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Ao Rui

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.03.17

 

La cigarette sans cravate
Qu'on fume à l'aube démocrate
Et le remords des cous-de-jatte
Avec la peur qui tend la patte
Le ministère de ce prêtre
Et la pitié à la fenêtre
Et le client qui n'a peut-être
Ni Dieu ni maître

Le fardeau blême qu'on emballe
Comme un paquet vers les étoiles
Qui tombent froides sur la dalle
Et cette rose sans pétales
Cet avocat à la serviette
Cette aube qui met la voilette
Pour des larmes qui n'ont peut-être
Ni Dieu ni maître

Ces bois que l'on dit de justice
Et qui poussent dans les supplices
Et pour meubler le sacrifice
Avec le sapin de service
Cette procédure qui guette
Ceux que la société rejette
Sous prétexte qu'ils n'ont peut-être
Ni Dieu ni maître

Cette parole d'Evangile
Qui fait plier les imbéciles
Et qui met dans l'horreur civile
De la noblesse et puis du style
Ce cri qui n'a pas la rosette
Cette parole de prophète
Je la revendique et vous souhaite
Ni Dieu ni maître

 

On se retrouvera. Obrigado, meu amigo.

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Imbecilidade com respaldo institucional

por Diogo Noivo, em 07.03.17

Uma pessoa ia dar uma conferência numa universidade. Essa pessoa tem curriculum académico e profissional relevante. Nada indicava, sugeria, ou indiciava que da conferência resultaria um ataque aos direitos, liberdades e garantias previstos na Constituição. Porém, um grupelho, porque não gosta da pessoa que ia ministrar a conferência nem das pessoas que a organizavam, decidiu lavrar protesto, suscitar desordem e exigir à faculdade o cancelamento da conferência. O Caramelo que está à frente da faculdade, certamente por não entender as funções que desempenha e a missão da instituição que dirige, acedeu ao pedido.
Podia sair do campo da abstracção e dizer que raras vezes concordo com Jaime Nogueira Pinto, muito embora tenha por ele admiração intelectual. Podia defender a pertinência do tema que ia ser debatido. Podia ainda afirmar que, pessoalmente, os promotores da conferência me parecem um pouco anacrónicos. Mas, para o caso, o detalhe e as apreciações pessoais são extemporâneas. Houve um gravíssimo atentado a liberdade de expressão, mais grave por ter sucedido numa instituição que, por definição, deve ser um espaço de debate, de liberdade e de conhecimento. Em vez de pastar por locais como o esquerda.net, o grupelho teria muito a ganhar em ler um notabilíssimo escritor de esquerda chamado Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell. Entre outras coisas relevantes para o assunto em apreço, escreveu Orwell que "...to be corrupted by totalitarianism one does not have to live in a totalitarian country. The mere prevalence of certain ideas can spread a kind of poison that makes one subject after another impossible for literary purposes. [...] But what is sinister, [...], is that the conscious enemies of liberty are those to whom liberty ought to mean most." Só por estes pequenos excertos, e se não forem completamente destituídos, já aprendiam qualquer coisinha. Eles e o Caramelo.

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Parece simples, não é?

por Diogo Noivo, em 09.02.17

 

João Gomes de Almeida, no ECO:

 

"Mas numa coisa concordo com Fernanda Câncio: uma fação da sociedade não tem o direito de impor à maioria dos cidadãos a sua vontade. É por este motivo que acredito que os temas socialmente faturantes, ou como a jornalista refere as “escolhas do domínio da ética”, devem ser decididas por todos. Ou seja, através de referendo, tal como aconteceu com a Interrupção Voluntária da Gravidez. Isto porque nunca uma minoria deveria ter o poder de sobrepor o seu interesse ao da maioria. Certo? Não é isso que significa ser de esquerda?

Mas quando chega à hora de dar a palavra ao povo, a esquerda normalmente encolhe-se e gosta de disparar um dos argumentos mais falaciosos do jogo democrático: “os direitos não se referendam”. O tanas é que não! O povo afinal não é soberano? Foi à conta desta retórica que os partidos de esquerda têm conseguido, na maioria das vezes à pressa e atabalhoadamente, fazer passar na Assembleia da República diplomas sobre os temas que dividem a sociedade. Socorrendo-se sempre da falácia de que “estes temas só dizem respeito a quem é afectado por eles” – o que é imperativamente mentira, se partimos do princípio de que todos vivemos em sociedade e de que as transformações que se operam na mesma dizem respeito a todos."

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In memoriam

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.01.17

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A História não se rescreve, a liberdade não se apaga.

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O paradoxo de Abril

por Diogo Noivo, em 25.04.16

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Há poucas certezas na vida. A morte, os equinócios e a ocorrência de alarvidades em jogos de futebol figuram entre as poucas coisas que podemos dar por certas. Pelo contrário, ano após ano o dia 25 de Abril é uma sucessão de infalibilidades: cravos vermelhos, discursos no parlamento, música de intervenção e, mais recentemente, gente nas redes sociais a partilhar uma entrevista de 2011 onde Otelo Saraiva de Carvalho pede um novo Salazar para Portugal. Mas o dia da liberdade presenteia-nos com outra certeza: o sequestro da data e do seu simbolismo por quem pretende manter feudos de privilégio onde, por definição, a liberdade é intrusa. É o supremo paradoxo: usar o dia da liberdade para combate-la. Este ano, os táxis são os protagonistas e a Uber é o alvo.

 

Claro que a lei é igual para todos e, por isso, todos a devem cumprir. O que não é tão claro são as razões que levam os taxistas a acusar a Uber de incumprimento. Uma simples pesquisa dir-nos-á que a Uber paga impostos. Aliás, ao contrário do que sucede no sector do táxi, todas as transacções ficam registadas. O Estado agradece e eu, na minha qualidade de contribuinte, também. Percebemos ainda que os veículos associados à Uber dispõem de seguros e pagam licenças (são táxis letra A ou táxis letra T, operadores turísticos devidamente habilitados a fazer transporte de pessoas e empresas de ‘rent a car' que alugam veículos a turistas). Há, no entanto, uma decisão de um Tribunal de Lisboa que suspende a actividade da Uber em Portugal, mas os peticionários erraram no alvo e parece que erraram igualmente nos pressupostos.

 

Vista a Uber, se olharmos para o sector do táxi veremos que o paradoxo de Abril deste ano se declina noutro. O enquadramento legal do transporte em táxi em Portugal data de 1998, mas tem por base regras e princípios definidos na regulação de 1948. Portanto, para além do empenho em retirar liberdade aos consumidores, os taxistas usam o 25 de Abril para defender princípios estabelecidos pelo regime autoritário que Abril enterrou.

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Liberdade, este bem tão frágil

por Pedro Correia, em 27.03.16

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E em três dias leio um livro de 334 páginas. Um livro que me agarrou desde o primeiro parágrafo e me fez largar tudo quanto lia antes. Ainda por cima um livro que já tinha lido há muito - na década de 80. Regresso aos tempos da adolescência, em que lia compulsivamente, horas a fio. Voltou a suceder-me neste fim de semana alargado, entre a chuva triste e resignada de Sexta-Feira Santa e o esplendor soalheiro da manhã pascal. Com Uma Noite em Lisboa, de Remarque. Um grande escritor é aquele que supera a prova da sua época, seduzindo leitores nascidos já depois das páginas que escreveu. É o caso.

Este romance reedita de algum modo as tragédias gregas - com unidade de espaço, de tempo e de tema. É um romance em que nada "acontece": há só dois interlocutores sentados em torno de uma mesa e tudo se vai desenrolando a partir do fio da memória de um deles em plena II Guerra Mundial. Um romance todo ambientado em Lisboa, embora a nossa capital surja apenas em breves pinceladas descritivas. Mas voltei a senti-lo como um romance português. Devia figurar, por cá, nas aulas de leitura. E nos cursos de escrita criativa.

Eis o parágrafo inicial, que voltou a prender-me como da primeira vez:

«Demorei-me a olhar fixamente para o navio. Profusamente iluminado, o barco aguardava fundeado no Tejo. Embora estivesse em Lisboa há já uma semana, ainda não me habituara à sua iluminação exuberante. Nos países por onde anteriormente passara, à noite as cidades jaziam escuras como minas de carvão e uma lanterna nas trevas era mais temível do que a peste na Idade Média. Eu vinha da Europa do século XX.»

Um romance sobre o maior pesadelo desde sempre ocorrido neste Velho Continente em que Lisboa funciona como porto de chegada ou porta de saída. Um romance sobre noites de chumbo que imaginámos sepultadas para sempre mas que podem regressar, como os fantasmas das histórias de assombração. A liberdade é um bem frágil, volátil e caprichoso: devemos cuidar dela todos os dias. Começando por ler sobre os tempos em que ela mais não era do que um sonho longínquo e feliz.

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Mais inseguros e menos livres

por Pedro Correia, em 23.03.16

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A chacina que ontem enlutou Bruxelas, numa nova série de atentados meticulosamente preparados por extremistas islâmicos que provocaram pelo menos 31 mortos e 250 feridos, força-nos desde logo a emitir uma palavra de pesar pelas vítimas. Pessoas inocentes que estavam no local errado à hora errada.

Podia ser eu, que escrevo estas linhas.

Podia ser qualquer de vós.

 

No entanto, como o João e o Diogo já sublinharam, por maior que seja o nosso pesar há que resistir à tentação de apelar desde já ao reforço das medidas securitárias, destinadas a transformar o continente europeu numa ilha-fortaleza.

É evidente que a segurança não pode ser menosprezada. Isto implica combater alguns tabus, nomeadamente o menosprezo que a esquerda radical no seu vozear demagógico dedica aos serviços de informações, vitais para prevenir atentados terroristas em larga escala.

Mas o combate ao terrorismo não pode servir de pretexto para novas restrições às liberdades que custaram tanto a erguer nesta Europa durante séculos dilacerada por massacres e guerras.

 

A troca de parcelas destas liberdades pela segurança total - sempre ilusória, sempre inalcançável - constitui um falso dilema. Porque a segurança, tal como a concebemos nas democracias liberais, é inseparavel da liberdade.

Um mundo cada vez menos livre é também um mundo cada vez mais inseguro.

