Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



terror-europe[1].jpg

 Paris, Novembro de 2015

(foto: Charles Platieu, Reuters)

 

1

O terrorismo jiadista combate-se como se combateu o terrorismo extremista na Itália e na Alemanha, na década de 70. Combate-se como se combateu o terrorismo da ETA, como se combateu o terrorismo do IRA.

Como?

Com serviços de informações competentes e organizados em rede, infiltrados nas organizações terroristas e dotados de meios efectivos para desarticulá-las. Quebrando-lhes as células dirigentes, os circuitos informáticos e as vias de abastecimento de armas e munições. E utilizando dissidentes e terroristas arrependidos nessas operações.

Não é preciso inventar a pólvora. A pólvora já foi inventada há milhares de anos.

 

2

Alguns tudólogos com lugar cativo no espaço mediático teimam em "perceber" o "porquê de o serem [assassinos], o que os levou a isso". Estes raciocínios sempre me conduzem àqueles judeus que tentaram "perceber" as motivações dos nazis entre 1933 e 1939. Alguns desses judeus contemporizaram com a barbárie, deixaram que lhes saqueassem lojas e confiscassem propriedades enquanto procuravam mostrar-se bons cidadãos alemães: muitos escutavam Wagner e exibiam orgulhosamente as condecorações obtidas em combate na I Guerra Mundial em defesa do império germânico.

Acabaram nos campos de extermínio e nas câmaras de gás tal como os outros, os que não tinham tentado "perceber" o que levava as hordas hitlerianas a comportarem-se como bestas sanguinárias.

 

3

Rejeito as teses deterministas. Acredito firmemente no livre arbítrio e na responsabilidade individual: ninguém é criminoso antes de praticar um crime.
Mas não recorro a eufemismos para qualificar actos criminosos.
Lamentavelmente, quando ocorre um atentado terrorista, logo surge gente a considerar que os assassinos são vítimas. Da economia, da crise, da sociedade, da discriminação, do capitalismo, do aquecimento global, do planeta Terra, do sistema solar.
Isto para mim é inaceitável.
Um crime é um crime. A barbárie é a barbárie - tenha a cor ideológica que tiver, idolatre os deuses que idolatrar. Ponto final.

 

4

A ladainha da "destruição do Iraque", invocada por sistema quando ocorrem atentados terroristas na Europa, equivale a dizer que as vítimas inocentes destes atentados "estavam mesmo a pedi-las".
Equivale também a considerar vítimas os assassinos. Coitados, argumentam os arautos de tal tese, eles estão apenas a vingar o que os malandros dos ocidentais fizeram ao Iraque.
Essa é a lógica hitleriana do olho por olho, dente por dente. Hitler conquistou metade da Europa, espezinhando-a e escravizando-a, para vingar as humilhações sofridas pela Alemanha no Tratado de Versalhes. Alegava ele. E muitos concordaram.
Quando começamos a chamar vítimas aos assassinos os nossos padrões éticos invertem-se. O passo seguinte, nesta rota descendente, será chamar criminosos às vítimas verdadeiras.

 

5

É um absurdo incorporar um homicida numa categoria étnica, religiosa ou cultural, fixando-o neste rótulo.
Há assassinos em todos os quadrantes, em todas as etnias, em todas as classes sociais.
Este princípio não é de via única. É tão absurdo dizer ou escrever que "os muçulmanos professam uma ideologia assassina" como fazer proclamações genéricas de sentido inverso: "os ocidentais são culpados de terem explorado populações noutros continentes e estão a pagar pelo que fizeram" ou "os americanos foram lançar bombas ao Iraque e agora recebem o troco".

 

6

A vida humana para mim tem valor absoluto em qualquer lado. Em Paris como na Síria. Em Bruxelas como no Paquistão. Sou incapaz de alimentar duas teses sobre o assunto em função das coordenadas geográficas.

A minha posição é clara: não quero "compreender" os terroristas. Que armam meninos na Libéria e os transformam em carne para canhão. Ou que usam meninas na Nigéria como bombas humanas. Ou que investem com demencial fúria apocalíptica contra crianças e adolescentes, como ainda há dois dias aconteceu em Manchester.
Nem conseguiria, mesmo que quisesse.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Portugal: destaque internacional

por Pedro Correia, em 14.05.17

papa-fatima[1].jpg

 

Visita do Papa Francisco a Fátima:

Destaques no El País, El Mundo, Estado de São Paulo, The Guardian, O Globo, La Stampa, ABC, La Reppublica, Folha de São Paulo.

 

licoessalvadorsobral_01[1].jpg

 

Vitória de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão:

Destaques no El País, El Mundo, Le Figaro, The Guardian, Daily Telegraph, ABC, Le Monde, La Reppublica, Independent, New York Times.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A semente totalitária

por Pedro Correia, em 30.03.17

signs%20(05)[1].jpg

 

Vivemos já de algum modo num cenário pós-orwelliano. George Orwell preocupava-se com a tecnologia enquanto instrumento de um estado totalitário. A questão é que a tecnologia pode ser totalitária por si própria - e, nessa óptica, induzir derivas totalitárias no mais democrático dos sistemas.

Muitos apregoam os direitos humanos, havendo-os para todos os gostos e feitios, reais ou imaginários - e não falta até quem queira estendê-los aos animais e aos vegetais. Mas quanto mais se fala, menos se faz: alguns direitos fundamentais vão sendo comprimidos sem surpresa ou escândalo de ninguém. Refiro-me ao direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, hoje ameaçados de modo quase irreversível numa sociedade que elege o narcisismo exibicionista acima de tudo o resto.

O incentivo à exposição pública dos mais diversos pormenores da vida privada através das chamadas "redes sociais" funciona como uma droga dura. Todos os dias assistimos a novos recuos no direito à intimidade, lesado por contínuas cedências voluntárias ao domínio público.

 

Um misto de apatia, hedonismo e alheamento cívico caracteriza muito do comportamento dominante no mundo ocidental. E ajuda a explicar esta permanente sensação de crise larvar, que ultrapassa em larga escala o plano económico. É uma crise de valores, que o fundamentalismo islâmico procura colmatar à sua maneira apelando ao instinto gregário e aos códigos tribais em decomposição nas chamadas sociedades "evoluídas".

Isto tem uma capacidade de sedução que ultrapassa largamente o círculo de convertidos, seduzindo novas hordas de fanáticos em potência desprovidos de valores alternativos.

 

Quem não perceber isto nada percebe de essencial.

Como há-de o Estado - mesmo o Estado democrático - respeitar aqueles direitos se os próprios cidadãos parecem desprezá-los? A todo o momento somos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados e vigiados nos mais diversos locais. Sem que ninguém pareça escandalizar-se.
Infelizmente estas questões só raras vezes são debatidas. Como se fossem irrelevantes. Como se a semente totalitária não estivesse já no meio de nós.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Perspectivas

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.01.17

12blowWeb-superJumbo.jpg

(Doug Mills, The New York Times) 

"A bill decriminalizing domestic violence passed its first reading of the Duma on Wednesday, with 368 votes in its favor (one parliamentarian voted against it, and one abstained). Should the bill pass its second reading, now under preparation, domestic violence will only be a criminal offense if it’s considered an act of “hooliganism” or borne out of hatred."

 

Com as audições de ontem em Capitol Hill, em especial com as respostas dadas a Marco Rubio por mais uma das bizarras escolhas de Donald Trump para a sua equipa governativa, Rex Tillerson, o presidente e ex-CEO da Exxon Mobil Corporation, ficou ainda mais patente a impreparação, o comprometimento e a incompetência do escolhido para o cargo de Secretário de Estado, assim como a falta de senso de quem o indicou. Até um canal como a Fox News esclareceu os seus telespectadores que Rubio "grelhou" (sic) Tillerson. De facto, Tillerson revelou-se incapaz de dar as respostas que todos os estado-unidenses esperavam ouvir, nomeadamente quanto à futura relação com os russos, e deixou no ar muitas dúvidas sobre a futura mancebia da Casa Branca com a Rússia.

Rússia onde, por seu turno, a Duma se prepara para descriminalizar a violência doméstica, dando assim mais um passo  em direcção à idade das trevas e elementos acrescidos para o estudo do "putinismo".

Se os deputados da Duma e Putin consideram normal que as mulheres russas, as suas próprias mulheres, levem uns estaladões e uns abanões entre uns tragos de vodka nos intervalos do jogos de hóquei no gelo, desde que esse comportamento não seja interpretado como um acto de holiganismo, no ar ficará a dúvida sobre o modo como interpretarão a violência que seja exercida pelos militares e ocupantes russos sobre os "estrangeiros" e as mulheres dos outros em cenários de guerra, ocupação militar ou conflito latente, como por exemplo na Síria, na Crimeia, na Chechénia ou na Geórgia.

É claro que a preocupação de Donald Trump em matéria de conflitos de interesses ou direitos humanos é igual a zero. Como é também a de Putin, comprovada ainda recentemente no aprofundamento da sua relação com as Filipinas de Duterte, onde é o próprio presidente quem estimula uma justiça tribal contra traficantes de droga, consumidores, simples suspeitos ou qualquer cidadão que se incompatibilize com o vizinho por causa das galinhas e seja por este denunciado e morto à paulada como potencial traficante.

A Rússia prepara-se, e já mostrou toda a sua disponibilidade, para vender submarinos, aviões, tanques e armas pesadas e ligeiras a Manila. Os seus almirantes são recebidos pelo Presidente Duterte, o qual lhes deu as boas-vindas e disse que ali os militares russos serão sempre bem recebidos, podendo lá ir quando quiserem e muitas vezes com os seus vasos de guerra, nem que fosse só para "se divertirem", convite enfatizado pelo Presidente das Filipinas entre gargalhadas. Afigura-se, pois, como previsível um aumento da circulação de panças e de rublos em Makati e na infame Mabini Street, onde desaguam as adolescentes filipinas que fogem da miséria no interior e vão em busca de melhores condições de vida na capital, gente que perante o convite de Duterte aos militares, depois de ter estado ao serviço da satisfação das pulsões e bebedeiras dos tropas dos EUA estacionados em Subic Bay, poderá agora passar a servir de objecto de divertimento da armada russa com o beneplácito presidencial. 

Enquanto nos EUA o presidente eleito dá uma conferência de imprensa surreal, de tal forma que o antigo campeão mundial de xadrez Gary Kasparov afirmou que o que por lá aconteceu lhe fazia lembrar as conferências de imprensa de Putin, na Europa, que acabou de perder Zygmunt Bauman, aguarda-se o resultado do Brexit e teme-se pelo que sairá das eleições que aí vêm em França, na Holanda e na Alemanha. Ou pelo que irá acontecer durante 2017 em Israel, na Síria, no Irão, na Turquia, na África subsariana e na bacia do Chade, no Congo, no Brasil, na Venezuela, na Birmânia ou na Argentina, ou, ainda, o que sucederá com aquele urso esquizofrénico da península coreana.

O que actualmente se passa em Washington e Moscovo não pode deixar de nos levar a questionarmo-nos sobre a sanidade e seriedade desta gente que se prepara para tomar conta do mundo à custa da liberdade, da democracia, do respeito e da tolerância para com o outro. E, em especial, sobre aquele que tem sido o trabalho das elites mundiais para a sua defesa, bem como da paz e dos padrões civilizacionais que pelos menos desde o pós-II Guerra se tem procurado preservar.

As perspectivas de dentro de alguns meses o mundo ser dominado por ignorantes misóginos, mais preocupados com os vídeos que possam aparecer com as suas proezas sexuais do que com a paz mundial, por mentirosos, líderes religiosos ortodoxos, corruptos, ditadores autocráticos ou simples mentecaptos são hoje bastante elevadas e colocam já o último discurso de Obama proferido em Chicago numa espécie de museu da civilização.

