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Portugal: destaque internacional

por Pedro Correia, em 14.05.17

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Visita do Papa Francisco a Fátima:

Destaques no El País, El Mundo, Estado de São Paulo, The Guardian, O Globo, La Stampa, ABC, La Reppublica, Folha de São Paulo.

 

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Vitória de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão:

Destaques no El País, El Mundo, Le Figaro, The Guardian, Daily Telegraph, ABC, Le Monde, La Reppublica, Independent, New York Times.

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O Papa esquecido

por Pedro Correia, em 12.05.17

 

Pela minha vida já passaram cinco Papas. Vi três deles: Paulo VI em Roma, João Paulo II e Bento XVI em Lisboa. Não estive ainda com o Papa Francisco e João Paulo I teve um mandato tão breve - e hoje tão esquecido - que mal chegou a exercer o magistério como condutor da Igreja Católica. Ele que dizia preferir, acima de tudo, ser "catequista de paróquia".

Recordo a emoção generalizada - no mundo católico e não só - quando Albino Luciani foi apresentado urbi et orbi como sucessor do Trono de Pedro, a 26 de Agosto de 1978, adoptando um nome composto - e quebrando assim uma regra ancestral - em homenagem aos seus predecessores imediatos, João XXIII e Paulo VI. Recebeu logo o cognome de "Papa do Sorriso" pelos modos afáveis que revelou ao assomar à varanda da Basílica, no Vaticano.

Deixou um rasto efémero e meteórico na Igreja - mas uma memória indelével em quantos o viram sorrir naquele dia estival, contrastando com a gravidade solene do antecessor. É de João Paulo I que me lembro com frequência quando vejo ou escuto Francisco: sinto-os irmanados pelo mesmo espírito fraterno e caloroso. E nunca deixo de me emocionar com as últimas palavras do Papa Luciani - que visitara Fátima em 1977, como patriarca de Veneza - proferidas perante uma assembleia de católicos italianos a 27 de Setembro de 1978.

"O povo da fome interpela de maneira dramática o povo da opulência. A Igreja estremece perante este grito de angústia. (...) Ninguém tem a prerrogativa de usar em exclusivo um bem em seu benefício, além do necessário, quando existem pessoas que morrem por não ter nada."

Horas depois o sorriso apagou-se para a eternidade, envolto em silêncio e mistério: caía o pano nos austeros aposentos do Palácio Apostólico. O pontificado de João Paulo I durou só 33 dias.

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Escola pública

por Rui Rocha, em 12.05.17

Devido à tolerância de ponto decretada pela visita do Papa, hoje as escolas públicas estão vazias. Não há auxiliares de acção educativa. Não há alunos nem professores nas salas de aula sem crucifixos.

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A intolerância religiosa dos deputados.

por Luís Menezes Leitão, em 03.05.17

Tenho acompanhado com um sorriso nos lábios a magna questão sobre a discussão da tolerância de ponto a propósito da vinda do Papa Francisco. Estou particularmente chocado com os deputados intolerantes que se manifestaram contra essa benesse aos funcionários públicos, ansiosos por ir ver o Papa ao Algarve num fim-de-semana prolongado.

 

O que ninguém está, porém, a referir é a escandalosa discriminação de não conceder a tradicional amnistia pela vinda do Papa Francisco a Portugal. Em anteriores vindas de Papas não havia apenas uma tolerância de ponto, mas também uma amnistia que limpava todas as multas, coimas e quejandos, a bem da caridade cristã, misericordiosa para com esses pecados veniais.

 

Afinal de contas perante uma vinda de um Papa tão importante como o Papa Francisco, a amnistia era um "must" que se impunha, tendo aliás sido pedida pelo Papa. Pelos vistos os deputados não estão abrangidos pelo espírito da visita papal.

 

Os deputados que deixem de ser religiosamente intolerantes e aprovem mas é a amnistia. Todo o país cristão — e não apenas os funcionários públicos — o exige.

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Como por milagre

por Pedro Correia, em 03.05.17

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Há dias houve um ínfimo mas muito mediático clamor numa fracção da ala bloquista do grupo parlamentar do PS contra a concessão da "tolerância de ponto" decretada pelo Governo aos funcionários públicos a 12 de Maio, dia da chegada do Papa Francisco a Fátima. Pretexto invocado: tal medida fere o princípio da "laicidade do Estado", que andou esquecido na recente Sexta-Feira Santa, feriado obrigatório em Portugal sem um sussurro de indignação daqueles deputados. Como se tal princípio fosse de geometria muito variável. 

Curiosamente, em nenhum momento vi os referidos parlamentares preocupados com uma consequência imediata da mais recente decisão governamental: acentuar a chocante desigualdade registada num país que funciona a duas velocidades - a da administração pública e a da economia privada. Com esta a ter salários mais baixos, jornadas laborais maiores, aposentações mais tardias e sobretudo o espectro do desemprego sempre presente, enquanto vai financiando a primeira, domínio exclusivo das "tolerâncias de ponto".

Devia assim António Costa ter procedido de maneira diferente com alguém que o falecido ex-Presidente Mário Soares afirmava "idolatrar" e a jornalista Teresa de Sousa considera "mais inspirador do que qualquer líder europeu"? Não. Porque este Francisco que está prestes a desembarcar em solo português como peregrino católico não merece menos do que o seu predecessor Bento XVI, que em 2010, quando cá esteve, levou o primeiro-ministro José Sócrates a decretar medida idêntica - alargada aliás à tarde de 11 de Maio em Lisboa e à manhã de 14 de Maio no Porto.

Apesar de eu presumir que alguns deputados socialistas talvez pensem assim, pois em 2013  recusaram subscrever um voto de congratulação da Assembleia da República pela ascensão ao trono de São Pedro do ex-arcebispo de Buenos Aires, primeiro Papa não-europeu em 1200 anos.

Alguns deles, como por milagre, são bem capazes de estar agora com ele em Fátima.

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Perdoai-lhes que não sabem o que fazem

por Rui Rocha, em 27.02.17

A Ryanair, por exemplo, tem partidas do Porto para Roma Ciampino às quartas com regresso às segundas. Marcando com antecedência, encontras viagens de ida e volta para duas pessoas por 150 euros. Cinco noites de hotel com mais que razoável conforto na capital italiana saem-te por 450 euros. Estimemos ainda um total de 400 euros para transportes e alimentação. Estamos portanto a falar de um custo total de 1000 euros para duas pessoas para 6 dias e 5 noites em Roma com a possibilidade de visitar o Coliseu, a Fontana de Trevi ou o Fórum Romano. Se fizeres questão, podes ir ao Vaticano no Domingo ver o Papa. Entretanto, leio que estão a pagar 1000 euros por uma noite em saco-cama para dois adultos durante a visita papal a Fátima. Deus me perdoe, mas é preciso ser-se parvo.

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Memória

por Alexandre Guerra, em 02.08.16

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Um "lugar de horror", foi desta forma que o Papa Francisco qualificou os antigos campos de concentração Auschwitz I e Auschwitz II-Birkenau, que este fim-de-semana visitou no âmbito das Jornadas Mundiais da Juventudade que decorreram em Cracóvia. O Papa caminhou sozinho, rezou, reflectiu em recolhimento e nada disse durante a visita. Limitou-se a escrever no livro de honra do Museu de Auschwitz (um excelente museu, a propósito) o seguinte: “Senhor, tem piedade do teu povo. Senhor, perdoa tanta crueldade”. Antes, num gesto de enorme simbolismo, tinha colocado uma lamparina com uma chama junto ao Muro da Morte no Auschwitz I, local onde eram fuzilados os judeus condenados à morte. Visitou ainda a cela de Maximiliano Kolbe, um nome que pouco dirá aos portugueses, mas que na Polónia é venerado e adorado, sendo possível encontrar a sua fotografia em quase todas as igrejas daquele país. Kolbe foi um frade franciscano que se voluntariou junto dos guardas de Auschwitz para sacrificar a sua vida pela de um sargento do exército polaco, que também ali estava preso e que tinha sido condenado à morte. O frade franciscano tinha-se emocionado ao ouvir o choro do sargento, desesperado com o que iria acontecer à sua mulher e filhos. Kolbe falou com os guardas que aceitaram a sua oferta e acabaria por vir a morrer na sua cela à fome. A mesma cela em que o Papa Francisco rezou.

