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Hato final

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.08.17

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O pior passou.

Durante dois dias, largas centenas, talvez mesmo mais de um milhar de pessoas, lutaram contra o tempo para recolher a maior quantidade possível de lixo, de restos de árvores e de arbustos, de objectos danificados que obstruíam ruas e passeios. Os bombeiros trataram de proceder à drenagem das águas que transformaram silos subterrâneos para estacionamento de veículos em tanques onde jaziam automóveis, motociclos e alguns desgraçados que ali foram apanhados ou para lá arrastados pela chuva, o vento e a furiosa corrente da água que galgou as margens, transbordou e invadiu as zonas baixas. A aproximação de um segundo tufão no espaço de pouco mais de três dias sobre a calamidade que se abateu sobre Macau em 23 de Agosto não dava tempo para tréguas.

Um dos problemas relatado pelos voluntários foi a falta de camiões em número suficiente para se retirar o lixo dos pontos onde fora concentrado, assim se atrasando essa importante tarefa. A Rádio Macau, à semelhança da televisão e dos jornais, enviou os seus repórteres para as ruas, todos eles prestando um serviço de informação que desde a primeira hora também cabia às autoridades públicas. O facto de uma antena na Colina da Guia ter ficado destruída impediu a recepção da emissão de rádio em Coloane e na Taipa em condições de audibilidade, situação que persiste. Em todo o caso, o restabelecimento do fornecimento de electricidade e do serviço de Internet, onde a TDM-TV passou também a colocar os seus serviços informativos em diversas línguas, colmataram na medida do possível as falhas radiofónicas.

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(Typhoon Committee Secretariat, Coloane) 

A ajuda prestada pelos diversos grupos de voluntários nas primeiras horas do processo de recuperação foi decisiva para o bom trabalho que se fez. Fiquei particularmente sensibilizado, entre outros, pela iniciativa, mobilização e participação de uma associação de trabalhadores não-residentes de origem nepalesa. Os nepaleses, como outros nacionais, pertencem a um dos grupos mais desprezados pelas autoridades locais em matéria de direitos sociais. Na sua maioria são trabalhadores do sector hoteleiro, de empresas de limpeza e de segurança, com más condições de remuneração e de vida, muitos deles trabalhando regularmente doze e mais horas por dia, sem qualquer folga ou descanso semanal, sem direito à greve e vivendo em condições muito difíceis. No entanto, essa gente humilde e trabalhadora que na sua própria terra ainda não há muito suportou uma tragédia natural de grandes dimensões, e contra quem alguns pretensos nacionalistas e defensores dos residentes se voltam sempre que há problemas de emprego ou se discutem direitos básicos, inclusivamente na própria Assembleia Legislativa, deu um exemplo cívico notável. Foram nisso seguidos por outras associações e, entretanto, também por alguns deputados, ao que sei também por um membro do Executivo, que participaram na operações de limpeza, embora nalguns casos, devido ao facto da eleição dos deputados a serem escolhidos pelos sufrágio directo e indirecto estarem agendadas para 17 de Setembro, seja difícil distinguir aquilo que é genuína vontade de participar de uma acção de campanha dissimulada. Estando em causa o sentido de entreajuda, a Comissão dos Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa, verdadeiro big brother do processo eleitoral e dos bons costumes dos candidatos e das listas, teve desta vez o bom senso de nada dizer.

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(Largo de Coloane)

O mesmo não se poderá afirmar de quem quis tirar dividendos políticos da tragédia para lançar rumores, atacar o Governo português e o trabalho do Cônsul-Geral numa inédita e doentia manifestação de umbiguismo perante a calamidade, à qual não deixou de associar os deputados do seu partido, porventura à revelia destes, chegando a comparar o que aconteceu na tragédia de Pedrógão com a situação derivada do tufão e insinuando a existência de um eventual conluio das entidades oficiais para ocultação de vítimas de nacionalidade portuguesa. Inacreditável. Como se numa situação de catástrofe fosse mais importante a nacionalidade ou a etnia das vítimas do que as próprias vítimas e não fossem todos seres humanos e filhos do mesmo Deus.

Creio que essa terá sido também uma das razões para o Consulado-Geral ter ontem divulgado um comunicado onde se reafirmou, na sequência da reunião havida entre o Cônsul-Geral e o Secretário da Segurança da RAEM, que “até à data, não existem cidadãos nacionais portugueses entre as vítimas mortais e entre os feridos, na sua maioria ligeiros, já contabilizados, e assistidos nos hospitais públicos”, acrescentando-se que o Secretário para a Segurança “expressou o seu veemente repúdio a quem, através das redes sociais, ou por qualquer outro meio, propaga informações falsas, causando alarme social, sobre a existência de vítimas de nacionalidade portuguesa ou outra, para além das que são fornecidas oficialmente”.

É verdade que houve muitos portugueses afectados pela catástrofe, uns mais do que outros, vários empresários com negócio começado há pouco tempo, mas daí a apontar-se ao Governo e ao representante oficial de Portugal em Macau e Hong Kong um comportamento que o tornaria indigno do lugar que tem ocupado de forma extremamente empenhada e competente, com reconhecido agrado da comunidade, por razões políticas e de eventual inimizade pessoal, não deixa de nos levar a questionar sobre o portuguesismo de alguns e, em especial, dos valores que os guiam em horas tão difíceis para todos.  

Ainda no final de dia 23, o que se confirmou ontem, se ficou a saber que os magnatas dos casinos irão participar na reconstrução. Os primeiros trinta milhões de patacas vieram da MGM e de Pansy Ho, esperando-se que outros se sigam.

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Há situações que estão a demorar mais tempo a solucionar do que seria expectável numa cidade que se quer moderna, cosmopolita e virada para o turismo. Onde moro a água demorou mais de 76 horas a ser restabelecida. Veio com intermitências. Pelo meio houve um inacreditável comunicado referindo-se que a dificuldade na regularização do fornecimento se devia à procura, consumo e armazenamento excessivo, isto numa situação em que não saía uma gota de água das torneiras de milhares de habitações. Tenho conhecimento de que houve um centro de saúde onde aquela faltou e se recebeu depois água transportada de um outro. No Edifício “Riviera”*, ouviu-o ao final da tarde de ontem na TDM-Rádio, os moradores continuavam sem electricidade, sem água e sem gás. Alguns túneis e vias de circulação ainda apresentavam problemas. Nas fachadas dos prédios o vidro foi substituído por painéis de madeira e plásticos de protecção. O tufão Pakhar vinha aí e não se podia deixar tudo no limbo.

Quanto a este cavalheiro, Pakhar, apesar de na noite passada ter sido içado o sinal 8, o qual deu lugar ao sinal 3 ao início desta tarde, continuando içado à hora que escrevo, as consequências foram de muito menor monta, apesar das águas voltarem a fazer das suas. O vento, porém, teve rajadas da ordem dos 70/100 km/hora, ou seja, metade dos valores máximos registados com o Hato. Talvez com excepção de Hong Kong, onde há notícia de uma vítima mortal, a chuva e o vento não foram tão intensos. E com informação atempada e as pessoas preparadas para a chegada do Pakhar isso fez toda a diferença.

Onde se verificaram danos de monta foi na Escola Portuguesa, que ainda recentemente sofrera obras de manutenção tendo em vista o começo do próximo ano lectivo. Ali o dinheiro é sempre pouco, mas espera-se que não faltem ajudas e que quem tiver de executar a reconstrução não se aproveite da situação para inflacionar os preços, fazendo o serviço com a indispensável qualidade.

A intervenção do Exército Popular de Libertação, aplaudida pela maioria da população, começou, entretanto, a ser questionada por alguns sectores. Primeiro em Hong Kong, equacionando-se se em idêntica situação, com o actual clima de confrontação política e ideológica, com activistas pró-democracia e independentistas presos, seria pedida a sua ajuda. A cultura cívica de Hong Kong sempre foi muito diferente da de Macau, não obstante também ali se fazer sentir a forte influência dos poderes informais e dos lobbies locais, e da mão de Beijing se fazer ouvir com cada vez mais estridência apoiada no poder judicial. Não é de admirar que nesse contexto a questão da autonomia e o seu forte sentimento identitário venham logo à superfície.

De lamentar foi o impedimento da entrada em Macau de quatro jornalistas de Hong Kong que vinham em serviço para reportarem o impacto do Hato. A razão — potencial ameaça à segurança interna da RAEM — é hilariante. Todavia, constitui igual razão à invocada anteriormente para barrar a entrada a outros residentes da ex-colónia britânica, incluindo a um(a) deputado(a) que queria vir passar um fim-de-semana num hotel para celebrar o seu aniversário de casamento e até a uma criança de colo, por confusão do nome desta com a de um activista político homónimo, para grande espanto dos seus pais. O ridículo tem limites. A falta de senso também devia ter, mas há quem não o perceba e admita passar pela vergonha de assim se expor e colocar internacionalmente em causa o bom nome da China e da RAEM, tornando-a num tertium genus entre o primeiro sistema de Beijing e o segundo sistema consagrado na Lei Básica.

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Nesta tragédia, em que à dezena de vidas perdidas e aos cerca de 200 feridos há a somar os mais de mil milhões de patacas (números avançados ontem por alto) para recuperar o que se perdeu, se há uma lição a retirar é a de que a prevenção do infortúnio e a sua regeneração não pode fazer-se erigindo-se como critérios de decisão considerações de oportunidade política ou o cumprimento de metas económicas, sob pena de agravamento da calamidade, o que é válido tanto para o público como para o privado. E a qualidade e preparação de quem pensa, coordena e decide o que tem de ser feito é fundamental para se evitar o agravamento do risco e das consequências do desastre. Em nenhuma sociedade se pode viver decentemente com elites medíocres, presunçosas e preguiçosas.

Daí que seja tão importante a competência de quem governa, de quem serve, de quem decide. E o espírito com que o faz. Isto é válido tanto em Macau, como em Hong Kong, em Portugal ou noutro lado qualquer onde haja vidas. Trezentas mil patacas (cerca de 30 mil euros) não pagam a perda de uma vida humana. Já bastam as que não se podem evitar.

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* (editado para correcção do nome do edifício)

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Hato de solidariedade

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.17

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A cidade procura regressar à normalidade. Não será fácil. O lixo vai sendo recolhido pelo IACM, com uma mão da PSP, que por momentos pode dar alguma folga aos agentes que se especializaram na fiscalização de parquímetros e emissão de talões, e pelas brigadas de jovens voluntários, chineses, macaenses e também portugueses. Provavelmente haverá mais alguém a apoiar essa tarefa, pelo que não sei se a informação que tenho estará completa. E hoje, finalmente, o destacamento do Exército Popular de Libertação, que está aquartelado em Macau, veio para a rua ajudar a limpar a cidade. Os relatos que tenho ouvido e o que vi merece os maiores encómios.

E digo finalmente porque numa situação de catástrofe como a que estamos a viver o seu apoio devia ter chegado mais cedo. Confesso que não sei do que estiveram à espera, nem que pruridos poderão ter tido no pedido de ajuda.

O problema do lixo tem tendência a agravar-se. Mais a mais com a perspectiva de um segundo tufão para o próximo fim-de-semana. Se a isto se juntar a falta de bens essenciais e a circunstância de, desde ontem, se terem formado longa filas para abastecimento de combustíveis, de haver zonas da cidade que continuam sem electricidade e de a água ser inexistente em vários locais, começa a desenhar-se um cenário de aparecimento de epidemias.

Há quem não tendo água consiga tomar banho em unidades hoteleiras. Outros contam com os amigos que têm água em casa e que sem mas abrem as portas para esse efeito. Solidariedade e entreajuda é coisa que não tem faltado entre os residentes. Sem água em casa há mais de 48 horas, e sem ter tido a possibilidade de armazenar alguma dada a forma como tudo aconteceu e a falta de informação veiculada pelas autoridades, vi-me obrigado a também ir encher baldes para a garagem do edifício onde resido. Eu e muitas centenas de outros. Como calculam não é a actividade mais agradável para fazer com 30.º C, com uma sensação térmica de 34.º C e uma humidade de 84%. Pouco passava da uma da manhã quando consegui concluir essa operação com sucesso, entre sorrisos de vizinhos e as inevitáveis críticas à incompetência que por aí grassa. E isto, note-se, num condomínio dito de "luxo", onde o abastecimento é feito em torneiras que estão numa sub-cave entre os Maserati, os Bentley e os muitos Mercedes aí estacionados. Contrastes que os últimos anos me têm habituado a ver, embora com eles não me conforme. 

O controlo sanitário é agora crucial. Numa terra que este ano viu aparecer ainda há poucos meses legionella num dos seus casinos mais modernos (outra vez a deficiente fiscalização e a poupança para se aumentar nos lucros, penso eu), com casos de dengue a acontecerem diariamente, com a ETAR de Macau em situação de ruptura e a descarregar milhares de metros cúbicos sem qualquer tratamento e com os vírus das aves sempre presentes, a probabilidade de ocorrência de epidemias nos próximos dias é cada vez maior. Depois não há o hábito de lavar regularmente as ruas (já houve, noutros tempos), nem os contentores de lixo. Esta tarde, quando saí do escritório para comer qualquer coisa, verifiquei que há passagens rodoviárias e pedonais subterrâneas que continuam com água até ao tecto. Águas paradas, lixo em barda, é evidente. E com elas animais rastejantes, roedores e voadores de várias espécies.

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Quem tem crianças tem trabalhos dobrados para lhes assegurar um mínimo, mas a situação dos animais também é motivo de preocupação. Ter um cão de raça é para muitos um sinal exterior de riqueza, apesar de por vezes os abandonarem e maltratarem das formas mais inimagináveis. Só que os cães têm de ir à rua, têm de fazer as suas necessidades fisiológicas. Ainda que os donos recolham os excrementos, sem limpeza e sem água, numa situação como a actual, o que podemos esperar?

Desconheço por que razão o Governo de Macau não pediu imediatamente ajuda a quem sabe lidar com situações desta dimensão, nomeadamente às autoridades da RPC. A última coisa de que Macau precisava era de doenças, de epidemias, de cólera, de dengue, de legionella e do que mais houver no catálogo.

Em situações de catástrofe é que se vê quem tem capacidade para liderar, coordenar, orientar e decidir. Por aqui, o que se vê - e para isso bastaria ter assistido à confrangedora conferência de imprensa de ontem que foi dada pelo Chefe do Executivo, mais três membros da sua equipa e alguns directores de serviços, para perceber o grau de impreparação de quem dirige e o quão desfasados se encontram da realidade - é que impera o atabalhoamento e a informação desencontrada e sem nexo. Ao desastre natural soma-se a tragédia da ausência de meios humanos e técnicos devidamente qualificados.

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Não deixa de ser estranho que o restabelecimento do fornecimento de água leve tanto tempo e que ainda não haja uma previsão de quando isso poderá acontecer. Porém, nos casinos não falta água. Obtive esta tarde confirmação de que para se manterem em operação os casinos andam a comprar camiões-cisterna de água. A pergunta que faço é se os casinos podem fazê-lo por que raio o Governo não o faz também, disponibilizando água em condições a todos os que dela necessitam? Tivesse havido um mínimo de preparação e de planificação – e eu já não peço um plano A e outro B – e ter-se-ia evitado que as consequências estivessem a ser tão nefastas.

Esta é a dura realidade que temos de enfrentar numa cidade e numa região que se apresentava com o quarto PIB/per capita do mundo, à frente da Suíça, mas onde as condições de vida têm piorado a olhos vistos de ano para ano e sem que haja gente com capacidade de intervenção e de decisão que coloque cobro a esta situação. Inclusivamente, ontem, na conferência de imprensa foi referido que algumas coisas serão resolvidas quando o responsável pelas Obras Públicas e Transportes regressar a Macau, visto encontrar-se ausente. Então, e não há ninguém que o substitua transitoriamente perante este cenário? E que dê respostas? Haverá maior declaração de incapacidade do que esta?

Ainda há pouco fiquei a saber que mais uma família foi encontrada morta dentro da sua viatura num parque de estacionamento. Como é possível levar-se tanto tempo para tirar a água dos silos? Que preparação tem sido dada para se enfrentarem situações desta índole? Há falta de equipamentos? Porque não os compraram antes da desgraça acontecer? Para que serve o dinheiro do jogo se não servir para melhorar a qualidade de vida dos residentes e assegurar-lhes condições de segurança e de saúde para momentos destes?

Devo, aliás, dizer que esperava nesta altura já ter ouvido alguma coisa da boca dos senhores dos casinos. Queriam renovações automáticas de concessões e subconcessões mas até agora moita carrasco. Macau, o jogo, proporcionou-lhes ganharem aquilo com que nunca sonharam, nem mesmo com Las Vegas. São milhões e milhões que diariamente entram nos seus cofres e nos do Governo de Macau. E se há milhões para pagar campanhas presidenciais nos Estados Unidos da América, para andar a fazer brilharetes noutras paragens, não há ninguém que se chegue à frente para ajudar a população de Macau nesta hora de aflição? Se compram água para os casinos, comprem também mais alguns camiões, que serão amendoins nas suas contas, para ajudarem a população e minorarem a desgraça, colmatando a falta de apoio de quem governa para acudir ao essencial e satisfazer a tempo e horas as carências básicas da população. Não lhes peço que abasteçam o mercado de vidros para substituírem os que se partiram nas casas, nas lojas e nos carros, mas ao menos que tratem da água já que a concessionária e os responsáveis do governo não conseguem fazê-lo.

Sem uma intervenção externa, rápida e eficaz, sem uma luz que ilumine estes maiorais inchados e seus capatazes, nos próximos dias tudo poderá acontecer. Os crentes e os que não o sendo souberem rezar que rezem. Pauzinhos de incenso também pode ser que ajude. Os outros que ajudem no que puderem. Este povo não tem culpa de ser tratado de forma tão canhestra. Merecia melhor.

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(Actualização: este texto foi escrito e publicado ontem. O que esta manhã (26/08/2017) se escreve no editorial do South China Morning Post e as reportagens que podem ser vistas no site do jornal só confirmam o que se escreveu) 

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Hato contínuo

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.08.17

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(Centro Cultural de Macau, NAPE)

Quando ao final da tarde de dia 22 saí do escritório e senti o vento fiquei com a noção de que viria aí borrasca. De qualquer modo, a situação não era nova. Em mais de trinta anos já tivera a experiência de passar por dezenas de tufões e este não seria o primeiro de grau 10. Não sei porquê, apesar da chuva que entretanto começara a cair, não deixei de dar a minha corrida e de fazer uma visita rápida ao ginásio.

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 (Mercado Vermelho)

Por volta das 21 horas, para os meus lados, a chuva caía abundantemente. O sinal 3 estava hasteado e era previsível que o sinal 8 lhe sucedesse ainda durante a noite. O vento dava os primeiros sinais da sua presença, silvando ameaçadoramente do outro lado da vidraça. Foi assim durante toda a madrugada sem que deixasse de estranhar o facto de não haver notícia da substituição do sinal que estava içado. Apenas a previsão de que tal poderia vir a acontecer.

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(foto do MDT

As notícias que chegavam de Hong Kong, onde há muito estava içado o sinal 8, com o cancelamento de voos e de carreiras de barco, deixava antever o pior. As cartas mostravam claramente que a rota do Hato iria passar exactamente por aqui e não havia a mínima hipótese de ele se desviar.

Às 7 horas fiquei a saber que o sinal 3 só passaria a 8 pelas 9 horas, o que levou a que muita gente, entretanto, se dirigisse para os seus empregos, visto que só com o sinal 8 há dispensa ao trabalho. Dizem-me que tal aconteceu para permitir a mudança de turno nos casinos. Estaria em causa o negócio, as receitas, portanto. Num ápice se passou do sinal 8 para o 9, e logo a seguir para o 10. Não podia ser de outro modo.

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 (Centro UNESCO, Jardim das Artes)

O vento e a chuva chegavam com cada vez mais força, por vezes mudando repentinamente de direcção. As árvores e arbustos balouçavam violentamente do outro lado dos vidros. Apesar da calafetagem, o barulho do vento e da chuva a baterem violentamente em toda aquela superfície transparente não me deixavam tranquilo. Apercebi-me então de que as primeiras telhas e coberturas de paragens de autocarro começavam a voar. Ouvi alguns vidros estilhaçarem-se, talvez nos andares superiores.

Num momento de acalmia resolvi sair de casa. Fui até à garagem para ver se estava tudo bem. A situação não era brilhante: as cancelas estavam partidas, as portas de acesso ao ginásio estilhaçadas. Na recepção do meu prédio os porteiros lutavam por manterem a porta de acesso à rua fechada. O vento era cada mais violento.

