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Parabéns ao Hot Club pelos seus 70 anos

por Alexandre Guerra, em 06.02.18

O Hot Club está a celebrar 70 anos, o mítico clube de jazz da Praça da Alegria, em Lisboa, um dos melhores e mais antigos da Europa que, ao longo destas sete décadas, tem promovido a divulgação daquele estilo de música no nosso país, através do seus inúmeros concertos e jam sessions na obscura cave (agora nem tanto), com nomes nacionais e internacionais. Mas, mais do que isso... Do que conhecia, o Hot Club era (e certamente ainda é) uma escola de jazz com uma componente prática que, provavelmente, não tinha paralelo em mais qualquer escola do país, e por onde passaram muitos dos melhores músicos nacionais.

 

Tive o privilégio de estudar jazz e guitarra no Hot durante uns meses, quando a escola ainda funcionava no velhinho e carismático edifício da Praça da Alegria (agora só o clube funciona na cave). Era um adolescente que estava a descobrir o jazz (ainda hoje continuo a descobrir) e recordo que todo aquele ambiente me transportava para um universo desconhecido e cativante. Para quem vinha da guitarra clássica, onde o método, a técnica e o rigor da interpretação são pilares inamovíveis de ensino do Conservatório, o jazz colocava outros desafios... Não é que não exija técnica ou rigor (porque exige, e muita), mas nem tudo está definido à partida, cabendo-nos a nós seguirmos o caminho que queremos, dentro de alguns limites. Há um lado aventureiro e profano no jazz, de desafiar convenções, e tudo isso se sentia ao entrar na escola do Hot, onde o que interessava era o resultado da arte e não tanto como lá se chegava. Era isso que nos pediam, é essa a essência do jazz, “perdermo-nos” melodicamente no meio de uma harmonia, sabendo encontrar o caminho que nos conduz ao fim.

 

Lembro-me numa das primeiras aulas de estar a tocar um standard de bossa nova e vinha eu de tal formatado do ensino clássico que não me conseguia “libertar” do que estava literalmente escrito na pauta. Aquilo não estava a soar de forma fluída, estava preso, muito mecanizado, até que a determinada altura "ousei" meter mais umas notas pelo meio e fazer umas brincadeiras, ou seja, divertir-me, e foi nesse momento em que começou a soar a qualquer coisa minimamente decente. Já nas aulas de Combo, recriação de uma pequena banda de jazz, a experiência é absolutamente única, ao tocar aqueles magníficos standards clássicos, dando a sensação de que fazemos parte de uma certa época. E não esqueço as lições aprendidas na cadeira de História do Jazz, dadas por Bernardo Moreira, contrabaixista e pai de uma família de músicos, incluindo o filho homónimo, conceituado contrabaixista. Ainda hoje recorro às definições que ele me ensinou para explicar o que foi o swing e o bebop, talvez os dois maiores movimentos do período de ouro do jazz. Dizia Bernardo Moreira que o swing era caracterizado, basicamente, pelo ritmo de colcheia e semicolcheia e o bebop identificado, nada mais nada menos, pelo uso e abuso da quarta aumentada. Uma definição que simplifica uma construção tão complexa. E jazz também é isso, simplificar aquilo que é complexo.

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Metallica tocam "a minha casinha" dos Xutos em Lisboa.

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Promessas do passado e confirmações improváveis

por João Pedro Pimenta, em 24.01.18

A morte de Dolores O´Riordan e as recordações dos Cranberries levaram-me de novo aos anos noventa. Sempre achei curiosos os casos das next big thing do pop-rock que surgem prontas a conquistar o Mundo e que subitamente são ultrapassadas e atropeladas por grupos por quem pouco se dava à partida. É o caso dos James, sobre os quais paira uma engraçada "maldição", a de terem tido amiúde bandas a fazer as primeiras partes dos seus concertos,e  que depois se tornaram maiores do que eles próprios (como os Radiohead, os Nirvana ou os Coldplay). Mas não são, longe disso, caso único.

 
Aí­ por 1992 ou 1993, em tempos de pré-Britpop, em que o Grunge era rei e senhor da cena pop-rock mundial, os britânicos andavam cabisbaixos, à  procura de algum destaque num meio em que, terminado o shoegazing, e vulgarizado o madchester, pareciam condenados à decadência. Apareciam inúmeros grupos a tentar marcar a sua diferença. Uns eram aproveitáveis, outros nem tanto, e alguns levavam os áugures do meio a rotundos enganos.
 
Aconteceu isso mesmo com os Kingmaker, um grupo prometedor, que supostamente iria conquistar os tops de vendas e marcar o som da pop britânica. Mas as coisas não correram pelo melhor, a popularidade que esperavam não chegou e o grupo acabou por se separar poucos anos depois.
 
Porque é que isto me veio à memória à boleia dos Cranberries? Porque, por alguns testemunhos que vi, os Kingmaker realizaram alguns concertos onde tinham, como banda suporte, um grupo londrino chamado Suede, que deram bem mais nas vistas que os próprios cabeças de cartaz. Como se sabe, os Suede, que começaram com um som glam-rock muito devedor de Bowie e dos anos setenta, foram dos grupos fundadores (e essenciais da Britpop) e um dos mais amados no Reino Unido. Ou seja, eram eles próprios a next big thing do momento, com melhores resultados.
 
 
Mas provaram um pouco do mesmo "remédio" atrás descrito: partiram para uma digressão nos Estados Unidos, levando uma pouco conhecida banda irlandesa para fazer as primeiras partes, uns certos Cranberries. Ao contrário do que esperavam, os ingleses passaram quase despercebidos no Novo Mundo, enquanto que os irlandeses e a voz de Dolores O´Riordan atraí­ram as atenções dos americanos, que começaram a fazer passar as suas músicas, como Linger, na MTV, e obtiveram logo um sucesso considerável que os catapultou para a fama. Os Suede foram olimpicamente ignorados e tiveram de se conformar em ser populares deste lado do Atlântico, sobretudo na terra de origem, onde durante bastante tempo continuaram a atrair as atenções sempre que lançavam um novo trabalho.
 
Quanto aos Kingmaker, desapareceram por completo. Provavelmente dedicaram-se a outras actividades que não a música. Deixaram apenas um rasto da sua existência na net, sobretudo no Youtube, para que possam ser recordados como mais uma promessa efémera, que, como em muitas outras áreas, se deixou ultrapassar por improváveis concorrentes.

 

 

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Por falar em vender a alma ao Diabo...

por Alexandre Guerra, em 15.01.18

O lendário pacto de Fausto com Mefistófeles, no qual entrega a sua alma ao demónio em troca do domínio pleno da técnica e do conhecimento, tem sido reinterpretado ao longo dos séculos, seja através da literatura, pintura, teatro ou cinema. Goethe imortalizou aquela lenda alemã e, provavelmente, a ele se deve o facto de algumas almas mais perdidas se sentirem tentadas a forjar um acordo com o Diabo para obterem, digamos, certos benefícios especiais.

