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O livro que não nos deixa mentir

por Pedro Correia, em 16.03.17

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 Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves em 1975

 

A História é feita de grandes e pequenos homens. E também é feita de pequenas e grandes frases. Do "Alea jacta est", de Júlio César, ao "Nunca nos renderemos", de Churchill. Sem esquecer o incentivo que em 1640 D. Luísa de Gusmão terá deixado ao marido, o futuro D. João IV, para se unir aos conjurados: “Melhor morrer reinando do que viver servindo.”

Este livro traz-nos uma sugestiva panorâmica da história recente de Portugal, condensada em cerca de 1500 frases proferidas por protagonistas vários desde 1973 até ao final do ano passado. O título diz logo ao que vem: são “43 anos e seis meses de má política”.

É um título controverso, reconheça-se. Porque no fundo aqui nem tudo é mau. E a todo o momento somos confrontados com este paradoxo: temos excelentes frases de péssimos políticos e medíocres declarações de políticos que se notabilizaram por serem mais aptos a mostrar obra do que a falar.

 

Por opção editorial, o livro começa por recolher declarações registadas nos últimos meses do chamado Estado Novo, em 1973. Foi uma decisão acertada, para que se perceba bem como ao longo dos últimos 43 anos tivemos três países muito diferentes, com reflexos inevitáveis no discurso político.

Refiro-me ao país da ditadura, ao país da revolução e ao país da chamada “normalidade democrática”. Que é – felizmente – aquele em que vivemos agora.

 

O país mais antigo era o da censura oficial e o da supressão das liberdades.

Um país repleto de retórica balofa e vazia, muito adjectivada, cheia de gongorismos e salamaleques.

Um país com um chefe do Governo que chamava “conversa” ao monólogo.

Um país com um Presidente da República que no discurso do Ano Novo de 1974 declarou o seguinte: “Com o galopar incessante do tempo, vai encurtando a distância que separa a Humanidade do século XXI, vai ficando cada vez mais distanciado o século XIX e vão sucessivamente desaparecendo da vida aqueles que nele nasceram.”

La Palice não diria melhor…

 

Seguiu-se o país da erupção da liberdade logo ameaçada pelos delírios revolucionários com a sua linguagem de recorte bélico, cheia de verbos como “lutar”, “esmagar” e até “matar”. Este é um período interessantíssimo – para mim o mais fascinante de toda a obra, e não por acaso preenchendo quase um terço do livro.

Um período que exigiu certamente do organizador, Luís Naves, uma exaustiva investigação para apurar com exactidão e rigor quem disse o quê, à margem do boato que com o passar dos anos tantas vezes se torna lenda.

E, sim, é verdade que Otelo Saraiva de Carvalho disse mesmo que talvez tivesse sido melhor “encostar à parede ou mandar para o Campo Pequeno umas centenas ou uns milhares de contra-revolucionários, eliminando-os à nascença”.

Este Robespierre de trazer por casa, quando afirmou isto em Junho de 1975, era o chefe da mais poderosa força armada em Portugal. Por sinal o mesmo Otelo que em Abril de 2011, tendo o frenesim extremista já só como recordação, declarou alto e bom som: “Se soubesse como o País ia ficar, não fazia a revolução.”

 

Eram tempos irrepetíveis.

Tempos em que a Intersindical – com o Partido Comunista no Governo – espalhava a palavra de ordem “Não à greve pela greve”.

Tempos em que o futuro secretário-geral do PCP, Carlos Carvalhas, então secretário de Estado do Trabalho, considerava “verdadeiramente revolucionário” que os portugueses trabalhassem no feriado do 10 de Junho.

Tempos em que o primeiro-ministro pró-comunista Vasco Gonçalves anunciava a intenção de mandar “uma quantidade de gente para um campo de trabalho”.

 

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Não tenho a menor dúvida: este livro será a partir de agora um precioso auxiliar para quem escreve nos jornais, para quem fala nas televisões e nas rádios. Jornalistas, comentadores e decisores políticos, por exemplo, passarão a tê-lo à cabeceira ou na secretária de trabalho.

Andamos bem carecidos de obras como esta, que nos estimulem e revigorem a memória nestes dias da “pós-verdade”, onde milhares de pseudo-sábios garantem não existir qualquer diferença entre facto e treta.

43 Anos e 6 Meses de Má Política é neste aspecto – e muito bem – um livro que rema contra a corrente. Porque se ancora no facto e despreza a treta. Uma triagem que só se tornou possível graças ao olhar atento de um jornalista experiente, habituado a separar as águas, destacando aquilo que realmente se disse ou se escreveu sem dar guarida a mitos, por mais plausíveis que parecessem.

Um exemplo: a célebre frase “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, atribuída há décadas a Cavaco Silva, afinal é de autor anónimo. Não há registo de que alguma vez Cavaco a tenha proferido.

 

Mas muitas outras aqui desfilam, devidamente comprovadas. Lembrarei algumas, que acabaram por integrar-se na linguagem comum, muito para lá do contexto em que nasceram. "Olhe que não, olhe que não", disse Álvaro Cunhal em 1975. "É só fumaça, o povo é sereno", bradou no mesmo ano Pinheiro de Azevedo, autor de outra frase que tem sido muito citada nas últimas semanas e que talvez por uma questão de decoro não vem incluída nesta antologia.

Esta obra não esquece a “luz ao fundo do túnel” invocada por Mário Soares em 1978 quando solicitou ao FMI o primeiro auxílio de emergência financeira da democracia portuguesa. Nem a necessidade de "apertar o cinto", mencionada também por Soares, em 1984, quando o País estava novamente sob assistência externa. Nem o desbragado optimismo do ministro Braga de Macedo, ministro das Finanças de Cavaco, quando em 1992 anunciou que "Portugal é um oásis".  Ou a platónica garantia dada em inglês pelo recém-empossado primeiro-ministro António Guterres em 1995: "No jobs for the boys." E o que dizer do optimismo socrático do ministro Manuel Pinho ao proclamar urbi et orbi em Outubro de 2006: "A crise acabou"?

 

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Uma segunda edição permitirá certamente colmatar algumas lacunas – poucas – que registei numa leitura atenta.

"Soares é fixe",  que serviu de lema central à vitoriosa campanha presidencial de 1986.

"Esse é um assunto tabu", frase de Cavaco proferida em Outubro de 1994, deixando em aberto o seu futuro como líder do PSD e chefe do Governo. O tabu só seria desfeito só na Primavera seguinte.

Ou a deliciosa rendição de Manuela Ferreira Leite ao diktat de Bruxelas e Berlim: “Quem manda é quem paga.” Isto em Novembro de 2010, quando liderava o PSD e ainda não subscrevia abaixo-assinados para a renegociação da nossa dívida externa, de braço dado com Francisco Louçã.

 

O autor merece parabéns pela quantidade e qualidade do trabalho produzido. Muito mais do que um copioso registo de frases, estamos perante um precioso documento que nos ajuda a perceber melhor quem ao longo de vários ciclos políticos honrou a palavra dada e quem andou a vender gato por lebre.

 

E por falar em previsões, aqui destaco três, igualmente incluídas nestes 43 Anos e 6 Meses de Má Política:

"Vou liderar o PSD nos próximos dez anos", declarou Durão Barroso em Agosto de 1999. Como sabemos, não aguentou sequer metade desse tempo: em Junho de 2002 despediu-se apressadamente da pátria, rumando à presidência da Comissão Europeia sem olhar para trás.

"A minha maior ambição política é não ter ambição nenhuma", assegurou em Outubro de 2003 o actual Presidente da República. Caso para questionarmos onde estaria neste momento o Chefe do Estado se alimentasse alguma ambição…

"Portugal não necessita de nenhuma assistência financeira", afiançou em Janeiro de 2011 o primeiro-ministro José Sócrates. Três meses antes de fazer um apelo quase desesperado às instituições financeiras internacionais para salvarem as nossas contas públicas.

 

Vistas à distância, já quase extinto o calor da polémica, frases como estas ganham um importante carácter documental: deixam de mobilizar o jornalista, passam a interpelar o historiador.

Desde logo porque de previsões falhadas também reza a história. Aqui estão elas, plasmadas neste livro que não nos deixa mentir.

 

Texto que, com pequenas alterações, li ontem na sessão de apresentação do livro, em Lisboa.

 

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43 Anos e 6 Meses de Má Política, de Luís Naves (Contraponto, 2017). 355 páginas.
Classificação: ****

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Outros tempos, outros modos

por Pedro Correia, em 11.02.17

 

«Bloco pede demissão de ministro Álvaro Santos Pereira»

18 de Abril de 2012

 

«Bloco de Esquerda quer demissão do ministro da Economia e do secretário de Estado da Competitividade»

7 de Fevereiro de 2013

 

«Bloco de Esquerda defende demissão do Governo»

9 de Julho de 2013

 

«Uma ministra das Finanças [Maria Luís Albuquerque] que não fala verdade, que mente sobre as suas responsabilidades, não pode continuar a ser ministra.»

João Semedo, coordenador do BE, 26 de Julho de 2013

 

«Bloco exige demissão de Rui Machete por ter mentido ao Parlamento»

21 de Setembro de 2013

 

«Bloco de Esquerda pede a demissão do ministro da Educação, Nuno Crato»

4 de Dezembro de 2013

 

«Bloco de Esquerda exige a demissão da ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz»

18 de Setembro de 2014

 

«Bloco de Esquerda pede demissão do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio»

19 de Março de 2015

 

«Bloco de Esquerda pede demissão do secretário de Estado Adjunto da Saúde, Leal da Costa»

7 de Maio de 2015

(actualizado)

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Não precisava de ser "formatado"

por Pedro Correia, em 08.01.17

 

Escutem com atenção os 23 minutos iniciais do frente-a-frente que opôs Freitas do Amaral a Mário Soares na primeira volta das presidenciais de 1986. Qualquer deles precisava de derrotar o outro neste debate antes de o conseguir nas urnas, por intervenção dos eleitores. Soares, com o seu conhecido instinto político, acertou na estratégia: atirou-se - metaforicamente falando - à jugular do opositor logo na sua primeira intervenção. Oitenta segundos depois, Freitas já estava encostado às cordas. Com uma frase demolidora do adversário: "Eu não tenho dúvidas em reconhecer que o Dr. Freitas do Amaral é democrata, embora não tenha feito nada pela democracia."

Não precisou de estar "formatado" - como agora se diz - por nenhum especialista em comunicação política. Bastou-lhe ser ele próprio. Consciente, como poucos, que nenhuma guerra se ganha sem travar batalhas.

Andam agora aí uns meninos cheios de pós-graduações académicas a pretender ensinar aos políticos como devem comportar-se em confrontos televisivos. Eu se fosse a eles mostrava-lhes este vídeo. Não pode haver melhor aula prática.

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França: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 25.11.16

Lembrei aqui quem foram os inquilinos da Casa Branca, ano a ano, durante o último meio século - de Lyndon Johnson, em 1967, a Barack Obama, agora na recta final do seu mandato.

Como estamos a seis meses da eleição presidencial francesa, em que François Hollande - caso se recandidate - se arrisca a sofrer uma derrota de proporções históricas, é hoje a vez de recordar quem foram os inquilinos do Palácio do Eliseu desde 1967.

Volto a dividir este período por um período de cinco décadas, para uma consulta mais fácil. Só altero as cores: vermelho para os Chefes do Estado mais conotados com o socialismo, azul para aqueles que assumiram ser conservadores ou liberais.

Em breve seguir-se-á outro país.

 

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1967/76

1967 - Charles de Gaulle

1968 - Charles de Gaulle

1969 - Georges Pompidou

1970 - Georges Pompidou

1971 - Georges Pompidou

1972 - Georges Pompidou

1973 - Georges Pompidou

1974 - Giscard d' Eistang

1975 - Giscard d' Eistang

1976 - Giscard d' Eistang

O conservador Pompidou, continuador do gaullismo sem De Gaulle, foi a figura dominante nesta década de transição em França. Até à sua morte prematura.

 

 

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1977/86

1977 - Giscard d' Eistang

1978 - Giscard d' Eistang

1979 - Giscard d' Eistang

1980 - Giscard d' Eistang

1981 - François Mitterrand

1982 - François Mitterrand

1983 - François Mitterrand

1984 - François Mitterrand

1985 - François Mitterrand

1986 - François Mitterrand

Outra década, mudança de ciclo político em Paris. Com o socialista Mitterrand - derrotado nas presidenciais de 1965 e 1974 - a impor-se enfim na eleição de 1981.

 

 

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1987/96

1987 - François Mitterrand

1988 - François Mitterrand

1989 - François Mitterrand

1990 - François Mitterrand

1991 - François Mitterrand

1992 - François Mitterrand

1993 - François Mitterrand

1994 - François Mitterrand

1995 - Jacques Chirac

1996 - Jacques Chirac

Segunda década com predomínio de Mitterrand no Eliseu. Foi até agora o mais longo consulado dede o início da vigência da V República francesa, em 1958.

 

 

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1997/06

1997 - Jacques Chirac

1998 - Jacques Chirac

1999 - Jacques Chirac

2000 - Jacques Chirac

2001 - Jacques Chirac

2002 - Jacques Chirac

2003 - Jacques Chirac

2004 - Jacques Chirac

2005 - Jacques Chirac

2006 - Jacques Chirac

Um decénio completo sob a presidência de Chirac, discípulo político do general De Gaulle. Conservador, beneficiou no entanto do voto maciço da esquerda contra Jean Marie Le Pen na segunda volta das presidenciais de 2002.

 

 

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2007/16

2007 - Nicolas Sarkozy

2008 - Nicolas Sarkozy

2009 - Nicolas Sarkozy

2010 - Nicolas Sarkozy

2011 - Nicolas Sarkozy

2012 - François Hollande

2013 - François Hollande

2014 - François Hollande

2015 - François Hollande

2016 - François Hollande

Uma década repartida em partes iguais entre a direita e a esquerda. Na segunda metade da década em contraciclo com a Alemanha e o Reino Unido, onde predominaram os conservadores.

 

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Balanço: a direita política dominou o Eliseu em 31 dos últimos 50 anos (percentagem: 62%). Com cinco presidentes: De Gaulle, Pompidou, Giscard, Chirac e Sarkozy.

O Partido Socialista teve dois inquilinos no palácio presidencial durante este meio século (percentagem: 38%). Com apenas dois titulares: Mitterrand e Hollande.

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A minha "conversa" com João Lobo Antunes

por Alexandre Guerra, em 27.10.16

Tinha-me cruzado com o Professor João Lobo Antunes por duas ou três ocasiões, por motivos profissionais, mas nunca tinha falado (e nunca falei pessoalmente) com ele. Desses breves momentos, nunca fiquei com a ideia de que seria uma pessoa simpática, pelo contrário, daquilo que ia vendo e conhecendo do Professor João Lobo Antunes, enquanto personalidade pública, sempre o considerei algo elitista e pouco acessível (nada que me incomodasse), mas nunca tive dúvidas quanto à sua rara envergadura intelectual e, sobretudo, quanto à sua firmeza nas convicções ideológicas que tinha.

Em Maio último, por razões que um dia poderei contar, tive o privilégio de trocar alguns e-mails com João Lobo Antunes. Fiquei esmagado com a sua dureza de argumentos intelectuais e ideológicos. O professor foi impiedoso comigo, mas ao mesmo tempo concedeu-me o privilégio de poder rebater e contra-argumentar, tendo eu as devidas réplicas da sua parte.