Não admira que com este cenário Charles M. Blow escrevesse ontem no New York Times que ao escutar o discurso de despedida tivesse sido tocado pelo violentíssimo golpe de decência e dignidade, solenidade e esplendor, sobriedade e literacia que Obama trouxe consigo para o exercício da função presidencial, o que em seu entender será de tal forma anómalo e extraordinário que cada geração só pode aspirar a ter isso uma única vez num presidente.

o que Obama fez em matéria ambiental já o guindaria a um lugar único na história dos EUA, mas saber que se vai embora e nos vai deixar a todos entregues a essa fauna que se perfila no horizonte não é coisa que nos tranquilize.

Não quero aqui assustar ninguém, mas apenas recordar que este cenário reforça a expectativa no trabalho do novo secretário-geral das Nações Unidas. Estará, pois, na hora de António Guterres, lá no seu pedestal de Nova Iorque, se quiser com a ajuda do padre Melícias e das suas orações, isso é lá com ele, nos mostrar que Deus ainda existe. E que não dorme.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Alepo, cidade-mártir

por Pedro Correia, em 20.12.16

aleppo-may[1].jpg

Foto: Karam Al-Masri / AFP

 

Enquanto escrevo estas linhas, morrem seres humanos em Alepo. A lista de mortos ultrapassou 30 mil no ano passado, não havendo mais estatísticas oficiais de então para cá.

Aquela que foi a maior cidade síria - com uma população superior a cinco milhões de habitantes antes dos primeiros disparos, em Fevereiro de 2012 - e uma das urbes mais cosmopolitas do mundo árabe sucumbe sob os escombros da guerra total que contra ela foi decretada pelas hordas assassinas do ditador Bachar Assad, acolitado por milícias xiitas financiadas pelo Irão teocrático e por essa Legião Condor dos tempos modernos representada pelos sinistros bombardeiros russos.

Vladimir Putin, principal parceiro de Assad, bloqueou nos últimos cinco anos na ONU todas as resoluções que podiam determinar um desfecho não-sangrento para o drama sírio – incluindo a abertura de um corredor humanitário com supervisão internacional e o lançamento de víveres por via aérea aos civis sob cerco. Os vetos de Moscovo no Conselho de Segurança, somados à passividade da administração Obama, provocaram o êxodo maciço da população síria, que foge para onde pode, obedecendo ao instinto de sobrevivência.

Ei-los aí, os sírios em fuga - sem tecto, sem trabalho, sem assistência médica, subitamente desenraizados, buscando a Grécia, acorrendo ao Líbano, rumando aos campos de encarceramento turcos que servem para o proto-ditador Erdogan usar essa magoada e dolorida “mercadoria humana” como alvo de chantagem junto das chancelarias europeias.

 

Enquanto escrevo, mais uns civis sucumbem em Alepo, cidade-mártir. Alvejados por franco-atiradores munidos com fuzis russos e pagos pelos aiatolás de Teerão. Morrem mulheres e crianças, vitimadas por bombas de fósforo e gás de cloro, e o mundo cala-se. Consente estas novas Guernicas, estas novas Sarajevos. Em Portugal há até quem faça coro com o tirano de Damasco, que há muito devia ter sido forçado a trocar o trono de déspota pelo banco dos réus, respondendo por crimes de lesa-Humanidade por ter permitido a utilização de armas químicas contra a população do seu país.

Putin, que recebeu como prémio por apoiar Assad a primeira base naval russa no Mediterrâneo, segue na Síria a cartilha que já mandara aplicar à Chechénia: “encurralá-los até ao fim”. Assim transformou Grozni há década e meia num mar de ruínas, indiferente aos clamores da comunidade internacional. A mesma indiferença a que vota hoje as patéticas mensagens de impotência do secretário de Estado norte-americano, John Kerry, que se limita a derramar lágrimas desvalidas perante o massacre, como se não representasse a maior potência económica, diplomática e militar do planeta.

 

Enquanto escrevo estas linhas, mata-se e morre-se nos últimos bairros sitiados de Alepo, onde todas as sombras macabras da história – da Tróia antiga à Estalinegrado do século XX – ressurgem numa demonstração evidente de como é ténue e frágil o fio que separa a civilização da barbárie, numa chocante confirmação de que o vertiginoso progresso tecnológico é incapaz de alterar um átomo da natureza humana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Surpreendente mundo este!

por Helena Sacadura Cabral, em 05.12.16
A política na Europa tornou-se imprevisível. Espanha, Áustria, Inglaterra, Itália e em breve a  França deram cabo de todas as sondagens feitas para eventos políticos eleitorais. O que mostra uma de duas: ou as agências não percebem nada do que fazem, ou a realidade ultrapassa, em muito, as bases em que aquelas assentam. De facto, o desacerto tem sido excessivo.

Parando um pouco para olhar o mundo, vemos que a América não vai melhor e o Oriente é um potencial foco de infecção. Isto para não falar já das complicações de Moçambique, do anúncio  da retirada de José Eduardo dos Santos em Angola, do Brasil ou de Cuba.

Levámos oito dias a acompanhar a subida aos céus de Fidel de Castro, com votos de louvor na Assembleia da Republica, cujos deputados, dada a sua tenra idade, não devem perceber bem que Fidel teria todo o direito a estas homenagens se tem morrido em 1959. Mas como faleceu em 2016, nem sei como as classificar... É este o surpreendente mundo novo em que vivemos!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nada está garantido

por Pedro Correia, em 15.07.16

Ontem à noite, enquanto acompanhava as chocantes notícias da chacina em Nice - que provocou já 84 mortos, incluindo dez crianças, e 202 feridos, 52 dos quais em estado crítico -, ia-me interrogando sobre até quando iremos assistir impávidos a estes contínuos actos de terror. E lembrei as palavras sofridas de Albert Camus reagindo em 1957 ao terrorismo "nacionalista" na Argélia, que matava inocentes em nome da justiça anticolonial. Questionava-se ele (e cito de cor): "Neste momento, em Argel, explode um autocarro. A minha mãe pode ir nesse autocarro. Se isto é justiça, ponho a minha mãe à frente da justiça."
Milhares de vozes, por essa Europa fora, ecoarão esta ideia nas semanas mais próximas, nos meses mais próximos, nos anos mais próximos. Em crescendo, sempre em crescendo. Escrevo estas linhas enquanto se anuncia um golpe de Estado na Turquia - algo inimaginável às portas da Europa, em pleno século XXI, ainda bem há pouco tempo. Tanto quanto me recordo, o anterior golpe militar em Ancara ocorrera em 1980.
Os optimistas antropológicos que concebem a cronologia histórica como uma sucessão de avanços inabaláveis sofrem de acentuada miopia. Se algo a História nos ensina é isto: nunca há conquistas inteiramente adquiridas. Nem precisamos de recuar mais longe do que o sangrento século XX para aprendermos esta elementar lição.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Impotência

por Ana Vidal, em 07.06.16

Mais um atentado hoje em Istambul.

 

Uma das maiores perversidades deste mundo da informação global imediata, dominado sobretudo pelas redes sociais, é fazer-nos sentir culpados e insensíveis quando não comentamos as grandes tragédias, como se as ignorássemos ou lhes fôssemos indiferentes. Mas, que palavra nossa manteria à tona um barco no Mediterrâneo, abarrotado de gente faminta e atraiçoada? Que indignação suspenderia o choque de impacientes placas tectónicas no Nepal ou no Chile? Que like deteria o sabre ou o cinto de explosivos de um fanático islâmico? Que post impediria a violação de uma criança na Nigéria? Que fotografia chocante, que poema, que música mudariam alguma coisa na vida e na morte destes eternos filhos de um deus menor? Perante o horror, quase sempre se me secam as palavras na garganta e as lágrimas nos olhos. Fica só um tumulto cá dentro, surdo, mudo, cego. Que não ajuda ninguém.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A palavra eu vence a palavra nós

por Pedro Correia, em 19.03.16

selfie1[1].jpg

 

"Nunca devemos confundir movimento com acção", ensinava Hemingway. Tenho-me lembrado com frequência desta frase sábia que parecia antecipar o tempo actual, em que tudo se banaliza. É um tempo de anestesia colectiva, potenciado pelo efeito reprodutivo da internet, das redes sociais, dos canais de notícias, da televisão em fluxo contínuo. Já quase nada surpreende, já quase nada escandaliza ninguém. E o mais chocante nesta permanente girândola de imagens em movimento é o facto de as "consumirmos" (palavra muito em voga) numa total falta de enquadramento hierárquico de valores, proporcionada pela diluição do jornalismo clássico que funcionava como mediador neste circuito.

Hoje tudo é importante. O que equivale a dizer que nada é importante. Somos bombardeados com imagens de "famosos" a levar com frívolos baldes de água fria intercaladas com o vídeo do jornalista americano prestes a ser decapitado por um carrasco encapuzado, exibido até à náusea por todos os meios disponíveis como veículo de propaganda da face mais repugnante do islamismo radical. E depois disto voltam os baldes de água fria. Ou o bebé assassinado pelo pai. Ou um banco em crise. Ou a contratação do enésimo "reforço" para um clube de futebol. Ou outro homicida ovacionado por "populares" à entrada de um tribunal neste país de alegados brandos costumes. Ou mais um avião que cai sabe-se lá onde, derrubado sabe-se lá por quem.

Nada choca, nada impressiona, nada fica, nada se retém numa sociedade narcísica onde se dilui a noção de privacidade à medida que tudo se "partilha" no instagram e no facebook, e que elege as selfies como supremo grito da moda: virar a câmara não para o mundo ou para os outros mas para o próprio fotógrafo que transforma o foco digital em espelho. A palavra eu sobrepondo-se à palavra tu e à palavra nós.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A fechar o ano

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.12.15

rhaccxcdlgmycbwtvvks.jpg

(Bansky) 

 

"Moving forward, Europe must rediscover a progressive sense of universal values, something that the continent’s liberals have largely abandoned, albeit in different ways. On the one hand, there is a section of the left that has combined relativism and multiculturalism, arguing that the very notion of universal values is in some sense racist. On the other, there are those, exemplified by such French assimilationists as the philosopher Bernard-Henri Lévy, who insist on upholding traditional Enlightenment values but who do so in a tribal fashion that presumes a clash of civilizations." - Kenan Malik, The Failure of Multiculturalism

 