 

Uma dessas almas terá pertencido a Robert Johnson, o misterioso e célebre músico de blues do Delta do Mississippi e que, em certa medida, foi o precursor do que mais tarde viria a ser o Rock&Roll e o inspirador de guitarristas como Muddy Waters, Jimi Hendrix, Eric Clapton ou Keith Richards, entre tantos outros. Johnson morreu em 1938, com apenas 27 anos, e para a posteridade deixou um conjunto de músicas gravadas em duas sessões no Texas (Novembro de 1936 e Junho de 1937). Essas gravações são uma espécie de Bíblia para quem vive a música, não apenas como entretenimento, mas como paixão, como um dos elementos da vida. Aquelas gravações contêm a alma do Delta, quer o sofrimento sentido nos campos de algodão, quer a euforia electrizante da comunidade negra nas tardes de Sábado naqueles lugarejos poeirentos perdidos nos confins do Mississippi e Lousiana.

 

Johnson tocou como ninguém, como se tivesse sido bafejado por forças do Além. E é aqui que a lenda de Robert Johnson se cruza com a de Fausto. Esta é aliás uma das histórias mais importantes do folclore da zona do Delta. Por volta de 1930, em Robinsonville, Mississippi, Robert Johnson era um “little boy”, que nem tocava mal harmónica, mas era um desastre com a guitarra, diria anos mais tarde Son House, um dos pais do blues do Delta e que conviveu com o jovem músico. Vários relatos históricos dizem, de facto, que sempre que Johnson tocava era um suplício para quem o ouvia. É por esta altura que Johnson deixa Robinsonville durante alguns meses para ir aprimorar a sua técnica com Ike Zimmerman, de quem se dizia que tocava a sua guitarra de forma sobrenatural durante as visitas nocturnas que fazia às campas dos cemitérios.

 

A lenda de Robert Johnson nasce nesta altura, aquando do seu regresso a Robinsonville meses depois, com uma técnica e domínio da guitarra inexplicáveis para tão pouco tempo de aprendizagem. Diz a lenda que nos meses em que esteve fora terá feito um pacto com o Diabo (na figura de Legba) num “crossroads” próximo da plantação de Dockery. Nunca foi possível identificar o local do encontro, havendo várias referências a uma intersecção de estradas em Clarksdale, sabendo-se apenas que terá sido num cruzamento entre quatro caminhos poeirentos no meio do nada. O encontro deu-se à meia-noite, com a chegada de um homem negro e alto ao entroncamento, que pegou na guitarra de Robert Johnson, afinou-a e tocou umas músicas. De seguida, devolve a guitarra a Johnson. Em troca da sua alma, Johnson estava agora em condições de criar e tocar os blues que lhe iriam trazer fama e glória.

 

Esta história perdurou no tempo, tendo o próprio Son House confirmado, numa entrevista mais tarde, a veracidade do pacto firmado entre Johnson e o Diabo. Ao longo dos anos muito se tem especulado sobre o maléfico encontro e as capacidades (quase sobrenaturais) de aprendizagem do guitarrista. A lenda de Robert Johnson continua a fascinar todos aqueles que vêem no blues uma música que, mais do que notas, mostra aquilo que vai na alma do seu intérprete.

 

Esta é uma das cenas do filme "Crossroads" dos anos 80, inspirado precisamente na lenda de Robert Johnson, mas numa versão mais moderna e que se tornou objecto de culto para os amantes do blues e da guitarra. Aqui, Willie Brown, um dos músicos mais importantes do Delta e que tocou com Son House, agora retratado ficticiamente numa idade já avançada, aguarda pelo Diabo no "crossroads" para poder recuperar a sua alma.  

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Colheita musical de 2017 (4/4)

por Rui Herbon, em 12.01.18

 

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PZ

 

Império Auto Mano

 

Em Escuta: Olá

 

 

 

 

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Stereo MC's

 

Changes (Single)

 

Em Escuta: Changes (Jimpster Remix)

 

 

 

 

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Tenderlonious + Dennis Ayler

 

8rick Ci7y

 

Em Escuta: Butterfly

 

 

 

 

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Vários

 

Deja Vu Vol. 1 - W+L Vs. Life On Planets

 

Em Escuta: Nicolas Jaar - Mi Mujer (’17 Remastered Edit)

 

 

 

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Vários

 

Funkadelic Reworked By Detroiters

 

Em Escuta: Undisco Kidd (Gay Marvine Edit)

 

 

 

 

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Yazz Ahmed

 

La Saboteuse

 

Em Escuta: Organ Eternal

 

 

 

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Colheita musical de 2017 (3/4)

por Rui Herbon, em 10.01.18

 

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Kyoto Jazz Sextet

 

Unity

 

Em Escuta: Song For Unity

 

 

 

 

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Juana Molina

 

Halo

 

Em Escuta: In The Lassa

 

 

 

 

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Laetitia Sadier Source Ensemble

 

Find Me Finding You

 

Em Escuta: Undying Love For Humanity

 

 

 

 

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Laurel Halo

 

Dust

 

Em Escuta: Moontalk

 

 

 

 

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Lord Echo

 

Harmonies

 

Em Escuta: Just Do You

 

 

 

 

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Orelha Negra

 

Orelha Negra (2017)

 

Em Escuta: Santa Ela

 

 

 

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Colheita musical de 2017 (2/4)

por Rui Herbon, em 08.01.18

 

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Fujiya & Miyagi

 

Fujiya & Miyagi (2017)

 

Em Escuta: Impossible Objects Of Desire

 

 

 

 

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Gume

 

Pedra Papel

 

Em Escuta: Balada Montanha

 

 

 

 

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Heliocentrics

 

A World Of Masks

 

Em Escuta: The Uncertainty Principle

 

 

 

 

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Heliocentrics

 

The Sunshine Markers (O.S.T.)

 

Em Escuta: Sold Out

 

 

 

 

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Hermeto Pascoal & Grupo Vice Versa

 

Viajando Com O Som

(The Lost '76 Vice-Versa Studio Session)

 

Em Escuta: Dança Do Pajé

 

  

 

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Kamasi Washington

 

Harmony Of Difference

 

Em Escuta: Truth

 

 

 

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Colheita musical de 2017 (1/4)

por Rui Herbon, em 06.01.18

 

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Ahmad Jamal

 

Marseille

 

Em Escuta: Marseille

 

 

  

 

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Al Chem

 

Weird Fiction

 

Em Escuta: Prophet

 

 

 

 

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Alfa Mist

 

Antiphon

 

Em Escuta: Keep On

 

 

 

 

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Chip Wickham

 

La Sombra

 

Em Escuta: The Detour

 

 

 

 

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Emanative

 

Ominous Shanti (single)

 

Em Escuta: Black Enchantment

 

 

 

 

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Floating Points

 

Reflections - Mojave Desert

 

Em Escuta: Kelso Dunes

 

 

 

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Três álbuns de música clássica lançados em 2017

por José António Abreu, em 31.12.17

 

Antonio Pappano, Saint-Saëns: Carnaval dos Animais & Sinfonia Nº 3 "Órgão".

Edição Warner Classics.

