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Música recente (154)

por José António Abreu, em 12.12.17

Charlotte Gainsbourg, álbum Rest.

 Submergindo inseguranças e tristezas em ondas de som, Gainsbourg cria um caleidoscópio que não ficaria mal como banda sonora de um filme de terror à italiana (pode não parecer, mas é um elogio).

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Música recente (153)

por José António Abreu, em 08.12.17

Mavis Staples, álbum If All I Was Was Black.

Staples tem setenta e oito anos. Viu muito, em quase oito décadas. Passou pelas guerras da Coreia, do Vietname e do Golfo, por momentos de divisão entre os norte-americanos, como as lutas pelos direitos sociais na década de 1960, e por momentos de união, como o que se seguiu aos atentados de 11 de Setembro de 2001 (durou pouco). Hoje, com a sociedade mais uma vez dividida, mantém a esperança. Os dez temas, compostos para ela por Jeff Tweedy, dos Wilco (e que excelente trabalho ele fez), não fogem aos problemas, mas pegam-lhes numa perspectiva optimista, salientando a necessidade de entendimento e de superação. A voz experiente de Staples adiciona peso às palavras e a sonoridade, uma mistura de R&B com Country, dois estilos tão tipicamente norte-americanos, um mais associado à comunidade negra, o outro à comunidade branca, constitui a cereja no topo do bolo de um álbum baseado na ideia de união. 

 

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Música recente (152)

por José António Abreu, em 05.12.17

Protomartyr, álbum Relatives in Descent.

Um hino de raiva e inquietação, sinuoso e politicamente carregado, como a sonoridade punk (ou pós-punk, ou qualquer coisa assim) praticamente exige. 

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Música recente (151)

por José António Abreu, em 02.12.17

U2, álbum Songs of Experience.

Ainda que, graças à manipulação electrónica da voz de Bono, Love Is All We Have Left abra o álbum com um toque de originalidade, e que Kendrick Lamar participe (fugazmente) num par de temas, a sonoridade não deixa de estar alinhada com o que os U2 já fizeram muitas vezes. Todavia, este não constitui o maior problema para um álbum que até revela uma excelente ligação entre os membros da banda, com Bono usando eficazmente a voz que lhe resta e The Edge acrescentando o tom épico sem demasiados exageros. O maior obstáculo que Songs of Experience terá de enfrentar é o cinismo. Os U2 podem ter ganho milhões e gerido as coisas de modo a pagarem o mínimo de impostos sobre esses milhões, Bono pode ter lançado campanhas humanitárias de eficácia duvidosa enquanto convivia com políticos e celebridades televisivas, mas a sinceridade dos quatro irlandeses - a mesma que os fez compor New Year's Day ou Sunday Bloody Sunday numa época em que a cena pop/rock estava dividida entre o niilismo dos Clash e o hedonismo dos Duran Duran - continua a marcar-lhes a música. Até mesmo o período de Achtung Baby e Zooropa, durante o qual eles próprios pareceram abraçar o cinismo, apenas na aparência contradiz esta tese: tratou-se afinal de uma encenação assumida, de envergar o cinismo - como se diz actualmente de pessoas que tentam parecer nerds - de forma irónica. O público, que tanto - e justamente - apreciou essa época, é que pode já não estar disponível para tamanha dose de sinceridade e empenho.

 

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Zé Pedro, Homem do Leme

por jpt, em 01.12.17

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(É um postal escrito para o És a Nossa Fé, blog sportinguista, mas acho que também cabe aqui).

 

