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Capítulo 4

Forças do Mercado

 

«E agora?»

«Agora vamos fazer brinquedos iguais para todas as crianças e distribui-los», respondeu o duende barbudo, com o gorro do Pai Natal enfiado na cabeça. Alguns dos outros duendes haviam de dizer que ele podia não acreditar em hierarquias, mas tratara logo de se apoderar dos símbolos do poder cessante.

«Sem o Pai Natal e sem as renas? Como os vamos transportar? E como é que vamos pagar os materiais?»

«Como é que ele fazia?»

«Nos últimos anos, o negócio cresceu por causa dos patrocínios. Da Coca-Cola e outras multinacionais.»

«Isso não pode ser. Esses contratos têm de ser rasgados.»

«E então onde é que vamos buscar o dinheiro?»

O duende barbudo coçou a barba. Apercebeu-se de que ela tinha um nó, mas resistiu a desfazê-lo naquele momento.

«Se calhar», disse lentamente, «até nem seria má ideia aproveitarmos o dinheiro da Coca-Cola para boicotarmos a lógica capitalista da distribuição de brinquedos. Temos é que manter a morte do velho em segredo.»

Toda a gente concordou quase imediatamente que era isso mesmo que se devia fazer.

A princípio, até pareceu que ia resultar. Manteve-se secreta a morte do Pai Natal em todas as comunicações, incluindo com a Coca-Cola, e fizeram-se as encomendas aos fornecedores como de costume. Mas depois o presidente da Coca-Cola exigiu falar pessoalmente com o Pai Natal. O duende barbudo pegou no telefone e disse: «Ho-ho-ho!», ao que o presidente da Coca-Cola respondeu: «Você não é o Pai Natal. O que se passa aí?» O duende barbudo inventou uma desculpa que envolvia uma doença tropical grave («provavelmente apanhou-a na viagem do ano passado»), mas o presidente da Coca-Cola não ficou convencido e enviou uma equipa de consultores ao Pólo Norte. Sem quaisquer hesitações ou remorsos, mas com mais dificuldade do que teriam antecipado (eram criaturas surpreendentemente resilientes), os duendes mataram-nos. Dias depois, contudo, chegou outra equipa. Como a primeira, era constituída por gente ainda nova, vestindo aquele tipo de roupas que as pessoas nas latitudes mais temperadas pareciam achar ser adequada para a neve. Houve de imediato muitas perguntas básicas e tomada de apontamentos, mas depressa os duendes lhes puseram fim através do mesmo método que haviam usado dias antes. Perante os corpos caídos na neve, ligeiramente triste por não ter conseguido evitar fazer um rasgão numa parka que, embora pouco adequada ao Pólo Norte, era bonita e de boa marca, o duende barbudo resmungou: «Não é possível que continuem a enviá-los. Afinal, quantos consultores pode ter a Coca-Cola?» Mesmo nesses tempos já antigos, verificou-se que tinha ainda bastante mais. Os duendes foram-nos abatendo e finalmente eles deixaram de aparecer. (Num dado que merecia algum estudo – existissem consultores interessados em fazê-lo –, a Coca-Cola viria a apresentar os melhores resultados da sua história nos anos imediatamente seguintes a estes acontecimentos.) Estava-se então já em Dezembro e os duendes pensaram que o pior fora ultrapassado. Mas então a Coca-Cola enviou um telegrama avisando ter despachado uma carta registada a denunciar o contrato de financiamento. Na carta, que chegou dias depois no comboio Expresso Polar, acrescentava-se que, em resultado de uma alínea existente no contrato («cuja cópia se anexa»), a Coca-Cola podia indefinidamente, se assim o entendesse, usar a imagem do Pai Natal na sua publicidade. O duende barbudo ficou tão furioso que chegou a arrancar pêlos da barba, mas nada havia a fazer. Realizou-se uma última reunião geral, que decorreu aos berros, com muitos lamentos e acusações. Não havia dinheiro para pagar aos fornecedores, que ainda só haviam enviado uma pequena parte dos produtos e se recusavam a enviar o resto. Pior: também não havia dinheiro para pagar salários. Alguém mencionou um velho mito segundo o qual o Pai Natal teria um tesouro escondido algures e procedeu-se a uma busca desesperada, com muita destruição de instalações e de equipamento, mas, se o conteúdo da gaveta de uma mesinha-de-cabeceira do quarto do Pai Natal ainda suscitou risos e piadas deselegantes («Alguém tem andado a portar-se mal...», «Agora percebe-se o ‘ho-ho-ho’ que se ouvia durante a noite…», «Com este frio, as pilhas hão-de durar pouco», «Também se arranja em tamanho XS?»), nada de valor significativo foi encontrado. Nessa altura a raiva dos duendes voltou-se contra o duende barbudo, que tentou fugir. Foi apanhado, morto à paulada como se fosse uma foca e espetado num pau. Dizem que era tão resiliente que as barbas lhe continuaram a crescer durante meses.

 

E foi assim que, nesse ano, pela primeira vez, o Pai Natal não visitou as casas dos meninos bem comportados durante a noite de Natal. Muitas crianças ficaram tristes e muitos pais irritados. Tendo retirado os anúncios em que usava a imagem do Pai Natal no início de Dezembro, as vendas da Coca-Cola não foram afectadas. No ano seguinte, os pais já não confiaram no Pai Natal e adquiriram brinquedos que, durante a noite, pé ante pé, foram colocar debaixo da árvore ou pendurar na chaminé, consoante a tradição de cada sítio ou país. Naturalmente, os pais mais ricos compraram presentes mais caros. Como, de forma geral, os pais preferiram manter a ilusão das crianças, continuando a falar-lhes no Pai Natal, a Coca-Cola voltou a usar a imagem dele na publicidade.

No Pólo Norte, os vestígios da aldeia do Natal desapareceram. Os duendes espalharam-se pelo planeta. Às vezes, vê-se um ou outro por aí (na Irlanda, são confundidos com leprechauns e, em Portugal, há conhecedores desta triste história que defendem que alguns comentadores televisivos de reduzida estatura ainda são «crianças do Pólo»). Quanto ao destino de Rodolfo, não existem certezas. Mas todos os anos as televisões mostram a saída do Pai Natal da Lapónia, no seu trenó puxado por renas. Se o Pai Natal é claramente um velhote com barbas e barriga postiças, as renas são verdadeiras. E a da frente parece estar sempre a caminhar com cuidado extremo. Algumas pessoas suspeitam que tal se deve ao esforço que tem de fazer para não levantar voo. Há também quem diga que, por vezes, o nariz dela brilha como se fosse uma lâmpada. Mas outras pessoas defendem que aquele estilo de passada é a forma normal das renas caminharem e que o brilho se deve apenas a gelo na ponta do nariz e a televisores mal regulados. É possível que nem a Coca-Cola conheça a verdade.

 

FIM

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«Os pastores disseram uns aos outros: "Vamos, então, até Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer." Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino, deitado na manjedoira. E, quando os viram, começaram a espalhar o que lhes tinham dito a respeito daquele Menino. Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram os pastores.»
Lucas 2, 15-18

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Capítulo 3

Revolução

 

Foi em meados de Outubro, e o duende barbudo havia de dizer que fazia todo o sentido ter sido naquela altura. O dia amanheceu com uns amenos vinte e três graus negativos, mas soprava um vento fresco vindo de Sul (no Pólo Norte o vento vem sempre do Sul e tende a criar remoinhos) que se metia pela gola das camisolas e arrefecia o nariz e a ponta das orelhas. O Pai Natal despediu-se da Mãe Natal com um beijo e um mau pressentimento. Ela disse: «Põe o gorro e não comas porcarias.» No Pólo Norte, havia poucos legumes e vegetais, mas ela dizia sempre aquilo.

Ao chegar à fábrica, o Pai Natal descobriu que pouco mais de uma dúzia de duendes comparecera ao trabalho. Tentou parecer bem disposto, esboçou mesmo um «ho-ho-ho» que saiu pouco convincente, e, porque não valia a pena dizer-lhes para irem trabalhar (faltava muita gente essencial para operar as máquinas e, de resto, quantos brinquedos poderia fazer aquele conjunto de gatos pingados?) ficou a conversar com eles, a explicar-lhes que não podia alterar assim as regras de um momento para o outro, a pedir-lhes que o ajudassem a convencer os colegas a esperarem pelo início do ano seguinte, altura em que poderiam discutir a questão mais calmamente. A certa altura, começou a repetir-se, mas continuou a falar porque – sentiu um bocadinho de vergonha ao percebê-lo – não queria deixá-los e ficar sozinho. Por um lado, sentia-se agradecido àqueles duendes, os mais fiéis, os poucos que continuavam a confiar nele; por outro, sabia que ia pôr-se a pensar na injustiça que tudo aquilo constituía e isso só lhe faria mal.

A conversa decorria há mais de uma hora quando se ouviu o ruído da multidão a aproximar-se. O Pai Natal foi à janela e disse «Oh-oh!» (Quando dizia apenas duas vezes, era sinal de preocupação.) Lá fora havia mais de uma centena de duendes. Tinham cartazes, mas – o que era muito mais preocupante – também tinham forquilhas, paus e machados. Embora a maioria fosse do sexo masculino, viam-se igualmente várias mulheres. Aos berros, o duende barbudo exigiu que o Pai Natal fosse lá fora. O Pai Natal hesitou. Leu alguns dos cartazes: O Natal é para Todos, Pai Natal - Símbolo do Imperialismo, Brinquedos Iguais para Crianças Iguais, A Chaminé dos Ricos é Mais Larga. Abriu a porta e saiu. O duende barbudo, brandindo uma forquilha, avançou dois passos e declarou que os trabalhadores haviam decidido tomar as instalações. O Pai Natal que se afastasse ou sofreria as consequências.

O Pai Natal tentou um «Oh-oh-oh!» pausado e em voz de desafio que não lhe saiu bem. Depois acrescentou: «O que é isto? Estão a expulsar-me da minha própria empresa? Fui eu quem pôs isto tudo de pé.»

Era a resposta errada. O duende berrou: «Só conseguiu fazê-lo com a ajuda de centenas de trabalhadores a quem sempre pagou uma ninharia! E para manter um sistema injusto, que privilegia os mais ricos! Não o voltaremos a avisar: saia da frente ou afastá-lo-emos à força.»

As caras dos duendes que haviam vindo trabalhar surgiram nas janelas, o que só pareceu irritar mais o duende barbudo. «Traidores!», gritou. «Preferem ficar do lado do capital em vez de se juntarem aos vossos camaradas!» E logo a seguir, sem dar hipótese ao Pai Natal de voltar a falar: «Em frente! À carga!»

Correu para diante, um bocadinho aos tropeções porque os pés se lhe enterravam na neve, com a forquilha apontando para a frente. Durante um instante, foi o único a mover-se, mas depois todos os outros o seguiram, largando os cartazes e agitando as armas.

O Pai Natal constituía um alvo fácil. Tentou desviar-se, mas a forquilha atingiu-o no joelho esquerdo. Era uma táctica antiga dos duendes quando batalhavam seres de maiores dimensões: atingi-los nas pernas, de modo a fazê-los tombar, e depois acabar com eles. Quase resultou mais uma vez. O Pai Natal soltou um único «Oh!» abafado, rodopiou, quase caiu, mas, de forma surpreendentemente ágil para alguém tão velho e tão volumoso, conseguiu manter-se em pé e fugiu a coxear para o interior da fábrica.

O que se passou a seguir foi tão violento que mais vale não descermos a um nível de pormenor muito grande. O ataque à fábrica incluiu o arremesso de cocktails molotoff, feitos com óleo de foca, e, porque tudo isto era novidade para os duendes e alguns haviam percebido mal as instruções do duende barbudo, também de alguns pudins molotof. Com as instalações a arder, o Pai Natal e os duendes que tinham ido trabalhar foram obrigados a sair e os restantes lançaram-se a eles. O duende barbudo voltou a atacar o Pai Natal com a forquilha e desta vez espetou-lha na perna direita. O Pai Natal caiu e depois já não teve hipótese. A última coisa que disse foi um «Oh» muito baixinho e prolongado.

 

Os duendes olharam para as renas. Via-se que elas sentiam o perigo. Mantinham-se juntas, de cabeça erguida, orelhas espetadas, narinas a tremer, como que detectando o odor a sangue espalhado pela neve.

«O que lhes vamos fazer?» perguntou um dos duendes.

«Não podemos confiar nelas» disse o duende barbudo. E acrescentou: «Temos de as matar. De resto, a carne dá-nos jeito.»

Dirigiu-se para o redil. Os outros seguiram-no.

As renas pareciam atordoadas e nem tentaram voar. Limitaram-se a correr de um lado para o outro. À medida que iam sendo atingidas nas pernas por machados ou facas, caíam e eram rapidamente abatidas. Só depois de estarem todas mortas, a neve mais vermelha do que branca, é que os duendes se aperceberam de que Rodolfo não estava entre elas. Procuraram-no, mas em vão. Rodolfo, a rena preferida do Pai Natal, conseguira escapar.

Mais tarde, alguns duendes viriam a manifestar remorsos pela morte das renas, mas nenhum recusou a sua parte da carne.

 

A Mãe Natal julgava-se bondosa e, por isso, muito apreciada, mas tal não era inteiramente verdade. Bastantes duendes, especialmente do sexo feminino, achavam-na falsa, demasiado habituada aos benefícios de ser casada com o Pai Natal e nada preocupada com as dificuldades deles. Claro que apenas o diziam quando ela não estava presente, pelo que a Mãe Natal continuava a manter a ilusão. No dia da revolta, as coisas passaram-se tão depressa que ela nem chegou a perceber a verdade.

Fora às traseiras buscar um par de costelas de alce e preparava-se para as meter na frigideira previamente untada com gordura de foca quando o duende barbudo e outros dois duendes entraram sem bater à porta. A Mãe Natal achou isto muito estranho. Mas depois pensou que o Pai Natal devia ter sofrido um acidente e nem chegou a criticar o duende barbudo e os outros dois duendes pela falta de respeito. Perguntou apenas: «Aconteceu alguma coisa ao meu Nico?» (Só costumava chamar-lhe assim quando estavam sozinhos, mas naquele momento, com a preocupação, escapou-lhe.)

