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Leituras para 2017

por Pedro Correia, em 14.01.17

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Não deixes tudo ao sabor do acaso. Organiza um plano de leitura. Abdica de parte do tempo diário que dedicas a um sem-fim de futilidades. Não espreites mais vídeos de gatinhos nem repliques graçolas alarves nas “redes sociais”. Imagina 2017, no plano cultural, como uma montanha que ambicionas escalar e não como uma ladeira que vais descer.

Elege elevação como palavra de ordem. E nunca esqueças que a leitura será sempre a tua maior aliada neste caminho.

 

Põe de lado uns quantos livros que pretender ler. Coloca-os num lugar acessível, de modo a que consigas espreitar-lhes as capas a todo o momento. Estarão ali, chamando por ti, manhã após manhã, semana após semana.

Canaliza meia hora, todos os dias, do precioso tempo que gastas com aquilo que não interessa para mergulhares numa primeira leitura. Se ela te prender, a meia hora irá ampliar-se quase sem dares por isso. Mas convence-te que terás de concentrar-te nessa meta. Nada se alcança sem um esforço mínimo.

Não escutes aqueles que escutas há anos nas televisões papagueando as mesmas coisas: antes de abrirem a boca já sabes o que irão dizer. Deixa o telemóvel noutra divisão, mostra-lhe que és tu a mandar nele e não ele a dispor de ti. Não caias na tentação de trocar amizades reais por amizades virtuais.

Pensa num livro como um amigo real, disponível a todos os momentos e capaz de te acompanhar nos melhores percursos – aqueles que te abrem horizontes, aqueles que são capazes de fazer de ti uma pessoa com mais cultura, com maior conhecimento, com melhor capacidade de entender os mistérios da vida e desvendar os enigmas do mundo.

 

Organiza uma lista de leituras. Eu já fiz isso, nos primeiros dias do ano. Tenho estes livros à cabeceira, desafiando-me a todo o momento para ir ao encontro deles: O Agente Secreto, de Joseph Conrad, A Cidade e os Cães, de Mario Vargas Llosa, San Camilo, 1936, de Camilo José Cela, O Tio Goriot, de Honoré de Balzac, Batalha Incerta, de John Steinbeck, Revolta na Bounty, de John Barrow, Desconhecidos, de Anita Brookner, O Mundo de Fora, de Jorge Franco, Sartoris, de William Faulkner, Manhattan Transfer, de John dos Passos.

Diz para ti próprio: vou ler mais em 2017. E põe em prática este objectivo. Verás que se concretiza: basta saberes organizar melhor o calendário. A vida é feita de escolhas: prescinde de parte do tempo desperdiçado em irrelevâncias e chegarás ao fim com a certeza de teres aproveitado bem o ano.

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Selecção Nacional - 6

por Inês Pedrosa, em 09.07.16

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"A cama flutuante eleva-se agora sobre as nuvens, as chaminés, e os telhados encanecidos. A cama dirige-se para o Criador. E é uma auto-estrada fluida, a que liga a Terra, onde Cristina se encontra, ao infinito, onde está o Criador. A cama sobe até às estrelas, e Cristina sente que está quase a atingir o seu destino. Tem tantas perguntas, nem sabe por onde começar. Quando encontrar Deus, promete, tentará não desatar logo em invectivas, a insultá-lo violentamente, que é o que lhe apetece. É o que lhe apetece, mas controla-se. Será esperta, melíflua, cínica mesmo. Irá com calma. Oferecer-Lhe-á os seus favores, se for caso disso, para melhor O enganar. O coração de Cristina devia estar a bater com força, à medida que se aproxima do ente supremo, mas o que acontece é precisamente o contrário, vai ficando cada vez mais calma, serena, senhora de si própria. " 

Rui Zink, O Suplente, 2000, 344 pp, p. 86. 

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Selecção Nacional - 5

por Inês Pedrosa, em 07.07.16

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"A chuva ia e vinha como uma cortina que ora se fecha ora se esgarça, e ele acrescentou, com o candeeiro levantado e os olhos cravados nos dela — «Nunca te dei nada». E ela continuava completamente surpreendida, pois sabia que não era assim, e quis mostrar como não era assim, como estava rodeada de objectos e seres deixados por ele, imagens, ideias e fundamentos, tecidos e desenhos, os suficientes e adequados, provenientes dele, e se tinha desejado aquele encontro, era só para lhe explicar como vivia com ele, na ausência dele, por tudo isso que possuía. Queria dizer-lhe que não lhe devia nada, pelo contrário, que tudo estava certo como uma conta de multiplicar bem contada, que até ao fim da lógica e dos séculos sempre resiste à mesma prova real. Mas nessa noite era impossível explicar, pois talvez ela não tivesse as palavras, ou tivesse mas não as soubesse unir, ou pelo menos assim acontecia, naquele momento de surpresa em que ele a visitava." 

Lídia Jorge, O Vale da Paixão, 1998, p. 16. 

 

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Selecção Nacional - 4

por Inês Pedrosa, em 06.07.16

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"Não amo a desgraça nem o excesso de graça, mas posso contá-los. Era um salão com lustres e de gente com duzentos milhões, pelo menos, de renda anual em angolares e francos suíços. O meu coração não é duro, porque nesse tempo eu não faria contas dessas. Ao princípio fascinaram-me as relações exemplares. Depois apercebi-me que essa raridade era uma ofensa, como uma desmesurada conta na Suíça e, felizmente, muito mais rara. Os amores únicos e a sua crónica devem ser deixados a escritores menores, os agiotas da ilusão. Ou pervertores de consciências. Ah, se o amor é fulminante e arbitrário, porque não preferir o poder ou a sua prima triste - o conhecimento?" ( pp. 92-93) 

Maria Velho da Costa, Missa in Albis, 1988, 465 pp.

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Selecção Nacional -3

por Inês Pedrosa, em 04.07.16

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"Há quem me considere perigosa e também quem me diga visionária por querer salvar a Pátria portuguesa, mas há igualmente quem se ria nas minhas costas, querendo colar-me a imagem daquela a quem não se pode dar crédito, devendo por isso ser afastada.

As sombras adensam-se em torno da minha casa da Rua da Boa Morte. Assustada, vejo-me a esbracejar em vão, sem poder deixar de lutar por aquilo em que acredito, tentando encontrar o caminho mais hábil para combater o despotismo que sempre sufocou as nações.

Só a poesia me dá algum alento, pois mesmo com as minhas amigas e meu irmão brigo, desconcertando-me comigo própria. E apesar de muitos serem os motivos desencorajadores, todos os dias persisto: saio de casa cedo e fico esquecida, esperando inutilmente nas antecâmaras dos ministérios, sentindo-me transparente aos olhos de quem se recusa a receber-me.

Sabendo-me considerada uma ameaça.

Afinal, em nada do que pretendo se acoita o perigo."

Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, 2011, p. 957.

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Selecção Nacional - 2

por Inês Pedrosa, em 03.07.16

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"Maria suspeitou que ele se exprimia em verso ou como tal. Com efeito falava sem a olhar mas rindo-se para não dar importância ao que dizia e que apenas lhe saía da boca porque o tinha escrito dentro dele. «Estás aqui comigo à sombra do sol e tenho pena de ser só isto», disse a certa altura. E dói-me um braço, e sei que sou o pior aspecto do que sou.»

Maria: «Não é nada pior. Eu até tenho os seus livros todos.»

O poeta Ruy Belo se a ouviu não se mostrou entusiasmado. Mergulhou na caneca de cerveja e ficou por lá a pensar. Ao cabo de alguns instantes levantou a boca cheia de espuma:

«Acabo de inventar um advérbio: helenamente.» Acenou para o copo: «É isso. A maneira mais triste de estar contente.»

Voltou-se para a Maria: Helenamente, a maneira mais triste de estar contente não tinha nada a ver com estóicos nem com filosofias gregas, a boa menina que não pensasse. Aquilo vinha do nome duma mulher que só ele sabia, e queria dizer o mar, a terra, o fumo e a pedra simultaneamente. Helenamente, simultaneamente.“

José Cardoso Pires, Alexandra Alpha, 1987, pp 425-426.

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Selecção Nacional -1

por Inês Pedrosa, em 02.07.16

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"Só é estável o que nos parece perecível. Busco, volto, abandono e chamo de novo. É isto amor. Trago no meu seio irmãos e horas, luzes, palavras, mitos; o caldeiro cheio de corações humanos onde cozem as suas ervas as feiticeiras do tempo; a roça e a espada, a flor e a poeira. Isto é amor. Quem pode obstar a esta torrente, quem vem, com pé leviano e peca sombra, interceptar o sentido dalguma coisa que nasce no seio do seu próprio sentido? Vou, volto, danço de roda das trípodes e das fogueiras, devasso os corações lívidos dos vivos e o seu frágil comércio sentimental. E percebo que tudo o que foi criado muda, que a alma corre como o vento em busca da sua guarida que é por momentos alguém, depois um projecto, uma dor do lado esquerdo ou o jornal da manhã, o dinheiro, a fama ou o desdentado riso dum mendigo. Que são romances? Histórias fingidas, presenças estudadas, um coro de actividades morais, a burocracia da personalidade. Não é tempo talvez de tais jogos mais ou menos argutos e meditabundos. Cada voz reclama a sua parte de luz, não há heróis, já que tão bem sabemos que o convívio com eles se torna funesto e nos absorve. Cada voz está só e é única, e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa."

Agustina Bessa-Luís, A Muralha, 1957, pp 38-39.

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Ler e não ler

por Pedro Correia, em 02.07.16

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Não sei se convosco acontece o mesmo. Comigo há um padrão imutável: em dois meses, Dezembro e Junho, leio tanto como nos restantes. Ou perto disso. É assim de há muito tempo para cá. E ainda não consegui arranjar uma explicação satisfatória. Mas acontece ano após ano.

Será que os dias de maior exposição solar convidam à leitura? Mas, se assim for, essa regra não deve prevalecer também para Julho?

Será que o aconchego natalício favorece a companhia de um bom livro? Mas Janeiro e Fevereiro, meses mais frios, não deveriam impor ainda maior retraimento doméstico?

A verdade é que tudo se repetiu, em obediência a uma regra insólita, neste Junho agora terminado. Pego no caderno onde vou anotando as minhas leituras e verifico que li nove livros completos - sem saltar páginas, sem interrupções, do princípio ao fim. À média de um título diferente de três em três dias, como sucedia nos meus anos de adolescência em que o tempo parecia durar infinitamente mais. Mas em Maio - lá está - tinha sido bem diferente. Aí cada livro demorou-me dez dias: só consegui ler três. Em Abril, outros três.

De todas essas leituras irei dando nota aqui. Adianto que em Junho foram cinco romances, um ensaio, uma memória, uma colectânea de entrevistas e uma peça teatral. Quatro destas obras mereceram-me cinco estrelas, confirmando que 2016 está a ser ano de boa colheita para o leitor voraz que continuo a ser. E sempre sorrio ao recordar o professor de Direito Constitucional quando nos dizia no anfiteatro da faculdade: "Espero que os senhores já tenham lido muito antes de chegar à Universidade. Porque, se não leram até agora, também não lerão. Eu li o essencial até aos 18 anos."

