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Penso rápido (85)

por Pedro Correia, em 09.08.17

Os 222 milhões de euros pagos pelo Paris Saint-Germain (nome de santo ironicamente patrocinado por um país islâmico) para desviar Neymar do Barcelona cavam ainda mais fundo o fosso que separa o futebol enquanto actividade económica da genuína competição desportiva: deixaram de ser mundos complementares para se tornarem realidades antagónicas.
Este inédito montante adultera os princípios de transparência do mercado desportivo cotado em bolsa e transforma os jogadores em mera mercadoria à mercê dos capitães da fortuna fácil. Desde logo, parece colidir com as normas da concorrência vigentes na União Europeia e as regras de fair play financeiro da UEFA: qualquer resquício de equidade evapora-se de vez quando os Estados começam a investir em força nos clubes - neste caso o do Catar, com base nos seus lucros petrolíferos. E provoca um sério choque inflacionário na indústria do futebol: os preços vão disparar, a espiral da dívida aumentará em flecha, avizinham-se as mais desvairadas loucuras financeiras no horizonte.
Convém entretanto seguir em pormenor a origem e o rasto desta verba astronómica, que faz subir para 700 milhões de euros o orçamento anual do PSG para o futebol. À atenção das autoridades jurisdicionais - do desporto e não só.
Finalmente, está por demonstrar que um único jogador - e desde logo Neymar, com desempenho em campo inferior a Cristiano Ronaldo ou Messi - justifique estas cifras galácticas. O dinheiro pago por ele para o transformar em emblema de um clube sem tradição na alta-roda do futebol duplica o seu justo valor, nada tendo a ver com genuínos "preços de mercado". 
Ao dar este passo, o futebol de alta competição transforma-se num jogo de fortuna e azar - uma espécie de roleta russa para usufruto de caprichos milionários. O desporto, digam o que disserem, nada tem a ver com isto.

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Penso rápido (84)

por Pedro Correia, em 25.05.17

Nem só jovens "radicalizados" filhos de imigrantes e nascidos já na Europa ruminam ódio à civilização europeia. Pela sua abertura, pela sua tolerância, pelo seu cosmopolitismo, pelo seu abraço acolhedor à diversidade.
Muitos europeus ancestrais estão na primeira linha do ódio à Europa. Odeiam a democracia liberal europeia e suspiram por um big bang que possa devolver-nos às cavernas.
Esses são os cúmplices morais dos terroristas - os que lhes dão alento e resguardo. Muitos deles acoitam-se sob pseudónimo nas redes sociais, onde exibem os instintos mais predadores e primitivos.
A avaliar pelo que escrevem, já regressaram emocionalmente às cavernas. Ou, no fundo, nunca de lá saíram.

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Penso rápido (83)

por Pedro Correia, em 10.05.17

Jean-Luc Mélenchon, o representante da esquerda radical na recente campanha presidencial francesa, patinou em toda a linha. Num momento em que se exigem mais que nunca posições claras dos políticos, sem ambiguidade de qualquer espécie, o ex-socialista preferiu chutar para canto, evitando recomendar o voto na segunda volta desta corrida ao Palácio do Eliseu. Equiparando assim de algum modo Emmanuel Macron a Marine Le Pen. Uma ambivalência que lhe valeu muitas críticas e contrastou com o ocorrido em 2002, quando  assumiu a preferência pelo conservador Jacques Chirac na segunda volta das presidenciais, contra Jean-Marie Le Pen, pai de Marine.
Desta vez o ódio a Macron - um centrista moderado, bastante mais próximo da esquerda do que alguma vez Chirac foi - falou mais alto, levando o vacilante Mélenchon a imitar a atitude de Pilatos.
Lavou as mãos.
E os Pilatos, como é sabido, nunca ficam bem na história.

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Penso rápido (82)

por Pedro Correia, em 09.05.17

Alguns por cá torciam pela vitória eleitoral de Marine Le Pen. Como se uma França fechada ao mundo, de fronteiras herméticas como a pequena Suíça entrincheirada entre montanhas, não fosse uma péssima notícia para nós.
Uma França encerrada a cadeado não teria sido o país de acolhimento de mais de um milhão de emigrantes portugueses e lusodescendentes, nunca seria um importante parceiro comercial do nosso país, jamais ascenderia ao estatuto de quinta economia mundial (e segunda europeia). Sem esquecer que a nação que agora terá Emmanuel Macron como Presidente é uma das raras potências atómicas do planeta e permanece como um dos cinco Estados do mundo com assento no Conselho Permanente do Conselho de Segurança da ONU. Isolar-se seria um absurdo e um risco acrescido para a paz.
Confesso que me custa perceber como existe por cá tanta gente aparentemente interessada em ver muitas Marines le Pens espalhadas por essa Europa fora, cada qual pretendendo transformar os respectivos países em estados-fortaleza, combatendo as sociedades abertas de braço dado com o fundamentalismo islâmico. Uns e outros são companheiros de luta nessa aberrante fé.

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Penso rápido (81)

por Pedro Correia, em 12.12.16

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 Simone de Beauvoir, Sartre e Che Guevara em Havana (1960)

 

Sempre houve excelentes escritores em péssimas companhias. O século XX está cheio deles - Pablo Neruda e Rafael Alberti com as suas odes a Estaline, Ezra Pound com as suas loas a Mussolini, Drieu La Rochelle rendido a Pétain, George Bernard Shaw defendendo as purgas em Moscovo.

Nunca mais acabaríamos se alargássemos a lista a todos os escritores que defenderam o indefensável. E que tanto contribuíram para que a palavra "intelectual" tenha caído em desgraça.
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir pavonearam-se na Havana "revolucionária", prestando tributo ao castrismo. Mas, entre Fidel Castro e Che Guevara, preferiam Che. Quando o argentino foi assassinado na Bolívia, morrendo de modo idêntico ao que conduzira tanta gente à morte em Cuba, Sartre escreveu que tinha desaparecido "não apenas um intelectual, mas também o mais completo ser humano da nossa era". Exagero tipicamente parisiense somado à miopia ideológica, com reflexos inevitáveis na perda de prestígio dos intelectuais no mundo contemporâneo.

As palavras, quando mal usadas, gastam-se depressa. O mesmo sucede às ideias no implacável confronto com os factos históricos: nada a fazer quando não resistem ao elementar teste do tempo.

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Penso rápido (80)

por Pedro Correia, em 29.11.16

As pessoas também são feitas de sentimentos. E devem expressá-los. Quase nunca isso acontece - a não ser tarde de mais.
Mas o caso do Diário de Notícias deve fazer-nos reflectir a todos muito para além dos sentimentos pessoais de cada um. Porque este caso demonstra exemplarmente como bastou decorrer década e meia - menos de uma geração - para se perceber como diminuiu drasticamente a capacidade de mobilização e a influência social dos jornalistas. Reflecte também como a sociedade no seu todo se tornou mais apática, conformista e resignada.
No início do século os que pensavam na vidinha e permaneceram de lado foram a excepção. Políticos, escritores, artistas, jornalistas. Houve mobilização geral para manter o DN na sua sede histórica, construída de raiz para o efeito com projecto de um dos mais célebres arquitectos portugueses de sempre.
Agora tudo aconteceu de forma envergonhada, quase clandestina, quase sem um protesto, quase sem uma palavra de indignação.
Em década e meia passámos a aceitar o inaceitável. Vale a pena voltar a isto, sim. Pelo seu carácter simbólico. E para que se perceba até que ponto regredimos enquanto comunidade solidária e com valores.
Não é pieguice nem choradinho, como alguns alegam. Eu prefiro chamar-lhe lucidez - uma lucidez perplexa e preocupada de quem se interroga onde estaremos daqui a outra década e meia.
E que faz questão de não ter a cabeça enterrada debaixo da areia.