Ligeiramente surpreendido por ela não se ter apercebido de nada, o duende barbudo disse: «Em nome da Revolução, vimos prendê-la.»

A Mãe Natal franziu a testa. «Em nome da quê? Agora não tenho para brincadeiras, tenho que fazer o almoço.»

Voltou-se outra vez para o fogão e tratou de colocar as costeletas na frigideira. Como a gordura de alce já estava quente, começaram imediatamente a ouvir-se estalinhos.

O duende barbudo dissera aos outros que não iam magoar a Mãe Natal, apenas prendê-la num barracão até ser decidido o que fazer com ela. Dissera-o porque não queria suscitar discussões e porque lera ser esse o procedimento correcto a ter com familiares do líder deposto. Mas a verdade é que também lera que, mais tarde, eles deviam ser executados a tiro, o que o deixara com muitas dúvidas sobre a lógica do processo (infelizmente, o livro era vago neste ponto). Deixar a Mãe Natal viva significava correr o risco de que ela conseguisse manobrar os duendes que fossem entretanto perdendo o ímpeto revolucionário. E seguir o procedimento do livro criava ainda um problema logístico: por imposição da Coca-Cola, preocupada com a possibilidade de reportagens negativas, as armas de fogo verdadeiras estavam proibidas no Pólo Norte e até as de brinquedo eram fabricadas em quantidades cada vez menores.

Assim, quando a Mãe Natal lhe voltou as costas para tratar das costeletas, o duende barbudo viu uma oportunidade para acabar de imediato com o assunto. Deitou a mão ao atiçador da lenha que estava pousado ao lado do fogão (não há gás canalizado no Pólo Norte), saltou para cima de uma cadeira, e acertou com ele na cabeça da Mãe Natal. Ela ficou muito surpreendida, mas durante pouco tempo, porque ele lhe bateu mais duas vezes logo a seguir, fazendo-a cair no chão.

Então o duende barbudo saltou da cadeira e, perante o ar espantado – e até um bocadinho horrorizado  - dos outros dois duendes, disse: «Pronto. Agora a Revolução está completa. Se alguém perguntar, ela tentou fugir.»

Cheirou o ar, onde já se notava o odor das costeletas a fritar, e pensou que a Mãe Natal podia ter muitos defeitos, entre os quais uma total indiferença pelas injustiças sociais, mas que sabia cozinhar, lá isso sabia.

 

O capítulo 4 (de 4) será publicado amanhã às 11 horas e 11 minutos.

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O homem que inventou o Natal.

por Luís Menezes Leitão, em 24.12.17

 

Apesar de não apreciar filmes sobre a época natalícia, senti curiosidade em ir ver o filme "O homem que inventou o Natal", sobre o processo que levou Charles Dickens a escrever "Um conto de Natal", uma das suas obras mais conhecidas. Não dei o meu tempo por perdido. O filme é absolutamente magnífico sobre a dor criativa do autor no processo de gestação e parto da sua obra. Tal como os fantasmas do Natal, as suas personagens vão surgindo à sua procura, como bem descreveu Pirandello, e o autor vê-as ganhar vida própria, tem dificuldade em as matar, e acaba por aceitar os seus ditames. Mas, ao mesmo tempo, vai modificando as personagens, permitindo-lhes revelar dons que não apareciam na sua versão em bruto. 

 

E os actores são fabulosos. Dan Stevens é uma verdadeira revelação no papel de um Charles Dickens, cuja história pessoal de trabalhador infantil o faz compreender os dramas da "incrível miséria da classe operária", que o seu círculo londrino pretende ignorar. É por causa desse círculo londrino que cria a personagem de Scrooge, admiravelmente retratado por Christopher Plummer, uma homem intrinsecamente mau, mas que o espírito natalício acaba por conseguir modificar. E assim vemos surgir, linha a linha, folha a folha, ilustração a ilustração, a obra-prima "Um conto de Natal". Escrita em seis semanas, com a primeira edição esgotada em seis dias, mudou para sempre a forma de celebração do Natal em todo o mundo. Um filme que é uma bonita homenagem a um autor célebre e a uma obra extraordinária.

 

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Grandes contos (24): Eça

por Pedro Correia, em 23.12.17

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«O reino de Deus está dentro de nós.»

Lucas, 17, 21

 

Foi uma das mais fecundas viagens da literatura portuguesa. As sete semanas da jornada de José Maria Eça de Queirós (1845-1900) ao Egipto e à Terra Santa entre Outubro e Dezembro de 1869, a pretexto da inauguração do Canal do Suez, serviram de inspiração ao escritor até ao fim da sua vida demasiado breve. De lá o jovem jurista trouxe três cadernos de bolso e um grosso maço com tiras de papel almaço cheios de notas que jamais o abandonariam.

Teve a noção imediata do impacto que aquela digressão produziria na sua obra. E assim o confessaria anos depois, em alusão polvilhada de ironia, pela boca de uma das suas mais inconfundíveis criações literárias, Teodorico Raposo: “Esta jornada à terra do Egipto e à Palestina permanecerá sempre como a glória superior da minha carreira.”

Não se enganava. A viagem por terras do Oriente, como assinalou o seu biógrafo João Gaspar Simões, libertou-o do “metaforismo visionário dos folhetins» ao introduzi-lo nas virtudes da observação e da anotação. Proporcionando-lhe material para o que viria a ser um livro póstumo (O Egipto), um dos seus mais corrosivos e admiráveis romances (A Relíquia), diversas crónicas jornalísticas e aquele que figura entre os melhores contos escritos no nosso idioma: O Suave Milagre.

 

Com esta história (definição que Eça sempre preferiu à de conto), Jesus Cristo irrompe como inesperada personagem da literatura portuguesa.

Vasco Graça Moura não duvidou em classificá-la de “grande realização” no seu prefácio à antologia As Mais Belas Histórias Portuguesas de Natal (Quetzal, 3.ª edição, 2016). Num sentido metafórico, podemos na verdade inseri-la entre as prosas de recorte natalício, aliás com ampla tradição na nossa literatura. Mas O Suave Milagre, na brevidade das suas dez páginas, tem um alcance mais vasto: é uma pequena obra-prima sobre a inspiração da fé impregnada no recôndito da alma humana.

A acção, iniciada no pretérito mais-que-perfeito para acentuar a aura simbólica, decorre na época em que Cristo peregrinava pela Galileia, convertendo multidões à sua passagem. Aqui Eça recorre às paisagens visuais que lhe ficaram impressas na memória, transformando-as em matéria literária. Em 1869 o futuro romancista deambulara por Jerusalém, escutara missa no Santo Sepulcro, visitara o rio Jordão, o Monte das Oliveiras, as colinas de Judá, as ruínas do Templo, o Mar Morto. Numa espécie de rito iniciático que o sagraria como escritor – ali no centro da civilização do Livro. Logo a ele, que na juventude várias vezes se proclamou ateu militante.

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O Suave Milagre teve três versões.

A primeira, surgida em 1885 e denominada Um Amável Milagre, integrou-se numa colectânea intitulada Um Feixe de Penas, organizada com intuitos de beneficência por Maria Amália Vaz de Carvalho.

A segunda, mais seca e resumida, imprimiu-se em 1897 sob o título Um Milagre na edição inaugural de uma tal Revista Cor de Rosa.

No ano seguinte seria enfim divulgada a versão definitiva, na Revista Moderna, magazine editado em Paris, onde Eça desempenhava as funções de cônsul. É claramente a que tem uma escrita mais apurada, fruto do perfeccionismo constante de um prosador sempre insatisfeito em questões formais.

Em livro só sairia no volume de Contos, lançado em 1902, numa edição póstuma.

 

«Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do Lago de Tiberíade: — mas a nova dos seus milagres penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar.»

É o sugestivo parágrafo inicial do conto, redigido segundo a toada dos textos evangélicos, com profusão de topónimos e antropónimos colhidos in loco, naquela viagem tão determinante para a vida e obra do autor.

Mas nem só o estilo bebe o exemplo dos Evangelhos: o mais determinante aqui é a intenção moral. Com uma assumida dicotomia entre os ricos e poderosos, que acumulam bens materiais mas são afinal impotentes no combate aos abismos da doença e da morte, e os pobres e despojados de bens materiais mas iluminados pela luz da fé, capaz de mover montanhas.

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Entre os primeiros figura o velho Obed, «senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas — e com o coração tão cheio de orgulho como o seu celeiro de trigo». Um «vento de desolação» arrasara-lhe as terras de cultivo e os pastos para o gado, e em consequência ele «ruminava queixumes contra Deus». Ao ouvir falar do rabi que fazia milagres na Galileia, imaginou-o como um feiticeiro capaz de lhe restituir a sorte e enviou uns servos com «cinturões de oiro» no seu encalço.

Em vão.

Figura também o centurião romano Publius Septimus, comandante do forte implantado no vale da Cesareia, «homem áspero», veterano de mil guerras que «enriquecera durante a revolta da Samaria com presas e saques». Adoecera-lhe a filha e ele despachou três centúrias de soldados às suas ordens para lhe acharem aquele rabi de que todos falavam, convicto de que o favoreceria com o seu «superior feitiço».

Também em vão: ninguém encontrou Jesus.

 

Cristo aparecerá, sim, mas ao mais humilde dos humildes: um menino entrevado, residente num casebre com a pobre mãe, que mais não tinha senão umas ervas secas para lhe mitigar a fome. Ao contrário do rico proprietário e do poderoso centurião, ele nada pede, nada exige, nada reclama: diz apenas à mãe que gostaria de «ver Jesus».

Querer ver sem duvidar do invisível: eis a expressão mais pura da crença despida de artifícios ou disfarces. Este menino sem nome, arquétipo universal de uma fé capaz de mover montanhas, será recompensado. Tal como a samaritana pecadora que deu de beber a Cristo no poço de Jacob. Ou como Inger, a mulher ressuscitada na sequência de uma prece do “tontinho” Johannes Borgen numa cena crucial d’ A Palavra, de Carl Dreyer – um dos mais belos filmes da história do cinema, estreado 70 anos após a publicação deste O Suave Milagre na sua versão inicial.

 

Jesus, personagem literária, profere neste conto apenas duas palavras: “Aqui estou.” É quanto basta enquanto essência da mensagem cristã – tanto mais divina quanto mais humana, tanto mais humana quanto mais divina.

Eis Eça, o ateu incerto que ajoelhou por atávico impulso religioso no Santo Sepulcro, a reconduzir-nos ao espírito mais genuíno do cristianismo: aquele que depura o dom da fé, libertando-o do ilusório poder material, da ostentação postiça, do farisaísmo dos sepulcros caiados.

“Aqui estou.” História de Natal, sim. Deslumbrante revelação de todos os verdadeiros Natais.

 

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Anteriores contos desta série:

A Fogueira, de Jack London

Missa do Galo, de Machado de Assis

Uma Simples Flor nos Teus Cabelos Claros, de José Cardoso Pires

Circe, de Julio Cortázar

Natal, de Miguel Torga

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Capítulo 2

Contestação

 

Nessa noite, o Pai Natal percorreu devagar os menos de cem metros que separavam a fábrica de brinquedos da sua casa. Estava muito preocupado. Sentia necessidade de conversar com alguém e ponderou contornar a casa e ir ter com Rodolfo ao cercado das renas. Mas acabou por entrar, deparando com a Mãe Natal a costurar mais um gorro vermelho com uma borla branca. Todos os anos obrigava o marido a levar pelo menos duas dúzias de gorros no trenó. Dizia-lhe: «Não faz mal levares a mais, faz mal é levares a menos. Já sabes que o vento te arranca sempre alguns da cabeça e que perdes mais uns quantos a descer pelas chaminés. E também sabes que, sem a cabeça protegida, te constipas imediatamente. Não queres passar outra Passagem de Ano na cama, pois não?» Ela tinha razão, mas o Pai Natal detestava vê-la fazer os gorros porque não conseguia deixar de se sentir uma criança pequena e irresponsável, que era preciso proteger.

Sentou-se ao lado dela e contou-lhe o que sucedera. A Mão Natal ouviu-o enquanto cosia a borla à ponta do gorro, e depois disse: «Não há-de ser assim tão grave.» Espetou a agulha numa almofadinha pequena que colocou dentro da caixa de costura e pousou o gorro no braço da cadeira. «O jantar é outra vez foca.»

 

Depressa começou a ficar evidente que a situação era grave. Nos cinco meses que passara no Pólo Norte, o duende barbudo conseguira arregimentar meia dúzia de duendes para as suas ideias. Falava-lhes dos direitos do proletariado (por vezes dizia «os direitos dos mais pequenos contra os grandes», o que, considerando o tamanho dos duendes, era uma forma duplamente traiçoeira de espicaçar os ânimos), da redistribuição da riqueza, do colocar o poder ao serviço do povo. O Pai Natal julgava ter sempre tratado os duendes com respeito. Desde logo, não haveria certamente muitas empresas no mundo que dessem emprego a tantas pessoas que, mesmo não o sendo, apresentavam características parecidas com as pessoas com deficiências de crescimento. Mas o duende barbudo – um tudo-nada baixo, mesmo para os padrões dos duendes, facto que, matutava por vezes o Pai Natal, talvez não se encontrasse totalmente desligado do fervor com que defendia as suas ideias políticas – dizia-lhes que reparassem como eram explorados; como, nas semanas anteriores ao Natal, as horas extraordinárias eram numerosas e mal pagas; como as refeições eram pouco variadas e nem sequer incluíam Coca-Cola, apesar do contrato chorudo que o Pai Natal tinha com a empresa; como não dispunham de seguro de saúde nem de plano de poupança para a reforma; como certas máquinas e utensílios – martelos, serrotes, baldes, pincéis – eram comprados sem levar em atenção o tamanho dos duendes. Enfim, enchia-lhes a cabeça com ideias que, para muitos ali no Pólo Norte, constituíam inteira novidade. E resultava. À noite, em casa, os casais de duendes discutiam-nas, olhando para os filhos pequenos – mesmo muito, muito pequenos -, deitados nos berços ou brincando no chão. Perguntavam-se o que aconteceria se o Natal passasse de moda ou o Pai Natal decidisse reformar-se. No dia seguinte, vinham ter com ele e exigiam escolas e universidades para os filhos e planos de poupança reforma para eles próprios.

