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Reviver o passado em Caminha

por Pedro Correia, em 15.06.17

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Devido à profissão dos meus pais, ambos professores, passei a infância a saltitar de terra em terra. Quando fiz 12 anos vivia já na oitava casa onde morei, em cinco terras muito diferentes.

Na altura, como julgo ser normal acontecer com qualquer miúdo nas mesmas circunstâncias, isso entristecia-me. Porque me sentia incapaz de cultivar amizades de infância que perdurassem para a vida. Hoje, pelo contrário, considero que esta constante itinerância produziu efeitos muito mais positivos do que negativos. Graças a ela, posso gabar-me de ter várias terras em vez de uma só.

 

Há quem não valorize isto, mas eu gosto de sentir que fui dispersando raízes por diversos quadrantes a que de algum modo posso chamar meus. Mesmo quando estou muitos anos sem visitá-los. Tem-me acontecido por estes dias, aproveitando as férias de Junho. Passei toda a semana anterior numa das minhas terras adoptivas: Tavira, que frequento com raras intermitências desde há vinte anos.

De um dia para o outro, no entanto, decidi rumar do extremo sudeste ao extremo noroeste do País. Confirmando que bastam oito horas para atravessarmos Portugal de lés a lés. E cá estou em Caminha, onde não pousava há três décadas. Não por falta de vontade mas por falta de oportunidade.

 

Ainda bem que voltei. Porque esta é uma das paisagens da minha infância. Vivi três anos em Viana do Castelo e fazíamos praia um pouco onde calhava, ao longo da estrada nacional 13: Carreço, Afife, Vila Praia de Âncora. Há poucas horas passei defronte da antiga Pensão Meira, hoje um orgulhoso hotel de Âncora, onde a família se alojava durante parte da estação estival.

Mas as minhas melhores memórias infantis de Verão são daqui, da foz do Rio Minho que tenho neste preciso momento defronte dos meus olhos. Do areal de Moledo, onde pela primeira vez vi pára-ventos, presença obrigatória nas praias minhotas batidas pela nortada. Das águas plácidas do rio, que frequentávamos quando o oceano ficava mais agitado. Da aprazível mata do Camarido, com o seu parque de campismo e os seus aromas a flores silvestres. Das caldeiradas em família no entretanto desaparecido Pirata, situado junto ao posto da velha Guarda Fiscal

 

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Regressei. E fiz bem. Calcorreando no presente os trilhos do passado quase como se não houvesse décadas de permeio. Eis-me de volta à marginal, que acompanha o vasto rio fronteiriço - semelhante aos cenários que transplantámos para todas as paragens onde deixámos marca, do Rio de Janeiro a Díli, de Luanda a Macau, de Goa a São Tomé.

A paisagem do passado ecoando no presente: a muralha seiscentista, a matriz, as tílias na praça central, a torre do relógio, o Coura desaguando no Minho, a silhueta tutelar da Serra d' Arga e a massa imponente do Monte de Santa Tecla, na Galiza, atraindo-nos para o outro lado da foz.

Sinto-me miúdo outra vez enquanto cruzo estas ruas. Quando cá vínhamos, abancávamos por vezes na Adega do Chico, típico restaurante familiar. Nunca mais soube dele até há dois dias, quando deparei com ele quase por acaso. Está praticamente na mesma: só deixou de haver serradura no chão, como era habitual nas adegas daquele tempo.

Até o prato mais emblemático ainda é o célebre bacalhau à Chico.

 

É o que peço, sentado na esplanada, enquanto escrevinho estas linhas, acompanhadas de goles de um fresquíssimo verde de Ponte de Lima - outra paisagem da minha infância que quero revisitar.

Cada vez mais me convenço que a felicidade em abstracto não passa de uma utopia: existem, isso sim, múltiplos momentos felizes.

Este é um deles. E há que aproveitá-los todos: cada qual é um pedaço de eternidade.

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O drama repete-se na direita tradicional francesa

por João Pedro Pimenta, em 04.04.17

 

Ou François Fillon é perfeitamente inábil, ou a fortuna abandonou-o definitivamente depois das surpreendentes primárias em que se içou a candidato da direita republicana francesa. Há dias realizou uma manifestação no Trocadéro, com a Torre Eiffell em fundo, e que reuniu algumas dezenas de milhares de apoiantes, para afirmar que prosseguia como candidato e atirando-se à justiça e aos correligionários partidários que o haviam abandonado. Uma prova de força lhe deu algum oxigénio e que obrigou o partido a reafirmar o seu apoio, ao mesmo tempo que Alain Juppé se mostrava indisponível para ser um "plano b". Até algumas formações que o haviam abandonado voltaram de repente atrás. Mas novo caso bizarro, o dos fatos comprados a preço de ouro a alfaiates parisienses de renome, alguns deles pagos em numerário por "amigos" (o que é que isto nos lembra), veio manchar de novo o suposto currículo impecável de Fillon. E depois disso, vieram à superfície novos rumores que não abonam nada a favor da auto-propalada integridade do candidato gaullista.

 
 
No debate a cinco que se seguiu, Fillon tentou dar um ar da sua graça, mas passou despercebido e a sua prestação só ficou acima da de Benôit Hamon, o candidato oficial e nada consensual do PS francês. Único ponto a favor: era o que tinha a gravata mais elegante.
 
 
Recorde-se que Fillon era, até há semanas, o provável vencedor tanto da primeira como da segunda volta das presidenciais francesas. A rejeição a Marine LePen, as lutas internas do PS francês e a pouca relevância a que a esquerda radical está votada, numa eleição a que se apresentam quase 50 candidatos (incluindo trotsquistas, bonapartistas e simples apêndices zangados das forças maiores), fazia prever que Fillon fosse o próximo locatário do Eliseu. A partir do momento em que os cargos da família Fillon vieram à ribalta pública, através do impiedoso Canard Enchainé, as intenções de voto caíram e emergiu Emanuel Macron, o candidato do centro sem suporte partidário.
 
O drama de Fillon parece ser, como já muitos jornais franceses salientaram, uma repetição do que aconteceu a Edouard Balladur nas presidenciais de 1995. Em fins de 1994, Jacques Delors, a cessar o seu mandato na Comissão Europeia e largamente favorito entre os eleitores para suceder a François Mitterrand, declarou-se fora da corrida. O PS francês teve de se contentar com Lionel Jospin, abrindo caminho ao favoritismo do centro-direita. Jacques Chirac, então maire de Paris, ex Primeiro-Ministro e antigo candidato derrotado em anteriores presidenciais (o que em França dá estatuto de persistência), era a escolha óbvia da aliança gaullista-liberal entre o RPR e a UDF. Mas o então Primeiro-Ministro, Edouard Balladur, com largos apoios à direita e no governo, resolveu avançar e dividiu todo aquele espectro político. A alguns meses das eleições, era o favorito nas sondagens, tanto na primeira como na segunda volta. Mas aos poucos, o seu ar demasiado senhorial, alguns casos obscuros emergentes, as suas ideias sociais pouco populares e a pouca simpatia que a personagem despertava no "homem comum" fizeram-no cair do pedestal. Balladur tinha allure de chefe de estado, mas era pouco comunicativo e empático. O contrário de Chirac, uma velha raposa, um gaullista à antiga, afável e acessível, que aos poucos subiu nas sondagens, e em Abril de 1995 passou à segunda volta, com Jospin, deixando Balladur para trás, após o que seria, sem surpresa, eleito Presidente de França. O então chefe de governo demitiu-se, e com ele os jovens turcos que o tinham apoiado, como François Fillon e Nicolas Sarkozy. François Bayrou, que também lhe tinha dado o apoio, transitou para o novo governo, que seria chefiado por Alain Juppé, até ali Ministro dos Negócios Estrangeiros e apoiante indefectível de Chirac.
 
 
A história presidencial em França parece repetir-se 22 anos depois, no mesmo sector, com a diferença de que desta vez a segunda volta não deverá ser entre um gaullista e um socialista. As forças políticas mudaram, mas muitos dos seus intervenientes não, em especial algumas figuras que conviveram no mesmo governo: Fillon (nem de propósito, apoiado por Balladur) é um candidato em desgraça; Sarkozy antecedeu-o; Juppé caiu mas ia sendo repescado; e Bayrou, que aprendeu a apostar no cavalo certo (Sarkozy primeiro, Hollande depois), apoia Emanuel Macron e pode voltar à ribalta política, se a sua aposta se voltar a concretizar. A política francesa, com as suas reviravoltas, apoios, dissensões e "richelieunismos" vários, continua a ser um apaixonante manancial de interesse na política europeia.

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Factos alternativos

por Bandeira, em 13.02.17

Sucede por vezes que certas ideias incongruentes, talvez por jamais nelas investirmos um pouco do nosso capital reflectivo ou as havermos absorvido em muito novos, se colam ao nosso cérebro, um pouco como cartões de crédito sem plafond às carteiras de administradores de empresas públicas. Por exemplo, eu recordava-me muito bem de haver habitado no 4º andar de certo prédio de Algés; eu nunca pusera em dúvida o facto de haver habitado no dito 4º andar do supracitado prédio de Algés; mas certo dia, passando de automóvel pela rua do prédio de Algés em cujo 4º andar me recordava de indubitavelmente haver habitado, e tendo eu partilhado esse importante dado autobiográfico com os restantes ocupantes da viatura, alguém chamou a atenção para a circunstância de o prédio em questão não contar mais que dois andares bem contados, verdade que, de coração apertado, atestei visualmente alguns segundos antes de ligar para o meu neurologista - não sem antes apreciar o facto de ainda haver alguém que presta atenção ao que eu digo.

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Uma memória de Mário Soares

por Pedro Correia, em 07.01.17

Tenho várias - de Macau a Estrasburgo, passando por Lisboa. Mas hoje prefiro destacar a mais recente e mais singela. Esta.

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A Lena do bibe encarnado

por Marta Spínola, em 04.01.17

No João de Deus, onde andei dos 3 aos 10 anos (para sempre na minha cabeça, ou "pela vida fora João de Deus"), a referência para anos diferentes é a cor do bibe. Quem lá andou ou anda, orienta-se assim -"estávamos no bibe castanho", "em que bibe andas?", "Qual é o teu bibe este ano?", é uma coisa que nos fica, lá  está, pela vida fora. 

A Lena do bibe encarnado era uma das educadoras da altura em que eu estava no dito bibe (o dos 4 anos). Não era a minha, mas acompanhava os almoços, ficava connosco em alguns recreios, e por isso havia contacto. 

Eu tinha medo da Lena. A memória que tenho é de uma senhora um pouco ríspida, apesar de me lembrar de a ver sorrir - um sorriso de lado, só com um canto da boca -, de poucas palavras connosco. Tive um episódio com ela que me ficou sempre: uma vez, ao almoço, pus de parte o bocadinho mais apetitoso do peixe (quem nunca?) para ser o último. Aquele estava mesmo bom para ser o último a saborear. A Lena, que estava na supervisão dos almoços, apareceu por trás de mim, pegou no meu garfo, e misturou o peixe todo, enquanto dizia "o peixinho é para comer todo!". E eu chocadissima, mas em silêncio, que nem me atrevia a responder a adultos, muito menos aos que me metiam medo. Lembro-me que o meu pensamento imediato foi: "Nãoooooo! Eu não sou aqueles meninos que não gostam de peixe!".  E não era. 

A Lena tinha um dom: contava histórias como ninguém. Naqueles intervalos em que não podíamos ir brincar para o jardim, e ficávamos no salão, contava-nos histórias. Era uma narradora nata, tinha o tom certo, a entoação perfeita, fazia cada personagem sem grandes teatros mas de uma forma que eu, ainda sem saber ler, os vivia como os dos livros que li mais tarde. Contava-nos histórias, e eu ficava presa em cada palavra até ao fim.

Ouvi "A guardadora de patos", "A princesa e o sal", entre outras, muitas vezes. A que me marcou mais, tanto que nem a versão Disney a suplantou, foi "A Bela e o monstro". A Lena contava-a tão bem, que eu via a fera (não sei se ela não lhe chamaria fera) nas suas torres, serpenteando e perdendo a pele no fim da história. Ontem vi uma rosa numa cúpula de vidro, anunciando a nova versão de "A Bela e o monstro", e mais uma vez me lembrei da Lena e os recreios em dias de chuva, a ouvir histórias.  

Nos bibes que se seguiram, gostava sempre de tudo, mas tinha pena de já não fazer parte daqueles intervalos de histórias de encantar - ficaram sempre no bibe encarnado. Era encantada que eu ficava, juro.

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Eis-me ainda a perguntar porquê

por Pedro Correia, em 24.11.16

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Faz hoje dez anos, fomos sacudidos pela notícia trágica: a Maria José Margarido morrera num acidente de aviação durante umas férias no Chile, quando o bimotor em que viajava acompanhada por três amigos - dois deles também jornalistas - e uma guia local se despenhou numa região montanhosa.

Mergulhámos num mutismo dolorido. Sobre a ruidosa redacção, sempre fervilhante de conversas cruzadas e estridentes toques de telefone, caiu um manto de silêncio incrédulo e assombrado. Todos olhávamos para a secretária da nossa colega que ainda há dias ali estava, na flor da juventude e um sem-fim de sonhos por realizar. Parecia apenas ausente por breves instantes: ninguém diria que partira numa viagem sem regresso.

A Maria José, especializada em temas sociais, era uma das mais competentes jornalistas da sua geração. Deixou centenas de artigos no Diário de Notícias - onde a vi entrar, tímida estagiária - como  testemunhos  inapagáveis  do seu mérito profissional. Sempre com uma escrita cuidada, meticulosa, muito acima da mediania. Tão discreta como perspicaz, parecia quase pedir desculpa pelo seu talento.

Tinha uma beleza serena e um brilho inquieto que por vezes lhe vislumbrava num olhar fugaz. No último postal que escreveu no blogue Respirar um Novo Ar, com o pseudónimo Celta, deixou esta frase: "Nunca estive fisicamente em Lisboa, não." Jamais cessarei de me interrogar se aqueles que partem demasiado cedo serão de algum modo tocados pela misteriosa premonição do fim.

Hei-de lembrar-me sempre dela, eternamente jovem. E do silêncio interminável em que o seu imprevisto desaparecimento nos envolveu naquela fatídica tarde, contemplando a cadeira onde ela nunca mais se sentaria.

Já passaram dez anos. Eis-me de novo a perguntar porquê, eis-de me novo sem resposta alguma.

 

Leitura complementar: A morte e o lixo, do Pedro Mexia.

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O DN sem Liberdade

por Pedro Correia, em 20.11.16

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Prémio Valmor 1940 deixa de ter um jornal lá dentro 

 

Este domingo é um dia muito triste na vida secular do Diário de Notícias. Mas é também um dia triste para Lisboa e para o jornalismo português. A capital perde um dos seus principais símbolos iconográficos – o primeiro edifício construído de raiz para albergar um jornal em toda a Península Ibérica deixa de ter um jornal lá dentro.

Por amarga ironia, o que a ditadura e a censura não conseguiram – retirar o DN do seu espaço histórico no topo da Avenida da Liberdade – conseguiram-no os poderes fácticos da democracia: o velho jornal onde escreveram tantas penas ilustres do nosso jornalismo e da nossa literatura, começando pela de Eça de Queirós, acaba de ser remetido para uma parcela de uma torre modernaça, próxima da Segunda Circular. Mais distante do bulício da cidade e do ruído da rua. Mais distante das pessoas concretas, de carne e osso.

Isto sucede quase sem um pestanejar de indignação da nossa “sociedade civil” numa semana em que o País andou dias e noites a discutir se dois presidentes de clubes passaram das palavras aos actos numa quase-briga de corredor num estádio de futebol. É um sinal dos tempos no declinar deste ano em que o Dicionário Oxford elegeu pós-verdade como palavra mais emblemática de 2016. Na era das “redes sociais” e da televisão interactiva, onde a suposta verdade é proclamada por quem berra mais alto, a nova palavra de algum modo assinala o dobre a finados do jornalismo.

 

Muita gente, que utiliza a resignação como flor na lapela, dirá que não havia volta a dar: são os cultores do “inevitável”, para quem todo o esforço de remar contra a maré é sempre inglório. O ar do tempo recomenda esta pose cínica: em regra, as energias são gastas a combater alvos remotos e abstractos – quanto mais longínquos melhor.

E no entanto, ao contrário do que possa por vezes imaginar-se, nem sempre foi assim. Na dobra do século, um movimento de jornalistas do próprio DN levou por diante um bem-sucedido surto de indignação que extravasou das paredes do diário para os meios políticos e culturais do País, travando a anunciada transferência do jornal para um espaço arrendado no edifício do Entreposto, em Moscavide. O Conselho de Redacção, de que fiz parte por eleição dos meus colegas, liderou esse movimento que se prolongou durante meses e foi coroado de sucesso. Graças a ele, o periódico fundado por Eduardo Coelho em 1864 manteve a sede durante mais década e meia na principal avenida de Lisboa.

Como porta-voz do Conselho de Redacção, escrevi um memorando sobre o edifício, inaugurado em 1940, galardoado nesse ano com o Prémio Valmor e que integra a lista do património arquitectónico da capital. Esse memorando chegou a centenas de personalidades de reconhecido relevo na vida pública do País.

Foram-se multiplicando as adesões a esse abaixo-assinado que contestava a transferência do DN. Não esqueço Agustina Bessa-Luís, que encabeçava a lista organizada por ordem alfabética e que do Porto nos dirigiu uma mensagem de inabalável solidariedade. Nem da calorosa mensagem que nos fez chegar José Saramago - entre vários outros escritores, de Lídia Jorge a Mário de Carvalho, de Mário Cláudio a Manuel Alegre. Nem das vibrantes palavras de Manuela de Azevedo, então (como hoje) prestigiada decana dos profissionais portugueses da comunicação social.

 

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 Painel de Almada Negreiros no piso térreo do edifício

 

Foram meses febris, a contra-relógio, antes da assinatura do contrato de arrendamento das novas instalações. Eu coordenava o processo e funcionava como porta-voz do movimento junto de outros órgãos de informação, a quem dava nota periódica das adesões. Era raro o dia em que não me chegavam novas mensagens, recolhidas por colegas como a Ana Marques Gastão, o Carlos Albino, o José Manuel Barroso, a Céu Neves, a Filomena Naves ou a saudosa Cadi Fernandes, entre vários outros. Da redacção Norte, sem a menor quebra de solidariedade apesar da distância física, chegavam palavras de apoio reunidas pelo Francisco Mangas, pela Ilídia Pinto ou pelo Fernando Madaíl.

Eu encarreguei-me sobretudo dos políticos – incluindo quatro dos cinco dirigentes partidários à época. Francisco Louçã (BE), Carlos Carvalhas (PCP) e Paulo Portas (CDS) foram dos primeiros a aderir à nossa causa. Durão Barroso, que então liderava o PSD, não quis comprometer-se de início. Mas de todos os quadrantes nos chegavam expressivas demonstrações de apoio.

Quando esgotei a lista dos políticos, passei a outros protagonistas da vida pública portuguesa, pedindo uma declaração exclusiva a cada um. O único que ma recusou foi um historiador muito mediático, já falecido, que do outro lado da linha telefónica me disse em tom agreste que as administrações dos jornais tinham “todo o direito” de transferirem as redacções para onde lhes apetecesse. Agradeci-lhe e desliguei: a pessoa em causa acabara de perder um admirador.