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A defesa da normalidade

por Diogo Noivo, em 22.03.16

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A morte chegou entre as 7h37 e as 7h41 da manhã. Em plena hora de ponta, os assassinos detonaram 10 dos 13 engenhos explosivos colocados em 12 carruagens de 4 comboios. Há avaliações que estimam o custo mínimo directo dos danos produzidos em cerca de €211 milhões. Porém, nada foi mais impressionante do que o estrago contabilizado em sangue: 191 mortos e mais de 1800 feridos. Na sua maioria, as vítimas cumpriam a rotina de entrar na cidade para ir trabalhar. Refiro-me evidentemente aos atentados de 11 de Março de 2004, em Madrid, cujo 12º aniversário se assinalou este mês. Creio ser ainda o atentado mais devastador ocorrido na Europa Ocidental – superado em vítimas mortais apenas pelo atentado de Lockerbie, em Dezembro de 1988, com 270 mortos.


Choraram-se os mortos, cuidaram-se os feridos, apoiou-se o luto das famílias e até foram tiradas consequências políticas (se justa ou injustamente é um assunto que, embora interessante, pouco importa agora). Não houve marchas onde Chefes de Estado e de Governo se atropelaram para aparecer na fotografia. Não houve tão pouco movimentos e ondas de indignação do tipo Je Suis. Sobretudo, não houve estados de excepção de razoabilidade dúbia, não houve cessação de liberdades fundamentais, nem derivas legislativas securitárias. Habituada à chaga terrorista, Espanha combateu a barbárie sendo irredutível na defesa da normalidade democrática.


Como escrevi em tempos aqui no DELITO, é objectivo declarado de todas as organizações terroristas forçar o Estado a abdicar da sua superioridade política e moral. Por outras palavras, um dos propósitos da acção terrorista é o de obrigar o Estado visado a prescindir dos valores e procedimentos nos quais se funda e, dessa forma, faze-lo descer ao nível de quem comete actos terroristas. Se a ameaça terrorista constitui um perigo que não pode ser desvalorizado, também a forma como as sociedades e os Estados democráticos respondem à ameaça representa um desafio que não se deve prestar a ligeirezas nem a bravatas.

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Uma posição pessoal contra a deriva populista

por João André, em 22.03.16

Hoje de manhã, a caminho do trabalho, vi um carro da polícia a seguir em direcção a Bruxelas. Vinha a ouvir música e não ouvi notícias. Soube depois pelos meus colegas dos ataques. Telefonei de imediato a uma pessoa que é quase família e que trabalha no Parlamento Europeu. Tinha estado na estação de metro apenas 20 minutos antes e a filha deveria apanhar o avião mais tarde. Soube por ela que toda a gente estava bem, inclusive os amigos comuns que vivem em Bruxelas.

 

Apesar de ainda viver na Holanda, trabalho na Bélgica e considero mudar-me para Bruxelas em breve. Isto serve apenas para dizer que não estou emocionalmente descomprometido com a situação, que está também a afectar vários dos meus colegas.

 

Espero no entanto que estes ataques não levem os políticos a darem a vitória aos terroristas. Espero que não levem os britânicos a decidirem votar a favor da saída de UE; que não levem a uma viragem isolacionista e anti-asilo na Alemanha; que não empurrem Geert Wilders e outros populistas (xenófobos convictos ou de ocasião) aos governos dos seus países.

 

Espero que isso não aconteça porque sei que quem sofrerá com isso não serão os terroristas, mas antes aqueles que deles fogem e os próprios europeus, que verão as suas liberdades reduzidas e os pilares da sociedade cada vez mais erodidos. Os números de refugiados poderão até diminuir - o que é discutível: continuarão a vir, a morrer no caminho e a entrar, apenas terão mais dificuldades - mas os terroristas, que usam identidades falsas, viajam de avião ou são recrutados nos próprios países alvo, continuarão a agir como até agora.

 

Não tenho soluções para o problema, ao contrário da matilha de comentadores que irão agora ser ouvidos ou lidos em todos os meios de comunicação social. Tenho apenas um desejo, uma ilusão, se quiserem: que quaisquer que sejam as medidas que se irão seguir, as nossas liberdades e os nossos valores sejam mantidos corajosa e estoicamente, porque é nisto que assenta a nossa sociedade. Nesta discussão, que fique claro onde me posiciono.

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Primeiro criaram a lista de devedores ao fisco e eu não me importei, porque não devia nada ao fisco. Depois criaram a lista de pedófilos e eu não me importei, porque não era pedófilo. A seguir veio a lista dos pedintes, mendicantes, sem abrigo, sei lá, e eu não me importei, porque não era nada disso. Por essa altura, consoante o governo fosse de esquerda ou de direita, já havia listas de fascistas ou comunistas e eu, como sou um desalinhado, estava sempre numa ou noutra. Aí comecei a importar-me, mas como não me tinha preocupado com ninguém, ninguém se importou comigo. Aí comecei a importar-me mas já era tarde. Porque a seguir começou a ser obrigatório pendurar na porta de casa letras e símbolos de acordo com a(s) lista(s) a que se pertencia. Pouco depois vieram as braçadeiras, para que na rua os nossos "crimes" fossem facilmente identificados. Agora estão a bater à porta para levar-me. Todos sabemos como estas histórias terminam.

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Ética pública 2.0

por João André, em 26.01.15

Este post do Rui lembrou-me uma outra questão que surgiu há uns tempos em Inglaterra. Um jogador de futebol fora condenado a prisão por violação e, após ser libertado condicionalmente, o antigo clube considerou recontratá-lo. Ora, Jessica Ennis, cujo nome adorna uma das bancadas do estádio, avisou que exigiria que o seu nome fosse retirado caso Ched Evans (assim se chama o futebolista) voltasse ao clube. O resultado é que recebeu uma avalanche de insultos e ameaças no twitter. Quando os trolls foram por seu turno condenados - e é aqui que queria chegar - defenderam-se com a "liberdade de expressão".

 

O caso que o Rui invoca é semelhante. Na idade das redes sociais, o insulto e a ameaça - mesmo que vazia - pode ser feito de forma anónima (ou quase), directa e pública. As leis dos vários países contemplam a possibilidade de condenação por injúria, mas a fronteira entre esta e a liberdade de expressão é relativamente ténue (e daí os muitos casos de processos contra jornais). Se quando os media estão envolvidos no assunto há sempre especialistas em liberdade de expressão presentes (juristas, os próprios jornalistas, editores, etc), já no caso das redes sociais isto não é o caso.

 

Infelizmente, apesar de termos presente o conceito básico que desconhecimento de uma lei não pode ser apresentado como defesa, a verdade é que não há uma educação real dos jovens em relação ao que significa liberdade de expressão, liberdade de imprensa, direito à privacidade, direito à honra, etc. A maior parte dos jovens entendem a liberdade de expressão como a liberdade de dizer aquilo que bem lhes apetecer e nem sequer entendem a diferença entre as liberdades de expressão e de imprensa (nem a forma como a imprensa tem certos direitos e deveres naquilo que reporta).

 

Neste mundo digitalizado, 2.0 se quisermos, falta a educação que não o torne num wild west. Não falo necessariamente de regulamentos, esses já existem ao nível civil, mas talvez de uma discussão que permita a sua adequação ao mundo em que vivemos hoje. Não precisamos de alguém que ande a correr a net em busca de trolls, mas se eu quiser atacar alguém, necessito de saber (eu e o meu alvo) quais os limites para o meu ataque. E o meu alvo necessita também de saber quais os mecanismos de defesa à sua disposição.

 

É normal que as revoluções tecnológicas apanhem a sociedade desprevenida. Sempre assim foi e sempre assim será. O necessário é fazer avançar o debate para que esta possa alcançar a tecnologia.

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O Islão e a Europa (2)

por João André, em 10.01.15

O meu post anterior fazia referência às perspectivas sobre as causas do terrorismo ou à ausência de vontade para as compreender. Neste abordo outro aspecto: a percepção da "ameaça islamista" na Europa.

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Na minha opinião, um dos cartoons mais relevantes que foi publicado na sequência do ataque foi o que está acima. Porquê? Porque as reacções ocidentais (especialmente as europeias) irão no sentido de apontar dedos (quando não outras extremidades mais sinistras) aos muçulmanos. Não é difícil imaginar Marine Le Pen e outros da mesma laia a salivarem-se de antecipação. Estes ataques são para eles uma profecia que se cumpre: a Europa está a ficar islamizada e os muçulmanos não só não se integram como são altamente hostir aos valores ocidentais.

 

Só que não é assim, pelo menos acreditando neste gráfico da Al-Jazeera, perdão, do Economist. Aparentemente nem a Europa está a islamizar-se tanto quanto se pensa nem há assim tantos riscos quanto isso. Os independentistas parecem ser mais perigosos que os islamistas.

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Porque razão esta disparidade (se me permitem que tente reflectir)? Bom, parece simples: pelas mesmas razões que referi antes. É mais simples hostilizar alguém que parece ter diferenças fundamentais em relação a nós (religião, cultura, cor, hábitos alimentares, vestuário, etc) do que aqueles que parecem perfeitamente iguais, ao ponto de não se compreender os motivos da violência (compare-se a diferença entre um árabe e um europeu e a que existe entre um basco e um andaluz).

 

E é este o perigo do populismo: reduz os temas que lhe interessam às questões que lhes interessam. Na Alemanha o Pegida nasceu em zonas onde os muçulmanos estão menos presentes. Na Suíça foram aprovados referendos que não só nasciam de falsas questões (há pouquíssimos minaretes no país) como eram prejudiciais ao país (pelo menos se os governantes e a UE não encontrarem soluções intermédias). A única solução para este problema é acção civil e informação. Na Alemanha, por exemplo, as contra-manifestações têm tido enorme sucesso. Faltaria uma mentalidade semelhante noutros países. É por isso que este movimento é tão importante como o Je suis Charlie. De certa forma, é mais importante.

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O humor é uma arma

por João André, em 08.01.15

O humor é uma arma poderosa. Tão poderosa que não importa se é bom ou mau, se faz rir muitos ou poucos, se é politicamente empenhado ou enternecedoramente naïf. É tão poderosa que talvez só a religião se lhe compare e, consequentemente, se lhe oponha mais fortemente que qualquer outra vertente ideológica ou política.