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Penso rápido (79)

por Pedro Correia, em 04.07.16

Cada vez questiono mais a qualidade das sondagens que se vão produzindo e que - não tenhamos medo das palavras - condicionam seriamente a opção dos eleitores. Isto ficou bem evidente nas últimas duas semanas com os estrondosos falhanços da maioria das sondagens que vaticinaram os resultados do referendo britânico e de todas as pesquisas de opinião sobre as legislativas em Espanha.
Não são casos virgens, como bem sabemos por cá. Há em Portugal uma empresa do ramo que, embora trabalhando para órgãos de informação credíveis, tem um péssimo currículo na matéria: errou muito mais do que acertou. Alguns desses erros são de antologia e fazem parte do anedotário político nacional.
Incrivelmente, essa empresa jamais é penalizada: os tais órgãos de informação continuam a encomendar-lhe sucessivas sondagens como se nada tivesse acontecido e não se importassem de perder credibilidade por manterem tão insólita relação contratual.
Um típico fenómeno de "não-inscrição", como salienta o filósofo José Gil, para caracterizar esta evidência tão portuguesa: nunca ninguém parece extrair conclusões dos erros cometidos de forma persistente e reiterada.

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Penso rápido (78)

por Pedro Correia, em 30.06.16

lógica referendária estimula como nenhuma outra as pulsões populistas. É disso que a Europa menos precisa neste momento, confrontada como está com desafios que exigem resposta à escala continental das instituições políticas - desafios como o terrorismo, as migrações, a globalização, a ameaça expansionista russa, as crises financeiras de diversos Estados membros, o espectro da recessão económica e a falência do modelo de segurança social pública tal como o conhecemos desde o pós-guerra.
Que resposta pode ser dada, por exemplo, aos atentados como o de anteontem no aeroporto em Istambul - 42 mortos e pelo menos 40 feridos em estado grave - sem ser através de mecanismos colectivos e de uma fortíssima solidariedade europeia?
Os referendos são caixas de Pandora abertas pelos motivos mais extravagantes (no caso de David Cameron numa tentativa canhestra de entalar a forte corrente eurocéptica do Partido Conservador, tiro que lhe saiu pela culatra) e que dificilmente voltam a ser fechadas. Por isso a Escócia promete avançar já com novo referendo soberanista. Por isso os inconformados com o Brexit mobilizam-se já para que ocorra outro referendo destinado a anular os efeitos do primeiro.
Parafraseando Winston Churchill, a democracia representativa é o pior dos sistemas excepto todos os outros. Arguto Churchill, que nunca necessitou de referendos para tomar decisões, mesmo nos momentos mais dramáticos. Se tivesse convocado uma consulta popular antes de decidir fazer frente à Luftwaffe, talvez hoje o alemão fosse um dos idiomas oficiais do Reino Unido.

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Penso rápido (77)

por Pedro Correia, em 16.11.15

O primeiro combate ao terrorismo começa na linguagem. Não chamar "estado islâmico" ao Daesh, por exemplo.

Porque aquilo não é Estado algum: é um bando terrorista que se apropriou ilegitimamente de largas faixas de território no norte de África e no Médio Oriente, onde mutila, tortura e mata todos os "infiéis", submete as mulheres a uma opressão tirânica e tem provocado danos irreparáveis ao património cultural da Humanidade.

Além disso só por macabra ironia estes terroristas podem intitular-se islâmicos: o maior número das suas vítimas professa essa mesma fé.

Ao chamar-lhes "estado islâmico" estamos a perder a primeira batalha, reconhecendo ao bando criminoso um estatuto que não tem nem nunca terá. Porque nesta guerra também as palavras equivalem a munições.

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Penso rápido (76)

por Pedro Correia, em 06.11.15

É muito mais fácil entrar numa coligação do que sair dela.

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Penso rápido (75)

por Pedro Correia, em 19.10.15

Há quem persista em debater ideias com a subtileza de um sargento na parada, recorrendo a todo o tempo ao estribilho "esquerda, direita".

Estas etiquetas explicam muito pouco ou quase nada da política contemporânea.

 

Vejamos: o Syriza é da "esquerda" assumida e consequente? E o partido Gregos Independentes é da "direita" sem disfarces? Então o que faz uma força da "verdadeira esquerda" coligada com a "verdadeira direita" no executivo de Atenas? Isso mesmo: ambas são forças radicais nas respectivas expressões políticas. E porque será Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa, uma fervorosa apoiante do Syriza? Pelo mesmo motivo.

Esta é a clivagem política do século XXI - entre forças radicais e forças moderadas. Dizer "direita", sem mais nada, é juntar no mesmo saco Passos Coelho e o Pinto Coelho do PNR. Dizer "esquerda", sem mais nada, é juntar no mesmo saco António Costa e o Garcia Pereira do MRPP. Isto explica e descreve e justifica alguma coisa? Evidentemente que não.

 

Há hoje fracturas de matriz diferente no xadrez europeu a respeito dos mais diversos temas: gestão das finanças públicas, reestruturação da dívida, crise dos refugiados, política de alianças geoestratégicas, soberania identitária versus federalismo. Temas que distinguem moderados, por um lado, e radicais pelo outro. Daí o PNR e o MRPP, em sintonia evidente, reivindicarem a saída de Portugal da NATO e exigirem o regresso imediato ao escudo.

Existem muito mais semelhanças do que diferenças entre os extremos do que entre o centro e os extremos.

 

Quem não perceber isto e continuar a usar as muletas retóricas e os ultrapassados conceitos do século XIX não percebe nada de essencial do mundo onde vivemos.

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Penso rápido (74)

por Pedro Correia, em 15.10.15

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Não admira que muitos socialistas, das mais diversas sensibilidades internas, salientem o óbvio: no actual elenco parlamentar não estão reunidas condições objectivas para o PS impor as regras do jogo, como se fosse o dono da bola. Sabem que um partido só com 86 deputados não pode ditar as regras à força política que obteve 107 mandatos no Parlamento. Não estamos perante uma diferença mínima: há 21 deputados de diferença. Mais do que todo o grupo parlamentar do BE, que agora atingiu a maior expressão de sempre.

Um putativo governo PS, para aspirar à maioria tangencial na AR, precisaria de somar aos seus 86 deputados os 19 do BE mais os dois dos Verdes eleitos à boleia do PCP. E mesmo assim ficaria empatado com PSD+CDS. Precisaria do Partido dos Animais para desempatar. Os comunistas, claro, permanecerão onde sempre ficaram: como força de protesto, correndo em pista própria. "Contarão com a oposição do PCP", já advertiu o dirigente comunista Jorge Cordeiro, referindo-se a todas as medidas que lesem "os interesses dos trabalhadores" na óptica da Soeiro Pereira Gomes. Nada menos imprevisível...

