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Deus feito homem da gruta à cruz

por Pedro Correia, em 14.04.17

Gauguin_Il_Cristo_giallo[1].jpg

 O Cristo Amarelo, de Paul Gauguin (1889)

 

«Jesus chorou.»

João, 11-35 (o versículo mais curto da Bíblia)

 

A mensagem arrebatadora do Evangelho - e aquela que resume toda a essência do cristianismo - é a de um Deus que assume a plenitude da condição humana. Com os seus luminosos momentos de alegria, os seus lampejos de júbilo, as suas inevitáveis dores, a sua irrenunciável agonia. Como se a missão do criador ficasse incompleta sem esta experiência radical de abraçar por inteiro o ser débil, indeciso e angustiado que o barro divino moldou.

Até ao fim dos séculos, Jesus será inseparável da circunstância deste percurso terreno em que voluntariamente se irmana ao mais comum dos homens. Nasce pobre, numa gruta. Enaltece os humildes. Elege simples trabalhadores como discípulos. Rejeita sem vacilar o ilusório fulgor dos bens materiais. Perdoa os pecadores: «Eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar.» (João, 12-47). Enfrenta os fariseus com palavras tão actuais na manhã de hoje como há dois mil anos: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade.» (Lucas, 11-39). E não hesita em dar a mais humana das interpretações à pétrea Lei de Moisés: «O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado.» (Marcos, 2-27).

Condenado sem apelo nem recurso, renegado pelos seus, vilipendiado pela multidão que aclama Barrabás, confrontado perante a prepotência de Caifás e a cobardia moral de Pilatos, crucificado entre dois salteadores como um delinquente pelo crime de blasfémia. Deus feito homem num mundo de homens que sonham ser deuses.

Pouco antes confessara aos discípulos em Getsemani que sentia «uma tristeza de morte». E ali mesmo implora numa prece que poderia brotar da voz interior de qualquer de nós: «Pai, tudo Te é possível, afasta de Mim este cálice!» (Marcos, 14-36).

Um cálice que, no entanto, beberá até ao fim. Imerso na condição humana da gruta à cruz.

 

Texto reeditado

 

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A pergunta inútil de Abril

por Pedro Correia, em 03.04.17

« Em que dia do mês calha a Páscoa »

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Judas estava referenciado.

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À Humanidade

por Bandeira, em 26.03.16

Porque John Donne está a morrer, ele escreve algumas Lamentações; nelas se queixa inclusive de que as dores o impedem de gozar na sua plenitude a experiência da morte. Escreve que "nenhum homem é uma ilha" e outras coisas lindas, quase sempre porém melancólicas e tristes.
Séculos depois, Hemingway usa em prefácio um trecho da 17a Lamentação, algo como: "Não perguntes por quem dobram os sinos; eles dobram por ti". Com isto queria Donne dizer que partilhava da Humanidade, e que morrendo um qualquer homem morria Donne um pouco também (já Terêncio, por outras palavras, sugerira algo assim).
Em Hollywood fez-se um filme e o trecho prosaico da Lamentação de Donne ficou na memória que hoje sói chamar-se colectiva, muitas vezes tomado por verso, porque Donne era, antes de prosador morrendo, um poeta; e os poetas, não sendo ilhas, serão talvez penínsulas.
À Humanidade, uma Páscoa feliz.

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Deus feito homem da gruta à cruz

por Pedro Correia, em 25.03.16

Gauguin_Il_Cristo_giallo[1].jpg

 O Cristo Amarelo, de Paul Gauguin (1889)

 

«Jesus chorou.»

João, 11-35 (o versículo mais curto da Bíblia)

 

A mensagem arrebatadora do Evangelho - e aquela que resume toda a essência do cristianismo - é a de um Deus que assume a plenitude da condição humana. Com os seus luminosos momentos de alegria, os seus lampejos de júbilo, as suas inevitáveis dores, a sua irrenunciável agonia. Como se a missão do criador ficasse incompleta sem esta experiência radical de abraçar por inteiro o ser débil, indeciso e angustiado que o barro divino moldou.

Até ao fim dos séculos, Jesus será inseparável da circunstância deste percurso terreno em que voluntariamente se irmana ao mais comum dos homens. Nasce pobre, numa gruta. Enaltece os humildes. Elege simples trabalhadores como discípulos. Rejeita sem vacilar o ilusório fulgor dos bens materiais. Perdoa os pecadores: «Eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar.» (João, 12-47). Enfrenta os fariseus com palavras tão actuais na manhã de hoje como há dois mil anos: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade.» (Lucas, 11-39). E não hesita em dar a mais humana das interpretações à pétrea Lei de Moisés: «O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado.» (Marcos, 2-27).

Condenado sem apelo nem recurso, renegado pelos seus, vilipendiado pela multidão que aclama Barrabás, confrontado perante a prepotência de Caifás e a cobardia moral de Pilatos, crucificado entre dois salteadores como um delinquente pelo crime de blasfémia. Deus feito homem num mundo de homens que sonham ser deuses.

Pouco antes confessara aos discípulos em Getsemani que sentia «uma tristeza de morte». E ali mesmo implora numa prece que poderia brotar da voz interior de qualquer de nós: «Pai, tudo Te é possível, afasta de Mim este cálice!» (Marcos, 14-36).

Um cálice que, no entanto, beberá até ao fim. Imerso na condição humana da gruta à cruz.

 

Texto reeditado

 

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Paixão

por Rui Rocha, em 24.03.16

paixão.jpg

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Férias da Páscoa

por Teresa Ribeiro, em 06.04.15

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"Pai! Pai! Pai!" Era uma urgência, um clamor, mas sobretudo uma disputa com a irmã, pouco mais velha, talvez com uns nove anos. De temperamento menos nervoso, ataviada com a roupa de sair com o pai, a menina falava baixinho. Tão baixinho que o pai tinha de se curvar até quase roçar a cabeça dela. "Hã? Repete lá!" Em volta o miúdo sitiava-os, inventando números de circo. "Não te pendures aí, podes cair!" A voz do adulto saía controlada. Era a voz de passear os filhos em público.

