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Mas a candidatura de Lisboa era assim tão espectacular?

por João Pedro Pimenta, em 23.11.17

Com o risco de ser interpretado como "defensor dos valores tripeiros" ou coisa parecida, tenho de discordar dos meus confrades do Delito na matéria "se Lisboa fosse candidata a receber a EMA teria muito mais hipóteses de ganhar do que o Porto". 

 

Sim, o Porto perdeu, ficou em sétimo e em boa verdade só por muita fé é que se pensaria que podia ganhar. A candidatura tinha alguns aspectos vagos e dificilmente podia ombrear com outros concorrentes. Mas pensar que Lisboa tinha mais hipóteses é outra quimera. Até agora, vi escrito vezes sem conta que Lisboa era uma das preferidas, que tinha muito mais possibilidades de ganhar, etc. Pois bem, não vi um único argumento que me demonstrasse essas tais hipóteses. 

 

 

O Luís refere por exemplo que a Agência só podia ir para uma capital. Ora a cidade que chegou ao fim com mais pontuação foi Milão, só preterida em sorteio posterior a favor de Amsterdão. O Porto ficou a par de Atenas e à frente de capitais como Viena, Helsínquia, Sófia, Bucareste ou Varsóvia. Se ser capital nacional era mesmo um requisito (e isso não aparecia em parte nenhuma, senão não concorreriam cidades que não o são), ou houve distracção por parte das entidades responsáveis ou então era apenas uma condição simbólica. O que só mostra que a candidatura do Porto era melhor do que o que se pensava.

 

O Embaixador Seixas da Costa, também aludido pelo Luís, acha que "Lisboa era a única cidade portuguesa com condições potenciais para albergar" a agência. Mais uma vez não nos são apresentados critérios, excepto o da "visibilidade excepcional que a cidade está a ter por toda a Europa". Se a razão é essa, recordo que a também o Porto tem neste momento uma visibilidade internacional que provavelmente nunca antes tinha conhecido. Não por acaso, foi eleito, por três vezes em seis anos, "melhor destino europeu". Vale o que vale, mas a votação que lhe permitiu o tri-galardão teve sobretudo votos estrangeiros a favor. Não sendo um argumento de enorme peso, demonstra que também a visibilidade portuense está em alta. E não esquecer, evidentemente, a repercussão que a eleição de Rui Moreira teve, com honras de reportagem e entrevista por parte de jornais como o Le Monde e o New York Times.

 

O Diogo recorda-nos que os funcionários da EMA preferiam ir para Lisboa. Podia ser um argumento com algum peso. Simplesmente, diz-nos a notícia, tratou-se de um inquérito interno revelado apenas pelo presidente da Apifarma, e sem que os resultados fossem "publicados ou comunicados aos estados-membros". Ou seja, temos apenas a "revelação" do sr presidente da Apifarma, sem qualquer confirmação. Aliás, ouvimos muitos falsos alarmes ao longo deste processo. Ou não se lembram do favoritismo ser atribuído a Bratislava?

 

De resto, não ouvi quaisquer outros argumentos que atestassem as enormes hipóteses de a candidatura Lisboa ser tão melhor que a do Porto. Pelo contrário, ouvi os habituais desabafos de que "era a capital", a maior cidade", "essas coisas devem ficar onde têm mais representatividade (Sic)", etc. Excepto talvez um: o de que Lisboa teria mais linhas aéreas. É um facto. Mas para além do aeroporto de Pedras Rubras apresentar melhores condições, é bom lembrar que a supressão de várias e importantes linhas aéreas do Porto partiu daquela empresa que não sabemos se é pública ou privada chamada TAP, com explicações frouxas e atabalhoadas.

 

Por outro lado, há um argumento que se não é exclusivo, joga pelo menos com bastante força contra a candidatura de Lisboa: o facto de já lá haver duas agências europeias. Só uma cidade tem mais do que duas: Bruxelas. Tirando a "capital da UE", e na possibilidade remotíssima de ganhar, Lisboa tornar-se-ia a única cidade com três agências, o que seria uma caricatura chapada do centralismo à portuguesa.

 

Assim sendo, explica-se melhor a atitude do governo, que depois de escolher Lisboa, mudou subitamente para a candidatura do Porto: sabia-se que nem uma nem outra teriam quaisquer hipóteses. E tentou-se assim dar uma aura de descentralização de fachada. Mais penoso ainda: viram-se deputados, como Catarina Martins, a retorquir que o facto de outras cidades, como o Porto, Braga e Coimbra não serem também candidatas era um ultraje, depois de eles mesmo terem votado em Lisboa.

 

Mas talvez estas discussões e estas candidaturas tenham trazido algo de bom: tal como aconteceu com o Festival da Eurovisão (que ficou, e muito bem, no Parque das Nações), discutiu-se para que cidade portuguesa determinado organismo/evento internacional viria, embora só depois de se emendar a mão à simples escolha de Lisboa, apenas porque sim, sem mais. É uma atitude saudável que doravante terá de fazer parte das escolhas dos decisores políticos. O resultado final pode perfeitamente ser Lisboa, mas que haja uma avaliação e um debate prévio sobre a matéria em questão. Senão arriscamo-nos a ficar sempre tão centralizados como a Hungria ou a Grécia. Ou talvez nem isso: é que a Grécia conta com três agência europeias e nenhuma delas sequer fica em Atenas. Afinal é bem verdade que Portugal não é a Grécia.

 

Já agora, se me permitem, ficou-se a saber que a desconcentração de serviços é uma tarefa hercúlea. Não sei se a mudança da administração e de parte dos trabalhadores da Apifarma de Lisboa para o Porto se justifica e a que títulos. Também não acho, nem nunca achei, que desconcentrar fosse tirar de Lisboa e colocar no Porto, como se a grande falha não fosse litoral/interior. Mas ao ver os queixumes e as reclamações com o "triste destino" dos trabalhadores, que, horror, podem até ter que ir trabalhar para o Porto, não posso deixar de pensar nos milhares e milhares que ao longo de gerações tiveram que abandonar as suas raízes e as suas famílias e migrar para a capital e para os seus subúrbios crescentemente lotados, sem que nunca ninguém tivesse elevado a voz para os defender nem para contestar a sua migração quase forçada. Talvez agora se comece a pensar nisso.

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Uma odisseia para lugar nenhum

por Pedro Correia, em 20.11.17

 

7 de Junho:

Agência do Medicamento: Governo defende candidatura de Lisboa. "É a cidade que oferece mais condições", garante Augusto Santos Silva.

 

8 de Junho:

Rui Moreira exige explicações do Governo sobre exclusão do Porto na candidatura a sede da Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Junho:

Governo escolhe Lisboa para candidatura a Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Junho:

BE critica Governo por candidatar Lisboa para acolher Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Junho:

Petição pública sobre a Agência Europeia de Medicamentos: "Não ao Centralismo!"

 

15 de Junho:

Agência Europeia do Medicamento: Rui Moreira diz que nunca foi contactado.

 

15 de Junho:

"Fonte oficial" revela que Costa defendeu até ao limite candidatura do Porto à Agência Europeia do Medicamento.

 

16 de Junho:

Lisboa em 15.º lugar para acolher a Agência Europeia do Medicamento.

 

29 de Junho:

Governo aprova integração de representantes do Porto na comissão de candidatura para Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Julho:

Governo escolhe Porto para candidatura a Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Julho:

Maioria dos quase 900 funcionários da Agência Europeia do Medicamento preferia Lisboa.

 

31 de Julho:

Agência do Medicamento: troca de Lisboa pelo Porto pode penalizar candidatura.

 

10 de Outubro:

Porto está nos cinco favoritos para acolher Agência Europeia do Medicamento, segundo estudo encomendado pela Associação Comercial do Porto.

 

17 de Novembro:

Porto em vantagem para acolher Agência Europeia do Medicamento, assegura ministro da Saúde.

 

20 de Novembro:

Porto não fica com a Agência Europeia do Medicamento.

 

20 de Novembro:

Agência Europeia do Medicamento fica em Amesterdão.

 

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As nossas irmãs árvores

por Pedro Correia, em 19.11.17

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Converso com um amigo sobre as vantagens de viver no campo, em comparação com o frenético quotidiano citadino. Há uma enorme árvore bem perto de nós. Pergunto-lhe: “Sabes que árvore é esta?”

Não faz a menor ideia. É um choupo negro, alto e esguio, de folha em forma do símbolo de espadas nas cartas de jogar – uma das espécies vegetais mais frequentes em Lisboa por se adaptar muito bem à atmosfera poluída

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Este episódio banal confirma-me a profunda iliteracia da esmagadora maioria dos habitantes das cidades em relação ao nosso vasto património botânico. A recente tragédia dos incêndios pareceu ter feito de cada compatriota um inesperado especialista em espécies vegetais – ao ponto de todos terem passado a emitir sentenças categóricas sobre o que deve ou não ser plantado nas quintas e aldeias do interior do País. Invocavam a necessidade imperiosa de acolhermos mais “espécies autóctones” e rejeitarmos “espécies invasoras”, sem fazerem a menor ideia do que significa uma coisa e outra.

Essa pretensa sabedoria teve um brevíssimo prazo de validade, próprio dos actuais surtos de indignação nas redes sociais. A verdade é que poucos conhecem as árvores, muito poucos as respeitam e quase todos são incapazes de nomeá-las.

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Tive a sorte de os meus pais me haverem ensinado desde menino a conhecer o mundo vegetal e a tratar as árvores pelos nomes próprios. Aprendi muito cedo que algumas estão mesmo associadas a características de certas regiões. Na região de onde sou originário, a Cova da Beira, a  cerejeira é uma árvore icónica e muito admirada tanto na magnífica fase da floração como na incomparável explosão dos frutos, que conferem tonalidades muito próprias aos extensos pomares das encostas serranas.

