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Prenda de Natal

por jpt, em 12.12.17

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Estamos já na época das prendas. Aqui fica uma sugestão: tem(ns) um parente/amigo que é algo dado à leitura? Dê(á)-lhe o "Almas Mortas" de Gógol. É uma delícia. E uma obra-prima. Características que nem sempre vão juntas, que há obras-primas que se vivem com labor. Mas esta nada disso. E isso é importante nestas coisas das ofertas. Entenda-se, o tal parente/amigo a ofertar não precisa de ser um "grande leitor". Pois a prosa é fabulosa, o texto jovial, e um ir até ao osso da "sociedade russa de XIX" (entenda-se, da humanidade). Um tipo (re)lê exaltado de prazer. E um (quase) constante sorriso na cara, que é o da felicidade na leitura.

A tradução é de Nina e Filipe Guerra (ele um ex-bloguista e também facebuquista). E esta leva de livros é uma reedição (ou reimpressão, nunca sei como definir). O preço em livraria é de 20 euros (o que para a maioria de nós implica que o ofertado tem que ser bastante próximo). Mas o texto vale mais do que qualquer garrafa de uísque ou aguardente ou pacote de chocolate ou perfume, garanto. Comprado na internet vai a 15 euros - e sobrarão os 5 euros para as azevias.

Nota: atenção aos mais relapsos à poesia. Se o título na capa diz "Poema" o texto é em prosa, que isso não vos afaste da compra/leitura. (Eu, vil censor, informei as senhoras livreiras da Bertrand que talvez fosse melhor, comercialmente falando, tirar o livro da estante "Poesia" e deixá-lo no de "Literatura Estrangeira" - não vou comentar sobre estas etiquetas. O que elas se aprestaram a fazer. Não estou certo de que o escritor aplaudisse o acto. Mas espero que o editor tenha apreciado. Ou, pelo menos, o seu contabilista).

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Ponta Gea

por jpt, em 03.11.17

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(lendo o "Ponta Gea" na Ilha de Moçambique)

 

João Paulo Borges Coelho, Ponta Gea, Caminho, 2017

 

Tornámos a vida num bazar de opiniões, frenético, feito do tropel dos nossos egos, tonitruantes, como se nós, assim gritados, algo fossemos verdadeiramente. Nisso se vão esgarçando os adjectivos, nesta nossa escalada de superlativos, sinónimos ou antónimos, que nos valham para sermos ouvidos, numa dança vã do exigir atenção, um patético xigubo de vaidades, digo-o já que em Moçambique.

Veio-me isto a propósito deste “Ponta Gea”, de João Paulo Borges Coelho, o seu 12º livro em registo ficcional, seu percurso começado em 2003 com o, para mim, deslumbrante “As Duas Sombras do Rio”. O qual fora antecedido pelas três bandas desenhadas publicadas na década de 1980. Pois agora, diante deste último livro, ficou-me a dúvida, esta de como o definir, adjectivar? Pois é óptimo e, de facto, opinião mais sonora é impossível, e este termo deveria ser o suficiente para convocar a atenção. E, como tal, assim fico: “Ponta Gea” é um livro óptimo.

O formato do livro é o de memórias, entre o rapazinho virgem de mangal que nele se aventura, descobrindo-o e a si próprio, e o finalista liceal, aprestando-se a partir para sempre daquele local que lhe foi infância e que lhe virá a ser o país estrangeiro e para sempre inatingível, esse que sempre é o passado.

Ponta Gea é um “bairro”, até mítico, da Beira colonial, e é do ambiente dessa cidade que emanam os quinze episódios, entrelaçados entre eles e com tantos outros que neles se invocam, do que consiste o livro. Neles ressurge a Beira – e um pouco do meridiano entre Sofala e Manica, até aquela Gondola – do ocaso colonial, entre 50s e o início de 70s, mas sem grama do tão recorrente saudosismo ou exotismo que polui a Africana, essa espécie “literária” muito em voga. O que “Ponta Gea” traz é uma Beira cosmopolita, coito de misteriosas personagens, uma vasta galeria de dançarinas eróticas e artistas circenses transoceânicos, pugilistas advindos do longínquo hinterland, prostitutas sem rumo, mágicos e sábios de vão de escada, assassinos e dementes, ladrões célebres e aristocratas ou seus avatares asiáticos. O que nele se desvenda é ter sido aquela Beira centro e cerne de enigmas até insondáveis, dos anónimos falecimentos no mangal às causas do assassinato do primeiro-ministro sul-africano, culminando na eterna questão do navio “Angoche”, abandonado no alto mar por uma tripulação para sempre desaparecida, do canal de Moçambique fazendo vedadeiro “triângulo das Bermudas”.

A escrita-ritmo do João Paulo Borges Coelho é aqui gloriosa: e se é deslumbrante o como narra a descoberta infantil do mangal é até comovente a página e meia dedicada à aprendizagem da degustação de sadza (xima, uchua, como se preferir), a massa de milho, com camarão frito, lição de mundo e disso do ser homem, não só mas também muito através do palato e da aceitação do protocolo alheio. Assim lição de cultura, acto de formação, no nada simples molhar os dedos na massa, misturando-a, de modo até voraz, com o camarãozinho.

Os ramos deste “Ponta Gea” são muitos, e mostram diálogos. Lendo-o é impossível não lembrar Sebald, e não só pelo meneio desta “assemblage” literária d’agora, na utilização de imagens alusivas – algo que jpbc já havia feito, mas restrito a imagens escritas, no seu “O Olho de Hertzog”. Mas não é só isso que nos avisa do tempero sebaldista. Pois a este notamo-lo naquilo que é já usual no autor, e que, de facto, lhe foi sempre projecto, a híbrida mistura das memórias próprias, da memória social do país, da vontade ficcional, da historiografia – de que é ele próprio profissional -, da autobiografia. É esta mescla, entre ficção até onírica e “memórias”, cerzindo os factos com a ficção, que aqui surge acima do que já havia feito nos livros anteriores. E é assim que o autor prossegue o que sempre persegue, aquilo do inventar a História que realmente foi, que aprendemos a cultivar com Borges.

Mas estas histórias vistas pelo rapazinho, ágil, sonhador curioso, até atrevido, cruzando as misteriosas vielas beirenses, atento aos seus esconsos habitantes, e até deles inquiridor, aparecem como um “romance de formação”, qual primeira parte do grande bildungsroman que talvez o autor nunca venha a completar. Pois tarefa porventura demasiado dolorosa, na apneia moral que exigiria, no desinteresse que a exagerada vizinhança, não coada pelo passar das décadas, implicará. O que não é defeito, nem em nada apouca este “Ponta Gea”. Pois, bem lá no fundo, o que ele mostra é um Tom Sawyer renascido (um Tom Sawyer, não um Huck Finn), encantado, cuja prodigiosa imaginação disseca o que aconteceu e o estabelece como foi, tal e qual.

Repito-me, “Ponta Gea” é um livro óptimo. Desde há muito que me surpreende como é que João Paulo Borges Coelho não é um escritor muito mais lido, cá em Moçambique e em Portugal, onde também é publicado. Durante anos lamentei-o. Já não. Egoísta até me apraz que não sejamos muitos os que lhe amamos os livros. Pois assim percorremos a “Beira”, suas vielas, arrabaldes e até avenidas e, cuidadosos, trocamos entre nós, só entre nós, seus leitores apaixonados, os nossos sinais de iniciados. E os outros, ileitores, seguem no seu mundo. Algo mais pobres do que nós … E tão mais sós.

 

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A epifania

por João Campos, em 27.09.17

No Público, a propósito da muito oportuna reedição de The Dispossessed de Ursula K. Le Guin pela Saída de Emergência (com o título Os Despojados), escreve o crítico Luís Miguel Queirós:

Ao contrário da ficção policial, onde para cada Raymond Chandler se arranjam com facilidade três ou quatro Agatha Christie, Margaret Millar ou Patricia Highsmith, a ficção científica é ainda hoje, em boa medida, um mundo de homens. No alto firmamento dos Ray Bradbury, Stanislaw Lem ou Philip K. Dick, uma só autora brilha praticamente isolada: Ursula K. le Guin. E tal como os melhores do género, talvez de qualquer género, os seus livros não são verdadeiramente catalogáveis e podem ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica. O que vale também para a sua incursão na chamada ficção fantástica, a pentalogia de Terramar, que se recomenda sem reservas a leitores que já não conseguem suportar nenhum dos incontáveis descendentes de J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin (bastante) incluído. 

 

Só neste primeiro parágrafo teríamos pano para muitas mangas. Poderíamos, se quiséssemos, falar do desconhecimento que o crítico demonstra quando à ficção científica contemporânea (os três autores citados já morreram, e, polémicas à parte, uma leitura na diagonal dos títulos nomeados aos prémios Hugo e Nébula dos últimos seis ou sete anos seria talvez esclarecedora quanto a questões sobre o género de quem escreve o género). Ou mesmo da sua ignorância quanto à ficção científica dita "clássica" - Le Guin será um dos maiores vultos do género, sem dúvida, mas nunca terá ouvido falar de Alice Sheldon (mais conhecida por James Tiptree Jr.), de C.J. Cherryh, ou de Octavia Butler? Ou até, caso nos quiséssemos aventurar noutros territórios, demonstrar como a "chamada ficção fantástica" [sic] não se resume a Tolkien e aos seus discípulos, e de caminho recomendar, sei lá, Neil Gaiman ou Terry Pratchett. Enfim, o tempo é escasso, pelo que me vou ficar pela frase que destaquei a negrito.

 

Imagino que quando o crítico literário médio se vê obrigado a ler um bom livro de ficção científica, seja um texto contemporâneo ou a reedição de um clássico, a epifania seja inevitável: afinal, isto não tem nada que ver com Star Wars ou Star Trek ou aquelas merdas comerciais e vagamente infantis de que os nerds parecem gostar! Afinal há aqui um questionar da natureza da realidade, uma exploração das questões de género, um olhar crítico ao sistema capitalista / comunista / anarquista! E, logo de seguida, chega o orgasmo, o clímax do pretensiosismo: afinal, aquele outro livro desta senhora até vem n' O Cânone Ocidental do Harold Bloom! Como é evidente, ao crítico literário médio nunca irá ocorrer que talvez as suas premissas estivessem erradas, e que talvez a ficção científica enquanto género literário não se resuma apenas às talking squids in outer space com que Margaret Atwood enfureceu meio mundo há trinta anos, Ursula K. Le Guin incluída, a propósito de The Handmaid's Tale (excelente, já agora) ter ganho o prémio Arthur C. Clarke. Nada disso. Se a realidade não se ajusta aos preconceitos, é mais fácil negar a realidade e manter os preconceitos (uma atitude muito em voga, admita-se). Dito de outra forma: se aqueles livros são bons, então não podem ser ficção científica - serão "fábulas", talvez, porventura "parábolas", quiçá "metáforas" (as definições não são muito criativas). Ou então até são ficção científica, sim, mas são tão bons que "transcendem o género". Ou, como diz o crítico, "não são catalogáveis", podendo até - pasme-se! - "ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica". É de ir às lágrimas ou ao vómito, conforme a disposição.

 

A crítica acaba por ser positiva - spoiler alert, o livro levou "quatro estrelas" -, mas em 2017 já não há paciência para o snobismo literário para com a ficção dita "de género" (já escrevi longamente sobre o tema aqui). No cinema, pelo menos, alguns críticos já perceberam (não todos, mas o caminho faz-se caminhando) e são capazes de apreciar um filme de ficção científica sem vergonha e sem necessidade de recorrer à referência highbrow, aos clichés corriqueiros e às desculpas esfarrapadas. Mas na crítica literária publicada pelos vistos ainda há um longo caminho a percorrer. O que não surpreenderá quando reparamos que esses críticos parecem ter parado no tempo em 1994. Ou, se as referências que Luís Miguel Queirós tem da ficção científica literária servem de exemplo, algures entre as décadas de 50 e 60. Alguém se compadeça e lhes envie um DeLorean. 

 

(Aos leitores, recomendo  pouco a crítica e muito The Dispossessed. É um livro notável.)

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Editor português, precisa-se

por Inês Pedrosa, em 22.05.17

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«Sejamos reaccionários ou progressistas, voltados nostalgicamente para o passado ou resolutamente para o futuro, todos somos modernos, porque reivindicamos e exercemos a liberdade de amar quem quisermos, como quisermos e durante quanto tempo quisermos.  
Somos, por outras palavras, senhores dos compromissos que assumimos. Esta soberania preenche-nos, mas também nos confronta, sem evasão possível, com as questões que atormentavam a Princesa de Clèves : basta que amemos para sabermos amar?  O amor será em si mesmo amável, digno de estima e de confiança? 
Podemos tratar destas questões através da estatística e das ciências sociais.Sem subestimar a utilidade dessas aproximações, escolhi uma outra: a literatura. Madame de La Fayette, Ingmar Bergman, Philip Roth e Milan Kundera foram os meus guias.»
Alain Finkielkraut.

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A literatura que vai à cozinha

por Pedro Correia, em 18.05.17

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 O arroz de favas com galinha corada descrito por Eça no romance A Cidade e as Serras

(foto: blogue Outras Comidas)

 

1

Come-se pouco e mal na literatura portuguesa. E bebe-se ainda pior.

Percorremos centenas e centenas de páginas escritas pelos nossos mais reputados escritores sem deparar com um almocinho homérico ou um jantarinho opíparo. Falta vibração latina aos literatos lusos na hora de comer.

Por motivos que não vêm ao caso, tenho percorrido nas últimas semanas largas dezenas de obras de ficção de autores nacionais sem deparar com uma só refeição memorável. Tirando as excepções da praxe, Eça e Camilo sobretudo, dir-se-ia que os nossos romancistas fizeram votos perpétuos de castidade gastronómica.

Pessoa, Torga, Miguéis, Ferreira de Castro, Vergílio Ferreira, Régio, Sophia, Namora, Ruben A, Sena, Sttau Monteiro, Abelaira, Urbano, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Santareno, Nuno Bragança: obra após obra, capítulo após capítulo, página após página sem um repasto digno de nota.

O mesmo para Saramago ou Lobo Antunes. De Aquilino, retive sobretudo as trutas – o que me parece coisa pouca.

Já nem menciono os neo-realistas puros e duros - um Redol, um Soeiro, um Manuel da Fonseca – para quem a frugalidade era uma bandeira e qualquer comezaina soava a pecado mortal no Portugal salazarista.

 

2

Desde quando a gula ficou arredada das letras pátrias?

Não era assim na época e na arte de Camilo, que nos legou inesquecíveis parágrafos de volúpia refeiçoeira – como bem documentou José Viale Moutinho na sua obra Camilo Castelo Branco e o Garfo (Âncora Editora, 2013). Ou nas incontáveis incursões de Eça pelos prazeres da boa mesa, culminando na ascensão de Jacinto a Tormes, onde comeu o melhor arroz de favas da sua vida.

 

3

Gostava que a literatura portuguesa se reconciliasse com a gastronomia, seguindo o excelente exemplo desses nossos maiores.

Gostava que nos legasse manjares perpétuos, como a magnífica paelha real invocada por Manuel Vázquez Montalbán no seu romance Os Pássaros do Sul (Los Mares del Sur, 1979) – “a do país autêntico, a que se fazia antes de ter sido corrompida pelos pescadores ao afogarem peixe em refogado”. Com os ingredientes descritos assim: “Meio quilo de arroz, meio coelho, meio frango, um quarto de quilo de bajocons [variedade de feijão verde catalão], dois pimentos, dois tomates, salsa, alhos, açafrão, sal e nada mais. Tudo o resto são estrangeirismos.” Ou as superlativas beringelas gratinadas com gambas e presunto, descritas com minúcia na mesma obra. Tudo regado talvez com um Albariño Fefiñanes, “uma das melhores coisas que nos chegaram através da estrada de Santiago”.