"Pai! Pai! Pai!" E agora abanava-o, para o desviar dos sussurros da irmã. Mas a menina ignorava-o, prosseguindo a sua história interminável em surdina. Sem nunca perder a consciência de que estava a ser observado por estranhos, o homem tentava partir-se em dois, evitando acusar sinais de impaciência. Os garotos, também sem perder a consciência de que estavam a ser observados por estranhos, tentavam tirar o máximo partido da situação, esticando-o como se fosse uma corda. Cada um a puxá-lo pela sua ponta e um risco ao meio do terreno.

- Pai! Pai! Pai!

- Não grites, não vês que incomodas as pessoas?

Sempre em tom civilizado, desta vez com a menina a prender-lhe a cintura, tentava acalmar o filho, mas este continuava num desatino, a lutar contra o tempo, porque o comboio estava a chegar e antes que viesse ele queria, mais que tudo no mundo, ele queria, queria, queria que o pai o visse.

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Deus feito homem da gruta à cruz

por Pedro Correia, em 03.04.15

Gauguin_Il_Cristo_giallo[1].jpg

 O Cristo Amarelo, de Paul Gauguin (1889)

 

«Jesus chorou.»

João, 11-35 (o versículo mais curto da Bíblia)

 

A mensagem arrebatadora do Evangelho - e aquela que resume toda a essência do cristianismo - é a de um Deus que assume a plenitude da condição humana. Com os seus luminosos momentos de alegria, os seus lampejos de júbilo, as suas inevitáveis dores, a sua irrenunciável agonia. Como se a missão do criador ficasse incompleta sem esta experiência radical de abraçar por inteiro o ser débil, indeciso e angustiado que o barro divino moldou.

Até ao fim dos séculos, Jesus será inseparável da circunstância deste percurso terreno em que voluntariamente se irmana ao mais comum dos homens. Nasce pobre, numa gruta. Enaltece os humildes. Elege simples trabalhadores como discípulos. Rejeita sem vacilar o ilusório fulgor dos bens materiais. Perdoa os pecadores: «Eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar.» (João, 12-47). Enfrenta os fariseus com palavras tão actuais na manhã de hoje como há dois mil anos: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade.» (Lucas, 11-39). E não hesita em dar a mais humana das interpretações à pétrea Lei de Moisés: «O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado.» (Marcos, 2-27).

Condenado sem apelo nem recurso, renegado pelos seus, vilipendiado pela multidão que aclama Barrabás, confrontado perante a prepotência de Caifás e a cobardia moral de Pilatos, crucificado entre dois salteadores como um delinquente pelo crime de blasfémia. Deus feito homem num mundo de homens que sonham ser deuses.

Pouco antes confessara aos discípulos em Getsemani que sentia «uma tristeza de morte». E ali mesmo implora numa prece que poderia brotar da voz interior de qualquer de nós: «Pai, tudo Te é possível, afasta de Mim este cálice!» (Marcos, 14-36).

Um cálice que, no entanto, beberá até ao fim. Imerso na condição humana da gruta à cruz.

 

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Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?

por José Gomes André, em 02.04.15

 

Não me interessa o folclore do Natal. Esta é a noite mais solene do cristianismo, talvez mesmo a mais solene da história. Quando Cristo, sabendo do seu destino fatal, exprime a sua dor humana, demasiado humana, em revolta contra o trágico evento que o espera. Há muitas coisas admiráveis sobre a Última Ceia, a lavagem dos pés, a instituição da Eucaristia e o beijo de Judas, mas nenhuma me parece tão importante quanto a dúvida que assola Jesus (“Pai, afasta de mim esse cálice!”), Deus feito homem – e portanto apaixonado pela vida dos homens e pelos homens. Sob a aparente serenidade do que se seguirá, habita em Cristo um desejo de resistência contra o absurdo da morte, que culminará, horas mais tarde, na mais desesperada e brutal das frases bíblicas: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Citando um salmo do Antigo Testamento, opera-se a ligação entre o antigo e o novo, mas é de um homem dilacerado que se trata ainda, face a uma morte que não quer aceitar, mas da qual não pode fugir, em nome da causa que defende. Em todas as Páscoas penso na luta desse homem – e do que ela tem para nos ensinar sobre as nossas próprias lutas. 

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Crucificações

por José Navarro de Andrade, em 18.04.14

Marc Chagal, "Golgotha", 1912 

Fragment of a Crucifixion.jpg

 Francis Bacon, "Fragment of a crucifixion", 1950 


 Léon Ferrari, "Western-Christian Civilization", 1965 


 Chris Burden, "Trans fixed", 1974 


Hughie O'Donoghue, "Blue crucifixion", 1993-2002


 Bernard Pras, "Christ", 2002


Andrés Garcia Ibanez, "El Cristo de la Muerte", 2003



David Mach, "Die harder", 2010

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Da liberdade

por Laura Ramos, em 31.03.13

«Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse amor, seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine.

Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de remover montanhas, mas não tivesse amor, nada seria.

Se eu gastasse todos os meus bens no sustento dos pobres e até me fizesse escravo, para me gloriar, mas não tivesse amor, de nada me aproveitaria.

O amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza, não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade. Ele desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo.

O amor jamais acabará.As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá.

Com efeito, o nosso conhecimento é limitado, como também é limitado nosso profetizar.

Mas quando vier o que é perfeito, desaparecerá o que é imperfeito.

Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei adulto, rejeitei o que era próprio de criança.

Agora nós vemos num espelho, confusamente, mas, então veremos face a face. Agora, conheço apenas em parte, mas, então, conhecerei completamente, como sou conhecido».