 

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 Postal publicitário de Stuart Carvalhais anunciando o novo edifício (1939)

 

Decepcionante foi também o comportamento de alguns colegas de redacção, felizmente muito poucos. Uns pareciam mais preocupados em reservar lugares de estacionamento no novo edifício, ignorando a nossa recolha de assinaturas, outros opinaram olimpicamente que se tratava de um esforço inútil e foram à vidinha. É sempre mais fácil apregoar camaradagem do que praticá-la.

O tempo demonstrou que não tinham a menor razão. Conseguimos pôr o assunto na agenda mediática, suscitámos uma onda crítica que foi engrossando semana após semana e forçámos a administração do DN a recuar. O ponto culminante foi o depoimento solidário de Durão Barroso, que me apressei a transmitir ao Pedro Lima, no Expresso. Nesse sábado, o semanário destacou-o em lugar cimeiro nas suas notícias da primeira página. Na segunda-feira seguinte, a administração comunicou-nos que a batalha fora ganha. E eu, que até era (e sou) amigo do secretário-geral do Entreposto, partilhei com indizível entusiasmo o sentimento de profunda satisfação que percorreu a Redacção do DN – satisfação que abrangeu os próprios directores, Mário Bettencourt Resendes e António Ribeiro Ferreira.

Foi apenas há década e meia mas parece ter acontecido há uma eternidade.

 

Desliguei-me em 2013 dos quadros do DN, mas mantenho-me profundamente ligado ao jornal, onde passei 15 anos da minha vida profissional. Não houve um só dia em que não me sentisse orgulhoso de trabalhar naquele edifício projectado pelo arquitecto Pardal Monteiro – com o seu elegante torreão, o seu vasto arquivo subterrâneo abrigado num cofre-forte, a sua emblemática porta-giratória, o seu magnífico átrio com painéis de Almada Negreiros.

A tristeza dos profissionais do Diário de Notícias é a minha tristeza. Uma tristeza ainda mais profunda e dilacerante do que a simples despedida do edifício há 76 anos implantado numa avenida chamada Liberdade: o encerramento deste capítulo na vida do diário mais antigo de Lisboa simboliza também, de algum modo, o fim do jornalismo tal como o conhecemos – enquanto alguns charlatães de turno proclamam que qualquer indivíduo pode “tornar-se jornalista” com uma aplicação móvel ao seu dispor.

Nada mais ilusório neste ano da “pós-verdade”. Como o futuro próximo se encarregará de comprovar.

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Da posse

por Bandeira, em 18.11.16

Falho de sentido de posse como sou, nunca senti o edifício do DN como meu. Pelo menos não a magnífica fachada, não a porta giratória, não os painéis do Almada. Essas glórias e a memória delas serão sempre de quem trabalhou lá dentro, na redacção. Eu, que há 34 anos pela primeira vez entrei no edifício como colaborador, usava a entrada das traseiras, que dava para as máquinas e cheirava um pouco a óleo, sempre aberta às madrugadas; e depois dela a escada, com as suas paredes amarelas de fumo e um ar vagamente industrial.

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O meu Rosebud era um canguru

por Pedro Correia, em 18.09.16
 

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Sempre gostei de séries com animais. A minha infância esteve cheia delas. Lembro-me: havia um golfinho chamado Flipper, um leão chamado Daktari, um cavalo negro chamado Fúria, até um urso pardo chamado Gentle Giant.
Mas, entre as séries que a RTP exibia nas tardes de fim de semana, nenhuma me seduziu tanto como esta - produzida entre 1966 e 1968 pela CTVA australiana - que tinha um canguru como personagem principal. Chamava-se Skippy, este marsupial que seguia o jovem dono como se fosse um cão. Foi quanto bastou para sentir uma vontade enorme de ter também um bicho destes. O problema é que cangurus livres como o vento só existem na Austrália - talvez por isso os do Jardim Zoológico de Lisboa nunca me despertaram interesse.
Se não podiam vir eles cá, fui eu lá. Um dia, nos arredores de Darwin, já a cidade cedera lugar à savana, aconteceu um momento mágico: um canguru veio ao meu encontro. Livre e solto como o vento. Lá estava ele - o "meu" Skippy. Demorou-se só o tempo necessário para lhe disparar uma fotografia e logo me virou as costas, indo à sua vida. Mas bastou este momento para justificar a minha primeira deslocação à Austrália.
Ainda hoje penso naquele momento mágico. E logo me vêm à memória os versos do tema musical da série: "Skippy, Skippy, Skippy the bush kangaroo / Skippy, Skippy, Skippy a good friend true."
Desconfio que não preciso de procurar mais: o meu Rosebud é mesmo este.

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O dia mais longo da minha vida

por Pedro Correia, em 11.09.16

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Faz hoje quinze anos ocorreu o dia mais longo nas vidas de muitos de nós. Uma data que poderia passar à História como o "dia da infâmia" se essa designação não tivesse sido escolhida por Franklin Roosevelt para reagir ao cobarde bombardamento de Pearl Harbor pela aviação nipónica, em 7 de Dezembro de 1941.

Parecia uma tranquila terça-feira de Verão como qualquer outra em Nova Iorque. Mas aquele 11 de Setembro de 2001 - quando o século XX terminou de vez e este século teve o seu verdadeiro início, afogado em estilhaços e cinzas - assinalava afinal uma fronteira histórica.

Daqui a centenas de anos os herdeiros dos nossos herdeiros evocarão esta data como nós hoje lembramos a queda de Constantinopla (29 de Maio de 1453, outra terça-feira) ou a tomada da Bastilha (14 de Julho de 1789, também numa terça-feira). Uma data que fez vacilar, talvez para sempre, as linhas divisórias que críamos imutáveis entre segurança e liberdade.

 

Naquela trágica manhã, as Torres Gémeas do World Trade Center - símbolos do orgulhoso poderio financeiro norte-americano que pareciam desafiar o céu com a sua aura de fortalezas inexpugnáveis - desmoronaram-se como pedras de dominó. E pressentimos logo ali que um pedaço da nossa existência mudaria para sempre. A era global tornava-se também na era do terror sem fronteiras nem barreiras, à mercê dos caprichos homicidas de uma guerra insidiosa que passou a ter por palco os mais inesperados e banais pontos do quotidiano de qualquer de nós. Uma estação ferroviária, um bar, um autocarro, um hotel, uma praia, uma avenida, um templo, um pátio de escola.

O casamento do mais impiedoso fanatismo ideológico com a tecnologia de vanguarda consumava-se ali, naquelas torres em chamas - prelúdio de muitos outros incêndios que devastariam tantos países na década e meia subsequente. Com múltiplos pontos negros em cidades mártires: Londres, Madrid, Paris, Istambul, Bombaim, Bagdade, Moscovo, Haifa, Jerusalém, Ancara, Beirute, Riade, Cabul, Grozni, Bruxelas, Tunes, Mombaça, Davao, Casablanca, Carachi, Charm el-Cheik, Amã, Mossul, Islamabade. E nas ilhas de Bali, Djerba e Mindanau. E na Península do Sinai. E no Quénia. E na Nigéria.

 

Estava em casa à hora do almoço e assisti a tudo na televisão, como aconteceu a tantos de nós. Logo acorri ao jornal, iintegrando-me numa das equipas de trabalho que se mantiveram em laboração contínua, produzindo sucessivas edições. Surgiria nas bancas um jornal diferente, praticamente sem outro tema: naquele dia, na redacção do Diário de Notícias, estávamos convictos de que não escrevíamos só para o leitor da manhã seguinte. Estávamos também a dar um contributo para o rascunho da História.

E sabíamos de algum modo que tudo seria diferente a partir daí.

 

Cerca das três da madrugada de 12 de Setembro, quando abandonei enfim as instalações do jornal e cruzei em ritmo fatigado as ruas circundantes, entretanto despovoadas, percorreu-me uma sensação de estranheza: havia calor mas senti frio. As imagens das vítimas indefesas de Nova Iorque, com os seus apelos lancinantes e as suas preces desesperadas, não me saíam da cabeça.

Ainda cá estão quinze anos depois.

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Como se o golo fosse só para nós

por Pedro Correia, em 26.07.16

Aos olhos de um miúdo, não há melhor escola para aprender a ver futebol do que as tardes passadas nos estádios em companhia do pai. Aconteceu comigo. Ainda hoje recordo os nomes de futebolistas antigos que o meu pai ia desfiando enquanto víamos as partidas ao vivo, as histórias que me relatava a propósito dos desafios de outros tempos e as noções tácticas e técnicas do jogo que me ia passando nesses momentos irrepetíveis.

As modas mudam muito, mas certas tradições vão-se mantendo. Para um garoto destes dias, continua a ser emocionante ter a oportunidade de ver ao vivo os jogadores que figuram nas cadernetas de cromos, relíquia que persiste em acompanhar cada menino, temporada após temporada, no decurso das gerações.

 

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Já era assim no meu tempo. Já era assim no tempo daqueles que me antecederam. Ainda hoje recordo a emoção que senti ao conseguir um autógrafo do Jacinto João após um jogo da Taça UEFA contra o Arad da Roménia à saída dos balneários do estádio do Bonfim. Juntei o autógrafo ao cromo do jogador, craque do Vitória de Setúbal, juntamente com o José Maria, o José Mendes, o Guerreiro, o Octávio Machado e o José Torres. E foi com imenso orgulho que o exibi aos colegas da escola.

Além do Sporting, sempre com lugar à parte, outra equipa em destaque nessa caderneta era a da Académica – a equipa dos “estudantes”, como então se dizia. Merecia-me especial admiração, incutida pela arguta pedagogia paterna, por demonstrar que o futebol não era incompatível com os estudos. Com Rui Rodrigues, Rocha, Vítor Campos, José Belo, Gervásio, Manuel António e um tipo que dava nas vistas por ser muito louro. Chamavam-lhe ‘ruço’ e tinha o mesmo apelido que eu. O Artur Correia.

 

Ele e o Rui Rodrigues – um defesa elegante, que cultivava a arte de desarmar sem falta – viriam a decepcionar-me quando se transferiram para o Benfica. Mas fui acompanhando o percurso do ‘ruço’, um lateral de enorme mobilidade, que percorria o corredor direito num constante vaivém e sabia centrar com precisão. Eram dois jogadores que gostaria de ter visto no Sporting.

E acabei mesmo por ver um deles de verde e branco. O Artur, que em 1977 se transferiu para Alvalade. Lá permaneceu três épocas, vencendo a Taça de Portugal em 1978 e sagrando-se campeão nacional em 1980. Um ano de glória, um ano de infortúnio: quatro meses depois do título, jogando já nos Estados Unidos, sofreu um AVC que o afastou para sempre do futebol. Tinha apenas 29 anos. Começava aí uma longa via crucis só agora terminada, quando nos deixou de vez. No ano passado tinham-lhe amputado uma perna – supremo sofrimento para quem, como ele, tão bem jogou futebol.

 

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Artur Correia com a Taça de Portugal conquistada pelo Sporting (1978) 

 

Lembrei-me ontem do meu pai quando soube da notícia da morte do Artur Correia. Porque o último jogo que vi ao vivo com ele, nas bancadas do Estádio Nacional, foi o único em que o Artur marcou com a camisola da nossa selecção. A 1 de Novembro de 1979, num desafio de qualificação para o Campeonato da Europa do ano seguinte.

Recordo-me perfeitamente. Os noruegueses marcaram primeiro, gelando o estádio. A nossa equipa acusou o golo e andou perdida em campo. Até que o Artur pega na bola lá atrás, avança com ela com uma vontade indómita de virar o resultado, ultrapassa todos os adversários e dispara uma bomba a mais de 30 metros da baliza, num remate muito bem colocado. Empatava a partida, a sorte do jogo virava. Viríamos a ganhar 3-1.

Foi um golo do outro mundo: nunca mais o esqueci. Estávamos na curva sul do estádio, um pouco acima da baliza norueguesa. Abracei-me ao meu pai como nos tempos em que ainda colava cromos na caderneta. E ele abraçou-se a mim como se eu fosse ainda o catraio que antes levava pela mão, de jogo em jogo.

Parecia que aquele golo tinha sido marcado só para nós.

 

Iria tornar-me adulto, depois rumei a outras paragens, não regressei com o meu pai ao futebol - nem em pensamento. Até agora, mal soube que o Artur perdera a  última partida no traiçoeiro campeonato da vida.

Voltei a abrir a velha caderneta, desenterrei os autógrafos do pó do arquivo, imaginei-me a falar com uma remota voz infantil. E senti que o Pai me escutava, de polegar erguido, apaziguando todos os meus receios: “Tenho a certeza de que vamos vencer.”

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"Se for preciso corte metade"

por Pedro Correia, em 06.07.16

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Nuno Rocha (1933-2016) 

 

Vejo-me nas fotografias, miúdo ainda, naquele grupo em que todos eram mais velhos que eu. Mas tratávamo-nos por tu e as hierarquias eram muito mais diluídas nessa época, apesar de circular nas redacções uma frase importada das casernas: “A antiguidade é um posto”. Na hora de bulir, todos arregaçavam as mangas e aceleravam o passo: ninguém ia pavonear-se para as televisões armado em general, todos se comportavam como soldados.

Vejo-me a entrar naquela Redacção, num primeiro andar ao Príncipe Real que na sala maior funcionava como piso térreo, enquanto desfilava perante mim uma espantosa galeria de personagens de um romance que talvez ainda venha a ser escrito. Uma delas era o director do jornal, um portuense transplantado para Lisboa que ganhou fama como repórter do Diário Popular. No célebre “baile do século”, oferecido pelo magnata Antenor Patiño e realizado na última noite da vida política de Salazar, furou o veto à entrada de jornalistas disfarçando-se de empregado de mesa. Pôde ser assim o único a contar a história.

 

O director escrevia artigos copiosos – linguados, como se dizia no jargão profissional da época – que não tinha a menor paciência para rever.

Um dia, era eu ainda estagiário, chamou-me para que lhe corrigisse os erros de ortografia. E logo partia para outra prosa. Às vezes dava-me a impressão de que ele escrevia sozinho metade daquele semanário, contínuo sucesso de vendas, que ostentava como título de glória um comício em Almada em que o general Vasco Gonçalves lhe chamou “pasquim”.

Chamava-se Tempo, feliz título que define toda uma época já passada e que não regressa. Os nossos maiores concorrentes eram dois outros semanários (Expresso e O Jornal), a informação processava-se a um ritmo muito mais vagaroso do que o actual, podíamos dar-nos ao luxo de guardar notícias para só divulgar na quinta-feira.

E toda a gente lia jornais: eram frequentes as tiragens acima dos cem mil exemplares, números impensáveis para os dias de hoje. Havia quem comprasse só para ler um colunista: o Manuel de Portugal, por exemplo, era um sucesso sem par. Recebíamos chamadas de cidadãos anónimos a perguntar se podíamos “transmitir uma palavra de agradecimento àquele senhor que tanto gosto de ler”.

 

O director dos artigos copiosos era o Nuno Rocha. Morreu ontem, aos 83 anos, esquecido do mundo, alheado do fluxo informativo que durante tantas décadas o fez produzir um número incontável de notícias.

Desaparece num momento em que o jornalismo se transfigura por completo, frágil como nunca, transformado num voraz mecanismo reprodutor de desempregados em série, sem metade do prestígio social que teve nas décadas precedentes. A relação polifacetada do jornalista com a vida transformou-se numa relação estritamente monogâmica com um ecrã de computador.

O servo da gleba ressuscitou no servo da tela.

 

Nessa altura, não. Havia tempo para trabalhar no duro e tempo para nos afastarmos do som estridente das máquinas de escrever e dos telefones que não paravam de tocar, alargando horizontes, convivendo, fazendo amizades, conhecendo mundo. O Nuno Rocha tinha muitos defeitos, mas sabia dar oportunidades a quem começava. Aos 20 anos, pôs-me um bilhete de avião nas mãos e enviou-me como repórter para uma eleição na Grécia. Aos 21, mandou-me entrevistar figuras como Jorge Amado, Alvin Toffler (morreu por estes dias), Björn Borg e Jorge Jardim. Aos 22, deu-me carta branca para reformular o suplemento de artes e espectáculos, com novos temas, novos colaboradores e novo grafismo.

Continuava a escrever copiosamente, continuava a viajar como se não houvesse amanhã, ditando prosas ao telefone das mais diversas paragens. Na redacção, sempre sentado à secretária, o Chefe Peixe Dias conferia-lhe a pontuação e abria-lhe parágrafos nos textos com paciência de bom samaritano.

Chamávamos-lhe assim mesmo: Chefe – algo que nunca chamei a mais ninguém. Hoje só os cozinheiros merecem tal título, o que se adequa muito ao ar do tempo.

 

Ali, naquele semanário de direita onde não faltava gente de esquerda, fiz amizades para a vida. A Teresa e o Fernando, que me acompanham no DELITO. O António Ribeiro Ferreira, o Paulo Portas, o Carlos Santos Pereira, o Paulo Reis, o Ramos André, o Júlio Santos, o Carlos Pires, o António Duarte (o que será feito dele?), o Luís Marinho, a Helena Vieira, o Paulo Camacho, o António Fontoura, a Anabela Saint-Maurice, a Ana Guedes, o Jorge Nuno Oliveira, o Horácio Piriquito, o Jorge Botelho Moniz, o Vítor Pereira, o João Líbano Monteiro, a Eva Cabral, a Leonor Ribeiro da Silva, o Alcides Pinto, o Eduardo Sousa, o Augusto Teixeira, o Luís Costa Ribas, o Alfredo Canana. O Octávio Saldanha, o José Vasconcelos, o Ilídio Barreto e o Jorge Alves Oliveira, que nunca mais vi.

E tantos outros: Raul Alves Fernandes, Palmira Correia, Gouveia de Albuquerque, Isabel Atahide Cordeiro, Luís Fraga, Wilton Fonseca, Jorge Massada, Noé Ramos, Piedade Paulo. Alguns que já cá não estão: a Margarida Viegas, o Händel de Oliveira, o José Neto, o Albano Matos, o João Isidro, o Carlos Basto, o Jorge Pereira de Almeida, o José Paulo Canelas.

Aprendi quase tudo quanto conheço nesta profissão com quase todos eles. Porque então havia tempo para os mais velhos ensinarem os mais novos. E para os mais novos levarem na cabeça dos mais velhos. E corrigirem os textos. E reescreverem tudo desde o início, se fosse necessário.

 

Hoje imprime-se o erro sem que ninguém o detecte. Porque anda tudo a cem, porque cada um só sabe de si, porque todo o homem é uma ilha e a profissão deixou de ser um vasto arquipélago. E o jornalista – agora convertido em “profissional multimédia” nesta era já sem chefes em que a antiguidade deixou de ser um posto para ser posta de lado – quase perdeu até direito ao nome. É um número numa folha de cálculo.

Nunca a tecnologia foi tão desenvolvida. Nunca se esteve tão à distância do mundo real.

As “fontes” deixaram de ser criaturas de carne e osso, interlocutores a quem era possível encarar olhos nos olhos: tornaram-se seres virtuais, uma voz ao telefone, dois correios electrónicos, três sucintas mensagens num telemóvel.

Hoje ninguém se daria ao incómodo de se disfarçar de empregado para penetrar na festa de um Patiño: as dondocas que lá estivessem encarregavam-se da “reportagem” com trinta selfies a ilustrar. Saía na página quatro do jornal gratuito, três minutos para ler no metro, com títulos replicados nos rodapés das televisões e das farmácias de serviço entre o mais recente atentado no Bangladeche e a nova tatuagem da velha estrela do futebol.