 

Auschwitz faz parte da memória histórica colectiva e é ainda para muitos uma horrorosa lembrança, que os afectou de forma directa, sejam antigos prisioneiros ou descendentes directos de quem lá esteve e não resistiu. Quando Steven Spielberg realizou o filme A Lista de Schindler, em 1993, estava a prestar uma homenagem emotiva aos seis milhões de judeus que perderam a vida no Holocausto (este número tem sido motivo de acesa discussão entre historiadores), mas também estava a despertar consciências (ou a relembrá-las) para uma realidade específica daquele genocídio, que se viveu nos campos de concentração de Auschwitz (eram três), no sul da Polónia. As célebres imagens recriadas por Spielberg, também ele judeu, em que se vêem comboios compostos por vagões apinhados de judeus a chegarem a Auschwitz II-Birkenau, veio relançar o interesse do público por aqueles acontecimentos dramáticos da História recente da Humanidade.

 

O campo de Auschwitz II-Birkenau, que ficou genericamente conhecido por Auschwitz, o campo de extermínio, era o maior e o único que tinha acesso ferroviário, no entanto, havia mais dois campos, o Auschwitz I e o Auschwitz III - Monowitz. Em Birkenau terão sido mortos cerca de um milhão de judeus e ciganos (também aqui não há consenso quanto ao número), embora, tenha sido no primeiro campo que começaram as experiências de extermínio numa câmara de gás construída propositadamente para o efeito, com o respectivo crematório anexado.

 

Sensivelmente três anos após a libertação dos campos de Auschwitz, a 27 de Janeiro de 1945, as autoridades polacas decidiram fazer um museu e um memorial de homenagem às vítimas, que engloba Auschwitz I e Birkenau e, por isso, é denominado de Auschwitz-Birkenau. Este complexo foi considerado Património Cultural da Humanidade pela UNESCO, sendo que em Birkenau houve maior dificuldade em restaurar os edifícios originais (devido aos materiais de que eram feitos) do que no complexo de Auschwitz I (ambos estão separados por apenas 3 km) que, para quem já teve o privilégio de visitar, apresenta um bom, mas arrepiante, estado de conservação. 

 

Ao cruzar-se o portão de entrada de Auschwitz I (onde a dimensão da tragédia não foi tão massiva, estimando-se que ali tenham sido exterminados 60 mil judeus) tem-se sobre a cabeça a célebre frase forjada a metal: "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta"). Lá dentro, o visitante é confrontado com uma realidade física impressionante, onde tudo parece estar como era dantes. Aliás, fazendo-se uma comparação do que se vê hoje em dia com os registos fotográficos da época, percebe-se como Auschwitz I mantém praticamente intacto o seu espaço. O Muro da Morte onde eram feitos os fuzilamentos, as celas do Bloco 11, o Bloco 10 onde se faziam as experiências médicas, tudo está lá, igual. Ainda mais impressionante é visitar a única câmara de gás existente naquele campo, que foi a primeira a ser construída a título experimental. Birkenau viria depois a acentuar o extermínio dos judeus com as outras câmaras (em Birkenau restam apenas algumas ruínas).

 

No que diz respeito à preservação da memória histórica das milhares de pessoas que ali pereceram nas mãos do regime nazi, nada é tão chocante como entrar numa sala de um dos blocos de Auschwtiz preparada para o efeito museológico e ver uma vitrine com cerca de 30 metros cheia até cima de cabelo humano, cortado aos prisioneiros antes de irem para a câmara de gás. Noutro espaço pode-se ver ainda pertences pessoais, como roupa, óculos e outro tipo de objectos e utensílios. Muito perturbador. 

 

Embora Auschwitz I não tenha tido a dimensão trágica de Auschwitz II-Birkenau, como objecto histórico é provável que ofereça uma perspectiva mais cruel e realista do que aconteceu, atendendo ao seu estado de conservação é à forma como está organizado em termos museológicos. Por outro lado, Birkenau oferece aquela vista aterradora que Spielberg projectou no cinema, do caminho de ferro a entrar directamente nas portas daquele campo, e imagina-se o que terá sido aqueles comboios a conduzir milhares de pessoas literalmente para a morte. Por isso mesmo, os responsáveis do Memorial e Museu Auschwitz-Birkenau aconselham que os visitantes conheçam os dois campos para melhor compreenderem a dimensão de toda a tragédia.

 

Faz por estes dias 21 anos que visitei Auschwitz I, num dia cinzento, que mais parecia de Outono. No entanto, estava nas minhas férias de Verão, ainda jovem, prestes a entrar no curso de Relações Internacionais, movido pela paixão que me suscitava (e suscita) essa disciplina. Apesar de chegar àquele local já com algum conhecimento sobre as atrocidades ali cometidas, percebi de imediato que nada é comparável ao exercício empírico na reconstrução dos factos in loco. Uma experiência enriquecedora e sobretudo inesquecível.

 

Texto adaptado à versão original publicada aqui a 21 de Agosto de 2015.

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A guerra relevante.

por Luís Menezes Leitão, em 28.07.16

Neste post, o Diogo sustenta que descrever a actual situação como uma guerra não só é irrelevante do ponto de vista operacional como oferece legitimação política às organizações que pretendemos eliminar. É o argumento típico dos políticos europeus, que persistem em negar a realidade em ordem a continuar a defender políticas inconsequentes. É assim que em toda a imprensa se insiste em falar no "auto-proclamado" Estado Islâmico, como se o mesmo não ocupasse territórios na Síria e no Iraque. Mas os sinais da guerra estão à vista de todos. Quando em França os líderes religiosos exigem protecção armada para os locais de culto ou quando na Baviera a própria população pede a colocação de militares na rua, é manifesto que passámos a fase da mera criminalidade, a que se pode reagir com a simples protecção e investigação policial. Neste momento a Europa está em guerra e a guerra combate-se com exércitos. Negar isso é negar a realidade e deixar a Europa continuar debaixo de fogo.

 

Quem se recusou a negar a realidade foi o Papa Francisco. Numa corajosa comunicação aos jornalistas, acaba de dizer que "a palavra que tem sido sucessivamente repetida é insegurança, mas verdadeira palavra é guerra. Vamos reconhecer a verdade: o mundo está num estado de guerra fragmentada. Agora existe uma guerra. É talvez uma guerra não orgânica, mas está organizada e é guerra. O mundo está em guerra porque perdeu a paz". 

 

Sábias palavras de quem todos os dias assiste ao massacre dos seus fiéis por parte de combatentes fanáticos, sem que nada se faça para combater a ameaça. Após o 11 de Setembro, os Estados Unidos perceberam que tinham sido atacados e por isso tinham que travar uma guerra. A Europa, porém, parece que voltou a 1453, insistindo em discutir o sexo dos anjos enquanto os turcos atacam Constantinopla. Valha-nos o Papa que percebeu muito bem o que está em causa.

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O Papa que ri

por Teresa Ribeiro, em 28.02.16

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O ódio contra o Papa Franciso grassa. Não me espanta. Entrou no seu pontificado como um elefante em loja de santinhos e partiu a loiça toda. Falou dos casos de pedofilia, da corrupção no Vaticano e dos seus crimes económicos, dos católicos divorciados, dos católicos gays... Demasiados issues. Uma poeira que não assenta. Quem é ele para expor assim as fragilidades de uma instituição que se quer sólida e vista como a referência moral e espiritual do ocidente?

Não me surpreende o ódio da hierarquia e de todos os que beneficiam directamente do statu quo, o que me encanita é a reacção das "bases". Dos católicos que desconfiam do seu chefe supremo porque prescindiu da gravitas da função e prefere chegar às pessoas, porque não assobia para o lado e, ao contrário, faz mea culpa, em nome da Igreja, por todos os podres que se lhe reconhecem. Porque denuncia, ao estilo de Cristo, tudo o que no mundo deve ser, aos olhos de um verdadeiro cristão, abominável. Finalmente porque usa e abusa da palavra de Deus para confrontar as suas ovelhas com contradições e hipocrisias quotidianas. Mas não é essa a função de um líder espiritual?

Esta parte, a das consciências, é a que mais mói.  É este ódio que nasce da incomodidade que anda, não duvido, a envenenar parte da comunidade católica. Há dias li no El Mundo, assinada por Fernando Sánchez Dragó, uma crónica intitulada  "Incapacitación" que põe à discussão a necessidade imperiosa de desencadear o impeachment de Francisco: "Es necesario meter en cintura al hereje Francisco si se niega a cambiar el rumbo de su pontificado o a dimitir", escreve este romancista, ensaísta e crítico literário, conhecido pelo seu conservadorismo social e ultra-liberalismo económico. Aqui está um bom discurso de ódio. Das primeiras acusações veladas que começaram a circular no início do pontificado às críticas mais inflamadas foi um passo. Mas agora já entrámos noutro domínio, o dos apelos à rebelião.

Enquanto Dragó traçava estas linhas, o Papa dava um passo que por si só seria suficiente para inscrever o nome de Francisco como um dos mais notáveis na história da ICAR. Em Cuba reunia-se com o chefe da Igreja Ortodoxa, algo que não se via desde 1054.

Nada que esmoreça os que o odeiam de coração. Pelo contrário. Para estes, quanto melhor ele estiver, pior.

