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Parabenização

por Rui Rocha, em 10.06.17

Aproveito este espaço de discussão franca e partilha de opinião para enviar os meus parabéns ao poeta Manuel Alegre pela atribuição do Prémio Camões. Apresento ainda sinceras desculpas por não o ter feito mais cedo.

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Frases de 2017 (21)

por Pedro Correia, em 08.06.17

«Podia ter sido há mais tempo.»

Manuel Alegre, hoje, ao saber que foi distinguido com o Prémio Camões (declarações à Rádio Renascença)

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 13.06.16

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Livro dez: Bairro Ocidental

Edição D. Quixote, 2015

55 páginas

 

Acompanho com interesse o que se vai escrevendo de poesia em Portugal. Não faltam vozes talentosas, que dominam bem a carpintaria do idioma e exprimem uma paleta larga de emoções poéticas – umas vezes num imediatismo espontâneo quase comovente, noutras vezes num minucioso rendilhado nunca isento de erudição.

Mas não cesso de me espantar com a persistente ausência nesta poesia de um olhar disponível para o mundo contemporâneo. Aqui não me refiro aos chamados versos de intervenção, que confundiam arte literária com propaganda política, mas ao escritor enquanto sujeito de uma oração que exige verbo e complemento directo. A produção poética actual transborda de sujeitos em transe solipsista. Como se esbracejassem no vácuo. Como se a realidade circundante pudesse conspurcar o círculo imaculado mas restrito do seu imaginário.

 

Por vezes penso que falta um Manuel Alegre pronto a sacudir o marasmo desta poesia tão incapaz de interpretar os sinais do vento como de captar os ruídos da rua. Mas não falta. Porque Alegre, com  80 anos enérgicos recém-completados, continua a escrever e a publicar poesia. O seu mais recente título, Bairro Ocidental, estabelece aliás uma curiosa rima interna com os dois iniciais, Praça da Canção e O Canto e as Armas.

Não há amores como os primeiros: meio século depois, o poeta revisita um território afectivo que tão bem conhece. É um território partilhado, a que ele chama pátria sem pedir licença aos patrulheiros de turno.

Indigna-se em ‘Variações sobre o desconcerto do mundo’: “Está tudo inverso: o longe o perto o certo o incerto / no grande desconcerto tudo aberto / direito avesso um verso onde tropeço / e um som disperso um tom onde me perco / horizonte encoberto.”

Magoa-o a ‘Hora inversa’: “Como chegar onde ninguém responde? / Sombra de sombra um rosto vem e foge / não há tempo no tempo não há onde. / Harpas do vento trazem-me o arpejo / de um desejo a morrer na praia extrema.”

Sente-se habitante de um amargo ‘Bairro Ocidental’: “Na Eurolândia tudo é permitido / bruxela-se um país berlina-se outro / um dia ao acordares estás eurodido / e o teu país efemizado é só um couto.”

E canta a ‘Libertação’: “Contra as palavras que não são de aqui / contra o cifrão contra a agiotagem / contra o défice nosso de cada dia.”

 

É uma poesia que se intromete no quotidiano e se compromete com a cidadania sem se submeter a cartilhas de feira ideológica: “A História entrou pelas meias pelas botas / entrou até pelo fato camuflado. / Entrou na pele e ficou lá. Como ser / neutro inespacial intransitivo?”

O melhor Alegre de volta. O melhor Alegre que nunca deixou de estar no local de sempre.

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Os patriarcas (5)

por Pedro Correia, em 11.05.16

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 Manuel Alegre com os filhos Francisco, Joana e Afonso

 

Admiro pessoas que não cedem à tentação da renúncia nem andam na vida de braços cruzados. Admiro pessoas que se mantêm activas muito para além da data legal prevista para a reforma. Admiro pessoas que nunca se esquecem de que a cidadania, mais do que um direito, é um dever. E há muitas formas de exercê-la, como faz Manuel Alegre, que parece cada vez mais imune às inclemências do tempo. No ano passado legou-nos um dos seus melhores livros de poemas, Bairro Ocidental, que estabelece uma surpreendente rima interna com as suas primeiras obras, Praça da Canção e O Canto e as Armas. Há poucas semanas reuniu uma invulgar recolha de textos dispersos, atribuindo-lhes um título feliz: Uma Outra Memória. Li-o em dois dias, com o prazer de um leitor já antigo deste magnífico prosador que Alegre também é.

Ele não tem de pedir licença a ninguém para pensar como pensa. Nem molda o discurso ao sabor das modas: por isso gosta de pronunciar na sua voz bem timbrada a palavra pátria, que outros condenam ao ostracismo. Nem autoriza que os ignorantes de turno lhe imponham listas de consoantes prontas a mutilar como tábuas de uma nova lei: ele foi um dos  quatro deputados (em 230) que na Assembleia da República votaram contra a entrada em vigor do "acordo ortográfico”, rejeitado pela esmagadora maioria dos escritores portugueses. Nem necessita das funções de conselheiro de Estado, para as quais terá sido convidado e desconvidado com manifesta falta de cortesia: receber o Prémio Pessoa ou o Prémio Vida Literária da Sociedade Portuguesa de Autores são honrarias maiores. Tal como a certeza de saber que milhares de portugueses conhecem de cor os seus poemas, recitados ou cantados.

Também não necessitou do beneplácito de chefe algum para concorrer à Presidência da República fez agora dez anos, num longo e gratificante périplo pelo País que tive o gosto de acompanhar passo a passo como repórter. Ouvi-o falar largas dezenas de vezes: nunca o ouvi amesquinhar um adversário ou sequer tratá-lo com deselegância. A crítica, para dar provas de contundência, nunca necessita baixar de nível – ele, que é mestre das palavras, sabe isso melhor que ninguém. Leiam, neste seu mais recente livro, o tocante testemunho inédito sobre Mário Soares: não há ali uma palavra deslocada nem o menor vestígio de azedume. É um texto notável, a vários títulos. Também pelo pudor que revela na recusa em reabrir feridas porventura mal cicatrizadas.

Manuel Alegre tem um porte fidalgo e modos um pouco deslocados nesta época tão propícia aos sarrafeiros de turno, à esquerda e à direita. Além disso é alguém com biografia, o que parece dispensável neste tempo de celebridades-proveta, tão instantâneas como os pudins de pacote e com prazo de validade mais breve do que um iogurte.

Muito para lá das conjunturas políticas, quando estiverem extintas as fogueiras ateadas pelas paixões de circunstância, o autor de Senhora das Tempestades – um dos mais belos livros da poesia portuguesa do século XX – sobreviverá pela sua obra, que permanece inacabada.

Privilégio dele, privilégio nosso também.

 

Manuel Alegre, nascido a 12 de Maio de 1936, faz amanhã 80 anos.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 08.04.16

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Uma Outra Memória, de Manuel Alegre

Ensaios e crónicas

(edição D. Quixote, 2016)

"Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico"

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"Vivemos só na espuma dos dias"

por Pedro Correia, em 07.04.16

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  Foto: Nelson Garrido

 

Faz falta mais clareza de opiniões na nossa vida cívica, nos nossos meios culturais e nos nossos debates políticos. Pensei nisto ao fim da tarde de hoje, no auditório da Biblioteca Nacional, enquanto assistia ao lançamento do mais recente livro de Manuel Alegre, intitulado Uma Outra Memória. Um livro com notória carga confessional, em que o autor de Senhora das Tempestades percorre na sua prosa límpida diversos episódios da sua biografia pessoal, da sua vida literária e da sua intervenção política. Com saborosos e expressivos retratos de figuras tão diversas como Sophia de Mello Breyner, Amália Rodrigues, Humberto Delgado, Pedro Homem de Melo, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Fernando Assis Pacheco, Eugénio de Andrade, José Afonso e Herberto Helder, entre vários outros.

Numa breve intervenção, após detalhada apresentação da obra por José Manuel dos Santos, Alegre fez um vibrante apelo à generalização do "estudo da História" - vital, como sublinhou, neste tempo de dispersão colectiva à mercê dos impulsos momentâneos das redes sociais, tão fugazes como ondas que se dissipam na superfície das praias.

"Há hoje uma grande crise de memória. Vivemos todos apenas na espuma dos dias", declarou o poeta, reclamando contra os "inaceitáveis preconceitos" que nos levam a ocultar factos estruturantes do nosso percurso como antiga nação de corpo inteiro: "Ninguém fala de Aljubarrota para não chatear os espanhóis."

Quantas pessoas se expressam em Portugal com tanta clareza nos dias que vão correndo?

Felizmente Manuel Alegre, em vésperas de festejar 80 primaveras, foge à regra e insiste em falar sem comer vogais nem mutilar consoantes ou ocultar ideias. Que nunca a voz lhe doa.

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Frases de 2016 (14)

por Pedro Correia, em 05.02.16

«[Eleição presidencial] foi uma derrota de toda a esquerda e uma derrota da esquerda é também uma derrota do PS.»

Manuel Alegre, na noite de 24 de Janeiro

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Confissões de Mário Soares

por Pedro Correia, em 18.05.12

 

A imprensa regional é felizmente um viveiro de talentos jornalísticos. Nem sempre compreendidos, nem sempre reconhecidos. Digo isto a propósito de uma entrevista a Mário Soares que acabo de ler no semanário Jornal de Leiria. Uma entrevista muito interessante, assinada por Maria Anabela Silva e João Nazário.

Transcrevo aqui, com a devida vénia, um excerto dessa entrevista ao ex-Presidente da República, com uma pergunta e a respectiva resposta:

«- Se a política lhe abriu caminho para muitas amizades, também lhe custou alguns amigos como Salgado Zenha, Manuel Alegre ou Rui Mateus. Foi um preço caro?