Num cenário desses (o maior brinde político a que poderia aspirar Passos Coelho a curto prazo), quantas entrevistas Costa deveria dar ao Financial Times, à  France Presse e à  Reuters para comunicar à Europa que esta improvável coligação PS+BE+PEV+PAN constituiria um governo firme, coeso e sólido?

Como disse Mário Soares no livro-entrevista a Maria João Avillez ao recordar a crise política de Abril de 1987, quando PS, PRD e PCP se juntaram para derrubar o executivo minoritário de Cavaco Silva (derrube que conduziu a eleições antecipadas, seguidas de oito anos de maioria absoluta do PSD), "a expectativa do poder cega os políticos que os deuses querem perder".

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Penso rápido (73)

por Pedro Correia, em 08.10.15

António Costa, ao ter assumido a liderança do PS como assumiu, contestando um secretário-geral legitimado em congresso que vinha de duas vitórias eleitorais, perde toda a credibilidade se continuar em funções após a pesada derrota a que conduziu o partido.
Ou seja: pela própria fasquia que ele traçou para outros, devia ter-se demitido mal foram apurados os resultados na noite eleitoral.
Estamos portanto perante dois pesos e duas medidas: um para chegar ao poder, outro para se agarrar ao poder. Como se a ética da responsabilidade fosse de geometria variável.
Acresce que os partidos mais à esquerda (excepto o irrelevante Livre, que nem chegou aos 40 mil votos a nível nacional) conduziram toda a campanha eleitoral numa estratégia confrontacional com os socialistas: o PCP, agora de falas mansas, transformou mesmo o PS em adversário principal - aliás como já tinha sucedido noutros escrutínios. E em momento algum o PS anunciou aos eleitores que estaria disponível para formar uma frente de esquerda - o que não deixaria de ter inevitáveis consequências na expressão do voto.
Estas coisas fazem-se às claras, de forma transparente perante o eleitorado. E assumem-se com frontalidade. Não podem estar sujeitas a manobras de engenharia pós-eleitoral. Também aqui a ética da responsabilidade não pode ficar a meio caminho. Porque só é válida quando é integral.
Nada afasta tanto os cidadãos da política como este excesso de tacticismo moldável como plasticina, esta inaceitável duplicidade de padrões, esta chocante falta de clareza na afirmação das grandes linhas de conduta.

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Penso rápido (72)

por Pedro Correia, em 07.10.15

António Costa está metido num molho de brócolos. Tem de viabilizar o Executivo de direita, garantindo-lhe um inevitável balão de oxigénio parlamentar - sob pena de irmos para eleições antecipadas e o PS recuar ainda mais nas urnas. E tem de enfrentar a oposição interna no próprio partido, que cresce de dia para dia. Além do mais, ainda precisa de inventar um canto decorativo onde possa enfiar aquele jarrão pré-presidencial de barbas inventado pelo dr. Soares e que agora não serve para coisa nenhuma.
Demasiados problemas para um homem só. Manifestamente, o debilitado líder socialista não dispõe de vagar nem paciência para aturar os tacticismos da inefável Catarina Martins, que com palavras doces procura partir o PS em dois (algo que o dr. Cunhal já tentou, com manifesto insucesso, em 1974 e 1975).
Nada de novo debaixo do sol.

 

ADENDA: Com uma frase, Costa já se livrou do jarrão. Fez bem em seguir o excelente conselho que Jorge Coelho lhe dera em público na noite de domingo.

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Penso rápido (71)

por Pedro Correia, em 29.09.15

Na eleição legislativa contam os mandatos. Essa é a lógica desta eleição - a da conversão de votos em mandatos.

Nos escrutínios de natureza referendária não há lugar a mandatos. Interessam apenas os votos. 

A eleição autonómica catalã nunca foi referendária: só a coligação Juntos Pelo Sim pretendeu dar-lhe essas características. Se o fosse, o "não" à independência teria ganho (52,2% contra 47,8%).

O tiro aos separatistas saiu pela culatra: é o que costuma acontecer quando se quer dar o passo maior que a perna.

Além de verem rejeitadas as suas teses independentistas, que preencheram 95% da campanha, a coligação formada por Mas e Junqueras perdeu nove lugares no Parlamento autonómico. Ficou em minoria no hemiciclo.

Na anterior eleição, em 2012, a Convergência e a Esquerda Republica tinham concorrido em separado, alcançando 44,4%. Agora, em coligação, ficaram-se pelos 39,6%.

As urnas falaram. Com toda a clareza.

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Penso rápido (70)

por Pedro Correia, em 04.09.15

Por estes dias - dominados pela lógica das "redes sociais", que nada hierarquiza e descreve a realidade como um interminável plano horizontal - alguns comparam as vedações fronteiriças erguidas em determinadas zonas limítrofes do Espaço Schengen (começando pelos enclaves espanhóis de Ceuta e Melilha, em Marrocos), chamando-lhes Muros da Vergonha.

Lamento discordar, mas Muro da Vergonha só houve um: aquele que impedia os próprios habitantes de abandonar Berlim-Leste, semicidade onde ninguém queria entrar naqueles anos de chumbo da Guerra Fria. Berlim Ocidental estava sitiada por todos os lados (e teve de ser abastecida pelo ar durante anos) mas era muito mais livre do que a parte comunista da antiga capital do Reich. Onde os habitantes não tinham a mais elementar das liberdades - a de circulação.

Não percamos a memória: o Muro de Berlim foi erguido por um regime ditatorial para impedir os seus próprios cidadãos de sair do país e assassinando-os à bala, se fosse preciso (o que infelizmente aconteceu em centenas de casos entre 1961 e 1989).

Comparar seja o que for ao Muro da Vergonha é conspurcar a memória dos resistentes e dos combatentes pela liberdade. Incluindo todos quantos lá morreram, vitimados pela guarda pretoriana do "socialismo real".

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Penso rápido (69)

por Pedro Correia, em 01.09.15

PSD, PS e CDS - partidos que no seu conjunto representam três quartos dos eleitores portugueses - convergem no essencial: querem cumprir as regras definidas no quadro institucional da União Europeia. Incluindo as metas fixadas no Tratado Orçamental, sem as quais o euro não sobrevive a médio prazo.
Resta-nos sempre a alternativa de não cumprirmos essas regras e darmos enfim o grito do Ipiranga (ou do Trancão, à escala lusitana), entricheirando-nos enquanto nova Albânia do extremo ocidental da Europa, como proclamam as forças eurofóbicas, minoritárias em Portugal. Sem euro, seguramente. Sem inflação nem juros baixos. E também sem Erasmus, sem livre circulação no espaço Schengen, sem Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Tudo a quanto já nos habituámos em matéria de cidadania europeia. Orgulhosamente sós, como pretendia Salazar.

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Penso rápido (68)

por Pedro Correia, em 02.07.15

Há sempre modelos alternativos. Na Rússia vigora um. Na Grécia há outro em marcha. Na Venezuela existe outro ainda, desde 1999. Já para não falar do cubano, muito mais antigo. Ou do norte-coreano, aliás inconfundível.
E há o chinês, o angolano, o saudita. O do Irão, o da Bielo-Rússia, o da Guiné-Bissau.
Tudo visto e somado, talvez o modelo da democracia liberal europeia seja, como dizia Churchill, o menos mau de todos.

Isto não me provoca qualquer estranheza. O que não cessa de me espantar é haver quem defenda modelos diferentes instalado no lado de cá.