 

4

Gostava que a arte culinária deixasse de ser encarada como um pecado social pelos nossos escritores que cultivam uma prosa ensimesmada e meditabunda, sem vestígios de risos ou alegria. A ditadura passou há muito, mas legou-nos uma atmosfera de clausura que tarda em dissipar-se - como a nossa ficção literária bem demonstra.

Apetece-me pedir aos romancistas: deixem as vossas personagens comer e beber e gargalhar à vontade. Façam como Montalbán. Ou como Rex Stout, um dos mestres maiores da literatura que nunca se fica pela sala ou pelo quarto: entra sempre na cozinha.

"Quando terminámos o sumo das amêijoas, Fritz apareceu com a primeira dose de pastelinhos, quatro para cada um. Um dia gostaria de saber durante quanto tempo conseguiria comer os pastelinhos de Fritz, feitos com tutano de vaca picado, pão ralado, salsa (cebolinho, hoje), casca de limão ralada, sal e ovos, escalfados durante quatro minutos em caldo de carne forte. Se ele os escalfasse todos ao mesmo tempo, ficariam moles depois dos primeiros oito ou dez, mas ele só faz oito de cada vez, e continuam sempre a chegar."

Deliciosas linhas contidas no romance Clientes a Mais (Too Many Clients, 1960). De ler e chorar por mais.

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Na morte de B.B.

por Inês Pedrosa, em 11.05.17

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Baptista-Bastos foi um escritor bem bom. Escrita sensorial, a dele - com cheiro, cor, corpo, ritmo. Fulminante na ironia, felino na narração das contradições do tempo e das pessoas, dono um vocabulário preciso, imaginativo e riquíssimo. Quem quiser saber como era o Portugal urbano e pseudo-intelectual amansado pela ditadura tem de passar pelos seus romances. Pareceu-me sempre muito subestimado enquanto romancista, creio que por ser jornalista. Havia (e há ainda, mas não posso dizê-lo porque lá virão umas doutas almas dizer que sou parte interessada) na intelligentzia local um entendimento geral segundo o qual médicos ou professores dão bons romancistas: jornalistas, nunca: sapateiros a quererem ir além da chinela. Esse entendimento era (e é) acirrado pelos próprios camaradas jornalistas, que odeiam os camaradas que escrevem livros, pelo menos enquanto eles próprios não os escreverem também. Reli há meses O Secreto Adeus e Elegia para Um Caixão Vazio e confirmei: resistem ao tempo, à releitura. Lêem-se de um trago, fazem-nos sorrir, pensar. E amar melhor Lisboa, apesar de todas as suas mazelas, ou precisamente por causa delas. B.B. pintava a cidade com engenho e arte.   

"O adjectivo é a prosa a tomar partido", disse-me o BB, era eu uma miúda recém-chegada aos jornais. BB era gentil com a miudagem, e sem paternalismos. A união destas duas características, na época, era rara nos jornais. O Fernando Assis Pacheco e o Fernando Dacosta faziam questão de ser assim: poucos mais. À distância percebe-se como o ser e o escrever afinal se entrelaçam: os atentos, os sensíveis, os disponíveis, os ternos, os cáusticos, os autênticos, eram também os de melhor texto. "Não tenhas medo do adjectivo: o adjectivo é a prosa a tomar partido", repetia, então, o B.B. Respirei fundo, cheia de alegria: passava a vida a ouvir discursos contra os adjectivos proferidos por poderosos jornalistas que tinham chegado aos cabeçalhos da imprensa com um mini-vocabulário de Cartilha Maternal de João de Deus, em versão pornográfica.

B.B. tomava partido: essa era uma das coisas que eu apreciava nele, concordasse ou não (muitas vezes não) com os partidos que ele tomava. Nunca sofreu da famosa má-língua nacional, indústria caseira produzida em barracas clandestinas, mais rápida a estragar fígados do que a produção vinícola. Não praticava aquela cortesia tão portuguesa de esperar que uma pessoa vire costas para começar a falar mal dela. Pegava-se de caras. Amava e odiava sem hipocrisias. Sabia que nada estraga tanto a escrita como a hipocrisia e a videirice. 

B.B. continuará vivo enquanto for lido. Da minha vida não desaparecerá. 

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A geração esquecida

por Inês Pedrosa, em 08.05.17

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Acabo de ler O Pianista de Hotel, novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, que andava desaparecido do mundo da ficção há dez anos. Fico contente com este regresso, e ainda mais contente porque se trata de um bom romance. Procuro acompanhar o que se vai publicando em língua portuguesa; creio que ninguém pode ser um honesto artífice de uma determinada literatura (pelo menos isso) sem a conhecer bem, no seu passado e no seu presente. Espanta-me a quantidade de escritores contemporâneos que nunca leram Raul Brandão nem Machado de Assis, e choca-me que se possa despachar o génio de Agustina Bessa-Luís com o disparate "é uma chata", sem que um raio caia em cima de quem profere tal aleivosia ( mais uma prova de que não existem milagres, e que a justiça divina é tão ronceira como a terrena).

Entre os meus contemporâneos, confesso que corro a ler com particular interesse e carinho os livros dos meus companheiros de geração, isto é: os escritores do meu país que começaram a publicar na segunda metade da década de oitenta ou no início da década de noventa do século passado. O Rodrigo publicou o primeiro romance exactamente há 25 anos, como eu. Nesse ano de 1992, estrearam-se também José Riço Direitinho ( com A Casa do Fim) e Pedro Paixão ( com A Noiva Judia). Esta geração literária que surgiu imediatamente a seguir - e na contramão - da geração do pós-25 de Abril (a chamada geração da guerra-colonial: António Lobo Antunes, Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, etc), teve em Adeus, Princesa ( Clara Pinto Correia, 1985) e Hotel Lusitano (Rui Zink, 1987) os seus dois pilares inaugurais - dois magníficos romances sobre uma nova era, a era da globalização, feita de novos desafios, esperanças e desesperos e, acima de tudo, novas linguagens. Os leitores perceberam e amaram estes dois romances muito mais depressa e melhor do que a crítica - e isso mesmo foi acontecendo a todos os outros escritores portugueses desta geração, que inclui, além dos já mencionados, Ana Teresa Pereira, Francisco José Viegas e Rita Ferro, por exemplo.  

O novo milénio veio revelar uma novíssima geração de múltiplas e variadas vozes, que teve a sorte de aparecer num tempo em que a juventude é, por si só, considerada uma forma de talento ( é ver a quantidade de prémios destinados a escritores jovens). No tempo em que éramos jovens, nós, os tais da geração-sanduíche entre os heróis da guerra colonial e as estrelas da pós-globalização, o melhor que podia acontecer-nos era ninguém nos ligar. Quando nos ligavam, raramente era por bem - nunca esquecerei, por exemplo, a violência personalizada e agigantada com que, no Expresso, foi espancado o segundo romance de Clara Pinto Correia, Ponto Pé-de-Flor. Suponho que pretenderam castigá-la pelo sucesso que Adeus, Princesa alcançara junto dos leitores -prémios, teve zero; esta geração tem sido aliás pouquíssimo premiada, por comparação com as imediatamente anteriores e posteriores.Certo é que a editora francesa Gallimard desistiu do contrato de publicação que tinha proposto a Clara Pinto Correia por causa da extrema brutalidade dessa crítica, alegando que não podia apostar num autor estrangeiro cujo segundo livro desmentia a promessa do primeiro. A Gallimard acreditou na "ciência" da crítica; não sabe que este pequeno país é uma lâmina de microscópio onde todos se conhecem e interferem directamente na vida alheia, todos se amam ou se odeiam.

A geração literária dos que eram demasiado crianças para poderem ter sido heróis de Abril e parecem agora demasiado velhos para serem adorados como oráculos do futuro tem vivido à margem do reconhecimento oficial. O que, na minha opinião, só a favorece. Sim, há grandes e belas vozes nesta minha geração. 

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Robert B. Silvers

por Diogo Noivo, em 31.03.17

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Uma greve, trabalho voluntário e um parágrafo. Eis a génese da New York Review of Books. O parágrafo, intitulado "To the Reader", é notável pois mostra que não foi preciso escrever muito para definir as baias de uma das publicações literárias e políticas mais relevantes de sempre. O âmago do pequeno texto, publicado a 1 de Fevereiro de 1963, vive em duas frases: "This issue of The New York Review of Books does not pretend to cover all the books of the season or even all the important ones. Neither time nor space, however, have been spent on books which are trivial in their intentions or venal in their effects, except occasionally to reduce a temporarily inflated reputation or to call attention to a fraud". Simples, despretensioso, e apostado no escrutínio de um mundo onde as vaidades e os nepotismos sempre encontraram solo fértil.
Submetida ao impiedoso teste do tempo, a NYRB modernizou-se sem perder o rigor, o espírito crítico e os critérios nos quais se fundou. O mérito é produto de um trabalho conjunto, mas o timoneiro tem nome: Robert B. Silvers. Editor da publicação desde o momento em que foi criada, Silvers mostrou, como escreve Luis Gago no Babélia, que é possível exercer uma influência indelével em várias gerações de leitores sem escrever ou editar livros. A aversão a entrevistas e a aparições em eventos públicos deveu-se a um entendimento zeloso da missão de editor. “The editor is a middleman. The one thing he should avoid is taking credit. It’s the writer that counts”, disse numa das raríssimas entrevistas que concedeu e que o New York Times citou recentemente.
Para Silvers, a NYRB foi, entre outras coisas, um instrumento para espantar as matilhas unipensantes que vagueiam pelo milieu cultural e político, sem nunca se preocupar em demasia com a reacção dos leitores. Aliás, compaginar a adaptação aos tempos que chegam com o respeito pelos princípios fundadores da publicação é, sem dúvida, uma das características mais louváveis, porque é rara, do lendário editor da NYRB. Outra merecedora de destaque, porque também invulgar, foi a constante preocupação de ter textos legíveis, acessíveis a qualquer leitor, embora nunca permitindo que o trabalho de edição ofusque a complexidade dos temas abordados.
Robert B. Silvers morreu no passado dia 20 de Março. Daniel Mendelsohn refere que Silvers trabalhou até ao fim, com a bonomia e a erudição intactas, ainda que a energia já fosse faltando. “I admire great writers, people with marvelous and beautiful minds, and always hope they will do something special and revealing", disse Silvers. O que ele admirava nos outros fez da NYRB aquilo que é.

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Do princípio ao fim (29)

por José António Abreu, em 05.12.16

(O Pedro Correia encerrou oficialmente esta série há pouco mais de uma semana. Não desejo reabri-la, mas não tive coragem para apagar este texto, alinhavado em meados de Novembro.)

 

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Saio dos melhores livros de Virginia Woolf com uma sensação de plenitude. Não recordo uma história, mas sei que o livro fez sentido. Cada frase, cada parágrafo, contribuiu para uma imagem global – e, neste caso, o termo «imagem» não é aleatório – que nenhuma sinopse tem o poder de encapsular. As melhores páginas de Virginia Woolf têm a lógica de uma melodia ou - cá vamos novamente - de uma pintura. Isto não acontece por acaso: Woolf deixou apontamentos que mostram a intencionalidade do efeito. Em The Waves (um livro difícil), a estrutura esforça-se por replicar os padrões do pensamento humano. Em Mrs. Dalloway e, acima de tudo, em To the Lighthouse (Rumo ao Farol), a intenção é mesmo replicar o efeito de uma pintura, na qual os detalhes podem revelar génio bastante para que se pare a analisá-los, mas onde acima de tudo interessa a sensação geral, frequentemente obtida aumentando a distância em relação à tela, num efeito similar a tantos acontecimentos na vida humana. A intenção é tão explícita que Lucie Briscoe, uma das personagens, vai realmente pintando um quadro enquanto observa o que se passa. No parágrafo final, termina-o. Encontrou uma imagem que, podendo não ter interesse nem fazer sentido para qualquer outra pessoa (ou até mesmo para ela, noutro instante), podendo transmitir uma mensagem difícil de aceitar (a da inutilidade da vida, por exemplo), fecha algo; permite um momento de compreensão. E não apenas todos os bons finais são momentos de compreensão como momentos de compreensão são tudo o que se pode desejar de uma pintura, de um livro, da vida.

 

Quickly, as if she were recalled by something over there, she turned to her canvas. There it was - her picture. Yes, with all its greens and blues, its lines running up and across, its attempt at something. It would be hung in the attics, she thought; it would be destroyed. But what did that matter?, she asked herself, taking up her brush again. She looked at the steps; they were empty; she looked at her canvas; it was blurred. With a sudden intensity, as if she saw clear for a second, she draw a line there, in the centre. It was done; it was finished. Yes, she thought, laying down her brush in extreme fatigue, I have had my vision.

(Lamento, mas não tenho uma versão em português.)

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Eduardo Mendoza

Não queria incomodar nem tem feitio para isso. Só queria escrever uma boa história. Escreveu e fez de Los soldados de Cataluña o seu primeiro livro. Para início de conversa, não esteve nada mal. Começou por incomodar a censura franquista, que lhe impôs uma mudança de título – La verdad sobre el caso Savolta, na versão que chegou aos escaparates e que o celebrizou enquanto escritor. Mas, mais importante, esta boa história inaugurou uma nova etapa na literatura espanhola, sendo consensualmente descrita como a primeira novela da Espanha pós-franquista. Em 1975, aos trinta e poucos anos, Eduardo Mendoza consegue com o seu primeiro livro aborrecer o regime – que descreveu o texto como “estúpido e confuso, escrito sem pés nem cabeça” – e provocar uma ruptura no estilo literário espanhol. Tudo isto para quem apenas queria contar uma boa história.
Os anos sucederam-se e os livros também. A ironia fina e certeira, a sobriedade, e a erudição expressa em linguagem simples tornaram-se a marca distintiva da identidade literária de Eduardo Mendoza. Poucas vezes participou em discussões candentes – a reprodução no El País de um discurso sobre a independência da Catalunha é uma das raras e admiráveis excepções. Ao contrário de outros escritores espanhóis, omnipresentes e ferozes no debate político, Mendoza não quis reclamar o estatuto de intelectual público. O que interessa são as histórias e os livros.
Em 2015, quando se assinalaram os 40 anos de La verdad sobre el caso Savolta, a imprensa espanhola dedicou muitas e boas linhas à revisitação de um livro que, segundo o escritor Javier Marías, é um “marco, uma revelação, um grande êxito, uma novidade distinta, e por isso se diz que, na literatura, marcou o início da democracia e a defunção do Franquismo”. Para António Muñoz Molina, “Mendoza não escrevia para submeter a exame as faculdades intelectuais do leitor, nem para lhe mostrar os seus conhecimentos sobre o nouveu roman francês, ou o monólogo interior ou as obscuridades mais difíceis de William Faulkner; não escrevia para doutrinar politicamente o leitor, nem para jactar-se das suas audácias sintácticas e sexuais. Mendonza, como Marsé, embora com recursos muito diferentes, procura a forma de contar, com a maior eficácia possível, uma história que é muito importante para ele, tão importante que decidiu dedicar-lhe um livro longo e complexo que talvez não chegasse a ser publicado”.

