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Ponham-se a pau, Eça e Camões

por Pedro Correia, em 28.08.17

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Era o que faltava à Porto Editora para se actualizar: após mais de sete décadas ao serviço da excelência do serviço público, passou a receber lições de pedagogia do poder político.

Pedagogia censória, passe o oxímoro, em nome de valores respeitáveis, como a igualdade e a liberdade. E com solene chancela oficial, que manda - utilizando o eufemismo "recomenda" - retirar duas publicações dos postos de venda. O fantasma do doutor Salazar deve emitir uns sopros irónicos lá entre os vetustos reposteiros de São Bento.

Com a diligente brigada dos bons costumes apostada em pôr multidões ordeiras e ululantes a entoar a novilíngua deste admirável mundo novo, condenando sem cuidar sequer do rigor dos factos, o vocabulário comum em democracia torna-se policiado como se vivêssemos em ditadura. E não tenhamos ilusões: esses patrulheiros não tardarão a exercer censura com carácter retrospectivo, pois só quem controla o passado é capaz de controlar o futuro. Atenção, misógino Pessoa. Toma cuidado, falocrático Eça - reles perpetuador de "estereótipos de género". Põe-te a pau, racista e islamófobo Camões.

Haja cuidadinho com as cores também. Os daltónicos, coitados, é que se tramam.

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A missão do jornalismo

por Pedro Correia, em 16.08.17

Há dias, na primeira página de um jornal, li o seguinte título: "Dona da MEO convida mais de 50 trabalhadores a rescindir contratos".

Adoro estes doces eufemismos dos tempos modernos. Eufemismos como o dos recentes "furtos" de Tancos, pondo de lado a rude palavra "roubo", que ainda há pouco ouvíamos proferir a torto e a direito a propósito das mais diversas situações. Ou até a despropósito.

A MEO quer despedir mais de 50 trabalhadores. Tão simples como isto. E tão incómodo, compreendo. Nada que um jornal deva ocultar. Porque a missão do jornalismo é relatar a verdade, não silenciar ou camuflar factos incómodos.

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Ao nível do estábulo

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.12.15

A raiva é uma doença grave que ocorre, em regra, em cães e gatos, embora seja transmissível aos humanos. Manifesta-se, ao que aprendi, embora seja naturalmente um leigo em matéria de medicina, seja veterinária ou para humanos, por acessos furiosos e ataques de cólera, a que se seguem momentos de paralisia. Também pode ser o nome de uma doença das gengivas que se manifesta nas crianças.

Não sei se o deputado Duarte Marques sabe o que é a raiva para, referindo-se ao primeiro-ministro e a José Pacheco Pereira, dizer que "António Costa é menos raivoso contra o PSD do que Pacheco Pereira".

Confesso que nem queria acreditar no que li.

Duarte Marques, sendo deputado da nação, não passa de um fedelho. De nada lhe serviu ser aos 21 anos, de acordo com o seu brilhante currículo, assessor de Morais Sarmento, visto que não conseguiu aprender a escrever decentemente e a ter boas maneiras com o então ministro, como também de nada lhe serviu que Marco António Costa, vice-presidente do seu partido, se tivesse queixado do uso de linguagem imprópria e excessiva por parte do PS, acusando este partido de ter uma linguagem própria de partidos extremistas. Que dirá agora Marco António Costa da linguagem do seu colega de bancada ao referir-se ao primeiro-ministro e a Pacheco Pereira? Será linguagem própria de quem? De um rufia? De um estábulo? Do "putedo", como diria Arnaldo Matos?

Eu, que já por várias vezes me manifestei contra o tipo de linguagem usada em São Bento por alguns senhores deputados, de todas as bancadas, sublinhe-se, não gostei de ler as declarações de Duarte Marques. Bem sei que alguns dos senhores deputados, apesar de não serem asininos se comportam algumas vezes como se usassem arreios, em sentido figurado, evidentemente, mas nunca pensei que um deputado se referisse ao primeiro-ministro e a Pacheco Pereira nos termos em que o fez, como de se animais raivosos se tratassem, e ele próprio não fosse um deputado e conselheiro nacional (!) do PSD.