 

Carta de S. Paulo aos Coríntios

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Páscoa

por Pedro Correia, em 31.03.13

 

«E era com grande poder que os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus, gozando todos de grande simpatia. Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, conforme a necessidade que tivesse.» (Actos dos Apóstolos, 4: 34-35)

 

O dia que hoje celebramos no mundo de matriz cristã tem um significado que ultrapassa a letra da liturgia, podendo ser assimilado por todos os seres humanos de boa vontade. Simboliza desde logo a supremacia absoluta da espiritualidade sobre o materialismo. Simboliza o resgate de todos os injustiçados à face da terra - aqueles que, como Jesus, também sobrevivem à traição, à calúnia, à humilhação e à tortura. Simboliza enfim o triunfo dos justos contra a iniquidade política (personificada em Pôncio Pilatos, que sabia estar a permitir a condenação de um inocente) ou religiosa (personificada em Caifás, sumo sacerdote da Judeia). Cristo, ao transcender o plano da morte física após sucumbir sob intenso sofrimento, demonstra que todos os filhos de Deus são revestidos da mesma dignidade essencial. "Nenhum poder terias sobre mim se do Alto te não fosse dado", diz a um perplexo Pilatos, segundo relata o Evangelho de João.

O cristianismo, para não trair a sua raiz nem o seu destino, jamais deve omitir a face humana de Jesus, que nasce numa gruta obscura e morre crucificado entre dois salteadores. Alheado de toda a glória mundana, despojado de todos os bens terrenos, proclama para a eternidade que nem a morte é capaz de travar a indomável essência do espírito.

Reflexão para esta Páscoa. Reflexão para qualquer Páscoa que vier.

 

Texto reeditado

 

Quadro: Ressurreição, de Marc Chagall (1937)

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Nem sempre Via Dolorosa

por Laura Ramos, em 29.03.13

 

Há agenda para além da política.

Boa Páscoa.

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Imagem que marca (3)

por André Couto, em 08.04.12

 

Feliz Páscoa!

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Uma Páscoa de esperança

por Ana Vidal, em 08.04.12

                      

 

Com flores de rodoendro cor de fogo
Anuncio aos sentidos
O milagre

Da ressurreição.
E o Cristo vivo, em que se transfigura
A mais vil criatura
Que atravessa a praça,
É como uma graça
A mais da primavera.
Ah, quem pudera
Todos os dias

Olhar o mundo assim, repovoado
De fraternidade,
Quente de um sol desabrochado
Em cada pétala da realidade!

(Miguel Torga)

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Para que tenham Vida

por Laura Ramos, em 08.04.12

 

Com flores de rododendro cor de fogo
anuncio aos sentidos
o milagre
da Ressurreição.
E o Cristo vivo,
em que se transfigura
a mais vil criatura
que atravessa a praça,
é como que uma graça
a mais da Primavera.
Ah, quem pudera
todos os dias
olhar o mundo assim,
repovoado de fraternidade,
quente dum sol desabrochado
em cada pétala da realidade.

Aleluia, Miguel Torga

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Ressurreição

por João Carvalho, em 08.04.12

 

Ressurreição e mulheres no túmulo vazio, 1437/46

Fra Angelico (1395–1455)

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Páscoa

por Pedro Correia, em 08.04.12

 

«E era com grande poder que os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus, gozando todos de grande simpatia. Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, conforme a necessidade que tivesse.» (Actos dos Apóstolos, 4: 34-35)

 

O dia que hoje celebramos no mundo de matriz cristã tem um significado que ultrapassa a letra da liturgia, podendo ser assimilado por todos os seres humanos de boa vontade. Simboliza desde logo a supremacia absoluta da espiritualidade sobre o materialismo. Simboliza o resgate de todos os injustiçados à face da terra - aqueles que, como Jesus, também sobrevivem à traição, à calúnia, à humilhação e à tortura. Simboliza enfim o triunfo dos justos contra a iniquidade política (personificada em Pôncio Pilatos, que sabia estar a permitir a condenação de um inocente) ou religiosa (personificada em Caifás, sumo sacerdote da Judeia). Cristo, ao transcender o plano da morte física após sucumbir sob intenso sofrimento, demonstra que todos os filhos de Deus são revestidos da mesma dignidade essencial. "Nenhum poder terias sobre mim se do Alto te não fosse dado", diz a um perplexo Pilatos, segundo relata o Evangelho de João.

O cristianismo, para não trair a sua raiz nem o seu destino, jamais deve omitir a face humana de Jesus, que nasce numa gruta obscura e morre crucificado entre dois salteadores. Alheado de toda a glória mundana, despojado de todos os bens terrenos, proclama para a eternidade que nem a morte é capaz de travar a indomável essência do espírito.

Reflexão para esta Páscoa. Reflexão para qualquer Páscoa que vier.

 

Quadro: Ressurreição, de Marc Chagall (1937)

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As canções do século (829)

por Pedro Correia, em 08.04.12

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Últimas Ceias #7

por Ana Vidal, em 07.04.12

Finalmente, a utilização simbólica da Última Ceia na divulgação de CAUSAS ou para promoção própria. É irresistível, convenhamos: a imagem de uma figura central, rodeada da elite que constitui a sua esfera de influência (real ou desejada) permite uma leitura tão directa quanto eficaz da mensagem, pessoal ou colectiva, que se quer transmitir. Eis alguns exemplos, bem significativos.

 

 

1. Na defesa dos direitos das mulheres, aqui numa interpretação dos criadores de moda Marithé e François Girbaud. A ironia é bem explícita: o único homem presente (colocado no mesmo lugar da figura no fresco de DaVinci cujo género tem gerado polémica) está de costas, numa posição de submissão e subalternidade.    

 

 

 

2. Na luta contra o consumismo e o desperdício alimentar. Desconheço a autoria da primeira imagem, a segunda é do fotógrafo David LaChapelle e faz parte de uma série denominada "Jesus is my Homeboy". LaChapelle usou grupos multi-étnicos de jovens como modelos, oriundos das culturas rap e hip-hop e vestidos com roupas underground.

 

 

3. Na defesa e protecção dos animais, um cartaz para a Organização Internacional para a Protecção dos Animais. Repare-se no slogan (em cima, ao centro), que diz  "Um de vós vai trair-nos 150.000 vezes por ano". Curiosamente, a única figura com feições humanas é a de Judas.
 