Eu tinha 18 anos à época e nunca mais esqueci a solene advertência do professor Jorge Miranda (que por estes dias costumo encontrar à entrada ou à saída de salas de cinema). Acreditei nele e preparei-me para viver o resto dos meus dias mergulhado numa irremediável e desprezível ignorância.

Sei hoje que quase nunca devemos interpretar uma frase pelo seu inteiro valor facial. Esta é uma das lições que aprendi tanto por experiência própria como enquanto leitor atento. Já nem sei por que ordem. Mas também não interessa. Como assinalou Marguerite Yourcenar, num dos romances da minha vida, "a palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana".

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O fascínio da literatura

por Pedro Correia, em 21.05.16

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Até que ponto uma obra literária pode alterar um percurso humano? Não falta quem menorize o tema, mas eu incluo-me entre os que são capazes de acreditar que um livro pode mudar uma vida - ou até as vidas de milhões de pessoas. Acredito que alguém queira voar após ler Vol de Nuit, de Saint-Exupéry. Ou navegar depois de ler Lord Jim, de Conrad. Ou viajar a Ferrara só por ter lido O Jardim dos Finzi-Contini, de Giorgio Bassani. Ou conhecer Pamplona à boleia de Hemingway - e permanecer em Navarra para sempre.

São inúmeros os casos de livros que mudam uma vida. Napoleão - dizem - nunca mais foi o mesmo depois de ler O Príncipe, de Maquiavel. Pessoa imitou um dos seus autores favoritos, Poe, em parte da obra e grande parte da existência. Inácio de Loyola abandonou a carreira das armas ao ler uma biografia de Cristo. Marx, para o bem e para o mal, alterou as vidas de milhões de pessoas. E Nietzsche também - ao ponto de ter alucinado um certo cabo austríaco que combateu na I Guerra Mundial e usava um bigodinho ridículo. Ibsen influenciou legislação sobre os direitos das mulheres. Conan Doyle e Simenon marcaram tantos de tal forma que até personagens saídos da sua imaginação, como Sherlock Holmes e o comissário Maigret, se tornaram mais célebres do que os autores, gerando romagens a Baker Street em Londres e ao Boulevard Richard-Lenoir em Paris. Romeu e Julieta, figuras de papel, seduziram mais do que inúmeras pessoas de carne e osso. E já nem falo dos mundos que se descobrem em cada livro da Bíblia...
Sabemos sempre de onde partimos com um livro na mão. Mas somos incapazes de imaginar até onde ele nos conduz. É também isto - é sobretudo isto - que faz o fascínio da literatura.

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Ler (sobre o massacre em Paris)

por Pedro Correia, em 16.11.15

Paris sous l' attaque. Do João Pedro Pimenta, n' A Ágora.

La Palice. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Senhor Luís.

La nausée. De António Araújo, no Malomil.

A guerra explicada às criancinhas. De Vítor Cunha, no Blasfémias.

Paris. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Medo. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Surrealismo... De Rita Carreira, n' A Destreza das Dúvidas.

Popper e Cristo em Paris. De Pedro Norton, no Escrever é Triste.

Ser e fazer tudo aquilo que eles detestam. Da Daniela Major, no Aventar.

Carry on. Do Luís M. Jorge, na Vida Breve.

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um bilhete de avião chamado livro

por Patrícia Reis, em 20.10.15

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O meu tio-avô, homem de múltiplos talentos, deu-me os livros. Disse-me que podia viajar e conhecer o mundo sem sair de casa, a única ferramenta necessária não seria um bilhete de avião, mas um livro. Desde então ando com livros atrás, creio mesmo que há momentos na minha vida em que existem mais livros dentro do meu carro do que em muitas livrarias. Podia aborrecer-me e querer navegar nas redes sociais, prefiro um livro. Posso ir à Rússia, ao espaço, à terra do nunca e não tenho de sair do sítio, não preciso de fazer as malas. Acresce que ler é das poucas situações que, socialmente, nos protege. As pessoas tendem a não incomodar quem está a ler, têm um certo pudor. Fica-lhes bem e eu agradeço. Há alturas em que se decide seguir a máxima do filho, da árvore, do livro e quando se tenta escrever todos os outros livros se alinham na nossa cabeça, como um exército, e dizem: estamos aqui, estás a escrever, mas estamos aqui. Há uma esquizofrenia pura na escrita, digo-vos. Nada de gavetas padronizadas, o rótulo "normal" desfaz-se. Seja como for, ninguém é escritor sem ser leitor, portanto deixo o exército à porta e vou para dentro. 

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Ler

por Pedro Correia, em 13.02.15

Eles já estão aí. Do Gabriel Silva, no Blasfémias.

A entusiástica estupidez suicida da UE governada pelo medo. Do Miguel Serras Pereira, no Vias de Facto.

Comprimidos para a memória. Do Filipe Nunes Vicente, no Nada os Dispõe à Acção.

Destruição criativa. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Olho. Da Ana Cássia Rebelo, na Ana de Amsterdam.

De que falamos quando falamos de Birdman? De Carlos Natálio, no Ordet.

Bénard: "There was never a man like my Johnny". Do Manuel S. Fonseca, no Escrever é Triste.

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O sortilégio da literatura

por Pedro Correia, em 20.12.14

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Estas coisas nunca acontecem exactamente como as planeamos - aliás, os imprevistos fazem parte do fascínio da leitura.

No final do ano passado tracei um objectivo para 2014: só leria de Janeiro a Dezembro livros da autoria de escritores galardoados com o Nobel. Defini esta meta após concluir que apenas conhecia, enquanto leitor, menos de um terço desses autores: era uma lacuna que urgia colmatar.

 

As coisas correram como planeei, mas só em parte.

Este desafio que lancei a mim próprio foi-me útil, sem dúvida. Li pela primeira vez obras destes 11 escritores que receberam o Nobel: Pär Lagerkvist (vencedor em 1951), Juan Ramón Jiménez (1956), Günter Grass (1999), Anatole France (1921), Luigi Pirandello (1934), Kenzaburo Oe (1994), Ivo Andric (1961), Naguib Mahfouz (1988), Mikail Cholokov (1965), William Golding (1983) e Yasunari Kawabata (1968). Além disso li ou reli romances, novelas ou contos de outros escritores também galoardoados com o Nobel mas cuja obra já conhecia: José Saramago (distinguido em 1998), François Mauriac (1952), William Faulkner (1949) e Ernest Hemingway (1954).

 

Mas a dada altura quebrei a regra que impusera a mim próprio. E acabei por alterar o plano inicial, mudança de que não me arrependo. Como poderia? Sem ela, neste ano que agora acaba não me teriam passado pelas mãos livros de Chesterton, Cortázar, Jack London, Simenon, Ray Bradbury, Joseph Roth, Conrad, Cardoso Pires, Remarque, Rubem Fonseca, Graham Greene, Jane Austen, Virginia Woolf, Scott Fitzgerald e John Le Carré, entre vários outros.

Livros de autores que não se cruzaram com o Nobel, mas que contribuíram para prestigiar, dignificar e engrandecer a literatura. E que, à distância de décadas ou de séculos, mantêm o condão de nos emocionar, de nos dar asas, de nos rasgar horizontes, de nos ensinar a decifrar as encruzilhadas do mundo ou os abismos da alma humana.

 

Nunca considero perdida qualquer parcela do tempo que dou por mim rendido, enquanto leitor grato e arrebatado, ao infindável sortilégio da literatura.

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Penso rápido (59)

por Pedro Correia, em 06.11.14

Aos 18 anos comecei a anotar todos os livros que ia lendo. É uma lista que sempre me acompanhou de então para cá. Já são mil e muitas anotações. Com nome do livro, autor, data e local em que terminei a leitura. E as estrelinhas da praxe.

Ajuda sempre na releitura. Como tenho verificado nestes últimos meses dedicados a revisitar alguns dos livros que mais me marcaram.
Ajuda também a lembrar quais foram os anos mais férteis em leituras. No ano em que fiz 20, por exemplo, li setenta e tal livros completos. Algo impensável nos tempos que correm, pelos mais diversos motivos.
Ajuda ainda a recordar que livro líamos quando nos ocorreram determinados factos que marcaram as nossas vidas, para bem ou para mal.
Ajuda enfim a pontuar a nossa memória. Como uma espécie de GPS para consumo próprio.
Dá jeito, muito mais vezes do que possamos imaginar.

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Os labirintos da memória

por Pedro Correia, em 11.10.14

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Não sei se convosco acontecem coisas destas. Na quinta-feira, quando soube que o escritor francês Patrick Modiano era o vencedor do Nobel, lembrei-me logo que tinha uma obra dele: Domingos de Agosto, editada pela D. Quixote, na sua efémera colecção de livros de bolso.

Ao chegar a casa, e como tenho a biblioteca arrumada, fui logo direito ao livro disposto a lê-lo nos próximos dias. Lá estava a anotação inicial: comprei-o a 27 de Maio de 2000 (certamente na Feira do Livro, por coincidir com a data). A surpresa aconteceu ao espreitar a última página, onde vinha outra inscrição: 11 de Junho de 2000. A data em que terminei de lê-lo, duas semanas depois de o ter comprado.

Lembro-me perfeitamente de livros que li muito antes deste. Acontece que nada retive desta obra. Nada mesmo. Irei (re)lê-la como se fosse a primeira vez. Certamente sem dificuldade, até porque só tem 160 páginas.

Gosto de sublinhar um livro que vou lendo. Quando isso não acontece é sinal inequívoco de que a leitura não está a impressionar-me. Folheio este exemplar e verifico: tem apenas dois sublinhados.

Um na página 33: «É da Primavera que eu tenho medo. Chega sempre como uma vaga de fundo, e eu pergunto-me sempre se não vou desequilibrar-me e sair borda fora.»

Outro na página 107: «Porque é que certas pessoas são como as pastilhas elásticas que em vão tentamos desprender dos saltos dos sapatos, esfragando-os na borda de um passeio?»

Foi uma leitura tão etérea que passou por mim sem deixar rasto. Ao contrário da pastilha elástica mencionada no parágrafo anterior. Já conhecia, portanto, Patrick Modiano. Mas na quinta-feira recebi a notícia do Nobel como se nunca me tivesse sido apresentado.

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O melhor é oferecer livros

por Pedro Correia, em 31.12.13

Este ano, por efeitos acumulados da crise no meu orçamento pessoal, as prendas natalícias que ofereci aos familiares mais chegados resumiram-se a livros que fui comprando ao longo do semestre. Estas são aliás, para mim, as melhores prendas. As mais intemporais, as mais persistentes, as que mais nos acompanham vida fora.

 

Que livros foram esses?