 

Duas das mais famosas obras de Camille Saint-Saëns foram compostas quase em simultâneo e dificilmente poderiam ser mais diferentes. Toda a gente conhece pelo menos excertos de O Carnaval dos Animais, um divertimento para dois pianos e ensemble de nove músicos, que inclui segmentos dedicados, entre outros, ao leão, ao elefante, ao burro, aos «animais de orelhas compridas» (coelhos, lebres), aos galináceos, aos peixes, às tartarugas e (num toque de humor gaulês) aos pianistas. Saint-Saëns compôs O Carnaval dos Animais como um exercício de descontracção durante os trabalhos da sinfonia nº 3. Temendo que prejudicasse a sua imagem de compositor «sério», determinou que a obra apenas poderia ser tornada pública após a sua morte, limitando-se a autorizar algumas sessões privadas (entre as quais uma para o amigo Franz Liszt) e a publicação do movimento "Cisne", adaptado para violoncelo e um único piano. O Carnaval veio finalmente a público em 1922 - um ano após a morte de Saint-Saëns - e depressa se tornou uma das obras mais populares do francês. 

Nesta edição, os pianos são tocados por Antonio Pappano e por Martha Argerich. O acompanhamento é providenciado por um ensemble composto a partir dos solistas de orquestra da Academia Nacional de Santa Cecília, de Roma. Da delicadeza e lirismo do «Cisne» à pomposidade do «Elefante», tudo soa perfeito. E, ainda que ela já tenha interpretado «Os Pianistas» várias vezes, é sempre uma delícia ouvir Martha Argerich fingir que está a aprender a tocar piano.

Pappano conduz a orquestra de Santa Cecília na Sinfonia Nº 3 "Órgão", um trabalho numa linha neoclássica, mas cheio de passagens delicadas e sensuais, que a orquestra delineia perfeitamente (e os técnicos da Warner captam de forma igualmente brilhante).

(Não descobri um vídeo relacionado com esta gravação. N'O Carnaval dos Animais, acompanhada por, entre outros, Gidon Kremer, Argerich pode ser vista aqui.)

 

***

 

 

Max RichterThree Worlds: Music From Woolf Works.

Edição Deutsche Grammophon.

 

A melhor música composta para servir de complemento a imagens (sejam elas ao vivo, como num bailado, ou num suporte tecnológico qualquer, como num filme) sobrevive mesmo longe destas. Para apreciar a música que Tchaikovsky compôs para O Lago dos Cisnes não precisamos de ter alguma vez visto o bailado. Para sentir a intensidade d'A Cavalgada das Valquírias não é necessário conhecer a ópera de Wagner - ou o filme de Coppola - onde ela surge.

Na realidade, a melhor música sobrevive mesmo que não se conheçam quaisquer referências a seu respeito. Pode ouvir-se e apreciar-se a Sétima Sinfonia, de Shostakovich, sem saber que é apelidada de «Leninegrado» - e porquê. Pode ser-se fã de Tears in Heaven, de Eric Clapton, desconhecendo o acontecimento que lhe esteve na origem.

Por vezes, não saber demasiado até se revela benéfico. É hoje difícil ouvir Wagner sem sentir estar a partilhar um prazer com Hitler. Na maioria das casos, porém, conhecer as obras para as quais a música foi composta, ou os acontecimentos que a inspiraram, ou as circunstâncias que já a moldaram, permite analisar melhor a obra e constitui um factor positivo de ligação emocional. (Também salva algumas obras menores, que não levaríamos a sério se não estivessem relacionadas com, por exemplo, um filme que nos marcou.) 

Tudo isto para referir que pouca gente conhecerá Woolf Works, um bailado de Wayne McGregor baseado em três livros de Viginia Woolf (Mrs. DallowayOrlando e The Waves), mas que isso não é necessário para apreciar a música composta para ele por Max Richter. A música de Richter é suficientemente forte para dispensar o apoio de imagens concretas ou até o conhecimento da fonte de inspiração. Mas conhecer os livros ajuda. Torna mais fácil perceber por que razão nos temas baseados em Mrs. Dalloway a música é geralmente suave mas está cheia de interrogações; por que razão nos temas inspirados por Orlando a sonoridade é mais variada, com mistura de estilos e de sonoridades (incluindo componentes electrónicas); e porque o único mas longo tema dedicado a The Waves é - perdoe-se-me a falta de imaginação - ondulante, melancólico e extremamente belo. Todo o álbum (que inclui apenas parte dos temas compostos para o bailado) é perpassado por constantes interrogações, por aquela busca incessante, feita a partir de múltiplos pontos de vista, que caracteriza a literatura de Virginia Woolf.

Devo ainda mencionar os segmentos de abertura de cada bloco. Em grande medida, neles procura-se adicionar contexto para os que (ainda) não leram Woolf, e reforçar a ligação à música dos que já leram. Mas também servem para deixar claro qual o tema principal que guiou Richter - e, décadas antes, Woolf: os mecanismos da memória, as suas imperfeições, o modo como molda a história. O primeiro segmento é composto por um excerto da única gravação conhecida da voz de Woolf, no qual ela refere que as palavras da língua inglesa estão cheias de ecos e de memórias do passado, e que isso dificulta imenso a tarefa do escritor. No segundo, a actriz Sarah Sutcliffe lê um excerto de Orlando, igualmente focado nas questões da memória (Memory is the seamstress, and a capricious one at that...). Finalmente, no terceiro, a actriz Gillian Anderson (e como a sua voz inconfundível causa um instante de surpresa inteiramente adequado) lê a nota de suicídio que Woolf deixou ao marido.

Depois de Philip Glass já ter composto uma excelente banda sonora para o filme The Hours, Richter prova o que qualquer leitor de Woolf consegue sentir: a prosa dela é altamente musical.

 

***

 

 

Barbara HanniganCrazy Girl Crazy.

Edição Alpha.

 

Barbara Hannigan deixa-me sem palavras (e, todavia, desconfio que vou escrever umas quantas). Como soprano, tornou-se o rosto e a voz da incomparável Lulu, de Alban Berg (admitamos que com alguma concorrência por parte de Patricia Petibon), deslumbrou nesse objecto estranho que é Le Grand Macabre, de Ligeti, conseguiu que escrevessem para ela o principal papel feminino de uma das melhores óperas das últimas décadas, fez paródias com pasta dentífrica que incluem lamentos sobre «no more all-night boning», e - convém referi-lo, já que estamos a 31 de Dezembro - ainda se dedicou a festas de passagem de ano. Como comunicadora, revela uma excelente capacidade de expressão e um delicioso sentido de humor. Como mulher, é atraente (vale o que vale, mas não vale a pena esconder que vale alguma coisa). E, desde há alguns anos, é também maestrina. Quando ela canta (postulemos que o termo admite fronteiras amplas) e simultaneamente dirige a orquestra, até Ligeti fica irresistível (bom, quase).

Há cerca de 4 meses, Hannigan lançou Crazy Girl Crazy, um álbum no mínimo peculiar. Inica-se com Sequenza III, de Luciano Beria, que basicamente consiste em nove minutos de exercícios vocais (calma, não se vão já embora). Seguem-se temas de Lulu, quase todos instrumentais (Lulu, a personagem, tem apenas uma canção - nem se lhe poderá chamar ária - em toda a ópera, e é curta). No final, surgem os treze minutos mais sublimes da música de 2017 (não, não exagero e também não admito opiniões contrárias, excepto se provenientes de canídeos ou de outros animais com capacidade para ouvir frequências inaudíveis para os humanos). Dificilmente se classificará Gershwin entre os compositores mais experimentalistas - ou mais pessimistas -, mas ele admirava profundamente a música de Berg, que encontrou em Viena em 1928 e que até lhe autografou uma fotografia. Com a ajuda do compositor e orquestrador Bill Elliot, Hannigan dedica-se a extrair da música do norte-americano um nível de inquietude que acaba por transformá-la numa sequência adequada a tudo o que a precede, sem lhe eliminar o carácter festivo que permite fechar o álbum em tom de alegria e optimismo. E, no fundo, me permite a mim fazer o mesmo em relação a 2017.