Ontem ao meio da tarde vou ao café de sempre, aqui no bairro. Dois amigos, daqueles daquele antes, logo me chamam à mesa. O Paulo Morisson, que no início dos 80s andou anos com os Xutos por todo o país, diz-me que têm uma má notícia, e logo ma dá, isto de que "o Zé Pedro morreu". Surpreendo-me, que no último ano tenho estado encerrado em mim, lá num algures longe, e estive agora um mês e meio em Moçambique, voltei a semana passada, não soube sequer do espectáculo do Coliseu (ao qual teria ido, de certeza). Abato, ali na mesa do café. Não só como quando morrem os meus parcos ícones, o Lou Reed e talvez mais nenhum, a deixarem-me (ainda mais) sozinho. Mas porque agora tem sido uma revoada de mortos próximos, gente querida, conhecida, amigos, e há tão pouco ainda o João, meu irmão de pai e mãe diferentes, que não há maneira de parar de o chorar, (es)corram ou não os uísques. E também porque o Zé Pedro se ícone era próximo, aqui dos Olivais (ainda que do Norte), do Bairro Alto dos 1980s. Assim ele não divino mas herói, semi-divino, pois meio-homem, encontrável. E, mais do que tudo, terráqueo porque Zé Pedro é Xutos, aquele intangível afinal tangível que ecoou o "esse frio surdo / ... que te envolve ...", que ouviu "berras às bestas / que te envolvem" e soube que "todas as tuas explosões / redundam em silêncio" avisando que "a vida é sempre a perder", porque "nunca dei um passo que fosse o correcto / nunca fiz nada que batesse certo". Estou agora, já velho, a cumprir um texto, um meneio serôdio, nele meti um capítulo - que me dizem para cortar, que desajustado, mas não posso, que perderei todo o sentido - de propósito para me narrar/justificar numa almadia atascada no Zambeze, entre crocodilos, a trautear "e mais que uma onda, mais que uma maré / tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé / mas, vogando à vontade, rompendo a saudade / vai quem já nada teme, vai o homem do leme", o mais que se foda! que já me assomou na vida, e muitos, tantos, já foram. Por tudo isso, abato, frágil, velho, ali na mesa do café, este mesmo de onde o Driol partiu há semanas, e exactamente do mesmo, e a isto já o disse. O Paulo, e é natural que o faça, comovido que está, arranca com umas memórias do início do on the road dos Xutos. O Chico recebe notas no telemóvel, a notícia já é pública. Eu ouço um pouco e depois saio, até casa. A lembrar que puto de liceu vi Xutos com os Minas e Armadilhas. E também, um pouco, pois já nem sei bem com que amiga estava, o 1º de Agosto no Rock Rendez-Vous, mas também é certo que me lembro muito pouco de tudo o que passei no RRV, por razões que são mais que óbvias, mas ainda tenho, um pouco ainda, a memória do sentir "É amanhã dia um de Agosto / E tudo em mim, é um fogo posto / Sacola às costas, cantante na mão / Enterro os pés no calor do chão / E há tanto sol pelo caminho / Que sendo um, não me sinto sózinho". E tantos outros concertos, em Lisboa ou pelo país, até mesmo quando amigos me quiseram, mesmo sendo o puto que eu era, "road manager" - sem imaginarmos então que eu viria mesmo a ser, anos depois, um road manager em versão "mordomo" -, a apanhá-los num qualquer entroncamento ribatejano. E mais tarde, bem mais tarde, em Maputo, eu num abismo laboral, devido aos dementes lisboetas, mas feliz, feliz, pois no meio do desarranjo haviam enviado os Xutos - e no fim do espectáculo na Feira Popular, eu e o peculiar e vistoso Hernâni na primeira fila em X, como então se fazia, entro no camarim e o Kalu "estes gajos não gostam de rock?!", que o silêncio e a apatia haviam sido gerais, e eu a mentir, a dizer que ali era assim, mas claro que tudo era incompreensível para aquele público e o ZP no sorriso "vi-te na primeira fila", e eu claro que sim, pois seríamos apenas meia dúzia entre milhares a verdadeiramente ser "Xutos", naquele rock n'roll. Conheceramo-nos, mesmo, antes, ali numa massada de peixe no Mercado do Peixe, a Isabel Ramos ofertara o peixe, eu as bebidas, o Vitorino cozinhara, a delegação musical, enorme, e os convidados comeram. E acabáramos numa festa em casa da Nice, a Princesa de Pemba, porventura a mulher mais bela que eu conheci, que o Andrea andava pelas Etiópias, feita de propósito para os visitantes. E eu, só ali, abancados a conversar, a perceber que o sorriso do Zé Pedro não era matreiro, era mesmo sorriso. E saltei, para há dois anos, no Sol da Caparica, eu e a minha Carolina, princesa da minha vida, aos 13 anos, juntos aos 30 000 em X e ela, desiludida (repito, aos 13!), "pai, eles não tocaram a Maria", já ela, também, percebi, vinda do Maputo-Bruxelas, X. 

Um postal destes num blog sportinguista, sobre clubes (e futebol)? Porque o Zé Pedro era do Benfica. Como o Kalu (seu companheiro, amigo, mano, camarada), diz, era do Porto, ele fez-se do Benfica, para o picar. Há muitos anos escrevi uma coisa sobre isso. Porque, de facto, os clubes são para isto, o clubismo é para isto. Só para isto, para nos picarmos fazendo-nos manos. E é por isso, até por isto, até por este só isto, mero futebol, que o Zé Pedro é o Homem do Leme. E mal vai quem não o percebe. E não o sente. Ao X.

 

 

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Música recente (150)

por José António Abreu, em 28.11.17

The Cornshed Sisters, álbum Honey & Tar.