 

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A obra criou uma ruptura e o autor também. Para Muñoz Molina, Eduardo Mendoza é imune à “arrogância despectiva”, à “postura jactante”, à “desqualificação frívola daquilo de que não se gosta”, vícios predominantes na cultura intelectual espanhola da época, inclusive da anti-franquista. Não é hagiografia. Tive oportunidade de conhecer Eduardo Mendoza na última feira do livro de Madrid. Quando soube desta oportunidade, hesitei. Conhecer pessoalmente alguém que admiramos pode facilmente dar azo a uma decepção descomunal. E, por outro lado, o homem mudou o romance espanhol e eu nunca mudei nada digno de registo. Hesitei, mas lá fui. E ainda bem, porque o gigante é de uma simpatia distendida e desarmante. Falámos dos livros dele, claro. Embora, curiosamente, Mendoza tenha falado deles como entidades independentes, com vida própria, nunca usando o pronome possessivo “meus”. As histórias têm que valer por si. Com alguma vergonha, disse-lhe que comecei a lê-lo pelos livros mais recentes, nomeadamente pela série do detective anónimo, razão pela qual ainda não tinha acabado o Caso Savolta, que aliás levava debaixo do braço. Eduardo Mendoza pede-me o exemplar e na dedicatória da praxe (que muito agradeço e estimo) não refere importância literária ou pessoal do livro, ou mesmo que se trata de um livro. É tão simplesmente uma velha história. Juan Cruz tem razão quando escreve que Eduardo Mendoza é um cavalheiro que não alardeia os seus triunfos nem as suas feridas.
Na semana passada, Eduardo Mendoza foi galardoado com o Prémio Cervantes, habitualmente descrito como o Nobel da Literatura para as letras em espanhol. Tenho quase a certeza que, ao receber o prémio, não dirá que é dele ou dos seus livros, mas sim das histórias que pôde contar.

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Do princípio ao fim (28)

por José António Abreu, em 04.11.16

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Samuel Spade's jaw was long and boney, his chin a jutting v under the more flexible v of his mouth. His nostrils curved back to make another, smaller, v. His yellow-gray eyes were horizontal. The v motif was picked up again by thickish brows rising outward from twin creases above a hooked nose, and his pale brown hair grew down - from high flat temples - in a point of his forehead. He looked rather pleasantly like a blond satan.

 

A tradução (de Baptista de Carvalho, para o nº 34 da colecção Vampiro original) é fraquinha:

O rosto de Samuel Spade era longo e ossudo e o seu queixo formava um pronunciado V, sob o V mais suave da boca. As narinas abriam-se, também sob a forma de um V mais pequeno. Os seus olhos verde-claros rasgavam-se horizontalmente, em forma de amêndoa. Sobranceiras a um nariz aquilino, viam-se duas rugas paralelas donde emergiam espessas sobrancelhas cuja configuração era, uma vez mais, a de um V bem vincado, caprichosamente invertido. O cabelo castanho-claro tinha como fronteira uma testa alta e despida de rugas sobre a qual avançara, como um istmo original, uma porção de cabelo que formava, assim, no centro, um «bico de viúva». À primeira vista, Spade tinha o aspecto agradável de um demónio saxão. Naquele momento, inquiria de Effie Perine:

- Que se passa, meu amor?

 

Na primeira vez que li O Falcão de Malta, de Dashiell Hammett, o início não me chamou a atenção. Poucos adolescentes gostam de descrições, excepto se forem de partes anatómicas mais sugestivas do que a face das personagens. Lembro-me, porém, de ficar fascinado - e horrorizado - com a frieza de Sam Spade, o detective privado no centro do enredo. James Ellroy, que muitos consideram herdeiro de Hammett - começando talvez pelo próprio, pouco dado a demonstrações de modéstia -, afirmou numa entrevista à The Paris Review preferir Hammett a Chandler por este ter escrito do ponto de vista do homem que gostaria de ser enquanto Hammett escrevera do ponto de vista do homem que temia ser(*). Eu admito que Chandler era globalmente melhor escritor do que Hammett mas, ainda assim, compreendo Ellroy. E, pegando novamente há uns anos n'O Falcão de Malta, descobri com surpresa que o jogo estava claro desde o primeiro parágrafo. Sam Spade é o diabo. Ou, vá, um diabo. Uma versão refinada do Continental Op dos livros anteriores, no sentido em que é fisicamente atraente, como qualquer verdadeiro diabo terá de ser (representá-lo com formas grotescas não passa de um truque para tornar mais fácil resistir-lhe). Nenhum humano normal, passível de compromissos, distracções, hesitações, ingenuidades e emoções, chega a ter qualquer hipótese de enganar Spade. A mulher fatal, que Hammett praticamente inventara em Red Harvest e que, pelo menos ao nível psicológico, desgraça o detective em tantos outros livros e filmes, está condenada desde o início(**). No momento-chave, Spade é-lhe imune e, pouco depois, parece já nem se lembrar da sua existência. Não é impossível que as garantias de amor dela fossem verdadeiras. Mas é irrelevante. Ao contrário de Philip Marlowe, o alter ego de Chandler, Spade não é homem para permitir-se actos sentimentais. Não é homem para arriscar o pescoço sem que exista algo tangível a ganhar. Para Spade, o amor seria sempre - e apenas - um benefício colateral.

 

P.S.: O carácter pouco heróico de Sam Spade está bem presente na adaptação cinematográfica de 1941, realizada por John Huston, com Humphrey Bogart no papel principal. De resto, Huston poucas vezes mostrou heróis tradicionais nos seus filmes e o próprio Bogart - em 1941, ainda longe do nível de estrelato que viria a atingir - desempenhou frequentemente personagens antipáticas (recorde-se outra colaboração com Huston: O Tesouro de Sierra Madre). Se alguém vir um herói no Spade do filme, tal dever-se-á provavelmente ao charme que o cinismo possui e ao peso que, não obstante a carreira variada, o nome Bogart adquiriu.

 

Aviso: o texto da edição actual, cuja capa se reproduz acima, está em «acordês».

_______ 

(*) Chandler wrote the kind of guy that he wanted to be, Hammett wrote the kind of guy that he was afraid he was. Chandler’s books are incoherent. Hammett’s are coherent. Chandler is all about the wisecracks, the similes, the constant satire, the construction of the knight. Hammett writes about the all-male world of mendacity and greed. The Paris Review, nº 201.

 

(**) Segundo algumas opiniões, o destino da mulher fatal é precisamente ser punida pelo herói, que castigaria assim o uso de comportamentos pouco consentâneos com o tradicional papel feminino. Pode haver nesta interpretação algum fundo de verdade (um dos receios - mas também uma das fontes de excitação - dos homens sempre foi a possibilidade de as mulheres usarem o sexo como elemento manipulador) mas a generalização - e a inerente acusação de misoginia - parece-me um pouco abusiva.

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Erros meus, má fortuna

por Pedro Correia, em 27.10.16

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Anda muita indignação à solta – até aqui no DELITO DE OPINIÃO – pela atribuição do Nobel da Literatura ao cidadão norte-americano Robert Allen Zimmerman, conhecido há mais de meio século pelo seu nome artístico: Bob Dylan.

Aplaudi o prémio desde a primeira hora e nenhum dos argumentos aduzidos contra a atribuição do Nobel 2016 me convenceu. O júri da Suécia, num gesto inovador, entendeu desta vez galardoar um escritor de canções. Se queremos atribuir-lhe um rótulo, este é o que mais se adequa a Bob Dylan, que encaminhou milhares de jovens em várias latitudes para a poesia ao som de música.

 

É de poesia que falamos, não de “letras”, como alguns mencionam com indisfarçável desdém. Não é preciso puxar do cânone: os monólogos interiores e os sinuosos labirintos estilísticos concebidos por Dylan são poesia. Mais qualificada do que a mediana produção poética de um Derek Walcott, o galardoado de 1992, sem escândalo aparente.

Alegam os críticos que a poesia de Dylan não vale um Nobel por emergir como subsidiária de outra arte ao ter sido escrita para fins musicais. Parece-me um argumento débil. Pela mesma lógica nunca o Nobel devia ter sido atribuído ao italiano Dario Fo ou ao britânico Harold Pinter, prolíficos autores de textos destinados a ser representados nos palcos. O teatro está para ambos como a música para Dylan. E ninguém contestou os prémios que receberam em 1997 e 2005. Ibsen e Lorca, dois outros mestres da arte teatral, também teriam sido dignos destinatários do Nobel da Literatura.

O teatro não os menorizou: engrandeceu-os.

 

Muitos esquecem que a Academia Nobel já distinguiu com este galardão muitos autores fora do padrão dominante, que pretende confinar a literatura à ficção e à poesia. Do historiador alemão Theodor Mommsen (1902) ao filósofo francês Henri Bergson (1941), do ensaísta britânico Bertrand Russell (1950) à jornalista bielorrussa Svetlana Alexeivich (2015). Sem esquecer que também Winston Churchill, vencedor em 1953, integra a lista dos premiados.

Serão as entrevistas de Svetlana Alexeivich mais dignas de encómios literários do que as narrativas musicadas de Dylan?

Julgo que não.

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A poesia teve sempre uma forte ressonância oral: fez-se para ser recitada, declamada, cantada. Assim o comprovam as remotas rimas medievais – cultivadas por alguns dos nossos primeiros reis – e as estrofes trovadorescas. Sem esquecer os clássicos, de Dante a Yeats.

Toda a poesia de Camões, épica ou lírica, pode ser cantada. E muita já foi. Vale a pena lembrar o frémito de indignação que percorreu a intelectualidade pátria, em meados da década de 60, quando a grande Amália se atreveu a cantar Camões – como fez com tantos outros poetas, de Vinicius de Moraes a Alexandre O’ Neill.

Ela estava certa, ao contrário dos intelectuais que a consideraram indigna de intrepretar Lianor e Erros Meus com a sua voz incomparável. Estou convicto de que daqui a uns anos diremos o mesmo do júri que agora ousou distinguir Bob Dylan com o Nobel da Literatura.

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Pátria de violência e ódio

por Diogo Noivo, em 20.10.16

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A ETA, a esquerda abertzale e o regime fascista que ambas instituíram no País Basco sempre mereceram pouca atenção em Portugal, nuns casos por laxismo, noutros por conivência. Durante 40 anos, ser democrata e exercer o direito à liberdade de expressão foram, no País Basco, crimes de delito de opinião. O criminoso era penalizado com ameaças, quando não com a morte. Professores, escritores, cineastas, jornalistas, polícias, políticos e até humildes portageiros eram confrontados com uma escolha: aceitar uma liberdade timorata, mutilada e tutelada pela violência terrorista, ou fazer valer os seus direitos e ideias. Os que optaram pela segunda via assumiram um custo. Para os próprios e para as suas famílias.

O País Basco foi ao longo de quatro décadas uma região bizarra, em absoluta divergência da construção de liberdades no espaço europeu. Os verdadeiros criminosos saiam à rua, faziam as suas vidas com relativa impunidade, enquanto as vítimas viviam num regime de detenção, sob permanente escolta armada, impedidos de actos normais e quotidianos como ir ao cinema ou visitar um familiar quando bem lhes aprouvesse.

A nuvem de chumbo que pairou sobre a Euskadi é hoje uma névoa rarefeita. Mas não se dissipou. No passado fim-de-semana, dois militares da Guardia Civil, que gozavam uma noite de folga na localidade navarra de Alsasua, foram brutalmente agredidos por cerca de 50 indivíduos pertencentes à esquerda abertzale. Os militares e as suas namoradas. Ser polícia no País Basco ainda é um crime. Ser amigo ou companheiro de um polícia é um crime por associação. Julgamento e pena são servidos de uma assentada pelos auto-denominados “representantes do povo basco” que, para além de carecerem de legitimidade democrática, nunca representaram nada nem ninguém.

O mais recente romance de Fernando Aramburu é, por isso, infelizmente oportuno. “Patria” acompanha a história de duas famílias separadas pelo medo e pela violência. Em cerca de 650 páginas, Aramburu abarca décadas de agressões, de gente subjugada, e fá-lo desde uma perspectiva pouco habitual: olhando para o quotidiano. O livro é um puzzle de ficção, cujas peças saíram de uma realidade dolente. O aparelho de repressão da ETA, os funerais, as tabernas onde se aprendia a odiar em conjunto, os arruaceiros e a cobardia são elementos que perpassam “Patria” do princípio ao fim, criando uma imagem tão impressionante como fidedigna. Em entrevista ao Babélia, o suplemento de cultura do El País, Fernando Aramburu afirma que a derrota literária da ETA continua pendente. Este livro é sem dúvida um valiosíssimo contributo para conseguir essa derrota e uma oportunidade para perceber que, durante décadas, houve na Europa das liberdades uma região agrilhoada por uma ditadura violenta e alimentada pelo ódio.

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O Nobel tem a importância que lhe quisermos dar

por João André, em 14.10.16

Uma outra nota sobre os que não receberam o prémio. É verdade que a lista de autores não contemplados é longa, distinta e, de certa forma, infâme. O prémio Nobel, qualquer ele seja, é uma reflexão do seu tempo e resultado da reflexão de pessoas, no caso sempre um grupo relativamente pequeno de pessoas. Irão cometer erros e injustiças. Todos teremos a nossa opinião sobre o merecimento e falta dele na atribuição do prémio.

 

Mas deixo uma questão: quantos de nós (e sim, incluo-me na lista) que criticamos a atribuição de qualquer dos prémios conhecíamos antes da mesma a obra do/a contenplado/a? Ainda hoje não li nada de Svetlana Alexievitch. Mo Yan, Tomas Tranströmer, Herta Müller ou J. M. G. Le Clézio ainda me são essencialmente desconhecidos. Li Modiano, mas não sei dizer se é mais ou menos merecedor que De Lillo, Lobo Antunes ou seja lá quem for que continue a ser esquecido.

 

Já levantei esta questão algures no passado: quantas pessoas são capazes de dizer as omissões flagrantes nos prémios Nobel da Física, Química ou Medicina? Ou os erros (entre os quais ou outro Nobel português, Egas Moniz, provavelmente se encontra)? O prémio da Literatura é contestável porque é mais facilmente acessível e porque os seus potenciais laureados existem em enormes números.

 

Quando um prémio é atribuído à porta fechada por uma dúzia ou dúzia e meia de pessoas que não podem, num único ano, ler tudo e mais alguma coisa, temos que aceitar o que o dito prémio é: uma reflexão da opinião dessas pessoas. Mudássemos uma única pessoa do grupo e o resultado seria outro. Mudássemos o grupo para outro país e o panorama seria consideravelmente diferente. Não se trata de um prémiod e popularidade nem devemos tratá-lo com tal. Para tal existem as vendas.

 

Não sou tão ácido como o Luís, mas partilho em parte a sua opinião. O prémio não tem muita importância. Como todos, tem a importância que lhe quisermos dar. Mas o simples facto de, todos os anos, continuarmos a discutir os seus resultados demonstra que ainda lhe damos muita importância. E isso já basta para lhe dar uma certa patina de credibilidade que vai além do valor monetário.

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Zimmermann: músico para ser poeta

por João André, em 14.10.16

Não tenho conhecimentos suficientes sobre poesia (ou literatura em geral) para avaliar se um prémio Nobel da Literatura é bem ou mal atribuído. Sei ler e dizer se, na minha opinião, o que li é bom ou mau. O mesmo vale para a música ou cinema ou teatro ou pintura ou...

 

No caso de Bob Dylan, gosto de algumas músicas e de outras nem tanto. De algumas de que não gosto, consigo no entanto apreciar as letras, a sua poesia. Noto isso ainda mais noutros grandes autores, Leonard Cohen ou no herdeiro de Dylan Bruce Springsteen. Ouço as músicas, não me agarram, mas sendo quem são acabo por pegar nas letras e gostar mais delas lidas, em silêncio.

 

Por isso penso que se podem ler as letras das músicas sem rpestar atenção à música, porque são letras que se sustentam a si mesmas. Noutros casos é necessária a música, as letras seriam ridículas se não incorporadas na melodia e estruturadas por esta. Com Dylan raramente se vê isso.