 

4. Gordon Ramsay, um dos mais famosos chefs da actualidade e estrela do programa de televisão Hell's Kitchen (Cozinha do Inferno), rodeado de outros chefs ingleses cujo denominador comum é terem todos, pelo menos, uma estrela Michelin no curriculum. Sobre as suas cabeças, uma fatia voadora de queijo Brie. A fotografia foi feita para a revista Guardian.

 

 

5. Em 1985, o pintor Nate Giorgio assinou um contrato com Michael Jackson para pintar 50 quadros do cantor, que seriam usados para fins pessoais e comerciais. Esta Última Ceia, em que o Rei da Pop está rodeado de figuras célebres, está sobre a sua cama, em Neverland. (Os "apóstolos" são Abraham Lincoln, John. F. Kennedy, Thomas Edison, Albert Einstein, Walt Disney, Charlie Chaplin, Elvis Presley and Little Richard).

 


 

Não se escandalize quem vê nestas imagens, por vezes provocatórias, uma ofensa à sua fé. Se a Última Ceia - o encontro por excelência, fulcral na história da humanidade - não tivesse tanta força e tanto poder simbólico, passaria despercebida e ninguém quereria imitá-la ou apoderar-se dela. Tanto interesse só pode significar admiração, logo, elogio. Afinal, Jesus Cristo pode ser visto como o maior de todos os super-heróis do nosso imaginário. Tem todas as características que os fazem ser seres superiores - coragem, altruísmo extremo, disponibilidade total para os mais desprotegidos, despojamento pessoal, prática exclusiva do Bem - e ainda duas a mais, que fazem toda a diferença do mundo: a sua realidade (está historicamente provado que existiu) e, ao contrário dos heróis da ficção, a sua vulnerabilidade à dor física e até à morte, o que torna ainda muito mais admirável a sua história de vida.

Boa Páscoa a todos.

 

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Sobre o que se refaz

por Fernando Sousa, em 07.04.12

Páscoa para mim era quando ainda não havia a morte. Depois a gaja veio, varreu-me a mesa, comeu-me as amêndoas, e fiquei pouco. Mas a seguir vieram filhos e ela voltou. Páscoa é isso: o que se refaz. E isso é bom. 

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Últimas ceias # 6

por José Navarro de Andrade, em 07.04.12

As performances, é da sua natureza serem epidérmicas, meros fenómenos dos quais sobram não mais do que vestígios. Se é próprio da arte “ficar”, as performances contestam-no, provocando uma arte que não quer resistir ao tempo.

Seria preciso ter estado lá para viver o acontecimento. Doutro modo só nos resta dar conta dele e percebê-lo, o que se verifica como manifestamente empobrecedor. Entender as coisas é sempre menos do que as próprias coisas; uma noção que talvez fizesse falta insistir nos tempos actuais.

 

 

O nome engana: apesar de viver e trabalhar em Los Angeles Vanessa Beecroft é nativa de Génova. Em Abril de 2009, apresentou no PAC (Padiglione d’Arte Contemporanea) de Milão uma performance intitulada “VB65”.

20 emigrantes africanos, sentados ao longo de uma mesa com 12 metros, todos envergando fato escuro, embora alguns estivessem descalços e outros descamisados, cearam frango assado, pão escuro e água, sem talheres, pratos ou copos. A função durou 3 horas e decorreu perante uma selecta plateia de convidados.

Além das leituras quase instantâneas que “VB65” instiga, o nosso olhar ficará enriquecido ao saber que Vanessa Beecroft sofre de disfunções alimentares, desde a anorexia que atormentou a sua adolescência até à bulimia com que se tem debatido em adulta. 

 

  

 

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Em nome do Pai

por Leonor Barros, em 06.04.12

A Páscoa é ter três ou quatro anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais. A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar. A Páscoa é esperar pacientemente sem meter dedo ou dente perante uma mesa cheia de doces, bolos, folares pela hora do almoço, controlar o ímpeto de criança, obedecer aos meus pais e portar-me bem lá nessa casa dos doces, bolos e folares e dinheiro por baixo de uma laranja na mesa. A Páscoa é esse sacrifício. A Páscoa é o padre chegar e trazer uma imagem e dar-nos a beijá-la e todos a beijarem. Diz que era Cristo menino mas nunca entendi porque se havia de não comer bolos, haver dinheiro em cima da mesa e beijar uma imagem naquele tempo. A Páscoa é a procissão do enterro do Senhor pelas ruas de Viseu. A Páscoa é ter muitas dúvidas que dos mortos nunca ninguém voltou e não me consta que Jesus Cristo apreciasse tanto fausto, tanta celebração, alguma ostentação. A Páscoa é estar num qualquer sítio do mundo e pensar Olha, hoje é Domingo de Páscoa. A Páscoa é a esperança de dias longos, dias novos. A Páscoa é leite-creme queimado com a pá de ferro que vai passando de geração em geração. A Páscoa é e será sempre pão-de-ló com queijo da Serra. A Páscoa será sempre o pão-de-ló que fiz, que se fazia para o meu pai. A Páscoa é ele sorrir-me com os olhos amendoados e dizer-me Está uma maravilha, filhota. A Páscoa é comer o pão-de-ló em sua homenagem. Hoje e sempre.

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Hoc est enim corpus meum

por Pedro Correia, em 06.04.12

Meio século depois, Cuba volta a celebrar a Sexta-Feira Santa como feriado nacional. As autoridades comunistas corresponderam assim a um pedido expresso do Papa Bento XVI na sua recente deslocação ao país. Foi preciso outro chefe da Igreja Católica visitar Havana - João Paulo II, em 1998 - para os trabalhadores cubanos poderem assinalar o Natal como dia festivo após quase três décadas de proibição: Fidel Castro havia cancelado em 1969 o feriado natalício com o argumento de que "interferia nos trabalhos da colheita do açúcar". Se não fosse "socialista", certamente não faltaria quem o acusasse de tenebrosas tendências neoliberais...