 

O ataque de ontem ao Charlie Hebdo não é um ataque a uma publicação, a um conjunto de cartoonistas ou, "simplesmente" à liberdade. É um ataque ao humor. É que se muitos meios podem ser usados para transmitir as imagens de Maomé que enfurece os muçulmanos, apenas o humor transmite, de forma rápida e eficaz, a mensagem que se quer fazer passar. O melhor post que li até agora sobre este assunto foi o do nosso José Navarro de Andrade. Como ele, eu não gostava dos cartoons do Charlie Hebdo, os quais me pareciam subverter o propósito de um cartoon: "rir-provocar-pensar". Frequentemente começavam com a parte de provocar e não era claro que fizessem rir. Mas, como há uns anos num posto do Daniel Oliveira no Barnabé intitulado - creio - "Kit Páscoa", defendo que o humor não deve conhecer fronteiras e que é quase sempre ofensivo para alguém. Desde que não promova violência - física ou outra - qualquer cartoon deve ser publicado.

 

E, num dia em que se lamenta o ataque aos cartoonistas do Charlie, convém lembrar que estes foram "apenas" os mais violentos de uma corrente frequente. Na Turquia os cartoonistas estão sob mira de Erdoğan. No passado o humor em Espanha foi suprimido aquando da publicação de cartoons sobre a Casa Real. Em Portugal, e recuando ao passado, lembro-me de houve a censura ao Humor de Perdição.

 

Sim, a liberdade é importante, mas mais ainda que a liberdade de imprensa, a liberdade de humor é para mim fundamental. É que se uma imprensa amordaçada encontra formas de se rebelar, um mundo sem humor está a caminho da morte.

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Mais inseguros e menos livres

por Pedro Correia, em 07.01.15

Este é o maior problema da Europa actual: a liberdade seriamente condicionada pelos seus mais encarniçados inimigos. Paris, outrora Cidade-Luz, é hoje cidade ensanguentada pelo fanatismo mais extremista.

Somos todos, a partir de agora, um pouco menos livres. E trocaremos cada vez mais parcelas de liberdade em troca de segurança. Dilema ilusório. Porque nos alicerces da nossa civilização - que o terrorismo islâmico combate sem tréguas - liberdade e segurança são conceitos indissociáveis. Um não faz sentido sem o outro.

Hoje estamos todos mais inseguros e menos livres. É um dia de júbilo para os cultores da barbárie, que não estão algures em parte incerta.

Estão aqui, no meio de nós.

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A inapagável palavra Liberdade

por Pedro Correia, em 08.11.14

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«Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.»

 

 

Eu fui lá e vi.

Lembro-me como se fosse hoje. Foi numa manhã fria e cinzenta de Abril, por meados da década de 80. Tinha eu 21 anos e estava em Berlim com três colegas de profissão: a Isabel Stilwell, o Luís Marinho, o Jerónimo Pimentel. Nesse dia fomos ao outro lado. Cruzando o Muro da Vergonha que desde 1961, por imposição dos soviéticos, rasgava a meio a antiga capital do Reich. Como incisão de bisturi na pele, separando bairros da mesma cidade, fracturando ruas dos mesmos bairros, até fragmentando casas das mesmas ruas que permaneceram emparedadas durante aquelas tristes décadas em que Berlim-Ocidental, na certeira definição de John Kennedy, era a fronteira mais avançada do mundo livre.

Cruzámos a linha divisória por via ferroviária, na estação de metropolitano de Friedrichstrasse, após termos sido forçados a trocar marcos ocidentais por marcos orientais artificialmente cotados em paridade pelo regime comunista, à revelia do valor real das moedas, como condição para transpor aquela fronteira artificial na cidade dividida.

Éramos muito poucos a fazer aquele percurso. Quase todos vinham em sentido inverso, de lá para cá. E eram todos velhos, que marchavam num silêncio mais eloquente que mil discursos. A ditadura de Erich Honecker só permitia deslocações de 24 horas a cidadãos aposentados.

 

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Do lado de lá, tudo diferente. A começar pelo muro - na verdade, duas muralhas paralelas (a segunda foi erguida em 1962) separadas por uma extensão de 100 metros, denominada Faixa da Morte pelos berlinenses. Riscado e coberto de grafitos na face virada para Berlim Ocidental, imaculado na metade comunista da cidade, de onde aliás ninguém podia acercar-se dele. Rodeado de redes metálicas electrificadas, implacavelmente resguardado por soldados armados até aos dentes em 302 torres de vigilância dispersas por 66 quilómetros de extensão.

Símbolo sinistro da Guerra Fria.

Símbolo supremo da falência de um sistema que prometia libertar os homens e afinal só os mergulhou na escravidão.

 

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Arrepiava a escassez de transeuntes do lado de lá.

Arrepiava ver as majestosas Portas de Brandemburgo colocadas em terra de ninguém, no termo da Unter der Linden, a maior avenida de Berlim.

Arrepiava o silêncio dominante. Em perfeito contraste com o fervilhante bulício da Berlim ocidental, "burguesa" e "capitalista".

Atravessámos a pé uma larga avenida onde não passavam carros e logo fomos interceptados pelo apito de polícias que acorreram ao nosso encontro exigindo inspecção minuciosa de passaportes. Acabaram por nos deixar prosseguir, mas com um solene aviso: proibido atravessar fora das passadeiras. Mesmo numa avenida onde quase não víamos circular veículos, excepto uns decrépitos Trabants leste-alemães, fontes ambulantes de poluição.

Tínhamos de gastar os marcos orientais, que só ali eram aceites. Era hora de almoço, procurámos algum sítio onde pudéssemos matar a fome. Mas naquela imensidão desértica a oferta turística estava reduzida a quase nada. Depois de muito procurarmos, lá nos enfiámos num sell service na Alexanderplatz, de tabuleiro na mão, a comer umas salsichas envoltas em gordura a preços astronómicos. E sem mais nenhum cliente por perto.

Acabámos por gastar a maior parte do dinheiro num sucedâneo de táxi que nos conduziu pela zona mais monumental de Berlim - que devido a um capricho do destino permaneceu após a II Guerra Mundial sob a tutela soviética da cidade - e numa breve incursão aos arrabaldes, onde havia uns bairros operários de aspecto moderno e finalmente pessoas a circular na rua.

No regresso, ainda entrámos num Armazém do Povo, com vários pisos, na esperança de gastarmos parte do dinheiro que nos sobrara. Mas a esmagadora maioria das prateleiras estava vazia. Não havia clientes, só funcionárias que nos ignoraram olimpicamente.

Trouxe de lá uns postais manhosos. O meu único recuerdo palpável da Berlim comunista.

 

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Foi o meu baptismo do "socialismo real" no segmento oriental da maior cidade germânica, na então denominada República Democrática Alemã - que nada tinha de democrático e tudo tinha de repulsivo logo ao primeiro olhar.

No regresso, enquanto nos cruzávamos novamente no posto fronteiriço com os velhos agora de regresso a casa após fugazes visitas a familiares no Ocidente, sentimo-nos testemunhas privilegiadas da História, no tempo e no espaço.

Mil vezes a caótica, barulhenta, transgressora Berlim Ocidental do que a organizada, vigiada e silenciada Berlim-Leste - a cidade de maior progresso e com maior prosperidade económica do bloco socialista, como rezava a propaganda.

Nos dias imediatos, observei ainda com mais atenção o "muro de protecção antifascista" mandado erguer por Nikita Krutchov "a pedido" do ditador comunista alemão Walter Ulbricht em 13 de Agosto de 1961 para impedir a contínua sangria de alemães de Leste, sobretudo jovens, rumo ao Ocidente. Três milhões e meio tinham escapado nos 15 anos anteriores.

De tantos em tantos metros, levantava-se uma cruz branca em memória de cidadãos do Leste alvejados mortalmente pela implacável guarda fronteiriça comunista ao procurarem fugir da ditadura.

Morreram largas dezenas ou mesmo centenas entre 1962 e 1989.

O primeiro foi um operário de 18 anos chamado Peter Fechter. O último - escassos sete meses antes da queda do muro - foi um estudante de 20 anos chamado Chris Gueffroy.

Só por terem ousado ser livres.

 

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Às vezes não há como ver para descrer.

Eu fui lá e vi.

Faz amanhã 25 anos, festejei com irreprimível alegria a queda do Muro da Vergonha. Festejei-a com os magníficos versos de Paul Éluard com que saudei o fim de outras ditaduras: «E pelo poder de uma palavra / Recomeço a vida / Nasci para te conhecer / Para te chamar // Liberdade.»

Nessa noite inesquecível de 9 de Novembro de 1989, milhares de habitantes de Berlim puderam pela primeira vez transpor a fronteira livres da absurda ameaça de poderem morrer alvejados pelos agentes do Estado. E também com eles, embora a milhares de quilómetros de distância, celebrei essa palavra tantas vezes pervertida e conspurcada na boca e no gesto de ditadores de todos os matizes, de todos os quadrantes, de todas as ideologias.

Uma palavra que não tem fronteiras, barreiras, Muro em Berlim.

A incómoda, imprevisível, inapagável palavra Liberdade.

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A gestão do medo

por Rui Herbon, em 04.11.14

sem nome.pngA guerra fria foi construída sobre o medo. Cada vez que um presidente americano se reunia com um líder soviético era um acontecimento preparado durante meses, amplamente noticiado e durante o qual se assinavam acordos que serviam de bem pouco. Desde Nixon e Brejnev que o tema recorrente era como reduzir os arsenais nucleares, que se multiplicavam periodicamente para prevenir o ataque do adversário. Esgrimia-se a doutrina da mutual assured destruction (MAD, muito apropriadamente), que consistia em assegurar a completa aniquilação das duas potências caso uma delas disparasse o primeiro míssil. Havia que evitar o primeiro golpe, que, de facto, nenhuma das duas se atreveu a desferir. Havia medo, apesar dos arsenais militares (nucleares e convencionais) que ambos os impérios armazenavam no seu território e no dos seus aliados. 

 

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Sem fotos nem vídeos

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.09.14

A propósito da divulgação não autorizada de fotos e vídeos sacados de um servidor virtual, penso ser assim que se diz, o jornal i colocou esta manhã na sua primeira página a pergunta que todos devem fazer: "Punha num servidor algures e de borla as fotos da sua intimidade?".

Não discuto o direito que cada um tem de tirar fotografias e de fazer vídeos em pelota, nas mais variadas posições e com os parceiros que muito bem entender, fazendo o que muito bem lhe apetecer. Isso faz parte da vida de cada um, da sua esfera privada, da sua intimidade.