 

Por isso tenho uma posição diferente da Francisca: penso que as letras, mesmo que escritas para serem inicialmente acompanhadas por música, podem ser lidas separadamente (tal como já li peças de teatro sem as ver em palco). Compreendo no entanto a posição dela e, na maior parte dos casos, estaria de acordo. Há apenas alguns, como os que nomeei acima, onde penso que a música é desnecessária, mesmo quando complementa o conjunto.

 

Robert Zimmermann escolheu o apelido Dylan em homenagem a Dylan Thomas. Aquilo que primeiro chamou a atenção foram as suas letras, mas isso aconteceu porque as cantava. Numa comparação canhestra, lembro-me de algo que li em tempos sobre Puff Daddy e Jay Z: o primeiro era empresário para poder ser rapper, o segundo era rapper para ser empresário. Na minha comparação canhestra, tenho vontade de escrever que Zimmermann se tornou um músico para poder ser poeta, para que o ouvissem e lessem. Para tal se tornou Dylan. E devemos, tanto os leitores como os ouvintes, ficar felizes por isso.

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Dylan

por José António Abreu, em 14.10.16

O primeiro Nobel da literatura que é bom para cantarolar.

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Dylan Once Again

por Francisca Prieto, em 13.10.16

Hoje o mundo veio abaixo, com um míssil disparado de Estocolmo. Atribuiu-se a Bob Dylan, o desgrenhado compositor de voz rouca, o Prémio Nobel da Literatura.

Passei o dia a ouvir opiniões de dois grupos antagónicos. De um lado, gente petrificada com a chegada do apocalipse e, do outro, malta a pulular em euforia pela ousadia da escolha. A mim, coube-me o desconforto. Porque de alguma forma, sentia que letras de canções não encaixavam na categoria.

A Velha do Restelo e a Rapariga Prá Frentex que coexistem no meu córtex pré-frontal e que arbitram os casos difíceis, degladiavam-se em argumentos ininterruptos.

Pois que letras de canções são poesia. E já foi premiado mais do que um poeta. Devia valer. E um dramaturgo? Também já foi premiado, ora. Será uma peça de teatro literatura? E o Chico Buarque? é poeta, caramba. Macacos me mordam.

E andei nisto todo o dia, a querer à brava ser a favor da nomeação de Bob Dylan para ser moderna, mas sem me conseguir render.

Até que, chegando à noitinha, e para meu grande alívio, percebi porque é que letras de canções e peças de teatro não se deviam misturar no campeonato da literatura. A questão é que, se na forma as podemos ver como semelhantes, na função nada têm a ver.

Um letrista escreve poesia para ser cantada. Um dramaturgo escreve teatro para ser levado a cena. À letra acrescenta-se música. Ao argumento, acrescentam-se actores, luzes, som.

A literatura é, simplesmente, para ser lida. Não tem outra função, não é apenas uma parte de outra coisa maior.

E nisso que reside a diferença. E é por isso que não faz sentido premiar a partir do mesmo saco.

 

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Até nem é mau acompanhamento para o Pulitzer...

por José António Abreu, em 13.10.16

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Ainda acerca do Nobel da literatura

por José António Abreu, em 13.10.16

Nunca o audiolivro fez tanto sentido.

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E o Nobel vai para...

por José António Abreu, em 13.10.16

Bob Dylan? Bom, suponho que é uma forma de premiar um norte-americano, continuando a ignorar os grandes escritores norte-americanos. E - vejamos as coisas pelo lado positivo - a escolha sempre elimina a discussão anual em torno das hipóteses de Roth, McCarthy, DeLillo e Pynchon. Lá para 2025, se algum deles ainda estiver vivo, talvez voltem a ter uma chance.

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Do Nobel da literatura

por José António Abreu, em 11.10.16

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Quase de certeza será um homem. Em 2015 foi uma mulher (Svetlana Alexievich), em 2014 um homem (Patrick Modiano), em 2013 uma mulher (Alice Munro), em 2012 um homem (Mo Yan). Depois a alternância quebra-se mas o politicamente correcto ganha cada vez mais força.

Será muito provavelmente de fora da Europa. Três anos seguidos para um europeu é impensável. Azar para Milan Kundera (que, ainda por cima, nasceu num país de Leste, tal como Alexievich, e não apresenta o enquadramento político adequado) e para uma das escolhas do Pedro Correia: John Le Carré.

A geografia atribui as melhores hipóteses aos africanos. Infelizmente, é demasiado tarde para Chinua Achebe. Existem outras opções: Ngũgĩ wa Thiong'o e Nuruddin Farah, por exemplo, como lembrou Beatriz em resposta ao desafio que o Pedro Correia lançou na passada sexta-feira (confissão: ainda não li qualquer deles).

Os orientais também têm boas hipóteses. Após escolhas relativamente obscuras, este poderá ser o ano de Murakami, a opção popular.

A Oceania terá uma chance. Peter Carey, talvez. David Malouf. Tim Winton deverá ser demasiado «normal».

Tendo nascido na Índia, Salman Rushdie poderá igualmente ser uma hipótese. Nah, estou a brincar. Intelectuais suecos não são cartoonistas dinamarqueses.

Há a possibilidade de que seja um poeta. Nenhum foi laureado desde 2011, quando o sueco Tomas Transtömer venceu. A propósito: a Suécia é não apenas a sede da Academia Nobel como um dos mais grandiosos berços de gigantes literários, a avaliar pelo número de prémios Nobel conquistados ao longo dos anos - oito (em sete anos distintos, pois em 1974 houve partilha).

Improvável é que seja um norte-americano, não obstante Roth, McCarthy, Pynchon, DeLillo - ou até mesmo Oates, Tyler, Rush. Os norte-americanos, diz a Academia, estão demasiado preocupados com questões locais. Também poderia dizer que são demasiado pessimistas (McCarthy, Roth), demasiado caleidoscópicos (Pynchon, DeLillo) ou - seria mais sincero - não suficientemente críticos da política norte-americana (o que, em vários casos, nem é verdade).

Poderá ser Amos Oz. A menos que a Academia Sueca receie premiar um israelita, mesmo tendo ele uma obra que está longe de glorificar as políticas de Israel. Talvez possa premiá-lo salientando isso mesmo.

Rubem Fonseca? Não nasceu no continente ideal mas pelo menos não é europeu. Contudo, o estilo prejudica-o. Os suecos podem ver nos seus livros apenas violência e cinismo. Ou recear que outros o façam.

Poderá ser um transexual ou alguém com uma obra focada nas questões LGBT - ou, melhor, LGBTTQQFAGPBDSM, que não quero ser acusado de discriminação. Já vai sendo tempo, não é verdade?

 

Eis o grande problema do prémio Nobel da literatura: está cada vez mais político - e mais politicamente correcto. Não estou com isto a dizer que os laureados são maus escritores. De modo nenhum. Nunca se escreveu tanto, pelo que a escolha é vasta; a Academia não precisa de escolher maus escritores. Mas como levar a sério um prémio em que as conveniências parecem sobrepor-se a um juízo sincero?

E, todavia, cá andamos a ler e a escrever sobre ele; a discutir hipóteses; a arriscar vaticínios. Pior ainda, depois do anúncio fica-nos sempre a curiosidade de ler pelo menos uma obra do(a) laureado(a). Mas está certo: como poderíamos ter a certeza de que Kundera merece o prémio se não lêssemos também Modiano?

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Do princípio ao fim (18)

por Teresa Ribeiro, em 10.10.16

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As palavras que se alinham logo no primeiro parágrafo são para se comer: "Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta." - esta sensualidade no começo de uma obra cujo tema é consensualmente considerado deplorável recebe-se como uma provocação. Creio que é sobretudo a curiosidade mais pelo que sentimos, do que pelo enredo que nos leva a progredir no texto a partir destas primeiras palavras. O tom é envolvente, confessional. Trata-se da autobiografia do narrador, Jean Jacques Humbert, um homem maduro, elegante, letrado e pedófilo assumido.

Nada na leitura deste romance é simples. Ao talento descritivo, capaz de nos transmitir com beleza as mais obscuras paisagens, Nabokov associa uma narrativa baseada no testemunho de uma personagem complexa, que tem a capacidade de se decompor em réu e juiz, actor e espectador, narrador e leitor.

Jean Jacques Humbert é, como ele próprio se chama, Humbert Humbert, uma figura que não raramente nos fala a um tempo na primeira e terceira pessoa: "... o soturno Humbert comprimiu a boca contra a sua pálpebra palpitante. Ela riu-se e saiu do quarto roçando por mim. O meu coração parecia estar em toda a parte ao mesmo tempo" (pág 51).

Dual mas ao mesmo tempo lúcido, Humbert disseca até ao âmago a sua perversão, como "quem vira a consciência do avesso e lhe arranca o forro íntimo" (pág 81). Antes que o leitor o classifique adianta-se, consciente da sua abjecção: "Não tenho ilusões. Os meus juízes considerarão tudo isto uma mascarada de um louco, com um gosto indecente pelo fruit vert. Au fond, ça m'est bien égal." (pág 46)

Ao assumir tão frontalmente esta ausência de expectativas Humbert, ou Nabokov através de Humbert, esvazia o papel do leitor. Perante a sua indiferença o que nos resta se não tomar conhecimento de um caso perdido, simplesmente conhecer, como um banal voyeur, as catacumbas da sexualidade de um pervertido? É neste desconforto que progredimos no romance, forçados não a empatizar - isso nunca é sequer tentado - mas a perceber os matizes da moral de um pedófilo. Nada nos é vedado. Da clássica desculpabilização: "O que me enlouquece é a dupla natureza desta ninfita - de todas as ninfitas talvez -, esta mistura na minha Lolita de uma terna infantilidade sonhadora e uma espécie de misteriosa vulgaridade", à impiedosa consciência da perversão: "... a horrível conclusão a que quero chegar (...) é a seguinte: tornara-se gradualmente evidente à minha convencional Lolita, durante a nossa singular e bestial coabitação que até a mais miserável das vidas familiares era melhor do que a paródia de incesto que, no fim de contas, era o melhor que podia oferecer à desamparada criança".

Trata-se de uma experiência, dado o tema em questão, fortíssima. Lo-li-ta. Sente-se de facto o sabor amargo da mais popular obra de Nabokov, lançada em 1955 para escândalo do mundo inteiro, no palato.

Uma vez lida, jamais a esqueceremos.

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Do princípio ao fim (16)

por José António Abreu, em 08.10.16

Houve uma época, ali pelo início da década de 1990, em que Ian McEwan era o meu escritor contemporâneo favorito. Depois as coisas alteraram-se um pouco (achei Amesterdão inconsequente e Expiação demasiado proustiano - ou talvez seja mais correcto classificá-lo como demasiado jamesiano - para o seu próprio bem) mas não pude deixar de o incluir entre as hipóteses para esta série. E então apercebi-me de que talvez pudesse fazer uma espécie de Do Princípio ao Fim dentro da obra dele, utilizando alguns temas nela recorrentes. É provável que corra mal mas até isso poderá ser adequado.

 

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Não matei o meu pai, mas às vezes sinto que contribuí para isso.

O Jardim de Cimento (1978). Edição Gradiva (1989). Tradução de Cristina Ferreira de Almeida.

(Na versão original: I did not kill my father, but I sometimes felt I had helped him on his way.)

 

O Jardim de Cimento (primeiro romance de McEwan, depois de dois volumes de contos) relata a história de quatro irmãos que ficam sozinhos em casa após a morte dos pais. O pai propunha-se cimentar o jardim porque, na sequência de um ataque cardíaco, já não conseguia tratar dele e, ainda por cima, era forçado a ouvir constantemente piadas sobre o seu estado de degradação, a maioria provenientes de Jack, o filho de 15 anos, que narra a história. Para além de resolver o problema estético, argumenta o pai, o piso de cimento permitirá reduzir a entrada de lixo na casa. Morre, de segundo ataque cardíaco, enquanto mistura o cimento. Ao mesmo tempo e em vez de estar a ajudá-lo, Jack masturba-se no quarto, pensando na irmã mais velha. É este acto, juntamente com as piadas que fazia sobre o jardim, que levam Jack a considerar ter contribuído para a morte do pai. A situação complica-se quando, algum tempo depois, falece também a mãe, há muito doente. Sem saber como agir, temendo ser separados, os irmãos decidem manter segredo e enterrá-la na cave, tapando-a com o cimento. Nas semanas seguintes, sobrevivendo à custa da pensão que ela recebia, criam um ambiente e uma lógica próprios, nos quais as pulsões sexuais desempenham um papel crucial. O 'lixo' pode afinal não vir de fora.

Muitas pessoas detestam O Jardim de Cimento (leiam-se os comentários negativos na Amazon norte-americana, por exemplo). Entende-se porquê. O humor é negro e o ambiente malsão. Mas, na sua brevidade, o livro expõe gloriosamente a confusão adolescente acerca da definição de regras morais (particularmente de índole sexual) e da procura de um lugar no mundo, bem como o papel fundamental dos pais nesses processos. Entregues a si próprios, aqueles quatro irmãos definem regras próprias, em grande medida distorções das existentes fora de casa. (Há quem considere O Jardim de Cimento uma espécie de O Senhor das Moscas em ambiente familiar e altamente sexual.) A própria relação entre Jack e Julie (a irmã mais velha) não passa afinal da encenação instintiva dos jogos habituais entre adultos, aqui remetida ao ambiente mais restrito possível - o de um grupo de irmãos. Ao permanecerem na casa (e apesar de intrusões do mundo exterior, e de ocasionais excursões ao mundo exterior), eles conseguem manter algum controlo sobre as suas vidas. Estão juntos e em relativa segurança, ainda que as ameaças se acumulem e as hormonas se manifestem. No fundo, para pessoas que já nasceram, a casa dos pais é o local mais parecido que existe com o ventre materno.

 

(O bom senso aconselharia agora que eu aproveitasse a frase anterior para saltar directamente para o último livro de McEwan - ser-me-á impossível conseguir melhor ligação - mas não resisto a fazer algumas paragens suplementares.)

 

Depois de O Jardim de Cimento, McEwan publicou Estranha Sedução (1981). Por várias razões, o título original é melhor: The Comfort of Strangers. De visita a Veneza, um casal é atraído pelo lado misterioso e cosmopolita de outro casal. Estamos perante adultos mas, como no livro anterior, o impulso para criar um núcleo que faça sentido permanece. E os jogos macabros, agora num nível mais perigoso, mais adulto, também.

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A seguir veio A Criança no Tempo (1987). O início tem pouco de memorável (qualquer coisa acerca do trânsito) mas a premissa é a inversão quase perfeita da que gerara O Jardim de Cimento. Um pai perde a filha no supermercado e tem de lidar com as consequências do desaparecimento. O seu casamento desmorona-se, as suas relações profissionais são testadas e a sua própria história é necessariamente reavaliada na sequência de toda a introspecção que ele não consegue deixar de levar a cabo. Ao contrário das crianças de O Jardim de Cimento, ele tem de lidar com o exterior. É um adulto, afinal. E, por sê-lo, deveria conseguir relativizar, colocar os eventos sob perspectiva. Mas, bem vistas as coisas, ninguém alguma vez deixa de ser uma criança – em especial perante acontecimentos que fazem nascer questões de culpa e de justiça. Por outro lado, ninguém alguma vez deixa de se avaliar com os olhos, plenos de expectativa, da criança que foi – o que só pode gerar desapontamento. Em O Jardim de Cimento, sem adultos, sem guias nem passado, as crianças construíam um mundo – deformado, com regras e pulsões malsãs, é certo, mas um mundo ainda assim;  sem a criança, os adultos de A Criança no Tempo são incapazes de manter um mundo já criado. Tudo se altera. Tudo é questionado, incluindo a sua própria capacidade enquanto adultos.