Mas se os meses anteriores à conversa entre o Pai Natal e o duende barbudo  haviam sido difíceis, tudo se complicou muito mais logo a seguir.

Três ou quatro dias após a conversa, o Pai Natal soube que o duende barbudo convocara uma reunião da comissão de trabalhadores e conseguira convencer a maioria dos duendes que faziam parte dela a exigir alterações na política da empresa. O Pai Natal não ficou surpreendido; o duende barbudo soubera rodear-se de gente que não lhe faria frente e na comissão de trabalhadores estavam apenas duendes facilmente influenciáveis e não muito espertos. A comissão exigiu uma reunião com o Pai Natal, mas esta até correu bem ao Pai Natal, que teve apenas de prometer estudar formas de aumentar ligeiramente («dentro dos prazos e do orçamento disponíveis») o número de brinquedos mais caros e distribuir esse acréscimo pelas crianças mais pobres. O duende barbudo não gostou nada do resultado da reunião e, nos dias seguintes, tratou de convencer toda a gente de que as promessas vagas do Pai Natal eram insuficientes. Uma semana depois, o Pai Natal recebeu um pré-aviso de greve. Ainda não se entrara no período de trabalho mais crítico do ano e o Pai Natal, depois de procurar nos livros o que era suposto dizer naquelas ocasiões (era inexperiente no assunto, uma vez que se tratava da primeira greve na história da fábrica de brinquedos do Pólo Norte), suportou a paragem com declarações de respeito pelos direitos dos trabalhadores. O problema é que a esta primeira greve seguiu-se outra, que até incluiu uma manifestação em frente à fábrica, com gritos de ordem e arremesso de pedaços de gelo e de bolas de neve (no Pólo Norte é difícil arranjar pedras). No dia seguinte, alguém fez explodir um pequeno armazém cheio de carros de bombeiros que haviam sobrado do ano anterior. O Pai Natal estava convencido de que o bombista fora o duende barbudo, mas não tinha provas. As opiniões extremaram-se e o Pai Natal tentou aproveitar as reticências de alguns duendes, que não aprovavam o uso da violência, mesmo que ela fosse apenas dirigida contra sobras de inventário. Não resultou. O duende barbudo foi-os convencendo de que o Pai Natal estava a ser hipócrita e quase todos acabaram do lado dele.

E depois veio o dia fatídico.

 

O capítulo 3 (de 4) será publicado amanhã às 10 horas e 32 minutos.

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Capítulo 1

Injustiça

 

Notícias e tendências demoravam a chegar ao Pólo Norte, mas o Pai Natal sabia que podia vir a ter problemas. Frequentemente dizia à Mãe Natal: «A revolução bolchevique está a mudar muitas coisas. Mais tarde ou mais cedo, essas novas ideias vão chegar cá.» A Mãe Natal olhava-o distraída e, em tom de quem estava mais interessada em decidir o que fazer para o jantar, perguntava: «Por que é que haviam de se meter contigo? Forneces alegria a crianças espalhadas por quase todo o mundo. Quem é que pode levar isso a mal?» Ao mesmo tempo, abria a caixa da costura ou punha uma cafeteira ao lume. O Pai Natal dominava uma ligeira irritação, pensava que mais valia falar com Rodolfo do que com a mulher (o que por vezes fazia), e remetia-se a um silêncio preocupado. Quando tudo aconteceu, só ficou admirado por ter demorado tanto tempo.

Como seria de esperar, foi o duende barbudo admitido cinco meses antes e que rapidamente exigira a formação de uma comissão de trabalhadores quem primeiro se apercebeu do facto ao examinar os planos de produção. Bateu à porta do gabinete do Pai Natal e perguntou-lhe sem rodeios: «Por que é que as crianças ricas recebem brinquedos mais caros? Não deviam ser todos do mesmo preço? Ou até ao contrário: os brinquedos melhores para as crianças pobres, que as ricas já têm suficientes?»

Os olhos do Pai Natal, sentado atrás da grande secretária onde, por esta altura do ano, se empilhavam sempre enormes pilhas de papel com nomes, moradas, relatórios de comportamento e listas de brinquedos disponíveis, conseguiam ainda assim estar a um nível ligeiramente mais elevado do que os do duende barbudo, que permanecia em pé entre a secretária e a porta. Devido aos montes de papel, o Pai Natal quase nem lhe via a barba, parecida com a dele próprio mas totalmente preta. No entanto, via-lhe os olhos, e estes mostravam uma firmeza tão grande que o Pai Natal se sentiu de repente muito pequenino – mais pequeno do que o duende barbudo. Consciente de que chegara o momento, usou a resposta preparada durante anos: «Tentamos dar às crianças os brinquedos que elas pedem. É esse o nosso compromisso e é isso que faz a felicidade delas. É verdade que as crianças ricas pedem coisas mais caras, mas deveríamos desiludi-las? São apenas crianças.»

O Pai Natal testara aquele argumento na Mãe Natal várias vezes e ela sempre parecera achá-lo bastante sólido. Mais importante: experimentara-o também em Rodolfo, cujo nariz se iluminara por um instante, sinal inequívoco de admiração ou de alegria (ou de constipação, mas o Pai Natal escolhera sempre momentos em que Rodolfo andava de boa saúde). O duende barbudo, todavia, não pareceu impressionado (o Pai Natal sabia que não o devia ter contratado; sentira-o imediatamente após tê-lo feito) e disse que aquele não era um bom argumento; que, evidentemente, as crianças mais pobres pediam coisas mais baratas porque era aquilo que conheciam e que imaginavam ao seu alcance; que, ao fazer a vontade às crianças mais ricas, estas habituavam-se a ter todos os seus desejos satisfeitos e a conseguirem sempre tudo sem esforço, o que as transformava em adultos sem respeito pelos outros; que, sendo o Natal uma época do ano em que se procura transmitir um imagem de respeito, igualdade e paz, e procurando o Pai Natal transformar-se no símbolo desses ideais – aqui o duende acrescentou qualquer coisa sobre «o que, pelo menos numa fase intermédia, talvez seja útil, porque sempre retira protagonismo à Igreja» –, devia procurar corrigir as injustiças em vez de as reforçar; finalmente, que os tempos haviam mudado e que já era altura de essas mudanças chegarem ao Pólo Norte.

Enquanto o duende barbudo falava (o que sucedeu durante bastante tempo, embora tudo o que ele disse se encontre no parágrafo anterior), o Pai Natal procurava descobrir um modo de lhe dizer que não iria alterar regras que vinham funcionando tão bem há já dezenas de anos só para satisfazer os desejos revolucionários de um duende que – o Pai Natal já o percebera – gostava mais de falar do que de trabalhar. Incapaz de arranjar um argumento que fosse simultaneamente firme e amigável, permaneceu calado, olhando o duende barbudo nos olhos. Este acabou por ser forçado a perguntar: «Então? Vai alterar as regras este ano?»

«Não posso. É demasiado tarde.»

«Não é demasiado tarde. Os brinquedos ainda estão por fabricar.»

«Mas as encomendas de material têm de seguir nos próximos dias. Não há tempo para as alterar.»

«Não é preciso alterá-las. Quando muito, apenas corrigir quantidades. E depois refazer as listas de entrega, fazendo corresponder os brinquedos mais caros às crianças mais pobres.»

«Como se isso fosse fácil… Os brinquedos mais caros demoram mais tempo a produzir, até ao Natal já não há tempo. E também são mais caros. Não temos orçamento para alterar assim as quantidades.»

O duende barbudo ficou um instante em silêncio. Depois apontou para um cartaz na parede.

«Isso são tudo desculpas. O que você não quer é chatear a Coca-Cola. A sua fama disparou quando eles o começaram a apoiar. Quanto é que lhe pagam por ano?»

O Pai Natal sabia que estava em terreno cada vez mais perigoso. Para gente como o duende barbudo, a Coca-Cola era um símbolo de tudo o que ia mal no mundo.

«Isso não vem ao caso. A Coca-Cola é o nosso principal financiador, sim, e tem o direito de usar a nossa imagem. Mas isso não quer dizer que mandem em nós.»

Não era inteiramente verdade. O contrato estabelecia regras; qualquer alteração nas mesmas tinha de ser discutida entre ambas as partes e a Coca-Cola dispunha de um número incrivelmente elevado de advogados, que arranjavam sempre imensos problemas.

O duende barbudo disse: «Não acredito em si. Mas também não interessa. Vou convocar uma reunião da comissão de trabalhadores. E pode ter a certeza de que se tomarão medidas para alterar esta injustiça.»

Depois virou costas e saiu do gabinete. Foi o princípio do fim.

 

O capítulo 2 (de 4) será publicado amanhã às 10 horas e 56 minutos.

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Prenda de Natal

por jpt, em 12.12.17

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Estamos já na época das prendas. Aqui fica uma sugestão: tem(ns) um parente/amigo que é algo dado à leitura? Dê(á)-lhe o "Almas Mortas" de Gógol. É uma delícia. E uma obra-prima. Características que nem sempre vão juntas, que há obras-primas que se vivem com labor. Mas esta nada disso. E isso é importante nestas coisas das ofertas. Entenda-se, o tal parente/amigo a ofertar não precisa de ser um "grande leitor". Pois a prosa é fabulosa, o texto jovial, e um ir até ao osso da "sociedade russa de XIX" (entenda-se, da humanidade). Um tipo (re)lê exaltado de prazer. E um (quase) constante sorriso na cara, que é o da felicidade na leitura.

A tradução é de Nina e Filipe Guerra (ele um ex-bloguista e também facebuquista). E esta leva de livros é uma reedição (ou reimpressão, nunca sei como definir). O preço em livraria é de 20 euros (o que para a maioria de nós implica que o ofertado tem que ser bastante próximo). Mas o texto vale mais do que qualquer garrafa de uísque ou aguardente ou pacote de chocolate ou perfume, garanto. Comprado na internet vai a 15 euros - e sobrarão os 5 euros para as azevias.

Nota: atenção aos mais relapsos à poesia. Se o título na capa diz "Poema" o texto é em prosa, que isso não vos afaste da compra/leitura. (Eu, vil censor, informei as senhoras livreiras da Bertrand que talvez fosse melhor, comercialmente falando, tirar o livro da estante "Poesia" e deixá-lo no de "Literatura Estrangeira" - não vou comentar sobre estas etiquetas. O que elas se aprestaram a fazer. Não estou certo de que o escritor aplaudisse o acto. Mas espero que o editor tenha apreciado. Ou, pelo menos, o seu contabilista).

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Ladaínha dos Póstumos Natais

por Isabel Mouzinho, em 25.12.16

Há-de vir um Natal e será o primeiro 

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

 

                                                David Mourão-Ferreira

 

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terapia e natal

por Patrícia Reis, em 25.12.16

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Natal: uma memória cubana

por Pedro Correia, em 25.12.16

«A finales de la década de 1960 la celebración de las Navidades fue postergada o eliminada en Cuba, no solo por ateísmo cientifico militante sino además porque, en lugar de empeñarse en celebraciones y libaciones, se decidió que la gente debía dedicarse durante aquellas jornadas a los cortes de caña en los dias en que más altos rendimientos de azúcar podian conseguirse. Por si fuera poco, junto a los simbolos navideños por esos tiempos también habían desaparecido los turrones y la cidra española que, unidos a lo cerdo asado, los frijoles negros y a la yuca con mojo de naranjas agrias (no totalmente desaparecidos pero también esquivos) conformaban los elementos más característicos para alimentar la celebración.»

Leonardo Padura (ontem, no El Mundo)

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«Os pastores disseram uns aos outros: "Vamos, então, até Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer." Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino, deitado na manjedoira. E, quando os viram, começaram a espalhar o que lhes tinham dito a respeito daquele Menino. Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram os pastores.»
 
São Lucas, 2: 15-18

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Foi na véspera de Natal de 1914, em Ypres, na Bélgica. À noite, nas linhas inglesas, alguém começou a cantar o Adeste Fidelis, o lado alemão fez coro. Um inglês gritou que ia sair da trincheira desarmado, um alemão fez o mesmo. Outros seguiram-nos. Trocaram presentes. Jogaram futebol. A trégua informal terá abrangido 100 mil soldados inimigos. Aconteceu.

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Os inimigos do Natal

por Pedro Correia, em 24.12.16

Estimativas dos principais serviços de informações europeus apontam para a existência de 22 mil jiadistas que se infiltraram nas correntes migratórias e se movimentam hoje com desenvoltura no espaço Schengen, onde Portugal se insere. Um deles foi o tunisino que assassinou 12 pessoas em Berlim e atravessou sem o menor embaraço dois países antes de chegar a Milão, onde se envolveu num tiroteio com a polícia que lhe custou a vida.

Enquanto celebramos o espírito natalício e esta bonomia de costumes infelizmente odiada por grande parte da população do planeta, não tenhamos ilusões: os inimigos do Natal estão no meio de nós. Entrincheirados na sombra, fanáticos sequiosos de sangue, prontos a matar e a morrer.

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Feliz Natal!

por Bandeira, em 24.12.16

Não é fácil ser-se o presumível pai de oito crianças (eram sete mas uma não resistiu) por alturas do Natal, sobretudo quando se está desempregado numa firma que paga tão pouco quanto a minha – uma startup ostentando digníssima inscrição na porta, no espaço livre entre as citações judiciais, com os dizeres “Emprendendo desde 2017”. Por várias vezes chamei a atenção para a falta de um “e” no enunciado; do economato respondem invariavelmente que a pouca tinta que circula ainda nas veias da velha impressora está reservada para coisas verdadeiramente importantes, como fotos de gatinhos tiradas do Instagram, bilhetes para a ópera (excepto o Don Carlos) e notas de banco, não forçosamente por esta ordem.