Em Portugal, a CGTP defende a manutenção dos feriados religiosos dizendo - e com razão - que devem merecer tanto respeito como o 1º de Maio ou o 25 de Abril. Algo que os sindicalistas portugueses terão certamente transmitido aos seus camaradas cubanos quando lá se deslocaram, vai fazer em breve um ano, para assistirem à comemoração do Dia do Trabalhador. Ou quando lá estiveram, no ano anterior. Acredito que o ex-secretário-geral da CGTP, Manuel Carvalho da Silva, tenha defendido algo semelhante durante a sua visita a Havana em Julho de 2009.

A fé move montanhas. Até num país governado desde 1959 por um partido que só em 1991, durante o seu quarto congresso, começou a tolerar militantes com assumida crença religiosa. "Paris vaut bien une messe", proclamou Henrique IV em 1593 ao converter-se ao catolicismo. Porque não há-de o general Raúl Castro pensar o mesmo nesta quadra pascal?

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Últimas Ceias #5

por Ana Vidal, em 06.04.12

É sabido que a PUBLICIDADE (o tema deste post) se apodera dos ícones culturais e os vampiriza, capitalizando a força destes para fazer passar as suas mensagens, mais ou menos inócuas. A Última Ceia e o seu poderoso simbolismo, fortemente implantado na cultura ocidental e veículo privilegiado de emoções, não podia deixar de interessar a este universo de criadores de sonhos. Foi difícil escolher os exemplos de hoje, tal é a variedade de opções. Mas aqui ficam alguns.

 

 

 

Nestes dois primeiros, é o imaginário infantil o alvo preferencial. 1. Mickey Mouse (a primeira grande estrela da banda desenhada, da Disney) está rodeado de outros heróis e figuras bem conhecidas das crianças. E todos eles promovem subtilmente a cadeia McDonalds, cujo logótipo se eleva como um halo sobre a cabeça de Mickey. 2. Uma Última Ceia da Lego, com todos os pormenores.

 

 

 

Caminhando para o target seguinte, os adolescentes. 3. De novo as figurinhas-oferta da McDonaldland, aqui num cartaz anunciando um espectáculo dos Melvins. Lee Zeman foi o seu criador. 4. Personagens de video-jogos da Nintendo, tendo o famoso Super-Mário como figura central.

 

Já no mundo dos adultos. 5. Uma curiosa sobreposição do etrrno provocador Andy Warhol, usando a Última Ceia e duas marcas bem conhecidas: a Dove (note-se a alusão à pomba (dove) que representa o divino Espírito Santo para os cristãos; e a General Electric, a qual, não por mera coincidência, "ilumina o mundo" e tem como slogan We bring good things to life. 6/7. Como não podia deixar de ser, os mais sacralizados objectos de culto da actualidade, aqui num aproveitamento da omnipotente Apple, destacando acima de todos os outros os seus iphone e ipod.

 

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Paixão

por Laura Ramos, em 06.04.12


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Últimas Ceias #4

por José Navarro de Andrade, em 06.04.12

Recorde-se que a última ceia de Leonardo da Vinci captura o instante em que Cristo anuncia haver um traidor no meio de nós.

Diz-se que o rosto é o espelho da alma e que a sua superfície é um sismógrafo onde se registam as vibrações profundas. Por isso, além das poses arqueadas e da composição turbulenta, o fresco de Da Vinci estampa na cara dos apóstolos uma perturbação tanto mais patética quanto contrasta com a levítica serenidade do Cristo traído.

 

Zeng Fanzhi, 1999

 

Zeng Fanzhi faz das artes plásticas uma forma de cirurgia plástica. Pelo que se apropria da Última Ceia como mais um passo para o tratamento do rosto em pintura. Primeira operação: todos os amesendados ostentam a mesma cara: impassível, justaposta, esboçada, sem género nem carácter. Fica apenas a composição reproduzida da de Leonardo e a sua expressividade, além das mãos, essas mãos que apontam para todo o lado à procura. Segunda operação: sobre a toalha espalham-se talhadas de melancia e nada mais: uma ceia ainda mais frugal que a canónica – e vermelha. Terceira operação: todos envergam o uniforme de pioneiros, a juventude do PCC; a traição adquire cunho político e típico da tradição comunista chinesa, onde a conspiração, o atrito entre grupos de pressão, os putsch para a tomada do poder interno e as quedas em desgraça eram (são?) a norma. O calvário iniciado na Última Ceia, ganha com Fanzhi outras conotações – mas calvário, sempre.

 

 Rauf Mamedov, 1998 

 

Rauf Mamedov utiliza um dispositivo tão simples que parece óbvio depois de apresentado. Os corpos agitam-se à imagem da composição de Leonardo, mas agora há entre os protagonistas uma característica comum: têm todos um cromossoma a mais. Como o nosso olhar é deseducado, a primeira tentação será dizer: “São todos iguais”. É este o ponto de Mamedov: não são. A humanidade está para além do rosto.

 

Rauf Mamedov, "Última Ceia" (detalhe)

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O menu da Última Ceia

por José António Abreu, em 05.04.12

Foi o habitual em qualquer jantar de grupo: havia, à escolha, arroz de pato e bacalhau com natas. Jesus optou pelo bacalhau, Pedro, que ficara farto de peixe durante os anos em que fora pescador, pelo pato. Tomé resmungou que só vendo acreditaria que o bacalhau incluía mesmo bacalhau e o arroz de pato incluída mesmo pato e acabou, com um encolher de ombros, por decidir-se pelo arroz de pato. Alguns apóstolos estranharam que Judas não protestasse pelo facto de nas opções não estar lombo de porco assado, uma vez que, indiferente às tradições judaicas, era o que comia quase sempre naqueles jantares mas hoje sabemos que nessa noite ele tinha outras preocupações.

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Últimas Ceias #3

por Ana Vidal, em 05.04.12

Introdução: Porque tenho uma infinidade de "últimas ceias" e o tempo até à Páscoa já é curto, tive de escolher só algumas. Decidi dividi-las por temas. O de hoje é "A Última Ceia no CINEMA".