- Salgado Zenha foi, para mim, uma espécie de irmão. Nunca deixei de ser amigo dele. Manuel Alegre, que sempre considerei - e considero - um grande poeta, foi um incidente político desagradável. Não mais do que isso. Rui Mateus foi diferente: foi um camarada mas não um amigo. É uma pessoa sem princípios nem valores.»

Soares franco e frontal. E o Jornal de Leiria a confirmar que a imprensa regional portuguesa está em boa forma.

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Os marretas

por Rui Rocha, em 17.04.12

 

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Frases de 2012 (16)

por Pedro Correia, em 13.04.12

«Dou graças por não ter sido eleito Presidente.»

Manuel Alegre

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Poetas

por Helena Sacadura Cabral, em 13.04.12

 

O ex-candidato presidencial do PS Manuel Alegre lembrou ontem à direcção de António José Seguro que o memorando da troika “não é uma Bíblia”. 

 

E não é que já tinha pensado nisto, depois do outro grande poeta do PS, Jorge Sampaio, ter dito que havia vida para além do deficite?! E se eles se ficassem só pela poesia?

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A ortografia faz parte da estética

por Pedro Correia, em 28.02.12

Mais duas vozes se somam a tantas outras na rejeição liminar do impropriamente chamado "acordo ortográfico" que quer pôr os portugueses a escrever várias palavras do nosso idioma de modo diferente do que escrevem brasileiros (em palavras como 'recepção' e 'percepção'), angolanos e moçambicanos. Refiro-me a dois conselheiros de Estado: António Bagão Félix e Manuel Alegre. No programa Avenida da Liberdade, transmitido sábado na RTP Informação, Bagão Félix salientou justamente: «O património de uma língua não se faz da unicidade, faz-se da diversidade.» E Alegre - um dos três deputados que votaram contra o "acordo" quando foi aprovado na Assembleia da República - pronunciou-se sobre o tema com a autoridade que lhe advém de ser um dos nossos escritores mais prestigiados e premiados: «A ortografia faz parte da estética, do sentido histórico e da identidade da língua. [O acordo] desfigura e descaracteriza a língua portuguesa. Com moderação e bom senso, devia ser repensado. Neste momento a língua parece uma caricatura.»

Alegre desfez qualquer dúvida: ele continua e continuará «a escrever da mesma maneira.» Milhões de portugueses farão como ele.

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Depois de Marcelo...

por Helena Sacadura Cabral, em 23.02.12

 

"Não tenho vocação de polícia, mas as infelicidades estão a ser muito exploradas por gente ligada ao Governo", referiu Manuel Alegre, sublinhando que recusa aderir ao "desporto de tiro ao Cavaco".

 

Depois de Marcelo, proto candidato, que quer fazer concorrência a Durão Barroso, eventual futuro candidato, agora vem o ex-candidato Alegre dizer o mesmo?!

Hum! Cheira-me, como é evidente, a rato escondido com rabo de fora...  

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Alegre nunca esteve tão só

por Pedro Correia, em 11.02.11

 

Como escrevi antes do escrutínio presidencial, Manuel Alegre terminou esta segunda corrida a Belém ainda mais isolado do que na primeira apesar de contar agora com o apoio oficial do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda. A primeira estocada foi-lhe dada por José Sócrates na própria noite eleitoral ao declarar que os eleitores haviam optado pela "estabilidade política": uma tentativa canhestra de reaproximação a Cavaco Silva lançando para cima dos ombros de Alegre o labéu da "instabilidade". A segunda - e decisiva - estocada foi-lhe dada ontem por Francisco Louçã ao anunciar no Parlamento a primeira moção de censura pós-presidenciais ao Governo socialista, deitando por terra toda a estratégia de convergência das esquerdas que Alegre tentara construir nos últimos dois anos como plataforma para a sua candidatura presidencial. Por mero tacticismo político, apenas com o objectivo de medir forças com o PCP em radicalismo de esquerda, o líder do BE acaba de dizer aos portugueses, escassos 18 dias após a contagem dos votos, que a candidatura de Alegre não teve o menor significado político nem deixou rasto de qualquer espécie. Convém não abusar da perda de memória: o Louçã que anuncia a moção contra o Governo é o mesmo que há três semanas surgia com destacados dirigentes socialistas nos comícios do candidato apoiado simultaneamente pelo PS e pelo Bloco.

Alegre, de facto, nunca esteve tão só.

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O purgatório pode esperar

por Pedro Correia, em 26.01.11

 

Domingo à noite, logo após terem sido conhecidos os resultados eleitorais, José Sócrates revelou-se um digno aprendiz de Maquiavel. Em poucas frases colou-se ao vencedor, com o pragmatismo de um jogador de casino ao reconhecer que os dados estão lançados. E deu um abraço de urso a Manuel Alegre, como se nunca tivesse amarrado o PS a estratégias erráticas e derrotistas em dois sucessivos escrutínios presidenciais.

Lesto em sacudir a água do capote, o primeiro-ministro proclamou: "Estas são eleições presidenciais e os portugueses sempre souberam distinguir entre opções políticas nas legislativas - em que os partidos estão directamente envolvidos - e eleições presidenciais, que são baseadas em candidaturas individuais". E logo a seguir, com aquela ligeireza que o caracteriza, acentuou: "Foi com orgulho que todos os socialistas estiveram ao seu lado [de Manuel Alegre]." Esta frase, além de contradizer a anterior, estava totalmente longe da verdade, pormenor irrelevante no habitual fio discursivo do primeiro-ministro, um hábil manipulador de pessoas e factos.

Marxismo puro, tendência Groucho: "Se estes princípios não servem, arranjam-se outros." Alegre, tal como Mário Soares antes dele, acaba de ser arrumado na galeria de troféus do pragmatismo socrático. Foi, naturalmente, um chefe do Governo com ar tranquilo que na noite eleitoral garantiu ao País que "os portugueses optaram pela estabilidade política" ao elegerem Cavaco Silva, a quem Sócrates se apressou a prometer "cooperação institucional". Subentende-se que Alegre traria instabilidade: é quase uma declaração a posteriori de voto contra o malogrado candidato socialista, duplamente derrotado no dia 23 - primeiro nas urnas, a 33 pontos percentuais do vencedor; depois na oratória daquele que é ainda o líder do seu partido, resta ver por quanto tempo.

Este Sócrates de verbo fácil e manha expedita fez-me lembrar o Marco António de Shakespeare dirigindo-se aos romanos logo após o assassínio de César às mãos de Bruto. "Friends, Romans, countrymen, lend me your ears; / I come to bury Caesar, not to praise him; / The evil that men do lives after them, / The good is oft interred with their bones."

A pressa é muita: ele veio para enterrar o candidato socialista, não para o louvar. E prestar desde logo tributo ao César de Boliqueime, renascido politicamente para novo mandato, cumprindo à risca o mandamento maquiavélico: há que "manter o ânimo dos súbditos aturdido e em suspenso", evitando que possam "urdir tranquilamente algo contra ele".

O purgatório pode esperar.

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Notas avulsas da noite eleitoral

por Pedro Correia, em 24.01.11

 

 

1. Registou-se, como previ, a maior taxa de abstenção de sempre numa eleição presidencial: 53%. Houve menos um milhão de portugueses a votar nestas presidenciais, em comparação com as de 2006. Um sinal inequívoco do divórcio dos cidadãos em relação ao sistema político.

2. Houve 270 mil portugueses a votar branco ou nulo, o equivalente a 6,3% dos eleitores. Isto apesar de os votos brancos ou nulos serem irrelevantes para a contabilidade final em eleições presidenciais. Outro sintoma inequívoco de distanciamento.

3. Muitos portugueses não puderam hoje votar por motivos de ordem burocrática totalmente inadmissíveis. A culpa não pode morrer solteira. Espera-se, pois, a demissão do ministro da Administração Interna e do presidente da Comissão Nacional de Eleições ainda hoje.

4. Manuel Alegre, sem o apoio oficial do PS nem do Bloco de Esquerda, obteve há cinco anos maior percentagem (20,7%) e mais 300 mil votos do que agora (19,8%). José Sócrates e Francisco Louçã, em vez de somar, subtraíram.

5. O eleitorado do centro é decisivo. Por isso a radicalização à esquerda da candidatura de Alegre foi totalmente incompreensível. O desastre eleitoral estava à vista: eu bem avisei.

6. Fernando Nobre, sem aparelho partidário, foi o candidato genuinamente apartidário com maior sucesso nas urnas nestes últimos 30 anos. Com 14%, duplicou a percentagem obtida em 1986 por Maria de Lurdes Pintasilgo. Revelou-se, de facto, a maior surpresa desta noite eleitoral.

7. Numa altura em que os partidos muitas vezes são parte do problema e não da solução há hoje cada vez mais espaço para candidaturas de cidadania, emergentes da sociedade civil.

8. No duelo muito particular que mantém com o BE, o PCP não se saiu mal: aguentou o essencial do seu território. Mas o candidato comunista, Francisco Lopes, obteve metade da percentagem de Nobre, recolhendo menos 130 mil votos do que o seu camarada Jerónimo de Sousa em 2006. Com a máquina comunista a apoiá-lo enquanto Nobre não tinha máquina alguma.

9. Também sem máquina de espécie alguma, José Manuel Coelho obteve 4,5%. Mais que isso: conquistou maioria em três concelhos da Madeira, incluindo o Funchal, em ano de eleições regionais. E superou Lopes em Vila Real. Vale a pena analisar este fenómeno, que na região autónoma ultrapassa o mero voto de protesto.

10. Durante semanas, escutámos comentadores televisivos falar apenas em dois candidatos. Cavaco e Alegre. Como se mais nenhum existisse. Estes comentadores - muitos dos quais já tinham ignorado Alegre nas presidenciais de 2006 - também saem derrotados. E de que maneira.

11. Defensor Moura, esmagado nas urnas, fez um discurso de puro ódio pessoal contra Cavaco. Não cumpriu as regras mínimas do fair play democrático.

