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Música recente (81)

por José António Abreu, em 24.03.17

Depeche Mode, álbum Spirit.

A criação foge muitas vezes ao controlo dos criadores. No mês passado, Richard Spencer, norte-americano conotado com posições neo-nazis, classificou os Depeche Mode como «a banda oficial da alt-right», afirmando que a música dos ingleses contém uma «ambiguidade» que sugere a existência de «elementos «fascistas». Por pouco recomendável que o homem possa ser (foi a primeira vez que ouvi falar nele), as suas palavras merecem análise: da mesma forma que a música de Wagner, grandiloquente e ao serviço de visões de uma sociedade idílica e pura, se adequou como uma luva à mentalidade de Hitler, não é de excluir que o carácter sincopado, militarizado, da música dos Depeche Mode tenha o mesmo efeito em Spencer e noutros indivíduos com ideias similares. (E, já agora, a imagem dos elementos da banda, construída nos anos 80 com a ajuda do fotógrafo Anton Corbijn, também pode ter alguma coisa a ver com o assunto.) Há, no entanto, uma diferença importante: se sabemos que Wagner, falecido antes do nascimento de Hitler, ansiava por uma sociedade mais «pura» e tinha reservas quanto ao papel dos judeus na sociedade alemã, dificilmente os Depeche Mode poderiam ter sido mais claros na resposta às afirmações de Spencer: «He's a cunt», declarou o vocalista Dave Gahan. A situação torna-se particularmente irónica quando se ouve Spirit, o álbum lançado na passada sexta-feira. Nunca os Depeche Mode foram tão abertamente políticos e raramente mostraram tanta insatisfação. Pode até dizer-se que entram no campo apenas aparentemente oposto ao de Spencer: o do populismo de esquerda. A música é óptima (Spirit será o melhor álbum deles em muitos anos), mas não me parece descabido perguntar se, na ânsia do protesto, conterá mesmo alguns elementos totalitários. Afinal, os extremos tocam-se.

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Música recente (80)

por José António Abreu, em 21.03.17

Jay Som, álbum Everybody Works.

Há quem lhe chame bedroom pop, mas o primeiro álbum verdadeiro da californiana Melina Duterte (Turn Into, de 2016, era constituído por demos, embora bastante polidas) vai muito para além de rótulos fáceis. E, de qualquer modo, o quarto é frequentemente o local onde as pessoas meditam acerca da vida. Em especial durante a juventude.

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Música recente (79)

por José António Abreu, em 17.03.17

Valerie June, álbum The Order of Time.

Depois de um fantástico segundo álbum de Rhiannon Giddens, um também excelente segundo trabalho de Valerie June. É um pouco como se, em tempo de divisões político-sociais, a música com raízes na tradição (e ainda que alguns temas de The Order of Time derivem para a pop) fizesse questão de, por um lado, lembrar erros do passado que são também alertas para o futuro, e, por outro, apelar à reconquista de um sentido de comunidade e de destino partilhado. These are the songs you sing, in the search for the grass that's green, canta June em Long Lonely Road. É assim há muito, assim continuará a ser.

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Música recente (78)

por José António Abreu, em 14.03.17

The Shins, álbum Heartworms.

Após o seu trabalho com Danger Mouse nos Broken Bells e a saída dos restantes elementos fundadores da banda, James Mercer tem vindo a alargar o espectro da sonoridade dos The Shins. Este álbum volta a incluir canções naquela linha pop/rock de bandas como os 10.000 Maniacs, mas também visita áreas como o psicadelismo e a new wave. E ainda há a nostalgia do tema abaixo.

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Música recente (77)

por José António Abreu, em 10.03.17

Laura Marling, álbum Semper Femina.

O título vem da Eneida: varium et mutabile semper femina (qualquer coisa como as mulheres são inconstantes e caprichosas). Marling vira o sentido da frase do avesso e transforma a presumível inconstância feminina em capacidade de adaptação. Não sei o que Virgílio pensaria, mas estou convencido de que Mozart e Lorenzo Da Ponte (cuja ópera Così fan Tutte parte de uma premissa similar à exposta na Eneida) achariam piada. Bem como a este vídeo.