Como não discuto que haja gente mais ou menos narcísica, que gosta de se admirar em fotos, em filmes, fazendo poses, dando cambalhotas ou exibindo as suas protuberâncias. E não faço distinção entre novos e velhos. Cada um é como é. E pode ter os gostos e hábitos que entender, mesmo que não sejam saudáveis na perspectiva de quem vê, desde que essa seja a sua opção, a escolha seja consciente e responsável e os seus gostos ou vícios privados não contendam com a minha liberdade ou não interfiram com a vida de terceiros. A mim, mesmo sendo um "conservador social-democrata liberal de esquerda não-marxista", seja lá o que isso for ou o rótulo que me ponham, nada me escandaliza. A vacuidade, a ignorância e a estupidez sim, incomodam-me. Mas quanto a isso também pouco posso fazer relativamente aos outros, ainda que em relação à minha pessoa tenha a obrigação de exigir mais e melhor, informando-me e procurando cultivar-me.

Se me perguntarem se acho bem que cada um faça o que lhe apetecer, acho óptimo, sendo-me indiferente o que fazem desde que não me perturbem. E se quiserem andar nus pelas nuvens e arquivar na rede os seus orgasmos para mais tarde recordarem é problema deles. Mas, respondendo à pergunta que o i sensatamente coloca, a minha resposta seria obviamente não, mesmo que no meu íntimo sentisse uma incontrolável necessidade de me fazer fotografar com Isabella Ragonese para não me esquecer de como era a diva e fazer sucesso junto dos amigos. A não ser, hipótese que admito, que confiasse cegamente nas novas tecnologias e tivesse interesse em entregar a guarda das minhas intimidades a terceiros que desconheço quem sejam, nem o que podem fazer com a minha informação.

Por muito retrógrado que seja, uma coisa é guardar artigos científicos na nuvem, outra será ser famoso e andar nu pela nuvem, quer dizer, pela casa, aproveitando para conviver com quem aparece, sem saber quem tem acesso à "casa", isto é, à nuvem, nem quando nem como, sempre com as janelas escancaradas e a luz acesa. E outra, ainda bem diferente, será ir para a janela em pêlo para ver a vista e aproveitar para mostrar as mamas e o rabo, fazendo de conta de que não há vizinhos, que na rua não passa ninguém, que ninguém boceja nas varandas ou que não aproveita o momento para tirar fotografias ao pôr-do-sol.

De qualquer forma, em conclusão, e porque me limito a expressar o que penso sujeitando-me naturalmente à crítica, e independentemente de há muitos anos ter escrito e defendido a introdução da cidadania digital, acabando com o anonimato na rede e tornando-a num espaço efectivo de liberdade e responsabilidade, entendo que todas as violações da privacidade devem ser severamente punidas, mas que quem quiser defender a sua terá de ser o primeiro a protegê-la, não se expondo ao voyeurismo alheio e não colocando a sua estupidez à mercê da intromissão de terceiros. Enquanto for possível andar nu e invisível pela Internet será difícil proteger a privacidade de quem nela se expõe, também a de cada um de nós, que é como quem diz a nossa própria liberdade. Ricos, famosos, exibicionistas e estúpidos incluídos, que nessa matéria, como em quase tudo nesta vida, não faço discriminações.

 

P.S. Penso que por aqui também respondo a quem há dias, a propósito de um comentário a uma entrevista de um companheiro de blogue, perguntava qual era o meu sentido da liberdade. Em termos resumidos é o que aqui fica.

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É pena que a Laura não perceba nada de suspensórios...

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.08.14

... Pois que, quanto ao resto, a rapariga até não esteve mal. E a ti, Adolfo, havendo muita coisa discutível, bastou-te uma frase para estares bem melhor: Freedom is the most important political value for me. It comes before anything else"

Esta é a frase que muita gente, à direita e à esquerda, no teu e no meu partido, e pelo que se lê nas caixas de comentários de muitos blogues, continua a não entender. É ela que marca as diferenças; mas é também por causa dela, apesar dessas diferenças, que aqui continuamos.

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Penso rápido (20)

por Pedro Correia, em 09.07.14

Quando dei os primeiros passos numa profissão que exerci durante 30 anos, os jornalistas eram poucos e os órgãos de informação eram muitos. Mesmo sem novas tecnologias e redes digitais.
Hoje os jornalistas são muitos e os órgãos de informação são cada vez menos. Mais insólito ainda: apesar de serem muitos, os jornalistas não chegam para as encomendas pois passam o dia agarrados às "plataformas multimédia", acorrentados a linhas de montagem. Como Chaplin em Tempos Modernos. Tão acorrentados que mal saem do local de trabalho. Como se não houvesse mundo fora das quatro paredes da redacção. O mundo real é substituído pelo mundo virtual. E a visão fica cada vez mais desfocada. E processa-se cada vez mais em sentido único. O que diz um, dizem todos. O que um mostra, todos mostram.
Todos diferentes, todos iguais. O pluralismo é cada vez mais estreito. Outro paradoxo do nosso tempo, aparentemente tão livre.

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Freedom

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.07.14

 

We must be free not because we claim freedom, but because we practice it
William Faulkner, November 11, 1955

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Antes ir ao encontro dela do que "de encontro"...

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.14

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Da Liberdade

por Rui Herbon, em 24.04.14

É saudável pensar no valor da liberdade todos os dias. Quando se fala pouco ou de passagem das liberdades individuais corremos o risco de esquecê-las e submetermo-nos aos arbítrios de poucos, ou de muitos, tanto faz, que querem a uniformidade do pensamento e da acção. A sociedade é plural por natureza. Querer encaixar todos num partido – uso o termo em sentido lato – é um abuso contra a dignidade das pessoas.

 

 

Vou reproduzir três textos sobre a liberdade extraídos de leituras antigas.

 

O primeiro é de Stefan Zweig no seu ensaio sobre Montaigne. Diz Zweig que «o único erro, o único crime é querer encerrar a diversidade do mundo em doutrinas e sistemas, afastar os outros homens do seu livre arbítrio, do que realmente querem, e obrigá-los a querer algo que não está neles. Assim actuam os que não respeitam a liberdade, e Montaigne abominava o frenesi dos ditadores do espírito que, com arrogância e vaidade, queriam impor ao mundo as suas novidades e para quem o sangue de centenas de milhares de homens nada importava, desde que saíssem victoriosos».

 

A outra citação é de José Antonio Marina, que em Os sonhos da razão escreve que «quando em Maio de 1793 a Convenção aprovou as perseguições revolucionárias, Marat explicou o sentido da medida: a liberdade, disse, deve estabelecer-se mediante a violência. Chegou o momento de organizar momentaneamente o despotismo da liberdade para destroçar o despotismo dos reis. Isso já o havia dito Rousseau quando afirmou que há que obrigar as pessoas a serem livres».

 

A terceira referência escreveu-a George Steiner em The New Yorker falando do perigo da tirania. Disse que «sabemos – e deveríamos saber desde as fantasias utópicas de Platão – que os ideais de igualdade, de racionalidade colectiva, de austeridade abnegada, somente se podem impor por um custo totalmente inaceitável. O egoísmo humano, o impulso competitivo, a ânsia de esbanjamento e ostentação só podem ser afogados por uma violência tirânica. E, por sua vez, aqueles que exercem semelhante violência desintegram-se eles próprios na corrupção. De maneira inelutável, os ideais colectivistas-socialistas parecem conduzir a uma forma ou outra de Gulag».

 

Fim de citações.

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Livre 'ma non troppo'

por Pedro Correia, em 11.02.14

Rui Tavares, o principal mentor do partido Livre, é desde 2009 deputado no Parlamento Europeu. Que tem sede na Bélgica, uma monarquia.

Mas no Livre "não há lugar para posições monárquicas".

Ficamos todos a saber qual o conceito de liberdade do Livre. É idêntica ao do Clube do Bolinha. Menina não entra - se for monárquica.

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Mandela

por Patrícia Reis, em 05.12.13

 

Nelson Mandela. 27 anos numa prisão com direito a uma visita por ano. Considerado um terrorista por Thatcher e Reagan. Mandela um nome que equivale a liberdade.

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Mudam-se os tempos

por Ana Vidal, em 21.06.13


É emocionante ver como as questões ideológicas, pelas quais tanto se matou desde sempre em todo o mundo, estão a ficar ultrapassadas e afastadas do essencial das lutas dos homens. Seja em regimes de esquerda ou de direita, por todo o lado os povos saem à rua em protesto contra aquilo que é transversal a todos esses regimes: a falta de liberdade de expressão, as injustiças e desigualdades sociais, a corrupção, os abusos de poder, a degradação das condições de vida, a negação do direito a um futuro melhor para os filhos. Chamem-me utópica, mas parece-me um sinal claro de que a humanidade está a evoluir, a conquistar a sua maturidade. A exigir que seja respeitada a sua impressão digital e a fazê-lo com voz própria, sem intermediários. E fico feliz por viver numa época em que este passo é visível.

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Compromisso entre segurança e liberdade

por João André, em 17.06.13

Nas democracias costuma haver a figura de imunidade parlamentar. Tanto quanto julgo saber, e apesar das diferenças entre sistemas, esta serve para proteger os deputados de consequências das suas acções em exercício das suas funções. Quando as acções são julgadas como potencialmente criminosas, os paralmentos podem então levantar essa imunidade para permitir o julgamento. Penso que, no essencial, será este o conceito.

 

Lembrei-me da imunidade parlamentar quando li este artigo do José Vítor Malheiros no Público acerca do PRISM (o programa secreto de recolha de metadados telefónicos e electrónicos). E porque razão me lembrei dele? Porque o princípio é o mesmo: o cidadão/deputado é à partida considerado como não sendo criminoso.

 

Não irei debater a famosa questão de quem "guarda os guardiões". Essa questão é essencialmente filosófica e política. Penso apenas no princípio civilizacional da liberdade: como se pode defender uma liberdade quando a mesma é violada? Do meu ponto de vista isso não é possível. O essencial numa sociedade é que os seus cidadãos possam agir sem constrangimentos, independentemente das suas preferências. Um acto que é perfeitamente aceite por um indivíduo pode não o ser por outro. A possibilidade de verificar esse acto retira a liberdade a quem o queira praticar.

