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Simone Veil

por Helena Sacadura Cabral, em 30.06.17

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Tinha 89 anos e uma vida que poderia ter ficado pelos fogos crematórios de Auschwitz. Chamava-se Simone Veil e se a França está de luto em sua memória, muitos serão aqueles, fora do país, que, como eu, lamentam profundamente o seu desaparecimento. Devo a esta Mulher uma abertura de espírito que talvez não tivesse sem a sorte imensa de me ter cruzado com ela. 
A Europa também devia estar de luto. Mas, como a memória é cada vez mais curta, acredito que poucos a recordem hoje, pese embora tenham múltiplas razões para saberem de quem se trata. Podia, até, ter sido Presidente do seu país. Mas a sua obstinada independência sempre lhe limitou esse caminho e foi pelo seu pé que decidiu afastar-se, há alguns anos, da vida política e até da vida pública. 
Sobrevivente do Holocausto, foi a primeira mulher presidente do Parlamento Europeu e antiga ministra da Saúde francesa, é a ela que se deve a despenalização do aborto em 1975. Agora dá-se pouco valor a esse facto, porque, para o bem e para o mal, está tudo à nossa disposição...
Quem, como eu, teve a oportunidade de falar com ela, só pode recordá-la como uma das mais interessantes e extraordinárias mulheres do seu tempo. E estar-lhe profundamente grata pelo que ela conseguiu para todas nós.

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Um novo truque...

por Helena Sacadura Cabral, em 28.05.17

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Existe um novo meio - inteligente - especial para assaltar e roubar mulheres. Começou nas garagens dos Centros Comerciais, mas está a alastrar a outro género de locais. 

De que se trata, então? Uma rapariga gira e educada aproxima-se de si com um papelinho impregnado com o último perfume X, ou lança na sua mão umas gotas do dito. 

O aroma até parece agradável, mas é por segundos. A droga colocada no mesmo e aspirada põe qualquer um sem reacção e à mercê do que lhe possam querer fazer...
Não sei se há homens a prestar o mesmo serviço. Mas eles são pouco dados a este tipo de experiências. De qualquer modo aqui fica o alerta a quem possa interessar!

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Dia da Mulher

por Pedro Correia, em 08.03.17

Os vossos direitos, meninas e senhoras, ainda não estão plenamente alcançados. Hoje, por exemplo, só devia haver mulheres a escrever neste blogue.

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Girls, Fleabag, Roth, Steiner e sexo

por José António Abreu, em 20.02.17

Há uns anos, ao ver os primeiros episódios da série Girls (tão recente e já tão imitada que até fica difícil recordar quão inovadora foi),  lembrei-me de O Animal Moribundo, de Philip Roth. A certa altura, o professor David Kepesh afirma:

Enquanto cresci, o homem não era emancipado no reino sexual. Era um homem de segunda apanha. Era um ladrão no reino sexual. Surripiávamos uma apalpadela. Roubávamos sexo. Adulávamos, suplicávamos, lisonjeávamos, insistíamos - todo o sexo exigia luta, tinha que ser disputado aos valores, senão à vontade da rapariga.

Mais tarde, referindo-se à actualidade (de 2001), acrescenta:

Aparecem antigas namoradas de há vinte e trinta anos. Algumas já se divorciaram numerosas vezes e outras têm andado tão ocupadas a afirmarem-se profissionalmente que nem tiveram a oportunidade de casar. As que ainda estão sós telefonam-me para se queixarem daqueles com quem se encontram. Os encontros são detestáveis, os relacionamentos são impossíveis, o sexo é um risco. Os homens são narcisistas, não têm sentido de humor, são doidos, obsessivos, autoritários, grosseiros, ou então são muito bem-parecidos, viris e cruelmente infiéis, efeminados, ou são impotentes, ou são simplesmente demasiado estúpidos. (*)

 

A abordagem da revolução sexual ocorrida na década de 1960 é quase sempre feita partindo da perspectiva feminina. Antes de qualquer outra análise, salienta-se o modo como a pílula e a evolução dos costumes libertaram as mulheres para o sexo sem (demasiados) receios. Mas a liberdade feminina também representou o fim da submissão masculina a qualquer tipo de compromisso. O facto de, ao longo das últimas décadas, as mulheres terem exigido e obtido não apenas o mesmo estatuto no que respeita ao sexo, mas poder total sobre os seus corpos - incluindo o de terminar gravidezes indesejadas - foi extraordinariamente libertador para os homens. O esforço de cortejar, apoiar, assumir responsabilidades tornou-se-lhes opcional, em especial quando favorecidos pelo sorteio genético (i.e., quando atraentes). Nem sequer as regras do politicamente correcto - em muitos sentidos, a prisão dos tempos actuais - os forçam ao que quer que seja: adquirida a igualdade, as mulheres perderam o direito a queixarem-se de terem sido iludidas. Durante séculos, no mundo «civilizado», os homens viram-se obrigados a conjugar instintos e convenções sociais. Agora, estão livres para dar largas ao egoísmo. Às acusações de insensibilidade, podem responder que se limitam a «dar espaço» às mulheres; que estão a «respeitar» a «autonomia» delas.

 

Nos primeiros tempos de Girls, esta realidade saltava à vista. Hannah desesperava com a passividade de Adam. Para ele, a relação apenas parecia existir enquanto decorria o acto sexual. Em todos os outros momentos, Hannah sentia-se esquecida: ele não telefonava, não respondia às mensagens, demonstrava indiferença quando a encontrava. Fleabag, uma série de 2016 produzida pela BBC e pela Amazon, escrita e interpretada por Phoebe Waller-Bridge, atinge um novo extremo. Apresenta uma mulher que parece vogar entre relações sexuais sem significado (mas não sem consequências), nas quais se submete (sem ser explicitamente forçada) a actos que tem dificuldade em racionalizar. Tudo estaria bem se não as usasse como forma de evitar enfrentar o vazio e a infelicidade que a dominam. Fleabag vai tão longe que se permite incluir um indivíduo nada atraente e bastante irritante no séquito de homens que não têm qualquer dificuldade em ir para a cama com ela.

 

 

Sejamos francos: nas últimas décadas, o sexo tornou-se um produto de consumo como qualquer outro; mais uma forma semidescartável de sentir algo, totalmente desligada de sentimentos profundos. Em 1975, Woody Allen afirmava: «O amor é a resposta, mas enquanto se espera pela resposta, o sexo coloca perguntas interessantes.» A resposta continuará a mesma, mas as perguntas parecem ter vindo a perder interesse. Se a consequência óbvia de tanto desejo de independência (por parte das mulheres como por parte dos homens) é a solidão, a consequência óbvia de tanto sexo (real, imaginado, visualizado em ecrãs e na rua) só pode ser a banalização do acto e dos termos que se lhe referem. Em Os Livros que Não Escrevi, George Steiner dedica um capítulo à linguagem do erotismo. Considera-a - como ao próprio acto - cada vez menos subtil, mais baseada nos códigos instituídos pelo cinema, pela televisão, pela publicidade. Escreve ainda: Será fascinante descobrir os novos factores de complexidade e os contributos enriquecedores que poderão vir das correntes feministas. Produziram já uma poesia poderosa e uma prosa acusadora. Poderá a sua política da sensibilidade ser causa de novas orientações e de uma criatividade nova nos dialectos do amor? Até ao momento, os indícios nesse sentido são marginais. O que parece prevalecer entre as mulheres emancipadas é a adaptação, quase desdenhosa, do que eram a obscenidade e a licenciosidade clandestina do discurso masculino.(**)

Talvez não apenas do discurso. Talvez de todo o comportamento. Sexualmente, as mulheres parecem-se cada vez mais com os homens. Mas isso - a acreditar em exemplos como Girls e Fleabag, eles próprios, será conveniente ressalvá-lo, provenientes da cultura cinematográfica e televisiva - não parece torná-las felizes. À liberdade, que neste campo tende a equivaler a quantidade, contrapõe-se a estandardização (nada é novo, pouco permanece tabu), e o novo poder masculino: um egoísmo assumido, que a igualdade torna inatacável.

Sobra a desilusão. Ou a busca de uma «novidade» cada vez mais extrema. Para mulheres, como para inúmeros homens, quando nada no sexo nem na linguagem do e sobre o sexo for misterioso, talvez actos como o que encerra o filme O Império dos Sentidos ou o que encerrou a vida do actor David Carradine (as referências do entretenimento são afinal úteis e variadas) constituam a única solução lógica.


____________________

(*) Edição Dom Quixote, 2006, p. 61 e 91, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

(**) Edição Gradiva, 2008, p. 132, tradução de Miguel Serras Pereira.

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Playboy volta a ter fotografias de mulheres nuas.

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Numa parede do Porto.