 

 

O Quinto Livro de Crónicas, de António Lobo Antunes, com chancela editorial da Dom Quixote. É um género em que o autor de Memória de Elefante se revelou um dos maiores cultores de sempre em Portugal, produzindo textos que são autênticas obras-primas do engenho literário.

 

 

Os Contos Completos, de Fernando Pessoa. Enfim um volume que reúne supostamente na íntegra -- supostamente porque com Pessoa nunca se sabe -- ficções do criador de Mensagem, capaz de ser pontualmente tão brilhante em prosa como foi na poesia. Uma edição com a qualidade a que a Antígona nos habituou.

 

 

Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Uma reedição muito cuidada deste grande clássico da dramaturgia de todos os tempos inserido numa colecção de obras do genial autor britânico que a Relógio d'Água, a preços muito convidativos, põe agora à disposição dos leitores portugueses. A isto chamo serviço público.

 

 

A Bibliotecária de Auschwitz, de António G. Iturbe. Com a chancela da Planeta, uma das melhores narrativas que nos chegou de Espanha nos últimos anos, cruzamento de reportagem com ficção, originalmente editada em 2012. Uma admirável história de resistência baseada em factos reais que passou com distinção no exigente crivo crítico espanhol.

 

 

As Grandes Batalhas da História de Portugal, de Rui Natário. Um livro de consulta permanente, ideal para quem gosta de conhecer ou recordar alguns dos factos mais decisivos da nossa história política e militar, sem os quais Portugal não seria o que é. Da batalha de São Mamede (1128) à batalha de La Lys (1918), quase 800 anos em revista nesta obra da editora Marcador.

 

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Nota suplementar: todos estes livros, impressos em 2012 ou 2013, estão escritos em português não-acordista. Sem mutilação de consoantes, portanto. O que os torna ainda mais recomendáveis.

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Um texto que chega do Brasil

por Patrícia Reis, em 20.12.13

O amor acaba

 

Por Paulo Mendes Campos


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.

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Leituras

por Pedro Correia, em 10.12.13

 

«Ler não é só comer palavras com os olhos. Ler tem de implicar acção.»

Baptista-Bastos, O Secreto Adeus, p. 101

Ed. Portugália, Lisboa, 1963

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Duas leituras

por António Manuel Venda, em 09.12.13

 

A minha filha mais velha (seis anos) apanhou o jornal no carro e leu este texto de seguida, deixando-me completamente surpreendido. Só se atrapalhou na palavra «notável» – «notá... não percebo isto?» Tentei ajudá-la, mas ela rapidamente concluiu a palavra e eu calei-me; percebi que não era dificuldade de leitura mas sim alguma estranheza com o adjectivo aplicado a mim. Depois dela, também a minha filha mais nova, de três anos, quis ler. Fê-lo ainda com mais desembaraço, falou do gato Sabu (de uma das histórias que em tempos lhe contava), do monstro Climey (de outra história), de flores gigantes e do gato Punkinho (nome que vem de punk pequenino), o gato que agora está a recuperar de uma luta no montado com uma gineta que pelas feridas que o pobrezito trouxe para casa devia ser maior do que um javali. Falou também do monstro Bazôu (lê-se Bazu), aproveitando para lançar um aparte sobre a presença excessiva de monstros nas histórias do pai, voltou a falar de flores, imitou um passarinho a fazer ares de admiração e concluiu com uma pequena dissertação sobre uma palmeira que fica perto dos baloiços. Depois devolveu o jornal à irmã e disse-lhe que lia tão bem como ela e ainda mais depressa.

 

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Os livros que fomos lendo

por Pedro Correia, em 15.10.13

 

Durante quatro meses, fomos aqui revelando as leituras que íamos fazendo, partilhando-as com os leitores. Chegou o momento do balanço desta série, desenrolada em 19 etapas.

 

O João Campos, a 6 de Junho, dava o pontapé de saída. Revelando qual era o seu livro de cabeceira: Consider Phlebas, de Iain M. Banks.

 

O José Gomes André, a 12 de Junho, falou-nos de um livro que acabara de ler: Fatherland, de Robert Harris.

 

O José Maria Gui Pimentel, a 21 de Junho, saltava da ficção científica para a História. Com a leitura da História de Portugal, de Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro e Rui Ramos.

 

O José Navarro de Andrade, a 27 de Junho, rumava à América Central com a leitura do romance El Señor Presidente, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, galardoado com o Nobel.

 

O JPT, a 2 de Julho, dava-nos notícia d' A Maldição de Ondina, de António Cabrita -- radicado em Moçambique, tal como ele.

 

A Laura Ramos, a 10 de Julho, levantava o véu sobre o seu livro de cabeceira: Uma Vida Francesa, de Jean-Paul Dubois, "mestre no retrato da sociedade e da cidadania política".

 

A Leonor Barros, a 21 de Julho, ia lendo "com prazer" Mentiras & Diamantes, de José Rentes de Carvalho.

 

O Luís Menezes Leitão, a 24 de Julho, escreveu sobre as Memórias, de Humberto Delgado, publicadas originalmente em Londres, em 1964 -- meses antes de o "general sem medo" ter sido assassinado.

 

A Marta Spínola, a 29 de Julho, mencionou um dos livros que acabara de ler: Notas de Cozinha de Leonardo Da Vinci.

 

A Patrícia Reis, a 1 de Agosto, reafirmava que gosta de ler várias obras ao mesmo tempo: Os Antiquários, de Pablo de Santis, era uma delas.

 

A 5 de Agosto, foi a minha vez: aqui escrevi o que pensava sobre uma obra muito estimulante: De Gaulle, de Éric Roussel -- uma das minhas melhores leituras deste Verão.

 

A Teresa Ribeiro, a 9 de Agosto, trazia-nos aqui a sua perspectiva sobre Os Enamoramentos, de Javier Marías. Um escritor digno do Nobel, como garante Pedro Mexia, que revelou ter boa pontaria ao vaticinar a escolha de Alice Munro pelo júri de Estocolmo.

 

A Ana Cláudia Vicente, a 30 de Agosto, lamentava-se da falta de tempo para leituras. Mesmo assim ainda conseguiu ler O Coleccionador de Erva, de Francisco José Viegas.

 

A Ana Lima, a 8 de Setembro, falou-nos dos Contos Impopulares, de Agustina Bessa-Luís. Há sempre uma primeira vez para ler Agustina: chegou a vez dela.

 

A Ana Vidal, a 20 de Setembro, falou-nos de El Amor de mi Vida, de Rosa Montero. E foi tão convincente que eu corri a comprar o livro.

 

O Bandeira, a 28 de Setembro, trouxe-nos notícias de uma colectânea: The Collected Stories of Lydia Davis.

 

O Fernando Sousa, a 30 de Setembro, apresentou-nos Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Adichie.

 

A Ivone Mendes da Silva, a 4 de Outubro, lia A Ilha de Sukkwan, de David Vann.

 

E a série terminou ontem, 14 de Outubro, com o João André. Leitor da obra The German Genius, de Peter Watson.

 

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Como ele bem disse, em breve haveremos de ter outra série colectiva. Conto dar-vos notícia dela a curto prazo. E de outra mais pessoal, sobre jornalismo e política, depois de ter conseguido arrumar a biblioteca.

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Parar para ler, parar para pensar

por Pedro Correia, em 02.01.13

 

Em 2012 consegui ler ou reler Eça, Camilo, Jorge Amado, Virginia Woolf, William Faulkner, Ford Madox Ford, Dylan Thomas, Graham Greene, Julio Cortázar, Joseph Roth, Nelson Rodrigues, Pérez-Reverte e Erich Maria Remarque, entre alguns outros. Li muito menos do que gostaria, mas muito mais do que eu próprio antevi ao iniciar-se o ano num tempo em que tudo nos afugenta da leitura - do ruído circundante às contínuas invasões do nosso reduto íntimo através desses instrumentos omnipresentes no quotidiano do homem contemporâneo que são os computadores e os telemóveis, cada vez mais sofisticados, cada vez mais intromissivos.

A capacidade de concentração de cada de um de nós vai-se diluindo, por obra e graça destes aparelhos que nos põem em contacto com o mundo e com um sem-fim de amigos "virtuais" que nunca vimos mais gordos. A reflexão é inimiga desta constante fragmentação em que vivemos: é raro o filme que se vê até ao fim - mesmo numa sala de cinema - sem o contínuo piscar da luz do telefone portátil, adereço hoje obrigatório, espécie de prolongamento da mão de cada um.

E, no entanto, continuamos a ter direito ao silêncio. Continuamos a sentir necessidade de alguma solidão que nos permita o indispensável reencontro connosco próprios por detrás da espuma dos dias - tão ilusória, tão fugaz, tão enganadora. Continuamos a sentir necessidade daquelas horas de recolhimento a sós com um livro, com um filme, com aquele disco que há muito pretendíamos escutar sem a inevitável gritaria dos anúncios da TV em fundo ou o insistente apito das inúteis mensagens de telemóvel apregoando mais uma campanha de descontos daquele perfume que nunca iremos comprar ou daquela peça de roupa que jamais usaremos.

De tudo quanto pedimos que nos traga o Ano Novo, peçamos-lhe também alguns períodos de paz interior que nos permitam algo tão elementar como ir ao encontro de um livro adormecido numa estante. Talvez aquele que há anos queremos ler sem o conseguir por algum motivo fortuito. Ou revisitar aquele de que gostámos muito há uma dúzia de anos.

E não abdiquemos também do direito de pensar - arranjemos também algum tempo para reflectir. Para nos interrogarmos. Para não nos deixarmos levar pelos pregoeiros de serviço ou pelos vendedores de ilusões. "O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos - é não termos já mesmo perguntas", escreveu Vergílio Ferreira na sua Conta Corrente, cheio de razão.

Tentemos que o nosso 2013 não seja assim. 

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Os livros que fomos lendo

por Pedro Correia, em 29.01.12

 

Durante quase três meses, fomos aqui revelando as leituras que íamos fazendo, partilhando-as com os leitores. Chegou o momento do balanço desta série, desenrolada em 24 etapas.

 

A Ivone Costa, a 3 de Novembro, relia A Mecânica da Ficção, de James Wood.

 

O JAA, a 7 de Novembro, falou-nos de um dos três livros que então lia: Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo.

 

O José Maria Pimentel, a 14 de Novembro, deixou-nos nota da obra que ia lendo: China: its History and Culture, de W. Scott Morton e Charlton Lewis.

 

O João Campos, a 15 de Novembro, fazia uma incursão pela banda desenhada: As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II - Apocalipse. De Filipe Melo (argumento) e Juan Cavia (ilustrações).

 

O João Carvalho, a 18 de Novembro, optava por "alcoviteirices": Amantes dos Reis de Portugal, de Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni.

 

A Laura Ramos, a 22 de Novembro, citava Leo Ferré à laia de introdução do seu texto sobre o livro A Confraria do Vinho, de John Fante.

 

A Leonor Barros, a 28 de Novembro, trouxe-nos literatura em alemão: Meine Russischen Nachbarn, de Wladimir Kaminer.