Divergimos naquilo que era o âmago da questão, com João Lobo Antunes a expor os seus argumentos de uma forma duríssima, como nunca ninguém me tinha confrontado. Ao projectar a sua intelectualidade e ao exprimir as suas convicções, acabei por perceber que João Lobo Antunes me tinha concedido um estatuto merecedor do seu tempo e atenção.

No final, e depois de ter literalmente arrasado os meus pontos de vista, embora eu me tenha mantido firme em relação àquilo que defendia, o Professor João Lobo Antunes despediu-se de uma forma que nunca irei esquecer e que tanto me orgulha. Só um homem de tal inteligência, sofisticação e elegância responderia o que ele respondeu. Mas isso, fica só para mim.

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"Ficar calado equivale a mentir"

por Pedro Correia, em 12.10.16

 

O melhor discurso do século XX foi proferido faz hoje 80 anos, em Salamanca, por um filósofo basco prontamente condenado à morte civil. Constituiu um dos mais relevantes exemplos de coragem cívica, inteireza moral e ética política de que há memória.

Ocorreu na fase inicial da guerra civil de Espanha, na cidade de Salamanca, no dia 12 de Outubro de 1936. Foi proferido de improviso, na universidade desta urbe castelhana, pelo reitor vitalício do secular estabelecimento de ensino, o basco Miguel de Unamuno, figura cimeira da cultura espanhola.

Unamuno, um intelectual ferozmente independente, tecera fortes críticas ao rumo descontrolado do regime republicano que vigorou em Espanha entre 1931 e 1936, tendo acolhido com palavras de simpatia o alzamiento em Julho de 1936. Durou pouco a sua adesão ao golpe liderado pelo general Franco: os morticínios das primeiras semanas de guerra revelaram-lhe a verdadeira natureza da rebelião, nacional só de rótulo.

No início de Outubro, reuniu-se com Franco para lhe pedir clemência por diversos amigos de esquerda que tinham sido detidos em território controlado pelos falangistas. Esforço inútil: acabaram quase todos fuzilados.

Nesse dia 12, perante o governador civil de Salamanca, o bispo da diocese e a esposa de Franco, o general Millán Astray - inválido da guerra em Marrocos - proferiu uma diatribe contra o País Basco e a Catalunha, considerando-os "cancros do corpo da nação", terminando a sua arenga com a frase que criara para divisa da Legião Espanhola: "Viva a morte!" enquanto os braços se erguiam na saudação fascista.

 

Unamuno, já então um senhor de 72 anos, poderia ter-se remetido a uma atitude de cómoda indiferença. Mas não foi capaz. Levantou-se dignamente e pronunciou estas palavras de modo pausado mas firme:

"Esperais as minhas palavras. Conheceis-me bem e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. Por vezes, ficar calado equivale a mentir. Porque o silêncio pode ser confundido com concordância. Quero fazer alguns comentários ao discurso - para chamar-lhe assim - do general Millán Astray, que se encontra entre nós. Deixando de lado a ofensa pessoal que pressupõe a sua repentina explosão contra vascos e catalães. Eu próprio, como sabeis, nasci em Bilbau. O bispo [apontando para o prelado], queira ou não queira, é catalão de Barcelona."

Fez uma pausa. E prosseguiu:

"Mas acabo de escutar o insensato e necrófilo grito 'Viva a morte!' E eu, que passei a vida a cultivar paradoxos que irritavam alguns incapazes de entendê-los, tenho de dizer-vos, como especialista na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. O general Millán Astray é um inválido. Não é necessário dizermos isto em voz baixa. Ele é um inválido de guerra. Também Cervantes o foi. Mas, por desgraça, há hoje em Espanha demasiados mutilados. E, se Deus não nos ajudar, em breve haverá muitíssimos mais. Atormenta-me pensar que o general Millán Astray pudesse ditar as normas da psicologia das multidões. De um mutilado a quem falte a grandeza espiritual de um Cervantes é de esperar que encontre um terrível alívio ao ver como se multiplicam os mutilados em seu redor."

 

O general, acometido de fúria perante estas palavras, começou então a gritar: "Abaixo a inteligência! Viva a morte!" Provocando a entusiástica adesão dos falangistas ali presentes, que gritaram em uníssono com ele.

Mas Unamuno ainda não tinha terminado. E concluiu assim:

"Este é o templo da inteligência. E eu sou o seu sumo-sacerdote. Estais profanando o seu recinto sagrado. Vencereis porque tendes, de sobra, a força bruta. Mas não convencereis. Para convencer há que persuadir. E para persuadir necessitaríeis de algo que vos falta: razão e direito na vossa luta. Parece-me inútil pedir-vos que penseis em Espanha. Tenho dito."

 

Palavras que soaram como denúncia da fanática brutalidade dos esbirros de Franco. Palavras que custaram o cargo e a vida a Unamuno: de imediato destituído das funções de reitor, confinado a prisão domiciliária, o filósofo basco viria a morrer dois meses mais tarde, no último dia desse ano tão trágico.

Mas o eco das suas palavras, fruto de uma vontade indómita, prolongou-se muito para além dos horrores daquela guerra. Como admirável exemplo de resistência contra a barbárie - tenha a cor que tiver, seja em que época for.

 

Imagem: Unamuno (ao centro, de barbas) abandonando a Universidade de Salamanca a 12 de Outubro de 1936, acossado por falangistas. Faz hoje 80 anos.

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Nomes para quase todos os gostos

por Pedro Correia, em 05.10.16

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Ao longo de 770 anos da monarquia portuguesa, houve apenas 16 nomes no cargo supremo do Estado – 15 masculinos e um feminino. Concretamente, sentaram-se no trono seis reis de nome Afonso, outros seis de nome João e cinco reis chamados Pedro. Nomes de monarcas foram também Sancho (dois reis), Dinis (um), Fernando (dois), Duarte (um), Manuel (dois), Henrique (um), Sebastião (um), Filipe (três), José (um), Miguel (um), Luís (um) e Carlos (um). Além de duas rainhas chamadas Maria, que ascenderam ao trono por morte ou abdicação de seus pais, D. José e D. Pedro IV.

A implantação da república, faz hoje 106 anos, permitiu elevar à chefia do Estado alguns nomes próprios que seriam inimagináveis num monarca. Só a república nos deu Teófilos, Sidónios, Bernardinos, Óscares, Higinos e Américos. Só em república alguém chamado Aníbal atingiu o cume da pirâmide do Estado.
Mas o nome mais republicano, aparentemente, é António – único com que foram baptizados presidentes dos três ciclos republicanos ao longo deste século. Na I República houve António José de Almeida (1919-23), único presidente que completou o seu mandato durante os anos inaugurais do regime. No Estado Novo, pontificou o presidente António Óscar Fragoso Carmona (1926-51), o de mais longo mandato republicano. E no regime subsequente ao 25 de Abril de 1974 já vamos em três chefes do Estado com esse nome: António Sebastião Ribeiro de Spínola (1974), António dos Santos Ramalho Eanes (1976-86) e Aníbal António Cavaco Silva (2006-16).
Curiosamente, sendo António um nome tão português, nunca houve um rei António, legalmente reconhecido como tal, embora D. António, prior do Crato, tenha chegado a ser proclamado monarca em 1580 por sectores do povo, inconformados – ao contrário das supostas elites – com a anexação a Espanha. Já Manuel é um nome comum a reis e presidentes: o primeiro Chefe do Estado republicano foi Manuel de Arriaga (1911-15), o último da I República foi Manuel Teixeira Gomes (1923-25). E também tinha esse nome o primeiro líder do regime ditatorial – o marechal Manuel Gomes da Costa (1926).
 

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Nenhum presidente português terá sofrido tanto no exercício do mandato como o almirante João de Canto e Castro. Não só porque ascendeu ao poder quando era ministro da Marinha, na sequência da trágica morte de Sidónio Pais, baleado na estação do Rossio, em Lisboa, a 14 de Dezembro de 1918, mas também porque era monárquico. E viu-se forçado a reprimir a revolta monárquica de Janeiro de 1919, restabelecendo a legalidade republicana contra as suas convicções mais íntimas. O seu mandato durou dez meses. Morreu 15 anos depois, totalmente retirado da vida política.
No século XIV, Portugal esteve quase a ter uma rainha chamada Beatriz: era a filha única do rei D. Fernando, falecido em 1383. Mas as cortes de Coimbra negaram-lhe essa pretensão, entregando a coroa a uma nova dinastia, protagonizada pelo Mestre de Aviz, D. João I. Outros príncipes reais faleceram antes de chegar a reis: D. Afonso (seria o VI), filho de D. João II, em 1491; D. Teodósio, primogénito de D. João IV, em 1653; D. José (seria o II), filho de D. Maria I, em 1788; e D. Luís Filipe, filho de D. Carlos, em 1908.
Joaquim Teófilo Fernandes Braga (1915), Bernardino Luís Machado Guimarães (1915-17; 1925-26), Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (1917-18), José Mendes Cabeçadas Júnior (1926), Francisco Higino Craveiro Lopes (1951-58), Américo de Deus Rodrigues Thomaz (1958-74), Francisco da Costa Gomes (1974-76), Mário Alberto Nobre Lopes Soares (1986-96) e Jorge Fernando Branco de Sampaio (1996-2006) foram os outros chefes do Estado republicanos. Há sete meses chegou ao Palácio de Belém Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa.
Nenhum Sancho, nenhum Dinis. Nem Henrique, Filipe, Miguel ou Carlos. E sobretudo nem vestígio de Maria: até hoje não houve nenhuma mulher na chefia do Estado republicano.
Neste ponto a monarquia estava mais avançada.
 
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Imagens: D. Afonso Henriques (1); Manuel de Arriaga (2); D. Maria I (3); João Canto e Castro (4)

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Parece que tudo nasceu ontem

por Pedro Correia, em 04.10.16

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 Hitchcock Apresenta, Get Smart, Holocausto e Moonlighting: algumas séries que a Rolling Stone esqueceu

 

Os americanos adoram fazer listas. Sobretudo listas dos “melhores de sempre”. Reduzem no entanto os melhores ao espaço geográfico em que se inserem, como se o mundo se confinasse às fronteiras dos Estados Unidos. Há tempos vi uma lista dos melhores de sempre na música – lista americana, claro – omitindo Piaf, Gardel e Jobim. Brel estava ausente e João Gilberto não morava lá.

Agora volta a surgir outra lista, que os jornais cá do burgo reproduziram sem um assomo de crítica. A Rolling Stone acaba de difundir, em juízo definitivo, quais considera as melhores séries e programas televisivos de todos os tempos. Aqui já não estamos só perante uma absurda redução da produção televisiva ao mundo anglo-americano: há também uma chocante falta de memória, inaceitável numa publicação com tantos pergaminhos.

 

É verdade que encontramos alguns clássicos televisivos de várias décadas: O Fugitivo, Star Trek, Columbo, All in the Family, Os Marretas, Dallas, Hill Street Blues, Os Trintões, Os Simpson  e Twins Peaks. Sem esquecer o fabuloso Circo Voador dos Monty Phyton e o imprescindível Fawlty Towers.

Também é verdade que no topo da lista figuram séries recentes de indiscutível qualidade – a começar pelos irrepetíveis Sopranos, que a encabeçam.

Mas 36 são dos últimos 15 anos, numa evidente desproporção temporal. E há até uma já de 2016 (a banal American Crime Story), o que diz muito dos critérios utilizados nesta classificação. Quem se propõe enumerar o que de melhor a televisão nos mostrou desde sempre não pode omitir algumas séries que aqui ficaram esquecidas. Do mítico Bonanza ao inesquecível Sim, Senhor Ministro – uma das melhores produções de sempre da BBC. Passando por Viver no Campo, Kung Fu, Holocausto, Homem Rico Homem Pobre, Ventos de Guerra e Moonlighting - Modelo e Detective.

Séries norte-americanas de culto como Alfred Hitchcock Apresenta não constam, o que é de pasmar. Tal como a britânica A Jóia da Coroa. E como foi possível deixar de fora títulos imperdíveis, como Reviver o Passado em Brideshead ou Smiley's People, que proporcionaram incursões televisivas a grandes actores do cinema como Laurence Olivier e Alec Guinness?

Ignorar o delirante Olho Vivo - Get Smart, onde Mel Brooks dava largas ao seu imparável sentido de humor, acentua a irrelevância desta lista, anunciada e difundida com tanta pompa e circunstância.

 

É um sinal dos tempos: parece que tudo nasceu ontem, parece que tudo quanto vem de trás migrou para parte incerta. Quanto mais recente melhor.

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Imagine

por Alexandre Guerra, em 21.09.16

Quando o presidente americano Woodrow Wilson enunciou os seus famosos Catorze Pontos, em 1918, no final da Grande Guerra, tinha como ideal construir uma paz global para o mundo. Rapidamente se percebeu a ingenuidade da sua proposta e Wilson ficaria para a história como um idealista. Hoje é o Dia Internacional da Paz, uma daquelas datas que têm tanto de simbólico como de inócuo. Mas imaginemos que até seria possível...

 

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Os passarinhos também têm céu

por Pedro Correia, em 20.08.16

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O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!

Manuel Bandeira (1940)

 

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A ginasta e o ditador

por Alexandre Guerra, em 08.08.16

Excelente e oportuno documentário que ontem à noite passou na RTP2 sobre a ginasta romena Nadia Comaneci, que, com apenas 14 anos, ficou imortalizada pelo "perfect ten" obtido na qualificação da competição das paralelas assimétricas dos Jogos Olímpicos de Montreal em 1976. O documentário Nadia Comaneci: A Ginasta e o Ditador (2016) começa precisamente com essa prestação perfeita, aliando uma graciosidade divina nos movimentos a uma impressionante capacidade técnica, quase sobre-humana. O mundo rendeu-se perante algo que nunca tinha visto. Nessas Olimpíadas, Comaneci viria a repetir mais alguns "perfect ten", quer nas paralelas assimétricas, quer na prova da trave. Apesar de a Roménia ter ficado em segundo lugar atrás da União Soviética, era a primeira vez que um pequeno e pobre país para lá da Cortina de Ferro se intrometia no combate pela disputa do ranking das medalhas na modalidade da ginástica entre as duas super-potências da Guerra Fria. Nadia regressa a Bucareste já na condição de heroína romena, com a aura de mito e, sobretudo, como um símbolo daquilo que o regime de Nicolaeu Ceausescu poderia "produzir" ao nível da excelência física e estética. O ditador comunista condecorou-a com a mais alta distinção do Estado e a partir dessa altura Comaneci passou a ser o mais importante recurso político para a estratégia propagandística de Ceausescu.

 

E é precisamente essa relação entre Comaneci e o superior interesse do Estado romeno, personalizado no "camarada" Ceausescu, que faz do documentário de Pola Rapaport um registo tão cruel, mas ao mesmo tempo tão comovente. Nadia Comaneci era idolatrada no mundo, era a personificação da virtuosidade da máquina "comunista", mas, para lá da glória das medalhas, nada tinha, sobretudo não tinha a liberdade. Quando nos anos 80 a Roménia entrou uma espiral de crise que culminou mais tarde com as mortes brutais de Nicolae e da sua não menos sanguinária mulher, Elena Ceausecu, Comaneci chegou a depender de um amigo para ter pães para comer. Passou fome e era apenas mais uma entre um povo sofredor e faminto. Mas nem isso ela era, porque, como admite um agente reformado da antiga Securitate (serviços secretos romenos), Nadia Comaneci teve sempre os seus movimentos vigiados pelo Estado, tinha a sua liberdade completamente cerceada.