(Nota destinada a pessoas simultaneamente observadoras e picuinhas: a versão apresentada no vídeo acima é cerca de um minuto mais curta do que a versão inserida no álbum; a do álbum é ainda melhor.)

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Música recente (157)

por José António Abreu, em 26.12.17

Béla Fleck e Abigail Washburn, álbum Echo in the Valley.

Dois banjos, duas vozes, efeitos acústicos simples que podem ser reproduzidos durante os concertos (por exemplo, pés a bater ou a deslizar no chão) e nada mais, porque nada mais é necessário. O segundo álbum do casal dos banjos (há quem profetize que o filho, nascido em 2013, se revelará o Messias dos banjos) prova mais uma vez quão pouco é indispensável para fazer grande música.

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Zena Bacar morreu

por jpt, em 24.12.17

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Morreu a voz canónica do norte de Moçambique, a diva da Ilha (de Moçambique) se se quiser, ainda que nunca assim dita, pois muito mais a diva vinda da Ilha, a sempre voz dos Eyuphuro, o maior dos agrupamentos musicais macua. È assim um muito, enorme, do norte de Moçambique que enrouquece. Últimos tempos de vida difíceis, paupérrima, lia-se na imprensa. Escassez de registos musicais, o que ainda mais se nota nos raros filmes disponíveis na internet. Quase nenhuns textos dedicados. Fica a voz e o estar. Que foram enormes. Vindos daqueles "anos de chumbo". Que continuam a ser, os nossos.

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Música recente (156)

por José António Abreu, em 21.12.17

Tarja, álbum From Spirits and Ghosts.

Tenho pouca paciência para álbuns de Natal. De vez em quando, porém, surgem alguns que, indo além do terreno mil vezes pisado, me conseguem atrair. É o caso de Midwinter Graces, de Tori Amos, ou de A Drifter in the Snow, de Aimee Mann. Posso agora juntar à lista este From Spirits and Ghosts, da finlandesa Tarja Turunen. Ao contrário dos referidos, é composto quase exclusivamente por versões de temas que toda a gente conhece, mas adaptados com uma faceta gótica que lhes adiciona um toque especial, fazendo pensar em Natais ao estilo dos filmes de Tim Burton. De resto, Tarja não quis deixar dúvidas e acrescentou um subtítulo esclarecedor: Score for a Dark Christmas. Porque, no fim de contas, tradicionalmente o Natal é - ou devia ser - um instante de harmonia e calor numa época do ano escura e fria. 

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Música recente (155)

por José António Abreu, em 19.12.17

Björk, álbum Utopia.

A tendência actual para fugir ao humano, ou pelo menos a muitas das formas e hábitos que o têm caracterizado, consegue ser um pouco mais do que ligeiramente irritante. Contudo, se alguém, pela sinceridade e coerência demonstradas ao longo do tempo (é lembrar "Human Behaviour", do álbum Debut, já lá vão vinte e quatro anos), merece alguma indulgência, esse alguém é Björk. Depois de um álbum em que sarava as feridas de uma relação sentimental terminada, apresenta desta feita um álbum luminoso, no qual parece buscar um ideal em que o humano se dissolva nas restantes formas de vida do planeta (e até mesmo no próprio planeta). Algumas letras são básicas, o modo como Björk pronuncia os 'r' lembra a lengalenga sobre o rato que roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia, e o som de passarinhos chega a exasperar, mas justifica amplamente uma audição.

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Jazz de 2017

por José António Abreu, em 17.12.17

Há neste blogue quem acompanhe muito mais o universo do jazz do que eu (estás aí, José Navarro de Andrade?). Seja como for, vou permitir-me a desfaçatez de salientar alguns álbuns lançados em 2017. Dentro de cada grupo, a ordem é alfabética.

 

 

ÁLBUNS INSTRUMENTAIS

 

Anouar BrahemBlue Maqams. Há quem não goste do «som ECM» (não é verdade, José Navarro?). Admitindo que os lançamentos por vezes se confundem uns com os outros, eu gosto. A música da ECM descontrai-me e eu preciso de ser descontraído com uma certa frequência. Blue Maqams é um álbum sublime do tunisino Brahem, um tudo-nada mais próximo do jazz do que muitos dos seus outros trabalhos (que diria mais ligados à música tradicional árabe). A colaboração de Dave Holland, Jack DeJohnette e Django Bates - todos excelentes - terá certamente algo a ver com o assunto.

(Vídeo promocional. Pequeno, que a ECM é um nadinha forreta nestas coisas.)

 

Dan Tepfer TrioEleven Cages. Todos os anos saem inúmeros álbuns de trios. De entre a minúscula fracção que ouvi, este, do trio liderado pelo pianista norte-americano (nascido em Paris) Dan Tepfer, é um dos meus favoritos.

 

Jaimie BranchFly or Die. Estou num meio-termo irritante no que respeita ao jazz (o que sou forçado a admitir por estes dias...): a minha paciência para a enésima gravação de clássicos é limitada, mas os sons mais experimentais raramente me atraem. Fly or Die, o primeiro álbum da trompetista norte-americana Branch, é razoavalmente experimental mas permanece melódico.

 

Mário Laginha, Julien Argüelles e Helge Andreas NorbakkenSetembro. Aqui com o auxílio do saxofonista inglês Julien Argüelles e do percussionista norueguês Helge Andreas Norbakken, Laginha continua a fazer excelente música, num registo leve e subtil. Quem desejar simultaneamente manter-se nos portugueses e um som mais vanguardista, pode experimentar The Attic, de Rodrigo Amado, Gonçalo Almeida e Marco Franco, um álbum ao vivo gravado na Parede em 2015, mas lançado apenas este ano.

 

Miles OkazakiThe Trickster. Tendo a fugir de álbuns baseados em guitarra eléctrica (detesto solos de guitarra eléctrica com mais de, vá lá, dez segundos). No entanto, gosto deste. Inspirados nos jogos a que os deuses clássicos se entregavam para espantar o ócio e conviver com os humanos, os temas mantêm uma faceta maliciosa, sugerindo brincadeiras ocasionalmente perversas (os deuses clássicos teriam muitos problemas na Hollywood dos dias actuais).

 

Nomade OrquestraEntreMundos. Dez brasileiros que fazem música de fusão com um cunho tipicamente carioca (e daí, carioca talvez não seja o termo mais adequado, uma vez que eles são de São Paulo).

 

The Comet is Coming, Death to the Planet. Um EP adequado ao sentimento dos tempos, com faixas intituladas Start Running e Final Eclipse. Estranhamente - ou talvez não -, revela-se bastante optimista, numa linha 'que se lixe isto tudo'.

 

Vijay Iyer SextetFar From Over. Expansivo, alternando harmonia e dissonância, Ocidente e Oriente, com os seis músicos (entre os quais o baterista Tyshawn Sorey, que também lançou um novo álbum em 2017) perfeitamente em sincronia.

