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Todas as horas de um homem

por Pedro Correia, em 14.04.17

«Morrer por uma religião é mais simples do que vivê-la com plenitude; lutar em Éfeso contra as feras é menos duro (milhares de mártires obscuros o fizeram) que ser Paulo, servo de Jesus Cristo; um acto é menos que todas as horas de um homem.»

Jorge Luis Borges, O Aleph

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O trágico destino dos escritores

por Pedro Correia, em 13.04.17

Foi só há pouco tempo, ao ler um notável ensaio de William Styron intitulado Visível Escuridão (Darkness Visible, 1990) que me apercebi das estreitas relações entre a depressão e o ofício da escrita. É quase inacreditável o número de grandes autores que cometeram suicídio, no auge de uma grave depressão.
Styron fez uma lista, que está longe de ser exaustiva: Hart Crane, Virginia Woolf, Cesare Pavese, Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath, Henri de Montherlant, John Berryman, Wiliam Inge, Paul Celan, Tadeusz Borowski, Anne Sexton, Serguei Essenin, Vladimir Maiakovski. E Stefan Zweig, Primo Levi, Emilio Salgari, Yasunari Kawabata, Arthur Koestler, Paul Nizan, Yukio Mishima, Sándor Márai, Reinaldo Arenas, David Foster Wallace – acrescento eu.
No caso português, poderíamos mencionar, por exemplo, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Luís de Montalvor, Manuel Laranjeira, Trindade Coelho, Florbela Espanca, Miguel Rovisco.
Outros houve, outros há.
 
“Apesar do raio de alcance da depressão ser ecléctico, demonstrou-se de forma bastante convincente que os temperamentos artísticos (particularmente os poetas) são especialmente vulneráveis a este mal – que, nas suas manifestações clínicas mais graves, colhe mais de 20 por cento das suas vítimas através do suicídio”, escreve Styron nesta notável obra sobre uma das maiores doenças da nossa civilização (Visível Escuridão, com tradução portuguesa de Teresa Caria, foi editada pela Bertrand em 1991). O próprio Styron – galardoado com o Prémio Pulitzer e o American Book Award, universalmente aplaudido por romances como A Escolha de Sofia – sofreu de depressão. “Receamos a perda de tudo, de todos os próximos e dos amados. Há um medo agudo do abandono. Ficar sozinho em casa, mesmo só por um momento, provocava-me um pânico e uma trepidação estranhos”, recorda o escritor neste impressionante e dilacerante depoimento.
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?
 
Texto reeditado e ampliado

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Toda as mortes são prematuras

por Pedro Correia, em 26.12.16

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 Montgomery Clift e Marilyn Monroe em 'The Misfits'

 

Há frases que fixamos para sempre. Lembro-me de, em miúdo, ter ouvido o meu avô materno dizer que todas as mortes antes dos 75 anos eram "prematuras". Tomei nota da palavra, que não esqueci. E daquela espécie de desejo implícito contido naquela frase. Desejo cumprido, pois o meu avô morreu com 76 anos.

Muito mais tarde, Jorge de Sena ensinou-me, seu modesto leitor, que "todas as mortes são prematuras". O ser humano é vocacionado para a vida eterna - e saber de antemão que não cumprirá este anseio do seu corpo e este desígnio do seu espírito constitui a chave para sempre indecifrável de todo o pensamento filosófico, que procura responder às mais simples e mais complexas questões.

Quem sou? Que faço aqui? Em que medida se cumpre um destino humano?

 

Por estes dias em que Mário Soares trava uma luta tenaz contra a morte ouço dizer que teve "uma vida bem vivida". Face ao critério do meu avô, há muito que o ex-Presidente superou a perspectiva de uma morte prematura. Mas deverei dizer que os seus 92 anos foram "bem vividos" se no mesmo dia em que ele se encontra em estado muito crítico num hospital me cruzo num dos estabelecimentos comerciais mais conhecidos de Lisboa com a actriz Carmen Dolores - igualmente com 92 anos, mas nascida sete meses antes de Soares - caminhando com sacos de compras, elegante, grácil, quase etérea, sem sequer o apoio de uma bengala?

Filmou com António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros e Jorge Brum do Canto, contracenou com António Silva, Vasco Santana, Ribeirinho, João Villaret, figuras há muito inscritas no panteão do nosso teatro e do nosso cinema, e ei-la aqui, tal como nós, na idade do skype e do instagram. Teve um admirável percurso artístico, iniciado na remota década de 40. Mas por mais anos que permaneça connosco serão sempre escassos.

 

"Todos, homens e mulheres, estamos a morrer a cada momento que passa", dizia Marilyn Monroe no apogeu do seu talento e da sua beleza, interpretando-se de algum modo a si própria na última longa-metragem que acabou por rodar: The Misfits. Filme trágico e triste e assombrosamente belo, um dos filmes da minha vida

Cada existência é irrepetível e nuclear. Cada vida é um micrograma na poeira cósmica. Um sobressalto na nossa fisiologia, frágil como espiga ao vento, basta para sepultar toneladas de "certezas inabaláveis" que nos iludem na fatal transição entre os dois pontos extremos da nossa biografia - sempre imperfeita e fugaz, sempre situada aquém da insaciável espiral de todos os sonhos.