Quatro vozes que combinam perfeitamente, numa mistura de folk com indie pop.

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Música recente (149)

por José António Abreu, em 23.11.17

Brand New, álbum Science Fiction.

Science Fiction teria constituído um excelente remate para a carreira - com fim já anunciado - dos Brand New. Infelizmente, a dissolução da banda poderá ficar marcada por outro acontecimento: na senda do que tem acontecido em Hollywood, o vocalista Jesse Lacey viu-se acusado por uma mulher de comportamento inadequado e tanto as bandas de apoio à digressão em curso como os próprios colegas começam a afastar-se dele. Um dos grandes álbuns de 2017 choca de frente com um dos grandes temas de 2017.

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Música recente (146)

por José António Abreu, em 14.11.17

Zola Jesus, álbum Okovi.

Zola Jesus, que se identifica como Nika Danilova mas se chamará realmente Nicole Hummel (Fernando Pessoa apreciaria), continua a produzir temas que, indo beber a experiências pouco simpáticas (depressão, gente próxima dela a quem foi diagnosticado cancro ou que tentou suicidar-se), parecem negros e depressivos, mas se revelam afinal bastante reconfortantes.

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Música recente (145)

por José António Abreu, em 09.11.17

Circuit des Yeux, álbum Reaching for Indigo.

Por excesso de uso, muitos termos e expressões vêm perdendo relevância. Ironicamente (ou talvez inevitavelmente), os superlativos amontoam-se à medida que os humanos parecem ficar mais cínicos e desiludidos. Mensalmente ocorrem dezenas de momentos «históricos» e centenas de acontecimentos «inéditos». Não obstante tudo isto, talvez ainda se possa aplicar o termo «inclassificável» à música de Haley Fohr.

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Música recente (144)

por José António Abreu, em 07.11.17

 Phoebe Bridgers, álbum Stranger in the Alps.

1. Phoebe Bridgers tem 23 anos, mas escreve letras como esta: «When a machine keeps me alive, and I'm losing all my hair, I hope you kiss my rotten head and pull the plug - now that I've burned every playlist, I've given all my love.»

2. Phoebe Bridgers compôs um tema sobre uma rua em Los Angeles (Scott Street) que afinal é uma avenida. Foi um simples erro, mas encaixa perfeitamente num álbum onde o understatement impera e a aceitação da incongruência é forma de lidar com a depressão e com a ideia da morte.

3. Phoebe Bridgers (a propósito de incongruência) intitula o seu álbum Stranger in the Alps porque, na versão para canal aberto do filme The Big Lebowski, a frase do imortal Walter Sobchak (John Goodman) «Do you see what happens when you fuck a stranger in the ass?» foi transformada em «Do you see what happens when you find a stranger in the Alps?».

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Música recente (143)

por José António Abreu, em 31.10.17

The Granite Shore, álbum Suspended Second

Há no álbum uns toques de Abba que normalmente seriam suficientes para me manter à distância que vai da foz do Porto à zona Leste de Estocolmo. Mas também há aquele estilo desenvolto, intemporal e mordaz de uns The Divine Comedy, aplicados à desilusão que, para Nick Halliwell (o homem por trás dos The Granite Shore), constitui o Brexit. What news from England, are they happy now they're free?, canta ele em The Performance of a lifetime, perfeitamente consciente de que whatever we said or we did, we were always outside looking in (no refrão de Outside, Looking In). E depois há dúvidas candentes que só o futuro esclarecerá: Will they paint the passports blue again? Provavelmente não, Nick; o azul é a cor da União Europeia.

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Música recente (142)

por José António Abreu, em 27.10.17

Angus & Julia Stone, álbum Snow.

Gosto da conjugação das vozes dos dois irmãos australianos e, ainda que não contendo grandes surpresas, da leveza elegante que a música deles frequentemente atinge. Gosto menos quando os temas se esvaem no sentido da lamechice. É pena que tal suceda demasiadas vezes neste último álbum.

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Música recente (141)

por José António Abreu, em 24.10.17

Robert Plant, álbum Carry Fire.

Enquanto Jimmy Page parece ter ficado preso à memória dos Led Zeppelin, servindo hoje quase como seu guardião, Robert Plant continua a experimentar, misturando sons de vários estilos (Bluebirds Over the Mountain é uma versão - bastante diferente - de um tema de Ersel Hickey, que em 1968 também foi usado pelos Beach Boys) e geografias (ver - ou melhor, ouvir - tema abaixo).

 

 

(A voz feminina em Bluebirds Over the Mountain é a de Chrissie Hynde.)