Como o Zé Navarro de Andrade já referiu no primeiro post desta série, o magnífico fresco de Leonardo, sendo embora uma representação inicialmente cristã, deu início a um simbolismo que ultrapassaou há muito o domínio da religião. Cito-o: a última Ceia, com o passar das eras, veio a consolidar-se enquanto uma das fundações do que genericamente se apelida de civilização Ocidental. A partir dessa cerimónia estabelecemos que o elo supremo entre os humanos está em partilhar o pão e o vinho; assim como partilhar o pão e o vinho à mesa, se tornou um gesto cultural que designa os momentos decisivos de uma vida. A mesa é um palco de emoções em que as defesas abrandam e os sentidos reinam, potenciando por isso, consoante o momento, cumplicidades e intrigas, tensões e bonomias, pactos e rupturas, enfim, amores e ódios. Não é por acaso que muitos negócios são feitos à mesa, como não é por acaso que as grandes decisões são normalmente precedidas ou seguidas de uma refeição especial, que as sela e comemora. Solenidade e ritual, dois elementos essenciais ao equilíbrio instável das relações humanas. E o cinema, seu espelho natural, não podia deixar de fora este potencial simbólico. O poderoso jogo de forças em volta de uma mesa é matéria irresistível para qualquer cineasta.

 

The Sopranos Last Supper (Annie Leibowitz)

 

A aclamadíssima Annie Leibowitz fotografou, em 1999, o elenco dos Sopranos em pose de Última Ceia, com Tony ocupando o lugar central e Livia, a pérfida matriarca, o de Judas. Os outros serão meros peões, ou mais do que isso? Observem-nos bem.

 

Star Wars Last Supper (Eric Deschamps)


Eric Deschamps pintou este quadro para a revista Giant, para celebrar a saga epico-futurista que encantou o mundo. Nas próprias palavras do pintor, "As personagens foram escolhidas pela Giant e tinham de ocupar determinados lugares, o que me dificultou a tarefa. Eu teria preferido Boba Fett como Judas em vez de Han Solo ou Chewbacca, e acabei por deixá-los numa posição mais dúbia, mais interpretativa. Tive de afastar-me um pouco das poses do original, para conseguir arrumar todas as personagens."

 

Hollywood Last Super

 

Esta é uma das inúmeras "Hollywood Last Supper" que existem. Não conheço o autor, mas escolhi esta pela curiosidade da colocação de peças neste inesgotável puzzle: aqui é Marilyn Monroe que ocupa o lugar de Cristo, talvez por ter sido igualmente "sacrificada", no seu caso à fama e à celebridade. Sabe-se lá porquê, é Clark Gable quem assume o indesejado lugar de Judas.

 

Mas há mais, e muito melhor, se passarmos das imagens ao video. Deixo-vos com três exemplos eloquentes de refeições decisivas no Cinema, tirados de três dos meus filmes de eleição: Brutti, Sporchi e Cattivi (Ettore Scola), Des Hommes et des Dieux (Xavier Beauvois) e American Beauty (Sam Mendes). Sigam os links. Vale a pena perder algum tempo a vê-los, garanto.

 

Adenda: Viridiana (Luis Buñuel), por sugestão do Pedro Correia. E mais dois de que me lembrei entretanto, para quem tiver tempo e paciência: Babette's Feast (Gabriel Axel) e Festen (Thomas Vinterberg). Finalmente, uma pérola da comédia para aliviar: History of the World (Mel Brooks)

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Últimas Ceias #2

por José Navarro de Andrade, em 05.04.12

Adi Nes, 1999

 

No final do século passado o fotógrafo Adi Nes tornou-se notável ou notório, conforme o lugar donde olhamos para o seu trabalho, com a série fotográfica “Soldados”. Remetendo para a iconografia cristã, Adi Nes fotografou os soldados do seu país encenando-os em poses que desvaneciam qualquer dúvida acerca da pulsão homoerótica que o animava. Sobre isso, escolheu os rapazes mais trigueiros para modelos, confundíveis com árabes. Não é despiciendo referir que Adi Nes é israelita, pelo que qualquer uma das características acima elencadas (cristianismo, exército, árabe) desfraldou celeuma.

Que a partir desta série Adi Nes tenha atingido envergadura internacional, que o seu trabalho seja premiado e desenvolvido ao abrigo de instituições oficiais, bastaria para nos elucidar acerca da natureza política de Israel. Talvez que num raio de 1000km a leste de Tel Aviv, onde Nes tem residência, qualquer uma das sua fotografias constituísse motivo para no mínimo ser agraciado com vergastadas em vez de crítica.

 

 Vivek Vilasini, "Última Ceia em Gaza", 2008

 

Dizem as notas que Vivek Vilasini, indiano de nascimento e vivência, aborda a identidade cultural. Seja por aí. Ao deslocar a última ceia uns kms mais a sul ou a leste, trocando os homens pelas mulheres, prefiro ver nesta versão a capacidade de tudo ser revelado através dos olhos e das mãos. Isso, e a pose ser perfeitamente codificada pelo que já sabemos da cena, permite-nos identificar os sentimentos de traição e ansiedade. Se a última ceia, no seu significado clássico, é o prólogo do grande momento, aqui parece-nos ser o epílogo de qualquer coisa que já aconteceu e foi lá fora. Tudo do avesso, portanto.

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As últimas ceias #1

por José Navarro de Andrade, em 04.04.12
 

 

Andy Warhol, 1984

 

A ressurreição do Cristo é o fulcro da religião cristã. Se não há sobrenatural, não há crença e sem ele o cristianismo não passaria de uma cartilha moral. Mas a última Ceia, com o passar das eras, veio a consolidar-se enquanto uma das fundações do que genericamente se apelida de civilização Ocidental. A partir dessa cerimónia estabelecemos que o elo supremo entre os humanos está em partilhar o pão e o vinho; assim como partilhar o pão e o vinho à mesa, se tornou um gesto cultural que designa os momentos decisivos de uma vida – ou mesmo de um dia, se formos civilizados.