Outra árvore a que prestamos tributo por ser uma histórica aliada no combate à fome e pela sua relevância presente no tecido económico da região é o castanheiro, que aliás se destaca no brasão da Câmara Municipal do Fundão, com as castanhas a figurarem como pepitas de ouro.

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Estas e outras árvores acompanharam o meu percurso biográfico.

Os pinhais do Alto Minho e da Fonte da Telha, os coqueiros e tamarindeiros na casa de Timor. Os gondoeiros da praça Engenheiro Canto Resende, no Bairro do Farol. As Madres del Cacau na Ermera. As casuarinas na praia de Hac-Sá, na ilha de Coloane. A grevílea robusta da vivenda da Charneca. Encontrei uma há dias, no jardim do Campo Grande, e saudei-a como se revisse uma velha amiga.

Falta-nos este espírito de confraternização com as nossas irmãs árvores, como diria São Francisco de Assis. Nas reuniões de condóminos urbanos um dos temas recorrentes é o do abate de árvores – porque sujam, porque roubam a luz do sol, porque atraem pássaros e insectos, porque “desfiguram a paisagem”, porque sim. E as próprias autoridades municipais se apressam tantas vezes a retirá-las do espaço público. Ainda hoje não perdoo ao vereador Sá Fernandes ter ordenado a remoção das laranjeiras que ornavam a Praça de Alvalade, substituindo-as por placas de cimento.

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Há dias pus-me a pensar nas árvores que sou capaz de identificar – tanto árvores de floresta, de cultivo ou espontâneas, como de jardim. A lista foi-se tornando cada vez mais extensa. Da figueira ao pinheiro bravo, da tília ao carvalho, do eucalipto ao freixo, do lódão à olaia, do marmeleiro à oliveira, da acácia ao salgueiro, do choupo branco à macieira, do pessegueiro à romanzeira, da pereira ao cipreste, da palmeira-de-leque à alfarrobeira, do sobreiro ao jacarandá, da ginkgo à araucária, do zambujeiro à tipuana, do plátano ao limoeiro, da bananeira à nespereira, da laranjeira à magnólia, do pinheiro manso à palmeira das Canárias. Sem esquecer árvores-arbustos, como os dragoeiros ou os medronheiros.

Várias delas, felizmente, integram já a lista oficial do nosso património. Incluindo o inigualável cedro do Buçaco no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, ou a deslumbrante figueira da Austrália em destaque no Parque Marechal Carmona, em Cascais.

Sempre que posso, fotografo-as: são minhas todas as fotos que ilustram este texto, captadas ao longo deste terrível ano que parece de perpétua Primavera, em que as folhas caducas permanecem verdes e muitas espécies estão a florescer em Novembro como se fosse Abril ou Maio enquanto pelo menos 5% da superfície do País ficou reduzida a cinzas. Muitos dos nossos velhos não voltarão a ver paisagem verde em seu redor.

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Há três meses, a jornalista Maria Henrique Espada, editora da revista Sábado, reuniu António Bagão Félix e José Sá Fernandes numa interesssantíssima conversa sobre árvores em que os dois interlocutores exibiam extensos conhecimentos na matéria.

Gostei muito de ler o que diziam. Só lamento que Sá Fernandes, enquanto vereador responsável pelos espaços verdes da capital, teime em não partilhar essa sabedoria com os habitantes de Lisboa.

Bastaria colocar tabuletas nos jardins a indicar os nomes das espécies vegetais, como fazem várias câmaras por esse País fora, claramente amigas do ambiente.

Isso contribuiria para aproximar das árvores os lisboetas que hoje julgam que elas só servem para receber urina de cães e dar sombra aos carros nos meses de Verão.

 

 

Legendas (de cima para baixo):

1. Romanzeiras

2. Palmeira-de-leque

3. Folhas de olaia

4. Medronheiros

5. Choupos brancos

6. Limoeiros

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"Diz qualquer coisa de oposição"

por Pedro Correia, em 12.10.17

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Faz hoje um mês, previ aqui que Rui Rio seria uma das figuras em foco de Outubro a nível nacional. Pela necessidade de finalmente assumir uma candidatura à liderança ao PSD.

Passos Coelho facilitou-lhe a vida, saindo de cena após as humilhantes derrotas eleitorais que o partido sofreu em Lisboa e no Porto, aliás muito previsíveis.

 

Dizem-me que Rio já andava a preparar-se há mais de um ano para este momento, cuidando de tudo ao pormenor, como é do seu feitio meticuloso.

Teve azar: o dia mediático, que já andava dividido pelas primeiras informações públicas em torno do Orçamento do Estado para 2018 e pela réplica formal do Governo espanhol ao desafio separatista da Catalunha, acabou por ser totalmente absorvido pela acusação formal da Procuradoria-Geral da República ao ex-primeiro-ministro José Sócrates, que vai sentar-se no banco dos réus pela suspeita de ter cometido 31 crimes. Facto sem precedentes na história política e na história judicial do País.

 

Rio nunca poderia ter previsto isto. Mas podia e devia ter feito um discurso mais vibrante e mobilizador perante a galeria de apoiantes em Aveiro.

Escutei-o pela televisão. Iam já decorridos 15 minutos de discurso quando dei por mim a parafrasear aquela personagem de Nanni Moretti: "Diz qualquer coisa de oposição!"

Acabou por dizer, daí a momentos, nessa intervenção de 17 minutos. Com uma frase que sabia ser apropriada a títulos de jornal: "O PSD é um partido de poder, não é a muleta do poder."

Achei muito pouco para quem se candidata à liderança do maior partido da oposição ao Governo socialista. Nestas coisas, como ensinava o engenheiro Guterres, nunca há segunda oportunidade para uma primeira impressão.

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Cartão amarelo para Medina

por Pedro Correia, em 03.10.17

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Fernando Medina apareceu, já a horas tardias, na noite eleitoral com o sorriso que costuma ostentar em todas as estações do ano. Apesar de beneficiar da bem oleada máquina socialista e de ter contado na campanha com inesperados brindes propagantísticos da  Standard's & Poor e do Fórum Económico Mundial, o alcaide alfacinha (nado e criado no Porto) tinha muito menos motivos para sorrir do que Rui Moreira, que sem aparelhos partidários dignos de nota revalidou o mandato na Câmara Municipal do Porto, conseguindo desta vez maioria absoluta.

Com Medina foi ao contrário: o actual autarca herdou o cadeirão presidencial na Praça do Município dispondo de uma confortável maioria absoluta, obtida por António Costa em 2013, e acaba de dizer-lhe adeus: perdeu três vereadores e cerca de 10 mil votos neste escrutínio. Herdou 11, restam-lhe oito.

Passa a depender de outras forças políticas para gerir a câmara, perdendo terreno à esquerda e à direita: o CDS conquistou-lhe dois mandatos no executivo municipal e o Bloco de Esquerda - que apresentou um bom candidato, Ricardo Robles - ganhou o terceiro, passando enfim a ter representação na mais emblemática edilidade do País.

O eleitorado de Lisboa revelou-se sábio nestas escolhas. O cartão amarelo a Medina foi bem merecido. Porque tem gerido a capital muito mais em função de quem nos visita do que em função de quem cá vive ou aqui trabalha, deixando a pressão turística condicionar por inteiro o mercado imobiliário, sem correcções nem ajustamentos.

Sempre considerei que o actual presidente da câmara merecia ser desafiado por um adversário com sérias hipóteses de o derrotar nas urnas. Um adversário que o questionasse sobre o trânsito caótico, as obras intermináveis, os transportes entupidos, as derrocadas de prédios degradados, o parque habitacional caríssimo e cada vez mais inacessível para os lisboetas, a quantidade infindável de taxas e taxinhas.

O PSD, no entanto, abdicou de lhe dar luta, rendendo-se antes do confronto. Se houve algo imperdoável nestas autárquicas, por bandas do maior partido da oposição, foi precisamente isto.

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A hecatombe

por Pedro Correia, em 01.10.17

 

Obviamente, nada no PSD pode ficar na mesma. Como se o partido não tivesse obtido os piores resultados de sempre em Lisboa e no Porto.

 

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O sorriso de Assunção Cristas

por Pedro Correia, em 29.09.17

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O mais interessante nestas eleições autárquicas é a recomposição de forças que se desenha à direita, tendo Lisboa por epicentro.

Assunção Cristas vai ganhar esse desafio porque fez a aposta certa: foi a jogo, centrou a parada no principal município do País (recuperando um palco essencial da história autárquica do CDS) e não descolou um milímetro da estratégia delineada: eleger o PS como adversário, convicta de que Fernando Medina não era imbatível, sem se deixar contagiar pelos dramas hamletianos que assaltavam o partido laranja.

 

Precisamente ao contrário do PSD, que foi ziguezagueando ao longo de todo este tempo. Hesitou na escolha do cabeça-de-lista, hesitou na estratégia, hesitou nas prioridades da campanha, hesitou na escolha dos candidatos ao executivo municipal, hesitou nos alvos programáticos.

Os sociais-democratas fizeram tudo mal: já com a líder democrata-cristã no terreno, em vez de formarem equipa com ela preferiram medir forças com o CDS - como se fosse esse o adversário e como se tal disputa interessasse um átomo aos eleitores de ambos os partidos. Isto enquanto o coordenador da campanha autárquica laranja admitia numa entrevista que tanto lhe fazia quem ficava à frente. Logo ali se percebia qual era o estado anímico daquelas hostes.

As esquerdas iam assistindo de camarote.

 

O PSD demorou meses a designar Teresa Leal Coelho - e a escolha só se materializou, tarde a a más horas, após diversas fugas de informação terem tornado evidente que se tratava da enésima opção, na sequência das sucessivas recusas de outros visados.

Repetia-se um filme já gasto como se fosse em estreia: ninguém na entrincheirada sede da São Caetano à Lapa parece ter extraído qualquer  lição dos fracassos anteriores do partido na capital, protagonizados por candidatos como Fernando Negrão e Fernando Seara.