 

N'O Inocente (1990), os jogos dos adultos abrangem a espionagem. Trata-se de um dos poucos livros de McEwan sem crianças mas a personagem principal substitui-as. Virgem, crédulo, transportado para um ambiente estranho (a Berlim do pós-guerra), rodeado por pessoas que parecem muito mais à vontade e saber muito mais do que ele (a experiência permite aos adultos fingir melhor), Leonard Marnham é uma versão crescida do Jack de O Jardim de Cimento.

 

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Desde que perdi os meus num acidente de viação, quando tinha oito anos, passei a trazer debaixo de olho os pais das outras pessoas.

Cães Pretos (1992). Edição Gradiva (1993). Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

 

Mais uma vez, a história é sobre orfandade, em sentido real e figurado. O narrador olha para os pais dos outros (perdoe-me Romana Petri o roubo do título de um dos seus livros) porque perdeu os seus. E vai olhar especialmente de perto para os pais da mulher. Ele procurou um sentido na política (marxista convicto, acreditou num mundo melhor, num mundo perfeito, criado pelos humanos mas sem os ‘defeitos’ humanos). A partir de certa altura, ela voltou-se para a religião (o campo por excelência do ideal). Num caso como no outro, o desejo é o de sempre: conferir um sentido à vida, construir um casulo de pessoas, lugares e conceitos que garantam sentido e protecção. Porém, como seria de esperar, os filhos ressentiram-se das obsessões dos pais: Liguei-me pelo casamento a uma família dividida, na qual os filhos, tendo em conta os interesses da sua própria preservação, tinham, até certo ponto, voltado as costas aos pais (p. 23). Os dois temas cruciais em McEwan: como os actos das crianças (ou dos adultos) influenciam os adultos (ou as crianças); a busca, por uns e por outros, de um ambiente de segurança. E, em corolário, como adultos e crianças são afinal duas faces da mesma moeda.

Poderia seguir daqui para a mentira da miúda em Expiação (2001), que nasce de uma visão incompleta (e altamente ficcional) do mundo e da lógica dos adultos, e gera terríveis consequências; para o colapso do dia meticulosamente planeado pelo neurocirurgião de Sábado (2005), que culmina com a invasão da sua residência e a ameaça à sua filha grávida; para a tentativa falhada de construir uma intimidade envolvendo o plano sexual (algo que, no fim de contas, separa as crianças dos adultos) em Na Praia de Chesil (2007); ou ainda para a juíza sem filhos, prestes a ver colapsar o casamento de mais de 30 anos e tendo que decidir da vida ou morte de um rapaz de 17 em The Children Act (A Balada de Adam Henry, 2014). Contudo, isto já vai longo e eu não pretendo escrever uma tese. Avancemos portanto - e finalmente - para o início do último livro de McEwan, publicado há menos de um mês.

 

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E para aqui estou eu, de pernas para o ar dentro de uma mulher. Com os meus braços pacientemente cruzados, à espera, à espera e a perguntar-me dentro de quem estou, para que estou aqui. Fecho os olhos com nostalgia quando me recordo de como em tempos vogava dentro do meu translúcido saco físico, a flutuar como num sonho, na bolha dos meus pensamentos, pelo meu oceano pessoal em cambalhotas em câmara lenta, colidindo docemente com os limites transparentes da minha clausura, a membrana reveladora que, embora as abafasse, vibrava com as confidências dos conspiradores num vil empreendimento. Isso foi durante a minha juventude despreocupada.

Numa Casca de Noz (2016). Edição Gradiva (2016). Tradução de Ana Falcão Bastos.

(O título original - Nutshell - é novamente preferível, por incluir a ideia de súmula.)

 

Poderia ser um truque barato e ineficaz, mas resulta. Numa revisitação de Hamlet (em 2016 assinalam-se os 500 anos da morte de Shakespeare), acompanhamos os solilóquios de um feto dentro do ventre materno, suscitados por aquilo que ouve e pelas imagens que vai construindo de um mundo que nunca viu.  A mãe tem uma relação com o cunhado e, com ele, planeia matar o pai. O nascituro preocupa-se. Ainda no útero mas já ameaçado por actos de adultos – e, em particular, da mãe – , relembra com nostalgia tempos nos quais ainda não tinha consciência do que se passava (isto é, tempos em que, na famosa equação ser ou não ser, ainda estava do lado do não ser). Caso a mãe e o amante concretizem o plano, sairá do útero - o casulo de segurança por excelência - para um mundo que já lhe foi retirado (o pai estará morto, a mãe provavelmente presa). Ainda por cima, é impotente; nada pode fazer acerca do assunto. Excepto uma coisa: nascer. Simultaneamente uma vitória e uma rendição.

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Do princípio ao fim (15)

por Inês Pedrosa, em 07.10.16

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"Eulália começou a morrer na terça-feira. Esquecida do último almoço de domingo, quando a família se reunira em torno da longa mesa especialmente armada para receber filhos e netos. À cabeceira, Madruga presidia os festejos e os hábitos implantados na casa desde a sua chegada à América. Olhava então os presentes com certo tédio, deles cobrando sangue e apreço pelas travessas com a comida adornada."

Assim arrancam as 705 páginas de A República dos Sonhos, romance de 1984 recentemente reeditado em Portugal pela Temas e Debates. Os romances inesquecíveis são longas conversas sobre política, lendas, memórias, sentimentos, mágoas e descobertas. A ficção de Nélida Piñon pertence a este caudal. Os seus romances são ensaios, experiências existenciais em que o passado se esclarece e o futuro se revela; os seus textos ensaísticos convocam memórias, descobertas e esse dom da surpresa próprio do ficcionista – a associação atrevida, a brincadeira com os círculos imprevisíveis do tempo, a elasticidade da escrita.

         A República dos Sonhos narra a saga de uma família de emigrantes galegos no Brasil, de um modo muito original, a partir dos três dias em que a matriarca decide morrer – a grande decisão da sua vida – e convoca filhos e netos para a despedida. A vida do patriarca e dos seus descendentes entretece-se com as vicissitudes do Brasil ao longo do século XX. Quando Getúlio Vargas chegou ao poder, em Novembro de 1930, pondo fim à chamada República Velha, o Brasil quis acreditar que poderia transformar-se numa República dos Sonhos.  A brutalidade da ditadura, com o seu cortejo de torturas e ignomínias, adiou esse sonho, mas nunca conseguiu matá-lo, talvez porque a omnipresença da morte exalte os impulsos da vida. Madruga, o emigrante bem sucedido, avisa o seu contraponto Venâncio, emigrante falhado, mas nunca desistente: “ Não se pode conviver intensamente com dois países mortíferos como o Brasil e Espanha. Você terá de abrandar um deles dentro da alma. De outro jeito, eles terminam por matá-lo.” (p. 173). O paralelo permanente entre a Espanha e o Brasil, “países vorazes e movediços”  é a pedra de toque deste romance. Nélida, como Breta – a neta escritora de Madruga, que partilha com ele e com a autora o relato da história – assume-se como uma voz claramente brasileira e americana, mas arqueóloga das suas raízes galegas e europeias. Essa ligação a dois territórios tão distantes permite-lhe o entendimento profundo que advém da conjugação entre intimidade e estranheza, estar dentro e fora do tempo, num lugar, não de omnisciência, mas de límpida ciência do particular. O retrato minucioso do tempo da ditadura militar, e do modo como ele se reflecte nos comportamentos e destinos individuais, é particularmente rico e pormenorizado. Os ditadores não caem do céu – nem os Madrugas desbravadores, sobreviventes à fome e avessos à resignação.

8341277330326G.jpgNélida Piñon tem um talento particular para cruzar o pessoal e o político. As múltiplas personagens deste romance, com o seu lastro e as suas vozes singulares, dão-nos a conhecer as forças e fraquezas do Brasil e também da Galiza, reconciliando-nos com o oceano do tempo ao qual, enquanto mortais, estamos sujeitos. Nós morremos – mas a República dos Sonhos não. Nélida Piñon consegue ser simultaneamente estilista da língua, historiadora, psicóloga, socióloga, filósofa, pintora. “É preciso buscar a linguagem certa. Pobre do escritor que se equivoque nessa escolha. Sobretudo há que se escrever na língua principal que o país está produzindo naquele momento. Se Montaigne tivesse escrito em latim, ninguém o recordaria agora.” ( p. 669). A aliança com uma língua representa um compromisso com a memória dos povos que a utilizam. Romancista que não domine todas as áreas das artes e ciências do humano, não é nada. Há menos romancistas do que se pensa, neste tempo de especialização e fragmentação aguda.

         Breta permanece sempre menina porque é escritora. Isso permite-lhe confiar na palavra e ousar as ilusões e desilusões que são a matéria fundamental da escrita e do conhecimento. A arte cria uma película de candura que nos protege da vida e nos ensina a não desistir dela. Diz o avô Madruga à neta escritora: “Essa graça que temos de narrar se deve ao facto de sermos celtas, Breta. É a nossa maior herança. Mas, também, o que sobra de um povo sem o seu imaginário? Deve ser por isso que o primeiro ato das ditaduras é proibir a imaginação. Nada asfixia mais do que sermos privados de inventar.” ( p. 79).  Na imaginação radica a liberdade. Hannah Arendt explicou como o totalitarismo esmaga o indivíduo, retirando-lhe qualquer espaço de acção, anulando-o na massa. O romance é um dispositivo de combate anti-totalitário – e A República dos Sonhos é um vigoroso e clarividente exemplo disso. Eulália, a mulher apagada que se ilumina quando decide morrer, explica-nos em que consiste o ofício de sonhar: “O sonho é uma distinção, Madruga. É como saber construir com perfeição uma gaiola ou um barco, fazendo-os parecer um palácio mourisco”. Saibamos merecer este palácio.

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Do princípio ao fim (14)

por Rui Herbon, em 06.10.16

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Quando pensamos num parágrafo final memorável, é natural que nos lembremos de imediato dos nossos romances de eleição. No entanto, no meu caso, estes com frequência não têm uma história no sentido convencional dessa noção, ou, pelo menos, não é essa a sua dimensão primordial ou a que me interessa; portanto, será um pouco difícil encontrar algum fim espectacular ou inesperado, como acontece muitas vezes nos romances mais tradicionais ou nos de tema policial ou de suspense, por exemplo. Para que a minha opção não resultasse demasiado insonsa, resolvi escolher um romance que vive muito da sua história (embora organizada mediante a sobreposição de diferentes planos narrativos, em que presente e passado se interligam mediante as vozes e memórias de distintos personagens) e cujo final, apesar de expectável e, em certa medida, sabido deste o miolo na narração, não deixa por isso de ter um impacto no leitor, não tanto por questões de surpresa ou espectacularidade, mas por ser o corolário de uma escrita magnífica, em que cada palavra foi criteriosamente escolhida e cada frase depurada ao extremo, cuja tensão não deixa de ser incrementada até à sua frase final. Falo de Pedro Páramo, de Juan Rulfo.

 

O romance inicia-se com a chegada a Comala de Juan Preciado, cumprindo a promessa que fizera à sua mãe moribunda de procurar o seu pai, Pedro Páramo, a quem não havia conhecido. Quando se apercebe de que está no meio de um mundo de mortos, falece aterrorizado e a sua voz dá lugar ao sussurrar dos defuntos que relatam os factos que sucederam em Comala no tempo de Pedro Páramo. As vozes silenciosas dos protagonistas nascem em torno desse ambiente fantasmagórico e vão encadeando a história.

 

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Pedro Páramo é a figura que aglutina as demais. Em breves traços obtemos uma visão da sua vida desde a infância até à velhice: ir-se-á convertendo no cacique violento e cobiçoso que sonha possuir tudo, empregando para esse fim qualquer método, ao mesmo tempo que desenvolve um amor sem limites por Susana San Juan, a quem conhece desde a sua infância. Ele, que conseguiu tudo, não conseguirá o amor de Susana. O desespero em que o submerge a morte de Susana («Enterraram Susana San Juan e poucos em Comala o souberam.») e a afronta inconsciente da terra ao festejar o dia de feira («Havia feira. Jogava-se aos galos, ouvia-se a música, os gritos dos bêbedos e das lotarias.»), supõem a ruína de Comala («Jurou vingar-se de Comala: – Cruzarei os braços e Comala morrerá de fome. E assim fez.»). Por isso, quando Juan Preciado chega, encontra-se com um povoado desértico, com o reino da morte. O romance termina precisamente com a esperada morte de Pedro Páramo, que não sobreviveu muito tempo à sua amada. Se por um lado não deixamos de sentir alguma satisfação com isso, na confirmação de que todos os filhos da puta têm o seu fim e que geralmente são festim de abutres, por outro não deixamos de sentir pena pelo ser humano, fabricação do seu tempo e das suas circunstâncias:

 

Sentiu que umas mãos lhe tocavam nos ombros e endireitou o corpo, endurecendo-o.

– Sou eu, dom Pedro – disse Damiana. – Não quer que lhe traga o almoço?

Pedro Páramo respondeu:

– Vou a caminho. Já vou.

Apoiou-se nos braços de Damiana Cisneros e tentou caminhar. Alguns passos depois caiu, suplicando por dentro; mas sem dizer uma só palavra. Deu um golpe sêco contra a terra e foi-se desmoronando como se fosse um monte de pedras.

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Dentes-de-leão

por João Campos, em 05.10.16

No more kings. Vimes had difficulty in articulating why this should be so, why the concept revolted in his very bones. After all, a good many of the patricians had been as bad as any king. But they were... sort of... bad on equal terms. What set Vimes's teeth on edge was the idea that kings were a different kind of human being. A higher lifeform. Somehow magical. But, huh, there was some magic, at that. Ankh-Morpork still seem to be littered with Royal this and Royal that, little old men who got paid a few pence a week to do a few meaningless chores, like the Master of the King's Keys or the Keeper of the Crown Jewels, even though there were no keys and certainly no jewels. 

Royalty was like dandelions. No matter how many heads you chopped off, the roots were still there underground, waiting to spring up again.

It seemed to be a chronic disease. It was as if even the most intelligent person had this little blank spot in their heads where someone had written: "Kings. What a good idea." Whoever had created humanity had left in a major design flaw. It was its tendecy to bend at the knees. 

Terry PratchettFeet of Clay (1996)

 

Neste 5 de Outubro em que se volta a assinalar com um feriado a Implantação da República (independentemente de poder ser essa ou outra efeméride a merecer o dia de descanso), parece-me apropriado regressar a um autor muito cá de casa: Terry Pratchett. Dizer que as suas sátiras são incomparáveis no género onde situou o mundo secundário de Discworld  - a fantasia literária - seria dizer mesmo muito pouco: é muito provável que no seu auge as sátiras de Pratchett tenham sido incomparáveis, ponto (leia-se Small Gods). Poucos temas dentro e fora do género escaparam ao seu olhar atento e à sua prosa aguçada; sendo britânico, e cultor de um género literário rico em reis e rainhas, seria talvez inevitável que também a monarquia servisse de mote para alguns jogos de palavras, para umas poucas gargalhadas e para uma ou outra reflexão. Como se pode ver por este trecho retirado do décimo-nono livro da série Discworld, no qual o Comandante da Guarda de Ankh-Morpork, Samuel Vimes, se vê a braços com uma série de homicídios e com a possibilidade de a monarquia regressar àquela cidade-estado histórica (ainda não terminei a leitura e tenho evitado spoilers, pelo que para já desconheço se Lorde Vetinari, governador absoluto de Ankh-Morpork, será substituído). E na obra completa podemos encontrar outras passagens sobre o tema, como esta outra, retirada de uma nota de rodapé (as notas de rodapé de Pratchett são famosas) do quarto livro da série, Mort, publicado em 1987, e que talvez ajude a explicar a ciência subjacente ao fenómeno da sucessão: 

 

The only thing known to go faster than ordinary light is monarchy, according to the philosopher Ly Tin Wheedle. He reasoned like this: you can't have more than one king, and tradition demands that there is no gap between kings, so when a king dies the succession must therefore pass to the heir instantaneously. Presumably, he said, there must be some elementary particles – kingons, or possibly queons – that do this job, but of course succession sometimes fails if, in mid-flight, they strike an anti-particle, or republicon. His ambitious plans to use his discovery to send messages, involving the careful torturing of a small king in order to modulate the signal, were never fully expanded because, at that point, the bar closed.