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Regresso rapidamente a casa, ainda com electricidade, e é então que a besta, o Hato, chega na sua máxima força. Enquanto consigo aceder à Internet, recebo os primeiros vídeos e notícias de alguns amigos. A coisa começava a ganhar dimensão. Em diversos locais, nos Jardins do Oceano, no centro de Macau, no NAPE, a situação estava a complicar-se. O rio transbordara. No zona do Mercado Vermelho a água chegou ao primeiro andar e tomou conta das zonas baixas. De repente, a colina diante de minha casa também começou a ficar sem árvores. Há carros a serem arrastados dos seus lugares de estacionamento, motas a voarem, camiões que parecem feitos de cartão e que se viram em segundos, carros a boiar. Um vídeo mostra um homem a tentar impedir a sua camioneta de tombar e a ser estupidamente esmagado. O barulho torna-se ensurdecedor, um estrondo, agora mais outro, há chapas onduladas pelo ar, à altura do décimo andar. Outras, assassinas, junto ao asfalto, que se levantam com o vento como se fossem uma tropa anti-motim que vai percorrendo as ruas, batendo em tudo o que encontra à sua passagem a uma velocidade impressionante.

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Apercebo-me, contudo, que a exposição de minha casa ao vento acaba por não ser a pior, visto que aquele sopra do outro lado do edifício. Há imensos ramos de árvores na varanda, folhas coladas aos vidros, e o vento sempre omnipresente uivando sem cessar. É impressionante. O fornecimento de electricidade e de água estão agora cortados. Não temos acesso à Internet, os telefones da rede fixa não funcionam, o pequeno rádio a pilhas não consegue captar a emissão da TDM. As escassas notícias que recebemos chegam-nos de Hong Kong. Por ali, a situação não parece ser tão grave. Pelas 13 horas está tudo mais calmo, as rajadas diminuem, às 15 é arreado o sinal 10, regressa o 8. A besta está a afastar-se.

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(Acesso ao silo automóvel das Portas do Cerco)

Quando a meio da tarde resolvo sair, para ver o que se passa do outro lado, o cenário é assustador. Dantesco. Vidros partidos, gigantescas gruas partidas e em terra, estabelecimentos comerciais inundados e destruídos, carros sem vidros e todos amolgados, uns a seguir aos outros, autocarros de turismo muito danificados, restos do que foram paragens de autocarro, algumas, poucas, cortinas saindo das janelas, esvoaçando, estruturas metálicas de portas de varandas e de janelas todas retorcidas, e vidros, muitos vidros partidos, por todo o lado. Vejo gente sentada no chão sem saber o que fazer à vida. Gente que viu os seus poucos haveres saírem pela janela. Gente resignada e gente pronta para reconstruir, e também gente que fazia perguntas. Muitas. Porque não içaram mais cedo o sinal 8? Como é possível os vidros partirem-se desta maneira? Porque não avisaram as pessoas do risco de cheia para elas se poderem precaver a tempo?

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(sala de jogo de um casino na zona do Porto Exterior)

As ruas estão um caos, muitas intransitáveis. O lixo é imenso. Às 22 horas, na minha zona, é restabelecido o fornecimento de energia eléctrica. Volto a ter computador e Internet. Da água é que não há sinal. As imagens que vão chegando, fotografias e vídeos, não deixam margem para dúvidas. O grau de destruição foi brutal. Os casinos fecharam portas, há salas de jogo inundadas. Nem os casinos aguentaram. O MGM Macau fechou portas por volta das 15:15. A essa hora o Sands, o Wynn Macau e o Altira já estavam encerrados. O recém inaugurado terminal marítimo da Taipa meteu água por todos os lados. O metro que ainda não foi inaugurado e está há anos em construção, de derrapagem em derrapagem, também foi afectado. Uma parte do Centro Cultural de Macau está destruída. Há enormes bóias negras de sinalização da navegação marítima que voaram da zona portuária e vieram parar a zonas residenciais, algumas jazem no meio do alcatrão. Das Portas do Entendimento desprenderam-se inúmeras placas. Há contentores a boiar e o que aconteceu nos silos de estacionamento automóvel, onde se vê a água a entrar e a correr de tal forma pelo seu interior como se fossem cascatas no Zambeze, é inexplicável. As árvores que tombaram são tantas que não vale a pena contá-las. O alcatrão levantou nalguns locais da Taipa havendo viaturas perigosamente penduradas nos buracos que se abriram. Um estaleiro voou junto ao Jóquei Clube.

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(Rua das Margoseiras, One Oasis)

As imagens de ontem repetiram-se esta manhã pelos locais por onde fui passando. Há quem esteja alojado em hotéis, que aproveitaram para especular com a desgraça alheia, tal como os táxis, verdadeiro exército de bandoleiros que apesar do recente aumento de tarifas continua a impor as suas regras sem que os poderes públicos façam respeitar a lei. Era vê-los a pararem em plena via pública, discutindo o preço e o percurso. O habitual.

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(Terminal Marítimo da Taipa)

Espera-se que não falte dinheiro para a reconstrução, nem apoio para quem perdeu quase tudo. Mas vai ser preciso explicar muita coisa.

Começa a ser claro aos olhos de quase todos que o grau de destruição que se atingiu só foi possível devido à má gestão da coisa pública. Da meteorologia às obras públicas. Porque se é verdade que os vidros das portas e janelas se partiram e que este foi um tufão de grau 10, não será menos verdade, como um amigo engenheiro também recordava há pouco, que estes vidros tinham de resistir porque também existem regras para a construção em zonas expostas. "A velocidade de rajada mínima prevista é de 234 km/hora" e "note-se que quando se fazem os cálculos à ruptura" estes valores são ainda aumentados, havendo legislação desde 1996 que se aplica às construções e prevê a ocorrência de tufões da magnitude daquele que aconteceu. E iguais exigências se colocam "relativamente ao cimbre e estruturas temporárias".

Pois sim. E quem quer saber disso quando o importante é vender um buraco com 50 metros quadrados por dez milhões de patacas (mais de um milhão de euros), mesmo que a casa meta água à primeira chuvada, os acabamentos sejam miseráveis, o isolamento térmico inexistente, o cheiro a esgoto persistente e as portas estejam empenadas?

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(Terminal Marítimo da Taipa)

Enfim, o que este triste evento do Hato colocou em destaque, para lá da incontrolável força da natureza, que a todos transforma em pequenas formigas, foi a má gestão pública. Em especial vem ao de cima a má qualidade de muitos projectos, a péssima construção que há décadas por aqui se edifica, a parca fiscalização do que se faz (dir-se-ia praticamente inexistente para poder merecer esse nome) e a forma criminosa como, com falinhas mansas e cheques de nove mil patacas, se tem desprezado o serviço à comunidade.

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(Passagem superior para o metro de superfície) 

Em todo o caso, vamos agora aguardar para ver se o grau de desresponsabilização política vai ser semelhante ao grau de magnitude da calamidade. E se no futuro se persistirá pelo mesmo caminho, iniciado no tempo da administração portuguesa, em que sempre foi mais importante a forma do que o conteúdo, em que o enriquecimento da casta dirigente, dos seus correligionários privados e dos lobbies associados devia prevalecer sobre a defesa do interesse público. A qualquer preço, como se vê pelo que aconteceu e pelas vidas que inexplicavelmente se perderam.

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(One Oasis) 

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Destroços

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.06.17

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Numa feliz iniciativa do Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong e do nosso mais alto representante por estas terras, com os apoios da Casa de Portugal, do IPOR, da Fundação Oriente, da Super Bock e de algumas entidades oficiais da RAEM, Junho é agora o mês de Portugal em Macau. E nada melhor do que começar este ciclo com uma exposição individual daquele que é hoje um dos mais consagrados artistas nacionais, cujas obras já estão espalhadas pelas sete partidas do mundo. Aproveitando algumas obras anteriormente conhecidas e que integraram a exposição do ano passado em Hong Kong, a qual foi enriquecida com obras novas produzidas para este evento, Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, exibiu uma vez mais todo o seu talento, e da sua equipa, no Centro de Arte Contemporânea das Oficinas Navais.  

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Ouro dos tempos

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.06.17

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Com o patrocínio da MGM Grand Paradise S.A., uma das "subconcessionárias" da exploração de jogos de fortuna ou azar, em Macau, integrada no festival Le French May e como parte das celebrações do 10.º aniversário do MGM Macau, está em exibição no espaço consagrado à arte do hotel propriedade daquela sociedade uma exposição dedicada ao ouro na arte e na vida quotidiana. A exposição tem por título "A Golden Way of Life - Très'Ors" reúne cerca de 150 criações artísticas e artefactos relativos a um período que cobre os últimos 250 anos.

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É assim possível apreciar algumas extraordinárias criações, como o cálice do Abade Théodore Combalot, que esteve em exibição na Exposição Universal de Londres em 1851, e outras peças de arte sacra, incluindo cálices, paramentos debruados a ouro, uma cruz, luvas (chirotecas) e um anel episcopal. Algumas das peças vieram do Museu de Notre-Dame de Fourvière, em Lyon, uma excepcional colecção de relógios dos séculos XVIII e XIX chegou do Museu da Relojoaria de Morteau, para além de uma escultura única de Zadkine – La Jeune Fille à la Colombe –, de jóias de Boucheron, de porcelanas de Sévres, de frascos de perfume que são verdadeiras obras-primas, lado a lado com a primeira gramática sino-latina, alta sapataria e trabalhos de grandes criadores como Paco Rabanne, Schiaparelli e Cavalli.

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 A exposição tem entrada gratuita e estará patente ao público até 3 de Setembro.

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Ultrajes

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.04.17

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 (Ponto Final)

"Estou bastante satisfeito em saber que Macau é [uma terra] próspera. As condições de vida melhoraram bastante. Podemos encontrar hotéis de nível mundial. Sinto que as pessoas estão satisfeitas por viverem em Macau."

 

Não satisfeito com a herança que deixou em Macau, e com aquela que de cá levou, o último governador de Macau, em vez de ficar em lugar recatado e longe dos holofotes, continua a visitar os seus órfãos e viúvas, mostrando-se atento a tudo o que se passa em Macau.

A homenagem que foi prestada pelo Instituto Internacional de Macau ao general Rocha Vieira foi de antologia. De tal forma que por momentos pensei estar a ver na TDM uma cerimónia de agradecimento dos antigos accionistas do defunto Banco Ambrosiano ao seu presidente Roberto Calvi, o "banqueiro de Deus", pelos serviços prestados em prol da causa. Neste caso seria ao "general de Deus". Bem hajam.

Como se isso não bastasse, depois de em tempos ter criticado o movimento democrático de Hong Kong, o que certamente lhe valeu os maiores encómios em Beijing, veio agora dizer que as condições de vida em Macau melhoraram bastante. E não se referia ao número de missas. Creio que por cá, com excepção de Ao Man Long e do antigo Procurador, mesmo ao nível do Governo da RAEM, ainda ninguém se deverá ter apercebido disso. O general continua perspicaz.

Da entrevista ao Clarim não se percebe é se isso lhe foi transmitido pelo agradecido dr. Jorge Rangel, se por aquele punhado de bravos que com ele amesendaram no templo do Clube Militar, mas a associação da qualidade de vida dos residentes aos hotéis que temos deve fazer todo o sentido. O Governo da RAEM e os responsáveis pela habitação social, aliás, em vez de se preocuparem em arranjar terrenos para a habitação social, dando cabo dos esquemas aos especuladores e metendo em trabalhos os escritórios de advogados da terra, deveriam construir mais hotéis para alojarem os residentes que não conseguem arranjar os meios para obterem uma habitação decente.

É evidente que a Igreja de Macau e Paul Pun (que escreve coisas tão hilariantes como estas: "Besides, Caritas Macau has successfully bided to host the “Food Bank” services sponsored by Family and Community Department of the Social Welfare Bureau. An agreement of “short-term food assistance services” was signed for a period of two years in September 2011. This service is named “Centro do Serviço de Fornecimento Temporário de Alimentos da Cáritas” to help individuals or families in need of emergent food assistance. In a short period of three months (to the end of year), the service benefited more than 2000 people. Looking ahead, besides food assistance, “Food Bank” would develop enhanced service to encourage and help the clients to become more self-reliance. Macau's rapid economic growth has sharply increased rental price in private housing sector. Housing problems has become an annoying issue to the grassroots. Last year, Caritas Macau received a significant rise in housing assistance enquiries. Many residents were forced to move out their rental apartment because of the highly increased rental fee. We hope the SAR Government will step up efforts to care about the housing needs of the public and introduce effective measures to help the grassroots in solving their housing problem. Authorities has stressed that, to the end of 2012, the promised ninteen thousand public units would be achieved. We expect the allocation of public housing would be fair in future, and to be able to alleviate the plight of the grassroots.") também ainda não se aperceberam dessa melhoria das condições de vida da população. E é por isso que para além da colecta normal que se realiza durante as missas há uma colecta extraordinária a favor da Caritas.

Eu sugiro que da próxima vez o general Rocha Vieira diga essas coisas mais alto. Ou, se não conseguir fazê-lo, que peça ao Dr. Rangel ou ao Guilherme Valente para fazê-lo. Eles são homens disponíveis e sempre prontos a ajudá-lo nestas pequenas coisas.

O essencial é que continue. E que iludindo o avanço da senilidade, típica em pessoas da sua idade, continue a papagear a cartilha oficial.

Oxalá que para o ano o Instituto Internacional de Macau traga de novo a Macau o general Rocha Vieira. Para que ele possa experimentar os novos hotéis. O "13" vai ser a menina dos olhos do pessoal da Areia Preta.

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Uma escolha decente

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.03.17

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Os acontecimentos dos últimos dias impediram-me de dizer alguma coisa mais cedo, mas faço-o agora porque no meio de tanta tristeza e desconhecendo por onde passará o futuro, é bom saber que ainda existem referenciais de segurança e confiança. O Rodrigo Brum é um deles. A sua escolha para representar Portugal no Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau) é uma escolha mais do que merecida.

Com um percurso académico e profissional feito de trabalho, sem filiação partidária, empenhado e competente nos assuntos em que se envolve, leal a Portugal e aos seus valores, e não a homens ou organizações, com experiência de gestão, de análise de projectos e de gestão criteriosa de fundos, conhecedor da China, de Macau e dos Palop, sério e avesso a trafulhices, o Rodrigo foi uma escolha que honra os homens de bem, que só honra quem o escolheu.

De nada valeram as influências dos partidos, nem os emissários que foram apressadamente a Lisboa para mexerem cordelinhos junto do Governo português. Desta vez não entrou um dos paus-mandados, um dos homens de mão. A escolha do Rodrigo Brum foi uma escolha decente. A decência da escolha sobrepôs-se à habitual indecência das influências.

Bom trabalho para ele, porque os seus êxitos serão os de todos, a começar pelo Fórum.

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O ardina viajou

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.03.17

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Eu estava hospedado no central Metrópole. Já nos conhecíamos, mas naquele dia quente e húmido de Junho de 1993, ele veio buscar-me ao hotel, para irmos jantar, no belíssimo Saab 900 turbo, azul escuro, com os estofos de cor creme, que me ficaria na retina e viria a ser o meu carro nos anos seguintes.

Tratava-se de acertar os termos da minha contratação, qual mini-estrela do universo da advocacia lisboeta, com experiência anterior da Administração de Macau, referências de boa vizinhança nos anos em que cá residira, quando era apanhado logo pela manhã à porta do elevador com a sua mulher a dizer-me que a música era boa. E eu envergonhadíssimo pelo volume de som que saía das sinfónicas ou das vozes, então de Brel, Ferré e Brassens, que tomava conta do patamar de acesso aos elevadores, ali na Rodrigo Rodrigues.

Sempre impecável na simpatia e na afabilidade do trato, acertámos o pouco que havia, verbalmente, como é timbre entre homens de bem, e passados dois meses eu desembarcava de novo em Macau para me atirar de corpo e alma ao escritório que nessa época ficava no edifício da Nam Kwong, na Almeida Ribeiro, onde éramos vizinhos do Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês.

Macau dera o salto da pequena vilória colonial da era pré-Almeidista, com pretensões a cidade, para a metrópole consolidada do final do século XX que crescera fora do espaço que lhe estava destinado, espremida entre a zona de aterros do porto exterior, mais a dos novos aterros e os que haveriam de vir a sê-lo mais alguns anos volvidos.

Nesse tempo, a Assembleia Legislativa (AL) era uma máquina de produção legislativa, atenta, rigorosa e eficiente que causava problemas à inércia governativa, aos amanuenses da Praia Grande e gelava os paninhos quentes com que alguns queriam tratar dos assuntos que interessavam a Macau e aos seus cidadãos.

Aqui demandavam os melhores e mais pragmáticos homens do direito. Não havia tempo a perder, nem lugar para protagonismos. Era tempo de combate. Era preciso tomar conta das acções em curso, preparar novas petições, analisar contratos, acompanhar as questões do aeroporto e da AL, ler os pareceres, formular uma opinião sobre os caminhos a seguir. E depois começaram as escrituras e impunha-se tomar conta daquilo tudo.

Não me perdi. Com o apoio de uma querida amiga, com o beneplácito do Rui, fui tratando de desempenhar as minhas tarefas com a competência e o brio de quem, acabado de chegar depois de um interregno de três anos, vinha disposto ao trabalho no escritório do parceiro contratante para que ele se pudesse dedicar por inteiro às questões da transição.

Anos antes, depois de uma reunião no Palácio do Governo, onde também funcionava a AL, discutíramos as primeiras questões do bilinguismo e as perspectivas do Prof. Heuser (Heidelberg), e quando em Novembro de 1989 me predispusera a regressar à pátria, ele teve a gentileza de nos convidar – à saudosa Lurdes, ao meu amigo Pedro Horta e Costa e a mim –, para almoçarmos na Galera, em jeito de despedida.

Nesse primeiro interregno da minha vida macaense continuei a contactar com o Rui, com o Frederico e o com o Francisco, prestando alguns serviços avulsos para uma pequena sociedade que tinham em Portugal. Foi pouco no volume e no valor, muito na solidariedade e no apoio a quem queria ingressar, sozinho, no complicado mundo da advocacia lisboeta, respeitando escrupulosamente as regras deontológicas. Creio que nunca lhes agradeci devidamente o que então por mim fizeram.

O regresso em 1993 foi, pois, mais fácil. Todas as questões se resolviam com uma aparente facilidade graças às referências que o Rui possuía e ao extenso conhecimento que tinha de leis, regulamentos, fontes e tudo o mais que era necessário num dia-a-dia onde não nos podíamos dar ao luxo de perder demasiado tempo com rodriguinhos. Havia o trabalho na AL, os actos notariais, os tribunais, o acompanhamento da imprensa, os contratos do aeroporto, as tertúlias e os tempos de descanso, que nisso o Rui tratava os trabalhadores como príncipes. Ninguém se queixava, e ainda havia a sua eterna boa disposição.

O pior era lá fora, na selva, onde o tráfico de influências, as negociatas, o compadrio, o clientelismo, os generais, os coronéis, os seus avençados e as seitas campeavam. Sabendo que o mundo não iria terminar no dia seguinte, e que a 1999 se seguiria 2000, a tudo isso o Rui resistiu. Com a maior das facilidades e sorrindo com desdém aos merceeiros que se deixavam vender por pataca e meia e uma quota num terreno. Depois, quando foi necessário assegurar informação credível e transparente lá surgiu o Futuro de Macau. Cumpriu a sua missão com seriedade. Outra coisa não seria de esperar.

Preocupado como estava com esse mesmo futuro, o Rui não se poupou a esforços. Eram leis e relatórios, múltiplas reuniões, mais o Conselho Superior de Justiça e até, por pouco tempo, a presença no Conselho Superior de Advocacia. Durou pouco a sua presença em tal órgão, de onde se demitiu. Fazer de corpo presente não era com ele. Hoje, alguns do que lamentam o seu trágico e prematuro fim foram os mesmos que ao melhor jeito estalinista eliminaram as suas referências na AAM. Como se ele não tivesse sido um dos primeiros, como se não tivesse, também ali, dado o seu melhor e não tivesse sido fundamental para que a AAM tivesse adquirido o estatuto que teve e, entretanto, tem vindo a perder. O Rui nunca ligou a essa desfeita que lhe fizeram. Eu protestei, sem sucesso, com os vários pastores que por lá passaram, mas estes nunca me deram resposta, e aquele rebanho seguiu pastando para onde o mandavam. Por isso, hoje, os tribunais estão como estão e o português assume cabisbaixo, não fora o esforço de alguns magistrados na sua preservação, o estatuto de língua morta perante a horda de ruminantes que dele tomou conta. Chorai, pois, que lenços não faltarão e sempre sobrarão as mangas das camisas quando aqueles forem levados pela corrente. O agravo não ficará com quem já partiu.

Como director dos SAFP deu o pontapé de saída para a reforma da administração, para dotar Macau de quadros capazes, competentes e bilingues. Foi acima de tudo um homem preocupado com os problemas da localização e autonomização jurídicas de Macau. Para o Rui, seria impensável deixar um sistema à mercê do que viesse de Cantão ou Fuquien, ou sujeito aos humores de um qualquer serventuário do poder ou do partido. Macau e as suas gentes, de qualquer origem ou etnia, e a dignidade de Portugal e dos portugueses que aqui vivem e trabalham deviam ser os únicos referentes, a marca indelével dos séculos e dos que aqui nos precederam entrando e saindo de cabeça erguida.