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Em todo o caso, a verdade é esta

por Rui Rocha, em 26.12.16

Em 2016 morreram muitos dos ícones da nossa adolescência. Mas isso é natural. À medida que envelhecemos, a probabilidade de as nossas referências desaparecerem vai aumentando. Podemos não querer encarar a realidade, "culpando" 2016. Mas se 2016 foi mau, 2017 e os seguintes serão piores. A vida é assim.

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Cohen, a paz antes da partida

por José António Abreu, em 11.11.16

 

In his chair, Cohen waved away any sense of what might follow death. That was beyond understanding and language: “I don’t ask for information that I probably wouldn’t be able to process even if it were granted to me.” Persistence, living to the last, loose ends, work—that was the thing. A song from four years ago, “Going Home,” made clear his sense of limits: “He will speak these words of wisdom / Like a sage, a man of vision / Though he knows he’s really nothing / But the brief elaboration of a tube.”

The new record opens with the title track, “You Want It Darker,” and in the chorus, the singer declares:

Hineni Hineni

I’m ready my Lord.

Hineni is Hebrew for “Here I am,” Abraham’s answer to the summons of God to sacrifice his son Isaac; the song is clearly an announcement of readiness, a man at the end preparing for his service and devotion. Cohen asked Gideon Zelermyer, the cantor at Shaar Hashomayim, the synagogue of his youth in Montreal, to sing the backing vocals. And yet the man sitting in his medical chair was anything but haunted or defeated.

“I know there’s a spiritual aspect to everybody’s life, whether they want to cop to it or not,” Cohen said. “It’s there, you can feel it in people—there’s some recognition that there is a reality that they cannot penetrate but which influences their mood and activity. So that’s operating. That activity at certain points of your day or night insists on a certain kind of response. Sometimes it’s just like: ‘You are losing too much weight, Leonard. You’re dying, but you don’t have to coöperate enthusiastically with the process.’ Force yourself to have a sandwich.

“What I mean to say is that you hear the Bat Kol.” The divine voice. “You hear this other deep reality singing to you all the time, and much of the time you can’t decipher it. Even when I was healthy, I was sensitive to the process. At this stage of the game, I hear it saying, ‘Leonard, just get on with the things you have to do.’ It’s very compassionate at this stage. More than at any time of my life, I no longer have that voice that says, ‘You’re fucking up.’ That’s a tremendous blessing, really.” 

 

O final de um excelente perfil de Leonard Cohen, surgido na The New Yorker de 17 de Outubro. A juventude, Marianne, outras mulheres, Dylan, a enganadora simplicidade da música, os concertos ao vivo, as drogas, a transcendência, a ideia da morte. E, a propósito desta, faz-me uma certa impressão - fica sempre a ideia do vatícinio (sorry, IsabelPS) - ter referido há exactamente duas semanas que ele se declarara pronto para morrer.

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David Bowie, até já

por Patrícia Reis, em 11.01.16

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 (montagem Carlos Ramos)

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Velório

por Francisca Prieto, em 15.12.15

Vestida de anjo. Fato de baptizado onde não faltava uma primorosa touca alva a contrastar com a tez mulata. Deitada. Imóvel porque morrera na véspera. Uma boneca de porcelana que hesitávamos tocar pelo medo de admitir que de uma criança se tratava.

Pai e mãe angolanos, retornados, imigrados, sei lá. Conformados na inconformidade de ter tido uma filha que primeiro foi deficiente e que depois ficou doente. Felizes por ela ter existido, inconsoláveis por ter partido.

Perguntaram-me, da Associação de Trissomia 21, se podia dar um salto ao velório. Que os pais, que sabiam qual seria o desfecho da leucemia da filha, só precisavam de a sentir honrada.

Não sabia que podia fazer com que alguém que não conhecia se sentisse honrado mas, na dúvida, corri à margem sul para dar um abraço a esta família.

Apresentei-me e, mesmo sem me conhecerem, ficaram desconcertantemente gratos pela presença.

Saí eu a sentir-me honrada, depois de testemunhar aquilo que já sabia: que o desgosto da morte de um filho é o desgosto da morte de um filho. A ninguém importa se era considerado deficiente.

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O que parte dos que nos ficam

por Ana Cláudia Vicente, em 01.11.15

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 [Wassily Kandinsky, Toussaint, 1911]

Há qualquer coisa valiosa nisto de nos importarmos fundamentalmente com o mesmo de modos tão diferentes. Pensei-o ao ler o post sentido da Isabel. E apeteceu-me falar do outro viver a morte que ela enuncia. Eu vivo desse outro modo os que nos ficam depois de partirem. Presto culto aos mortos. Esses ritos, mais velhos que a nossa própria espécie, gestos agora feitos da limpeza de uma pedra, da deposição de uma flor, de uma oração, a mim fazem-me sentir ligada ao que é ancestralmente humano.