 

Aos leitores, votos de um bom feriado. 

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Do princípio ao fim (12)

por José António Abreu, em 04.10.16

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Na maior parte das vezes, um bom final é também um início, ainda que de algo desconhecido. Mesmo quando apresentam a morte da personagem principal – ou até uma catástrofe global, ao jeito de muita ficção científica da década de 1950 -, poucos finais serão dignos de ficar na memória se da personagem não subsistir um rasto e da história uma expectativa para o futuro.

Don DeLillo terminou o seu mais longo romance – Submundo – com uma única palavra: «Paz». Um desejo, mas também uma pausa após um caleidoscópio de mil páginas acerca de uns Estados Unidos sob a ameaça nuclear. Cormac McCarthy é mais negro. Em A Estrada, de 2006, a ameaça (qualquer que fosse; McCarthy não especifica e também não é preciso) concretizou-se. Acompanhamos um adulto e uma criança, pai e filho, através de um mundo de cinzas, regressado à barbárie. Por causa do filho, o pai tenta adiar a morte. Mas as únicas personagens de McCarthy que a morte nunca parece atingir são as que personificam o mal (ou talvez seja mais exacto escrever a ausência de valores éticos, ou ainda as forças primodiais - e amorais - que ligam os humanos aos seus antepassados selvagens e aos restantes seres vivos). Personagens como o juiz Holden de Meridiano de Sangue e o assassino Anton Chigurh de Este País não é para Velhos. Em A Estrada, e não obstante os actos de crueldade que vai praticando, o pai é demasiado humano para sobreviver. O filho humaniza-o. Morre, pois. E é somente após a morte do adulto - ameaçador com a sua arma de fogo e o seu desespero - que, para surpresa e alívio do leitor, um grupo de pessoas se aproxima e toma conta do miúdo. Abre-se uma fresta de esperança. A humanidade ainda tem uma hipótese, num futuro que nunca será igual ao passado. Será outra coisa, outra realidade a extrair dos mistérios da vida, que em muito ultrapassam o ser humano - como o último parágrafo deixa evidente:

 

Outrora existiam trutas nos regatos das montanhas. Víamo-las paradas na corrente cor de âmbar, com a fímbria branca das barbatanas a ondular mansamente na água veloz. Cheiravam a musgo quando as segurávamos na mão. Luzidias e musculosas e a contorcerem-se. No dorso tinham desenhos vermiformes que eram mapas do mundo no seu devir. Mapas e labirintos. De uma coisa que não podia ser recriada. Cuja harmonia não podia ser reposta. Nos fundos vales onde as trutas viviam, todas as coisas eram mais antigas do que o homem e nelas ressoava um mistério.

Da edição da Relógio D’Água (2007), com tradução de Paulo Faria.

 

Na versão original:

Once there were brook trout in the streams in the mountains. You could see them standing in the amber current where the white edges of their fins wimpled softly in the flow. They smelled of moss in your hand. Polished and muscular and torsional. On their backs were vermiculate patterns that were maps of the world in its becoming. Maps and mazes. Of a thing which could not be put back. Not be made right again. In the deep glens where they lived all things were older than man and they hummed of mystery.

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Do princípio ao fim (4)

por Rui Herbon, em 26.09.16

 

O sol da manhã reverberou na espada de bronze. Já não havia nenhum vestígio de sangue.

– Acreditarás, Ariadne? – disse Teseu –. O minotauro mal se defendeu.

 

 

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Astérion, personagem de Borges em A casa de Astérion, chega-nos com o seu mundo labiríntico que o aprisiona numa terrível solidão. Para se entreter e passar o tempo, cria um mundo imaginário com pensamentos contraditórios à realidade, e assim emerge da narrativa um problema existente e recorrente, que é o destino do Homem. O labirinto passa a significar o sonho ou os ideais do Homem – que é representado por Astérion –, cada um deles prefigurando um novo labirinto. Por vezes percorre-o e sai triunfante, noutras perde-se na confusão de caminhos e obstáculos, e pensa que a sua única salvação é a morte. Astérion considera-se a si mesmo um prisioneiro, pois ainda que todas as portas estejam abertas, ele não pode encontrar a saída; repudia a escrita porque pensa esta não pode comunicar nada, mas noutros momentos lamenta-se por não saber ler; conta os jogos que inventa para passar o seu tempo: «Há terraços de onde me deixo cair, até me ensanguentar»; medita sobre a casa: «… qualquer lugar á outro lugar», porque são infinitos. «A casa é do tamanho do mundo; ou melhor, é o mundo», porque é o único mundo que conhece.

 

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«A cerimónia dura poucos minutos. Um após outro caem sem que eu ensanguente as mãos. (…) sei que um deles, na hora da morte, profetizou que um dia chegará o meu redentor. Desde então a solidão não me magoa, porque sei que o meu redentor vive…». Astérion considera que a morte é como a entrada numa nova vida, onde se libertam de todos os males. É por isso que ele mata os homens que entram no labirinto, para, segundo ele, lhes dar a libertação. «– Acreditarás, Ariadne? – disse Teseu. – O Minotauro mal se defendeu». Astérion não resiste porque também ele quer ser libertado da sua solidão, daquele labirinto. Este conto, através da personagem Astérion, cuja complexidade vai muito para além do seu papel no mito original, faz com que nos perguntemos se, por acaso, não estaremos também nós num labirinto, onde somos prisioneiros, ainda que todas as portas estejam abertas, e a única maneira de escapar seja a morte. Não nos encontraremos nós numa casa de Astérion ou, dito de outro modo, não seremos Astérion?

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"Cada uno en su rutina"

por Diogo Noivo, em 25.09.16

Nos eléctricos de Lisboa há uma enorme mistura entre a necessidade e o prazer. Quem o diz é Juan José Millás, um dos mais célebres e interessantes escritores espanhóis contemporâneos, num artigo publicado pelo El País Semanal. Em poucas linhas e partindo de uma fotografia, Millás retrata a Lisboa de hoje, onde as velhas e trágicas rotinas de quem lá vive coincidem com as novas (e talvez igualmente trágicas) rotinas de quem a visita. É ler e perceber.

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Do princípio ao fim (2)

por Helena Sacadura Cabral, em 24.09.16

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“Na Primavera dos seus vinte e dois anos, Sumire apaixonou-se pela primeira vez na vida. Foi um amor intenso como um tornado abatendo-se sobre uma vasta planície -, capaz de tudo arrasar à sua passagem, atirando com todas as coisas ao ar no seu turbilhão, fazendo-as em pequenos pedaços, esmagando-as por completo. Com uma violência que nem por um momento dava sinal de abrandar, o tornado soprou através dos oceanos, arrasando sem misericórdia o templo de Angkor Vat, reduzindo a cinzas a selva indiana, tigres e tudo, para depois em pleno deserto pérsico dar lugar a uma tempestade capaz de sepultar sob um mar de areia toda uma exótica cidade fortificada. Em suma, um amor de proporções verdadeiramente monumentais. A pessoa por quem Sumire se apaixonou, além de ser casada tinha mais dezassete anos que ela. E, devo acrescentar, era uma mulher. Foi a partir daqui que tudo começou, e foi a partir daqui que ( quase ) tudo acabou.”

 

       In “SPUTNIK, meu Amor”, de Haruki Murakami

 

Considero que muito pouco se poderá acrescentar à descrição feita pelo autor do que seja uma paixão. Quem a tenha alguma vez vivido, saberá disso. 

É assim que o livro abre. Depois, e num só parágrafo, Murakami abalará, em duas linhas, vários tabus da sociedade vigente: o amor entre duas mulheres, o adultério e até a diferença de idades entre duas pessoas que se amam.

Dificilmente alguém, em tão poucas linhas, conseguiria despertar a curiosidade dos leitores para a leitura de uma obra que, numa narrativa on the road constitui, afinal, uma espécie de introdução a um ensaio sobre o desejo humano e à especulação acerca do destino de cada um.

Sou, simultaneamente, uma admiradora do Japão e deste autor. O parágrafo escolhido, julgo, pode ser bastante revelador da alma e do espírito de um povo, cuja literatura só tardiamente tivemos conhecimento.

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Do princípio ao fim (1)

por Pedro Correia, em 23.09.16

No futebol existe uma frase feita, daquelas em que o desporto-rei é fértil: isto não é como começa, mas como acaba.

Na literatura, pelo contrário, o melhor raras vezes fica guardado para o fim. Começar um romance ou um conto com as palavras certas, que exprimam de forma adequada a ideia que o autor tem em vista, é o único caminho possível. Porque não existe uma segunda oportunidade para ter uma primeira impressão.

É um desafio que se coloca a qualquer forma de expressão literária. Ernest Hemingway, mestre da ficção curta, legou-nos o mais belo e pungente microconto que conheço. Tem apenas seis palavras: “For sale: baby shoes never worn.” Que podemos traduzir assim (permitam-me o atrevimento): “Para venda: sapatos de bebé. Por estrear.”

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Ao longo dos anos, senti-me fascinado por diversos parágrafos de abertura de textos literários famosos. Vários desses parágrafos virão aqui, estou certo disso, seleccionados por colegas de blogue numa série colectiva que hoje começa no DELITO DE OPINIÃO. E que pretende contribuir para despertar ou sedimentar a paixão dos nossos leitores pela arte literária.

A série intitula-se Do princípio ao fim porque não destaca apenas começos de novelas ou romances: destina-se a realçar também as frases finais que elegermos entre as mais inesquecíveis.

Também irei por aí. Mas hoje fico-me por um dos mais arrebatadores inícios que guardo na memória de infatigável leitor. Simples e complexo, literal e metafórico, sugestivo como poucos. Ao ponto de nunca mais o ter esquecido.

São as palavras que nos apresentam Gregor Samsa, inscrevendo-o desde logo na galeria de personagens da literatura universal. Redigidas há mais de cem anos por um taciturno judeu da Boémia que escrevia em alemão: "Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheueren Ungeziefer verwandelt."

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Assim entramos no universo de Franz Kafka – tão particular, tão universal, tão denso, tão límpido, tão tortuoso, tão sedutor. São as primeiras linhas da sua novela A Metamorfose (1915), erupção do irracional num mundo sujeito aos inexplicáveis caprichos do acaso, onde as sombras vão ganhando terreno no eterno combate contra a luz.

Recordo o fascínio que senti ao mergulhar pela primeira vez na prosa inconfundível do malogrado escritor de Praga, tão cedo vitimado pela tuberculose num mundo que mal despontava dos horrores da guerra. E jamais esqueci aquelas palavras que me iniciaram no imaginário kafkiano. Não por acaso, Kafka é um dos raros escritores que viu o nome convertido em adjectivo.

 

Reencontro A Metamorfose, em edição recente, e de novo a magia desta prosa me devolve à emoção antiga.

"Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso." (Recorro à tradução de João Barrento na versão portuguesa da editora Ulisseia, com data de 2011).

É preciso começar bem. Porque o todo está contido na parte. E porque existe uma diferença substancial entre a literatura que mal nos arranha a superfície e a que pode mudar-nos para sempre.

Eis-me a largar tudo para seguir o rasto do homem-insecto nos dédalos da eternidade fixada na palavra impressa. Como se fosse a primeira vez, como se fosse a única, como se fosse a última.

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Mariana "Mouch" Mortágua

por João Campos, em 18.09.16

"(...) do ponto de vista prático, a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro."

 

Lendo esta frase fora de contexto, diria que talvez se tratasse de um trecho de uma hipotética tradução portuguesa de Atlas Shrugged - as palavras e a ideia que elas sugerem seriam facilmente proferidas por um dos vilões-caricatura que Ayn Rand usava para zurzir naquilo que percebia como "socialismo". Como se sabe, porém, a realidade tende a superar a ficção, e eis que afinal não foi um fictício Wesley Mouch mas sim a muito real Mariana Mortágua quem proferiu estas palavras, num comício (ou algo que lhe valha) do Partido Socialista. O que não deixa de ser um tanto ou quanto perturbador: qualquer pessoa que tenha lido Rand com um mínimo de atenção repara na inverosimilhança dos seus heróis, mas pelos vistos os vilões do Objectivismo não só não são implausíveis como ocupam posições de poder entre nós. Estamos bem arranjados.

(via O Insurgente)

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Os bois, os nomes, e os géneros

por João Campos, em 09.09.16

O destaque do Eduardo Pitta é interessante, mas merece um reparo. Apesar de os romances que o celebrizaram (Do Androids Dream of Electric Sheep?A Scanner Darkly e este The Man in the High Castle) poderem ser considerados distopias, será um tanto ou quanto redutor dizer que Philip K. Dick foi um dos guru da ficção distópica - e logo ele, figura maior da literatura de ficção científica, género que desenvolveu de forma ímpar em inúmeros contos a partir dos anos 50 (é ler RoogPaycheckSecond Variety, entre tantos outros) e em vários romances (aos que citei poderia juntar Ubik ou The Martian Time-Slip) que escreveu até à sua morte prematura em 1982. É sempre simpático ver a "elite" literária a olhar para o lado uma vez por acaso e a dar atenção a textos de géneros que regra geral considera menores, mesmo quando continua a ser incapaz de ver para lá das referências que toda a gente já conhece (The Man in the High Castle, estando muito longe de ser o melhor texto de PKD, até teve por cá uma outra edição há poucos anos, e uma adaptação televisiva recente); mas não lhe cairiam os parentes na lama por tratar os bois pelos nomes. 

 

(Também será muito discutível a afirmação de que [p]ara muita gente, Dick é o homem por trás de Blade Runner, o filme que Ridley Scott fez a partir do romance Do Androids Dream of Electric Sheep?; na história da literatura de ficção científica, e no contexto dos anos 50 e 60, PKD é tão incontornável como Heinlein, Asimov e Clarke; os seus romances e as suas colectâneas de contos continuam a ser reeditadas com regularidade no mercado de língua inglesa; e muitos outros textos seus têm sido adaptados para cinema e televisão. Dito de outra forma: é bem possível que PKD seja muita coisa para muita gente. Mas talvez não valha a pena entrar por aí.)

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Batatas

por Ana Vidal, em 21.06.16

"Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria e ousadia da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."

 

(Quincas Borba, Machado de Assis)

 

Custa a engolir, mas é assim mesmo. Entre a justiça e a sobrevivência nunca há muito que escolher.


Nota: A perenidade dos grandes textos deixa-me sempre fascinada.

 

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O fascínio da literatura

por Pedro Correia, em 21.05.16

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Até que ponto uma obra literária pode alterar um percurso humano? Não falta quem menorize o tema, mas eu incluo-me entre os que são capazes de acreditar que um livro pode mudar uma vida - ou até as vidas de milhões de pessoas. Acredito que alguém queira voar após ler Vol de Nuit, de Saint-Exupéry. Ou navegar depois de ler Lord Jim, de Conrad. Ou viajar a Ferrara só por ter lido O Jardim dos Finzi-Contini, de Giorgio Bassani. Ou conhecer Pamplona à boleia de Hemingway - e permanecer em Navarra para sempre.