12. Destaque para o bom senso revelado por Pedro Passos Coelho. Os sociais-democratas "não vão à boleia desta eleição presidencial", acentuou o presidente do PSD, apresentado como "presidente da Assembleia Municipal de Vila Real" num comício de Cavaco. Fica-lhe bem esta prudência.

13. O melhor discurso da noite foi o de Alegre. Felicitou o vencedor e assumiu a derrota com humildade democrática. Nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos.

14. José Sócrates igual a si próprio com esta frase notável: "Todo o Partido Socialista esteve ao lado de Manuel Alegre."

15. Cavaco Silva, com menos meio milhão de votos que em 2006, pareceu totalmente fora de tom no seu amargo e crispado discurso da vitória: "Nunca vendi ilusões aos portugueses nem prometi o que não podia cumprir." Ninguém tenha dúvidas: esta é uma declaração de guerra contra Sócrates. Começou um novo ciclo na política portuguesa.

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Presidenciais (30)

por Pedro Correia, em 23.01.11

    

 

Três derrotados

 

MANUEL ALEGRE

A reboque do ex-presidente da câmara de Viana do Castelo, conduziu uma campanha pela negativa, diabolizando o seu principal adversário e contribuindo para congregar em torno de Cavaco Silva muitos eleitores pouco satisfeitos com o mandato presidencial. Literalmente abandonado pelo aparelho socialista, cada vez mais identificado com o Bloco de Esquerda, procurou satisfazer segmentos antagónicos do eleitorado, numa espécie de quadratura do círculo. Uma estratégia que não satisfez ninguém e acaba de ser fortemente penalizada nas urnas. Nada a ver com a candidatura de 2006.

 

DEFENSOR MOURA

Sai deste escrutínio com um resultado irrisório sem nunca ter explicado verdadeiramente aos portugueses por que motivo entrou na campanha presidencial. Ao longo destas semanas notabilizou-se apenas por agitar o chamado 'caso BPN', com os resultados que esta noite ficaram à vista de todos: em vez de prejudicar Cavaco, beneficiou-o. No campeonato dos 'pequenos', foi claramente derrotado por José Manuel Coelho apesar de ter beneficiado de um protagonismo nos debates pré-campanha que foi negado ao madeirense.

 

JOSÉ SÓCRATES

Surgiu duas vezes em palco, nos comícios de Manuel Alegre, apelando ao voto no candidato que o PS apoiou oficialmente. E viu um dos seus principais ministros, Augusto Santos Silva, protagonizar as habituais declarações dignas de elefante em loja de porcelana. Verá a coabitação com Belém ainda mais difícil daqui por diante num momento em que é cada vez mais patente o seu divórcio com os portugueses - incluindo largos milhares de eleitores socialistas, que ostensivamente rejeitaram a sua recomendação de voto. Confirma-se: é incapaz de acertar numa estratégia presidencial.

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Presidenciais (27)

por Pedro Correia, em 20.01.11

Cavaco Silva – Uma sombra do que foi noutros tempos. Começou de forma titubeante a campanha, que só pareceu ganhar gás com o tema BPN: um Cavaco momentaneamente vigoroso veio à tona nesses dias. O assunto funcionou também como agregador das hostes, que pareciam adormecidas. Mas o homem que desta vez nem contou com um blogue especial de apoiantes foi incapaz de qualquer golpe de asa. Termina a campanha a pedir uma vitória à primeira volta pelo pior dos motivos: para poupar dinheiro. E com um temor indisfarçável da abstenção.

 

Defensor Moura – O deputado socialista que mal ousou sair do perímetro de Viana do Castelo e chegou a ser notícia nas televisões por "dar um passeio improvisado na rua onde mora" esgotou-se nesta campanha a fazer o papel de lebre para dar alento à de Manuel Alegre, seu camarada de partido e seu colega de Parlamento. A estratégia saiu-lhe às avessas: o BPN funcionou como toque a rebate dos desmobilizados eleitores de Cavaco. A partir daí Moura praticamente desapareceu.

 

Fernando Nobre – O médico independente que muitos socialistas irritados com Alegre apoiam teve boas prestações nos debates televisivos e conduziu no terreno uma campanha que foi ganhando projecção, apesar das tentativas de muitos comentadores de o considerarem irrelevante. Tal como Alegre em 2006, o fundador da AMI utilizou o apelo da cidadania como trunfo eleitoral num país cansado de jogos partidários. Pode vir a protagonizar a maior surpresa da noite do escrutínio.

 

Francisco Lopes – Foi sólido, consistente e esforçado na tarefa de mobilizar os eleitores comunistas. Para esse efeito insistiu sobretudo em percorrer o tradicional circuito do partido, centrado no triângulo Lisboa-Setúbal-Alentejo. A candidatura deu projecção a nível nacional ao mais que provável sucessor de Jerónimo de Sousa no cargo de secretário-geral do PCP. Tenha o resultado que tiver no domingo, este desafio já foi vencido. E para ele, no fundo, era isso que contava.

 

José Manuel Coelho – A maior surpresa desta campanha. Trouxe irreverência à corrida presidencial recorrendo apenas aos seus naturais dotes oratórios e à sua vocação para a "sátira de rua", mordendo à esquerda e à direita com a saudável irreverência de uma personagem vicentina. Deixou de estar confinado ao estatuto de estraga-festas no reduto madeirense, ganhando projecção nacional. Foi o único candidato excluído dos debates. Vai receber bastantes votos de simpatia.

 

Manuel Alegre – Encarnou o papel que menos lhe convinha: o de Mário Soares na campanha anterior. Tal como Soares então, radicalizou excessivamente o discurso, procurando transformar a corrida a Belém numa espécie de ajuste de contas com Cavaco Silva. Esqueceu-se da sábia conduta que ele próprio revelou há cinco anos, quando evitou ataques pessoais e sublinhou que uma vitória de Cavaco não poria em risco a democracia. O discurso radical de esquerda, em sintonia com o BE, distanciou-o de muitos socialistas. Termina esta campanha talvez mais só do que estava em 2006.

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Mãos ao alto

por Rui Rocha, em 14.01.11

A disputa eleitoral tem decorrido, como se sabe, em regime de aguaceiros. Estes com a particularidade de caírem sob a forma de água inquinada que vai enlameando o terreno. No fundo, essa é a consequência de uma falta de respeito latente pelos eleitores. Mas, tratando-se de patologia em que a dor apenas aflige, de forma directa,  o corpo da Democracia, só a sentem os que lhe estão muito próximos. Aqueles que a estimam de tal maneira que tomam por suas as dores democráticas. Todos os outros nos vamos distraindo dessa dor e esquecendo que ela é, por direito, também nossa. Este estado de indolência generalizado é o campo privilegiado para certos comportamentos oportunistas. Em política, a inimputabilidade não decorre de uma deficiência dos mecanismos de formação da vontade. Resulta sim de o agente crer que não será responsabilizado pelos seus actos. Ou pelas suas palavras. E por isso faz o quer e diz o que lhe vem à cabeça. Estava escrito na agenda política que ontem seria dia de insulto aos portugueses. Calhava a José Sócrates puxar em palco pelos cordelinhos da marioneta em que Manuel Alegre se quis transformar. O Primeiro-Irresponsável podia ter-se conformado com esse papel. Mas, já se sabe, Sócrates não resiste a uma oportunidade de afirmar a sua crença na disponibilidade dos portugueses para lhe aturarem todas as ofensas sem se despentearem. Por isso, não se limitou a segurar a mão de Manuel Alegre. Claro que não. Logo para inicio de conversa, proclamou o seu amor ao Estado Social e ao Serviço Nacional de Saúde. Estamos aqui, como é evidente, perante um amor canalha. Se virmos bem, no bolso do fato, Sócrates tinha ainda quente  a caneta com que assinou os diplomas relativos ao abono de família, às taxas moderadoras e aos serviços de saúde. Esses que constituem verdadeiras facadas no casamento entre Portugal e o Estado Social. Na vertigem do seu próprio dislate, Sócrates prosseguiu para prometer o julgamento da história aos que semearam a desconfiança e a dúvida, num momento crítico para o futuro do país. Pois só isto nos faltava. O latifundiário da desconfiança e da dúvida, aquele que a semeou no terreno fértil da incompetência e da irresponsabilidade, levanta as mãos, arrastando com ele as de Manuel Alegre, para clamar justiça. É preciso que Sócrates saiba que esse julgamento se fará. Com imputação proporcional de responsabilidades à culpa de todos os infractores. E que, apesar de distraídos, os portugueses lhe reservam um lugar especial no processo. Não o de juiz ou acusador que pretende arrogar-se, mas o de principal arguido. Aquele que, por demérito pessoal e intransmissível, lhe cabe. Quanto a Manuel Alegre, melhor será dizer-lhe que já pode baixar as mãos. Até que apareça Louçã para as puxar de novo para cima.

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Manuel Alegre e a gelatina política

por Rui Rocha, em 09.01.11

Manuel Alegre retomou ontem a actividade eleitoral. Constato, com satisfação, que aparenta estar recuperado da febre dos pântanos. É um bom sinal para a democracia. A vantagem para o debate que resulta de se ter estancado o derrame de lama é a de evidenciar o gelatinoso substrato político de Alegre. Na verdade, o candidato apoiado em regime de time-sharing pelo BE e pelo PS afirmou que o actual Presidente da República não pode lavar as mãos de uma eventual intervenção do FMI. E não pode, naturalmente. Mas, então que dizer do actual Primeiro-Ministro? Se Cavaco Silva não pode lavar as mãos, Sócrates não pode tomar banho. Durante, pelo menos, uma década. E Alegre não se pode enxugar do facto evidente de ter Sócrates na manga. Alegre, contudo, consegue fazer pior. Do alto da torre de um castelo situado em ParaLádeAlfaCentauro, declarou a sua oposição à entrada do FMI em Portugal. Como se, na verdade, tal circunstância estivesse na dependência da vontade do bardo lusitano. A oposição de Alegre vale tanto como a aversão que eu possa ter ao movimento de rotação da terra. Rigorosamente nada. Alegre promete, por isso, o que não pode cumprir. Mas, imparável na sua cruzada, Alegre afirmou ainda: 

Na Irlanda, onde o FMI já está presente, milhares e milhares de funcionários foram despedidos. Houve cortes de salários mas também de pensões, houve diminuição do salário mínimo e só falta cortar a cabeça aos irlandeses. É isso que querem em Portugal os irresponsáveis ou os imaturos que abrem as portas ao FMI?