O fresco de Leonardo pintado no limite do Quatroccento, é uma das obras de arte mais decisivas jamais imaginadas. A sua encenação é de tal modo irrefutável e tão justa a sua coreografia, que a ceia de Jesus com os apóstolos foi assim de certeza, mesmo que na realidade não tenha sido assim.

Este carácter absoluto, ao qual pouquíssimas obras ascendem, fizeram do fresco uma espécie de palimpsesto sobre o qual se vão inscrevendo novas visões, num diálogo interminável, por vezes sereno, outras agreste, como costumam ser as conversas interessantes. Isto já não tem nada a ver com religião e às vezes nem sequer com arte, mas sim com o modo como habitamos o nosso tempo.

São algumas dessas versões, desejavelmente inesperadas, que se vão reproduzir nesta série.

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Domingo de Ramos e Páscoa: origens

por João Carvalho, em 01.04.12

 

O domingo anterior ao Domingo de Páscoa chama-se Domingo de Ramos. É quando se benzem os ramos de oliveira e se celebra a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, montado num jumento, saudado pelo povo que Lhe estendeu pelo caminho as vestes e os ramos de árvores e gritava: "Hossana ao Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor!”

O Domingo de Ramos foi instituído a partir do século IV como um modo de recordar essa entrada de Jesus de Nazaré na cidade de Jerusalém. Vários outros costumes foram associados ao Domingo de Ramos e somente na segunda metade do século VII é que o Vaticano restaurou a ordem dos Domingos da Quaresma.

Actualmente, a celebração de Ramos tem dois momentos: o primeiro, em que é feita a bênção dos Ramos, e o segundo, em que se realiza uma missa, altura em que se faz uma reflexão sobre a Morte e Ressurreição de Jesus. No final da celebração, os ramos de oliveira (ou de palmeira) são abençoados e levados pelos fiéis para ser colocados em cruz nas suas casas ou sobre alguma campa no cemitério, como sinal de compromisso com Cristo e simbolizando a força da vida e a esperança da ressurreição.

O dia da Páscoa é celebrado no primeiro domingo após a Lua Cheia que ocorre depois de 21 Março (a data do equinócio da Primavera, no hemisfério Norte, e do Outono, no hemisfério Sul), definida pela Igreja em 325 d.C., no Conselho de Nicea. Ou seja: o Domingo de Páscoa é equivalente à antiga regra de que seria o primeiro domingo após o 14.º dia do mês lunar de Nissan, no calendário judaico (existente há mais de 3300 anos), em que os meses seguem as fases da Lua.

Com esta definição, a data da Páscoa varia de ano para ano, sendo no mínimo a 22 de Março e no máximo a 25 de Abril, o que determina que a Páscoa seja uma festa móvel. Esta data, a primeira das diversas festividades da Igreja Católica, vai determinar as restantes datas, como pode observar-se:

– terça-feira de Carnaval, que ocorre 47 dias antes da Páscoa;

– quarta-feira de Cinzas, que ocorre 46 dias antes da Páscoa e dá origem ao período da Quaresma;

– Domingo de Ramos, que ocorre no domingo anterior à Páscoa;

– Pentecostes, que ocorre no sétimo domingo após a Páscoa;

– Santíssima Trindade, que ocorre no domingo seguinte ao domingo de Pentecostes;

– Corpo de Deus, que ocorre na quinta-feira imediatamente a seguir ao domingo de Pentecostes.

A sequência exacta de datas da Páscoa repete-se aproximadamente em 5.700.000 anos no nosso calendário gregoriano.

(Com a colaboração da nossa

comentadora MACarvalho)

(Imagem no topo: Domingo de Ramos,  fresco de Giotto,

século XIV, na Capela Arena, em Pádua.)

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Boa Páscoa

por Ana Vidal, em 23.04.11

 

Uma das mais tocantes canções que já ouvi (letra e música), aqui magistralmente interpretada por Yvonne Elliman (a primeira Maria Madalena, creio, do musical "Jesus Christ Superstar"). Boa Páscoa para todos os que nos visitam.

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Igual a todos nós

por Pedro Correia, em 22.04.11

 

É a frase mais dramática de toda a Bíblia. A frase que Cristo profere na cruz, quando todas as forças já lhe falecem no corpo em chaga, e brada aos céus com o último alento que lhe resta:

Eloí, Eloí, Lama sabachtami?

Este episódio da Paixão, que vem mencionado nos Evangelhos de Mateus (27,46) e Marcos (15,34), sempre me impressionou. Porque nos revela, mais que nenhum outro, a face humana de Jesus - as dúvidas, as angústias, a profunda inquietação existencial de um Jesus terreno, despido da sua condição divina, igual a todos nós. Na dor, no sofrimento, no desamparo. Este brado simboliza o desespero de múltiplas gerações de homens solitários clamando em momentos de aflição por um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica. É um grito lancinante que ecoa desde os confins dos tempos e se ramifica a todos os espaços onde chega a voz humana:

Meu Deus, Meu Deus, Porque Me abandonaste?

 

Texto reeditado 

Quadro: Gólgota, de Edvard Munch (1900)

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Queiram servir-se...

por João Carvalho, em 04.04.10

... mas tentem não abusar.

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Domingo de Páscoa: Aleluia

por João Carvalho, em 04.04.10

 

Resurreição de Cristo

Piero della Francesca

(1463)

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Sabia que... (15)

por João Carvalho, em 03.04.10

... o maior ovo de Páscoa do mundo feito em chocolate foi fabricado na Bélgica, em 2005, por seis pessoas durante oito dias? Pois é verdade. Ficou registado com oito metros de altura, seis metros de diâmetro e 1,9 toneladas.

O DELITO DE OPINIÃO fez agora um ainda maior, mas não vai registá-lo. Destinamo-lo a todos os nossos amigos e frequentadores do blogue, com votos de boa Páscoa.