 

Nadia Comaneci nunca se ria, nem mesmo quando era mais nova. Houve jornalistas que lhe chegaram a perguntar por que é que nunca se ria e o seu treinador lá vinha prontamente responder que era porque ela estava concentrada nos exercícios. Talvez, até porque ela era uma perfeccionista, uma atleta obcecada com a técnica e com a busca constante do impossível. Mas, a verdade é que quando ela deserta para os Estados Unidos em 1989, e na primeira conferência de imprensa que dá, vimos uma Comaneci diferente, sorridente, alguém que parece ter renascido. Se calhar, Nadia nunca sorria porque não tinha liberdade. Não a liberdade de voar, porque isso ela sempre teve, mas a liberdade de viver. E foi essa liberdade que Comaneci terá encontrado quando deixou para trás a Cortina de Ferro.

 

 

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Memória

por Alexandre Guerra, em 02.08.16

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Um "lugar de horror", foi desta forma que o Papa Francisco qualificou os antigos campos de concentração Auschwitz I e Auschwitz II-Birkenau, que este fim-de-semana visitou no âmbito das Jornadas Mundiais da Juventudade que decorreram em Cracóvia. O Papa caminhou sozinho, rezou, reflectiu em recolhimento e nada disse durante a visita. Limitou-se a escrever no livro de honra do Museu de Auschwitz (um excelente museu, a propósito) o seguinte: “Senhor, tem piedade do teu povo. Senhor, perdoa tanta crueldade”. Antes, num gesto de enorme simbolismo, tinha colocado uma lamparina com uma chama junto ao Muro da Morte no Auschwitz I, local onde eram fuzilados os judeus condenados à morte. Visitou ainda a cela de Maximiliano Kolbe, um nome que pouco dirá aos portugueses, mas que na Polónia é venerado e adorado, sendo possível encontrar a sua fotografia em quase todas as igrejas daquele país. Kolbe foi um frade franciscano que se voluntariou junto dos guardas de Auschwitz para sacrificar a sua vida pela de um sargento do exército polaco, que também ali estava preso e que tinha sido condenado à morte. O frade franciscano tinha-se emocionado ao ouvir o choro do sargento, desesperado com o que iria acontecer à sua mulher e filhos. Kolbe falou com os guardas que aceitaram a sua oferta e acabaria por vir a morrer na sua cela à fome. A mesma cela em que o Papa Francisco rezou.

 

Auschwitz faz parte da memória histórica colectiva e é ainda para muitos uma horrorosa lembrança, que os afectou de forma directa, sejam antigos prisioneiros ou descendentes directos de quem lá esteve e não resistiu. Quando Steven Spielberg realizou o filme A Lista de Schindler, em 1993, estava a prestar uma homenagem emotiva aos seis milhões de judeus que perderam a vida no Holocausto (este número tem sido motivo de acesa discussão entre historiadores), mas também estava a despertar consciências (ou a relembrá-las) para uma realidade específica daquele genocídio, que se viveu nos campos de concentração de Auschwitz (eram três), no sul da Polónia. As célebres imagens recriadas por Spielberg, também ele judeu, em que se vêem comboios compostos por vagões apinhados de judeus a chegarem a Auschwitz II-Birkenau, veio relançar o interesse do público por aqueles acontecimentos dramáticos da História recente da Humanidade.

 

O campo de Auschwitz II-Birkenau, que ficou genericamente conhecido por Auschwitz, o campo de extermínio, era o maior e o único que tinha acesso ferroviário, no entanto, havia mais dois campos, o Auschwitz I e o Auschwitz III - Monowitz. Em Birkenau terão sido mortos cerca de um milhão de judeus e ciganos (também aqui não há consenso quanto ao número), embora, tenha sido no primeiro campo que começaram as experiências de extermínio numa câmara de gás construída propositadamente para o efeito, com o respectivo crematório anexado.

 

Sensivelmente três anos após a libertação dos campos de Auschwitz, a 27 de Janeiro de 1945, as autoridades polacas decidiram fazer um museu e um memorial de homenagem às vítimas, que engloba Auschwitz I e Birkenau e, por isso, é denominado de Auschwitz-Birkenau. Este complexo foi considerado Património Cultural da Humanidade pela UNESCO, sendo que em Birkenau houve maior dificuldade em restaurar os edifícios originais (devido aos materiais de que eram feitos) do que no complexo de Auschwitz I (ambos estão separados por apenas 3 km) que, para quem já teve o privilégio de visitar, apresenta um bom, mas arrepiante, estado de conservação. 

 

Ao cruzar-se o portão de entrada de Auschwitz I (onde a dimensão da tragédia não foi tão massiva, estimando-se que ali tenham sido exterminados 60 mil judeus) tem-se sobre a cabeça a célebre frase forjada a metal: "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta"). Lá dentro, o visitante é confrontado com uma realidade física impressionante, onde tudo parece estar como era dantes. Aliás, fazendo-se uma comparação do que se vê hoje em dia com os registos fotográficos da época, percebe-se como Auschwitz I mantém praticamente intacto o seu espaço. O Muro da Morte onde eram feitos os fuzilamentos, as celas do Bloco 11, o Bloco 10 onde se faziam as experiências médicas, tudo está lá, igual. Ainda mais impressionante é visitar a única câmara de gás existente naquele campo, que foi a primeira a ser construída a título experimental. Birkenau viria depois a acentuar o extermínio dos judeus com as outras câmaras (em Birkenau restam apenas algumas ruínas).

 

No que diz respeito à preservação da memória histórica das milhares de pessoas que ali pereceram nas mãos do regime nazi, nada é tão chocante como entrar numa sala de um dos blocos de Auschwtiz preparada para o efeito museológico e ver uma vitrine com cerca de 30 metros cheia até cima de cabelo humano, cortado aos prisioneiros antes de irem para a câmara de gás. Noutro espaço pode-se ver ainda pertences pessoais, como roupa, óculos e outro tipo de objectos e utensílios. Muito perturbador. 

 

Embora Auschwitz I não tenha tido a dimensão trágica de Auschwitz II-Birkenau, como objecto histórico é provável que ofereça uma perspectiva mais cruel e realista do que aconteceu, atendendo ao seu estado de conservação é à forma como está organizado em termos museológicos. Por outro lado, Birkenau oferece aquela vista aterradora que Spielberg projectou no cinema, do caminho de ferro a entrar directamente nas portas daquele campo, e imagina-se o que terá sido aqueles comboios a conduzir milhares de pessoas literalmente para a morte. Por isso mesmo, os responsáveis do Memorial e Museu Auschwitz-Birkenau aconselham que os visitantes conheçam os dois campos para melhor compreenderem a dimensão de toda a tragédia.

 

Faz por estes dias 21 anos que visitei Auschwitz I, num dia cinzento, que mais parecia de Outono. No entanto, estava nas minhas férias de Verão, ainda jovem, prestes a entrar no curso de Relações Internacionais, movido pela paixão que me suscitava (e suscita) essa disciplina. Apesar de chegar àquele local já com algum conhecimento sobre as atrocidades ali cometidas, percebi de imediato que nada é comparável ao exercício empírico na reconstrução dos factos in loco. Uma experiência enriquecedora e sobretudo inesquecível.

 

Texto adaptado à versão original publicada aqui a 21 de Agosto de 2015.

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Uma memória de Sá Carneiro

por Pedro Correia, em 19.07.16

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Francisco Sá Carneiro desempenhou um papel histórico no actual regime: reconciliou a direita portuguesa com a democracia. Esta foi uma missão para a qual estava vocacionado, por uma espécie de sentido messiânico, e em que viria a ser bem sucedido nos dois últimos anos da sua vida, desenrolados de forma vertiginosa, numa desesperada corrida contra o tempo. O facto de ter rompido com o regime anterior ao 25 de Abril após uma fracassada tentativa de levá-lo por rumos reformistas, como viria a suceder em Espanha, conferia-lhe uma legitimidade que poucos tinham na sua área política, dados os compromissos estabelecidos com a ditadura.

O combate decisivo para a implantação da democracia no alucinado Verão quente de 1975, contra a esquerda revolucionária, fora liderado por Mário Soares, com quem Sá Carneiro sempre estabeleceu uma rivalidade que nunca viria a ser superada, apesar da cordialidade pública que exibiam. Desafiado nesta espécie de confronto íntimo com Soares, o fundador do PPD/PSD sentiu ainda mais pressa em entrar na História, o que viria a suceder. Tinha qualidades para o efeito, bem reveladas na sua singular trajectória de uma década no palco da política: visão estratégica, uma inegável capacidade de comunicação e aquele atributo tão indispensável quanto indefinível que à falta de melhor certos politólogos costumam chamar carisma.

 

Venceu incontáveis batalhas internas até construir um partido influente, a partir de uma sólida base autárquica disputada quase câmara a câmara ao Partido Comunista. Teve razão desde o início ao defender a autonomia regional, o afastamento da tutela militar e o fim do virtual monopólio da economia pública no Portugal pós-25 de Abril. E superou o teste da governação, após duas maiorias conquistadas nas urnas, embora ninguém saiba até que ponto poderia vir a ser vítima dos próprios impulsos se o destino não o tivesse colocado na fatal rota de Camarate, tragédia que lhe amputou a história e engrandeceu o mito.

Não teve razão, com alguma frequência, quando deixava a emoção sobrepor-se à implacável lógica cartesiana. Foi, nomeadamente, o que sucedeu no seu desenfreado combate contra o Presidente Ramalho Eanes que lhe consumiu as energias nos últimos meses de vida. A derrota nas presidenciais de 1980, a que já não assistiu, confirmava que tinham razão aqueles que em vão procuraram dissuadi-lo de transformar o popular Chefe do Estado em adversário principal.

 

Foi admirado e odiado em partes iguais, o que é sina de quem nasceu para líder.

Graças a ele, a democracia portuguesa tornou-se mais sólida.  

Ficámos todos a dever-lhe isso.

 

Francisco Sá Carneiro (1934-1980) faria hoje 82 anos.

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Missão cumprida, general

por Pedro Correia, em 27.06.16

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Faz hoje 40 anos, um oficial de face esguia e de poucas falas, com marcado sotaque beirão, era eleito Presidente da República após uma campanha atribulada que envolveu ameaças, insultos, pancadaria e tiros. A dado momento o candidato subiu com agilidade para o tejadilho de um carro e desafiou os agressores armados, deixando claro que era um homem sem medo. Estavam ainda frescos os ecos da revolução e muitos não se conformavam com a “normalidade democrática”: exigir o impossível ao virar da esquina era palavra de ordem que continuava a ser bradada a todo o instante.

Este oficial de semblante espartano tinha irrompido do anonimato numa noite tensa, ao surgir de camuflado como comandante operacional da contra-insurreição de 25 de Novembro de 1975 que pôs fim ao aventureirismo de uma certa esquerda festiva, armada até aos dentes. Com a região militar de Lisboa em estado de sítio, a circulação de jornais suspensa e os blindados do Regimento de Comandos da Amadora defrontando a Polícia Militar no quartel da Ajuda numa ríspida troca de tiros que provocou três mortos. O PREC chegava ao fim, a disciplina regressava aos quartéis, Portugal não seria a Albânia da Europa Ocidental – o destino que alguns tontos sonhavam para nós.

“Missão cumprida, meu general”, disse o tal militar de poucas falas, dirigindo-se ao Presidente da República, Francisco Costa Gomes. Sete meses depois, já também oficial-general, ascendia ele próprio à chefia do Estado. Mas, ao contrário do antecessor, António Ramalho Eanes iniciava o seu mandato validado nas urnas. Pela primeira vez Portugal tinha um Presidente da República eleito por sufrágio livre, directo e universal.

Os portugueses gostaram dele: naquele dia 27 de Junho de 1976 recebeu quase três milhões de votos, correspondentes a 61,5% dos boletins, e logo se proclamou “Presidente de todos os portugueses”. Este nativo do signo Aquário era o mais jovem inquilino de sempre do Palácio de Belém: tinha apenas 41 anos quando ali entrou com a esposa, Manuela, e um filho ainda pequenino, Manuel. Outro viria a nascer já com o Pai a conduzir o Estado naqueles anos em que a nossa democracia ainda mal gatinhava.

Alguns dos que mais o combateram acabariam por render-se à competência e à seriedade de Ramalho Eanes, um dos pioneiros da nossa democracia – figura de referência pela rectidão de carácter e pelo patriotismo que sempre evidenciou. Foi um dos raros políticos nacionais que sempre mereceram o meu respeito. Até porque dele se pode dizer, sem favor, que ao cessar funções deixou o País melhor do que estava ao iniciá-las.

Oxalá de todos se pudesse dizer o mesmo.

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Regressos

por Ana Vidal, em 26.05.16

Há dias em que tudo nos nos puxa inexoravelmente para o passado. Dias que nos obrigam a olhar para trás e a reviver momentos longínquos, antes que a voragem do tempo os leve para sempre da nossa memória. Que nos devolvem imagens de muros caiados, cheiros e sabores há muito perdidos, sons de passos em soalhos encerados ou lajes de pedra, alamedas de cedros e palmeiras onde o sol se entretém a desenhar sombras chinesas, povoando de fantasia os misteriosos caminhos da infância.

Ontem foi um desses dias. Sem saber como nem porquê, no regresso de Lisboa para Sintra fiz um desvio e fui procurar uma velha quinta, vendida há anos, onde passei os mais saudosos Setembros da minha vida. Foi um erro. Para começar, custou-me encontrar o lugar, porque já nada existe que seja reconhecível: os arredores passaram de muros de pedra cheios de musgo e estradas de terra batida a um emaranhado de ruas asfaltadas entre prédios altos, todos iguais; a antiga casa da quinta, desenhada por Raul Lino, foi substituída por inúmeras moradias geminadas pintadas de um amarelo pífio; todas as árvores e plantas morreram ou foram arrancadas; o portão verde de ferro rendilhado deu lugar a uma enorme placa metálica que obedece ao abre-te sésamo de um qualquer comando electrónico; o velho tanque, a que gostávamos de chamar piscina e fazia as nossa delícias, desapareceu sem deixar rasto. Há uma grade alta que rodeia tudo, sem ter sequer uma sebe a suavizar-lhe a rigidez ameaçadora.

É um condomínio de luxo, minha senhora, disse-me uma mulher a quem fiz perguntas cujas respostas não queria ouvir. Luxo? A mim pareceu-me uma triste gaiola partilhada.

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Como se o tempo ficasse suspenso

por Pedro Correia, em 30.04.16

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Um pisa-papéis, um mata-borrão, um selo de correio: três inesperados objectos defronte de mim. Todos, na minha infância, tinham uso quotidiano. Tal como o tinteiro para caneta de aparo ou a lousa onde se escrevia a giz.

Passaram uns anos - mas parece ter decorrido uma eternidade. Estes objectos tornaram-se peças de museu e vários deles são hoje quase incompreensíveis para uma geração viciada em gadgets electrónicos, que nunca brincou ao pião ou não faz a menor ideia para que serve um dedal.