 

O Nuno Rocha, meu primeiro director num jornal a sério, já cá não está para relatar os factos da semana. Nem o Chefe João Peixe Dias poderia voltar a aparar-lhe a prosa enquanto cofiava o bigode em gestos nervosos, de eterno cigarro a arder-lhe nos dedos.

“Se for preciso corte metade”, dizia o director. E o Chefe cortava. Outros tempos.

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Quando a Realidade se Cruza Com o Imaginário

por Francisca Prieto, em 04.05.16

Quando tinha a idade da minha filha Rita passava longas temporadas em casa da minha avó paterna. A minha avó era modista, proprietária e mestra da “Casa da Costura”, um estabelecimento reconhecido pelo esmero e rigor em prazos e pespontos.

Eu andava por ali, entre aprendizas e costureiras, a forrar botões, a arrumar carrinhos de linhas e a escolher restos de tecidos para fazer mantas para as bonecas. 

Como era tagarela, gostava de me sentar num banco baixinho e meter-me em conversas muito compridas com as costureiras. Havia a Gigi, um amor de senhora que, por ter tido um problema qualquer na juventude, tinha ficado com um olho de vidro. E a Cristina, que me fazia ovos estrelados sem a ranhoca da clara por cima.

Naquela altura a minha mãe já tinha percebido que passear por um palco a fazer macacadas não era coisa que desse de comer a cinco filhos, de maneira que passava semanas fora a dar e receber formação para se reinventar noutra coisa qualquer.

Escrevia-me cartas e postais dos quatro cantos de Portugal e eu pedia à Gigi e à Cristina para as lerem muitas vezes e elas enganavam-se de propósito porque já sabiam que eu dava logo por isso. Riam-se muito quando as emendava e eu amuava.

A minha conversa preferida era sobre o Parque Eduardo VII. Passava tardes inteiras a pedir-lhes que me contassem como era. Onde ficava o lago dos patos, onde era melhor pousar uma toalha para um piquenique, qual a árvore que fazia a maior sombra ou como era o café onde se podiam comer Super-Maxis.

Para mim, o Parque Eduardo VII era um cenário mítico que não existia senão na minha imaginação. Uma espécie de jardim babilónico que idolatrava porque podia ser tudo aquilo que eu quisesse.

Um dia resolveram pedir licença a mestra Dorotheia para me levar lá. Fizeram-se grandes preparativos, muito zumzum à volta do grande dia, que roupa ia vestir, que eléctrico havíamos de apanhar, que gelado me iam oferecer, a que horas era a partida, eu sei lá.

No momento em que me vestiram o casaco de fazenda para sair porta fora, fui invadida por um pavor inexplicável e desatei num pranto tão aflitivo que se desistiu da epopeia. Era como se me estivessem a propôr a visita à caverna de um ogre.

Só hoje, e passados tantos anos, consigo perceber o fenómeno. É que quando nos atrevemos a cruzar as fronteiras do real com o imaginário, causamos danos irreparáveis.

E a mim, deram-me cabo do Parque Eduardo VII.

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Tão longe e tão perto, Zé Paulo

por Pedro Correia, em 13.04.16

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Sentimos que começamos a envelhecer quando cada vez mais gente à nossa volta nos trata por você em vez de tratar por tu. Na segunda-feira despedi-me de uma pessoa que me tratava por tu há 33 anos - outra pessoa que parte cedo de mais, outra pessoa com quem ficaram tantas conversas por partilhar. Foi o José Paulo Canelas, um grande profissional do jornalismo, um amigo de décadas.

 

Éramos absurdamente novos, absolutamente infatigáveis, ingenuamente crentes de que seríamos capazes de tornar realidade todos os sonhos. Eu editava na altura o segundo caderno do semanário Tempo, um dos jornais com maior tiragem à época, e havia decidido remodelá-lo alterando-lhe o grafismo e até o nome - passou a chamar-se Fim de Semana. Obtive luz verde da direcção para contratar novos colaboradores e colunistas - de uma geração mais jovem e com uma linguagem mais arejada e dinâmica.

Entrou assim em cena o José Paulo, que passou a ter a seu cargo duas páginas de temas desportivos - era já então a área que preferia. Trabalhámos juntos, semana a semana, durante quase três anos: posso garantir que foi um dos raros colaboradores que não falharam um prazo. Oferecia sempre mais do que lhe era pedido em textos que me chegavam irrepreensíveis às mãos - ao contrário de outros, que precisavam de ser profundamente alterados ou mesmo refeitos de alto a baixo após julgamento sumário e condenação à guilhotina.

Finda esta experiência, reencontrámo-nos durante alguns meses na revista Nova Gente, onde fui um fugaz subchefe de Redacção. Trabalhávamos imenso mas divertíamo-nos na mesma proporção naquela indescritível cave em Queluz onde não decorria um dia sem um toque surreal. Com histórias que davam para um bom livro, garanto-vos. Ou para trechos de filmes de um Buñuel ou um Fellini.

 

Depois os nossos destinos separaram-se. Eu saí de Portugal, andei dez anos por fora, cumpri o sonho de dar a volta ao mundo. Ele seguiu a rota do jornalismo desportivo, para a qual tinha genuína vocação: passou pela Gazeta dos Desportos e pelo Record, e chegou a subdirector do diário O Jogo. Como sucede a quase todos nós, sucedeu-lhe então uma inesperada alteração de rota, especializando-se noutra área do jornalismo: chegou a director da revista TV 7 Dias e era agora subdirector da TV Guia, embora em situação de baixa há cerca de um ano.

Foi quando exercia funções directivas n' O Jogo que, estando eu de regresso ao País e sem trabalho, recebi um telefonema dele a convidar-me para editor do jornal em Lisboa. Algo que jamais esqueci, jamais esquecerei. Só quem nunca passou pelo desemprego é incapaz de avaliar a importância destes gestos.

 

Na igreja do Santo Condestável, ao princípio da tarde de segunda-feira, dizia-me o Fernando Sousa, seu primo-irmão, que o José Paulo Canelas, por mais atarefado que andasse, nunca perdia de vista os amigos e tentava sempre ajudá-los. Sou testemunha directa desta generosidade. Sempre discreta, muito à maneira tímida dele, quase como se precisasse de pedir licença para nos mostrar que tinha um coração enorme.

Naquele momento triste, reencontrando após tantos anos parte da "minha" equipa da Nova Gente, foi possível sorrirmos juntos ao lembrarmos episódios irrepetíveis em que fomos protagonistas. O espírito do Zé Paulo permanecia intacto, ali connosco.

Por breves instantes, inspirados por ele, voltámos a ser miúdos outra vez. De uma alegria contagiante, de uma energia inesgotável, com a sensação de que não há metas impossíveis e temos um tempo sem limite pela frente.

Tratamo-nos todos por tu e combinámos jantar. O Zé Paulo vai lá estar também.

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Memórias

por Francisca Prieto, em 13.03.16

Nas praias da minha infância, os meus irmãos planeavam provas de atletismo de fio a pavio. Definiam com todo o rigor as marcas do salto em comprimento. Eu perdia sempre porque tinha as pernas mais curtas.

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Memórias de Uma casa

por Francisca Prieto, em 23.02.16

Nasci numa casa das que já não existem. Das que são elas próprias uma história de amor.

Era a casa da avó Júlia e do avô Eduardo, pais de nove filhos, que a arrendaram em 1949 quando a minha mãe tinha quinze anos. Foi nesta casa que todas as tias se casaram e onde sempre éramos fotografados com um ar muito composto, defronte de uma colcha de Castelo Branco e de dois jarrões da Índia que se vieram a partir na sequência das corridas de patins no corredor.

Quando os meus pais se casaram, ficaram a viver no segundo andar, no sótão, e por lá fomos nascendo os cinco, no meio de avós e tias.

O meu pai, que vinha de uma família reduzida, adoptou aquela multidão como sua e sempre o ouvi chamar mãe à minha avó materna (embora fosse comum à época) e manas às minhas tias.

Com grande pena minha, o avô Eduardo morreu pouco tempo antes de eu nascer, pelo que nunca o cheguei a conhecer.

A avó Júlia era uma pessoa bondosa, muito ciente das suas obrigações católicas.

Lembro-me sempre dela a atravessar a rua para assistir à missa diária na capela dos Jesuítas, que ficava ali defronte. No inverno levava na cabeça um chapéu de pêlo, à russa, por causa dos resfriados e das constipações.

Lá em casa havia um Santo António grande, talvez de um metro de altura, e um dia o meu irmão Zé resolveu cobrir a cabeça do Santo António com um garruço. A avó ia tendo uma apoplexia. Achou que o acto herege podia valer ao neto o eterno fogo do inferno. O meu irmão, que sempre teve jeito para derreter corações de senhoras, ofereceu-se para ser seu aio por tempo indefinido e a avó acabou por esquecer a barbaridade.

Ao domingo íamos à missa à Basílica da Estrela. Eu era levada pela mão de alguma irmã ou de uma tia e às vezes deixavam-me levar uma boneca para assistir à cerimónia. Depois ficava muito aflita porque quando chegava a altura de comungar, por ser muito pequena, era obrigada a acompanhar as tias e ficava cheia de medo de não voltar a encontrar a boneca no banco da igreja.

A tia Beu fumava cigarros Ritz e levava-me a lanchar a uma pastelaria popular, logo ali ao lado. Eu escolhia iogurtes Ucal de chocolate porque eram os meus preferidos. Às vezes também me deixava comprar cigarros de chocolate iguais aos dela, que eu fingia fumar com os dedos esticados.

As compras faziam-se no supermercado Expresso e, na altura do pós 25 de Abril, cada pessoa só podia comprar dois litros de leite. De maneira que acontecia fazer viagens repetidas ao supermercado com tias diferentes para podermos trazer mais leite para casa.

Quando alguém ficava doente, íamos à Farmácia Mota Capitão, na rua de São Félix. Mas eu tinha muito medo porque achava que, se caísse, só parava em Santos já toda estrampalhada.

 

A casa tinha um leão de latão, em lugar de uma campainha. Quando alguém se queria fazer anunciar, puxava uma argola na língua do leão que fazia soar um sino.

No primeiro andar havia a salinha do piano. A tia Tó foi fazer o conservatório e tinha de ensaiar muito. Convocava os meus irmãos para lhe passarem as páginas da partituta. Quando estava bem disposta, e sabia que a avó não estava em casa, prometia-lhes tocar “A Desfolhada”, mesmo com a parte do “quem faz um filho, fá-lo por gosto”.

Do segundo andar só se descia de corrimão. Apanhava-se balanço na descida e depois reduzia-se ligeiramente a velocidade para fazer a curva de cada patamar sem danos de maior.

As escadas só serviam para fazer concursos. Para descobrir, entre os primos, quem era capaz de saltar do degrau mais alto.

 

Os meus irmãos são os quatro em escadinha e um bom bocado mais velhos do que eu. Pintavam a manta.

Em dias de chuva, divertiam-se a fazer a vida negra aos taxistas da praça que ficava do lado de lá da rua. Na altura, não havia centrais e as praças tinham uma coluna com um telefone para onde se ligava a pedir o serviço.

Os meus irmãos, de luz apagada e escondidos por detrás dos cortinados, ligavam para a praça. O taxista saía do carro debaixo de chuva torrencial, corria para o telefone e, no preciso momento em que se percebia que ele ia pegar no auscultador, desligavam.

Esperavam então que o senhor retomasse o assento no automóvel e repetiam calmamente a operação. Tantas vezes quantas as necessárias para ver um taxista em estado apoplético.

 

Outro clássico, era a “operação Ortigão Ramos”. A prole Ortigão Ramos vivia na casa do lado e, vá-se lá saber porquê, era alvo da embirração dos meus irmãos.

De maneira que, quando estavam enfadados, resolviam ligar para uma pastelaria lá do bairro a dizer que era da casa dos Ortigão Ramos e que era para encomendar uma dúzia de duchesses com entrega ao domicílio. Esperavam um quarto hora e lá viam um moço a passar com uma grande caixa atada num cordel.

Sabe-se que nunca os duchesses foram devolvidos. Mas ainda hoje nos perguntamos se algum Ortigão Ramos chegou a levar uma sova por acharem que era ele a fazer a encomenda.

 

Os momentos áureos eram os dias de festivais da canção. Fazia-se um bolo e tudo, para ser fatiado durante o intervalo, entre as actuações e as votações. O divertimento supremo era identificar uma fífia, um tropeção ou uma toillete medonha para, sem qualquer tipo de cerimónia, se desatar a atirar impiedosos pedregulhos verbais capazes de aniquilar logo pela raiz qualquer remota pretensão de carreira no mundo artístico.

Depois, cantavam-se meses a fio os temas mais populares e faziam-se actuações caseiras a imitar os artistas.

 

Isto foi tudo há muito tempo. Foi tudo noutra vida. Mas deixa cá umas saudades.

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Memórias

por Francisca Prieto, em 13.02.16

Uma vez, na rua,  a minha mãe deu uma nota de vinte euros a um homem com muito mau aspecto. Quando lhe dissemos que provavelmente o dinheiro ia ser gasto em droga ela disse que não fazia mal, que o homem estava desesperado.

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Da Infância

por Francisca Prieto, em 11.01.16

Nos Verões dos meus doze, treze anos, quando me dava o aborrecimento das tardes das férias compridas, às vezes ia buscar uma espingarda de pressão de ar que havia na garagem dos meus pais e vinha para o jardim fazer pontaria a pacotes de leite Mimosa.

Estou capaz de garantir que havia adultos em casa e que ninguém me dizia nada.

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«Não tens pernas para andar?»

por Pedro Correia, em 02.04.15

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 Maria Isabel e Manoel de Oliveira no dia do casamento (4 de Dezembro de 1940)

 

Há pessoas que imaginamos imortais. Manoel de Oliveira - contemporâneo de Griffith, Chaplin e Eisenstein - começou a trabalhar na Sétima Arte ainda no tempo dos filmes mudos e, enquanto actor, teve um papel de destaque na primeira longa-metragem sonora inteiramente rodada em Portugal (A Canção de Lisboa, 1933). Com uma carreira que se prolongou por oito décadas, obteve o reconhecimento generalizado dos seus contemporâneos - algo de que poucos artistas se podem gabar. Reconhecimento merecido: basta lembrar que é dele o melhor filme português de sempre.

Mas agora, que acabo de saber que o cineasta rumou enfim à eternidade, só me apetece recordá-lo num episódio bem prosaico e terreno. Ele e a esposa, Maria Isabel, vinham com frequência a Lisboa e costumavam instalar-se num hotel situado nas imediações do Marquês de Pombal. Nessas ocasiões almoçavam num restaurante da Rua Eça de Queirós, o Cacho Dourado, onde se come muito bem a preços módicos.

Eu, que à época trabalhava no Diário de Notícias, também costumava almoçar ali. E já me era familiar a presença do simpático casal, que jamais revelava o menor indício de petulância ou presunção. Mestre Oliveira teria 97 ou 98 anos por essa altura e, embora usasse bengala, percebia-se que não necessitava verdadeiramente dela.

Num certo dia, após um almoço tardio (em que não dispensou um copinho de vinho, que apreciava), o cineasta quis saber o que havia para sobremesa. O empregado fez um gesto vago em direcção a uma vitrina que se encontrava ao fundo da sala. E, em jeito de doce repreensão, logo a esposa do cineasta disse ao marido, com aquela intimidade própria dos casais que há muito aprenderam a cultivar a arte do convívio doméstico: «Não tens pernas? Vai lá ver...»

Acto contínuo, mestre Oliveira dirigiu-se à vitrina dos doces. Em passo ligeiro, sem que à primeira vista ninguém lhe atribuísse sequer menos vinte anos do que a data inscrita no seu bilhete de identidade.

Ao tomar conhecimento do seu desaparecimento físico, é deste singelo episódio que me lembro. E volto a sorrir à simples menção daquela frase que ficou a ecoar-me na memória: «Não tens pernas para andar?»

Teve-as até ao fim.

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À minha mãe

por Pedro Correia, em 08.03.15

 Shirley Temple (1928-2014)

 

"O tempo prevalece sobre o espaço", ensina o Papa Francisco. Costumo pensar que temos uma relação muito mais equívoca com o tempo do que com o espaço: à medida que os anos fluem, sentimos que os ponteiros do relógio e as folhas do calendário aceleram a sua marcha inexorável.

Mas nem sempre foi assim. Recordo com frequência as longas tardes de meninice, que ainda chegam até mim com o cunho do infindável. Era tudo mais vagaroso então. E sempre soalheiro: não me lembro de um só dia dessa época que não me traga memórias inundadas de sol.

 

Um dos meus prazeres de infância era ver as Tardes de Cinema exibidas ao domingo, na RTP ainda a preto e branco. Nada que se pareça com a de hoje: a estação pública de televisão assumia as funções de cinemateca, proporcionando aos espectadores três ou quatro sessões semanais de clássicos da Sétima Arte.

Quando eu era miúdo, durante o período escolar, só estava autorizado a ver os filmes de domingo. Sempre tive o hábito de fazer listas -- e conservo ainda o inventário de muitas fitas que ia vendo, semana após semana. Mas das primeiras que vi em televisão, na mais remota infância, guardo apenas memórias fugidias. Não tanto das cenas dos filmes, mas da atmosfera que se respirava lá em casa.

A minha mãe, fervorosa cinéfila pertencente à geração que via matinés duplas ao fim de semana e cultivava o cineclubismo, ia-me falando das actrizes e dos actores de que mais gostava, heroínas e galãs do tempo em que ela era menina e moça. Situando-os na época em que se estrearam, narrava-me episódios relacionados com esse período. Episódios do cinema feito vida, episódios da vida feita cinema.

E, para mim, esse acabava por ser um filme dentro do filme.

"Este vi-o em Angola, num cinema ao ar livre... Ainda me lembro do que senti ao ver esta cena pela primeira vez... Os meus actores preferidos eram o Henry Fonda e o James Stewart: olhava-se para eles e percebia-se que eram pessoas em quem podíamos confiar."

 

 A menina dos caracóis dourados salvou a Fox e deslumbrou o mundo

 

O que seria da nossa vida sem tempo -- e sem tempo para contar histórias?

Eu ia absorvendo o que ela me contava enquanto absorvia também as imagens e as falas que me chegavam do ecrã. Vários desses filmes, nunca mais os vi: já então me pareciam muito antigos, pertencentes a uma era em que a Mãe tinha a minha idade e a Avó, mãe dela, estava grávida das minhas tias mais novas.

Shirley Temple era da geração da minha mãe: tinham apenas dois anos de diferença e criaram-se naquela década de 30 em que a menina dos caracóis alourados salvou a 20th Century Fox da ruína e deslumbrou o mundo. Quem era criança nessa década guardou para sempre a sua imagem risonha, incorporando-a naquele panteão íntimo a que remetemos todas as relíquias do passado cristalizadas num presente perpétuo.

O verdadeiro espectáculo, para mim, era ver a Mãe novamente criança revisitando aquelas fitas da Shirley Temple de que nem sequer o nome guardo. Lembro-me dela a sapatear com um mordomo negro, a descer uma enorme escadaria de mansão sulista, abraçada em lágrimas a um avô de ar bondoso. E pouco mais.