 

Luís M. Jorge, a 30 de Novembro, lamentava a perda do livro que estava a ler: The Sense of an Ending, de Julian Barnes.

 

O Luís Menezes Leitão, a 2 de Dezembro, assumia-se como apreciador de biografias ao escrever sobre Estaline, de Jean-Jacques Marie.

 

A Patrícia Reis, a 2 de Dezembro, escreveu sobre Dois Rios, de Salem Tatiana Levy, e a biografia de Lúcio Feteira, de Miguel Carvalho.

 

A 6 de Dezembro, foi a minha vez: deixei a minha opinião sobre uma obra muito interessante: A Liderança Segundo John Kennedy, de John Barnes.

 

O Rui Rocha, a 7 de Dezembro, desvendava-nos o livro que andava a reler: A Criação do Mundo, de Miguel Torga.

 

A Teresa Ribeiro, a 12 de Dezembro, trazia-nos aqui a sua perspectiva sobre Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer.

 

O Adolfo Mesquita Nunes, a 19 de Dezembro, confessou-nos a sua nada surpreendente predilecção por The Iron Lady, biografia de Margaret Thatcher escrita por John Campbell.

 

A Ana Cláudia Vicente, a 23 de Dezembro, interrompia Vitorino Nemésio para ler Luiz Pacheco.

 

A Ana Lima, a 26 de Dezembro, narrava-nos a sua opinião sobre O Retorno, de Dulce Maria Cardoso.

 

A Ana Margarida Craveiro, a 27 de Dezembro, andava a braços com "um tijolo de 800 páginas": The Better Angels of our Nature, de Steven Pinker.

 

A Ana Sofia Couto, a 30 de Dezembro, falou-nos de Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff.

 

A Ana Vidal, a 2 de Janeiro, trouxe-nos notícias d' O Túnel, de Ernesto Sabato.

 

O António Manuel Venda, a 3 de Janeiro, relia o Breviário das Más Inclinações, de José Riço Direitinho.

 

A Cláudia Köver, a 13 de Janeiro, transmitiu-nos as suas impressões sobre Comboio Nocturno para Lisboa, de Pascal Mercier.

 

O Fernando Sousa, a 20 de Janeiro, apresentou-nos os Contos Reunidos, de Felisberto Hernández.

 

A Helena Sacadura Cabral, a 21 de Janeiro, lia Longe é um Bom Lugar, de Mário Zambujal.

 

E a série terminou a 26 de Janeiro com o José Navarro de Andrade. Leitor d' Os Espiões, de Luís Fernando Veríssimo.

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O que ando a ler (24)

por José Navarro de Andrade, em 26.01.12

Somos o único bicho incapaz de dormir ao relento. Somos também o único animal que lê na cama. Um livro bom de se ler deitado há-de ser suficientemente cativante para impedir que nos deixemos distrair por outras solicitações que possam surgir, como por exemplo, enfim, isso, mas também suficientemente magnânimo para nos permitir que deslizemos em paz para dentro do sono.

Nem toda a arte, neste passo a literatura, tem que ser um espinho cravado na consciência ou um tiro na cabeça. É um bocado redutor enfiá-la nessa caixa e dela não a deixar sair. Pode ser assim, pode ser assado, seja como o escritor quiser. Pode ser uma tentativa de atingir o Belo (uma proposta demodèe nos dias correntes), pode querer comover-nos, ou consolar-nos, ou apenas retirar-nos, durante o tempo que temos o livro entre mãos, da nossa amarga realidade e transportar-nos para outros lugares. Pode ser ainda uma forma de pôr em ordem uma parte do mundo que ficou por arrumar; pelo menos na cabeça de quem o escreve e de quem o lê.

Atrevo-me a considerar que todas estas formas são equivalentes em nobreza quando conseguem atingir aquilo a que se propõem. Atrevo-me ainda mais a dizer que “Os Espiões” de Luis Fernando Veríssimo é bom para ler na cama. Espero que percebas, ó sereno leitor, que estou a elogiar o livro e também espero que não te passe pela cabeça que faço o elogio da literatura light; suplico-te um esforço aristotélico para que não baralhes categorias, como tão amiúde se faz por preconceito e precipitação, ou apenas porque há quem não dê para mais.

“Os Espiões”:

Um enredo que no dizer do protagonista é digno de John le Carré, sobre uma misteriosa escritora que assina como Ariadne, logo eruditamente remetendo para os olimpos da mitologia, acaba desmistificado por na verdade decorrer à copofónica mesa de um botequim manhoso de Porto Alegre. Vidas conformadas, boémia de bairro, cosmopolitismo intelectual de meia tigela, tudo isto também é desmobilizado pela prosa irónica mas sem sobranceria, generosa com as personagens mas sem complacência, enfim divertida – palavra caída em desuso e normalmente substituída por “fluente” ou “conciso”.

Não sendo novidade, “Os Espiões” é novo de 2009. E guardado estava o bocado, pois Luis Fernando Veríssimo que nunca me cativara nas crónicas publicadas no “Expresso”, veio agora vencer-me com “Os Espiões”. Retrocedo, relerei as crónicas e retracto-me.

Mão amicíssima em boa hora mo fez chegar aos olhos, porque isto é da melhor literatura portuguesa actual. Portuguesa? Mas Luis Fernando não é brasileiro, descendente do anti-presbítero Érico? Sim, mas a nossa língua é só uma e só há a perder dividi-la pelos continentes. Boas noites.

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O que ando a ler (23)

por Helena Sacadura Cabral, em 21.01.12

 

Não será bem o que estou a ler, mas antes, o que acabei de ler. Pelo que vejo das escolhas da "confraria", eu sou a mais heterogenea... Acabei, há dias, a leitura de dois. Sim, sou megalómana e tenho, por norma, duas obras de cabeceira. 

Desta vez, foi o último livro do meu querido Mário Zambujal Longe é um bom lugar, colectânea deliciosa de short stories que é um dos meus estilos preferidos e com o qual o autor e eu própria não nos damos nada mal. Gaba-te cesto!

São contos sobre o quotidiano, com um marcado sentido do humor e que caracterizam os comportamentos de uma certa novel classe média nacional. Fiquei fiel ao Mário desde a velha "Crónica dos bons malandros" e assim continuarei enquanto ele publicar. Nada de filosófico, de intelectual, mas uma bonomia que faz falta neste país de fado triste.

Ao mesmo tempo, li a Ordem Breve da "nossa" Ivone Costa, uma colectânea de poesia difícil mas de rara qualidade e que, aos meus ouvidos - sim leio sempre alto poesia -, soou com uma harmoniosíssima sinfonia. Li-o duas vezes porque, no género, isso me acontece quase sempre. E à segunda volta, ainda gostei mais. Tanto, que tenciono, quando estiver inspirada, escrever um post sobre ele. Não coloco aqui a capa - linda - porque não tenho scanner e não encontrei foto na net. Alguém dá uma ajuda?

 

 

 

E pronto. A seguir apetece-me uma biografia de um homem forte. Tenho duas em mente, mas ainda me não decidi!

 

E tu, Zé Navarro, o que andas a ler agora?

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O que ando a ler (22)

por Fernando Sousa, em 20.01.12

 

Tomo estas notas a quente e frio, por causa de uma despedida e da temperatura que baixou, e por as duas coisas me terem lembrado umas férias de Verão, em 1966, de um imenso calor e de uma morte, de uma escultura de areia e de como a maré a desfez, seriam umas sete da tarde, isto para vos sugerir o que o uruguaio Felizberto Hernández levou a vida a fazer: a procurar, entre as palavras, os seus sentidos. Foi o autor que acabei de reler, porque a leitura é isso mesmo, voltar a ela. Mas que livro, este Contos Reunidos! Naqueles em que volta a ser menino, FH descobre o passado, e o homem que resultou dele, através por exemplo da amizade com Clemente Colling, um violinista virtuoso que nunca trocava de meias e tinha o corpo coberto de percevejos, de duas irmãs velhas que a mãe visitava, duas mulheres de véus caídos sobre as caras e de chás tomados na penumbra de uma sala igual há cinquenta anos, de como o atraiu, adolescente, o cesto de roupa suja da casa de banho de uma mulher bonita - e de como lhe bateu o coração com medo de que alguém de repente entrasse. Noutro, já homem e pianista, antes de trocar o mundo dos sons pelo das palavras, aceita ser convidado de uma matrona rica que vegeta, caprichosa e ferida de amores, numa casa alagada, onde só se pode andar de canoa, e as camas e os armários flutuam sobre bóias. Felizberto Hernández convive com as palavras para encontrar o sentido das coisas, umas vezes claro outras misterioso. “… Tenho como um processo de amizade com as palavras, primeiro faço-me amigo directo delas; e depois fico muito contente quando me aparecem juntas, duas que nunca haviam estado juntas, que se haviam simpatizado, ou que se haviam atraído nalgum lugar da minha alma não vigiado por mim. Mas há palavras que nunca poderão ser minhas amigas, as que não me parecem naturais ou as que não entram no mistério da simpatia” – escreveu a uma amiga. Portugal conhece pouco este abridor de caminhos, este autor incomparável - o mais próximo, no humor e na angústia, talvez seja Kafka. E no entanto Italo Calvino, Júlio Cortázar ou García Márquez, para citar só estes, têm-no como um dos seus maiores mentores. Este o livro que acabei de reler. O que estou a terminar, O Espião Alemão em Goa, de José António Barreiros, é outra história: de como, em Março de 1943, no porto de Mormugão, as tripulações de três navios mercantes alemães e um italiano, atacados por um comando britânico, preferiram metê-los no fundo, criando um problema ao Portugal neutral, que, não podendo reconhecer o ataque, fez julgar e condenar as quatro equipagens. Uma história feia, que o conhecido advogado soube investigar e trazer à tona.

E aqui vai, Cláudia, com um enorme pedido de desculpas pelo atraso, o meu contributo para esta série. E tu, Helena Sacadura, o que andas a ler?

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O que ando a ler (21)

por Cláudia Köver, em 13.01.12

 

Escolhi o livro não pelo título, autor ou imensa vastidão de páginas, mas porque insisto em ler em alemão e foi esta a obra que a minha mãe me colocou na mala antes de eu partir para Istambul. O tempo para a leitura foi escasso, mas a obra “Comboio Nocturno para Lisboa” de Pascal Mercier fez me companhia em algumas noites de insónia. Não o terminei, nem a meio estou. Não por desgostar mas por falta de tempo e dedicação.