É um sentimento bastante primário, e de certa forma comunitário: lembro os meus e os que conheci não só por estes dias, mas nestes de outra maneira; lembro também os que pelos mesmos dias ou nas mesmas horas viveram noutro tempo coisa semelhante. E sim, há algo escuro e perturbador nessa religação. Também o há na meditação física e metafísica que ela oferece. Olhar o que parte dos que nos ficam pode ser isso - uma outra maneira de os deixar viver em nós.

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O que nos fica dos que partem

por Isabel Mouzinho, em 01.11.15

Não tenho de todo o culto dos mortos e não gosto de visitar cemitérios em circunstância alguma, e menos ainda nestes dias em que vai toda a gente. Respeito muito, no entanto, quem o faz.

E, contrariamente aos que conseguem encontrar beleza e paz nestes espaços, só vejo neles soturnidade, assim como, para mim, há em todos os rituais associados ao fim da vida terrena qualquer coisa de lúgubre que me impressiona e incomoda. 

Não sinto, por isso, necessidade ou desejo de levar flores aos mortos, porque é em vida que gosto de homenagear e mimar as pessoas a quem quero bem; nem é no cemitério que me sinto mais perto dos que já cá não estão, porque não os associo a tristeza nem a desconforto.

Dos que partiram ficam-me as recordações, as ideias, as acções, os ensinamentos e tudo o que de bom e mau fomos vivendo ao longo do tempo, que é a marca indelével que deixaram em mim. É com ela que vivo. É ela que, passada a surpresa inicial do momento da partida - a morte surpreende-nos sempre - a dor da perda, o momento do luto, no-los traz de volta, em lampejos fugazes que nos chegam através de um lugar, de um objecto, de uma palavra, de uma canção. E lembrá-los assim é a mais bonita e singela forma de os voltar a ter próximos, no pensamento e no coração.

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Outra dimensão

por Isabel Mouzinho, em 22.03.15

É difícil imaginar o que sentem e pensam os que amamos quando passam a viver num universo de silêncio, feito de mãos que apertam outras mãos e de gestos a que apenas metade do corpo responde. E tentamos em vão adivinhar o que nos dizem os olhos que, mais transparentes que nunca, ora se fixam em nós, ora vagueiam distraídos do mundo, ou a que correspondem as tentativas mais ou menos aflitas e inquietas de comunicar o que não chega às palavras, e se limita a incompreensíveis sons, que não podem decifrar-se.

A longevidade, que é uma conquista do nosso tempo, traz consigo perplexidades e contradições, e esta será talvez a mais dolorosa e martirizante de todas: o prolongamento da existência em lenta agonia, que é apenas um sopro de vida e às vezes nos parece não ser já coisa nenhuma.

E perguntamo-nos com frequência qual o sentido de tudo ser assim, que dimensão é esta a meio caminho entre cá e lá, enquanto tentamos aceitar e adaptarmo-nos à nova realidade e a outra lógica, e nos dói a casa agora vazia de vozes e risos, onde pouco mais resta que memórias de dias felizes e objectos sem alma.

Então lembramos o que foi o maior e o melhor de todos os colos, e em nome de tantas lições de alegria e boa-disposição que recebemos, vamos aceitando tudo, vamos tentando ser amparo e aconchego na fragilidade do fim que se aproxima, e escutamos vagamente Brel, lá longe, pungente e certeiro: les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux (...) les vieux ne bougent plus, leurs gestes ont trop de rides, leur monde est trop petit...

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Instituições

por José António Abreu, em 06.02.15

Ele pedia a Deus que os ateus estivessem certos. Porque a existir uma vida para além da morte seria institucional porque alguém teria de a gerir e ele não conseguia passar por aquilo outra vez. E a única coisa pior seria a reencarnação e o regresso ao oceano de instituições humanas.

Norman Rush, Mortals. Edição Jonathan Cape. Tradução minha.

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A morte é para se ver

por Teresa Ribeiro, em 08.12.14

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Em todos os funerais e velórios em que estive presente, nunca vi uma criança, facto que registei sem surpresa. Eu própria fui poupada a esses rituais durante toda a minha infância e até às notícias sobre o falecimento de pessoas a que me uniam laços de sangue. O assunto da morte era tabu, muito mais que o sexo, pois se o sexo embaraçava, a morte pertencia a outro patamar, inominável.

Não sei o que aconteceu com as pessoas a quem foi escondida a morte durante a infância. Este proteccionismo em mim resultou numa relação complicada com a senhora da foice. Primeiro virei-lhe as costas, recusando-me durante a adolescência a pôr os pés num cemitério ou numa casa mortuária. Depois, já adulta, quando a passagem do tempo começou a deixar marcas indisfarçáveis nas pessoas que mais amava, decidi que era tempo de me preparar para uma doença que sabia ser incurável e que um dia, se não morresse primeiro, me iria matar de desgosto, uma e outra vez, com a cadência dos grandes ritos.

À medida que fui perdendo as pessoas de que sou feita, percebi que esta relação complicada que na nossa cultura temos com os velhos é consequência directa da deficiente assimilação do fenómeno da morte nas nossas vidas. Apartar as crianças dos rituais fúnebres é ensiná-las a erguer uma barreira entre o mundo delas e o mundo em que se morre. O desespero que a velhice nos inspira - a nossa e a dos que amamos -  tem a ver com a desconstrução desse modelo de conforto em que nos instalaram em pequenos e de onde, por mais maduros que nos achemos, não queremos sair.