 

Com Henry Fonda e John Wayne em Forte Apache (1948)

 

Certas estrelas de Hollywood tornam-se mitos muito cedo e perduram durante décadas de vida verdadeira sempre ocultas na ilusão desse mito. Aconteceu isso com Shirley Temple, que encontrei pela última vez -- adolescente eu, adolescente ela também, com trinta e tantos anos de intervalo entre nós -- em filmes como Desde que Tu Partiste, de John Cromwell (1944) e Forte Apache, de John Ford (1948). Absurdamente jovem ainda, mas excessivamente velha para se manter fiel à imagem infantil que a indústria cinematográfica lhe reservou.

Não podia haver fugas ao guião: Shirley disse adeus ao cinema e ficou eternamente jovem no celulóide, espécie de retrato de Dorian Gray às avessas, num toque mágico de que só o cinema é capaz.

Oito décadas depois da sua fulgurante estreia em Hollywood, quando muitos de nós já a supúnhamos transformada num pedaço de eternidade, chega-nos a notícia de que a sua morte física só agora se consumou. Ela que foi contemporânea do presidente Roosevelt e conheceu o último grande sucesso de bilheteira no ano em que começou a II Guerra Mundial.

 

O tempo prevalece sobre o espaço. Quando soube da notícia regressei por momentos àquela sala, àquele pesado televisor Blaupunkt de válvulas, àquelas imagens a preto e branco, à companhia da minha mãe outra vez muito jovem ensinando-me a gostar de cinema enquanto me explicava sem explicar que um filme é sempre mais que um filme.

Ao ver a Shirley-menina, também ela voltava à meninice. E neste momento em que escrevo o miúdo sou eu só por disso me lembrar também.

 

Reedito este texto, passando a dedicatória a título. A Mãe já cá não está, mas alegra-me saber que ainda o leu.

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O que fica das memórias

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.12.14

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A primeira imagem que retive quando saímos da turbulência foi a dos campos de arroz de Surabaia. Chovia com intensidade. Pouco antes, o piloto avisara-nos de que teríamos de rumar a Juanda para reabastecer a aeronave em virtude de não haver combustível suficiente para se continuar à espera de uma aberta que nos permitisse aterrar em Denpasar. Não sei porquê, mas o verde dos campos de arroz tem sobre mim um efeito estranhamente tranquilizador. Talvez porque mesmo nos dias de chuva, quando o céu está mais pesado e o seu cinzento mais carregado e com tendência a deprimir-nos, a profundidade desse verde me faça comungar da explosão de vida que dos campos irradia. Há muito que queria ver os terraços de arroz e os cumes dos vulcões, embrenhar-me na floresta e mergulhar nas águas quentes daquela ponta do Índico, cujo nome de repente se mistura com o de dezenas de mares e estreitos feitos do apelo ao desconhecido. Recordava-me de há muitos anos ter lido um artigo, amplamente ilustrado, cujo título era "Flores after the storm", e depois mais alguns outros que tinham em comum o facto de referirem que as águas indonésias ficavam mais ricas depois dos temporais. Quando a vida regressava à normalidade, quando a transparência voltava, havia mais alimento e os grandes cardumes também regressavam. Com os campos de arroz também se passará algo semelhante. Parecem mais verdes, mais puros. Por razões várias, incluindo a inexistência de relações diplomáticas entre Portugal e a Indonésia, a minha confrontação com aquelas águas e campos foi sendo adiada. Concretizou-se agora. A realização de velhos sonhos sempre traz consigo um turbilhão de emoções. Mais intenso quando há todo um conjunto de circunstâncias a rodeá-los, onde se mistura a alegria com a apreensão, com a saudade e a ausência, com a preocupação com terceiros que estão longe, carentes, e aos quais não se pode acudir num momento tão especial como o Natal. Não sou de balanços, mas não sendo insensível ao que fica para trás sou incapaz de seguir em frente sem rever o passado. Quando volto a cabeça e atiro um olhar sereno sobre o que jaz, sobre a memória que nos transportará para o momento seguinte, para o trilho de novos sonhos, vejo a minha alma soltar-se durante breves instantes, fazer a triagem e cuidadosamente recolher o que nos permitirá seguir em frente e nos acompanhará no futuro que se avizinha. Nesse exercício percorro palavras, cores, gestos, olhares, momentos de ternura, de verdadeiro afecto, num caleidoscópio que se aproxima e se afasta até parar imóvel no momento em que num rápido semi-cerrar das pálpebras me endireito, olho para o que tenho diante de mim e me preparo para o dia seguinte.

Do passado sabemos apenas que existiu. Que foi. Do futuro teremos sempre a certeza do que connosco transportamos. E o que transportamos é o que não nos trai. É isso que nos dá a felicidade. A certeza de que existimos. Uma palavra, um sorriso, um beijo, uma imagem. Por vezes, apenas o cheiro da terra húmida, o sabor a sal, a paz de um campo de arroz. O que não nos trai é o que fica das memórias.

Um Bom Ano para todos vós.

 

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Noutro tempo

por Isabel Mouzinho, em 17.11.14

Dos primeiros anos da minha vida guardo memórias difusas de uma Lisboa que já não existe, com lojas que se chamavam Val do Rio e tardes enormes em que o tempo de brincar parecia a eternidade.

De vez em quando, relembro de súbito cheiros, sabores, frases, pedaços de conversas e figuras que marcaram esses dias, agora  tão distantes.

Pode ser o cheiro da cera nas enormes tábuas de madeira do chão da nossa casa, o aroma inconfundível do creme Nívea sempre associado ao sol e à praia, ou da pasta da escola onde se misturavam restos de aparas de lápis e o saco da merenda com migalhas de pão barrado de Tulicreme.

Nessa época éramos todos sócios do Centro Diese Juvenil e guardávamos religiosamente uma fotografia autografada do António Feio, que era o sócio número um. Jogávamos ao prego na praia, em grupos grandes de primos e de amigos, que se juntavam debaixo do mesmo toldo, tardes a fio, nos dias de férias que pareciam não ter fim.

Tudo era ao mesmo tempo simples e misterioso, e acreditávamos sem pensar muito nisso que a vida era mais ou menos como o universo de fantasia e realidade misturadas que líamos nos livros dos Cinco e dos Sete, ou noutros romances de aventuras.

Relembro tudo isto no dia em que desapareceu Anthímio de Azevedo, também ele uma figura incontornável dessa altura, que nos entrava casa dentro todas as noites e com quem aprendemos que o Anticlone dos Açores é que era o responsável pelas variações de sol ou chuva e nos habituámos a dizer "acentuado arrefecimento nocturno", antes de perceber o que as palavras significavam realmente.

Entre esse tempo antigo e o de agora quantas alegrias, tristezas, ansiedades e emoções, risos, lágrimas, abraços e inquietudes marcaram as nossas vidas?

À boa maneira proustiana, basta um pequeno nada para nos transportar involuntariamente para um passado longínquo, feito de vida despreocupada e imaginação à solta, entretanto perdido no mais fundo de nós.

E é uma nostalgia boa que toma conta de nós assim de repente, sem dramas, nem mágoa, nem saudade, deixando apenas existir o lado mais enternecedor da  lembrança.

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A inapagável palavra Liberdade

por Pedro Correia, em 08.11.14

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«Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.»

 

 

Eu fui lá e vi.

Lembro-me como se fosse hoje. Foi numa manhã fria e cinzenta de Abril, por meados da década de 80. Tinha eu 21 anos e estava em Berlim com três colegas de profissão: a Isabel Stilwell, o Luís Marinho, o Jerónimo Pimentel. Nesse dia fomos ao outro lado. Cruzando o Muro da Vergonha que desde 1961, por imposição dos soviéticos, rasgava a meio a antiga capital do Reich. Como incisão de bisturi na pele, separando bairros da mesma cidade, fracturando ruas dos mesmos bairros, até fragmentando casas das mesmas ruas que permaneceram emparedadas durante aquelas tristes décadas em que Berlim-Ocidental, na certeira definição de John Kennedy, era a fronteira mais avançada do mundo livre.

Cruzámos a linha divisória por via ferroviária, na estação de metropolitano de Friedrichstrasse, após termos sido forçados a trocar marcos ocidentais por marcos orientais artificialmente cotados em paridade pelo regime comunista, à revelia do valor real das moedas, como condição para transpor aquela fronteira artificial na cidade dividida.

Éramos muito poucos a fazer aquele percurso. Quase todos vinham em sentido inverso, de lá para cá. E eram todos velhos, que marchavam num silêncio mais eloquente que mil discursos. A ditadura de Erich Honecker só permitia deslocações de 24 horas a cidadãos aposentados.

 

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Do lado de lá, tudo diferente. A começar pelo muro - na verdade, duas muralhas paralelas (a segunda foi erguida em 1962) separadas por uma extensão de 100 metros, denominada Faixa da Morte pelos berlinenses. Riscado e coberto de grafitos na face virada para Berlim Ocidental, imaculado na metade comunista da cidade, de onde aliás ninguém podia acercar-se dele. Rodeado de redes metálicas electrificadas, implacavelmente resguardado por soldados armados até aos dentes em 302 torres de vigilância dispersas por 66 quilómetros de extensão.

Símbolo sinistro da Guerra Fria.

Símbolo supremo da falência de um sistema que prometia libertar os homens e afinal só os mergulhou na escravidão.

 

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Arrepiava a escassez de transeuntes do lado de lá.

Arrepiava ver as majestosas Portas de Brandemburgo colocadas em terra de ninguém, no termo da Unter der Linden, a maior avenida de Berlim.

Arrepiava o silêncio dominante. Em perfeito contraste com o fervilhante bulício da Berlim ocidental, "burguesa" e "capitalista".

Atravessámos a pé uma larga avenida onde não passavam carros e logo fomos interceptados pelo apito de polícias que acorreram ao nosso encontro exigindo inspecção minuciosa de passaportes. Acabaram por nos deixar prosseguir, mas com um solene aviso: proibido atravessar fora das passadeiras. Mesmo numa avenida onde quase não víamos circular veículos, excepto uns decrépitos Trabants leste-alemães, fontes ambulantes de poluição.

Tínhamos de gastar os marcos orientais, que só ali eram aceites. Era hora de almoço, procurámos algum sítio onde pudéssemos matar a fome. Mas naquela imensidão desértica a oferta turística estava reduzida a quase nada. Depois de muito procurarmos, lá nos enfiámos num sell service na Alexanderplatz, de tabuleiro na mão, a comer umas salsichas envoltas em gordura a preços astronómicos. E sem mais nenhum cliente por perto.

Acabámos por gastar a maior parte do dinheiro num sucedâneo de táxi que nos conduziu pela zona mais monumental de Berlim - que devido a um capricho do destino permaneceu após a II Guerra Mundial sob a tutela soviética da cidade - e numa breve incursão aos arrabaldes, onde havia uns bairros operários de aspecto moderno e finalmente pessoas a circular na rua.

No regresso, ainda entrámos num Armazém do Povo, com vários pisos, na esperança de gastarmos parte do dinheiro que nos sobrara. Mas a esmagadora maioria das prateleiras estava vazia. Não havia clientes, só funcionárias que nos ignoraram olimpicamente.

Trouxe de lá uns postais manhosos. O meu único recuerdo palpável da Berlim comunista.

 

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Foi o meu baptismo do "socialismo real" no segmento oriental da maior cidade germânica, na então denominada República Democrática Alemã - que nada tinha de democrático e tudo tinha de repulsivo logo ao primeiro olhar.

No regresso, enquanto nos cruzávamos novamente no posto fronteiriço com os velhos agora de regresso a casa após fugazes visitas a familiares no Ocidente, sentimo-nos testemunhas privilegiadas da História, no tempo e no espaço.

Mil vezes a caótica, barulhenta, transgressora Berlim Ocidental do que a organizada, vigiada e silenciada Berlim-Leste - a cidade de maior progresso e com maior prosperidade económica do bloco socialista, como rezava a propaganda.

Nos dias imediatos, observei ainda com mais atenção o "muro de protecção antifascista" mandado erguer por Nikita Krutchov "a pedido" do ditador comunista alemão Walter Ulbricht em 13 de Agosto de 1961 para impedir a contínua sangria de alemães de Leste, sobretudo jovens, rumo ao Ocidente. Três milhões e meio tinham escapado nos 15 anos anteriores.

De tantos em tantos metros, levantava-se uma cruz branca em memória de cidadãos do Leste alvejados mortalmente pela implacável guarda fronteiriça comunista ao procurarem fugir da ditadura.

Morreram largas dezenas ou mesmo centenas entre 1962 e 1989.

O primeiro foi um operário de 18 anos chamado Peter Fechter. O último - escassos sete meses antes da queda do muro - foi um estudante de 20 anos chamado Chris Gueffroy.

Só por terem ousado ser livres.

 

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Às vezes não há como ver para descrer.

Eu fui lá e vi.

Faz amanhã 25 anos, festejei com irreprimível alegria a queda do Muro da Vergonha. Festejei-a com os magníficos versos de Paul Éluard com que saudei o fim de outras ditaduras: «E pelo poder de uma palavra / Recomeço a vida / Nasci para te conhecer / Para te chamar // Liberdade.»

Nessa noite inesquecível de 9 de Novembro de 1989, milhares de habitantes de Berlim puderam pela primeira vez transpor a fronteira livres da absurda ameaça de poderem morrer alvejados pelos agentes do Estado. E também com eles, embora a milhares de quilómetros de distância, celebrei essa palavra tantas vezes pervertida e conspurcada na boca e no gesto de ditadores de todos os matizes, de todos os quadrantes, de todas as ideologias.

Uma palavra que não tem fronteiras, barreiras, Muro em Berlim.

A incómoda, imprevisível, inapagável palavra Liberdade.

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Nos tempos de faculdade, como eu já escrevia e as coisas até se aguentavam para o «DN Jovem», havia quem me qualificasse (uma pessoa, não se tratava de um grupo, não vamos a tanto, e o mais certo era ser a gozar) como «escritor das bruxas de inspiração regionalista» (presumo que por causa da inigualável Serra de Monchique, onde eu as ia buscar). E numa das fitas do final do curso (1991) um colega escreveu que no distante ano de 2009 eu receberia o Prémio Nobel da Literatura. E falava das bruxas, até de um título de um livro que eu não tinha ainda escrito nem cheguei a escrever (um bom título, aliás). Enganou-se na cidade onde eu iria «receber» o prémio, escreveu Oslo, mas eu não liguei. Mais fácil seria eu ganhar o Prémio Nobel da Paz, entregue nessa cidade, ou até um ligado às pequenas guerras, sei lá, do que o da Literatura, com entrega sempre em Estocolmo. Mais fácil seria até um camelo passar pelo governo, perdão, pelo buraco de uma agulha, como naquela história que depois mete o Reino dos Céus. Onde já vai o ano de 2009? E Prémio Nobel da Literatura nem vê-lo, nem uma «carreira» que desse para pelo menos dar uns passinhos fora de Portugal, nem que fosse até Huelva, a mítica cidade de minha infância, que não tem nada de mítico, afinal, como expliquei numa espécie de conferência que dei (por acaso com o ano de 2009 quase a chegar) na cidade de - tcham nam nam nam - Vila Real de Santo António. E agora, em 2014, com as bruxas em descanso até que eu volte a acordá-las (como fiz com a senhora Maria Cadela nos «Contos Municipais»), tenho de levar com o Halloween (acho que é assim que se escreve), como em tempos tive de levar com o Allgarve daquele tipo que na assembleia da nossa República confessou, exemplificando, que tinha um par de cornos. Allgarve lê-se ólgarve, já Halloween não sei bem como se lê. Puta que pariu o Halloween! Qualquer dia começamos a festejar os caças russos...

 

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Penso rápido (49)

por Pedro Correia, em 20.09.14

Regresso aos tempos em que lia três livros alternadamente. Com o prazer de sempre, mesmo perante obras consideradas menores. Incluo neste prazer algo muito específico: a releitura. Há livros que nos tocam de maneiras diferentes, consoante a época em que os lemos. Pensei nisto há dias, ao chegar novamente ao fim de um livro que me fascinou pela terceira vez. Como tenho há muito o hábito de assinalar nos próprios exemplares a data em que concluí a leitura, fui lembrar as duas anteriores inscrições: 31 de Maio de 1983 e 16 de Setembro de 2004. Lá deixei mais uma data: 11 de Setembro de 2014.

Os livros têm este dom: são fonte permanente de recordações. E devolvem-nos até memórias de factos, pessoas e lugares que a eles ficarão perpetuamente associados.

Prestes a terminar, este foi para mim um Verão de várias e estimulantes leituras, feitas sobretudo de reencontros com autores de que muito gosto: William Faulkner, Jack London, Ray Bradbury, Georges Simenon, José Cardoso Pires, Joseph Roth, Rubem Fonseca, Ernest Hemingway, Joseph Conrad, Erich Maria Remarque, Graham Greene. Dezasseis obras em três meses.

Lembro-me de ouvir um professor que tive aos 18 anos, na universidade, perguntar aos alunos num anfiteatro: "Os senhores leram muito? Espero bem que sim, pois a partir de agora lerão muito menos. Eu li o essencial dos livros que me formaram até aos 18 anos."

Penso pela enésima vez nesta frase que guardei na memória, tomando-a na altura pelo seu valor facial, e não posso deixar de sorrir perante a falta de capacidade de previsão daquele catedrático, pelo menos na parte que me toca.

A vida também é isto: sabermos desarrumar os ficheiros em que nos querem incluir os mais velhos e alegadamente mais sábios naqueles anos em que todas as páginas de quase todos os livros permanecem por abrir para cada um de nós.

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MM, há dois dias fez 52 anos que morreu

por Patrícia Reis, em 08.08.14

 

Só na sombra é que encontro alguma paz. O sol persegue-me, entra-me pelo azul dos olhos, enche-me a cabeça de preguiça e as ideias não me ocorrem. Tenho suor nas costas, na curva do peito. A única coisa que quero é que me deixem em paz, que não falem comigo, que não me oiçam pensar.

 

Isto é que é aquilo a que se chama skip-to-my-lou,uma dança tipicamente americana. Adoro que saiba estas coisas. Odeio que me queira ensinar. As pessoas dizem: Arthur Miller, um génio. Eu oiço-o na casa de banho, a escovar os dentes, a tomar banho, a tossir os cigarros do dia, a bebida de há pouco. É um homem como os outros.

 

Tenho 32 anos. Nasci em 1926. Já fui deste tamanho.

 

Não se esqueçam de me gritar, de me avisar quando for a minha vez. Não adianta fazer gestos bruscos ou delicados. Sou míope. Preciso que me gritem.

 

No fim da conferência de imprensa talvez peça a Laurence Olivier para dançar. É o Waldorf Astoria Ballroom. Ele ficará com aquele ar de príncipe inglês, hirto, com um sotaque snob, agarrado à minha cintura com se fosse um bloco de gelo e eu vou sorrir e depois dar uma gargalhada. Será uma boa fotografia.

 

Só quero descansar. Não aguento os sapatos. Tenho calor. E sede. Dizem-me que aqui estou protegida dos olhares. É mentira. Estes dois fixam-me como se me engolissem. Não tenho forças. Quero ser feia outra vez.

 

É uma casa de banho de aeroporto. Ainda tenho de esperar uma hora. Eu disse que queria uma bebida. E privacidade. Vou retocar o cabelo. Puxar o vestido para cima para não ficar com nódoas. Fugir do calor e dos jornalistas lá fora: Miss Monroe, miss monroe…

 

Se cortar com muita força o tabuleiro tomba e perdemos o enquadramento perfeito. Arthur não diz nada. O silêncio é uma voz como as outras. Continuo a cortar. Se pudesse deixava-me tombar.

 

E depois alguém gritou: Marilyn, sorri.