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Música recente (140)

por José António Abreu, em 20.10.17

St. Vincent, álbum Masseduction

A sonoridade de Anne Erin Clark vem-se normalizando. Neste álbum, produzido por Jack Antonoff (colaborador de Lorde e Tayler Swift), estará até demasiado parecida com inúmeros trabalhos lançados nos últimos tempos. Felizmente, o álbum possui outros trunfos, à cabeça dos quais se encontra uma dissecação irónica mas feroz das pressões geradas pela fama (Oh, what a bore to be so adored, canta-se no tema Masseduction), pelo dinheiro e pelo desejo de eterna juventude.

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Música recente (139)

por José António Abreu, em 18.10.17

Nadine Shah, álbum Holiday Destination.

Shah é filha de uma inglesa descendente de noruegueses e de um paquistanês. Centrado nas questões da imigração, o seu novo álbum foca as dificuldades de constituir o elemento estranho numa comunidade, os enviesamentos daí decorrentes, e as por vezes inacreditáveis prioridades de quem tenta proteger o seu casulo. Shah não assume um tom de confronto, excepto quando perante este último ponto: o tema Holiday Destination (no vídeo acima) foi inspirado numa reportagem onde se relatavam as queixas de turistas na Grécia sobre a forma como a crise dos refugiados lhes estava a estragar as férias. Já o tema Evil terá resultado da leitura do poema Days, de Philip Larkin (ver abaixo). Para Shah, o «dia» é a normalidade, fora do qual surgem os medos e os ódios.

 

---

 

What are days for?

Days are where we live.

They come, they wake us

Time and time over.

They are to be happy in:

Where can we live but days?

Ah, solving that question

Brings the priest and the doctor

In their long coats

Running over the fields.

Philip Larkin

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Summer Hit 2030

por Diogo Noivo, em 13.10.17

 

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Música recente (138)

por José António Abreu, em 13.10.17

Kauan, álbum Kahio.

Os russos Kauan continuam o percurso em direcção a um som contemplativo e nostálgico, numa linha post-rock que inclui elementos folk e de doom metal. Como antes - e como o próprio nome da banda -, as letras são em finlandês.

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Música recente (137)

por José António Abreu, em 11.10.17

Fink, álbum Resurgam.

Depois de uma incursão pelos blues, Fink Greenall regressa aos sons densos (e às excelentes letras) que caracterizaram álbuns como Perfect DarknessHard Believer.

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Música recente (136)

por José António Abreu, em 06.10.17

LCD Soundsystem, álbum American Dream.

O indício mais forte de que este é um álbum pessimista - proveniente de uma banda que fora oficialmente enterrada há meia dúzia de anos - talvez seja a quase total ausência de ironia. Em American Dream, a política não é evidente, mas a desilusão, bem como a crítica à inactividade e à retórica vazia, encontra-se em quase todos os temas. O american dream sempre se baseou na capacidade de perseguir sonhos. Hoje, por razões que ultrapassam a maioria das pessoas mas também por inércia própria, eles afiguram-se mais difíceis de atingir. Entretanto - não é irrelevante que James Murphy se aproxime dos 50 anos de idade -, o tempo passa.

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Música recente (135)

por José António Abreu, em 04.10.17

Tori Amos, álbum Native Invader.

O problema com Amos é que o seus melhores álbuns - não por acaso todos saídos na década de 1990 - abordavam, entre a fragilidade e a raiva, traumas pessoais nascidos de violência física e sexual a que ela estivera submetida. Tori extrapolava para o geral, para as limitações e para a violência a que as mulheres estavam sujeitas (o piano funcionando por vezes como cúmplice das palavras, outras vezes como contraponto), mas a base, a nota que conferia uma sinceridade dolorosa aos temas, era a experiência pessoal. Felizmente, desde então a vida de Tori terá sido mais pacífica e confortável. Isso, porém, gera problemas à sua música. Para um fã incondicional como eu, ela não tem álbuns maus. Mas até um fã incondicional como eu é forçado a admitir que também não produz obras-primas desde From the Choirgirl Hotel, do longínquo ano de 1998, ou, no limite, Strange Little Girls, de 2001. Night of Hunters, o álbum conceptual laçando pela Deutsche Grammophon em 2010, foi - não obstante uma faceta ligeiramente presunçosa - uma experiência interessante. Os últimos dois álbuns saídos após Night of Hunters são igualmente bastante bons - mas não surpreendentes. Em Native Invader, Tori esforça-se por substituir o seu sofrimento pessoal por aquilo que entende ser o sofrimento do planeta, não se coibindo de entrar em exercícios de antropomorfização à la Björk e assestando baterias na criatura mais perniciosa de todas: o ser humano (o native invader do título). Independentemente do grau de tolerância que ainda se tenha por álbuns com mensagem ecológica, a ideia quase resulta. Apresenta, contudo, um pecado grave e pouco habitual em Tori: várias letras caem num simplismo atroz, com analogias e - considerando até a fonte de inspiração dos tais álbuns da década de 1990 - de mau gosto. Atente-se nesta passagem de Benjamin: Sucking hydrocarbon from the ground / those pimps in Washington / are selling the rape of America. Oh, Tori...