A revisão de 1990 do Estatuto Orgânico, a lei de imprensa, toda a legislação penal avulsa, dos animais às associações criminosas, a defesa intransigente dos direitos e garantias dos cidadãos de Macau, que se dúvidas houvesse ficou plasmada no relatório do financiamento da Fundação Oriente e, pouco depois, em 2000, quando nos estúdios da TDM sugeriu a devolução do dinheiro da Fundação Jorge Álvares à RAEM como única saída decente para o esbulho feito às gentes de Macau. Da pouca vergonha do Instituto Internacional de Macau e do caminho seguido pela Escola Portuguesa é escusado falar agora.

Também a Fundação D. Belchior Carneiro lhe deve hoje o belíssimo lar-residência de Oeiras, depois dele, do João Frazão e de eu próprio desbloquearmos o imbróglio do terreno que havia sido impingido aos irmãos da Santa Casa pelo belga, em leito de cheia e com o “aval”, como sempre, da Administração de Macau.

É bom recordar tudo isto agora que o último figurante da administração portuguesa, o reservista ao serviço da EDP, aqui desembarcou, iniciando nova romaria para rever a sua pandilha local a pretexto da Escola Portuguesa. Já se adivinha, de novo, o cheiro a barbecue.

Enfim, que hei-de eu dizer nesta hora triste em que vejo partir um amigo que me acompanhou ao longo de trinta anos, que me ajudou na vida e na carreira, que contribuiu com as suas ideias e achegas para o meu sucesso académico e que me abriu sempre as portas de sua casa como se fosse a minha.

O legado de um homem cujo sentido da honra e da dignidade estão acima dos circunstancialismos de conjuntura é sempre de difícil avaliação. Mas foram esses mesmos valores que o impediram de dobrar a cerviz a troco de medalhas, de tostões ou de milhões, como fez quando recusou ser advogado em regime de avença dos interesses do jogo. O Rui não estava para aturar tipos que acham que os milhões que ganham lhes dão o direito de pedir favores e de telefonar às 3 ou 4 da manhã de um spa em Las Vegas para insultarem o advogado que não lhes reconheceu as assinaturas nuns contratos manhosos num inglês mal redigido e destinados a uma terra onde se fala em português e chinês. Negociatas de bordel, golpadas e moscambilhas nunca foi com ele. A gente anda na rua e fala com as pessoas.

Quando se demitiu da AL, em ruptura com o soba colonial, estava preocupado com as questões da segurança, embora soubesse que Portugal se afundava em negociatas de sanitas, aquisições de quadros com dinheiros públicos por troca com facturas de livros e restauros de peças antigas que nunca regressaram, mas fê-lo com a lealdade de sempre. O Rui dispensava o comprometimento do seu nome e a reputação do escritório nos cambalachos de fim de ciclo do império. Por isso a CNN ou a imprensa estrangeira que vinha a Macau queria conversar com ele.

Da falta de alinhamento com as negociatas nos ressentimos todos lá no escritório, quando o trabalho escasseou à laia de represália. E também aí, nessa altura, não lhe foi ouvido um ai. Um senhor. Como também não foi ouvido quando numa auto-estrada, depois de um acidente, foi em auxílio dos outros, suportando a explosão de um outro carro em chamas para ver as mãos e a cara queimarem-se-lhe, sofrendo depois enxertos vários em Coimbra, para poder salvar uma mulher inconsciente que estava dentro de um veículo acidentado. Antes dos bombeiros chegarem. Ou agora, como ainda há dias o vi, lutando estoicamente, lutando como só um herói sabe fazer, mantendo sempre a compostura, a dignidade e o sorriso apesar de ver ali o seu próprio corpo ser corroído pela dor e a ingrata antecipação do fim a chegar.

O Rui nunca foi de fazer fretes porque era um homem sério e honesto como poucos. Porque teve a consciência em todo o seu percurso da necessidade de se preservarem princípios e valores, porque sabia que estes, ao longo da vida, não necessitam de segurança pessoal, e dispensam a pertença a igrejas, a seitas, a partidos ou a associações discretas. Em rigor, o Rui comportava-se sempre como o verdadeiro anarquista que nunca foi mas que no íntimo lhe espreitava.

Devo-lhe a amizade, a camaradagem, a confiança sem limite no meu trabalho, o estímulo e a palavra amiga na hora certa. E também o trabalho diário de ardina digital junto dos seus amigos, trabalho a que nem a doença retirava o humor após meses de sofrimento. Na primeira aberta, mesmo depois de doente e entre tratamentos, lá chegava o e-mail com o anexo e uma única frase: “o ardina está de volta”. Até ao fim, o Rui teve sentido de humor. O Rui foi um dos poucos duros que conheci em toda a vida, que sorria e inspirava qualquer que fosse o combate e o estado das tropas. Até a um céptico como eu.

Três décadas de convívio depois, vendo-o partir assim, desta forma apressada, inacabada, sem jeito, com tantos livros para lermos e discutirmos (o último que aqui tenho é “O que resta da esquerda?”, do Nick Cohen), tantos filmes para comentarmos (irei ver “O Silêncio” logo que possa), sem tempo para ele poder assistir à discussão do trabalho que me consumiu, envelheceu e roubou horas ao nosso convívio dos últimos anos, torna-se mais imperioso do que nunca assegurar-lhe que iremos todos continuar a discutir os milhões que vão para a Universidade de Jinan, os que à custa do desinvestimento na saúde pública de Macau contribuem para dinamizar a incompetência grosseira, encher os bolsos de clínicas e hospitais privados de onde um dia começarão a nascer os cogumelos dos novos casinos. Esses e todos os outros.

Enquanto os grilos locais tecem loas em seu nome e agitam a casaca negra entre missas, nós continuaremos a resistir. E a olhar por esse imenso legado. Na língua em que nos deixarem. Sem receio de perdermos alguns amendoins.

Porque no fim, o que verdadeiramente importa, como sempre nos importou, são os nossos. Os nossos valores, os nossos princípios, a nossa gente, que são aqueles com quem nos cruzamos no dia-a-dia, os que nos vêm bater à porta com um pedido de ajuda, os injustiçados desta vida, os que todas as manhãs nos dizem bom dia olhando-nos nos olhos.

Até ao fim, sans Dieu ni maitre, como cantou o Ferré, cá estaremos, Rui. Honrando a memória e o legado. Com os que estiverem connosco às sextas-feiras. E nos outros dias. À alvorada, se necessário. Continuando a percorrer os trilhos e as veredas incertas da vida com o mesmo à-vontade. Como homens livres que sempre fomos. Até ao fim. Resistindo sem quebrar. Como o bambu. Como tu fizeste, como só tu soubeste ser. O melhor dos ardinas. Até ao fim, sorrindo, sorrindo sempre.

Macau, 19 de Março de 2017

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 (também no HojeMacau)

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Um pesar doentio

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.01.17

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Xinhua News Agency | Sun, 2017-01-08 MACAO, Jan. 8 (Xinhua) -- Chui Sai On, chief executive of China's Macao Special Administrative Region (SAR), on Sunday expressed his deep sorrow for the passing of former Portuguese president Mario Soares and great condolences to his family.

Soares had deep relations with Macao and he would be remembered forever, Chui said, noting that Soares had visited Macao three times. (...)

 

Xi expressed deep grief over the passing of Soares and his heart-felt condolences to the relatives of the former president.

The Chinese president hailed Soares as a great statesman and an old friend of the Chinese people, who had made great contributions to the establishment of China-Portugal diplomatic relationship and its growth, as well as the settlement of the Macao issue.

China pays great attention to developing relations with Portugal, and is willing to work together with the Portuguese side to enhance cooperation in different fields, and further promote bilateral ties, Xi added. (...)” (XINHUA NEWS AGENCY, 10/01/2017, 22:11:47)

 

Chinese Premier Li Keqiang on Tuesday sent a message of condolences to his Portuguese counterpart, Antonio Costa, over the death of former Portuguese President Mario Soares.

On behalf of the Chinese government and the Chinese people, Li expressed deep grief to the Portuguese side and extended sincere condolences to Soares' family.

Soares was a highly respected statesman in Portugal and made great contributions to China-Portugal friendship and cooperation, Li said. (...)” (XINHUA NEWS AGENCY, 10/1/2017, 22:37:52)

 

Na sequência do falecimento de Mário Soares, homem de Estado, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Primeiro-Ministro e Presidente da República portuguesa, que entre outras coisas nomeou os últimos três governadores de Macau, isto é, aqueles que prepararam e conduziram a transferência de administração de Macau para a R. P. China, José Pereira Coutinho, deputado da Assembleia Legislativa, achou por bem apresentar um voto de pesar pelo falecimento daquele português.

Tratava-se, através dessa forma singela, aliás prática normal nos parlamentos dos estados civilizados, de homenagear alguém que em vida foi importante pelas suas acções, enquanto político e homem de Estado, manifestando o reconhecimento pelo seu papel, pela amizade, a solidariedade e o acompanhamento na dor àqueles que acabaram de sofrer a perda.

À partida, nada faria prever aquilo que aconteceu. Em especial, depois do Presidente chinês, do Primeiro-Ministro da R.P.C. e do próprio Chefe do Executivo da RAEM terem transmitido as suas condolências, a sua “profunda tristeza” (“deep sorrow”) e “profunda dor” (“deep grief”) pelo falecimento de Soares, aproveitando a ocasião para sublinharem o seu papel no aprofundamento das relações com a China e com Macau, enaltecendo o seu contributo para a resolução de uma questão legada pela história, que era a questão de Macau.

Recorde-se que em todos os momentos a R.P.C. enfatizou a forma exemplar como a transição foi conduzida e a questão de Macau resolvida, pelo que seria da mais elementar justiça que a Assembleia Legislativa de Macau, pela iniciativa de Pereira Coutinho, do seu presidente ou de qualquer outro deputado, a começar pelos nomeados pelo Chefe do Executivo, tomasse a iniciativa de apresentar esse voto de pesar.

Estranhei, pois, quando ao final do dia de ontem (16/01/2017) ao ouvir as notícias me apercebi de que o voto de pesar apresentado pelo deputado Pereira Coutinho na sessão plenária da Assembleia Legislativa de Macau fora votado por apenas 20 deputados, de um universo de 33, e que daqueles que votaram só 13 o fizeram favoravelmente. Ou seja, menos de 40% dos deputados da Assembleia Legislativa de Macau votou favoravelmente o voto de pesar por Mário Soares. E, coisa nunca vista em relação a um morto que foi só o mais importante homem de Estado português do pós-25 de Abril, o único a quem Portugal concedeu, desde 25/04/1974, um funeral com honras de Estado, o voto de pesar conseguiu reunir cinco manifestações contra e fez com que faltassem à votação tantos quantos os que entenderam votar favoravelmente o pesar (13 deputados). Gostasse-se ou não do cavalheiro, Soares foi um dos que teve um papel mais decisivo para que a transição de Macau se processasse em termos susceptíveis de aplauso internacional e em termos que cimentassem a credibilidade dos Estados envolvidos no plano das relações internacionais.

Para além das inexplicáveis ausências e votos contra, houve duas abstenções. Quanto a estas verificar-se-á que vieram de deputados ligados à Associação dos Operários (Kwan Tsui Hang e Lei Cheng I). Abstiveram-se mas podiam também ter votado contra, visto que os cinco votos contra também vieram todos de sectores tradicionais ligados aos interesses comerciais, ao empresariado mais conservador, às associações de operários, aos moradores, à associação de educação e à das mulheres, e às ricas e poderosas associações de beneficência, como a do Hospital de Kiang Wu e a Tung Sin Tong.

Compreendo que para quem cresceu e singrou no obscurantismo, à sombra dos poderes tradicionais, enredado e prisioneiro de um sistema semifeudal como este que ainda hoje vigora nas margens do Rio das Pérolas, seja difícil compreender o significado das sinceras mensagens de condolências enviadas a Portugal, aos seus representantes e ao seu povo, pelo Presidente da R.P.C., pelo Primeiro-Ministro Li e pelo Chefe do Executivo da RAEM.

Mas mais aberrante e inexplicável é entender o que leva o Presidente da Assembleia Legislativa, que é membro do 12.º Comité Permanente da Assembleia Nacional Popular, a abster-se e o Vice-Presidente, Lam Heong Sang, a votar contra.

Eu não quero pensar que aquela gente que votou contra e a que se absteve num voto de pesar de tão grande significado afectivo para as relações entre Portugal e Macau e entre aquele país e a R.P.C. não tenha percebido que em causa não estava a revogação da lei eleitoral ou a marcação de eleições por sufrágio directo, mas apenas uma coisa tão simples quanto um voto de pesar. Uma manifestação de dor, de sofrimento e de solidariedade para com um povo amigo.

Mas ainda mais censurável foi a atitude dos treze deputados que resolveram arranjar outra coisa para a fazer à hora da votação, entre os quais quatro deputados nomeados, mais cinco vindos do sufrágio indirecto e quatro do sufrágio directo. De alguns destes já se sabia que o seu apego a Macau, à amizade luso-chinesa, e o seu apregoado patriotismo tinham tanto de sincero quanto têm de amor às patacas, aos dólares ou a qualquer outra moeda cuja cotação esteja em alta e seja susceptível de entrar nos seus bolsos. Mas quanto a outros ficará apenas a marca da ingratidão e da hipocrisia. O morto serviu enquanto serviu os seus interesses. Enquanto lhes propiciou honrarias, negócios, obras e contratos. Agora que morreu já não serve.

Tanto quanto me apercebi não houve sequer sugestões de alteração na redacção do voto ou nos seus fundamentos, de maneira a que pudesse haver consenso na hora de votar e não fosse transmitida para o exterior a triste imagem (mais uma) que deixaram.

O voto de pesar que a Assembleia Legislativa de Macau ontem aprovou com 13 ausências, 5 votos contra e 2 abstenções ficará para sempre registado como um dos mais tristes episódios daquela casa que durante tantas décadas foi um símbolo da autonomia de Macau e da vontade das suas gentes.

Hoje, a Assembleia Legislativa de Macau não passa de uma câmara anódina de composição de interesses sectoriais, onde a vontade e os interesses do povo de Macau ficam à porta para não perturbarem os interesses das elites instaladas que vivem à conta da sua exploração e consideram que a perpetuação de sistemas iníquos de injustiça e afronta aos seus cidadãos serve os interesses da R.P.C.. Não serve. E para além de não servir opõe-se ao que é pretendido pela R.P.C. para Macau.

Na fotografia que fica não é a R. P. C. que sai mal. Porque foram eles, deputados, e não a R.P.C., que não compreenderam o sentido do voto de pesar. Foram eles quem faltou na hora da chamada, quem votou contra e quem se absteve. Foram eles que quiseram ser mais papistas do que o Papa. Podiam ter manifestado a sua discordância, esclarecido as suas razões. Uma vez mais preferiram o silêncio e a fuga. Com isso mostraram quão falsas são as suas próprias juras de fidelidade a Macau e à amizade luso-chinesa. E como não são representativos nem dos interesses da população em geral, que preza a relação com Portugal e muitos estão-lhe agradecidos, em especial a Soares, por lhes ter proporcionado a oportunidade de viverem em Macau, evitando que fossem recambiados quando não tinham documentos para aqui permanecerem, nem as comunidades residentes com raízes macaenses e portuguesas, que não poderão deixar de encarar a atitude daqueles senhores deputados como mais um sinal de ingratidão.

Não para com Mário Soares, mas para com os portugueses em geral. Para com o povo português e para com todos os que falando português aqui vivem, trabalham e contribuem para a riqueza e diversidade de Macau. Mesmo os portugueses que não votaram ou que podem ter ficado com razões de queixa do Mário Soares político não deixarão de sentir esse voto de pesar que a A.L. aprovou como um voto pastoso e de falsa dor na hora de ser transmitido. Um voto de pesar doentio e sem qualquer significado, sinal de uma maior miséria moral como a que diariamente, até nestes pequenos gestos, se abate sobre a RAEM.

(Hoje Macau, 20/01/2017)

 

Nota: Fui hoje informado de que alguns dos ausentes estariam em serviço fora da Região. Admito que desses tivesse havido mais alguns que votassem favoravelmente. Pena é que tal esclarecimento não fosse prestado anteriormente em termos oficiais, de maneira a que a comunicação social também desse conta desse facto. O que, de qualquer modo, não serve de justificação para os votos contra e as abstenções.

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Três livros (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.12.16

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 "(...) [G]ostaria desde já de chamar a vossa atenção para as citações iniciais da obra que de uma forma simples nos introduzem naqueles que são os grandes debates, não só da imprensa portuguesa em Macau, mas do jornalismo e dos media em geral, o que eu resumiria em quatro pontos:

 1. Qual o papel do jornalista no mundo contemporâneo;

 2. Como podem os cidadãos reconhecer a verdade na informação que lhes chega;

 3. Qual o sentido da actividade jornalística;

 4. Como lidar com o gigantesco caudal informativo que nos inunda o quotidiano.

O livro não responde a estas quatro questões, antes nos alerta para elas e para o trabalho de quem faz a imprensa, alcançando-o de um modo singular. Isto é, recorrendo ao passado recente para nos dar uma panorâmica nos seus sete capítulos das diversas fases por que passou a imprensa portuguesa em Macau, das suas preocupações e linhas de orientação, indo até à situação profissional dos jornalistas. Desse modo, é-nos permitido inteirarmo-nos das dificuldades e vicissitudes por que a classe passou e que a preocupam, bem como sobre os seus dramas, incertezas e perspectivas, tarefa executada sem esquecer uma abordagem dos principais instrumentos jurídicos que regulam, ainda que imperfeitamente, a profissão, o que é conseguido pela mão experiente do Dr. Frederico Rato.

Para além de registar o cuidado colocado na investigação e redacção dos textos de José Carlos Matias — que me fez regressar aos anos conturbados do vieirismo tardio —; de Diana do Mar — dando conta das dezenas de jornalistas que fizeram da Tribuna, do Ponto Final e do Hoje Macau o que são e de como na adversidade é possível trilhar um caminho —; de Sónia Nunes — cujo sintetismo e espírito analítico importa ressaltar; de Marco Carvalho — que nos deixou um retrato cuidado da nova classe —; e de ter havido o cuidado de se registar a opinião de quem lê a imprensa; do conjunto de capítulos do livro saliento, em especial, a interessante abordagem que é feita em "Olhares cruzados sobre a imprensa", onde o Prof. João Figueira conversa com os directores dos jornais Tribuna de Macau e Hoje Macau, com o editor do Clarim, com o director de uma empresa de publicações e consultoria, com o chefe de informação e programas portugueses da TDM-Rádio Macau e com um jornalista que sendo hoje proprietário de um jornal também foi seu director.

Aspectos como a subsidiação pública, o reflexo desta na liberdade de imprensa, a formação e o percurso de profissionais que demandaram Macau não foram descurados, o que contribui para a actualidade e acutilância da discussão, oferecendo-nos uma imagem rigorosa do salto qualitativo que ocorreu com a injecção de sangue novo.    

Como o título da obra denuncia, a abordagem é feita na perspectiva dos últimos quinze anos, prazo relativamente curto para historicamente se retirarem conclusões. É, todavia, tempo suficiente para se adquirir uma visão global das incertezas e se poder projectar o futuro, que é aquilo que hoje preocupa jornalistas, editores e os cidadãos de Macau em geral, entre os quais me incluo. (...)" (Excerto das notas que guiaram a apresentação que me foi confiada, 05/12/2016, Fundação Rui Cunha)

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Três livros (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.12.16

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Com a chancela da Hong Kong University Press, foi lançado na semana passada e posso dele dizer que se trata de mais um trabalho incontornável dirigido por Geoffrey C. Gunn, o emérito professor da Universidade de Nagasaki, senhor de uma vasta obra publicada sobre a Ásia e que vai da Ciência Política à Antropologia.

É certo que não se trata do seu primeiro trabalho dedicado a Macau ou a antigos territórios portugueses, mas desta vez tem a particularidade de, para além do seu contributo, incluir textos de João Botas, Roy Eric Xavier e Stuart Braga. Como se escreve na Introdução, os dados e a informação existentes sobre o período da II Grande Guerra em Macau estão fragmentados e aparecem normalmente dissociados de uma visão global, lacuna que o livro se propõe preencher desvendando por que razão, ao contrário de Hong Kong, Macau conseguiu evitar a ocupação japonesa.

Laborando sobre materiais em inglês, português e japonês, a investigação agora conhecida reúne o trabalho de um conjunto de autores que tiveram acesso a diferentes arquivos e constitui a primeira tentativa para situar Macau, a Casablanca do Oriente, no tempo de guerra, no contexto da situação internacional ao tempo vivida e da sua importância no funcionamento dos eixos Tóquio/Berlim/Lisboa e Washington/Londres/Lisboa. Explica o editor que a obra pretende fazer luz sobre aspectos menos conhecidos e ao mesmo tempo abrir novos caminhos de investigação, os quais serão de certo modo tributários da sua experiência como conselheiro das Nações Unidas no apoio à Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação de Timor-Leste, em meados de 2003, onde foram obtidos dados, documentos e testemunhos sobre aspectos ignorados relacionados com o período de invasão e ocupação indonésia, mas que deixaram de fora o que se relacionava com a ocupação japonesa. 