O livro inicia-se com uma fuga irracional (ou um acto de coragem dependendo do leitor) para a cidade de Lisboa. Um breve instante na vida do protagonista leva-o a arrancar-se da sua monotonia em Berna e a embarcar numa viagem que o levará a questionar todo o seu estilo de vida e decisões tomadas até então (a forma como viveu as discussões coma sua ex-mulher, a forma como exercera a sua profissão, etc.) Trata-se de um homem invulgarmente inteligente com fracas capacidades sociais e pouca vontade de mudar, que num dia chuvoso se encontra numa situação invulgar e encantadora. A busca por uma mulher portuguesa deixa o cair nos braços de uma obra de Amadeu Inácio de Almeida Prado, escritor português que falecera 30 anos antes, em 1975. O homem míope e que fugia a tudo - exactamente por se negar à evasão e se afundar na leitura dos seus amados livros - dá corpo ao terceiro romance deste autor suíço. A obra foi traduzida em 15 idiomas, tendo sido um grande sucesso na Alemanha, mantendo-se no top durante três anos. Um autor apaixonado por Pessoa, cujas descrições “thrillescas” nos levam a uma Lisboa mística que reflecte bem a sensação que tantos visitantes dizem ter ao visitarem a nossa capital, e que nós – por termos o privilégio de aqui vivermos – tantas vezes escolhemos ignorar.

Não sei o que me espera nos próximos dias em Lisboa (no livro, digo eu), mas sei que sempre que estou “lá por fora” sinto a falta desta cidade e de muita coisa que se representa neste livro: o vintage, o velho, o local remoto, romântico e por vezes esquecido e abandonado pelos seus próprios habitantes.

 

Espero que o Fernado esteja mais dedicado à leitura do que eu!

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O que ando a ler (20)

por António Manuel Venda, em 03.01.12

 

Ana, não é bem a ler, é a reler. Trata-se de uma nova edição de um romance publicado pela primeira vez há quase duas décadas e intitulado «Breviário das Más Inclinações» (edição da Quetzal). A história que aí se conta é a de José de Risso, um santo popular (ou uma espécie de santo popular) nascido com um sinal vermelho no meio das costas, em forma de folha de carvalho. Um sinal de onde ele sangra de cada vez que faz um milagre, coisa que não acontece a seguir a qualquer das suas malvadezas. Que são muitas, ao longo dos seus 33 anos de vida, entre 1923 e 1956, na localidade ficcionada de Vilarinhos dos Loivos, no norte de Portugal, numa zona próxima da fronteira com Espanha.

O próprio autor, José Riço Direitinho, nascido em Lisboa 11 anos depois da morte de José de Risso, chegou a dizer numa entrevista que este «à partida era para ser mau, mas aos poucos acaba até por se tornar simpático». E inclusive dedica-lhe o romance, referindo a sua «memória saudosa». Isto logo a abrir. Já no final, no próprio texto do romance, mesmo nas últimas linhas, há uma outra dedicatória, ainda que menos explícita: é a Camilo José Cela, o célebre escritor galego Nobel da Literatura em 1989, autor de obras marcantes como «Mazurca para Dois Mortos» ou «A Família de Pascual Duarte», que visita uma romaria em honra de José de Risso.

Li o «Breviário das Más Inclinações» logo quando saiu, em 1994, com edição da Asa. Já conhecia, no entanto, o José de Risso, que tinha aparecido pela primeira vez no final da década de 1980, nalguns dos pequenos contos que José Riço Direitinho ia publicando no «DN Jovem», o suplemento semanal do «Diário de Notícias». O romance surgiu já depois de Direitinho ter conquistado os elogios da crítica com o livro de contos «A Casa do Fim», e foi apenas a confirmação de que estávamos na presença de um grande escritor. «Breviário das Más Inclinações» é um dos grandes romances portugueses da segunda metade do século XX, e é um romance verdadeiramente inesquecível, tal como o seu protagonista, nascido de um relacionamento ocasional entre uma mulher de Vilarinho dos Loivos e um caixeiro-viajante. A mãe morreu após o parto; quanto ao pai, tinha desaparecido na mesma noite em que tinha ficado a sós com ela, depois das cantorias e dos bailaricos de uma desfolhada na eira de Vilarinho dos Loivos.

O romance começa assim: «Depois de se ter deitado com um homem, lavava-se sempre numa infusão de folhas de arruda, apanhadas ao luar, e bebia tisanas com sementes de funcho e de sargacinha-dos-montes, para que as regras não lhe faltassem. De maneira que nos dois meses seguintes à noite em que encontrou na eira uma maçaroca de milho-rei, não acreditou que estivesse grávida, mas que a ausência de sangue se devesse a qualquer desarranjo, ou a ter olhado para dentro do forno enquanto o pão crescia.» Mas estava mesmo grávida, e José de Risso acabaria por nascer com o sinal vermelho nas costas. «Uma marca de desgraçado», como logo alguém comentou, acrescentando que «há gente que mais valia não nascer». José de Risso nasceu e começou logo por causar a morte da mãe. Depois, foi o que se viu, ou melhor, o que se pode ver em «Breviário das Más Inclinações».

 

Título: «Breviário das Más Inclinações»

Autor: José Riço Direitinho

Editora: Quetzal

168 páginas

 

E tu, Cláudia, o que andas a ler por estes dias?

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O que ando a ler (19)

por Ana Vidal, em 02.01.12

Essa pergunta não é de resposta fácil, Ana Sofia. Acho que já disse por aqui que nunca leio só um livro de cada vez. Mas, como a maioria dos livros que empilho na mesa de cabeceira é de poesia - neste momento há uma invasão da maravilhosa poesia brasileira, vários livros oferecidos e com dedicatórias que me comovem - falarei aqui do último que li em prosa, acabado ontem mesmo (atravessou comigo o ano, por sinal). É O Túnel, o primeiro romance do argentino Ernesto Sabato. Dele, já tinha lido em tempos "Heróis e túmulos", um livro empolgante que me deixou água na boca e foi considerado, penso que muito justamente, o melhor romance argentino do século XX. O Túnel é um texto muito diferente, embora nos agarre igualmente pelos colarinhos e não nos deixe respirar até à última página. A estrutura é quase policial: um mergulho lento e a cada capítulo mais profundo numa trama obsessiva e tão bem urdida que, mesmo revelado o desfecho logo na primeira frase do livro, a história não perde o suspense, pelo contrário.

 

 

Juan Pablo Castel, um pintor de talento reconhecido - embora despreze totalmente as opiniões dos críticos sobre a sua obra - repara, numa exposição sua, numa mulher que, por sua vez, observa um dos seus quadros atentamente. Maravilha-o que ela se fixe num pormenor do quadro que ninguém mais parece valorizar: uma pequena janela, a um canto, através da qual se vê uma mulher olhando o mar. Está dado o mote: esta sequência, aparentemente inocente, de observadores e objectos de interesse - pintor>mulher>quadro>janela>mulher>mar - dá início a um caleidoscópio alucinante, um jogo de espelhos em permanente mutação que nos desvenda a labiríntica e tortuosa mente do narrador, o próprio pintor. Sob a batuta  de uma paixão súbita e avassaladora (não mais do que um pretexto, já que o amor por Maria não passa da busca de um nome para um papel pré-definido), começa o opressivo bailado nupcial de predador e presa, dois seres desesperados e cada um deles perdido na sua própria e inescapável solidão: Maria, a vítima, que permanece triste e misteriosa até ao fim, e Castel, o implacável algoz, que nos vai conduzindo até à exaustão pelos abismos do seu pensamento, meticulosamente organizado mas circular: "Em geral, esta sensação de estar só no mundo aparece misturada com um orgulhoso sentimento de superioridade. Desprezo os homens, vejo-os feios, sujos, incapazes, ávidos, grosseiros e mesquinhos. E então a minha solidão não me assusta, é quase olímpica. Mas naquele momento, como noutros semelhantes, encontrava-me só como consequência dos meus piores atributos, das minhas baixas acções. Em tais casos sinto que o mundo é desprezível, mas também que faço parte dele, e sou invadido por uma fúria de aniquilação." É este homem que, mesmo nos momentos de felicidade com a mulher que considera a sua alma gémea e a única pessoa no mundo capaz de compreendê-lo, é incapaz de aceitar essa felicidade e semeia nela uma dúvida envenenada até deitar tudo a perder. Um espírito destrutivo que tão bem cabe naquela frase de Schopenhauer: "Quando não tenho nenhuma angústia, é isso mesmo que me angustia".

 

A narrativa, primorosamente escrita e rica de inquietantes metáforas (não falta até uma referência a Kafka e às suas metamorfoses, com a descrição de uma transformação do narrador em pássaro, num sonho), vai num crescendo de angústia e loucura que só pode levar a um final trágico. Já o sabíamos desde a primeira página, mas chegamos lá sem fôlego e ainda expectantes de alguma coisa que possa ter-nos escapado.

 

Ernesto Sabato é um desses escritores mágicos em que a América Latina tem sido pródiga. Tem uma escrita vibrante e lúcida, que prende irremediavelmente o leitor desde as primeiras linhas. Morreu neste ano que agora acabou, a dois meses de completar cem anos. Vale a pena lê-lo.

 

Título: "O Túnel"

Autor: Ernesto Sabato

Editora portuguesa: Relógio d'Água

135 páginas (de puro prazer)

 

E tu, António, o que andas a ler por estes dias?

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O que ando a ler (18)

por Ana Sofia Couto, em 30.12.11

 

Cruzámo-nos muitas vezes nas livrarias antes de eu o levar comigo. Houve razões para tanta hesitação. Não sei se foi uma embirração com o título, a influência de um professor que eu admiro e que não tinha grande simpatia pelo livro ou, simplesmente, por causa das minhas dúvidas a respeito de um medicamento filosófico (uma expressão que é toda uma teoria). Mesmo assim, decidi dar-lhe uma oportunidade e comecei a ler, há poucos dias, Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff. O livro tem como ponto de partida a ideia de que é possível encontrar nos filósofos (e em alguns romancistas) um conjunto de preceitos que nos orientem e nos ajudem a tomar decisões. Nas primeiras páginas, percebemos que o método proposto pretende roubar clientes à psicologia e à psiquiatria. Os problemas de realização pessoal podem ser – é uma ideia reiterada – resolvidos com a ajuda dos grandes filósofos. Assim, no capítulo “Utilidade dos Estudos de Filosofia”, encontramos uma síntese das principais teses de filosofia moral que surgiram no pensamento ocidental, apesar de o “Oriente” também merecer uns parágrafos. Depois desta síntese, o autor passa à demonstração da aplicação do método. Nos dois primeiros casos (foi o que li até agora), o aconselhamento visa o autoconhecimento e a formulação de soluções através da leitura, mais ou menos orientada, de frases dos grandes pensadores. Fica, no entanto, e para desilusão de quem criou algumas expectativas na primeira parte, a ideia de que a resolução dos problemas depende da utilização de uma espécie de fórmula encontrada nas leituras sugeridas. Ou seja, apesar de afirmar a importância da meditação e sublinhar que a abordagem filosófica dos problemas traz consigo a responsabilidade pessoal, o autor explica a evolução dos vários casos de estudo descrevendo de forma muito pobre o modo como cada pessoa foi capaz de relacionar o pensamento de outros com a sua vida. Ler e perceber que não é assim tão fácil.     

 

E tu, Ana Vidal, o que tens andado a ler?