 

Na série britânica Love, Nina, adaptação de Nick Hornby de um livro de memórias de Nina Stibbe, há um momento em que alguém pinta desenhos obscenos nos passeios do bairro onde decorre a acção. Várias personagens reúnem-se em torno de um deles e debatem identidade e possíveis motivações do autor. George, a editora literária a que Helena Bonham Carter dá corpo, defende que, obviamente, terá sido um homem, porque as mulheres não andam por aí a fazer desenhos no pavimento; pelo menos, acrescenta, não em número estatisticamente relevante.

Olho para a frase acima e pergunto-me se George estaria certa - e, nesse caso, que diabo se passa na cabeça de um homem capaz de a escrever.

Claro que Love, Nina decorre no início da década de 1980. Talvez hoje em dia mais mulheres pintem coisas no chão e nas paredes. Não daria um grande sinal do rumo da evolução feminina (há actos tipicamente masculinos que, podendo remeter para instintos antigos de marcação do território, são hoje apenas estúpidos) nem faria com que esta mensagem ficasse aceitável, mas sempre a tornaria um pouco menos ilógica.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 06.11.16

«Estudos que se têm feito recentemente mostram que as mulheres teriam mais tendência à poligamia do que os homens, se aquela lhes fosse permitida. Costumam ser as mulheres que mais depressa se cansam de sexo só com um parceiro, pode ser essa a razão por que muitas mulheres inventam mil desculpas na cama (a dor de cabeça e assim). Não se trata de não gostar de sexo, mas de não gostar de sexo sempre com o mesmo homem. Vem de tempos remotos, em que as fêmeas procuravam os melhores machos para acasalarem e a variedade assegurava melhor descendência. Isto, claro, é ainda um assunto tabu. A sociedade é machista, mas numa coisa dou-lhe razão: as mulheres cooperam (como cooperaram estas duas senhoras). Não porque gostem, mas porque assim foram educadas. Isto aplica-se igualmente às sociedades islamitas.»

 

Da nossa leitora Cristina Torrão. A propósito deste texto da Helena Sacadura Cabral.

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As vantagens de ser mulher

por Inês Pedrosa, em 30.08.16

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Muito bem, Sr. Presidente

por Ana Vidal, em 08.06.16

Na primeira prova de fogo (embora, na verdade, seja ainda um lume brando em relação ao que aí virá) e depois do alegre trolaró sem grandes compromissos em que tem andado até agora, Marcelo Rebelo de Sousa surpreende-me pela positiva. Passo por cima da lei das 35 horas de trabalho, sobre a qual não tenho ainda opinião formada que possa fundamentar como tal, e refiro-me apenas às decisões em relação às leis que dizem respeito (não só, mas sobretudo) às mulheres:

1. A promulgação da PMA, permitindo o seu acesso a TODAS as mulheres sem distinção nem discriminação de qualquer tipo, garante finalmente uma real igualdade de direitos, mais do que justa.

2. O veto da gestação de substituição, vulgo "barrigas de aluguer", é um prudente e escrupuloso travão à precipitação de aprovar a abertura de uma quase certa caixa de Pandora, sem a garantia de todas as devidas (e possíveis) salvaguardas que atenuem consequências dramáticas para os envolvidos nesta prática. Uma matéria desta complexidade e delicadeza não pode ser aprovada à pressa, só porque o mimado Bloco de Esquerda quer impor ao governo uma agenda que é a sua.


Mas não é por Marcelo ter feito exactamente o que eu faria no seu lugar que eu digo que ele me surpreende pela positiva. É por ter decidido claramente acima da sua opinião pessoal sobre estas matérias, porque tenho quase a certeza de que não concorda com nenhuma delas.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 01.06.16

«"Pessoalmente não gosto de quotas." Eu também não. É um paternalismo terrível para as mulheres que eu dispenso. O pior com as quotas é que nunca se sabe se uma mulher está numa posição importante (e sublinho esta palavra porque para posições não importantes nenhuma feminista reivindica nada) devido ao mérito ou às quotas. As coisas têm de ser conquistadas por nós e não concedidas às atrasadinhas. É claro que muitas mulheres defendem as quotas porque isso as favorece para alcançarem certas posições.»

Da nossa leitora Antónia Cunha. A propósito deste texto da Helena Sacadura Cabral.

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Iguais, mas ainda pouco...

por Helena Sacadura Cabral, em 25.05.16

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Há mulheres no Governo, na banca, na bolsa e, dentro de pouco tempo, até no Banco de Portugal, onde há muitos anos Manuela Morgado foi novidade.

De facto, não há nenhuma mulher a presidir a uma empresa do PSI 20, o principal índice bolsista.

Segundo o Jornal de Negócios, as empresas cotadas em bolsa terão de ter pelo menos 20% dos administradores do sexo feminino até 1 de janeiro de 2018. Caso contrário, serão castigadas com a suspensão dos títulos.

A proposta, que hoje vai ser apresentada pelo Governo à Concertação Social, contempla o aumento desse número para 33% até 2020. Se a meta for cumprida, um em cada três administradores das cotadas será uma mulher, na viragem da década.

O destaque continua a ir para a Nos, queconta com cinco mulheres na administração (embora apenas uma, Ana Paula Marques, seja executiva), e para a Galp, cuja vice-presidência (não executiva) está entregue a Paula Amorim, filha do maior acionista da empresa.

A última empresa cotada liderada no feminino foi a EDP Renováveis, até 2012, tendo como presidente Ana Maria Fernandes.

No próximo ano, a meta a atingir é de 33%. A cumprir-se o objetivo, teremos em 2017 uma mulher em cada três dirigentes do Estado, contra as atuais uma em cada quatro.

 

                        ( Retirado da comunicação social )

 

A matéria discute-se há muito tempo. E até  se legisla. Mas poucos cumprem.

Pessoalmente não gosto de quotas, porque elas ainda constituem discriminação positiva e eu não gosto de discriminações. Mal vamos nós, mulheres, enquanto elas forem necessárias...

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Sondagem às Virgens Marias de Empréstimo

por Inês Pedrosa, em 14.05.16

Quem estiver disposta a suportar uma gravidez e um parto de uma criança considerada alheia e que lhe será retirada ao nascer, ponha o dedo no ar.

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Meia-idade

por José António Abreu, em 11.03.16

No que me diz respeito, chegar perto dos cinquenta e começar a apreciar raparigas com idade para serem minhas filhas gera uma perturbação não mais do que ligeira. Pior é perceber que algumas delas são filhas de amigas e/ou colegas que fizeram - e, em muitos casos, ainda fazem - parte das minhas fantasias.

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Sexo, mentiras e 'selfies'

por Pedro Correia, em 29.02.16

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 Jeanne Moreau: «sexualidade enigmática e brilhante»

 

«Sinto-me muito feliz por ter feito parte de uma geração que assistiu à revolução do cinema europeu com estrelas como Jeanne Moreau e Catherine Deneuve, que carregavam uma sexualidade enigmática e brilhante, tão superiores ao período americano de Doris Day ou Debbie Reynolds. Fui confrontada com um olhar sofisticado sobre a sexualidade e sobre a sensualidade. Tudo isso desapareceu. Os filmes de hoje já não mostram sexo com algum tipo de mistério e química. As mulheres vestem-se como babydolls e Barbies. A imaginação sexual perdeu-se, morreu mesmo, pelo menos na América. Por alguma razão hoje em dia o sexo está em todo o lado mas tornou-se fastidioso. Acho que o útlimo filme com verdadeiro potencial sexual foi Instinto Fatal, com a Sharon Stone, em 1992.»

 

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 Angelina Jolie «com os ossos todos à mostra»

 

«Olhem para a Angelina Jolie hoje. É uma chatice. Quando começou a carreira parecia que iria ser uma grande figura do ponto de vista da cultura popular, fez grandes papéis, era dinâmica, sexy e fabulosa. O que lhe aconteceu? Está cheia dela própria com esta carreira humanitária. Parece uma anoréctica, com os ossos todos à mostra e sem qualquer potência sexual. Deixou de ser a grande estrela sexy que poderia ter ido longe. É uma tragédia. É o espelho do que aconteceu à nossa cultura.»

 

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 Taylor Swift: «uma espécie de Barbie»

 

«Desprezo completamente Taylor Swift. É uma fraude, uma espécie de Barbie, mas muito fashion. Se não fosse assim não tinha toda a prole de raparigas atrás ou contra ela. Só ganhou o Grammy porque o disco foi um sucesso comercial. O que ela faz é música de pastilha elástica, doces para miúdas adolescentes.»

 

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  «Esta cultura da selfie é aberrante»

 

«Os jovens estão interessados em redes sociais. Para mim, o Facebook e o Twitter, coisas que não utilizo, são os grandes culpados da situação a que chegámos. Os jovens só comunicam por mensagens. Felizmente há o Instagram, onde se podem expressar em termos artísticos. Mas esta cultura da selfie é aberrante. (...) E o mais grave é que todas as fotografias que se tiram, mesmo as que possam ter valor artístico, são mostradas apenas aos amigos. Não há a noção de que um artista, que pode começar pelo Instagram, se dirija ao grande público, que faça verdadeiras declarações públicas daquilo que tem para dizer. Considero que a cultura ocidental está num nível muito baixo, é um deserto, é estéril.»