 

Não suporto festas de cidadezinhas. O estúdio manda-me como se fosse um objecto de vitrine, uma peça de porcelana. Mesmo a descansar tenho de estar em pose. Não posso estar sozinha. Não me deixam. Eu também não quero.

 

A água é tão escura, ninguém me vê. A mão no sexo, o sorriso nos lábios. Agora. Quando o fotógrafo se esquecer de dizer.

 

Fecho os olhos. A minha mão nos olhos de Montegomery. Não sei como são os beijos dele. É tudo artificial. Nada tem importância. O nosso suor é de spray, as nossas lágrimas fabricadas. Não somos nós, somos o que inventam para nós.

 

John Huston deu-me o casaco, disse-me para me recompor, mandou-me passear. Vai rever as tuas deixas, ordenou. O Gable sabe tudo, sem falhas, todas as palavras, a pontuação certa. Eu não consigo articular um bom dia.  

 

Sim? Ah, estou à espera que o verniz das unhas esteja seco, à espera para pôr o vestido, ir trabalhar, ler o cartão que vem com as flores. Nada de especial.

 

E quando eles dizem que eu posso descansar mas ficam a olhar para mim, com as máquinas prontas, os flashes, os seus olhares cheio de lascívia, as línguas a espreitar nas bocas, o suor dos pensamentos menos terrenos, eu pergunto-me: cumpro as expectativas? Não sou eu, é o meu corpo.

 

E se trocássemos? E se eu tivesse esses óculos? Esses lábios? Podias ser a Monroe, podias beijar o Clark Gable e o Montegomery Clift, ter todos os sorrisos e gentilezas do mundo. Eu trocava contigo e voltava para casa, a tua casa, para o teu marido e para os teus filhos e dizia: ah, ela tão simpática.

 

What shall I ask te dice for, John?

Don’t think honey, just throw. Don’t think, do it

 

A minha cabeça vai estoirar. Os comprimidos não fazem efeito. Já não sei o texto. A tristeza afoga-me. Não há ninguém com quem se possa falar. Daqui a pouco tenho de sorrir. Sorrir é uma das coisas que faço bem. Consigo até sorrir com os olhos. Poucas pessoas conseguem sorrir assim.

 

Vou descansar, a minha professora deixa-me descansar. Olha por mim, à sombra, no lugar do morto de um automóvel que não pertence a ninguém. Quando já estou perto do sono, há uma mão que me desperta.

 

Dentro desta mala tenho todos os meus segredos. Consigo transformar-me de corpo e alma. Faço o meu papel. Do outro lado do espelho há uma estranha que me cumprimenta. Tenho medo dela, mas não digo a ninguém.

 

Vou esperar aqui na sombra. Vou fechar os olhos. Quando se aperceberem, terei desaparecido. Nunca fui mais do que isto, uma rapariga a fugir do sol.

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A Vida Clandestina

por Bandeira, em 16.06.14

Eu à época fumava; e às vezes fumava em lugares estranhos. Em Grenoble era num gabinete de paredes encardidas no piso térreo de uma empresa de tecnologia de ponta. Tinha janelinhas de guilhotina sempre abertas para o Dezembro dos Alpes e por única peça de mobília um cinzeiro de pé, ao centro, embaraçoso de tão cheio. Acredito que não o esvaziaram nunca, e que hoje o cone de beatas há-de ter ultrapassado em proeminência o pico do Chamechaude (digo o do Chamechaude para que não pensem que estou a exagerar). Uma bancada na parede era tornada inacessível por um aviso descortês de proibido sentar. Os fumadores (os outros, por nojo, nunca entravam) sentiam ali um desconforto tão intenso – do frio, do cheiro, do enxovalho – que não tiravam do cigarro consolo e saíam acanhados e tristes, de uma tristeza um pouco amarela.

Em São Paulo era numa divisão de um dos últimos andares de um arranha-céus, frequentada do lado de dentro por executivos em escapadinha de reuniões decisivas e do lado de fora por negros urubus. Talvez por causa do vento, talvez por motivos mais funestos, as grandes janelas não podiam ser abertas e a exaustão de ar era feita através de cilindros ciclópicos. Fausto para os olhos e para os pulmões que eu, veterano do buraco de Grenoble, humilde agradecia. De vez em quando passavam libelinhas ruidosas transportando homens de fato escuro, poderosos como heróis da Ilíada nos seus carros de combate. Eles saíam num terraço, desciam dois andares, davam as suas ordens, talvez até despedissem alguém; depois partiam para repetir o ritual noutro poiso qualquer, no entretanto elogiando a vista da cidade que às vezes parecia tão Nova Iorque assim vista do ar, mas era num relance só e a luz tinha de ser a de certa hora da manhã.

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Delitception

por Marta Spínola, em 12.01.14

Hoje lembrei-me de uma vez ter vindo ao Delito comentar um post da Rita Ferro, convidada na altura. Fui procurar e encontrei-nos, esta Marta era eu. Achei graça e reitero tudo. 

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O melhor crítico é o tempo

por Pedro Correia, em 21.12.13

Uma vez mais, reflicto sobre os juízos críticos. Ao ver na televisão um velho filme português: Nazaré, de Manuel de Guimarães, com Virgílio Teixeira e Artur Semedo. Quando este filme estreou no cinema Eden, em 1952, uma grande parte da crítica portuguesa celebrou-o como marco da Sétima Arte à escala nacional. "É tão bom que nem parece português", entusiasmou-se o crítico de turno no vespertino República.

Intelectuais cotados não regatearam elogios ao jovem cineasta, que com esta obra e Saltimbancos (do mesmo ano) trazia o neo-realismo para o cinema português, rompendo com a chamada comédia pequeno-burguesa de Lisboa. Alves Redol proclamou: "É um primeiro passo para um cinema melhor." Fernando Namora deixou-se de contenções, exclamando em título de crónica: "Bravo, Manuel de Guimarães!" E José Cardoso Pires, também rendido, não fez a coisa por menos: "Fica na história do cinema como o primeiro filme inteiro, de intenção firmemente honesta e nada transigente, que se produziu em Portugal."

 

Não vejo Saltimbancos há muitos anos. Mas este Nazaré é um dramalhão intragável e previsível, recheado de lugares-comuns sobre a faina dos pescadores e os seus dramas cíclicos, associados ao capricho das marés. É uma tentativa, sem dúvida louvável mas inegavelmente frustrada, de importar para Portugal a escola cinematográfica italiana, então muito em voga com filmes como La Terra Trema, de Luchino Visconti, e Stromboli, de Roberto Rossellini.

O resultado, visto a esta distância, é confrangedor: todo o filme peca por amadorismo. Já dizia o outro: faz-se péssima arte com excelente intenções.

 

O que sobrevive do cinema português dessa época é precisamente aquilo que os críticos de então - incluindo os tais intelectuais cheios de pergaminhos - mais detestavam: as comédias protagonizadas por Vasco Santana, António Silva, Maria Matos, Beatriz Costa, Ribeirinho, Costinha, Laura Alves, Artur Agostinho, Milu, Curado Ribeiro, Barroso Lopes, Teresa Gomes e tantos outros nomes dessa geração de ouro da comédia portuguesa, caldeada no teatro de revista e logo transposta para o celulóide. Filmes como a Canção de Lisboa, O Pai Tirano, O Pátio das Cantigas, O Costa do Castelo, A Menina da Rádio, O Leão da Estrela e O Grande Elias nunca perdem o interesse nem deixam de conquistar novas camadas de espectadores.

Enquanto só pretendia brincar, o cinema português era um caso sério. Quando começou a ficar sisudo, tornou-se involuntariamente risível. Durante décadas, não houve sorrisos num filme português. Ao longo de todo esse tempo, o público divorciou-se do cinema nacional, que não soube aproveitar duas gerações de actores cómicos - mal ou bem, os melhores que tivemos e ainda temos.

Lidas à distância, aquelas críticas motivadas por "solidariedade" de doutrina estética parecem tão deslocadas e soam tanto a falso como alguns dos diálogos de Nazaré. O melhor e mais implacável juízo crítico é sempre o que surge do transcorrer do tempo.

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Alguns entrevistados que "matei"

por Pedro Correia, em 11.12.13

Houve uma altura da minha vida profissional, ainda muito no início, em que pensei seriamente que dava azar às pessoas que entrevistava. Isto porque foram várias as últimas entrevistas que fiz a diversas figuras públicas. Lembro-me que apenas num ano faleceram pelo menos quatro delas, recém-entrevistadas por mim.

O primeiro foi o poeta popular Carlos Conde, velha figura da Lisboa castiça - um nome quase lendário do mundo fadista, autor de letras de vários temas interpretados por Carlos do Carmo. Pouco tempo depois de o ter entrevistado na redacção do jornal onde eu então trabalhava, soube que havia falecido..

Aconteceu algo muito semelhante com o general Fernando Santos Costa, o todo-poderoso ministro da Defesa de Salazar, que me recebeu de luto carregado num apartamento de Campo de Ourique que mal deixava entrar a luz do sol. Entrevistei-o durante uma longa tarde em que foi desvendando algumas memórias, com a condição de a conversa decorrer sem gravador nem fotografias. Foi a última entrevista que sairia dele na imprensa: morreu pouco tempo depois.

 

                                                            

                                                         

Outra destacada figura do regime salazarista, Jorge Jardim, deu-me também a última entrevista. Era já na época uma figura quase lendária, misto de Zorro e James Bond. Vivia no Gabão e encontrava-se esporadicamente em Lisboa, onde o entrevistei numa suíte do hotel Sheraton. Não parou quieto durante a entrevista: levantava-se, agitava-se. Usava um bigode à Clark Gable e pintava o cabelo. Desta vez levei gravador e a entrevista saiu no formato pergunta-e-resposta, com direito a capa do principal suplemento e várias páginas no interior, sob um título garrafal: "Lawrence de África". Que eu saiba, Jardim não voltou a dar nenhuma outra: morreu alguns meses mais tarde, sem concretizar nenhum dos sonhos que traçara naquela agitada conversa do Sheraton que não esqueci.

Maria Leonor, uma das figuras mais populares e mais queridas dos portugueses, vedeta da rádio e da televisão, foi outra das minhas entrevistadas. Estava já muito doente então, lutando contra um cancro, mas persistia em manter as rotinas, como se a doença não a perturbasse. Eu conhecia desde criança aquela voz inconfundível, aquele rosto já marcado pelo mal que a viria a vitimar. A conversa decorreu numa espécie de tom antecipado de homenagem póstuma, o que não me orgulha como jornalista mas creio ser desculpável em termos humanos.

O certo é que algum tempo depois, quando soube que a Maria Leonor tinha falecido, adquiri a convicção de que dava azar aos meus entrevistados. Tanto mais que o caso viria a repetir-se, nessa década de 80 e no início da de 90, com outras personalidades bem conhecidas: o escritor Adolfo Simões Müller (autor de várias obras que devorei no início da adolescência), o pintor Thomaz de Mello (Tom) e o cineasta Jorge Brum do Canto, por exemplo.

 

Só aos poucos fui adquirindo a noção de que tudo não passara de um conjunto fortuito de coincidências. De facto, fiz centenas de entrevistas de então para cá - e não me recordo de que alguma delas fosse a derradeira dos meus interlocutores embora tenha publicado no saudoso suplemento DNA, do Diário de Notícias, duas grandes entrevistas de capa com o escritor e crítico televisivo Mário Castrim e o dirigente comunista João Amaral que figuraram entre as últimas que ambos concederam.

Mas aquela espécie de superstição que começava a apoderar-se de mim tinha alguma razão de ser: que jornalista gostaria de arrastar um peso desses na consciência?

 

Fotografias, de cima para baixo e da esquerda para a direita: Tom, Brum do Canto, Jorge Jardim e Santos Costa

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Tão pouca coisa mudou

por Pedro Correia, em 09.08.13

Mudam os nomes, mudam algumas situações, mudam uns quantos cenários. Mas quase tudo permanece imutável cem anos depois. As Memórias de Raul Brandão mostram isto muito bem.

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O que estou a ler (8).

por Luís Menezes Leitão, em 24.07.13

 

Em boa hora a D. Quixote resolveu reeditar estas Memórias de Humberto Delgado, publicadas originariamente em Londres em 1964, que adquiri na última feira do livro. Sendo esta reedição de 2009, não está escrita felizmente no inenarrável "acordês" com que insistem em maltratar a nossa língua.

 

O livro é fascinante, permitindo-nos conhecer o percurso e o pensamento de uma personagem altamente complexa. Humberto Delgado faz uma avaliação histórica muito rigorosa do país, demonstrando uma erudição incomum. Inicialmente apoiante de Salazar, é curioso como se vai afastando dele por não conseguir concordar com o regime de ortodoxia financeira em que ele mantinha o país, em contraste com a expansão económica que a Europa vivia no pós-guerra em virtude do plano Marshall. Nas suas palavras, os outros países europeus tinham moedas fracas e inflação, mas as pessoas tinham dinheiro. Portugal tinha um escudo forte, sem inflação, mas o povo vivia na miséria. Não consegui deixar de fazer um paralelismo com a actual situação do euro.

 

É muito curioso que Humberto Delgado, que tinha uma posição de prestígio no Estado Novo, como Director-Geral da Aeronáutica, tenha aceite prescindir disso tudo para se envolver numa eleição presidencial, onde sabia desde o início que as cartas estavam viciadas. A explicação que ele próprio dá reside numa frase de Napoleão: "on s'engage et puis on voit". E efectivamente envolveu-se profundamente na campanha presidencial, tendo pronunciado a frase sacrílega para o regime: "Obviamente demito-o!", referindo-se a Salazar. No livro o autor refere as consequências do episódio, que a censura deixou passar, pois julgava que o país ia ficar indignado com Humberto Delgado, apressando-se os jornais a publicar diariamente ridículos comunicados de pessoas diversas, a desagravar Salazar por essa declaração. O efeito foi o contrário, sendo que a enorme adesão popular que Humberto Delgado suscitava fez o regime perceber que o país estava farto de Salazar.

 

Naturalmente que as eleições foram viciadas, como se esperava. Curiosamente Humberto Delgado aguardava uma reacção de indignação geral que não surgiu. Mesmo pessoas próximas encolhiam os ombros quando ele denunciava a fraude eleitoral: "Em Portugal as eleições foram sempre viciadas, até no tempo da Monarquia". O mesmo não se conformou, escolhendo o exílio, de onde procurou comandar a revolta contra o regime. Mas a oposição tradicional ia-se envolvendo nas suas questiúnculas internas, levando a que o regime ainda conseguisse durar mais 16 anos após o mais brutal ataque que sofreu.
O livro por isso diz muito, não apenas sobre um homem excepcional, mas também sobre o verdadeiro espírito do povo português, cuja enorme tolerância lhe permitiu viver 48 anos em ditadura. Não terá sido por acaso que recentemente outro Ministro das Finanças qualificou o povo português como o melhor povo do mundo.
E a Marta Spínola, o que anda a ler?

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"Now is the time"

por jpt, em 26.06.13

 

(Apesar de já ter sido criticado por colocar postais longos aqui boto um texto antigo, lembrando época ainda mais recuada. Colocado no ma-schamba para este tão especial conturbado 25 de Junho, dia da independência de Moçambique. E minha memória de Nelson Mandela, Homem entre os homens. Tem sido bom viver enquanto ele.)

 

 

 “Now is the time”

 

Vi Mandela num comício em Aliwal North, 400 kms distante de onde nos haviam colocado, aquela East London, pequena cidade portuária de boas praias, capital daquele troço de bela terra de brancos encaixado entre os bantustões Ciskei e Transkei, esses planaltos e serras bem mais pedregosos, então destinados, naquele país louco, aos negros, os “originários”, viria eu a aprender depois, noutro local, os “kaffirs” como então já poucos diziam. Era o tempo do “Now is the time”, o até-que-enfim final daquilo, um maldito aquilo. E pairávamos sob o sentimento de estarmos na História, uma alegria contagiante, generalizada, mesmo esfuziante, aliviada do passado, esperançosa do futuro. Também mesclada, e mais até nas pequenas vilas rurais, com a angústia dos alguns que viam acabar o seu pequeno, mesquinho e irrazoável mundo.

 

Naquela missão eleitoral emparelhei com o D., um francês da minha idade, já calejado, vindo directo de anos com a Cruz Vermelha na guerra dos Balcãs. Como éramos os mais novos da equipa, impacientes e com a volúpia de conhecer, enquanto os restantes se deixaram na modorra citadina ficámos nós a acompanhar as actividades políticas no Ciskei e no sul do Transkei, e ainda nas paupérrimas townships vizinhas, enormes antros de miséria que nem no mapa vinham, e algumas das quais carregavam nomes como Frankfurt, Hamburgo ou Berlim, o absurdo extremo, um sarcasmo toponímico. Uma área enorme a cobrir, uma agenda diária frenética.

 

Valeu-nos que havia um acordo implícito com a polícia, na estrada a velocidade dos observadores era irrestrita. E assim vogávamos entre locais, no afã de a todos chegarmos. Eu carregava bastante e o D. ainda era mais louco (lembro-me de adormecer a seu lado a mais de 180 kms por hora. Naquele pequenino VW Citi 1800 que maior prova de confiança se pode pedir a alguém?). Assim trepidante foi a nossa vida nesses três meses.

 

Foi um verdadeiro mergulho no país, tão diferenciado, complexo, ele era, inebriante que estava. E com vislumbres dos seus líderes. No primeiro domingo em East London coube-nos um jantar no very british Rotary Club, com Thabo Mbeki. Suave, dulcíssimo, ali para deixar aos comensais o recado, que se veio a concretizar, do “business as usual”. E logo no dia seguinte um comício nos arredores, um estádio de futebol cheio para ouvir Ramaphosa, então líder da Cosatu (a central sindical do ANC). Radical, um orador implacável – quem diria então que poucos anos depois seria um dos maiores bilionários do país, até dono de ilhas paradisíacas em Moçambique? -  prometendo “casas, trabalho e escolas para todos, já”, algo que, e bastava olhar em volta, era mais do que justo e necessário. Só nos custava, franzir de experiência feito, aquele “já” tão repetido. Mas tão ansiado por quem ouvia – e foi a primeira vez que vi brancos, poucos, meia dúzia de operários, naquele toyi-toyi que tanto assustava outros e tantos, os estabelecidos. Class rules, disse eu para o lado, mas não era bem verdade. Enfim, na época ainda se discutia qual dos dois seria o vice do Mandela, e seu sucessor, e ficámos espantados com tamanha diferença entre ambos.