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Música recente (134)

por José António Abreu, em 28.09.17

Lizz Wright, álbum Grace.

Após Freedom & Surrender, de 2015, Wright regressa aos sons mais tradicionais do magnífico Fellowship, de 2010. Como no caso de Freedom Highway, de Rhiannon Giddens - mas baseado numa maioria de temas não originais -, recupera-se a memória para enfrentar as incertezas do presente.

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Música recente (133)

por José António Abreu, em 22.09.17

Emily Haines & The Soft Skeleton, álbum Choir of the Mind.

 Colaboradora dos Broken Social Scene, vocalista dos Metric, Haines lança um segundo álbum sob o nome Emily Haines & The Soft Sketleton. Como o primeiro, de 2006, mostra a faceta mais suave e contemplativa da canadiana.

 

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Música recente (132)

por José António Abreu, em 20.09.17

Myrkur, álbum Mareridt.

A dinamarquesa Amalie Bruun mistura ruído extremo com sonoridades que remetem para as paisagens e lendas nórdicas. Aqui e ali faz pensar numa versão black metal de Björk («Myrkur» até é um termo islandês que significa «escuridão»), mas globalmente encontrar-se-á mais próxima de gente como Chelsea Wolfe, que colaborou em dois temas (entre os quais este).

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Música recente (131)

por José António Abreu, em 15.09.17

Alvvays, álbum Antisocialites.

É mais difícil fazer boa pop do que muitos crêem. Em 2014, os canadianos Alvvays acrescentaram uma pitada de distorção ao som típico da Califórnia. Agora apuram a receita.

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Da arte de furtar

por Pedro Correia, em 14.09.17

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Há uma diferença entre plágio e roubo. O plagiador "inspira-se" na criação alheia. Por vezes para citá-la de forma explícita, como quando Maurício de Souza põe a inconfundível cara da sua Mônica no corpo da Mona Lisa.

O ladrão apropria-se disso sem prestar vénia nem pedir licença.

 

Os ladrões, por sua vez, dividem-se entre os lamurientos e os restantes.

Os lamurientos são aqueles que, sem o menor vertígio de vergonha, surgem à boca do palco no papel de abusados na expectativa de deixarem de ser apontados a dedo enquanto abusadores. Chegam ao ponto de lamentarem sofrer "danos de imagem" quando surge a notícia de que andaram anos - às vezes décadas - a assaltar propriedade intelectual. Ou a "furtar", para usar o delicado verbo a que algum jornalismo servil recorreu para noticiar a impune pilhagem aos paióis de Tancos.

 

Aqui chegados, cumpre reconhecer o talento de Tony Carreira, que pode invocar Picasso como caução intelectual. Dizia o criador da Guernica que "os bons artistas copiam e os grandes artistas roubam".

Nesta acepção, Carreira é indiscutivelmente um grande artista.

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O idiota virou menino

por Pedro Correia, em 13.09.17

 

Aparente plagiador e péssimo tradutor. L' Idiot (O Idiota) foi traduzido por Sonhos de Menino.

 

 

Levantamento do Blitz aqui. Jornalismo a sério.

 

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Música recente (130)

por José António Abreu, em 12.09.17

The National, álbum Sleep Well Beast.

Desde Boxer, os The National têm executado variações sobre um estilo que talvez pudesse apelidar-se de crooner-depressivo. O novo álbum não traz mudanças substanciais, mas inclui algumas mudanças de ritmo que, se não consubstanciam um regresso aos tempos de Alligator, sacodem um pouco a letargia (viciante) dos últimos anos.

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Música recente (129)

por José António Abreu, em 08.09.17

 

Matt Pond PA, álbum Still Summer.

With leaves on the floor, tell me there's more time left, canta-se em A Spark. Matt Pond sempre gostou de usar as estações do ano não apenas como suporte óbvio para a melancolia gerada pela passagem do tempo mas também como símbolos de diferentes estados de alma. A Primavera é o tema central do EP Spring Fools, de 2011, enquanto o Inverno mereceu destaque no EP Winter Songs, de 2005, e no álbum Winter Lives, do final do ano passado. O Verão já antes fora mencionado (por exemplo, no tema Summer is Coming, incluído no álbum The Nature of Maps, de 2001), mas agora é o tema central. Ou se calhar não tanto assim. Afinal, trata-se de um Verão a acabar. A música explora aquela sensação agridoce que encaixa perfeitamente no início de Setembro. Aquela luta entre o desejo de aproveitar o Sol que resta e a tristeza já instalada. Sim, ainda é Verão, mas está por dias. 