Nenhum dos visados me passou procuração. Nem é isso que está aqui em causa. Mas o baixo nível de que o deputado Duarte Marques volta a dar mostras, aliado à projecção que tem, pelos vistos, no seu partido com a consequente amplificação que lhe é dada pela comunicação social, não podia passar em branco.

Pela linguagem que usa, Duarte Marques revela não ter categoria nem para servir como mainato do primeiro-ministro ou de Pacheco Pereira, esquecendo-se de que são os impostos dos portugueses, incluindo os dos visados, que lhe pagam o salário para que possa dizer os dislates que diz nos termos em que o faz.

O Dr. Passos Coelho, que em matéria de educação é pessoa correcta e que não usa linguagem desbragada, devia dar uma reprimenda ao sujeito e obrigar o senhor deputado a pedir desculpas públicas aos portugueses pela linguagem que usa. E, se possível, aproveitar para lhe enfiar uma rolha e dar-lhe qualquer coisa para fazer. De preferência uma ocupação que não o obrigue a escrever e a falar em público.

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Penso rápido (77)

por Pedro Correia, em 16.11.15

O primeiro combate ao terrorismo começa na linguagem. Não chamar "estado islâmico" ao Daesh, por exemplo.

Porque aquilo não é Estado algum: é um bando terrorista que se apropriou ilegitimamente de largas faixas de território no norte de África e no Médio Oriente, onde mutila, tortura e mata todos os "infiéis", submete as mulheres a uma opressão tirânica e tem provocado danos irreparáveis ao património cultural da Humanidade.

Além disso só por macabra ironia estes terroristas podem intitular-se islâmicos: o maior número das suas vítimas professa essa mesma fé.

Ao chamar-lhes "estado islâmico" estamos a perder a primeira batalha, reconhecendo ao bando criminoso um estatuto que não tem nem nunca terá. Porque nesta guerra também as palavras equivalem a munições.

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Falar claro

por Pedro Correia, em 14.11.15

Oiço nas televisões chamar terroristas aos terroristas. Nem sempre acontece, por isso apetece-me sublinhar o facto. Não há nada como falar claro.

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Esta coisa das palavras

por Isabel Mouzinho, em 30.07.15

Dentro da minha cabeça vou deslocando as vírgulas, substituindo um verbo por outro, afinando um adjectivo. Às vezes redijo mentalmente a frase perfeita e, no pior dos casos, se não a aponto a tempo, mais tarde foge-me da memória. Resmunguei e desesperei-me muitíssimas vezes tentando recuperar aquelas palavras exactas que iluminaram por um instante o interior do meu crânio, para depois voltarem a mergulhar na escuridão.

Esta é uma passagem de um livro que ando a ler, de Rosa Montero (La loca de la casa), que aborda um assunto que me apaixona desde sempre, ou pelo menos desde o tempo até onde a minha memória consegue chegar: as palavras, o que elas significam e a distância que as separa daquilo a que elas se referem e  daquele resto mais fundo que nunca se consegue dizer e apenas se sente. E por isso, também, a incessante procura da palavra mais exacta, ou mais aproximada do que se quer transmitir... 

E depois há nas palavras a ambiguidade de trazerem em si a morte e a impossibilidade de morrer: ao  serem nomeadas, as coisas deixam de existir, adquirindo  outra forma de ser. A palavra que as designa nega-lhes a existência real e dá-lhes uma existência nova, na palavra. Ao fazê-lo, a linguagem adquire um carácter destrutivo, em certa medida: reduz as coisas a meras ausências, criando uma incomensurável distância entre elas e as palavras que as designam.