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O que ando a ler (17)

por Ana Margarida Craveiro, em 27.12.11

 

Nas últimas semanas, tenho andado a braços com um tijolo de 800 páginas. O autor é Steven Pinker, psicólogo social, que nos oferece este The Better Angels of Our Nature - The Decline of Violence in History and Its Causes. O subtítulo explica exactamente o conteúdo: a violência tem vindo a diminuir, ao longo do tempo, e o autor procura as causas desse declínio, recorrendo à história, sociologia, economia, psicologia e filosofia política.

Contrariamente às teses mais negras sobre a contemporaneidade, Pinker explica-nos, por estatísticas, gráficos e exemplos, que nunca vivemos tão em paz e tão tranquilos. O período posterior à Segunda Guerra Mundial caracteriza-se por uma longa paz, um período pacífico como nunca antes a espécie humana conheceu. E apresenta quatro grandes tendências que explicam esta paz: processo de pacificação, processo civilizacional, revolução humanitária e revolução dos direitos.

Os primeiros capítulos são uma descrição da nossa evolução: massacres, torturas, escravidão, guerras, enfim. A nossa história é um longo banho de sangue, que se verifica empiricamente nos esqueletos mutilados dos primeiros homens e simbolicamente nos relatos bíblicos. Só a Idade Moderna vem refrear os nossos ímpetos de chacina em massa, com o aparecimento do Estado, e o seu monopólio da violência. Pinker confirma que Hobbes tinha razão: sem o Leviathan, a vida era mesmo "nasty, brutish, and short". É o chamado Processo de Pacificação, que diminuiu as hipóteses de morrermos vítimas de homicídio ou guerra. Claro que passámos a morrer às mãos dos governantes, mas os números indicam que a vida passou a ser um bocadinho melhor.

O processo seguinte centra-se numa teoria de Norbert Elias, um daqueles autores prejudicados pelo timing inconveniente das suas conclusões. Judeu na Alemanha Nazi, Elias centrou a sua carreira na teoria do Processo Civilizacional, que nos explica como lentamente passámos a controlar melhor os nossos ímpetos, tendo como consequência uma descida, por exemplo, do número de homicídios e crimes violentos. Substituímos uma série de códigos morais relacionados com o indivíduo (duelos por honra, a vingança) por uma acção em sociedade, arbitrada pelo Estado. Ao mesmo tempo, fomos reforçando os laços societais, através do comércio, e isso também nos levou a dominarmo-nos em público. Esfaquear um sócio de negócios é capaz de não ser boa publicidade para o nosso próprio negócio.

O Iluminismo trouxe-nos a Revolução Humanitária, devidamente amplificada pelo fenómeno da imprensa. De repente, cortar pedaços aos prisioneiros e atirar mulheres amarradas para dentro de rios a ver se boiavam passou a ser cada vez mais mal visto. Livros como A Cabana do Pai Tomás foram fundamentais para desmontar mitos e ideias falsas sobre os negros, isto é, sobre a diferença. Os próprios animais beneficiaram desta revolução, com a queima lenta de gatos a deixar de ser um desporto das elites. A última grande tendência é a revolução dos direitos, incluindo mulheres, minorias étnicas e sexuais, crianças e animais.

Pinker oferece sempre números para esta difícil realidade. O nosso problema, parece, é de memória: lembramo-nos imediatamente de Hitler e de Estaline, mas esquecemos os milhões mortos pelos Mongóis, durante a Rebelião de Taiping, durante a conquista das Américas ou pela escravatura. Lembramo-nos do que está mais perto, e muito naturalmente damos mais importância. Na verdade, hoje ligamos a televisão e anunciam-nos que morreram dez afegãos ou dez iraquianos. Não há muito tempo, anunciavam-nos alguns milhares de vietnamitas. Antes disso, milhões de chineses. Passámos, inconscientemente, a dar mais valor a cada vida, e isso é bom. A espécie humana melhorou um bocadinho, mas nós temos dificuldade em aceitá-lo. Procuramos logo outros números que o desmintam: então e os Balcãs? E o Ruanda, ou o Sudão? Mas os gráficos do autor, recolhidos de várias fontes, demonstram que somos mesmo míopes: olhando para a "bigger picture", a tendência é mesmo de descida. 

Estou nas páginas finais deste livro, à descoberta dos tais "better angels" que explicam tudo isto. Mas uma coisa é certa: Kant tinha razão. A paz perpétua pode não ser perpétua, num certo sentido determinista, mas existe. Pelas instituições políticas e pelas instituições económicas, conseguimos uma sociedade um bocadinho mais cosmopolita, um bocadinho mais aberta. E, sobretudo, mais pacífica.

 

Posto isto, Ana Sofia Couto, que andas tu a ler?

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O que ando a ler (16)

por Ana Lima, em 26.12.11

A primeira vez que li um livro de Dulce Maria Cardoso, “Campo de Sangue”, o primeiro romance que publicou, tive uma estranha sensação. Senti que aquele livro poderia ter sido escrito por mim, ou melhor, mesmo que o tema fosse outro, aquele seria, pelo estilo, pela  construção das frases, o livro que eu escreveria se soubesse e pudesse escrever. Os outros livros que li da mesma autora não tiveram o mesmo impacto em mim mas deixaram-me a certeza que ela é uma escritora que nunca deixarei de acompanhar. Foi por isso que comprei este “O Retorno” mal ele foi publicado. Acabei de o ler na sexta-feira. 

 

Através de “O Retorno” regressamos ao ano de 1975 para acompanharmos o Rui, adolescente, desde os últimos dias em Luanda, quando se vê obrigado a deixar a sua casa, onde a mãe colocou, pela última vez, na mesa da cozinha uma toalha com dálias bordadas, até ao dia em que a sua família se muda para uma casa “com janelas coladas ao tecto”, já na metrópole, onde ele pensava existirem, com abundância, cerejas e raparigas bonitas. 

É um tempo de crescimento, de aprendizagem, um tempo em que, a viver num hotel de 5 estrelas, no Estoril, transformado pelo IARN em residência temporária de famílias sem habitação, Rui descobre o lado de cá de um império que tentava aprender, naqueles dias, a sobreviver reduzido ao seu espaço mais pequeno. Do seu quarto acanhado só a vista para um mar imenso lhe permitia sonhar com a América para onde levaria a sua mãe e a sua irmã. Não foi para a América. O seu corpo aprendeu a habituar-se à água fria deste mar, mas não se habituou ao lugar que as professoras lhe reservavam no fundo da sala por ser retornado. 

Nunca estive em África. Podia ter estado. Se os meus pais não tivessem optado pela migração interna, quando quiseram afastar-se da pobreza que os tolhia. De ambas as famílias foram os únicos. Todos os meus tios saíram de Portugal. Os mais velhos, primeiro, para o Brasil. Os outros depois para Moçambique. Estes últimos “vieram com o Rui”. Eu era demasiado pequena para compreender a revolta, a tristeza, a estranheza perante uma terra que alguns tinham deixado jurando que a ela só voltariam quando pudessem enfrentá-la com a certeza de que ela já não voltaria a rir-se deles; e que os mais novos só conheciam de fotografias. Mas não era assim tão pequena que não me tivesse ficado na memória aquele quarto de pensão em Setúbal onde as camas estavam a um palmo do fogão. Era ali que os meus primos mudavam as fraldas às bebés nascidas havia apenas alguns meses. E era ali, certamente, que eles recordavam a vida que deixaram para trás. Este livro fez-me compreendê-los melhor. 

Há dois retornos presentes nesta obra: a vinda para Portugal dos que residiam nestes territórios que passaram a constituir países independentes; e a tomada de consciência de que o sonho que se tinha ficou pelo caminho e que se está preso a uma realidade que se conhece mal mas que é preciso absorver para que se possa renascer para uma nova vida. Muitos dos que retornaram terão feito os dois. Outros terão ficado pelo retorno físico. A nenhuns a história do Rui será estranha. E nem aos que não viveram este retorno mas que sabem que a vida também se desenha em círculos e não apenas em linhas rectas.

 

E tu, Ana Margarida, queres falar-nos do livro que andas a ler?

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O que ando a ler (14)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 19.12.11

Quando a Teresa me reencaminhou o desafio de revelar o que ando a ler pensei imediatamente em mentir. Não por vergonha mas tão simplesmente porque a revelação não só desviará a atenção para a política como me afastará do meu género de eleição, que é a ficção.

Ponderei por isso em falar da Flannery, que me enche as medidas, ou da Agustina, que merece que se fale dela. Uma e outra poderiam dar bem conta do que me apaixona na leitura. Mas tenho a leve sensação de que a Flannery não gostaria que mentisse, ainda que a Agustina, aposto, se divertisse com a coisa. Para não deixar uma vencer sobre a outra, optei pela verdade. Se não ficam a conhecer os meus gostos literários, ficam com certeza a conhecer os meus gostos políticos (venham de lá as pedras).

O que estou a ler é isto:

 

 

Não é possível descrever esta obra sem falar de Thatcher, a líder política que mais inspira, talvez porque se tenha inspirado, como eu, nas ideias de Hayek. E falar de Thatcher afasta-me um pouco dos meus propósitos neste blogue e, parece-me, da intenção desta série de posts. Sobretudo porque, apesar da recente reabilitação dos seus discursos e ideias, gostar de Thatcher ainda requer muitas explicações e gera alguma controvérsia. Ela não beneficiou nunca de uma complacência que se tem por quem vem de outros quadrantes políticos em que a bondade e a sensibilidade social são pressupostas e não têm de ser demonstradas. Mas isso é toda uma outra discussão que fica para outros plenários. Para quem a quiser conhecer melhor, antecipando o filme que aí vem, é uma boa proposta de leitura.

 

E tu, Ana Cláudia, o que andas a ler?

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O que ando a ler (13)

por Teresa Ribeiro, em 12.12.11

 

O que ando a ler? Bem, para não fugir à verdade tenho de responder que ando agora a ler um misógino nojento, que chegou ao cúmulo de esfaquear em público uma das suas seis mulheres. Pior que ele só mesmo o Barba Azul. Machista assumido, insuportável fanfarrão, Norman Mailer, o escritor que tenho agora à cabeceira, podia ter um péssimo carácter, mas escrevia como poucos. Dele já tinha lido O Sonho Americano (1965) e Os Duros Não Dançam (1984). Gostei dos dois romances. Da crueza do estilo, da atenção aos detalhes quando se trata de descrever a natureza humana, em que ele obviamente não acredita. Já lhe chamaram, num tom tão ácido e cínico que só poderia ser inspirado no seu, "metafísico das entranhas". Ignorem o "metafísico", que foi acrescentado às "entranhas" por blague, quanto ao resto não há exagero. Mailer vai ao fundo, mas como faz o culto exacerbado do macho man style e gosta de se identificar com os estereotipos, esforça-se também por ser bruto a escrever. Usa vocábulos duros, calão, vernáculo. Descreve as suas personagens masculinas com termos apropriados para um "gajo", tanto para o que descreve como para o que é descrito (queixo forte, mãos firmes, mandíbula longa, expressão de desprezo) e de sexo fala assumindo o mais despudorado sexismo. Mais um pouco e esse estilo tornar-se-ia caricatural. Mas estamos a falar de uma bomba que tem tanto de adrenalina como de talento, por isso o instinto preservou-o de derivas de mau gosto.