Gunn escreveu os capítulos 1 (Wartime Macau in the Wider Diplomatic Sphere), 3 (Hunger amidst Plenty: Rice Supply and Livelihood in Wartime Macau), 6 (The British Army Aid Group (BAAG) and the Anti-Japanese Resistance Movement in Macau), bem como o epílogo e a conclusão. O capítulo 2 é da autoria de João Botas e tem por título Macau 1937-45: Living on the Edge: Economic Management over Military Defences, ficando os capítulos 4 (The Macanese at War: Survival and Identity among Portuguese Eurasians during World War II) e 5 (Nossa Gente (Our People): The Portuguese Refugge Community in Wartime Macau) para Xavier e Braga, respectivamente.

O tamanho escolhido para a letra podia ser maior, mas tal pecadilho, bem como as gralhas na ortografia de alguns termos portugueses, não retira nem o interesse à obra, nem o imenso prazer que da sua leitura se pode extrair. 

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Dias épicos

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.11.16

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O modo como se tinham comportado nos treinos e como geriram as suas passagens pela pista faziam antever uma jornada competitiva e que deixava em aberto a possibilidade de no final surgirem nos lugares da frente. O que ninguém esperava é que dois dos melhores pilotos portugueses da actualidade fizessem um interregno nas suas corridas habituais para se proporem vencer em categorias onde habitualmente nem sequer competem duas das três principais provas do cartaz deste fim-de-semana da 64.ª edição do Grande Prémio de Macau.

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Depois de Tiago Monteiro se impor categoricamente na última prova do Campeonato do Mundo TCR, averbando o primeiro triunfo português numa corrida de carros de turismo na Guia, ao volante de um Honda, foi a vez de António Félix da Costa mostrar toda a sua classe e dizer a todo o mundo, em especial a muitos patrocinadores que continuam a apostar milhões em pilotos sem um décimo do seu talento, por que merece ter um volante na Fórmula 1. Félix da Costa, o “Formiga”, venceu sem apelo nem agravo as 15 voltas da Taça do Mundo de F3, a seguir a ter vencido ontem a corrida de classificação para a prova de hoje. As suas ultrapassagens ficarão por muitos anos na retina de quem as viu e são um verdadeiro manual da arte de bem conduzir.

Tiago Monteiro e Félix da Costa (este último inscrevendo pela segunda vez o seu nome entre os vencedores) foram absolutamente imperiais e bastava ouvir os comentários dos jornalistas britânicos ou italianos para se perceber o quanto haviam sido brilhantes. Hoje foram os canais televisivos de Hong Kong, da China e do Japão a darem a notícia. Amanhã, os jornais desportivos de todo o mundo assinalarão mais este feito que encheu de emoção, satisfação e contentamento os portugueses que estiveram por estes dias no mítico circuito e onde por duas vezes a bandeira nacional subiu no mastro mais alto em provas organizadas pela FIA (Federação Internacional de Automobilismo).

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Deixo aqui também uma palavra especial para o André Pires, que com galhardia e muita coragem correu na prova comemorativa dos 50 anos do Grande Prémio de Motociclos, bem como para o André Couto, que correndo com um carro novo e que conduziu pela primeira vez em Macau, voltou a estar ao seu nível, levando um Lamborghini que “não andava” e com problemas de afinação nas suspensões até ao final da corrida da Taça do Mundo de GT, corrida prematura e inexplicavelmente terminada devido a uma decisão administrativa que ainda vai fazer correr muita tinta.

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2016 poderá não vir a ser o melhor ano de sempre do automobilismo nacional (Pedro Lamy, João Barbosa, Álvaro Parente, Filipe Albuquerque, Rui Águas, entre outros, também conseguiram resultados notáveis), mas vai ser recordado durante muitos anos como um ano de corridas inesquecíveis, com resultados tão espectaculares que desmentem os habituais cépticos. E que servem para dizer que com armas iguais às dos outros os portugueses, senhores do seu destino, até conseguem ser muito melhores do que a concorrência alemã, inglesa, francesa, holandesa, espanhola, sueca, finlandesa, russa ou italiana. É só darem-lhes uma oportunidade.

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Konstantin Bessmertny

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.11.16

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"Descendente da terceira geração de colonos que, em 1907, se mudaram para o Extremo Oriente vindos das zonas ocidental e central do Império Russo", em 1992 desembarcou em Macau. Vinha de Vladivostok, onde estudara na Academia Estatal de Artes do Extremo Oriente e cumprira o serviço militar, do qual fora desmobilizado um ano após o anúncio da "Perestroika". Acabaria por se radicar no antigo território sob administração portuguesa, montou o seu atelier, instalou-se com a família e cresceria até se tornar no artista ímpar que hoje é. Ao dizê-lo sei que estou a tornar mais difícil para mim próprio a aquisição das suas obras, mas o seu talento exige que lhe seja dada a dimensão que merece.

Tive a sorte de conhecê-lo em meados da década de noventa do século passado e de um dia ficar com uma das suas telas, desde logo apaixonado pelo seu traço, pela sua cor e pela criatividade que constitui uma das suas imagens de marca e faz com que não me canse de lhe apreciar o trabalho e invejar a maestria. Mas, para além disso, o pintor é um homem livre, um homem de cultura e de carácter, qualidades que muito lhe aprecio. Sou, portanto, suspeito e pouco isento ao escrever estas linhas, o que confesso em nada me perturba porque considero que a qualidade da sua obra fará dele, seguramente, um dos mais incontornáveis pintores contemporâneos.

O trabalho multifacetado que desenvolveu ao longo dos anos está desde ontem em exposição no Museu de Arte de Macau e merece ser conhecido e divulgado. Bem sei que Konstantin está presente no Museu do Oriente (Lisboa), no Museu de Arte de Macau, que esteve na 52.ª edição da Bienal de Veneza, em representação de Macau, e que os seus trabalhos também podem ser apreciados no Museu de Arte de Cantão, em Hong Kong, em Xangai ou no Hotel Mandarim Oriental (Macau), entre outros locais, mas o que a exposição Ad Lib traz de novo é o facto de apresentar um retrato biográfico do autor e reunir um conjunto de 34 obras recentes que incluem pinturas, esculturas, instalações e vídeos, numa espécie de viagem pelo seu riquíssimo universo.

Como o próprio escreveu, as técnicas, os temas e os estilos que utiliza são muito diversos, "indo de projectos à produção de filmes", pelo que nunca foi fácil juntá-los sob um título único. Fácil ou difícil, confesso que não é coisa que me preocupe porque aquilo que é verdadeiramente importante é conhecer a obra de alguém cuja influência muito provavelmente só as próximas gerações estarão em condições de avaliar devidamente.

Recomendo, pois, a quem puder fazê-lo, que até 28 de Maio de 2017 demande o Museu de Arte de Macau e aprecie obras que, sendo um verdadeiro deleite para os olhos, nos questionam e nos obrigam a reflectir. E, já agora, quando lá forem não se esqueçam de obter um exemplar, se entretanto não esgotar, do surpreendente catálogo editado pelo Instituto Cultural e pelo Museu de Arte de Macau, e por cujo resultado foram responsáveis Oscar Ho, Don Cohn, António Conceição Júnior, Yao Jingming, Romi Lamba, Kristoffer Luczak, Mário Costa, Chan Hin Io, Gala Bessmertnaia, Max Bessmertnyi e Ricky Wong. Absolutamente a não perder.

 

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À atenção do MNE

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.09.16

 

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 (Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro, daqui)

 

"Quando não preciso de falar uma língua esta não é útil porque a sua importância tem a ver com a sua utilidade. Toda a língua tem a economia da sua utilidade. Línguas não úteis tendem a morrer, isto é conhecimento comum."

A ler, reler e reflectir a excelente e incisiva entrevista que a Prof. Inocência Mata deu ao Jornal Tribuna de Macau. Para os que andam a dormir na forma e enchem a boca com a língua portuguesa.

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Um europeu sereno

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.06.16

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 Aqui já se joga.

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Uma pequena lembrança

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.05.16

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O tempo não é muito, mas em matéria de direitos humanos é sempre necessário que se encontre tempo para se dizer o que se entende que deve ser dito no tempo e momento adequados. Para que, em Portugal e no mundo, Macau e as suas gentes não caiam no esquecimento.

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Um século de arte austríaca

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.03.16

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Se ainda não viu, ainda está a tempo de visitar a estupenda mostra de pintura austríaca, cobrindo um século entre 1860 e 1960, que está patente no Museu de Arte de Macau. Dividida em Sonata, Andante, Minuet e Finale, a exposição reúne 89 obras de 34 colecções de entidades públicas e privadas. Partindo do evento designado como Secessão de Viena, no século XIX, podemos apreciar obras de Klimt, de Schiele, de Moser, de Kokoschka, de Pauser, de Olga Wisinger-Florian e de muitos outros. Naturezas mortas, auto-retratos, paisagens de montanha e do campo, algumas de cidades de Itália, como Positano e Nápoles, também de Xangai, cenas do quotidiano, circos e alguns nus belíssimos. 

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Lamentável é que a língua portuguesa continue a ser tão maltratada pelas entidades oficiais da RAEM. O estatuto de igualdade das línguas é cada vez mais uma miragem. Dos discursos oficiais à prática dos serviços públicos, dos tribunais à cultura, sem esquecer o que aconteceu recentemente na Universidade de Macau, a língua portuguesa continua a levar tratos de polé sem que as autoridades oficiais portuguesas lhe dêem a atenção que o assunto merece.

Aquilo de que a comunidade chinesa se queixava, com razão, no período anterior a 1999, e que durante tanto tempo foi descurado pelas autoridades portuguesas, e depois tão mal e tão tardiamente resolvido pelo último soba que por cá andou, é agora alegremente praticado pelas entidades responsáveis da RAEM, inclusive num domínio como o da cultura e num Museu, um dos mais importantes da cidade, numa mostra com características internacionais.

Como pode dizer-se que Macau é uma cidade de turismo, virada para o turismo, multicultural e aberta ao mundo e a quem nos visita, quando uma exposição tão importante como "Um século de arte austríaca 1860-1960" nem sequer tem um catálogo bilingue? Já nem digo em português, que isso é um resquício colonial, mas ao menos em inglês. Quando procurei o catálogo disseram-me que desta vez só havia em chinês. E neste nem os nomes dos pintores aparecem de outra forma que não seja em caracteres chineses. Também as explicações relativas a cada obra só existem em chinês, bem como os painéis informativos relativos aos pintores. Com excepção do painel da entrada e dos que abrem cada uma das partes da exposição, que surgem em chinês, português e inglês, o resto é tudo só para falantes e leitores chineses.

E se isto é assim num Museu de Arte e numa cidade que se diz internacional, quando ainda estamos a mais de trinta anos do final do período de transição, imaginem em que estado chegará a Língua Portuguesa a Dezembro de 2049. A avaliar pelo interesse e abastardamento a que tem sido votada pelas entidades oficiais de cá e de lá, presumo que será vista como uma lamentável excentricidade da Lei Básica da RAEM e da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre a Questão de Macau com a qual ninguém se importa e que só serviu para alguns pavões retirarem dividendos políticos e receberem as bugigangas alusivas, que sem qualquer pudor ainda penduram ao peito.

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(Sergius Pauser, 1896-1970, O Leitor)

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(Anton Lutz, 1894-1992, Mulher Nua)

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Rota do prazer

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.03.16

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Não sou editor, não sou escritor, não sou organizador de nada. Nem mesmo da minha vida, que de cada vez que julgo estar a reorganizá-la se desorganiza logo de seguida, por qualquer razão, deixando-me sem jeito.

A confrontação com esta realidade ajuda-me a imaginar, porque não posso fazer mais do que isso, o que será a organização de um festival literário que envolve cerca de seis dezenas de entidades, entre patrocinadores principais e secundários, muitos editores e dezenas de autores que chegam dos cinco continentes, visitas a escolas, momentos e espaços para crianças, jovens e adultos, palestras, conferências, exposições, espectáculos musicais, do fado à ópera chinesa, projecção de filmes, lançamento de livros, reservas em hotéis, serviços de catering, organização de viagens, coordenação de horários, workshops de escrita e leitura, sessões de poesia, acompanhamento de convidados, num conjunto de actividades que se desenrola em múltiplos espaços, com recolha de imagens, e onde tudo acontece em três línguas que nada têm em comum (português, chinês e inglês), havendo por isso mesmo exigências de tradução simultânea para que as iniciativas recolham o interesse do público e não se tornem numa chatice.

Se a tudo isto somarmos o facto de haver público interessado, de várias nacionalidades e de todas as idades, de diariamente se poderem ler entrevistas nos jornais locais com os autores convidados, escutar programas na rádio ou ir acompanhando o que se vai passando pela televisão, vendo-se crianças, jovens, adultos e menos jovens, pais e filhos, ouvindo, debatendo, discutindo, aprendendo em salas cheias, sendo possível encontrá-los em simultâneo nos diversos eventos sem que a idade, a experiência ou o currículo façam alguma diferença, e em que os que gostam de livros se misturam com os que começam a gostar por se sentirem estimulados pelo ambiente para gostarem e apreciarem a leitura e a escrita, poder-se-á ter uma ideia, estando longe, do trabalho envolvido e da importância de uma iniciativa desta natureza numa cidade de 650 mil habitantes.

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Existe nisto tudo uma dimensão extraordinária, que vai para lá daquilo que seria a imaginação quando a poucos quilómetros daqui a censura é um dado adquirido, não há liberdade de acesso à Internet, raptam-se editores e livreiros e há quem cumpra pesadas penas pelo simples facto de não pensar de acordo com os cânones oficiais. É verdade que mesmo aqui a democracia não passa de uma miragem, mas ter a possibilidade de ouvir quem vem do outro lado da fronteira discutir abertamente com quem chegou de países livres e de terras de democracia consolidada questões relacionadas com a liberdade de expressão e de edição e com os direitos humanos faz da Rota das Letras um espaço único de intercâmbio de ideias, de reflexão, de crítica e debate.

A cidade abre-se para receber os visitantes, acompanhá-los e aprender com as suas experiências. Torna-se possível falar abertamente com os autores, ouvir o que têm para contar e ensinar, e tudo pode acontecer numa sessão de apresentação de uma obra, num workshop ou partilhando-se uma refeição que a própria organização se encarregou de preparar com inscrições abertas a quem queira participar. E até pode dar-se o caso de se ser apresentado e almoçar ou jantar com autores que nunca se leu e em que a leitura é estimulada por esse encontro. Numa dessas ocasiões, estando eu já sentado com mais alguns convivas numa das mesas de um restaurante por onde a Rota passou, vieram perguntar-me se ali à minha beira se podiam sentar três dos autores. Tive então o gosto de conhecer e trocar impressões com gente de estilos e preocupações muito distintas — um é escritor, tradutor e professor da Universidade Nova, com passagens pelo Massachusetts e Vermont, o outro é especialista em Pessanha e Bocage, escreveu sobre Moraes e Raul Proença, e o terceiro é uma das estrelas da nova literatura do Brasil, vencedor do Prémio Machado de Assis, reconhecido cronista e foi escritor-residente da Universidade da Califórnia (Berkeley) ­­— no que se revelou um momento de excelente convívio que me fez interessar por escritas para mim ainda desconhecidas. Não deixa de ser fascinante poder ler um autor consagrado que não se conhecia depois de se ter tido a sorte de com ele conviver primeiro. Em vez de se ler o livro ou conhecer a obra e só depois, um dia, encontrar o autor, toma-se um outro percurso. O exercício aqui será o de procurar na escrita os traços da pessoa com quem se esteve, de tentar encaixar e reconhecer o homem na sua obra e nas próprias palavras.

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Sublinho nestas linhas a Rota das Escolas, parte do programa que passou pela Universidade de Macau, pelo Instituto Politécnico de Macau, pelo Instituto de Formação Turística, pela Universidade de S. José, pela Escola Portuguesa e por outras escolas chinesas e internacionais, pela importância que tem na atracção de gente jovem para a leitura e a escrita. Outros marcos foram o relevo dado à divulgação de literaturas menos conhecidas da região onde Macau se insere e a renovação da aposta na divulgação de autores dos países lusófonos, aliás em linha com o que vinha de trás. A pujança de que a língua portuguesa nesses países dá mostras nos diversos géneros em que se manifesta é garantia da sua continuidade e perenidade nas suas múltiplas expressões, cada vez mais avessas — é a minha convicção pelo que tenho visto e ouvido — a qualquer espartilho ortográfico que force a sua unificação e se sobreponha à liberdade de criação por razões comerciais.

10348812_1001393856620889_6273635098808675998_o.jpTenho pena, porque não estava de férias, de não ter estado em todos os lugares em que gostaria. Culpo-me por ter falhado apresentações de livros onde gostaria de ter estado e de não ter ouvido mais autores, consolando-me apenas com o facto de os seus livros por cá ficarem. Entretanto, seria muito importante que a equipa se mantivesse, que a Rota das Letras pudesse continuar a contar com o dinamismo, a experiência e o amor às letras do Ricardo Pinto, do Hélder Beja, do Yao Feng e de toda aquela gente jovem e interessada, entre tradutores e voluntários, que se esforça para que tudo corra bem. E que o festival visse o seu público crescer, penetrando mais fundo na comunidade, se possível em espaços mais amplos e bairros mais recuados, tornando-se num pilar da existência, infelizmente cada vez mais erodida, em especial em matéria linguística, de um segundo sistema na RAEM.

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A Rota podia ter durado mais uma semana, talvez mesmo mais duas ou mais três. Mas não. Acabou porque tinha de ser assim. Não houve prolongamento e tornou-se inútil o desempate por grandes penalidades porque já se sabia que seria a equipa dos livros e da leitura a vencedora. O público aplaudiu e anseia por mais. A 5.ª edição da Rota das Letras acabou porque tudo tem o seu tempo e entre duas edições é preciso recomeçar tudo outra vez, fazer de novo para voltar a ser diferente em 2017. Venha então a 6.ª edição, se possível depressa.

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(as fotografias reproduzidas são todas daqui)

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Rota na estrada

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.03.16

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Adam Johnson (EUA), Angelo Lacuesta (Filipinas), Bengt Ohlsson (Suécia), Carlos André (Portugal), Carol Rodrigues (Brasil), Chan Koonchung (Hong Kong), Chen Xiwo (China), Daniel Pires (Portugal), Ernesto Dabó (Guiné-Bissau), Felipe Franco Munhoz (Brasil), Graça Pacheco Jorge (Macau), Graeme Base (Aistrália), Hu Ching-Fang (Taiwan), Jane Camens (Austrália), Jordi Puntí (Espanha), José Pacheco Pereira (Portugal), Liu Xinwu (China), Luís Patraquim (Moçambique), Luís Fortes Cunha (Portugal), Luiz Ruffato (Brasil), Marcelino Freire (Brasil), Marita Conlon McKenna (Irlanda), Mark O'Neill (Reino Unido), Matilde Campilho (Portugal), Mookie Katigbak-Lacuesta (Filipinas), Mu Xinxin (Macau), Owen Martell (País de Gales), Paulo José Miranda (Portgal), Pedro Barreiros (Portugal), Pedro Mexia (Portugal), Ricardo Adolfo (Angola/Portugal), Rui Zink (Portugal), Shen Haobo (China), Un Sio San (Macau), Wu Ming-Yi (Taiwan), Xi Wa (China), Yang Chia-Hsien (Taiwan), Zheng Yuangjie (China) e Zhou Jianing (China). Foram estes os nomes anunciados. E com excepção de Pedro Mexia, futuro assessor cultural do Presidente da República eleito, a quem aqui saudamos e desejamos os maiores sucessos, todos os outros virão até à edição de 2016 do Festival Rota das Letras.

A entrar na sua 5.ª edição, o Festival tem-se afirmado como uma das mais importantes manifestações culturais da RAEM, desdobrando-se em múltiplas iniciativas, da apresentação de livros a colóquios, exposições, debates, teatro, cinema, música, workshops sobre literatura e manifestações gastronómicas abertas ao público com a participação de alguns autores.

No passado sábado, as instalações do antigo Tribunal da Comarca de Macau foram pequenas para acolher todos os que aí se deslocaram para a sessão inaugural, a que se seguiu um debate com Pacheco Pereira e Hu Ching-Fang tendo por tema a importância da cultura para o homem comum. À noite, o programa prosseguiu com a exibição do filme "Cartas da Guerra", do jovem realizador Ivo Ferreira, na primeira apresentação pública do filme após a sua estreia mundial na 66.ª edição da Berlinale e antes da próxima participação no 40.º Festival de Cinema de Hong Kong.