Tempos agitados, vertiginosos, de uma volatilidade estonteante. Os objectos mais familiares no quotidiano dos nossos avós pareciam vir desde os alvores da Humanidade, davam um toque de permanência num mundo que só era verdadeiramente sobressaltado por factores exógenos - uma guerra, um ano de más colheitas no campo, uma epidemia. Nada a ver com o frenesim actual, em que tudo é novidade - e em que o próprio conceito de novidade se vai alterando e adulterando em função da espuma dos dias. Os objectos que nos preenchem o quotidiano - como muitas palavras que usamos, como os nossos próprios laços afectivos - têm uma vida cada vez mais breve, um fôlego cada vez mais curto, um prazo de validade cada vez mais exíguo.

Pegue-se num livro de Camilo Castelo Branco: como decifrar o significado de uma grande parte daquele português castiço na era da incessante troca de mensagens telefónicas, onde o domínio vocabular é cada vez mais escasso e a abreviatura predomina? Consequência disso, o pensamento comprime-se, torna-se esquemático e utilitário, perde elasticidade e subtileza, passa a satisfazer apenas impulsos imediatos. Toda a elaboração teórica sedimentada por séculos de cultura no mundo ocidental se torna virtualmente incompreensível nestes dias em que o significado se subordina ao mais elementar significante.

                            

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Felizmente o sol ainda não é sintético e high tech. Este sol que entra no escritório pela frincha da janela é o mesmo que os nossos mais remotos antepassados contemplaram com espanto virginal à medida que se sucediam as estações e em relação ao qual vários povos acenderam altares votivos.

Com este sol oblíquo que me ilumina pego num corta-papéis - outro objecto que ficou sem uso - e vou abrindo lentamente dois livros que há muito tinha adormecidos na biblioteca: Sobre as Falésias de Mármore, de Ernst Jünger, e O Escravo, de Isaac Bashevis Singer.

As páginas desfolham-se com um vagar antigo enquanto regresso às tardes da minha infância noutro escritório, o do meu pai, enquanto executava exactamente a mesma operação a vários livros por inaugurar que ia encontrando nas estantes. Foi uma das primeiras tarefas graves e sérias, dignas de um adulto, que me lembro de executar no meu universo infantil. Uma tarefa que me ajudou a mergulhar, quase por acaso, no mundo dos livros.

Regresso a ela com o vagar de então, ocasionalmente revivido. Como se o tempo ficasse suspenso e os rumores do mundo mais não fossem do que um eco distante, dissolvido no ar do outro lado da porta.

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Quarenta anos depois

por Pedro Correia, em 25.04.16

Faz hoje 40 anos, também num 25 de Abril, os portugueses - exercendo enfim o direito ao sufrágio universal, irrestrito, secreto e livre - acorreram às assembleias de voto, num marco inapagável da nossa democracia participativa e representativa. Elegendo os deputados da primeira legislatura.

Assim se cumpriu na íntegra aquele "dia inicial, inteiro e limpo" a que aludiu Sophia de Mello Breyner Andresen num dos mais belos versos da língua portuguesa.

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Eu teria uns dezanove ou vinte anos e queria muito escrever em jornais, mais até do que desenhar, talvez porque desenhar sempre soube e desenho melhor do que parece (perdoe este momento de soberba que pagarei em rigorosos planos prestacionais aos balcões da Eternidade); sucede que devemos reservar o melhor do que sabemos para mostrar às mães nas horas difíceis.

Já a escrever eu não nasci ensinado; foi o professor Branco, digníssimo avô de branquíssimas cãs e alvíssima bata (como um anjo de alguma idade) do actual reitor da Universidade do Algarve, quem me deu o privilégio — jamais esqueça que saber escrever é um privilégio — das primeiras letras, na escola número 33 do bairro lisboeta de Alvalade.

Mas tergiverso, perdoe, perdoe. Dizia eu que teria uns dezanove ou vinte anos e um dia chegou o convite do homem magro de brasão ao peito e cabelo empastado. Não desdenhe, na altura usava-se muito e agora talvez se volte a usar se o Vitória ganhar o campeonato. O convite era para um encontro e o encontro foi num dos bares do casino do Estoril; eu faltei à faculdade porque oportunidades assim não as havia todos os dias. Eu não tinha fato mas levei camisa, o que decerto deixou o empresário impressionado; tive também o cuidado de estacionar o velho Austin bem longe para que não se percebesse o quanto estava enferrujado, tanto que do lado do morto já não havia onde poisar os pés — alguns amigos mais sensíveis ainda se lembram disso, o asfalto correndo sob os pés deles e os calafrios bons que isso lhes causava.

O empresário pediu, digo, exigiu o seu uísque “em balão aquecido” e eu, ignorante que era das coisas do mundo, uma simples cerveja: sabia lá quanto custava um uísque. Eu fazia parte da categoria social a que então se dava o nome de “remediada”. Tinha uma única nota no bolso, acho que de 500 escudos, para gasolina e uma ou outra necessidade.

O cavalheiro, quero dizer, ele e “uns investidores ali do Estoril”, queriam lançar um semanário e contavam com o meu talento (como era ralo, o meu talento!) para escrever e ilustrar duas páginas “para a juventude”. Em poucos meses, “máximo um ano”, o mercado — ao tempo não se dizia “mercado”, seria a mesma coisa com outro nome qualquer — era nosso. Eu estava comprado e vi os tons azuis e a gravata riscada de vermelho do homem magro erguer-se para dar por terminada a conferência. Então ele levou as mãos aos bolsos, pôs uma expressão contrafeita e disse, com ar de importância nenhuma, “Zé, não sei onde deixei a carteira, pague aí o meu uísque, sim?”

Paguei, lívido mas paguei; e voltei para Lisboa pela marginal — ainda não havia a A5 — rezando a santinhos em que não acreditava para que se não me acabasse a gasolina.

O jornal saiu quê, dois ou três números, depois fechou, foi como se nunca houvera existido, nem do título me lembro, nunca percebi o que sucedeu e eu se recebi alguma coisa foi uns tostões, que aliás não mereceria pelos meus méritos literários ou artísticos.

Mas até hoje, sabe, venho pagando esse uísque.

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É preciso ter memória quando se fala do OE 2016 (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.02.16

"É tudo navegação à vista." - Belmiro de Azevedo, 11/09/2012

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O profe de português do 1ºCC, turma G

por José Navarro de Andrade, em 28.01.16

À beira da reforma, o professor de português passava as aulas a olhar pela janela com supino enfado, enquanto tentávamos desbravar o texto que nos dera a ler – em silêncio! - durante a aula. Dúvidas? No fim. E no fim a campaínha apanhava-o já à porta da sala, prestes a desaparecer por entre os plátanos do pátio sul do Camões. Nesse ano de 75 as classes passaram a ser mistas e, entre outras novidades igualmente truculentas, o ar andava denso de hormonas. De tal modo a paciência de Vergílio Ferreira se havia esgotado que nem para se mostrar descontente tinha disposição. Era uma sombra de meio-dia que só desejava não ser importunada pelos estados de alma da época. Valia-nos que não se armava em pedagogo, nem concedia que o admirassem, pelo que também lhe fazíamos o favor de não lhe ligar. Anos depois, ao ler a “Conta Corrente” pareceu-me detectar uma referência à nossa azougada turma, numa frase suspirada como um encolher de ombros, mas sem pez pejorativo. Na verdade, a distância que Vergílio Ferreira nos impunha seria igual àquela que manteríamos em face de uma figura que sentíamos como imponente. Alguns de nós até havíamos lido os seus romances.

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Vergílio: a luz da escrita

por Pedro Correia, em 28.01.16

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«Não deixes que te abandone o milagre de escrever. Não deixes que a miséria do teu corpo escureça com a sua sombra a pequena luz da tua escrita.»

Vergílio Ferreira, Escrever

 

É confrangedor verificar a facilidade com que hoje se desfazem as bibliotecas familiares. Encontro vestígios dispersos destas colecções organizadas nos alfarrabistas que frequento e procuro recolher tudo quanto posso: não é raro encontrar pequenas pérolas desbaratadas por gente que não fazia a menor ideia do que deitava fora.

Anoto isto para realçar a importância das bibliotecas familiares na formação de quem teve o privilégio de beneficiar com elas. Recordo o respeito quase solene com que pela primeira vez entrei na biblioteca do meu avô, já era criança crescida, e como demorei os olhos a decifrar as letras das lombadas. Recordo o convívio familiar com os volumes acumulados na biblioteca do meu pai ("o escritório", assim chamávamos àquela divisão) e as longas horas que lá passei. Cada um daqueles livros era uma janela aberta sobre o mundo.

De início, era eu miúdo, o Pai incentivava-me a permanecer ali encarregando-me de uma tarefa que desempenhei com zelo: abrir as páginas dos livros que vinham por guilhotinar da tipografia, como naquele tempo tantas vezes sucedia. Exerci com gosto essa função durante alguns anos, sempre que um novo título ali entrava - e eram muitos, de vários géneros.

 

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Foi assim, munido de um corta-papéis com cabo de ébano, que tive pela primeira vez nas mãos uma obra de Vergílio Ferreira. O nome, Cântico Final, nada me dizia.

Mas senti uma curiosidade adolescente de espreitar as linhas iniciais. E logo essa prosa me arrebatou como se nenhuma outra eu tivesse lido até então.

«Por uma manhã breve de Dezembro, um homem subia de automóvel uma estrada de montanha. Ma­nhã fina, linear. O homem parou um pouco, enquanto o motor arrefecia, e olhou em volta, fatigado. Aqui estou. Regressado de tudo. Pelo vale extenso até a um limite de neblina, viam-se aqui e além indícios brancos de aldeias, brilhando ao sol. Que dia é hoje?

Pelos campos perpassava uma alegria estranha, tal­vez do sol e daquele fundo silêncio a toda a volta, sem uma voz repentina das que sobem e vibram nas manhãs de trabalho. E de súbito lembrou-se: para o fundo do vale, ouviu o dobre dos sinos do Freixo. Manhã de domingo, manhã de infância, sinos de ou­trora.»

 

Nunca me tinha acontecido com nenhum escritor, raras vezes voltou a acontecer: Vergílio Ferreira conquistou-me com aquelas primeiras linhas. Peguei no livro editado pela Portugália e percorri-o com a mesma sensação de enamoramento pelo nosso idioma que voltaria a sentir com todos os outros que dele fui lendo ao longo dos anos: Aparição, Manhã Submersa, Vagão J, Alegria Breve, Mudança, Estrela Polar, Nítido Nulo, Rápida, a Sombra, Para Sempre, Até ao Fim, Na Tua Face, Em Nome da Terra.

 

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Nem todos me conquistaram: Rápida, a Sombra e Nítido Nulo, por exemplo, sempre me pareceram romances falhados. Mas a sedução da prosa do autor de Escrever - que viria a prolongar-se na sua escrita ensaística e diarística, sem esquecer os contos - jamais deixou de me tocar.

Prosa poética, no mais profundo e visceral sentido da expressão, tantas vezes abastardada. Prosa limpa, límpida, luminosa. Prosa de um escritor maior, que nunca solucionou um conflito íntimo entre a razão e a emoção capaz de o sobressaltar a cada passo e que transparecia da sua escrita.

Prosa que não deixei de ler como um rito iniciático a esta língua que nos serve de traço identitário e nos elevou através dos séculos desde os humildes confins da tribo à nobre condição de povo.

Prosa incapaz de nos deixar indiferentes. E à qual sempre regresso em eventuais crises de inspiração. Vergílio Ferreira - cujo centenário hoje evocamos, como a Isabel Mouzinho já assinalou aqui - merece ser lido e relido. Felizmente tem uma editora apostada em tratar o seu espólio literário com o carinho e o respeito que merece: a Quetzal acaba de lançar as 1000 Frases de Vergílio Ferreira (obra organizada pelo nosso Luís Naves) e lançará em 2016 novos títulos da sua obra completa. Incluindo o segundo romance, Onde Tudo Foi Morrendo, com as alterações introduzidas pelo autor à versão inicial, da década de 40, e o "meu" Cântico Final, também há longos anos ausente dos escaparates.

 

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Falta fazer regressar Vergílio Ferreira aos programas escolares, como a Isabel justamente também reclama. Essa seria a melhor homenagem que o País oficial poderia prestar-lhe em ano de centenário (e do 20º aniversário da sua morte, ocorrida a 1 de Março de 1996).

Para que adolescentes sem acesso a uma biblioteca familiar, neste tempo em que a memória é encarada como um estorvo e nos iludimos a todo o instante com a fugaz eternidade do "presente", se deixem também hoje seduzir por esta prosa ímpar. Tal como aconteceu comigo quando tinha essa idade propícia a todos os encantamentos.

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Miguel Torga morreu há 21 anos (17-1-1995)

por Patrícia Reis, em 17.01.16
Aos Poetas
 
Somos nós 
As humanas cigarras. 
Nós, 
Desde o tempo de Esopo conhecidos... 
Nós, 
Preguiçosos insectos perseguidos. 

Somos nós os ridículos comparsas 
Da fábula burguesa da formiga. 
Nós, a tribo faminta de ciganos 
Que se abriga 
Ao luar. 
Nós, que nunca passamos, 
A passar... 

Somos nós, e só nós podemos ter 
Asas sonoras. 
Asas que em certas horas 
Palpitam. 
Asas que morrem, mas que ressuscitam 
Da sepultura. 
E que da planura 
Da seara 
Erguem a um campo de maior altura 
A mão que só altura semeara. 

Por isso a vós, Poetas, eu levanto 
A taça fraternal deste meu canto, 
E bebo em vossa honra o doce vinho 
Da amizade e da paz. 
Vinho que não é meu, 
Mas sim do mosto que a beleza traz. 

E vos digo e conjuro que canteis. 
Que sejais menestréis 
Duma gesta de amor universal. 
 
Duma epopeia que não tenha reis, 
Mas homens de tamanho natural. 
 
 
 
Homens de toda a terra sem fronteiras. 
De todos os feitios e maneiras, 
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele. 
Crias de Adão e Eva verdadeiras. 
Homens da torre de Babel. 
 
 
 
Homens do dia-a-dia 
Que levantem paredes de ilusão. 
Homens de pés no chão, 
Que se calcem de sonho e de poesia 
Pela graça infantil da vossa mão. 
 
 
 
Miguel Torga, in 'Odes'

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Presidenciais (1)

por Pedro Correia, em 09.12.15

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Longe da fama e das espadas,

Alheio às turbas ele dorme.

Em torno há claustros ou arcadas?

Só a noite enorme.

Fernando Pessoa, À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais

 

Numa entrevista hoje concedida à SIC, António Sampaio da Nóvoa - pessoa cuja cultura, naturalmente, está acima de toda a suspeita - invocou, entre os motivos que o levam a candidatar-se à Presidência da República, o desejo de ver o Norte finalmente representado no Palácio de Belém.

"Gostaria que os portugueses, pela primeira vez na história, elegessem um presidente acima do Douro. Ou mesmo acima do Mondego. Acho que nunca houve nenhum presidente eleito acima do Mondego. Gostaria muito que isso acontecesse", declarou Nóvoa, nascido há quase 61 anos em Valença do Minho.

O antigo reitor da Universidade de Lisboa anda mal informado. Certamente por falta de tempo, ainda não consultou as biografias sucintas dos Presidentes da República Portuguesa. Se o tivesse feito saberia que Sidónio Bernardino da Silva Pais (chefe do Estado entre 27 de Dezembro de 1917 e 14 de Dezembro de 1918) era natural de Caminha - oriundo, portanto, do mesmo distrito que Nóvoa.