Ler Mailer é uma experiência forte. Envolve-me e ao mesmo tempo alimenta o meu voyeurismo feminino, ajudando-me a ver o mundo pelas lentes embaciadas da testosterona. Se gostei daqueles dois romances seria imperioso mais tarde ou mais cedo ler a sua masterpiece, Os Nus e os Mortos. Chegaram a compará-lo à Guerra e Paz, quando em 1948 foi editado nos Estados Unidos. Foi a estreia literária de Mailer, tinha então apenas 25 anos. Não admira que se tenha tornado no ser insuportável que o mundo conheceu. O sucesso precoce e instantâneo, como se sabe, faz mal à saúde.

Ainda nem cheguei a meio deste romance de 700 páginas mas já estou em condições de dizer que é, sem dúvida, um dos mais bem escritos e apaixonantes que já ali. Baseado na experiência de guerra do autor, que se alistou durante a Segunda Guerra Mundial e serviu nas Filipinas e no Japão, descreve as provações por que passa um grupo de soldados norte-americanos durante a invasão de uma ilha do Pacífico Sul ocupada pelos japoneses.

Narrada num estilo muito cinematográfico, esta obra, que não por acaso veio a ser adaptada para o cinema dez anos depois, descreve o horror da guerra à escala humana: "Red estava a pensar mais uma vez nos cadáveres da clareira. Sentia uma estranha fascinação ao lembrar-se da sua aparência. Uma vaga de medo penetrou no torvelinho do seu cérebro e olhou por cima do ombro, para trás de si"; "As vozes e os comandos ecoavam no vazio, perdiam-se num coro de obscenidades e roucos murmúrios, os sons esforçados e suados de homens que labutam. Ao fim duma hora nada mais existia para eles senão o pequeno canhão que tinham de puxar ao longo do trilho".

Em Os Nus e os Mortos todos os personagens têm uma biografia através da qual percebemos de que mescla de americanos são feitos os EUA, mas sendo todos homens, apesar das suas diferenças partilham com raras excepções a doença do autor, o homem que dizia que "uma mulher só se conhece verdadeiramente em tribunal": "Há só dois ingredientes para fazer uma boa festa: bebida suficiente e algumas fêmeas condescendentes" (Conn); "Eu não vou lá muito com mulheres. O que elas querem é apanhar-te, tenho visto exemplos que cheguem" (Red), "Não há uma única mulher que mereça confiança" (Brown) "Estou bem contente de não ter de me preocupar acerca de uma dessas cadelas me fazer cornudo" (Polack), "A verdade é, Robert, que a minha mulher é uma cadela" (Cummings). And so on...

Enfim, é por estas e por outras que se diz que todo o romance é autobiográfico.

 

Norman Mailer, Os Nus e os Mortos. Tradução de António Neves-Pedro. Portugália Editora (1957). 705 páginas.

 

E tu, Adolfo, o que andas a ler?

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António José Faria de Barros foi o meu primeiro chefe. Transmontano, sisudo, teimoso, frio, áspero. Ou… nada disso. Antes de mais, um ser humano marcado pela vida. A mulher morreu prematuramente. Os dois filhos, deficientes profundos, sobreviveram um par de anos à mãe. Ao longo dos cinco anos em que trabalhámos juntos, os seus olhos só se iluminavam quando, depois de um dia de trabalho duro, contava algumas histórias de caça. Foi assim, pelos relatos de interposta pessoa, que conheci Adolfo Rocha. Eram amigos de longa data e caçavam juntos. As peripécias eram saborosas e bem contadas. Por vezes, imaginava-me com eles a comer achigãs na Foz do Sabor. Ou a caminhar ao seu lado, com os pés enterrados nas lamas transmontanas de Novembro. Um dia, disse-me: sabe, a minha mulher detestava o Torga… Mantive-me em silêncio, dando-lhe tempo para esconder o rosto atrás do monitor, enquanto uma lágrima de saudade lhe desfigurava a máscara gelada com que sempre se apresentava ao mundo. Pelo visto, em determinada altura, Torga teria tido um comentário mais frio sobre os filhos deficientes do casal: não podem viver só para eles. Nada de ofensivo ou brutal. Algo até muito natural para os ouvidos de qualquer outro interlocutor. Um punhal para o coração daquela mãe. E o Senhor Dr. como reagiu, perguntei-lhe. Sabe, eu li a Criação do Mundo, pisei com ele as pedras dos caminhos de São Martinho de Anta, estive com ele no sítio onde ele tratava do estrume enquanto os outros miúdos brincavam… por isso, percebo. Da obra de Torga, até então, tinha apenas suportado Os Bichos no ensino secundário. Por obrigação e com muito pouco entusiasmo e menos proveito. O tempo foi passando, mas aquela frase ficou: eu li a Criação do Mundo. A curiosidade foi crescendo e acabei por comprar o livro. Comecei a ler sem grande esperança ou entusiasmo. A memória do Corvo Vicente ainda estava demasiado presente… Depois, o assombro foi crescendo. Em termos estruturais, o livro divide-se em 6 partes, correspondendo cada uma delas a uma fase da vida de Torga. As duas primeiras (a infância em Trás-os-Montes e a adolescência e parte da juventude no Brasil) são relatadas em páginas que me marcaram como poucos livros o fizeram. É claro que, mais para a frente, perdi a magia. Digo que a perdi eu e não o livro porque é provável que seja assim. Se bem me lembro, desliguei-me do texto a partir do momento em que Torga descreve uma viagem em automóvel, por paragens de Espanha, e cai no auto-elogio. Agora, estou a relê-lo. É uma forma de recordar António José Faria de Barros e de agradecer tantos ensinamentos que não soube retribuir-lhe, sequer em palavras, em vida. De dizer-lhe que também eu percebo tudo, todos e nada ou nenhum deles. E, sobretudo, de tentar refazer a leitura a partir do episódio de Espanha. Se tiver a sorte de reaver a magia, direi que a Criação do Mundo é, no seu todo, um livro inesquecível.

 

Como deve ser, o melhor fica para o fim: em breve, a Teresa Ribeiro vai dar continuidade à série.

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"UM PERÍODO QUASE IDÍLICO" DE PAZ E PROSPERIDADE

 

A frase que mais contribuiu para imortalizar John Fitzgerald Kennedy no decurso dos mil dias do seu mandato na Casa Branca não foi pronunciada em inglês, mas em alemão. Ao declarar-se cidadão de Berlim no local mais emblemático da Guerra Fria, por onde passava a última fronteira do mundo livre, o 35º presidente dos Estados Unidos atingia um patamar inédito de popularidade. Ninguém imaginava, nesse dia 26 de Junho de 1963, que o seu mandato terminaria menos de cinco meses depois, ao fim de uma manhã de sol outonal em Dallas.

Muita gente ignora que essa frase não constava da versão original do seu discurso. Foi o próprio Kennedy que decidiu pronunciá-la enquanto a viatura que o conduzia nas avenidas de Berlim era saudada por multidões entusiásticas vitoriando o seu nome. Fora-lhe sugerida pelo principal conselheiro do presidente -- o seu irmão Robert Kennedy, na altura procurador-geral dos EUA.

"Há dois mil anos a afirmação mais orgulhosa era Civis Romanus suma. Hoje, no mundo da liberdade, a afirmação mais orgulhosa é Ich bin ein Berliner", declarou o líder norte-americano nas imediações do Muro da Vergonha erigido apenas dois anos antes pelos soviéticos na cidade dividida.

A génese desta frase ilustra bem a forma de trabalhar de Kennedy, um homem que gostava de funcionar em equipa e absorvia com rara intuição as melhores sugestões da sua competentíssima equipa de conselheiros. Três deles, curiosamente, oriundos das fileiras do Partido Republicano -- o secretário da Defesa, Robert McNamara, o secretário do Tesouro, C. Douglas Dillon, e o conselheiro da Segurança Nacional, McGeorge Bundy. O facto de serem simpatizantes do partido rival -- e um deles, Dillon, ter chegado a integrar a anterior administração Eisenhower e a contribuir com 26 mil dólares para a campanha presidencial de Richard Nixon -- não os impediu de atingir o primeiro plano no Executivo democrata, prova evidente do rasgo político de Kennedy. Ao ser convidado para liderar o Pentágono, McNamara reagiu com surpresa, dizendo que não tinha experiência governativa. "Também não há escola para presidentes. Aprenderemos juntos", respondeu-lhe o inquilino da Casa Branca.

 

A Liderança segundo John F. Kennedy, um livro do jornalista e colunista John A. Barnes, conduz-nos aos bastidores da vida política do mais popular presidente dos EUA no século XX que atingiu uma extraordinária taxa de aprovação -- 83% -- e à data da sua morte, segundo a Gallup, era aplaudido por 70% dos americanos.

Oriundo de uma família milionária de Boston, herói da II Guerra Mundial, congressista e depois senador pelo Massachusetts, galardoado com o Prémio Pulitzer pelo seu livro Retratos de Coragem (com uma tardia mas notável tradução portuguesa a cargo do nosso José Gomes André) e o mais jovem presidente eleito desde sempre pelo Partido Democrata, em Novembro de 1960, Kennedy tinha uma sólida cultura e um dos mais fascinantes percursos biográficos de que há memória entre os inquilinos da Casa Branca. Filho do embaixador americano em Londres, Joseph Patrick Kennedy, tinha 22 anos quando assistiu à declaração de guerra britânica à Alemanha, na manhã de 3 de Setembro de 1939, na galeria dos visitantes da Câmara dos Comuns. Um episódio que nunca mais esqueceu.

Barnes deixa bem claro nesta obra, imprescindível para todos quantos se interessam pelo processo de formação das decisões políticas: Kennedy foi um precursor em vários domínios. Estava 20 anos à frente da maioria dos políticos do seu tempo. Foi ele que pela primeira vez compreendeu a importância da televisão -- ao ponto de se ter inscrito em 1959 num curso da CBS destinado a dominar as técnicas televisivas. Foi também o primeiro presidente a conceder conferências de imprensa regulares na Casa Branca e a responder em directo aos repórteres da TV. Deu um toque majestático à presidência com os banquetes de Estado aos visitantes, inspirado na recepção de que foi alvo no Palácio de Buckingham em Junho de 1961. Baptizou o avião presidencial -- um Boeing 707 -- com o nome Air Force One, "para que descesse dos céus como símbolo do próprio poder presidencial". Transformou os assessores da Casa Branca em decisores políticos, instituindo o cargo de conselheiro da Segurança Nacional, mais importante do que muitos postos no Governo.

Onde outros viam problemas, ele via oportunidades. "Ele adorava ser presidente", lembrou o historiador Arthur Schlesinger, que também integrou  a administração Kennedy, como biógrafo oficial, apontando desta forma um dos ingredientes do sucesso deste mandato.