 

E outros também. Várias sessões com Winnie, então já separada mas ainda mulher do Madiba. Assim vista ao vivo era uma mulher impressionante, lindíssima na sua já idade, um carisma imponente. Se o discurso era radical - quase quase como o daqueles comícios do PAC (Congresso Pan-Africano), então ainda fiéis ao desejo de uma Azânia sob o lema do “one settler, one bullet”, de cujas sessões foram as únicas das quais nos escapulimos, num “não vale a pena”, tão mal recebidos éramos -, bem interessante era ver o número e a postura das tantas mulheres que sempre a rodeavam e acolhiam, nas cidades ou nas pequenas aldeias: gender issues, imensos, os que lhe alimentavam a liderança, uma bandeira própria. E Holomisa, o grande sobrevivente da política sul-africana, que de presidente do Transkei a dissidente do ANC ainda por lá anda. Simpático, a acolher-nos numa montanhosa aldeola. E, subtil, a rodear-nos pelos seus guarda-costas, não nos fosse acontecer algo. Estes, putos, verdadeiros putos, a confundir-nos, vendo-nos com uniforme, logo a mostrarem-nos as armas, à vez, decerto que novas, delas falando, com elas rindo, como se brinquedos recém-recebidos. Nessa sua alegria a desmontarem qualquer cenário de perigo, como os dois bem percebemos. Mas também a transmitirem um tom algo surreal a tudo aquilo. Para mais tendo nós acabados de cair no golpe que derrubou Gkozo, o muito menos hábil presidente do Ciskei, um dia único, rijo, memória por si só, para mais tarde …

 

Um dia ao rossio de King William’s Town veio FW. Chegámos tarde, atrasados por uma outra qualquer acção. Ali encontrámos uma grossa confusão, a praça quadrada cercada com gente até às entradas, uma contra-manifestação ANC, algo que violava o acordo entre partidos, feito para evitar violências. E isto logo pouco tempo depois da mortandade no Bophuthatswana, que começara numa coisa similar. Ficámos os dois estupefactos, lá estavam os nossos colegas EU e tantos outros observadores, atraídos pela visita de De Klerk. Mas estavam saudando os contra-manifestantes, até com “Vs” a la Churchill, com eles aplaudindo, enfileirados, manifestando-se. “Estes gajos são iguais em todo o mundo” terei resmungado no meu francês de então, já desprezando a esquerdalhada inconsequente. Depois fomos lá para o meio, onde mil apoiantes do Partido Nacional, se tanto, brancos, claro, rodeavam o seu líder. Tensos, assustados, angustiados (“a provarem do que fizeram durante décadas”, terei eu usado de novo o meu francês), convictos que aquele cordão policial não lhes protegeria o futuro. Lá nos pusemos perto do palanque, “showing the flag” (melhor dizendo, “showing the caps”), que era para isso que lá estávamos e nos pagavam. Pouco depois FW acabou a arenga, curta, nervosa, naquele contexto, e avançou. Viu-nos, parou e inverteu o caminho para nos cumprimentar, às estrelas em fundo azul da União Europeia. Naquela época o homem era um símbolo também. Para mim um Gorbatchev, até fisicamente parecido, um líder com a coragem de acabar uma tralha enorme e desprezível, a do seu povo. Nisso e por isso um tipo admirável, e foi o que lhe quis expressar naquele aperto de mão, na resposta ao seu agradecimento. Afinal ainda puto, também tenso naquilo tudo, engasguei-me e saiu-me apenas um estuporado “God bless you, sir”. Horas depois, já de cervejas na mão, ressacando um dia intenso, e sabendo-me todo ateu, o D. ria-se, desbragado, daquela minha tirada. “Estava a falar com um boer, pá”, defendia-me eu, acabrunhado, enquanto percorria o meu parco calão francês. O que fui ali gozado. Com alguma razão. Mas não toda.

 

 

 

  

Num desses dias veio nova tarefa. O comício perto de Aliwal North com Mandela, convocado para as 8 da manhã. Mandela é dali, nasceu um pouco mais a norte, no Transkei, mas a sua língua mãe é Xhosa, a língua local. Tornando ainda mais interessante, se tal possível, acompanhá-lo na região, entre a sua gente, se quisermos falar assim, o que vale o que vale, que nunca fez ele alarde de algum xhosismo. Mas ainda assim foi também por isso que lá fomos, tão exultantes, saímos na alvorada, naquele habitual “pata a fundo” para chegar à hora marcada. Para encontrar um estádio de futebol já apinhado, bancadas e relvado, e mais houvesse ... Ali tudo madrugara, para acolher o Madiba. Foram horas na expectativa da sua chegada, era a campanha e decerto que o líder tinha várias sessões no caminho. E nessa espera ali ocorreu festa constante, cânticos múltiplos, grupos corais, das igrejas alguns, outros mais ou menos espontâneos, um corrupio de gente feliz. Nós, estrangeiros, constantemente interpelados, saudados, numa comunhão festiva. Mais espantoso ainda, não havia qualquer produção, nem discursos, nem animadores, nem espectáculos musicais, isso dos profissionais para alegrar ou apenas aquecer o “povo”, como é tão costume pelo mundo todo. Apenas a população esperando o seu candidato, o seu líder, até que enfim, e em festa por isso. Era a minha primeira vez em África, ainda desabituado de muitas coisas, inesperando tantas outras. E toda aquela agitação, superlativa, todo aquele som e cor me deixou fascinado, mesmo que sempre na disciplina do anti-exótico.

 

 

Finalmente, já bem pela tarde dentro, às 4 horas, chegou a caravana. Foi o delírio, mas não aquele delírio do êxtase, espumado, frenético, sim o da alegria, o de receber e partilhar, um cúmulo de comunhão, um “estar juntos” como se disse depois. Quando soou que aí vinha deixei-me de neutralidades, também eu corri, atravessando o estádio, para o receber, a coisa do uniforme fez-me chegar até perto, nisso em definitivo perdendo de vista o tradutor. Mandela apareceu, aquele ar de falso frágil, o sorriso quase enigmático e que nunca consegui definir melhor do que chamando-lhe maroto. Na felicidade alegre do tal “até-que-enfim”, digo, o “Now is the time”, palavra de ordem de então. A população delirante e eu, nós, quase tanto, qual de nós, observadores – e tantos eram, dezenas, chegados nas últimas horas, quantas ongs andavam naquilo … -, não era de Madiba?

 

Mandela cruzou-nos e subiu ao palco, uma apoteose. Junto do seu povo, que o era a maioria do país, mas mais ainda ali, terra de Xhosas, que enchiam aquele terreno, pensei. E discursou. Logo, de imediato, arrepiando-me, verdadeira “pele de galinha” – e ainda hoje, ao escrever isto me acontece. Pois falando em africânder. Ali mesmo, no seu espaço natal, falando “a língua do inimigo”. Foi breve. E no fim pediu desculpa, já em inglês, e disse que queria fazer um resumo, pois ali estavam, estávamos, muitos “amigos estrangeiros”. E disse-nos, a todos os outros repetindo, que ali, África do Sul, era, já era, ia ser, a nação “arco-íris”, a “rainbow nation”. E partiu, para este nosso futuro.

 

Um “healer”, curandeiro laico, sarando o passado, prevenindo o futuro, minha tese que foi parte da conversa no longo regresso desse dia, lento pois comovido. “Amandla” para homens assim. Com a enorme grandeza da generosidade. De fazer futuros.

 

 

 

 

 

 

 

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O último nevão do meu avô

por Pedro Correia, em 10.06.13

Um dia o avô morreu - foi talvez o único dia triste da minha infância. Deixei de ver aquele senhor alto e magro, de bigode fino e sorriso benevolente, que me levava cuidadosamente pela mão nos seus passeios. Era o pai do meu pai.

Foi a primeira vez que travei conhecimento com a palavra morte. E com outras palavras que lhe vêm associadas - como a palavra luto, ao ver as mulheres da família vestidas de preto.

Onze anos depois, já eu era adolescente, morreu a avó. Partiu tão de repente como partira o avô, a três dias do aniversário da morte do homem com quem vivera quase meio século. Se existem casamentos perfeitos, aquele era um deles. Uma das últimas frases de que me lembro dela tinha precisamente a ver com a data que se aproximava. Como se pressentisse que não chegaria lá.

Quando a avó morreu, durante um par de anos, ainda conservámos a casa. Mas um dia impôs-se a evidência: fazia pouco sentido continuar a arrendar aquele rés-do-chão com quintal, agora desabitado.

Desmanchou-se a casa, divisão a divisão. E vieram então à tona objectos há muito esquecidos. O mais inesperado, que jazia no fundo de um guarda-vestidos, era uma antiquíssima máquina fotográfica fabricada antes da guerra e envolta num estojo de couro, em forma de um pequeno caixote, pertencente ao avô. Aparelhos como aquele, já então, só tinham guarida em museus da especialidade.

Peguei na máquina como se fosse uma relíquia. E reparei, estupefacto, que continha no interior película fotográfica que nunca havia sido revelada.

Levei-a a um estúdio fotográfico, na esperança de que ainda estivesse em condições de reprodução tantos anos depois. Estava, de facto. Quando lá regressei, dias mais tarde, encontrei dentro de um envelope as últimas fotografias tiradas pelo avô. Na manhã seguinte a um fortíssimo nevão na vila - aquele que foi, seguramente, o derradeiro nevão no último Inverno da sua vida.

Fotos a preto e branco, de uma nitidez perfeita. Fotos sem pessoas. Apenas fixando fragmentos de neve, límpida e pura, cobrindo árvores e muros e bermas e vielas, no início de uma manhã já tingida pelo sol. O espectáculo assombroso da natureza, como uma espécie de hino ao milagre do mundo, fixado para a posteridade por quem estava prestes a despedir-se dele. 

Há quem receba dinheiro. Ou palavras. Ou diários íntimos. Há quem não receba nada. Eu recebi como testamento do meu avô esta poesia muda das últimas fotografias que tirou, recolhidas durante mais de uma década no interior da sua antiquíssima Rolleiflex. Quase em jeito de epitáfio, como se pretendesse transmitir por imagens ao neto que nunca mais veria: não procures mais, o essencial da vida é isto.

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À última da hora

por Ana Vidal, em 29.04.13

 

Sempre me fez urticária aquele riso escarninho, trocista, de quem julga ter o mundo aos pés. Não exagero: as pretensões políticas dele foram, em tempos, de uma megalomania tal que roçava o ridículo, e sem que alguma vez se tenha apercebido (era egótico de mais para sequer imaginá-lo), era gozado por toda a gente por causa disso. Enfim, fraquezas só perdoáveis a quem tenha qualidades que as suplantem. Mas não era o caso. Foi toda a vida um marido e um pai déspota, intratável, que humilhava em público os filhos com exigências e exibições de autoridade absolutamente descabidas e expunha a mulher (que era muito bonita, por sinal) como um troféu de sua exclusiva propriedade, merecidamente ganho numa qualquer mesa de jogo. Porque era um jogador inveterado, também. E dos que têm mau perder. Lembro-me bem de assistir a exibições deploráveis do seu proverbial mau feitio, sempre que o jogo não lhe corria de feição.

 

A vida não o poupou, é verdade: primeiro, a revolução de Abril atirou-o para uma insustentável prateleira na empresa em que trabalhava, onde contava chegar longe devido ao nome que lhe coroava o cartão-de-visita. Não por mérito próprio, que nunca o teve. Mas nunca se recompôs dessa "injustiça", nem tanto orgulho ferido alguma vez o levou a tentar provar o seu valor de outra qualquer maneira. Ficou enclausurado num ódio primário, irracional, que remoeu o resto da vida numa espécie de vingança cega, aplicada a eito em todos os que lhe estavam mais próximos. Depois, muito mais grave do que a humilhação profissional, a vida familiar foi cruelmente atravessada por uma tragédia arrasadora. Nessa altura toda a gente teve pena dele. Mas nem assim se tornou mais humilde ou aprendeu alguma coisa de útil com esse terrível acontecimento. Pelo contrário, dir-se-ia que o desgosto refinou tudo o que ele tinha de pior, e o azedume começou a corroê-lo por dentro, por inteiro, como um ácido letal.

 

Eu já não o via há alguns anos, felizmente. Encontrei-o um dia, por acaso, na Bertrand do Chiado. Ainda tentei disfarçar, mas foi inútil: ele tinha qualquer coisa para ensinar-me, como sempre, porque veio lá do fundo para me falar, num gesto magnânimo sublinhado pelo insuportável sorriso de superioridade. Estava com um amigo mais novo que, percebi logo, o bajulava. Enorme erro, pensei. Apresentou-nos e trocámos algumas palavras de circunstância. Quis ver o que eu estava a comprar e preparava-se para dissertar sobre a minha escolha quando eu lhe disse que estava cheia de pressa porque estava de partida para férias e tinha passado por ali, à última da hora, para comprar aquele livro que me fazia falta para as minhas pesquisas.

 

E pronto, eu acabara de dar-lhe o mote para uma aula de português correcto. O tal amigo tinha-se afastado para o fundo da livraria e não nos ouvia, mas havia por ali clientes suficientes para compor uma plateia que lhe parecesse valer a pena. Rasgou um sorriso sardónico e disparou, bem alto para conseguir o máximo efeito: “Não sabes que não se diz à última da hora, mas sim à última hora? E és tu uma pessoa que vive da escrita?! Francamente, menina!!”.

 

Tenho de abrir aqui um parêntesis, para explicar que teria aceite a correcção de bom grado se ela tivesse partido de qualquer outra pessoa. Não tenho nenhuma pretensão de escrever ou falar um português sem falhas, e todos os dias aprendo alguma coisa sobre a minha língua que não sabia antes. Mas aquilo irritou-me. Aquela criatura tinha sempre de dar lições a toda a gente, sobre todos os temas. Apanhou-me numa falta, não tão grave que justificasse todo aquele chinfrim, e aproveitou logo para fazer o seu brilharete. Subiu-me a mostarda ao nariz, às vezes também tenho mau feitio. Olhei-o nos olhos e fiz o meu sorriso mais cândido, para ganhar tempo. E depois, quase sem pensar, saiu-me isto, enquanto compunha um ar blasé: “Engana-se. Diz-se à última da hora e a expressão significa à última badalada da hora. Vem do tempo dos antigos relógios de sala, que cantavam as badaladas, e quer dizer que o tempo está a esgotar-se. Olhe, é o meu caso, peço desculpa mas tenho mesmo de me ir embora.”

 

Deixei-o plantado, sem lhe dar oportunidade de resposta. Sou mazinha: aquilo fez-me ganhar o dia. Ainda vi, por cima do ombro, o amigo aproximar-se dele e fazer-me um adeus com a mão. E seria capaz de jurar que foi aquele desgraçado quem pagou as favas pelo meu atrevimento. Pelo menos não deve ter-se livrado de ouvir uma lição acabadinha de aprender e totalmente falsa: “Sabes qual é a origem da expressão À última da hora?”...

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O nosso vinho era bom. No paladar, na cor, no equilíbrio do gás, sem cristais, engarrafado com direito a rótulo, a gravata de ráfia e a lacre, timbrado com as armas dos antepassados. Era o melhor ganho que a terra nos dava e qualquer ameaça às nossas latas carregadas, carinhosamente enxertadas, podadas e sulfatadas, fazia explodir a ira de meu Pai. Era ele que enxertava e que podava, que levava dias de Abril e Maio a ver os gomos, o desenvolvimento dos gomos. Depois os cachos e o desenvolvimento dos cachos. A catar ladrões pelas videiras acima e a instruir a canalha que vigiava as vacas, que em vez de andarem a pasmar, fossem tirando os ladrões às videiras. Cada enxerto pegado era coisa de se ir ver. Naqueles dias ainda frios de Dezembro e Janeiro, que era a época da poda, passava o tempo em cima do cavalete e tinha uma tesoura especial. Aliás, toda a ferramenta dos seus trabalhos era especial e não tinha permissão para andar na baila. A cesta da enxertia era um tesouro, a ver em exclusivo com os olhos. E trabalhos que metessem videiras eram altos cargos a pedir protocolo.

 

Meu Pai fumava muito e só de pensar que outro cancro o podia levar de vez, me dava horas de insónia e sessões de choro na cama. Todos os anos, o jeito de ele podar, fazia-lhe gretar o dedo anelar. Ao almoço, inspeccionava a ferida, deitava-lhe mercúrio-cromo e vinha, do toutiço às orelhas, carregado de cisco da vinha. Gostava de o sacudir. Gostava daquele cheiro dele, a tabacoversus lavanda, misturado com o cheiro lá de fora impregnado na lã da camisola. Sabes quantos cigarros fumei desde manhã? Quatro. A podar fumo menos. Nesse tempo fumava um tabaco de enrolar, acabado de lançar pela nossa Tabaqueira. E eu, que morria que ele morresse, pensava com os meus botões que o tabaco o ia matar e seria mesmo bom que demorasse muito a podar a quinta toda, que os homens sábado e domingo não o pudessem vir ajudar, que sempre fumava menos e assim fintava a morte.

 

A nossa vinha era “do tarde”. Com o ribeiro a tornear a quinta, num baixo e muito irrigada, fazia a terra mais fria e lenta. Ou seja, a nossa agricultura brotava sempre mais tarde que a dos outros e vinha mais exuberante. Fomos, durante anos, quem mais milho produziu por hectare no concelho. Éramos os últimos a lavrar, a semear, a colher. Na reunião anual com a Adega Cooperativa acertávamos as datas mais finais para entregar as uvas. Como não tínhamos caseiro, não havia partilha de cachos, nem discussão de meias ou de terços. Para mim, coisa ruim. Tinha tido a sorte, num ano em que um tio, por ausência, me incumbiu de lhe tomar conta da vindima e de verificar a partilha. Com direito a ordenado, foi um ver se te avias a contar cestos – um para eles, dois para nós – e a marcar com a navalha, na chibata de oliveira. Mas lá em casa, a sina ditava que vindimasse, que acarretasse, que apanhasse bagos do chão, ou que ficasse à moenga. À escolha. Apanhar bagos nunca me entusiasmou. Quando ganhei corpo, gostava de carregar ao ombro, como os homens, ou de mostrar a força na manivela da moenga e na alavanca da prensa. As raparigas fortes eram mais acarinhadas.

 

Sem sombra de dúvida que colheita empolgante era a vindima. Permitia toda a espécie de gente: homens, mulheres e crianças. Merendava-se bem, reinava a alegria e enchia-se a barriga de uvas diversas: morangas, dedo de dama, e ainda havia uma videirinha trazida do Douro, por graça, que dava umas uvas muito doces. Nada disso entrava nos balseiros que iam para a Adega. Deus nos livre de traçar o vinho. E a tarefa pedia traje a rigor: chapéu, boina ou lenço à cabeça, uma camisa velha e dois farrapos: pr’á rodilha e pr’ò “purso”. A rodilha pede um pano grosso, para calçar o cesto sem trilhar a cabeça. O pulso, pede um lencinho da mão, em jeito de ligadura, que impeça as pingas de escorrerem pelo braço até ao sovaco e o incomodativo cola-descola. Ainda que “quanto mais colar, maior é o grau”. Mas isso era medido à entrada da Adega e não nos competia a nós, simples jornaleiros, aferir açúcares.

 

Quando o vinho verde entrou nas bocas do Mundo e a Adega Cooperativa tudo fazia para chamar a si as colheitas e cobrir as encomendas, muitos deixaram de ter o trabalho em casa. Caíram em desuso os lagares, acabaram as noites de pisadas e o cheiro de brolho fermentado. Ficava o suficiente para o consumo do ano, em alguns casos, e o resto seguia nas carrinhas dos tractores para a Cooperativa, onde os sócios se abastecem à vontade, descontando no ano seguinte e dispensando-se o uso de dinheiro. Um luxo. Na vila, à boca da ponte, os miúdos esperavam os tractores para se empoleirarem no taipal traseiro e apanharem a boleia até à Adega. Sempre enchiam o bandulho e armavam um pagode a atirar bagos a quem passava. Era a única fila de trânsito que conhecíamos, feita de tractores e meia dúzia de carros de bois, noite e dia, desde o fim de Setembro até meados de Outubro. Era a aldeia a vir à vila, sem ideia de ir ao tasco ou à missa, e a vila orgulhosa dos seus lavradores, desejando-lhes muitas pipas. E era, também, o meu momento de glória.