Além de ser tão minhoto como o candidato presidencial nascido em Valença, Sidónio Pais foi também o primeiro Presidente português eleito "por sufrágio directo dos cidadãos eleitores", a 28 de Abril de 1918, como esclarece a página oficial da Presidência da República.

António Sampaio da Nóvoa terá, portanto, de encontrar outro motivo para pedir o voto aos cidadãos. Compreendo que gostasse de ser o primeiro Presidente nascido "acima do Douro ou mesmo do Mondego", mas já chega tarde. Chega com quase 98 anos de atraso, concretamente.

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Felizmente há luar.

por Luís Menezes Leitão, em 10.11.15

Nesta crónica, Mariana Mortágua utiliza a expressão "Felizmente há luar", para se referir ao derrube pelos partidos da esquerda do governo PSD/CDS. E diz: "É a esperança que renasce. Respeitá-la, fazê-la crescer e alimentar uma sociedade capaz de se mobilizar, de exigir e confrontar, é o maior dos desafios".

 

Era difícil ter usado uma analogia mais apropriada. A expressão "Felizmente há luar", que depois deu título a uma peça de Luís de Sttau Monteiro, remete-nos para um período negro da História de Portugal, mais precisamente o 18 de Outubro de 1817, em que, no lugar que é hoje o Campo dos Mártires da Pátria, foram enforcados onze companheiros de Gomes Freire de Andrade por se terem revoltado contra o General Beresford, que então governava Portugal. Essa expressão foi na altura utilizada porque D. Miguel Pereira Forjaz, quando deu a ordem de enforcamento ao intendente geral da polícia, referiu: "é verdade que a execução se prolongará durante a noite, mas felizmente há luar e parece-me tudo tão sossegado que espero não causar prejuízo algum".

 

Hoje vai igualmente escrever-se uma página negra, desta vez na história da democracia portuguesa, com todos os sacrifícios que foram realizados nos últimos anos a serem deitados fora, indo o país pagar a factura dessa irresponsabilidade. Espero, no entanto, que esse novo governo não nos chegue a atirar para uma situação semelhante à da frase que Mariana Mortágua cita.

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Um gigantesco passo à retaguarda

por Pedro Correia, em 07.11.15

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A insurreição marxista-leninista de 7 de Novembro de 1917 - faz hoje 98 anos - deu início à União Soviética, o Estado totalitário de mais longa duração do século XX, que só implodiu a 31 de Dezembro de 1991, e a um regime político que viria a ser exportado para toda a Europa Oriental, responsável pela tortura e morte de largos milhões de seres humanos.

Foi um regime sanguinário, como ninguém com um mínimo de seriedade intelectual ignora. Mesmo assim ainda surgem defensores ocasionais do totalitarismo soviético, como ficou evidente na última edição do Avante!

Decorridas estas décadas, o jornal oficial do PCP persiste em omitir todo o rasto criminoso da URSS, celebrando o "exaltante exemplo" da tirania comunista e as "conquistas alcançadas" pelos czares vermelhos que esmagaram durante décadas os direitos mais elementares, não só no interior das fronteiras soviéticas como nos países vizinhos que tutelavam com blindados e baionetas, ao abrigo da doutrina da "soberania limitada". 

 

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Para assinalar a efeméride, deixo aqui o registo de algumas "conquistas alcançadas" pela chamada Revolução de Outubro:

- Terror Vermelho (1918-1922), promovido pela Tcheca, a brutal polícia política criada pela "ditadura do proletariado" leninista. Entre 50 mil e 140 mil vítimas mortais comprovadas (havendo historiadores que admitem a existência de meio milhão de mortos) neste período.
- Colectivização forçada de propriedades (1928-1940), que incluiu deportações gigantescas de populações rurais e fez a produção agrícola e pecuária regredir três décadas. Cerca de 25 milhões de pessoas foram desalojadas, metade das quais morreram.
- Genocídio ucraniano (1932-1933). Campanha desencadeada por Estaline para esmagar a resistência nacionalista na Ucrânia. Mais de cinco mil intelectuais foram assassinados ou deportados para a Sibéria. A esmagadora maioria da população rural, que viu terrenos e animais confiscados, foi condenada à fome. Objectivo: "eliminar inimigos de classe" através da colectivização forçada. Estimativa do número de mortos: 14 milhões.
- Grande Purga (1936-38). Durante este período, a polícia política deteve 1,548.366 pessoas - das quais 681.692 foram executadas. Média de mil execuções por dia (dados oficiais soviéticos), a partir de confissões obtidas através de tortura. Grande parte da elite dirigente, tanto ao nível do partido único como das forças armadas, foi dizimada neste período, ao abrigo do artigo 58º do Código Penal soviético, sobre "crimes contra-revolucionários".
- Gulag, os campos de concentração criados pelo estalinismo (1928-1953). Pelo menos 14 milhões de pessoas estiveram internadas neste vasto arquipélago prisional durante o quarto de século que assinalou o apogeu do terror estalinista. Pelo menos 1,6 milhões - vítimas de fome, doença e tortura - morreram nestes campos.
- Massacre de Katyn (Maio de 1940). Quase cinco mil oficiais polacos foram assassinados pelos soviéticos no período em que Moscovo se aliara à Alemanha de Hitler para a partilha da Polónia. Os oficiais, que eram prisioneiros de guerra, foram assassinados com tiros na nuca e enterrados na floresta de Katyn. Só após a queda do comunismo Moscovo admitiu a existência deste massacre.

 

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De resto, os próprios comunistas foram os primeiros a experimentar as delícias do "socialismo real" - começando por Trotsky, herói da revolução de 1917, assassinado em Agosto de 1940 por um agente estalinista no México.
Dos 1966 delegados ao Congresso do PCUS de 1934, 1108 foram presos e em larga parte executados nas vastas purgas que culminaram nos Processos de Moscovo (1936-38). O mesmo sucedeu a 98 dos 139 membros do Comité Central.
Estaline mandou executar, nesses anos negros, 5 mil oficiais com patente acima de major, 13 dos 15 generais de cinco estrelas e três dos cinco marechais do Exército Vermelho.
No total, cerca de dois terços dos quadros do PCUS foram liquidados pelo terror estalinista. Incluindo algumas das maiores figuras de referência do regime comunista.
Menciono apenas algumas:
- Lev Kamenev. Figura cimeira da revolução de 1917, presidente do Comité de Moscovo e vice-presidente soviético (segunda figura do regime, após Lenine). Executado em Agosto de 1936.
- Grígori Zinoviev. Um dos sete membros originais da Comissão Política do PCUS em 1917. Responsável pela defesa de Petrogrado na guerra civil, presidente da Internacional Comunista (1919-1926). Executado em Agosto de 1936.
- Nikolai Muralov. Um dos mais destacados combatentes da revolução, herói da guerra civil, comandante militar de Moscovo, inspector-geral do Exército Vermelho. Executado em 1937.
- Nikolai Bukarine. Jornalista, um dos colaboradores mais próximos de Lenine, organizador do levantamento bolchevista em Moscovo, criador da Nova Política Económica leninista, redactor-chefe do Pravda. Executado em Março de 1938.
- Alexei Rikov. Ministro do Interior após a revolução. Na sequência da morte de Lenine ascendeu a presidente do Conselho de Comissários do Povo (equivalente a PM). Executado em Março de 1938.
- Vladimir Antonov-Ovsinko. Jornalista e militar, liderou o assalto ao Palácio de Inverno - um dos marcos da revolução. Chefe do Departamento Político do Conselho Militar Revolucionário. Cônsul-geral soviético em Barcelona durante a guerra civil de Espanha. Executado em Fevereiro de 1939.
- Cristian Rakovski. Presidente do Soviete da Ucrânia e Presidente desta república soviética (1918-1923). Embaixador soviético em Londres e Paris. Executado em Setembro de 1941.
- Olga Kameneva. Irmã de Trotsky e esposa de Kamenev. Foi uma das mulheres que mais se distinguiram na revolução. Responsável pela nacionalização do teatro soviético, que ficou sob a tutela ideológica do partido. Executada em Setembro de 1941.

 

Conclusão: com tanta idolatria póstuma a um dos mais tenebrosos sistemas políticos que o mundo já conheceu, o jornal oficial do PCP, desmentindo o nome que ostenta em título, acaba de dar mais um gigantesco passo à retaguarda.

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[06/11/1919 – 02/07/2004]

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Há quarenta anos.

por Luís Menezes Leitão, em 06.11.15

 

Faz hoje quarenta anos que ocorreu o célebre debate Soares-Cunhal. O tema na altura, segundo os comunistas, também era saber se o PS se aliava às forças da esquerda revolucionária ou antes à direita reaccionária. Cunhal, durante o debate, bem apelou a Soares para formar governo com o PCP. Este respondeu que, se o fizesse, ganharia seguramente a medalha Lenine, mas o país entraria numa ditadura e de ditaduras já lhe chegava a de Salazar e Caetano. Haverá melhor dia para António Costa anunciar que obteve o acordo com o PCP? Medalha Lenine para António Costa e já.

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Sophia de Mello Breyner Andresen faria hoje anos.

por Patrícia Reis, em 06.11.15


Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
*
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.
*
Há muitas coisas que eu quero ver.
*
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz precipitado.

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Um pouco mais de memória, sff

por Pedro Correia, em 23.10.15

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Defensor que sou do semipresidencialismo mitigado que sobrou do texto original da Constituição de 1976, tenho a maior dificuldade em emitir juízos severos sobre eventuais excessos dos chefes do Estado na interpretação dos poderes que a lei fundamental lhes confere. Até porque, na conduta quotidiana, os presidentes tendem a pecar no sentido oposto, por inacção ou omissão.

Levantam-se agora algumas vozes clamando contra supostas tentações bonapartistas de Cavaco Silva, que estaria a exorbitar da sua função institucional. Alguns destes críticos têm memória curta. Esquecem que já tivemos um Presidente que fundou um partido político enquanto exercia a chefia do Estado. Já tivemos um Presidente que orquestrou a oposição ao Governo a partir de Belém por achar "demasiado mole" a oposição formal, no plano partidário. E já tivemos um Presidente que pôs fim a uma legislatura com maioria absoluta, por acaso contrária à sua cor política.

 

Um dos mais esquecidos parece ser o professor Vital Moreira. Ei-lo hoje, fremente de indignação, escrevendo no seu blogue contra a  "quebra de lealdade institucional" de Cavaco face ao Parlamento e contra o atentado à "convivência institucional" cometido pelo inquilino de Belém. Chegando ao ponto de sublinhar isto: "Ou me engano muito ou a comunicação de Cavaco Silva desta noite pode ter inaugurado o mais profundo conflito político-institucional jamais ocorrido desde o início da era constitucional".

Um pouco mais de memória, sff. Em Novembro e Dezembro de 2004, o reputado constitucionalista figurou entre aqueles que saudaram a decisão do Presidente Jorge Sampaio de dissolver a Assembleia da República quando o Governo de coligação PSD/CDS ali dispunha de uma confortável maioria absoluta. Um acto discricionário do Chefe do Estado que Vital Moreira na altura enalteceu, considerando que Jorge Sampaio, "lesto e decidido", agiu de modo  "inatacável" do ponto de vista político e constitucional.

Nessa altura não vislumbrou quebras de lealdade nem atentados à convivência institucional, talvez por usar óculos diferentes dos que agora usa. Mudam-se os tempos, mudam-se os critérios de avaliação.

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Poucochinho

por Pedro Correia, em 01.10.15

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«Eu sei que muitas vezes se diz que por um se ganha e por um se perde. É verdade, no futebol é assim. Na política não é assim. É que a diferença faz muita diferença, na política. É que quem ganha por poucochinho é capaz de poucochinho. E o que nós temos de fazer não é poucochinho. O que nós temos de fazer é uma grande mudança.»

António Costa, 12 de Julho de 2014

 

«É necessário que não ganhemos por poucochinho. Como já disse uma vez, quem ganha por poucochinho só pode fazer poucochinho.»

António Costa, 19 de Setembro de 2015

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Where have you gone, Seguro?

por Pedro Correia, em 25.09.15

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Maio de 2014: As eleições para o Parlamento Europeu deram uma vitória indiscutível ao PS, a segunda depois de ter conquistado, nas últimas autárquicas, a liderança em 150 municípios.

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2011: breve cronologia da crise

por Pedro Correia, em 16.09.15

1. «O cenário de ajuda externa é um cenário de último recurso. Farei tudo para evitar que isso aconteça.»

José Sócrates em entrevista à RTP (segunda-feira, 4 de Abril de 2011)

 

2. «É urgente pedir um empréstimo intercalar já.»

Ricardo Salgado, presidente do Banco Espírito Santo, em entrevista à TVI (terça-feira, 5 de Abril)

 

3. «A notícia é falsa. Não passam de rumores sem fundamento.»

Gabinete do primeiro-ministro, reagindo à notícia do Financial Times sobre um pedido de ajuda de Portugal à União Europeia (manhã de quarta-feira, 6 de Abril)

 

4. «É necessário recorrer aos mecanismos de financiamento disponíveis no quadro europeu.»

Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos (quarta-feira, 7 de Abril, 18 horas)

 

5. «O Governo decidiu hoje dirigir à Comissão Europeia um pedido de assistência financeira, por forma a garantir condições de financiamento a Portugal.»

José Sócrates em comunicação ao País (quarta-feira, 7 de Abril, 20.30)

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11 de setembro, 11 curtas-metragens

por Patrícia Reis, em 11.09.15

Onze curta-metragens sobre o 11 de setembro de 2001. Danis Tanovic e Ken Loach relacionam a data do atentado a outros acontecimentos. Tanovic lembra-se do dia 11 de julho de 1995, quando ocorreu o massacre em Srebrnica e Loach rememora que Salvador Allende foi deposto do governo chileno em 11 de setembro de 1973. Idrissa Ouedraogo opta por uma comédia reflexiva sobre Burkina Faso. Samira Makhmalbaf mostra uma professora que tenta explicar o ataque a um grupo de crianças. Sean Penn evoca a vida de uma viúva que morava à sombra das duas torres desabadas. Claude Lelouch descreve as reações de vários surdos ao evento ou que testemunharam o evento. Shonei Imamura recorre às memórias japonesas da Segunda Guerra Mundial e Mira Nair mostra os problemas das minorias étnicas. Amos Gitai dá a sua interpretação sobre o papel da mídia em uma informação de significado internacional. Alejandro González Iñárritu apresenta 11 minutos de preces na escuridão, enquanto Youssef Chahine reflete a perspectiva do Oriente Médio.

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Para Eduardo Prado Coelho

por Patrícia Reis, em 25.08.15

 

Querido Eduardo

O verão tem sido estranho. Calor ou frio, dá para tudo, a dona Idalina, na aldeia, diz-me que estamos protegidos pela Nossa Senhora do Cabo Espichel. Talvez seja. MM assegura que Lisboa se torna afável em Agosto, embora a vida se faça em torno deste dia. Sempre este dia. Podia contar-te algumas coisas, porém suspeito que o bom já o saibas - e te alegres! - e que o mau seja de evitar. É um país cheio de inveja e coisa pouca, de muitas adversativas e hipocrisia. Este ano, com as eleições à porta e as presidenciais já firmes no horizonte, as línguas andam afiadas, o hate mail e comentários absurdos fazem a silly season com facilidade. Diria que te podias divertir com tudo isto. Mas não. Estou quase certa de que terias momentos de desalento. Há dias em que me interrogo se a bondade se desvaneceu, se a democracia é assim tão frágil, se haverá outro caminho que não este, sempre o mesmo, de ler os jornais e pasmar, de ver o facebook e pesar-me a solidão. Estou numa fase de buraco, terás de me perdoar.