 

Camille Paglia, numa excelente entrevista à revista E, do Expresso, conduzida por Alexandra Carita. Uma das melhores entrevistas que tenho lido na imprensa portuguesa.

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Estudo conclui: não há mulheres heterossexuais.

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Caramba, já nem disfarçam...

por José António Abreu, em 25.09.15

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 Cada vez mais relegados para segundo plano.

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Quer dizer então que estavam mesmo convencidos que Deus criou Eva a partir de uma costela de Adão? Ihihih! Onde é que já se viu? Desculpem lá, mas quem é que acredita numa história dessas? Duma costela... Ele há com cada um. Crendices é o que é! Mas pronto. O que importa agora é que fiquem informados sobre o que realmente aconteceu.

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No país dos brandos costumes

por Ana Vidal, em 11.07.15

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Algumas notas minhas, à margem deste artigo que subscrevo.


1. Fiquei genuinamente espantada (chamem-me naif, devo sê-lo) por constatar que a cabeça nua de Laura Ferreira teve, da parte da esmagadora maioria das pessoas, uma leitura política. Prova-o um facto incontestável: salvo raras excepções, quem é de direita aplaudiu o gesto, quem é de esquerda criticou-o. Onde eu vi apenas uma mensagem pessoal, simples e corajosa, dirigida às mulheres que passam por este calvário tão comum, como quem diz "Uma mulher não deixa de ser inteira por não ter cabelo", muita gente viu um frete eleitoralista, um apelo à piedade ou à simpatia política, ou simplesmente a exibição de uma intimidade incómoda que deve permanecer escondida, sobretudo quando se trata de uma figura pública.


2. Presumir que Laura Ferreira se sujeitaria a este grau de exposição pessoal (e à violência dos comentários que se lhe seguiram, que ela, mais calejada nestas coisas do que eu, provavelmente previu) por outros motivos que não uma decisão pessoal, é duplamente ofensivo. Por um lado, é negar-lhe o direito a vontade, agenda e intenções próprias, fazendo dela um mero fantoche do marido. Por outro, é atirar-lhe à cara que não tem o amor e o respeito dele, se assim oferece à turba, implacável e com as piores intenções, a sua pretensa fragilidade, sem que ela sequer se aperceba disso. Ou, pior ainda, percebendo a marosca mas aceitando o papel, submissa e acéfala. Ou seja, é chamar-lhe imbecil e/ou conivente. Em qualquer dos casos, feitas as contas, tudo isto é profundamente machista. Diz-se-lhe que fique em casa, quietinha e discreta como costumava ser, pelo menos até estar apresentável outra vez.


3. Se as medidas de austeridade impostas por Passos Coelho chegaram ao extremo de negar tratamentos eficazes a doentes oncológicos porque são caros, grite-se bem alto esse atropelo ao direito dos cidadãos portugueses à dignidade e aos cuidados de saúde. Exija-se o recuo, a mudança. Mas não se misture tudo numa açorda de ódio que acaba por ter como alvo uma mulher que é, ela própria, uma doente oncológica. A frustração leva muitas vezes as pessoas a limites de crueldade, caindo nos mesmos erros que apontam aos outros. Muitos dos comentários críticos que li nas redes sociais são de uma violência sub-humana.

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De cabeça erguida

por Leonor Barros, em 10.07.15

Tenho andado aqui a digerir a polémica em torno do aparecimento da mulher de Passos Coelho sem cabelo e sem peruca num evento oficial. Confesso que a minha primeira reacção foi 'caramba, mas ela não podia ser mais discreta? Há alguma necessidade de se expor desta maneira?' Depois disto, recolhi-me no meu canto, ouvi opiniões sem fim, que como se sabe somos muito opinadores, e comecei a pensar que o desconforto era mais meu, meu apenas pelo horror que sempre me provocam estas situações. Infelizmente não faço parte daquele leque de pessoas preparadas a priori para lidar com a doença e a degradação e sei bem como se morre de cancro, sem essa história ridícula de chamar a todos guerreiros. Cada um luta como sabe e pode. Acredito piamente que todos lutarão enquanto souberem que vale a pena e que sentirão quando chegou o momento de descansar, não de desistir. Descansar. Não vejo razão por que a mulher do PM se há-de cobrir. Tem cancro. Assumiu. Não tem de ficar em casa para nos poupar ao desconforto e não tem de usar peruca pela mesma razão. A vida é o que é.Tiro-lhe o chapéu pela coragem, isso eu sei, porque se tal me acontecesse/acontecer duvido que deixasse que alguém em público me visse careca. 

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Uma Senhora

por Pedro Correia, em 07.07.15

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Maria Barroso com Augusto Figueiredo na peça Benilde ou a Virgem Mãe (Teatro Nacional, (1947)

 

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Há pessoas assim: capazes de nos cativar com um sorriso bondoso, uma palavra certeira, um olhar meigo, um gesto sereno, um tom de voz pausado. Maria de Jesus Simões Barroso Soares - Maria Barroso, como todos os portugueses a conheciam - tinha todos os atributos que enunciei. E vários outros - desde logo uma extraordinária coragem moral que a fez enfrentar todas as vicissitudes desde muito jovem. Franzina de corpo, mas com uma enorme fortaleza de espírito, enfrentou os esbirros da ditadura com uma inteireza arrepiante num tempo em que tudo apelava à demissão cívica. Por motivos de perseguição política, foi expurgada do chamado Teatro Nacional - uma página vergonhosa na nobre Casa de Garrett - e viu-se forçada a passar ao lado de uma carreira de actriz para a qual sentia genuína vocação.

Renunciou a muita coisa, mas nunca aos valores em que acreditava. Sem nunca assumir pose virtuosa, gesto próprio dos fariseus - "túmulos caiados", na expressão bíblica que Sophia transpôs para um dos seus mais arrebatadores poemas.

 

Maria Barroso dizia poesia com uma dicção perfeita, reforçada com uma nota emotiva bem reveladora do seu carácter. Na noite mais escura, ela soube dizer a palavra não. E quando outra ditadura, de sinal contrário, pairou sobre o Portugal revolucionário, lá estava ela novamente, no lado certo. Em defesa da liberdade, por um país onde mais ninguém fosse vítima de poderes arbitrários, contra qualquer delito de opinião.

Alguns chamam-lhe agora, nesta hora em que partiu, "antiga primeira dama". Detestável expressão, decalcada dos Estados Unidos, subentendendo uma relação de subalternidade em relação a Mário Soares, seu marido durante 66 anos. Nada mais inapropriado do que este rótulo jornalístico de importação. Como se Maria Barroso não fosse uma pessoa autónoma - nas ideias, nas convicções, no estilo, na atitude - para além dos laços de ternura solidificados por décadas de convívio com o homem que amou.

 

Vi-a muitas vezes, até há pouco tempo, nos locais mais inesperados. Olhando com atenção as novidades editoriais na Livraria Barata, saindo com uma amiga de uma sessão vespertina de cinema no Alvalade, encaminhando-se para a missa na "sua" igreja do Campo Grande. Nunca deixei de sentir admiração por ela, tal como - tenho a certeza - acontece com a esmagadora maioria dos portugueses. Quase como se fosse uma pessoa da nossa própria família, o que nos gera um íntimo sentimento de luto desde o início desta manhã, quando foi conhecida a notícia da sua morte. Que nem por já ser aguardada deixa de ser menos comovente.

 

Era sofisticada e simples, elegante sem sombra de presunção, lutadora convicta sem uma palavra de ódio dirigida aos seres menores que soube enfrentar com dignidade nas circunstâncias mais difíceis.

Uma Senhora.

 

Leitura complementar: a última entrevista de Maria Barroso. A Luís Osório, no jornal i.

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Um mau serviço ao feminismo

por José Maria Gui Pimentel, em 10.06.15

O programa Barca do Inferno surgiu no outono  passado com o objectivo louvável de interromper a monotonia machista no comentário político em Portugal. Infelizmente, acabou por ter o efeito inverso, num equilíbrio progressivamente cada vez mais insustentável, que culminou com a saída de Manuela Moura Guedes, esta semana. 

O primeiro episódio foi -- perdoem-me  a franqueza -- dos melhores momentos de humor em televisão nos últimos anos. Três das quatro participantes no painel sentiam visivelmente o peso do desafio, e nem por um momento deixavam penetrar um grama de trivialidade nas respectivas declarações. Completamente descompassada, Marta Gautier -- cuja presença no programa é incompreensível -- surgia ao seu estilo, com comentários non-sense do ponto de vista das companheiras de painel e absolutamente desfasada da actualidade política da semana. A interacção era absolutamente hilariante e, numa primeira emissão, teve a virtude de disfarçar parcialmente a acrimónia visceral existente entre as participantes, que se uniram para zurzir numa desprevenida Marta Gautier. Esta última não viu alternativa senão deixar um programa em que nunca deveria ter entrado. 