 

O amadorismo dominou a caravana autárquica laranja em Lisboa do primeiro ao último dia. As intervenções da candidata nos debates televisivos foram desastrosas - ao nível dos cartazes com a sua imagem que foram sendo espalhados na cidade sem qualquer mensagem associada ao retrato.

Os resultados deste espectáculo confrangedor serão conhecidos daqui a 48 horas. À direita, não custa vaticinar, só Assunção Cristas terá motivos para sorrir.

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Postais de Lisboa (14)

por Pedro Correia, em 19.09.17

 

Ainda há zonas sem esgotos mas já têm parquímetros.

 

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Postais de Lisboa (13)

por Pedro Correia, em 18.09.17

 

Adeus, restaurante panorâmico. Olá, "Open House".

 

 

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Postais de Lisboa (12)

por Pedro Correia, em 14.09.17

Provedor de Justiça considera inconstitucional a taxa municipal de protecção civil lançada pela Câmara de Lisboa.

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Um dó li tá

por Pedro Correia, em 13.09.17

 

12 de Setembro:

Tony Carreira e Bagão Félix apoiam Medina

 

13 de Setembro:

PGR investiga compra e venda de casas de Medina

 

13 de Setembro:

Ministério Público acusa Tony Carreira de plagiar 11 músicas

 

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O debate em Lisboa.

por Luís Menezes Leitão, em 07.09.17


Assisti ontem ao debate na TVI24 entre (alguns) candidatos à Câmara Municipal de Lisboa. Achei o debate muito fraco e foi uma grande desilusão que as candidatas do centro-direita não tenham sido capazes de contraditar Medina, quando ele insistiu que vai continuar a cobrar aos lisboetas uma taxa inconstitucional, que os outros municípios estão a abolir, com argumentos completamente estapafúrdios, como o facto de os bombeiros concordarem com a taxa. Dos dois debates que já vi deu para perceber que Medina é um péssimo presidente da Câmara que herdou, vindo para os debates apenas dizer generalidades, e que Assunção Cristas está muitos pontos acima de Teresa Leal Coelho. Mas seguramente que o candidato mais bem preparado é João Ferreira, do PCP. Demonstra um profundo conhecimento dos dossiers e tem sempre uma argumentação consistente perante os outros candidatos, levando a que até Teresa Leal Coelho vá muitas vezes atrás do que ele diz. Foi o único capaz de dizer a Medina uma coisa óbvia, a de que não se admite uma Câmara cobrar taxas para prestar socorro à população. Os partidos do centro-direita deveriam por isso pôr os olhos no PCP no que respeita à preparação de candidaturas autárquicas. Graças apenas à boa preparação dos seus candidatos, um partido com uma ideologia totalmente ultrapassada consegue continuar a ser uma força política em Portugal.


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Taxa turística, habitação, falsa partida

por Tiago Mota Saraiva, em 06.09.17

Na semana passada assisti aos primeiros debates entre candidatos aos municípios de Lisboa e Porto. Não escreverei sobre os debates, mas sobre uma proposta que ambos os cabeças de lista do Bloco de Esquerda - Ricardo Robles (Lisboa) e João Teixeira Lopes (Porto) – defenderam a uma só voz: Taxa Municipal Turística de dois euros e aplicação da receita na resolução do problema de habitação dos dois municípios.

Começo por declarar que partilho com os dois candidatos a ideia que o problema da habitação deve ser central nestes debates autárquicos. Daí a relevância de perceber o que se propõe. Ora, como creio que Robles e Teixeira Lopes saberão, a taxa turística não pode ser aplicada na resolução do problema da habitação. A explicação é simples. Uma taxa implica a prestação de um serviço, pelo que a sua aplicação tem de ser, necessariamente, afecta à actividade turística. Repare-se que nunca estive em desacordo com a taxa municipal turística – que Robles, ainda em Julho de 2015 na AML, propunha anular - e também sou favorável a um imposto - que não existe e que inicialmente julguei, erradamente, ser o que se propunha -, cuja receita pudesse ser investida na minimização da pegada turística e, aí sim, na resolução dos problemas da habitação.
É certo que se poderia gastar os 13,5 milhões de euros arrecadados em 2016 pelo município de Lisboa em obras estruturais que estimulassem o fruir da cidade e a sua coesão territorial, beneficiando turistas e moradores. Discordo que, como defende Fernando Medina, estas verbas sejam aplicadas nas obras de conclusão do Palácio da Ajuda (um processo obscuro sobre o qual já aqui escrevi) ou na criação do Museu Judaico que irá carregar ainda mais o Largo de S. Miguel. Ao invés, parecer-me-ia mais interessante fazer derivar esta receita para políticas de acessibilidade e mobilidade ou para um plano de alargamento dos territórios turísticos da cidade.

Não me incomoda que Ricardo Robles sempre tenha defendido o fim da taxa que agora pretende duplicar o valor. Corrigiu a sua posição. Ainda bem. O que muito me incomoda é que, tendo o BE muito e boa gente com conhecimento sobre o problema da habitação, se apresente a eleições em Lisboa e no Porto com uma medida de alavancagem financeira que sabem que nunca se poderá aplicar. Espero que cheguem a tempo de corrigir esta falsa partida.

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Frases de 2017 (35)

por Pedro Correia, em 01.09.17

«Assunção Cristas esteve bem, esteve mesmo até bastante bem. (…) O debate não correu bem à candidata [do PSD, Teresa Leal Coelho].»

Pedro Santana Lopes, comentando o debate televisivo entre candidatos à câmara de Lisboa, hoje, no Correio da Manhã

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Postais de Lisboa (11)

por Pedro Correia, em 24.08.17

 

Tráfico de droga no centro de Lisboa.

 

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Postais de Lisboa (10)

por Pedro Correia, em 04.08.17

«Depois de quase dois anos de arenga política, a Assembleia Municipal de Lisboa foi incapaz de aprovar um regulamento do arvoredo da cidade. Hilariante. Não deixa de ser absurdo que o executivo que gasta milhões em novos espaços verdes seja incapaz de criar um regulamento definitivo. Ou seja, para fazer novos jardins (e eu acho bem), tudo às mil maravilhas, para gerir os espaços verdes que fazem parte da cidade há decadas, ah, isso entrega-se às juntas de freguesia e cada uma faça o que entender. (...) A verdade é que desde que as juntas passaram a tutelar estas matérias os lisboetas assistem ao abate, à poda selvagem e ao abandono de árvores.»

Edgardo Pacheco, hoje, no Correio da Manhã

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Postais de Lisboa (9)

por Pedro Correia, em 05.07.17

«O metro de Lisboa tornou-se nos últimos seis anos uma catástrofe absoluta. Com a diminuição do número de carruagens, com o despedimento de motoristas, o que aconteceu neste período foi muito grave. Temos um problema de transportes a que a Câmara tem dificuldade em responder.»

Francisco Louçã, na SIC Notícias (30 de Junho)

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Postais de Lisboa (8)

por Pedro Correia, em 04.07.17

 

Preço das casas em Lisboa já é o dobro da média nacional.

 

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Postais de Lisboa (7)

por Pedro Correia, em 27.06.17

«É proibido levar os cães para as praias concessionadas. E no entanto é vê-los a andar pelo areal, fazendo o que os animais fazem quando têm vontade, sem que a polícia faça cumprir a lei. Acontece o mesmo nas ruas de Lisboa, porcaria por toda a parte, um nojo inacreditável, passeios de sujidade medieval.»

André Macedo, no Jornal de Negócios (26 de Junho)

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Postais de Lisboa (6)

por Pedro Correia, em 16.06.17

Nem a Madonna quer nada com Lisboa, apesar da ridícula deslocação do presidente da Câmara ao hotel Ritz para com ela travar um "encontro de cortesia" - seja lá o que isso for. Na hora das compras, a Material Girl proclamou Papa don't preach e optou por adquirir uma "quinta de luxo" no concelho de Sintra. Como eu a percebo: qualquer deslocação no caótico trânsito da capital, seja a que horas for, tornou-se numa penitência só recomendável aos fiéis devotos de Fernando Medina, que lhe entoam hossanas like a prayer. E a hipótese de aqui viver, aos preços actualmente praticados, é cada vez mais uma miragem. Live to tell.

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Postais de Lisboa (5)

por Pedro Correia, em 13.06.17

 

«Há uma overdose de turistas e Lisboa parece Bombaim.»

 

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O que eu senti (25 anos depois)

por Alexandre Guerra, em 03.06.17

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Foto: Nuno Ferreira Santos/Público 

 

Senti sempre no hard rock um acto de libertação, de rebeldia, de excessos. Além do género musical propriamente dito (de que sou enorme fã), sempre associei o hard rock a um estilo de vida irrequieto, um desafio aos cânones tradicionais da sociedade e ao politicamente correcto. E sempre vi no hard rock um meio de confronto saudável em democracia ao poder instituído. Sempre me identifiquei com isso, talvez por sempre preferir os inconformados aos resignados, os rebeldes aos acomodados, os críticos aos silenciosos, os irreverentes aos submissos, os temperamentais aos indiferentes, os apaixonados aos calculistas.

As super-bandas de hard rock, de uma maneira de ou outra, personificaram esse espírito. Depois dos quatro meninos bem comportados de Liverpool, o contraste não podia ser maior, quando no final dos anos 60 surge Jimi Hendrix, o artista rock por excelência em toda a sua plenitude, fosse na sua arte, na forma como se apresentava em palco, fosse na forma como vivia (excêntrica e excessivamente) em sociedade. Morreu cedo, mas inspirou todos os grandes homens do rock que se lhe seguiram. Para a história fica a célebre interpretação de Star Spangled Banner (o hino nacional dos EUA), apenas ao som da sua Fender Strato, naquela manhã do Festival de Woodstock, num acto claramente de provocação e protesto em nome de uma América revoltada com o poder político. O hard rock é o único estilo musical que desempenhou esse papel, reservado apenas àqueles que são o produto genuíno em palco e fora dele. E, sobretudo, que assumem de forma destemida esse papel.