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Mandela

por Patrícia Reis, em 05.12.13

 

Nelson Mandela. 27 anos numa prisão com direito a uma visita por ano. Considerado um terrorista por Thatcher e Reagan. Mandela um nome que equivale a liberdade.

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A cabra morreu

por jpt, em 27.08.13

Abro o facebook e leio "The bitch is dead", frase colocado por uma amiga, verdadeira e bem antiga, nem sei quem morreu, mas vejo logo uma fila de comentários entusiastas, festivos, depois percebo, e é aqui que tomo conhecimento que Thatcher acaba de morrer. Choco-me, imenso, não pela notícia da morte da antiga primeira-ministra, que sempre me faz lembrar o velho Dylan alive em "Maggie's Farm", a qual vi há tempos (há quanto tempo?) na TV já muito idosa e doente, li que com essa demência que tanto amesquinha os ocasos dos nossos mais velhos, tanto que sempre me custa sabê-la em alguém enquanto vou agradecendo que os meus mais velhos, pais e sogros, se venham escapando desse martírio. O que me choca agora, o que me desagrega, é o brusco fim da memória dessa minha amiga daquele antes, ali vizinha mais nova, tão bonita, que conheci como namorada de bom amigo, e pela qual vim depois a ter aquilo a que os meus pais chamariam um "béguin", muito pela sua doçura, até adolescente, aquele fresco que agora já velho ainda lembro nas raparigas do meu tempo, e uns olhos mar que me faziam sonhar marinheiro. Nos últimos 25 anos vi-a duas ou três vezes, breves acasos de Lisboa, e agora reencontrei-a no FB, o tempo foi-nos passando mas mantém (ou mantinha, quando a vi) aquele sorriso e, presumo, o encanto nos olhos. Espanto-me, que se passou com esta miúda, de esquerda sim, que já o era, mas caminhando na normal vida lisboeta, ali para as faculdades, que eu saiba nunca tendo vivido em Inglaterra, para assim festejar a morte da velha líder, para acoitar aqueles comentários d'amigos, celebrando o momento, vociferando fel? Hesito. E depois preservo-me, e às résteas daquele velho encanto ou só a memória dele. Clico e "desamigo-me", fico com ela sem isto.


Passa pouco e volto ao FB. Noto que outra amiga desses antes, outro reencontro aqui na "rede", anuncia mais uma morte. Vem concisa, seca, sarcástica, também ela colhendo ecos dos seus amigos, invectivas ao "assassino", "criminoso", saudando-lhe o fim, e falam de António Borges, um apenas economista, parcial político, caído do maldito cancro que a todos nos assusta nesta nossa meia-idade, esses calvários que amputam. Lembro-a "nos tempos", bela bela, complexa e, muito, apetitosa, raisparta. Lembro-a, jovem, em desatino. E em carinho. E tenho saudades. Hesito, mas não me desamigo. Fico, ficarei, mais um bocadinho.


Que aconteceu às miúdas do meu tempo durante este tempo? Que azedume é este?

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Desassombro da morte

por João André, em 27.08.13

Quem me lê compreende certamente que eu não tinha qualquer simpatia para com António Borges (isto para ser diplomático). Não é no entanto para falar dele que eu escrevo. Aquilo que me pergunto é se farão sentido as declarações politicamente correctas que costumam aparecer que nem cogumelos depois de uma chuvada assim que determinadas figuras públicas morrem.

 

António Borges é uma caso desses: deverei eu temperar a minha antipatia por ele ter morrido? Não terá António Borges suficientes admiradores, fãs, amigos ou outros que lhe defendam a vida ou o trabalho? Ou, para usar um oposto, deveriam os adversários de Álvaro Cunhal, que sempre se opuseram ao seu estilo e às suas ideias, passar a enaltecer a sua intelectualidade e firmeza para evitar ofender aqueles para quem ele era um exemplo?

 

Há obviamente casos de pessoas cuja morte nos deixará satisfeitos. Duvido que haja poucos que não tenham ficado satisfeitos com a morte de Bin Laden (poderemos questionar muita coisa, mas o mundo está melhor sem ele). Mas, fora a tragédia pessoal que será sempre uma morte (para família e amigos, para começar), teremos mesmo que procurar razões para lamentar a morte de alguém cujo trabalho em vida nós detestámos?

 

Penso que uma das melhores formas de enfrentar a morte (que chegará a todos) é o desassombro. Se elogiámos, elogiemos ainda. se criticámos, continuemos a criticar. E lembremo-nos sempre que, apesar dos outros morrerem, há sempre outros para os seguir.

 

PS - muitas pessoas que não gostavam de António Borges lembram agora esta "entrevista". Uma única nota: isto é (na minha opinião) exemplo de mau jornalismo, de um conceito de entrevista feito para o espectáculo, onde os entrevistados têm que ir sofrer. Subscrevo um conceito de entrevista que uma vez ouvi (não me lembro a quem): o entrevistador deve colocar as perguntas, sempre pertinentes (e não necessariamente difíceis) mas a esmagadora maioria do tempo da entrevista deve ser preenchida com o que o entrevistado diz. Até tenho simpatia para com as posições do entrevistador (na entrevista), mas nenhuma para com o estilo.