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Música recente (128)

por José António Abreu, em 05.09.17

Queens Of The Stone Age, álbum Villains.

Também aqui, as opiniões extremam-se. Quem detesta atira os adjectivos «dançável» e «acessível» em jeito de insulto. Quem gosta celebra o facto de o álbum ser diferente dos anteriores. Estou no segundo campo. Convenhamos três coisas: o hard rock tradicional está um nadinha gasto; Josh Homme é um tipo corpulento mas, no timbre de voz e na pose, sempre foi possível detectar sensibilidades pouco habituais - mas bem-vindas - no género; a capacidade de reinvenção por parte de gente com carreiras longas e plenas de sucesso é rara mas deliciosa. Villains pode até não ser o álbum mais perfeito dos QOTSA (considerando a existência de Rated R e Songs For the Deaf, só o tempo o dirá), mas é pelo menos o mais variado, arriscado e inovador.

 

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Música recente (127)

por José António Abreu, em 01.09.17

Ani DiFranco, álbum Binary.

DiFranco tem um longo historial de independência e opiniões fortes. Binary é mais suave e menos experimentalista do que alguns dos seus álbuns anteriores, mas permanece exigente e iconoclasta. Como em trabalhos de outros autores saídos recentemente, nota-se uma preocupação com a desintegração do conceito de comunidade.

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Música recente (126)

por José António Abreu, em 29.08.17

Grizzly Bear, álbum Painted Ruins.

Um álbum delicado, em torno de vulnerabilidades e desencanto, que sofre ligeiramente por acrescentar pouco aos trabalhos anteriores dos Grizzly Bear.

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Música recente (125)

por José António Abreu, em 25.08.17

Cloakroom, álbum Time Well.

A desilusão e a cólera dos norte-americanos do Midwest têm sido alvo de análises, incompreensões e ataques variados. Sem as mencionar explicitamente, o segundo álbum deste trio de Michigan City, Indiana, parece querer ajudar a explicá-las, montando paisagens sonoras onde os momentos de beleza exsudam angústia e raiva, onde a paz (há momentos em que quase se vêem as nuvens a percorrer o céu) se mistura com o medo e onde a nostalgia é - como sempre - uma prisão e um conforto.

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Música recente (124)

por José António Abreu, em 22.08.17

Tow'rs, álbum Grey Fidelity.

Um excelente balanço entre pop e folk, vindo de Flagstaff, no Arizona. 

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Música recente (123)

por José António Abreu, em 18.08.17

Dale Crover, álbum The Fickle Finger of Fate.

O baterista dos Melvins apresenta um conjunto de 20 temas - muitos dos quais apenas esboços sonoros com menos de 60 segundos - em que a faceta heavy se deixa contagiar por uma sensibilidade pop - e também por pura extravagância. Honestamente, tão depressa parece genial como absurdo. Mas - ei - ainda estamos na silly season, não é verdade?

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Quarenta anos sem Elvis Presley

por Pedro Correia, em 16.08.17

Elvis Aaron Presley morreu faz hoje 40 anos. Mas a sua música permanece bem viva. É dia para escutá-la, uma vez mais.

Aqui ficam três das canções dele de que mais gosto.

 

 

De Arthur Crudup (1946). Gravada por Elvis em 1954

 

 

 

De Carl Perkins (1955). Gravada por Elvis em 1956

 

 

 

De Howard Barnes e Don Robertson (1953). Gravada por Elvis em 1970

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Música recente (122)

por José António Abreu, em 15.08.17

Joywave, álbum Content.

Ao segundo álbum, os nova-iorquinos continuam a fazer pop/rock à base de sintetizadores, mas reforçam a componente ambiental, mantendo quase sempre uma contenção admirável. E depois há a ironia do vídeo abaixo.

 

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Música recente (121)

por José António Abreu, em 11.08.17

Randy Newman, álbum Dark Matter.

Aos setenta e três anos de idade, quarenta e nove após lançar o primeiro álbum, Newman - ultimamente mais dedicado a bandas sonoras para a Pixar e similares - relata encontros póstumos entre Sonny Boy Williamson e Aleck Miller (AKA Sonny Boy Williamson II), organiza debates entre ciência e fé, imagina os Kennedy a planear a invasão da Baía dos Porcos, pondera a razão por que foi escolhido pela mais bela mulher que alguma vez encontrou e delicia-se a satirizar Vladimir Putin.