A diversos níveis, 2015 foi um ano de grande turbulência. Política e socialmente, na Europa e fora dela. O ano que se prepara para chegar ao fim foi também um ano de catástrofes naturais, de acidentes no ar, no mar, na terra, debaixo dela também, e sabe-se lá onde mais, de terrorismo, de pungentes dramas humanos, enfim, numa palavra, um ano de tragédias, um ano de excessos e radicalismos perigosos e inusitados. Sabemos hoje que se a nossa mão tem tido um papel no desenvolvimento, nos avanços técnicos e científicos que têm servido para minorar o sofrimento de muitos, a sua acção tem servido igualmente para acelerar desgraças, seja pela forma imponderada como se tem olhado para as questões do clima, cujos efeitos nefastos se fazem sentir com cada vez maior frequência, seja pela leviandade com que se mercantilizam direitos e obrigações, humanos e desumanas, ignorando-se questões essenciais para a nossa sobrevivência, para a construção de sociedades mais decentes e mais justas, e para o equilíbrio da nossa espécie e das que connosco sobrevivem e com as quais repartimos o espaço e o ar que respiramos. A falta de líderes e políticos preparados, responsáveis, sérios, interessados pelas questões que nos afectam, com estatura e pedigree não explica tudo. Nenhum de nós tem uma varinha mágica para resolver os problemas que nos afligem. Da nossa rua à nossa cidade, do nosso país ao mundo há, porém, muita coisa que pode ser feita sem custos, apenas com um pouco de esforço, olhando com olhos de ver, pensando no que merece ser pensado e discutido. Não podemos fugir de nós próprios, estamos condenados a viver e a compartilhar alegrias, dramas e sobressaltos. Há muitas maneiras de o fazermos e todas as que possam fazer-nos sair da modorra, do conformismo, da inércia, e que sejam susceptíveis de nos obrigar a agir são legítimas. Se por vezes é preciso falar das coisas a brincar, muitas vezes mesmo gozando com as situações, ironizando, satirizando, provocando, gerando desconforto, incomodidade, reacções contraditórias de amor e ódio naqueles que nos rodeiam, outras haverá em que temos de nos confrontar com o que fizemos, com o que não fizemos e com o que ficou por fazer devendo ter sido feito. Nas páginas deste e de outros blogues, nos meus textos avulsos, em redes sociais, em jornais, em debates ou em seminários e conferências, escrevendo cartas, confrontando os poderes formais e informais, por vezes sendo voluntariamente excessivo na adjectivação, contundente na farpa, incisivo na crítica, porque achei que assim devia ter sido, porque águas paradas não movem montanhas, porque é a indiferença que nos mata, que nos mói e que vai corroendo os alicerces da nossa vida colectiva, fui dando conta das minhas preocupações, muitas vezes enaltecendo posições que não são as minhas nem as que defendo apenas para obrigar os outros a reagirem. Um texto que gere a indiferença não serve para nada. É um amontoado de palavras. Até poderá ser um jogo de imagens agradáveis, bonitas, sensíveis, mas não passará disso mesmo, de uma inutilidade, de um desperdício sem consequências de maior. A sua função esgota-se com a composição e dissipa-se com a leitura. O que aqui ficou registado deve também ser visto nesta perspectiva. E como nos próximos dias muitos terão tempo - os que puderem ou tiverem pachorra - para foliar e descansar, aproveitando a circunstância do primeiro de Janeiro coincidir com uma sexta-feira, resolvi aqui deixar-vos a frase que acima transcrevi e convidar-vos a, num momento mais sossegado, perderem algum tempo a ler este texto de Kenan Malik. Penso que seria uma forma saudável de terminarem este ano antes de se atirarem ao próximo, aos encontrões, ao marisco, ao leitão, às passas, ao champanhe e a outros excessos da nossa "civilização", hoje mais dada ao insulto, à estupidez, à vacuidade e à veneração da mediocridade, apesar de excessivamente sensível para algumas coisas menores que deveriam merecer o nosso desprezo. Espero que a leitura, desta vez, não vos tenha sido indigesta, e que no próximo ano tenhamos todos direito à criminalização da imundície, de toda, e da idiotia. Entretanto, desejo-vos um ano farto. De saúde, porque sem ela nada feito, de luz e de paz, a começar pela de espírito, esperando que se continuem a indignar, criticar, exaltar, amofinar com o que por aqui vou deixando. Será sinal de que estão vivos, de que este blogue continuará o seu caminho e de que eu continuarei a ter motivos para aqui voltar quando me apetecer para exercer a minha cidadania. Quanto mais não seja para de vez em quando vos ir provocando a exercerem a vossa. De preferência num português inteligível. E a deixarem os vossos piropos, mesmo os mais ordinários, mesmo os destinados ao desprezo e à censura, com tesura. Porque a liberdade também passa por aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Penso rápido (68)

por Pedro Correia, em 02.07.15

Há sempre modelos alternativos. Na Rússia vigora um. Na Grécia há outro em marcha. Na Venezuela existe outro ainda, desde 1999. Já para não falar do cubano, muito mais antigo. Ou do norte-coreano, aliás inconfundível.
E há o chinês, o angolano, o saudita. O do Irão, o da Bielo-Rússia, o da Guiné-Bissau.
Tudo visto e somado, talvez o modelo da democracia liberal europeia seja, como dizia Churchill, o menos mau de todos.

Isto não me provoca qualquer estranheza. O que não cessa de me espantar é haver quem defenda modelos diferentes instalado no lado de cá.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O "rosto humano" dos homicidas

por Pedro Correia, em 31.03.15

germanwings-airbus-a320-crash-site-new-650_650x400

 

Nunca cessarei de me espantar com o reduzido valor da vida humana na moeda corrente do tráfego noticioso. Um indivíduo comete um crime horroroso, arrastando com premeditação para a morte centena e meia de inocentes a bordo de um avião como se fossem reses a caminho do açougue. E logo de todo o lado despontam peças amáveis, que o tratam familiarmente pelo nome próprio, atribuem o massacre de que foi responsável aos efeitos de uma arreliadora "depressão", difundem incessantemente fotografias do pacato e risonho rapaz que seria antes de se ter "descontrolado" e divulgam testemunhos abonatórios acerca da personalidade do visado, assegurando ao mundo que se tratava de uma pessoa tranquila, um rapaz "competente e sonhador".

E - cherchez la femme - jamais esquecem de mencionar, vezes sem conta, que o sujeito se viu abandonado pela namorada. Sugerindo assim ao leitor ou espectador incauto que a responsabilidade suprema do massacre não terá sido do assassino mas da rapariga que recusou prolongar o namoro. Nestes momentos surge sempre um psicólogo a referir a condição depressiva como causa do "acidente" (benigno vocábulo utilizado em profusão) e talvez nem falte até um sociólogo de pacotilha a designar o indivíduo como "vítima" de uma sociedade injusta ou do sistema capitalista, que "é por natureza repressor".

 

Já lemos e ouvimos de tudo nesta sociedade-espectáculo que cultiva a emoção em sessões contínuas mas segmentadas em capítulos sucintos e precários. Por isso a indignação de muito boa gente tem prazos de validade cada vez mais curtos e é dirigida a alvos móveis, que variam consoante a tendência do momento.

Neste caso, por exemplo, a primeira vaga de estridência nas redes sociais dirigiu-se contra a idade avançada da aeronave da Germanwings, uma companhia aérea de baixo custo integrada no grupo Lufthansa. Sem investigação, sem aprofundamento dos factos, sem nada comprovado: bastou alguém acender um rastilho para logo milhares de almas ferverem de fúria contra a companhia aérea que se permitia utilizar aparelhos tão "antigos". Na escala de valores contemporâneos, como sabemos, ser novo é sinónimo de ser bom.

 

O problema é que não se tratou de um "acidente", não foi um azar, não foi um capricho divino. Foi um homicídio premeditado pelo tal jovem sorridente e desportivo cujas imagens nos invadem o domicílio à hora dos telediários. Com o nome impresso por toda a parte, irresistível tentação para outros psicopatas que anseiam por minutos de fama à custa do sangue alheio.

Em vez uma bomba ou uma AK-47, o tal tipo amável optou antes por um Airbus 320 como instrumento do massacre. “Descontrolou-se”, repete alguém. Como já sucedera com aquele assassino norueguês, um monstro de sorriso gélido que em 2011 matou a sangue-frio 77 adolescentes num acampamento de Verão.

Também ele contou com a benevolência de psiquiatras que logo o consideraram “inimputável” – como se o mal não estivesse inscrito desde os confins dos tempos na condição humana. Também ele teve o nome e o rosto impressos por toda a parte.

Um e outro, celebridades instantâneas à escala planetária. Neste mesmo mundo em que tantos benfeitores permanecem anónimos e jamais serão procurados para notícia de telejornal.

 

Leitura complementar:

A glória póstuma do assassino

A barbárie está no meio de nós

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vermelho em fundo branco

por Ana Lima, em 13.02.15

 

 

 

Uma perspectiva interessante:Swissleaks.jpg

 A explicação e outras informações aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Consequências...

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.02.15

... do fundamentalismo religioso e ideológico e da falta de bom senso. O primarismo está onde menos se espera.

Autoria e outros dados (tags, etc)

texto roubado ao mural do facebook do autor

por Patrícia Reis, em 04.02.15

As Novas Cortinas de Ferro
Back to the Cold War

Tsipras espera que a promiscuidade do Syriza com a Rússia assuste Merkel. A chanceler cresceu na RDA e as ligações de um partido comunista a Moscovo podem despertar uma certa nostalgia.
A Grécia tem historial de causar tensões entre o ocidente e o leste. Foi assim no pós-Viena, na mesma década da Questão Oriental que viria a dar a Guerra da Crimeia em 1853. Os ortodoxos seduziram um czar conservador a patrocinar uma revolução, obrigando os ingleses a meter o nariz e um príncipe germânico a tomar conta.
Com a bipolaridade de final do século XX, os helénicos voltaram a obrigar o ocidente a intervir, face à influência soviética nos revolucionários de esquerda. Desta feita, os americanos em vez do Concerto Vienense.
Até quando podemos negar o reemergir da Guerra Fria?
O encontro de Alexis Tsipras com Putin, as suas posições contra as sanções económicas à invasão da Crimeia (a Crimeia outra vez...) e a sua aliança com os Gregos Independentes (a direita ortodoxa outra vez...) querem inverter o desequilíbrio comportamental de Bruxelas, que é mansa com os brutos e bruta com os mansos.
Tsipras está a dizer "Ou se deixam de coisas ou prefiro ser um satélite russo a um escravo europeu". Merkel andará descansada devido à fragilidade económica dos russos, mas num mundo que perdeu a sua bipolaridade será interessante ver como reage a China ao ver Atenas "à venda" e com vontade de mudar de senhoria e a reação dos EUA a tudo isto com um Presidente Republicano a caminho.
Gostava de saber onde é que o Sr. Fukuyama - que declara o "fim da história" quando ela se repete inevitavelmente - enfiou as ilhas de paz e o Sr. Coelho viu o conto de fadas.

 

Sebastião Bugalho, via FB, estudante, 19 anos

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma vivência pessoal do tsunami de 2004

por João André, em 28.12.14

Faz agora dez anos estava eu a completar um ano de doutoramento e vida na Holanda. Chegada a época de Natal segui para Portugal, como de costume. Foi entre a família que ouvi falar do tsunami na Indonésia. Na altura não lhe prestei muita atenção. Um tsunami era algo que me tinha impressionado na altura da descrição do terramoto de Lisboa de 1755, mas tinha sido no passado, com construções mais fracas e limitado na destruição a uma cidade. Na forma como o imaginava com as primeiras informações disponíveis, este tsunami provavelmente seria uma tragédia para as pessoas na cidade afectada mas não mais.

 

Passadas umas horas começaram a chegar as informações que seria bastante mais grave. Muitos milhares estariam em risco. O tsunami teria atingido uma enorme frente costeira e atingido mais do que "simplesmente" a Indonésia. Com o tempo ficou claro que centenas de milhares de pessoas teriam morrido. Era uma tragédia enorme, uma das maiores alguma vez registadas. Era, no entanto, mais uma tragédia no outro lado do mundo, que me provocava pena e pouco mais. Não existia a sensação de proximidade.

 

Foi no dia 29, salvo erro, que tudo mudou. Nesse dia recebi - eu e os restantes membros do grupo de investigação - um e-mail que indicava que o Saiful, um nosso colega indonésio, tinha partido para a Indonésia em busca da família, a qual incluía a mulher e a filha de um ano de idade. Sem disso termos noção, o Saiful vinha precisamente da província de Aceh, a mais afectada pelo tsunami. Naquele momento a tragédia deixou de ser algo que tinha afectado um enorme grupo de pessoas a meio mundo de distância para afectar alguém que conhecíamos e com quem convivíamos todos os dias.

 

Depois da sua partida, não recebemos quaisquer notícias do Saiful por vários dias. Não sabíamos se teria conseguido chegar à zona afectada ou se teria encontrado os membros da família. A espera era angustiante, especialmente à medida que os vídeos iam chegando às nossas televisões.