Os Guns N’Roses foram a última dessas grandes bandas. Quando surgiram no final dos anos 80 chocaram pela sua ousadia e até perversidade. Para a história fica também aquela actuação nos MTV Music Awards de 1988, quando o mundo vê em directo Axl, Slash e companhia, com botas por fora das calças de cabedal, ostentando adereços de todo o tipo, provavelmente com alguma droga e muito álcool à mistura, a cantarem músicas de chocar e arrasar. A ingenuidade dos anos 80 (deliciosos, note-se) acabara ali. Excederam-se em tudo, mas em tudo mesmo. Criaram o Appetite for Destruction que tinha tanto de genial como de destrutivo. Foi um “turning point” para o hard rock no final dos anos 80. Mas foi mais do que isso, foi um abanão ao status quo das cores florescentes e dos yuppies.

Na altura, os GNR pegavam-se com tudo e com todos e até os Metallica chegaram a dizer que era insuportável andar em tournée com eles. Por onde passavam, era como se um furacão por lá tivesse andado, mas uma juventude em todo o mundo aclamava-os e identifica-se com o que representavam. Quando em 1992 aterraram no velho Estádio de Alvalade, na companhia dos Soundgarden de Chris Cornell e dos Faith No More de Mike Patton, estavam no auge da fama e da loucura. Não havia limites para aqueles senhores e era precisamente essa ideia que nos contagiava a todos. Eu, como tantos outros jovens que lá estávamos, vivíamos uma espécie de histeria colectiva, numa idade em que o importante era embarcar nos impossíveis. No final, foi o que se sabe. E isso também ficou para a história, porque, a verdade é que ninguém esqueceu esse concerto.

Vinte e cinco anos depois o impensável aconteceu. Sobre o (brutal) concerto em si não vou estar com grandes análises, basta ler as várias críticas que foram publicadas este Sábado e logo se percebe porque razão os GNR foram a banda que mais lucrou no ano passado em concertos. É outro nível, é outro estofo em relação aos demais “players” que por aí andam. Provavelmente, o Passeio Marítimo de Algés não voltará a ter uma banda desta magnitude carismática a actuar por ali.

Quando vivemos numa sociedade cada vez mais igual e monótona em termos de mainstream, regida pela ditadura do politicamente correcto, quase que numa lógica asséptica ao nível de pensamento e costumes, é um conforto para a alma ver uma banda de hard rock à séria a partir a “louça toda”. Axl, Slash e Duff juntos são um tónico de rebeldia e de adrenalina. Os “meninos” ficaram em casa na Sexta-feira à noite, mas no Passeio Marítimo de Algés estiveram lá 57 mil que, de uma maneira ou de outra, têm algo dentro deles que os inquieta. E é sempre bom saber que não estamos sozinhos.

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Afinal, o que se passa com o Metro?

por Teresa Ribeiro, em 01.06.17

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Sempre que passo nas escadarias rolantes da estação Baixa-Chiado e sou barrada a meio do percurso por baias a anunciar trabalhos de manutenção, lembro-me do suplício que era trepar aqueles degraus, às vezes em dias de pressa, quase diariamente. Durante dois anos, entre 1999 e 2001, foi essa a minha pena, só porque tive a desdita de trabalhar ali perto. Passados mais de 15 anos é extraordinário como a situação se mantém. 

O Metro sempre foi isto. Uma relação desigual e displicente com os utentes. Mas agora temos também as avarias nas linhas. Todos os dias! Intriga-me. Durante décadas uma avaria era uma situação de excepção, nos tempos que correm tornou-se rotina. Ainda esta semana houve em dias seguidos avaria na linha amarela "devido a problemas na sinalização". Se é o que imagino, pode ser grave. Começo a perguntar-me se é seguro andar de metro. E a pensar que já era tempo de exigir à empresa explicações públicas sobre a razão de ser de tanta anomalia. 

Na "cadeia alimentar" deste país os consumidores sempre estiveram ao nível mais rasteiro, mas já era tempo de mudar esta cultura, tão cómoda para as autoridades, tão conveniente para as empresas.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 25.05.17

«Fernando Medina foi criticado por se ter deslocado ao hotel de Madonna, para lhe dar as boas-vindas e ajudá-la a encontrar casa. Há quem diga que se subjugou aos caprichos da cantora, que ela é que devia ter ido à Câmara. Discordo: foi golpe de génio. Se Madonna tivesse de ir do Ritz à praça do Município, demorava três horas só para se desembaraçar da rotunda do Marquês. Provavelmente, desistia de morar numa cidade tão caótica. E perdíamos a honra de ter entre nós a Miley Cyrus dos anos oitenta.

Até há pouco tempo, o sítio onde tivera mais dificuldade em orientar-me fora a medina da cidade de Fez. Agora é a cidade que Medina fez.»

 

José Diogo Quintela, no Correio da Manhã

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Só vinte?

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.05.17

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(créditos: Expresso)

A mim admira-me que sejam só vinte, porque bom bom era serem aí umas sessenta, ou umas oitenta, sei lá, de Santarém até Setúbal, cobrindo toda a área metropolitana de Lisboa e arredores. Se possível com uma extensão ao Aeroporto "Internacional" de Beja, em regime de PPP, para se poder encaixar a malta amiga, e com o aval da CGD. E depois entregar a gestão disso a Sérgio Monteiro. Quer-me parecer que desta vez faltou um pouco mais de rasgo na proposta de Assunção Cristas. Ninguém é perfeito.

Como diria um amigo meu, "isto promete uma remontada épica". Obrigado, António.

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Postais de Lisboa (4)

por Pedro Correia, em 08.04.17

«O homem expropriado de dois prédios na Mouraria para a edificação de uma nova mesquita está doente, falido e desesperado com a Câmara Municipal de Lisboa. Em Maio de 2016, a autarquia tomou posse administrativa dos dois prédios que António Barroso tinha comprado dez anos antes naquela que é uma das artérias mais multiculturais de Lisboa. Apesar de já não ser oficialmente o dono dos prédios, continua a ter de pagar mensalmente quase dois mil euros de prestações pelos empréstimos que contraiu para comprar os imóveis.»

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Postais de Lisboa (3)

por Pedro Correia, em 06.04.17

«A Piscina da Penha de França, em Lisboa, devia ter aberto em Outubro do ano passado. Até se fizeram visitas guiadas a jornalistas. Tudo parecia correr bem para que a piscina, que esteve fechada cinco anos, voltasse a abrir. Passados quase seis meses, não foi isso que aconteceu. Já com muitos inscritos, as portas continuam fechadas.»

 

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Os parquímetros em Carnide.

por Luís Menezes Leitão, em 06.04.17

Eu sempre disse que António Costa, com a sua geringonça, tinha ensaiado um regresso ao PREC. E como seria inevitável, vai ser o PS a sofrer as tempestades dos ventos que semeou.

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Sinais de alarme

por Pedro Correia, em 31.03.17

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A moda dos alojamentos temporários, privilegiando a instalação ocasional de estrangeiros no centro das cidades enquanto se vão empurrando os habitantes permanentes cada vez mais para as periferias, ameaça implodir de vez o já débil mercado de arrendamento em Lisboa, que nem as imposições da tróica conseguiram dinamizar.

A um ritmo vertiginoso, a capital portuguesa continua a ser gerida muito mais em função de quem nos visita do que em função de quem cá vive ou aqui trabalha. O que está bem patente na licença já concedida à edificação de mais 40 hotéis na cidade até ao fim de 2017.

Até quando a pressão turística continuará a condicionar o mercado imobiliário, sem correcções nem ajustamentos que permitam conciliar os interesses de quem por cá passa com as legítimas expectativas de quem cá habita em permanência, sem aumentar ainda mais a distância diariamente percorrida entre locais de residência e postos de trabalho?

Enquanto os responsáveis alfacinhas se debruçam sobre esta questão, é tempo de perceberem os sinais de alerta que nos vão chegando de outras paragens, convertidas igualmente em destinos turísticos muito afamados. Para que a ganância desenfreada de uns quantos não acabe por matar em poucos anos a galinha dos ovos de ouro.

Aqui ficam alguns:

Maiorca esgotará em cinco anos o seu solo edificável.

Palma deixa de ter apartamentos para alugar.

Médicos de Ibiza vão dormir num velho hospital devido ao elevado preço da habitação na ilha.

Professores sem casa dormem em ginásios.

500 euros por viver numa varanda.

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Postais de Lisboa (2)

por Pedro Correia, em 28.03.17

«Queremos uma cidade de fachadas limpas e de miolo destruído? Queremos uma cidade cheia de restaurantes de péssima qualidade (basta exemplificar com quase todos os da Baixa) e lojas de souvenirs de mau gosto? Queremos uma cidade com constantes eventos no centro, precisamente a zona da cidade que menos precisa deles? Queremos uma cidade cheia de apartamentos para alugar a turistas, atirando os lisboetas para as periferias? Queremos uma cidade a abarrotar de turistas low-cost que se alimentam em supermercados e vão comendo pelas ruas (sujando-as)? Queremos que a cidade se transforme numa gigantesca Disneylândia cheia de lixo no chão?»

Tiago Guilherme, na revista Evasões (17 de Março)

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Postais de Lisboa (1)

por Pedro Correia, em 24.03.17

«Seguindo em direcção ao Cais do Sodré à procura de uma cadeira e um café, a única coisa que me acompanha, depois de passar a Portugália, é o rio, um barco ou outro e um cheiro intenso a - peço desculpa pela linguagem - mijo.

Eu sei que não faz parte das funções da CML ou da Junta de Freguesia da Misericódia dar lições de civilidade ao bando de energúmenos que se alivia na rua, mas não me parece que, numa altura em que toda a gente enche a boca com o turismo e jura a pés juntos que não temos turistas em excesso, se possa aceitar que uma parcela da margem do Tejo seja um urinol a céu aberto.»