 

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Música recente (120)

por José António Abreu, em 08.08.17

Nine Inch Nails, EPs Not The Actual Events e Add Violence.

Há temas dos Nine Inch Nails que me são perigosos. Mr. Self Destruct, abertura do seminal The Downward Spiral, invade as convoluções do meu cérebro como uma droga extraída do pólen de uma planta carnívora. Sob a sua influência, receio mutilar-me com todo o prazer ou - alerta aos guardiães do politicamente correcto - começar a destruir propriedade pública. The Perfect Drug, da banda sonora de The Lost Highway, levou-me a fazer algo que raramente faço: comprar uma banda sonora (há por lá outras coisas boas). Aos longos dos anos, a raiva depressiva de Trent Reznor apresentou flutuações. Nestes dois EPs (um lançado há meses, o outro há um par de semanas), surge razoavelmente intensa - e variada: os dez temas (cinco por EP) incluem momentos de tensão reprimida e momentos de catarse. No que me diz respeito, é capaz de ser boa ideia ir ao YouTube assistir a vídeos de gatinhos.

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Música recente (119)

por José António Abreu, em 04.08.17

Manchester Orchestra, álbum A Black Mile to the Surface.

Num registo mais intimista do que em trabalhos passados (ainda que por vezes as guitarras subam de tom), cheio de temas complexos e bem escritos (ainda que por vezes não inteiramente originais), A Black Mile to the Surface prova que os Manchester Orchestra, nascidos há 13 anos, mereciam uma audiência maior.

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Música recente (118)

por José António Abreu, em 02.08.17

Arcade Fire, álbum Everything Now. 

Ora bem. Humm... Há excelentes momentos em Everything Now. A sério. Momentos, no plural. Ainda assim... Em 2005, por alturas de Funeral, os Arcade Fire misturavam sons de forma simultaneamente exuberante e melancólica, mantendo, por entre referências ao passado, vontade de experimentar coisas novas. Já se notava pose, mas ficava submersa no caleidoscópio que a música - e a presença em palco - assegurava. Em 2017, as coisas estão um tudo-nadinha diferentes. A pose aumentou e a sonoridade fechou-se. Aqui e ali, Everything Now parece uma colaboração - bem feitinha e empenhada, sem dúvida - entre os Abba e os Bee Gees, destinada a concorrer ao Festival da Eurovisão (na versão pop-disco dos anos 70, não na versão indie-emo-nerd que tanta alegria deu aos portugueses em 2017). Se não acreditam, verifiquem o tema que dá título ao álbum (nem arranjei coragem para inserir aqui o vídeo). Ora os Abba e os Bee Gees, excelentes como eram a debitar melodias orelhudas, não estão no Top 10 das minhas bandas favoritas. Nem no Top 20. Nem no Top 100. Pelo que... Mas Everything Now tem coisas boas. Mesmo. Só não é - como Will e Régine pareciam pretender - uma crítica aos tempos actuais, de emoções formatadas e reacções instantâneas. Nem sequer uma crítica irónica. Na sua (involuntária) superficialidade, acaba a parecer celebrá-los.

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Música recente (117)

por José António Abreu, em 28.07.17

Japanese Breakfast, álbum Soft Sounds from Another Planet.

Em 2013, Michelle Zauner, vocalista da banda Little Big League, regressou a casa, no Oregon, para tratar da mãe, doente com cancro. O projecto Japanese Breakfast nasceu dos temas então compostos, mas Psychopomp, o primeiro álbum, foi apenas lançado em 2016, já após a morte da mãe. O álbum tinha uma sonoridade lo-fi e misturava ritmos e emoções, fugindo - assumidamente - a sentimentalismos excessivos. Soft Sounds from Another Planet é a evolução lógica: menos lo-fi, mais trabalho de estúdio; menos ligações a um acontecimento específico, mais projecto em fase de amadurecimento.

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Música recente (116)

por José António Abreu, em 25.07.17

Terry, álbum Remember Terry.

O segundo álbum do quarteto australiano apresenta mais uma mistura de pop, indie e psicadelismo, em modo low-fi. São canções que poderiam ser cantadas à volta de uma fogueira no meio de lugar nenhum - se à volta de uma fogueira no meio de lugar nenhum fosse fácil arranjar electricidade.

 

(Não, não percebo o vídeo. Juro que, pelo menos da minha parte, não é publicidade encapotada.)