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Carne

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 03.04.10

A questão que me perturbou, esta sexta-feira Santa, foi perguntar a quem encontrei se tinham comido carne. Não é importante? Não deve ser. Mas há alguma coisa importante? Curiosidades, apenas. Eu não comi. Também não sei por que mantenho este hábito. Esta noite, à conversa com uma tia que é comunista e agnóstica, ela disse-me que também não comia carne na sexta-feira Santa. Perguntei-lhe porquê? Porque a mãe, que morreu quando ela tinha 13 anos, a ensinou assim. Um forma de celebrar a mãe. Eu não sei o que celebrei, não comendo. Nem comento. Boa Páscoa para todos.

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Sábado Santo: Vigília

por João Carvalho, em 03.04.10

 

Pintura sobre a Paixão

Mestre polaco desconhecido

(c. 1480/1490)

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Igual a todos nós

por Pedro Correia, em 02.04.10

 

É a frase mais dramática de toda a Bíblia. A frase que Cristo profere na cruz, quando todas as forças já lhe falecem no corpo em chaga, e brada aos céus com o último alento que lhe resta:

Eloí, Eloí, Lama sabachtami?

Este episódio da Paixão, que vem mencionado nos Evangelhos de Mateus (27,46) e Marcos (15,34), sempre me impressionou. Porque nos revela, mais que nenhum outro, a face humana de Jesus - as dúvidas, as angústias, a profunda inquietação existencial de um Jesus terreno, despido da sua condição divina, igual a todos nós. Na dor, no sofrimento, no desamparo. Este brado simboliza o desespero de múltiplas gerações de homens solitários clamando em momentos de aflição por um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica. É um grito lancinante que ecoa desde os confins dos tempos e se ramifica a todos os espaços onde chega a voz humana:

Meu Deus, Meu Deus, Porque Me abandonaste?

 

Texto reeditado

 

Quadro: Gólgota, de Edvard Munch (1900)

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Poema a Cristo crucificado

por Pedro Correia, em 02.04.10


Tú me ofreces la vida con tu muerte
y esa vida sin Ti yo no la quiero;
porque lo que yo espero, y desespero,
es otra vida en la que pueda verte.

Tú crees en mí. Yo a Ti, para creerte,
tendría que morirme lo primero;
morir en Ti, porque si en Ti no muero
no podría encontrarme sin perderte.

Que de tanto temer que te he perdido,
al cabo, ya no sé qué estoy temiendo:
porque de Ti y de mí me siento huido.

Mas con tanto dolor, que estoy sintiendo,
por ese amor con el que me has herido,
que vivo en Ti cuando me estoy muriendo.

 

José  Bergamín

 

Quadro: O Cristo de São João da Cruz, de Salvador Dalí (1951)

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Sexta-Feira Santa: Paixão

por João Carvalho, em 02.04.10

 

Pietà

Vincent van Gogh

(1889)

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Leonardo revisitado

por Ana Vidal, em 01.04.10

O que terá de tão mágico este fresco de Leonardo Da Vinci, para fazer correr rios de tinta e inspirar tantas interpretações ?

Aceitam-se sugestões para o mistério.

E, já agora, boa Páscoa para todos.

 

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Quinta-Feira Santa: «Ceia Mística»

por João Carvalho, em 01.04.10

 

A Última Ceia (1495/98)

e esboço (em baixo)

de Leonardo da Vinci (1452–1519)

 

 

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Happy Easter

por João Carvalho, em 29.03.10

O nosso amigo e comentador regular Luís Reis Figueira fez-me portador deste cartão e dos seus votos de boa Páscoa a todos nós e aos nossos comentadores habituais.

O excesso de chocolate proposto é inaceitável e inevitável. (Onde é que eu já ouvi isto?)

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Votos de boa Páscoa para todos

por João Carvalho, em 12.04.09

 

Ressurreição de Cristo

Rafael (painel a óleo, Museu de Arte de S. Paulo, séc. XV)

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Igual a todos nós

por Pedro Correia, em 10.04.09

 

É a frase mais dramática de toda a Bíblia. A frase que Cristo profere na cruz, quando todas as forças já lhe falecem no corpo em chaga, e brada aos céus com o último alento que lhe resta:

Eloí, Eloí, Lama sabachtami?

Este episódio da Paixão, que vem mencionado nos Evangelhos de Mateus (27,46) e Marcos (15,34), sempre me impressionou. Porque nos revela, mais que nenhum outro, a face humana de Jesus - as dúvidas, as angústias, a profunda inquietação existencial de um Jesus terreno, despido da sua condição divina, igual a todos nós. Na dor, no sofrimento, no desamparo. Este brado simboliza o desespero de múltiplas gerações de homens solitários clamando em momentos de aflição por um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica. É um grito lancinante que ecoa desde os confins dos tempos e se ramifica a todos os espaços onde chega a voz humana:

Meu Deus, Meu Deus, Porque Me abandonaste?

 

Quadro: Gólgota, de Edvard Munch (1900)

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Sexta-Feira Santa

por Pedro Correia, em 10.04.09

Inédito: um Presidente da República entrou em greve de fome. Acontece na Bolívia, com o Presidente Evo Morales: é uma forma de pressão para o Parlamento de La Paz aprovar a nova lei eleitoral. Nada mais apropriado, em dia de jejum e abstinência.

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Poema a Cristo crucificado

por Pedro Correia, em 10.04.09


Tú me ofreces la vida con tu muerte
y esa vida sin Ti yo no la quiero;
porque lo que yo espero, y desespero,
es otra vida en la que pueda verte.

Tú crees en mí. Yo a Ti, para creerte,
tendría que morirme lo primero;
morir en Ti, porque si en Ti no muero
no podría encontrarme sin perderte.

Que de tanto temer que te he perdido,
al cabo, ya no sé qué estoy temiendo:
porque de Ti y de mí me siento huido.

Mas con tanto dolor, que estoy sintiendo,
por ese amor con el que me has herido,
que vivo en Ti cuando me estoy muriendo.

 

José  Bergamín

 

Quadro: O Cristo de São João da Cruz, de Salvador Dalí (1951)

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