Edgardo Pacheco, no Correio da Manhã (24 de Março)

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Lisboa: a derrota anunciada

por Pedro Correia, em 21.03.17

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Pensei que o PSD iria apresentar uma candidatura autárquica em Lisboa que pudesse derrotar o actual presidente da câmara, Fernando Medina. Enganei-me. Afinal o PSD decidiu apresentar uma candidatura destinada a derrotar não o autarca socialista mas a candidata do CDS, Assunção Cristas, que se encontra  há seis meses em campanha.

Promete ser uma refrega muito renhida neste campeonato das equipas pequenas em que aposta a direcção nacional do PSD. No campeonato a sério, Medina – que já seria um oponente difícil – adquire assim o estatuto de imbatível apesar de ter optado por um modelo de gestão em Lisboa que privilegia quem nos visita em desfavor de quem aqui vive ou trabalha.

Sempre considerei que o actual presidente da câmara merecia ser desafiado por um adversário com sérias hipóteses de o derrotar nas urnas. Um adversário que o questionasse sobre o trânsito caótico, as obras intermináveis, os transportes entupidos, as derrocadas de prédios degradados, o parque habitacional caríssimo e cada vez mais inacessível para os lisboetas, a quantidade infindável de taxas e taxinhas.

O PSD, no entanto, abdicou de lhe dar luta. Preferiu escolher como oponente  a líder do CDS, medindo forças na ala direita do tabuleiro político em vez de se concentrar nos problemas de Lisboa. Torna-se assim num aliado objectivo dos socialistas na capital – o que aliás está longe de suceder pela primeira vez.

 

Se quisessem entrar a sério no confronto autárquico, os sociais-democratas não teriam escolhido para encabeçar a sua lista de 2017 a dirigente que já integrou a lista de 2013, na segunda posição, saldando-se essa participação no maior fracasso de sempre do partido laranja na capital.

Se quisessem entrar a sério no confronto autárquico, os sociais-democratas não teriam optado por alguém que surge como enésima escolha após terem sido sucessivamente anunciados e desmentidos na praça pública, durante meses a fio, nomes tão diversos como os de Pedro Santana Lopes, Jorge Moreira da Silva, Nuno Morais Sarmento, José Eduardo Martins, José Eduardo Moniz, Paulo Rangel, Maria Luís Albuquerque, Carlos Barbosa, José Miguel Júdice, Pedro Reis, Sofia Galvão e Teresa Morais.

Se quisessem entrar a sério no confronto autárquico, os sociais-democratas teriam optado por alguém disponível para se entregar em regime de dedicação exclusiva à função autárquica em vez de se distribuir pela vice-presidência do partido, a bancada parlamentar e a presidência da Comissão de Finanças, Orçamento e Modernização Administrativa em São Bento.

Se quisessem entrar a sério no confronto autárquico, os sociais-democratas não teriam optado por anunciar para o topo da sua lista em Lisboa alguém que, enquanto membro da vereação nestes quatro anos, faltou a dois terços das reuniões do executivo municipal.

 

Há derrotas políticas honrosas – as que ocorrem após um combate duro mas leal. Das outras não reza a história – aquelas que acontecem quando se baixa os braços e se abdica de ir à luta, trocando-se o campeonato principal pela divisão secundária. Como acaba de suceder com o PSD a seis meses da ida às urnas.

O PS só poderá sentir-se grato perante tanta gentileza. Espero que Medina já tenha remetido à sede da São Caetano à Lapa um cartãozinho a agradecer.

 

Leitura complementar: O cerco.

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Bem prega Frei Tomás!

por Luís Menezes Leitão, em 20.03.17

Leio aqui que Marques Mendes considera desastrosa a forma como Passos Coelho geriu a escolha do candidato a Lisboa e que, se as coisas correrem mal, a culpa é do líder. Não poderia estar mais de acordo. Só estranho é que seja Marques Mendes a dizê-lo. Na verdade, se bem me lembro, em 2007 a Câmara de Lisboa estava nas mãos do PSD e só passou para o PS porque Marques Mendes quis demitir Carmona Rodrigues e, quando este recusou, obrigou todos os vereadores do PSD a se demitirem, fazendo cair a Câmara. A seguir lembrou-se de candidatar Fernando Negrão que fez uma campanha desastrosa, só obtendo 15% dos votos, e entregando a Câmara de bandeja a António  Costa. Desde então que a Câmara de Lisboa está nas mãos do PS. 

 

Por tudo isto me parece claro que Marques Mendes é a última pessoa que pode falar de estratégias desastrosas para Lisboa. Mas este exemplo também serve para questionar os nossos jornalistas. Será que nestes espaços de comentário político não há nenhum jornalista que faça lembrar ao comentador o seu próprio currículo no assunto que comenta?

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O local mais espaçoso no Metro de Lisboa

por Diogo Noivo, em 14.02.17

Em Lisboa, ficar em casa é um acto de rebeldia. Exposições modernaças, bares trendy, restaurantes étnicos, arquitectura (ou arquitetura?) desempoeirada, lançamentos de livros de dietas detox, lançamentos de lojas, lançamentos de “conceitos”, enfim, uma canseira de solicitações. Só ao Tejo é que ninguém se lança – já não se fazem portugueses como o Marcelo, o que, pensando bem, não é mau de todo.
Lisboa está na moda, Lisboa é sexy, Lisboa é cosmopolita. Desde que não seja para viver e trabalhar. Sobre as digressões cosmopolitas da capital muito há a dizer, começando pelos “happenings” e pelos “conceitos”, na sua maioria cópias baças daquilo que se faz noutras paragens. No entanto, o drama está no penoso quotidiano.
Regressado de Madrid, onde desta vez vivi cerca de um ano, as diferenças no dia-a-dia são esmagadoras. Na capital espanhola consigo tratar da minha vida usando os transportes públicos, em particular o Metro. Profissionalmente, mesmo que num só dia tivesse de estar em três ou quatro sítios diferentes, o Metro dá abasto. Para as coisas mundanas, como ir ao supermercado, ia a pé. Ao contrário do que sucede em Lisboa, Madrid mantém o comércio local vivo. Em todos os bairros da cidade há supermercados, farmácias, pastelarias, lojas de informática, livrarias, ginásios, cabeleireiros, lojas de roupa, restaurantes, enfim, tudo o que faz falta. Em matéria de acesso à cultura, voltamos aos transportes públicos. Cinema, teatro, livrarias grandes ou especializadas, todos têm uma estação de Metro por perto. Não conheço na cidade de Madrid um único trajecto que se percorra com maior rapidez e conforto de carro do que em transportes públicos. Já em Lisboa conheço vários.
É verdade, as estações de Metro em Madrid são feias, algumas causam mesmo repulsa. Pelo contrário, as de Lisboa são verdadeiras obras de arte. Reconhecida a diferença, importa salientar um aspecto relevante quando falamos de transportes públicos: o Metro de Madrid funciona. O metropolitano da capital espanhola apostou na dimensão e na funcionalidade da rede, a segunda mais extensa na Europa. O de Lisboa apostou na imagem. Em hora de ponta, o intervalo de tempo entre metropolitanos em Madrid ronda os 3 minutos. Em Lisboa, também em hora de ponta, o intervalo de tempo oscila entre os 5 e os 15 minutos, isto quando não temos as célebres “perturbações de linha” – eufemismo para o muito português “desemerdem-se”.
Dir-me-ão que as coisas por Madrid também não são fáceis, ao ponto de ter sido necessária a contratação de empurradores. Certo, mas isso só demonstra o quão eficazes são por lá: Lisboa não tem empurradores, mas devia. O grau de intimidade entre estranhos proporcionado pelo Metro de Lisboa em hora de ponta está à beira de desafiar as noções mais lassas de libertinagem. Mas até nem é mau dar por mim nessa situação. Não porque seja um tipo devasso, mas porque é sinal de que consegui entrar na carruagem. Depois de uns bons 15 minutos de indagações anatómicas mútuas e forçadas, que inevitavelmente levam a comparações, quase sempre desfavoráveis à minha pessoa, lá chegarei ao meu local de trabalho sem grande atraso. Amaçado, com a paciência na reserva, com odores no corpo que não são os meus (por princípio, não me oponho a ter no corpo odores de terceiros, mas ao menos que me paguem um copo primeiro), exausto, mas a horas.
Nada disto parece interessar. O que importa é que a cidade é famosa. E o Metro de Lisboa “é nosso”, novamente público, livre do jugo capitalista previamente autorizado por uma infame concessão a um nefando privado. Se o regresso ao perímetro público traz dificuldades, paciência, é o preço a pagar. Além do valor do passe, claro. Bom, o valor do passe é claro, mas a correspondente factura tem uma tonalidade tão escura que nauseia.
Aqueles que pugnaram por um Metro público, ignorando por completo a sua funcionalidade, eficácia e o serviço prestado aos passageiros, deveriam meter as suas ideias no mesmo sítio onde eu meteria a minha pasta se eles viajassem ao meu lado. Ainda que por definição seja um sítio aconchegado, é mesmo o único local com espaço num Metro lisboeta em hora de ponta.

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SULTÕES DO SWING redescobertos

por José Navarro de Andrade, em 30.01.17

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Aquando do atroz incêndio que desfez em cinzas o Hotel Splendid, na Av. da Liberdade, julgou-se perdida para sempre a memória das sofisticadas soirées dançantes das meias-noites de Sexta-feira.
Até que no verão do ano passado num leilão do Sotheby’s foi levado à praça o espólio da Baronesa de Koenigswarter: 3 caixotes em pau-ferro do Maiombe, minuciosamente numerados 1, 2 e 3. Dado que o aval do revestimento creditava os dotes do conteúdo, as arcas mereceram a atenção dos licitadores e foi com algum custo que o Serviço Público as arrematou.
Devassados os cofres a pé-de-cabra revelou-se o tesouro: as fitas magnéticas com o registo de todos os SULTÕES DO SWING, os requintados saraus do Hotel Splendid!
Após uma laboriosa obra de restauro levada a cabo nos apetrechados laboratórios do Serviço Público, em breve Portugal, e por extensão o mundo, poderão voltar a escutar o insuperável glamour das noites de Sexta para Sábado do Hotel Splendid.