 

Passados uns dias recebi um SMS do Saiful. Tinha pedido a um australiano para o enviar. Dizia que estava bem e que tinha encontrado a mulher e a filha e que o resto da família dele estava bem. Daria mais informações quando pudesse. Mais umas semanas e o Saiful estava finalmente de volta. Trazia a mulher e a filha e uma história de enorme sorte. A mulher e a filha tinham sido apanhadas pelas vagas, mas foram salvas por um vizinho que as puxara para a sua casa e as acolheu (bem como a muitas outras pessoas) no telhado da sua casa. O resto da família do Saiful tinha sobrevivido graças a um funeral: tinham-se deslocado ao interior do país, mais elevado, para as cerimónias fúnebres. Apenas um primo, que tinha ficado a trabalhar, tinha morrido. Perante as tragédias em volta o Saiful tinha tido bafejado pela fortuna.

 

Era no entanto uma sorte relativa. A filha ficou naturalmente traumatizada pela experiência e ficava em pânico perante ruídos súbitos ou movimentos rápidos. Quando o Saiful teve o segundo filho explicou-me que a filha acordava a gritar quando o irmão chorava à noite. Demorou vários anos a habituar-se a essas experiências e, quando o Saiful terminou o doutoramento e regressou à Indonésia para ser professor na universidade local, a filha insistia que não queria regressar. Não compreendia o porquê, mas associava instintivamente o local a algo de mau.

 

Falei recentemente com o Saiful. Tem uma vida calma e simples na Indonésia. Construiu a sua vida e ajudou a família a reconstruir as suas. A filha é agora uma criança - quase adolescente - feliz, mas que fica ainda algo carregada quando o tema passa pelo mar e ondas. Pelo que descreve, a zona onde vive é um repositório de esperança e tristeza. Um local onde o passado e o futuro convivem diariamente e o presente é apenas um ponto de passagem.

 

Não posso de forma nenhuma imaginar aquilo que as pessoas que estavam nas zonas afectadas ou lá tinham família terão sentido. Esta foi no entanto uma tragédia que, por uma vez, me afectou um pouco de forma pessoal. Isso torna-a também como menos irreal aos meus olhos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

2014-10-09-FotoPrimeira[1].jpg

 

Sou espectador assíduo da quarta temporada de Segurança Nacional, uma das melhores séries televisivas de todos os tempos. Não só pela trama, não só pela meticulosa criação de atmosferas claustrofóbicas com tendência para se adensarem de temporada em temporada e de episódio em episódio, não só pelo desempenho dos principais intérpretes (começando pela extraordinária Claire Danes, invertendo com êxito o estereótipo de protagonista de comédias românticas a que esteve associada), mas sobretudo pelo impiedoso olhar que lança sobre este nosso tempo em que se vão diluindo elementares direitos, liberdade e garantias em nome do sacrossanto e cada vez mais difuso “interesse nacional”.

 

Bem-vindos ao admirável século XXI, onde o direito à privacidade se tornou miragem e o direito à intimidade não passa de um mito. Homeland (nome original desta série norte-americana iniciada em 2011 e por sua vez inspirada numa produção televisiva israelita, intitulada Hatufim) desvenda-nos um mundo onde toda a gente espia e é espiada em simultâneo, um mundo onde nada é tão relativo como as juras de fidelidade a uma pátria ou a uma bandeira, um mundo onde os direitos fundamentais foram exilados para uma espécie de terra de ninguém, um mundo onde uma conquista civilizacional tão relevante como a clássica separação de poderes teorizada por Montesquieu parece ter sido atirada para o caixote do lixo da História.

Um mundo bipolar, onde as sombras progridem e as luzes recuam. Tão bipolar como a protagonista, Carrie Mathison – alto quadro da CIA, especialista no combate ao terrorismo islâmico, sentinela em permanente vigilância contra as teias inimigas, militante da crença na maldade intrínseca do ser humano, persuadida de que todos os meios são lícitos para atingir os fins.

 

É uma série com uma perturbante capacidade de pôr em causa muitas das nossas convicções mais firmes – desde logo a convicção de que o progresso tecnológico é um aliado natural do destino humano. No mundo que Segurança Nacional nos desvenda, pelo contrário, a tecnologia desenvolve-se na razão inversa dos valores morais e dos parâmetros éticos estabelecidos ao longo de séculos de consenso civilizacional.

É um mundo sob o contínuo escrutínio de sinais de alarme, que comprime a liberdade em nome da segurança como se fossem esferas dicotómicas ou compartimentos estanques - e que assim se vai tornando cada vez menos livre mas afinal também cada vez mais inseguro.

E não adianta colocarmo-nos de fora, resguardados na mera condição de espectadores. De algum modo tudo isto também nos diz respeito. De algum modo cada um de nós também se encontra lá.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Admirável Mundo Novo

por Ana Vidal, em 04.08.14

Do século XXI ao paleolítico inferior, sem passar pela casa da partida.

Foi para isto que evoluímos?

 

*(obrigada pelo empréstimo do título, caro Aldous)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Louco Mundo Louco

por Francisca Prieto, em 23.05.14

Depois de, logo pela fresca, ter dado de caras com esta notícia em que Le Pen argumenta os benefícios do ébola para resolver o problema da imigração na Europa, e de, mesmo agora, verificar aqui que a Noruega acaba de legalizar a hipótese de crianças deficientes serem abandonadas pelos pais, estou em estado de decretar que o mundo está louco.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Ah?!!!

por Patrícia Reis, em 04.03.14

Leio no portal do Sapo: Putin candidato a Nobel da Paz.

Nem sei comentar. A perplexidade toma conta de mim e talvez seja melhor agarrar numa pastilha e dormir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Frase internacional de 2013

por Pedro Correia, em 19.01.14

 

«Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo.»

Malala Yousafzai

 

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Facto internacional de 2013

por Pedro Correia, em 09.01.14

GUERRA CIVIL NA SÍRIA

A guerra civil na Síria, iniciada em 2011, atingiu em 2013 um marco estatístico nada invejável ao ultrapassar a barreira das cem mil vítimas mortais. No fim do ano, segundo dados fidedignos, estavam contabilizados cerca de 130 mil mortos neste conflito, incluindo quase 12 mil mulheres e crianças. Os confrontos que opõem os insurgentes sírios à ditadura do Presidente Bachar al-Assad, no poder desde 2000, causaram já também sete milhões de desalojados, de acordo com dados das Nações Unidas.

 

Este foi o facto internacional mais relevante do ano, eleito por larga margem aqui no DELITO DE OPINIÃO. A recente morte de Nelson Mandela foi o segundo mais votado, tendo a surpreendente resignação do Papa Bento XVI ficado na terceira posição. A eleição do Papa Francisco e o acordo Irão-Estados Unidos sobre energia nuclear também justificaram votos.

Em 2010 elegemos como facto do ano, a nível internacional, as revelações da Wikileaks e em 2011 a nossa escolha recaiu nas revoltas ocorridas no mundo árabe.

Foto AFP

Autoria e outros dados (tags, etc)

A esperança em vez do medo

por Pedro Correia, em 08.12.13

 

Estes dias que se têm seguido à morte de Nelson Mandela mostraram-se muito férteis em manifestações de pesar que enaltecem o maior estadista de que há memória no continente africano, embora muitas não o façam pelo motivo mais adequado.

Sim, Mandela foi um admirável resistente a um regime iníquo. Sim, a sua tenacidade e a sua valentia são dignas de profunda admiração. Mas o que o torna superior aos demais, o que o torna realmente diferente de tantos nacionalistas africanos que também não se vergaram e resistiram à iniquidade e à opressão, aquilo que o projectará para sempre na memória colectiva das gerações vindouras é o seu exemplo ímpar de tolerância, reconciliação e diálogo num país que todas as cassandras de turno anteviam mergulhado em sangrentos conflitos étnicos e tribais.

Ao estender a mão fraterna ao inimigo de véspera, Mandela deu a todos os seus contemporâneos disseminados pelo planeta -- tenham a cor de pele, a fé religiosa ou a ideologia que tiverem -- uma extraordinária lição de dignidade humana que transcende épocas, fronteiras ou crenças. Foi uma verdadeira "fonte de inspiração", capaz de nos revelar "aquilo de que o ser humano é capaz quando é guiado pela esperança em vez do medo", como dele disse Barack Obama.

 

Retomo uma ideia já aqui muito bem expressa pela Ana Vidal: qualquer outro, no seu lugar, professaria a Lei de Talião -- o tal "olho por olho" que, como nos ensinou Gandhi, é o meio mais eficaz para tornar o mundo cego. Ele, que tinha mais razões que ninguém para impulsionar actos de vingança, apontou com rara sabedoria um rumo alternativo -- e conseguiu pô-lo em prática, não se confinando ao plano teórico -- durante cinco anos de mandato presidencial na África do Sul em que lançou os alicerces de uma sociedade verdadeiramente multirracial, congregando brancos e negros -- aqueles que agora o choram, unidos num genuíno abraço de pesar.

Um caso único de sucesso em África, o continente de todos os fracassos.

E o seu mérito não termina aí: abdicou voluntariamente do cargo supremo do país após ter cumprido um mandato presidencial, dando assim provas de um notável desapego do poder. Outro facto raríssimo em África.

 

No simples plano da convivência cívica, ao estabelecer pontes com adversários dos mais diversos matizes, Mandela soube ser grande. E único.

É tristemente irónico vê-lo agora enaltecido por todos quantos ignoram deliberadamente o seu exemplo, pregando nas colunas de opinião e no espaço público um exacerbado radicalismo, argamassado no ódio a quem pensa de maneira diferente e no desprezo pelas posições moderadas, racionais e não-extremistas.

Um pouco por toda a parte, neste mundo de múltiplas indignações plasmadas nas redes sociais, vivemos uma espécie de guerra civil de baixa intensidade. Que vê em cada palavra de bondade um sinal de fraqueza. Que faz de cada tribuna uma trincheira de rancor. Que imagina um inimigo oculto em cada divergência. Que transforma cada opinião discordante em casus belli. Que esmaga cada tese contrária com a fúria de um combatente apostado em não recolher prisioneiros nem respeitar convenções de Genebra.

 

Dizem admirar Mandela enquanto ignoram tudo quanto de essencial Mandela nos ensinou.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Na minha leitura diária dos posts do Delito detive-me neste da Patrícia. E pensei logo nesta entrevista que li hoje. É um facto que as ideias não são novas. Mas é bom que, nestes tempos em que a Economia e a sua linguagem imperam, possamos encontrar quem chame a atenção para outras formas de ver. E que lucidez, a deste autor!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Portugal e o mundo cinco anos depois

por Pedro Correia, em 12.10.13

Não sei se muita gente tem também este hábito: gosto de guardar jornais para mais tarde os confrontar com os efeitos da passagem do tempo.

Esta manhã, por coincidência, peguei num exemplar do Público datado de 12 de Outubro de 2008. Faz hoje precisamente cinco anos. E dei por mim a folheá-lo como se tivesse acabado de adquiri-lo numa banca.

A manchete situa-nos num facto concreto, no tempo e no espaço, que ainda hoje influencia -- e de que maneira -- o nosso quotidiano. Vivíamos as primeiras etapas visíveis da gravíssima crise em que permanecemos mergulhados e os políticos ensaiavam soluções de desfecho incerto. Incluindo a que surge estampada no título principal desta edição: "Europa e EUA nacionalizam bancos para sossegar bolsas".

Era um domingo, véspera de um encontro de emergência dos líderes da zona euro, a decorrer em Paris, enquanto no outro lado do Atlântico a General Motors e a Chrysler estudavam a possibilidade de uma fusão para sobreviver à pior crise do mercado automóvel em década e meia.