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Música recente (76)

por José António Abreu, em 07.03.17

 Nice as Fuck, álbum Nice as Fuck.

Jenny Lewis, expoente da pop leve mas de bom gosto, Erika Forster, das electrónicas e atmosféricas Au Revoir Simone, e Tennessee Thomas, da banda de rock alternativo The Like, juntaram-se para um projecto ligeiramente inconsistente (muitos temas parecem esboços), mas com alguma piada.

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Música recente (75)

por José António Abreu, em 03.03.17

Honeyblood, álbum Babes Never Die.

Apenas o segundo álbum e, com a substituição de um único elemento, metade da banda já é nova. (Se tiverem dificuldades, podem usar a equação 0,5xN=1, em que N é o número total de elementos.) A vocalista e guitarrista Stina Marie Claire Tweeddale mantém-se (uma excelente notícia porque Stina Marie Claire Tweeddale é um nome espectacular), mas na bateria encontra-se agora Cat Myers (também não deixa de ser um nome catita). O álbum será um pouco mais refinado do que o anterior, circunstância com pontos positivos (é mais refinado) e negativos (é mais refinado), mas os riffs estilo-grunge e a atitude permanecem.

 

(Quem achar o vídeo interessante e nunca tiver visto o filme Under the Skin, por favor trate de arranjar forma de o fazer.)

 

(A água na Escócia há-de estar fria...)

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Música recente (74)

por José António Abreu, em 28.02.17

Rhiannon Giddens, álbum Freedom Highway.

Giddens já passou por vários projectos. Este é o seu segundo álbum a solo. O primeiro, lançado em 2015, tinha o número mínimo de originais para não poder ser classificado com exclusivamente de versões. Desta feita, nove dos doze temas são originais, mas alguns parecem tão genuínos que é como se pudessem ter sido compostos em meados do século XIX e cantados em torno de fogueiras no Texas ou em plantações de algodão no Louisiana. Há aqui uma preocupação com a história dos Estados Unidos, com as lutas, os sacrifícios e a violência que ela incluiu. A canção At the Purchaser's Option, no vídeo acima, é inspirada num anúncio verdadeiro, no qual uma escrava de 22 anos é oferecida para venda, ficando à consideração do comprador a inclusão no negócio da sua filha de nove meses. Outros temas estabelecem relações com os tempos actuais, através das letras mas também da música, que inclui espirituais negros, blues, folk, country, toques de jazz, até mesmo hip-hop. Estranho mas acessível, tradicional mas desafiante, duro mas inspirador, atrevo-me a afirmar, após somente um par de audições, que vai constituir um dos meus álbuns do ano.

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Música recente (73)

por José António Abreu, em 24.02.17

Ty Segall, álbum Ty Segall.

Um dos comentários a este vídeo no Youtube é cruel: «dad music». Seja. Apreciar rock de garagem estará fora de moda, mas estar fora de moda pode ser uma maneira de combater as tendências para a uniformidade.

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Música recente (72)

por José António Abreu, em 21.02.17

The Invisible, álbum Patience.

Os Invisible são Dave Okumu, produtor do primeiro álbum de Jessie Ware, guitarrista da malograda Amy Winehouse, e Tom Herbert e Leo Taylor, colaboradores habituais de Adele. A música que fazem evita a velocidade e a grandiloquência; trata-se de pop electrónica, mas num registo contemplativo e melancólico. Alguns dos melhores temas do álbum incluem convidadas (Anna Calvi, por exemplo).

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Música recente (71)

por José António Abreu, em 17.02.17

Osso Vaidoso, álbum Miopia.

Ana Deus e Alexandre Soares num segundo álbum de sonoridade mais «suja», assente em letras de gente como Jorge Luis Borges, Natália Correia, Nicolau Tolentino, Rainer Maria Rilke e Sá de Miranda.