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Ano de autárquicas (2)

por Pedro Correia, em 10.01.17

Fernando Medina paga até 700 mil euros a empreiteiros para que as obras em Lisboa acabem mais cedo do que o previsto.

Os valores oscilam entre 1% e 10% do valor total da adjudicação.

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Das obras por Lisboa

por Marta Spínola, em 06.01.17

Deve dizer-se que na Fontes Pereira de Melo há três novas passadeiras, em locais onde as pessoas, durante anos, insistiam em tentar passar. Uma espécie de dor de membro fantasma invertida. 

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As baboseiras do Barbosa

por Pedro Correia, em 05.01.17

Leio no Público de hoje que Carlos Barbosa é hipótese para Lisboa, a encabeçar uma putativa lista social-democrata.

Que Carlos Barbosa, senhores do PSD?

O mesmo que concorreu em número dois na lista encabeçada por Fernando Seara para as autárquicas de 2013 que ditaram o pior resultado de sempre dos sociais-democratas na capital?

O mesmo que em Julho de 2013, enquanto vice-presidente do Sporting recém-eleito na lista liderada por Godinho Lopes, anunciou com irresponsável prosápia que o clube passaria a competir daí a um ano com o Barcelona, o Ajax e o Real Madrid, sete meses antes de abandonar aquelas funções por motivos que entendeu não divulgar?

Convém não menosprezar a inteligência dos eleitores de Lisboa na desesperada tentativa de disfarçar uma ausência total de estratégia política. Que outros coelhos saltarão desta cartola? Para pior já basta assim.

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Lisbonne vaut bien une messe

por Pedro Correia, em 17.12.16

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A indecisão do PSD sobre uma candidatura autárquica em Lisboa ameaçava deixar o partido prisioneiro dos palpites mais inesperados. Raro foi o dia em que nos últimos dois meses não ouvimos apregoar na praça pública o nome de um putativo candidato - de Maria Luís Albuquerque a Nuno Morais Sarmento, de Jorge Moreira da Silva a José Eduardo Moniz(!), de José Eduardo Martins a Laurinda Alves(!), de Carlos Carreiras a Paulo Rangel, de Rui Rio a Marques Mendes. O ensurdecedor silêncio da direcção nacional do partido sobre esta questão autorizava a mais extraordinária torrente de especulações. Isto enquanto todos os eleitores conhecem quem será o candidato socialista e Assunção Cristas, líder do CDS, já se encontra no terreno há vários meses, em arguta manobra de antecipação.

A gota de água surgiu ontem, quando o nome do próprio Pedro Passos Coelho começou a circular rapidamente como eventual protagonista dos sociais-democratas na corrida a Lisboa, o que prometia danos reputacionais ainda mais evidentes ao líder do PSD: numa primeira fase amarrava-o a um combate que nunca pensou disputar; na fase seguinte dir-se-ia que tinha desistido por "receio" de perder contra Fernando Medina. Em qualquer dos casos António Costa - que vem progredindo de sondagem em sondagem - só teria mais motivos para sorrir.

Por uma vez Passos soube reagir a tempo e mandou comunicar aos jornais que pondera fazer aquilo que o bom-senso recomenda: admite apoiar a sua ex-ministra Assunção Cristas na batalha autárquica da capital. Como escrevi aqui há quatro dias, Lisboa justifica um acordo eleitoral entre os dois partidos que à direita do PS estão condenados a um estreito e perdurável entendimento para a formação de uma maioria política alternativa ao actual xadrez dominante no Parlamento. "Paris vale bem uma missa", comunicou à posteridade o Rei francês Henrique IV ao reconverter-se em 1593 ao catolicismo.

Foi outra maneira de sublinhar esta regra de ouro da política: a todo o momento há que saber distinguir o essencial do acessório. Um político que seja incapaz de estabelecer esta diferença equivocou-se manifestamente na vocação.

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Os iluminados

por Rui Rocha, em 08.12.16

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O "I" avança hoje a possibilidade de Laurinda Alves ser candidata à Câmara de Lisboa pelo PSD. Parece-me bem. Laurinda tem um longo passado de intervenção cívica a propósito de assuntos prementes que afectam a vida dos lisboetas. Ora vejamos o que a pena impiedosa de Laurinda tem para nos dizer:

APAGUEM AS LUZES DE CARNAVAL (Observador, 6.12.2016)
"Abomináveis luzes estas, que espalharam pela cidade de Lisboa, quase todas frias, azuis, brancas, geladas, ou em combinações coloridas de tal maneira histriónicas que ficamos meio estonteados. Nas ruas da Baixa o carnaval é total e há laços e laçarotes pendurados entre prédios que parecem gigantescas mascarilhas venezianas. As colunas do Teatro Nacional D. Maria II foram recobertas de uma terliça toda branca florescente, em quadrados, e quando aquilo acende a fachada torna-se deslumbrante aos olhos de quem adora entradas de casino. Que moda esta, das luzes hiper coloridas, dos mantos eléctricos cheios de brilhos, das inconcebíveis teias de aranha iluminadas que nada têm a ver com a época, nem com a nossa cultura. Já nem falo dos ícones, porque deixou de haver anjinhos e até o pai Natal e as suas renas foram despedidos.
Não sei quem escolhe as luzes ano após ano, mas estão à vista as intenções e os propósitos. É um azar que no Natal se acendam luzes de Carnaval, mas se ao menos estas luzes de feira fossem menos azuis e mais douradas, ou encarnadas e quentes, a cidade brilharia de outra maneira. Assim parece tudo comprado na ‘loja do chinês’ (sem ofensa para os chineses, note-se, até porque conheço muitos, muito bons, e tenho grandes alunos na universidade que nasceram ou vieram da China e, até agora, não houve um único que não fosse inspirador para nós, professores!) e muitas ruas e avenidas parecem alamedas a dar entrada para uma gigantesca feira popular.".

O NATAL COMEÇOU A ATERRAR NA CIDADE (blogue A SUBSTÂNCIA DA VIDA, 23.10.2010)
"Na Rua Garrett, no coração do Chiado, começaram os preparativos para o Natal. Esta noite aterrou um batalhão vindo de Espinho, carregado de estruturas que parecem asas de anjos, para começar a montar as luzes de Natal. Esta certeza de que o Natal está à porta faz uma certa impressão. Ainda por cima porque acabo de chegar do Algarve, onde ainda parece fim de Verão... Na fotografia de cima José Domingues, da empresa que este ano monta as luzes nesta zona da cidade, liga os cabos aos mil fios que são precisos para manter as luzes acesas. Perguntei-lhe se o podia fotografar e ele disse que sim. Muito educado, tirou a luva para me cumprimentar, e quando lhe perguntei se este ano as luzes também eram azuis e frias como as do ano passado ele reagiu como se todo este emaranhado fosse criação sua: "Este ano, quando tudo estiver ligado, vai ver que é como o céu!". Percebi o que me queria dizer. Mostrou-me que as luzes são todas púrpura, já foram testadas e são uma beleza. Acredito.".

AS TRISTES LUZES DE LISBOA (Público, 21.11.2008)
"Da noite para o dia a cidade apareceu enfeitada de Natal mas este ano as luzes de Lisboa são tristíssimas. À excepção de dois ou três passeios considerados mais nobres e, por isso, com direito a uma iluminação quente e vibrante, todas as ruas têm luzes azuis, frias, geladas, sem graça e pior, luzes que choram. Na Avenida da Liberdade, por exemplo, o efeito mágico mais natalício que se inventou foi pôr lágrimas de luz a escorrer pelos fios, numa ilusão permanente de um choro silencioso que entristece e não apetece. Imagino que a iluminação da cidade tenha custos exagerados para os tempos que correm e não me custa acreditar que se não fossem alguns mecenas nem sequer haveria luzes de Natal mas pergunto se as lâmpadas azuis são assim tão mais baratas do que as encarnadas e as douradas. Serão? E a coisa compensa? Ou o azul é a cor de quem paga e, por ser a cor de quem paga, também tem que ser a cor do Natal em Lisboa. Se assim é parece-me absurdo o princípio. Imaginemos que os patrocinadores tinham uma marca conhecida por ser listrada, será que as lâmpadas de Natal passavam a ser luzinhas zebradas e toda a cidade se convertia num bisonho jardim zoológico de espécie única? Pior do estas luzes azuis e frias do Terreiro do Paço e das avenidas só um Pai Natal vestido de pijama azul eléctrico. Sugiro que no próximo ano os responsáveis pelas iluminações revejam os catálogos de cores e ajustem os preços das lâmpadas festivas com os patrocinadores, negociando com eles a possibilidade de recuperar para o Natal as cores do Natal.".

Perante isto, afirmo sem receio que Laurinda é a candidata ideal para pôr esta coisa das iluminações de Natal de Lisboa na ordem.

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Histórias de Lisboa (V)

por Isabel Mouzinho, em 30.11.16

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 Senhora do Monte

 

Foi, durante muito tempo, o meu lugar de eleição. Lá do alto, com a cidade a meus pés, olhei-a deslumbrada horas a fio e pude assistir muitas vezes ao cair da noite ou ao nascer do dia, vendo Lisboa a clarear ou a escurecer, transformando-se devagar em sons, cor e movimento, ou em repouso e quietude.