O painel foi, então, completado com Sofia Vala Rocha, que se juntou a Manuela Moura Guedes à direita, para fazer frente a Isabel Moreira e Raquel Varela, às quais competia representar a esquerda no painel. E, aqui, o programa transitou -- sem passar pela casa de partida -- para um espectáculo crescentemente desconfortável para o espectador, com um destilar progressivo de animosidades mútuas e insultos muito para além da esfera política.

É difícil dizer em quem começou o azedume, se bem que logo no primeiro programa Isabel Moreira e Manuela Moura Guedes tenham surgido com uma agressividade inesperada (esforço-me aqui para resistir a uma familiar metáfora mais machista), sobretudo tratando-se da primeira emissão. O estilo de ambas faria adivinhar um confronto difícil, mas o resultado esteve muito para lá de um combate meramente duro. Rapidamente, o painel ficou dividido entre esquerda e direita, com o debate a dar lugar a uma tentativa permanente de rebaixamento do adversário.

Em suma, o resultado do programa dá muito que pensar em relação ao caminho para o necessário reequilíbrio do debate político. Afastando-nos -- embora partindo -- deste caso em concreto, preocupa que uma mulher possa entender que a agressividade e a sisudez sejam condições essenciais para ser levada a sério no debate político. Não devia ser, nem (julgo) o é. É muito curioso, de resto, o contraste com outros programas do género, que se desenrolam muitas vezes durante largos minutos sem os intervenientes levantarem a voz.

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Vermes comandados pelo cérebro que não têm

por José António Abreu, em 31.03.15

Os homens são capazes de ignorar a fome e ir à procura de um par. Um novo estudo feito numa espécie de vermes comprovou que a culpa não é propriamente deles, mas sim do seu cérebro.

No Observador, por Carolina Santos.

 

Confesso: a primeira coisa que fiz, ainda antes de ler o artigo, foi verificar se tinha sido escrito por uma mulher. Em primeiro lugar pela deliciosa associação entre homens e vermes (eu sei que o estudo foi mesmo realizado em vermes mas talvez fosse mais correcto e abrangente usar «machos» em vez de «homens»). Depois pela igualmente deliciosa facilidade com que se aceita a extrapolação do comportamento dos referidos vermes para o ser humano, deixando de lado eventuais diferenças a nível de  - sei lá - número de neurónios. Finalmente pelo ainda mais delicioso recurso à velha dicotomia corpo-mente, na tentativa magnânima de desculpar essas criaturas vermiculares e desprovidas de neurónios, os homens (obrigado, Carolina; se vieres ao Porto nos próximos tempos avisa e vamos jantar, OK?; ou então até podemos saltar o jantar, que para mim é secundário). Porque a culpa (e tanto haveria a dizer sobre o facto de, mesmo após a ciência justificar o comportamento, poder continuar a associar-se-lhe o conceito - a ter de culpar-se alguém, que tal escolher Deus?) é do cérebro, não é propriamente dos homens. Só uma mulher podia considerar que quaisquer seres humanos - machos, fêmeas, hermafroditas - se definem por factores externos ao cérebro.

 

Nota 1. Como o meu sentido de humor não é partilhado por alguns leitores do Delito - mas Kafka também se ria ao ler as suas histórias aos amigos e poucos leitores delas fazem o mesmo desde então -, fica o alerta: este texto contém ironia e pretende ser uma provocação benigna.

 

Nota 2. Não, não estou a comparar o que escrevo ao que Kafka escrevia. Em contrapartida, a minha vida é quase tão excitante quanto foi a dele.

 

Nota 3. Agora vou dar descanso aos neurónios que não tenho, parar com estas notas e entreter-me a observar as mulheres que andam por aqui, OK?

 

Nota 4. Estranho. Estou com fome.

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Valkyrie Octopus

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.03.15

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Com vinte metros de altura, trinta e cinco de extensão e mil e duzentos quilos de peso, Macau viu ser oficialmente inaugurada a última obra de Joana Vasconcelos. Fruto de uma encomenda da MGM Macau e instalada na Praça do Rossio, a Valkyrie Octopus impressiona pela cor e dimensão. Certamente que haverá muita gente que não gostará do resultado final, mas goste-se muito ou pouco é um trabalho que pela criatividade, cor e arrojo não deixará ninguém indiferente. E deixa honrados os portugueses que vivem e trabalham na RAEM. A foto é do Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong. As restantes podem ser vistas aqui.

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Igualdade de género nas organizações

por Rui Rocha, em 10.03.15

Digo que erram os que apontam a chegada de mulheres competentes aos mais altos cargos das empresas como momento que marcará a conquista da igualdade de oportunidades no mercado de trabalho. Na verdade, se quisermos fazer uma apreciação isenta, a igualdade só estará completamente concretizada quando tivermos mulheres incompetentes em posições muitíssimo relevantes das organizações.

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Uma mulher

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.03.15

 

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O nosso "dia"

por Helena Sacadura Cabral, em 08.03.15

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Gosto de ser mulher. Não invejo os homens e quanto mais velha sou, mais tenho consciência dos seus (in)justificados receios. Mas não gosto de quotas ou comemorações de género porque elas representam que os "outros" ainda as consideram necessárias. 

O que eu quero é que não haja violência sobre elas, que o seu salário não seja inferior ao do seu semelhante, que as suas oportunidades sejam iguais, que a maternidade seja encarada como uma opção séria  e não um obrigatório modo de vida, que os filhos sejam uma escolha de dois e não apenas de um.
Ou seja, quero poder ser diferente do homem sem por isso ser discriminada ou menos respeitada. Quero, enfim, ter direito a ser mulher e fazer parte do meu género sem que compita aos homens concederem-me uma parte desse direito.

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Relativizando o Dia Internacional da Mulher

por João André, em 08.03.15

No Dia Internacional da Mulher uma confissão machista: não dou grande importância ao dia. Cumpro os rituais habituais: desejo um bom DIdM às mulheres importantes na minha vida, coloco um post no blog ou facebook, compro possivelmente uma flor para a minha mãe. Vejo contudo o dia como pouco mais que uma nova versão do Dia dos Namorados: sem significado a não ser dizer que existe.

 

Vejamos as coisas por este prisma: para quem - como eu - entenda que as mulheres e os homens têm que ter uma efectiva igualdade de direitos e que a sociedade tem que criar condições para que estes existam (atendendo a que há diferenças muito reais entre homens e mulheres), o dia não tem grande importância. Eu - e muitos outros como eu - não necessito de ser recordado da importância de lutar pela igualdade de direitos. Para quem esteja no pólo oposto, a questão é ainda mais simples: o dia não fará qualquer diferença. Para quem esteja algures no meio, dizer que o dia 8 de Março é o Dia Internacional da Mulher, sem mais, também pouco adiantará.

 

O Dia Internacional da Mulher parece-me então ser uma espécie de esmola: dão-se os parabéns às mulheres e siga a vida como sempre que a consciência está aliviada. Os direitos das mulheres, embora mereçam um dia para serem recordados, devem ser conquistados todos os dias, geração a geração, entre pequenos gestos e grandes acções. Um dia como este só faz sentido se for usado da mesma forma que os feriados civis nacionais o são: com actividades que para chamem atenção para o assunto. De outra forma, qualquer dia teremos as televisões a anunciarem os descontos do Dia Internacional da Mulher para quem compre uma dúzia de lírios.

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Questão de idade?

por Helena Sacadura Cabral, em 04.03.15

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Se um homem mais velho casar com uma mulher mais nova, toda a gente considera normal. Se, ao invés, uma mulher mais velha casar com um homem mais novo, muita gente ainda fica surpreendida. E, até, nalguns casos, chocada. Porquê? O que é que justifica a reacção negativa?

Em certos países esta opção é já bastante comum entre as chamadas “famosas”, que não costumam preocupar-se muito com a diferença etária, dado o estatuto especial de que gozam. Todavia, longe dos holofotes, muitas mulheres não hesitam e namoram rapazes mais novos. São elas que conhecem as vantagens e os inconvenientes que a diferença de idade pode trazer a um relacionamento. 

Do ponto de vista sexual, na cama, a diferença de idade não importa muito, dizem os clínicos. Quem já passou por isso, limita-se a afirmar que “que basta ambos quererem e tudo será muito bom”.

O problema pode surgir no dia a dia em que as coisas não são assim tão simples". Hoje já muitas mulheres de 40 anos preferem homens que tenham, no máximo, a mesma idade delas.  Porque são independentes e entendem que não têm por missão ficar em casa a aturar as vicissitudes de um marido mais velho.