 

Procurei uma lojinha de brinquedos no centro comercial Pandemónio e solicitei à menina atrás do balcão – onde se escondia, soube-o depois, por não ter “nada para vestir” – que me aconselhasse uma prenda para oito crianças entre os três meses e os nove anos de idade; igual para todas, claro, porque eu jamais aceitaria favorecimentos à vista de toda a gente. Conversámos um pouco sobre como era engraçado que ela, com um doutoramento em Astrofísica e duas idas à Lua no currículo, tivesse acabado numa loja de brinquedos. “Todos os anos tenho dado o mesmo aos miúdos”, disse-lhe então (não sem dificuldade porquanto a menina, gemendo, batia com a máquina Multibanco na cabeça), “Licor Beirão para os mais novos e vodka para os mais velhos, para eles misturarem com o que quiserem e dessa forma incentivar o seu espírito de iniciativa; mas este ano faltam-me os meios e, além disso, queria variar um bocadinho”. “Cigarros são uma boa alternativa”, respondeu a astrofísica entre soluços, “os mais velhos de certeza que já fumam e os mais novos gostam sempre de ver os bonecos”.

 

É preciso algum cuidado com os conselhos de pessoas que vivem na Lua. Ainda assim, comprei uma garrafa de CRF e um pacote de Definitivos que encontrei num alfarrabista. Tenciono telefonar à minha mulher e convidá-la a aparecer, na condição de não trazer o Gelsão com ela. A família toda reunida, outra vez. Vai ser uma festa.

 

Rufino

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Obrigado, Rodolfo

por Fernando Sousa, em 23.12.16

e portanto e porque acho injusto que as pessoas não saibam nem quantas são nem como se chamam as renas do Pai Natal, o que além do mais é pouco cristão, ou para me limpar de um dia ter comido, sem saber, num hotel de Helsínquia, uma deliciosa carne rosada que só no fim me disseram de que era, ou em homenagem aos deputados que entretanto e por fim reconheceram que os animais não são coisas, deixo aqui, um a um, os nomes das incansáveis companheiras do bom velho: Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão, Relâmpago e, claro, Rudolfo, a do nariz vermelho e brilhante, capaz de conduzir o trenó e as amigas por entre os mais grossos nevoeiros e as mais violentas tempestades, aparcar sem problemas no estacionamento das grandes superfícies e pairar ao milímetro sobre as nossas chaminés. Nove portanto, ao todo, e não oito apenas como eram até ao século XIX, sem o Rodolfo. Que fique o registo e o reconhecimento, no meu caso por me terem feito companhia a vida toda, colorido e aquecido a imaginação e tornado a realidade menos cinzenta, ácida, fria e geométrica. Obrigado, renas, bom Natal a todos.

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O nascimento de Jesus Cristo e a política

por Alexandre Guerra, em 23.12.16

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The Adoration of the Magi  
ANTONIO VIVARINI (Murano, 1440-1480) 
Gemäldegalerie, Berlin

 

O Natal é vivido pela maioria das pessoas como um acontecimento "familiar", no qual se celebra o nascimento do Rei dos Judeus (embora nas actuais sociedades pós-modernas já muito poucos façam essa associação). Nesta lógica de pensamento, a época natalícia é sobretudo um fenómeno social com um brutal impacto económico. No entanto, e remontando às origens do Natal, na pequena cidade de Belém, vislumbrava-se algo mais do que a componente familiar/social. Efectivamente, não foi preciso muito tempo para que o nascimento de Jesus Cristo fosse assumindo um carácter político e para que lhe tivesse sido atribuído uma dimensão para lá da manifestação familiar/social.

 

O Império Romano acabaria por constatar essa tendência nos seus terrítórios, ao ver transformado um fenómeno social e religioso numa questão política. A fundação da Igreja de Roma por São Pedro, o Pescador, e o respectivo "aval" do Império acabou por ser uma resposta política a um problema que extravasava as esferas social e religiosa. Porém, esta componente política raramente é associada ao nascimento de Jesus Cristo e ao Natal na altura das pessoas se reunirem na noite da Consoada. Aqui, sobressai sempre o espírito familiar daquela noite de Belém. Mas, repare-se que mesmo nesse ambiente surgiu o primeiro sinal político, com a presença de emissários (Três Reis Magos) que, vindos do Próximo Oriente, deslocaram-se à Cisjordânia para ver o recém nascido "rei" dos judeus. Aliás, este acontecimento gerou de imediato preocupações políticas na corte do Rei Herodes, sentindo-se este ameaçado com o nascimento de Jesus Cristo.

 

Tal como se veio a verificar mais tarde, as preocupações de Herodes adensaram-se, tendo o nascimento de Jesus Cristo transformado-se numa problemática de poder para a corte hebraica, originando as mais vis e perversas tácticas de propaganda e contra-informação, de forma a fragilizar o novo "Rei dos Judeus" perante o Império e mais tarde face ao Sinédrio. Apesar disto, a verdade é que o Natal é unicamente associado a uma noite idílica de criação, esquecendo-se quase sempre os ventos turbulentos que tal acto trouxe consigo. Por isso, seria um exercício interessante e curioso se as famílias aproveitassem esta época festiva para se reunirem à mesa não apenas para comer e trocar oferendas, mas para discutir e debater a sociedade que os rodeia, os seus problemas e desafios. Estariam a celebrar verdadeiramente o nascimento de Jesus Cristo.

 

Publicado originalmente no Diplomata a 23 de Dezembro de 2015.

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Porque é Natal

por Francisca Prieto, em 22.12.16

Nos últimos dias tenho querido escrever sobre o Natal, mas confesso que com a brutalidade que vai por este mundo fora, fico com a sensação de que só consigo falar de banalidades.
Quando sabemos de gente que é assassinada à luz do dia, de famílias que levam com bombas em cima da cabeça e autocarros que trespassam multidões, parece que qualquer menção a rabanadas é uma falta de respeito.
Não me interpretem mal. Gosto de ouro, de incenso e de mirra. Mas parece que entre o avanço da idade e a desgraça que vai no mundo, estas coisas vão tendo cada vez menos importância.
Fica-nos um aperto por quem passa mal. Mas talvez esse aperto nos faça voltar ao essencial. À reflexão de como podemos ser melhores no ano que se avizinha, à mensagem que queremos passar aos nossos filhos sobre a importância dos gestos de amor, à escolha de ofertas que tenham a nossa marca e que despertem uma alegria no coração de quem as recebe.
Há vários anos que, em casa dos meus pais, cada pessoa só recebe um presente. Com a pelintrice que foi assolando toda a família, o orçamento da oferenda já vai num louco máximo de 10 euros. Mas é incrível como todos os anos temos sido capazes de puxar pela criatividade de maneira a continuar a fazer da manhã de dia 25 uma animação. Há sempre alguém que descobre uma foto hilariante, ou um pimenteiro gigante para quem não passa sem temperos fortes, ou um garrafão de nutella para o guloso máximo, ou um disco da Tonicha, ou seja lá o que for. Na verdade, não é o ouro que nos une (felizmente, que senão era uma tragédia), é o sentido de humor e a cumplicidade que temos uns com os outros.
Que este Natal seja mais um tempo para trocarmos gargalhadas, que é, afinal, a nossa dádiva de afecto. E que em 2017 tenhamos todos energia para contribuir para um mundo mais sereno.

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Aos meus amigos neste Natal

por Helena Sacadura Cabral, em 21.12.16

Contei meus anos

E descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente

Do que já vivi até agora

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

As primeiras ele chupou displicente,

mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,

Cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis,

para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias

que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas

que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigam pelo

Majestoso cargo de secretário geral do coral.

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,

Minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,

Muito humana; que sabe rir de seus tropeços,

não se encanta com triunfos,

não se considera eleita antes da hora,

não foge da sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

"AMIGOS NÃO SE DESPEDEM,MARCAM UM NOVO ENCONTRO"

(Poema de Mario de Andrade)

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 10.12.16

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Livro dez: Macbeth, de William Shakespeare

Tradução de José Miguel Silva

Edição Relógio d' Água, 2016

149 páginas

 

Um clássico, ensinou-nos Italo Calvino, é uma obra literária que nunca cessa de dizer aquilo que tem a dizer. Felizmente ainda existem entre nós editoras que apostam nos autores clássicos – aqueles que conseguiram seduzir sucessivas gerações de leitores em diversas latitudes e continuam a possuir o dom de nos elevar acima da mediania.

Um dos mais recentes clássicos reeditados entre nós, em irrepreensível tradução de José Miguel Silva, é este Macbeth – que integra o quarteto de tragédias capitais nascidas do génio de William Shakespeare (1564-1616), em conjunto com Hamlet, Otelo e O Rei Lear. Ascensão e queda de um tirano assombrado pelas suas vítimas, este drama em cinco actos é uma viagem à face mais sombria da política, simbolizada no usurpador do trono escocês e da sua mulher, Lady Macbeth, uma das maiores vilãs da história da literatura, que implora desta forma aos espíritos malignos: “Despojai-me do meu sexo e cumulai-me / de terrível crueldade. Que meu sangue / se adense, impedindo a passagem ao remorso; / que nenhuma compaixão possa abalar / os meus ímpios desígnios, interpondo-se / entre eles e os seus efeitos.”

Todas as paixões andam à solta neste magnífico texto teatral em que Shakespeare leva mais longe do que em qualquer outro a sua indisfarçável “extravagância da imaginação”, como acentuou o crítico britânico William Hazlitt (1878-1830) num ensaio incluído em posfácio desta edição. A Relógio d’ Água, recorde-se, já deu à estampa Henrique IV, Ricardo III, Hamlet, Romeu e Julieta e O Mercador de Veneza, entre outros títulos do cânone shakesperiano, revisitado com justificado interesse neste ano em que se assinala o quarto centenário da morte do escritor.

Para George Steiner, Shakespeare era “um ser cujos poderes criativos, num certo e determinado sentido, rivalizavam com os da natureza e da divindade”. Na mesma linha, Harold Bloom enaltece-o como “único rival possível para a Bíblia em termos de poder literário”. Atributos bem patentes neste Macbeth, cheio de solilóquios que ilustram o enigma da condição humana no ilusório palco da vida, tantas vezes percorrido por torrentes de “som e fúria” em direcção ao nada.

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 09.12.16
 

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Livro nove: LX80, de Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes

Edição Dom Quixote, 2016

272 páginas

 

Por mais que as mensagens em voga nos instiguem a “viver o presente”, seja lá o que isso for, o revivalismo é uma fonte inesgotável de descobertas capazes de somar o conhecimento ao prazer quando transpostas para livro. É o caso deste volume, que merece ser cumprimentado pela escrita ágil e elegante, aliada ao notório bom-gosto gráfico. LX80 insere-se numa série, que já nos conduziu às duas décadas anteriores, sempre centradas na capital.

Está paginado nuns casos em forma de revista e noutros como caderneta de cromos, percorrendo toda a década que entre nós começou com a comoção nacional gerada pela trágica morte do primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro e terminou com Marcelo Rebelo de Sousa a divertir o País com um mergulho no Tejo que animou a campanha autárquica de 1989 sem no entanto contribuir para o seu sucesso nas urnas em Lisboa.

Foi uma década de nomes inconfundíveis – e em certos casos irrepetíveis. A década de António Variações, Ana Salazar, Kruz Abecasis, Tomás Taveira, José Maria Tallón, Carlos Paião, Fernando Chalana, Paulo Futre, Pedro Caldeira, Dona Branca. A década do Frágil e do incêndio do Chiado. A década das Amoreiras (que nasceram) e do Monumental (que morreu).

Também a década do Pão com Manteiga e do Independente. A década do Kilas e do Serafim Saudade. A década das rádios-pirata e do Bloco Central. A década da Vila Faia e dos Heróis do Mar. A década da televisão a cores e da banca privada. A década dos aquaparques e do bebé-proveta. A década de muitas e variadas e por vezes desvairadas siglas: AD, UHF, PRP, TSF, FMI, CEE.

Foi ainda a década da vitória do Sporting por 7-1 em Alvalade, frente ao Benfica – a diferença mais desnivelada de sempre entre os dois históricos rivais do futebol português.

Uma década inesquecível, aqui revivida por Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes. Para alguns de nós parece ter sido ontem, para outros terá sido há uma eternidade. O livro, confesso, deixou-me nostálgico: nada a objectar, tudo a favor.

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 08.12.16

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Livro oito: O Segredo dos Seus Olhos, de Eduardo Sacheri

Tradução de Vasco Gato

Edição Alfaguara, 2016

309 páginas

 

Já conhecíamos a  belíssima longa-metragem de Juan José Campanella – galardoada com o Óscar de 2009 para melhor filme não falado em inglês. Faltava a obra literária que serviu de ponto de partida para a película: O Segredo dos Seus Olhos, belo romance de Eduardo Sacheri, um professor de História nascido em 1967 na capital argentina, autor de seis livros de ficção.

É um misto de thriller com melodrama, tendo em fundo um fio de intriga política, percorrido por alusões à implacável ditadura militar argentina das décadas de 70 e 80. Anos de chumbo, em que o valor da vida humana caiu a pique e o futuro permanecia envolto em nevoeiro.

Um crime horroroso cometido em Buenos Aires vai marcar algumas vidas para sempre. Incluindo a de Benjamín Chaparro, vice-secretário num tribunal de instrução e fracassado aspirante a escritor. No decurso de longas horas de vigília, ele acaba por solucionar esse crime que permaneceu demasiados anos enterrado sem estar encerrado. Um crime que funciona como sugestiva alegoria de uma sociedade irremediavelmente doente – sob o signo do silêncio, do sofrimento e da solidão.