Ali, troquei beijos apaixonados, namorei ao luar, chorei a desilusão de amores breves que acreditara serem eternos, ou procurei refúgio para, em silêncio e solidão, de olhos perdidos no horizonte e pensamentos à solta, tomar decisões sérias, pensar na vida, sonhar.

Na verdade, há neste ponto alto do bairro da Graça, talvez até o mais alto da cidade, uma magia qualquer que faz dele um lugar meio feérico, quase irreal, suspenso no tempo e no espaço. 

Consta que foi este o local onde D. Afonso Henriques instalou o seu acampamento para conquistar a cidade. Na ermida de Nossa Senhora do Monte, fundada em 1147, dedicada a São Gens, um bispo mártir, encontra-se a cadeira de pedra que lhe terá pertencido e, segundo a lenda, se uma grávida se sentar nela terá um parto sem complicações. Mas, lendas e tradições à parte, é sobretudo a vista que nos seduz, por mais que a conheçamos. E, para mim, o Miradouro da Senhora do Monte será sempre muito mais que a melhor panorâmica de Lisboa. 

Hoje, quando regresso,  - agora que o visito bem menos amiúde -, não encontro já o sossego e o encanto de quando eu tinha vinte anos, pois tornou-se ponto turístico obrigatório, com alarido e euforia em excesso e selfies garantidas. É quase como se aquele "meu" lugar fosse agora do mundo inteiro. E, no entanto, tem ainda qualquer coisa que me toca, me enternece, me enfeitiça, que me faz espantar de tanta beleza, e gostar muito de ser daqui.

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Delito à Mesa (5)

por Isabel Mouzinho, em 26.11.16

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Chiringuito 

 

Em espanhol designa um bar de praia, lugar de bebidas frescas e comidas simples e rápidas. Nada a ver, portanto, com este lugar lisboeta que aqui menciono. O que o Chiringuito tem de especial é a conjugação feliz de diversos factores:

O espaço, em primeiro lugar. São duas salas distintas, ambas arranjadas com cuidado e extremo bom gosto, num lugar que  antes funcionara como padaria. A sala que fica junto da rua tem uma decoração ligeiramente  mais informal, enquanto a segunda, mais espaçosa e conhecida como "a fábrica" ainda em alusão ao anterior espaço da padaria, com móveis antigos e louças do tempo das nossas avós, conjuga na perfeição o antigo e o moderno e faz lembrar a sala de jantar de uma família numerosa.

Depois, há a comida propriamente dita, entre o tradicional, alentejano e o espanhol andaluz, que é muito o leitmotiv do conceito subjacente e faz deste restaurante um espaço profundamente ibérico, misto de casa de petiscos e bar de tapas, como de resto é designado.

Das entradas às sobremesas, é tudo de "comer e chorar por mais", numa carta onde se podem encontrar algumas especialidades típicas de ambos os lados da fronteira: há as "puntillitas" e os "tintos de verano", os secretos de porco preto e os peixinhos da horta, as "patatas ali oli" e  as farófias, entre muitas outras delícias, em clara e subtil demonstração de que é muito mais o que nos aproxima do que o que nos distingue.

A acrescentar a tudo isto há ainda os preços muitíssimos acessíveis e a simpatia com que somos recebidos. O Chiringuito é um negócio familiar e isso sente-se no trato e no ambiente que se respira. No fundo, é quase como se jantássemos na sala da casa de uns amigos. Por isso saímos  claramente satisfeitos e com vontade de voltar muitas vezes.

Falta dizer que fica em Campo de Ourique, na rua Correia Teles, e que ao Domingo há  buffet de cozido ao almoço. 

Por fim, tenho que fazer uma confissão: é que posso ser considerada relativamente suspeita, uma vez que tenho pela família que está à frente do Chiringuito grande consideração e um afecto profundo, que é já antigo.

Mas estive em várias ocasiões no restaurante e quem me acompanhava, de todas as vezes, gostou tanto como eu. Este é pois, por agora, um dos meus lugares favoritos de Lisboa para estar à volta de uma mesa, com amigos, em ambiente agradável e descontraído, o que constitui, quanto a mim, um dos maiores prazeres da vida.

Ora vejam as fotografias... E depois passem por lá para comprovar se eu tenho ou não razão...

 

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Delito à mesa (4)

por Pedro Correia, em 22.11.16

Gosto de entrar em restaurantes onde já sou conhecido e sabem de antemão o que irão trazer-me para a mesa sem eu ter necessidade de consultar a ementa.

É como se fizesse parte da família alargada desses estabelecimentos, onde um cliente nunca deixa de ser bem tratado mas os habitués justificam um toque suplementar de atenção.

 

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 Solar dos Presuntos: a melhor 'paella' de Lisboa

 

Acontece-me, desde logo, no Solar dos Presuntos. Há anos que vou lá comer sempre o mesmo prato: a melhor paella de Lisboa. Sempre acompanhada por um excelente Alvarinho, o Portal do Fidalgo. Antes de me sentar, já qualquer membro da diligente equipa de empregados bem orientada pelo maestro Pedro Cardoso sabe qual será a minha opção, sólida e líquida.

O mesmo sucede no Nova Goa, onde mantenho fidelidade ao sarapatel. Sebastião Fernandes – proprietário, anfitrião e uma das figuras mais carismáticas da restauração lisboeta – nunca precisa de me estender o menu. Nem eu preciso de lhe dizer o que me apetece mastigar.

Sinto-me lá sempre em casa. Tal como no Salsa & Coentros, que frequento desde a abertura, e onde a escolha quase invariável é o arroz de perdiz – que já não necessito de encomendar. José Duarte, patrão e timoneiro deste simpático restaurante, bem sabe qual será a minha escolha.

Ali perto, no Mercado de Alvalade, quando me sento à mesa sei que virá o inconfundível balchão de camarão – acompanhado por um jarrinho de branco da Casa Ermelinda Freitas, uma das melhores relações preço-qualidade dos vinhos portugueses. Deixaram há muito de perguntar, deixei há muito de pedir.

Acontece o mesmo no Comilão. Secundino Cardoso, alma deste marco na arte de bem refeiçoar em Campo de Ourique, sabe o que ali procuro quase invariavelmente: o admirável arroz de pato, que tenho comido mesmo quando não consta da ementa.

 

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 Conventual: uma saudade

 

Foram-se os tempos do Conventual, que chegou a ter o melhor cozido à portuguesa de Lisboa, e do antigo Coelho da Rocha, onde rumei durante anos em busca da empada de lebre: ainda não me apeteceu regressar com a nova gerência.

Já não existe o Múni, na Rua dos Correeiros, onde o bacalhau à Gomes de Sá era imbatível.

No Bairro Alto deixou de morar o Pap’ Açorda, meu destino invariável quando me apetecia matar saudades dos incomparáveis pastéis de massa tenra. Espreitei o sucedâneo recém-inaugurado, ao Cais do Sodré, mas não fiquei cliente: pareceu-me presumido em excesso. Com doses demasiado minguadas a preços exageradamente robustos.

Os preços nada convidativos afastaram-me de outros poisos gastronómicos da capital que frequentei em tempos idos. Mas lembro ainda com um fio de nostalgia o bife tártaro do XL e a raia no vapor com alcaparras d' A Travessa.

 

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 Via Graça: os olhos também comem

 

Uns partem, outros chegam.

Por estes dias vou abancando no Ibo (lombinhos de peixe em molho de coco e coentros com puré de mandioca e batata doce) ou no Jesus É Goês (magnífico camarão recheado, imbatível nas rotas gastronómicas da capital). Nunca deixo de recomendar a piazza diavola do Come Prima. E revisito clássicos, como a Adega da Tia Matilde (arroz de frango), o Solar dos Nunes (arroz de lebre), o Poleiro (vitela barrosã no forno com arroz de salpicão) ou o velho-novo Via Graça, de onde se desfruta uma das vistas mais soberbas da capital.

De uns e outros tenciono falar aqui, nos meses mais próximos, recuperando uma série iniciada no DELITO por colegas como a Ana Vidal e o José Navarro de Andrade. Uma série que saberá ainda melhor se reflectir o saudável espírito colectivo que sempre cultivámos. As boas tradições devem manter-se.

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Há alguém muito baralhado no Reino de Lisboa

por Diogo Noivo, em 21.11.16

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Durante a Web Summit, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu criticar Donald Trump. Fê-lo usando fundos e recursos públicos, de forma presunçosa e com erros ortográficos, mas enfim, a crítica é legítima e a Trump não lhe faltam características merecedoras de censura.
O que já é difícil compreender é que se critique Trump e, acto contínuo, se atribuam as chaves da cidade a Abdel Fattah al-Sissi, o presidente do Egipto. Critica-se o presidente eleito de um Estado de Direito Democrático, um Chefe de Estado e de Governo cujo poder está limitado por um sistema de freios e contrapesos. Mas dão-se as chaves da cidade a um ditador que chegou ao poder por via da força, interrompendo um processo de transição democrática que, apesar das vicissitudes normais, avançava.
Temo que no município de Lisboa alguém ande a limpar os pés às cortinas e a tapar as janelas com os tapetes de entrada.

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Lisboa: o caos nos transportes (actualizado)

por Pedro Correia, em 16.11.16

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A Câmara Municipal de Lisboa diz que pretende tirar os carros do centro da capital e tudo tem feito nesse sentido. Esperar-se-ia que, em consequência, a rede de transportes colectivos melhorasse. Nada disso. Pelo contrário, o metro nunca funcionou tão mal. De tal maneira que se torna infrequentável em dias de maior afluxo de público, como sucede invariavelmente quando há jogos de futebol do Sporting e do Benfica. E aconteceu ontem, com o cenário de caos ocorrido a propósito do início da chamada Web Summit em Lisboa.

A administração da empresa, eventualmente confrontada com o congelamento de verbas destinadas à manutenção e ampliação da frota, mostra-se incapaz de adequar a oferta à procura.