São inúmeros os casos de livros que mudam uma vida. Napoleão - dizem - nunca mais foi o mesmo depois de ler O Príncipe, de Maquiavel. Pessoa imitou um dos seus autores favoritos, Poe, em parte da obra e grande parte da existência. Inácio de Loyola abandonou a carreira das armas ao ler uma biografia de Cristo. Marx, para o bem e para o mal, alterou as vidas de milhões de pessoas. E Nietzsche também - ao ponto de ter alucinado um certo cabo austríaco que combateu na I Guerra Mundial e usava um bigodinho ridículo. Ibsen influenciou legislação sobre os direitos das mulheres. Conan Doyle e Simenon marcaram tantos de tal forma que até personagens saídos da sua imaginação, como Sherlock Holmes e o comissário Maigret, se tornaram mais célebres do que os autores, gerando romagens a Baker Street em Londres e ao Boulevard Richard-Lenoir em Paris. Romeu e Julieta, figuras de papel, seduziram mais do que inúmeras pessoas de carne e osso. E já nem falo dos mundos que se descobrem em cada livro da Bíblia...
Sabemos sempre de onde partimos com um livro na mão. Mas somos incapazes de imaginar até onde ele nos conduz. É também isto - é sobretudo isto - que faz o fascínio da literatura.

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Milan, quem dera!

por Inês Pedrosa, em 12.05.16

Milan Kundera tem levado a vida a protestar porque críticos e académicos insistem em definir os seus romances como "políticos". Sobre A insustentável leveza do ser repetiu incessantemente - e com bons resultados - que se trata de "um romance de amor". O meu problema é exactamente o contrário: quando publiquei o meu penúltimo romance, que falava do 11 de Setembro, de uma iraniana fugida de Inglaterra para escapar de um casamento forçado, que em Portugal se vê obrigada a fugir dos que querem fazer dela uma Vítima Exemplar e do drama identitário dos filhos post-modernos de pais anónimos, entre outros assuntos políticos contemporâneos, a maioria da crítica descreveu-o como um romance de amor. A propósito desse romance, um jornalista perguntou-me, ultrajado: "Por que razão as mulheres preferem sistematicamente os homens casados?". O romance tinha, de facto, uma mulher que se apaixonava por um homem casado, mas creio que, de Tolstoi a Kundera, inúmeros escritores lhe poderiam explicar que o contrário também acontece, e que não há nenhuma estatística divina que faça desses casos um destino. Pedro Mexia declarou, na revista Ler, que eu me tenho ocupado a recuperar a "tradição" do "romance sentimental". A minha mãe gostaria que assim fosse, e creio que o fantasma de Bernardim Ribeiro também. Se ao menos eu pudesse sentar-me com Milan Kundera no café de Flore a trocar cromos: eu ficava com o rótulo do "romance político", ele com o do "romance de amor". E talvez assim lhe dessem finalmente o prémio Nobel que ele tanto merece e que, certamente por amor, lhe têm negado.

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Lógica da Literatura

por Bandeira, em 24.04.16

Shakespeare morreu há 400 anos.

Cervantes morreu há 400 anos.

Logo, Cervantes era Shakespeare.

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Para sempre

por Isabel Mouzinho, em 28.01.16

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Hoje fui ver o mar. Na realidade não ia vê-lo mas aproveitei. E à primeira impressão  eu via-o mas não o via, porque via dele apenas a realidade imediata em ondas e espuma. Foi preciso que deixasse vir ao de cima o que oculto se me queria revelar. Abandonei-me a ele e deixei. Mas o que então se me revelou foi uma nebulosa confusa de emoções , memórias, associações indistintas, qualquer coisa que se anuncia como numa casa desabitada. O indizível. O flagrantemente presente e que se não acaba de esclarecer. O estranho que nos perturba e não sabemos de onde vem. A praia estava deserta e o mar convulsionava-se num mundo ainda por nascer (...) Eu podia enumerar todos os elementos do que presenciava, mas havia outra realidade que ficava intacta à minha enumeração. Essa, essa - dizê-la. Não é aí precisamente que começa o "escrever bem"? Por isso a escrita não tem que ver com o real mas com o outro real dela. (...) Há no homem o insondável da sua interrogação. Mas só o artista a conhece e a pode revelar aos outros para ela ser desses outros e a verdade do ser se lhes iluminar. Escrever bem. Ser sensível ao que se quer revelar e ser só a sua revelação. E o mundo existir porque ele o revelou. 

 

(Vergílio Ferreira, Pensar)

 

Tinha dezassete anos quando o li pela primeira vez. Ou, pelo menos, quando se me revelou. E essa leitura marcou-me de uma forma tão profunda, que determinou de certo modo a escolha do caminho, porque me levou a decidir em definitivo que queria estudar literatura.

Escritor, ensaísta, professor, de personalidade forte e humor mordaz, dele se diz que morreu a escrever, aos oitenta anos, e que quis que o seu caixão ficasse virado para a Serra da Estrela, que ele tanto amava. Verdade ou não, o que importa é o que nos fica: uma obra imensa que, goste-se muito ou não se goste nada, ocupa um lugar central na literatura portuguesa do século XX. É, por isso, incompreensível e imperdoável que tenha sido retirado dos programas de Português do Ensino Secundário...

Vergílio Ferreira faria hoje cem anos. Para mim, será sempre um dos melhores.

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Centenários

por Isabel Mouzinho, em 08.01.16

Dois grandes nomes das letras portuguesas nasceram há cem anos, com cerca de seis meses de diferença. Vergílio Ferreira (um dos meus escritores portugueses favoritos) surge em grande destaque no último número do JL, que lhe dedica várias páginas com textos de Helder Godinho, Alberto da Costa e Silva, Lídia Jorge, Eduardo Lourenço e um notável artigo de Maria Alzira Seixo, intitulado "Vergílio Ferreira, cem anos de inquietação", do qual transcrevo um pequeno excerto, e que constitui razão mais que suficiente para comprar o jornal, apesar de ser quase escandaloso o preço a que é vendido.

(...)  Vergílio, sobretudo a partir de Aparição, 1959, prossegue uma via de criação direccionada muito própria, aureolada pela filosofia que sempre o acompanha: a meditação sobre o destino humano e modos descontínuos de o exprimir ("espantados", dir-se-ia pensando em Raul Brandão; "alarmados", é o termo próprio no léxico de Vergílio). E que ele vai, a par, desenvolvendo em escritos reflexivos, desde Do Mundo Original e Carta ao Futuro, passando por decisivos tomos de Espaço do Invisível (onde indagação filosófica e literária se interligam) e certos trechos do diário Conta-Corrente, bem como de outras obras teorizantes de que destaco o seu final Pensar, de 1992, conjunto de textos apologais, por vezes divertidos, sempre de profundo alcance. (...)

A inquietação com que se elabora a obra de Vergílio decorre da sua temática mas está patente, antes de mais, no modo como estrutura os seus romances e a sua frase, no tipo de vocabulário que selecciona, do qual certos termos passaram a reenviar, directa ou indirectamente para o seu discurso típico. É uma inquietação que toma também o leitor, o que se deixa prender pelo seu fascínio; e que dará longo e diversificado caminho a quem pecorrer a obra que nos legou. Inquietação humana também, não apenas literária, mas fortemente literária. Porque a problemática do homem, sujeito da vivência das coisas e do próprio discurso, vai nesta obra muito além do que acima sugeri: ultrapassa a questão do "eu" para o abordar em vários modos que esse "eu" manifesta.

Foi também pela mão e pela sabedoria da minha querida professora Maria Alzira Seixo que descobri em Mário Dionísio um escritor fascinante, apesar de injustamente esquecido, como outros: Abelaira, por exemplo.

Na comemoração do centenário do seu nascimento, o Projecto Sinestesia do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em colaboração com a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, o Museu do Neo-Realismo e a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo organizam de 27 a 29 de Outubro um Congresso Internacional sobre a vida e obra deste ensaísta, crítico literário e de arte, poeta, romancista, pintor, pedagogo, dando a conhecer as múltiplas facetas de uma das personalidades mais marcantes da cultura portuguesa do século XX.

Para quem não conhece, vale a pena fazer uma visita à Casa da Achada, também designada Centro Mário Dionísio, situada na Lisboa mais típica, entre a Mouraria e o Castelo, mesmo por trás da Igreja de São Cristóvão, onde está reunido o espólio do autor, tanto de pintura como de literatura, o arquivo pessoal e a sua biblioteca privada.

De todas as actividades e celebrações previstas para 2016 a propósito destes dois centenários, destaco ainda o ciclo de conferências: "Vergílio Ferreira e Mário Dionísio: Literatura, pensamento e arte", que terá lugar no CCB já entre 15 de Fevereiro e 14 de Março, sempre às segundas, das 18 à 19h, e que certamente contribuirá para nos dar a conhecer um pouco melhor o pensamento e a obra destes dois autores e para nos fazer ver de forma ainda mais clara a importância das palavras, da literatura e da poesia; e como elas podem fazer-nos pensar, modificar-nos, mudar a nossa vida, ajudar-nos  a viver melhor. 

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Quando a realidade supera a ficção

por Diogo Noivo, em 03.01.16

Tenho o hábito de dizer que a realidade supera sempre a ficção. É assim no amor, no desgosto, na angústia, na raiva, no medo. E no ridículo. E ninguém melhor que o nosso Ministro da Cultura, João Soares, para validar esta tensão dicotómica entre o ficcionado e o real – embora não pelas razões que possa imaginar, caro leitor.

O responsável pela pasta da cultura tem um alter-ego escritor. Até aqui nada de extraordinário. A maravilha começa quando temos presente que o faz sob os pseudónimos Hans Nurlufts e John Sowinds. Não lhe dizem nada? Não tem importância, o Observador explica: “O primeiro é uma junção de Hans/Johan, o equivalente a João, com Nur (só/somente) Lufts (ares) – João Só Ares, portanto. O mesmo nome que podemos aplicar a John Sowinds.” A destreza criativa investida nos pseudónimos é, no mínimo, sublime. Mas enfim, haja indulgência e entendam-se estes pseudónimos como prova do carácter bonacheirão do autor, bem como da louvável capacidade para não se levar demasiado a sério.

Porém, a história não fica por aqui. A obra de Nurlufts e Sowind é diversificada, há naturalmente muita política, mas não se pode menosprezar a atenção dada ao erotismo. Os exemplos são muitos e só o decoro (e alguma vergonha alheia) me impele a ser parco em transcrições. Ainda assim, atente-se apenas neste pequeno excerto:

 

Pero sólo en Barcelona surgió la oportunidad de que me abriese tranquilamente sus bellas piernas y que me dejase admirar su coño.

En esa época ella se había rapado el vello, de una forma simétrica y rectangular, prolongando en vertical el recorte de los labios de su coño."

 

Em suma, um ministro português chamado João Soares, sob os pseudónimos Hans Nurlufts e John Sowinds, dedica-se à escrita em castelhano (ou assim parece) de cálidas aventuras político-eróticas. Não há mente na ficção literária capaz de se lembrar de um personagem como este.

Em “Morrem Mais de Mágoa”, Saul Bellow escreve “ser visto literalmente drena a humanidade de cada um”. Certo. Mas João Soares certamente não precisava de tanto para escapar do jugo opressor da sua realidade.

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Rex Stout e um teste de geografia

por José António Abreu, em 27.10.15

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Teria treze anos. Acabei o teste de Geografia em pouco mais de metade do tempo disponível. Como não era possível sair antes da hora, saquei da pasta o livro Duplo Crime na Rádio, de Rex Stout (editado na saudosa colecção Vampiro), e pus-me a ler. A professora (muito aprumadinha mas, a esta distância, pouco marcante) não gostou. Perguntou-me se estava certo de já ter acabado e se não achava melhor rever as respostas. Disse-lhe que sim e que não, respectivamente. Já não me recordo da nota que tive mas creio ter sido ligeiramente pior do que seria de esperar (modéstia à parte, à época era bom aluno), o que, evidentemente, só pode atribuir-se a despeito. Contudo, lembro-me do prazer que extraí do livro, o primeiro que li com essa personagem peculiar, Nero Wolfe. 

Wolfe terá sido um dos últimos detectives clássicos, que descobriam o assassino quase exclusivamente através do raciocínio - das «celulazinhas cinzentas», como lhes chamava Hercule Poirot. Gordo, apaixonado por comida e orquídeas, raramente saía de casa e mais raramente ainda deixava os casos perturbarem-lhe a hora das refeições ou o tempo destinado a cuidar das orquídeas. Era o seu assistente, Archie Goodwin, quem calcorreava as ruas de Nova Iorque e visitava os apartamentos dos suspeitos. Archie, sendo em grande medida um puro Watson (ao ponto de narrar as aventuras), talvez ainda assim fizesse a ligação à modernidade: era altivo mas boa pessoa, céptico mas disposto a correr riscos, mordaz mas não agressivo, fisicamente apto mas intelectualmente mediano. Digamos a mistura de uma parte de Philip Marlowe com três de inúmeras personagens de livros e séries televisivas desde então (as NCIS actuais, por exemplo).

Já não lia um livro de Stout há décadas quando, no ano passado, aproveitei uma promoção da Amazon e comprei um para o Kindle. Encontrei um estilo de escrita bastante menos básico do que temia e obtive um prazer quase tão elevado quanto recordava.

Faz hoje 40 anos que Rex Stout morreu.

 

(Foto recolhida num blogue - infelizmente já inactivo - sobre a colecção Vampiro.)

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Resistindo ao desejo de gastar seis euros

por José António Abreu, em 23.10.15

Em pé junto ao expositor da Fnac, leio do princípio ao fim a excelente entrevista de Francisco José Viegas a Pedro Mexia incluída no último número da revista Ler. Noto que a revista traz uma segunda entrevista, ao israelita David Grossman, bem como artigos sobre Camilo Castelo Branco (falecido há 125 anos, merecia muito mais atenção do que aquela que recebe), Susan Sontag (alguém que me irrita e fascina em igual medida) e literatura síria (que desconheço em absoluto). Sinto uma enorme vontade de a comprar. Não o faço. Mas ainda reparo que a tiragem já desceu até aos 7 mil exemplares.

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Uma literatura sem personagens

por Rui Rocha, em 05.08.15

A contabilidade das rivalidades, fobias, invejas, choques e altercações entre escritores é tão longa que daria, ela própria, um romance grande ou até, eventualmente, um grande romance. Poucos terão atingido, é certo, os patamares de violência verbal de Mark Twain. Sobre Jane Austen, só para dar um exemplo, Twain afirmou que, depois de ler Orgulho e Preconceito, era tomado por uma indomável vontade de "desenterrar a autora e de a golpear no crânio com a sua (dela) própria tíbia". Uma bela metáfora. Esperemos... Mas, para além do prolífico Twain, não faltam casos de mimos entre escritores. Sobre Hemingway disse Faulkner que "nunca foi conhecido por utilizar palavras que obrigassem o leitor a usar um dicionário". E, no uso de direito de resposta, Hemingway não evitou um contido "pobre Faulkner que acredita que os grandes sentimentos vêm das grandes palavras". Virginia Woolf também não foi meiga com Joyce: "Ulisses é o trabalho de um universitário entediado enquanto espreme as suas borbulhas". Ou algo do género. Como meigos não foram Vargas Llosa e Garcia Márquez quando decidiram discutir o mérito das suas obras, literárias ou mais prosaicas, não se sabe, ao murro e à estalada. Pois bem. Se tudo isto é normal, se os escritores, grandes ou menores, não deixam por isso ou por causa disso de serem humanos, sujeitos às misérias das invejas que nos roem, dos odiozinhos que nos assolam, das dores de cotovelo que nos comem as articulações e a lucidez, é natural que os escritores portugueses também não tenham escapado. E aí tivemos Saramago e Lobo Antunes a prová-lo. Todavia, se os autores portugeses,  nesta coisa da ciumeira e do picanço, não fogem da comezinha normalidade, apresentam todavia uma nota de originalidade que me intriga. A literatura faz-se dos escritores, das obras, das ideias, do estilo. Mas também se faz das personagens. E aí estão, quantas absolutamente inesquecíveis, Quixote, Daedalus, Madame Bovary, Sherlock Holmes, Harry Potter, Tom Sawyer, Raskolnikov, Josef K, Alice, Leopold Bloom, Ana Karenina, Miguel Strogoff e tantas, tantas, que se fizeram muitas vezes maiores do que os autores, maiores do que a obra. Ora, como se sofresse de uma anomalia genética, a literatura portuguesa, tendo produzido grandes obras e escritores, nunca foi capaz de dar ao mundo extraordinárias personagens. Às personangens portuguesas falta invariavelmente espessura, golpe de asa, coragem e liberdade para se soltarem das páginas dos livros em que nasceram, abraçando a universalidade. Temos uma literatura de escritores, de livros, de estilos, de pensamento, mas não uma literatura de personagens. Como se os autores, para além das corriqueiras rivalidades com outros escritores, agissem deliberadamente com o objectivo de abafar as pessoas fictícas que dão à luz, não lhes permitindo superar em fama e proveito o próprio criador.