A ministra francesa das Finanças, uma tal de Christine Lagarde, admitia que os Estados europeus entrassem "ainda mais no capital dos bancos que se encontrem descapitalizados". Bem sabemos, à escala portuguesa, onde nos conduziu esta via, justificada para travar os cenários de colapso do sistema financeiro...

 

Não foi por falta de aviso para quem sabia interpretar os sinais dos tempos.

Na contracapa, Vasco Pulido Valente punha em causa a prioridade legislativa à agenda de costumes então muito em voga: "Na Assembleia da República, a esquerda e a direita tratam, com toda a seriedade, do casamento de homossexuais. Concordo inteiramente que a lei aprove o casamento de homossexuais. Mas, com o Ocidente à beira da falência, já para não falar de Portugal, essa não parece a prioridade do dia. (...) Talvez não fosse inútil imaginar como acabaria o País se a recessão americana (hoje inevitável) durasse, por exemplo, meia dúzia de anos; se a 'Europa' se desintegrasse ou enfraquecesse; ou se a esquerda e a direita voltassem, por força da necessidade, às nacionalizações de 1975. Compreendo que estas coisas deprimem e que, pelo contrário, o casamento de homossexuais puxa muito mais pela parlapatice."

Pulido Valente, com uma sagacidade imutável, pregava em vão. Porque Portugal parecia imune aos ventos da história. Uma investigação feita pelo jornalista Ricardo Dias Felner ao obscuro mundo das despesas do Estado feitas por ajuste directo, decorrente das alterações à lei da contratação pública, permitia concluir os mais desvairados gastos: "O gabinete de Sócrates reforçou a adega com sete mil euros em garrafas de vinho. O Ministério da Justiça comprou oito carpetes por 22 mil euros." Serviços de restauração, no âmbito de eventos camarários, equivalentes a quase 70 mil euros. Aluguer de "vários autocarros" pelo município de Gondomar: 33.250 euros. Cachê gasto pela câmara de Lagoa aos Da Weasel: 28.200 euros. Actuação de Rui Veloso a convite da autarquia de Elvas: 28.600 euros.

Especificava-se que as garrafas de vinho remetidas ao gabinete do primeiro-ministro eram da marca Quinta do Vale Meão, tinto, colheita de 2006, e destinavam-se a "oferta a entidades estrangeiras".

 

 

No estrangeiro, registava-se a morte de Joerg Haider, líder da direita nacionalista austríaca, ao volante de um veículo em excesso de velocidade. Sarah Palin, candidata à vice-presidência dos Estados Unidos por designação do republicano John McCain, enfrentava acusações de abuso de poder quando exercera funções de governadora do Alasca. O Público concedia-lhe foto a duas colunas, na primeira página. E questionava os leitores em título da página 2, dedicado à campanha eleitoral em curso nos EUA: "Abuso de poder de Palin é ferida mortal para John McCain?"

A imagem de McCain com o candidato democrata Barack Obama permite concluir que o actual inquilino da Casa Branca envelheceu bastante nestes cinco anos. McCain permanece no Senado. De Palin, estrela cadente, pouco ou nada se tem ouvido.

 

Há um anúncio de página inteira em que o Público felicita o primeiro aniversário de um jornal gratuito chamado Sexta. Vivia-se nessa época a febre dos "gratuitos", concebidos à semelhança dos folhetos de supermercado. Uma febre tão efémera quanto nefasta para o verdadeiro jornalismo.

Deste Sexta, confesso, não guardo qualquer memória. Mas a festa de aniversário deve ter sido de arromba. Embora menos dispensiosa do que a passagem de Marco Paulo, um verdadeiro artista português, pelo concelho de Lagoa, a expensas do contribuinte, pela módica quantia de 20.400 euros.

Notícias como esta, lidas à distância de cinco anos, ajudam a explicar o estado a que Portugal chegou.

 

E que mais?

Paulo Bento, na pele de técnico principal do Sporting, insurge-se contra as críticas, queixando-se da "pressão exterior", com o seguinte desabafo: "Toda a gente percebe de futebol menos o treinador". Isto enquanto o Presidente Cavaco Silva, supremo treinador do reino, evocava o "espírito" de Aljubarrota para enfrentar as "adversídades" do presente.

Cinco anos depois, há coisas que não mudam.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O mundo lá fora

por Patrícia Reis, em 23.08.13

O mundo. Lá fora. No on-line leio sobre os incêndios, leio sobre dois adolescentes que mataram um atleta, por puro gozo, leio coisas sobre as quais preferia não ler. Manoel de Barros diz que os cavalos são mais perfeitos que o mundo. Os livros são uma cápsula protectora. O mundo? Está lá fora.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tempo de incertezas

por Pedro Correia, em 05.07.13

 

Alguns nostálgicos do Egipto de Mubarak garantem em blogues que os problemas actuais naquele país se devem à deposição do ditador, em Fevereiro de 2011. É tão absurdo afirmar isto como sustentar que o PREC foi consequência da cadeira mal armada onde Salazar se sentou numa manhã de Agosto de 1968, no forte de Santo António. Não explica nada, não justifica nada, não projecta a menor luz sobre o problema, mas alivia algumas consciências que sentem a irresistível tentação de prever sempre o pior para depois poderem proclamar que tinham razão. Seria mais fácil seguirem a velha fórmula de Vasco Pulido Valente: "O mundo está perigoso." De alguma forma acertavam sempre.

Estas Cassandras sentem a nostalgia de um mundo arrumadinho e cheio de etiquetas, onde era fácil traçar diagnósticos e fazer previsões. Um mundo sem redes sociais, sem internet, sem globalização, sem a "voz da rua" a propagar-se de continente em continente. Um mundo de fronteiras esbatidas, onde o indignado de Teerão pode ser cúmplice do indignado de São Paulo, a multidão tronitruante em Alexandria provoca ecos em Barcelona e os protestos em Istambul se escutam em tempo real em todas as latitudes.

A única certeza que temos é a de vivermos num tempo de incertezas. Gostaria de vaticinar que destes anos tumultuosos que vamos testemunhando sairá um mundo mais livre. A isso me induz a comparação entre 2013 e 1913: o ser humano aumentou em décadas a esperança de vida, foram debeladas doenças epidémicas, a maioria dos habitantes do planeta vive hoje em países democráticos, as generalizadas sombras da guerra deram lugar a inúmeras peregrinações pela paz.

Mas sei bem que a história é feita de linhas sinuosas, não de rectas. Os amanhãs não cantam - talvez até chorem. Devemos estar sempre preparados para o pior.

Depois não digam que não avisei.

 

Imagem: multidão em protesto na praça Tahrir, no Cairo (Foto Reuters, 29 de Junho)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Brasil e o resto

por jpt, em 24.06.13

 

Leio agora muito menos (em) blogs do que há anos atrás. Por isso qualquer minha tentativa de metabloguismo será muito coxa. Mas ainda assim ... Este fim-de-semana usei as ligações aqui no Delito de Opinião (e também o método da "bola de neve") para procurar no bloguismo português informações e opiniões sobre a situação brasileira e também sobre a já mais recuada notícia da vasculha, muito Huxley/Orwell, que o governo americano vem realizando. Sobre o Brasil notei dois consistentes textos de Francisco José Viegas "Brasil, o princípio do fim do embuste" e "Brasil, notas avulsas, 1". E nada mais que seja relevante. 

 

Sintomático também o silêncio substantivo dos blogs portugueses mais à esquerda sobre os assuntos. Habitualmente pressurosos, e até frenéticos, no acompanhamento entusiástico de qualquer "indignismo" internacional, a enorme agitação popular no "país irmão" passa relativamente despercebida. Porque cabe mal na topologia habitual? Risca o brilho das solidariedades ou o peso das argumentações havidas? Silêncio também sobre a histriónica vigilância nos EUA. Mais sintomático ainda, pois nos últimos anos o olhar e o teclar sobre os EUA foi constante, em muito mimetizando a antítese democratas-republicanos, óbvio sinal da crise dos marxismos europeus (e também do pensamento de direita). Se o "bushismo" alastou na blogo-ala liberal (ainda que Bush não tivesse sido um liberal) o "obamismo" foi um devaneio socialista-bloquista constante. Agora o silêncio. Estou certo que se Obama não fosse mulato, apenas um branco, os blogo-bramidos ouvir-se-iam. É o racismo, "positivo", se quiserem, mas racista. Mas não só. É mesmo o poço ideológico. 

 

Conviria lembrar isto diante de tantas certezas que vão sendo apontadas sobre tantos outros assuntos, mais ou menos "indignistas". Tão encastradas costumam ser.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Margaret Thatcher: as ideias contam

por Pedro Correia, em 17.04.13

 

«She redefined leadership.»

Editorial do Financial Times, 9 de Abril

  

Ao fazer o elogio fúnebre de Margaret Thatcher na Câmara dos Comuns, com uma elegância perante os adversários políticos em que os britânicos são exímios, o líder trabalhista Ed Miliband prestou-lhe o maior dos tributos ao declarar: «As ideias contam.»

De facto, em política as ideias contam. E Margaret Thatcher nunca as ocultou. Os eleitores que lhe deram três grandes vitórias eleitorais sabiam em quem votavam e as consequências do seu voto. Foi precursora da globalização ao advogar a liberdade dos mercados. Vitoriosa na Guerra Fria, contribuiu para a derrocada do "socialismo real". Influente na Europa, recusou com firmeza as políticas federalistas, incluindo a moeda única.

Sim, ela pôs as ideias em primeiro lugar. Ela pertencia a um tempo em que a política precedia tudo o resto na acção governativa, em que havia escolhas claras nas urnas - um tempo de esquerda e direita que se combatiam com frontalidade e lealdade, não a direita liofilizada e a esquerda descafeinada que surgiram depois, quase gémeas siamesas, cada qual copiando o projecto da outra ao ponto de quase se confundirem.

  

 

Thatcher, primeira mulher a ascender à chefia de um Executivo na Europa, ultrapassando em longevidade governativa todos os restantes primeiros-ministros britânicos no século XX, era inconfundível com qualquer dos adversários trabalhistas que defrontou nas urnas - James Callaghan em 1979, Michael Foot em 1983 e Neil Kinnock em 1987. Chegou ao poder em Maio de 1979, com 53 anos, dizendo claramente ao que vinha: devolver ao Reino Unido (a que ela chama sempre Britain, com entoação orgulhosa) a prosperidade económica e o prestígio internacional entretanto perdidos, combater a influência soviética no mundo e reforçar a parceria atlântica com os Estados Unidos, evitando a sujeição do seu país ao federalismo europeu e àquilo a que designava desdenhosamente de "burocracia de Bruxelas".

 

Houve sombras no seu mandato, como sempre sucede em mandatos longos. Os adversários acusaram-na de insensibilidade social - e muitas vezes tinham razão. Foi incapaz de solucionar o bloqueio político na Irlanda do Norte - e ainda hoje causa perplexidade a forma impiedosa como deixou morrer na prisão alguns grevistas de fome que militavam no IRA, incluindo Bobby Sands. Não faltou, dentro das próprias fileiras conservadoras, quem a criticasse por ser arrogante - e nada podia estar mais certo. 

Já aos dez anos, ao vencer um concurso de poesia na escola, a pequena Maggie revelava essa faceta da sua personalidade: ao entregar-lhe o prémio, a professora elogiou-a por ser uma miúda "com sorte". Réplica imediata da visada: "Eu não tive sorte. Eu mereci este prémio." Mais tarde, aos seus compatriotas, nunca se cansou de referir que nada se alcança sem esforço.

 

  

No essencial, Margaret Hilda Roberts Thatcher, cujo funeral decorreu esta manhã com honras de Estado em Londres, teve razão. Contra a esquerda sua contemporânea, que demasiadas vezes a contestou por razões erradas e viria a adoptar boa parte do seu legado.