Ora é aqui que reside o cerne da questão. Antigamente o homem mais velho era o garante da sobrevivência da mulher. Para muitas, para cada vez mais isso já não é válido. Ora se assim é, que justificação pode haver para censurar uma relação em que o homem seja mais novo que a mulher?

Acresce que se a menopausa pode trazer ao sexo feminino problemas clinicamente solúveis, eles não são, nos dias que correm, menores nem maiores do que aqueles que surgem no sexo masculino da mesma idade...

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Ressaca do vitorianismo

por José António Abreu, em 14.02.15

 

Lytton Strachey, o amigo de Woolf com quem ela esteve comprometida a certo ponto, teve numerosas relações homossexuais, muito embora também ele tenha assentado num arranjo de longa duração, no seu caso com Dora Carrington, uma jovem mulher que o adorava, e o marido dela, Ralph Partridge, que ele adorava.

Sandra M. Gilbert, introdução a Orlando, de Virginia Woolf, edição Penguin Classics. Tradução minha.

 

Resta a questão: quem adorava a Dora? Desde que Ralph a adorasse, era o triângulo perfeito.

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À primeira vista e para sempre

por José António Abreu, em 05.02.15
(Um comentário deixado há dias num post da Francisca Prieto leva-me a republicar este texto, de Novembro de 2010. Rush lançou entretanto Subtle Bodies, editado em Portugal pela Quetzal naquela coisa a que a maioria das editoras nacionais chama português. Obviamente, comprei-o em inglês.)
 _________________________
 

Norman Rush, em entrevista à The Paris Review:

 

INTERVIEWER

So which novelists were you reading on your own?

 

RUSH

Conrad and Dostoevski above all. Conrad continued to be a huge revelation to me about serious political thinking taking place in a novel. Under Western Eyes and, especially, The Secret Agent. Dostoevski meant Notes From Underground and The Idiot, especially, though it’s very hard to privilege one of his books over another. All were important to me.

But the most significant literary moment at Swarthmore came when I met Elsa. Elsa was everything. I was only there a few months before we met but—she would do a much better job with these stories. Shall we invite her to join us?

 

INTERVIEWER

Why not?

 

ELSA

Well. Do you know Swarthmore? It was in their main building, in a quite formal parlor with velvet sofas and big oil paintings. I was sitting on one of these sofas with—my God, it was heaven!—young men all around, talking to me. At least five. Maybe eight. Some were sitting on the floor.

 

INTERVIEWER

All competing for your attention?

 

ELSA

I was naïve. I was eighteen. I’d only had one boyfriend and never got over being shy with him, so I didn’t think of myself as holding court. I just thought, Gosh, this is fun! No good dates in high school and now all of these conversations, with clever men asking my opinion about philosophy to show how sophisticated they were. At some point a mysterious stranger appeared in the doorway, wearing a black coat. He stood and listened for a minute, and when someone asked me a question—I wish I could remember what; I’ve thought of it many times—this man in the doorway said, “You don’t have to answer that.”

 

RUSH

I thought the question was intrusive.

 

ELSA

I actually wasn’t upset by the question, though I did understand what this man in the doorway meant. Then one of my couch suitors said something provocative, and the man gave a reply that infuriated them all. He said—instead of arguing, he said—

 

RUSH

I gave them a reading recommendation.

 

ELSA

And they hated it. He said, Why don’t you read such and such? Which is very annoying, of course. It’s a way of saying, “You’re not equipped to have this conversation with me.” I wish I could remember the book he recommended, though in a way it doesn’t matter, because Norman has done that so many times in his life.

 

RUSH

She means that I’ve often been aggressively, unpleasantly authoritative.

 

ELSA

Correct. Though at the time, I was smitten. I went back to my dormitory and told everyone that I’d met the man I want to be with forever. I was completely taken by his gestalt. And even later, after we’d married and departed Swarthmore, I remained this way, though when I disagreed with him, I certainly said so.

 

Rush fez setenta e sete anos a 24 do mês passado. Publicou o primeiro livro, Whites, em 1986, já depois dos cinquenta, e desde então apenas mais dois (tem o quarto quase pronto). Em parte, tal deve-se ao facto de em 1978 ter queimado tudo o que escrevera até então. Reside numa zona rural do Estado de Nova Iorque, na casa que partilha com Elsa há quarenta e nove anos. Escreve no sótão, em três máquinas de 1955 (duas Royals, uma Underwood) colocadas lado a lado (usa uma das Royals para a primeira versão do texto, a segunda para revisões, a Underwood para apontamentos). Organiza gigantescos dossiers com as características das personagens e depois permite que estas definam o rumo dos acontecimentos. Elsa torna-se leitora e revisora assim que a primeira versão da primeira vintena de páginas está escrita. Marca a vermelho as passagens que lhe suscitam dúvidas e discute-as com Norman; umas são alteradas, outras não. Diz que ele já foi mais intransigente. Norman admite embaraço por uma frase de Mating (National Book Award em 1991), que decidiu manter no texto apesar de contestada por ela (parecia-lhe inadequada a uma personagem feminina), ter sido escolhida por um crítico, em cinco centenas de páginas, como exemplo de falta de verosimilhança. Diz que Elsa é excelente a habitar as personagens. Parecem estar em paz, com a vida e um com o outro, mas nem sempre terá sido assim. Enquanto jovem, Norman era politicamente radical. Foi condenado a dois anos de prisão por recusar combater na guerra da Coreia, tendo escrito uma carta a Eisenhower explicando que era pacifista e se opunha a qualquer tipo de violência (não usou o estatuto de objector de consciência porque este implicava acreditar numa religião e ele também recusava fazer isso). Após abandonar Swarthmore com Elsa, quis que vivessem em comunas. Elsa estava grávida e detestou a experiência mas, negando-se a renunciar à visão que tivera naquele primeiro encontro (que ele era o homem com quem iria passar o resto da vida*), não desistiu. Com o tempo, foi-o transformando numa pessoa menos radical. E ele sabe-o: But I'll tell you, her patience with my arcane fiction was part of a greater patience, over a sort of battle we waged for years. Some couples don't ask much of one another after they've worked out the fundamentals of jobs and children. Some live separate intellectual and cultural lives, and survive, but the most intense, most fulfilling marriages need, I think, to struggle toward some kind of ideological convergence. I was a sectarian leftist when we met. Radicalism was essential to my self-definition. So there had to be a long period of argument and discussion before I developed, let's say, a less immanentist view of social change. Also—and this is relevant to Mortals—I was sort of a stage atheist when we first got together. I just couldn't believe religion was still happening. She had a much more humane view of the whole business. De entre os vários empregos que tiveram, Norman trabalhou como livreiro e professor e Elsa como tecedeira, designer e professora de design. No final dos anos setenta e início dos oitenta, trabalharam para o Peace Corps no Botswana, país onde decorre a acção dos três livros de Norman (o próximo passar-se-á nos Estados Unidos). Na dedicatória de Mortals, o último publicado (em 2003), que vou finalmente tirar do lugar da estante onde espera ser lido desde que as referências sempre tão admiravelmente isentas de incerteza deste filho da mãe e um preço absurdamente baixo para um calhamaço hardcover de 700 páginas me fizeram encomendá-lo à Amazon, Rush escreveu: For my Muse and Critic, with gratitude for the last ten years of extraordinary forebearance, creative impatience, unfailing love. Elsa, you are unique. Pode muito bem ser excesso de optimismo (algo de que sou culpado ainda muito mais vezes do que provavelmente se justificaria) ou distorção de leitura induzida pelo efeito conjunto do sono (passa da meia-noite) e da necessidade de ir ao oftalmologista mas vou guardar o número da revista como prova de que tanto o amor à primeira vista como o amor eterno (bom, pelo menos até à morte) são realidades humanas. E de que ambas se podem dar bem com espíritos fortes e na presença de livros. Muitos livros.
 
* São sempre as mulheres a sabê-lo primeiro e a agir de modo a que possa ser verdade. Contudo, o patamar de dificuldades que estão dispostas a suportar para manter a visão afigura-se-me cada vez mais baixo. (Com honrosas excepções, os homens nunca foram bons no campo do auto-sacrifício em nome do interesse da companheira.)

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Intolerância

por Teresa Ribeiro, em 13.01.15

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Quando se fala de intolerância relativamente aos imigrantes, por norma aponta-se o dedo aos povos anfitriões, partindo do princípio discutível de que é a quem recebe e está em maioria que devem ser cobradas as responsabilidades relativas ao bom convívio com as comunidades acolhidas. Mas o multiculturalismo deve pressupor uma abertura recíproca.