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"Servir a personas, no a ideas"

por Pedro Correia, em 20.09.15

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 Foto AFP

 

Acompanho em directo, através do canal televisivo Cubavisión, a homilia do Papa Francisco na missa campal realizada na Praça da Revolução, coração da Havana comunista.

Uma homilia notável, de que destaco estas palavras, que ecoam as de Jesus mencionadas no Evangelho de São Marcos (9,30-35): "Quien quiera ser el primero, ser el más importante, que sea el último de todos y el servidor de todos. Quien quiera ser grande, que sirva los demás y no que se sirva de los demás. Servir significa, en gran parte, cuidar la fragilidad. Servir significa cuidar de los frágiles de nuestras familias, de nuestra sociedad, de nuestro pueblo. Son personas de carne y hueso, con su vida, su historia y especialmente con su fragilidad, las que Jesús nos invita a defender, a cuidar y a servir. (...) Nunca el servicio es ideológico, ya que no se sirve a ideas, sino que se sirve a las personas. (...) Quien no vive para servir no sirve para vivir."

Entre os que o escutavam, na primeira fila da imensa multidão ali concentrada, estava Raúl Castro.

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Frases de 2015 (38)

por Pedro Correia, em 15.09.15

«Nunca conheci um português mau.»

Papa Francisco, em entrevista à Rádio Renascença

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As anedotas do Papa Francisco

por Rui Rocha, em 14.03.15

1 - Sabe como se suicida um argentino. Sobe o seu próprio ego e atira-se.

2 - Um mundo em que as mulheres são marginalizadas é um mundo estéril.

 

De partir a tabuleta a rir, não? E tu, Maria das Dores... De qual gostaste mais?

 

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O evangelho dos marginalizados

por Pedro Correia, em 12.03.15

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«Amados irmãos novos cardeais, com os olhos fixos em Deus e na nossa Mãe, exorto-vos a servir a Igreja de tal maneira que os cristãos - edificados pelo nosso testemunho - não se sintam tentados a estar com Jesus, sem quererem estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial. Exorto-vos a seguir Jesus crucificado em toda a pessoa marginalizada, seja pelo motivo que for; a ver o Senhor em cada pessoa excluída que tem fome, que tem sede, que não tem com que se cobrir; a ver o Senhor que está presente também naqueles que perderam a fé, que se afastaram da prática da sua fé ou que se declaram ateus; o Senhor, que está na cadeia, que está doente, que não tem trabalho, que é perseguido; o Senhor que está no leproso, no corpo ou na alma, que é discriminado. Não descobrimos o Senhor se não acolhermos de maneira autêntica o marginalizado. Recordemos sempre a imagem de São Francisco, que não teve medo de abraçar o leproso e acolher aqueles que sofrem qualquer género de maginalização. Verdadeiramente, amados irmãos, é no evangelho dos marginalizados que se joga, descobre e revela a nossa credibilidade.»

 

Palavras de Francisco no remate da homilia da missa com os novos cardeais em Roma, a 15 de Fevereiro. Palavras que fazem qualquer católico orgulhar-se deste Papa, eleito há dois anos - data que amanhã se comemora.

Nesse mesmo dia 13 de Março de 2013 escrevi no DELITO sobre o cardeal Bergoglio: «Apareceu com ar despojado, fraterno, repassado de fragilidade humana. De braços caídos, sem pedir aplausos, com um sorriso tímido, parecia querer dizer aos mil e trezentos milhões de crentes que o reconhecem a partir de hoje como dirigente espiritual que está disposto a aceitar este imenso desafio que o destino lhe proporciona embora não se sinta verdadeiramente digno dele».»

À medida que o tempo passa, cada vez encontro mais motivos que corroborem a excelente impressão inicial transmitida por este homem que foram «buscar ao fim do mundo», como o bispo de Roma disse dele próprio nessa sua primeira aparição no balcão da Basílica de São Pedro.

 

E, a propósito, é para mim cada vez mais incompreensível o sectarismo de certa esquerda portuguesa, que recusou associar-se ao voto parlamentar de congratulação pela eleição do primeiro Papa não-europeu em 1200 anos. PCP, Bloco de Esquerda, 'Verdes' e seis deputados do PS - Pedro Delgado Alves, Mário Ruivo, Miguel Coelho, Isabel Moreira, Elza Pais e António Serrano - dissociaram-se desse singelo voto, que se limitava a isto: «A Assembleia da República, reunida em sessão plenária, saúda o Estado do Vaticano, a Igreja Católica e todos os que professam a sua fé, pela eleição do novo Sumo Pontífice.»

Alguns deles - os comunistas - não hesitaram meses depois em colocar-se ao lado da feroz ditadura norte-coreana, também num voto parlamentar. Amarrados ao seu persistente dogmatismo, entre o pontífice capaz de cruzar continentes apregoando a libertadora mensagem de Cristo e Kim Jong-un, preferem o tirano de Pyongyang, que condena todo um povo à servidão.

Deviam, também eles, meditar sobre a homilia papal que invoca o evangelho dos marginalizados. Com "disponibilidade total para servir os outros" como "único título de honra" do humanismo cristão. Contra todos os cálculos, contra todos os riscos, contra todos os medos.

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A Paixão segundo Francisco

por Rui Rocha, em 21.01.15

Naquele tempo, enquanto os soldados romanos o crucificavam, Jesus olhou os Céus e disse:

Pai, perdoa-lhes; pois não sabem o que fazem.

Mas logo ali continuou:

Agora, em verdade Te digo; se estes cabrões dos romanos abrirem o bico para dizer uma palavra que seja sobre minha Mãe, estrelinha que os guie, que deslargo-me da cruz e acerto-lhes um arraial de porrada naquelas trombas que ainda ficam todos roídinhos de saudades do Obelix.

 

(Os mais atentos constatarão que o post é repetido. Pois é. O ponto é que o Papa Francisco também veio dizer outra vez o que já antes tinha dito. Apesar de alguns lhe chamarem esclarecimento. Na verdade, nem sequer é bem a mesma coisa. É pior. Porque na versão inicial sempre estava em causa, em sentido figurado, a senhora sua mãe. E agora, se virmos bem, o que está em causa é uma formulação geral dirigida a qualquer tipo de sátira ou provocação. Perante a carnificina de inocentes, o Papa, em lugar de dedicar o seu tempo e o seu verbo a condenar radicalmente a bárbarie, prefere teorizar sobre a liberdade de expressão. Este relativismo moral de quem professa a crença no absoluto é francamente inadmissível. A insistência na ideia de provocação, num contexto destes é, ela sim, uma verdadeira blasfémia contra o valor sagrado da vida humana. Que cresce com a reiteração intencional do que já tinha sido dito. Perante inocentes trucidados, o Papa opta pela via corporativa de defesa do edifício intocável das religiões e investe na elaboração de uma tese que, queira ou não, acaba sempre na cedência à ideia da responsabilidade da vítima. Perante a bárbarie só pode existir condenação sem mas nem meios mas. Se virmos bem, a repetição do post é coisa bem pouca perante uma posição que é, falando sem rodeios, uma vergonha).

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Mais um que mordeu o isco

por Rui Rocha, em 15.01.15

Pois é. Quando se admite que o terrorismo é desencadeado como resposta a uma provocação, em lugar de nos concentrarmos na condenação radical do acto, denunciando o seu desvalor absoluto e intrínseco, acabamos enredados numa discussão sobre a liberdade de expressão e os seus limites. Que desemboca sempre na racionalização do que não tem racionalidade possível e, nos piores casos, em atenuar a gravidade da agressão. Desta vez, quem se estatelou foi o Papa Francisco:

“Temos a obrigação de falar abertamente, de ter esta liberdade, mas sem ofender. É verdade que não se pode reagir violentamente, mas se Gasbarri [Alberto Gasbarri, responsável pelas viagens internacionais do papa], grande amigo, diz uma palavra feia sobre minha mãe, pode esperar um murro. É normal!”

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Da Ternura

por Francisca Prieto, em 05.01.15

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Ouvi de fugida, enquanto passava defronte da televisão com a travessa do peru, o cerne da mensagem de Natal do Papa Francisco para este ano: Ternura.

Comoveu-me pela sua simplicidade e pelo tiro certeiro. Nada de metáforas complicadas em cartas de São Paulo aos Coríntios. Simplesmente ternura. Num ano que me foi particularmente complicado e em que foi a ternura da família e dos amigos que me salvou, não poderia achar de somenos.

A palavra acompanhou-me uma série de dias, como acontece muitas vezes com coisas que nos reconfortam.