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Música recente (70)

por José António Abreu, em 14.02.17

Minor Victories, álbum Minor Victories.

Um projecto só possível nos tempos actuais. Rachel Goswell, dos Slowdive, Stuart Braithwaite, dos Mogway, e Justin Lockey, dos Editors, trabalharam à distância e nunca gravaram todos no mesmo local.  O resultado mistura a tendência pop de Lockey com a guitarra densa de Braithwaite. A voz de Goswell acrescenta o toque de leveza e fragilidade.

 

(Sempre me pareceu que o planeta seria destruído por um gato - o de Blofeld, por exemplo. Ou então por um humano com cabelo alaranjado.)

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Música recente (69)

por José António Abreu, em 10.02.17

Señoritas, álbum Acho Que É Meu Dever Não Gostar.

Sandra Baptista e Maria Antónia Mendes, ex-Naifa (Sandra também ex-Sitiados), num conjunto de canções despidas, à base de acordeão, guitarra, baixo e tarola, gravadas em casa de Sandra. A perspectiva é madura e feminina, a sonoridade faz pensar em tangos e nas bandas sonoras mais famosas de Ennio Morricone.

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Música recente (68)

por José António Abreu, em 07.02.17

Elbow, álbum Little Fictions.

Há qualquer coisa na voz de Guy Garvey que anima a alma. Ainda por cima, neste álbum ele está apaixonado.

 

We protect our little fictions
When we bow to fear
Little wilderness mementos
But there's only you and me here
Fire breathing
Hold tight
Waiting for the original miracle

(...)

Life is the original miracle
(...)
Love is the original miracle

(no tema que dá título ao álbum)

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Música recente (67)

por José António Abreu, em 03.02.17

 Kasey Chambers, álbum Drangonfly.

Country alternativo de uma australiana com uma carreira iniciada há dezassete anos que já passou por inquietações sobre a beleza e a existência de Deus.

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Música recente (66)

por José António Abreu, em 31.01.17

Kid Koala featuring Emiliana Torrini, álbum Music to Draw To: Satellite.

Onze temas instrumentais, em registo ambiental, mais sete com a voz da islandesa Emiliana Torrini, num estilo ligeiramente mais electro-pop.

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Música recente (65)

por José António Abreu, em 27.01.17

 Rita Wilson, álbum Rita Wilson.

Imensos actores cantam, outros tocam banjo. Rita Wilson (que, com Tom Hanks, forma um dos casais do mundo do show business com que é mais fácil simpatizar) será apenas mais um exemplo. Mas canta bastante bem, neste seu segundo álbum, ao contrário do que aconteceu no primeiro, até escreveu as letras e, honestamente, hoje apetece-me algo alegre e inconsequente.

 

(É provável que esta tendência para associar alegria a inconsequência diga muito sobre mim.)

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Música recente (64)

por José António Abreu, em 24.01.17

Capitão Fausto, álbum Capitão Fausto Têm os Dias Contados.

Pop assumida, em oito temas onde não há medo de usar (e de subverter) clichés.

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Música recente (63)

por José António Abreu, em 20.01.17

 Amanda Shires, álbum My Piece of Land.

Composto durante a fase final de uma gravidez, longe do marido (Jason Isbell andava em digressão), é um trabalho de subtilezas, reflectindo solidão e inquietudes, mas também esperança no futuro.

 

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Música recente (62)

por José António Abreu, em 17.01.17

Warpaint, álbum Heads Up.

Há uma incursão pela pop em New Song, o terceiro tema. De resto, o álbum mantém a sonoridade complexa e ligeiramente arrastada habitual nas Warpaint.

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Música recente (61)

por José António Abreu, em 13.01.17

The XX, álbum I See You.

 O título não podia ser mais adequado. Ao terceiro álbum, os XX sacodem (ainda que ligeiramente) a tendência para a introspecção e olham para fora.