Ora, isto já não é só inconsistência ou falta de visão da realidade. É, sobretudo, uma absoluta irresponsabilidade. Desde logo, porque a intervenção externa é praticamente inevitável. Se esta vier a acontecer, como tudo indica, que credibilidade teria Alegre para acompanhar o processo na qualidade de Presidente da República? Não me custa imaginá-lo a receber o Sr. Strauss-Khan ataviado com uma armadura e empunhando uma fisga... E que credibilidade teria para apaziguar movimentos de contestação social que viessem a descambar em violência, como aconteceu na Grécia e na Irlanda? E depois, com que fundamento se pode hoje afirmar que é melhor para o país continuar a pagar juros elevadíssimos que comprometem definitivamente o futuro? Juros que representam em cada ano, só por si, 10% do PIB? Juros que já implicam em Portugal (confesso que desconheço o ponto de situação em ParaLádeAlfaCentauro) desemprego, despedimentos e cortes de salários e de pensões. A única justificação para tal é a de continuarmos a beneficiar da subida honra de sermos governados por José Sócrates. Acontece que, infelizmente, para esse peditório já demos. Muito mais do que devíamos. Manuel Alegre pretende que a abstenção fique à direita, o que constitui um belo exemplo de maturidade democrática. Mas, o que seria realmente útil é que evitasse situar a irresponsabilidade na esquerda que diz representar.

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Presidenciais (15)

por Pedro Correia, em 06.01.11
 
Assistimos nesta campanha a uma insólita simetria à das legislativas de 2009, quando um Sócrates recém-derrotado nas eleições europeias foi questionado quase exclusivamente não pela sua política desastrosa nem pelo incumprimento das promessas de 2005 mas pelo seu carácter. O PSD, com Pacheco Pereira a dar a táctica, andou enredado nisto até lhe cair em cima uma estrondosa derrota eleitoral da qual ainda hoje não recuperou. Estou à vontade para escrever estas linhas pois insurgi-me com clareza contra essa estratégia numa altura em que muitos pensavam que podia ter êxito.
Desta vez os papéis invertem-se e é Cavaco Silva que vê agora o seu carácter posto em xeque por alguns dos rivais nesta campanha presidencial. Convenhamos: há muito que criticar no recandidato apoiado pelo PSD e pelo CDS. Mas, estranhamente, em vez de Cavaco estar a ser alvo de justificadas críticas políticas pelo seu mandato de cinco anos em Belém ei-lo a ser alvo de ataques de carácter, exactamente como sucedeu a Sócrates em 2009, pondo em causa um facto da sua vida privada numa fase em que não desempenhava qualquer cargo público.
Apetece-me fazer minhas as palavras proferidas ontem por António Vitorino na SIC Notícias: "este tema ocupa um peso desproporcionado" na campanha eleitoral em curso. E acrescento: não custa vaticinar que uma campanha deste género terá o mesmo sucesso do que teve a do PSD em 2009. Algo absurdo é ver que alguns dos que então mais se destacaram na denúncia dos 'assassinatos de carácter' estejam hoje na primeira fila desta modalidade nada desportiva que só consegue afastar os portugueses ainda mais da política e os eleitores das urnas.
Entretanto lamento muito ver Manuel Alegre, em 2011, desempenhar o papel que Basílio Horta teve na campanha presidencial de 1991. A maioria das pessoas tem memória curta. Mas eu não: lembro-me bem como essa campanha terminou.

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Um par de Purdeys

por Rui Rocha, em 06.01.11

Apesar de ontem ter escrito sobre a caça ao Cavaco, confesso que não sou grande especialista na arte venatória. E que estava longe de imaginar que os tiros eram dados com o gatilho aristocrático de um par de Purdeys. Por isso, transcrevo na íntegra, com a devida vénia, um texto do Miguel Abrantes (que disto sabe bastante mais do que eu) publicado na Arrecadação Corporativa em Dezembro de 2008. A palavra ao especialista:

Quem diria que o insuspeito homem de esquerda — da verdadeira, a da Bayer —, sempre pronto a atacar qualquer suposto desvio à linha justa e a fazer uma ampla coligação com os órfãos de Trotsky, Brejnev e Enver Hoxha, seria capaz de acreditar no capital financeiro? Ai o maroto, ainda por cima precisamente em relação ao “banco das grandes fortunas”?

Pois é, de Manuel Alegre seria de esperar tudo — menos isto. Cantar Che Guevara em poesia, desancar o PS, caçar perdizes ou coelhos em ambiente bucólico, declamar com voz grave Os Lusíadas, etc., etc., etc., é habitual e ninguém se surpreende. Mas, no meio de tudo isto, Manuel Alegre ainda ter tempo para nos alertar para os perigos de salvar bancos, quando por “um par de Purdeys” (as Roll-Royce das espingardas) andou a cantar loas ao banco de João Rendeiro, mostra um amor desmesurado pela caça — e uma profunda convicção de que em política não há memória.

 

Adenda às 16.28: a cave corporativa acaba de publicar a nova posição abrantina sobre o mesmo assunto. O autor é o mesmo.

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Presidenciais (11)

por Pedro Correia, em 30.12.10

Parte dos desempregados e pensionistas perdem isenção de taxas moderadoras na saúde - medida que abrangerá igualmente os cônjuges dos reformados com pensões de reforma inferiores ao valor do salário mínimo nacional, até agora isentos daquelas taxas. Pensionistas e desempregados vão passar também a pagar o transporte de ambulância. Tudo isto, como é evidente, agravará ainda mais os efeitos da crise nas bolsas dos mais desfavorecidos. Uma decisão do Governo tomada apenas a três semanas das presidenciais, para facilitar a vida ao recandidato Cavaco Silva contra o candidato oficialmente apoiado pelo PS. Bem pode Manuel Alegre, justamente indignado com esta acção interna de sabotagem à sua campanha, clamar contra a inconstitucionalidade da medida - um claro ataque ao 'estado social' por parte do Executivo socialista. Cavaco, reconfortado pelas sondagens e pelo esforço desenfreado do Governo em divorciar-se ainda mais dos portugueses, só tem motivos para sorrir. E para agradecer a José Sócrates.

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Presidenciais (10)

por Pedro Correia, em 29.12.10

 

 

Debate Cavaco Silva-Manuel Alegre

 

Um Cavaco Silva surpreendentemente ao ataque, um Manuel Alegre excessivamente contido. Esta pode ser uma síntese daquele que foi - de longe - o melhor debate desta pré-campanha, há pouco transmitido pela RTP. Um debate que Cavaco conseguiu levar para o terreno que mais lhe interessava, o da estabilidade institucional como arma defensiva perante a actual crise económica, enquanto se mostrava muito agastado perante críticas antigas do seu antagonista, que o acusou de pretender destruir o estado social. Alegre pareceu perplexo com a táctica de Cavaco e perdeu preciosos minutos do frente-a-frente procurando justificar aquelas declarações, proferidas num tom que raras vezes associamos ao actual Presidente da República.

"Manuel Alegre acusou-me pelo menos 50 vezes de eu destruir o estado social. É uma afirmação falsa. Ele andou a enganar os portugueses", afirmou Cavaco, entrando ao ataque no estúdio da estação pública. Alegre tentou contra-atacar, mas o primeiro tema que lhe veio à mente não terá sido dos mais eficazes: "Eu teria dado uma resposta imediata à humilhação que o Presidente checo fez a Portugal na presença do Presidente da República [Cavaco Silva]. Foi uma situação embaraçosa. O Presidente da República devia ter respondido imediatamente."

O tiro fez ricochete. "Eu não actuarei, no domínio da representação externa, como sugere o candidato Manuel Alegre. Um Presidente que se metesse num avião para bater à porta da senhora Merkel ou de Sarkozy era um desprestígio para Portugal. Não nos levavam a sério. A política externa não se faz aos gritos na praça pública", retorquiu Cavaco.

Houve divergências claras entre os candidatos em quase todos os domínios. Alegre acusou Cavaco de ter falhado a anunciada "cooperação estratégica" com o Governo. O candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS deu uma rápida volta à questão, não hesitando em colar-se ao Executivo socialista - aliás confirmando o que foi o essencial do seu percurso em Belém nos últimos cinco anos: "O Governo está a tomar medidas [contra a crise]. A prova disso é que aprovou um Orçamento do Estado, que prevê a redução do défice para 4,6% e está a colocar as finanças públicas numa situação sustentada" Deu-se aliás esta coisa espantosa: ouvir-se um Cavaco mais próximo de José Sócrates do que o seu antagonista. De resto, Alegre deixou claro: "Eu não me candidato para defender este Governo."

A minha maior perplexidade ocorreu, no entanto, quando Alegre trouxe para o debate a questão das alegadas escutas telefónicas do Governo no Palácio de Belém suscitada por colaboradores muito próximos de Cavaco no Verão de 2009 - aquele que foi, sem qualquer dúvida, o pior momento do mandato do actual Chefe do Estado. "Este caso pôs em causa a lealdade institucional", acusou o socialista. Cavaco fez como costuma quando uma questão o incomoda: não respondeu. Estranhamente, Alegre não deu sequência ao assunto, que morreu ali. Ele próprio, aliás, também ficou sem resposta quando a moderadora, Judite Sousa, lhe pediu uma apreciação sobre o Orçamento do Estado para 2011.