Mário Laginha, Cristina Branco e João Caetano são outros dos nomes que estarão presentes na edição deste ano, onde será dada particular atenção à obra do autor da Clepsidra, Camilo Pessanha, quando passam 90 anos sobre a data da sua morte. Para falarem de Pessanha estarão em Macau três dos seus estudiosos – Paulo Franchetti, Daniel Pires e Pedro Barreiros. O outro homenageado na edição de 2016 da Rota das Letras é o chinês Tang Xianzu, um dos primeiros autores chineses a contactar com estrangeiros em Macau, cidade onde esteve em 1591. Tang foi um dramaturgo da dinastia Ming e o autor da peça Pavilhão das Peónias.

Hoje, ao final da tarde, o historiador Pacheco Pereira dará uma conferência na Universidade de Macau. O tema será "A liderança alemã, a diversificação da Europa e o futuro da União Europeia". Mais à noite, o actor António Fonseca levará ao Teatro D. Pedro V os seus Lusíadas.

Numa altura em que os direitos humanos, a autonomia e independência do sistema judicial de Macau e a liberdade de expressão voltam a ser testados, na sequência da detenção, a semana passada, do ex-Procurador de Macau e após a rocambolesca e mal contada história do desaparecimento dos quatro livreiros de Hong Kong, nunca será demais sublinhar a importância da Rota das Letras como espaço de liberdade, crítica, intercâmbio cultural, troca de ideias e afirmação da identidade da RAEM.

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Órphãos da Orpheu

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.01.16

20160109_194354.jpgPassada a estranheza do convite inicial, de onde ressaltava o facto de um jornalista e autor vivo e “os poetas assassinados” convidarem “toda a população de Macau, Taipa, Coloane e Ilha da Montanha para a sessão de lançamento da revista Órphão”, um pouco mais abaixo esclarecia-se que haveria “comício e bebício”, atracções de feira, dramaturgos, criadores, ensaístas, autores, poetas, “etc.”. O local escolhido para tão ecléctico programa era a Livraria Portuguesa de Macau. Em causa estava o lançamento de uma revista de literatura, artes e ideias, com uma tiragem única de cem exemplares, destinada a comemorar, porque nestas coisas o tempo e as pessoas são sempre relativos, os cem anos da Orpheu que haviam passado em 24 de Março de 2015.

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Habituado a ver este tipo de acontecimentos entregue a almas errantes e a meia dúzia de curiosos penitentes, estranhei quando cheguei ao local, uns minutos antes da hora agendada, e verifiquei que estava um ajuntamento de dimensões razoáveis no passeio com algumas caras conhecidas e gente da socialite da terra, junto à entrada da livraria, mas logo depois pensei que havendo "bebício", e à borla, poderia ser essa a explicação. Lá dentro, as pessoas aguardavam como podiam pelas escadas sobriamente decoradas com dois painéis a preto e branco que conduziam à pequena sala, ainda encerrada, onde iria ter lugar o evento.

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Descidos os rápidos lances de escada, uma cortina negra recebia-nos no final franqueando o acesso a uma sala na penumbra, apenas iluminada por dois pequenos candeeiros. À entrada, que se fazia individualmente junto a uma pequena mesa com copos e garrafas, era-nos perguntado por uma máscara veneziana de capa negra se queríamos um trago de porto, de vodka ou de whisky, enquanto acordes, frases, monólogos, textos vários se iam libertando da aparelhagem sonora. Aos poucos, os convivas foram-se encaixando num espaço que rapidamente se tornou francamente exíguo. Carlos Morais José, também ele de máscara e trajes negros, aguardava junto a uma bancada que a movimentação desse lugar ao espectáculo por onde pouco depois, entre fumos e vapores, desfilaram textos dele próprio e dos seus heterónimos/pseudónimos em diversas roupagens, todos desventuradamente assassinados e dos quais só ficará a memória em artigos de jornal, nas páginas da Órphão, e nos ouvidos de quem lá esteve a música de Schubert, de Laurie Anderson e de mais uns virtuosos que por ali passaram.

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No final, perante uma plateia rendida à imaginação do autor, que escreveu, coreografou, leu, declamou, monologou, ficámos a saber, entre outras coisas, que Pedro Magro e Propósitos de Trieste se inspirara no escritor, académico e ensaísta Claudio Magris, e que aconteceu em Macau como poderia ter acontecido noutro lado qualquer. Daqui a cem anos, se nessa altura ainda existirem maltes de respeito, pode ser que se volte a repetir.

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O príncipe

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.10.15

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(Fotografia de Paulo Cabral Taipa)

 

"Meu Deus, como a sua presença eleva o nível da conversa!", disse-me Swann como que para se desculpar diante de Bergotte, ele que no meio dos Guermantes adquirira o hábito de receber os grandes artistas como bons amigos a quem se procura apenas dar a comer os pratos de que gostam, jogar os jogos ou, no campo, praticar os desportos que lhes agradam. (...) Eu dissera-lhe tudo o que sentia com uma liberdade que me surpreendera (...). Do mesmo modo que os padres, que têm a maior experiência do coração, podem melhor perdoar os pecados que não cometem, também o génio, que tem a maior experiência da inteligência, pode compreender melhor as ideias mais opostas às que constituem o fundo das suas próprias obras." - Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, Volume II, À Sombra das Raparigas em Flor 

 

Conheci-o em Novembro de 1986, num jantar em casa de um companheiro da juventude de meu pai. Eu chegara à cidade no dia anterior. Tinha vinte e quatro anos. Quando me conheceu perguntou-me o que fazia. Tímido, acabado de aterrar, lá lhe respondi, com a deferência devida para com quem é simpático, agradável, e nos recebe em terra estranha fazendo jus a um sorriso largo e bondoso sem nos conhecer de lado nenhum. Como se me conhecesse há uma eternidade. Disse-me para no dia seguinte ir ter com ele, ou quando quisesse, para tomarmos um café, ele estaria por lá. Lá era o Banco Nacional Ultramarino, em Macau. E ele era uma estrela. Ele era o Brás Gomes.

Frequentara a Escola Naval, de onde não saiu almirante, mas como em todos os locais por onde passava deixou um rasto de amigos, de companheiros, de conhecidos e desconhecidos que o admiravam. Pela simplicidade, pelo trato, pela educação. Com amigos comuns no ramo naval, nesse tempo voltámos a ver-nos várias vezes, nas mais diversas circunstâncias, em reuniões de amigos e em cerimónias oficiais. Sempre jovial, sempre bem disposto, uma referência onde quer que estivesse.

Amante das coisas boas da vida, gostava de estar com os seus amigos, de um bom convívio, de uma boa gargalhada, de uma refeição generosa ou de um vinho de excepção, transportava consigo toda a herança de um império. Da Índia aos pântanos da Guiné-Bissau, por onde andou no tempo da outra senhora. Tinha histórias e recordações de todo o lado, que relatava com prazer enquanto puxava do seu Lancero ou do seu Churchill.  

Quando Carlos Móia, de quem era amigo, chegou à vice-presidência do Benfica, conseguiu convencê-lo a trazer a equipa de futebol a Macau. Então treinada pelo grande capitão, Mário Wilson, tive o prazer de com ele ver, num épico final de tarde, o Benfica golear (8-0) a jovem e inexperiente Selecção de Macau.

O José Manuel Brás Gomes era a porta para tudo. Pelo BNU, em Macau, passou muita gente, muitos directores, mas ali Portugal tinha sempre um rosto e um nome: o dele.

Certamente que haverá pelas pátrias desse mundo outros parecidos com o José Manuel. Duvido é que haja algum igual. E nem sei se Portugal, algum dia, depois de ficar sem império, voltará a ter outro assim. Conhecia meio-mundo, e não precisava de conhecer a outra metade porque, em contrapartida, todo o mundo o conhecia. Não havia quem chegasse de Portugal, da China, do Brasil ou dos Estados Unidos, sem nunca ter posto os pés em Macau, que não trouxesse um cartão, uma carta, uma recomendação ou o número de telefone dele. Para simplesmente falar com ele, levar-lhe um abraço de alguém, encontrar um parceiro de negócios ou ser aconselhado sobre um bom restaurante. O número de negócios que proporcionou entre portugueses, chineses, macaenses e até alguns marcianos que lhe apareceram à frente é incontável. E a muitos ajudou a construírem fortunas.

Não havia vez alguma que o encontrasse que não tivesse um sorriso, uma palavra amiga, um abraço para oferecer. Até quando o Benfica perdia. Um dia, depois de alguns anos infindáveis e miseráveis, disse-lhe que se quisesse ser candidato eu apoiá-lo-ia para a presidência. Há tempos repeti-o entre amigos. Ele sorria, ria-se, piscava-me o olho e arrancava mais uma fumaça.

Apaixonado pelo ténis e pelo golfe, que praticava com assiduidade, recordo-me de com ele ter acompanhado o primeiro Open de Macau a contar para o circuito internacional. Corria mundo para jogar golfe. Um dia encontrei-o em Guam com a sua inseparável companheira, sua mulher, onde tinha ido experimentar os novos campos. Recordo-me, também, de uma manhã ter ido ter com ele ao banco, tendo ele acabado de chegar de férias. Perguntei-lhe onde tinha estado dessa vez. O olhar cintilante e um sorriso ainda mais largo abriram-se para me dizer duas palavras mágicas: St. Andrews! "Mas estava frio", acrescentou logo a seguir.

Não sei ao certo quantos governadores de Macau passaram por ele. Não sei quantos lhe ficaram a dever favores, muitos, atenções, gentileza, simpatia, boa educação. Nunca cobrou nada a ninguém. Nem aos chatos. E fazia questão que fosse mesmo assim. Era um tipo de uma seriedade à prova de bala. Podia ter saído do BNU e ter tido todas as "avenças" que quisesse, só que a sua liberdade, o seu espírito livre e rebelde, a sua honradez e o seu carácter nunca o permitiram. O José Manuel Brás Gomes podia ter sido Governador de Macau. E teria sido, seguramente, o melhor Governador de Macau. Porque o José Manuel Brás Gomes era acima de tudo um construtor de pontes, de estruturas sólidas e duradouras, que ainda por cima sabia conservar com elegância.  

De vez em quando contava histórias do fim do mundo, fazia-nos rir a bom rir. E, todavia, nunca ninguém lhe ouviu uma inconfidência ou soube da boca dele o que não pudesse ser conhecido. Sabia histórias de reis e de rainhas, de ricos e de pelintras simpáticos, do Spínola, de comandos e de fuzileiros, porque teve de lá andar com eles, e também de sacanas da pior espécie e de filhos da puta, que ele também conheceu alguns e distinguia-os à légua. Sabia os nomes deles todos. E gostava tanto de esquerdistas, de comunistas ou de socialistas, entre os quais sabia que eu me incluía, como gostava de sportinguistas. Porém, duvido que algum tivesse deixado de ser seu amigo ou de lhe dar um abraço por essa razão. O José Manuel era franco, leal, directo, um modelo de cavalheiro. Um senhor.

Ultimamente tive o privilégio de estar com ele com mais frequência. Estava com mais disponibilidade, fosse no Clube Militar, do qual era membro da direcção, ou noutro lado qualquer. Encontrava-o regularmente às sextas-feiras, nas reuniões do nosso "Comité Central". Nos últimos tempos não apareceu. Não podia. Falei com ele ao telefone, há duas semanas, como muitas vezes fazemos com os "camaradas" ausentes sempre que nos reunimos. Não sabia quando regressaria. Avisei-o de que iria ver os jogos com o Galatasaray e o Boavista. Confidenciou-me que ainda estaria por Lisboa nessa altura. Disse-me para lhe ligar quando chegasse, para irmos almoçar. Já não chegarei a tempo.

O príncipe, o José Manuel Brás Gomes, foi-se hoje embora. Vamos todos sentir a sua falta. A esta hora estará a cear noutras paragens, construindo novas pontes. Ou a acender um charuto entre amigos. Rindo a bom rir, espalhando classe, educação e muita liberdade. Era o que melhor sabia fazer.

Portugal, mais do que a muitos outros, fica a dever-lhe o fim honroso do império. Sozinho ele valia por um exército.

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E o sonho tornou-se realidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.08.15

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Já tinha caído a noite no circuito de Suzuka, nos arredores de Nagoia, quando o Nissan GTR-GT3 com o número 10 cortou a meta. Depois de uma corrida cheia de peripécias, de uma recuperação espectacular, em que chegou a estar em 26.º lugar ao fim de vinte minutos de prova, apesar de ter partido da 2.ª posição da grelha, e em que a chuva apareceu por várias vezes, a última das quais a cerca de dez minutos do final quando os carros circulavam com pneus para piso seco e a vantagem sobre o BMW Z4 era inferior a um segundo, os três pilotos do Gainer Tanax Racing Team levaram o carro à vitória nos 1000 Km de Suzuka, categoria de GT300.

Trata-se de mais um resultado fantástico para os portugueses de Macau e o automobilismo nacional e, em especial, para o André Couto, que está de parabéns e de quem aqui dei notícia depois da prova de Fuji 300.

Com este resultado, o André reforçou a liderança do campeonato japonês, no qual soma 69 pontos, e tem agora nos lugares imediatos os outros dois pilotos da sua equipa, Katsumasa Chiyo e Ryuichiro Tomita, respectivamente, com 54 e 40 pontos.

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Uma lição

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.06.15

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Em Pequim ainda devem estar a pensar se o que aconteceu ontem em Hong Kong, no Legislative Council (Legco), com a votação do pacote de medidas preparado pelo Governo de C.Y. Leung, através da Secretária Carrie Lam, tendente a uma pseudo-reforma democrática das leis eleitorais, resultou de um guião mau preparado, de dificuldades de comunicação ou da pura e simples má qualidade dos actores que a China escolheu para defender os seus interesses naquela Região Administrativa Especial.

De há muito que se sabia qual é que seria, previsivelmente, o sentido de voto dos deputados: de um lado estariam os pró-Pequim, sempre prontos a apoiarem todas as indicações que lhes chegassem da "Mãe-Pátria", do outro os hongkongers do campo democrático (Pan-democrats), que depois das manifestações de rua do ano passado, que tantos incómodos causaram, já tinham anunciado que iriam votar contra e bloquear a reforma semi-democrática que lhes era oferecida.

Para quem não acompanhou o início da discussão, convirá esclarecer que à semelhança do que acontece em Macau só uma parte dos membros do Legco é que é eleita por sufrágio directo. Dos seus membros há trinta que são eleitos por sufrágio indirecto. De acordo com a Lei Básica de Hong Kong, texto para-constitucional da Região, hoje vista como a Magna Carta dos seus cidadãos, o artigo 68.º estatui como objectivo último a eleição por sufrágio universal de todos os membros do Legco, havendo idêntico artigo para a eleição do Chefe do Executivo. O que o Governo de Hong Kong preparou, de acordo com as directivas de Pequim, foi um pacote de reformas que previa, entre outras coisas, um sufrágio universal condicionado para a escolha do próximo Chefe do Executivo, que terá lugar em 2017. Condicionado porque o princípio "one man, one vote" iria depender de um esquema de pré-aprovação, por parte de Pequim, dos candidatos que se apresentassem a sufrágio, com o seu número limitado a três. Importa também referir que o número de forças políticas representado no Legco é elevado (16), dividindo-se entre os dois campos (Pró-Pequim e Pan-democratas) e que dos Independentes há 8 pró-Pequim e 3 que não alinham com nenhum dos lados e procuram manter-se equidistantes, pelo menos em teoria.

Os democratas sempre rejeitaram reformas mitigadas, muitas vezes recordando que existia um compromisso político e legal que devia ser respeitado e que a introdução de uma democracia com regras distorcidas, que não contemplasse a eleição directa e por sufrágio universal, sem condicionamentos de qualquer ordem, do próximo Chefe do Executivo, seria uma violação das garantias constitucionais da Região e da palavra de Pequim. Alguns ainda argumentaram que apesar dos constrangimentos introduzidos sempre seria preferível uma eleição em que todos os cidadãos participassem - coisa que nunca aconteceu no tempo da administração colonial - com candidatos pré-escolhidos, do que a continuação do actual esquema que, pelos vistos, também não tem dado bons resultados, tantos e tão graves têm sido os problemas ocorridos em Hong Kong, quer numa perspectiva política, com sucessivos casos de corrupção envolvendo os mais altos dirigentes escolhidos com o aval da China, quer numa perspectiva estritamente económica.

A aprovação do pacote de medidas estava, em todo o caso, dependente de uma maioria de 2/3, que só seria atingível com votos do campo democrático. Logo, o risco à partida já era grande se os 27 deputados do campo Pan-Democrático votassem. Mas o que aconteceu foi que momentos antes da votação, 31 dos membros apoiantes do governo de Hong Kong, alegando o atraso de um dos seus (Lau Wong-fat) para a votação, ao que parece retido em razão do congestionado trânsito da cidade, abandonaram o hemiciclo confiando que a votação iria ser adiada, logo aí revelando desconhecimento do regimento do Legco. Sucedeu que a votação não era passível de adiamento e a seguir teve lugar o chumbo da proposta do governo de Hong Kong. A votação registou 28 votos contra, 27 votos do lado democrático complementados com mais um voto de um membro pró-Pequim, oito a favor e nenhuma abstenção. 

Para lá da ignorância e falta de coordenação que as forças pró-Pequim revelaram, para o governo de Hong Kong e para Pequim o resultado, como escrevia esta manhã o South China Morning Post, foi um fiasco. Mas mais importante do que a risada geral que provocou  -  "Alliance chairman Andrew Leung Kwan-yuen said he went to Beijing's liason office yesterday afternoon with several party colleagues to tell a deputy director what happened. Meanwhile, according to Liberal Party sources, senior liaison office officials called party leader Vincent Fung Kang at about 1pm yesterday to praise its lawmakers." (SCMP) -, é saber que consequências podem daqui resultar. Para Hong Kong, para Macau e para a própria China.

O campo político da Hong Kong há muito que está extremado, não havendo sinais que permitam pensar que daqui para a frente vai ser diferente. O impasse deverá continuar, salvo se alguém tiver o bom senso de propor uma solução transitória que salve a face das duas partes e permita o recomeço do diálogo, eventualmente assente noutras bases e novos compromissos. Em todo o caso, um endurecimento das posições de Pequim e uma revisão daquela que tem sido a sua política em relação a Hong Kong não será de excluir. 

Para a China, numa perspectiva interna, as consequências serão nenhumas. A não ser em relação àquilo que já era conhecido. Isto é, a confirmação de que existe dificuldade em aceitar as regras do jogo democrático e confiar a gestão de Hong Kong ao seu povo. E se é assim em Hong Kong, é natural que os democratas de um lado e do outro lado dos Novos Territórios tenham razões para continuar apreensivos, tanto mais que Pequim já veio ridiculamente criticar os Pan-democratas por estarem, imagine-se, a obstruir o desenvolvimento democrático de Hong Kong.

Quanto a Macau, as consequências podem também ser nenhumas. O que aconteceu em Hong Kong poderá, quando muito, tornar mais medrosa, mais acomodada e mais subserviente uma governação - e refiro-me à última década - que tem dado constantes mostras de fraqueza, obediência, falta de arrojo e de visão estratégica. E, ao mesmo tempo, acalmar as hostes democráticas locais, mantendo-as na expectativa sobre o que se irá passar em Hong Kong antes de decidirem avançar com novas formas de pressão e renovadas exigências, no que só revelarão bom senso.

Há, ainda, uma outra conclusão a extrair. E esta diz respeito a todos, quer estejam em Hong Kong, em Macau, na China, em Portugal ou em qualquer outro lado: o recurso aos yes-men para garantir a permanência no poder e concretizar políticas, além de revelar a pouca inteligência de quem os escolhe, é sempre um risco muito grande. A idiotia, como a verdade, vem sempre à superfície e, normalmente, sob as formas menos esperadas e mais caricatas. 

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13 de Maio

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.05.15

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A caminho do velho Ténis Militar Naval, ao começo da noite, sou travado logo a seguir ao quartel dos bombeiros, antes de entrar na Praia Grande. Lá em baixo, junto às ameias da Fortaleza do Bom Parto, pude ver  a luz das velas que transportavam. Seguiram por ali fora, compassadamente, em silêncio, protegidos da noite quente e húmida pela brisa que se desprendia da copa das frondosas árvores. Ao lado, em silêncio, os atletas e caminhantes de outros credos, alguns sem credo, quem sabe, cumpriam o seu ritual diário. Para cima e para baixo. Parámos todos. Não houve buzinas. Descreveram a curva da Calçada da Praia e tomaram o seu caminho até à Igreja de Nossa Senhora da Penha. Alguns milhares, num silêncio apenas cortado pelas suas orações. Quando os últimos deixaram a Avenida da República, iniciando a subida para a Penha, pudemos então avançar. De dentro do carro, em silêncio, senti a noite. Um pouco mais acima, os focos iluminavam a igreja. E o Bela Vista. Do outro lado, em silêncio na distância, os néones do Grande Lisboa, do Star World, do Wynn. O outro mundo da luz. Pouco depois, enquanto esperava, de raquete na mão, com Santa Sancha ali por cima, espiando-me, como tantas outras vezes acontecera no passado, vendo os reflexos que me chegavam dos novos lagos, ouvi os cânticos que em louvor se elevavam. Por momentos pensei que o tempo tinha parado. Dir-se-ia que tudo estivera sempre ali. Como o tempo. Eu continuo lá, como há trinta anos. Como se estivera sempre ali todos os 13 de Maio. À espera de os ver. No mesmo tempo, com a mesma noite, vendo a mesma luz, protegido pelo mesmo silêncio. Pela sua fé. A fé não se descreve. A fé não se vê. E, no entanto, ela ali está. Em silêncio, entre aquela mole compacta e serena que vê os séculos passarem. Ou serão os séculos que os vêem passar e os vão acolhendo? Sem mercadejar com os santinhos e a água benta, cada um com a sua vela, cada um segurando a sua luz, buscando a sua estrela, sabe-se lá em que língua, em que dialectos. Vão por ali, dialogando com o que não se vê, com quem não está, com quem foi, em silêncio. Sinto-os aconchegados. Vejo os seus rostos, a sua serenidade. A fé deve ser isto. E eu ali, para ali, transportando o tempo comigo, em silêncio, como se nada daquilo fosse possível. Como se nada existisse a não ser aquilo. Aquele silêncio, aqueles cânticos, aquela paz. Aquela luz. Que me traz e que me leva, quando quer, quantas vezes sem eu saber. Silenciosamente. Como se eu não fosse também daqui. Como se eu não fosse também um dos deles. Como se eu não tivesse fé.