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Música recente (60)

por José António Abreu, em 10.01.17

Bat for Lashes, álbum The Bride.

Um álbum conceptual, de acesso não exactamente imediato, sobre uma mulher cujo noivo morre no dia do casamento. A ideia-base podia ter constituído receita para um conjunto intragável de lamentações, mas Natasha Khan é demasiado inteligente para cair nessa armadilha. Ainda assim, não será o trabalho ideal por onde começar a descobrir a música da londrina.

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Música recente (59)

por José António Abreu, em 06.01.17

Sean Riley & The Slowriders, Sean Riley & The Slowriders.

O regresso, após quatro anos, de uma das bandas que me chegaram a fazer pensar haver uma ligação subterrânea entre Coimbra e o Sul dos Estados Unidos (as outras: D3Ö, Bunnyranch, os projectos de Paulo Furtado). Tê-lo-ia assinalado antes mas o José Maria Gui Pimentel adiantou-se.

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Música recente (58)

por José António Abreu, em 03.01.17

Steve Gunn, álbum Eyes on the Lines.

Suave, fluído, quase sempre com a guitarra em primeiro plano. Talvez o melhor álbum de 2016 para ouvir enquanto se conduz.

 

(Para além de Gunn, no vídeo surge o guitarrista Michael Chapman - bem como a casa deste, situada no condado inglês de Northumberland.)

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Música recente (57)

por José António Abreu, em 30.12.16

Justice, álbum Woman.

A electrónica de outro duo de franceses (i.e., não os Daft Punk), cantando em inglês, num vídeo que inclui uma actriz norte-americana e um carro japonês. A globalização ainda não perdeu a guerra.

 

(Colocar Susan Sarandon, de óculos escuros e cabelo solto, ao volante de um descapotável traz de volta certas memórias...)

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Música recente (56)

por José António Abreu, em 27.12.16

 Carla Dal Forno, álbum You Know What It's Like.

Texturas sombrias e roufenhas onde a voz procura um lugar.

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Música recente (55)

por José António Abreu, em 23.12.16

The I Don't Cares, Wild Stab.

Após encontrar na cave de Paul Westerberg (The Replacements) muitos temas escritos ao longo dos anos mas nunca utilizados, Juliana Hatfield (um dos ícones da década de 1990) convenceu-o a formar uma banda com ela. O resultado é ligeiramente desconexo mas totalmente isento de pretensiosismo: dezasseis temas low-fi, com arestas por polir, que soam mesmo a material gravado numa cave, em dias de descontracção.

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Música recente (54)

por José António Abreu, em 20.12.16

Angel Olsen, álbum My Woman.

Da indie ao rock quase puro (i.e., retro), a palete de Olsen continua a expandir-se.

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Música recente (53)

por José António Abreu, em 16.12.16

Conor Oberst, álbum Ruminations.

Um dos trabalhos mais intimistas, minimalistas e pessimistas de Oberst, composto em Omaha no Inverno passado enquanto ele recuperava de "laringite, ansiedade e exaustão", e gravado em 48 horas.

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Música recente (52)

por José António Abreu, em 13.12.16

M.I.A., álbum AIM.

A dificuldade de muitos artistas com mensagens políticas radicais é conseguirem conjugá-las com o desejo, tão humano, de estrelato (ou, numa versão mais benigna, de atingirem um público vasto). Houve uma época em que a raiva de M.I.A. parecia genuína. Hoje, encontra-se demasiado estilizada para convencer plenamente. Há boas canções em AIM (a do vídeo acima, por exemplo), mas também há (demasiadas) canções fracas e, acima de tudo, nenhuma constitui um desafio, lírica ou musicalmente; em nenhuma o ouvinte sente o desconforto de ver a sua mundividência posta em causa.

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Música recente (51)

por José António Abreu, em 09.12.16

Wilco, álbum Schmilco.

Um dos trabalhos mais acústicos e intimistas dos Wilco. As letras exprimem confusão, nostalgia, por vezes até mesmo depressão, mas também uma subtileza e ironia muito particulares (I hope you find someone to lose, someday). A música adiciona a esperança.