Se desfiar as contas do rosário dos acontecimentos talvez fiques a ponderar que não foi má ideia partires quando o corpo decidiu que assim era. Fazes falta. Muita falta. Para pensar as coisas, para as dizer, para apresentar contraditório e bradar aos céus com a ferramenta tão inteligente da memória. Na gaveta dos bons acontecimentos, querido Eduardo, podes colocar os sucessos literários de quem amas, alguns encontros com risos e muita conversa sobreposta, sempre no intuito de dizermos o que pensamos ser importante, o que nos espanta. Não sendo um mundo novo, existem ainda algumas admirações. MM combate o horror todos os dias. Sabes como ela é. Eu procuro fazer o mesmo. Cada uma da sua maneira, é certo. E como nós, os outros que te lembram neste dia.

O tempo pesa de outra forma. A bungavília está pronta a despedir-se do verão. Já se sente o arrepio dos miúdos por saberem que a escola se aproxima. Descobriram um novo planeta, o 452b, demora 388 dias na sua rotação e, arrogantemente, designam-no como Terra 2. Mesmo que seja, assim o garantem os cientistas, um planeta mais velho do que o nosso, o pobrezinho é o segundo. Achas que alguém nos escuta ali, no 452b? E será o b o correspondente a planeta bom, planeta benéfico ou apenas a plano b? Divirto-me com isto, o que queres tu que te diga? É já tão tarde para te dizer tanta coisa e tão cedo para o resto.

Daqui te beijo, sem longe ou distância.

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Evocação

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.08.15

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(19/12/1924-21/8/1986)

 

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

 

(Alexandre O'Neill, Portugal, extracto)

 

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Maria Barroso: uma recordação.

por Luís Menezes Leitão, em 07.07.15

Conheci Maria Barroso quando, com a idade de sete anos, entrei no Colégio Moderno, no já longínquo ano de 1970. Ela era a Senhora Directora, sobre cujos ombros recaía a responsabilidade de gerir o colégio em tempos muito conturbados. Como não podia deixar de ser, o colégio ministrava escrupulosamente o programa do Estado Novo e por isso aprendi a geografia de todas as colónias, incluindos os rios, linhas de caminho-de-ferro e principais culturas agrícolas. O programa era tão absurdo que até a Índia Portuguesa nos foi ensinada, apesar de ter sido tomada pela União Indiana há uma década. Quando um colega chamou a atenção para esse facto, a professora disse sorridente que, apesar disso, ainda tínhamos que a estudar. E lá tivemos assim que aprender Goa, Damão e Diu e os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli.

 

Mas, de vez em quando, a Directora ia visitar a nossa sala. Nessa altura, todos os alunos a cumprimentavam, a professora suspendia a lição e Maria Barroso falava. Ouvia as dúvidas dos alunos, dava conselhos e falava longamente sobre qualquer assunto que surgisse. As suas palavras prendiam. Por muitos irrequietos que os alunos fossem, era impossível não ficarem atentamente a escutá-la. Mas nunca se queixou da sua situação pessoal, ou alguma vez nos falou do marido, e por isso nunca soubemos quem era Mário Soares e muito menos porque estava exilado.

 

Um dia, quando entrámos no colégio, soubemos que nessa noite o mesmo tinha sido assaltado e que os assaltantes tinham vasculhado o gabinete da Directora, deixando-o totalmente desarrumado, com uma faca cravada na sua secretária. Todos os alunos ficaram naturalmente em grande estado de agitação, mas a Directora resolveu rapidamente o problema. As professoras mandaram os alunos ficar sentados com os olhos fechados durante dez minutos e, passado esse tempo, leccionaram as aulas como se nada se tivesse passado. Só mais tarde compreendi o que esse episódio tinha significado, e como fora preciso coragem para manter o colégio a funcionar nessa situação. 

 

Quando se dá o 25 de Abril, eu já estava fora do colégio, e só voltei a encontrar Maria Barroso quando ocupei a presidência da Faculdade de Direito de Lisboa e ela a visitou na qualidade de Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa. Tivemos então ocasião de falar algum tempo sobre a evolução do colégio desde o tempo em que o frequentei. Hoje, dia em que nos deixou, muitos recordarão a sua brilhante carreira política, e as inúmeras causas por que lutou. Eu recordo-me especialmente dela como a Directora do Colégio Moderno, que tanto marcou os alunos que por lá andaram.

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Os que já cá não estão

por Pedro Correia, em 30.04.15

 

Um dos efeitos da passagem dos anos é verificarmos como coexistimos com gente que apenas nos perdura na memória. Confesso não estar ainda vacinado contra o espanto que isto me causa. Há dias, na saída do metro, cruzou-se comigo alguém que me fez lembrar muito uma antiga colega de trabalho. "Será ela?", questionei-me. E só daí a momentos caí na real, como dizem os brasileiros. Essa colega morreu há vários anos, num trágico acidente de aviação.

Há uns tempos, de férias em Cabanas, descobri a Rua Dr. João Amaral. Fiquei a olhar para a placa toponímica ainda meio incrédulo: conheci muito bem este ex-deputado e dirigente comunista, fiz-lhe uma das últimas entrevistas que ele concedeu a um jornal e por vezes ainda me custa acreditar que já morreu. Há dias, folheando uma agenda telefónica com números anotados em 1999, quase fiquei chocado ao verificar como são tantos os nomes daqueles que partiram de vez.

Sentir o tempo passar por nós é também isto: verificar a soma crescente das ausências. Uma voz familiar ao telefone que se apagou de súbito e jamais voltaremos a escutar.

 

Reedito este texto no dia em que os meus pais fariam 60 anos de casados. Sempre associo esta data a um clima de alegria redobrada lá em casa. Festejaram-na durante 55 anos. Hoje, pela primeira vez, evoco-a sem nenhum dos dois cá estar.

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Antologia da memória

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.03.15

E depois há muitos que deviam pagar os seus impostos e não pagam, porque não declaram as suas actividades"

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memória sff

por Patrícia Reis, em 21.01.15

É preciso ter memória. É preciso? Bom, é inconveniente, mas crucial. A maioria das pessoas não aprecia. Há quem tenha, quem não tenha. Vivo rodeada de gente que têm pouca memória. Pessoas mais próximas ou mais distantes, tantas vezes com discursos moralistas cheios de fundamentalismo e outros preceitos menos simpáticos, apenas por não se recordarem do que disseram, fizeram, viveram, decidiram, vociferaram, prometeram e por aí fora. Eu cultivo a memória para saber em que chão piso. Para não me iludir. Para viver melhor comigo e com as lições que me acontecem com a vida. Não preciso de me enganar. Sei que o que disse aos vinte anos é distinto do que disse aos trinta; sei que o que disse ontem é, porventura, distinto do que possa dizer hoje (pelo menos em certas matérias, creio que a relutância em ouvir argumentos e contra-argumentos não é benéfica, logo sou a favor da mudança de opinião, se esta é feita de forma inteligente e construtiva). Ser coerente uma vida inteira, só para dizer que se é coerente, é o maior acto de desinteligência que conheço. Ao contrário do que alguns possam pensar, tenho demasiado respeito por mim - aprendi a ter - para não saber onde estive, onde estou. O facto de ter estes parâmetros bem definidos na minha cabeça faz com que vá tendo alguns dissabores. Tive um enorme desgosto há dois anos e pouco, tive um em Fevereiro de 2014; em 2015 não tenciono sofrer mais desilusões. Procuro encarar as pessoas como encaro os factos da vida: aceito o que posso, rejeito o que consigo. Quero o que me faz bem e não me mente. Quero o melhor para as pessoas que amo. Não pactuo com equívocos, não faço as pazes com alguém por ser conveniente, por ser politicamente correcto. Mantenho as minhas inimizades com a mesma força com que mantenho as minhas amizades. As mais recentes incompreensões fazem-me acreditar que o sistema das gavetas é essencial: estes vão para aqui, aqueles vão para ali. As pessoas - e as coisas - têm a importância que lhes damos. Mais nada. A importância também está na memória.

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Antes que a memória me falhe

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.11.14

"Quando enfrentar os sindicatos todos reclamarão o anúncio para o dia seguinte. Pedem-nos mais impostos, para quê? Pedem-nos mais trabalho, para quê? Impõem-nos novas regras no trabalho e na segurança social, para quê? Propõem-nos alterações importantes na saúde, para quê? Qual é o caminho? E para chegar onde? A estas questões triviais, a ministra não responde.

Em rigor, a ministra não tem culpa nenhuma. Trata das finanças do país e, com isso, faz o que deve. A insuficiência transcende-a. Não obstante, a falha existe e é cada vez mais ostensiva.

Ao lado da ministra, falta Governo. Por ela passa tudo. Mas, numa implicação forçosa, também a ela tudo se reduz. A lógica das várias medidas prometidas parece ser eminentemente financeira. O Estado não tem dinheiro e, sendo consabido que é mais fácil arrecadar do que poupar, está apontado o caminho.

Em nenhum passo alguém se detém na busca de outros desígnios. Que país teremos dentro de cinco ou dez anos? Que país queremos ter? Qual o rumo? Qual a estratégia? Ninguém ousa aventar nada. E é manifesto que ninguém parece estar a pensar no assunto." - Diário Económico, 18 de Outubro de 2002, arquivado aqui pela autora.

 

Que Governo seria este? E quem seria a ministra? Perante tal estado de coisas, com as elites que tínhamos, e com aquelas com que ficámos, era natural que nove anos depois estivessem a chamar a troika.

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Avivar a memória aos crentes

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.11.14

"Garantiu-me solenemente que não cometeu qualquer irregularidade nas funções que desempenhou" - Aníbal Cavaco Silva sobre Dias Loureiro

 

"Na sua opinião [Passos Coelho], é importante realçar que não existe qualquer relação política entre o BPN e o PSD e que o partido não deve mostrar "embaraço" relativamente ao facto de no caso estarem envolvidos antigos dirigentes do partido e membros dos seus governos, incluindo Oliveira e Costa."

 

Ficando claro que penso hoje o mesmo sobre o que Mário Soares disse em Évora que pensei em tempos a propósito do que ele disse no encontro da Aula Magna ["Custa-me ver a forma como se perde o lastro histórico no discurso histriónico. Devia haver uma forma democrática de proteger dos seus próprios excessos quem tanto contribuiu para a redução da nossa infelicidade colectiva." ], só gostaria de acrescentar, em relação aos que que agora vieram a terreiro criticá-lo, que recorrendo à mesma lógica de Cavaco Silva sobre Dias Loureiro, Soares tem igual direito de acreditar na palavra de José Sócrates. Mesmo que aos olhos dos outros, incluindo dos meus, possa ser visto como um disparate.

Da mesma forma, o que não quer dizer que eu concorde com a lógica, o PS devia levar à letra as palavras então proferidas por Passos Coelho e não mostrar "embaraço" relativamente ao facto de um antigo dirigente do partido e ex-primeiro ministro ter um problema pessoal para resolver com a justiça portuguesa. Se na opinião de Passos Coelho o PSD não devia ficar embaraçado com o envolvimento da nata cavaquista na escandaleira do BPN, cujas suspeitas são de nível semelhante, não vejo porque deva o PS sentir-se embraçado. Até porque, até prova em contrário, não consta que ao invés do que aconteceu com o BPN haja mais alguém suspeito, ou que tivesse sido tão conivente como foram muitos outros que têm hoje responsabilidades políticas e lucraram com a escandaleira. Quando muito seria um incómodo para António Costa resolver.

 

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Outros tempos, outros sons

por Pedro Correia, em 28.09.14

 

Naquele tempo quase tudo se importava em termos musicais. Havia os Shadows portugueses, o Elvis português, os Beatles portugueses.

O Elvis era o célebre Victor Gomes, que actuava com os Gatos Negros. Gozou de fama efémera mas fulgurante como divulgador do rock n'roll na cinzenta Lisboa salazarista.

Há um episódio que Luís Pinheiro de Almeida relata no seu livro recém-surgido, Biografia do Ié-Ié. Ocorreu em 1964, quando Victor Gomes fez parar o trânsito na capital com um espectáculo ao ar livre perante milhares de pessoas na praça do Saldanha. Antes dos primeiros acordes foi chamado ao gabinete do empresário Vasco Morgado, proprietário do Teatro Monumental, ali situado. No gabinete estavam três agentes da PIDE, que lhe disseram: "O menino não vai cantar canções de protesto." Resposta pronta do Elvis português: "Eu? Eu quero é rock." E obteve luz verde.

Este episódio ilustra bem o que era aquele Portugal de há meio século onde o rock -- canção de protesto por excelência nos EUA e no Reino Unido -- servia essencialmente para descarregar alguma adrenalina, funcionando como válvula de escape tolerada pela ditadura. De tal maneira que no palco desse mesmo Monumental a entidade promotora do Concurso Ié-Ié -- "provavelmente o maior festival de música jamais realizado em Portugal" -- foi o Movimento Nacional Feminino, instituição por excelência do regime, pilar do "esforço de guerra" desenvolvido pelas forças armadas nas três frentes africanas.

Por lá passaram os Beatles portugueses -- os Sheiks, formados por Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Fernando Chaby e Edmundo Silva. E 73 outros "conjuntos", como se designavam as bandas daquela época. Incluindo os Jets, que tinham na bateria João Alves da Costa, futuro jornalista d' A Bola. E os Rapazes, que tinham como viola-solo António Santos, mais tarde jornalista da RTP e assessor de imprensa do primeiro-ministro António Guterres. E os Deltons, com Fernando Tordo como vocalista e viola-ritmo. E os Rebeldes, que contavam na voz e viola-solo com um tal Fausto Bordalo Dias, oriundo de Nova Lisboa (Angola) e então mais conhecido por Carlitos Dias.

 

 

Eram outros tempos, outros hábitos, outros sons. Os tempos gloriosos do ié-ié -- moda passageira, como todas as modas. Que parece ter sido boa enquanto durou, em perfeito contraste com a modorra ditatorial de um regime que parecia amarrado à eternidade. O mérito de Luís Pinheiro de Almeida, além da informação torrencial que nos proporciona nesta obra, é de através dela dar-nos também um vislumbre de uma década irrepetível, a dos anos 60, que decorreu sob o signo da mudança um pouco por toda a parte. E a música popular, entre outros méritos, tem também este: o de antecipar mudanças.

Portugal abria-se enfim a um certo cosmopolitismo de superfície: vinham aqui actuar vedetas da chamada "canção ligeira" e de outras áreas musicais: Charles Aznavour, Johnny Halliday, Sylvie Vartan, Gilbert Bécaud, Rita Pavone, Cliff Richard, Adamo, Françoise Hardy, Ella Fitzgerald, Duke Ellington, Louis Armstrong.

Paul McCartney, de férias no Algarve, compunha um tema numa noite de copos no bar do Penina, oferecendo a improvisada canção ao conjunto residente naquele hotel: os Jotta Herre, que adquiriram fama instantânea graças a essa canção, intitulada "Penina" -- com versões em Espanha, França, Brasil, Holanda, Itália e Chile.