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da imensa estupidez da morte

por Patrícia Reis, em 23.07.13

A morte chegou com anúncio e pompa, assim como o filho de Kate e William. Acho que é simpático chamar-lhes assim, não é? Não tem qualquer interesse o número de nomes que a criança terá, nasceu no dia em que morreu uma mulher, uma mãe, uma avó, uma irmã, uma cunhada.

Uma pessoa é muita coisa ao mesmo tempo.

A família reune-se para as coisas da morte, para as outras nem por isso, mas na morte lá estamos. E, se o caixão calha a estar aberto, alguém grita a dor e um adolescente ampara, a comoção é a de ver o gesto, ver tudo como alguém que paira, que observa.

A morte faz de mim cigana. Ando aqui. Dou de comer ali. Abraço aquele e o outro. Ligo telefones, desligo telefones, marco coisas, desmarco coisas, levanto o corpo para se colocar um último adorno. Brinco e faço um esforço a ver o esforço de todos. As lágrimas não me existem, não estão em mim. Há o momento e, como deduzo que exista num palácio, qual upstairs, downstairs, faço de Hudson, sou um mordomo que assiste às coisas da morte.

Depois, mais tarde, já sem o barulho das coisas estranhas de uma casa mortuária que adormeceu num céu cor de rosa e laranja, escrevo para me resolver e não tenho a mais pequena paciência para as merdas que me aparecem à frente: não há papel higiénico suficiente, há um amigo que decide pontificar num mural do facebook à conta de uma coisa qualquer que, em teoria, eu escrevi e ele achou que merecia resposta, esqueci-me de levantar dinheiro para as senhoras da limpeza, a comida do cão está com um cheiro esquisito, o mais novo odeia desenhar, o mais velho nem quer saber, entrou hoje na faculdade, já tem número de acesso e eu paguei 800 e tal euros. Não tenho paciência para o barulho das gavetas do quarto do meu filho. Para o novo disco da Eliane Elias, dedicado a Chet Baker, belíssimo, mas que só me lembra coisas que não tenho, já não tenho, nunca terei. A seguir volto àquele corpo na caixa, como numa caixa de chocolates, com todos a dizerem que parece que está a sorrir e eu cansada de saber que é uma toalha que se enfia na boca, ainda há pouco tempo o fiz para o meu avô. Mas não, que estupidez.

A mulher que é filha, mãe, avó, irmã e cunhada, sentada na nuvem, já tem o seu cabelo de volta e um sorriso para quem deixou cá em baixo. Eu é que não vejo. São as lágrimas.

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Impotência

por Teresa Ribeiro, em 15.06.13

À Guida

 

Quando alguém nos morre queremos logo saber o motivo. Como se dessa explicação dependesse o sentido da morte. Morta a curiosidade morremos enfim daquilo de que se morre sempre, nós e os que vão. E continuamos, sem perceber nada.

 

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Era um homem indispensável. É uma memória única. A RTP do Luís é para continuar? Sim, o sonho dele era grande.

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Há notícias perturbadoras

por Ana Lima, em 16.01.13

Esta é uma delas. E não é pela eutanásia em si, com a qual tendo a concordar, mas pelo facto de se admitir que uma situação que só acontecerá no futuro é motivo suficiente para alguém se encontrar, já hoje, num estado de “sofrimento insuportável” e agir, conscientemente, no sentido de acabar com esse sofrimento que ainda não se materializou. Não falando no lado mais poético da questão (se é que se pode utilizar a palavra poético neste caso), associado às razões invocadas: a impossibilidade futura de comunicar com aqueles que lhes eram mais queridos; fica-nos uma sensação estranha, que é a de assistirmos a uma espécie de eutanásia preventiva, susceptível de ser questionada a fundo. Se Marc e Eddy estavam felizes com a perspectiva de morrer porque não gozaram mais algum tempo essa perspectiva? E porque não foram eles a escolher o dia em que morreriam? Será que se escolhessem um domingo não iria ser possível por causa dos dias e horários de funcionamento do serviço onde se ministra a injecção letal? Não sei, tudo isto é tão estranho...

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Muito cedo na vida é demasiado tarde

por Pedro Correia, em 20.12.12

Despedi-me ontem de uma tia na solidão cinzenta e gélida do crematório dos Olivais. Enquanto espreitava em fundo a estrutura arquitectónica que Santiago Calatrava concebeu para a Gare do Oriente e a feia floresta de cimento em que se transformou o Parque das Nações, ia pensando nos retratos que me habituei a ver desta tia nos velhos álbuns de família. Era uma mulher muito bonita, que nas décadas de 40 e 50 posava para as máquinas fotográficas como réplica das estrelas de Hollywood tão populares nessa época.

Olho hoje estas imagens e parecem-me saídas de uma era muito mais remota, envolta em névoa, em flagrante contraste com estes vertiginosos dias que vivemos.