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Penso rápido (67)

por Pedro Correia, em 12.05.15

Um misto de apatia, individualismo e alheamento cívico caracteriza muito do comportamento dominante no mundo ocidental. E ajuda a explicar esta permanente sensação de crise larvar, que ultrapassa em larga escala o plano económico. É uma crise de valores, que o fundamentalismo islâmico procura colmatar à sua maneira apelando ao instinto gregário e aos códigos tribais em decomposição nas chamadas sociedades "evoluídas". Isto tem uma capacidade de sedução que ultrapassa largamente o círculo de convertidos, seduzindo novas hordas de fanáticos em potência desprovidos de valores alternativos.

Quem não perceber isto nada percebe de essencial.

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Penso rápido (66)

por Pedro Correia, em 28.02.15

Apesar de tudo, fomos galgando patamares civilizacionais. Adquirimos - e bem - tabus culturais que nos distanciaram do ser cavernícola dos primórdios. A antropofagia, o incesto, o esclavagismo, a violentação, a tortura e tantas outras expressões da "besta" foram sendo alvo de sucessivos anátemas sociais, formando uma espécie de cartilha universal de valores. O problema é que tudo está envolvido numa redoma demasiado fina, que se estilhaça com excessiva facilidade. Os últimos cem anos de história humana demonstram isso mesmo. E as chamadas "redes sociais", num revelador efeito de espelho, confirmam a curta distância que ainda separa a civilização da barbárie.

Nunca podemos dar nada por garantido: a via do retrocesso está sempre latente. As tecnologias contemporâneas só a potenciam, em vez de a afugentarem.

 

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Penso rápido (65)

por Pedro Correia, em 18.02.15

Há uma contradição aparentemente insanável entre o que o Syriza  proclama e o que o Syriza faz. Enquanto proclama o desejo de manter a Grécia no euro (correspondendo aliás à opinião largamente maioritária no país, cerca de 74%) começa a fazer tudo, e em passo rápido, para que o país abandone o sistema monetário europeu com as primeiras medidas de carácter populista já anunciadas em ruptura com os compromissos assumidos ao receber o fundo de resgate (aumento do salário mínimo, electricidade gratuita para cerca de um milhão de pessoas, restituição do subsídio de Natal, abolição das taxas moderadoras, medicamentos gratuitos e passes de transportes também gratuitos para desempregados, renacionalizações de empresas privatizadas ou em fase de privatização, tudo envolvido num pacote que agravaria o défice orçamental grego em nove pontos percentuais).
A intenção, por enquanto inconfessável, parece evidente: apontar mais tarde o dedo acusador às instituições comunitárias, acusando-as de responsabilidade directa na ruptura da Grécia com o euro.
Tudo demasiado previsível. Estamos perante rudimentares aprendizes de Maquiavel. Só receio que o povo grego acabe por sofrer ainda mais com isto. E nós com ele.

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Penso rápido (64)

por Pedro Correia, em 13.02.15

Já li mil textos a profetizar o desmembramento da União Europeia e a derrocada do euro. Enquanto esses textos se sucediam a um ritmo imparável, a União Europeia alargava-se continuamente (passando de 12 países em 1986 para os 28 actuais). A mais recente adesão foi a da Croácia, em 2013. E o euro ia conquistando terreno: já nesta segunda década do século XXI passou a circular oficialmente nos estados bálticos (Estónia, Letónia, Lituânia).
Nenhum estado-membro, por decisão soberana, decidiu abandonar a UE. Pelo contrário, quase metade dos países comunitários (13 em 28) aderiu de 2004 para cá. E vários outros já bateram à porta, aguardando resposta favorável: Turquia, Montenegro, Macedónia, Islândia, Albânia e Sérvia.
Nenhum deles, vá-se lá saber porquê, deu ouvidos aos profetas da desgraça.

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Penso rápido (63)

por Pedro Correia, em 11.02.15

A opinião pública alemã foi no início fortemente contrária à integração no euro. Os alemães orgulhavam-se do marco e pretendiam manter a divisa nacional. O sistema monetário europeu foi concebido pelo presidente Mitterrand para amarrar Berlim ao compromisso comunitário, pois receava que a Alemanha reunificada voltasse a ter uma voz plenamente autónoma numa Europa que progredia para Leste.
Este desígnio estratégico permanece em vigor. Digam o que disserem os quixotes de turno, a construção europeia não se fará sem a Alemanha e muito menos contra a Alemanha: eis uma evidência que fala por si. E ainda bem: graças a ela, pudemos disfrutar de sete décadas de paz na Europa.

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Penso rápido (62)

por Pedro Correia, em 19.01.15

Em defesa do bem absoluto, não falta quem professe hoje a doutrina da equidistância moral entre carrasco e vítima. Contemporizando assim com o mal absoluto: o indivíduo que degola é equivalente em humanidade ao degolado.
Diga-se que nada disto é original. Longe disso. Não tem faltado, desde os confins dos tempos, quem estabeleça paralelo moral entre Abel e Caim.

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Penso rápido (61)

por Pedro Correia, em 15.12.14

O nosso idioma todos os dias se renova, todos os dias recebe os mais diversos contributos - uns óptimos, outros péssimos (como os que vêm do jargão económico ou são más traduções do inglês em versão americana). Mas nenhuma língua - em todas as suas componentes, incluindo a ortográfica - se impõe ou modifica por decreto. Os políticos não são linguistas nem lexicógrafos e quando se aventuram por tais vias fazem asneira grossa, como foi o caso do (des)acordo ortográfico, mal concebido e muito mal aplicado.

Passados todos estes anos (o AO já vem de 1990), ninguém sabe escrever segundo as normas acordísticas. Ninguém mesmo. Daí muita gente recorrer aos "conversores ortográficos" com matriz brasileira, que impõem a grafia de lá à revelia do próprio "acordo". Isto gera a proliferação de  fatos, até na mais conspícua escrita jornalística.

Resultado: após o extermínio das chamadas "consoantes mudas", segue-se agora o massacre das consoantes bem sonoras, como na palavra "bactéria", que não tarda muito começa a ser pronunciada batéria pois vai sendo escrita assim. Alguns, com muita lata, já pronunciam láteo em vez de "lácteo".

A "base fonológica" que servia de base ao (des)acordo emigrou para parte incerta. E a "pronúncia culta" tantas vezes invocada como fundamento da nova ortografia desapareceu sem deixar rasto.
Cereja em cima do bolo: o Diário da República tem vindo a tornar-se um espelho do analfabetismo ortográfico dominante. Sem que ninguém, nas chamadas esferas oficiais, pareça corar de vergonha.

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Penso rápido (60)

por Pedro Correia, em 27.11.14

É espantoso verificar como se injuria e difama o mensageiro enquanto se apregoa a necessidade de respeitar o bom nome e a presunção de inocência dos arguidos, sejam eles quem forem. Sobretudo quando essa incongruência é assumida por pessoas que noutros casos, com outras cores políticas, fizeram tábua-rasa dos mesmos princípios que agora juram honrar e defender. Sobretudo quando essa incongruência é assumida por pessoas que noutros casos, com outras cores políticas, invocaram como alicerces das suas certezas alguns dos órgãos de informação que então citavam como veículos idóneos e agora - só agora - acusam de violar segredos de justiça.

Tais pessoas concebem a verdade como um conceito de geometria variável: diz-me que trincheira ocupas, dir-te-ei quem és.