E, no entanto, a distância que a utilização da linguagem implica é a condição do entendimento possível das coisas, o único modo de elas nos serem comunicadas, de nos aproximarmos delas e de as conhecermos. É, pois, pela realidade da linguagem que se acede à realidade das coisas, como única visão possível do mundo.

Anterior a toda a palavra, há uma existência de que temos de nos separar para podermos falar e compreender. A linguagem traz em si  a marca do que lhe falta e a precede, do que ela exclui ao manifestar-se. Mas, se é verdade que a linguagem começa por negar a existência do que afirma, podendo por isso considerar-se num certo sentido portadora de morte, há nela também uma ambiguidade intrínseca que faz dessa morte uma impossibilidade. Ao conter em si a negação e a afirmação, a morte e a vida, a linguagem faz com que uma e outra de certo modo se neutralizem, tornando a morte impossível.

Mantendo uma forte relação com a linguagem, a literatura acentua estas questões, assumindo-as de uma forma ainda mais radical. Ao reconhecer a linguagem como a única forma possível de apreender o mundo, a literatura distancia-se da linguagem tal como ela é utilizada usualmente e, a partir da infinita distância que estabelece, subverte a experiência do homem e do mundo, criando outros mundos possíveis e um modo próprio de os nomear. É essa diferença que nos enfeitiça e que determina a forma como lemos, escrevemos, pensamos, vivemos.

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Decifre se quiser

por Pedro Correia, em 07.02.14

Escrever bem, de acordo com a técnica jornalística, é adoptar a regra dos três C: de forma clara, concisa e compreensível.

O leitor não tem tempo nem paciência para voltar atrás porque não entendeu o significado daquilo que acabou de ler nem paga um jornal para decifrar charadas que lhe são servidas em forma de notícia.

Um excelente exemplo surgiu esta segunda-feira, no diário espanhol El Mundo, em texto assinado pela correspondente do jornal em Nova Iorque, María Ramírez, a propósito da súbita morte de um dos mais célebres nomes popularizados por Hollywood.

O primeiro parágrafo da notícia é um modelo de concisão e limpidez: "O actor Philip Seymour Hoffman, de 46 anos, foi encontrado morto este domingo no seu apartamento de Manhattan com uma seringa espetada no braço."

 

Pelo contrário, são cada vez mais frequentes as frases incompreensíveis na nossa imprensa - até em títulos. Frases codificadas, oriundas de um jargão tecnicista ou empresarial e polvilhadas de estrangeirismos que certos jornalistas pretendem à viva força incorporar no vocabulário comum. Esquecendo que devem ser eles a descodificar a mensagem e não o leitor a esforçar-se por tentar decifrar aquilo que se pretende comunicar.

 

 

Deparo todos os dias com frases em que prevalece o tom charadístico, numa espécie de caricatura involuntária do que não deve ser a escrita usada em jornalismo: opaca, inexpressiva, indecifrável.

Ao falar-se na crise do jornalismo contemporâneo omite-se com frequência este aspecto: a falta de capacidade para comunicar. Quando iniciei a actividade jornalística, na década de 80, os velhos tarimbeiros da redacção costumavam dizer aos novatos como eu: "Escreve de maneira a que possas ser entendido não pelo físico nuclear mas pela empregada doméstica." Utilizando, desde logo, um vocabulário acessível a todos. Precisamente ao contrário daquilo em que que tantas vezes reparo agora. Como se o mais difícil fosse escrever de forma simples.

 

Às vezes dou por mim a pensar que fazem falta esses tarimbeiros nas redacções actuais - pessoas dotadas não com títulos académicos mas com o bom senso que deriva da sabedoria comum.

Muitos dos erros que costumo anotar seriam evitados pelo olhar atento e experiente de um bom editor. Mas como evitar a propagação do erro se quem tantas vezes o comete são profissionais do jornalismo investidos das funções de direcção ou editoria?