Chaparro, como tantos outros, voga desamparado na espuma de um quotidiano sem esperança: num mundo concentracionário, corrompido pelo vírus totalitário, o mínimo descuido pode traçar a fronteira entre a vida e a morte. E no entanto este modesto funcionário público insiste em ir ao encontro da justiça e da verdade, mesmo que isso faça estilhaçar os últimos vestígios que nele subsistem de crença na natureza humana.

“Não vemos a dor. Não podemos vê-la, simplesmente porque a dor não se vê em circunstância alguma. Podem ser vistos, quando muito, alguns dos seus mínimos sinais exteriores. Mas esses sinais sempre me pareceram mais máscaras que sintomas. Como poderá expressar o homem a angústia atroz da sua alma? Chorando a jorros e soltando alaridos? Balbuciando umas palavras desconexas? Gemendo? Vertendo umas quantas lágrimas? Eu sentia que todas essas demonstrações possíveis de dor eram apenas capazes de insultar essa dor, menosprezá-la, profaná-la, colocá-la à altura de demonstrações gratuitas.”

Palavras que ficam connosco muito depois de as lermos. Dificilmente haverá maior elogio a um livro, seja ele qual for.

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 07.12.16

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Livro sete: O Homem Fatal, de Nelson Rodrigues

Edição Tinta da China, 2016

368 páginas

 

Foi um dos maiores prosadores da língua portuguesa do século XX. E um dos mais insuportáveis cronistas da imprensa brasileira para os seus alvos de estimação, que dardejava com impiedoso sarcasmo e um perfeito domínio estilístico.

Um desses alvos era D. Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife. “D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”, dizia dele Nelson Rodrigues (1912-80), pré-moderno assumido, alérgico aos “padres de passeata” e à esquerda em geral. “O Reacionário”, assim se autodefinia – de tal maneira que deu este nome a um dos seus volumes de crónicas, surgido em 1977.

Desse e de outros dois – O Óbvio Ululante (1968) e A Cabra Vadia (1970) – Pedro Mexia recolheu 80 crónicas, a que introduziu prefácio e reuniu num livro intitulado O Homem Fatal. Um dos acontecimentos editoriais do ano em Portugal: era chocante a ausência no mercado nacional das obras deste dramaturgo, romancista e jornalista que mantém uma legião de leitores fiéis em ambas as margens do Atlântico.

Oriundo de uma família de repórteres tarimbeiros, que gostava de equiparar aos “remadores de Ben-Hur”, Nelson Rodrigues começou a trabalhar em jornais com apenas 13 anos. Fez o tirocínio da profissão como redactor desportivo e criminal: cultivava hipérboles e costumava dizer que manchete sem ponto de exclamação era “jornalismo castrado”.

Publicadas durante anos na última página do diário O Globo, as suas confissões bastavam para assegurar a popularidade do periódico, polarizando opiniões: ou se amava ou se detestava este admirador de Eça de Queirós que enriqueceu o léxico comum do Brasil com expressões da sua autoria. Exemplos: “óbvio ululante”, “cabra vadia", “calor de derreter catedrais”, “mau tempo de quinto ato do Rigoletto”. Sem esquecer a "grã-fina com narinas de cadáver”, que no estádio do Maracanã perguntava: "Quem é a bola?"

Poucos como ele cultivavam com tanto requinte a arte do aforismo, que ia repetindo de crónica em crónica sem recear vencer o leitor pelo cansaço. Alguns ascenderam à glória do provérbio: “Toda a unanimidade é burra”; “todo canalha é magro”; “invejo a burrice porque é eterna”; “a televisão matou a janela”; “o dinheiro compra tudo – até amor verdadeiro”, “a companhia de um paulista é a pior forma de solidão”.

Frase imortais deste pernambucano de nascimento mas carioca adoptivo, um sedentário que só viajava nas letras, anacronismo vivo que supera incólume todos os testes do tempo.

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 06.12.16

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Livro seis: Cartas por um Sonho, de Ángeles Doñate

Tradução de São Amaral

Edição Suma de Letras, 2016

372 páginas

 

A morte do romance, tal como prenunciaram os cultores do nouveau roman no seu labiríntico processo de “desconstrução da narrativa ficcional”, era manifestamente exagerada. Meio século depois, o romance como género literário está bem e recomenda-se – e contagia até outros formatos, incluindo as séries televisivas de qualidade, onde as regras da narrativa clássica são assumidas sem sombra de constrangimento.

As modas literárias nascem e morrem, mas não se apaga na espécie humana o gosto de contar uma história – tenha os saltos cronológicos que tiver, recorra a sofisticados jogos metafóricos ou a vocabulário da rua, utilize a primeira pessoa do singular ou o plural majestático, seja narrada de trás para diante ou da frente para trás.

Prender a atenção de um vasto número de leitores com uma narrativa de alcance universal é um dom revelado pela escritora catalã Ángeles Doñate neste seu romance de estreia a solo, surgido originalmente em 2015, sob o título El invierno que tomamos cartas en el asunto. Cultora da ficção epistolar, de que dá tão recomendáveis provas nesta obra, a autora constrói um enredo para todas as idades, capaz de dar um bom filme em qualquer idioma.

Eis o ponto de partida: para que serve um carteiro num mundo onde já ninguém redige cartas à moda antiga e a tecnologia digital condenou à extinção o gosto pela escrita manual? Sara, a carteira de uma aldeia de montanha chamada Porvenir, prepara-se para ser transferida da povoação: o posto do correio inaugurado há mais de um século será extinto por falta de utentes. Nasce aí um surpreendente movimento de solidariedade, que mobilizará as pessoas mais diversas – e, sem nenhuma delas suspeitar, várias vidas mudarão dessa forma. Porque “quando alguém escreve uma carta, entrega parte do seu tempo e da sua alma”.

Êxito editorial em Espanha, já traduzida para vários países, esta obra confirma que o romance atravessa um período de inegável fulgor, contrariando as velhas previsões dos seus supostos coveiros. Assim continuará. Como se o tempo ficasse suspenso e todos os sonhos se tornassem possíveis face ao sortilégio da letra impressa.

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 05.12.16

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Livro cinco: A Vida e a Morte dos Nossos Bancos, de Helena Garrido

Edição Contraponto, 2016

215 páginas

 

Este livro cumpre uma missão de serviço público. Num tom sereno e reflectido mas sempre acutilante, a jornalista Helena Garrido descreve a sucessão de lamentáveis episódios que fizeram tremer o sistema financeiro português, levando à queda do BPN, do BPP, do BES e do Banif, à descapitalização da Caixa Geral de Depósitos e ao esforço acrescido dos contribuintes, através dos impostos, para evitar que o rombo fosse ainda maior. “As responsabilidades financeiras assumidas pelo Estado nos três casos de morte bancária somam 14 mil milhões de euros, quase tanto quanto o Estado recebeu em IVA no ano de 2015”, observa a autora.

Por incompetência, incúria, negligência ou dolo, a banca nacional caucionou durante duas décadas os negócios mais ruinosos – na construção civil, na promoção imobiliária, em empréstimos milionários para aquisição de terrenos, em insustentáveis parcerias público-privadas, nos “grandes projectos estratégicos” que por vezes nem chegaram a sair do papel mas contavam com generosos financiamentos, afinal a fundo perdido. E a banca, por sua vez, alimentava-se de uma ilusória espiral de crédito que durou até o Banco Central Europeu fechar a torneira.

Foram os anos da “grande farra”, como os classifica a autora, ex-directora do Negócios e comentadora assídua de temas económicos em jornais e canais televisivos. Os banqueiros traíram a confiança dos depositantes para praticarem actos inversos ao que deu fama ao Rei Midas, fazendo volatilizar o dinheiro. Em sete anos, desapareceu 20% do sistema bancário português. Só um gestor, José Oliveira e Costa, esteve algum tempo preso. Mais ninguém.

Os exemplos multiplicam-se. Eis um dos mais chocantes: o BES emprestou três mil milhões de euros à sua filial angolana, o BESA, mas quase toda a carteira de crédito sumiu-se: “está perdida, alguém ficou o com o dinheiro, não há a quem reclamar.” No auge da euforia dos projectos turísticos, o próprio Estado, através da Estamo, “comprou a prisão de Pinheiro da Cruz para fazer ali um empreendimento com campo de golfe” que nunca avançou.

A Vida e a Morte dos Nossos Bancos lê-se de um fôlego e com crescente indignação perante este ruinoso panorama, que beneficiou de estreitas cumplicidades do poder político e da chocante complacência do Banco de Portugal, que sob diferentes administrações agiu sempre tarde e quase sempre mal. E nós a pagarmos tudo.

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 04.12.16

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Livro quatro: Cinco Homens que Abalaram a Europa, de Jaime Nogueira Pinto

Edição A Esfera dos Livros, 2016

588 páginas

 

Parecem já distantes os tempos em que os historiadores desvalorizavam a importância do rasgo individual no estudo da trajectória humana. Eram os tempos da história “estrutural”, cheia de gráficos e dados estatísticos. Tempos em que o colectivo se sobrepunha a tudo o resto e as biografias pareciam ter passado de moda.

Nada mais ilusório. Uma grande parte dos acontecimentos históricos é inexplicável sem o estudo atento e pormenorizado dos seus protagonistas. Analisar as estruturas económicas e demográficas de países e regiões, despojando-as dos efeitos potenciadores dos “homens providenciais”, na sua lucidez e na sua loucura, é pura inanidade intelectual.

Nos anos mais recentes, as biografias regressaram em força aos escaparates das livrarias e hoje incluem-se entre as obras com maior procura. Sem surpresa, a importância do factor individual no curso da história humana tem sido reavaliada, como se justifica.

Politólogo com obra multifacetada (incluindo uma bem sucedida incursão no romance, com Novembro, surgido em 2012), Jaime Nogueira Pinto vem deixando as suas reflexões impressas em livros como Ideologia e Razão de Estado – Uma História do Poder (2013) e O Islão e o Ocidente – A Grande Discórdia (2015). Trabalho de grande fôlego é também este recém-surgido Cinco Homens que Abalaram a Europa – centrado nas biografias cruzadas de Estaline, Mussolini, Hitler, Franco e Salazar. Políticos com cartilhas ideológicas diversas mas evidentes traços comuns, a começar por um elo geracional: nascidos com apenas 14 anos de diferença, entre 1878 e 1892, eram antidemocratas e antiliberais, aspirantes a “pai dos povos” mas com infâncias ligadas sobretudo à figura maternal. Cada qual a seu modo marcou o século XX – a era das autocracias, em que os genocídios se sucederam e a palavra totalitarismo foi inscrita nos dicionários.

Alguns imaginam ter sido há muito tempo, mas foi há poucos dias numa perspectiva histórica. Vale a pena estudar estes percursos: nada como a observação do passado para nos advertir contra riscos futuros já vislumbrados no presente.

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 03.12.16

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Livro três: Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes

Edição Companhia das Letras, 2016

127 páginas

 

É uma obra ímpar na dramaturgia brasileira, marco singular na produção literária de Vinicius de Moraes (1913-80), um dos mais notáveis autores líricos da língua portuguesa do século XX. Nasceu numa espécie de transe, durante uma longa madrugada de 1942, em Niterói, depois de Vinicius ter lido uma obra da mitologia grega que destacava Orfeu, poeta e músico da Trácia que desce aos infernos em busca de Eurídice, a sua amante morta.

Nessa madrugada de escrita frenética, o futuro autor de Garota de Ipanema concebeu um drama poético transposto da Grécia antiga para o Carnaval do Rio de Janeiro. Ao retomar o texto, seis anos depois, deu outro passo em frente, imaginando um espectáculo em que todos os actores fossem negros – algo inédito no seu país.

Em Setembro de 1956 Orfeu da Conceição – peça em três actos – estreava no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, batendo recordes de biheteira. Oscar Niemeyer concebeu os cenários e Antonio Carlos Jobim encarregou-se da partitura musical. Com temas como Um Nome de Mulher e Se Todos Fossem Iguais a Você.

O sucesso da peça daria origem ao filme, realizado no Rio pelo cineasta francês Marcel Camus – também com as colaborações de Vinicius e Jobim em novos temas musicais, como A Felicidade e O Nosso Amor. Luiz Bonfá compôs Manhã de Carnaval – tema que daria a volta ao mundo.

Rodado por inteiro em exteriores, o filme – intitulado Orfeu Negro – estreou em 1959, ano em que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Em 1960 seria galardoado com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro – primeira estatueta atribuída a uma película falada em português.

Orfeu da Conceição só em 1967 teve edição em livro. E demorou quase meio século a chegar ao mercado editorial português – lacuna que a Companhia das Letras colmata enfim nesta edição que honra o belo texto de Vinicius sobre uma paixão intemporal e desmedida: “Deve andar perto uma mulher que é feita / De música, luar e sentimento / E que a vida não quer, de tão perfeita. / Uma mulher que é como a própria Lua: / Tão linda que só espalha sofrimento / Tão cheia de pudor que vive nua.”

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 02.12.16

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Livro dois: O Novo Czar - A Ascensão e o Reinado de Vladimir Putin

De Steven Lee Myers

Tradução de Lumir Nahodil

Edição Edições 70, 2016

670 páginas

 

A capa, propositadamente cáustica, equivale a uma sentença política condenatória. Vladimir Putin é representado numa espécie de imitação de Francis Underwood, o fictício Presidente norte-americano da celebrada série televisiva House of Cards, político que leva ao limite a máxima de ouro maquiavélica: os fins justificam os meios, sem intromissão das regras morais.

Ex-correspondente do New York Times em Moscovo, onde viveu sete anos, Steven Lee Myers é um profundo conhecedor do quotidiano russo e privou suficientes vezes com Putin para poder traçar-lhe um retrato minucioso, desde os tempos em que o “novo czar” se ofereceu como voluntário para integrar os quadros do KGB nos anos de chumbo do totalitarismo.