Teve razão ao fazer recuar as fronteiras de um Estado ineficaz e tentacular, que mergulhara o Reino Unido num longo Inverno recessivo, abrindo espaço à iniciativa privada. 

Teve razão ao recusar manter o aparelho estatal como motor da economia, pondo fim ao ciclo inflacionista que conduzira o país à ruína económica e transformando Londres num baluarte do sistema financeiro internacional. 

Teve razão ao combater com tenacidade os velhos dinossauros comunistas na Europa de Leste enquanto encorajava a acção reformista de Gorbatchov em Moscovo, dizendo ao mundo que ele era um homem com quem se podia "trabalhar": sem a sua firmeza diplomática, talvez o Muro de Berlim não tivesse caído tão cedo. 

Teve razão ao insurgir-se contra o centralismo de Bruxelas, ao recusar a diluição da libra esterlina no sistema monetário europeu e ao lançar repetidos alertas contra a Europa federal, em defesa do Estado-nação: o pesadelo em que se transformou a União Europeia dirigida por burocratas sem visão política acabou por dar razão às suas advertências. 

Teve razão ainda ao defender com firmeza a soberania britânica nas Malvinas, correspondendo ao desejo quase unânime dos habitantes do arquipélago, e ao enfrentar a política de canhoneira do general Galtieri, na altura apoiada por muitas vozes "progressistas" na Europa em nome do anticolonialismo. A vitória militar britânica no Atlântico Sul permitiu que a Argentina se libertasse enfim daquela que foi provavelmente a mais repugnante de todas as ditaduras militares da América do Sul. 

 

 Raros políticos emprestaram o seu nome ao vocabulário comum. Aconteceu com Margaret Thatcher: o thatcherismo foi um vocábulo que entrou no dicionário. Definindo, no essencial, um conceito que alarga as fronteiras da liberdade: também aqui ela esteve no lado certo. "Não pode haver liberdade sem liberdade económica", declarou num dos seus discursos esta filha de um merceeiro de província que na infância morou numa casa sem WC interno nem água corrente. 

"Ela transformou toda a economia britânica do lado da oferta", observou Patrick Minford, professor de Economia em Cardiff. Quando Thatcher deixou Downing Street em Novembro de 1990, empurrada pelos barões do seu partido e não pelos eleitores, o número de accionistas privados no país subira de 3 para 12 milhões e a inflação caíra de 22% para 4%. O crescimento anual médio do Reino Unido, nesses 11 anos, foi de 2,3% - o aumento real do PIB cifrou-se em 4% em 1986, 4,6% em 1987 e 5% em 1988. "Entre 1980 e 2000, registou-se o primeiro período em que o PIB per capita do Reino Unido cresceu mais do que em qualquer outra grande economia europeia desde o século XIX", sublinhava há dias Martin Wolf no Financial Times

Escolhas políticas claras somadas ao sucesso económico: não admira que o prestigiado The Times tenha votado nela como a quinta melhor chefe do Governo britânico, entre 50, desde o século XVIII (logo atrás de Churchill, Lloyd George, Gladstone e William Pitt). Quando chegou ao poder, o Reino Unido vivia mergulhado na decadência social e na asfixia económica. Com ela, recuperou a sua voz autorizada e prestigiada na cena política internacional. 

 

"Ela será sempre para nós, polacos, um ícone do mundo livre e da luta pela liberdade", disse o eurodeputado polaco Jacek Saryusz-Wolski em declarações difundidas pela Euronews neste dia em que o funeral da antiga Dama de Ferro decorreu na presença de representantes de 170 países e com 1200 jornalistas credenciados para esse efeito em Londres. 

Um dos seus adversários políticos, o ex-primeiro-ministro trabalhista Tony Blair (1997-2007), foi um dos primeiros a prestar-lhe homenagem com estas palavras divulgadas mal foi conhecida a morte da sua antecessora, a 8 de Abril: "Muito poucos líderes conseguem mudar não só o panorama político do seu país mas do próprio mundo. Margaret Thatcher foi um desses líderes. E algumas das mudanças que introduziu na Grã-Bretanha foram, pelo menos em certas áreas, mantidas pelo Governo trabalhista a partir de 1997 e foram adoptadas por governos de todo o mundo." 

Não por acaso, quando certa vez perguntaram à mulher que derrubou Galtieri qual havia sido a maior marca do seu mandato, ela respondeu com humor tipicamente britânico: "Tony Blair." 

As ideias contam, afinal.

Publicado também aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

O passado não regressa

por Pedro Correia, em 09.04.13

 

É impossível usufruirmos do melhor de dois mundos. Não há benefícios sem sacrifícios.

Do qual estamos afinal, nós, europeus, dispostos a abdicar?

Não podemos fechar as fronteiras nem travar a torrente globalizadora.
Já não vivemos no tempo dos amplos mercados coloniais, nem das matérias-primas a desaguar na Europa a baixos preços, nem da natalidade elevadíssima, nem dos níveis de crescimento económico superiores a 5% que fizeram do nosso continente o que é, nas três décadas posteriores ao pós-guerra, e permitiram que o Estado-providência se tornasse no que se tornou.

Temos graves problemas estruturais numa zona euro mergulhada em recessão. Enquanto outras parte do globo crescem.

O Plano Marshall é irrepetível. E, se o não fosse, apontaria noutras direcções. Porque a guerra na Europa terminou há 68 anos.


De que parcela deste Estado-providência estamos dispostos a abdicar?

Que nível fiscal estamos dispostos a suportar?

Aceitaremos a redução das pensões de reforma para adequar os pagamentos ao nível de contribuições existente quebrando um pacto intergeracional devido às novas imposições da demografia? Ou, em alternativa, deverão cada vez menos cidadãos suportar contribuições cada vez maiores?
E estas perguntas não são retóricas. São cruciais. Iludi-las não nos conduzirá a lado nenhum. Ou antes: conduzirá ao progressivo definhamento da Europa, que vista de outras paragens parece uma senhora parada no tempo, alimentando-se da difusa nostalgia de um passado que não regressa.

Uma espécie de Gloria Swanson em Sunset Boulevard.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O sarilho da Coreia do Norte.

por Luís Menezes Leitão, em 11.03.13

 

Multiplicam-se cada vez mais os sinais de que pode estar iminente um ataque nuclear da Coreia do Norte aos seus vizinhos do Sul. A Coreia do Norte, de quem o deputado Bernardino Soares uma vez disse que tinha dúvidas que não fosse uma democracia, é um país que consegue escapar a toda a lógica nas relações internacionais. Em primeiro lugar, a guerra da Coreia foi a única vez em que as Nações Unidas — em virtude da ausência do delegado soviético — conseguiram determinar o envio de forças próprias para combater na península, já que em ocasiões posteriores limitaram-se a autorizar o uso da força por Estados Membros. Paradoxalmente tal levou a que as Nações Unidas nunca tivessem conseguido ser vistas como árbitro pelo regime norte-coreano, que considera todas as suas resoluções como declarações de guerra.

 

A guerra da Coreia terminou de forma ambígua. Depois de MacArthur ter conseguido uma reviravolta extraordinária, que o levou mesmo a tomar Piongyang, a entrada da China no conflito obrigou-o a recuar novamente até ao paralelo 38. A sua proposta de iniciar um conflito nuclear com a China, que inevitavelmente se estenderia à União Soviética, acarretou, porém, a sua demissão, tendo então Truman formulado a doutrina que durou toda a guerra fria: as grandes potências não atacariam directamente as outras potências, travando a guerra em palcos limitados. Tivemos assim sucessivas guerras ao domicílio, como o Vietname, Angola ou o Afeganistão.

 

O fim da guerra fria e a proliferação nuclear alteraram os dados do problema. Juntamente outros países, como Israel, Índia e Paquistão, a Coreia do Norte acedeu ao clube nuclear, permitindo-se fazer exercícios de lançamento de mísseis ao mesmo tempo que os Estados Unidos proclamavam existir armas de destruição maciça no Iraque. E como lá não há petróleo, mas apenas uma monarquia de fanáticos, é bem previsível que as coisas dêem para o torto. Mergulhado numa crise económica sem precedentes, não faltava mais nada ao Ocidente do que este novo sarilho. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Amanhã vão crucificar um homem

por Teresa Ribeiro, em 05.03.13

A crucificação ainda se pratica. Vai ser amanhã, na Arábia Saudita. O infeliz contemplado é um jovem que há uns anos liderou um gang de adolescentes que assaltou umas joalharias. Teve primeiro que crescer até à idade adulta na prisão, que os sauditas são muito escrupulosos e não crucificam menores. Aos seus companheiros de infortúnio foi aplicada uma pena mais branda: serão decapitados com uma espada.

O que podemos fazer? Ao menos divulgá-lo. E expressar o nojo que nos merecem as civilizações que desprezam a nossa mas se aproveitam dela. Cujos líderes adoram a nossa tecnologia, mas descartam os valores que evoluíram com ela, condenando a sua gente a viver na Idade Média. Se gostam tanto dessa pureza abdiquem dos aviões, dos automóveis e da Internet. Desprezem-nos mas em tudo. Dividam as águas, arredem pé deste nosso patamar civilizacional e comprem com o dinheiro do petróleo muitos camelos, tendas e tapetes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Uma boa notícia

por Ana Vidal, em 23.01.13

 

Quase um ano depois do suicídio de uma adolescente que tinha sido forçada a casar com o homem que a violou, o Governo marroquino anunciou que vai alterar o Código Penal para proibir uma prática tradicional que continua a ser aceite pelos tribunais.

 

Perturbada com a história dramática de Amina Filali, sobre esta lei aberrante escrevi isto no Delito, há quase um ano. Graças à intervenção incansável dos activistas dos direitos humanos em Marrocos e às inúmeras manifestações internacionais de indignação perante esta prática legal, a lei vai, finalmente, ser revista. É pouco, dir-me-ão. Claro que é pouco: os abusos sobre mulheres nos países árabes não se limitam a esta situação, há um mundo de direitos fundamentais que ainda lhes são negados. Mas é um princípio, e saúdo o rastilho que há-de atear o fogo. O mundo está em mudança, e acredito que não terá sido por acaso que o ministério para o Desenvolvimento Social de Marrocos foi entregue a uma mulher.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Anda, vem lá.

por Gui Abreu de Lima, em 06.01.13


Insistia. Se eu fosse, não teria que caminhar calado e sozinho. Nem de olhar para o mundo, no esforço de se incluir nele. Mas para que visse só o mundo, não fui. Se eu fosse, seríamos dois separados dele.


foto Gui Mohallem

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Confundir as trevas com a luz

por Pedro Correia, em 20.08.12

 

"O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva."

Vladimir Nabokov

 

As imagens estão a correr mundo: raras vezes tenho visto algo tão chocante. Nas imediações de Rustenburg, na África do Sul, a polícia abriu fogo e disparou indiscriminadamente contra uma multidão de mineiros em greve. As consequências foram trágicas: 44 mortos e pelo menos 78 feridos. O mais revoltante, nestas imagens junto à mina de platina de Lonmin, foi o aparente sangue-frio das forças policiais, que não hesitaram em atirar para matar, como se os seus alvos fossem peças de caça em vez de seres humanos.

Outras imagens impressionantes chegam-nos por estes dias da Síria, onde forças governamentais têm bombardeado colunas de civis que procuram refúgio junto da fronteira turca, a norte de Alepo, capital económica do país. Correspondentes de guerra falam em massacre indiscriminado de mulheres e crianças pelos esbirros do ditador Bachar al-Assad, armados até aos dentes. "Aqui não há prisões, só há tumbas", diz um dos rebeldes ao enviado especial do jornal espanhol El País, transmitindo uma ideia exacta do que é hoje a Síria: um país mergulhado em guerra civil apenas porque a família Assad - no poder há 40 anos - quer perpetuar o seu mando absoluto, indiferente aos clamores de protesto da praça pública, por mais que isso faça correr o sangue dos cidadãos.