Voltarei a este assunto, raras vezes ou nunca debatido no espaço público. Para já, ficam 50 exemplos que fui colhendo da nossa imprensa:

 

 

"falta cada vez menos para o kick-off deste jogo"

"alternar entre o aceleramento, o giroscópio e os dois joysticks"

"a proposta tem vários regimes e vários períodos de phasing out"

"o processo devia ter sido muito mais friendly user para os utilizadores"

"o event designer conta como gere a profissão"

"podia ser um storyboard"

"temos de buscar clusters de desenvolvimento"

"não se consegue compreender porque é que há este delay"

"as teorias de agenda-setting"

"criámos todo um sistema de back up"

 "downgrade sobre a dívida portuguesa"

 "o presidente fez o takeover"

"ele estaria a causar twitter storms constantemente"

"o mercado de credit default swaps atribui a Portugal uma possibilidade de default"

"case study na habitação"

"retalhistas omnichannel"

"hotel em Armação de Pêra é All inclusive"

"reestruturação de programas do daytime da SIC"

"se o governo quiser fazer um restyling, tudo bem"

"acessórios must have da estação"

"ficámos a saber o breakdown dos chumbos"

economic adviser do Governo"

"este país adora quick fixes"

"seria um trabalho de accountabillity útil"

"os estúdios a olharem ao espelho num blacklot em Hollywood"

"os respectivos artwork e streaming

"Portugal tem de descer os salários em relação ao core da zona euro"

"o partido funciona por key words"

"livrarias queer migram para a Net"

"a última filosofia para superar crises conjugais é o coaching familiar"

"sou uma fashion victim"

"vai ser criada uma safe house em Lisboa"

"poderá utilizar o crowdfunding"

"o governo não pode ceder nos valores core"

"tentativa de criação de um catch-all party"

"Ucrânia e Polónia preparam-se para o seu close-up"

"as contas são o nosso bottom line"

"Bolsa alvo de ataque de short-selling"

"ao Chelsea sai quase sempre bem o papel de underdog"

"um daft punk em pose de artes marciais"

"receio de ficar fora do loop"

"ex-ministro recomenda a criação de um imposto one shot"

"o percurso foi feito para ser TV-friendly"

"o investidor segue uma estratégia passiva de buy-and-hold"

"a dialéctica entre believers e haters"

"o cinema teve outros provocadores e outros pranksters"

"há muito ganhou o gosto do gimmick"

"anunciada por uma espécie de cliffhanger"

"este projecto é um wake up call fenomenal"

"o back-to-basics está para ficar"

 

Decifre quem quiser. E quem puder.

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Dia Nacional da Língua Gestual

por Fernando Sousa, em 15.11.13

Hoje é o Dia Nacional da Língua Gestual Portuguesa

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Das ironias

por Rui Rocha, em 23.11.12

Há, pelo menos, duas formas de ironia. A primeira socorre-se da linguagem, embora a tome muito para lá do seu valor facial. Quando Aníbal pede na cerimónia de entrega dos prémios Gazeta que digam que esteve mas não falou, o que propõe é um jogo que pressupõe o desvio do sentido literal das palavras que profere. É um tipo de ironia em que o proponente está aos comandos. Para que a ironia funcione é indispensável, é claro, que os destinatários participem. Que desviem o olhar interpretativo do valor facial das palavras para inquirir sobre aquilo que se quis dizer. Neste tipo de ironia há sempre algum risco. Se o proponente não tiver habilidade ou se os destinatários apresentarem uma qualquer barreira ao processo de comunicação (conhecimento deficiente da língua, desconhecimento do contexto ou segundas intenções, por exemplo) o efeito pretendido pode não verificar-se ou acontecer mesmo que a ironia acabe por residir no facto de esta se virar contra quem pretendia ser irónico. Em todo o caso, quando alguém utiliza a linguagem para produzir um significado oposto ou diferente do que decorre do sentido literal das palavras utilizadas temos sempre um proponente que aspira a controlar a informação transmitida, ainda que na prática as coisas possam, como vimos, descontrolar-se. Outras vezes, todavia, a ironia revela-se na descontinuidade entre um efeito e aquilo que seria de esperar que determinada acção viesse a desencadear. Aqui, a ironia não tem nada de voluntário. Surge sem que exista um proposta irónica inicial e intencional. A estas costumamos designá-las ironias do destino, expressão que traduz com a proximidade possível a irrupção de uma situação irónica inesperada e não controlada. Na entrega dos prémios Gazeta, a ironia que Aníbal quis produzir funcionou enquanto tal (outra coisa é saber se beneficia ou não o proponente). O sentido literal de estou calado foi transformado, remetendo para a interpretação do significado dos silêncios de Aníbal. Não deixa de ser irónico, todavia, que o Presidente tenha nesta mesma semana sido protagonista do outro tipo de ironia de que aqui se falou. Quando Aníbal refere a necessidade de regressar ao mar, à agricultura e à indústria, sendo ele quem foi, parece não se dar conta de que foi apanhado a jeito por uma ironia que surge de forma não provocada. É por essas e por outras que, mais do que ironias do destino, prefiro chamar-lhes supremas ironias.