Os Sheiks -- assim chamados porque os seus membros haviam gostado imenso do filme Lawrence da Arábia -- chegaram a gravar em Paris, tendo sido convidados a actuar no Olympia. A carreira internacional gorou-se porque os pais de Carlos Mendes exigiram que o filho regressasse a Lisboa para concluir o curso de Arquitectura. Mas um dos temas mais conhecidos do conjunto, 'Missing You', atingiu em 1967 o oitavo lugar do top parisiense.

 

O termo ié-ié (popularizado em França no programa radiofónico Salut les Copains que depois se tornaria também nome de revista) generalizou-se entre nós até ao final dessa década de 60 quando começou a ser considerado "piroso", dando lugar a outras designações, já sob influência anglo-saxónica -- pop, soul, folk, rock.

E teve sempre detractores, à esquerda e à direita.

Os mais conservadores indignavam-se contra aquilo a que chamavam "batuque de pretos". Na trincheira oposta, José Afonso dava voz ao que muitos intelectuais pensavam insurgindo-se desta forma: "O ié-ié representa a expressão de um processo de decadência de uma sociedade. (...) Posso classificar o ié-ié como um ritual do 'chinfrim'."

No entanto, o guitarrista que mais acompanhou José Afonso, Rui Pato, "não deixou de fazer, também ele, uma perninha no ié-ié", integrado nos Beatnicks, que começaram a abrilhantar bailes estudantis em 1962/63. E Luís Cília, nome ligado aos primórdios da canção de protesto e ao Partido Comunista Português, também entrou na música como intérprete de rock n'roll.

 

Biografia do Ié-Ié transporta-nos a essa década de profundas transformações em que a música teve um papel pioneiro.

Uma década em que também a rádio contribuía para abrir mentalidades. Com programas que deixaram excelente memória em várias gerações de ouvintes: a emblemática 23ª Hora, iniciada em 1959 por Joaquim Pedro, Matos Maia e João Pedro Baptista, aos quais se juntariam João Martins (o nome mais associado ao programa), Fernando Curado Ribeiro, Amando Marques Ferreira e Carlos Cruz; Em Órbita, que em 1965 estreou a frequência modulada do Rádio Clube Português, com realização de Jorge Gil, Pedro Albergaria e do malogrado João Manuel Alexandre, tendo em estúdio a voz de Cândido Mota e mais tarde as de Pedro Castelo e João David Nunes, entre outros. Página 1, também na Renascença, iniciado em Janeiro de 1968 e por onde passaram José Schnitzer, José Manuel Nunes, Luís Paixão Martins, José Duarte e Adelino Gomes, só para mencionar alguns.

Eram tempos em que a censura retalhava um disco inteiro do Quarteto 1111, liderado por José Cid, que em 1958, quando ainda era conhecido por José Cid Tavares, integrou em Coimbra os Babies, "primeiro conjunto português de rock". O LP inaugural do quarteto, intitulado Quarteto 1111, foi retirado do mercado por ordem das autoridades. Basta enumerar os nomes de algumas faixas para se perceber porquê: "João Nada", "Domingo em Bidonville"; "Trova do Vento que Passa"; "Maria Negra"; "Lenda de Nambuangongo"; "Escravatura"; "Pigmentação".

O álbum Epopeia, editado em 1969 pela Filarmónica Fraude (que incluía António Pinho, futuro mentor da Banda do Casaco), muito aplaudida à época, tinha uma capa desenhada pela artista Lídia Martínez, que assinou Lídia 69. O disco passou no crivo da censura, mas a assinatura não: a indicação do ano foi cortada. "Eu, ingenuazinha, nem fiz de propósito, sabia lá o que era 69, era uma abelhinha", lembra Lídia Martínez, hoje bailarina em Paris.

Outros tempos, na verdade.

De tudo isto se fala aqui também.

 

Biografia do Ié-Ié. De Luís Pinheiro de Almeida (Documenta, 2014).

327 páginas

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Agosto: estação pateta?

por Pedro Correia, em 31.08.14

Estação pateta? Que estação pateta? Há quem goste de apresentar Agosto como o mês supremo da silly season.

Nada mais falso, como em 2014 voltou a comprovar-se.

 

Recapitulemos: decorre um conflito armado entre a Ucrânia e a Rússia por interpostos rebeldes separatistas, um autoproclamado Estado Islâmico promove massacres étnicos e religiosos no Iraque, África sobressalta-se com a epidemia do ébola e Eduardo Campos, candidato à presidência do Brasil, morre num acidente aéreo em plena campanha eleitoral. A imprensa, à escala mundial, deu destaque a tudo isto.

Nada a ver com silly season. Nada mesmo.

 

Mas este Agosto de 2014, repito, não constitui excepção. O oitavo mês do ano é, por tradição, uma época fértil em acontecimentos de máxima relevância. Foi em Agosto (de 1914) que começou a I Guerra Mundial. Foi também em Agosto (de 1939) que Moscovo e Berlim assinaram o pacto que esteve na origem directa da II Guerra Mundial.

Agosto, mês de luto e de lutas. As bombas atómicas destruiram Hiroxima e Nagasáqui neste mês (em 1945). A Revolução Cultural chinesa teve o arranque decisivo em Agosto (de 1966). Os tanques do Pacto de Varsóvia invadiram a Checoslováquia em Agosto (de 1968). E o início da violência no Ulster, em Belfast e Londonerry, ocorreu igualmente em Agosto (de 1969).

O primeiro governo pós-comunista na Polónia tomou posse neste mês, em 1989, exactamente quando o futuro Nobel da Paz Frederik de Klerk iniciava funções como presidente de uma África do Sul em acelerada transição para a era pós-apartheid. No ano seguinte, também em Agosto, Saddam Hussein invadia o Koweit. E Agosto de 1991 foi marcado por um súbito sobressalto em Moscovo: a tentativa frustrada de golpe para derrubar Gorbatchov.

Em 2008 houve uma guerra no Cáucaso entre a Rússia e a Geórgia, atentados terroristas no Xinjiang, os mais concorridos jogos olímpicos de sempre e um brutal acidente aéreo em Madrid com 154 mortos.

 

Houve mais – muito mais. Roosevelt e Churchill assinaram a Carta do Atlântico em Agosto de 1941. Um ano depois, no mesmo mês, o exército alemão chegava a Estalinegrado. Em Agosto de 1944, iniciou-se o heróico levantamento de Varsóvia. Agosto de 1961 ficou tristemente célebre pela edificação do Muro de Berlim. Também em Agosto, Richard Nixon abandonou a presidência dos Estados Unidos (1974), foi assinada a Acta de Helsínquia (1975), deu-se a rebelião negra no Soweto (1976), ocorreu a grande greve dos estaleiros de Gdansk que acelerou o fim do comunismo na Polónia (1980), foi assinado o acordo sino-britânico sobre o futuro de Hong Kong (1984).

Agosto foi o mês em que se tornaram independentes vários países. Alguns exemplos: Índia (1947), Chipre (1960), Jamaica (1962), Lituânia e Azerbaijão (1991). A concessão do direito de voto às mulheres nos Estados Unidos também aconteceu em Agosto (de 1920), tal como a elevação do Havai a estado norte-americano (em 1959).

Em Agosto foram assassinados Lorca (1936), Trostky (1940) e o democrata filipino Benigno Aquino (1983). Em Agosto (de 1954) o presidente brasileiro Getúlio Vargas suicidou-se, com um tiro no coração, no seu gabinete do Palácio do Catete - o que inspirou um excelente romance de Rubem Fonseca. E este mês viu também desaparecer figuras tão díspares como Marilyn Monroe (1962), Ian Fleming (1964), Lindbergh (1974), Fritz Lang (1976), Elvis Presley e Groucho Marx (ambos em 1977), Ingrid Bergman e Henry Fonda (ambos em 1982), Rudolf Hess (1987) e a princesa Diana (1997).

 

Portugal não é excepção à regra. A primeira Constituição republicana, de 1911, foi aprovada em Agosto, mês em que tomaram posse os presidentes Bernardino Machado (1915) e António José de Almeida (1919). Salazar cai da cadeira em Agosto (de 1968). O inconfundível V Governo Provisório, de Vasco Gonçalves, e a sangrenta guerra civil de Timor dominaram a actualidade em Agosto de 1975.

Foi em Agosto que Maria de Lurdes Pintasilgo, primeira mulher à frente de um governo português, tomou posse (1979), que PS e PSD assinaram a primeira revisão constitucional (1982), que o Chiado ardeu (1988) e o general Spínola, primeiro Chefe do Estado pós-25 de Abril, faleceu (1996).

E quem se esquece do escaldante mês de Agosto de 2004, com o arranque do frágil executivo de Santana Lopes, enquanto o PS mergulhava na crise que conduziu à troca de Ferro Rodrigues por José Sócrates?

Neste mesmo Agosto de 2014 assistimos à derrocada definitiva do Banco Espírito Santo e a uma inédita campanha interna socialista para designar o candidato do partido às próximas legislativas.

Por favor, não voltem a falar na Estação Pateta. Agosto é tudo menos isso.

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Excerto sem númeração

por Patrícia Reis, em 12.08.14
Excerto do livro, As casas de Mirandela, Dóris Graça Dias, 1991
"Ela, quando o vir caminhando pela longa varanda, na sua direcção, encostar-se-á à parede (que fica entre a porta da cozinha e um espaço aberto, onde dois tanques servem momentos de lavar roupa) com as mãos atrás das costas para sentir o frio da pedra e, quando ele estiver a distância suficiente para a ouvir, perguntar-lhe-á:
– Como te chamas?
Ele parará de imediato. Estenderá a mão direita para o suporte de ferro do estendal e abandonará o corpo num desenhar de ângulo agudo em relação ao chão. O braço esquerdo pendendo. Livre. Dir-lhe-á o nome. Ficará à espera, desatento, que ela lhe diga o seu. Ela não lho dirá, antes perguntará:
– Quantos anos tens?
Ele endireitar-se-á encostando o frágil corpo ao ferro no mesmo instante em que o envolverá com o braço direito. Estenderá a mão esquerda, mostrando-lhe quatro dedos abertos e dirá:
– Est... quatro!
Ela, precipitadamente, dirá:
– Sou mais velha que tu um ano...
Esclarecerá:
– Tenho cinco!
Ele olhá-la-á desinteressado.
Mais tarde, quando passarem horas na invenção de jogos, ele, repetidas vezes afirmará:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
E ela, repetidas vezes o contrariará nessa inversão do tempo. Dir-lhe-á a impossibilidade dessa ultrapassagem. Dessa mentira. Julgá-lo-á tonto, despropositado. Depois, reconsiderará. Esperará o ano que a ele falta, para entender, como ela entende, essa incapacidade temporal e então dir-lhe-á:
– Agora, eu tenho seis anos e tu cinco: continuo a ter...
Ele interromper-lhe-á a frase e, no mesmo tom dos quatro anos, dirá:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
Será nessa altura, nessa idade que ela conhecerá, pela primeira vez, desejo de bater.
Não o fará. Recorrerá ao quarto. À sua irmã."

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Penso rápido (32)

por Pedro Correia, em 27.07.14

Não é corrente, mas faz todo o sentido usar a terminologia "Guerra Mundial 1914-1945". Uma guerra de longa duração (três décadas) entremeada por ilusórios períodos de paz e que só terminou verdadeiramente - por macabra ironia - com o início da idade atómica.
Mesmo durante o período que se convencionou chamar paz não faltaram guerras - incluindo algumas das mais devastadoras de que há memória. A guerra russo-polaca, a guerra civil russa, a guerra greco-turca, a guerra sino-japonesa, a guerra civil espanhola.
A ilusão de que haveria uma guerra que poria fim a todas as guerras ou que seria possível alcançar uma paz perpétua semelhante à do Jardim do Éden (sem serpente...) era corrente no início do século XX e não falta literatura da época a atestá-la. Uma ilusão perigosa, pois fez baixar a guarda quando se impunha toda a precaução, em sentido inverso. O primeiro passo para fazer prevalecer a paz é nunca perder a noção de que o conflito é intrínseco à natureza humana.

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Os que já cá não estão

por Pedro Correia, em 17.07.14

 

Um dos efeitos da passagem dos anos é verificarmos como coexistimos com gente que apenas nos perdura na memória. Confesso não estar ainda vacinado contra o espanto que isto me causa. Há dias, na saída do metro, cruzou-se comigo alguém que me fez lembrar muito uma antiga colega de trabalho. "Será ela?", questionei-me. E só daí a momentos caí na real, como dizem os brasileiros. Essa colega morreu há vários anos, num trágico acidente de aviação.

Há uns tempos, de férias em Cabanas, descobri a Rua Dr. João Amaral. Fiquei a olhar para a placa toponímica ainda meio incrédulo: conheci muito bem este ex-deputado e dirigente comunista, fiz-lhe uma das últimas entrevistas que ele concedeu a um jornal e por vezes ainda me custa acreditar que já morreu. Há dias, folheando uma agenda telefónica com números anotados em 1999, quase fiquei chocado ao verificar como são tantos os nomes daqueles que partiram de vez.

Sentir o tempo passar por nós é também isto: verificar a soma crescente das ausências. Uma voz familiar ao telefone que se apagou de súbito e jamais voltaremos a escutar.

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Penso rápido (18)

por Pedro Correia, em 07.07.14

O século XX seria o período da História em que se atingiria a paz perpétua - assim acreditavam muitos pensadores que saudaram a viragem do calendário como uma alvorada de esperança. É certo que havia a Guerra dos Boers na África do Sul e não tardou muito que russos e japoneses se confrontassem num sangrento conflito bélico. Mas em 1905 esses ecos distantes mal chegavam ao coração da Europa. Nesse ano, a visita do Rei D. Carlos de Portugal ao Reino Unido foi acompanhada “com exagerado detalhe” pela imprensa britânica, como salienta Geoffrey Blainey na sua Breve História do Século XX. A caça do monarca aos faisões, lebres e pombos no palácio real de Chatsworth, posto à sua disposição pelo anfitrião, Eduardo VII, empolgava os leitores londrinos que se “deliciavam ao saber que ele apreciava uma luta de bolas de neve junto da tarde do almoço”. Era esse o espírito do tempo. Uma época fugaz de bonomia que não funcionou afinal como prelúdio do "fim da História". Três anos depois, D. Carlos era assassinado no Terreiro do Paço. E em 1914 - faz agora um século - estalava a Grande Guerra, por um motivo fútil. O século que começou com o brilho das luzes mergulharia no eterno retorno às trevas ancestrais. 

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(segunda de duas partes)

 

 

VI

A necessidade de preencher tempo de antena leva os canais de notícias a recorrer às mesmas pessoas, que com intervalos curtos saltitam de televisão em televisão a proferir as mesmíssimas declarações. Aconteceu a 2 de Julho de 2013 com António Capucho, já então candidato independente assumido à eleição para a Assembleia Municipal de Sintra, que decorreria menos de três meses depois.

«Passos Coelho deve demitir-se de presidente do PSD pois não tem condições de liderar o partido», declarou Capucho na TVI 24. «O Presidente da República deve convocar eleições para a mesma data das autárquicas», disse na SIC Notícias. «Passos Coelho não pode permanecer na liderança do PSD: deve demitir-se e convocar um congresso eleitoral», afirmou na RTPi.

Políticos por um lado, jornalistas por outro. Ao longo destes dois dias de alta tensão política e televisiva, registei as declarações integrais de 27 jornalistas enquanto comentadores em três canais: RTPi, SIC N e TVI 24. Faço questão de acentuar que não vi a CMTV por não dispor à época daquele canal no meu operador de televisão por cabo.