 

Imaginem-se duas situações.

 

1. Indivíduo A é verdadeiramente frustrado. Odeia o chefe, tem questões pessoais mal resolvidas, se calhar bebe uns copos a mais. Todos conhecemos gente assim, certo? Imaginemos que, um dia, furioso por uma coisa ou outra, manda um e-mail a um amigo onde escreve "Estou a pensar em comprar adubo para fazer uma bomba e rebentar com o Parlamento. Na Net encontram-se receitas para isso". no dia seguinte não se lembra sequer da estupidez (ou lembra-se mas, aliviado, nem liga à palermice). Dois dias depois aparece-lhe a polícia em casa, algema-o e leva-o por uns tempos para interrogatório, mais ou menos suave.

 

2. Indivíduo A quer um dia cometer um acto terrorista e planeia tudo nesse sentido. Vai cometê-lo se deixado em paz. Para manter a fachada estabelece uma relação normal com colegas, vizinhos e amigos. Um deles é um amigo (assumamos que existem ligações pessoais entre eles) que vai recebendo uns e-mails com piadas ou anedotas, tudo inócuo. Todos os dias os recebe. Também combinam para se encontrar com regularidade e costumam ligar um ao outro aproximadamente à mesma hora do mesmo dia da semana, todas as semanas. Tudo inocente. Um dia, o amigo é detido pela polícia por ligações a um conhecido terrorista.

 

Será isto correcto? Parece-me (a mim) evidente que não. Os metadados podem ser mal interpretados. Se existirem dados reais de comunicação, também. Não há capacidade em termos de pessoal para fazer uma investigação correcta. Os programas que monitorem a comunicação podem ser facilmente enganados (nos dois sentidos). A única solução é a de dar liberdade aos cidadãos sabendo que disso decorrem riscos para a segurança. É o compromisso. Prefiro esse à alternativa.

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Cravo

por Patrícia Reis, em 25.04.12

Hoje é o dia da Liberdade. Dos cravos e das canções do Zeca Afonso e da voz de Paulo de Carvalho. Hoje é o dia que não pode  ser esquecido porque, afinal, vivemos há menos tempo em democracia do que vivemos sem ela.

Liberdade tem vários sinónimos, um deles é reciprocidade, paridade, o ser para os outros na mesma medida em que são para nós. Não há gavetas e caixinhas. Liberdade são pessoas, rostos de todos os feitios e formatos, que podem conversar e sorrir.

Este dia é, todos os anos, um dia feliz. Hoje será um pouco menos porque uma mãe perdeu um filho e esse filho amava, tanto quanto a mãe, a liberdade ganha. Não está cá para a celebrar. Assim, quando for à feira do livro, logo à tarde (se São Pedro ajudar) levarei um cravo pela Helena, pelo Miguel e por todos os que não o podem trazer ao peito. Em sinal de que a memória não se apaga nunca. 

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No silêncio, entre cadáveres

por Pedro Correia, em 05.04.12
Albert Camus escreveu um dos mais fabulosos textos que conheço para uma alocução proferida em Novembro de 1948, num encontro internacional de escritores. Este texto, intitulado "O Testemunho da Liberdade", tem uma espantosa actualidade perante os vertiginosos acontecimentos que se sucedem no mundo de hoje. É uma reflexão que devia constituir uma espécie de código de conduta para todos os intelectuais contemporâneos.
Passo a transcrever alguns trechos*:

"Os verdadeiros artistas não dão bons vencedores políticos, pois são incapazes de aceitar levianamente, ah, isso sei eu bem, a morte do adversário! Estão do lado da vida, não da morte. São os testemunhos da carne, não da lei. (...) No mundo da condenação à morte, que é o nosso, os artistas testemunham o que no homem é recusa de morrer. Inimigos de ninguém, a não ser dos carrascos! (...) Um dia virá em que todos o hão-de reconhecer e, respeitadores das nossas diferenças, os mais válidos de nós deixarão então de se dilacerar, como hoje o fazem. Hão-de reconhecer que a sua profunda vocação é a de defender até ao fim o direito dos seus adversários a não terem a mesma opinião que eles. Hão-de proclamar, consoante o seu estado, que mais vale uma pessoa enganar-se, sem assassinar ninguém e permitindo que os outros falem, do que ter razão no meio do silêncio e pilhas de cadáveres."

Hoje, mais que nunca, estas palavras devem merecer-nos profunda meditação.

* Tradução (excelente) de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes para a editora Contexto (2001)

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USSR: sugestões para pôr a bandeira?

por João Carvalho, em 11.02.12

 

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Não há paz sem liberdade

por Pedro Correia, em 15.01.12

 

Não há paz sem liberdade. E não há liberdade sem esperança. Um político de excepção vislumbra motivos de esperança mesmo entres os clarins da guerra. Um desses políticos foi Abraham Lincoln, autor da mais memorável mensagem de esperança, proferida em plena Guerra Civil norte-americana, a 19 de Novembro de 1863.

Foi o chamado Discurso de Gettysburg: demorou apenas cerca de três minutos. Três parágrafos, 255 palavras - não era necessária nenhuma mais. As forças da União haviam ali derrotado quatro meses antes o insurgente exército confederado do Sul que se batia contra a abolição do esclavagismo, cortando amarras com a política humanista do Norte. Mas Lincoln, embora galvanizado por essa vitória militar recente, pôs de lado a retórica triunfalista e deixou no cemitério local um apelo digno de um estadista: "Compete-nos a nós, os sobreviventes, garantir que aqueles que caíram no campo de batalha não morreram em vão e que nesta nação, sob os auspícios de Deus, renasça a liberdade - e que o governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareça da face da Terra."

Cem anos mais tarde, este discurso teria sequência num outro, proferido junto ao Memorial Lincoln, em Washington, por Martin Luther King. "Tenho o sonho de que um dia esta nação se erguerá e viverá o significado autêntico do seu credo -- termos por verdade evidente que todos os homens foram criados iguais. Tenho um sonho -- o sonho de que um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos donos de escravos se sentarão juntos à mesa da fraternidade", declarou o reverendo justamente distinguido em 1964 com o Nobel da Paz.

No tempo de Abraham Lincoln ainda não havia Nobel. Mas ele tê-lo-ia merecido, mais do que todos os presidentes americanos que viriam a ser galardoados no século e meio seguinte -- de Theodore Roosevelt a Barack Obama. Pela força inspiradora do seu exemplo. Pela eloquência dos seus vibrantes apelos em defesa da dignidade humana. Pela tenacidade e pela coragem de que deu provas no cumprimento de um ideal: nenhum ser humano merece ser condenado à escravatura. Um ideal que lhe custou a vida: Lincoln viria a ser assassinado em 1865. Mas o seu apelo de Gettysburg ainda hoje ecoa -- nos Estados Unidos e no mundo.

Publicado também aqui

Imagem: Luther King no Memorial de Lincoln, em Washington (1963)

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Leituras

por Pedro Correia, em 02.07.11

 

«Talvez seja a liberdade, de palavra e de conduta, o que mais invejam os falhados - mais talvez que o dinheiro ou até o poder.»

Graham Greene, Viagens com a Minha Tia

(Livraria Bertrand)

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Do lado da liberdade

por Pedro Correia, em 08.03.11

O papel dos jornalistas nas horas de grande tensão política é crucial. Fez agora 30 anos, quando um punhado de militares saudosos do franquismo invadiu o edifício do Parlamento, sequestrando os membros do Governo e os deputados que lá se encontravam, Espanha viveu longas horas sob o pesadelo do regresso à ditadura após cinco anos incompletos de sistema democrático. Nessa noite de 23 para 24 de Fevereiro de 1981, Madrid parecia uma cidade fantasma: só alguns bandos de arruaceiros de extrema-direita varriam as ruas vitoriando Tejero de Molina e os seus capangas da Guarda Civil que mantinham os políticos sob a mira das armas.

Nesses momentos dramáticos, em que tudo podia acontecer, dois jornais fizeram a diferença: o El País, de Juan Luis Cebrián, e o Diario 16, de Pedro J. Ramírez, lançaram edições especiais que já circulavam às 11 da noite. “Fracasa el golpe de Estado” – foi a manchete do Diario 16. “El País com la Constitución”, titulava o El País. Manchetes editorializadas, que exprimiam mais desejos do que certezas numa altura em que o rumo dos acontecimentos era ainda imprevisível, mas que à sua maneira também contribuíram para influenciar o desfecho da intentona extremista: vários agentes da Guarda Civil que tiveram acesso a essas edições – hoje históricas, por motivos óbvios – acabaram por abandonar o edifício do Parlamento, à revelia de Tejero, durante a madrugada: era o primeiro indício claro de que o golpe fracassaria.

 

Coube ao Rei Juan Carlos o papel mais decisivo ao surgir já cerca da 1.30 da manhã de 24 de Fevereiro em directo na televisão espanhola, com a sua farda de comandante supremo do exército, desautorizando os golpistas com estas palavras claras: “A Coroa, símbolo da permanência e da unidade da pátria, não pode tolerar de forma alguma acções de pessoas que pretendem interromper pela força o processo democrático que a Constituição, oportunamente votada pelo povo espanhol, determinou através de um referendo.”

“Nós, na redacção, partilhávamos da inquietação que percorreu Espanha. A experiência da liberdade política iria acabar num novo fracasso? Mas tínhamos também uma impaciência particular e íntima: o que acontecerá quando os militares chegarem aqui?”, lembrava há dias, nas páginas do El Mundo, o jornalista Justino Sinova, à época director-adjunto do Diario 16, revivendo essas horas de enorme tensão num país onde permaneciam vivas as memórias da sangrenta guerra civil de 1936-39.

Nos momentos decisivos, o jornalismo fiel à sua verdadeira vocação não hesita: escolhe sempre a trincheira da liberdade.

 

Publicado no blogue Olhar Direito

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A revolta das mulheres árabes

por Pedro Correia, em 28.02.11

 

"Nas imagens das manifestações, onde estão as mulheres da Líbia, da Tunísia, do Bahrein, do Iémen?", questionava há dias Inês Serra Lopes, na sua habitual coluna de opinião da terceira página do i. Lembrando, e com razão, que "sem mulheres não há revolução". Por saboroso acaso, a resposta vinha logo na página seguinte da mesma edição, em texto assinado por Nicholas Kirstof, escrito em Manama, capital do Bahrein, para o New York Times (de que o i tem o exclusivo em Portugal). "Não se deixe levar pela campanha maliciosa lançada pelos ditadores segundo a qual um Médio Oriente mais democrático será fundamentalista, anti-americano ou opressivo para as mulheres. Para começar, têm-se visto muitas mulheres nas ruas a exigir mudanças (mulheres de uma força impressionante, vem a propósito lembrar!)", escreve este jornalista galardoado duas vezes com o Pulitzer.