 

Eram quatro irmãs - entre elas a minha mãe. Elos de uma família muito unida, embora espalhada pelas mais diversas paragens do globo. Esta tia era a primogénita - e também foi a primeira a partir, em sintonia com um princípio que devia ser obrigatório: sai mais cedo de cena quem primeiro cá chega.

Infelizmente não foi assim no caso dela: há quatro anos, de forma inesperada, morreu-lhe um filho, o mais velho, o primeiro de um clã de dez primos direitos de que faço parte, espécie de irmãos em segundo grau - sempre nos vi assim, sempre assim nos verei.

Quando o Zé embarcou na grande viagem sem regresso todos percebemos que ela, de algum modo, desistiria também de viver. A natureza é inclemente por definição. Mas nada é tão impiedoso como uma mãe que se vê condenada a enterrar um filho.

Ela assim o fez - destruída por dentro, aparentemente indestrutível por fora. Desde aí foi-se deixando entregar à morte aos poucos, como se cada folha suplementar do calendário já não lhe pertencesse por inteiro.

"Somos pó", ensinou-nos o salmista. Do pó viemos, ao pó voltamos.

 

Enquanto o sacerdote recitava as palavras que dos padres sempre se esperam, eu ia lembrando as imagens desta tia nos álbuns fotográficos. Em criança, adolescente, jovem adulta. Com os pais e as irmãs. Em Coimbra, na Figueira, nos anos felizes decorridos sob o sol africano, nas férias esporádicas na aldeia da Beira Baixa. Na última fotografia em que as quatro estão juntas, no dia do casamento dos meus pais, na Sé de Castelo Branco.

Tempos felizes, perpetuados nestas imagens a preto e branco. Com sorrisos rasgados para a eternidade, no tempo em que os dias se mediam pela imensidão dos sonhos. Elas voltaram a reunir-se muitas vezes depois disso. Mas nunca mais as quatro em simultâneo, nunca mais com uma máquina fotográfica a servir de testemunha, nunca mais com aqueles irrepetíveis rostos juvenis transbordantes de felicidade.

 

Partiu de vez, esta tia professora. Mas já tinha partido antes, de algum modo, sem se conformar com a despedida do filho piloto da Força Aérea, que não esperou por ela para abraçar a eternidade.

Na minha infância, só esporadicamente a encontrei. O meu avô era militar, revejo-o de farda imaculada nas fotografias, cumprindo várias comissões em África. As filhas receberam no berço este vírus da errância. Desde miúdo me habituei a ter parentes no Brasil, na América, em Cabo Verde, em Angola ou Moçambique. Uma das minhas tias nasceu em Malange, outra casou na Beira. Os meus pais viveram em locais tão diversos como a Alemanha ou Timor. As casas de todos nós tornaram-se inesgotáveis repositórios de recordações colhidas em cada destino perseguido e encontrado. Portugueses, cidadãos do mundo: transporto comigo este código genético, como uma espécie de tesouro íntimo. Vale mais do que todo o dinheiro à face da Terra.

 

Enquanto os funcionários da agência funerária desempenhavam a sua missão com sóbrio zelo, eu ia-me lembrando de duas prendas de aniversário que esta tia me deu. Um livro quando fiz nove anos, outro quando fiz dez. Antes disso, depois disso, ela estava a milhares de quilómetros de distância - em Díli, em Vila Luso, na Cidade da Praia - porque o marido, também militar como era o pai dela, meu avô, estava quase sempre longe. E ela esteve sempre com ele: foi um casamento de meio século, daqueles à moda antiga, que só se desfaziam quando um deles se cansava de viver.

Duas singelas prendas que jamais esqueci.

Não era muito de oferecer presentes, a minha tia. Mas por vezes basta um livro passar de uma mão adulta para uma mão de criança para que esta se lembre vida fora desse objecto como uma janela aberta aos inesgotáveis mistérios do mundo.

 

No crematório, tudo se conclui com eficiência mecânica: minutos volvidos, eis-nos devolvidos ao frenesim rotineiro da cidade. Encaminho-me a pé para o Parque das Nações pensando numa frase de Marguerite Duras: "Muito cedo na vida é demasiado tarde." Uma frase que fica a ecoar dentro de mim como um doloroso dobre de sinos neste agreste e melancólico Natal.

 

Imagem: interior do crematório dos Olivais, Lisboa (do blogue Lisboa S.O.S.)

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Em memória do senhor comandante

por Patrícia Reis, em 16.11.12

Para o senhor comandante

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone.

Prevent the dog from barking with a juicy bone,

Silence the pianos and with muffled drum Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead

Scribbling in the sky the message

He is Dead,

Put crêpe bows round the white necks of the public doves,

Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest

My noon, my midnight, my talk, my song;

I thought that love would last forever, I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,

Pack up the moon and dismantle the sun.

Pour away the ocean and sweep up the wood;

For nothing now can ever come to any good.

 

Wystan Hugh Auden (1907-1973)

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Ars mortis II

por José Navarro de Andrade, em 01.11.12

Um retrato é a forma de perpetuar a presença de uma pessoa - é, em si, um desafio à morte.