Houve alguma proposta original neste debate? Sim. E veio da boca de Alegre. Se for eleito, o candidato apoiado pelo PS e pelo BE convocará uns Estados Gerais da Justiça. "Para uma reflexão muito profunda sobre a justiça" em Portugal. Cavaco, por seu lado, fez uma revelação ao confessar ter manifestado "muitas dúvidas" sobre o decreto que nacionalizou o BPN, em 2008, e sobre a competência da actual administração deste banco. Alegre não chegou a incomodá-lo muito neste tema apesar de ter estado bem ao alertar para as situações de "promiscuidade entre política e negócios" e ao apontar sem rodeios que figuras como Dias Loureiro e Oliveira Costa "nasceram politicamente com Cavaco Silva".

Manuel Alegre precisava mais de uma vitória clara neste debate do que Cavaco. Para contrariar a convicção dominante - indiciada por todas as sondagens - que as presidenciais ficarão decididas logo à primeira volta, tal como aconteceu há cinco anos. Esse objectivo não foi conseguido. Por um motivo muito simples: Cavaco preparou-se melhor do que o socialista. Em política, estas coisas contam.

 

Vencedor: Cavaco Silva

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Frases do debate:

 

Alegre - Tenho uma visão mais aberta, mais tolerante e mais progressista em relação a determinados valores. A lei da interrupção voluntária da gravidez, a lei da paridade e a lei do divórcio, entre outras, representaram avanços civilizacionais.

Cavaco - Portugal depende muito do estrangeiro.

Alegre - Em política não há inevitáveis. Devemos resolver os nossos problemas com as nossas próprias forças.

Cavaco - Pode-nos faltar dinheiro para muita coisa. Mas não pode faltar dinheiro para situações de emergência social.

Alegre - [Oliveira Costa e Dias Loureiro] nasceram politicamente com Cavaco Silva.

Cavaco - Lamento que o candidato Manuel Alegre alimente uma campanha de insinuações e de intrigas.

Alegre - Não estou a insinuar coisíssima nenhuma. (...) Cavaco Silva confunde crítica política com insulto.

Cavaco - Este não é um tempo de fazer experiências, não é um tempo de aventuras. (...) Precisamos de soluções de segurança.

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A 'gaffe':

 

"O BPN já custou cinco mil milhões de contos."

Manuel Alegre, confundindo confundindo euros com escudos

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Presidenciais (6)

por Pedro Correia, em 22.12.10

 

  

Debate Fernando Nobre-Manuel Alegre

 

Manuel Alegre tem uma notória dificuldade nesta campanha presidencial: os valores da "cidadania" que lhe serviram de bandeira na corrida a Belém de 2006 estão a ser hoje levantados pelo candidato que notoriamente mais o irrita. Fernando Nobre, que Alegre defrontou esta noite pela primeira vez, num frente-a-frente na TVI, faz lembrar muito o Alegre de há cinco anos: procura captar votos em vários terrenos ideológicos, proclama aos quatro ventos a "independência" como valor político supremo e assume um discurso antipoder que entra como faca em manteiga num país que vive a maior crise económica dos últimos 30 anos.

Alegre é político profissional desde 1974. Mas hoje Nobre - o amador - ultrapassou-o em profissionalismo na forma como arquitectou o debate, sem dúvida o mais interessante de todos quantos ocorreram nesta campanha. Foi contundente sem se tornar impertinente, roubou a Alegre o habitual discurso em defesa dos mais desfavorecidos e teve ainda a subtileza de citar perante o poeta que se orgulha de ter cátedra em Parma dois outros grande vultos da nossa poesia, Sophia e Torga.

"Tenho dificuldade em entender Manuel Alegre. Em 2006, dizia que Francisco Louçã é um Cavaco do avesso. Em 2007, dizia que o Governo do PS estava a destruir o estado social." Frases de Nobre, que obrigaram Alegre a abandonar a atitude de bonomia com que se apresentou em estúdio: "Não gosto de pessoas que se apresentam com uma pretensa superioridade moral." Ambos invocaram - significativamente - o nome de Mário Soares. Nobre caiu no erro de recordar novamente que testemunhou a tragédia de Beirute em 1982: as repetições soam mal nestes debates. Melhor andou Alegre ao deixar um rasgado elogio à "excelente prestação" de Francisco Lopes, que na véspera vencera Cavaco Silva num debate igualmente moderado por Constança Cunha e Sá na TVI. O candidato apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda não ignora que podem fazer-lhe falta os votos comunistas.

O poeta orgulha-se de conciliar hoje apoiantes do Governo e da oposição: "É bom conseguir unir dois partidos que parecem inconciliáveis." E advertiu o seu antagonista: "Ninguém é proprietário da cidadania." Mas foi ambíguo em questões como o apoio à recente greve geral e em momento algum do debate pareceu o Alegre dos melhores tempos - aquele que enfrentou com eficácia Mário Soares no decisivo frente-a-frente da campanha eleitoral anterior, por exemplo. Nobre mostrou-se superior ao dirigir-se a segmentos muito significativos do eleitorado que vão sofrer os efeitos do Orçamento do Estado. "Não há maior falência da nossa democracia do que a fome instalada entre nós, do que a pobreza, do que haver 300 mil idosos com reformas inferiores a 300 euros", sublinhou.

Há cinco anos, seria Alegre a dizer isto. Nobre é o Alegre de 2011.

 

Vencedor: Fernando Nobre

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Frases do debate:

 

Alegre - Ninguém tem o monopólio da cidadania.

Nobre - Não sou pessoa para me deixar condicionar ou empurrar seja por quem for.

Alegre - Não misturemos uma candidatura presidencial com percursos de vida.

Nobre - Há cinco anos [Alegre] candidatou-se contra o candidato do seu partido. São estas incoerências que tenho dificuldade em entender.

Alegre - Conhece mal essa história. É estranho. [Nobre] parece que é mais do PS do que os próprios dirigentes do PS.

Nobre - Sou apenas dono do meu voto. Sou casado há mais de duas décadas e nem sei em quem vota a minha mulher. O voto é livre e secreto.

Alegre - Fernando Nobre entrou no sistema. É candidato, é político. Penso que não está aqui para derrubar o sistema. (...) É muito perigoso fazer o discurso antipartidos.

Nobre - Perigoso para a democracia é termos chegado à situação social a que chegámos.

Alegre- [Nobre] não tem o exclusivo da preocupação.

Nobre - Manuel Alegre sabe quanto custa um litro de leite? Sabe quanto custa um pão? Sabe quanto custa um ticket da Carris em Lisboa?

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A 'gaffe':

 

"Vasco Gonçalves contribuiu para a construção da nossa democracia."

Fernando Nobre

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Presidenciais (4)

por Pedro Correia, em 19.12.10

 

 

Debate Francisco Lopes-Manuel Alegre

 

Nunca me lembro de ter visto o PCP tão pouco internacionalista como nos dias que correm. O discurso anti-europeu, noutros tempos bandeira de Paulo Portas e Manuel Monteiro, foi apropriado pelos comunistas portugueses, actuais campeões do isolacionismo. Falam permanentemente em "soberania nacional", bradam contra tratados já tão remotos como os de Maastricht e Amesterdão, revelam saudades do velho escudo. "O euro significou 20% da perda de competitividade do nosso país", declarou esta noite o candidato do PCP, Francisco Lopes, no debate que o opôs a Manuel Alegre na SIC. Clara de Sousa bem se esforçou para introduzir alguma dinâmica, mas em vão: foi até agora o mais monótono e maçador dos debates desta campanha presidencial. Alegre, ao contrário do que sucedera com Fernando Nobre, tratou Lopes com grande amabilidade. Nunca o criticou e chegou mesmo a elogiá-lo: "A candidatura de Francisco Lopes é uma candidatura positiva que contribui para o debate e a clarificação de posições." Pressentia-se o incómodo de Lopes, que procurou - sem sucesso - apontar a Alegre pecadilhos tão variados como o apoio ao Orçamento do Estado para 2011, os tratados europeus e "a política do Governo". Alegre, que passou uma legislatura inteira a criticar o Executivo do PS, pode bem com estas acusações, respondendo a Lopes da forma adequada: com total indiferença. Lembrando, de passagem, que é candidato a Presidente da República e não "a outra coisa qualquer". Secretário-geral do PCP, por exemplo.

Houve perguntas da moderadora que ficaram sem resposta: o comunista recusou responder se preferia ver Portugal fora do euro, o socialista nada disse sobre o seu eventual desejo de receber o voto do ex-amigo Mário Soares. De resto, Alegre cortejou sem rodeios o eleitorado comunista. Lembrando ter sido ele o autor do preâmbulo da Constituição da República, que continua a apontar o "caminho do socialismo" para Portugal, e mostrando-se indignado com a "ofensiva especulativa dos mercados financeiros contra os órgãos democráticos de países democráticos".

Não faltaram críticas a Cavaco. A mais convincente veio de Alegre: "Cavaco Silva acrescentou problemas ao funcionamento do sistema, até pela maneira como promulga as leis, manifestando dúvidas e reservas. É um factor de instabilidade, até pela maneira como exerce os mais simples poderes, como o de promulgar leis." Não falou mais que Lopes, não falou muito diferente, mas falou melhor.

Vencedor: Manuel Alegre

 

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Frases do debate:

 

Lopes - O Orçamento do Estado para 2011 vai cair em cima do povo português em cada dia de cada mês do próximo ano.

Alegre - Não há estabilidade política sem estabilidade social.

Lopes - O candidato Manuel Alegre associou-se à votação dos tratados europeus.