(Vídeo de promoção. Pequeno, que a ECM, etc.)

 

Yazz AhmedLa Saboteuse. Provavelmente o álbum de jazz que mais ouvi este ano. Ahmed é uma trompetista britânica, que cresceu no Bahrain e já colaborou com os Radiohead. O álbum - o seu segundo - usa sonoridades árabes de modo absolutamente infeccioso (no bom sentido).

 

 

ÁLBUNS MISTOS 

 

Ahmad JamalMarseille. Uma declaração de amor à cidade, de um mestre do piano que completou 87 anos em 2017.

(Video de um dos temas.)

 

Linda May Han Oh, Walk Against Wind. Nasceu na Malásia, cresceu em Perth e toca contrabaixo em Nova Iorque. Walk Against Wind (bom título) inclui temas de uma elegância sombria, ligeiramente cinematográfica. 

 

Nate Smith, Kinfolk: Postcards from Everywhere. Outro álbum que ouvi bastante vezes em 2017, talvez porque se situa naquele registo que estabelece a ponte para o pop/rock.

 

 

ÁLBUNS VOCAIS

 

SomiPetite Afrique. Somi é uma nova-iorquina com raízes nigerianas. Os seus dois álbuns lembram-me os dois principais romances de Chimamanda Ngozi Adichie. O primeiro - The Lagos Music Salon - leva o ouvinte até à Nigéria (tal como Half a Yellow Sun); este segundo debruça-se sobre uma zona do Harlem nova-iorquino ocupada por imigrantes de origem africana (tal como Americanah foca a integração dos imigrantes africanos nos Estados Unidos).

Zara McFarlane, Arise. Se Somi vai beber directamente a África, McFarlane chega lá através das Caraíbas. Talvez a música de McFarlane não seja bem jazz, mas, como deixei claro no início, eu também não percebo grande coisa do assunto. (Já chegaste, José Navarro?)

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Música recente (154)

por José António Abreu, em 12.12.17

Charlotte Gainsbourg, álbum Rest.

 Submergindo inseguranças e tristezas em ondas de som, Gainsbourg cria um caleidoscópio que não ficaria mal como banda sonora de um filme de terror à italiana (pode não parecer, mas é um elogio).

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Música recente (153)

por José António Abreu, em 08.12.17

Mavis Staples, álbum If All I Was Was Black.

Staples tem setenta e oito anos. Viu muito, em quase oito décadas. Passou pelas guerras da Coreia, do Vietname e do Golfo, por momentos de divisão entre os norte-americanos, como as lutas pelos direitos sociais na década de 1960, e por momentos de união, como o que se seguiu aos atentados de 11 de Setembro de 2001 (durou pouco). Hoje, com a sociedade mais uma vez dividida, mantém a esperança. Os dez temas, compostos para ela por Jeff Tweedy, dos Wilco (e que excelente trabalho ele fez), não fogem aos problemas, mas pegam-lhes numa perspectiva optimista, salientando a necessidade de entendimento e de superação. A voz experiente de Staples adiciona peso às palavras e a sonoridade, uma mistura de R&B com Country, dois estilos tão tipicamente norte-americanos, um mais associado à comunidade negra, o outro à comunidade branca, constitui a cereja no topo do bolo de um álbum baseado na ideia de união. 

 

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Música recente (152)

por José António Abreu, em 05.12.17

Protomartyr, álbum Relatives in Descent.

Um hino de raiva e inquietação, sinuoso e politicamente carregado, como a sonoridade punk (ou pós-punk, ou qualquer coisa assim) praticamente exige. 

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Música recente (151)

por José António Abreu, em 02.12.17

U2, álbum Songs of Experience.

Ainda que, graças à manipulação electrónica da voz de Bono, Love Is All We Have Left abra o álbum com um toque de originalidade, e que Kendrick Lamar participe (fugazmente) num par de temas, a sonoridade não deixa de estar alinhada com o que os U2 já fizeram muitas vezes. Todavia, este não constitui o maior problema para um álbum que até revela uma excelente ligação entre os membros da banda, com Bono usando eficazmente a voz que lhe resta e The Edge acrescentando o tom épico sem demasiados exageros. O maior obstáculo que Songs of Experience terá de enfrentar é o cinismo. Os U2 podem ter ganho milhões e gerido as coisas de modo a pagarem o mínimo de impostos sobre esses milhões, Bono pode ter lançado campanhas humanitárias de eficácia duvidosa enquanto convivia com políticos e celebridades televisivas, mas a sinceridade dos quatro irlandeses - a mesma que os fez compor New Year's Day ou Sunday Bloody Sunday numa época em que a cena pop/rock estava dividida entre o niilismo dos Clash e o hedonismo dos Duran Duran - continua a marcar-lhes a música. Até mesmo o período de Achtung Baby e Zooropa, durante o qual eles próprios pareceram abraçar o cinismo, apenas na aparência contradiz esta tese: tratou-se afinal de uma encenação assumida, de envergar o cinismo - como se diz actualmente de pessoas que tentam parecer nerds - de forma irónica. O público, que tanto - e justamente - apreciou essa época, é que pode já não estar disponível para tamanha dose de sinceridade e empenho.

 

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Zé Pedro, Homem do Leme

por jpt, em 01.12.17

4_ZE-PEDRO.jpg

 

(É um postal escrito para o És a Nossa Fé, blog sportinguista, mas acho que também cabe aqui).

 