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Penso rápido (59)

por Pedro Correia, em 06.11.14

Aos 18 anos comecei a anotar todos os livros que ia lendo. É uma lista que sempre me acompanhou de então para cá. Já são mil e muitas anotações. Com nome do livro, autor, data e local em que terminei a leitura. E as estrelinhas da praxe.

Ajuda sempre na releitura. Como tenho verificado nestes últimos meses dedicados a revisitar alguns dos livros que mais me marcaram.
Ajuda também a lembrar quais foram os anos mais férteis em leituras. No ano em que fiz 20, por exemplo, li setenta e tal livros completos. Algo impensável nos tempos que correm, pelos mais diversos motivos.
Ajuda ainda a recordar que livro líamos quando nos ocorreram determinados factos que marcaram as nossas vidas, para bem ou para mal.
Ajuda enfim a pontuar a nossa memória. Como uma espécie de GPS para consumo próprio.
Dá jeito, muito mais vezes do que possamos imaginar.

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Penso rápido (58)

por Pedro Correia, em 04.11.14

Um dia hei-de escrever algo mais profundo e consistente sobre a blogosfera. A possibilidade de trocarmos ideias, experiências e contactos -- mesmo com gente que pensa de maneira muito diferente -- é absolutamente inestimável. Isto só é possível quando escrevemos num meio em que aquilo que mais importa é comunicar. Não para convencer ninguém, mas para persuadir. Não para exibir códigos tribais, mas para captar sinais de outras "tribos". Nada a ver, portanto, com os eflúvios narcisistas agora tão em voga com a febre das "redes sociais" onde apenas uma palavra importa. A palavra eu.
No DELITO DE OPINIÃO, de algum modo, as coisas aconteceram à revelia dos estereótipos. Pensamos de forma muito diferente nas mais variadas matérias -- da política ao futebol. Mas conseguimos, apesar de tudo, manter pontos/pontes de contacto. E descobrir, a partir daí, interesses comuns. Sem prejuízo de continuarmos a cultivar e a esgrimir as nossas divergências.
Se há coisas que para mim valem a pena, esta é uma delas.

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Penso rápido (57)

por Pedro Correia, em 25.10.14

A tradução (sei por experiência própria) é uma actividade incompreendida e mal remunerada. Há felizmente boas e notórias excepções, mas muitas vezes as traduções ficam a cargo de quem não tem preparação para o efeito. Não falo em termos estritamente técnicos, mas estéticos, literários. Traduzir uma obra literária exige mais do que sólidos rudimentos linguísticos: exige também uma adequada preparação literária. Que transcenda a simples tradução literal. Para não vermos a expressão idiomática "it's raining cats and dogs" traduzida por "chovem gatos e cães".
Não por acaso, durante décadas algumas das mais celebradas traduções em Portugal estiveram a cargo de conceituados escritores. E nem preciso referir o exemplo já histórico de Eça de Queirós, tradutor d' As Minas de Salomão. Basta mencionar - entre tantos outros, no século XX - Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, João Gaspar Simões, Cabral do Nascimento, Adolfo Casais Monteiro, José Blanc de Portugal, Jorge de Sena, José Saramago, Mário-Henrique Leiria, Alexandre Pinheiro Torres, Urbano Tavares Rodrigues e José Cardoso Pires.

Hoje isso sucede cada vez menos. Com reflexos óbvios na perda de subtileza da linguagem e na degradação da qualidade literária de muitas traduções.

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Penso rápido (56)

por Pedro Correia, em 16.10.14

A clivagem socratismo/pós-socratismo está superada no PS - como está superada na sociedade portuguesa. Não por acaso, António Costa designou para novo líder parlamentar o líder do partido que antecedeu Sócrates.
É um sinal importante. E a política vive muito de sinais.
No futuro imediato a clivagem no PS será entre a ala mais esquerdista, que pugnará por um sucedâneo de Frente Popular para o quadriénio 2015/19, e a ala mais moderada, que sabe de antemão qual é a receita mais realista a esperar da próxima eleição legislativa: uma coligação ao centro.
O confronto vai ocorrer em função disto, contaminando aliás outras forças políticas. Não por acaso, a actual liderança bicéfala do Bloco de Esquerda começa a ser abertamente contestada pelo próprio líder parlamentar - a propósito deste tema, precisamente. Sócrates já nada tem a ver com este filme.

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Penso rápido (55)

por Pedro Correia, em 09.10.14

Vivemos já de algum modo num cenário pós-orwelliano. George Orwell preocupava-se com a tecnologia enquanto instrumento de um estado totalitário. A questão é que a tecnologia pode ser totalitária por si própria - e, nessa óptica, induzir derivas totalitárias no mais democrático dos sistemas.

Nesta época em que tanto se fala em direitos humanos, alguns desses direitos vão sendo diariamente comprimidos ao que parece sem surpresa ou escândalo de quase ninguém. Refiro-me ao direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, por exemplo. O narcisismo exibicionista sobrepõe-se a tudo o resto.

Como há-de o Estado - mesmo o Estado democrático, já nem falo em estados totalitários - respeitar aqueles direitos se os próprios cidadãos parecem desprezá-los? A todo o momento somos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados e vigiados nos mais diversos locais. Sem que ninguém pareça escandalizar-se.
Infelizmente entre nós estas questões só raras vezes são debatidas. Como se fossem irrelevantes. Mas não são.

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Penso rápido (54)

por Pedro Correia, em 01.10.14

Releio o fabuloso livro de memórias de Stefan Zweig, intitulado O Mundo de Ontem. Foi, dramaticamente, um livro-testamento: o célebre escritor judeu austríaco, refugiado no Brasil, suicidou-se em Janeiro de 1942 logo após a conclusão deste manuscrito.

Retenho, em particular, o capítulo em que Zweig nos descreve a atmosfera europeia nas semanas que antecederam a I Guerra Mundial. "Se hoje, reflectindo com toda a calma, perguntarmos por que motivo a Europa entrou na guerra em 1914, não encontramos uma única razão plausível e nem sequer um pretexto. Não estavam em jogo ideias, mal estavam em jogo as pequenas regiões fronteiriças; não encontro outra explicação que não seja o excesso de energia, consequência trágica daquele dinamismo interno que se tinha vindo a acumuilar ao longo desses 40 anos de paz e que queria agora libertar-se com toda a violência. Cada Estado adquirira subitamente uma sensação de força e esquecera-se de que o outro sentia exactamente o mesmo: cada um queria ainda mais e cada um queria tirar partido do outro."

Um testemunho dilacerante. E cheio de lições para os dias de hoje: a paz é a mais frágil conquista das civlizações contemporâneas. E nunca está plenamente garantida: é um erro profundo pensar o contrário.

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Penso rápido (53)

por Pedro Correia, em 29.09.14

António Costa falhou o primeiro passo na construção da unidade do partido quando ontem à noite, no discurso da vitória eleitoral, ignorou o nome de António José Seguro. Esta omissão não honrou as melhores tradições do sistema democrático, onde tão importante como saber perder é saber ganhar.
O futuro secretário-geral precisará dos seguristas para construir a nova maioria que ambiciona. Inútil fazer charme para fora das fronteiras do PS enquanto não assegurar a unidade interna.
Concorde-se ou discorde-se da sua actuação e do seu estilo, Seguro liderou o partido durante mais de três anos muito difíceis, em que mais ninguém se dispôs a fazê-lo. Três anos muito difíceis devido ao estado de emergência financeira em que Portugal se encontrava. Três anos muito difíceis para o PS enquanto partido da oposição num quadro político dominado pelo memorando negociado e assinado pelos próprios socialistas quando ainda eram governo, antes do mandato de Seguro. Três anos em que, apesar disso, o PS registou três vitórias eleitorais -- nas regionais açorianas, nas autárquicas e nas europeias.
Há uma tendência crescente para a perda de memória na política portuguesa. Até por isso convém ir lembrando alguns factos essenciais. Como estes.