Não duvido que a esmagadora maioria dos muçulmanos emigrados no ocidente aspiram a viver em paz com os seus vizinhos infiéis, mas ao seguirem valores que antagonizam os nossos torna-se difícil evitar reservas de parte a parte. Quando vou à loja do indiano e encontro lá regularmente a mulher e a filha púbere, ambas de cabeça tapada e olhos no chão, sinto que aos olhos dele elas são mulheres puras enquanto que eu e a minha filha, que nos deixamos tocar descaradamente pelos olhos de todos os homens com quem nos cruzamos na rua, o não somos.

Confesso. Tenho uma relação de ódio com todas essas vestes que simbolizam a submissão feminina. Não odeio o indiano, que até é bem simpático para a freguesia, mas odeio alguns dos seus valores. Do lado de lá, não duvido, passa-se o mesmo. Quando se seguem princípios de vida incompatíveis, os choques culturais são inevitáveis.

Já li muitos textos a tentar justificar as pulsões assassinas dos putativos jihadistas nados e criados no ocidente. Todos falam da nossa intolerância e arrogância, politizam o discurso enumerando exemplos de atrocidades cometidas no passado e no presente, como se a maldade fosse um exclusivo nosso. Mas convém não esquecer que apesar das diferenças partilhamos a mesma natureza. A semente do mal faz parte do ADN  de "fiéis e infiéis" - para usar a terminologia deles. E se nós, ocidentais - recorrendo agora ao léxico dos católicos - pecamos pela soberba por nos acharmos superiores ao nível científico, tecnológico, cultural e civilizacional também eles o fazem quando reclamam para si mais do que a superioridade ética e moral, a superioridade tout court.

A nossa intolerância tem as costas largas. 

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Laterpost - Só uma teoria. Ainda a Jessica

por Marta Spínola, em 30.10.14

Deixo hoje este post já um pouco datado. Escrevi-o quando se falou no desfile/comentários /post da Jessica Athayde. Nessa altura li alguns posts sobre o assunto e lamento que os de maior destaque acabassem por cair na asneira de referir que a fotografia em questão era infeliz ou não era a actriz no seu melhor. Tudo o que tinha sido antes pelas autoras desses posts caiu por terra no momento em que o fizeram. Tal coisa nem me ocorreu, mesmo não tendo tido a pretensão de empunhar o estandarte da mulher real e essas coisas muito bonitas mas depois regra geral ocas que se dizem.

Segue então o que disse na altura ali no Vida de Pi.

 

O problema não são as gordas. Não são as magras. O problema é, como sempre, estarem mal resolvidas. O problema são os preconceitos, o não conseguirem mostrar pele por ideias pré-concebidas ou não receberem um elogio ou piropo de vez em quando. Mesmo que o recebessem não saberiam o que fazer com ele, ficariam trapalhonas com ele nas mãos como quando o telemóvel quase se nos escapa, quase quase, mas afinal não chega a cair. O problema é também, admito, a convenção à escala mundial, de que o magro é que é perfeito. Mas isso é secundário perto da mesquinhez das pessoas.

O problema é quando há muito elogio a alguém, tanto piropo que quase as ensurdece e não conseguem ficar indiferentes. São ciumeiras e eu percebo alguma coisa de ciumeiras. Mas dessas não tenho, não é o meu mundo mesmo. É nessa altura, em que alguém está a ter toda a atenção, que saem os "mas ela até é gorda", "olha para aquela celulite". E uma pessoa olha e olha e pensa que ou precisa de óculos ou não estamos a ver a mesma coisa.
Pessoas gordas bem resolvidas, e eu sei do que falo, não olham para Jessicas Athaydes a apontar defeitos, a esfera é outra, não pairamos no mesmo planeta, portanto não venham com "as gordas" que até podemos ser, mas não somos todas iguais. 
Dá vontade de rir, não fosse triste ver mulheres assim umas contra as outras por motivos idiotas, apontarem algum defeito à fotografia que vi. Dispam-se, vistam-se como quiserem, vivam um bocadinho, comam só alface se assim o entenderem, e acima de tudo não chateiem.

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Virar o bico ao prego

por João André, em 17.10.14

Era uma questão de tempo até as empresas virarem o bico ao prego. Agora, desincentivar as mulheres a terem filhos é visto, pelo menos por certas empresas, como um apoio às mesmas. Não importa que a medida seja cosmética e que a esmagadora maioria das mulheres que decidam aderir não venham a retirar quaisquer benefícios. As empresas terão apoiado a promoção das mulheres nas suas estruturas.

 

É por isso que não aceito que o Estado se isente das vidas empresariais. Os mecanismos de auto-regulação nas empresas não funcionam nunca em favor dos mais fracos - os trabalhadores - e é aqui que o Estado tem de agir. Não pode estar a querer dirigir a economia - fá-lo-à sempre de forma menos eficiente - mas tem que corrigir as assimetrias de poder.

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Mulheres ao debate

por Patrícia Reis, em 11.10.14

A RTP Informação decidiu promover um programa de comentário sobre a actualidade com um painel de mulheres. E, como está na moda, um humorista para dar cartas serve de moderador (!?)

Nada contra.

A primeira emissão - Manuela Moura Guedes, Marta Guatier, Raquel Varela, Isabel Moreira - foi de tal forma fraca que a primeira baixa apresentou-se ontem: a actriz e psicóloga, Marta Gautier anunciou a sua retirada.

O programa chama-se Barco do Inferno e diz que é para continuar.

Nada contra.

Não compreendo sequer os comentários nas redes sociais sobre o "clube do bolinha ao contrário". Não vejo mal nenhum, pelo contrário, em ter a perspectiva das mulheres. Há anos que temos programas semanais com comentadores maioritariamente homens.

Nada contra, atenção!

Discutir, debater, analisar é saudável e há mulheres que o podem fazer com inteligência.

Escolher um bom painel é como escolher uma equipa para a seleccção nacional, dizia-me um senhor há dias.

Pode ser que sim. Escolher é sempre difícil. Perceber as dinâmicas também. As posições, políticas ou outras, também têm o seu papel neste tipo de programa. A formação ou experiência, diria, é crucial.

Vamos ver o que a Barca do Inferno nos dará no futuro.

E, para terminar, ficai com Gil Vicente que, sendo homem, tinha umas coisas para dizer.

“Corregedor – Ó arrais dos gloriosos,
passai-nos neste batel!
Anjo – Oh, pragas pera papel
pera as almas odiosos!
Como vindes preciosos,
sendo filhos da ciência!
Corregedor – Oh, habetatis, clemência
e passai-nos como vossos!
Parvo – Hou, homem dos breviários,
rapinastis coelhorum
et pernis perdigotorum
e mijais nos campanários!”

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Finalmente 44/46

por Helena Sacadura Cabral, em 10.08.14

Quando era nova vestia o tamanho 38/40. Não era gorda, mas estava longe de ser um conjunto de ossos ligados por tecido muscular. Era o que se chama de portuguesa padrão, talvez mais alta do que a média, com os meus 1,67.

Nesse tempo as mulheres desejavam-se relativamente roliças e ainda não tinha despontado a moda dos modelos S ou XS, que protagonizam seres famélicos que só a maquilhagem consegue valorizar. E que quando desfilam exibem entre pernas um arco que compete com o da Rua Augusta. Inveja, dirão uns e, possivelmente, têm razão...

Com a idade o tamanho foi aumentando e a altura diminuindo. Sempre encarei o processo como normal e quando estava mais gorda, tinha o cuidado de me não ver de perfil. Assim fui continuando e, dever-se-ão decerto aos quilos a mais que tenho, a lisura da pele que possuo.

Entretanto, um dos meus filhos teve de emagrecer e eu pus-me à labuta, para encontrar receitas agradáveis, mas dentro dos limites que lhe haviam sido impostos. Foi deste modo que ele perdeu oito quilos e eu ganhei mais um livro que, ainda hoje, continua a dar-me direitos de autor, ou seja, a ser vendido.

Acabo de saber que o Calendário Pirelli escolheu este ano Candice Huffine, 29 anos, americana, 1,80 e pernas quilométricas como uma das protagonistas da próxima edição apesar dos seus 90 quilos peso. 

A modelo “plus size” está entre as mais requisitadas para desfiles e editoriais de moda em todo o mundo. É uma escolha revolucionária na história de um dos mais famosos calendários, que pode significar que as futuras modelos talvez venham a ser mais reais e não um fonte de transtornos alimentares. 

Claro que eu não passei, por este facto, a ser magra. Mas talvez passe a ter mais por onde escolher... 

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Dolores Aveiro

por Helena Sacadura Cabral, em 09.08.14

Ficaram surpreendidos com o título do post? Não fiquem, porque considero que Dolores Aveiro é muito mais do que a mãe de Cristiano Ronaldo e merece que se fale dela. 