Logo a seguir ao Natal, foi a prietada toda para o Rio de Janeiro. Numa noite, à vinda do restaurante, paramos na Toca do Vinicius, uma discaria para os conhecedores, à antiga, onde se encontram exemplares em vinil com João Vilarett a declamar poesia brasileira. À frente de uma loja destas está sempre uma grande figura, não há hipótese. Porque são negócios que vivem do amor. De maneira que lá apareceu o avô Carlos (nas suas palavras), que assim que viu a Xiquinha, a minha filha dos cromossomas a mais, encarnou as palavras do Papa Francisco, e a transbordar ternura foi buscar a correr um CD com músicas infantis do Chico Buarque e do Vinicius.

Agradecemos efusivamente e oferecemo-nos para lhe mandar música portuguesa actual. Respondeu-nos a rir, dizendo que preferia que lhe levássemos uma alheira.

Saímos comovidos, eu com um bocadinho de inveja, confesso, porque também queria ser pequenina e ter um senhor a oferecer-me canções do Chico e do Vinicius.

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Religião é incomodidade

por Teresa Ribeiro, em 04.01.15

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Sendo cristã, mas tendo feito a minha formação religiosa numa igreja evangélica baptista, sempre tive uma relação distante com o catolicismo, tanto quanto se pode ter quando se nasce e vive num país católico. Até hoje nunca nenhum Papa me conquistou ao ponto de me reconhecer nele sem reservas. A Francisco, que mais uma vez foi eleito em diversos meios da comunicação social uma das Figuras do Ano, vejo como um cristão, muito mais do que como o chefe da ICAR. Um cristão como eu imagino que seriam os pioneiros, destemido e apostado em erguer a bandeira do cristianismo muito acima da igreja, pois que esta é apenas - não podemos esquecer - obra dos homens.

Muitos católicos, ciosos do que consideram ser as marcas da sua identidade, não estão a aceitar a forma desassombrada com que o seu líder supremo coloca à discussão dos fiéis temas fracturantes e interpela a hierarquia, convidando-a a saltar do andor para chegar mais perto dos homens. Esta frontalidade bem como a humildade que Francisco coloca em cada um dos seus gestos, mostra-lhes um homem mais próximo do pescador de almas que a Bíblia reclama do que da figura do "santo padre" que a ICAR há muito entronizou. É este back to basics que está a encantar alguns cristãos - católicos e não católicos - e a confundir os que vêem na religião um baluarte inexpugnável, garante de uma moral e sobretudo de uma estética que precisam de preservar para seu próprio conforto de espírito. 

Estes acérrimos defensores da tradição esquecem-se que todas as Igrejas, sem excepção, abusam do nome de Deus e que as diferenças entre as várias confissões religiosas de inspiração cristã se alguma coisa provam é que a verdade universal não é exclusivo de nenhuma. Desta evidência devia retirar-se a primeira lição de humildade, que é algo que tem faltado a toda esta gente que torce o nariz à discussão e reclama para si o morno sono dos justos.   

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Figura internacional de 2014

por Pedro Correia, em 01.01.15

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PAPA FRANCISCO

Pelo segundo ano consecutivo, o líder espiritual do mundo católico foi escolhido pelo DELITO DE OPINIÃO como Figura Internacional de maior destaque.

Com índices de popularidade cada vez mais elevados um pouco por todos os continentes, mesmo junto de quem não comunga da fé cristã, o Papa Francisco manteve-se em foco a propósito de vários temas. Rezou pelas vítimas da violência em Jerusalém. Orou ao lado de clérigos muçulmanos na Mesquita Azul, em Istambul. E recebeu nos Jardins do Vaticano, também para uma oração pela paz, os presidentes de Israel e da Autoridade Palestiniana.

Já perto do fim do ano, dirigiu uma mensagem crítica à Cúria Romana que mereceu repercussão universal. Nessa mensagem, denunciou as "quinze doenças" de que padece o corpo eclesiástico do Vaticano, com destaque para aquilo a que Francisco chama "Alzheimer espiritual" - a perda da memória de Deus, sacrificado à idolatria mundana.

O Sumo Pontífice teve também uma intervenção decisiva no desbloqueamento das relações entre os Estados Unidos e Cuba, congeladas desde 1960. Um facto reconhecido, em simultâneo, pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro, que agradeceram o esforço mediador do Papa.

 

A segunda figura internacional do ano mais votada foi o presidente russo, Vladimir Putin, que em Março esteve em foco ao anexar a península da Crimeia, que era parte integrante do território da Ucrânia desde 1954, e fomentar ao longo do ano o separatismo pró-Moscovo na faixa oriental deste país. Criticado por quase toda a comunidade internacional e alvo de severas sanções económicas, o líder russo terminou 2014 a enfrentar uma gravíssima crise do rublo, que caiu para mínimos históricos registados este século, enquanto a inflação disparava e a fuga de capitais contribuía para uma escalada recessiva no país.

Malala Yousafzai, a adolescente paquistanesa ameaçada de morte pelos talibãs, ficou em terceiro lugar na nossa votação por ter sido distinguida com o Prémio Nobel da Paz 2014, partilhado com o activista indiano Kailash Satyarthi. Com apenas 17 anos, foi a mais jovem galardoada de sempre com o Nobel.

Os restantes votos, isolados, foram distribuídos da seguinte forma: o novo Rei de Espanha, Filipe VI, entronizado em 19 de Junho; Pablo Iglesias, líder da formação política Podemos, que irrompeu com êxito na cena política espanhola, recolhendo um milhão de votos nas eleições europeias e ameaçando implodir o sistema bipartidário; o empresário e filantropo chinês Jack Ma; e a pobreza, não personalizada, à escala universal.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

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Coincidência de opiniões

por Rui Herbon, em 22.07.14

As teses de Zygmunt Bauman vão abrindo caminho sem ruído e sem que ninguém se alarme. O destino da liberdade e da democracia, diz o velho pensador, decide-se e estabelece-se no contexto mundial, e só a sua defesa em tal contexto tem possibilidades realistas de um êxito duradouro.

 

Existe um complot de medo que abarca milhões de pessoas. É um complot que já não se sustenta unicamente na perspectiva de que o Estado devore a sociedade mediante regimes dictatoriais, ou que a sociedade faça desaparecer o Estado mediante uma revolução de massas, mas na possibilidade de vir a ficar excluído ou marginalizado. A exclusão é o problema. Se o Estado Social se encontra hoje descapitalizado, se está em ruínas ou foi parcialmente desmantelado, é porque as principais fontes de benefícios do capitalismo se deslocaram da exploração da mão-de-obra fabril para a exploração dos consumidores.

 

O pensamento de Bauman não é o de um conspirador ou de um revolucionário. Contém um fio argumental que se baseia em que o poder já não está na política mas nos mercados e movimentos financeiros. Não partilho essa visão tão taxativa, mas é certo que ventos sopram nessa direcção.

 

Mas os seus argumentos coincidem com o que recentemente afirmou o papa Francisco: «instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe de forma unilateral e sem remédio possível as suas leis e regras. Ademais, a dívida e o crédito afastam os países da sua economia real e aos cidadãos do seu poder aquisitivo real. A isto há que acrescentar uma corrupção tentacular e uma evasão fiscal egoísta que assumiram proporções mundiais. A vontade de poder e posse passaram a ser ilimitadas».

 

Opiniões convergentes vindas de posturas ideológicas diversas.

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Pope don't preach

por Teresa Ribeiro, em 07.06.14

Coerente com a divisa "crescei e multiplicai-vos" o Papa puxou as orelhas aos crentes que optam por ter cães  e gatos em vez de filhos, acusando-os de comodismo. Percebo-o, está no seu papel. Mas se há ditame cristão injusto é esse que aponta a reprodução como um dever. Da multiplicação sem critério à procriação controlada deu-se um passo civilizacional gigante, pois optar por não ter filhos quando não se sente esse apelo ou fazer questão de os desejar em vez de simplesmente tê-los reflecte um apreço infinitamente maior pela vida humana.

Planeamento familiar à parte, essa modernice que tanto incomoda a Igreja, há ainda que levar em conta os efeitos da economia na vida dos casais em idade fértil. Eu sei que Francisco foi lesto a denunciar a "economia que mata", mas cedendo à tão católica nostalgia dos tempos em que as pessoas se multiplicavam como animais, esqueceu-se que muitos dos casais que optam por cães e gatos podem só estar a adiar os bebés que planeiam ter, não por comodismo mas porque não os querem criar sem condições. Alguém os pode criticar por isso?