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Penso rápido (52)

por Pedro Correia, em 25.09.14

Várias vezes, nos mais diversos paradeiros, somos submetidos a detectores de metais. As câmaras da chamada "videovigilância" estão por todo o lado. Os meios electrónicos que nos facilitam a vida funcionam também como registo permanente do nosso paradeiro -- as vias verdes nas auto-estradas, o multibanco que permite detectar onde levantámos dinheiro e a que horas e qual a quantia em causa, o telemóvel sofisticado que traz incorporado um GPS que constitui uma espécie de segunda impressão digital nossa: é impossível viver sem ele, é impossível apagar o traço da nossa passagem com ele, seja por onde for.

A sociedade aterradora delineada por George Orwell, em que a tecnologia constitui já não só um instrumento de um sistema totalitário mas o seu próprio fundamento, ultrapassou as páginas da literatura de ficção, incorporando-se no nosso quotidiano. Quando até já um Procurador-Geral da República admitiu ser alvo de escutas telefónicas ilegais, todo o cidadão tem não só o direito mas também o dever de se sentir preocupado. Em nome do combate ao terrorismo ou até à delinquência comum, estamos a fazer recuar drasticamente as fronteiras da privacidade. O mesmo é dizer: as fronteiras da liberdade individual, um valor inestimável.

A semente totalitária começa a germinar aqui.

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Penso rápido (51)

por Pedro Correia, em 24.09.14

Faz-me impressão verificar que apenas um terço dos militantes do PS tenha entendido votar nas recentes eleições para as federações socialistas. Isto é um sério indício de fragilidade do partido, que aliás as mais recentes sondagens vêm demonstrando. O PS sairá deste processo eleitoral interno mais debilitado, mais dividido, com feridas muito sérias por cicatrizar -- desde logo uma ferida já antiga, causada pela governação Sócrates.
Enfim, boas notícias para os partidos situados à esquerda do PS e também para franco-atiradores como Marinho Pinto. Interrogo-me se serão boas notícias para a democracia portuguesa.
Não custa vaticinar desde já que o elenco da próxima legislatura em São Bento será bastante mais fragmentado do que o actual. É aliás a tendência que se vai verificando por essa Europa fora. Cada vez que ouço um responsável partidário, por cá, reclamar "maioria absoluta" nas urnas tenho de concluir que vive num mundo que nada tem a ver com a realidade.

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Penso rápido (50)

por Pedro Correia, em 22.09.14

Os políticos que se habituam demasiado tempo a pronunciar-se sem contraditório (e há vários, e de várias cores) passam a assumir uma pose grave e senatorial, própria de quem nunca se molha e de quem se habitua a vencer sem nunca verdadeiramente ir a jogo.
Só forma, sem conteúdo. Mas é quanto basta para granjear aplausos fascinados da nata lisboeta, sempre pronta a colar mais um cromo na vasta caderneta de senadores do regime.

A propósito, muitos comentadores falam na necessidade de "renovação" da política esquecendo que a renovação terá de passar também por eles. Fazem parte do sistema, alimentam-se da pequena intriga alfacinha. Alguns estão há 20 anos ou até mais a fazer comentário político. São parte interessadíssima naquilo que comentam. E responsáveis, em larga medida, pela fuga sistemática de leitores e espectadores das páginas de jornalismo político e dos debates políticos na televisão.

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Penso rápido (49)

por Pedro Correia, em 20.09.14

Regresso aos tempos em que lia três livros alternadamente. Com o prazer de sempre, mesmo perante obras consideradas menores. Incluo neste prazer algo muito específico: a releitura. Há livros que nos tocam de maneiras diferentes, consoante a época em que os lemos. Pensei nisto há dias, ao chegar novamente ao fim de um livro que me fascinou pela terceira vez. Como tenho há muito o hábito de assinalar nos próprios exemplares a data em que concluí a leitura, fui lembrar as duas anteriores inscrições: 31 de Maio de 1983 e 16 de Setembro de 2004. Lá deixei mais uma data: 11 de Setembro de 2014.

Os livros têm este dom: são fonte permanente de recordações. E devolvem-nos até memórias de factos, pessoas e lugares que a eles ficarão perpetuamente associados.

Prestes a terminar, este foi para mim um Verão de várias e estimulantes leituras, feitas sobretudo de reencontros com autores de que muito gosto: William Faulkner, Jack London, Ray Bradbury, Georges Simenon, José Cardoso Pires, Joseph Roth, Rubem Fonseca, Ernest Hemingway, Joseph Conrad, Erich Maria Remarque, Graham Greene. Dezasseis obras em três meses.

Lembro-me de ouvir um professor que tive aos 18 anos, na universidade, perguntar aos alunos num anfiteatro: "Os senhores leram muito? Espero bem que sim, pois a partir de agora lerão muito menos. Eu li o essencial dos livros que me formaram até aos 18 anos."

Penso pela enésima vez nesta frase que guardei na memória, tomando-a na altura pelo seu valor facial, e não posso deixar de sorrir perante a falta de capacidade de previsão daquele catedrático, pelo menos na parte que me toca.

A vida também é isto: sabermos desarrumar os ficheiros em que nos querem incluir os mais velhos e alegadamente mais sábios naqueles anos em que todas as páginas de quase todos os livros permanecem por abrir para cada um de nós.

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Penso rápido (48)

por Pedro Correia, em 08.09.14

São inúmeros os casos de livros que mudam uma vida. Napoleão, ao que consta, nunca mais foi o mesmo depois de ler O Príncipe, de Maquiavel. Pessoa imitou um dos seus autores favoritos, Poe, em parte da obra e grande parte da vida. Marx influenciou as vidas de milhões de pessoas. E Nietzsche também -- dizem que até influenciou um certo cabo que combateu na I Guerra Mundial e usava um bigodinho ridículo. Ibsen influenciou legislação sobre os direitos das mulheres. Conan Doyle e Simenon influenciaram tanto (e tantos) que personagens saídos da sua imaginação, como Sherlock Holmes e o comissário Maigret, se tornaram mais conhecidos do que os autores. Romeu e Julieta, figuras de papel, seduziram mais do que inúmeras pessoas de carne e osso. E já nem falo dos mundos que se descobrem em cada livro da Bíblia...
Sabemos sempre de onde partimos com um livro na mão. Mas somos incapazes de imaginar até onde ele nos conduz. É também isto -- é sobretudo isto -- que faz o fascínio da literatura.