Ontem ao meio da tarde vou ao café de sempre, aqui no bairro. Dois amigos, daqueles daquele antes, logo me chamam à mesa. O Paulo Morisson, que no início dos 80s andou anos com os Xutos por todo o país, diz-me que têm uma má notícia, e logo ma dá, isto de que "o Zé Pedro morreu". Surpreendo-me, que no último ano tenho estado encerrado em mim, lá num algures longe, e estive agora um mês e meio em Moçambique, voltei a semana passada, não soube sequer do espectáculo do Coliseu (ao qual teria ido, de certeza). Abato, ali na mesa do café. Não só como quando morrem os meus parcos ícones, o Lou Reed e talvez mais nenhum, a deixarem-me (ainda mais) sozinho. Mas porque agora tem sido uma revoada de mortos próximos, gente querida, conhecida, amigos, e há tão pouco ainda o João, meu irmão de pai e mãe diferentes, que não há maneira de parar de o chorar, (es)corram ou não os uísques. E também porque o Zé Pedro se ícone era próximo, aqui dos Olivais (ainda que do Norte), do Bairro Alto dos 1980s. Assim ele não divino mas herói, semi-divino, pois meio-homem, encontrável. E, mais do que tudo, terráqueo porque Zé Pedro é Xutos, aquele intangível afinal tangível que ecoou o "esse frio surdo / ... que te envolve ...", que ouviu "berras às bestas / que te envolvem" e soube que "todas as tuas explosões / redundam em silêncio" avisando que "a vida é sempre a perder", porque "nunca dei um passo que fosse o correcto / nunca fiz nada que batesse certo". Estou agora, já velho, a cumprir um texto, um meneio serôdio, nele meti um capítulo - que me dizem para cortar, que desajustado, mas não posso, que perderei todo o sentido - de propósito para me narrar/justificar numa almadia atascada no Zambeze, entre crocodilos, a trautear "e mais que uma onda, mais que uma maré / tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé / mas, vogando à vontade, rompendo a saudade / vai quem já nada teme, vai o homem do leme", o mais que se foda! que já me assomou na vida, e muitos, tantos, já foram. Por tudo isso, abato, frágil, velho, ali na mesa do café, este mesmo de onde o Driol partiu há semanas, e exactamente do mesmo, e a isto já o disse. O Paulo, e é natural que o faça, comovido que está, arranca com umas memórias do início do on the road dos Xutos. O Chico recebe notas no telemóvel, a notícia já é pública. Eu ouço um pouco e depois saio, até casa. A lembrar que puto de liceu vi Xutos com os Minas e Armadilhas. E também, um pouco, pois já nem sei bem com que amiga estava, o 1º de Agosto no Rock Rendez-Vous, mas também é certo que me lembro muito pouco de tudo o que passei no RRV, por razões que são mais que óbvias, mas ainda tenho, um pouco ainda, a memória do sentir "É amanhã dia um de Agosto / E tudo em mim, é um fogo posto / Sacola às costas, cantante na mão / Enterro os pés no calor do chão / E há tanto sol pelo caminho / Que sendo um, não me sinto sózinho". E tantos outros concertos, em Lisboa ou pelo país, até mesmo quando amigos me quiseram, mesmo sendo o puto que eu era, "road manager" - sem imaginarmos então que eu viria mesmo a ser, anos depois, um road manager em versão "mordomo" -, a apanhá-los num qualquer entroncamento ribatejano. E mais tarde, bem mais tarde, em Maputo, eu num abismo laboral, devido aos dementes lisboetas, mas feliz, feliz, pois no meio do desarranjo haviam enviado os Xutos - e no fim do espectáculo na Feira Popular, eu e o peculiar e vistoso Hernâni na primeira fila em X, como então se fazia, entro no camarim e o Kalu "estes gajos não gostam de rock?!", que o silêncio e a apatia haviam sido gerais, e eu a mentir, a dizer que ali era assim, mas claro que tudo era incompreensível para aquele público e o ZP no sorriso "vi-te na primeira fila", e eu claro que sim, pois seríamos apenas meia dúzia entre milhares a verdadeiramente ser "Xutos", naquele rock n'roll. Conheceramo-nos, mesmo, antes, ali numa massada de peixe no Mercado do Peixe, a Isabel Ramos ofertara o peixe, eu as bebidas, o Vitorino cozinhara, a delegação musical, enorme, e os convidados comeram. E acabáramos numa festa em casa da Nice, a Princesa de Pemba, porventura a mulher mais bela que eu conheci, que o Andrea andava pelas Etiópias, feita de propósito para os visitantes. E eu, só ali, abancados a conversar, a perceber que o sorriso do Zé Pedro não era matreiro, era mesmo sorriso. E saltei, para há dois anos, no Sol da Caparica, eu e a minha Carolina, princesa da minha vida, aos 13 anos, juntos aos 30 000 em X e ela, desiludida (repito, aos 13!), "pai, eles não tocaram a Maria", já ela, também, percebi, vinda do Maputo-Bruxelas, X. 

Um postal destes num blog sportinguista, sobre clubes (e futebol)? Porque o Zé Pedro era do Benfica. Como o Kalu (seu companheiro, amigo, mano, camarada), diz, era do Porto, ele fez-se do Benfica, para o picar. Há muitos anos escrevi uma coisa sobre isso. Porque, de facto, os clubes são para isto, o clubismo é para isto. Só para isto, para nos picarmos fazendo-nos manos. E é por isso, até por isto, até por este só isto, mero futebol, que o Zé Pedro é o Homem do Leme. E mal vai quem não o percebe. E não o sente. Ao X.

 

 

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Música recente (150)

por José António Abreu, em 28.11.17

The Cornshed Sisters, álbum Honey & Tar.

Quatro vozes que combinam perfeitamente, numa mistura de folk com indie pop.

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Música recente (149)

por José António Abreu, em 23.11.17

Brand New, álbum Science Fiction.

Science Fiction teria constituído um excelente remate para a carreira - com fim já anunciado - dos Brand New. Infelizmente, a dissolução da banda poderá ficar marcada por outro acontecimento: na senda do que tem acontecido em Hollywood, o vocalista Jesse Lacey viu-se acusado por uma mulher de comportamento inadequado e tanto as bandas de apoio à digressão em curso como os próprios colegas começam a afastar-se dele. Um dos grandes álbuns de 2017 choca de frente com um dos grandes temas de 2017.

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Música recente (146)

por José António Abreu, em 14.11.17

Zola Jesus, álbum Okovi.

Zola Jesus, que se identifica como Nika Danilova mas se chamará realmente Nicole Hummel (Fernando Pessoa apreciaria), continua a produzir temas que, indo beber a experiências pouco simpáticas (depressão, gente próxima dela a quem foi diagnosticado cancro ou que tentou suicidar-se), parecem negros e depressivos, mas se revelam afinal bastante reconfortantes.

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Música recente (145)

por José António Abreu, em 09.11.17

Circuit des Yeux, álbum Reaching for Indigo.

Por excesso de uso, muitos termos e expressões vêm perdendo relevância. Ironicamente (ou talvez inevitavelmente), os superlativos amontoam-se à medida que os humanos parecem ficar mais cínicos e desiludidos. Mensalmente ocorrem dezenas de momentos «históricos» e centenas de acontecimentos «inéditos». Não obstante tudo isto, talvez ainda se possa aplicar o termo «inclassificável» à música de Haley Fohr.

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Música recente (144)

por José António Abreu, em 07.11.17

 Phoebe Bridgers, álbum Stranger in the Alps.

1. Phoebe Bridgers tem 23 anos, mas escreve letras como esta: «When a machine keeps me alive, and I'm losing all my hair, I hope you kiss my rotten head and pull the plug - now that I've burned every playlist, I've given all my love.»

2. Phoebe Bridgers compôs um tema sobre uma rua em Los Angeles (Scott Street) que afinal é uma avenida. Foi um simples erro, mas encaixa perfeitamente num álbum onde o understatement impera e a aceitação da incongruência é forma de lidar com a depressão e com a ideia da morte.

3. Phoebe Bridgers (a propósito de incongruência) intitula o seu álbum Stranger in the Alps porque, na versão para canal aberto do filme The Big Lebowski, a frase do imortal Walter Sobchak (John Goodman) «Do you see what happens when you fuck a stranger in the ass?» foi transformada em «Do you see what happens when you find a stranger in the Alps?».

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Música recente (143)

por José António Abreu, em 31.10.17

The Granite Shore, álbum Suspended Second

Há no álbum uns toques de Abba que normalmente seriam suficientes para me manter à distância que vai da foz do Porto à zona Leste de Estocolmo. Mas também há aquele estilo desenvolto, intemporal e mordaz de uns The Divine Comedy, aplicados à desilusão que, para Nick Halliwell (o homem por trás dos The Granite Shore), constitui o Brexit. What news from England, are they happy now they're free?, canta ele em The Performance of a lifetime, perfeitamente consciente de que whatever we said or we did, we were always outside looking in (no refrão de Outside, Looking In). E depois há dúvidas candentes que só o futuro esclarecerá: Will they paint the passports blue again? Provavelmente não, Nick; o azul é a cor da União Europeia.