Bem pode ter sido este o pressuposto de Walter Schels e de Beatte Lakota, (ele fotógrafo, ela editora da secção de ciência da Der Spiegel) ao organizarem em 2008 a exposição “Noch mal leben” (“Viver novamente”). Era propósito fotografar de cada pessoa um momento terminal em vida, e um primeiro momento após a morte, e colocar os dois instantes frente a frente. Frágil e dificílima proposta, que poderia ser subvertida pelo pudor e pela elegância, ambos grandes inimigos da verdade, tanto ou mais do que a crueza, porque esta, ao menos, procura o excesso e não as balizas da moral.

O resultado foi, no mínimo eloquente no seu delicado silêncio, e dele dir-se-ia que resulta uma afirmação capaz de pôr em causa um dos mais graves conceitos da nossa civilização: um rosto humano preserva toda a sua dignidade, mesmo depois de ter sido abandonado pela alma.

  

Beate Taube, 44 anos

1ª foto: 16.01.04 ; morte: 10.03.04

 Heiner Schmitz, 52 anos

1ª foto: 19.11.03 ; morte: 14.12.03

 

Jannik Boehmfeld, 6 anos

1ªfoto: 10.01.04 ; morte: 11.01.04

2_14_2.jpg 

Michael Lauermann, 56 anos

1ª foto: 11.01.03 ; morte: 14.01.03

 

 

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Ars Mortis

por José Navarro de Andrade, em 31.10.12

Excluímos a morte dos nossos cálculos existenciais como se ela fosse um acidente. Tratando-se de uma inconveniência e um imponderável, incómoda aos negócios correntes que todos os dias temos que levar adiante, ganhámos-lhe nojo e passámos a considerar como obscena a sua exposição. Isto é uma atitude eminentemente europeia, quase sem equivalente noutras culturas. Uma explicação apressada e duvidosa para isto, como o são todas de índole psico-socio-históricas, poderia recordar o facto de o Velho Continente ter promovido durante o séc.XX, um par de guerras e de regimes que dizimaram cerca de 100 milhões de seres humanos e que esses fantasmas ainda hoje nos estigmatizam.

Mas nem sempre foi assim.

O nascimento da fotografia, entre as várias maravilhas que proporcionou, contou-se a de ter tornado acessível a toda a gente algo que até então estava reservado aos aristocratas – o retrato. Quando só preocupava a linhagem, o retrato era uma necessidade exclusiva de quem tinha uma genealogia a defender, mais os direitos e os haveres que ela entregava. Mas quando começou a surgir a ideia de família – essa invenção burguesa – todos os entes se tornavam queridos aos descendentes e constituíam a sua memória particular. Mas o retrato mantinha a sua aura, como um acto cerimonioso, dispendioso, logo parcimonioso. Por isso, muitas vezes recorreu-se a ele literalmente in extremis. Foram então voga os retratos fotográfico post-mortem em que os cadáveres do familiares acabados de falecer, quase sempre inopinadamente, eram postos em pose com os restantes membros da família para um derradeiro memento.

Abaixo, fica uma colecção destes instantâneos, que às almas afligidas de hoje poderão parecer um pouco tétricos, mas que um espírito aberto verá neles ternura, apego e uma ponta de antecipadas saudades.

 

 

 
 

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Tempus fugit

por Ana Vidal, em 01.10.12


Ouço um amigo dizer - filosofando sem dramatismos nem pieguices - que está pronto para morrer, e fico a pensar como estou a anos-luz dessa serenidade resignada. A vida é como a democracia: está muito longe de ser perfeita, mas ainda não inventaram nada melhor.

 

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"Piensa que el muerto amado vive"

por Pedro Correia, em 23.05.12

 

 

 «El pasado está vivo en la memoria, el futuro presente en el deseo»

 

Carlos Fuentes - uma das figuras cimeiras do chamado 'realismo mágico', que congregou nomes de romancistas que permanecerão ligados a um dos melhores momentos de sempre da literatura universal, como Gabriel García Márquez, Juan Carlos Onetti, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Miguel Angel Asturias e José Lezama Lima - era não só um grande ficcionista mas um excelente cronista, crítico, ensaísta, espectador sempre comprometido com os acontecimentos contemporâneos. Envolveu-se em polémicas, com frontalidade e desassombro, na defesa dos seus ideais que contrariavam tantas vezes os ditames da correcção política, como bem se percebe nesta entrevista publicada em Janeiro, uma das últimas que concedeu. E nunca faltou à chamada quando as circunstâncias o intimavam a ser solidário com quem sofria - no seu país ou em qualquer outro.

Há dias, a propósito do seu falecimento, lembrei-me que ele era também um excepcional pensador. Sobre os mais variados temas - incluindo a morte. «Creemos que la muerte de hoy dará presencia a la vida de ayer. Con Pascal repetimos: “Nunca digas ‘lo he perdido’. Mejor di: ‘lo he devuelto’”. Piensa que es cierto. Hay quienes mueren para ser amados más. Piensa que el muerto amado vive porque el amor que nos unió está vivo en mi vida. Piensa que sólo lo que no quiere sobrevivir a todo precio tiene la oportunidad de vivir realmente.» Este seu belíssimo texto escrito há dez anos bem pode servir de epitáfio ao gigante das letras mexicano que nunca ganhou o Nobel mas conquistou justamente o coração de milhões de leitores no mundo inteiro.