Alegre - Eu sempre discordei do Tratado de Maastricht. (...) Eu se fosse Presidente da República já teria pedido uma audiência à senhora Merkel e ao Presidente Sarkozy.

Lopes - O Presidente [Cavaco], em vez de ser a voz de Portugal, foi a voz dos mercados.

Alegre - [Cavaco] acrescentou pessimismo ao pessimismo.

Lopes - [Cavaco] foi o padrinho deste orçamento.

Alegre - A pobreza não deve ser explorada para fins de campanha eleitoral.

 

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A 'gaffe':

 

"Fui a única candidatura que tomou uma posição portanto que este orçamento portanto não devia ser aprovado. Portanto o rumo do País tem que ser outro e há uma responsabilidade portanto do PS e do PSD portanto que está muito patente neste orçamento."

Francisco Lopes

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Presidenciais (2)

por Pedro Correia, em 16.12.10

    

 

Debate Defensor Moura-Manuel Alegre

 

O que levou Defensor Moura a candidatar-se à Presidência da República? O ex-presidente da câmara de Viana do Castelo, hoje deputado do PS, perdeu esta noite uma excelente oportunidade de esclarecer os portugueses sobre tão enigmática questão. Num frente-a-frente com Manuel Alegre na RTP, o médico minhoto revelou-se uma figura afável mas inócua. Quer "regionalizar" o País - uma bandeira que talvez lhe valha uns votos a norte do Douro - e lutar contra a "corrupção e o clientelismo", que define como os dois "maiores cancros nacionais". Há largos milhares de pessoas que pensam o mesmo sem lhes passar pela cabeça concorrer a Belém.

Manuel Alegre, sem um verdadeiro adversário pela frente, tratou com amabilidade e sem sobranceria o seu camarada de partido, o que lhe ficou bem mas só reforçou a ideia de que não estávamos perante um debate a sério. Foi quando muito, nesta noite tão fria, um debate de aquecimento para outros confrontos. Alegre e Defensor mostraram-se em sintonia nas críticas ao actual Presidente da República, nos reparos quase cavalheirescos às anunciadas alterações do Governo à lei dos despedimentos e na necessidade imperiosa de o País bater o pé aos mercados financeiros. Cavaco Silva, naturalmente, foi quase em exclusivo o foco das críticas, mas não terá chegado a ficar com as orelhas a arder. "O Presidente da República já devia ter dado uma palavra sobre esta pressão que está a ser exercida sobre Portugal", declarou Alegre, sem se esquecer de citar o nome de Mário Soares. "O Chefe do Estado deve ser cúmplice do Governo nesta resistência ao exterior", disse Defensor, quase em coro.

Este frente-a-frente (que melhor deveria ser classificado de lado-a-lado) permitiu perceber qual será o mote dominante do poeta na sua segunda tentativa de vencer umas presidenciais: Alegre vai apelar até que a voz lhe doa à defesa intransigente do "Estado social", sem tolerar alterações ao Serviço Nacional de Saúde e à escola pública.

Talvez o momento mais interessante deste debate que Judite Sousa mal necessitou de moderar foi aquele em que o candidato apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda vaticinou a provável vitória eleitoral do PSD nas próximas eleições: "Pode muito bem acontecer que haja outro ciclo político nas legislativas."

Sócrates certamente não gostou.

 

Vencedor: Manuel Alegre

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Frases do debate:

 

Defensor - Neste momento Manuel Alegre é mais conhecido que eu.

Alegre - O que seria, num país como o nosso, se as pessoas tivessem de pagar para ir à escola?

Defensor - Sou um deputado que tem massa cinzenta dentro da sua cabeça.

Alegre - É espantoso como não há uma rebelião do Estado democrático contra o capital financeiro.

Defensor - Os dois cancros da democracia portuguesa são a corrupção e o clientelismo. Aliados ao centralismo, são a asfixia total das potencialidades dos portugueses.

Alegre - Os défices da pobreza e da desigualdade são défices terríveis no nosso país.

Defensor - Cavaco Silva devia ter pressionado o Governo e a oposição para um acordo estável.

Alegre - A função do Presidente da República é uma função de mediação política e mediação social. O actual Presidente da República falhou nestas mediações.

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A 'gaffe':

 

"O que conquistar mais votos é que irá à segunda volta [com Cavaco]. Boa sorte para ele. E boa sorte para mim."

Defensor Moura

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Não percebi

por Rui Rocha, em 28.11.10

Em entrevista ao Sol, Manuel Alegre declarou: "a adopção gay ainda me causa engulhos". De acordo com o dicionário online de Língua Portuguesa da Porto Editora, é a seguinte a definição de "engulho" (nome masculino):

1. náusea.
2. ânsia que precede o vómito.
3. figurado desejo veemente.
4. figurado tentação.
5. figurado aborrecimento.

Qual o sentido a atribuir à afirmação do candidato presidencial?

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Alegre, Sócrates e Belém

por Pedro Correia, em 27.05.10

 

Em Janeiro de 2006, sem o apoio do PS e até com a hostilidade do aparelho socialista, quando a popularidade de José Sócrates estava em alta, Manuel Alegre conseguiu mais de um milhão de votos e suplantou a percentagem obtida nas urnas pelo candidato oficial do partido. Agora, que a popularidade do primeiro-ministro atinge os níveis mais baixos de sempre, o poeta parece tolhido, à espera de um apoio que lhe será sempre dado com reservas, condicionalismos e sem a menor sombra de entusiasmo. Como se o partido lhe fizesse um enorme favor. Acontecerá no próximo domingo, dizem. Se não chover.

Confesso não entender por que motivo o autor de Senhora das Tempestades aguarda com infinita paciência o veredicto de um líder político cuja palavra não se traduz em votos. Se fosse esse o caso, Mário Soares teria pelo menos forçado Cavaco Silva a disputar uma segunda volta há quatro anos. Todos sabemos o que aconteceu: Soares, com o apoio expresso de Sócrates, não conseguiu melhor do que um humilhante terceiro lugar, recolhendo apenas 14% dos votos, o que deu imenso jeito a Cavaco.

Sócrates, cada vez mais confinado a um reduto de fiéis, precisa hoje mais de Alegre do que este precisa de Sócrates. Confrontado com as declarações hostis de alguns elementos de terceira linha do PS, que não ganhariam sequer uma eleição para a junta da freguesia onde residem, o autor de Praça da Canção deveria revelar-se agora como se mostrou em 2006: acima dos partidos, com a frontalidade de sempre, falando directamente aos eleitores sem necessidade de qualquer intermediário oriundo das sedes partidárias. Se fizer isso, amplia sem dificuldade a votação de 2006; se aparecer colado a um primeiro-ministro tão desacreditado como o actual, ficará com uma nova derrota antecipadamente garantida a pesar-lhe no currículo.

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Cavaco venceu ontem, na SIC N

por Pedro Correia, em 05.05.10

Manuel Alegre lançou ontem a sua candidatura, nos Açores. A SIC Notícias, sempre em cima do acontecimento, logo tratou de analisar a iniciativa. Para o efeito, convidou Maria João Avillez a juntar-se a Ricardo Costa, jornalista da casa.

Maria João começou por estranhar a ausência de dois açorianos nesta iniciativa em Ponta Delgada: Jaime Gama e Medeiros Ferreira. Em vão Ricardo Costa lhe lembrou que o presidente do Governo Regional, Carlos César, esteve presente - o que é muito mais significativo. A sua parceira de "debate" já ia lançada, a grande velocidade, no discurso anti-Alegre. Falando em nome do País, transformou o debate num tempo de antena à proto-candidatura de Cavaco Silva.

"Não é isto que o País quer. Não é isto que o País precisa", dizia a comentadora convidada da SIC N. "Isto", bem entendido, é Manuel Alegre. "Suprapartidário não é. Neste momento é uma presa do Bloco de Esquerda", prosseguiu. "Enquanto Portugal caminha para o abismo, ele fala de Antero de Quental", insistiu. "O País não quer excessos, retóricas, pessoas pouco esclarecidas", advertiu. Alegre "é a pessoa mais errada que podia aparecer agora para este específico momento", concluiu.

Depois mudou de tom. O facto do dia era a candidatura de Alegre, mas ela preferiu falar de Cavaco. Sempre de Cavaco. Para dizer o seguinte: "Ele tem um bom entendimento do cargo. Ele é uma pessoa muito rigorosa, teve uma enorme experiência governativa. Percebe muito de finanças públicas."

Tendo o actual inquilino de Belém todos os atributos enunciados por Maria João Avillez, nestas suas comparações a preto e branco entre Alegre e Cavaco, percebe-se mal como é que Portugal "caminha para o abismo": um Presidente com tão manifestas qualidades não é capaz de travar esta marcha fúnebre? Isto ia eu pensando com os meus botões, mas minudências deste género não faziam travar a comentadora da SIC N nas suas reiteradas proclamações pró-Cavaco: "Percebe muito de finanças publicas. É isto que o vai fazer ganhar."

Fantástico. Cavaco ainda nem sequer é candidato e já tem a vitória assegurada. Venceu ontem cerca das 22.25, nos ecrãs da SIC N. Em directo, ao vivo e a cores. A preto e branco, só mesmo os comentários.

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Tanto barulho para quê?

por Pedro Correia, em 19.04.10

 

José Sócrates está a ser muito criticado por ainda não ter anunciado o apoio oficial do PS à proto-candidatura de Manuel Alegre quando faltam nove meses para a eleição presidencial. Estas críticas fazem pouco sentido, por vários motivos. Desde logo porque Alegre ainda não oficializou sequer a candidatura. Depois porque isso faria apressar uma clivagem com o Presidente em funções - presumível recandidato a Belém - numa altura em que Sócrates, agora sem maioria no Parlamento, precisa mais que nunca de manter uma relação de equilíbrio institucional com Cavaco Silva. Além disso o líder socialista sabe que o assunto está longe de ser pacífico dentro do partido, onde Alegre divide opiniões: o apoio a um candidato presidencial só deve ocorrer após um debate interno aberto, franco e muito participado. Finalmente, nestas presidenciais a lógica de Sócrates é inversa à de Francisco Louçã. O líder do Bloco de Esquerda apressou-se, ainda em Janeiro, a antecipar o voto dos bloquistas ao autor de Senhora das Tempestades com a intenção exclusiva de condicionar a margem de manobra do PS: perante a opinião pública, os socialistas apareceriam a reboque do Bloco com tanto mais probabilidade quanto mais curta fosse a diferença de datas entre as duas declarações de apoio.