Espero que a Inês fique mais tranquila com estas palavras escritas por quem tem acompanhado os protestos ao vivo. E a Maria João e a Joana também.

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A imparável revolta no mundo árabe

por Pedro Correia, em 25.02.11

«Radical Islamists have long been the Arab world's presumed revolutionaries, but these fights do not belong to them. In a region that had rotted under repression, a young generation has suddenly found its voice. Pushing ahead of their elders, they have become intoxicated with the possibility of change. As with Europe's triumphant overthrow of communismo in 1989, or even its failed revolutions of 1848, upheaval on such a scale can transform societies.»

Editorial da Economist

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Egipto: o que escreve Vargas Llosa

por Pedro Correia, em 14.02.11

 

 

Uma pequena multidão de comentadores domésticos continua a dirigir farpas aos movimentos pró-democracia nos países árabes, chorando a queda dos ditadores Ben Ali e Mubarak. Neste desfile, Alberto Gonçalves não podia faltar à chamada. Lá vem ele, no DN, juntar-se ao coro: "Após a queda de Mubarak, as odes dos jornalistas à alegria do povo e as invectivas aos 'cínicos' que não a partilham resultam de óptimas intenções, mas de péssima memória. A História recente ensina que a felicidade de certos transtornados religiosos tem um preço: a nossa."

Extraordinário: assume-se a defesa póstuma da ditadura para lançar um vigoroso anátema sobre a democracia que ainda nem começou a ser construída. Como se o mundo árabe sofresse de um atavismo genético que o torna incapaz de conviver ad seculum seculorum com estados de direito e o respeito escrupuloso dos direitos humanos. Nessa convicção, Gonçalves vergasta os repórteres que têm relatado o que testemunham no Egipto: "Se calhar, os jornalistas confundem o seu ofício com a repetição de clichés, na convicção um bocadinho infantil de que qualquer protesto público contra uma ditadura acarinha valores opostos aos ditatoriais."

Não sei se entre esses jornalistas que tanto enojam o colunista do DN se inclui John Simpson, o prestigiado editor de assuntos internacionais da BBC, que escreve do Cairo sem a menor dúvida: "A deposição do presidente Hosni Mubarak é tão significativa como o colapso do bloco soviético na Europa de Leste em 1989." Um cliché, diria certamente Alberto Gonçalves, talvez saudoso daqueles tranquilos tempos em que o Muro de Berlim se erguia como fronteira natural à expansão da democracia. E o que dirá este sociólogo do mais recente artigo de Mario Vargas Llosa publicado no El País, precisamente sobre os ventos da liberdade que percorrem o Magrebe e o Médio Oriente? "O Ocidente liberal e democrático deveria celebrar este facto como uma extraordinária confirmação da vigência universal dos valores que representa a cultura da liberdade e dirigir todo o seu apoio aos povos árabes neste momento da sua luta contra os tiranos»,  sublinha o Nobel da Literatura-2010.

Felizmente Simpson e Vargas Llosa têm vistas menos curtas do que a agremiação de admiradores portugueses de Mubarak. Como nada acontece por acaso, é precisamente do Irão que nos chegam hoje notícias de corajosos levantamentos populares contra a ditadura, na linha das impressionantes manifestações de Junho de 2009. É óbvio o efeito de contágio dos acontecimentos da Tunísia e do Egipto. Perante tanta "agitação", os cínicos de serviço por cá, tal como os aiatolas por lá, devem estremecer de horror.

 

Imagem: manifestação contra a ditadura iraniana

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Que horror, o povo nas ruas

por Pedro Correia, em 13.02.11

 

 

Uma revolta popular pacífica, ordeira, participadíssima, onde as únicas bandeiras são as nacionais, deita abaixo uma tirania. Sem necessidade de intervenção dos marines norte-americanos, sem líderes "carismáticos", sem partidos ou igrejas a "organizar" as multidões.

Devia ser motivo de congratulação em todo o mundo democrático. Mas não é. Em redutos de opinião, bem entrincheirados nas suas certezas graníticas, analistas derramam por jornais e blogues o seu imenso desdém pela página histórica que acaba de se virar no Cairo. Como se os egípcios, com os seus cinco mil anos de civilização, não estivessem minimamente preparados para a democracia e precisassem para o efeito do aval das ilustres bempensâncias cá do sítio.

Fernando Martins n' O Cachimbo de Magritte, apressa-se a enumerar um inevitável cortejo de desgraças: «Certamente provocará contra-revolução, guerra contra inimigos internos e externos, terror e caos económico e social.» Verdadeiramente estarrecedor. «Quem acredita que o Egipto teve o seu '25 de Abril' deve preparar-se para um PREC islamita triunfal», exclama, na mesma linha, João Pereira Coutinho no Correio da Manhã. Como antes dele fez Vasco Graça Moura, ao escrever no DN sem dúvidas de qualquer espécie: «Está na cara que [as coisas] vão correr mal, mesmo muito mal.» E hoje Vasco Pulido Valente, bem ao seu estilo, proclama no Público: «Presumindo a mais do que provável (se não inevitável) interferência do Irão, como imaginar que se resolveria fosse o que fosse com eleições? O único resultado seria quase com certeza o alargamento e o reforço da 'Irmandade Muçulmana'». Suprema heresia, optar por eleições...

Leio estas opiniões e parece que estou a escutar Glenn Beck, na Fox News, com as suas «tiradas histéricas» (a definição é dos Los Angeles Times) contra o "avanço do extremismo islâmico" que só ele, dotado de vistas mais apuradas do que o comum dos mortais, consegue descortinar.

Ah, como tudo soa bem melhor quando a "democracia" é imposta pelos fuzis do Pentágono e os ditadores, em vez de caírem por determinação do povo, cedem o poder por pressão dos tanques.

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Teerão sem motivos para sorrir

por Pedro Correia, em 12.02.11

 

 

Por estes dias, algumas Cassandras de turno têm atrasado o calendário 32 anos para apontarem um dedo cheio de suspeições ao movimento popular egípcio. Lembrando que a chamada revolução islâmica que derrubou o xá do Irão em 1979 também prometia muito mas terminou da pior maneira, com a instalação de uma ditadura ainda mais feroz. Por que motivo nenhum outro exemplo de uma revolução falhada é invocado por estes dias? Talvez porque não haja mais nenhum para mostrar. Nos últimos 40 anos, dezenas de ditaduras deram lugar a sistemas democráticos nos mais diversos pontos do planeta – de Portugal às Filipinas, da Polónia a Moçambique, da Rússia ao Brasil – sem que nenhum vaticínio catastrofista se concretizasse. Caiu o Muro de Berlim, foi desmantelado o apartheid na África do Sul, as tiranias de caserna foram substituídas por estados de direito na América Latina, Timor-Leste alcançou enfim a liberdade. Sem convulsões, sem retrocessos históricos, sem o cumprimento das habituais promessas negras dos profetas da desgraça. No Irão, de resto, a clique teocrática não tem motivos para se congratular com as manifestações no Egipto, um país onde 20 milhões de pessoas – cerca de um quarto da população – utilizam regularmente a Internet. No Cairo, por estes dias, foi possível ver muçulmanos e cristãos orar em conjunto. Ali não se queimou uma só bandeira americana nem se gritaram palavras de ódio contra Israel.
O fracasso da “revolução islâmica”, há 32 anos, serve aliás de aviso e de vacina a novos movimentos destinados a destituir ditaduras: podem não saber ao certo por onde vão nem para onde vão, mas todos sabem que não irão por aí.

 

Publicado no DN

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11 de Fevereiro de 2011

por Pedro Correia, em 12.02.11

  

«There are very few moments in our lives where we have the privilege to witness history taking place. This is one of those moments. This is one of those times. The people of Egypt have spoken, their voices have been heard, and Egypt will never be the same.

By stepping down, President Mubarak responded to the Egyptian people's hunger for change. But this is not the end of Egypt's transition. It's a beginning. I'm sure there will be difficult days ahead, and many questions remain unanswered. But I am confident that the people of Egypt can find the answers, and do so peacefully, constructively, and in the spirit of unity that has defined these last few weeks. For Egyptians have made it clear that nothing less than genuine democracy will carry the day

Barack Obama, esta noite, reagindo à queda de Mubarak

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Ligou-me agora um egípcio...

por João Carvalho, em 11.02.11

... a perguntar se eu sei onde poderá ele encontrar Pacheco Pereira, Graça Moura e mais uns quantos, porque quer pedir-lhes alguns conselhos sobre a melhor maneira de fazer cair um ditador. Acham que lhe digo?

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Mirar o Cairo e ver o Apocalipse

por Pedro Correia, em 10.02.11

 

 

Depois de José Pacheco Pereira, também Vasco Graça Moura se debruça, angustiado, sobre os perigos do fundamentalismo islâmico num texto de pendor apocalíptico em que não há uma só linha de congratulação pela queda de Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egipto - ditadores que perfaziam 53 anos somados de mandato, com o requinte suplementar, no caso egípcio, de que já estava praticamente assegurada a sucessão para um dos rebentos do cleptocrata, travestindo a república em monarquia, em jeito de regresso aos tempos faraónicos do rei Faruk.

Bom estilista do idioma, Graça Moura compõe o seu texto no DN em jeito de valsa lenta que vai acelerando e crescendo de emoção à medida que os parágrafos se sucedem.

 

Primeiro parágrafo: «O mundo ocidental deveria olhar com grande apreensão as perturbações consecutivas que ali [Tunísia e Egipto] estão a acontecer e ameaçam alastrar rapidamente aos restantes países islâmicos do Médio Oriente e do Norte de África.»

Segundo parágrafo: «Está na cara que [as coisas] vão correr mal, mesmo muito mal.»

Quarto parágrafo: «O rastilho do fundamentalismo islâmico alastrará imparavelmente pelos caminhos da Al-Qaeda a todo o mundo árabe, ainda por cima com o risco de também acabar por envolver a Turquia.»