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Ressaca do vitorianismo

por José António Abreu, em 14.02.15

 

Lytton Strachey, o amigo de Woolf com quem ela esteve comprometida a certo ponto, teve numerosas relações homossexuais, muito embora também ele tenha assentado num arranjo de longa duração, no seu caso com Dora Carrington, uma jovem mulher que o adorava, e o marido dela, Ralph Partridge, que ele adorava.

Sandra M. Gilbert, introdução a Orlando, de Virginia Woolf, edição Penguin Classics. Tradução minha.

 

Resta a questão: quem adorava a Dora? Desde que Ralph a adorasse, era o triângulo perfeito.

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Instituições

por José António Abreu, em 06.02.15

Ele pedia a Deus que os ateus estivessem certos. Porque a existir uma vida para além da morte seria institucional porque alguém teria de a gerir e ele não conseguia passar por aquilo outra vez. E a única coisa pior seria a reencarnação e o regresso ao oceano de instituições humanas.

Norman Rush, Mortals. Edição Jonathan Cape. Tradução minha.

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À primeira vista e para sempre

por José António Abreu, em 05.02.15
(Um comentário deixado há dias num post da Francisca Prieto leva-me a republicar este texto, de Novembro de 2010. Rush lançou entretanto Subtle Bodies, editado em Portugal pela Quetzal naquela coisa a que a maioria das editoras nacionais chama português. Obviamente, comprei-o em inglês.)
 _________________________
 

Norman Rush, em entrevista à The Paris Review:

 

INTERVIEWER

So which novelists were you reading on your own?

 

RUSH

Conrad and Dostoevski above all. Conrad continued to be a huge revelation to me about serious political thinking taking place in a novel. Under Western Eyes and, especially, The Secret Agent. Dostoevski meant Notes From Underground and The Idiot, especially, though it’s very hard to privilege one of his books over another. All were important to me.

But the most significant literary moment at Swarthmore came when I met Elsa. Elsa was everything. I was only there a few months before we met but—she would do a much better job with these stories. Shall we invite her to join us?

 

INTERVIEWER

Why not?

 

ELSA

Well. Do you know Swarthmore? It was in their main building, in a quite formal parlor with velvet sofas and big oil paintings. I was sitting on one of these sofas with—my God, it was heaven!—young men all around, talking to me. At least five. Maybe eight. Some were sitting on the floor.

 

INTERVIEWER

All competing for your attention?

 

ELSA

I was naïve. I was eighteen. I’d only had one boyfriend and never got over being shy with him, so I didn’t think of myself as holding court. I just thought, Gosh, this is fun! No good dates in high school and now all of these conversations, with clever men asking my opinion about philosophy to show how sophisticated they were. At some point a mysterious stranger appeared in the doorway, wearing a black coat. He stood and listened for a minute, and when someone asked me a question—I wish I could remember what; I’ve thought of it many times—this man in the doorway said, “You don’t have to answer that.”

 

RUSH

I thought the question was intrusive.

 

ELSA

I actually wasn’t upset by the question, though I did understand what this man in the doorway meant. Then one of my couch suitors said something provocative, and the man gave a reply that infuriated them all. He said—instead of arguing, he said—

 

RUSH

I gave them a reading recommendation.

 

ELSA

And they hated it. He said, Why don’t you read such and such? Which is very annoying, of course. It’s a way of saying, “You’re not equipped to have this conversation with me.” I wish I could remember the book he recommended, though in a way it doesn’t matter, because Norman has done that so many times in his life.

 

RUSH

She means that I’ve often been aggressively, unpleasantly authoritative.

 

ELSA

Correct. Though at the time, I was smitten. I went back to my dormitory and told everyone that I’d met the man I want to be with forever. I was completely taken by his gestalt. And even later, after we’d married and departed Swarthmore, I remained this way, though when I disagreed with him, I certainly said so.

 

Rush fez setenta e sete anos a 24 do mês passado. Publicou o primeiro livro, Whites, em 1986, já depois dos cinquenta, e desde então apenas mais dois (tem o quarto quase pronto). Em parte, tal deve-se ao facto de em 1978 ter queimado tudo o que escrevera até então. Reside numa zona rural do Estado de Nova Iorque, na casa que partilha com Elsa há quarenta e nove anos. Escreve no sótão, em três máquinas de 1955 (duas Royals, uma Underwood) colocadas lado a lado (usa uma das Royals para a primeira versão do texto, a segunda para revisões, a Underwood para apontamentos). Organiza gigantescos dossiers com as características das personagens e depois permite que estas definam o rumo dos acontecimentos. Elsa torna-se leitora e revisora assim que a primeira versão da primeira vintena de páginas está escrita. Marca a vermelho as passagens que lhe suscitam dúvidas e discute-as com Norman; umas são alteradas, outras não. Diz que ele já foi mais intransigente. Norman admite embaraço por uma frase de Mating (National Book Award em 1991), que decidiu manter no texto apesar de contestada por ela (parecia-lhe inadequada a uma personagem feminina), ter sido escolhida por um crítico, em cinco centenas de páginas, como exemplo de falta de verosimilhança. Diz que Elsa é excelente a habitar as personagens. Parecem estar em paz, com a vida e um com o outro, mas nem sempre terá sido assim. Enquanto jovem, Norman era politicamente radical. Foi condenado a dois anos de prisão por recusar combater na guerra da Coreia, tendo escrito uma carta a Eisenhower explicando que era pacifista e se opunha a qualquer tipo de violência (não usou o estatuto de objector de consciência porque este implicava acreditar numa religião e ele também recusava fazer isso). Após abandonar Swarthmore com Elsa, quis que vivessem em comunas. Elsa estava grávida e detestou a experiência mas, negando-se a renunciar à visão que tivera naquele primeiro encontro (que ele era o homem com quem iria passar o resto da vida*), não desistiu. Com o tempo, foi-o transformando numa pessoa menos radical. E ele sabe-o: But I'll tell you, her patience with my arcane fiction was part of a greater patience, over a sort of battle we waged for years. Some couples don't ask much of one another after they've worked out the fundamentals of jobs and children. Some live separate intellectual and cultural lives, and survive, but the most intense, most fulfilling marriages need, I think, to struggle toward some kind of ideological convergence. I was a sectarian leftist when we met. Radicalism was essential to my self-definition. So there had to be a long period of argument and discussion before I developed, let's say, a less immanentist view of social change. Also—and this is relevant to Mortals—I was sort of a stage atheist when we first got together. I just couldn't believe religion was still happening. She had a much more humane view of the whole business. De entre os vários empregos que tiveram, Norman trabalhou como livreiro e professor e Elsa como tecedeira, designer e professora de design. No final dos anos setenta e início dos oitenta, trabalharam para o Peace Corps no Botswana, país onde decorre a acção dos três livros de Norman (o próximo passar-se-á nos Estados Unidos). Na dedicatória de Mortals, o último publicado (em 2003), que vou finalmente tirar do lugar da estante onde espera ser lido desde que as referências sempre tão admiravelmente isentas de incerteza deste filho da mãe e um preço absurdamente baixo para um calhamaço hardcover de 700 páginas me fizeram encomendá-lo à Amazon, Rush escreveu: For my Muse and Critic, with gratitude for the last ten years of extraordinary forebearance, creative impatience, unfailing love. Elsa, you are unique. Pode muito bem ser excesso de optimismo (algo de que sou culpado ainda muito mais vezes do que provavelmente se justificaria) ou distorção de leitura induzida pelo efeito conjunto do sono (passa da meia-noite) e da necessidade de ir ao oftalmologista mas vou guardar o número da revista como prova de que tanto o amor à primeira vista como o amor eterno (bom, pelo menos até à morte) são realidades humanas. E de que ambas se podem dar bem com espíritos fortes e na presença de livros. Muitos livros.
 
* São sempre as mulheres a sabê-lo primeiro e a agir de modo a que possa ser verdade. Contudo, o patamar de dificuldades que estão dispostas a suportar para manter a visão afigura-se-me cada vez mais baixo. (Com honrosas excepções, os homens nunca foram bons no campo do auto-sacrifício em nome do interesse da companheira.)

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O sortilégio da literatura

por Pedro Correia, em 20.12.14

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Estas coisas nunca acontecem exactamente como as planeamos - aliás, os imprevistos fazem parte do fascínio da leitura.

No final do ano passado tracei um objectivo para 2014: só leria de Janeiro a Dezembro livros da autoria de escritores galardoados com o Nobel. Defini esta meta após concluir que apenas conhecia, enquanto leitor, menos de um terço desses autores: era uma lacuna que urgia colmatar.

 

As coisas correram como planeei, mas só em parte.

Este desafio que lancei a mim próprio foi-me útil, sem dúvida. Li pela primeira vez obras destes 11 escritores que receberam o Nobel: Pär Lagerkvist (vencedor em 1951), Juan Ramón Jiménez (1956), Günter Grass (1999), Anatole France (1921), Luigi Pirandello (1934), Kenzaburo Oe (1994), Ivo Andric (1961), Naguib Mahfouz (1988), Mikail Cholokov (1965), William Golding (1983) e Yasunari Kawabata (1968). Além disso li ou reli romances, novelas ou contos de outros escritores também galoardoados com o Nobel mas cuja obra já conhecia: José Saramago (distinguido em 1998), François Mauriac (1952), William Faulkner (1949) e Ernest Hemingway (1954).

 

Mas a dada altura quebrei a regra que impusera a mim próprio. E acabei por alterar o plano inicial, mudança de que não me arrependo. Como poderia? Sem ela, neste ano que agora acaba não me teriam passado pelas mãos livros de Chesterton, Cortázar, Jack London, Simenon, Ray Bradbury, Joseph Roth, Conrad, Cardoso Pires, Remarque, Rubem Fonseca, Graham Greene, Jane Austen, Virginia Woolf, Scott Fitzgerald e John Le Carré, entre vários outros.

Livros de autores que não se cruzaram com o Nobel, mas que contribuíram para prestigiar, dignificar e engrandecer a literatura. E que, à distância de décadas ou de séculos, mantêm o condão de nos emocionar, de nos dar asas, de nos rasgar horizontes, de nos ensinar a decifrar as encruzilhadas do mundo ou os abismos da alma humana.

 

Nunca considero perdida qualquer parcela do tempo que dou por mim rendido, enquanto leitor grato e arrebatado, ao infindável sortilégio da literatura.

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Penso rápido (57)

por Pedro Correia, em 25.10.14

A tradução (sei por experiência própria) é uma actividade incompreendida e mal remunerada. Há felizmente boas e notórias excepções, mas muitas vezes as traduções ficam a cargo de quem não tem preparação para o efeito. Não falo em termos estritamente técnicos, mas estéticos, literários. Traduzir uma obra literária exige mais do que sólidos rudimentos linguísticos: exige também uma adequada preparação literária. Que transcenda a simples tradução literal. Para não vermos a expressão idiomática "it's raining cats and dogs" traduzida por "chovem gatos e cães".
Não por acaso, durante décadas algumas das mais celebradas traduções em Portugal estiveram a cargo de conceituados escritores. E nem preciso referir o exemplo já histórico de Eça de Queirós, tradutor d' As Minas de Salomão. Basta mencionar - entre tantos outros, no século XX - Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, João Gaspar Simões, Cabral do Nascimento, Adolfo Casais Monteiro, José Blanc de Portugal, Jorge de Sena, José Saramago, Mário-Henrique Leiria, Alexandre Pinheiro Torres, Urbano Tavares Rodrigues e José Cardoso Pires.

Hoje isso sucede cada vez menos. Com reflexos óbvios na perda de subtileza da linguagem e na degradação da qualidade literária de muitas traduções.

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Encontro em Samarra

por Rui Herbon, em 16.10.14

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Havia um comerciante em Bagdade que mandou o seu servo comprar provisões ao mercado, e daí a pouco o servo voltou, pálido e trémulo, e disse: «Senhor, agora mesmo, quando estava no mercado, fui empurrado por uma mulher, no meio da multidão, e quando me voltei vi que fora a Morte quem me empurrara. Ela olhou-me e fez um gesto ameaçador; por isso, empreste-me o seu cavalo, e sairei desta cidade, para escapar ao meu destino. Irei para Samarra, e aí a Morte não me encontrará». O comerciante emprestou-lhe o seu cavalo, o servo montou nele, enterrou-lhe as esporas nos flancos e partiu tão velozmente quanto o cavalo podia galopar. Então o comerciante foi ao mercado e viu-me, de pé, entre a multidão; aproximou-se de mim e disse: «Por que fizeste um gesto ameaçador ao meu servo quando o viste esta manhã?». «Não foi um gesto ameaçador», respondi, «foi apenas um sobressalto de surpresa. Fiquei espantada por vê-lo aqui, em Bagdade, pois eu tinha um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra».

 
in Sheppey, de Somerset Maugham

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Sobre os prémios literários

por Rui Herbon, em 09.10.14

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Talvez isto dos prémios não seja assim tão importante. Na realidade, qualquer escritor fará bem, se puder, em não conceder a menor importância a um prémio recebido, mas aqueles que o sufragam e outorgam estão obrigados a conceder-lhe a maior importância, se não querem incorrer em cinismo. O premiado é acidental e transitório, para não dizer efémero; os que premeiam, em contrapartida, costumam ser insistentes, para não dizer permanentes, e, em boa medida, a sua lista de galardoados é aquilo que os define e torna mais ou menos prestigiados e respeitáveis enquanto premiadores, enquanto autoridades na matéria. O seu prémio é a sua lista, que têm portanto que ir confeccionando com extremo cuidado. Mas, regressando à importância dos prémios, pensemos por exemplo no Nobel, que, não tendo um carácter meramente local, tem um carácter temporal, pois se os mais recentes não foram submetidos aos rigores do tempo, e portanto podem gozar ainda de crédito na roleta da memória, em relação à maioria dos mais antigos há já décadas que um croupier expedito, insolente e desavergonhado os expulsou para uma pobre mesa de bilhar de um salão recreativo de aldeia. Ora quem se recorda hoje os senhores Mommsen, Mitral, Spitteler, Rolland e Sillanpää? Quem me sabe dizer se o prémio foi concedido a Galsworthy ou Gawsworth e qual a especialidade do dito premiado? E o que dizer da lista dos não premiados, que inclui nomes como Proust, Conrad, Joyce, Musil ou Borges? Na realidade a academia sueca parece cometer erros iguais ou semelhantes aos de qualquer júri de província, e não receber esse prémio, para um grande escritor, talvez seja uma honra muito maior.

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