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Que se lixem as eleições

por Rui Rocha, em 25.07.12

Pedro Passos Coelho tem utilizado uma linguagem colorida em diversas ocasiões. Desde a referência ao pote ainda em campanha eleitoral, passando pelos piegas ou pela porcaria na ventoinha e acabando no mais recente que se lixem as eleições. Em geral, não parece um tipo de discurso apropriado à responsabilidade que lhe cabe. Não existe qualquer necessidade de acrescentar a erosão do nível da linguagem à evidente degradação da imagem das instituições. E a linguagem própria da conversa de café é absolutamente de evitar quando existe o risco de ser interpretada como um rótulo negativo que se cola à generalidade dos portugueses. É provável que nenhum erro governativo tenha afectado tanto a imagem de Pedro Passos Coelho como o célebre episódio dos piegas. Isto dito, há momentos em que a utilização de linguagem não institucional faz todo o sentido. Em situações em que o país ou os governantes se encontram extremamente pressionados e perante escolhas fundamentais, não tem o mesmo efeito utilizar termos redondos como o país está acima dos interesses particulares ou encher o peito para dizer que se lixem as eleições. No primeiro caso, trata-se de uma fórmula estafada, utilizada por todos, a propósito de tudo e de coisa nenhuma. No segundo, a coloquidalidade da linguagem introduz uma nota de novidade e tem o efeito de um murro na mesa. Aqui, a linguagem é o contexto de um subtexto que incorpora uma intenção de ruptura, um corte com práticas e políticas cansadas. Daí que o problema dessas declarações de Passos Coelho não esteja no tipo de linguagem utilizada. Pelo contrário, desaconselhável noutras circunstâncias, esta apresenta-se como totalmente adequada à crise que vivemos, à necessidade de profunda mudança e de corte com o passado. A questão está por isso na vinculação à mensagem.  A expressividade das palavras confere-lhe a natureza de um grito. Que todos ouvimos. Gritada como foi, a mensagem vincula Passos Coelho a cumpri-la nas suas acções. E vincula-nos a nós como juízes do seu cumprimento. Não há decisão que Passos Coelho venha a tomar que possa escapar do pano de fundo desse que se lixem as eleições. E não há juízo que possamos formular que não deva tê-lo em conta. Em caso de incumprimento, Passos Coelho está bem lixado.

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Houaiss te pego

por José Navarro de Andrade, em 01.03.12

 

Acabei de ler através do site blogtailors, que recolhe a notícia no Correio da Manhã e no Diário Digital (tudo muito em rede, portanto) que o digníssimo (será este o tratamento protocolar?) procurador regional Cléber Eustáquio Neves (contém-te Zé, os nomes no Brasil são diferentes…) deu entrada no Ministério Público Federal de Uberlândia (MG) uma acção em que solicita a imediata retirada de circulação, venda e distribuição do Dicionário Houaiss.