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Valkyrie Octopus

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.03.15

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Com vinte metros de altura, trinta e cinco de extensão e mil e duzentos quilos de peso, Macau viu ser oficialmente inaugurada a última obra de Joana Vasconcelos. Fruto de uma encomenda da MGM Macau e instalada na Praça do Rossio, a Valkyrie Octopus impressiona pela cor e dimensão. Certamente que haverá muita gente que não gostará do resultado final, mas goste-se muito ou pouco é um trabalho que pela criatividade, cor e arrojo não deixará ninguém indiferente. E deixa honrados os portugueses que vivem e trabalham na RAEM. A foto é do Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong. As restantes podem ser vistas aqui.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.02.15

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O Pintor no seu Labirinto - Histórias da Pintura na China, de Paulo Maia e Carmo

(edição Livros do Meio, Macau, 2015)

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As letras voltam à cidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.02.15

10968321_784491201644490_3706656392931634293_n.jpgDepois de há uns anos ter merecido honras no Wall Street Journal, e de no ano passado ter recebido a Medalha de Mérito Cultural do Governo da RAEM, o Ricardo, exemplo de empreendedorismo fora da zona de conforto, não ficou a dormir à sombra dos louros. Ontem, em Macau, foi anunciada mais uma edição da Rota das Letras, um festival que de ano para ano se afirma e constitui um porto onde todos os anos arribam autores lusófonos e chineses, num invulgar e participado intercâmbio cultural.

Ainda não será este ano que teremos em Macau a Patrícia, a Helena, a Ana ou o António Manuel, mas este ano o evento decorrerá a partir de 19 de Março, nas instalações do antigo Tribunal Judicial de Macau, ali bem perto da estátua de Jorge Álvares, o primeiro português a chegar a estas paragens e que ainda hoje aguarda por uma homenagem das autoridades portuguesas. O local escolhido não podia ser mais apropriado, numa altura em que é nomeada uma Comissão de Estudos do Sistema Jurídico-Criminal, dirigida por um magistrado do Ministério Público, e se avolumam as preocupações de alguns com o futuro do "segundo sistema", a liberdade de criação e fruição cultural e a liberdade de expressão.

Um dos temas principais será a literatura infanto-juvenil, mas os nomes anunciados não se limitam a esse importante nicho da formação dos jovens leitores. Estarão presentes Ondjaki, Maria do Rosário Pedreira, João Tordo, David Machado, Gregório Duvivier, Joe Tang, a chinesa Wang Anyi, presidente da Associação de Escritores de Xangai e autora de “The Song of Everlasting Sorrow”, Murong Xuecun, crítico e colunista do New York Times, a romancista Yan Ge, e Francisco José Viegas. De Macau estarão presentes Cecília Jorge e o editor Beltrão Coelho. 

Para além destes, já que a literatura e a poesia não se esgotam no papel, virão João Botelho, e com ele "Os Maias" e o "Filme do Desassossego", o cineasta Miguel Costa com o filme "No Divã", e Ann Hui, a vencedora do prémio Cineasta do Ano no Festival de Cinema de Busan, trará a Macau “The Golden Era”, um drama biográfico sobre Xiao Hong, uma das mais importantes escritoras chinesas do século XX. As artes plásticas fazer-se-ão representar por Ge Zhen, pintor contemporâneo da China Continental, Tyrone Ho, arquitecto e cartoonista de Hong Kong, e o ilustrador nacional João Fazenda. E, last but not the least, a música também estará presente com espectáculos na Arena do Venetian e dois concertos com o maestro António Vitorino d'Almeida. Um programa que é um verdadeiro oásis na nova meca dos casinos e onde o novo acordo ortográfico fica à porta do jornal oficial. Para que conste.

 

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Os deuses desceram à cidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.01.15

O início da temporada é para qualquer melómano um momento mágico. Sabe-se que em qualquer latitude uma casa que se preze não começa a época com promessas, antes optando pelas certezas. Este ano também aconteceu assim.

Ele trouxe o piano de casa, da Suíça onde reside. Dizem-me que há muito que é deste modo que passeia a sua classe nas aparições que faz. Ainda bem. O resto estava cá. Uma grande orquestra, um público afectuoso e interessado, um naipe de músicos de gabarito, um maestro de classe mundial.

Depois, bom depois veio uma peça magnífica, uma explosão de harmonia, cor, movimento, pontuada aqui e ali por momentos de paixão. O teclado deslizando frenético para cá e para lá perante mãos que pareciam imóveis. Tudo envolvido pela afirmação de uma orquestra que é em cada dia que passa uma garantia de continuidade, de trabalho bem feito, de rigor e talento na execução, dirigida por um homem que atinge hoje o Olimpo nos movimentos largos da sua batuta. Começar a temporada com o piano de Zimerman, os músicos de Lu Jia e o Concerto para Piano n.1 em D menor, Op. 15, de Brahms, foi um gosto. Tudo bem feito. Seria bom que assim continuasse, mas eu sei que os deuses não descem à terra todos os dias.

Para a segunda parte, já sem Zimerman, ficámos entregues à Sinfonia n.º 3, em Fá Maior, Op. 60, do mesmo compositor. Um momento de excelência oferecido a todos para dar as boas-vindas ao novo ano.

O programa, na linha dos anteriores, graficamente bem concebido e de leitura fácil apesar de carregar nos tons mais invernais, merece uma atenção aos textos em português. Parágrafos começados com frases do tipo "Como um compositor do século XIX que guardava grande nostalgia pelo era do classicismo,(...)" (página 18) e segue por ali fora, não podem acontecer.

A comunhão com o público continua a ser excelente. A cidade tem hoje um público mais conhecedor, mais aplicado e mais exigente, mas infelizmente nem todos estão a fazer por merecer o que lhes está a ser dado. Apesar da tolerância de 15 minutos antes do início dos espectáculos, há quem insista em chegar tarde, obrigando à abertura de portas durante as breves paragens entre movimentos de uma mesma peça e ao corrupio desagradável e incómodo que obriga orquestra e executantes a aguardarem que finalmente se instalem, acomodem e deixem de tossir. Pior quando a meio da segunda peça começam as mães e as crianças, jovens e menos jovens, a abandonar a sala, numa tremenda falta de respeito por quem actua e por quem escuta. E tudo porquê? Para não perderem o barco ou comboio? Não, nada disso, para fazerem fila do lado de fora do auditório para obterem autógrafos das vedetas. E isto para já não falar na insistência no uso sorrateiro dessa praga de smartphones e telemóveis que invadiu todos os espaços e que leva as pessoas a fazerem as figuras mais ridículas, seja por causa da inevitável selfie, seja para obterem a melhor foto possível durante as actuações, levantando braços e acertando posições para distracção e desespero de quem quer estar concentrado na audição, apostado em receber a cor que chega do palco e se reflecte nas confortáveis sonoridades da madeira. O excelente trabalho que as gentes do Instituto Cultural de Macau têm feito na promoção e divulgação cultural, trazendo gente de nível estratosférico a estas paragens, proporcionando espectáculos que arrastam até Macau o exigente e conhecedor público de Hong Kong, não pode continuar a ser torpedeado pela incultura, desprezo e arrogância cívica de alguns. Levar a cultura a todos, tornando-a acessível às massas e formando públicos exigentes não se faz só com parlapiê e boa vontade, fechando os olhos aos endinheirados ordinários. Impõem-se, por isso, medidas mais rigorosas, que evitem aos seguranças as discretas mas constantes subidas e descidas para chamar a atenção de quem prevarica sabendo que está a prevaricar. Por amor à arte. Neste caso mais pela cidadania, que é por onde passa a verdadeira revolução cultural que faz a diferença entre os homens e as nações.

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A paixão segundo María

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.12.14

1347092384_0.jpgHá muito que é uma arte. Como disciplina da dança, do culto da estética, do movimento, da cor, da forma, o Flamengo, cujas origens remontarão a algures entres os séculos VII e IX, não precisa de promoção. A sedução pela forma e pela simplicidade são um testemunho da sua extraordinária capacidade para expor a carne, a sua volúpia e acomodação ao espectáculo. A Andaluzia é a sua pele, a sua energia, a afirmação da auto-regeneração que o mantém, e a nós, seus modestos amantes em permanente conúbio, numa saudável mancebia, que nos faz ser parte de todo o seu esplendor. A guitarra mostra-lhe o caminho, orienta-lhe os gestos, dá-lhe graça, numa estranha efemeridade que se prolonga no tempo, eternizando-se na memória depois das luzes se apagarem. Seja num poema de Lorca, na guitarra de Lucia, num filme de Saura, nas Bodas de Sangre do inesquecível Antonio Gadès e da salerosa Cristina Hoyos, o Flamenco como arte conseguiu ser sempre mais do que uma arte porque se tornou na recriação da vida. O que Pagés conseguiu com Utopia está para lá da arte, da própria recriação da vida. Na voluptuosidade das formas niemeyerianas, servido por um naipe de bailarinos e músicos de altíssimo calibre, majestosamente enquadrados pela voz de Ana Ramón e Juan de Mairena, nos quadros de Maria Pagès ele torna-se na recriação da própria arte, elevando a música a mais do que um excepcional sapateado. Não o tinha visto antes. Vi-o hoje. E o que vi foi o tablao andaluz despojado de superlativos para exportação. A arte em forma de gente numa inesgotável manifestação da Criação servida pelos seus servos. A paixão segundo María. A Pagés. Uma espécie de extensão de Deus em forma de mulher, servida como prenda num Natal que, força dos desígnios desse mesmo Deus, se tornou mais triste, infinitamente sombrio e cada vez mais distante. Até quando?

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Legado

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.10.14

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 Até 31/12/2014, na Signum Living Store, uma pequena mostra da arte de um dos mais geniais artistas da Lusofonia. Seria interessante saber quantas obras dele, e do seu irmão Carlos, já foram adquiridas por museus nacionais.

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Mais um mau serviço do general

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.10.14

 

Hong-Kong-proteste.jpgDe há muito se sabia que as diferenças entre Chris Patten e Rocha Vieira eram grandes, de certo modo confirmando a diferença de estatuto entre Hong Kong e Macau. E essas diferenças tornaram-se mais visíveis depois do fim dos respectivos mandatos como governadores daqueles antigos territórios, ou seja, quando estes regressaram à administração chinesa, respectivamente, em 1997 e 1999. O que se seguiu, relativamente à vida de cada um, é público. Um foi para Comissário Europeu, sendo-lhe atribuído o pelouro das relações exteriores, depois Chairman do BBC Trust e Chancellor of the University of Oxford. O outro tratou de proteger-se dos escândalos da sua governação, designadamente da forma como procedeu à constituição da Fundação Jorge Álvares, aproveitou para promover o BPP, foi jogar golfe e tratar de comendas e medalhas para as Ordens Honoríficas. E, pelo caminho, passou a integrar o Conselho de Supervisão da EDP devido, segundo o próprio, à sua ligação à China e a Macau, órgão onde ainda hoje se mantém.

A propósito das exigências de mais democracia e sobre o complexo momento que se está a viver em Hong Kong, depois de ter dito que a China está a violar compromissos assumidos antes de 1997 e ter apelado à responsabilidade e sentido de honra da antiga potência colonial, Patten veio reafirmar que o que está em causa se insere dentro da esfera de autonomia de Hong Kong. Por seu turno, Rocha Vieira, que não é tido nem achado na questão de Hong Kong, saiu a terreiro para criticar o movimento. Para o ex-governador de Macau o movimento "Occupy Central" "has undermined the prosperity and stability of Hong Kong and seriously damaged the interests of people". Os interesses de que povo, perguntar-se-á?

Não sei se o facto da ligação de Rocha Vieira à China continuar a traduzir-se no recebimento de uma tença de várias dezenas de milhares de euros, a acrescentar à sua choruda reforma, o obriga a sair a terreiro para se pronunciar sobre o que se está a passar em Hong Kong. De qualquer modo, não lhe teria ficado mal, depois do que andou a fazer por Macau, nomeadamente em matéria de defesa dos valores democráticos, transparência política e liberdade de imprensa, onde tentou silenciar a imprensa livre e não submissa, dando e cortando subsídios ao sabor das circunstâncias com a inestimável ajuda dos afilhados e serventuários, tivesse ficado calado.

Pessoalmente interpreto as declarações proferidas por Rocha Vieira sobre "Occupy Central", mais do que qualquer genuína preocupação com o futuro de Hong Kong ou das suas gentes, como mais um sinal da estável ligação que mantém à China. Neste caso através da China Three Gorges e da lubrificação regular da sua conta bancária por parte da "privatizada" EDP. Quanto mais não fosse por essa razão, à falta de outra que a sua fraca memória não lhe permitisse recordar, seria bom que o senhor general tivesse pensado que quaisquer declarações que proferisse sobre o assunto seriam sempre vistas como um favor a quem lhe continua a pagar. A Xinhua, que nestas coisas não brinca, não perdeu tempo em colocar-lhe o microfone à frente e já se encarregou de dar o destaque devido às suas declarações, entretanto também referidas pela TDM.

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Privilégios

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.10.14

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"As imagens que as fotografias de António Conceição Júnior nos propõem parecem ser uma resposta a essa inquietação metafísica relacionada com a dimensão cósmica do ser humano, dos seus territórios naturais e artificiais, o repositório dos seus deveres e das suas vaidades. Caso se tratasse de uma genérica inquietação, próxima do conceito budista de dukkha (geralmente traduzido - mal - como sofrimento, mas que estará mais perto de ansiedade, insatisfação), ondularíamos na ordem da cura. Felizmente essa inquietação transmuta-se, na e pela arte, em interrogações nómadas, em afirmação territorial, no desempenho de uma absoluta liberdade." - Carlos Morais José

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A cada um a sua lei

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.10.14

20120704_51b0c6b5a8d395e33407t8R02hzlJ5VQ.jpgEm 2012 muita gente se interrogou sobre se Leung Chun-ying seria digno de confiança. Em causa estava na altura a realização de um conjunto de obras ilegais nas suas casas do Peak. Depois da assunção de responsabilidades e de um pedido de desculpas o assunto morreu. Mas hoje volta a ser pertinente colocar a mesma questão e a resposta mais óbvia parece ser "não, não pode confiar".

Os movimentos desencadeados em Hong Kong em torno da escolha do futuro Chefe do Executivo daquela poderosa Região Administrativa Especial da RPC, no sentido da escolha por sufrágio universal e directo já em 2017, agudizaram-se a partir do momento em que foi conhecida a decisão de 31 de Agosto do Congresso Nacional Popular que determinou que a escolha dos candidatos a sucessores de C. Y. Leung ocorresse no seio do Comité de Eleição em termos idênticos aos verificados em 2012, isto é, sendo aquele órgão escolhido e controlado por Pequim a determinar quem seriam os candidatos que poderiam depois apresentar-se à eleição.

Esta decisão foi vista por largos milhares de pessoas como um grave desvio à letra e ao espírito do artigo 45.º, n.º 2, da Lei Básica de Hong Kong. Recorde-se que este normativo estatui que o objectivo último é a escolha do Chefe do Executivo de HK através do sufrágio universal por parte de um comité escolhido de acordo com as regras democráticas.  Nada mais se dizendo, a única forma que Pequim encontrou para obviar à apresentação de candidaturas saídas dos movimentos e partidos democratas que se lhe opõem foi a de tirar com uma mão o que aparentemente dava com a outra. Ou seja, o que Pequim disse foi que para haver sufrágio universal em 2017 o número e o nome dos candidatos seria previamente aprovado pelo órgão da sua confiança, devendo os três candidatos (número máximo) que viessem a ser aprovados obter o consenso de mais de 50% dos membros do Comité de Eleição.

Se em Maio, Junho e Julho a cena política já estava quente, e não apenas pela impiedosa canícula e humidade, tendo-se os campos extremado após o anúncio do movimento "Occupy Central" e a manifestação pró-Pequim de 17 de Agosto, que trouxe para as ruas centenas de milhares de pessoas, como que a dizer que em Hong Kong não havia só oposição mas também apoio na rua às intenções de Pequim, o final de Setembro colocou as autoridades locais perante novos desafios. A ocupação e paralisação de vastas zonas do centro nevrálgico de Hong Kong por movimentos cívicos e de estudantes veio chamar ainda mais a atenção internacional para a situação da antiga colónia britânica.

Durante algumas semanas, em virtude de ter andado por outras paragens, foi-me impossível acompanhar ao vivo e em directo o que se ia passando, ficando limitado ao que surgia nos jornais e nos ecrãs das televisões por onde passava, e era divulgado via Internet, mormente através de blogues e redes sociais. Apesar disso, creio que qualquer observador externo, que não acompanhasse a realidade local, sem dificuldade perceberia o que se estava a passar e perguntaria até quando as autoridades chinesas estariam dispostas a permitir o caos numa das mais importantes praças financeiras do mundo, numa das cidades mais belas e mais visitadas da Ásia.

Aos poucos foi possível perceber que o movimento desencadeado estava dependente de frágeis lideranças e de uma estratégia que, para além de reclamar o cumprimento de promessas e do artigo 45.º da Lei Básica, fosse mais do que a simples decisão de ocupação pacífica do centro da cidade. Muitos apontaram-lhe falta de consistência política. No entanto, e depois de um período em que o cansaço se começou a tornar evidente nos manifestantes, nas autoridades e em vastos sectores da população, as revelações do passado dia 8, do Sidney Morning Herald, voltaram a colocar a população em polvorosa e podem funcionar como um novo impulso para um reagrupar de forças e um endurecimento do movimento "Occupy Central" contra Pequim e a protecção que tem sido conferida à sua gente em Hong Kong.

Em causa está o recebimento por parte do Chefe do Executivo de Hong Kong de cerca de 4 milhões de libras, cerca de 50 milhões de dólares de Hong Kong, em dois pagamentos que lhe foram efectuados pelos australianos da UGL. De acordo com o que entretanto foi conhecido, C. Y. Leung dois dias antes de se demitir da DTZ, a entidade para a qual trabalhava e de que era director antes de se tornar Chefe do Executivo de HK, assinou um contrato secreto para ser "referee and adviser" do grupo australiano e para prevenir que formasse e/ou se associasse a uma empresa ou grupo rival contra os seus antigos patrões. Sabendo-se que já em Novembro de 2011 C. Y. Leung apresentara a sua candidatura à corrida para Chefe do Executivo, duvida-se da bondade dos argumentos invocados para os pagamentos, tanto mais que estes só viriam a ocorrer em 2012 e 2013, já em pleno mandato. Fosse para pagamento de comissões, tráfico de influências ou corrupção pura e dura, como parece ser, visto que em 2012 e 2013 havia a certeza de que ele não estava a desempenhar funções para terceiros concorrentes mas a exercer um cargo político em Hong Kong, certo é que este caso segue-se ao de Rafael Hui Si-yuan, outro membro do executivo de Hong Kong caído em desgraça devido às suas relações com os dois irmãos da poderosa Sun Hung Kai Properties, cujos contornos têm tanto de rocambolesco quanto de grave.

Se em Macau a sociedade civil é praticamente inexistente, reconhecidamente fraca e tudo - com excepção dos casinos e do que estes envolvem - funciona numa escala ínfima face ao que se passa em Hong Kong, não deixa de ser preocupante para as autoridades chinesas que, num momento em que na RPC o Partido Comunista e o seu líder máximo desenvolvem um combate sem quartel contra a corrupção (na melhor tradição maoísta designado por "Linha de Massas"), que já levou ao afastamento de mais de 70.000 membros do Partido, não sendo sequer poupados os seus mais altos dirigentes e a elite empresarial, nas duas regiões do delta do Rio das Pérolas se sucedam casos de corrupção envolvendo figuras do establishment, milionários, empresários conhecidos e membros dos executivos locais, em ambos os casos desafiados por jovens muito novos e estudantes - em Hong Kong um dos dirigentes do movimento tem apenas 17 anos e esteve detido durante 46 horas.