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Música recente (115)

por José António Abreu, em 21.07.17

Haim, álbum Something to Tell You.

Há inteligência e bom gosto na música das Haim, mas confesso um problema com a maioria dos temas: gosto imenso deles durante o primeiro minuto, um pouco menos no decorrer do segundo, tenho fortes dúvidas no terceiro e já não os suporto ao quarto. A tendência das manas para repetirem refrões ad nauseum, em ritmo e/ou oitava ligeiramente diferente, terá algo a ver com o assunto. Ou então o defeito é meu.

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Música recente (114)

por José António Abreu, em 18.07.17

Waxahatchee, álbum Out in the Storm.

A norte-americana Katie Crutchfield (Waxahatchee é o nome de um rio de 35 km no Alabama) puxa a indie para o lado do rock e assina o seu trabalho mais expansivo.

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Música recente (113)

por José António Abreu, em 14.07.17

Broken Social Scene, álbum Hug of Thunder.

Há meia dúzia de anos, na Sala 2 da Casa da Música, rodeado por cerca de uma dezena de companheiros, entre os quais uma Lisa Lobsinger loura, descalça, ligeiramente imaterial (o meu cérebro já não é o que era, mas há visões indeléveis), Kevin Drew, vocalista principal e centro de gravidade dos Broken Social Scene, descobriu que as calças o apertavam. Sem hesitar, despiu-as e fez grande parte do concerto em boxers (cinzentos). Como outras bandas canadianas que enchem o palco de gente e de som - The New Pornographers, Arcade Fire dos primeiros tempos -, os Broken Social Scene são uma demonstração de harmonia nascida das diferenças - ou mesmo do caos aparente: há instantes em que a unidade da música parece ir desintegrar-se, mas tal nunca sucede. No álbum que lançaram há exactamente uma semana - o primeiro após a digressão que passou pela Casa da Música -, colaboraram 15 elementos, entre os quais Leslie Feist (yay). Hug of Thunder terá menos instantes de caos controlado do que outros trabalhos, mas, na luta contra o desânimo que sempre constituiu a coluna dorsal da sonoridade dos BSS, trata-se de um marco fundamental. Aos lamentos e protestos (em Protest Song, admite-se que We're just the latest in the longest rank and file that's ever to exist in the history of the protest song), sobrepõe-se a noção de que é necessário redireccionar os interesses das pessoas e reforçar o conceito de comunidade. Sem deprimir ou moralizar, antes incentivando e dando esperança: os maus tempos hão-de passar.

 

(Adenda: o tema que dá título ao álbum - vídeo abaixo - é desde já uma das minhas canções do ano.)

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Música recente (112)

por José António Abreu, em 11.07.17

Os Quatro e Meia, álbum Pontos nos Is.

Houve cá na casa quem os tivesse descoberto há perto de um ano; contudo, apenas no final do mês passado ficou disponível o primeiro álbum d'Os Quatro e Meia (o nome advém da circunstância, bastante digna de registo, de um elemento da formação original ser significativamente mais baixo do que os outros quatro). Este tema parece-me muito adequado ao Verão, mas receio que o vídeo cause problemas ao tal meu colega de blogue (perdoa-lhes, Diogo: eles descobriram os óculos de sol e as miúdas com peito avantajado.)

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Música recente (111)

por José António Abreu, em 07.07.17

Gragoatá, álbum Gragoatá.

Um primeiro álbum, simples e inteligente, de um trio de cariocas onde se destaca mais uma voz feminina límpida (será da pronúncia brasileira?). 

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Música recente (110)

por José António Abreu, em 04.07.17

Cigarettes After Sex, álbum Cigarettes After Sex.

A sonoridade adequar-se-á mais às noites de Inverno, e ouvir os dez temas de seguida pode revelar-se uma experiência repetitiva, mas existe muito que apreciar no primeiro álbum da banda de Greg Gonzalez, nascida em El Paso em 2008 e tornada conhecida através da Internet. Para os não fumadores (como eu), a languidez da música e imagens como kisses on the foreheads of the lovers wrapped in your arms são mais do que suficientes para apreender o espírito da coisa.

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Música recente (109)

por José António Abreu, em 30.06.17

Marika Hackman, álbum I'm Not Your Man

Ao segundo álbum, Hackman mostra-se mais aberta e confiante. As letras contêm ironia, por vezes feroz, e a sonoridade aproxima-se do grunge, fazendo-me pensar num cruzamento entre as L7 e os Radiohead por alturas de My Iron Lung.

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Música recente (108)

por José António Abreu, em 27.06.17

Algiers, álbum The Underside of Power.

As fronteiras da distopia, em época de extremismos e paranóia.

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