Ha dois dias, ouvi a entrevista que Julia Pinheiro lhe fez a propósito de um livro lançado sobre a sua vida. Confesso que, ao arrepio dos elitistas cá do burgo, a senhora me enterneceu. Directa, sem papas na língua, nem poses de "lady com dinheiro", falou deste e das transformações que o mesmo trouxe ao seu quotidiano que, no passado, não foi um caminho de rosas. 

Mas, sobretudo, mostrou os imensos rostos de que se pode revestir essa hercúlea tarefa de ser mãe. Mãe que ela continua a ser, no apoio ou na crítica que entende dever, no seu papel, tecer aos filhos. E, questionada nas matérias mais delicadas, soube arrumá-las com uma eficiência surpreendente.

É uma líder nata do seu clã, alguem que não se "perdeu" com a vida que tem hoje, que mantém os pés bem assentes na terra e para quem a felicidade maior é ver os filhos felizes. Deu uma belíssima lição de simplicidade - que os nobres de sangue e espírito jamais compreenderão - e soube mostrar que se mantém aquela mulher que aprendeu que a vida também se escreve pelas nossas próprias mãos. 

Parabéns à família Aveiro pela capitã que vos calhou para conduzir o vosso barco!

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Sexismo

por João André, em 12.05.14

Na semana passada estive num retiro de dois dias no qual as actividades, a estrutura e o futuro do meu departamento foram discutidos. Num dos dias esteve o director geral da divisão à qual o departamento pertence e o qual reporta directamente o CEO da empresa. Na sessão de perguntas e respostas que teve lugar, a certa altura falou uma colega minha, que eu ainda conheço mal, e antes da sua pergunta fez uma relativamente longa introdução ao tema que queria abordar.

 

A introdução passou em revista as actividades mais recentes, um processo de reestruturação do departamento e sua harmonização com o resto da divisão e terminou com um elogio a todas as actividades. Naquele momento só pude pensar que ela estava a tentar chamar a atenção para si mesma e estava a engraxar o chefe.

 

Só depois me surgiu outro pensamento: estaria essa minha avaliação errada? Estaria eu a ser sexista? Fiz um exercício simples e repeti na minha cabeça as palavras da minha colega mas dei-lhes a voz de um colega homem. A opinião ressoou imediatamente de forma diferente. Pareceu-me uma opinião sensata, uma introdução inteligente e pertinente para a(s) pergunta(s) e, mesmo discordando de partes da opinião, tornou-se perfeitamente possível respeitá-la.

 

A conclusão foi óbvia: fui de facto sexista. E isso incomodou-me profundamente. Sempre tentei respeitar todas as opiniões de igual forma e fiz sempre os possíveis para defender as oportunidades das mulheres. Tentei também ser sempre sensível às diferenças entre homens e mulheres, que existem. No entanto naquele momento fui tão sexista (felizmente apenas na minha cabeça, já que não exteriorizei a opinião) como o pior dos machistas.

 

O problema - espero - não estará em mim mas no sistema que existe e que é o resultado de centenas de anos. Em sociedades unicamente masculinas que as mulheres têm conseguido penetrar lentamente, uma determinada forma de pensar e agir torna-se dominante. Mesmo as mulheres que atingem determinados postos elevados têm muitas vezes que se conformar a essas atitudes e segui-las, ao mesmo tempo que as tentam ir mudando lentamente.

 

Não é um processo rápido, antes será possível através de muitos esforços conscientes e inconscientes. Na sociedade em geral é possível determinar a igualdade por decreto, mas isso é impossível nas mentalidades dominantes, mesmo que o tentem de forma consciente. A luta em busca de uma igualdade de facto continua e continuará. Naquele dia fiquei consciente que provavelmente não lhe verei o fim.

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Não é o país dela, nem o meu, mas duvido que ele tenha percebido

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.04.14

"Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.” - Alexandra Lucas Coelho

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Um bocado feio

por José António Abreu, em 23.03.14

É terrível ser um bocado feio. Um bocadinho não é grave, pelo menos para os homens: com um mínimo de confiança, pode transformar-se a pitada de fealdade em algo de atractivo; no detalhe que faz a diferença. (Para as mulheres é mais difícil: os gostos dos homens são limitados e as mulheres tendem a amplificar a importância de qualquer pequeno defeito, o que lhes diminui o nível de confiança e – uma coisa leva à outra – a capacidade de atracção.) Nesta sociedade assente na imagem, ser horrivelmente feio é péssimo mas, ainda assim, tem um certo pathos: a fealdade pode assumir-se, num desafio às convenções e num teste às inseguranças alheias (poucas pessoas estão confortáveis com a hipótese de serem consideradas politicamente incorrectas). Ser muito feio pode usar-se como o José Castelo Branco usa a roupa, os gestos e a maquilhagem: como que desafiando constantemente os outros a achá-lo ridículo. Lixado mesmo é ser um bocado feio. Não um bocadinho, não muito, apenas um bocado. Algo que não dê para disfarçar nem para transformar em statement. Que não provoque curiosidade (como um pouco) nem desejo de não ferir (como muito). Por mais que se faça, pelo menos sem recurso à cirurgia, nada altera significativamente a situação. É como ser chato: existe-se mas ninguém quer estar por perto. Sim, é terrível ser um bocado feio. Ou melhor: deve ser.

 

(Republicado.)

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A riqueza das mulheres

por Helena Sacadura Cabral, em 26.11.13

De acordo com uma investigação desenvolvida pela revista ‘Spears' e pela empresa WealthInsight - cujo objectivo principal era analisar a igualdade entre géneros, relativamente à riqueza pessoal - 23% das pessoas mais ricas no nosso país são do sexo feminino.

Para Josh Spero, editor da citada revista, no topo da lista estão os países asiáticos. Esta conclusão é igualmente partilhada por Oliver Williams, da WealthInsight.

Para além de Portugal, nos primeiros dez lugares surgem as Filipinas, o Peru, Hong Kong, a Turquia, Israel, Singapura, a Tailândia, Espanha e Itália.

Ao invés, entre os países com menos mulheres milionárias, contam-se a Holanda, Rússia, México, Arábia Saudita e Japão.

A ser verdadeira a informação, ela não me surpreende. E reflecte a tendência de que na gestão da riqueza o género contará cada vez menos. 

 

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Havemos de lá chegar!

por Helena Sacadura Cabral, em 12.11.13

 

A AEM, que reúne a maioria das empresas cotadas, defende a existência de mais mulheres nos conselhos de administração. Estranha-se a posição, dado que está nas mãos das empresas que esta associação representa resolver o problema, juntamente com os seus accionistas.     
A iniciativa da AEM - que pediu ao Instituto de Corporate Governance para inserir no seu código esta recomendação - nasce sobretudo da insistência pessoal do seu presidente, Luís Palha da Silva, que se esforçou por encontrar um consenso alargado que permitisse tornar este desígnio num desejo colectivo de todas as associadas.
A questão não é exclusiva de Portugal. Na Europa, só a Noruega e a Islândia têm mais de 40% de mulheres nos seus conselhos de administração. Pior que Portugal (com 7,1%), só Malta.
Ou seja, será muito difícil negar que persiste um claro problema de sub-representação das mulheres nos conselhos de administração.

Descendo um nível, nos cargos mais técnicos de direcção, o fenómeno é já diferente, porque as portuguesas estão a alcançar, com relativa facilidade, a antecâmara do Conselho de Administração. O problema é dar o passo seguinte.
E aqui poderemos encontrar uma questão cultural. Porque, numa sociedade em que as mulheres continuam a ter, no quotidiano, a maior responsabilidade da educação e do acompanhamento dos filhos, a questão do tempo e da disponibilidade para a empresa não pode ser descartada.
Mas também é verdade que, em termos de tempo consumido, pouca diferença existirá entre pertencer à Direcção ou ao Conselho de Administração. A questão não é, pois, só de tempo. É uma questão política. De quem manda e das pessoas em quem se confia para mandar. 
As mulheres não conseguem chegar ao topo do comando -, em que o gestor tem de possuir, também, um carácter "político", de influência junto das autoridades e de contacto permanente com os accionistas - porque se considera que este "papel" será sempre melhor desempenhado pelos homens.
O mesmo fenómeno se verifica, aliás, na política, com muitas mulheres em lugares decisivos e de destaque, mas com sistemáticas dificuldades em chegar a número Um.

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Papa sofre quando papel das mulheres na Igreja é reduzido à servidão.

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Serei criminalizado pelas feministas do Bloco? *

por Pedro Correia, em 01.09.13

 

«tu serás sempre a mesma fresca jovem pura

que alaga de luz todos os olhos

que exibe o sossego dos antigos templos

e que resiste ao tempo como a pedra

que vê passar os dias um por um

que contempla a sucessão da escuridão e luz

e assiste ao assalto pelo sol

daquele poder que pertencia à lua

que transfigura em luxo o próprio lixo

que tão de leve vive que nem dão por ela

as parcas implacáveis para os outros

que embora tudo mude nunca muda

ou se mudar que se não lembre de morrer

ou que enfim morra mas que não me desiluda.»