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Uma data especial!

por Helena Sacadura Cabral, em 27.04.14

Hoje gostaria de ter estado nas celebrações de santificação de João XXIII e de João Paulo II. Pela primeira vez dois Papas são santificados ao mesmo tempo que um Papa e o seu antecessor assistem juntos a tal cerimónia.
A fé é algo que se não discute. Ou se tem ou não se tem. Mas para um crente não ter fé não o dispensa de lutar por ela. Sei do que falo, porque os meus Pais deixaram ao meu critério essa escolha. Por isso, apenas fui baptizada aos 19 anos e de forma muito consciente. A fé não foi, portanto, algo que tenha nascido comigo. É, sim, algo por que luto diariamente, que todos os dias me faz confrontar comigo própria, que guia os meus passos e que, julgo, me torna uma pessoa melhor. Mas percebo quem não tem fé e admiro quem, sem esse suporte, vive a sua vida com a maior dignidade.
Talvez por tudo isto, gostaria muito de ter assistido a estas cerimónias. Mas já me dou por feliz de ter vivido o tempo suficiente para, através da televisão, ter podido assistir a elas neste mês de Abril de tão más recordações.
Eu sei que estas palavras só tocam uma parte daqueles que me lêem. Mas o testemunho também serve para que aqueles que não acreditam possam entender aqueles que crêem.

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Uma questão de (falta de) fé

por Pedro Correia, em 28.03.14

 

«Sair em direcção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direcção nem sentido.»

Papa Francisco, na exortação apostólica A Alegria do Evangelho

 

Barack Obama, de visita ao Vaticano, pede ao mundo para "ouvir a voz do Papa". É um apelo desnecessário: o mundo escuta a voz de Francisco. O mundo católico, o mundo agnóstico, até o mundo ateu.

"O Bispo de Roma, que os cardeais encontraram no fim do mundo, verifica que a situação dos povos que se mantiveram mais ou menos ligados ao seu ministério não lhe deixa esquecer a que enfrentou na maior parte da sua vida de sacerdote", destaca Adriano Moreira.

O socialista Pedro Silva Pereira, também católico assumido, não esconde a sua admiração pelo argentino que "já logrou uma proeza notável: fez renascer a esperança na renovação da Igreja Católica".

Mário Soares, que nunca foi católico, confessa ter como "ídolo" o chefe da Igreja Católica.

Francisco Louçã, descrente em matéria religiosa, elogia a "clareza do discurso" do Sumo Pontífice e não tem dúvidas pelo menos nisto: "É um Papa alegre e não encontramos nele outro calculismo que não seja o da sinceridade."

Até a inabalável esquerda.net adverte: "Seria um erro que as forças progressistas ignorassem as mudanças no Vaticano."

 

Perante tudo isto, surpreende-me ainda hoje que em Março de 2013, quando a Assembleia da República aprovou um voto de saudação pela eleição do primeiro Papa não-europeu em 1200 anos, três forças políticas tenham recusado associar-se a esta congratulação: BE, PCP e Verdes. Uma recusa partilhada por seis deputados do PS, o que ainda mais me surpreende.

Foram 30 parlamentares no total -- alguns deles revelando mais intolerância pelo representante máximo da religião com maior número de fiéis do globo do que pelo ditador da Coreia do Norte.

Tanto mais surpreendente quanto o inócuo texto que recusaram aprovar se limitava a isto: "A Assembleia da República, reunida em sessão plenária, saúda o Estado do Vaticano, a Igreja Católica e todos os que professam a sua fé, pela eleição do novo sumo pontífice."

 

Todo o mundo é composto de mudança. Interrogo-me quantos de entre eles não estarão hoje arrependidos de não terem votado de outra maneira. Francisco -- o líder mundial mais procurado no Google e mais presente no Twitter, a mais influente personalidade do planeta segundo a Fortune, eleito Pessoa do Ano pela Time -- ensina que "os valores tendem sempre a reaparecer sob novas formas, e na realidade o ser humano renasceu muitas vezes de situações que pareciam irreversíveis".

Interrogo-me quantos deles não diriam hoje, como disse Obama no momento em que se avistaram: "É maravilhoso conhecê-lo. É uma grande honra. Sou um grande admirador seu. Muito obrigado por receber-me."

 

Foto: Saul Loeb

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Não basta olhar: é preciso ver

por Pedro Correia, em 13.03.14

 

As primeiras impressões são as que mais contam. Releio o que escrevi faz hoje um ano, aqui no DELITO, sobre o recém-eleito Papa Francisco. Nunca tinha ouvido falar do cardeal Jorge Mario Bergoglio. Aquelas linhas foram redigidas de forma espontânea por efeito exclusivo do que acabara de ver e escutar, em directo do balcão principal da Basílica de São Pedro, tal como centenas de milhões de pessoas um pouco por todo o globo.

"Há-de receber os grandes do mundo, há-de ter reis e presidentes a pedir-lhe a bênção, há-de escutar incontáveis ovações. Mas hoje, no balcão da basílica, parecia não ambicionar nada mais do que ser irmão de todos nós", escrevi então. Os 12 meses entretanto decorridos só reforçam essas primeiras impressões, atestando a profunda autenticidade do sucessor de Bento XVI, um Papa que chegou "do fim do mundo", como ele disse de si próprio.

Francisco -- como preferiu chamar-se em homenagem ao santo de Assis, príncipe supremo do despojamento e da humildade, é hoje uma das raras personalidades que gozam da simpatia generalizada à escala universal com o seu jeito afável mas desassombrado. Realmente inconfundível.

 

Recordo-me bem desse fim de tarde de 13 de Março de 2013. E também das lamentáveis atoardas que nos dias imediatos alguns por cá se apressaram a divulgar sobre o novo chefe da Igreja Católica, apontando-o sem sombra de hesitação como cúmplice da tenebrosa ditadura argentina. Com aquele automatismo típico das "redes sociais", em que se dispara primeiro e se reflecte depois, logo os ecos da atoarda se propagaram. E nem o desmentido categórico de uma voz autorizada, a do Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquível, bastou para travar a torrente de impropérios.

Destacou-se nesta lamentável missão o professor Fernando Rosas, que como historiador tinha a obrigação de ser mais criterioso na selecção das suas fontes. Utilizando o púlpito televisivo em que costuma perorar, na TVI 24, surgiu a dizer coisas como esta: "O passado dele não é muito animador. Observo com reserva um Papa que foi duro com Kirchner e mole com a ditadura."

 

Curiosamente, nunca mais ninguém reincidiu nestas atoardas. Pelo contrário, Francisco é hoje mencionado como referência por alguns daqueles que há um ano, sem o conhecerem, se apressaram a denegri-lo antes de passarem a confessar-se seus admiradores. Invocam o Papa Francisco, utilizam-no como fonte de autoridade moral, repetem com ele que "esta economia mata".

Falharam por completo nas primeiras impressões. Por arrogância intelectual e humana, por aversão atávica à Igreja, por estarem condicionados pelo preconceito.

E falharam sobretudo por olharem sem ver. Porque o Francisco de hoje era já aquele que assomou à varanda na Praça de São Pedro, intitulando-se não Papa mas mero bispo de Roma e pedindo com humildade aos fiéis para rezarem por ele.

Humildade que nunca abandonou de então para cá.

Com a força inequívoca do seu exemplo, digno de um genuíno discípulo de Jesus, tornou-se fonte de inspiração para todos, partilhem ou não da sua fé.

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Figura internacional de 2013

por Pedro Correia, em 08.01.14

PAPA FRANCISCO

O maior consenso, na votação das figuras e factos de 2013 realizada no DELITO DE OPINIÃO, ocorreu em torno da personalidade internacional do ano. Com a grande maioria dos votos a recair no Papa Francisco, eleito em 2013 no mais inesperado conclave católico dos últimos séculos, convocado de emergência devido à renúncia do Papa Bento XVI.

Ao surgir na varanda principal da Basílica de São Pedro, ao fim da tarde de 13 de Março de 2013, Jorge Mario Bergoglio suscitou espontâneos aplausos. Desde logo ao saudar com esta frase a multidão que o aclamava: "Parece que os cardeais foram buscar-me ao fim do mundo". Uma referência ao facto de vir da Argentina, onde era cardeal de Buenos Aires.

Primeiro Papa oriundo do continente americano, primeiro em dois séculos oriundo do clero não secular, primeiro a escolher o nome Francisco em homenagem expressa a São Francisco de Assis, este jesuíta de 76 anos surpreendeu o mundo com o seu verbo fácil, o seu sorriso franco e os seus gestos inovadores que ultrapassam o plano simbólico. Recusou viver no palácio apostólico do Vaticano, iniciou uma profunda reforma da Cúria, lavou os pés a duas raparigas (uma das quais muçulmana) na semana da Páscoa, foi ao encontro de imigrantes africanos em Lampedusa e recusou limusinas na sua viagem triunfal ao Rio de Janeiro, para encerrar a Jornada Mundial da Juventude.

Em Outubro, divulgou a exortação apostólica Evangelii Gaudium, com críticas aos excessos do actual sistema financeiro dominante à escala planetária: "Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa."