O silêncio de Sócrates torna-se ainda mais compreensível dada a natureza conflitual das relações entre o Governo socialista e o Bloco, como os debates quinzenais no Parlamento bem documentam. É um silêncio que incomoda Alegre mas que se justifica do ponto de vista do PS: acelerar o calendário político, no contexto actual, traz mais problemas que vantagens aos socialistas. A última coisa de que um país em crise necessita é de nove meses de campanha eleitoral. De resto, o poeta não necessita da bênção do Largo do Rato para formalizar a candidatura: como é sabido, a eleição presidencial é a única, no quadro político português, que não depende de uma lógica partidária. Isso ficou aliás bem demonstrado em 2006, quando Alegre, concorrendo sem o apoio do partido, recebeu muito mais votos do que o candidato oficial socialista.

É por isso que apetece perguntar: tanto barulho para quê?

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O Presidente de Sócrates (8)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 12.04.10

Em Janeiro escrevi uma série de posts através da qual procurei demonstrar que José Sócrates prefere ter Cavaco, e não Manuel Alegre como Presidente da República. Esta preferência, como então referi, não impede que José Sócrates apoie Manuel Alegre, sendo por isso de demonstração impossível. Mas essa preferência pode ser indiciada, como então tentei explicar, através de sinais vários, dados por José Sócrates, destinados a certificar-se de que Alegre perde: José Sócrates, disse na altura, pode começar por deixar Alegre queimar no lume brando do Bloco de Esquerda o tempo suficiente para assustar o eleitorado do centro, ao mesmo tempo que encomenda vozes autorizadas para denunciar o esquerdismo terceiro-mundista de Alegre. Depois, pode fazer avançar a guarda obediente destinada a criar as fracturas necessárias no PS, sob o ar angelical de José Sócrates, perturbando a campanha e obrigando Alegre a falar mais vezes das críticas que lhe chegam do PS do que da sua campanha. E por fim só tem de criar a ocasião para deixar escapar o vazio de Alegre que o PS tanto escondeu.

 

Nada do que então escrevi, nem mesmo a entrada de Fernando Nobre na corrida, está desactualizado. Mais de três meses volvidos, Alegre continua desesperadamente à espera do apoio de Sócrates e este teima furiosamente em fingir que Alegre não está ainda na corrida.  

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BE aceso

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 12.03.10

Parece que as coisas andam um bocadinho acesas no Bloco de Esquerda. Pelo menos no Porto. Causa imediata: o apoio à candidatura presidencial de Manuel Alegre, a quem muitos começam a apontar defeitos de percurso. Causas remotas: dizem que são mais que muitas. Previsível. O BE é um daqueles partidos que se incha mais um bocadinho, rebenta.

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Constatação do óbvio

por Paulo Gorjão, em 24.01.10

As coisas são como são e não há forma de o spin político o ultrapassar ou atenuar. A candidatura de Manuel Alegre tem o apoio de uma parte significativa do PS, mas gera também anticorpos importantes entre os socialistas. Porém, a sua candidatura é consensual no Bloco de Esquerda...

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Receita antecipada para o desastre

por Pedro Correia, em 22.01.10

A candidatura de Manuel Alegre divide o PS? Pois claro que divide. E o melhor retrato desta divisão, eventualmente para surpresa de alguns, é-nos fornecido pelos dois autores do blogue Causa Nossa. Repare-se. Ana Gomes embandeira em arco com a corrida do poeta à presidência, em nome da unidade do partido (argumento verdadeiramente extraordinário, vindo de uma antiga apoiante da candidatura de Mário Soares em 2005-06), pelo simples facto de "estar já no terreno". E chega ao ponto de proclamar que o PS "não tem alternativa" senão secundar o Bloco de Esquerda no apoio a Alegre. Por sua vez, Vital Moreira aponta um dedo acusador ao poeta, considerando que este padece de "óbvio 'gaullismo' presidencial" - acusação gravíssima, partindo da esquerda socialista (recorde-se que François Mitterrand, figura de referência para o PS, foi adversário do general De Gaulle nas presidenciais francesas de 1965). "Se há cinco anos Alegre surgiu contra o candidato oficial do seu partido, capturando boa parte do seu eleitorado, desta vez antecipou-se, retirando espaço de manobra ao PS. Agora seria Sócrates a assumir a responsabilidade de fraccionar o partido e dividir o seu eleitorado. Quer isto dizer que o PS se deve pura e simplesmente render sem condições ao avanço unilateral 'potestativo' de Alegre? Não é crível que assim seja", conclui o ex-cabeça de lista do PS às europeias de 2009.

Está tudo dito sobre a fractura que a candidatura provoca nos socialistas. O melhor que o PS tem a fazer é lançar desde já um grande debate interno sobre as presidenciais. Para que aos erros lapidares cometidos há cinco anos, em matéria de estratégia presidencial, não se somem outros, que ainda podem ser evitados. Aguardar em silêncio pela decisão do homem providencial que há quase seis anos conduz os destinos do partido é a receita antecipada para o desastre. Depois não digam que não avisei.

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Estar no terreno

por Paulo Gorjão, em 19.01.10

Ao contrário do que afirma Ana Gomes, não é por Manuel Alegre “estar no terreno” que o PS deve apoiar a candidatura presidencial de Manuel Alegre. Estar no terreno, enquanto critério de decisão, vale zero. O PS não é -- nem deve ser -- refém de uma estratégia de facto consumado.

O eventual apoio do PS à candidatura de Alegre deve ser um pouco mais ponderado do que isso e deve resultar de uma análise mais sistematizada dos seus prós e contras.

Não vejo nenhuma razão para o PS se precipitar. Falta um ano para as eleições presidenciais. Há diversas variáveis cuja previsibilidade, nesta altura, é diminuta. Com ou sem Alegre no terreno, o PS não deve abdicar de controlar o tempo político, por muito que isso desagrade ao pré-candidato e ao Bloco de Esquerda.

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Qual a finalidade estratégica?

por Paulo Gorjão, em 17.01.10

Confesso desde já a minha completa incapacidade para perceber o timing do anúncio de Manuel Alegre quanto à sua disponibilidade para se candidatar à Presidência da República. A minha limitação deve-se em larga medida ao facto de não conseguir vislumbrar qualquer ganho ou vantagem.

Em primeiro lugar o anúncio permitiu perceber que não houve qualquer tipo de coordenação com a direcção do PS. Não houve nenhuma estratégia concertada. Estamos perante um gesto isolado -- que quanto muito foi antecedido por um telefonema de cortesia -- que apenas veio tornar ainda mais visível o facto de a candidatura de Manuel Alegre não reunir um amplo consenso no PS. Acresce que a forma como o BE desde logo abraçou o anúncio cria acrescidas dificuldades ao PS, por um lado, e por outro potencia o capital político de quem no interior do PS quer rejeitar esta candidatura. Uma vez mais, em vez de surgir como uma candidatura suprapartidária, Alegre aparece colado ao BE.

Em segundo lugar, o anúncio não impede, nem diminui, a possibilidade de surgirem candidaturas alternativas. A antecipação do calendário não tem qualquer efeito dissuasor desse ponto de vista. Mais. O anúncio não gerou qualquer tipo de efeito de dominó em termos de declarações públicas de apoio.

Em terceiro lugar, Alegre perde parcialmente o controlo do calendário. Ontem como hoje, Alegre continua a ter de aguardar pela decisão do PS, impotente para forçar o desfecho que deseja.

Last but not the least, Alegre desde já concentra sobre si os holofotes, num acréscimo de escrutínio sem que o gesto tenha gerado qualquer tipo de dinâmica eleitoral. Tanto quanto consigo perceber, o anúncio foi extemporâneo e sem qualquer vantagem aparente.

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Um notável trambolhão

por Pedro Correia, em 14.12.09

Se José Sócrates volta a dar ouvidos a conselhos deste género, como fez em 2005, arrisca outro enorme fracasso numas presidenciais. Como se não lhe tivesse bastado o fiasco encabeçado por Mário Soares, que o forçou a surgir na galeria dos derrotados em Janeiro de 2006...

Diz-se, à laia de argumento, que "cadelas apressadas parem cachorrinhos cegos". O lançamento da candidatura de Jorge Sampaio em Fevereiro de 1995, a 11 meses do escrutínio presidencial, também terá parido "cachorrinhos cegos", para usar a elegantíssima terminologia do José Teles, que cruza política com zoologia a (des)propósito de Manuel Alegre?

Já agora, convém escolher melhor os exemplos quando se mencionam candidatos que baixaram imenso de umas eleições para outras. Se é verdade que Otelo Saraiva de Carvalho caiu de 792.760 votos (16,2%) nas presidenciais de 1976 para 85.896 (1,5%) nas presidenciais de 1980, é muito mais esmagadora a diferença obtida por Mário Soares entre os escrutínios de 1991 e de 2006: 3.459.521 (67,9%) no primeiro, 778.781 (14,34%) no segundo - abaixo do "folclórico" Otelo de 1976. Um notável trambolhão do qual ainda não se refez por completo. Nem muitos dos seus apoiantes.

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Naturalmente, pois então...

por Paulo Gorjão, em 18.07.09

Aqui.