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Música recente (142)

por José António Abreu, em 27.10.17

Angus & Julia Stone, álbum Snow.

Gosto da conjugação das vozes dos dois irmãos australianos e, ainda que não contendo grandes surpresas, da leveza elegante que a música deles frequentemente atinge. Gosto menos quando os temas se esvaem no sentido da lamechice. É pena que tal suceda demasiadas vezes neste último álbum.

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Música recente (141)

por José António Abreu, em 24.10.17

Robert Plant, álbum Carry Fire.

Enquanto Jimmy Page parece ter ficado preso à memória dos Led Zeppelin, servindo hoje quase como seu guardião, Robert Plant continua a experimentar, misturando sons de vários estilos (Bluebirds Over the Mountain é uma versão - bastante diferente - de um tema de Ersel Hickey, que em 1968 também foi usado pelos Beach Boys) e geografias (ver - ou melhor, ouvir - tema abaixo).

 

 

(A voz feminina em Bluebirds Over the Mountain é a de Chrissie Hynde.)

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Música recente (140)

por José António Abreu, em 20.10.17

St. Vincent, álbum Masseduction

A sonoridade de Anne Erin Clark vem-se normalizando. Neste álbum, produzido por Jack Antonoff (colaborador de Lorde e Tayler Swift), estará até demasiado parecida com inúmeros trabalhos lançados nos últimos tempos. Felizmente, o álbum possui outros trunfos, à cabeça dos quais se encontra uma dissecação irónica mas feroz das pressões geradas pela fama (Oh, what a bore to be so adored, canta-se no tema Masseduction), pelo dinheiro e pelo desejo de eterna juventude.

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Música recente (139)

por José António Abreu, em 18.10.17

Nadine Shah, álbum Holiday Destination.

Shah é filha de uma inglesa descendente de noruegueses e de um paquistanês. Centrado nas questões da imigração, o seu novo álbum foca as dificuldades de constituir o elemento estranho numa comunidade, os enviesamentos daí decorrentes, e as por vezes inacreditáveis prioridades de quem tenta proteger o seu casulo. Shah não assume um tom de confronto, excepto quando perante este último ponto: o tema Holiday Destination (no vídeo acima) foi inspirado numa reportagem onde se relatavam as queixas de turistas na Grécia sobre a forma como a crise dos refugiados lhes estava a estragar as férias. Já o tema Evil terá resultado da leitura do poema Days, de Philip Larkin (ver abaixo). Para Shah, o «dia» é a normalidade, fora do qual surgem os medos e os ódios.

 

---

 

What are days for?

Days are where we live.

They come, they wake us

Time and time over.

They are to be happy in:

Where can we live but days?

Ah, solving that question

Brings the priest and the doctor

In their long coats

Running over the fields.

Philip Larkin

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Summer Hit 2030

por Diogo Noivo, em 13.10.17

 

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Música recente (138)

por José António Abreu, em 13.10.17

Kauan, álbum Kahio.

Os russos Kauan continuam o percurso em direcção a um som contemplativo e nostálgico, numa linha post-rock que inclui elementos folk e de doom metal. Como antes - e como o próprio nome da banda -, as letras são em finlandês.

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Música recente (137)

por José António Abreu, em 11.10.17

Fink, álbum Resurgam.

Depois de uma incursão pelos blues, Fink Greenall regressa aos sons densos (e às excelentes letras) que caracterizaram álbuns como Perfect DarknessHard Believer.

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Música recente (136)

por José António Abreu, em 06.10.17

LCD Soundsystem, álbum American Dream.

O indício mais forte de que este é um álbum pessimista - proveniente de uma banda que fora oficialmente enterrada há meia dúzia de anos - talvez seja a quase total ausência de ironia. Em American Dream, a política não é evidente, mas a desilusão, bem como a crítica à inactividade e à retórica vazia, encontra-se em quase todos os temas. O american dream sempre se baseou na capacidade de perseguir sonhos. Hoje, por razões que ultrapassam a maioria das pessoas mas também por inércia própria, eles afiguram-se mais difíceis de atingir. Entretanto - não é irrelevante que James Murphy se aproxime dos 50 anos de idade -, o tempo passa.

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Música recente (135)

por José António Abreu, em 04.10.17

Tori Amos, álbum Native Invader.

O problema com Amos é que o seus melhores álbuns - não por acaso todos saídos na década de 1990 - abordavam, entre a fragilidade e a raiva, traumas pessoais nascidos de violência física e sexual a que ela estivera submetida. Tori extrapolava para o geral, para as limitações e para a violência a que as mulheres estavam sujeitas (o piano funcionando por vezes como cúmplice das palavras, outras vezes como contraponto), mas a base, a nota que conferia uma sinceridade dolorosa aos temas, era a experiência pessoal. Felizmente, desde então a vida de Tori terá sido mais pacífica e confortável. Isso, porém, gera problemas à sua música. Para um fã incondicional como eu, ela não tem álbuns maus. Mas até um fã incondicional como eu é forçado a admitir que também não produz obras-primas desde From the Choirgirl Hotel, do longínquo ano de 1998, ou, no limite, Strange Little Girls, de 2001. Night of Hunters, o álbum conceptual laçando pela Deutsche Grammophon em 2010, foi - não obstante uma faceta ligeiramente presunçosa - uma experiência interessante. Os últimos dois álbuns saídos após Night of Hunters são igualmente bastante bons - mas não surpreendentes. Em Native Invader, Tori esforça-se por substituir o seu sofrimento pessoal por aquilo que entende ser o sofrimento do planeta, não se coibindo de entrar em exercícios de antropomorfização à la Björk e assestando baterias na criatura mais perniciosa de todas: o ser humano (o native invader do título). Independentemente do grau de tolerância que ainda se tenha por álbuns com mensagem ecológica, a ideia quase resulta. Apresenta, contudo, um pecado grave e pouco habitual em Tori: várias letras caem num simplismo atroz, com analogias e - considerando até a fonte de inspiração dos tais álbuns da década de 1990 - de mau gosto. Atente-se nesta passagem de Benjamin: Sucking hydrocarbon from the ground / those pimps in Washington / are selling the rape of America. Oh, Tori...

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Música recente (134)

por José António Abreu, em 28.09.17

Lizz Wright, álbum Grace.

Após Freedom & Surrender, de 2015, Wright regressa aos sons mais tradicionais do magnífico Fellowship, de 2010. Como no caso de Freedom Highway, de Rhiannon Giddens - mas baseado numa maioria de temas não originais -, recupera-se a memória para enfrentar as incertezas do presente.

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Música recente (133)

por José António Abreu, em 22.09.17

Emily Haines & The Soft Skeleton, álbum Choir of the Mind.

 Colaboradora dos Broken Social Scene, vocalista dos Metric, Haines lança um segundo álbum sob o nome Emily Haines & The Soft Sketleton. Como o primeiro, de 2006, mostra a faceta mais suave e contemplativa da canadiana.

 

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Música recente (132)

por José António Abreu, em 20.09.17

Myrkur, álbum Mareridt.