 

Estranhamente, ou talvez não, estes massacres não parecem suscitar ondas de indignação entre os bem-pensantes do costume. Em Lisboa, por exemplo, as habituais agremiações de manifestantes nem sequer convocaram uma concentração junto à embaixada da África do Sul. Não houve um comunicado. Nem uma declaração. Nem uma frase a exigir justiça ao Presidente Jacob Zuma.

O rastilho da indignação fácil vira-se agora para Londres, onde Julian Assange está refugiado na embaixada do Equador, país que lhe garantiu "asilo político". Chovem protestos contra as autoridades britânicas por não deixarem este australiano que é acusado de ter cometido crimes sexuais na Suécia partir para Quito. A justiça sueca pediu a extradição, a justiça britânica autorizou, mas o Presidente equatoriano, Rafael Correa, mantém Assange à sua guarda por recear - diz ele - pela integridade física ou até pela vida do fundador da WikiLeaks.

Como se a Suécia não fosse o país mais respeitador dos direitos humanos que conhecemos, onde qualquer cidadão pode confiar nas instituições - muito mais do que no Equador, onde toda a imprensa independente tem vindo a ser ferozmente reprimida pelo Presidente Correa e os seus sequazes do poder judicial. Como se o respeitável estatuto de refugiado político possa aplicar-se a alguém acusado de um delito comum. O Guardian - um dos cinco jornais com repercussão mundial que deram eco às fugas de informação produzidas pela WikiLeaks - deixa bem clara a sua posição: "tanto em termos legais como em termos morais", Assange não tem direito a tal estatuto.

 

Com 44 vítimas indefesas que tombaram sob uma chuva de balas na África do Sul, à mercê de uma inqualificável repressão policial, com inocentes a cair mortos todos os dias na Síria, a opinião pública sofisticada e envernizada prefere solidarizar-se com Assange. Um mitómano a quem aparentemente se aplica o aforismo de Truman Capote: "O excesso de êxito pode arruinar um homem tão irremediavelmente como o excesso de fracasso." Um homem que não corre risco de vida, que tem dinheiro para contratar os melhores advogados do mundo (um deles, que já trabalha na sua defesa, é o juiz espanhol Baltasar Garzón) e apenas é procurado por não ter respondido, como lhe competia, perante a justiça sueca - talvez a mais civilizada do planeta.

"O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva", dizia Vladimir Nabokov. Lamento que confundamos tantas vezes a luz com as trevas e as trevas com a luz.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Vi aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sic transit gloria mundi

por Rui Rocha, em 19.06.12

Autoria e outros dados (tags, etc)

Facto internacional do ano

por Pedro Correia, em 04.01.12

 

AS REVOLTAS NO MUNDO ÁRABE

Tudo começou na Tunísia, logo no início do ano. A 14 de Janeiro, caía Ben Ali, que governava ditatorialmente a Tunísia desde 1987. A 11 de Fevereiro, outro general-ditador era derrubado igualmente por um fortíssimo movimento popular: Hosni Mubarak cessava enfim as funções de presidente do Egipto, após 30 anos de poder tirânico. Quatro dias depois, começava na Líbia outra revolta que seis meses mais tarde conduziria ao fim do regime do coronel Muammar Kadhafi, iniciado em 1969. Outros países árabes, como o Iémene e a Síria, foram também varridos por gigantescas manifestações de rua contra poderes opressores. E as monarquias marroquina e jordana viram-se forçadas a fazer reformas políticas.

A democracia chega enfim ao Magrebe e ao Médio Oriente? É cedo para avaliar, embora na Tunísia tenha já ocorrido a primeira eleição democrática desde a independência do país, em 1956 -- uma eleição que ocorreu de forma transparente, pacífica e muito participada. Este movimento, que muitos analistas baptizaram de 'Primavera árabe', foi o acontecimento político internacional de 2011 segundo a maioria dos membros do DELITO DE OPINIÃO, com 15 votos. Em segundo lugar (quatro votos) ficou a crise do euro, sob o espectro do colapso financeiro da Europa que alguns prevêem e outros nem por isso. O tsunami no Japão, que causou pelo menos 15 mil vítimas mortais, foi igualmente mencionado (dois votos), tal como a designação do fado como património imaterial da humanidade (um).

Em 2010, o facto internacional do ano para nós tinham sido as revelações da WikiLeaks.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não separe o homem...

por Ana Lima, em 17.11.11

... o que a Benetton uniu.  

 

P. S. Mas, como seria de esperar, isso já aconteceu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

É Natal, é Natal

por Ana Vidal, em 17.11.11

O mundo continua a enlouquecer alegremente.

Enfim, nem tudo será mau. Pelo menos desta vez, os reis magos vão chegar ao presépio num instante.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Notícias em várias frentes

por Pedro Correia, em 21.10.11

Tudo sobre a captura e morte de Kadhafi. Aqui.

 

Tudo sobre o anúncio do fim da ETA. Aqui e aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Indignação

por Pedro Correia, em 16.10.11

 

Vários noticiários televisivos e radiofónicos revelaram-nos ontem a existência de manifestações de indignados "em todo o mundo". Isso seria, sem dúvida, uma boa notícia para o mundo. Acontece, porém, que a notícia não é verdadeira. Na China - o país mais populoso do planeta - não houve manifestações de indignados. Nem na Coreia do Norte. Nem no Vietname. Nem em Cuba. Nem no Zimbábue "socialista" do tiranossauro Mugabe. Nem na Guiné Equatorial. Nem no Iémene. Nem na Síria. Nem na Argélia. Nem na Bielorrússia, onde reina a última ditadura da Europa. Nem no Irão dos aiatolás. Nem sequer em Angola.

As generalizações apressadas costumam ser fontes de equívocos. Convém não nos deixarmos iludir: em grande parte do mundo contemporâneo o direito de manifestação continua a ser uma miragem. Seria bom, aliás, que os indignados de cá começassem por se lembrar disso. Solidarizando-se expressamente com os indignados de lá - aqueles que não podem sair à rua em protesto contra os respectivos governos porque se sujeitam a ser presos, torturados e até mortos.

Nada deve suscitar maior indignação que isto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ainda a propósito de uma data...

por Ana Lima, em 12.09.11

Chamamos-lhe 11 de Setembro. O ano não é mencionado pois sabemos que seja ele qual for continuaremos a estremecer perante a menção desta data e perante a recordação do que estávamos nós a fazer enquanto, em directo de Nova Iorque, as televisões nos mostravam que é sempre possível ir mais além no horror, mergulhar mais fundo na incapacidade de compreender o outro, reconhecer as nossas limitações enquanto seres humanos. Cada um de nós lembra-se desse dia com uma memória precisa pois não nos basta rever as imagens dessa terça-feira que passaram vezes sem conta. Torna-se necessário voltarmos a nós, à nossa escala, para encontrarmos algo que faça sentido. O mal, quando nos ultrapassa, pela sua dimensão, deixa-nos longe das razões, das certezas. Tudo é abalado. Regressamos então a nós, como se convocássemos o nosso instinto de sobrevivência e nos quiséssemos salvar frente a uma crueldade que nos atinge a todos, em cheio. Pensamos então que há datas que era bom podermos esquecer. Mesmo que saibamos que nunca o faremos. Esta é uma delas. Chamamos-lhe 11 de Setembro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Voz da Planície

por Laura Ramos, em 30.08.11

 

Nada como uma pausa num monte alentejano para nos devolver a dimensão do tempo.

Nem tão imóvel quanto agora. Nem tão urgente quanto aquele que nos aguarda.

Esta quietude não é deste mundo. O mundo da pam-politização. Das convulsões. Dos impasses da moeda. Da geo-estratégia. Das culturas decadentes e das economias emergentes. Da insegurança. Do medo do futuro. Do pânico da perda.

- Pânico? - Perda? Não. Subitamente, o mundo é isto, aqui, suspenso na relatividade absoluta de uma abóbada celeste descomunal e perfeita, descrevendo um ângulo raso tão nítido, de extremo a extremo, quanto os milhares de estrelas que semeiam este céu sardento.

Larguei o meu Divórcio em Buda (na verdade, e por hoje, estou um pouco farta das confissões de Kristóf, talvez porque me lembrem um pouco a minha própria vida, tão alinhada entre os apelos do desempenho e as contradições do espírito).
Apaguei as lanternas do terraço e assim fiquei, espectadora da noite, perdida nos enigmas do planeta, nos segredos da vida, nas ironias do tempo, que nos verga e devora. E nós sempre sem perceber porque corremos. - Exactamente atrás de quê?

Quedei-me por aqui dois dias, pertinho de Sabóia, escapando ao êxodo de fim do ciclo de férias. Entre manhãs a contemplar esta lonjura, e tardes longas, ardentes de calor, despeço-me do mar e percorro a costa vicentina: Zambujeira, Alteirinhos, Milfontes… Tudo estereótipos. Redime-me apenas o Malhão. E Porto Côvo (sempre).
Mas as águas quentes... que é delas? Nada nos consola quando se regressa do fidalgo aconchego da Ria Formosa.

Acordo ao som de um ruído compassado que vem da porta do meu quarto: o arranhar das patas do meigo labrador branco, que implora por afagos e atenção.

– E quem não pede o mesmo? Apenas demoramos mais, nós, os humanos. O Óscar, esse, adoptou-nos no espaço brevíssimo de um dia (e teria partido connosco para destino incerto).

O espectáculo do céu despareceu agora, à luz do dia. Cedeu o palco ao horizonte, tomado pela planura e pelos maciços de freixos e amieiros.

Sempre que a vida for insuportável, voltarei aqui, ao som e ao verbo da planície.

Para rever a dimensão pequena da nossa circunstância.

E, como o Óscar, acreditar inabalavelmente nas pessoas.

Confiar e rosnar. Guardar e atacar.

 

Regresso às lides com esta voz por dentro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os ventos da liberdade

por Pedro Correia, em 18.08.11

 

Estamos em 2011, como estivemos em 1989, a viver tempos de grande aceleração da História. Um passo é dado sem que tenhamos capacidade para prever qual será o passo seguinte, tão dinâmica é a realidade e tão voláteis são alguns cenários que julgávamos sólidos e resistentes. Há seis meses, por exemplo, nenhum dos mais credenciados observadores da cena política internacional era capaz de vaticinar os movimentos insurreccionais que se sucederam no Magrebe e na Península Arábica contra as ditaduras de diversos matizes ali instaladas. Ben Ali e Hosni Mubarak, que geriam com punho de ferro a Tunísia e o Egipto, caíram do pedestal e viram-se forçados a enfrentar pesadas acusações do foro criminal. O coronel Kadhafi, outrora ídolo da esquerda radical europeia, está cada vez mais cercado no seu bunker de Trípoli, com a Líbia a ferro e fogo, enfrentando um crescente movimento de revolta popular: em desespero, não consegue encontrar melhor modelo do que o Franco de 1939 para garantir que esmagará o seu próprio povo. Na Síria, a ditadura de Assad tenta desesperadamente dispersar a tiro o irreprimível movimento de protesto que leva milhares de pessoas para as ruas em massas compactas de indignação: muitas delas já pagaram com a vida este impulso em defesa da liberdade.

Ao contrário do que pensadores como Hegel e Marx defendiam no século XIX, há sérios limites para a capacidade de previsão em História. Que o digam todos aqueles cultores da realpolitik - com Henry Kissinger à cabeça - que nas décadas de 70 e 80 agiam como se a política de blocos nascida da Conferência de Ialta estivesse inscrita nas estrelas, como garantia para a eternidade. Nenhum deles foi capaz de prever aquele inesquecível ano de 1989, quando toda a Europa de Leste submetida ao domínio comunista se desmoronou como um castelo de cartas e o Muro de Berlim ruiu enfim sob a pressão de quantos o viam como aquilo que de facto era: um inaceitável símbolo de intolerância e repressão.