Era o início de uma longa caminhada que viria a culminar na ascensão ao posto cimeiro da Praça Vermelha do ex-agente secreto que qualificou o desmembramento da União Soviética como “a maior tragédia do século XX” e procura reeditar o histórico expansionismo russo na Geórgia, na Ucrânia e nos Estados bálticos. Como ficou bem evidente em 2014, quando anexou a Crimeia em flagrante violação da Carta das Nações Unidas e do direito internacional.

Incontáveis editoriais se escreveram sobre ele na imprensa internacional. O Presidente russo soube rodear-se de uma fidelíssima corte de serventuários, domina com mestria a retórica patrioteira e demais mecanismos da propaganda, e não hesita em vergar todos quantos ousam enfrentá-lo, submetendo os mecanismos formais da democracia ao mando autocrático. Mas, antes deste livro, havia ainda muitas zonas mal iluminadas no seu percurso.

“Esta é a obra mais completa sobre Putin até hoje publicada em Portugal”, declarou há dias em Lisboa outro jornalista que bem conhece a Rússia, José Milhazes, na sessão de apresentação da biografia agora lançada no nosso idioma. Dificilmente O Novo Czar encontraria melhor carta de recomendação.

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 01.12.16

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Livro um: Quando a TV Parava o País, de João Gobern

Edição Matéria-Prima, 2016

228 páginas

 

A nostalgia salutar nunca deve confundir-se com saudosismo. Praticá-la é um estimulante exercício da nossa memória mais ligada aos afectos, não podendo confundir-se com a mórbida tentativa de aprisionar o passado no presente, ignorando o curso do tempo.

João Gobern propõe-nos neste livro uma refrescante digressão pelas suas memórias televisivas – que é afinal uma forma de prestar tributo aos primeiros 35 anos de existência da RTP. De 1957, ano da fundação da televisão em Portugal, a 1992, quando surgiu o primeiro canal privado e o serviço público foi ganhando contornos cada vez mais imprecisos.

Jornalista experiente e observador arguto, Gobern não esconde uma predilecção pela RTP, onde mantém presença regular como colaborador. E exprime sérias reservas quanto ao rumo que a televisão tem tomado nas duas últimas décadas entre nós.

“Todos estamos gratos pelo que chegou de bom. Mas não sigamos a avestruz: nunca a TV – mesmo no tempo da Censura, que marcou presença nos seus primeiros 17 anos – foi tão boçal, tão dogmática, tão oportunista, tão selvagem, tão consumista, tão invasora, tão medíocre, tão desleal, como de 1992 para cá”, escreve o autor num contundente posfácio a Quando a TV Parava o País.

A tese é polémica – e, até por isso, justifica reflexão. Mas o fascínio desta obra é proporcionar-nos uma visita guiada à televisão dos tempos pioneiros – e, com ela, esboçar-nos também um retrato impressivo do País. Com as suas luzes, as suas sombras, os seus equívocos, os seus acertos, as suas fugazes vedetas, as suas duradouras celebridades.

É sobretudo um relato geracional – a da geração do autor, que é também a minha, primeira que cresceu em Portugal com um televisor instalado num espaço nobre lá de casa. Tempo do preto e branco, que só em 1980 cedeu lugar à cor. Tempo em que um festival de música ou um episódio de telenovela eram vistos ao mesmo tempo por toda a gente, pondo o País a mirar aquela caixa que mudou o mundo. Nostalgia mais saudável não há.

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A luz ao fundo do túnel

por Pedro Correia, em 30.12.15

Portugueses gastaram mais 289 milhões de euros em compras de Natal

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 27.12.15

«Há muito tempo que o Natal foi sendo lentamente esvaziado de sentido religioso. E não foi por qualquer "tolerância" ou "inclusão" religiosa. Foi apenas porque foi transformado num acontecimento essencialmente comercial em torno do qual gira uma importante actividade económica. A nostalgia do antigo Natal tradicional das nossas aldeias, tal como era vivido até 1960, não é suficiente para contrapor a um modelo de celebração cada vez mais global, em que o significado económico e comercial suplantou o significado espiritual e religioso, através de modelos de inspiração americana popularizados globalmente através das indústrias da "Cultura Pop" como o cinema, a televisão e os cantores pop.
Isto não é motivado por qualquer desejo de "tolerância" embora possa ser justificado com esse discurso. É apenas uma forma de alargar o mercado potencial da "Indústria do Natal" a nível global.»

 

Do nosso leitor José. A propósito deste texto do José António Abreu.

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Pois, pois. Como se houvesse por aí muitas mulheres com o sentido de orientação necessário para irem atrás de uma estrela durante milhares de quilómetros até chegarem a uma gruta.

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Um conto de Natal.

por Luís Menezes Leitão, em 24.12.15

 

Esta mensagem de Natal de Pedro Passos Coelho constitui um disparate a todos os níveis. Ao afirmar que vai ter uma atitude construtiva e deixar governar aqueles que quiseram assumir essas responsabilidades, Passos Coelho afirma no fundo que o PSD vai ser a muleta do governo, reconhecendo a legitimidade de António Costa como Primeiro-Ministro. Fazer isso apenas um mês depois de ter sido derrubado pela esquerda do cargo de primeiro-ministro pode ser uma atitude muito cristã e típica da época natalícia, mas não é seguramente a que se espera de um líder partidário que foi remetido para a oposição depois de ter ganho as eleições legislativas. Especialmente quando se viu que a coligação de esquerda se desfaz ao mais pequeno sopro, sendo por isso absolutamente incapaz de aguentar uma tempestade.

 

De um líder partidário, que passou à oposição nestas condições, esperar-se-ia um combate frontal a este governo, prometendo para breve um novo governo que assegure melhores dias aos portugueses. Esta mensagem de Natal parece pelo contrário um acto de rendição de Passos Coelho ao governo de António Costa. É verdade que pelo cenário e pelo tom institucional faz lembrar as mensagens de Passos Coelho quando ainda era primeiro-ministro. Só que esse enquadramento parece estranho para quem é hoje líder da oposição, dando a imagem de que Passos Coelho desistiu totalmente do combate político nesta legislatura. 

 

Se o PSD continuar a fazer circular mensagens de Natal deste teor, o seu regresso ao governo será um conto de Natal.

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Natal com o Menino Jesus

por José António Abreu, em 24.12.15

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A fé na qual me educaram foi-se esvaindo na racionalidade (na minha racionalidade) e na indiferença (não acredito mas, acima de tudo, não penso no assunto). Ainda assim, incomoda-me o carácter cada vez mais laico do Natal. Incomodam-me os esforços que se fazem para extrair dele a religião, alegando respeitos para com quem não deveria ter motivos para se sentir desrespeitado: a matriz de um país - feita também da religião que, mal e bem, o foi construindo - não deveria agredir quando celebrada, apenas quando imposta. A substituição progressiva mas inexorável do Menino Jesus pelo Pai Natal (e eu acho piada à figura acolhedora e transbordante de bonomia do Pai Natal), o frenesi consumista, a repetição anual de reportagens televisivas ocas, os actos formais de prazer duvidoso (os presentes que se compram porque tem de ser, os sublimes jantares de empresa), as manifestações de cariz turístico-comercial que se tornam lugar de semi-indiferente peregrinação (quantas vilas-Natal há hoje em dia?), parecem-me tentativas desesperadas para encontrar um sentido para a quadra, fora daquele que ela possui há séculos. Tentativas inglórias, como seria de esperar: cada vez mais as pessoas julgam pueris os seus esforços e se sentem mais isoladas.

Expurgamos a religião do Natal, esquecendo (ou ignorando) que quase todas as nossas celebrações estão ligadas a ela: a Páscoa, os dias de Todos-os-Santos e de Finados, até esse momento de origem pagã, o Carnaval, último excesso antes da Quaresma. E, na verdade, é melhor quando assim ocorre. Os feriados religiosos têm uma densidade, um peso histórico, social, identitário, que nenhum dos restantes consegue atingir, ainda que pretendam celebrar o país (25 de Abril, 10 de Junho, 5 de Outubro, 1 de Dezembro) ou direitos conquistados (1 de Maio). Não é preciso celebrar a religião para aceitar que o Natal deve ser celebrado com ela. Basta saber aceitar a história e os valores que formam uma verdadeira comunidade: desde logo, a «inclusão» e a «tolerância» de que tanto se fala. Permitam-me pois que os votos de um ateu (creio) sejam de um Santo Natal para todos. 

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Um Santo Natal

por Patrícia Reis, em 24.12.15

Quero

 

Senhor neste

 

Natal, armar uma

 

árvore, dentro do meu

 

coração, e nela pendurar, em

 

vez de presentes, os nomes de

 

todos os meus amigos. Os antigos e os

 

mais recentes. Os de perto e os de longe.

 

Os que vejo a cada dia, e os que raramente

 

encontro. Os sempre lembrados e os que às vezes

 

ficam esquecidos. Os das horas difíceis, e os das horas

 

alegres. Os que sem querer magoei ou sem querer me magoaram.

 

Aqueles que pouco me devem e aqueles a quem muito devo. Meus

 

amigos humildes e meus amigos importantes. Os nomes de todos os que

 

já passaram pela minha vida.

 

Especialmente os que já partiram

 

e que me lembro com tanta saudade.

 

Que o natal esteja vivo,

 

em cada dia do ano novo.

 

 

(Desconheço a autoria deste postal de Natal, foi-me enviado pela Helena Sacadura Cabral há cinco anos e guardei-o para o partilhar convosco este ano. Obrigada Helena, um Santo Natal para todos)

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Natal

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.12.15

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 "Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.

Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,

com os livros atrás a arder para toda a eternidade.

Não os chamo, e eles voltam-se profundamente

dentro do fogo.

- Temos um talento doloroso e obscuro.

Construímos um lugar de silêncio.

De paixão." (Herberto Helder)

 

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Que tenham todos um Natal. Penso que isso já seria bom. E que eu possa repartir convosco a saúde, a felicidade e o sucesso a que tenha direito. O resto, se não se importam, o que me vai na alma, prefiro guardar para mim. 

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Conto de Natal

por Rui Rocha, em 23.12.15

Uma Câmara Municipal deste nosso paraíso de perfil atlântico assumiu o desafio de celebrar em grande a quadra natalícia. Ideias, projectos, brainstormings e, tudo somado, manda-se vir, de paragens distantes e nevadas, duas renas. Das verdadeiras, com os respetivos chifres e tudo. Tudo correndo como planeado, os cervídeos desfilariam em parada triunfal pelas ruas da pequena cidade, puxando um trenó onde estaria principescamente instalado o Claudino, exímio entornador de copos de três, aqui em vezes de Pai Natal. E o Presidente da Câmara ali estaria, da varanda concelhia, a observar tudo com ar bonacheirão, como quem diz que se divirta o meu querido povo. O problema é que o estupor do Rudolfo, que a sermos sinceros nem tinha nariz vermelho e nem Rudolfo se chamava, foi de bater a bota na véspera do grandioso desfile. Esticou o pernil, se é que me entendem. Vai daí, reunião do executivo municipal no meio de grandessíssima urgência. Vereadores desesperados, crises, chiliques, desmaios. Tentou-se de tudo. Uma rena só puxa o trenó? Testes feitos conclui-se que não. No último ano, o Claudino levou o papel a sério e não há rena desacompanhada que puxe o veículo abundado com semelhante barriga. No meio do desespero, um milagre (não é este precisamente o tempo propício à eclosão de todo o tipo de deslumbramentos e maravilhas?): um Vereador vê a luz como se fosse uma estrela a mostrar a todos o caminho. Não há par de renas, substituem-se por cavalos. Então e a rena que sobra? Não tiramos partido dela? Tiramos, pois. Antes do desfile de trenó puxado por cavalos, o Pai Natal dá um passeio na Praça do Município com a rena pela mão. Faça-se assim então. E fez-se. Volta a pé com a multidão em delírio. Fosse toureiro o Pai Natal e teria saído em ombros com as duas orelhas e o rabo do animal. Menos mal que não é, que para desgraça já bem basta a morte do Rudolfo que afinal não o era. Há rostos felizes de Vereadores, com as bochechas vermelhas de entusiasmo e vá, também de alívio, porque houve ali momentos em que se temeu o pior. Há um Presidente da Câmara bonacheirão à varanda: safou-se de boa o Vereador Pires que se lembrou de trazer o estupor das renas. Passemos então ao desfile. O Claudino instalado. Os cavalos a postos. Povo, Veradores e Presidente a saborear o triunfo. Que iniciem a marcha os cavalos. E iniciam. E macacos me mordam se não tem chovido. E os mesmos macacos continuem a morder-me se os cavalos não escorregam e não tropeçam e não caem perante o olhar abismado do Povo, dos Vereadores e do Presidente. Temos então cavalos com ferimentos ligeiros e orgulhos com ferimentos profundos. Cancele-se o evento depressa que vem vento. Feliz Natal, Feliz Natal, Feliz Natal vamos todos para casa que se faz tarde. E pronto, foi isto. Bem sei que não é Dickens, mas concederão que é triste. Em contrapartida, é verdade e aconteceu assim, dando de barato que quem conta um conto, acrescenta um ponto. Com um bocadinho de sorte e paciência talvez encontrem no Google alguma evidência dos factos. Apenas um conselho: procurem por Natal, desfile, mas não procurem com renas no plural.

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Memória de um Natal antigo

por Isabel Mouzinho, em 22.12.15

Esta noite, daqui a nada, começa o Inverno. Não é a minha estação preferida, longe disso, embora no fundo, cada uma tenha o seu encanto; e é nessa diversidade que reside o efeito especial que a mudança provoca em nós. 

Associado à noite, ao escuro, ao frio, a tristeza, fragilidade e desamparo, o Inverno é também tempo de recolhimento, de intimidade, de aconchego, do calor da casa, do sginificado mais profundo e tocante de qualquer pequeno gesto querido. E depois, para nós que vivemos deste lado do mundo, o Inverno é também o Natal.

Lembro-me de como era diferente o Natal no tempo em que os dias pareciam enormes e as Boas Festas se desejavam em bonitos postais escritos à mão.