 

Meu Pai ia à vida dele e confiava-me o tractor. Puxas à frente, desengatas e desligas. A emoção era tal que quase caía numa tentação do diabo: tratá-lo pelo nome. Ok Zé. Ele tão bonito... boa figura, olho cor de sulfato, um fidalgo com coração simples. Gostava de conviver, metia-se nas tascas todas as noites, adorava a gente da sua terra, de os ouvir, de lhes dar coisas, de trocar favores. Vens-me cá podar, afogo-te em vinho e lavro-te o campo grande. Conhecia-os de gingeira. Aos domingos, metia-os no carro e iam lanchar a Tuy. Para alguns, continuava o menino Zézinho. As peixeiras vibravam com ele. Zéziiinho! e quando uma bez me lebou no motão? Cala-te mentirosa. Ai num s’alembra? Ha, ias com as pernas todas à mostra. Isso é que tu gostavas, ordinária... Ai que bããodido. A menina num bá no que diz o paizinho oubiu? Doce, bom mas bruto, cegava de raiva e berrava sem acanho onde quer que fosse. Era justo, mas usava da força para intervir por um amigo, pela Mulher, pelos sobrinhos... menos por mim. Se forem maiores que tu, agarras no que estiver à mão e dás-lhes.

 

Conheci-o ainda antes de todas as muitas vindimas, peixeiras e lavradores, como topógrafo da Celulose de Angola. Usava bons botins de carneira, passava dias fora de casa, voltava cheio de pó e de saudades e era o herói dos seus ajudantes a quem chamava “os meus capatazes”. Nenhum branco mandava comprar uma grade de cervejas todos os dias para o pessoal beber nas longas horas que passavam no mato. Quando deixamos o Alto-Catumbela, esses homens formaram uma barreira à nossa frente, choraram como crianças e vi o meu Pai abraçar um por um, desfigurado de tanto desespero.

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O nome das coisas*

por Teresa Ribeiro, em 10.03.13

 

A mesa era uma árvore gigante, de copa redonda, enorme e raízes tão antigas que saltavam da terra como os braços de um polvo. À volta as cadeiras, com o estofo em palhinha, eram cabanas de colmo. Cada uma delas correspondia a uma divisão da casa. O meu sentido estético não se compadecia com interdições, por isso os lenços, as toalhas turcas e demais acessórios saltavam das gavetas sem permissão, acrescentando beleza, mas também verosimilhança ao acampamento. O risco de levar com a ira materna fazia parte do jogo, pois sem tensão a vida na selva não seria a mesma coisa.

O som longínquo de uma serra eléctrica a cortar madeira, que me chegava regularmente da serralharia que se avistava nas traseiras, misturado com os sons da casa quando a mãe andava ocupada a fazer coisas de mãe, dava-me as certezas de que precisava para poder embrenhar-me descansada nas minhas aventuras de alcatifa.

O móvel grande de vidrinhos encerrava os tesouros do meu pai. Um bric-à-brac de loiças, livros e bibelots que ninguém estava autorizado a tocar. Havia dias em que era mesmo aí que eu. Para que o móvel não se chibasse, porque os móveis falam todos com sotaque próprio, eu abria as portas de vidrinhos muito devagar e então, com o coração à solta e os meus bonecos mais minúsculos, povoava aquela terra prometida.

Um dia destes levaram-mos. A árvore, as cabanas e o templo do meu pai, arrematados com displicência por tuta e meia. Juntamente com o gira-discos, os candeeiros, as loiças. Como num arrastão desmantelaram a miúda e os cheiros e os sons. Meteram os passos da minha mãe a andar pela casa de um lado para o outro. Da minha mãe, não. Da mãe daquela miúda numas caixas, e o linguajar dos armários, das gavetas, das estantes, todos com sotaques inconfundíveis. Deram-me um papel para assinar enquanto mascavam uma pastilha e desapareceram.

O cheiro do barulho da serração, sobretudo no Verão, quando eu amolecia depois do lanche, era... Melhor só o da casa, que emanava dos móveis da sala. Um cheiro bíblico, primal, que se concentrava também no roupeiro do quarto onde às vezes aquela miúda se transformava em princesa, assim que vestia as camisas de dormir da minha mãe.

 

*também o título de um livro de Sophia de Mello Breyner

 

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A primeira casa a que digo adeus

por Pedro Correia, em 17.02.13

As casas onde vivemos farão sempre parte do nosso roteiro afectivo.

Há pessoas que passam uma vida inteira numa só cidade, num só bairro, numa só rua, numa só habitação. Outras vão mudando de morada ao sabor de circunstâncias imprevistas, de sobressaltos familiares, de imposições profissionais que por vezes nos levam até a passar temporadas ocasionais em casas de empréstimo.

Incluo-me entre estes últimos, que conhecem bem o significado daqueles versos cantados por Sérgio Godinho: "E é então que amigos nos oferecem leito / entra-se cansado e sai-se refeito."

 

Já vivi - semanas, meses, anos - em mais de vinte casas: dava para uma série em que contasse a minha relação com qualquer delas. Talvez me lance nessa empreitada um dia destes.

Mantive-me de algum modo ligado a elas e revisito-as periodicamente, sempre que posso - ao vivo ou através de viagens virtuais no Google Earth às mais distantes, noutros países ou continentes. Sou capaz, ainda hoje, de desenhar a planta do interior de quase todas.

Ainda há um par de meses revi a casa onde morei parte da infância, em Viana do Castelo. Não faço a menor ideia de quem lá vive agora e nem me atrevi a tocar à campainha para que me abrissem a porta sob qualquer pretexto. Mas olhei para a fachada daquele edifício tão bem conservado e senti um orgulho indisfarçado como se fosse meu, mirei a janela aberta daquele segundo andar que correspondia ao meu antigo quarto de menino e logo me assaltaram suaves recordações de infância e também de um pesadelo nocturno, da única vez que me lembro de um pesadelo enquanto dormia, um pesadelo em que era esmagado por um comboio a toda a velocidade. O prédio fica perto da estação ferroviária, talvez uma coisa tivesse a ver com a outra.

 

Mas há pesadelos bem reais. Ontem senti um desses pesadelos ao ver, nos telediários da RTP e da SIC, as imagens de uma casa em chamas, no Fundão.

Era a antiga casa dos meus avós.

 

 

Passei quase todas as minhas férias grandes até aos 18 anos numa fracção desta casa de quatro inquilinos. Os avós habitaram-na durante um quarto de século. Era um apartamento humilde mas povoado de memórias muito felizes. Numa das minhas fotografias preferidas, estou com apenas ano e meio numa das janelas desta casa - correspondente ao quarto dos meus pais - ao colo da minha mãe. Ambos com sorrisos perpetuados para a eternidade nesse dia sem sombras das primeiras férias natalícias em que me familiarizei com a neve.

Situada na parte mais alta da vila, hoje cidade, a casa tinha como complemento natural o parque desportivo implantado já na vertente da Gardunha com o seu complexo de psicinas e rinques de patinagem. Nas férias, eu e o meu irmão ali nadávamos e jogávamos à bola e andávamos de bicicleta em movimento sem fim do nascer ao pôr do sol.

Não havia computadores nem televisão nem telemóveis: só um telefone tardio, com apenas três dígitos. Ouvíamos os Parodiantes ou os folhetins radiofónicos na telefonia e espreitávamos um ou outro programa televisivo em serões na casa dos vizinhos, espécie de prolongamento da nossa, como então faziam milhões de portugueses.

Conversava-se e convivia-se muito mais naquele tempo em que a rua, quase sem trânsito, também funcionava como prolongamento da casa e era palco de brincadeiras sem fim com primos ou amigos ocasionais que passavam sem transição de simples desconhecidos para alegres compinchas de jogos e travessuras infantis.

 

 

Dormi pela última vez nesta casa na Páscoa dos meus 19 anos, quando regressei ao encontro da neve, já os avós tinham morrido e o meu pai decidira não continuar a pagar renda por aquele rés-do-chão direito onde íamos cada vez mais de longe a longe nessa época sem auto-estradas em que as viagens rodoviárias entre o Fundão e a capital podiam durar seis horas ou até mais.

Não a revi durante muitos anos a não ser nas fotografias dos álbuns familiares e nas minhas recordações - cada vez mais distantes, cada vez mais próximas. Percebo agora, muito melhor do que percebia há dez ou vinte anos, o significado da frase "a criança dita e o homem escreve", de Julien Green, que seleccionei para hoje na minha série diária sobre escritores.

Revi-a em 2011 e no ano passado, em três visitas sucessivas. Tirando a rua, hoje muito mais movimentada por se inserir actualmente na circunvalação da cidade, parecia estar tudo como dantes. Pintada de fresco, com o mesmo ar acolhedor e as mesmas portadas de madeira na janela onde o pai nos tirou aquela fotografia de que tanto gosto.

 

 

Voltei a vê-la ontem à noite, em chamas. Dizem as notícias que o fogo começou na casa da vizinha que era antigamente o prolongamento da nossa. Revi o quintal onde se situavam as capoeiras e as coelheiras, e onde havia um barracão no qual o avô guardava alfaias e ferramentas, e onde uma rudimentar latada nos fornecia uma sombra saborosa nas tardes mais quentes de Verão.

Refaço mentalmente a planta da casa que vejo incinerada nas dolorosas imagens televisivas e nas fotos publicadas no Jornal do Fundão (e que aqui reproduzo, com uma vénia comovida). Há tantos anos deixei de morar ali e mesmo assim, ao ver estas imagens do pequeno prédio agora sem tecto nem parte do telhado, sinto que me arrancaram um órgão vital.

É a primeira casa de que me despeço não com um até já ou um até sempre, mas com um até nunca mais.

Amanhã regressa a rotina adulta, hoje volto a ser criança pela última vez, subitamente devolvido àquelas manhãs em que todos estavam vivos quando eu fazia anos e toda a gente sorria nessas fotografias que num dia muito distante a poeira do tempo apagará.

 

Foto antiga da piscina do Fundão, extraída do blogue do meu primo Eduardo Saraiva, O Andarilho. As fotos do incêndio de ontem são de Catarina Canotilho e estão na edição em linha do Jornal do Fundão

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Estendi o braço mas não cheguei lá

por Pedro Correia, em 01.11.12

Não sei se convosco é assim. Eu costumo ler vários livros ao mesmo tempo. Sempre fui um leitor voraz. Cheguei até, durante alguns anos, a fazer fichas de leitura detalhadas de todos os livros que ia lendo: a primeira sucedeu quando, deslumbrado, cheguei ao fim de Mau Tempo no Canal -- para mim o melhor romance português do século XX e com uma das mais fascinantes personagens femininas de toda a nossa literatura.

Comecei a ler muito cedo, estimulado por uma vasta biblioteca paterna, cheia de títulos incompreensíveis para o miúdo que eu então era. Graças a essa curiosidade difícil de saciar, aprendi a ler livros que ultrapassavam a minha idade à medida que os ia retirando das estantes. A Peste, de Camus. Conversas com Borges, de Georges Charbonnier. As Democracias Populares, de François Fejto. Os Cinco Comunismos, de Gilles Martinet.

E tantos outros, às vezes com autógrafos oferecidos ao meu pai -- de Júlio Dantas a Luiz Francisco Rebello, de Pedro Homem de Melo a Romeu Correia, de Armando Cortesão a Fernando Namora. Esses eram os que eu ia desfolhando com maior deslumbramento. Como se a dedicatória e o autógrafo prolongassem a sensação de que ao abrir um livro escancarava uma janela para o mundo. Havia também os que estavam "encadernados em pele de carneira", como então se dizia com alguma pompa. O Primo Basílio. As poesias completas (sempre incompletas) de Fernando Pessoa. A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro -- que descobri aos 15 anos, com o mesmo empolgamento de quem lera pouco antes os contos de Jack London com a chancela da editora Civilização, o Robinson Crusoe (da colecção juvenil da Portugália) e o Texas Jack (da Agência Portuguesa de Revistas). Os operários das fábricas de fiação da Covilhã faziam as vezes dos mosqueteiros da rainha, a "minha" Serra da Estrela substituía as Tulherias, o realismo socialista entrecruzava-se com aventuras de capa e espada.

 

Voltei hoje a ver estes livros -- e tantos outros -- ao revisitar a biblioteca paterna, agora adormecida: há muito que nenhum novo título ali entra para fazer companhia aos demais. A larga secção de pedagogia -- incluindo os Piagets, que nunca me interessaram -- foi recentemente doada, vários outros talvez sigam em breve idêntico caminho. Mas há volumes de que nunca me separarei. Bonecos de Luz, com a letra larga e generosa de Romeu Correia na página de abertura -- a minha iniciação, ainda infantil, à literatura portuguesa. O livro que Brassai escreveu sobre Picasso -- retrato de uma época irrepetível. Goethe e Rilke traduzidos por Paulo Quintela. A primeira edição da biografia de Pessoa escrita por Gaspar Simões, psicanalista improvisado do "Menino de Sua Mãe".

Parecia-me tão grande, a biblioteca, quando eu era miúdo. Pareceu-me hoje mais pequena quando regressei nesta romagem de saudade: mesmo assim, cheia de obras que nunca terei tempo de ler. Sentei-me num cadeirão durante longos minutos, em silêncio, e senti-me um garoto outra vez. À espera que o meu pai chegasse a qualquer momento para me tirar aquele livro lá em cima, da última estante. Estendi o braço mas não cheguei lá.

 

Em véspera de Finados, reedito este texto que julgo corresponder ao que me pedem no sempre excelente Escrever é triste.

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Como tudo que acaba também o Verão

por José Navarro de Andrade, em 07.09.12
 

 

Foi preciso vir o Paris-Match a Lisboa em Agosto, para se descobrir, cá em baixo, que 1975 não foi nada assim – nem nós demos por isso à época, quanto mais quem não era nascido…

O verão de 1975, o mais belo dos verões para quem alguma vez teve 16 anos. Há lá simbiose mais feliz do que um país parvo como um adolescente, às mãos de um adolescente esparvoado com os avatares revolucionários, por esses dias despejados em Lisboa.

Tantos eram os estrangeiros – hoje vulgarmente apelidados de “europeus” – de mochila às costas que o relvado do Estádio Universitário foi convertido num parque de campismo. Se a memória não falha, o recinto seria pressurosamente guardado pelos lenços negros do COPCON e à noite não era o restolhar das árvores que nele se escutava. Não, o que se ouvia eram os suspiros da liberdade. Pois para isso tinha a euro-juventude acorrido, para conviver com uma revolução ao vivo, à falta de ter ido ao Chile enquanto deu.

Soldados e marinheiros unidos venceram deveras os corações e sobretudo os ventres (palavra um nadinha clínico-clériga, mas na ocasião celebradíssima poeticamente por Ary dos Santos e Tonicha) das miúdas de idiomas embrulhados e com deliciosos ouriços nos sovacos, atestando que eram totalmente revolucionários os seus ardores – nem doutro modo seriam desejáveis.

As mais briosas e culpadas era as alemãs adeptas da Rotte Fahne, as mais discutíveis (quer dizer: não se davam à praxis antes de discutir Gramsci) eram as italianas, émulas de Rosssana Rossanda. As francesas, como de costume, parecia que nada lhes chegava aos calcanhares de 68 e tudo lhes sabia a pouco – y en a marre… As poucas nórdicas, sempre chegavam cá demasiado enfastiadas, por lhes ser oferecido o que elas em casa já tinham em demasia, mas ainda assim, os calores fétidos do Atlântico Sul adoçavam-lhes um pouco os humores militantes, severos do seu natural.  

Na Baixa faziam as vezes de sinal horário as zaragatas com os retornados em cacho à porta do Pic Nic do Rossio, animados a recordarem as pacaças e a discutirem os caixotes que atulhavam a doca de Alcântara. Pertencia à festa haver putativos reacionários à mão de semear.

Mas era tanto o caudal de visitantes e tão recheado o calendário de manifestações, que os magalas não davam conta do recado. Entra aqui o miúdo de 16 anos. Queres mesmo, mesmo, mesmo a sério ver a revolução em marcha? Ach, et bien…, da vero! Pois então passaremos o fim-de-semana a sacholar na Torrebela. E lá tinham o Rabaça e o Mortágua que aturar mais uns desvairados espezinhando as culturas, tudo menos labutando em prol do povo.

Mas o Paris Match viu outro Verão.

 

Nos baldios que se estendem para além da Serra de Aire até ao sol-posto de Caminha, os pés sujos de chanatos não pisavam. Nessas terras do demo, um cónego de Braga açulava sicários, veteranos que vieram vesgos das matas de África e estavam danadinhos para reproduzirem a alegria outrora sentida diante das cubatas a arder com os pretos lá dentro. A foto da capa do Paris-Match nº1369, datado de 23 de Agosto de 1975 estampa um militante do PCP escudado por polícias tão arrepelados quanto ele, exibindo um justo pânico por estar a ponto de ser linchado ou assado. Aqueles verões de 75 tiveram muito menos piada que os nossos – como de costume, aos nortenhos faltou-lhes graça.

Duraram mais uns anos as raivas, cá em baixo ao tempo que não havia campistas, até que por fim um tal de comendador atravessou o Porsche na estrada por via de uns balázios que o deixaram sentado no bólide a contemplar infinitamente o Portugal mais-que-perfeito daquelas bandas. E por ali diz-se que se ficaram.

Ainda hoje não é costume ir muito para aqueles lados, húmidos e gordurosos. Há poucos anos não tinham perdido a comichão de gatilho e matavam-se com sinceridade à porta de boites por causa de certos negócios lá deles. Ultimamente só damos por eles quando aparecem alguns desdentados na televisão a celebrar campeonatos de futebol. Bem nos avisou a Sra. D. Agustina que por ali ser lírico e manso não era elogioso, o que os franceses do Paris-Match cataram logo à primeira – zut alors

 

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Memória de Jorge e Zélia

por Pedro Correia, em 10.08.12

 

"Em três palácios de governo relembrei que sou apenas um romancista de putas e de vagabundos."

Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)

 

Com o atrevimento dos meus 18 anos, postei-me um dia à entrada do Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade, na esperança de poder entrevistar Jorge Amado para um semanário regional de que era colaborador nas horas vagas dos meus estudos. Bastara-me ler num jornal a notícia de que o grande escritor brasileiro se encontrava novamente entre nós para zarpar rumo ao hotel, onde o casal Amado sempre se instalava nas suas frequentes deslocações a Lisboa.

Os meus esforços foram recompensados. Ao fim de um par de horas sentado no vasto átrio central do Tivoli, vi surgir da rua o autor de São Jorge dos Ilhéus. Trazia um boné de marinheiro e uma camisa estampada, de cores garridas. A seu lado, a mulher, Zélia, companheira inseparável das suas deambulações em redor do globo, de sorriso permanente no rosto.

Dirigi-me de imediato a eles, apresentando-me e confessando-lhes a intenção de marcar dia e hora para uma entrevista. Para meu espanto, a conversa desenrolou-se logo ali, num dos sofás do piso térreo do hotel. Durante mais de meia hora, o consagrado autor brasileiro respondeu a todas as perguntas que entendi fazer-lhe. Com uma abertura e uma bonomia que seriam impensáveis na esmagadora maioria dos escritores portugueses, muito cientes da sua enfadonha importância.