A dinamarquesa Amalie Bruun mistura ruído extremo com sonoridades que remetem para as paisagens e lendas nórdicas. Aqui e ali faz pensar numa versão black metal de Björk («Myrkur» até é um termo islandês que significa «escuridão»), mas globalmente encontrar-se-á mais próxima de gente como Chelsea Wolfe, que colaborou em dois temas (entre os quais este).

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Música recente (131)

por José António Abreu, em 15.09.17

Alvvays, álbum Antisocialites.

É mais difícil fazer boa pop do que muitos crêem. Em 2014, os canadianos Alvvays acrescentaram uma pitada de distorção ao som típico da Califórnia. Agora apuram a receita.

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Da arte de furtar

por Pedro Correia, em 14.09.17

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Há uma diferença entre plágio e roubo. O plagiador "inspira-se" na criação alheia. Por vezes para citá-la de forma explícita, como quando Maurício de Souza põe a inconfundível cara da sua Mônica no corpo da Mona Lisa.

O ladrão apropria-se disso sem prestar vénia nem pedir licença.

 

Os ladrões, por sua vez, dividem-se entre os lamurientos e os restantes.

Os lamurientos são aqueles que, sem o menor vertígio de vergonha, surgem à boca do palco no papel de abusados na expectativa de deixarem de ser apontados a dedo enquanto abusadores. Chegam ao ponto de lamentarem sofrer "danos de imagem" quando surge a notícia de que andaram anos - às vezes décadas - a assaltar propriedade intelectual. Ou a "furtar", para usar o delicado verbo a que algum jornalismo servil recorreu para noticiar a impune pilhagem aos paióis de Tancos.

 

Aqui chegados, cumpre reconhecer o talento de Tony Carreira, que pode invocar Picasso como caução intelectual. Dizia o criador da Guernica que "os bons artistas copiam e os grandes artistas roubam".

Nesta acepção, Carreira é indiscutivelmente um grande artista.

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O idiota virou menino

por Pedro Correia, em 13.09.17

 

Aparente plagiador e péssimo tradutor. L' Idiot (O Idiota) foi traduzido por Sonhos de Menino.

 

 

Levantamento do Blitz aqui. Jornalismo a sério.

 

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Música recente (130)

por José António Abreu, em 12.09.17

The National, álbum Sleep Well Beast.

Desde Boxer, os The National têm executado variações sobre um estilo que talvez pudesse apelidar-se de crooner-depressivo. O novo álbum não traz mudanças substanciais, mas inclui algumas mudanças de ritmo que, se não consubstanciam um regresso aos tempos de Alligator, sacodem um pouco a letargia (viciante) dos últimos anos.

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Música recente (129)

por José António Abreu, em 08.09.17

 

Matt Pond PA, álbum Still Summer.

With leaves on the floor, tell me there's more time left, canta-se em A Spark. Matt Pond sempre gostou de usar as estações do ano não apenas como suporte óbvio para a melancolia gerada pela passagem do tempo mas também como símbolos de diferentes estados de alma. A Primavera é o tema central do EP Spring Fools, de 2011, enquanto o Inverno mereceu destaque no EP Winter Songs, de 2005, e no álbum Winter Lives, do final do ano passado. O Verão já antes fora mencionado (por exemplo, no tema Summer is Coming, incluído no álbum The Nature of Maps, de 2001), mas agora é o tema central. Ou se calhar não tanto assim. Afinal, trata-se de um Verão a acabar. A música explora aquela sensação agridoce que encaixa perfeitamente no início de Setembro. Aquela luta entre o desejo de aproveitar o Sol que resta e a tristeza já instalada. Sim, ainda é Verão, mas está por dias. 

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Música recente (128)

por José António Abreu, em 05.09.17

Queens Of The Stone Age, álbum Villains.

Também aqui, as opiniões extremam-se. Quem detesta atira os adjectivos «dançável» e «acessível» em jeito de insulto. Quem gosta celebra o facto de o álbum ser diferente dos anteriores. Estou no segundo campo. Convenhamos três coisas: o hard rock tradicional está um nadinha gasto; Josh Homme é um tipo corpulento mas, no timbre de voz e na pose, sempre foi possível detectar sensibilidades pouco habituais - mas bem-vindas - no género; a capacidade de reinvenção por parte de gente com carreiras longas e plenas de sucesso é rara mas deliciosa. Villains pode até não ser o álbum mais perfeito dos QOTSA (considerando a existência de Rated R e Songs For the Deaf, só o tempo o dirá), mas é pelo menos o mais variado, arriscado e inovador.

 

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Música recente (127)

por José António Abreu, em 01.09.17

Ani DiFranco, álbum Binary.

DiFranco tem um longo historial de independência e opiniões fortes. Binary é mais suave e menos experimentalista do que alguns dos seus álbuns anteriores, mas permanece exigente e iconoclasta. Como em trabalhos de outros autores saídos recentemente, nota-se uma preocupação com a desintegração do conceito de comunidade.

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Música recente (126)

por José António Abreu, em 29.08.17

Grizzly Bear, álbum Painted Ruins.

Um álbum delicado, em torno de vulnerabilidades e desencanto, que sofre ligeiramente por acrescentar pouco aos trabalhos anteriores dos Grizzly Bear.

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Música recente (125)

por José António Abreu, em 25.08.17

Cloakroom, álbum Time Well.

A desilusão e a cólera dos norte-americanos do Midwest têm sido alvo de análises, incompreensões e ataques variados. Sem as mencionar explicitamente, o segundo álbum deste trio de Michigan City, Indiana, parece querer ajudar a explicá-las, montando paisagens sonoras onde os momentos de beleza exsudam angústia e raiva, onde a paz (há momentos em que quase se vêem as nuvens a percorrer o céu) se mistura com o medo e onde a nostalgia é - como sempre - uma prisão e um conforto.

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Música recente (124)

por José António Abreu, em 22.08.17

Tow'rs, álbum Grey Fidelity.

Um excelente balanço entre pop e folk, vindo de Flagstaff, no Arizona. 

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Música recente (123)

por José António Abreu, em 18.08.17

Dale Crover, álbum The Fickle Finger of Fate.

O baterista dos Melvins apresenta um conjunto de 20 temas - muitos dos quais apenas esboços sonoros com menos de 60 segundos - em que a faceta heavy se deixa contagiar por uma sensibilidade pop - e também por pura extravagância. Honestamente, tão depressa parece genial como absurdo. Mas - ei - ainda estamos na silly season, não é verdade?

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Quarenta anos sem Elvis Presley

por Pedro Correia, em 16.08.17

Elvis Aaron Presley morreu faz hoje 40 anos. Mas a sua música permanece bem viva. É dia para escutá-la, uma vez mais.

Aqui ficam três das canções dele de que mais gosto.

 

 

De Arthur Crudup (1946). Gravada por Elvis em 1954

 

 

 

De Carl Perkins (1955). Gravada por Elvis em 1956

 

 

 

De Howard Barnes e Don Robertson (1953). Gravada por Elvis em 1970

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Música recente (122)

por José António Abreu, em 15.08.17

Joywave, álbum Content.

Ao segundo álbum, os nova-iorquinos continuam a fazer pop/rock à base de sintetizadores, mas reforçam a componente ambiental, mantendo quase sempre uma contenção admirável. E depois há a ironia do vídeo abaixo.

 

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