 

Excerto do poema "Muriel", de Ruy Belo

 

* em alusão a esta notícia baseada nesta prosa piropofóbica que originou um comentário justamente perplexo da Ana Vidal

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The times they have a-changed

por José António Abreu, em 13.08.13
Mesmo os que, por defeitos de idade, não viram em directo se lembram de Rosa Mota cortando a meta para a vitória na maratona dos Jogos Olímpicos de Seoul, em 1988. Pequenina, magrinha, ar simpático, braços bem erguidos de justificado orgulho, sovacos por depilar. Rosa Mota já conquistara o bronze nos Jogos Olímpicos de 1984 e, em 1987, fora Campeã do Mundo em Roma (para além de ter conseguido vários títulos europeus e vencido uma mão-cheia de maratonas importantes). Mas convenhamos que, grande atleta que indiscutivelmente era, nunca o termo «sensual» se lhe aplicou. Pior um nadinha: Rosa, como Carlos Lopes, Aurora Cunha, Fernando Mamede, os gémeos Castro ou, na verdade, ainda vários dos atletas portugueses da actualidade, revelava um país mais parecido com os tempos de Salazar (esforçado mas pobrezinho, ligeiramente digno de pena) do que com o país em que, poucos anos volvidos, os portugueses gostavam de se imaginar a viver.
Mas isto não é sobre Portugal. É sobre algo muito mais importante e cem por cento internacional: mulheres. Atletas, mais exactamente. Assistia eu ontem à sessão da tarde dos Campeonatos do Mundo de Atletismo, a disputar-se em Moscovo, quando as atletas do heptatlo me fizeram pestanejar e arregalar os olhos. Várias vezes. Mais de uma dúzia de raparigas altas, esbeltas, giras. Algumas com características inteiramente adequadas a protagonismos de anúncios de produtos de beleza – que, lá no país delas, podem bem ser uma realidade. Claro que sempre houve raparigas atraentes no atletismo. Por virtude de idade, lembro-me bem da relação amor-ódio que Heike Drechsler me inspirava (amor porque era um bocadinho mais gira do que a grande rival, Jackie Joyner-Kersee, ódio porque competia pela RDA). Por virtude de não assistir apenas a futebol na televisão, sei igualmente que existem hoje raparigas atraentes em muitas disciplinas do atletismo (e de outros desportos) para além do heptatlo. Basta pensar nos olhos e na boca de Blanka Vlasic. Ou nos olhos e no resto de Yelena Isinbayeva. E fosse ela menos gira (e simpática e boa conversadora) e os azares de Lolo Jones nos Jogos Olímpicos (queda em 2008 quando liderava destacada os 100 metros barreiras, quarto lugar na mesma prova em 2012) não teriam doído tanto. Finalmente, por virtude de ser bom a extrapolar conclusões a partir de amostras minúsculas, também estou ciente de que uma significativa parte da população mundial tem andado a ficar mais atractiva. Mas o quadro de participantes no heptatlo deste Mundial é assim a modos que um ridículo concentrado de boa aparência num sector onde a boa aparência não costumava abundar. E garanto que as fotos acima, uma selecção retirada do site oficial da Federação Internacional, estão longe de fazer justiça às raparigas.

Agora desculpem mas vou ver a sessão desta tarde, que deixei a gravar. A Lolo não está em Moscovo (snif) mas o heptatlo acabou hoje.

 

Nas fotos, da direita para a esquerda e de cima para baixo: Dafne Schippers (Holanda); Ellen Sprunger (Suíça); Ganna Melnichenko (Ucrânia); Grit Šadeiko (Estónia); Györgi Farkas-Zsivoczky (Hungria); Ida Marcussen (Noruega); Karolina Tyminska (Polónia); Katarina Johnson-Thompson (Grã-Bretanha); Kristina Savistkaya (Rússia); Laura Ikauniece (Letónia); Mari Klaup (Estónia); Nadine Broersen (Holanda); Nafissatou Thiam (Bélgica); Sharon Day (EUA); Yasmina Omrani (Argélia).

 

Adenda: Em nome da igualdade de género, gostaria de salientar que este arrazoado poderá quase de certeza aplicar-se também a atletas do sexo masculino. Mas outra pessoa qualquer que trate dessa parte. Não vou ser eu a colocar aqui fotografias de Renaud Lavillenie.

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- As empresas fabricantes de calçado são isentadas do pagamento de IRC.

- É criada nova taxa de IVA de 50%, a aplicar a bilhetes de futebol, de touradas, de combates de boxe e de bilhetes de cinema para filmes com mais de três explosões ou duas perseguições de automóvel. Em contrapartida, os bilhetes de cinema para comédias românticas baixam para a taxa reduzida.

- Com excepção dos de culinária, dos de auto-ajuda e dos escritos por Nicholas Sparks ou Nora Roberts, os livros transitam para a taxa normal de IVA.

- A percentagem do valor do IVA respeitante a refeições dedutível no IRS quadruplica se as refeições forem constituídas apenas por saladas e águas sem gás (ou sumos naturais). No caso de cabeleireiros, o valor da dedução pode atingir seis vezes o actual mas introduz-se uma avaliação de necessidade e mérito, a qual exige o envio de prova fotográfica das operações realizadas para a Autoridade Tributária e Aduaneira (de modo a evitar problemas com a comissão de protecção de dados, ficam de fora da necessidade de prova fotográfica as depilações a partes íntimas).

-  Gastos com cosméticos, perfumes, shampoos, amaciadores, produtos de higiene feminina e produtos de decoração de interiores passam a poder ser deduzidos no IRS.

- Os escalões do imposto automóvel passam a ser definidos pela cor do veículo.

A ministra propõe ainda que as negociações com a Troika sejam marcadas para dias com conjugação astral favorável e que seja criada legislação obrigando os fornecedores do serviço de correio electrónico a bloquear cópias das mensagens para fora dos seus servidores e a apagá-las automaticamente noventa dias após a data do seu envio.

 

 

 

 

(Adeus. Volto quando toda a gente tiver dado várias voltas ao aquário.)

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Trinta e cinco

por José António Abreu, em 19.07.13

Diz que no ginásio dela anda a Jessica Rabbit. «A sério, tem cabelo comprido, ruivo – quer dizer, é  mais para o acobreado –, liso, que – é incrível – não sai do lugar faça ela o que fizer! E depois usa roupas justas, uns tops que, pfffff... Tem uma cintura super fina... super fina!, e um rabo que... bolas!» Apanhou-a num aparelho para exercitar as coxas. «Eu ia fazer com quinze ou vinte quilos. Ela estava a fazer com trinta e cinco. Trinta e cinco! É o que os homens fazem. Alguns nem isso.» Odeia-a, claro. Mas não consegue evitar referir-se-lhe com uma considerável dose de respeito na voz.

 

(Entretanto, talvez já fosse altura de eu me inscrever num ginásio...) 

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Meia-idade

por José António Abreu, em 18.07.13

Pergunta:

A crise da meia-idade é real?

 

Resposta:

Claro que sim. Mas:

1. Não atinge apenas os homens;

2. Não é verdade que se caracterize por estes passarem a olhar mais para raparigas novas; os homens passam a olhar (ainda) mais para todas as mulheres;

3. Ir atrás das mais novas é apenas bom senso no meio da loucura.

 

(Republicado. Não devido a qualquer post publicado ontem pelo Pedro Correia, que fique bem claro.)

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Igualdade de género

por José António Abreu, em 15.07.13

Falo ao telefone com uma lisboeta que não conheço de lado nenhum sobre assuntos de trabalho. Saliento um ponto qualquer. Ela replica: «Ó querido, mas isso queria eu!» Fico um tudo-nada perturbado, não apenas pelo «ó querido» mas pela frase completa e, acima de tudo, pelo tom em que é pronunciada. Sinto-me como se tivesse acabado de descobrir estar metido num casamento semi-gasto, no qual subsiste alguma ternura mas onde já não se esconde a impaciência. Ainda por cima, casado com uma mulher que, repito, nem conheço pessoalmente e que usa expressões como «ó querido». Mas depois, durante o resto da conversa, que dura mais do que o necessário porque ela tem que dizer tudo pelo menos três vezes (um defeito mais português do que feminino), o meu problema é mesmo conter a vontade de a tratar do mesmo modo. É que «ó querida, eu percebi à primeira» vem tão a propósito... Mas resisto. Ainda era acusado de assédio sexual. Ou, no mínimo, de machismo.

 

(Republicado, cá por coisas.)

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Pois, mas era mesmo isto...

por José António Abreu, em 12.07.13

Ele era um adulto consciente de que não podia ter tudo, tal como uma mulher alegre e ao mesmo tempo deprimida em seu nome.

Norman Rush, Whites. Tradução minha.

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