Quinto parágrafo: «O Ocidente não está já em condições de se defender, por falta de valores éticos e cívicos que foi dissipando em nome de uma permissividade politicamente correcta e desastrosa.»

 

Custa-me entender três coisas.

Primeira: que um democrata não se congratule calorosamente, em termos inequívocos, com a queda de um ditador.

Segunda: que seja sempre invocado o exemplo do Irão de 1979 como uma espécie de garantia prévia de que os movimentos pró-democracia no mundo islâmico estão condenados a ser mal sucedidos. Que eu saiba, a Indonésia também é um país islâmico - é aliás o maior país islâmico do globo - e transitou com sucesso da ditadura para a democracia no final da década de 90.

Terceira e última: que não se perceba que todos estes persistentes receios são afinal a prova mais evidente de que as ditaduras foram incapazes de travar o passo à ameaça fundamentalista. E como poderiam ter sido, designadamente no Egipto, sob o mando despótico e decrépito de Mubarak?

Lamento, sinceramente, que Graça Moura não tivesse espaço, tempo ou paciência para acrescentar um parágrafo ao seu texto. Um parágrafo em que aludisse à corrupção, à pobreza, às desigualdades, à repressão, às eleições fraudulentas, à censura aos meios de informação, à falta de liberdades fundamentais no Egipto. Por um simples motivo: este quadro confrangedor é que constitui o maior caldo de cultura do extremismo islâmico. Não perceber isto é não perceber o fundamental.

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O "vazio" depois de Mubarak

por Pedro Correia, em 09.02.11

 

 

Da esquerda à direita, não faltam por aí certos opinion makers apostados em transmitir à plebe a noção de que a conquista de direitos fundamentais no Egipto é matéria de somenos, devendo moldar-se a critérios de natureza geoestratégica ou ao medo perante a possibilidade de vir aí "algo pior" do que Hosni Mubarak. Para o efeito, agita-se a todo o momento o cenário da revolução islâmica de Khomeini para demonizar as manifestações populares que estão a varrer parte do mundo islâmico. Confundindo deliberadamente o Irão de 1979 com o Cairo de 2011.

Estas considerações desembocam no puro relativismo político: procuram submeter a instauração de estados de direito a critérios culturais ou geográficos. Como se certos povos ou determinadas regiões não merecessem ascender à democracia.

Entre os comentadores a que me refiro destaca-se José Pacheco Pereira, mais bem informado que a maioria dos restantes mas tão preconceituoso como eles. Basta reparar numa prosa muito preocupada que publicou na última edição da revista Sábado. Passo a transcrevê-la com a devida vénia:

 

«No Egipto, tudo pode ainda vir a correr bem, sem Mubarak, e com mais democracia, mas o que se está a passar é ainda demasiado confuso para se começar a bater palmas. Na verdade, o Egipto foi a pátria ideológica da Al-Qaeda, e a organização que individualmente mais moldou o fundamentalismo islâmico é a Irmandade Muçulmana, que, sabe-se, não teve até agora papel fundamental nos protestos. Mas o grupo existe, tem força e uma longa história de perseguições por parte de Nasser, Sadat e Mubarak, e representa uma presença activa contra o secularismo e a modernização da sociedade egípcia.

A queda de Mubarak significa o fim de uma ditadura, mas também tira do poder um militar que sempre foi um travão à influência fundamentalista. Para haver democracia no Egipto não basta derrubar Mubarak, é preciso impedir que, no vazio do poder, ascenda a Irmandade Muçulmana.»

 

É assombrosa, esta noção de que à eternização de um ditador no poder deverá seguir-se o vazio político. Imagine-se agora o que anotaria um observador norte-americano da mesma escola de pensamento de Pacheco Pereira escrevendo sobre Portugal no dia 28 de Abril de 1974 (três dias após a Revolução dos Cravos e no auge da Guerra Fria, portanto), adaptando apenas ligeiramente as suas palavras actuais à realidade portuguesa daquela época (os sublinhados, naturalmente, são da minha responsabilidade):

 

«Em Portugal, tudo pode ainda vir a correr bem, sem Caetano, e com mais democracia, mas o que se está a passar é ainda demasiado confuso para se começar a bater palmas. Na verdade, Portugal foi a pátria de diversos movimentos revolucionários, e a organização que individualmente mais moldou esses movimentos é o Partido Comunista Português, que, sabe-se, não teve até agora papel fundamental nos protestos. Mas o grupo existe, tem força e uma longa história de perseguições por parte de Salazar e Caetano, e representa uma presença activa contra a democracia e a liberalização da sociedade portuguesa

A queda de Caetano significa o fim de uma ditadura, mas também tira do poder um político que sempre foi um travão à influência comunista. Para haver democracia em Portugal não basta derrubar Caetano, é preciso impedir que, no vazio do poder, ascenda o Partido Comunista

 

Por outras palavras: podemos supor sempre o pior para justificar o injustificável. Também houve uma época em que não faltava quem garantisse que Portugal precisava do seu Mubarak para conter a expansão do comunismo.

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Tiananmen nunca mais

por Pedro Correia, em 01.02.11

 

 

Ouço e leio alguns cínicos de turno, à esquerda e à direita, recomendando palavras de precaução contra as imagens impressionantes que nos vão chegando do Cairo e repetem as de há duas semanas na Tunísia. No momento em que escrevo estas linhas, mais de um milhão de pessoas afluíram já à Praça de Libertação, no coração da capital egípcia, para reclamarem aquilo a que todos os povos de todas as latitudes deviam ter direito: liberdade. Sem adereços, sem adjectivos. A simples, pura, antiga e sempre desejável liberdade - palavra tantas vezes pervertida quando vem da boca de políticos que fazem tudo para a espezinhar. Políticos como Hosni Mubarak, um dos tiranos há mais tempo em funções no continente africano.  

"As pessoas deixaram de ter medo", diz uma jovem, algures na multidão, à reportagem da BBC. Algo impensável ainda há poucos dias no mais populoso dos países árabes. Como era impensável também, para os defensores da "estabilidade" a todo o preço, que a ditadura de Ben Ali ruísse como um castelo de cartas poucas semanas após um jovem desesperado se ter imolado pelo fogo. Chamava-se Mohamed Bouazizi. Mal podia imaginar que aquelas trágicas labaredas que lhe custaram a vida iriam desencadear um incêndio sem precedentes por todo o mundo árabe.

Ontem à noite, também na BBC, um ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Jordânia advertia: "Se aconteceu na Tunísia, pode acontecer em qualquer outro país." A crise económica, particularmente dura entre os jovens, transformou drasticamente a relação entre estado e sociedade nos países árabes, submetidos durante décadas a regimes assentes na repressão e na corrupção - um cocktail só tornado possível, em muitos casos, graças à generosa ajuda ocidental: só no ano passado, Mubarak recebeu 1300 milhões de dólares em ajuda militar dos Estados Unidos. 

 

 

Chegou-se a um ponto sem retorno, o que parece apavorar alguns "pragmáticos" de serviço, receosos do extremismo islâmico e de outros vírus que poderão contaminar o Egipto - onde vive um terço de toda a população árabe - à boleia dos ventos da liberdade. Conheço bem estes argumentos: já os escutei em 1989 e 1990, quando o império soviético ruía. Muitos preferiam o mundo arrumadinho em dois blocos imóveis para poupar o planeta a "novos conflitos". Falavam do lado de cá, gozando da liberdade que não queriam conceder aos do outro lado - como se os direitos humanos não devessem ter expressão universal. Foram os mesmos que, pelo mesmíssimo motivo, mal contiveram expressões de alívio quando viram o exército chinês reprimir ferozmente manifestantes pacíficos na Praça Tiananmen. O mundo ficava mais "previsível", menos "perigoso".

Não perceberam nada então, tal como não querem perceber nada agora: é hoje impossível delimitar fronteiras geo-estratégicas à expansão dos direitos humanos. Nem travar o espírito refomista contra os regimes que esmagam as liberdades. A ditadura teocrática iraniana certamente acompanha com a máxima apreensão o que está a suceder no Cairo. Porque, nestes dias em que as manifestações são convocadas através da Internet, em Teerão pode acontecer o mesmo a qualquer altura. Como já sucedeu em Junho de 2009. E as imagens que hoje chegam do Cairo são capazes de contagiar vários outros países - Líbia, Argélia, Marrocos, Jordânia, Síria, Iémene, Omã e Arábia Saudita.

Os militares egípcios já garantiram que não virarão as armas contra o povo. A gigantesca manifestação que neste momento ocorre funciona, até por isso, como um genuíno plebiscito à liberdade.

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Discriminados e perseguidos

por Pedro Correia, em 02.01.11

"O Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo 2010, apresentado pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, revela que, em todo o mundo, o número de cristãos perseguidos é de 200 milhões. Outros 150 milhões são discriminados pela sua religião. A fé cristã é a mais difundida, mas também a mais perseguida. Segundo esta fonte, que analisa a situação de 194 países, aqueles onde se verificam as maiores violações à liberdade religiosa são a Arábia Saudita, Bangladesh, Egipto, Índia, China, Uzbequistão, Eritreia, Nigéria, Vietname, Iémen e Coreia do Norte."

Frei Bento Domingues, no Público de hoje

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O ovo da serpente

por Pedro Correia, em 10.11.10

 

Na segunda metade da década de 20, Portugal perdera virtualmente a soberania no capítulo económico. A bancarrota espreitava. À esquerda e à direita, reclamava-se "mão forte": era preciso aparecer alguém que pusesse as contas públicas em ordem. A república, que nascera entre fervores nacionalistas como reacção ao ultrajante ultimato inglês de 1890, conduzira o país a um vexame ainda maior: em 1926, Portugal vivia de empréstimos externos, já via fugir os créditos bancários internacionais e começava a depender da caridade alheia.

As condições estavam maduras para a entrada em cena de um jovem especialista em finanças, de pendor autoritário, catedrático da Universidade de Coimbra com manifesto desdém pelos jogos políticos lisboetas e pela balbúrdia do regime implantado década e meia antes. António de Oliveira Salazar tinha 37 anos quando chegou pela primeira vez ao Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço. Demorou-se poucos dias: a ditadura militar não lhe dava as condições de mando que pretendia. Regressou dois anos mais tarde, numa situação de ainda maior penúria, e dessa vez demorou-se 40 anos exactos. A incompetência generalizada da classe política, tanto do 5 de Outubro como do imediato pós-28 de Maio, abriu caminho a esta longa ditadura unipessoal que começou por legitimar-se no domínio das finanças: a bancarrota foi evitada, as contas públicas ganharam equilíbrio e o défice deu lugar em poucos anos a um surpreendente superavit. O resto da história sabemos qual foi.