O mundo bipolar que ditou o destino de três gerações tornou-se tão obsoleto como a grafonola, o telégrafo ou a máquina de escrever. Mas pelo menos uma lição podemos e devemos extrair tanto dos acontecimentos de 1989 como deste extraordinário ano de 2011 ainda em curso: não é possível governar os povos pela força durante o tempo todo. Nenhuma região do mundo está imune aos ventos da liberdade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Desesperadamente

por Pedro Correia, em 12.08.11

 

Enquanto o mundo acompanhava com emoção a vaga de violência gratuita que varreu várias cidades do Reino Unido, na Somália morria-se de fome perante a indiferença quase generalizada. É um drama que se desenrola a um ritmo constante: 640 mil crianças estão mal nutridas. E já morreram 29 mil com menos de cinco anos.

Enquanto na Europa uns destroem tudo à sua volta em busca de aparelhagem electrónica e vestuário desportivo de marca, milhões de habitantes do continente africano querem simplesmente um pão ou uma tijela de arroz.  Desesperadamente.

Não nos enganemos de perspectiva: é na direcção destes que devemos olhar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Confundir democracia com ditadura

por Pedro Correia, em 24.05.11

 

Do alto da sua senilidade, Fidel Castro pergunta se a NATO também tenciona "bombardear Espanha" para travar manifestações de rua. Confundindo, desde logo, legítimos protestos em democracia com levantamentos populares contra uma ditadura.

Que Castro, a cuja família pertence o nada invejável troféu correspondente à mais longa ditadura do hemisfério ocidental, confunda democracia com despotismo é algo que não deve admirar ninguém.

O problema, como sempre sucede nestas coisas, são os discípulos. Tantos deles mais papistas que o papa. Reparem neste texto do Renato Teixeira. Mete tudo no mesmo saco: a luta contra tiranias e festivos acampamentos de rua em capitais democráticas. Desvirtuando, de caminho, o significado de uma canção que deixou rasto como símbolo de resistência à feroz ditadura militar brasileira - e também ao regime salazarista.

É intolerável identificar a Tunísia do deposto Ben-Ali, a praça Tahrir e os opositores a Assad na Síria com protestos em cidades europeias como Atenas, Madrid e Londres. O Renato Teixeira sabe muito bem que é uma profunda desonestidade intelectual confundir aqueles que ousam erguer-se em revolta contra sistemas ditatoriais com os que reclamam contra as naturais imperfeições da democracia. Os primeiros correm o risco de ir parar anos a fio aos cárceres, sofrerem torturas ou até perderem a vida. Os segundos só correm o risco de uma constipação se cair uma chuvada mais forte.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O futuro já não é o que era

por Pedro Correia, em 10.05.11

 

O futuro já não é o que era. Houve tempos em que vender ilusões sobre o dia de amanhã era receita garantida de sucesso e a futurologia quase chegou a atingir o patamar reservado às mais respeitáveis ciências. Houve tempos em que se acreditava que o futuro só podia ser melhor. E não é preciso recuar muito no calendário. Em 1970, Alvin Toffler – ex-editor da revista Fortune – alcançou fama planetária com um best seller intitulado O Choque do Futuro em que antevia dias radiosos, marcados por uma intensa mobilidade social e laboral, produção de bens em larga escala e muitas horas de lazer, centradas nas delícias da sociedade de consumo.

Estes dias parecem-nos hoje estranhamente remotos e estas profecias optimistas parecem-nos hoje totalmente deslocadas. A fé inabalável no progresso humano que caracterizou as décadas imediatas do pós-guerra justificaram milhares de textos recheados de optimismo que agora só nos parecem péssima literatura. Em 1950, havia a crença generalizada de que por volta do ano 2000 os robots substituiriam o homem na maior parte das tarefas mecanizadas. Em 1960, o físico norte-americano Gerald Feinberg, da Universidade de Columbia, previu que na passagem do milénio nasceria o primeiro bebé num planeta artificial. A crença cega em ilimitados recursos financeiros ao serviço da inovação tecnológica levou várias mentes brilhantes a acertar totalmente ao lado. Na década de 60, Wernher von Braun, um dos pioneiros do espaço, admitiu que por volta de 1984 se fundaria a primeira colónia na Lua, provavelmente por iniciativa da União Soviética, e o biólogo marinho Alister Hardy, professor em Oxford, antevia na mesma época que antes do final do século haveria tractores a lavrar o fundo dos oceanos.
“Ninguém conhece a história da próxima aurora”, ensina um milenar provérbio africano. Mas o optimismo histórico da civilização ocidental levou-nos a acreditar durante demasiado tempo que era possível antever os alicerces do futuro, com a certeza antecipada de que ele seria risonho. A World Future Society [Sociedade Mundial do Futuro] chegou a congregar 60 mil membros. Em 1973 teve como orador convidado o vice-presidente Gerald Ford. Treze anos depois, uma delegação era recebida na Casa Branca pelo presidente Ronald Reagan, que lhe emprestou dignidade institucional.
Era o tempo em que o futuro estava na moda. Figuras respeitáveis anteviam um novo século com veículos “inteligentes” de transporte sem necessidade de condução, a proliferação de hotéis nas profundezas submarinas e migrações em massa de terráquos para satélites artificiais da Terra. Esse tempo terminou. Há muitos anos que Toffler não publica um best seller e a World Future Society está hoje reduzida a 25 mil membros. Quase ninguém quer saber o que nos reservará o futuro. Pelo simples motivo de que só pode ser mau. A crença mudou de campo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Frases das Conferências do Estoril

por Pedro Correia, em 08.05.11

Howard Dean:

«Tenho idade suficiente para me lembrar como eram o Portugal de Salazar e a Espanha de Franco há 40 anos. Não há comparação possível com os países que são agora.»

«Nos EUA os jovens, quando não encontram emprego, criam o seu próprio emprego. Mas temos uma rede de segurança social menos forte do que a europeia. Na Europa, pelo contrário, existe uma rede de segurança tão forte que por vezes estrangula a inovação.»

«O capitalismo é o sistema mais extraordinário inventado pelos seres humanos para maximizar a produtividade. Até os chineses estão de acordo, pois têm um capitalismo de Estado. O maior perigo do capitalismo são os capitalistas.»

Nouriel Roubini:

«O programa de austeridade em Portugal será doloroso mas é necessário.»

«Um dos maiores problemas dos países periféricos [da União Europeia] é a falta de reformas estruturais, que estão a decorrer de forma muito lenta.»

«A zona euro é uma experiência importante, a nível mundial. Mas não podemos enfiar a cabeça na areia: é fundamental haver crescimento económico. O essencial é saber se conseguiremos restaurar o crescimento em Portugal, na Grécia e na Irlanda. Caso contrário a situação na Europa tornar-se-á insustentável.»

Larry King:

«Nunca senti que aquilo que fazia [jornalismo] era trabalho. Para mim sempre foi algo muito melhor do que trabalho.»

«Não consegui encontrar a plena paz interior. Não conheço ninguém que a tenha conseguido.»

«O mundo é surpreendente. Eu não consigo fazer previsões. Por isso é que quero viver para sempre: quero saber o que vai acontecer.»

Francis Fukuyama:

«Uma das grandes armadilhas dos novos processos democráticos [no mundo árabe] é a corrupção. Não há nada que mine mais a sua legitimidade.»

«Portugal, em 1974, recebeu muito apoio dos sociais-democratas e dos democratas-cristãos europeus, o que se revelou decisivo para o sucesso da transição democrática.»

«Grande parte dos jovens licenciados que saem de Harvard vão para Wall Street. Não vão para a medicina, para a advocacia, para a indústria transformadora... Há má distribuição dos recursos humanos nos EUA.»

 

Dominique de Villepin:

«A austeridade, em si mesma, não é a única resposta. Não podemos ter austeridade sem crescimento económico.»

«Temos de lembrar à Alemanha que não há uma solução boa para a Europa que seja apenas boa para um só país.»

«Alguém se sente europeu olhando para as instituições europeias?»

Mohamed ElBaradei:

«O Egipto é hoje uma panela de pressão. Como resultado da repressão, a sociedade está muito fragmentada. Há muitas tendências a apontar para muitos caminhos. A coesão social é inexistente.»

«As pessoas na Tunísia apressaram-se a adoptar o lema de Obama: 'Yes, we can'. Depois os egípcios pensaram: se os tunisinos conseguem, nós também vão conseguir.»

«Personalidades como Henry Kissinger e George Shultz, que estiveram no olho do furacão durante a Guerra Fria, defendem hoje um mundo sem armas nucleares. Porque corremos o risco da autodestruição.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os valores acima dos interesses

por Pedro Correia, em 07.05.11

 

A Líbia constitui "o pior pesadelo" dos dias que correm. A opinião, sem rodeios de qualquer espécie, foi ontem expressa por Mohamed ElBaradei nas Conferências do Estoril, que encerraram esta segunda edição com chave de ouro ao darem o palco ao ex-director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Prémio Nobel da Paz de 2005. Durante cerca de hora e meia, que pareceu pouco a quem assistia no Centro de Congressos do Estoril, o candidato à próxima eleição presidencial no Egipto defendeu uma intervenção mais activa da comunidade internacional para impedir a continuação dos massacres da população civil às ordens dos esbirros de Muammar Kadhafi, o ditador que permanece no poder desde Setembro de 1969, cego e surdo às aspirações de liberdade dos líbios.

Voz autorizada na defesa dos direitos humanos, participante activo na revolução de Fevereiro que levou à queda do regime despótico de Hosni Mubarak no Cairo, ElBaradei foi claro: "Não podemos aceitar que os ditadores massacrem os seus povos. Gostaria de ver uma intervenção internacional mais robusta, mais activa na Líbia." Na sua perspectiva, as relações internacionais contemporâneas são indissociáveis do respeito permanente da dignidade humana. "Temos de agir como mebros da mesma família global. A Líbia é um grande teste. Temos de espalhar esta mensagem: não continuaremos quedos e mudos, não assistiremos impávidos ao massacre de civis."

'A natureza das revoluções no Magrebe e no Médio Oriente' foi o tema abordado nesta excelente conferência, acompanhada com atenção por uma vasta plateia, em que se integravam muitos jovens. Baradei afirmou que o mundo "pode e deve ajudar" as populações do mundo islâmico que lutam pela liberdade - contribuindo para o "desenvolvimento económico, a coesão social e a promoção dos direitos humanos" em países como o Egipto, onde os militares estão com "demasiada pressa" em devolver o poder aos civis. Na sua perspectiva, a elaboração de uma nova Constituição devia ser o primeiro passo para fundar um regime democrático no Cairo - de preferência com um artigo basilar inspirado na primeira norma da lei fundamental da Alemanha: "A dignidade humana é inviolável."

Esta foi a grande mensagem que deixou no Estoril: "Não podemos pôr os interesses antes dos valores." Uma mensagem que contraria os cultores da realpolitik, sempre prontos a estabelecer relações cordiais com os piores tiranos contemporâneos. "Os EUA e a Europa apoiavam as ditaduras [na Tunísia e no Egipto] recorrendo ao argumento da estabilidade. No segundo dia das revoltas populares, Hillary Clinton chegou a dizer que o governo de Mubarak era estável. Como pode um regime que governa durante 30 anos com lei marcial ser um modelo de estabilidade? Nunca há estabilidade quando os governos não são livremente eleitos pelo povo."

Estive entre a assistência que o aplaudiu com entusiasmo ao fim da tarde de ontem. Gosto de ouvir um Nobel da Paz falar assim.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D