Sendo eu possuidor de um exemplar em 7 tomos da referida obra, dei atenção à noticia, até por razões assaz egoístas e perversas, com vista ao lucro fácil, pois podia ser que os calhamaços se pudessem valorizar nos alfarrabistas.

De que se queixa o dr. Neves? Do verbete relativo a “ciganos” cujo §5 reza: “que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador” e §6: “que ou aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina.”

Após arrumar o tomo II "Bat-Cza", onde recolhi a citação supra, corri a verificar no tomo IV "Fre-Mer" se à apoquentação do dr. Neves não teria escapado o verbete relativo a “judeu” e “judiaria”, tendo constatado – e não vos maço mais com citações – que a ira dele poderia ir muito mais além, tendo matéria de sobra para reforçar a queixa de que o Houaiss colabora para “semear a intolerância étnica”. Será que o dr. Neves, ele próprio, sofre de preconceito, saindo em defesa dos ciganos mas negligenciando a proteção linguística dos hebreus?

Ora aqui está um caso chapado desta espécie de fascismo linguístico, que no seu puritanismo e nas suas certezas ideais, intende rasurar a utilização mundana da língua, em nome de uma adequação perfeita aos supinos conceitos que a deve informar. A minha avó, na sua profunda e rústica ignorância teológica, apodava-me de judeu cada vez que eu atirava pedras aos gatos, o que era, no dizer dela, cheia de piedade pelos felinos, uma "judiaria”. Para o procurador de Uberlândia este linguajar eticamente errado (digo eu hoje, ignorava ela, coitada, então), como não deveria ter existido, não deve ser cientificamente registado.

Pior do que o soneto do causídico é a emenda do Instituto Huaiss, que embora lá vá explicando que o dicionário deve ser o “espelho” das “ocorrências da fala”, acaba prostrando-se em desculpas e jurando que na próxima edição da obra tudo estará conforme.

Pobre avó, nunca disseste o que te ouvi dizer, e do teu desaparecido mundo rural não ficará uma vírgula que seja.

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Da importância das palavras

por Pedro Correia, em 20.08.11

 

Um grupo de manifestantes que protestasse nas ruas de Madrid ou de qualquer outra capital europeia contra a visita de um dirigente espiritual islâmico seria logo rotulado de "antimuçulmano". Os participantes nessa manifestação ganhariam de imediato o epíteto de "islamófobos" e não faltaria quem sublinhasse a necessidade de combater ódios religiosos em nome da liberdade de crença e do respeito pela fé alheia.

Tudo muda quando esse dirigente espiritual é o Papa. Os manifestantes passam a ser "laicos", nenhum deles é descrito como anticatólico e muito menos como vaticanófobo. Os gritos de "Papa nazi", "assassinos", "ignorantes", "pedófilos" e "filhos da puta" com que nestes dias alguns destes "laicos" têm brindado centenas de milhares de jovens católicos inserem-se na naturalíssima liberdade de manifestação que justifica aplauso dos mesmos que se indignariam com uma ruidosa reunião de "islamófobos".

Isto deve fazer-nos reflectir sobre a importância das palavras no espaço comunicacional. Nenhuma delas é neutra, nenhuma delas é irrelevante: todas nos chegam carregadas de ideologia. Compete ao bom jornalismo evitar as armadilhas da linguagem que estabelecem dois pesos e duas medidas para situações similares. Porque o preconceito ataca quando menos se espera. Sobretudo o preconceito daqueles que se proclamam livres de preconceitos.

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Leitura para quem não quer perder tempo com "pentelhos"

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.05.11

 

"La réalité sociale, affirme John Searle, n’existe que par nos actes de langage. Nos déclarations font exister un monde, comme le prêtre ou le maire font exister mari et femme en prononçant le mariage".

 

Aqui a recensão. Aqui a encomenda.

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