Por vezes, a risonha Zélia intrometia-se na conversa e completava algumas das respostas do marido. Transmitiam a imagem de um casal fadado com o raro dom da harmonia conjugal. Nascidos um para o outro, como reza o lugar-comum. Mais tarde, ao ler os livros de memórias de ambos, confirmaria a impressão que deles retive nesse início da década de 80, quando Jorge Amado gozava de uma popularidade ímpar em Portugal. Escassos três anos antes, a telenovela Gabriela - extraída de um dos seus principais romances, Gabriela, Cravo e Canela - fora campeã absoluta de audiências entre nós, a ponto de fazer adiar sessões parlamentares e até reuniões do Conselho de Ministros. O País inteiro vibrava com os encontros e desencontros do Doutor Mundinho, do Coronel Ramiro, de Jerusa e Malvina, de seu Nacib e da fogosa Gabriela, interpretada por Sónia Braga em início de carreira.

 

Dessa conversa com Jorge Amado trouxe um autógrafo de valor inestimável num dos seus livros que já povoavam a minha biblioteca, ainda muito incipiente, um artigo que rapidamente redigi para o jornal de que era colaborador e uma recordação inesquecível. Aquele homem habituado a dialogar com os grandes do mundo, que fora amigo de Neruda e Picasso, concedera mais de meia hora do seu tempo a um garoto que se aproximara dele para uma entrevista sem marcação prévia.

Um ano depois, já eu era jornalista profissional num semanário de âmbito nacional, a cena repetiu-se. Voltei a abordar o casal Amado no mesmo local e voltámos a conversar, desta vez ainda com mais tempo. Da conversa nasceu uma extensa entrevista de duas páginas que teve natural destaque no jornal. Vim de lá com outro livro autografado e a convicção reforçada de que os melhores escritores não têm necessariamente de assumir pose intelectual. O Jorge Amado que eu via à minha frente  tinha a mesma desarmante simplicidade que transparecia dos seus livros - que serão sempre da minha vida, que serão sempre das vidas de milhões de seres humanos, incluindo muitos que nunca foram ao Brasil e não sabem sequer uma palavra do nosso idioma. Livros que o autor de Tenda dos Milagres começou a escrever ainda muito jovem, praticamente ainda adolescente, mas que constituem um fabuloso fresco das classes humildes do grande país irmão - e do estado da Baía em particular. Livros como Jubiabá, Mar Morto e Capitães da Areia, redigidos na década de 30 numa prosa inimitável, prosa que se confunde com poesia, cheia dos sons da rua, num português cadenciado e musical, muito marcado por múltiplos sotaques, romances onde a vida pulsa, tão vibrantes hoje como no momento em que foram escritos. 

 

Muitos anos depois desse meu encontro inicial com Jorge Amado em Lisboa, redescobri a mesma personalidade franca, acolhedora e despretensiosa nas páginas de um notável livro de memórias, intitulado Navegação de Cabotagem. Sem traço de soberba. "Em três palácios de governo relembrei que sou apenas um romancista de putas e de vagabundos", assinalava ele, fiel ao seu estilo de sempre.

Neste dia em que se assinala o centenário do seu nascimento, recordo com particular emoção as personagens de Jorge Amado nos livros que constituem o mais precioso legado deste escritor que devia ter sido distinguido com o Nobel da Literatura. O António Balduíno, de Jubiabá. Pedro Bala, Gato e Volta-Seca, de Capitães da Areia. O Guma, desse maravilhoso e encantatório Mar Morto. A inesquecível Gabriela. A Tieta do Agreste. A Dona Flor, que tinha dois maridos.

Personagens locais e regionais. Mas também personagens universais. Graças à arte irrepetível de Jorge Amado, aquele senhor de cabelos brancos, bigode e camisa colorida que um dia acedeu em conversar com um jornalista em início de carreira, de um obscuro periódico regional, como se estivesse a dialogar com um veterano profissional do Le Monde ou do New York Times.

Parece que foi há dois dias e já se passaram trinta anos. Zélia e Jorge: brasileiros de gema, portugueses do coração, cidadãos do mundo. Um casal feliz. Jamais esquecerei as gargalhadas de ambos, à entrada do Tivoli: sinto-as reverberar pela eternidade.

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Macau: laços de ternura

por Pedro Correia, em 30.06.12

Nunca me esquecerei da imagem. Numa luminosa manhã de Inverno, descia a colina de São Januário em direcção ao Jardim de São Francisco quando os vi, subitamente, numa curva do caminho. Andavam num ritmo oscilante, medindo cada passo transposto na calçada. Pareciam um casal como tantos outros. Mas não eram. Ali à minha frente estava a real explicação para a presença multissecular de Portugal em Macau.

O senhor idoso, de longo bigode grisalho, era inequivocamente português; a senhora idosa que seguia a seu lado, envergando seda estampada, tinha traços fisionómicos claramente chineses. Iam de braço dado, unidos num elo que parecia indestrutível, como se aquela fosse a primeira manhã do mundo.

Fiquei a vê-los passar na lenta ascensão rumo ao hospital, situado no topo da colina – uma das sete de Macau. Iam decerto a uma consulta médica. Já não me lembro se conversavam: talvez lhes bastasse um ténue fio de ternura para estabelecerem comunicação, como acontece a tantos casais idosos. Este quadro humano teve, para mim, o efeito de uma revelação: aquele português e aquela chinesa de braços entrelaçados, apesar do óbvio desgaste dos anos, eram uma metáfora viva da própria Cidade do Nome de Deus.

O nosso maior vínculo a Macau não vem estampado em nenhum manual de história: ali deixámos pouca fé, nenhum império, quase nem vestígio de negócios da China. Se contássemos, por exemplo, com o dinamismo empresarial para perpetuar os pergaminhos lusos naquelas paragens, bem podíamos esperar sentados. Até a comercialização dos nossos pastéis de nata se deveu à inspirada iniciativa de um súbdito britânico…

“Outros países têm igrejas, palácios, museus ou mesmo cataratas do Niágara e Vesúvios para mostrar. A China tem, em vez de tudo isso, um muro”, lamentava Alberto Moravia. De certa forma, só os portugueses conseguiram suplantar o muro: fomos o único povo ocidental que se uniu à etnia chinesa para formar uma comunidade mestiça. Os macaenses comprovam tal facto.

Os discursos oficiais de louvor ao entendimento luso-chinês são levados pelo vento, os interesses económicos mudam ao sabor das circunstâncias, as garantias seladas em acordos podem ser rasgadas, até as pedras ameaçam ruir. Só os laços de sangue perduram. Falam mais alto e calam mais fundo do que tudo o resto. Esta voz do afecto em que fomos pioneiros há-de continuar a repercutir, como eco de longínquo búzio, o doce nome de Macau.

 

                         

Imagens: Ruínas de São Paulo (em cima), Porto Interior e Ilha Verde há cerca de cem anos (ambas do blogue Macau Antigo)

 

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Cartas, quem as não tem?

por Helena Sacadura Cabral, em 06.06.12

 

Um post do meu amigo Paulo Abreu Lima está, hoje, na origem deste meu. Ele defende no seu Assim na Terra com no Céu - assimterraceu.blogspot.pt - que devemos guardar as cartas que consideramos importantes. Eu não. Mas durante muito tempo pensei como ele. Explico-me.

As cartas são bocados de nós e contam histórias de uma época que passou. O seu valor reside no olhar de quem as recebeu e naquele de quem as escreveu. Deixá-las cá ficar significa que outros olhares se debruçarão, impiamente, sobre elas. E, a mim, isso desagrada-me.

Neste momento, ando a preparar-me para queimar cartas que ao longo da minha vida conservei e que não quero nem devo partilhar com quem cá fica. Todas elas tiveram um tempo, que foi meu. E que guardei, na ilusão de que o tempo também se guarda. Não é verdade! 

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Descrever o tradicional culto dedicado ao Senhor Santo Cristo dos Milagres e a importância da imagem bizantina que atrai tanta gente a Ponta Delgada no quinto domingo depois da Páscoa dia da vistosa procissão que percorre a cidade durante várias horas sobre tapetes de flores — não é o mesmo que recordar a lenda em torno da origem dessa imagem, pretexto para o postal de memórias de hoje.

 

 

O Convento de Nossa Senhora da Conceição da Caloura fica na aldeia da Caloura, em Vale de Cabaços, uma espécie de vale à beira-mar que pertence à bonita freguesia de Água de Pau, localidade disposta em cascata e que integra o belo concelho de Lagoa, na costa sul da ilha de São Miguel.

 

 

Na fachada da capela do Convento da Caloura lê-se Dezembro 1684. Construído sobre rochedos, foi o primeiro convento na ilha, autorizado pelo Papa Paulo III (ou talvez pelo Papa Clemente VII). A autorização papal teria sido acompanhada pela oferta da imagem do Senhor Santo Cristo (Ecce Homo), mas as dúvidas históricas que envolvem o caso são “resolvidas” por outra história, popular e pragmática, como várias vezes acontece.

Diz essa história que as freiras da Caloura andavam tristes com a falta de fé do povo de Água de Pau, visivelmente afastado das coisas da Igreja, por muito que elas rezassem para unir o “rebanho” do Senhor. Ao mesmo tempo, escreviam ao Papa a pedir uma imagem nova para colocarem na ermida e que conseguisse atrair as pessoas.

 

 

Por essa altura, eram frequentes os assaltos de piratas e corsários nas costas açorianas e a zona da Caloura sofria tantos desembarques e pilhagens que acabaria por verificar-se posteriormente a retirada das freiras e da imagem, mudadas então para o Convento de Nossa Senhora da Esperança, em Ponta Delgada, o qual abriga até hoje a Igreja e Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Mas a lenda conta coisa diferente. Conta que, um dia, uma nau foi atacada por piratas ao largo de São Miguel e que os destroços estiveram muito tempo a dar à costa sul. Foi aí que, uma manhã, as freiras viram um caixote a flutuar perto das rochas, de onde parecia emanar uma luz. Desceram à água, puxaram a caixa, abriram-na e deram com um busto de Cristo, cujo rosto apresentava um olhar vivo e uma expressão serena.

Para as religiosas, era um milagre: o Santo Cristo tinha escolhido São Miguel para aportar, onde o povo tinha fama de ser muito crente, e a população de Água de Pau, ao saber da imagem aparecida, cresceu na sua fé. Rapidamente, essa imagem foi também alvo do culto de toda a ilha, de todo o arquipélago, sem tardar a ser admirada por fiéis de tantas outras paragens.

 

 

Actualmente, no quinto domingo após a Páscoa, Ponta Delgada recebe devotos de muitas bandas e parece alargar-se para conseguir receber toda a gente.

 

 

Fotos (de cima para baixo, da esquerda para a direita):

• Caloura e o convento (ao centro, na foto);

• Convento da Caloura e fachada da capela do convento;

• Convento de Nossa Senhora da Esperança (Ponta Delgada)

com iluminações em véspera da procissão;

• O Senhor Santo Cristo em procissão e tapete de flores;

• Vai passar a procissão...

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O quadro de honra

por Helena Sacadura Cabral, em 24.05.12

A ALUMNI, Associação dos Antigos Alunos de Económicas, comemorou ontem o centésimo primeiro ano da criação do ensino desta disciplina, tendo resolvido inaugurar um "quadro de honra" dos seus alunos mais brilhantes.
Fui uma excelente estudante e, por isso, tive a distinção de ser convidada para participar da cerimónia. Aceitei e em boa hora o fiz.
Confesso, sem qualquer ponta de humildade, que me soube muito bem ver o meu nome entre os melhores. E eu, que não sou passadista, comovi-me ao ver desfilar, em projecção, nomes e retratos de pessoas que me marcaram profundamente.
Apraz-me salientar Etelvina Torroaes Valente, a minha primeira chefe no meu debute no mundo laboral, à qual estarei, para sempre, muito grata. 
Depois, os Professores Bento Murteira, Luis Teixeira Pinto, Jacinto Nunes, Silva Lopes, Bento Jesus Caraça, Sedas Nunes e tantos outros que me deixaram a sua forte marca.
O ISCEF - Instituto Superior de Ciencias Económicas e Financeiras - fez de mim alguém que sabe pensar e que ainda tem prazer em estudar. Parece pouco, mas afinal é quase tudo!

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Robin morreu ontem em Londres

por Patrícia Reis, em 21.05.12

 

O meu tio tentou explicar-me há muito tempo. Nós crescemos e as coisas que temos por certas vão desaparecendo, mesmo que sejam apenas bandas de música que fazem parte do nosso cenário musical por uma razão ou outra. Durante muito tempo não quis entender. Mais uma morte este mês e não sei se me aguento. Estou zangada com Deus. E eu nem sou pessoa de me zangar. Neste caso, o cancro levou a melhor e a palavra cancro parece-me, cada vez, uma sentença, uma fragilidade nossa. Vamos à Lua, mas não conseguimos dar cabo disto.

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Publicidade 9.

por Patrícia Reis, em 21.04.12

 

Os anos 70 foram anos estranhos (nasci eu!), mas este anúncio deixava-nos colocados ao ecrã. O facto de ser feito desta forma, tão próxima de um universo infantil, é maravilhoso. E a voz off é mesmo uma assinatura de época.

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Açoriano, escritor e poeta, Antero de Quental nem chegou a completar 50 anos de vida, mas deixou obra e teve um lugar de destaque na chamada 'Geração de 70', no século XIX das reformas. Doente do foro psiquiátrico, escolheu morrer na terra onde nasceu, mas o País inteiro conhece o seu legado de intelectual e reconhece o seu empenho pelo reformismo.

I

Faz hoje 170 anos que nasceu (18 de Abril de 1842) em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, e foi logo baptizado a 2 de Maio, com o nome de Anthero Tarquínio de Quental, descendente de uma antiga e respeitada família açoriana. O pai, Fernando de Quental (1814–1873), também natural de Ponta Delgada — casado com Ana Guilhermina da Maia (1811–1876), nascida em Setúbal — era um veterano das lutas liberais e tomou parte no desembarque do Mindelo.

Antero começou cedo a aprender francês com o poeta romântico António Feliciano de Castilho. Tinha 10 anos, em 1852, quando se mudou para Lisboa com a mãe e ingressou num colégio, que fechou no ano seguinte e os fez regressar a Ponta Delgada. Entrou no Liceu Açoriano e recebeu lições de inglês com um preceptor britânico conhecido na ilha.

Aos 16 anos, rumou a Coimbra, onde cursou Direito e, ao mesmo tempo, começou a abraçar os ideais socialistas, aí fundando a Sociedade do Raio, agremiação que tinha por objectivo reformar o País através da literatura. Eram os princípios da “revolução intelectual”, a revolução pacífica que devia fazer-se por via das ideias publicadas e divulgadas como fruto da intectualidade.

Viu os seus primeiros sonetos publicados ainda antes de completar 20 anos e, em 1865, publicou as Odes Modernas, influenciado pelo “socialismo experimental” do filósofo francês Pierre-Joseph Proudhon.

II

Esteve na primeira linha da 'Questão Coimbrã', raiz da renovação ideológica do século XIX, movimento de jovens académicos e escritores que assumia ter assimilado novas ideias e que se opunha ao que entendiam ser o academismo vazio da geração anterior de intelectuais, no centro dos quais estava Castilho (que passou a atacá-los por provocarem a revolução intelectual).

A verdade é que a contenda durou, mas dela só sobressaíram as publicações arremessadas por Antero, de um lado, e Castilho, do outro. Em 1866, porém, Antero foi para Lisboa trabalhar como tipógrafo, experiência de vida operária que repetiu nos dois primeiros meses do ano seguinte, durante uma estadia em Paris.

Já em 1868, novamente na capital, formou o Cenáculo, tertúlia de intelectuais que procuravam prolongar em Lisboa aquilo que os movera em Coimbra e que integrou Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão, entre outros.

Fez parte da fundação do Partido Socialista Português e fundou o jornal República com Oliveira Martins, em 1869, e a revista O Pensamento Social com José Fontana, em 1872.

III

Com a morte do pai no ano seguinte, Antero herdou uma fortuna apreciável que lhe permitiu passar a viver dos rendimentos. Em 1874, a tuberculose obrigou-o a descansar, em 1879 mudou-se para o Porto e, em 1886, publicou Sonetos Completos, considerada a sua melhor obra poética.

Entretanto, em 1880, tinha adoptado as duas filhas do seu amigo Germano Meireles, falecido três anos antes, e fora viver para Vila do Conde em 1881, aconselhado pelo médico, onde permaneceu dez anos (com alguns meses pelo meio nos Açores) e que ele próprio considerou o melhor período da sua vida: «Aqui as praias são amplas e belas, e por elas me passeio ou me estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz.» Em Vila do Conde, começaria assim um soneto: «Vozes do mar, das árvores, do vento!»

Em Maio de 1891, voltou para a capital e instalou-se em casa da irmã, Ana de Quental, mas não ficou muito tempo. Sofria de transtorno bipolar, que o levava de momentos de hipomania, hiperactividade e imaginação a estados de depressão, ansiedade e tristeza. A depressão foi-se tornando permanente e depressa achou que não estava bem em Lisboa: em Junho de 1891, decidiu voltar para Ponta Delgada. Pode dizer-se que, depois da primeira fase de juventude descoberta e após a fase da poesia como “voz da revolução”, tinha entrado na fase derradeira da inquietude madura: a poesia metafísica, a busca de um sentido para a existência.

A 11 de Setembro de 1891, sentado no banco de um jardim (ainda hoje assinalado, junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança e paredes meias com o Senhor Santo Cristo dos Milagres), Antero de Quental suicidou-se com dois tiros na boca. Aos 49 anos, quis acabar na terra que o viu nascer e onde procurava sem encontrar, de mão dada com a doença, o sentido da vida. Também quis ter a certeza de que acabava com ela. O segundo tiro era uma garantia de que lhe punha fim e o intervalo entre os dois disparos não o iluminou — uma conclusão que podemos tirar com aparente segurança.

Contudo, não viveu em vão. Afinal, é por isso que continua a ser estudado, lembrado e reflectido. Em 1942, o grande poeta brasileiro Manuel Bandeira escreveria: «Costuma apontar-se o Eça como o modernizador da prosa portuguesa. Basta, porém, a carta Bom Senso e Bom Gosto para provar que se houve reforma da prosa portuguesa, ela já estava evidente no famoso escrito de Antero.»

·  •  Ο  •  · —

Ilustrações

– Manuscritos e assinatura de Antero

Antero (c. 1887)

Retrato a óleo de Antero (Columbano Bordalo Pinheiro, 1889;

Museu do Chiado, Lisboa)

– O banco da morte (Campo de S. Francisco, Ponta Delgada)

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Há cem anos

por João Carvalho, em 14.04.12

«Um escritor americano em 1908 imaginára essa estranha catastrofe d'um navio colossal chamado Titan e que seria abalroado por icebergs. Passados quatro anos o facto terrivel deu-se com o Titanic, o maior navio do mundo, comandado pelo capitão Smith, levando a seu bordo milionarios e celebridades e que a trezentas milhas a sudoeste do Cap Race foi tocado por um formidavel iceberg.

Durante duas horas o gigante se debateu, sendo salvas 868 pessoas das 2:258 que conduzia.

O Titanic tinha 268 metros de comprido, deslocava 46:382 toneladas e custára aproximadamente nove mil e duzentos contos de réis, estando seguro em metade do seu valor.»

(Ilustração Portugueza, N.º 323, 29 de Abril de 1912, pág. 560)

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Da importância da memória

por Pedro Correia, em 24.03.12

Faz hoje 50 anos: a maior revolta estudantil contra o salazarismo. Merece ser lembrada, por motivos vários. Desde logo porque a memória é fundamental numa sociedade adulta. Para que um passado opressor não seja mitificado em nome das dificuldades actuais. Os erros de uma democracia encontram-se sempre num patamar ético superior aos eventuais acertos de uma ditadura.

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