 

Lembrei-me hoje de tudo isto ao ouvir num café, em voz bem alta, a conversa de dois homens na casa dos 30 anos.

- Eu não vivi no tempo do Salazar. Certo que era uma ditadura e havia a PIDE, mas ouço dizer que nessa altura tínhamos boa azeitona, boa agricultura, tudo - dizia um.

- Cambada de chulos - reclamava outro, referindo-se aos políticos actuais, alguns dos quais mencionando-os pelos nomes.

Pela conversa, um e outro pareciam desempregados: o diálogo de café deve ajudá-los a combater o tédio dos dias sem perspectiva de futuro. Ouço esta e muitas outras conversas do nosso quotidiano quando está quase à porta 2011, um ano que todos antevemos como pior do que este já foi, e questiono-me sobre o ovo da serpente que a incompetência dos políticos actuais está a germinar.

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Alinhados com a ditadura castrista

por Pedro Correia, em 22.10.10

 

 

Um indivíduo isolado, disposto a levar uma greve de fome às últimas consequências, conseguiu o maior sinal de abertura da ditadura cubana do último meio século, levando à libertação de algumas dezenas de presos políticos. Esse indivíduo, o cubano Guillermo Fariñas, acaba de ser justamente distinguido com o Prémio Sakharov, anualmente atribuído pelo Parlamento Europeu. Na Assembleia da República, os grupos parlamentares aprovaram hoje um voto de congratulação por esta escolha. Todos? Todos não: o PCP e o seu apêndice verde estiveram não ao lado do resistente Fariñas mas da ditadura castrista. Espantosa justificação invocada num partido que se diz internacionalista: o Prémio Sakharov é um "instrumento político de intervenção e ingerência".

Como se um prémio com estas características não tivesse precisamente a obrigação de consumar o direito à justa ingerência da comunidade internacional em regimes que escravizam os seus povos. Como se na galeria de vencedores deste prémio não figurassem personalidades e organizações que justificam, só por si, este direito. Refiro-me a Nelson Mandela, Aleksandr Dubček, Aung San Suu Kyi, as Mães da Praça de Maio, Taslima Nasrin, Ibrahim Rugova, Xanana Gusmão, os Repórteres Sem Fronteiras e a própria Organização das Nações Unidas. Por vontade do PCP e do seu apêndice, o prémio iria antes para a família Castro.

 

Imagem: alguns dos galardoados, desde 1988, com o Prémio Sakharov.

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Ao lado dos carrascos

por Pedro Correia, em 13.10.10

 

Liu Xiaobo, o novo Prémio Nobel da Paz, foi detido e condenado a 11 anos de prisão simplesmente por ter sido um dos autores deste documento que defende os direitos humanos na China. Não andou a pôr bombas em transportes públicos, não disparou contra ninguém nem sequer partiu nenhuma montra à pedrada, como aqueles jovens "radicais" gregos tão idolatrados pela extrema-esquerda blogosférica.

Um intelectual injustamente encarcerado numa ditadura por exprimir ideias de modo pacífico devia merecer a solidariedade de um partido como o PCP, que no seu hino diz defender "uma terra sem amos". Mas não: o partido de Jerónimo de Sousa, Francisco Lopes, José Casanova, Albano Nunes, Bernardino Soares e - lamento, mas é um facto - também de Carlos Carvalhas, António Filipe, Honório Novo e Octávio Teixeira não se solidariza com a vítima, mas com o injusto aparelho judicial chinês e o seu poderoso amo, o Partido Comunista. Tornando pública esta enormidade, que devia indignar qualquer cidadão intelectualmente honesto, a começar pelos militantes comunistas: o Nobel para Liu "é um golpe na credibilidade de um galardão que deveria contribuir para a afirmação dos valores da paz, da solidariedade e da amizade entre os povos". Naturalmente, no 5 Dias ainda recebe aplausos por isso.

Contra a vítima, ao lado dos carrascos - à semelhança do que tantas vezes tem sucedido ao longo da História. Não esquecem nada, não aprendem nada. Como a aristocracia decadente do ancien régime.

 

Imagem: manifestação de apoio a Liu Xiaobo em Hong Kong

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Lula de hoje renega Lula de ontem

por Pedro Correia, em 12.03.10

 

Luís Inácio Lula da Silva foi preso político durante a feroz ditadura militar brasileira (1964-85). Mas nem isso o tornou mais sensível, aparentemente, ao drama dos prisioneiros de consciência que permanecem no mundo - a começar pelo próprio hemisfério onde o Brasil se insere. Cuba, a última ditadura das Américas, já justificou quatro deslocações oficiais de Lula como presidente. Em nenhuma destas visitas a Havana, onde gosta de se fazer fotografar ao lado de Fidel Castro, o antigo operário metalúrgico encarcerado pelo general Ernesto Geisel se dignou receber delegações de familiares de presos políticos cubanos. A máxima desqualificação do seu próprio percurso de lutador pela liberdade sucedeu agora, com a declaração boçal que proferiu sobre os opositores que fazem greve de fome na prisão - único e último recurso ao seu alcance para chamarem a atenção do mundo, num desesperado grito pela liberdade que lhes é negada. Orlando Zapata morreu ao fim de 86 dias. Guillermo Fariñas está há 16 dias sem comer, tendo já perdido 13 quilos.

Zapata era operário, como Lula foi. E opôs-se tenazmente a uma ditadura, como Lula fez. Apesar disso - e da coincidência de ter chegado a Cuba no próprio dia da trágica morte do opositor dos Castro - o presidente brasileiro foi incapaz de pronunciar uma simples palavra de pesar. Pelo contrário, de volta ao seu país, ousou fazer uma declaração que certamente justificaria o aplauso dos tiranos - de todos os tiranos. "Greve de fome não pode ser usada como um pretexto de direitos humanos para libertar pessoas. Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem libertação", afirmou, confundindo deliberadamente presos políticos com delinquentes comuns. Pondo-se ao nível dos editoriais do Granma, o actual inquilino do Palácio do Planalto considera a greve de fome uma "insanidade".

Noutros tempos, Lula diria que a insanidade não está no prisioneiro de consciência, mas no regime opressor que encarcera mulheres e homens por delito de opinião. Tempos em que o próprio Lula fez greve de fome, quando esteve detido em São Paulo. Felizmente para ele e os seus compatriotas, a ditadura brasileira terminou há muito. Infelizmente para os cubanos, a ditadura dos irmãos Castro parece interminável.

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O Jumento sou eu (parte II)

por Pedro Correia, em 02.03.10

 

Totalmente a despropósito - e com uma descortesia que registo - o Eduardo Pitta diz-se "surpreendido" com o meu "silêncio" sobre esta questão, a que a Ana Vidal já fez hoje referência no DELITO.

Acho interessante este novo passatempo, inaugurado pelo autor do blogue Da Literatura, de enumerar os silêncios dos outros, virtuais ou reais. Eu, por exemplo, estranho o silêncio que o Eduardo Pitta manteve sobre isto, que causou justa indignação aqui.

Mas já que ele tocou no assunto, aproveito para lhe avivar a memória. A 27 de Outubro de 2008, quando o Público noticiou a questão do blogue Jumento, agora desenterrada, escrevi o seguinte no Corta-Fitas, sob o título "O Jumento sou eu" :

 

«Abriu a época de caça ao "delinquente" na blogosfera. Segundo o Público de hoje, em notícia assinada por Vítor Costa, "a Polícia Judiciária pediu ao gabinete nacional da Interpol que tentasse saber junto da sua congénere dos Estados Unidos quem é, ou quem são, os autores do Jumento, um blogue que se dedica essencialmente a relatar alegados acontecimentos ocorridos no interior da Direcção-Geral dos Impostos". Alguém aí falou em estado policial?

Perante isto, apetece-me dizer: o Jumento sou eu. Incompreensivelmente, não estava na barra lateral cá da casa. Salta já para lá. E toca a zurrar, que se faz tarde.»

 

Naturalmente, não tenho nenhuma palavra a retirar ao que então escrevi.

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A palavra "dissidente"

por Pedro Correia, em 01.03.10

 

 

Escuto e leio diversas vezes a palavra “dissidente” referindo-se a opositores do regime de Pequim como Hu Jia. Ou a opositores da ditadura castrista em Cuba, como Guillermo Fariñas. Palavra errada, que não deve ser utilizada em jornalismo. O termo foi cunhado na antiga União Soviética para designar todos quantos se afastavam da “normalidade” política e social, insinuando uma espécie de doença psíquica. Se a ditadura comunista dizia representar todo o povo, quem não se sentisse representado por ela só poderia ser “dissidente”. Louco, portanto.

Dois pesos, duas medidas. Ninguém chamaria “dissidente” a um opositor da antiga ditadura chilena de Augusto Pinochet. E muito bem.

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O regresso da censura

por Pedro Correia, em 11.02.10

Quase a assinalar-se o quinto aniversário da entrada em funções do actual primeiro-ministro, chegámos a isto: o poder político procura instrumentalizar os tribunais como forma de restaurar o famigerado "exame prévio" à imprensa em Portugal. Algo inimaginável em qualquer outro país da União Europeia, algo que deve envergonhar todos os verdadeiros democratas. Obviamente, o Henrique Monteiro tem toda a razão: começa a abrir-se a porta à censura prévia à imprensa. Obviamente, subscrevo o que diz o Alcides Vieira: tentar calar o Sol é um atentado à liberdade de expressão. Obviamente, o Joaquim Vieira está também cheio de razão: chegou o momento de desobediência civil dos jornalistas.

Felizmente o Sol anuncia que resistirá a todas as pressões para silenciar as notícias incómodas para o chefe do Governo e o seu núcleo duro de homens de mão. E felizmente estamos integrados na Europa - o Tribunal Europeu de Direitos do Homem é hoje para nós a última instância de recurso contra as tentações autoritárias deste PS de Sócrates, indigno dos tempos em que foi o principal baluarte da liberdade em Portugal.

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