Naquela época, eu era ainda uma menina, e toda a azáfama que antecedia a festa me parecia mágica e misteriosa, apesar de repetida cada ano. Não havia a euforia consumista de agora, e tudo se centrava na alegria um pouco poética de um Menino que nascia para nos salvar.

Recordo o cheiro a cera e a canela, o tilintar das louças, a alegria de ver entrar o pinheiro, que era muito grande e um pinheiro a sério; e as jarras cheias de azevinho; a excitação dos enfeites que demoravam uma tarde inteira a preparar e colocar nos sítios certos, com bolas e grinaldas coloridas espalhadas por todo o lado; e as tias a recortar estrelas em papel de lustro e cartolina, a fazer anjinhos de cartão, a ajudar a pendurar as bolas na árvore e a pôr lá no cimo uma estrela, naquele sítio mais alto, onde nos parecia impossível que se pudesse chegar.  

O presépio estendia-se ao longo do móvel da sala de jantar, tinha musgo e montes feitos de papel de cenário grosso, castanho escuro, com bolas de jornal por baixo para fazer o efeito das elevações, e muitas figuras pequeninas, ovelhas, pastores, reis magos e querubins, que nós adorávamos ir fazendo avançar discretamente por aquele cenário, dia após dia, até estarem todos juntinhos, quase amontoados diante do Menino Jesus, para grande irritação dos adultos lá de casa, que  voltavam a colocá-los nos lugares de partida sem que nós entendessemos bem porquê.

Havia a Missa do Galo, na Capela do Rato, que era a parte mais espiritual, a que dava sentido ao resto, tudo muito bem agasalhado e trajado a rigor, entre o cheiro a velas, o silêncio do recolhimento que a solenidade  exigia, e cânticos de alegria, onde nunca faltavam o Adeste fidelis, a Noite Feliz e o Gloria in Excelsis Deo. Nessa noite custava-nos sempre mais a adormecer e, ao mesmo tempo, queríamos que o tempo passasse depressa, porque no dia 25 o Menino Jesus já tinha nascido e havia presentes logo de manhã; e o almoço de família.

Hoje, é tudo muito diferente: a casa já não é a mesma, já não vamos à Missa do Galo, muitos  partiram entretanto, outros chegaram. Mas a essência continua igual. Por isso o meu Natal não tem Pai Natal, não se centra nos excessos de comida e de bebida, nem na corrida desenfreada e alucinante das compras. E também não escrevo uma mensagem com frases feitas e palavras de circunstância, que envio num só clic a todos os meus "contactos."

No "meu" Natal, continua a ser obrigatória a missa e a família, mas os presentes são cada vez mais reduzidos, quase inexistentes, porque não é isso que conta. E às pessoas que verdadeiramente significam alguma coisa na minha vida eu telefono, eu escrevo, ou aperto nos braços, mas individualmente e de forma  personalizada, porque cada uma delas é também  especial para mim.

É  que apesar de já não me lembrar que idade teria, ainda sei como foi grande a desilusão de perceber que não era o Menino Jesus que vinha deixar presentes durante a noite. Mas, passada a surpresa inicial, isso não quebrou o encanto desta época de luz, emoção  e cumplicidades que, mesmo nos anos em que não me sinto particularmente tocada pelo "espírito natalício" (como neste) é, acima de tudo, um tempo de simplicidade e de afectos. De amor. E não há nada mais importante...

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Querido Pai Natal

por Rui Rocha, em 17.12.15

Não leves a mal, mas este ano vou escrever a carta ao Carlos Santos Silva.

 

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Loucura de Natal

por Rui Herbon, em 16.12.15

 

Era uma vez um rapaz que tinha 4 anos, era pequenino como os outros rapazes da sua escola, mas era especial porque era filho de Jesus.

O seu pai, Jesus, era filho de Cavaco Silva e da sua mulher que actualmente não se sabe onde está, mas há quem diga que Cavaco Silva a tenha matado por os impostos da água e da luz serem muito caros.

Manel, o tal rapaz filho de Jesus, tinha recebido no Natal uma carta do seu pai a dizer que arranjasse uma mulher e tivesse filhos para depois pedir um empréstimo para grávidas e receber 1000 euros por mês. Jesus fez este pedido de empréstimo porque os impostos já tinham chegado lá acima.

Jesus depois mandou outra carta ao Manel a dizer que este tinha que pedir aos Reis Magos para o ajudarem a pagar o empréstimo. Mas quando Manel falou com os Reis descobriu que eles estavam cheios de dívidas, e que o Baltazar, como era de cor escura, tinha sido atropelado na noite de Natal pelo Gaspar para ele poder ficar com a sua herança (o que restava dela).

Manel falou com os camelos, mas estes tinham as bossas vazias. Tentou falar com o pastor, mas ele estava com tanta fome que já tinha comido o rebanho. As vacas tinham também sido todas mortas porque ainda não sabiam produzir Nesquik. A estrela tinha sido presa por excesso de iluminação.

Manel foi então falar com os avós José e Maria. Mas José tinha sido preso porque tinham descoberto que escondia cocaína no estábulo e a Maria estava a ser procurada pela polícia por ter um cartão de cidadão ilegal e não ter dinheiro para resolver a situação.

No fim saíram todos da prisão e os que tinham sido mortos falaram com Jesus para voltar cá para baixo, mas as renas do pai natal tinham tanta fome que acabaram por comer o Cavaco Silva.

 

João David Pais (2012), então com 11 anos

 

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Desaforismos

por Francisca Prieto, em 09.12.15

A poesia do Natal é entrar numa pastelaria e pedir um sonho.

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Quando a má consciência se torna viral

por Teresa Ribeiro, em 30.11.15

É impossível ficar indiferente a este vídeo natalício, da cadeia de supermercados alemã Edeka. A maioria de nós lá saberá porquê...

 

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conto de fim de ano

por Patrícia Reis, em 31.12.14

Caro Manuel

Escrevo-lhe da praça do Muro das Lamentações em Jerusalém. Perdoe-me. Não estarei para a Consoada. Agradeço-lhe o convite, sabe que sim, sei que não se esquece de mim. Devo ser uma espécie de sem-abrigo afectivo na sua vida, condição altamente recomendável para um viúvo e, sabendo que não desdenho as fatias paridas e o bacalhau com couves da nossa Cecília, a verdade é que fugi dessa coisa natalícia, artificial e luzente que não compreendo. Ou já não compreendo.
Tempos houve que saía de casa para ver as luzes na avenida, espreitar as decorações, o cheiro do frio de Dezembro, a conversa das prendas e toda a organização das festas. Fazia o presépio no primeiro domingo de Dezembro. Fazia-o com cuidado, comprava musgo na florista, desvendava cada figura guardada em papel de jornal, conseguia algumas diferenças na composição de ano para ano, mas coisa pouca.
Não tenho força para nada disso, descer à arrecadação, procurar os enfeites de natal e viver esse momento, julgo ter perdido o sentido da vida, de estar e ser com os outros. Respiro apenas, meu amigo. Respiro e o coração bate sem emoção. Isto não é vida. É outra coisa. Quando comecei a ver o carro carregado com as iluminações, as gruas e os homens a preparem o natal, percebi que não conseguiria ficar indiferente.
Como uma espécie de tortura, optei por viajar e escolhi, de todos os lugares do mundo, imagine, Israel. E agora aqui estou no lugar fundador de tudo, na estranheza desse princípio que está no nosso código genético, no nosso imaginário.

Está frio, sabe, que entra nos ossos. Talvez seja apenas a velhice. Digo-lhe que isto do frio é muito limitador. Ando pelas ruas a esfregar as mãos. Fiz o percurso dos tristes, desses turistas que surgem com guias a debitar informação, guarda-chuvas erguidos como uma placa sinalizadora de presença, americanos lamentavelmente ruidosos, nipónicos sem expressão, grupos de peregrinos italianos que murmuram orações enquanto fazem a Via Sacra.
Vou, sem destino, como uma sombra na perseguição dos outros. Tenho no quarto de hotel um guia, o melhor, o American Express; páginas repletas de informações sucintas, apenas o essencial. Ainda não o abri. Penso que não quero saber. A história, as religiões monoteístas, os monumentos. Nada disso me interessa.

Ando pelas ruas há dois dias. A velha cidade de Jerusalém é maior do que a China. Parece-me diferente todos os dias, como um mar atormentado que se transfigura num espelho de acalmia para depois voltar a uma certa fúria. Do bairro judeu ao árabe, a fronteira desenha-se na pedra, nos cheiros, na arrumação que se opõe ao caos de uma espécie de souk. Fascina-me esta divisão. A ordem e limpeza dos judeus são admiráveis e, talvez não me faça compreender como gostaria, caro Manuel, mas a verdade é que é um pouco assustador.
Passei há pouco o detector de metais para chegar aqui, ao Muro das Lamentações. Descobri ontem que estou contra a minha educação, as minhas raízes. Não sinto qualquer comoção no Santo Sepulcro. Devo ser um mau cristão. Sempre suspeitei ser um pobre cristão, indigno e fatalmente obtuso para os mistérios maiores. Aqui, no Muro, sento-me numa cadeira de plástico, no lado reservado aos homens, e consigo ouvir as mulheres do outro lado, mulheres que de pé se encostam ao muro e rezam alto, como uma cantilena, um choro triste e repetido. Deus abandonou-nos. Estamos sozinhos. Ele não está no muro, na igreja, na mesquita. Escapou-nos. Há quanto tempo? Desde sempre, parece-me.  
Não o quero ofender, Manuel, sei da sua devoção. Perdoe este seu amigo. Li algures que nada mata mais do que a solidão, sobretudo se estamos mesmo sozinhos. Talvez esteja aquém da salvação, do entendimento, de uma ideia melhor. Terá Deus um propósito específico para mim? Sim, sei que devo acreditar na Sua bondade. Um dia talvez O reencontre.
Decidi agora que não lhe mandarei esta carta, meu amigo, vou deixá-la numa fresta do Muro das Lamentações, numa pequena reentrância entre pedras de outra memória, a sua carta e milhares de orações, pedidos, agradecimentos que só consigo imaginar com enorme esforço.
Desejo-lhe um Santo Natal.
Um abraço,
Eduardo

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A paixão segundo María

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.12.14

1347092384_0.jpgHá muito que é uma arte. Como disciplina da dança, do culto da estética, do movimento, da cor, da forma, o Flamengo, cujas origens remontarão a algures entres os séculos VII e IX, não precisa de promoção. A sedução pela forma e pela simplicidade são um testemunho da sua extraordinária capacidade para expor a carne, a sua volúpia e acomodação ao espectáculo. A Andaluzia é a sua pele, a sua energia, a afirmação da auto-regeneração que o mantém, e a nós, seus modestos amantes em permanente conúbio, numa saudável mancebia, que nos faz ser parte de todo o seu esplendor. A guitarra mostra-lhe o caminho, orienta-lhe os gestos, dá-lhe graça, numa estranha efemeridade que se prolonga no tempo, eternizando-se na memória depois das luzes se apagarem. Seja num poema de Lorca, na guitarra de Lucia, num filme de Saura, nas Bodas de Sangre do inesquecível Antonio Gadès e da salerosa Cristina Hoyos, o Flamenco como arte conseguiu ser sempre mais do que uma arte porque se tornou na recriação da vida. O que Pagés conseguiu com Utopia está para lá da arte, da própria recriação da vida. Na voluptuosidade das formas niemeyerianas, servido por um naipe de bailarinos e músicos de altíssimo calibre, majestosamente enquadrados pela voz de Ana Ramón e Juan de Mairena, nos quadros de Maria Pagès ele torna-se na recriação da própria arte, elevando a música a mais do que um excepcional sapateado. Não o tinha visto antes. Vi-o hoje. E o que vi foi o tablao andaluz despojado de superlativos para exportação. A arte em forma de gente numa inesgotável manifestação da Criação servida pelos seus servos. A paixão segundo María. A Pagés. Uma espécie de extensão de Deus em forma de mulher, servida como prenda num Natal que, força dos desígnios desse mesmo Deus, se tornou mais triste, infinitamente sombrio e cada vez mais distante. Até quando?

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Conto de Natal

por José António Abreu, em 25.12.14

Era de prever. Levava-a fisgada, claro. Logo que a sentaram ao colo do Pai Natal, na praça do Centro Comercial, olhou para cima, para a imensa barba branca, e franziu ligeiramente os olhos, numa expressão que o pai conhecia bem: usava-a sempre que um plano dava certo. O Pai Natal fez-lhe uma pergunta que ela ignorou. Em vez de responder, estendeu a mão, agarrou-lhe a barba e puxou com força. A barba afastou-se cerca de dez centímetros da cara do Pai Natal. Ela sorriu em triunfo. As crianças que aguardavam vez gritaram. O Pai Natal sobressaltou-se e quase a deixou cair. Isto fez com que ela largasse a barba, a qual, pelo efeito do elástico, embateu com força na cara espantada do Pai Natal. Ele soltou um grito estranhamente agudo e tê-la-ia deixado cair dos joelhos se o pai não a estivesse já a agarrar. Quando a levou dali, ela não parava de dizer: «Não é verdadeira. É falsa. O Pai Natal é falso.»

Soube há pouco da história, durante o almoço de Natal. Fui ter com ela. Sentei-a no sofá a meu lado. «Tenho que contar-te um segredo.» Disse-lhe:

«Foi no ano passado. Estava tudo pronto no Pólo Norte: os presentes embrulhados e metidos no saco; o trenó com patins novos e a revisão dos cinco milhões de quilómetros efectuada; as renas bem alimentadas, bem penteadas e em excelente forma física: tinham andado a ser treinadas durante meses, fazendo provas de força contra ursos polares e voando até mais de um quilómetro de altura por várias vezes; no sistema GPS do trenó (GPS é uma maneira de se encontrarem os sítios, como no carro dos teus pais) tinham sido introduzidas as moradas de todas as crianças cristãs, e de todas as crianças que, mesmo não sendo cristãs, tinham sido muito boazinhas durante o ano, e de todas as crianças que podem vir a ser cristãs no futuro (sabes que o aumento do número de casamentos entre pessoas de religiões diferentes dificultou muito o trabalho de selecção do Pai Natal nos últimos anos) e de todas as crianças que, apesar de se terem portado mal, são familiares dos principais financiadores do Pai Natal, com a rota definida de modo a aproveitar os ventos e a evitar as tempestades. Tudo pronto, apesar das dificuldades encontradas durante o ano anterior.»