As reacções a que até agora temos assistido, que rapidamente vão da tolerância ao uso da força - bastonadas, gás pimenta e gás lacrimogéneo já foram utilizados pelas forças de segurança de Hong Kong -, com o arrastar da contestação de rua e a consequente degradação da imagem de confiança, estabilidade e segurança de Hong Kong, não permitem a ninguém com um mínimo de seriedade prever o que se vai passar a seguir. Tudo é possível.

Um endurecimento das posições de Pequim e o uso indiscriminado da força aumentará a desconfiança da população de Hong Kong, dos observadores externos e dos investidores. Por outro lado, a aceitação nas actuais circunstâncias das exigências dos manifestantes transmitiria sempre uma imagem de fraqueza que retiraria face às autoridades chinesas e poderia constituir um desafio aos movimentos, sistematicamente silenciados e desvalorizados, que no interior da China clamam por mais liberdade e democracia. Qualquer que seja o desfecho, que estou convencido ocorrerá muito em breve, talvez não mais que algumas semanas, nada voltará a ser como dantes.

Do outro lado do estreito da Formosa, apesar dos mais recentes desenvolvimentos nas relações com Taipé, são muitos milhões os olhos que observam o que se vai passando em Hong Kong. Deste lado do delta também. Não é só a confiança em C. Y. Leung e a protecção que a RPC tem dado a alguns sectores corruptos da elite empresarial e política de Hong Kong que suscita interrogações. Torna-se por isso legítimo aos cidadãos de Hong Kong perguntar até que ponto a RPC é confiável. A resposta só poderá ser dada pelas autoridades chinesas e vai depender da forma como se processar a escolha do próximo Chefe do Executivo. O que agora está em cima da mesa também não se resume a um punhado de dólares. E dificilmente estes seriam alguma vez suficientes para comprarem o que se receia ver restringido ou perder e que continua a ser preservado - até quando? - num modestíssimo 5.º andar da Austin Avenue: o direito a escolher. A liberdade.

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O voo do quetzal

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.09.14

Na sua longa viagem que vai levá-los a percorrer vários palcos na Ásia, e antes de rumarem a Tóquio, os Sisay resolveram fazer uma escala técnica no Auditório das Casas-Museu da Taipa. Depois de há algumas semanas por ali ter passado o saxofone de Antonio Hart, desta vez foi a fusão do jazz contemporâneo com sonoridades tradicionais dos Andes, com a riqueza de todos os seus instrumentos típicos, de sopro, cordas e percussão, que me dirigiu para aquele pequeno espaço, junto à tranquilidade dos nenúfares e das aves da lagoa que tem por fundo o novo riquismo do Venetian, os néones da City of Dreams e, ao longe, esbatidas pelas primeiras cores do entardecer, as luzes douradas, azuis, verdes, vermelhas, lilases, das cúpulas kitsch do Galaxy. Durante duas horas, dos temas regionais do seu Equador natal, passando pela Bolívia, Chile e Perú, por vezes com um cheirinho mexicano, sempre com um ritmo capaz de fazer abanar os mais sorumbáticos, até melodias mais conhecidas como o inconfundível Bésame mucho de Consuelo Velazquez, El condor pasa, Under the moon ou o popular Tarantella. Desconheço se alguma vez passaram por Portugal, sendo certo que se o fizessem criariam mais uma legião de admiradores. O som nos seus discos e dvd é bom, mas é ao vivo que se torna possível apercebermo-nos de todo o seu esplendor e da riqueza dos instrumentos que utilizam, em especial em temas como Bomba suite, Jari Jari, Tejiendo nubes ou Ecuador suite.

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O prazer da leitura

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.09.14

31.º C, 84% de humidade relativa no ar. De pequenino se começa a aprender a ler.

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Quatro notas rápidas

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.09.14

1. Espero que os portugueses continuem a seguir com atenção o trajecto político de Marinho e Pinto. Admito que não seja fácil, tal a rapidez com que troca de fato e aparece num novo facto. Se há coisa que um cata-vento político mantenha é a coerência. Sempre a girar, nem dá tempo para avisar.

 

2. O Sol titula na primeira página de hoje que "Seguro prepara surpresa" e acrescenta que o secretário-geral do PS tem na manga uma "avalancha de entradas nos últimos dias". Aguardo confirmação da cartada. Oxalá que nenhum dos novos esteja já morto e que essa avalancha de entradas não seja mais um acto de homenagem dos sobrevivos. Pensava que a decisão de um indivíduo se inscrever como simpatizante ou militante de um partido era um acto solitário, uma decisão individual, eminentemente livre e racional, tomada no último reduto da solidão, no fundo da sua consciência. Tretas.

 

3. Carlos Moedas diz que lhe entregaram uma pasta "chave para o crescimento da Europa", depois do novo presidente da Comissão ter dito que as pastas chave foram entregues a mulheres. Não discuto pastas em função do sexo, matéria em que quer Junker quer Moedas estarão mais à-vontade. Penso, sim, que Moedas tem uma boa oportunidade para demonstrar que é bem melhor do que aquilo que aparentou ser no Governo de Passos Coelho. O interesse nacional obriga a que lhe seja dado o benefício da dúvida.  

 

4. O trabalho efectuado tem sido registado. A disponibilidade e vontade de melhorar idem. E pessoalmente só tenho a dizer bem de quem lá trabalha e ali me tem atendido. De qualquer modo, não deixa de ser irónico que seja o antigo chefe de gabinete de Miguel Relvas a dar conta da situação a que se chegou no Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong: menos "treze funcionários nos últimos dois anos (incluindo uma chefia)" e dificuldades "materiais – com estações de tratamento de dados biométricos continua e reiteradamente avariadas – a acrescer à questão de 2014 ser justamente o primeiro ano coincidente com a renovação obrigatória dos documentos de identificação". Fica mais claro porque renovar um cartão de cidadão ou tirar um passaporte leva vários meses. A redução de funcionários não constitui novidade. A recorrência nas avarias da estação de tratamento de dados biométricos sim. Está visto que o secretário de Estado José Cesário, apesar das constantes viagens que faz a Macau, não é o homem indicado para efectuar as reparações nos consulados. Sabe-se que o MNE vive noutro mundo, mas Passos Coelho podia já ter compreendido isso. Perceber de canos não é o mesmo que saber de circuitos de alta tecnologia. A Cesário não se lhe pode exigir mais.

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O mestre chegou

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.09.14

Enquanto o grande arquitecto vai pensando na renovação do Hotel Sun Sun, vou seguir a recomendação da minha amiga MJF e agendar uma visita à exposição das fotos de Fernando Guerra sobre a obra de Siza Vieira. Será um pequeno gesto de agradecimento ao homem que contribuiu para que hoje me possa sentar num aprazível jardim, durante as minhas horas de almoço, a ler os meus jornais. Em paz e sossego.

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E Portugal não diz nada?

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.14

A RAE de Macau atravessa um período de instabilidade política e social, a qual tem tido eco quer na imprensa local e regional, quer na internacional. Em Portugal também não têm faltado algumas notícias, ainda que esporádicas, ao que por aqui se passa. 

Depois das manifestações de Maio e Junho, que trouxeram para as ruas largos milhares de pessoas, até então silenciosas e submissas, por causa da preparação de um diploma que visava atribuir aos actuais governantes, à beira de cessarem funções, e aos que já há muito terminaram, um conjunto de escandalosas benesses de natureza pecuniária e jurídica visando o seu injustificado enriquecimento e protecção, e do despedimento de académicos, pelo menos num dos casos com expressa invocação de razões políticas, a Região volta a ser confrontada com momentos de tensão.

Decorrendo neste momento a "campanha eleitoral" do candidato único à chefia do Executivo da RAEM, traduzida em contactos informais com associações profissionais, culturais, sociais, empresariais, comerciais e industriais, incluindo algumas de matriz portuguesa e genuinamente macaense, onde normalmente sem perguntas o candidato discursa, distribui cumprimentos e faz brindes, pede desculpa pelo que correu mal, promete um mundo maravilhoso e faz pungentes declarações de amor à Pátria e a Macau, o que certamente ninguém esperaria era que, a uma semana do acto eleitoral que entronizará Fernando Chui Sai On para um segundo mandato, as ruas fossem de novo invadidas por manifestantes - trabalhadores dos casinos agrupados na denominada Forefront of Macau Gaming - que reclamam melhores salários e condições de vida dignas, e que Macau voltasse às páginas dos jornais pela repressão ao exercício de direitos de manifestação e de liberdade de expressão política, a ponto de suscitar a apreensão da Amnistia Internacional.

O problema reside agora no facto de três organizações da sociedade civil (Macau Consciência, Juventude Dinâmica e Sociedade Aberta de Macau), politicamente bastante activas e organizadas, terem desencadeado um processo de auscultação da opinião pública para saber se as pessoas têm confiança no Chefe do Executivo e se querem que a próxima escolha seja por sufrágio universal. Deram-lhe, erradamente, o nome de "referendo civil", com o que quiseram imitar um processo idêntico verificado em Hong Kong, no qual participaram quase oitocentas mil pessoas.

Depois de terem visto negada a autorização para o uso de espaços públicos e do Tribunal de Última Instância, prudentemente, se ter colocado à margem da controvérsia, dessa forma evitando comprometer-se e dando uma no cravo e outra na ferradura, iniciaram o processo de recolha de opiniões em diversos locais da via pública, usando "Ipad's", e através de um site na Internet. Os organizadores contam recolher opiniões até às 12h de 31 de Agosto, dia em que ocorrerá a escolha do novo Chefe do Executivo, mas tiveram o cuidado de, desde logo, avisar que o resultado da sua consulta só seria divulgado depois de conhecidos os resultados oficiais.  

A posição das autoridades da RAEM, aliás fazendo eco da opinião que desde a primeira hora foi veiculada pelo porta-voz do Governo, foi no sentido de considerar ilegal o "referendo", dizendo que o mesmo não estava previsto na lei. A partir daí, e a despeito da pouca sensatez política e jurídica dos argumentos, que quanto à sua substância jurídica foram inteligentemente desmontados, entre outros, por António Katchi, nas páginas do Ponto Final, o Governo persistiu na sua posição e no Domingo, 24 de Agosto, primeiro dia do "referendo", procedeu à detenção dos organizadores invocando a recolha "ilegal" de dados pessoais e a prática de crimes de desobediência qualificada, argumentos a que também já foi dada resposta.

Se neste processo os organizadores da consulta não estiveram bem na estratégia utilizada - politicamente criticável pela sua ingenuidade, discurso utilizado e persistência num discurso que servia os interesses das autoridades locais -, cuja primeira atitude deveria ter sido a alteração do nome da consulta de referendo para sondagem logo que as críticas dos sectores pró-governamentais e do próprio Governo surgiram, certo é que o Governo da RAEM tem reagido mal e de forma desproporcionada ao que está acontecer. Ao dar ao assunto a importância que aquele não tem, o Governo da RAEM conferiu-lhe escusada projecção e dimensão internacional, transmitindo uma imagem de grande insegurança na sua actuação, de falta de estratégia política e de confiança na acção do sistema judicial, deixando escapar de forma expressa - porque implícita sempre esteve presente - a ideia de manipulação da Administração Pública e das forças policiais, bem como de incapacidade para lidar com a crítica e a liberdade de expressão.

É evidente que a recolha de dados pessoais para um fim específico e autorizada pelos próprios, cidadãos maiores, politicamente responsáveis e conscientes, como seja a identificação ou o número do respectivo documento de identificação, como é normal em qualquer país democrático para subscrição de petições públicas ou até para participação em sorteios ou recebimento de ofertas promocionais de empresas comerciais, não se confunde com a recolha não autorizada, escondida e à revelia dos visados dos seus dados pessoais para criação de bases de dados para utilização duvidosa, que aqueles desconhecem e ninguém controla. E a prova de que as pessoas não se sentiram lesadas nem desconfiaram do procedimento foi que logo a seguir à detenção dos organizadores aumentou o afluxo de participantes via Internet para participarem na sondagem. A desproporção de meios entre as autoridades e os organizadores da consulta é óbvia, tornando-se ridículo que a detenção de Jason Chao, conhecido activista que lidera o movimento, tenha ocorrido num momento em que este se dirigia para uma casa de banho e as autoridades de Macau tenham passado pelo vexame dele se recusar a falar, garantindo o seu direito ao silêncio, recusando-se a fornecer quaisquer dados inerentes à consulta aos elementos das forças policiais, incluindo, e bem, a rejeição de lhes facultar a identidade dos participantes com o argumento simples e eficaz de que só o faria com uma ordem judicial.  

Escusadamente, Macau volta a estar nas páginas da imprensa internacional. Pelas piores razões e justificando a atenção dos media, da opinião pública mundial e das organizações de protecção dos direitos humanos. Em causa, de novo, questões que se prendem com a participação política e o direito ao sufrágio universal. Mas tal como noutras questões que não foram suficientemente acauteladas pelos negociadores portugueses, também nesta matéria Portugal esteve mal ao não ter conseguido que na Declaração Conjunta Luso-Chinesa tivesse ficado, ao contrário do que aconteceu com a Basic Law de Hong Kong, através do artigo 45.º, o direito ao sufrágio universal, pelo menos como meta a atingir num futuro próximo: "The method for selecting the Chief Executive shall be specified in the light of the actual situation in the Hong Kong Special Administrative Region and in accordance with the principle of gradual and orderly progress. The ultimate aim is the selection of the Chief Executive by universal suffrage upon nomination by a broadly representative nominating committee in accordance with democratic procedures". Esta última é uma frase que faz toda a diferença entre um lado e o outro do estuário do rio das Pérolas, e que diz bem da diferente postura de portugueses e ingleses.

Enfim, nada que não fosse previsível vir a acontecer e que os portugueses ficaram a dever, entre muitas mais, ao povo de Macau. Mas quanto a isto, o melhor mesmo é os portugueses perguntarem ao Presidente da República, Cavaco Silva, por que razão tal não ficou consagrado. É que foi este senhor quem, em última instância, em 13 de Abril de 1987, foi a Pequim assinar em nome do Governo Português o documento que formalizou os termos para a transferência de Administração de Macau para a RPC, fixando a agenda para os 50 anos pós-1999.

Como se vê, volvidos apenas meia dúzia de anos, a História não perdoa erros de tão grande miopia política. Jason Chao tinha menos de seis meses quando a Declaração Conjunta foi assinada. Trocar princípios ou vistos de residência por patacas e euros nunca poderia dar bom resultado. A não ser para os bolsos dos que à custa disso se tornaram empresários, fizeram fundações, promoveram o BPP ou puderam mudar-se para a Quinta Patiño.

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O regresso da idade das trevas (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.08.14

"From my own experience in 2011, I would say that the threat to academic freedom at this university is not recent nor limited to local politics but extends to religious, gender and sexual politics".

 

A carta que foi publicada por Maureen Sabine, professora honorária de História da Hong Kong University, na edição de 8 de Agosto passado do SCMP, (Academic freedoms at risk in Macau) volta a colocar na ribalta a actuação da Universidade de S. José e da sua reitoria, dando a entender que, afinal, o problema a que nos referimos em 25 e 26 de Junho, e depois em 28 de Junho p.p., já vem de trás. E o que recentemente aconteceu só serviu para mostrar o agravamento da situação.

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Luís Luciano Demée

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.07.14

(Avenida Almeida Ribeiro, 1982)

 

Discípulo e amigo de George Smirnoff, arquitecto e pintor de origem russa que foi seu mestre na década de 40, viria a tornar-se num dos mais altos expoentes da pintura macaense contemporânea. A partir de 1950 começou a expor em Macau e em Hong Kong, sempre com bastante sucesso. Passou por Paris graças a uma bolsa da Fundação Gulbenkian e em 1961 tornou-se professor assistente da Faculdade de Belas Artes do Porto. Na primeira Bienal de Paris recebeu críticas honrosas e uma bolsa da Federação de Paris dos Críticos de Arte. Cidadão emérito de Macau, que lhe atribuiu a sua medalha de ouro, pintou como poucos o mar e o porto interior. Está representando em numerosos museus, entre os quais o Centro de Arte Contemporânea, Serralves, Museu Nacional Soares dos Reis, Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, Museu Luís de Camões (Macau) e Museu de Arte Moderna (Macau), e colecções particulares. Como escreveu outro grande senhor da cultura macaense, António Conceição Júnior, que foi o curador da sua última exposição no Museu de Arte de Macau (2006/2007), Demée foi "um dos mais importantes pintores portugueses da sua geração, que escolheu a via do recolhimento e da discrição para se exprimir, fugindo às ribaltas fáceis que sempre foram excessivas para o seu temperamento". Deixou-nos ontem, no Porto, cidade que escolhera para viver os seus últimos anos, legando-nos toda a intensidade e simplicidade da sua obra. Como é próprio dos artistas intemporais.

(Juncos no Mar Alto, 1945)

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Tempo de antena para os campeões

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.07.14

Decorreu hoje o jantar comemorativo do final da época futebolística e entrega de prémios à equipa e jogadores da Casa de Portugal em Macau. O vetusto e sempre acolhedor Clube Militar abriu as portas. Da 3ª à 2ª divisão, depois da 2ª à 1ª, foi um acumular de sucessos. Esta época foram sempre líderes e sagraram-se campeões a três jornadas do fim. Invictos e todos amadores. Para o ano a Liga de Elite (1ª divisão do futebol de Macau) espera por eles e pelos golos de Jean Perez e de Mecenas. Com mais taça ou menos taça, mais discurso ou menos discurso, fica o registo do(s) momento(s). Discurso sóbrio e adequado do Cônsul Geral de Portugal, a anteceder as palavras, convictas, da presidente da Casa de Portugal. Ali joga-se por amor à camisola. Os infatigáveis Vilar e Pelé são a prova disso. 

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Doze obras-primas dos museus de França (11)

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.07.14

Tal como acontece como muitos outros grandes senhores da arte, Fernand Léger (1881-1955) fez de tudo um pouco. Ao longo da sua vida foi decorador, ceramista, autor de vitrais, escultor, desenhador, ilustrador e até cartoonista. Parte da sua obra relativa ao período entre 1902 e 1908 foi destruída pelo próprio, sendo que terá sido a partir desse anos e na sequência de uma retrospectiva dedicada a Cézanne, que teve lugar em 1907, que começou a ser decisivamente influenciado por este, para depois se aproximar do cubismo de Picasso e Braque. A procura do equilíbrio entre as formas, as linhas e as cores passou a ser uma constante. As suas formas geométricas ganham autonomia e dinamismo no espaço que lhes é destinado. Isso é particularmente visível num tema caro aos impressionistas e que se impôs na obra de vários artistas do seu tempo. O circo surge como um precursor dos grandes espectáculos de massas. Favorecido pela revolução industrial aparece de uma forma ou de outra nas obras de Degas, de Toulouse-Lautrec, de Picasso, Matisse, Seurat e outros. O circo, como Léger, explicou, foi o acontecimento da sua infância e permitiu-lhe, bem como aos seus contemporâneos, estudar o ritmo, o movimento e a cor. Chagall diria que o circo preenchia as suas horas nocturnas, ocupando o centro do seu quarto, de onde passou para as telas. O Circo Médrano (1918) é um reflexo de tudo isso e da influência que teve nessa geração de pintores, do envolvimento das formas e da cor, em especial da dinâmica do movimento em pequenos fragmentos de um espectáculo popular e moderno. Posteriormente, Léger, que em 1940 se exilou em Nova Iorque, onde vem a descobrir o circo Barnum no Madison Square Garden, com todas as suas pistas e espectáculos em simultâneo, dedicaria mais algumas telas à temática do circo (La danseuse bleue, 1930, Le jongleur et les acrobates, 1943 e Les acrobates en gris, 1942-44). No entanto, o Circo Médrano, uma metáfora da vida, ficaria como uma das suas obras de referência, a que não faltam o trapezista, o palhaço, o cão amestrado ou as bancadas.

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Doze obras-primas dos museus de França (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.07.14

Este é um quadro que impressiona pelo pormenor do desenho e a intensidade das sombras nas vestes do retratado. Trata-se do Retrato de Francisco I, Rei de França, quadro pintado por volta de 1530 da autoria de Jean Clouet (1480-1540). Famoso por ter sido um amante da arte e um dos mecenas do seu tempo,o rei foi pintado no Castelo de Fontainebleau. Vestido à italiana, sem os atributos da função, o quadro reúne a precisão do realismo flamengo com a influência dos pintores italianos da Renascença. Ao peito, o colar da Ordem de S. Miguel, da qual era o grande mestre, é de um rigor inexcedível.

