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Lisboa, Fevereiro de 1914

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Dia Mundial da Poesia

por Joana Nave, em 21.03.14

Porque hoje é o Dia Mundial da Poesia, aqui fica um texto meu, num registo completamente diferente do que tenho partilhado. Foi escrito há uns anos e publico-o tal como o escrevi na altura, sem qualquer filtro, apenas porque a poesia é aquilo que nos vai na alma, um sentimento puro, sem edição...

 

 

Lugares

 

Há lugares que me fazem sentir
que há sempre um espaço
onde podemos ficar,
apenas a sonhar.
São lugares escondidos
no meio da multidão,
pequenos paraísos
na imensidão de sons e cores,
lugares de abrigo
que nunca nos deixam sós.
São como um reconforto para a alma
que se sente perdida,
ou então, simplesmente um canto
onde podemos ficar,
apenas a pensar.
Este lugar onde estou...
lembra-me um estado de espírito
em que sinto apenas a leveza do ser.
A calma ou a agitação repousam
sem pressa de chegar.
Não quero ir, quero apenas ficar
e tornar este momento,
em que consolo a minha alma,
eterno!
À minha frente,
vejo o maior de todos os meus abrigos,
o Mar.
A sua fúria traz-me à memória
a minha intempestividade
e a calma serena do meu ser,
quando a sua fúria repousa
no peito de quem a sente,
e fica apenas a ondulação corrente
e o cheiro a maresia.

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Para o Rui

por Pedro Correia, em 26.01.14

 

ACABA

 

En volandas

como si no existiera el avispero

aquí me tienes con los ojos desnudos

ignorando las piedras que lastiman

ignorando la misma suavidad de la muerte

¿Te acuerdas? He vivido dos siglos dos minutos

sobre un pecho latiente

he visto golondrinas de plomo triste anidadas en ojos

y una mejilla rota por una letra

La soledad de lo inmenso mientras medía la capacidad de una gota

Hecho pura memoria

hecho aliento de pájaro

he volado sobre los amaneceres espinosos

sobre lo que no puede tocarse con las manos

Un gris un polvo gris parado impediría siempre el beso sobre la tierra

sobre la única desnudez que yo amo

y de mi tos caída como una pieza

no se esperaría un latido sino un adiós yacente

Lo yacente no sabe

Se pueden tener brazos abandonados

Se pueden tener unos oídos pálidos

que no se apliquen a la corteza ya muda

Se puede aplicar la boca a lo irremediable

Se puede sollozar sobre el mundo ignorante

Como una nube silenciosa yo me elevaré de mí mismo

Escúchame Soy la avispa imprevista

Soy esa elevación a lo alto

que como un ojo herido

se va a clavar en el azul indefenso

Soy esa previsión triste de no ignorar todas las venas

de saber cuándo cuándo la sangre pasa por el corazón

y cuándo la sonrisa se entreabre estriada

Todos los aires azules

No

Todos los aguijones dulces que salen de las manos

todo ese afán de cerrar párpados de echar obscuridad o sueño

de soplar un olvido sobre las frentes cargadas

de convertirlo todo en un lienzo sin sonido

me transforma en la pura brisa de la hora

en ese rostro azul que no piensa

en la sonrisa de la piedra

en el agua que junta los brazos mudamente

En ese instante último en que todo lo uniforme pronuncia la palabra:

ACABA

 

Vicente Aleixandre, Espadas como Labios

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Blogue da semana

por Ana Lima, em 05.01.14

É difícil acreditar que é tão nova. A Beatriz escreve como se por si já tivesse passado tanta vida... A sua escrita é madura, cheia de recordações e de sentimentos antigos. Podemos lê-la em revistas ou no livro, É quase noite, publicado pela Averno, em 2013. 

Mas há alguns anos que os seus textos poéticos são publicados em blogues da sua autoria. Aquele que é o mais recente foi o que escolhi para o primeiro blogue da semana deste ano. Percam-se por lá: ao longe todos são pedras de Beatriz Hierro Lopes.

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Eusébio por Manuel Alegre

por Patrícia Reis, em 05.01.14

Havia nele a máxima tensão

Como um clássico ordenava a própria força

Sabia a contenção e era explosão

Não era só instinto era ciência

Magia e teoria já só prática

Havia nele a arte e a inteligência

Do puro e sua matemática

Buscava o golo mais que golo – só palavra

Abstracção ponto no espaço teorema

Despido do supérfluo rematava

E então não era golo – era poema.

 

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José Tolentino Mendonça

por Patrícia Reis, em 22.12.13

"Desejo muito que a humanidade do futuro se deixe desconcertar pelo esplendor inexplicável de cada amanhecer; que se conserve sem palavras perante o mar; que se sinta irresistivelmente atraída pela variação de cores, de volumes e de odor da paisagem diurna e noturna; que estremeça ao primeiro contacto com a água; que mantenha a capacidade de espanto perante o modo como o vento arrasta as nossas vozes felizes na distância..."