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Mater

por Laura Ramos, em 01.05.12

 
Onde conseguimos arrumar a dor - apenas arrumar - e depois seguir adiante?

Acredito que é uma tarefa que só depende da inteligência.

Não direi que desprezo os piegas.

Mas digo que admiro a força racional dessa inteireza que nos leva a administrar a perda com a audacidade desconfortável da lucidez intacta. E o conforto humano das lágrimas privadas.

Sabemos que nunca mais nada voltará a crescer no lado que nos comeram. Mas fazemo-nos de novo à vida sem desculpas.

Talvez as mulheres aprendam este verbo por herança ancestral.

 

Esta é a minha pequena homenagem à Helena: sem disfarçar a satisfação que sinto quando as pessoas não me desiludem.

É tão raro. E tem um nome: exemplo.

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Um sítio bom para morrer

por Ivone Mendes da Silva, em 23.08.11

Há pouco, quando desci para ir beber café, ouvi uma senhora dizer para outra: “Já lhes disse que, quando chegar a minha hora,  quero é morrer em casa na minha cama.” Pelo tom calmo da frase, deduzi que aquele “quando chegar” se referia um hipotético futuro e não a um previsível desfecho à vista.

Já ninguém morre em casa. Pensei num quadro que está no Museu Nacional de Arte Antiga que, quando o vi, me fez lembrar uma canção de Aznavour, “La Mamma”. O quadro, cujas referências não tenho de memória, intitula-se “O passamento da Virgem”. É um daqueles quadros de temática mariana que representam os momentos marcantes da vida da Virgem Maria. Naquele, a Virgem agoniza num leito deslocado para o lado esquerdo do quadro. Em redor, a vida doméstica não parece sofrer alterações: os quartos de uma maçã e a sua casca repousam num prato sobre a mesa, uma mulher cozinha junto à grande lareira acesa, umas galinhas passeiam por ali no meio de uns brinquedos de criança, uma cesta de fruta entorna-se pelo chão. Quando olhei para o quadro achei-o ingénuo, mas, depois, olhei para ele com os olhos de outro tempo. Um tempo em que a morte, melhor, o morrer estava presente na domesticidade que não se alterava nem se detinha. Por isso, o leito da moribunda não era o centro do quadro, o centro do quadro era aquela grande cozinha, metáfora da vida, que olhava para um moribundo como para uma cesta de fruta caída à passagem apressada de alguém.

Em “La Mamma”, Aznavour também canta a morte a acontecer num espaço doméstico. Mas num espaço que se organizou para a receber, que se virou todo para ela, ao contrário das mulheres que, no quadro lá de cima, continuam imperturbáveis os seus afazeres. Naquela toada mediterrânica e solar, o cantor diz-nos que  la mamma vai morrer, que vieram todos, até  Giorgio, le fils maudit, que as crianças brincam em silêncio junto do leito, há um oncle guitarriste qui joue en faisant attention à la mamma. E conclui que c’est drôle, on ne se sent pas triste, prés du grand lit de l’Affection.

Estas mortes assim representadas não existem mais. A tipologia das casas modernas relegou o quarto do moribundo (como também o leito da parturiente) para o exterior, concentrou-se no percurso da vida, não nas suas extremidades. Ainda bem, digo eu,  se me deixar de lirismos. Antes a assepsia branca e eficaz de um hospital indiferente, onde alguém nos deixou para que fôssemos cuidados, do que ser, inaudível e esquecida, uma progressiva mancha de fluidos corpóreos decompostos na solidão do soalho flutuante.

O que me incomoda, ao de leve, é não haver um ponto intermédio. Morre-se cada vez mais tarde, devia morrer-se cada vez melhor.

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RIP

por José António Abreu, em 24.07.11
Detesto Lady Gaga. Mas há umas semanas, num segmento que o Sixty Minutes lhe dedicou e no qual teve atitudes tão ridículas como aparecer ao repórter quase nua porque naquele dia «não lhe apetecera vestir-se», admirei a consciência que ela tem da forma como é encarada ao afirmar que os media e muito público lhe seguem os passos esperando assistir à sua queda. Querendo estar lá quando exagerar, quando algo de horrível lhe acontecer. Quando morrer. Mas, acrescentou, sabe perfeitamente o que faz e não lhes (nos) vai dar essa satisfação. Admirei-a pela lucidez (sim, somos vampiros desejosos do sangue – real ou metafórico – dos famosos que não apreciamos) mas pensei que é por este calculismo, pelo modo como a música parece nela apenas um meio para atingir o verdadeiro objectivo – a fama – que não a aprecio. São os genuínos que ficam para a história. Os que, cantem, dancem, escrevam ou pintem, não parecem fingir. Os que mostram sentimentos em que se pode acreditar. E destes – é duro admiti-lo –, especialmente os que morrem cedo e de forma violenta. Porque não se tornam banais e porque provam que todas as fragilidades eram verdadeiras. Descansa em paz, Amy.

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