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Doze obras-primas dos museus de França (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.06.14

A paixão entre um homem e uma mulher foi sempre motivo de inspiração para qualquer artista. Da poesia à música, passando pela literatura e a pintura. O Ferrolho, de Jean Honoré Fragonard (1732-1806), é mais um desses exemplos. Pintado por volta de 1777, depois de uma segunda viagem a Itália e do rompimento do pintor com Madame du Barry, a amante favorita de Luís XV, esta tela retrata uma cena de paixão e reflecte as influências e a admiração que o artista terá tido pelos mestres do Barroco (Rubens) e da Escola Holandesa (Rembrandt), inaugurando um novo estilo. As cores, em tons pastel, típicas do Rococó, apresentam-se neste quadro como uma ponte entre as cores fortes do Barroco e o período neoclássico. Para alguns tratar-se-ia de uma resposta a Viens, a favor de quem o pintor perdeu o apoio de Madame du Barry. O quadro é atravessado por uma linha imaginária que liga o ferrolho à maçã, não se percebendo se a cena antecede ou sucede ao encontro entre os amantes. Se por um lado se fica com a sensação de que o ferrolho está a ser corrido, por outro verifica-se que as almofadas estão em desalinho. Um quadro que há muitos anos não via e que voltou a impressionar-me pela cor e a luz que o atravessam.   

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Doze obras-primas dos museus de França (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.06.14

Da autoria de Fraçois Boucher, pintor que viveu entre 1703 e 1770, "Diana saindo do banho" foi pintado em 1742 e mostra a deusa, depois de uma caçada e de um banho retemperador, a preparar-se para se arranjar enquanto segura um colar de pérolas. A seu lado uma ninfa que a ajuda. O quadro é todo ele um hino à feminilidade e à beleza da mulher, sendo Diana apresentada em toda a sua graça e sensualidade, em comunhão com a natureza. A luz vem toda da esquerda e a profundidade do azul faz realçar ainda mais a frescura e brancura da pele da deusa e o verde da vegetação. Ao seu lado, no chão, os troféus da caçada.

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O regresso da idade das trevas (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.06.14

Foto: Scholar Éric Sautedé was sacked from the University of Saint Joseph (USJ) due to his regular commentary on public affairs in local mediaMacau Daily Times © 27.06.2014

(cartoon de Rodrigo no Macau Daily Times)

 

"(...)

Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.
Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levará para sempre.
Mas ali
Hei de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre." - Ruy Cinnati

 

Por cada dia que passa vão-se sabendo mais pormenores e as águas, tal como pretendia o reitor da Universidade de S. José, Peter Stilwell, vão sendo separadas. Para já, alguns factos novos ontem conhecidos vão compondo o puzzle.

Um comunicado do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura do Governo de Macau, entidade que tutela as universidades, veio esclarecer que dali nunca partiu qualquer indicação no sentido do afastamento de Eric Sautedé e recordou o princípio da autonomia das universidades.

O segundo facto é um comunicado da Universidade de Macau (UM) lamentando a expulsão do seu auditório, durante a cerimónia anual de graduação, de uma estudante, que exibira um cartaz exigindo que cessassem as perseguições de académicos, e de um fotógrafo, que concluiu com um pedido de desculpas a todos os que se sentiram afectados com a situação.

Depois, a juntar aos anteriores, foi divulgado pelo Ponto Final que Eric Sautedé já fora afastado do cargo de responsável pela organização de eventos académicos na Universidade de S. José, depois de uma palestra do historiador holandês Frank Dikötter sobre a revolução chinesa. De acordo com o referido matutino, a palestra fora sugerida por Sautedé e aprovada pela instituição, tendo ocorrido no dia 3 de Abril pp.. Poucos dias antes de ter lugar esteve para ser abortada, devido a pressões externas, mas os convites já tinham sido enviados. O tema da palestra centrou-se no último livro de Dikötter com o título “A tragédia da libertação” que versa sobre os primeiros anos do comunismo chinês e que de acordo com o historiador holandês foram marcados pela violência sistemática. Nessa palestra, Dikötter afirmou que “Mao quebrou todas as suas promessas” e “o investigador defendeu que a reforma agrária foi um acto de violência em que a maioria das pessoas foi incitada a denunciar um pequeno grupo”, afirmando na ocasião que “a fundação da República Popular da China está escrita em sangue”.

Por fim, para que tudo seja ainda mais estranho, o mesmo jornal dá conta de existir uma instrução com cerca de vinte anos do ex-cônsul dos EUA em Hong Kong, James B. Cunningham, emitida aquando da criação do Instituto Inter-Universitário de Macau (IIUM), que daria lugar à actual Universidade de S. José, informando que havia dois temas intocáveis: o princípio “um país, dois sistemas” e o “Politburo do Partido Comunista Chinês”. Esse documento publicado pela Wikileaks terá sido enviado em 2008 ao Vaticano, à Autoridade Nacional de Segurança de Portugal e às embaixadas americanas em Luanda, Maputo e Brasília. De acordo com a diplomacia norte-americana, a Universidade “não contestou a instrução”. O Ponto Final refere ter o consulado norte-americano sido contactado em 1996 por Ivo Carneiro de Sousa, que então apresentou o IIUM como um exemplo da máxima “Pequim fala e Macau escuta”, mas o jornal não conseguiu obter um comentário do visado sobre as declarações que lhe são imputadas.

Um dos leitores do Delito de Opinião sugeriu num comentário que aqui deixou estar a haver uma "perseguição" à Igreja católica em Macau. Nada de mais falso. Não há, nem nunca houve, qualquer problema com a Igreja católica na RAEM. Em Macau todas as religiões vivem em harmonia, têm o seu espaço, continua a haver feriados religiosos, mesmo feriados que foram suprimidos em Portugal pelo Governo de Passos Coelho. Há missas em português, chinês, inglês e até filipino e continuam a ser realizadas procissões em Macau pelas ruas do centro da cidade, sendo as mesmas religiosamente respeitadas por todos. A comunidade cristã de Macau continua forte e sólida, sobre isso não há a mínima dúvida, tendo até a Igreja um jornal, o semanário O Clarim, que já leva 58 anos e vai agora passar a ser publicado em três línguas.

Refira-se, aliás, que a primeira página da edição desta semana do semanário da diocese de Macau contraria de forma flagrante as justificações dadas por Peter Stilwell para o despedimento sumário de Eric Sautedé, à boa maneira salazarista, e a despromoção da mulher, a investigadora Emily Tran. Recorde-se que Stilwell afirmou que a Igreja católica não se pronunciava sobre a política interna dos locais onde está instalada. Pois bem, O Clarim, na primeira página, anunciava que os padres João Lau e Francisco Hun foram escolhidos por D. José Lai para integrarem a Comissão Eleitoral que irá escolher o futuro Chefe do Executivo e clamava por mais habitação e combate à inflação que são necessidades e preocupações recorrentes da população nos últimos anos. Penso que para quem disse que a Igreja devia ficar à margem, mais político do que participar na escolha do mais alto dirigente político da RAEM, deixando de fora dessa escolha mais de 600.000 pessoas, era impossível. A não ser que para Peter Stilwell a única intervenção aceitável da Igreja católica deva ser para apoiar o poder político.   

Quanto a um eventual aumento de influência da comunidade judaica, que também foi sugerido, é facto que desconheço por completo já que não possuo dados que me permitam tirar essa conclusão. Sabe-se, isso sim, que a própria Universidade de S. José tem recebido, como é de esperar de uma universidade, investigadores de áreas temáticas relacionadas com o judaísmo e, curiosamente, ou talvez não, no mesmo dia em que se confirmava publicamente o despedimento de Eric Sautedé, a Universidade de S. José enviava convites a promover uma palestra com o seguinte tema: "The rethoric of concealed Judaism: the Inquisition and the New Christians of Macao in the late-sixteenth century". O Clarim, que há pouco referi, publica um texto do investigador Miguel Rodrigues Lourenço sobre o tema.  

Os factos estão aí. Quem quiser que julgue a atitude do reitor Peter Stilwell. Por mim estou esclarecido. Seguramente que o seu amigo Ruy Cinatti estará atento, lá em cima e sabendo o que passou em vida, com o que por cá se passa. Espero que amanhã, quando envergar as vestes para celebrar a missa de Domingo, na Sé, tenha cara para enfrentar o Senhor. E que Ele na sua infinita bondade lhe perdoe o que fez a um homem bom e a uma família. Porque quanto à comunidade de Macau, duvido que enquanto se lembrar do que sucedeu o faça.

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O regresso da idade das trevas (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.06.14

Esta manhã ficámos a saber que Émily Tran, a directora da Faculdade de Administração e Liderança da Universidade de S. José, mulher de Eric Sautedé, não será reconduzida no cargo. Ao mesmo tempo, foram-nos dadas a conhecer um pouco melhor as razões do reitor Peter Stilwell para o despedimento de Eric Sautedé.

O reitor, em carta dirigida ao Macau Daily Times, assume a responsabilidade pelo despedimento sem processo disciplinar. E vai mais longe, esclarece que as razões para o termo do contrato residem precisamente no seu respeito pelas convicções do despedido, confirmando o que já todos sabiam: "Did financial issues figure in all this process? I will not deny that I was aware such concerns existed, whether real or imagined".

A carta, como bem assinala Carlos Morais José no Hoje Macau, é uma prova da incapacidade do reitor para perceber onde está e de qual a importância da Igreja católica em Macau e na China, pois que desconhece o que seja o segundo sistema e está, no mesmo dia em que se deu um histórico encontro a nível ministerial entre Pequim e Taipé, a colocar no centro da discussão uma questão - a liberdade de expressão - que nunca se colocou desde a transferência de administração para a China. Depois compara a sua acção à do Cardeal Tournon, "o grande responsável pela má situação dos jesuítas na China durante o século XVII", porque "Stilwell está a fazer mais ou menos a mesma coisa. As suas atitudes e palavras implicam que não tem confiança no segundo sistema (...) e julga que está em Chonqing ou Ningbo, onde vigora o primeiro sistema. Isto é grave. Era preciso cair aqui um português de pára-quedas para estragar o trabalho que andamos a fazer há décadas. Um trabalho que implica confiança mútua, diálogo e a amizade entre portugueses e chineses e nunca a desconfiança e o insulto", para concluir dizendo que "não perceber que a China pretende que Macau seja uma terra de liberdade é não perceber o que é hoje a RPC".

Em resposta a Stilwell, que perguntou na sua carta como se deveria posicionar a universidade católica em Macau, de modo a manter-se fiel a uma tradição de 400 anos de valores humanistas, escreve Inês Santinhos Gonçalves no Ponto Final que a melhor resposta talvez seja "não abdicando desses mesmos valores humanistas". Também me parece.

Como escreve o director do Macau Daily Times, não se compreende como é que alguém que não foi sujeito a qualquer acção disciplinar, que é respeitado pelo próprio reitor, segundo este afirma, e por muitos outros dentro da Universidade de S. José, deva ser afastado da docência.

Stilwell refere ainda, enigmaticamente, a existência de "interesses estrangeiros" mas não esclarece quais sejam.

Entretanto, um grupo de estudantes da universidade escreveu à Prof.ª Maria da Glória Garcia (UCP) pedindo a sua intervenção, e um grupo de docentes católicos da S. José escreveu no mesmo sentido ao Bispo de Macau.

Stilwell, como se lê na carta que escreveu, considera que o despedimento de Sautedé faz parte do "job", mas, pergunta Paulo Coutinho no Macau Daily Times, de que trabalho, a que trabalho se refere ele? De facto, não se percebe que estranha missão foi essa que lhe encomendaram que envolve o desprezo pelos valores cultivados pelo humanismo cristão, o desprezo das mais elementares regras de justiça e a comissão de actos ofensivos do direito à liberdade de expressão e de opinião dentro de uma universidade?

Gostaria de sublinhar que durante muitas semanas li as crónicas de Eric Sautedé desconhecendo por completo a sua condição de professor da Universidade de S. José, o que só muito mais tarde vim a descobrir em conversa com um amigo comum, pelo que posso testemunhar que foi sempre feita uma separação claríssima de águas entre a sua intervenção e a instituição onde se acolhia, cujo nome jamais apareceu nas páginas dos jornais. 

Rocha Dinis, na Tribuna de Macau, ao comentar a justificação de Stilwell de que a Igreja "não intervém no debate político dos locais onde está implementada" diz que não sabe de que Igreja fala Stilwell, e recorda o papel de João Paulo II na viragem da Polónia e no desgaste do império soviético.

A situação da academia em Macau é neste momento de tal forma grave que Choi Chi U, professor universitário e antigo presidente da Associação de Escolas de Macau, em entrevista ao Hoje Macau, foi ao ponto de afirmar que a situação é pior do que a que se vive no interior da China ou em Taiwan.

Não creio que seja normal o que por aqui está a acontecer. Menos ainda a atitude do reitor da Universidade de S. José. E o que mais me incomoda e mais incompreensível se torna, como aos olhos de muitos outros portugueses e chineses que aqui vivem, é saber como é possível que atitudes desta natureza e com o efeito multiplicador que comportam sejam desencadeadas e assumidas por parte de quem chegou vindo de onde veio, com indiscutível capacidade intelectual, preparação académica e teológica, tendo todas as condições para fazer um trabalho que não deslustrasse a acção da Igreja católica em Macau e contribuísse para o aprofundamento dos valores do humanismo cristão neste pequeno e pacífico recanto do Sul da China.

Um episódio lamentável cujas ondas de choque ainda estão por avaliar, recordando os piores dias e todos os vícios de alguns ex-governadores e dirigentes do tempo colonial.

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O regresso da idade das trevas

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.06.14

Ainda há dias, quando passou mais um aniversário sobre os acontecimentos de Tiananmen, publicámos aqui uma foto tirada por um académico de Macau. Pois bem, numa decisão inédita, o professor de Ciência Política e senior lecturer of Asian Politics da católica Universidade de S. José acaba de ser despedido, sem apelo nem agravo, pelo reitor, o padre Peter Stilwell.

Eric Sautedé tem sido nos últimos anos uma das vozes mais respeitadas da Universidade de S. José, e até há bem pouco tempo muitas das suas opiniões eram publicamente divulgadas pela instituição no seu Facebook, incluindo a visão daquele sobre múltiplos assuntos, nomeadamente sobre as eleições para a Assembleia Legislativa de Macau. Para além de dedicar o seu tempo ao ensino, Eric Sautedé colabora regularmente com um diário local, o Macau Daily Times, onde assina uma coluna de opinião.

Pois bem, a partir de 11 de Julho, numa decisão muito pouco cristã, Sautedé, ao fim de sete anos, deixará de dar aulas na Universidade de S. José por decisão do reitor Peter Stilwell. Depois de ter invocado para o afastamento do académico o facto daquele não ter ainda completado o doutoramento, argumento que não colheu, Stilwell "escorregou" e veio afirmar que "se há um docente com uma linha de investigação e intervenção pública, coloca-se numa situação delicada". E acrescentou que "[t]rata-se de clarificar as águas. Há um princípio que preside à Igreja de que não intervém no debate político dos locais onde está implementada".

Acontece que é esta mesma universidade que dá as boas-vindas aos estudantes afirmando que "the University has strategically elected to be a university on the cutting edge of ideas and knowledge, defined by its adherence to humanitarian and humanistic values and principles, bound to the development of autonomous and creative thinkers, pledged to the highest forms of learning, teaching and research, and committed to the promotion of life, education and culture", e foi o actual reitor quem escreveu que o programa de ensino da universidade "provide students with the essentials of their major field of knowledge, but include modules to broaden their outlook on the world and stimulate creative thinking. We care for the competence of our graduates in their future professions, but our privilege and mission is to introduce them to a university environment where they learn to analyze, question, evaluate and decide in the context of consciously assimilated values and culture".

O Bispo de Macau diz não ter sido informado do afastamento de Eric Sautedé, embora presida à Fundação que detém a Universidade de S. José e da qual fazem parte três pessoas com cargos políticos. É o caso de Lionel Leong, membro do Conselho Executivo, Dominic Sio, deputado nomeado, e Eric Yeung, delegado à Conferência Consultiva Política do Povo Chinês.

Entrevistado pela Rádio Macau e questionado sobre a sua atitude e aquela que tem sido a posição da Universidade Católica, em Portugal, designadamente quanto a alguns dos seus professores que, à semelhança de Sautedé, têm lugar na academia e assumem posições críticas no debate político, como João César das Neves ou João Pereira Coutinho, o reitor veio dizer que Portugal não é Macau. O reitor Stilwell foi mesmo mais longe e referindo-se à actividade de Eric Sautedé, enquanto professor de Ciência Política, declarou que se podem estudar os sistemas políticos e a Lei Básica, mas que aos docentes (staff) não deve ser permitido intervir nos assuntos correntes políticos e da governação porque existe uma linha muito fina que torna difícil a separação entre a intervenção política e o comentário académico.

Na Universidade de S. José já foram tomadas posições de apoio e solidariedade para com Eric Sautedé, temendo-se agora o despedimento da sua mulher, que também integra os quadros daquela instituição académica.

Tudo isto acontece quando o Chefe do Executivo de Macau, tendo sido confrontado com crescentes posições críticas saídas de dentro das universidades e a reacção precipitada destas, que para além do despedimento de Sautedé já incluem a suspensão do politólogo Bill Chou, da Universidade de Macau, veio dizer que não houve quaisquer instruções do executivo para serem tomadas atitudes persecutórias dentro das universidades e que é natural que dentro das escolas seja estimulado o espírito crítico dos estudantes.

A imprensa de Macau já reagiu ao sucedido, primeiro pelo Ponto Final, hoje também no Macau Daily Times e no Hoje Macau. Ao que consta, tudo se deve ao facto do reitor entender que posições públicas críticas para com o governo de Macau por parte de académicos da casa poderem inviabilizar as chorudas benesses com que a instituição conta para desenvolver o seu novo campus académico.

Ou seja, tudo se resume, em termos muito básicos, a trocar a liberdade de expressão, o espírito crítico, a autonomia universitária, por um prato de lentilhas, sendo que nesta questão o reitor quis ser mais papista que o Papa.

Num momento em que a sociedade de Macau mais precisava de instituições fortes e de uma igreja activa e actuante, ao lado da sociedade e dos seus fiéis, os péssimos exemplos que chegam da Universidade de Macau e, agora, da Universidade de S. José e do seu reitor são uma vergonha e causam repugnância à luz do legado histórico e civilizacional de Portugal. E no caso da Universidade de S. José também envergonham a própria Igreja, que em Macau nunca se coibiu de manifestar as suas posições no passado, como sucedeu pela pena do padre Luís Sequeira ou até de Monsenhor Teixeira. E essa atitude é na sua essência ofensiva da herança de homens que dentro da Igreja, nestas questões, souberam estar à altura do seu tempo, como D. José Policarpo, D. Manuel Martins ou até D. António Ferreira Gomes, que pagou com o exílio o seu amor à verdade.

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Santo António de Macau

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.06.14

"Reza a tradição ter sido S. António alistado em Macau como soldado em 1623, ano em que veio de Goa incorporado com mais cem soldados portugueses no primeiro presídio militar, que acompanhou o primeiro governador, D. Francisco de Mascarenhas.

S. António como soldado, aqui começou por receber o seu soldo de seis reis por mês, mas em 9 de Maio de 1780 foi-lhe suspenso o soldo, já que o Senado recebeu instruções para que cada fortaleza tivesse uma guarnição real de vinte soldados. O padre Manuel Teixeira refere: "Por coincidência começou a cidade a sofrer contínuos desastres que o povo ingénuo logo atribuiu ao desacato feito ao Santo, que fora substituído por um soldado de carne e osso."Por tal razão, a 17 de Setembro de 1783, o governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria solicitou ao Senado a renovação da matrícula de Santo António. E Luís Gonzaga Gomes complementa: "a 27 de Dezembro de 1783, tendo há três anos experimentado a cidade contínuas infelicidades atribuídas ao facto de a vereação passada ter dado baixa de soldo ao glorioso St.º António, que o recebia, anualmente, como soldado, desde que houve presídio militar nesta cidade, por motivo de cada guarnição de fortaleza ter sido reduzida, em 9 de Maio de 1780, a vinte soldados efectivos, o Senado, reconhecendo a necessidade da protecção dese Santo, resolveu dar-lhe outra vez alta, com o vencimento do soldo de capitão, e com o título de Capitão da Cidade."

Não só foi promovido a capitão, com um ordenado de cinco pardaus, mas o Senado mandou-lhe pagar os salários atrasados. O que veio a acontecer a 12 de Junho de 1784, quando o Senado pagou o soldo dos três anos e um mês que estava em falta como soldado, 93 taéis, 7 mazes e 5 codrins e como capitão recebeu no mesmo dia 49 taéis, 1 maz e 4 caixas de soldos vencidos em 7 meses e 26 dias.

Nos anos 50 do século XX, o soldo do capitão St.º António era de seis mil patacas por ano. Numa publicação de 1956 encontra-se o seguinte: "No dia 16 de Junho, à tarde, acomissão administrativa do Leal Senado fez a entrega de $ 120 000 correspondente ao soldo anual vencido pelo capitão desta cidade, Santo António de Lisboa. A importância reverte a favor do cofre do "Pão dos Pobres".

St.º António foi em Macau soldado entre 1623 e 1783 e capitão entre 1783 e 1973, tendo assim prestado serviço militar nesta cidade durante 350 anos."- José Simões Morais, in O Soldo de Santo António, Hoje Macau, 13/06/2014

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