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Maria Teresa Horta

por Patrícia Reis, em 16.12.13

FEMININO

É quando o ar estremece levemente indo

Em busca da transparência azul da Índia

Improvável luz feminina que só a placenta coa enquanto gera e no cristal vibra

Difuso momento onde a flor hesita

Se desdobra primeiro e em seguida vacila

(Inédito)

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Poesia para domingo

por Patrícia Reis, em 13.10.13
«Animais doentes as palavras
Também elas vespas formigas cabras
De trote difícil e miúdo
Gafanhotos alerta
Pombas vomitadas pelo azul
Bichos de conta que fazem de conta
Pequiníssimas pulgas de uma sílaba só
Lagartos melancólicos
Estúpidas galinhas corriqueiras
Tudo tão doente tão difícil de
De manejar de lançar de provocar
De reunir
de fazer viver

Ou então as orgulhosas
Palavras raras
Plumas de cores incandescentes
Altos gritos no aviário
E o branco sem uso
Imaculado
De certas aves na solidão

Para dizer
Queria palavras tão reais como chamas
E tão precárias
Palavras que vivessem só do tempo de dizer a sua parte
No discurso de fogo
Logo extintas na combustão das próximas
Palavras que não esperassem
Em sal ou diamante
O minuto rídiculo precioso raro
De sangrar a luz a gota de veneno
Catava das entranhas ociosas.»
Alexandre O'Neill in 'No Reino da Dinamarca', 1958. (obrigada Margarida por mo recordares)

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Receita para fazer azul

por Patrícia Reis, em 20.09.13


Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compare-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

Nuno Júdice

in MEDITAÇÃO SOBRE RUÍNAS (Quetzal, 1994)

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Serei criminalizado pelas feministas do Bloco? *

por Pedro Correia, em 01.09.13

 

«tu serás sempre a mesma fresca jovem pura

que alaga de luz todos os olhos

que exibe o sossego dos antigos templos

e que resiste ao tempo como a pedra

que vê passar os dias um por um

que contempla a sucessão da escuridão e luz

e assiste ao assalto pelo sol

daquele poder que pertencia à lua

que transfigura em luxo o próprio lixo

que tão de leve vive que nem dão por ela

as parcas implacáveis para os outros

que embora tudo mude nunca muda

ou se mudar que se não lembre de morrer

ou que enfim morra mas que não me desiluda.»

 

Excerto do poema "Muriel", de Ruy Belo

 

* em alusão a esta notícia baseada nesta prosa piropofóbica que originou um comentário justamente perplexo da Ana Vidal

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Para ler

por Patrícia Reis, em 26.08.13
 
UM POEMA DE NUNO JÚDICE

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

( in “Poesia Reunida”)
 
UM POEMA DE NUNO JÚDICEQuero-te, como se fosses a presa indiferente, a mais obscura das amantes. Quero o teu rosto de brancos cansaços, as tuas mãos que hesitam, cada uma das palavras que sem querer me deste. Quero que me lembres e esqueças como eu te lembro e esqueço: num fundo a preto e branco, despida como a neve matinal se despe da noite, fria, luminosa, voz incerta de rosa.( in “Poesia Reunida”)

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O mar é longe,mas somos nós o vento;

por Patrícia Reis, em 08.08.13

O mar é longe,mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira,até ser ele,
é doutro e mesmo,é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás,que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos,dedos ,sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes,fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

 

Pedro Tamen

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UM POEMA DE MANOEL DE BARROS

por Patrícia Reis, em 05.08.13


Via Poetas Poemas Poesias

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

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nuno júdice

por Patrícia Reis, em 24.07.13
Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

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Mário Cesariny, in "Pena Capital"

por Patrícia Reis, em 08.06.13

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

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Nem só de pão vive o homem

por Ana Vidal, em 16.05.13

 

É um homem sereno, tímido, afável e generoso. Tão generoso que me prefaciou um livro e depois se dispôs a fazer de propósito, com toda a naturalidade, uma viagem de 300 Km só para apresentá-lo. Bastaria isso para elogiá-lo e ficar feliz por ele. Mas é por ser o ENORME poeta que é - leio-o há anos, sempre em estado de puro deslumbramento - que o felicito pela notícia que acabo de saber: Nuno Júdice, pelo conjunto da sua obra, publicada pela Dom Quixote, acaba de ser anunciado vencedor da XXII Edição do Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana.

 

Muitos parabéns, Nuno, o prémio é merecidíssimo!

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Herberto Helder

por Patrícia Reis, em 12.05.13

O actor acende a boca. Depois, os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.

O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus,
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Receita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente
como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas -
o actor com a emotiva publicidade.

Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça.

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Ítacas

por Ana Vidal, em 29.04.13

A cada um a sua Ítaca. A de Kavafis, que nos fala de todas elas com admirável sabedoria, é um poema belíssimo.

 

O grego Konstantinos Petrou Kavafis (Κωνσταντίνος Π. Καβάφης) nasceu e morreu em Alexandria no mesmo dia 29 de Abril (1863 –1933). Foi jornalista e funcionário público. Publicou apenas 154 poemas, mas não precisa de mais obra para que o seu nome fique gravado para sempre na história da poesia. Um clássico impõe-se pela qualidade, não pela quantidade. 

 

 

O caminho para Ítaca


Se partires um dia rumo a Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posídon te intimidem!
No teu caminho jamais os encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se subtil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posídon hás-de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás-de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egipto peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor será muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te punhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu.

Se a achas pobre

Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

(Tradução de José Paulo Paes)

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António Ramos Rosa

por Patrícia Reis, em 27.04.13
Quem escreve

Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore.
Quem escreve quer ser terra sobre terra,
solidão adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.

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