«Dificuldades?»

«Sim. Muitas dificuldades. Tudo começou com os problemas de financiamento – quer dizer, era muito difícil arranjar dinheiro para fabricar os brinquedos. As empresas que costumavam dar dinheiro à empresa do Pai Natal tinham cortado nas doações, apesar dos seus chefes terem pedido muitas desculpas. O aumento do preço dos combustíveis tinha levado a uma enorme subida da factura de energia, que é uma das fatias maiores dos custos de operar a partir do Pólo Norte. Tornou-se difícil pedir dinheiro emprestado aos bancos porque os spreads (sabes o que são spreads? Não importa, é uma coisa má que os adultos têm de suportar quando pedem dinheiro emprestado) eram cada vez mais elevados. A situação agravou-se ainda mais quando duas das três agências internacionais de notação (não posso evitar as palavras difíceis, querida, mas vais ver que no fim percebes) baixaram o rating da empresa de fabrico e distribuição de brinquedos do Pai Natal, por considerarem que uma empresa com problemas de localização e que não cobra dinheiro pelos produtos que faz estava especialmente mal preparada para enfrentar tempos de crise. (Já ouviste falar na crise, não já? Óptimo.) Em Março, o Pai Natal foi forçado ao despedimento colectivo de dois terços dos duendes, que ficaram muito zangados porque não há outras empresas no Pólo Norte nem sistemas de segurança social.»

«Então o Pai Natal é mau?»

«Não, as pessoas às vezes têm que fazer coisas que parecem más mas é por um bom motivo. Se ele não fizesse isso todos ficariam no desemprego e os meninos do mundo inteiro não recebiam os presentes de Natal.»

«Ah.»

«Em Abril, o fabrico da maioria dos brinquedos foi transferido para a China e isso trouxe muitas complicações (foi o que os adultos chamam um pesadelo logístico). O sistema de qualidade da empresa do Pai Natal obriga a que nenhum brinquedo para crianças com menos de três anos – tu já tens mais, não já? Já és uma menina crescida –, nenhum brinquedo, dizia eu, pode ter peças que possam ser engolidas e as tintas usadas em todos os brinquedos (mesmo todos) não podem fazer mal à saúde e, se possível, até devem ser gostosas. Assim, de modo a garantir a qualidade da produção, os duendes restantes eram forçados a muitas viagens à China, onde alguns desapareceram, não se sabe se por terem-se apaixonado por meninas orientais, acontecimento muito comum devido – é o que se pensa – a serem da mesma altura, se por terem sido mortos e servidos como pratos afrodisíacos em restaurantes de Pequim.»

«O que é afrodisíacos?»

«É a mesma coisa que ‘muito bom’. São pratos que dão um grande prazer durante muito tempo.»

«Como chocolate?»

«Exactamente. Como chocolate.»

«Ah. Mas então os chineses comem duendes?»

«Não se tem a certeza.»

«São maus?»

«Os chineses?»

«Sim.»

«Não. Quer dizer, mais ou menos. Mas podes estar descansada que eles não comem criancinhas. Isso era mais os russos. Acho eu.»

«Ahn?»

«Nada, esquece. Vou continuar a história, está bem?»

«Está.»

«O desaparecimento de tantos duendes deixou ainda mais trabalho para os restantes. Alguns exigiram subsídios de deslocação, que o Pai Natal foi obrigado a recusar porque as despesas com viagens tinham quadruplicado em relação aos anos anteriores e ele estava a tentar poupar para outra coisa: desde que tivera de dispensar o pessoal doméstico, a Mãe Natal exigia uma série de electrodomésticos para lhe facilitar a vida em casa e ameaçava passar a dormir noutro quarto, que era uma coisa que o Pai Natal não queria porque depois a rena Rodolfo ia querer dormir com o Pai Natal e o Pai Natal sabia que ela ressonava.»

«Como o papá?»

«Er, sim, provavelmente.»

«A mamã também diz que vai dormir para outro quarto.»

«Er, ok. Vamos continuar, está bem?»

«Está.»

«As despesas com viagens tinham então aumentado imenso, até porque não há companhias de aviação low cost (são as que fazem preços mais baratos) a operar no Pólo Norte. O único ponto positivo era que, com as milhas acumuladas, o Pai Natal esperava poder oferecer à Mãe Natal uma viagem de sonho às Maldivas (que são umas ilhas com praias bonitas) depois do Natal. A situação estava neste ponto quando os brinquedos chegaram da China e o Pai Natal teve mais uma péssima surpresa: o papel em que vinham embrulhados tinha a imagem de pequenos Confúcios, que é como se fosse um Deus chinês, em vez de Meninos Jesus. Foi preciso desembrulhar todas as prendas e voltar a embrulhá-las com um papel mais adequado: como já era Novembro e não havia dinheiro, usou-se papel de patrocinadores, lojas como a Toys ‘r’ Us e a Worten ou empresas como a Coca-Cola, que sempre manteve uma excelente relação com o Pai Natal. Para que tudo estivesse pronto a tempo, foi preciso readmitir parte dos duendes despedidos. Fizeram-se contratos com a duração de apenas um mês mas foi preciso pagar-lhes um valor muito elevado, quase o triplo do que eles ganhavam antes.»

«Bem feito.»

«Exacto. Chama-se a isto ‘economia de mercado’. Em meados de Dezembro chegou a última crise: a Mãe Natal, ainda sem os electrodomésticos que desejava, recusou-se a preparar a roupa vermelha e branca do Pai Natal. ‘Não a vou lavar à mão e secar à lareira’, disse. O Pai Natal contactou novamente as tais lojas de patrocinadores mas havia tempestades fortes nos céus da Europa e da América do Norte e era muito difícil fazer os electrodomésticos chegar ao Pólo Norte. Tentou convencer as renas a irem buscá-los mas elas recusaram. Se o tempo estava mau para os aviões, argumentaram, imagine-se o esforço que seria para elas. A menos, claro, que o Pai Natal pagasse a deslocação. Por uma questão de princípio, o Pai Natal recusou. Finalmente conseguiu que, por um preço quase tão elevado quanto o que as renas pediam, lhe enviassem por trenó puxado por cães (que são animais que trabalham por pouco dinheiro, desde que sejam levados a pensar que estão a divertir-se) uma máquina de lavar e outra de secar roupa de uma fábrica da Electrolux, perto de Estocolmo (que é uma cidade da Suécia, não muito longe do Pólo Norte). A Mãe Natal não ficou totalmente satisfeita (queria também uma máquina de lavar louça, um microondas e um ferro de engomar com caldeira) mas acabou por ceder e tratou da roupa do Pai Natal.»

«Ele não podia tratar dela sozinho?»

«Boa pergunta. E tens razão: ele devia saber fazer essas coisas. Mas o Pai Natal é velhote e nunca lhas ensinaram.»

«Mas podia aprender.»

«Talvez ainda aprenda. Vamos continuar, está bem? Estava, pois, tudo pronto na tarde do dia vinte e quatro. Foi então que o Pai Natal decidiu ir arranjar a barba e o cabelo, para estar bonito na noite mais importante do ano. Sentou-se na cadeira do barbeiro da pequena aldeia do Pólo Norte e, como costumava fazer, adormeceu de imediato. Nessa altura os duendes despedidos, há muito decididos a vingarem-se, invadiram a barbearia, arrastaram o barbeiro para a sala dos fundos e ataram-no com restos do fio de embrulho. Depois subiram para cadeiras e raparam o cabelo e a barba ao Pai Natal.»

«Então os duendes são maus?»

«Não. Às vezes as pessoas que têm pouco poder têm de defender os seus interesses e mostrar que não gostaram do que lhes fizeram. E eles não aleijaram o Pai Natal; apenas lhe cortaram a barba e o cabelo. Quando acordou e se viu ao espelho, o Pai Natal apanhou um grande susto e quase teve um ataque cardíaco (que era uma coisa que ele sabia poder acontecer-lhe, porque o médico lhe dizia há anos para comer menos e emagrecer). Saiu da barbearia a gritar e, enterrando as pernas na neve, observado por todos os habitantes da aldeia que se riam às gargalhadas, correu para casa. 'Está tudo perdido', lamentou-se. 'Não é possível que o Pai Natal não tenha barba nem cabelo. O que vou fazer?' A Mãe Natal não se alarmou. Foi buscar duas esfregonas de limpar o chão (uma nova, a outra já um pouco usada) e construiu uma cabeleira e uma barba falsas. Colou-as à cabeça do Pai Natal com fita adesiva e disse-lhe: 'Pronto, servem muito bem e até te dão um aspecto mais moderno.' O Pai Natal não ficou totalmente convencido mas nada podia fazer. Duas horas depois saiu para a sua volta da noite de Natal e desde então (lembra-te que isto foi no ano passado), usa barba e cabeleira postiças enquanto o seu próprio cabelo e barba não voltam a crescer (vão ser precisos muitos anos). É por isso que elas se soltam quando alguém as puxa. Mas isso não significa que não se esteja perante o verdadeiro Pai Natal. E também já percebes por que é que ele fica envergonhado quando alguém faz o que tu fizeste.»

Os olhos dela estavam agora brilhantes. Receei que chorasse. Sorri-lhe.

«Mas tu não voltas a fazê-lo, não é? E vais ser especialmente boazinha para ele, quando o vires?»

Fez que sim com a cabeça.

«Óptimo. E também há boas notícias, pequenina, sabes? Para agradecer à Mãe Natal, o Pai Natal ofereceu-lhe a melhor máquina de secar roupa, o melhor microondas e o melhor ferro de engomar com caldeira que encontrou. E prometeu que este ano iam às Maldivas - onde, a esta hora, devem estar quase a chegar.»

«Com as renas?»

«Er, sim, claro. As renas também gostam de praia.»

«E os duendes?»

«Acho que os duendes ficaram a tomar conta das coisas no Pólo Norte. Mas os duendes não podem apanhar muito sol. Faz-lhes mal à pele. E também não podem tomar muitos banhos de mar. Correm o risco de encolher ainda mais, como às vezes acontece à roupa depois de ser lavada.»

Ficou em silêncio, pensativa. Sorri-lhe. Hesitante, retribuiu. Aproveitei e devolvi-a aos pais.

 

(Republicado.)

 

 

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Um Santo Natal

por Patrícia Reis, em 25.12.14

Quero

 

Senhor neste

 

Natal, armar uma

 

árvore, dentro do meu

 

coração, e nela pendurar, em

 

vez de presentes, os nomes de

 

todos os meus amigos. Os antigos e os

 

mais recentes. Os de perto e os de longe.

 

Os que vejo a cada dia, e os que raramente

 

encontro. Os sempre lembrados e os que às vezes

 

ficam esquecidos. Os das horas difíceis, e os das horas

 

alegres. Os que sem querer magoei ou sem querer me magoaram.

 

Aqueles que pouco me devem e aqueles a quem muito devo. Meus

 

amigos humildes e meus amigos importantes. Os nomes de todos os que

 

já passaram pela minha vida.

 

Especialmente os que já partiram

 

e que me lembro com tanta saudade.

 

Que o natal esteja vivo,

 

em cada dia do ano novo.

 

 

(Desconheço a autoria deste postal de Natal, foi-me enviado pela Helena Sacadura Cabral há quatro anos e guardei-o para o partilhar convosco este ano. Obrigada Helena, um Santo Natal para todos)

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Mais de 80% dos portugueses estiveram expostos às suas próprias famílias durante a Ceia de Natal.

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Prato de Serviço (base): prato maior, também conhecido como base, que serve para colocar o primeiro prato.

 

Faca de jantar: a faca maior, ou faca de carne, que deve ser colocada à direita do prato de serviço.

 

Faca de peixe: faca de formato especial que fica à direita da faca de jantar.

 

iPhone 6: smartphone da Apple que deve ser colocado à direita da faca de peixe.

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Feliz Natal.png

 

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Natal é mesmo quando um homem não quer

por Teresa Ribeiro, em 23.12.14

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Como faço anos em Novembro, desde há muito que acolho os primeiros sinais de Natal com rancor. Durante a infância aquele era o meu mês e só a seguir vinha o estrilho natalício, que arrancava pontualmente a 1 de Dezembro.

Apesar da pressão consumista me ter apanhado já crescida, senti este acelerar de calendário como uma invasão de território, pois se há coisas que queremos bem preservadas são as que estabelecemos na infância. Esta troca de fusos só agravou o desencanto que fatalmente fui sentindo à medida que deixava a meninice para trás.

A magia do Natal perde-se junto com a inocência (perdi-a quando cacei os meus pais a esconderem os presentes na despensa). Perdi-a, mas quis que ela continuasse, ao menos a fingir, e por isso afastei-me pé ante pé para que não me apanhassem a espiar a realidade por uma fresta.

Só voltei a delirar com o Natal quando tive filhos. Não hesitei em atulhá-los de fantasia. Sabia que um dia, tal como eu, se desiludiriam, mas enquanto dura é tão bom!

É tão bom que hoje, já sem crianças na família de olhitos a cintilar e sem os crescidos da minha infância de volta de mim, dou comigo a fingir que detesto o Natal. A queixar-me da pressão consumista, da despesa, do trabalho, do trânsito, enquanto lá longe, onde os meus demónios perderam as botas, vibram ainda cordas antigas a propósito de nada. De uma canção natalícia que ouço de passagem e fico a trautear, do espectáculo de gente atarefada a passar cheia de embrulhos, das ruas iluminadas. São voos breves, mas de que regresso sempre com um embrulho que aproveito para deixar no meu sapatinho. 

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