Um ano depois, deixo à consideração dos leitores algumas frases que fui destacando:

«Paulo Portas rompeu a corda e a consequência óbvia é a queda do Governo. Passos Coelho não tem outra saída senão demitir-se.»

«Passos Coelho é a versão portuguesa daquele ministro da informação do Iraque.»

«O Presidente da República não pode tentar manter um Governo em estado de semivida. Não é possível.»

«Prolongar esta situação é uma desgraça para Portugal, deixando que este doente comatoso continue a fazer de conta que governa o País.»

«Dentro do PSD há uma larga maioria do partido que não está de acordo com a manutenção deste Governo.»

«A rua pode fazer cair Passos Coelho.»

«António José Seguro tem razão em dizer que isto chegou ao fundo dos fundos. E chegou.»

«Este senhor [Passos] é incapaz de liderar uma turma, quanto mais um governo.»

«Para haver maioria no Parlamento, só se o PSD mudar de líder.»

«Estamos perante uma crise política de dimensões colossais -- portuguesa e europeia.»

«Neste momento não há nenhum ministro que tenha vontade de continuar.»

«Passos Coelho perdeu toda a lucidez.»

«O CDS é Paulo Portas.»

«O CDS sempre foi um partido de um homem só.»

«A escolha da ministra das Finanças não agradou a muitos sectores do PSD.»

«Já não há Governo.»

«Agora o que é preciso é ajudar a sair este Governo com dignidade.»

«Passos Coelho não tem condições para ser candidato a primeiro-ministro de novo. Paulo Portas também não.»

«Quando um ministro pede a demissão esse pedido tem de ser aceite.»

«Só um Governo que tivesse o apoio do PS funcionaria e acalmaria os mercados.»

«Este Governo está podre.»

«O Presidente da República tem que acabar com esta fantochada.»

Apenas alguns exemplos. Reitero: são declarações de jornalistas, não de politólogos ou dirigentes partidários envolvidos no calor da refrega política. Cada qual mais apaixonada e desabrida do que a outra. Muitas -- para não dizer quase todas -- dissociadas da realidade. Sucede com frequência, quando confundimos aquilo que acontece com aquilo que desejávamos que acontecesse.

 

 

VII

Não vou individualizar ou particularizar a autoria destas frases para evitar também eu cair num dos vícios do comentário à portuguesa, que tudo fulaniza na permanente tentação de interpretar os factos em função da identidade dos protagonistas, adaptando à política a lógica argumentativa do futebol. Importa muito mais inventariar os manifestos erros de análise -- na tentativa de evitar que se repitam e se propaguem -- do que apontar na direcção de quem os comete.

Vale a pena, isso sim, individualizar os poucos que, na balbúrdia do momento, souberam permanecer imunes às armadilhas do comentário em directo. Devo destacar aqui Miguel Sousa Tavares, que evitou juntar-se à vozearia dominante, separando o trigo do joio -- à revelia, porventura, das suas convicções mais íntimas sobre o desenrolar dos acontecimentos.

Destaco-o porque foi ele o primeiro a saber remar contra a maré. No Jornal da Noite da SIC, a 2 de Julho, apontou o dedo na direcção do CDS, contrariando aqueles que já davam como segura a convocação de legislativas antecipadas: «O PSD vai tentar governar mesmo sem o CDS, com os deputados que tem.»

Hoje parece óbvio que o pedido de demissão de Portas não acarretava a renúncia do chefe do Governo. Mas o primeiro a perceber isto, nesse dia, foi Sousa Tavares.

O Jornal da Noite foi, aliás, o maior reduto de lucidez analítica ao longo desses dois dias febris -- em perfeito contraste com outros espaços noticiosos. Luís Marques Mendes, também comentador do canal de Carnaxide, esteve em antena ao lado de Miguel Sousa Tavares e acertou em três vaticínios: «Não haverá eleições até Junho de 2014 mas este Governo deve-se compor»; «Entre o orgulho de manter a sua posição e o sentido de responsabilidade de fazer algum recuo, o sentido de responsabilidade [de Portas] é mais importante.»

 

 

VIII

Eram 20h42 dessa terça-feira, 2 de Julho, quando Marques Mendes disse o que mais ninguém ainda havia dito ao longo das agitadas horas precedentes: «Ainda ninguém percebeu se a saída "irrevogável" é só a saída de Paulo Portas ou é a saída do CDS.» Aproveitando para sublinhar também o que ninguém dissera antes dele: nessa mesma tarde, um destacado membro do CDS, Paulo Núncio, tomara posse como secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, integrando a equipa de Maria Luís Albuquerque.

Quase à mesma hora, no Jornal das 8 da TVI, António Perez Metelo era também o primeiro a chamar a atenção para a dimensão internacional da crise (um aspecto crucial num país sob intervenção financeira externa), salientando que «do ponto de vista dos credores é muito importante que o CDS clarifique a sua plataforma política». No mesmo jornal televisivo, falando ao telefone, Marcelo Rebelo de Sousa introduziu um elemento de análise até aí inédito ao alertar para a «queda brutal das bolsas em apenas sete minutos devido à demissão de Portas».

Ninguém mais se lembrara disso.

Ao contrário da generalidade dos comentadores, que durante a tarde viraram baterias contra o primeiro-ministro, Sousa Tavares e Rebelo de Sousa concentraram os focos críticos no ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. «A reacção de Paulo Portas é totalmente incompreensível em pleno arranque da oitava avaliação, num momento crucial para o Orçamento de Estado, numa atitude que não é sequer artilhada por elementos do seu partido», observou Marcelo na TVI enquanto na SIC Sousa Tavares concluía que o líder do CDS «sai mal da fotografia».

Mas foi preciso esperar até à tarde do dia seguinte para alguém afirmar em antena aquilo que se impunha desde o primeiro instante, contrariando as interpretações generalizadas do CDS como partido «de um homem só».

Aconteceu quando a editora política da SIC, Paula Santos, disse estas palavras inequívocas: «A decisão de Paulo Portas é pessoal e não vincula o partido. Em momento algum, naquela nota, Portas fala no plural.» E admitia: «O CDS ainda poderá ficar no Governo, em coligação.»

Eram 18h13 de 3 de Julho de 2013. Aos olhos dos portugueses, a serenidade e o bom senso pareciam ter regressado ao Governo. Aos ouvidos dos portugueses, a serenidade e o bom senso pareciam ter regressado às televisões.

Um ano depois, sabemos o que aconteceu. Ficou claro quem analisou bem os factos, quem foi incapaz de ler para além da espuma e quem delirou em toda a linha.

Neste país de doces costumes, todos se mantêm nos seus postos. Há tradições que nunca mudam.

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(primeira de duas partes)

 

 

I

Em Julho de 2013, em entrevista ao canal Q, Joaquim Furtado -- um dos mais prestigiados jornalistas portugueses -- punha o dedo na ferida: ao trocarem a notícia pelo comentário, muitos profissionais da informação transmitem uma má imagem do jornalismo.

Ouvi estas palavras, que subscrevo, e logo as relacionei com duas datas: 2 e 3 de Julho de 2013, dias negros para o comentário político em Portugal, dias em que se sucederam nas antenas televisivas as mais delirantes teses pronunciadas por jornalistas a propósito do desenrolar da crise governativa então ocorrida.

De repente, a realidade dava lugar aos "cenários" -- segundo uma escola muito popularizada, desde os remotos anos 70, por Marcelo Rebelo de Sousa. Mas em cima destes "cenários" foram-se construindo outros, e mais outros, e mais outros, formando uma espécie de tela virtual sem a menor correspondência com a realidade. Na ânsia de suplantarem a capacidade efabulatória de certos "analistas políticos", com morada permanente nos canais informativos da televisão, vários jornalistas acabaram por prestar um mau serviço ao jornalismo. Tomando o incerto por certo, confundindo desejos com realidades, imaginando que bastam alguns tijolos para construir um edifício argumentativo capaz de resistir ao confronto com os factos.

 

 

 

II

O maior defeito da "cenarização" em cadeia é precisamente esse: acaba por se perder de vista toda a base factual.

Neste caso, convém recapitular, havia três factos: uma carta de demissão assinada pelo ministro de Estado e das Finanças, Vítor Gaspar, tornada pública a 1 de Julho; o anúncio da substituição do ministro pela secretária de Estado Maria Luís Albuquerque, a quem foi conferida posse na tarde do dia seguinte; e uma carta de demissão "irrevogável", assinada pelo ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, divulgada cerca de uma hora antes da cerimónia de posse e justificada precisamente pela decisão do primeiro-ministro de fazer substituir Gaspar por Maria Luís.

Estes, os factos.

A partir das 16h30 do dia 2 -- faz agora um ano -- e durante todo o dia seguinte foram desfilando nos ecrãs televisivos diversos comentadores -- muitos dos quais oriundos dos jornais ou das rádios -- com palpites sobre o desfecho da crise política. Admitindo todos, com base nos dados disponíveis, a iminente queda do Governo e a realização de eleições antecipadas.

Estávamos não já no domínio do concreto, mas do provável. O primeiro erro ocorreu logo ali -- na transformação do provável em quase certo ou indiscutivelmente categórico nesta obsessão de "cenarizar" a vida política, deixando factores emotivos de diversa ordem ocupar o lugar da racionalidade no exercício do comentário analítico, talvez também pelo efeito mimético que cada intervenção produzia nas intervenções posteriores, numa espécie de choque em cadeia do qual quase ninguém saiu ileso.

 

 

III

Breve inventário dos erros cometidos:

-- O maior de todos foi o da identificação do CDS com o seu líder, considerando-se que os dirigentes democratas-cristãos obedecem em uníssono à voz de comando de Paulo Portas. A tese do "partido unipessoal", popularizada por José Pacheco Pereira, ganhava foros de dogma indiscutível, como se a política estivesse prisioneira de mecanismos cegos, rígidos e válidos para qualquer contexto e qualquer circunstância.

-- Esta tese ignorava que, pouco antes da crise governativa, o CDS assinara com o PSD uma vasta aliança eleitoral para as autárquicas de Setembro em que os democratas-cristãos -- com presença residual no terreno autárquico -- eram os maiores beneficiários. Ignorava também que a carta de Portas em nenhum momento vinculava o conjunto dos ministros e secretários de Estado do CDS. Ignorava ainda que o titular dos Negócios Estrangeiros não convocara os órgãos próprios do partido antes de divulgar a carta.

-- Outro erro evidente destas "cenarizações": quase todas ignoraram o contexto internacional, produzindo-se como se Portugal não estivesse sujeito a um quadro de intervenção financeira externa, e menosprezaram por completo o efeito da demissão de Portas nos mercados financeiros. A queda abrupta das bolsas e a subida das taxas de juro da dívida portuguesa, ocorridas horas depois, foram um autêntico banho de realidade para muitos comentadores que imaginam ainda a política indissociável da conjuntura económica e financeira.

-- A febre da "antecipação" -- sob a pressão dos directos televisivos e da permanente auscultação do que se ia dizendo nos canais concorrentes -- levou a que se perdesse com impressionante rapidez o rigor da base factual, ingrediente indispensável à qualidade do comentário. Já no dia 1 de Julho isso sucedera, embora numa escala muito menor, quando boa parte dos comentadores tomara por válida a tese de que o ministro da Saúde, Paulo Macedo, chegara a ser um sério concorrente à pasta das Finanças ou fora mesmo sondado para esse efeito. Coube a Miguel Sousa Tavares -- no Jornal da Noite, da SIC -- deitar água na fervura, nessa segunda-feira, ao dizer que, tanto quanto sabia, Macedo não chegara a ser hipótese para o lugar de Gaspar.

Quem sustentara tal tese esquecera-se aliás de responder a esta simples pergunta: faria algum sentido o primeiro-ministro remover de uma pasta ministerial quase sempre muito polémica aquele que as sondagens apontavam como o mais popular membro do elenco governativo?

 

 

IV

Nunca tantos produziram tantos "cenários" em tão pouco tempo em televisão. Num exercício especulativo quase sem contraditório. A emoção do momento sobrepunha-se por completo à análise racional.

A todo o instante se falava já em eleições legislativas antecipadas -- mas também na repercussão da crise portuguesa nas eleições da Alemanha marcadas para três meses depois, em golpes internos no PSD e até na súbita demissão de Passos Coelho. Tudo isto em poucas horas.

Havia quem garantisse que o Presidente da República iria dissolver o Parlamento. Havia quem antecipasse a data das legislativas, equacionando-a para o mesmo dia das autárquicas de Setembro -- algo inédito na democracia portuguesa.

Mais insólito ainda: já se antecipava nos canais noticiosos o vencedor dessas eleições, como se o acto de votar fosse um mero requisito formal destinado a validar um quadro político pré-existente. E não faltou até quem antevisse a «derrota da direita» durante uma década em Portugal.

A tese do líder socialista, António José Seguro, ganhava foros de verdade mineral: «O Governo caiu e desmoronou-se na praça pública.» Tese extravagante, mas partilhada por sucessivos comentadores nesse fatídico dia 2: a solução para o problema suscitado pela demissão de Portas... era a demissão de Passos Coelho!

Com tantos jornalistas em antena, praticamente nenhum se interrogou se esse comportamento corresponderia ao perfil político e psicológico do primeiro-ministro. Os factos, também aqui, acabariam por desmentir os "cenários".

Houve flagrantes contradições na lógica discursiva dos comentadores. O chefe do Governo era criticado por nomear para ministra das Finanças alguém com quem mantinha uma estreita relação pessoal ao mesmo tempo em que era criticado por não cultivar boas relações com o demissionário ministro dos Negócios Estrangeiros. Enquanto se ignorava o historial de conflitos protagonizados por Portas no conjunto da direita portuguesa e no interior do próprio CDS.

 

 

V

Passos Coelho, ainda no dia 2, rompeu toda esta torrente discursiva com duas frases curtas e claras: «Não me demito. Não abandono o meu país.» E revelava que não aceitara o pedido de demissão de Portas.

Era um elemento factual de importância suficiente para fazer estancar -- ou, pelo menos, atenuar -- as irrevogáveis certezas dos comentadores. Nada disso aconteceu: mesmo perante isto, havia já quem sustentasse que Passos Coelho perdera o apoio de «muita gente no PSD» e estava a poucos dias de abandonar a liderança do partido face às «movimentações» internas contra ele que surgiriam «nas próximas horas».

Um comentador, ainda mais categórico do que os demais, prenunciava nesse serão de terça-feira, faz hoje um ano: «Amanhã [3 de Julho de 2013] Assunção Cristas e Mota Soares vão demitir-se. É impensável que não se demitam. Isso será o passo que falta para o Presidente da República [dissolver a Assembleia da República].» Outro antevia já uma «derrocada eleitoral da direita sem precedentes na última década».

Já na manhã seguinte, outro improvisado analista emprestado pela imprensa aos ecrãs televisivos ironizava sobre a nova titular das Finanças: «É a primeira vez que uma ministra toma posse de um cargo que já não existe!»

Nesta espécie de concurso destinado a apurar quem produzia a afirmação mais delirante destacou-se o autor desta frase, na SIC Notícias: «Passos Coelho faz lembrar Salazar, depois de 1968, quando os ministros iam a despacho e ele já não era primeiro-ministro.»

 

(conclui amanhã)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.06.14

 

 

Os Saneamentos Políticos no Diário de Notícias no Verão Quente de 1975

de Pedro Marques Gomes

Investigação

(edição Alêtheia, 2014)

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