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Penso rápido (47)

por Pedro Correia, em 03.09.14

Poucas coisas me chocam tanto como a exibição - tão tristemente portuguesa - da inveja e do despeito perante todos aqueles que se distinguem, se valorizam, se superam a si próprios, conseguindo ultrapassar a estreiteza de horizontes a que poderiam estar condenados, contrariando todas as sinas e todos os fados para singrar na vida.
Se esse sucesso ocorrer num palco internacional, suscitando calorosos aplausos além-fronteiras, a inveja aumenta em proporção geométrica. E atinge delírios irracionais.
De todos os sintomas de menoridade que nos caracterizam, este é um dos mais notórios. E um dos mais entranhados. Como se fizesse parte do nosso inconsciente colectivo. E se calhar faz mesmo, o que explica muito do que se lê e escuta por aí.

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Penso rápido (46)

por Pedro Correia, em 01.09.14

Tempo de liberdade condicionada: enchemos a boca com direitos proclamatórios mas vivemos rodeados de "correctores". Reparo agora mesmo: tenho um telemóvel que me "corrige" as palavras. Estou proibido de escrever face, uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa. O "corrector" emenda-a automaticamente para facebook. Algo que não tenho nem tenciono vir a ter. Volto à face, o aparelho volta a impor-me o face norte-americano. Não por acaso, o vocábulo já anda a ser pronunciado feice, entre nós, um pouco por todo o lado.

Liberdade condicionada: avança aos poucos, pé ante pé, e vai-nos cercando no dia a dia. Toma cautela com o que escreves. Há sempre um "corrector" para te emendar a prosa.

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Penso rápido (45)

por Pedro Correia, em 27.08.14

Devemos ter sempre a noção muito clara que a democracia é um bem precioso mas extremamente frágil. E há quem se aproveite dela, a todo o momento, para a exterminar. O populismo, a demagogia, os nacionalismos, a xenofobia, o radicalismo identitário são instrumentos políticos de que se usa e abusa - à esquerda e à direita - para estrangular a democracia. Não devemos perder de vista as lições da história. Em 1900, na chegada ao século XX, muitos pensadores e um número incontável de políticos embriagados de "optimismo" e "modernidade" vaticinaram um mundo de imparável progresso. Ninguém imaginava então que esse seria o século dos maiores morticínios registados desde sempre e das mais tenebrosas ditaduras. Ninguém supunha que nesse mesmo século então emergente seria inventada a mais terrível das palavras: totalitarismo.
Nada mais ilusório do que o optimismo histórico, nada mais enganador do que a noção de que existe necessariamente um "final feliz" e redentor na sucessão dos ciclos históricos.

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Penso rápido (44)

por Pedro Correia, em 26.08.14

O progresso. Se há palavra malbaratada, desvirtuada, pervertida, vilipendiada é a palavra progresso - sempre pronta a ser usada e abusada por todos os vendedores de ilusões. Alguns dos maiores torcionários de que há memória usaram-na em discursos e até em livros. Em nome do progresso, matou-se e torturou-se. Sob a bandeira do progresso, o homem é constantemente empurrado com excessiva frequência de regresso às cavernas. Invoca-se o progresso como se fosse um dogma, pratica-se o retrocesso como se fosse inevitável.

Nada há de tão perverso na política como esta novilíngua destinada a iludir as mais legítimas aspirações dos povos. Danton, um dos próceres da Revolução Francesa, chegou a enaltecer a guilhotina como conquista civilizacional e símbolo de um futuro radioso. «O verbo 'guilhotinar', notai, não se pode conjugar no passado. Não se diz: 'Fui guilhotinado'.»

Palavras proferidas na véspera da sua morte, a 5 de Abril de 1794: foi vítima da guilhotina, na sequência de uma conspiração liderada por Saint-Just, que costumava proclamar: «Ninguém pode governar inocentemente.» Provavelmente tinha razão: o próprio Saint-Just viria a ser executado a 28 de Julho, com apenas 26 anos, acusado de ser "inimigo do povo". De nada lhe valera o brilhantismo das suas intervenções enquanto mais jovem deputado eleito para a Convenção Nacional.

Foi a primeira revolução de grande envergadura a devorar os seus filhos - e esteve muito longe de ser a última. Porque nenhum discurso inflamado por cartilhas partidárias é capaz de alterar a natureza humana.

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Penso rápido (43)

por Pedro Correia, em 25.08.14

"Nunca devemos confundir movimento com acção", ensinava Hemingway. Tenho-me lembrado com frequência desta frase sábia que parecia antecipar o tempo actual, em que tudo se banaliza. É um tempo de anestesia colectiva, potenciado pelo efeito reprodutivo da internet, das redes sociais, dos canais de notícias, da televisão em fluxo contínuo. Já quase nada surpreende, já quase nada escandaliza ninguém. E o mais chocante nesta permanente girândola de imagens em movimento é o facto de as "consumirmos" (palavra muito em voga) numa total falta de enquadramento hierárquico de valores, proporcionada pela diluição do jornalismo clássico que funcionava como mediador neste circuito. Hoje tudo é importante. O que equivale a dizer que nada é importante. Somos bombardeados com imagens de "famosos" a levar com frívolos baldes de água fria intercaladas com o vídeo do jornalista americano prestes a ser decapitado por um carrasco encapuzado, exibido até à náusea por todos os meios disponíveis como veículo de propaganda da face mais repugnante do islamismo radical. E depois disto voltam os baldes de água fria. Ou o bebé assassinado pelo pai. Ou a crise do BES. Ou a contratação do enésimo "reforço" para um clube de futebol. Ou outro homicida ovacionado por "populares" à entrada de um tribunal neste país de alegados brandos costumes. Ou mais um avião que cai sabe-se lá onde, derrubado sabe-se lá por quem.
Nada choca, nada impressiona, nada fica, nada se retém numa sociedade narcísica onde se dilui a noção de privacidade à medida que tudo se "partilha" no instagram e no facebook, e que elege as selfies como supremo grito da moda: virar a câmara não para o mundo ou para os outros mas para o próprio fotógrafo que transforma o foco digital em espelho. A palavra eu sobrepondo-se à palavra tu e à palavra nós.

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Penso rápido (42)

por Pedro Correia, em 21.08.14

Nunca os economistas estiveram tanto em voga: quanto maior é a crise, mais rivalizam com os futebolistas enquanto campeões da permanência nos ecrãs televisivos. A esmagadora maioria limita-se a dizer-nos o que todos já sabemos, embora o diga com indisfarçável convicção: que as coisas estão más, que a situação é difícil, que a recuperação será lenta e penosa, que os problemas sociais poderão multiplicar-se, que a criação de emprego é um objectivo prioritário mas de concretização problemática.

Ouço este corrupio de génios a desfilar na pantalha, noite após noite, e questiono-me por que motivo não terão eles surgido com a sua palavra avisada e esclarecida quando o rumo dos acontecimentos era ainda incerto e a prosperidade parecia prolongar-se em rota ascendente, ao contrário do que sucedeu depois.

Há um velho aforismo que me vem à memória em momentos destes: depois da batalha, todos somos generais.

E lembro-me de outro: Deus criou os economistas para que os meteorologistas tivessem credibilidade.

Estamos bem entregues com tantos génios a velar por nós.

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Penso rápido (41)

por Pedro Correia, em 18.08.14

Luís de Camões tem o nome numa das principais praças de Lisboa, correspondente ao seu prestígio nas letras portuguesas. Outros escritores estão igualmente bem representados na toponíma alfacinha: Garrett, no coração do Chiado; Alexandre Herculano, numa das principais ruas que atravessam a Avenida da Liberdade; Camilo Castelo Branco, nas placas de uma transversal da Duque de Loulé; Ramalho Ortigão, na principal via de circulação do Bairro Azul, nas imediações da Praça de Espanha; Guerra Junqueiro, que até tem direito a avenida entre a Alameda D. Afonso Henriques e a Praça de Londres.