 

A paciência dos utentes está a esgotar-se. Não passa um dia sem ocorrência de avarias na rede do metropolitano, que força sucessivos atrasos, relatados sem cerimónia a todo o momento nos avisos sonoros das estações. Quando as carruagens chegam às plataformas, vêm em regra sobrelotadas: não é rara a circunstância em que os passageiros são forçados a aguardar pelo transporte seguinte, tão lotado como o primeiro.

Estes episódios são mais frequentes na linha verde, que liga o Cais do Sodré a Telheiras. É a mais movimentada da rede do metro, pois passa em estações tão procuradas por residentes e visitantes como a Baixa-Chiado, o Rossio, o Martim Moniz, a Alameda e o Campo Grande. E no entanto, apesar disso, é a que dispõe de menos carruagens: três por comboio, em vez de quatro como seria de supor dada a dimensão das estações.

Não por acaso, o metro  lidera a nada honrosa lista das queixas de passageiros sobre o mau funcionamento dos transportes apresentadas à Autoridade da Mobilidade e dos Transportes ou no livro de reclamações da empresa: 878, só no primeiro trimestre de 2016.

 

Como utente diário do metropolitano de Lisboa, tenho assistido às cenas mais lamentáveis, afectando geralmente estrangeiros que nos visitam. Mães forçadas a levar carrinhos de bebés ao colo por avaria dos elevadores. Pessoas muito idosas obrigadas a subir a pé dezenas de escadas por avaria sine die da escadaria rolante, aliás inexistente na grande maioria das estações. Deficientes que desembarcam em plataformas sem elevadores e não avistam um só funcionário da empresa disponível para lhes prestar informações. 

Já para não falar no lixo que se acumula em diversos acessos às estações. A do Campo Grande é  um dos piores exemplos - talvez por estar fora dos habituais circuitos turísticos e não aparecer tanto nas fotografias. Fernando Medina, que tanto gosta de discorrer sobre política internacional nas suas tribunas mediáticas, bem podia um dia destes pronunciar-se sobre toda esta degradação.

 

O congestionamento do metro implica por sua vez enchentes noutros transportes, que também funcionam de forma cada vez mais caótica - com destaque para a frota da Carris, que raramente cumpre horários e suprime carreiras sem avisar, indiferente aos indignados protestos dos passageiros.

Não pode haver pior cartaz turístico do que este. Nem pode haver maior incentivo à utilização do automóvel na capital.

É chegado o momento de fazer a pergunta que se impõe: foi para isto que o Governo de António Costa se apressou a anular as concessões a grupos privados dos transportes públicos de Lisboa?

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Histórias de Lisboa (IV)

por Isabel Mouzinho, em 06.11.16

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Rua Passos Manuel

 

Na rua de baixo cabe o mundo inteiro. Há o Jardim Constantino e o restaurante "Vaskus", de portas vermelhas e toalhas de quadrados, que já existe há pelo menos trinta anos. E continua quase igual. Esta é, sem dúvida, uma rua singular, onde encontramos de tudo um pouco: a loja de artigos ortopédicos e a sexshop, a Igreja Evangélica ao lado da Livraria "Assírio e Alvim", a mercearia antiga e o cabeleireiro "Pura Vaidade", o VivaFit mesmo antes  do alfaiate, o "Mundo dos pneus" e a papelaria, o Hotel e o Externato, a Boulangerie Costes em frente do atendimento social da Junta de Freguesia de Arroios, a Farmácia, a venda de velharias e a loja de artigos eléctricos, entre tantos outros pequenos comércios de bairro.

Na rua Passos Manuel misturam-se as línguas, as raças e as nacionalidades numa coexistência pacífica que é o paradigma da nova Lisboa, moderna e antiga, bairrista e cosmopolita, retrógrada e arrojada, caótica e encantadora, cheia de luz, de vozes e de vida. Mas é também esta miscelânea que faz de Lisboa uma das mais fascinantes cidades que conheço, que, apesar do caos actual em que a deixam as obras do Medina, me seduz e apaixona todos os dias.

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Agradecimento.

por Luís Menezes Leitão, em 20.10.16

Agradeço a Fernando Medina o seu valioso contributo para a promoção da cidade de Lisboa no estrangeiro.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 25.09.16

«Na qualidade de pessoa que tirou a carta depois dos 30 anos, trabalha e (desde que tem voto na matéria) vive no centro de Lisboa, tem passe desde os anos 80, e faz 90% das suas deslocações urbanas a pé ou transportes públicos (incluindo, claro, táxi, porque depois das 21h30 demoro mais tempo entre o Rossio e as Amoreiras de transportes do que a pé), e nunca foi ao grande Porto de automóvel, estou de acordo consigo em tudo. E, ao mesmo tempo, estou de acordo consigo em nada. A Holanda, país rico e ordenado (até os alemães gozam com a ordem na Holanda), cuja maior "montanha" é da altura de Monsanto (não a aldeia beirã, mas o monte à saída de Lisboa), não é comparável em nada com Portugal.

Não é por gosto que as pessoas gastam duas ou três horas por dia no trânsito, e, as que usam transportes urbanos (como eu) empatam meses ou anos de salário num objecto que só usam ao fim-de-semana e em férias. O facto é que os transportes públicos em Portugal (como quase tudo o que é público, em Portugal) são ineficientes, excepto para as pessoas que lá trabalham. Na Holanda o pessoal dos comboios ocupa a primeira classe e vai para lá discutir diuturnidades e subsídios de flatulência? Na Holanda os trabalhadores do metro ganham em média o triplo dos passageiros? Na Holanda os trabalhadores do metro recebem complementos vitalícios para manter a reforma igual ao salário dos colegas no activo? Na Holanda há seis greves de transportes por ano?

Com estas condicionantes, com os custos de pessoal inacreditáveis que têm as empresas públicas de transportes, temos de perceber e aceitar que, ao fim-de-semana, haja metros de 16 em 16 minutos, que, depois das 22h00 é normal estar 20 minutos no Marquês à espera de um autocarro para as Amoreiras, ou meia-hora em Santa Apolónia à espera de um comboio que pare em Moscavide, que, salvo para “o Barbas”, seja impossível ir às praias da Costa sem levar um carro, que, tirando para Faro, ir ao Algarve de comboio é como ir à Índia, e que qualquer emigrante tem de trazer carro (ou vir de navette) para chegar à sua aldeia beirã ou transmontana.

Em suma: é a favor da privatização de todos os transportes públicos? É a favor da automatização da rede do metro, como em Barcelona? É que enquanto os transportes públicos de Lisboa e a CP estiverem ao serviço da CGTP, não será possível “acabar a ditadura do automóvel” - enfim, só se for falindo (outra vez) o erário público ou pondo tudo a andar de bicicleta, na nossa cidade das (muito mais do que) sete colinas, e não só os lunáticos que andam por aí em sentido contrário e com fones nas orelhas, e para quem (supostamente) se edificam longas pistas rosas que só servem para carrinhos de bebé, runners, senhoras com joanetes e amigos da construção civil com pouco trabalho.»

 

Do nosso leitor JPT. A propósito deste texto do Tiago Mota Saraiva.

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"Cada uno en su rutina"

por Diogo Noivo, em 25.09.16

Nos eléctricos de Lisboa há uma enorme mistura entre a necessidade e o prazer. Quem o diz é Juan José Millás, um dos mais célebres e interessantes escritores espanhóis contemporâneos, num artigo publicado pelo El País Semanal. Em poucas linhas e partindo de uma fotografia, Millás retrata a Lisboa de hoje, onde as velhas e trágicas rotinas de quem lá vive coincidem com as novas (e talvez igualmente trágicas) rotinas de quem a visita. É ler e perceber.

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Queremos mais estacionamento?

por Tiago Mota Saraiva, em 19.09.16

 

Se cada cidadão eleitor em Lisboa e no Porto tivesse um automóvel próprio as viaturas estacionadas nas nossas ruas ocupariam 6,2% e 6,5% das respectivas áreas da cidade. Se a esse número acrescermos o da média diária estimada de automóveis que entram nas duas cidades (700.000 e 70.000), podíamos ter o território de cada uma das cidades ocupado em 14,9% e 8,6% por estacionamento automóvel – o que poderá não andar longe do que sucede actualmente. Em Lisboa, os cerca de 1500 hectares potencialmente ocupados por automóveis correspondem à área de duas freguesias de Marvila ou sete Arroios.

Estes números servem para se perceber a radicalidade do problema e a necessidade urgente de construir políticas que alterem esta escalada de ocupação do território. A circulação dentro da cidade ou a existência de famílias com frota automóvel a residir em contexto urbano devem ser desincentivadas ao mesmo tempo que o custo dos transportes públicos deve diminuir e a sua frequência e qualidade aumentar. Por outro lado devem ser aceleradas as políticas de incentivo à mobilidade pedonal e ciclovias que têm vindo a ser desenhadas.

O sucesso do movimento de vizinhos do Jardim do Caracol da Penha em Lisboa - que mobilizou a população através de uma petição entregue na Assembleia Municipal e terá conseguido travar a pretensão da EMEL de construir no decorrer deste Verão um parque de estacionamento a céu aberto nos terrenos de uma antiga quinta com 1 hectare numa das zonas de Lisboa com maior carência de espaços verdes - deve ser motivo de reflexão. A resposta ao problema de estacionamento tem de deixar de ser sempre a criação de mais estacionamento. Temos inúmeros casos que demonstram que a afectação de mais espaço urbano a lugares de estacionamento não só não resolve como, a médio prazo, agrava o problema incrementando a solução do transporte individual.

Sendo certo que esta questão não se resolve da noite para o dia nem com um decreto, devemos trabalhar para que as decisões vão todas no mesmo sentido. Não se pode promover o uso da bicicleta ao mesmo tempo que se estimula o incremento do automóvel e tem de se perceber que, em certas circunstâncias, a criação de uma nova carreira de autocarro pode resolver um problema de estacionamento.

 

(publicado hoje no i)

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