 

Em segundo lugar, na nossa votação, ficou Edward Snowden, o ex-consultor da CIA que tornou públicas as actividades de espionagem ilegal feitas no âmbito da Agência Nacional de Segurança norte-americana - uma denúncia que o levou a exilar-se na Rússia.

Em terceiro ficou Malala Yousafzai, a adolescente paquistanesa que escapou por um triz a um atentado talibã e agora percorre o mundo defendendo o direito à instrução das mulheres nas sociedades ditatoriais islâmicas, tendo recebido o Prémio Sakharov de Direitos Humanos que lhe foi conferido em Novembro pelo Parlamento Europeu.

Houve ainda um voto em Angela Merkel: a chanceler alemã, que saiu vencedora das legislativas de Setembro, já tinha sido eleita pelo DELITO figura internacional em 2010 (ex-aequeo com Julian Assange) e 2011.

Foto Associated Press

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Rerum Novarum

por Rui Rocha, em 01.12.13

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Mau Maria

por Teresa Ribeiro, em 26.11.13

Não é por acaso que o culto mariano tem um papel fulcral na liturgia católica. A tolerante Virgem Maria toda ela doçura e perdão sempre me pareceu a intermediária ideal numa religião que caminhou na História ao lado do poder temporal. Jesus, ao invés, é incómodo. Não por acaso há quem lhe chame, por provocação, "o primeiro comunista da História". Francisco, que os sectores mais conservadores da Igreja acusam de populismo, pauperismo e demagogia tem fundamentado os seus discursos reformistas na mensagem de Cristo que consta dos evangelhos. Mas para algumas criaturas de Deus invocar a cada passo a fonte doutrinária de uma religião que tem raiz revolucionária é inquietante. Da mensagem essencial habituaram-se a apreciar a música, não necessariamente a letra, pois que esta, na sua génese como agora, se destina a pôr em causa o status quo.

Estes estetas de alma conservadora, capazes de matar pelo direito à vida, odeiam quando o discurso papal resvala para a qualidade de vida.

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Francisco: eis o homem

por Rui Rocha, em 08.11.13

Têm razão os mais ortodoxos quando referem que Francisco não mudou nada no essencial das posições dogmáticas da Igreja Católica, nomeadamente no que diz respeito às questões ditas fracturantes. O que temos é uma mudança radical de atitude, que não nos princípios. Não questionando de momento o essencial do ponto de partida, Francisco revaloriza o ponto de chegada. O Papa que pergunta, o Papa que acolhe, o Papa do exemplo da humildade sobre a ostentação, da valorização do perdão sobre a condenação, o Papa da compaixão ainda e sempre, mesmo e sobretudo para os que não escolheram o caminho que a Igreja Católica prega. O Papa dos tresmalhados, dos desiludidos, dos esquecidos, dos doentes, dos pecadores, dos perdidos, dos imigrantes, dos sem pátria, dos inocentes. O Papa a quem o míudo quer roubar a cadeira. O Papa que abraça e beija os disformes. Este é um Papa próximo de Cristo e pouco ou nada preso à norma teológica. O risco é evidente. Francisco pode vir a ser o exemplo humano e vivo da viabilidade de um último reduto de redenção e de esperança das mulheres e dos homens. Todavia, é possível acreditarmos em Francisco sem que nos seja urgente redimirmos a Igreja Católica. Como se Francisco estivesse aqui para nos recordar que Cristo veio primeiro e só depois vieram a(s) sua(s) igreja(s).

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 18.03.13

«Mesmo para uma Europa desenvolvida e laica, o Papa Francisco é mais inspirador do que qualquer líder europeu.»

Teresa de Sousa, no Público (de ontem)

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O que é uma mesa?

por José Navarro de Andrade, em 17.03.13

Interview(s), de Heman Chong, com Anthony Marcellini, 20120-2013

I.

Bertrand Russell escreveu em 1912 um livrinho de 128 páginas intitulado “Os Problemas da Filosofia”, que começa com esta singela pergunta: “haverá algum conhecimento no mundo tão seguro [certain] que nenhum homem razoável possa duvidar dele?” Para demonstrar a sua questão Russell usa o exemplo de uma mesa – conseguimos definir cabalmente o que é uma mesa? Se o leitor estiver com boa disposição e de boa fé, há-de atingir o mesmo desfecho intrigante que Russell: “perhaps there is no table at all”, depois de ter passado por uma fase em que concluía que: “a verdadeira mesa, se é que ela existe, não é imediatamente conhecida por nós.”

O ponto não é negar a presença material da mesa, mas é impedir que incorramos no erro de acreditarmos que conhecemos o que é uma mesa, ou seja, que possuímos um conceito universal e indubitável de mesa. Donde a conclusão: o melhor é continuar a fazer perguntas em vez de acharmos que atingimos as respostas.

Este modesto jogo filosófico de Russell não só teve o condão de desbancar vinte e dois séculos de platonismo, como permanece dramaticamente actual, sobretudo por ser muito esquecido.

Ainda a semana passada tivemos dois exemplos fulminantes da sua oportunidade.

II.

Entre segunda e quarta-feira, 115 anciãos fecharam-se à chave na Capela Sistina para que dentre eles saísse um Papa. Como se sabe, os cardeais não só estiveram incomunicáveis, como iam votando “às cegas”, isto é, sem discutirem os votos, na presunção de que o Espírito Santo os iluminaria e que o sentido do sufrágio iria emergir por si mesmo, da acumulação de escrutínios. Tal método soberanamente “irracional” e secreto não obstou a que cá fora centenas de jornalistas, cada um mais credível e sério do que o outro, se entregassem com entusiasmo a um bizarro exercício especulativo, antevendo o resultado do conclave. O que sabiam eles sobre o que passava debaixo dos frescos de Miguel Ângelo? Nada, ou seja, tanto como nós que estávamos em casa entretidos a ouvi-los. Compelidos a encherem de palavras e sobretudo de palpites o tempo que decorria, de modo a justificarem as caríssimas ligações de satélite e as não menos caras deslocações a Roma, a nenhum deles falhou a cara de pau e a sincera convicção dos ilusionistas.

III.

Outros saberão explicar técnica e politicamente, com habilidade e suficiência, o que foi feito às contas bancárias dos cidadãos cipriotas, tão banais e minúsculos como qualquer um de nós. Mas debaixo da pilha de factos financeiros, económicos e sociais que geraram tal decisão e dos escombros que ela está a deixar, uma e só uma coisa se revela a um observador ignorante: ninguém sabe o que está a fazer, porque ninguém ainda percebeu qual é o problema. Os melhores cérebros, entre os milhares que se dedicam à “ciência” financeira e económica, quilómetros de páginas com teses, teorias e estudos, perfeitíssimos cálculos, inquestionáveis boas intenções, argutíssimas mentes analíticas e… erros, sobre erros, sobre erros.

IV.

Enquanto perguntarmos desta maneira, nunca saberemos o que é uma mesa. Entretanto vamos usando-a todos os dias.

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Francisco ou Francisco I?

por Pedro Correia, em 17.03.13

 

Surge a dúvida nas redacções na hora de escrever o nome escolhido pelo novo Papa: Francisco ou Francisco I? A resposta foi dada pelo próprio chefe da Igreja Católica ao ser anunciado, no balcão principal da basílica de São Pedro, pelo decano do colégio cardinalício: Francisco. Apenas Francisco. Com efeito, o numeral ordinal só se aplica numa sequência que envolva pelo menos dois. Daí o facto de mencionarmos também os reis de Portugal à luz deste critério: D. Dinis, D. Duarte, D. Sebastião ou D. Miguel, que não tiveram continuadores onomásticos, são designados assim mesmo, sem numeral. Que resulta absurdo quando é usado ocasionalmente em alusões a uma "Avenida D. Carlos I" (em Lisboa) ou a uma "ponte D. Luís I" (no Porto). Pelo simples motivo de que Portugal apenas teve um rei com cada um destes nomes.

De resto, é esse igualmente o critério na Igreja Católica: Pedro foi o primeiro Papa. Só Pedro. Porque nunca houve um Pedro II. Nem haverá. Porque se houvesse, reza uma velha superstição, seria o último.

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Bergoglio, Rosas e Esquível

por Pedro Correia, em 14.03.13

O Bloco de Esquerda consegue marcar presença em qualquer debate televisivo: só falta mesmo vê-lo envolvido também nas discussões para a eleição do novo presidente do Sporting.

Ontem à noite, num canal televisivo, lá vimos o professor Fernando Rosas - um dos quatro fundadores do Bloco - perorando numa dessas tertúlias televisivas a propósito, vejam lá, da eleição do novo Papa. Começou logo, sem rodeios, por declarar-se ateu - o que em princípio não o recomendaria a estar presente num debate entre quatro pessoas sobre a Igreja: num país que tem vários milhões de católicos, certamente não foi por falta de alternativas que ele ali estava. Se o mesmo critério for aplicado num futuro debate sobre o próximo líder do Bloco de Esquerda (Deus conserve a liderança bicéfala de Catarina Martins e João Semedo por muitos e bons anos), não ficarei surpreendido por ver em estúdio alguém que esteja para a política como Rosas está para a religião.