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Contra a lógica das ditaduras

por Pedro Correia, em 15.05.09

 

Em 4 de Março, escrevi aqui o seguinte: "Alguém imagina Alegre a fazer campanha de braço dado com Sócrates depois de uma legislatura em que o PS renunciou a boa parte da sua identidade, ao prosseguir o programa de privatizações de empresas públicas, impor um código laboral rejeitado pela esmagadora maioria dos trabalhadores e pôr em prática uma 'reforma' da segurança social que promete penalizar ainda mais o poder de compra dos reformados?" Em 8 de Maio, desenvolvi a ideia anterior, antecipando a posição hoje divulgada pelo histórico socialista: "A desvinculação - não desfiliação - do poeta deste PS capitaneado por José Sócrates, recusando um lugar nas listas eleitorais, dá uma acrescida caução moral aos habituais eleitores socialistas que se sentem tentados a mudar de voto. É um drama? Só para a actual direcção rosa. O País não se torna ingovernável por causa disso. É a vida, como diria um destacado socialista. Habituem-se, como diria outro."

Agora confirmou-se: Alegre mantém-se no PS - que já era o partido dele quando José Sócrates militava com Paulo Portas na JSD. Não construirá um novo partido, mas também não aceita figurar nas listas eleitorais socialistas. Ao contrário do que alguns afirmam, nada há de incoerente neste percurso, aliás bem fácil de antever, como demonstrei atrás. Alegre está convencido de que o balanço da governação socialista é negativo, tanto em termos sociais como económicos, e por isso Sócrates não merece nova maioria absoluta. Isso não implica que devolva o cartão de militante. Foi, aliás, o que fizeram em 2004 e 2005 alguns ilustres sociais-democratas que recusaram colaborar com Santana Lopes - incluindo a actual presidente do PSD. Ninguém é obrigado a escolher entre o partido e o líder: essa é a lógica das ditaduras. E tanto quanto sei ainda vivemos em democracia.

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Cane Come Noi

por Pedro Correia, em 17.03.09

Nas últimas semanas, Augusto Santos Silva tem-se desdobrado em entrevistas e declarações: raras vezes me lembro de um ministro com uma presença tão assídua nas televisões, rádios e jornais. Mas os resultados não são brilhantes - longe disso. Aqui, obsequioso, dizia que Manuel Alegre era bem vindo ao congresso socialista. Aqui, castigador, sugeria que Alegre devia sair das listas dos deputados. Aqui, de novo obsequioso, voltava a afirmar que o PS tinha todo o gosto em incluir o poeta nos seus candidatos ao Parlamento. Há quem diga que Santos Silva é um dos ideólogos do Executivo socialista. Se o 'ideólogo' anda nesta maré de contradições, imagine-se como não andarão todos os outros. Tudo por causa de Manuela Ferreira Leite? Nem por sombras. Tudo por causa de Alegre, o verdadeiro líder da oposição, como aqui escrevi em Junho de 2008. Agora é António Costa, o número 2 do PS, a sugerir que a solução para uma próxima maioria governativa passa por uma espécie de 'coligação' entre o partido e Alegre. Admitindo implicitamente que este é já uma entidade exterior ao PS.

Confusos? Isto ainda não é nada: esperem pela próxima entrevista de Santos Silva. Entretanto Alegre tem mais em que pensar: o seu excelente livro Cão Como Nós acaba de ser lançado em Itália numa sessão com sala cheia que registou a presença do autor.

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O caminho de Alegre

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 08.03.09

Também acho que foi deslocada a forma como José Lello se referiu ao carácter de Manuel Alegre. E também acho que Almeida Santos, ao criar a dicotomia "nós" e "ele", denota que o PS já não considera Alegre um dos seus. E também me parece evidente que nada disto teria sido dito se não tivessem o beneplácito do chefe supremo. Mas também acho que a posição que Alegre vem assumindo começa a tornar-se intolerável.

Manuel Alegre não pode estar e não estar no PS conforme lhe dá jeito ou não. Não pode usufruir da vantagem de ser um "histórico" do PS e andar de braço dado com o Bloco de Esquerda, que parece ser o principal adversário do seu partido. Não pode andar a fustigar permanentemente o PS e deixar de ir debater o PS ao congresso ou noutros fóruns do seu partido.

Lendo o Expresso deste fim de semana, vê-se que é o próprio Alegre quem admite que está a esticar a corda até ao limite. A táctica ate pode ser boa, se Manuel Alegre pretende ser candidato presidencial com o apoio de toda a esquerda. Mas, confesso, que tanto tacticismo já me está a criar urticária. Se Alegre é mesmo um caso de gente séria que está a tentar refundar a esquerda à sua imagem, então está na hora de ser consequente e fazer o seu caminho â margem do PS. Ou corre o risco de se tornar igual aos que critica.

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Tristes críticas a Alegre

por Pedro Correia, em 08.03.09

No PS, a coisa já não se faz por menos: as divergências de opinião transformaram-se em falhas de carácter. José Lello, o poderoso membro do Secretariado que tem a tutela directa da gestão do partido - e que nunca falaria desta maneira sem o acordo prévio de José Sócrates - acaba de dar o mote. Utilizando a argumentação errada para contestar Alegre: se há defeito que o autor da Praça da Canção não tem é falta de carácter. Isso mesmo, aliás, ficou evidente nas últimas presidenciais, em que enfrentou com sucesso a candidatura oficial do partido para honrar um compromisso anteriormente assumido. Nessa altura, alguns que agora se queixam da "falta de solidariedade" de Alegre, como o líder federativo do Porto, Renato Sampaio, não estranharam a falta de solidariedade que o partido lhe manifestou.

Alegre, ao contrário de muitos socialistas que só surgem nos telejornais para dizer ámen ao chefe, tem currículo e biografia. Ainda José Sócrates andava na JSD, ao lado de Paulo Portas, e já ele travara muitos combates difíceis, antes e depois do 25 de Abril. Basta lembrar o modo como virou o primeiro congresso do PS, a favor de Mário Soares, num momento crucial da vida portuguesa.

Por tudo isto, são ainda mais para lamentar as palavras de Lello. E também foram infelizes as declarações de Almeida Santos, hoje no largo do Rato: "Ele [Alegre] tem direito às suas opiniões, nós temos direito às nossas." Está criada oficialmente a fractura, por sentença do presidente do PS: o histórico socialista é um dissidente, voz solitária que se distingue do corpo partidário. Ele de um lado, nós do outro. Ao contrário do que Almeida Santos supõe, há no entanto muitos eleitores socialistas que pensam como Alegre. E que se revêem, hoje mais que nunca, nas palavras desencantadas do poeta. Sócrates jamais revalidará a maioria absoluta sem estes eleitores.

 

Ler também:

- Manuel Alegre e José Lello. De Bruno Pires, no Corta-Fitas

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O PS de Sócrates e o PS de Alegre

por Pedro Correia, em 04.03.09

Voltei a ouvir ontem, num debate televisivo, a habitual polémica em torno da hipótese de Manuel Alegre se "desvincular" do PS, não faltando - como sempre - quem garanta a pés juntos que isso jamais acontecerá. É uma falsa questão. Não vale a pena especular sobre a possível "desvinculação" de Alegre porque ela já aconteceu, mas nos termos inversos aos que geralmente são invocados por certos analistas políticos: não foi o histórico dirigente socialista que se afastou do partido - foi o PS que se "desvinculou" da sua matriz ideológica e programática, transformando-se primeiro com António Guterres num partido social-cristão, vocacionado para o assistencialismo, e já com José Sócrates num partido social-liberal, que prosseguiu, aprofundando-as, muitas linhas orientadoras do interregno PSD-CDS. Refiro-me, por exemplo, à "obsessão pelo défice" (longe de estar controlado), à subida de impostos (contrariando sucessivas promessas eleitorais) e à falta de consulta aos portugueses em matéria europeia (também à revelia das promessas).

Alguém imagina Alegre a fazer campanha de braço dado com Sócrates depois de uma legislatura em que o PS renunciou a boa parte da sua identidade, ao prosseguir o programa de privatizações de empresas públicas, impor um código laboral rejeitado pela esmagadora maioria dos trabalhadores e pôr em prática uma "reforma" da segurança social que promete penalizar ainda mais o poder de compra dos reformados?

Manuel Alegre jamais se desvinculará do PS histórico. O problema é que esse PS deixou de existir. O partido de José Sócrates já não é o partido que Mário Soares, Salgado Zenha e Manuel Alegre edificaram nos anos pioneiros da democracia portuguesa, entre 1974 e 1976.

 

Foto: José Carlos Carvalho

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A rosa em Espinho (3)

por Pedro Correia, em 01.03.09

 

Muito se tem falado em "maioria absoluta", como se o PS a merecesse. Inútil falar tanto. Uma palavra de Manuel Alegre pode ser mais decisiva nesta matéria do que todos os discursos que José Sócrates for deixando pelo caminho.

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A rosa em Espinho (2)

por Pedro Correia, em 28.02.09

 

Horas e horas e horas e horas de emissão televisiva, que tenho evitado cuidadosamente, só com a reunião socialista em Espinho. Como se alguma coisa se debatesse por aquelas bandas. Significativamente, a figura deste congresso nem se dignou lá pôr os pés. E fez Manuel Alegre muito bem.

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A gestão do tempo político

por Paulo Gorjão, em 28.02.09

Vasco Pulido Valente entende que Manuel Alegre não tem muito mais tempo político para gerir a sua ambiguidade (Público, 28.2.2009: 40). Acho que está enganado. Alegre não tem pressa absolutamente nenhuma. Quem necessita que Alegre clarifique a sua posição é José Sócrates, pressionado pelas eleições legislativas que se aproximam.

É claro que a determinada altura a criação de um novo partido deixará de ser uma carta no baralho. Restam outras e algumas poderão ainda causar danos relevantes a Sócrates.

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