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Música recente (50)

por José António Abreu, em 06.12.16

 Jenny Hval, álbum Blood Bitch.

 Eu sei, estamos em tempo de Natal, de músicas expansivas, com sininhos e mensagens de optimismo... Mais ou menos isto, creio. (Não estou a ironizar assim tanto: há imensa beleza e algum optimismo nos sons densos e nas letras carregadas de sangue, sexo e solidão que a norueguesa Hval incluiu neste trabalho. Assim de repente, Period Piece pode até ser o único tema alguma vez escrito no qual uma mulher admite encontrar conforto no espéculo do ginecologista: Some people find it painful / But all I feel is connected. OK.)

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Música recente (49)

por José António Abreu, em 02.12.16

Rita Redshoes, álbum Her.

Uma sonoridade expansiva, cinematográfica, que remete para outras décadas e combina na perfeição com a voz límpida de Rita. Encontro-lhe um ponto negativo: aqui e ali, o optimismo e a força de vontade expressos nas letras resvalam para o lugar-comum (sou mulher / sem vergonha de vencer / eu aprendo ao viver / e não mudo o meu caminho). Pela primeira vez, alguns temas (quatro) são em português.

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Música recente (48)

por José António Abreu, em 29.11.16

Christian Kjellvander, álbum A Village: Natural Light.

A música do sueco Kjellvander devia ser um segredo menos bem guardado. Leonard Cohen, Mark Lanegan e os Tindersticks andam por aqui.

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Música recente (47)

por José António Abreu, em 25.11.16

Mitski, álbum Puberty 2.

A passagem para a idade adulta e a tentativa de encontrar um lugar e um sentido no mundo, através de rotinas que ajudam mas também prendem, e de relações que, hoje em dia, parecem sempre provisórias e desequilibradas.

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Música recente (46)

por José António Abreu, em 22.11.16

 Gisela João, álbum Nua.

Dá-me a sensação de que o título e a foto da capa do álbum têm vindo a receber quase tanta atenção como a música. Sinal de que Gisela pode ser uma das mais genuínas representantes da tradição fadista, na linha, digamos, amaliana - algo que este álbum comprova de forma brilhante -, mas é também uma mulher atraente. E de que certas reacções ligeiramente infantis nunca mudam.

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Música recente (45)

por José António Abreu, em 18.11.16

Colbie Caillat, álbum The Malibu Sessions.

O título é apropriado: ainda mais do que nos álbuns anteriores, encontra-se aqui uma sonoridade leve e arejada que, pelo menos desde os Beach Boys, é marca registada do Sul da Califórnia. De vez em quando - e mesmo às portas do Inverno - sabe bem.

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Música recente (44)

por José António Abreu, em 15.11.16

Agnes Obel, álbum Citizen of Glass.

Há uma clara mudança de registo e, todavia, o encanto de Obel permanece intacto.

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Música recente (43)

por José António Abreu, em 11.11.16

Noiserv, álbum 00:00:00:00.

Piano, por vezes voz. Nas letras, o português substituiu o inglês. São oito temas breves, sempre delicados e bastante mais despidos do que era habitual.

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Música recente (42)

por José António Abreu, em 08.11.16

James Vincent McMorrow, álbum We Move.

Ao terceiro álbum, as fundações indie da música do irlandês McMorrow foram atingidas por uma onda de R&B. É como se Beyoncé tivesse substituído Jay-Z por Conor Oberst, levando este a descobrir um novo mundo.

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Música recente (41)

por José António Abreu, em 04.11.16

Teresa Salgueiro, álbum O Horizonte.

Apontamentos e sensações apoiados em música apenas pontualmente escapando a um onirismo que, associado à voz quase demasiado límpida de Teresa Salgueiro, por vezes se me torna cansativo. Talvez por isso acabo preferindo os temas mais percussivos, com "Desencontro" à cabeça. Mas em doses moderadas é sublime.