Vários outros escritores dão nome a ruas no pacato bairro de Alvalade: Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, António Nobre, António Patrício, Afonso Lopes Vieira. Oliveira Martins surge nas placas toponímicas de uma rua paralela à Avenida de Roma, perto do Campo Pequeno. E Cesário Verde dá nome a um jardim, o que é um claro indicador de bom gosto.

Quase todos têm obra ao nível da homenagem que as sucessivas autoridades municipais de Lisboa decidiram atribuir-lhes, embora Pessoa e Oliveira Martins merecessem maior visibilidade. Sobretudo o primeiro, que tanto e tão bem cantou a capital na sua incomparável obra poética.

Mas quem recebe o tratamento mais injusto, e totalmente incompreensível, é Eça de Queirós. Apenas imortalizado numa rua secundária quase escondida, de escassas centenas de metros, algures entre o Marquês de Pombal e as Picoas. Tenho a certeza de que a esmagadora maioria dos lisboetas não faz a menor ideia onde esta rua se situa.

Eça foi o grande romancista da Lisboa oitocentista, que é afinal -- em grande parte -- ainda a Lisboa dos nossos dias. Merece um tratamento mais condigno por parte dos responsáveis pela toponímia da maior cidade do País. Se o transmontano Guerra Junqueiro -- um poeta menor -- tem nome numa avenida em zona nobre, Eça merece no mínimo tratamento idêntico.

Para quando uma avenida Eça de Queirós na capital?

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Penso rápido (40)

por Pedro Correia, em 12.08.14

Leio na imprensa desta manhã: Mangala, transferido para o Manchester City, rendeu doze vezes mais do que a venda de Garay ao Zenit. O defesa francês, suplente no Mundial do Brasil, permite aos portistas encaixar 30,5 milhões de euros, correspondentes a 56,7% dos direitos económicos do jogador. Enquanto o central argentino, que foi titular da selecção que se sagrou vice-campeã mundial, apenas rendeu 2,4 milhões aos cofres encarnados.

Há qualquer coisa que me escapa nestes cifrões do futebol. E que não augura nada de bom enquanto vemos milionários oriundos de paragens longínquas tomar posse de históricos clubes europeus e empresários especializados em olear circuitos de transferências de profissionais do futebol engordarem cada vez mais as respectivas contas bancárias.

Os tentáculos desse gigantesco polvo em que se tornou o futebol-negócio vão-se ampliando na proporção inversa da dimensão hoje reservada ao futebol-desporto, confinando-a a uma memória cada vez mais difusa de tempos passados. Há aqui uma enorme borbulha em potência que, quando estoirar, não deixará de provocar muitas vítimas inocentes.

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Penso rápido (39)

por Pedro Correia, em 11.08.14

Na mesa ao lado do restaurante onde almoço, um casal ainda jovem -- na casa dos trinta -- está sentado frente a frente. Mas em silêncio. Ambos de olhos mergulhados na respectiva tablete -- que não é de chocolate, mas electrónica. Visivelmente concentrados na função, alheados de tudo quanto se passa à volta.

Alheados, desde logo, de quem têm pela frente.

Imagino-os, assim concentrados, em ameno paleio com parceiros ou parceiras de Facebook. Sem cessar de me espantar com esta sociedade que gerámos em pouco tempo, cheia de gente tão nova e já ligada à máquina.

O que havemos de esperar deste admirável mundo novo que troca o ser humano pelo ecrã digital? Sentimentos mecanizados. Emoções virtuais. Distância maquinal. Tudo se acende com um clique para se apagar logo depois, à mercê de outro clique.

Num mundo assim, a única atitude rebelde é estar off line. Olhar nos olhos, falar de viva voz, tocar como se costumava fazer há anos, antes de o virtual se apossar do real e as paixões andarem diluídas de tecla em tecla.

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Penso rápido (38)

por Pedro Correia, em 06.08.14
Tornei-me ainda mais adepto do género epistolar desde que entrámos na era dos sms. Uma era que nos tem levado a uma rápida compressão vocabular. Fala-se cada vez mais rápido e cada vez de forma mais "económica": bastam algumas dezenas de vocábulos para assegurar a comunicação instantânea. Tudo muito básico, muito linear. Ano após ano, centenas de palavras entram definitivamente em desuso entre nós. Para combater esta tendência, nada melhor do que regressar a páginas já antigas, algumas até de livros com páginas amarelecidas pela erosão do tempo. Regressar aos romances de Eça de Queiroz, regressar ao Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Regressar aos diários de Miguel Torga, regressar à prosa diarística de Vergílio Ferreira, aos contos de José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires, aos versos de Sophia de Mello Breyner Andresen, aos inflamados panfletos de Jorge de Sena. Às cartas de todos eles.

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Penso rápido (37)

por Pedro Correia, em 04.08.14

A União Europeia, um projecto visionário, está a ser confrontada com as suas contradições. Por toda a parte despontam ancestrais ódios étnicos e seculares disputas fronteiriças que pareciam adormecidas voltam à tona. O nacionalismo tornou-se moeda corrente. Países que eram referência absoluta de progresso, como a Dinamarca, voltam a fechar as fronteiras enquanto os partidos xenófobos ganham terreno eleitoral em cidades tão cosmopolitas como Londres, Helsínquia, Amesterdão, Viena e Marselha.

A crise subsequente ao colapso dos mercados financeiros, com os seus 27 milhões de desempregados, potenciou este cenário. Mas a maior crise -- que é de identidade, de projecto -- já vinha de trás.

A Conferência de Versalhes (1919) e a Conferência de Ialta (1945) estão na origem de muitos dos conflitos europeus: os mapas da maioria das nações do nosso continente foram várias vezes redesenhados, nomeadamente nessas cimeiras internacionais. Fronteiras étnicas, linguísticas, religiosas e até orográficas eram subitamente alteradas a regra e esquadro por decisores políticos situados a milhares de quilómetros de distância.

Como se quisessem apagar os vestígios da História. Esquecendo-se de que a História, mesmo quando parece adormecida, pode sempre regressar a galope. E mais veloz que nunca.

Passou há muito o tempo em que o "projecto europeu" se esgotava numa união comercial. O problema, percebe-se agora, foi o passo ter sido maior que a perna: construiu-se uma união monetária sem verdadeira união política.

Mas a União Europeia ou é uma verdadeira união política ou não será nada de substancial.

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Penso rápido (36)

por Pedro Correia, em 03.08.14

Júlio Verne: um autor a que regresso sempre. Não admira: o grande prosador francês, escrevendo na sua pacata cidade natal de Nantes, soube transportar-nos, com imaginação e talento, a outros mundos. Alargou-nos horizontes, deu-nos vontade de transcender fronteiras, inspirou-nos diversas digressões pelo nosso planeta, ainda não totalmente conhecido na sua época (faltava então chegar aos pólos, subir aos Himalaias e descer à fossa das Marianas, por exemplo).

Verne fundou a literatura de ficção científica e foi de algum modo também um ilustre precursor da moderna literatura de viagens.

E viajar é preciso. Mais que nunca. Evitemos estreitar os horizontes que Verne tão bem abriu.

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