 

O que disse neste debate o mais famoso ex-fumador de cachimbo da esquerda portuguesa? Nada que não se previsse: o Bloco impõe o seu caderno reivindicativo em todas as circunstâncias - e como tal, enquanto "cidadão do mundo", Rosas apressou-se a enunciar o seu ao Papa, chefe de uma religião em que não crê.

Para merecer a indulgência do ilustre historiador, o ex-arcebispo de Buenos Aires terá de cumprir a agenda bloquista em matéria religiosa, isto é: pronunciar-se contra o "capitalismo selvagem e a irracionalidade neoliberal", assumindo-se como "um Papa dos oprimidos".

Mas, despido de paciência evangélica, Rosas não perde tempo a lançar um anátema sobre o sucessor de Bento XVI, do alto da consabida superioridade moral que serve para qualquer militante bloquista encarar o mundo. Ele, que duas horas antes talvez nem tivesse alguma vez ouvido falar em Jorge Mario Bergoglio, já estava ali na pantalha a dardejar o seu verbo inflamado contra o pontífice recém-eleito: "O passado dele não é muito animador. Observo com reserva um Papa que foi duro com Kirchner e mole com a ditadura."

 

Se tivesse esperado um pouco mais, se soubesse informar-se melhor antes de se pronunciar sobre o que ignora, o professor Rosas teria lido a declaração de Adolfo Pérez Esquivel, o prestigiado Nobel da Paz argentino, que em declarações à BBC não deixa lugar a dúvidas: "Bergoglio não teve nenhuma ligação à ditadura." 

Abalará esta declaração as flamejantes certezas dos censores morais? Certamente que não. Podem proclamar-se ateus, como Fernando Rosas, mas adoram pregar no púlpito. Nunca se enganam e raramente têm dúvidas.

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Milagre

por Rui Rocha, em 14.03.13

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Oriundo

por João André, em 14.03.13

Décadas depois voltamos a ter argentinos filhos de emigrantes italianos a ser recrutados para cumprir funções para um Estado com sede em Roma.

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Hugo Chávez no conclave

por jpt, em 14.03.13


[Bonecos de Chávez são vendidos nesta terça-feira (12) nas ruas de Caracas (Foto: Ronaldo Schemidt/AFP)]

 

Para Nicolás Maduro, Presidente em exercício da Venezuela, o falecido Presidente Hugo Chávez terá tido alguma influência na eleição de um Papa argentino. “Nós sabemos que o nosso comandante subiu até às alturas, que está em frente de Cristo. Alguma coisa influenciou para que tenha sido escolhido um Papa sul-americano, alguma mão nova chegou a Cristo e lhe disse: chegou a hora da América do Sul. Assim nos parece”, disse Maduro em declarações transmitidas pela televisão oficial venezuelana. (nos jornais)

 

Em Portugal Boaventura Sousa Santos escreve um texto sobre Chavez de verdadeira ciência política, debruçando-se sobre a "química" chaveziana, base do seu poder, o socialismo de XXI. Culmina BSS com uma crítica aos políticos democratas (capitalistas) europeus, pois quando morrem não são chorados em sofrimento popular. Constate-se a mudança neste o teórico socialista: não só o sufrágio universal é insuficiente, as eleições não legitimam o poder, como também as "arruadas", antes tão convocadas, são insuficientes. Agora o critério de validade progressista, da legitimidade política, transitou para a dimensão dos rios de lágrimas apaixonadas (pre mortem e post mortem) que os políticos causam. O "condoímento" é o condimento desta teoria? 

 

Os bloguistas e leitores desta esquerda pós-iluminista (e defensora da teocracia iraniana - já agora, quantas lágrimas de pesar colherá Ahmadinejad?) "linkam" e "laicam". Os intelectuais apoiam. Os académicos apoiam. E, mais do que tudo, citam e referenciam. A imprensa remunera. O XXI português, o seu discurso político, resplandece. Deve ser da "química" do "carisma". 

 

Poderosa química, até alquímica. Pois, e como diz o lugar-tenente de Chavez, até Cristo, lá no sagrado Alto, lhe é sensível. Têm então os crentes, os praticantes e até os infiéis, um Papa Chaveziano.

 

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Simplesmente Francisco

por Pedro Correia, em 13.03.13

Mal acabei de ver o novo Papa assomar ao balcão da Basílica de São Pedro, lembrei-me de um dos seus predecessores: Albino Luciani, patriarca de Veneza, que passou à história como o efémero João Paulo I, pontífice por 33 dias.

Também ele apareceu com ar despojado, fraterno, repassado de fragilidade humana. De braços caídos, sem pedir aplausos, com um sorriso tímido, parecia querer dizer aos mil e trezentos milhões de crentes que o reconhecem a partir de hoje como dirigente espiritual que está disposto a aceitar este imenso desafio que o destino lhe proporciona embora não se sinta verdadeiramente digno dele.

 

 

As primeiras palavras que dirigiu à multidão foram as mais inesperadas, por serem tão simples: "Boa noite." Passou logo ali uma corrente afectiva entre quem falava e quem ouvia: muitos dirigentes políticos deviam aprender com momentos destes - em comunicação não é preciso inventar nada, basta ir à essência das ideias e das palavras. A roda já foi inventada há muitos milhares de anos...

 

Jorge Mario Bergoglio - argentino de 76 anos, jesuíta, filho de um imigrante italiano, diplomado em Engenharia Química - é o primeiro titular do Vaticano oriundo do continente americano, o maior viveiro de fiéis católicos do planeta. Vivia num modesto apartamento em Buenos Aires, deslocava-se em transportes públicos, cozinhava as suas próprias refeições, aprecia tango, gosta de ver jogos de futebol e de encorajar os jovens a descobrir Cristo entre os pobres.

Escolheu um nome simples, sem antecedentes no trono de Pedro e portanto sem numeração. Simplesmente Francisco. Como Francisco Xavier, o santo missionário que deixou o coração em Goa. Como Francisco de Assis, que se despojou de todos os bens materiais para melhor servir os outros.

Há-de receber os grandes do mundo, há-de ter reis e presidentes a pedir-lhe a bênção, há-de escutar incontáveis ovações. Mas hoje, no balcão da basílica, parecia não ambicionar nada mais do que ser irmão de todos nós.

Francisco, ainda sem a estola papal, começou por pedir que rezassem por ele - outro gesto de inequívoca humildade que me fez lembrar Luciani, o pontífice do sorriso que tão cedo se apagou. E depois, como se estivesse ainda mal refeito da surpresa, afirmou: "Foram buscar-me ao fim do mundo..."

Que o santo de Assis o ilumine na peregrinação iniciada agora. E que no fim da caminhada saiba dizer também, como o outro Francisco disse: "Primeiro faz-se o necessário, depois o que é possível e de repente estamos a fazer o impossível."

Habemus Papam.

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Habemus Papam.

por Luís Menezes Leitão, em 13.03.13

 

Era difícil os cardeais terem escolhido para Papa alguém mais diferente de Bento XVI. Enquanto Ratzinger era um intelectual, avesso a multidões, Bergoglio demonstrou logo na sua primeira aparição pública que se movimenta nelas como um peixe na água. Foi impressionante a empatia que criou junto das centenas de milhares de fiéis que enchiam a Praça de São Pedro. E, embora tivesse pedido duas orações pelo Papa Emérito Bento XVI, ficou claro para todos que a partir deste momento é ele e só ele quem enverga o anel do pescador e que as coisas vão mudar muito no Vaticano. A escolha do nome Francisco é todo um programa de reorientação da Igreja no sentido de missionação universal e de apoio aos pobres, em contrariedade precisamente ao nome de Bento que representava antes a tradição intelectual da unidade da Europa em torno da Igreja. Não é por acaso que Bergoglio tinha sido o preferido no anterior conclave por aqueles que se opunham à escolha de Ratzinger. Com Francisco I a Igreja Católica vai abandonar o seu eixo romano e andar pelos confins do mundo onde os cardeais foram buscar o novo Papa.

 

É impossível ignorar o peso político que tem a escolha de um novo Papa. Embora Estaline tivesse uma vez perguntado quantas divisões tinha o Vaticano, é evidente que é enorme a influência de alguém que é o chefe religioso de centenas de milhões de pessoas. E, ou muito me engano, ou, ao contrário de Ratzinger, este novo Papa vai ter uma intervenção pública constante de defesa dos mais desfavorecidos perante a crise económica que assola o mundo. Há uma nova realidade no Vaticano com que os governantes mundiais passam a ter que contar.