 

(Note to self: ouvir nas colunas ou experimentar outros auscultadores.)

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Música recente (40)

por José António Abreu, em 01.11.16

Lisa Hannigan, álbum At Swim

O terceiro álbum da irlandesa que Neil Jordan me permitiu descobrir não foge muito ao registo presente nos outros dois. Será talvez um pouco mais ambiental, mais líquido (swim in your current, flow on every word you say, canta ela em Undertow), mas não deixa de incluir, de forma quase displicente, frases como hang the rich and spare the young (oh, Lisa...). Foi produzido por Aaron Dessner, dos The National, mas, ao contrário do sucedido noutras produções dele (ver último trabalho dos Frightened Rabbit), a sonoridade dos The National não fica evidente. Dessner terá mesmo desempenhado um papel crucial na realização do álbum, ajudando Lisa a vencer o bloqueio criativo em que estava mergulhada.

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Música recente (39)

por José António Abreu, em 28.10.16

Leonard Cohen, álbum You Want it Darker.

O álbum mais recente do cantor que não ganhou o Nobel da literatura. Talvez o último álbum de um homem que, aos 82 anos, se confessa pronto para morrer.

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Música recente (38)

por José António Abreu, em 25.10.16

 Phantogram, álbum Three.

Sinceramente, é o pior dos três álbuns dos Phantogram. O mais comercial, o que apresenta mais temas que fazem o ouvinte franzir a testa e perguntar-se o que raio lhes passou pela cabeça. O desejo de sucesso, talvez. Aproveitam-se duas ou três boas canções, com este primeiro single destacado na frente.

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Música recente (37)

por José António Abreu, em 21.10.16

 Solange Knowles, álbum A Seat at the Table.

Um excelente - forte, inteligente, maduro - cocktail de funk, r&b, soul e psicadelismo. Com este seu terceiro álbum, Solange, cinco anos mais nova e bastante menos conhecida do que a irmã, merece bem um «lugar à mesa». 

 

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Música recente (36)

por José António Abreu, em 18.10.16

Peixe:Avião, álbum Peso Morto.

Tudo é breve e pequeno demais, queixam-se os Peixe:Avião no tema Miragem. Não a música deles. As paisagens sonoras que fabricam podem ser desoladas, até mesmo opressivas, mas não lhes falta fôlego nem ambição.

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Música recente (35)

por José António Abreu, em 14.10.16

Regina Spektor, álbum Remember Us to Life.

Por vezes, Regina tomba no cliché. Mas quando liberta a sua faceta mais iconoclasta consegue produzir pop estranhamente viciante.

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Música recente (34)

por José António Abreu, em 11.10.16

Porches, álbum Pool.

Porches é um projecto do nova-iorquino Aaron Maine, iniciado em 2010. Arriscando-me a parecer condescendente (não é minha intenção), a música de Maine pode ser considerada uma versão bastante mais electrónica da música de Greta Kline (Frankie Cosmos), sua namorada e colaboradora. Mas ele até começou primeiro.

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Música recente (33)

por José António Abreu, em 07.10.16

Sui Zhen, álbum Secretly Susan.

Apesar de ser um álbum conceptual, sobre a imagem que projectamos (ou tentamos projectar) online, Secretly Susan, da australiana Becky Su Zhen, raramente sacrifica a espontaneidade da música ao conceito. E a música combina pop, bossa nova, electrónica, minimalismo e a sonoridade japonesa shibuya-kei, ela própria uma combinação de várias coisas, entre as quais a canção francesa ao estilo Serge Gainsbourg. Restam alguns pormenores excessivamente artsy (como este vídeo, realizado pela própria Sui Zhen) mas vale a pena espreitar.

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Música recente (32)

por José António Abreu, em 04.10.16

Andy Shauf, álbum The Party.

Um álbum de contos curtos, em que cada tema analisa (ou reflecte o ponto de vista de) um interveniente numa pequena festa. 

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