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Novo Papa eleito na quinta votação

por José António Abreu, em 13.03.13

Menos mal, Vaticano. Ainda assim, na Grécia houve governo à segunda votação e é improvável que em Itália sejam necessárias mais do que duas ou três.

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Escolha o seu papa

por Rui Rocha, em 13.03.13

Aqui.

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What if?

por Ana Vidal, em 12.03.13

Por estes dias, a Capela Sistina é uma espécie de Clube do Bolinha: "Minina não entra". Talvez para compensar, os purpurados usam saias de rendinhas, chapéus engraçados e sapatos de cetim encarnado.

Enfim, faites vos jeux, senhores cardeais. Para vos iluminar, aqui fica este conclave... de sol. What if God was one of us, hein?


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Entretanto, no Vaticano

por Rui Rocha, em 07.03.13

Se bem percebi, e de acordo com a prática habitual, nas reuniões e encontros preparatórios do Conclave os cardeais devem tentar perceber quais de entre eles são papáveis.

 

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Bento XVI (2005-2013)

por Pedro Correia, em 02.03.13

 

«Sono semplicemente un pellegrino che inizia l'ultima tappa del suo pellegrinaggio in questa terra.»

Castelgandolfo, 28.2.2013

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Mais um sinal do altíssimo?

por Teresa Ribeiro, em 22.02.13

Os escândalos sexuais parecem não querer abandonar a Santa Madre Igreja. Se o que o jornal italiano La Repubblica publicou ontem é verdade, Bento XVI fez bem em resignar. Este escândalo não é para octogenários com insuficiência cardíaca, mas pode e deve ser matéria de reflexão para o senhor que se segue. Quem sabe não será esta série de casos um sinal do altíssimo para se acabar de vez com o celibato obrigatório dos padres.

Recalcamentos sexuais estão na origem de muitos comportamentos desviantes e, ao contrário do que a Igreja sustenta, dificultam a concentração e diminuem o rendimento no trabalho.

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A douta ignorância

por Ana Vidal, em 20.02.13

Quem me conhece sabe como sou crítica em relação à igreja católica. Sou cristã por opção, mas isso não significa que aprove aquilo que os católicos fizeram ao longo dos tempos com a mensagem original de Cristo, admirável e verdadeiramente revolucionária. Tudo foi deturpado por razões bem humanas (mas indesculpáveis), trocando a liberdade e a responsabilidade individual que era proposta aos homens pela disciplina do medo, instaurada através da terrível mas eficaz fórmula "pecado-culpa-castigo". E assim tudo regressou de novo a terrenos mais seguros para quem gosta de exercer poder sobre os outros, aqueles outros que, por sua vez, preferem uma cartilha de pecados e virtudes por onde possam guiar os passos sem risco de excomunhão. Enfim, esta é uma pacífica mas insanável divergência que discuto habitualmente com amigos católicos desde que penso pela minha cabeça. Sou lúcida, curiosa e rebelde demais para não questionar dogmas impostos, para não querer saber o que esteve na sua génese, para não rejeitá-los se me parecem absurdos, desactualizados ou injustos.


Mas, se condeno a manipulação, condeno-a em todas as frentes. Tanto quanto as imposições irritam-me as críticas acéfalas, baseadas numa ignorância desonesta ou preguiçosa que tem como única intenção armar escândalo e alimentar ódios fáceis. Já não bastava sermos todos especialistas em macro-economia, agora também somos todos teólogos e doutorados em latim.

Este vídeo - que se refere a um hino Pascal supostamente demoníaco - foi posto a circular na net e tornou-se viral num ápice, exactamente como se pretendia. O título já diz tudo, para quem nem sequer o trabalho de o ouvir quiser ter. Mas, goste-se ou não da igreja católica, goste-se ou não de Bento XVI e da atitude que tomou, é de uma pobreza confrangedora perorar sobre aquilo de que não se percebe patavina só para fazer coro com a maioria. Para o que também a mim pareceu estranho à primeira impressão, procurei e encontrei explicações de quem entende alguma coisa do assunto. E descobri que Lucifer, em latim, significa apenas "portador de luz". A palavra está assim presente em varias orações da Igreja, em latim, e não se aplica evidentemente ao Diabo. Lucifer era o maior de todos os Anjos e não perdeu o nome apesar de abandonar Deus, de tal maneira que esse nome foi dado a muitos cristãos dos primeiros tempos e até existe um S. Lucifer. Em suma, descobri que a tradução apressada (se não propositadamente deturpada) que aparece no video, está longe de ser a mais correcta.


Gosto de argumentos, não de batotas.

 

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 15.02.13

«Depondo como quem descansa o peso da sua tiara virtualmente anacrónica e renunciando nela a uma "eternidade" inumana por uma outra visão mais cristã do tempo de Deus como não-poder, o mais suave dos papas não dilacera a túnica sem costura do Cristo (há tantos séculos dilacerada). Restitui-lhe o sentido e o esplendor da única eternidade que conta aos olhos de um cristão. E que não é a do ouro e seu peso de sangue, nem da glória e sua ilusão, mas a da consciência do seu nada no espelho do tempo mortal do nosso coração.»

Eduardo Lourenço, no Público

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 13.02.13

«Em 2005, muitos católicos emprestaram à agonia de João Paulo II um significado que eu não via: sentiam-no Cristo, humano e perplexo pelo abandono a que o Pai o votava. Eu só via, respeitador, um velho admirável que morria. Admito que fico mais tranquilo com a decisão de Bento XVI. Ele entendeu as suas limitações: não posso, saio. Quando isto se passa numa instituição como a Igreja Católica e com a instituição que é o próprio Papa (ele e a circunstância de séculos de outros papas) se calhar era preciso um cerebral e um ideólogo como Bento XVI para tomar decisão tão terra a terra. Percebo a cirurgia com que anunciou: "(...) pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20 horas, a sede de Roma ficará vacante." Um intelectual não faz revoluções à marretada, mas de bisturi. Um líder não se agarrar ao exercício do seu poder quando já não tem as condições físicas de o exercer pode ser um pequeno passo para uma pequena empresa, acontecer com um papa é um grande salto para a Humanidade.»

Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias

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Ela estava lá

por Pedro Correia, em 12.02.13

 

Saber latim possibilitou à jornalista Giovanna Chiri, da agência italiana Ansa e credenciada no Vaticano, um dos furos mediáticos mais relevantes de que há memória: presente ontem de manhã numa cerimónia no Vaticano que parecia pouco apelativa, do ponto de vista jornalístico, ela testemunhou (e entendeu) as palavras de Bento XVI e poucos minutos depois, às 11.46 (hora local), transmitia ao mundo a grande novidade em primeira mão: a primeira renúncia de um Papa desde 1415 - o ano da início da expansão portuguesa, no reinado de D. João I, com a conquista de Ceuta.

Dois méritos revelados nesta história, tão significativa, tão exemplar - e que acaba por constituir notícia dentro da notícia muito mais relevante da saída de cena do dirigente supremo da Igreja Católica. O mérito da cultura, do conhecimento, da aprendizagem de línguas - mesmo de uma língua considerada "morta" como o latim. E o mérito de estar no local e poder escutar de viva voz estas palavras de Bento XVI ainda tão recentes mas já com tanta relevância muito para além das fronteiras do universo religioso: "Cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério de Pedro."

Um jornalista nunca deve desvalorizar à partida a possibilidade de uma boa história. Porque a história acontece quando menos se espera. E às vezes até se escreve com H maiúsculo, como ontem sucedeu.

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Louvado seja o Senhor

por Rui Rocha, em 12.02.13

Confesso que não sei onde tanta modernice nos vai levar. Falam agora da possibilidade de o sucessor de Bento XVI ser um cardeal negro. Se isto continuar assim, um dia, Deus me perdoe, ainda teremos uma mulher a ocupar o lugar de Pedro.

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Um texto de excelência

por Ivone Mendes da Silva, em 11.02.13

Sou suspeita. Amiga de anos, vizinha da frente. Isso não me impede, porém de considerar, sem exagero, que este texto do Jorge Carreira Maia no seu Kyrie Eleison é um dos melhores da blogosfera de hoje sobre a temática da renúncia papal:

 

Para lá das múltiplas especulações que se disseminam na esfera pública, umas sobre os reaismotivos de renúncia do Papa e outras sobre os cardeais em melhor posição para lhe suceder, o gesto de Ratzinger tem um interesse especial para o exercício futuro do poder no Vaticano ... (seguir o link)

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Rumores sobre a resignação de Bento XVI

por Rui Rocha, em 11.02.13

Ao que parece, António Costa tinha-lhe dado dez dias para unir a Igreja Católica.

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