 

Ficaram para a história muitas frases que Kennedy proferiu nos seus discursos. Eis algumas: "Não perguntem ao vosso país o que poderá fazer por vós, perguntem a vós próprios o que podereis fazer pelo vosso país"; "Se uma sociedade livre não consegue ajudar os seus inúmeros pobres não conseguirá salvar os seus raros ricos"; "Nunca negociemos por medo -- mas nunca tenhamos medo de negociar"; "A vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã"; "Decidimos ir à Lua nesta década não porque seja fácil mas porque é difícil"; "A corrida ao armamento deve ser extinta antes que nos extinga a nós"; "Apoiamos qualquer amigo e enfrentamos qualquer inimigo para assegurar a sobrevivência e o êxito da liberdade"; "Não procuremos a resposta republicana ou a resposta democrata, mas a resposta certa".

Hoje olhamos para a presidência Kennedy e parece-nos, como acentua Barnes, "um período quase idílico" de paz e prosperidade. É sempre assim: só a passagem do tempo presta verdadeira justiça aos políticos, separando os estadistas dos restantes. Kennedy foi um estadista: já ninguém duvida disso.

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Nota final: não falta quem se queixe dos preços dos livros. Depende. Comprei este há poucas semanas, na Livraria Barata -- uma das mais prestigiadas de Lisboa. Estava num recanto destinado a títulos considerados "fundo de armazém". Custou-me apenas quatro euros. É fundamental saber procurar.

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John A. Barnes, A Liderança segundo John F. Kennedy. Tradução de Paulo Tiago Bento. Casa das Letras (2008). 278 páginas.

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E agora passo a bola -- ou melhor, passo o livro -- ao Rui Rocha.

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O que ando a ler (10)

por Patrícia Reis, em 02.12.11

 

Tatiana Salem Levy é uma jovem autora brasileira, nasceu em 1979. Li o primeiro romance - A chave de casa - e agora estou a terminar este: Dois Rios. É uma leitura sincopada, como uma música quase repetitiva (no melhor dos sentidos), com um ritmo muito bom e extremamente bem escrita. Relata o encontro de Joana com Marie-Ange, uma brasileira a viver com a mãe, uma francesa de visita ao Rio de Janeiro. Uma das raridades da literatura, diria, é conseguir encontrar uma voz que se possa distinguir das demais. Tatiana Salem Levy consegue isso com uma escrita singular, envolvendo-nos numa história de amor, de culpa, de alguma loucura, de segredos, encontros e desencontros. O livro não está ainda editado em Portugal, a edição brasileira é da responsabilidade da Record. Deixo-vos o video para que possam ouvir e ver a autora.

 

O segundo livro que estou a ler (sou incapaz de ler apenas um livro, desculpem lá) é a biografia de Lúcio Feteira escrita pelo jornalista da Visão Miguel Carvalho. O Miguel é meu amigo, logo seria injusto não ser honesta convosco: gosto muito dele, gosto muito do que escreve e sigo o blog dele todos os dias (A Devida Comédia) que aconselho vivamente. A história deste livro é a história da vida de um homem sobre quem temos ouvido falar a propósito de uma herança, de uma morte, de suspeitas e outras coisas. O que me importa a mim este livro, além de ter sido escrito por um amigo? O que me importa é este gosto especial que tenho pelas biografias, aprendemos muito a ler sobre a vida dos outros. A última biografia que li e recomendo, antes desta, foi a de Clarice Lispector por Benjamin Moser, um trabalho notável. Aqui, no caso de Lúcio Feteira, vamos percorrendo a história e a vida de um homem a quem chamaram louco, génio, visionário. Miguel Carvalho levanta várias questões e a forma como escreve e nos relata quem foi Lúcio Feteira é fruto de uma pesquisa e investigação séria e, claramente, exaustiva. Ainda não terminei, mas estou a gostar. 

 

 

Passo a palavra ao Pedro Correia! Boas leituras.

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Estou a ler a biografia de Estaline de Jean-Jacques Marie (9)

por Luís Menezes Leitão, em 02.12.11

 

Gosto de ler biografias de personagens históricas. A História que aprendi no Liceu baseava-se na escola dos Annales,  consistente apenas no estudo da evolução económica, deixando completamente de fora as pessoas, e portanto a vida. As biografias permitem suprir essa lacuna, transmitindo-nos a vida das pessoas que modificaram a história do mundo.

 

Kissinger disse que a capacidade de Estaline nas relações internacionais justificava que ele fosse qualificado como o Cardeal Richelieu do séc. XX. O livro não transmite essa impressão. Revela-nos um homem fraco, desconfiado, e muito preocupado com a sua imagem. Era extraordinariamente baixo, ao contrário do que as fotografias sistematicamente sugerem. Mas era um homem absolutamente implacável, até nas relações familiares. A sua mulher suicidou-se, o que ele considerou como um ataque pessoal. O seu filho foi soldado no exército russo, tendo sido capturado pelos alemães. Quando estes lhe propuseram trocá-lo pelo Marechal Von Paulus, preso em Estalinegrado, Estaline respondeu que nunca trocaria um marechal por um simples soldado.

 

O período mais interessante do livro é o da II Guerra Mundial. Revela os inúmeros erros que foram cometidos por Estaline nesse período, que quase levaram a União Soviética a perder a guerra. Mas revela também que foi a sua implacável determinação, que chegava ao ponto de eliminar os subordinados que lhe desobedeciam, que no fim permitiu a vitória. Repare-se neste diálogo a pp. 513 entre Estaline e as suas tropas:

"Em meados de Outubro, o comissário político Stepanov, do Estado-Maior da Frente Oeste estacionada em Perkhuchovo, nos arredores de Moscovo, telefona ao GQG. Informa Estaline que o Estado-Maior propõe instalar-se mais a leste, em Arzamas, e o posto do comando mais perto da capital. Depois de um longo silêncio, Estaline declara: <<Camarada Stepanov, pergunte aos camaradas se têm pás.>> Stepanov não compreende. Estaline repete: <<Será que os camaradas têm aí pás?>>. Stepanov interroga os membros do Estado-Maior, depois inquire: <<Pás de sapador ou pás normais? - Tanto faz>>, responde Estaline. Stepanov, todo contente, informa-o de que dispõem de pás e pergunta-lhe o que é que deverão fazer com elas. A resposta de Estaline cai como um cutelo: <<Aconselhe os seus camaradas a pegarem nas pás e escavarem os seus próprios túmulos. Não abandonaremos Moscovo, o GQG ficará em Moscovo, e quanto a eles, não abandonarão Perkhuchovo>>".  

 

E agora chegou a vez de outro membro deste blogue: que livro andará Patrícia Reis a ler?

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Estava, digo bem, porque perdi o maldito livro hoje mesmo.

 

Ao sair para tomar café e levantar dinheiro no multibanco e visitar uma loja de electrodomésticos onde há umas merdas a bom preço (sou um Scrooge no que toca a electrodomésticos e detergentes, ao contrário da minha mulher-a-dias que é a raínha de Sabá, a Ivana Trump dos limpa-vidros) de repente olhei para as mãos — e tungas, estavam vazias. Regresso à loja de electrodomésticos, ao multibanco e ao café, entrei por desfastio numa frutaria, numa loja de candeeiros e no Celeiro, quase comprei uma barra energética com sementes de sésamo e alfafa, e telefonei para a minha namorada a choramingar. Ela é uma santa, mas mais gira, disse-me deixa lá querido, oh que azar, coitadinho, não penses nisso.

 

E eu pensei: Está bem, abelha.

 

Mal entrei em casa encomendei outro. Para poupar portes de envio mandei vir também este, este, este e este. Como precisava de um miminho, e ainda ontem fiz anos, julguei que não era mal nenhum acrescentar este. E já agora este. Ou seja, fiz um excelente negócio em portes e dei um bom uso aos meus euros, que agora estão a salvo em Inglaterra. 

 

O livro é muito bom — sei disso porque já ia na página 23. Tem a palavra o Luis Menezes Leitão

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Estou a ler "Meine russischen Nachbarn" (7)

por Leonor Barros, em 28.11.11

O penúltimo dia de Agosto brindou-me com chuva. Pela janela um dia cinzento. A cidade meio pálida e precocemente escura. Largo as malas e faço o que mais gosto: passear, ver, deambular com a ligeireza de quem nada tem para fazer se não deixar-se ir por entre a multidão e sentir, respirar, ver.

Subo a rua. O passo mais rápido pela chuva insistente na cidade que me surpreende sempre e nunca se esgota em cada visita. E entro na livraria. Resisto a quase tudo menos a uma livraria recheada de títulos novos, livros baratos e o ambiente de uma religiosidade veneranda de silêncios pontilhados de virar de páginas virgens à espera de serem lidas. Um livro. Falta-me sempre um livro. Os olhos recaem sobre o mais recente livro, à data, de Wladimir Kaminer, Meine russischen Nachbarn, e é esse que há acompanhar-me nos dias de Berlim, dias de sol e de chuva, dias de muito ver e de digerir história e gente a cada esquina. Não o acabarei, contudo. A cidade absorve-me.

Meine russichen Nachbarn, os meus vizinhos russos, conta a história de dois russos, Andrej e Sergej que convenientemente ocupam o andar por cima do de Wladimir Kaminer, lá na Schönhauser Allee, algures em Prenzlauer Berg, uma zona emergente de Berlim a viver os seus melhores dias depois da Queda do Muro em Novembro de 1989. Andrej e Sergej encetam uma nova vida nesta nova Europa que se quer livre e democrática derrubados os muros físicos que a cortavam em duas, os de lá e os de cá, Ossis e Wessis. Rondando os trinta anos, Andrej de Leningrado, hoje São Petersburgo, e Sergej da Bielorússia provocam uma pequena revolução na vida aparentemente pacata dos habitantes do prédio de Schönhauser Alle. A porteira não gosta, os vizinhos reclamam do trompete logo pela manhã. Andrej luta com a língua alemã e apaixona-se pela professora enquanto Sergej assina exemplares d'O Capital de Karl Marx que venderá no e-bay como relíquias do grande filósofo e ideólogo. As aventuras sucedem-se.

E ambos teriam tido uma vida anónima e tranquila, caso tivessem escolhido um outro local para viver. É que Kaminer é um observador atento da realidade, um crítico mordaz das várias vidas que já teve e escritor implacável a quem as aventuras acontecem sempre e de forma renovada. Não poderia desperdiçar esta oportunidade e fixa-os a uma narrativa de leitura muito fácil sem artifícios ou malabarismos estilísticos e despojadamente cativante. Na vida destes dois russos vemos desfilar a União Soviética a que Kaminer disse adeus em 1990 para abraçar Berlim como sua nova pátria, as cidades também são pátria. E as histórias entrelaçam-se. E os tempos. Há a União Soviética com as suas características peculiares, os russos que não riem e Kaminer explica porquê, os moscovitas, reconhecidamente rudes nos modos e a Rússia actual de novos-ricos. E há a Alemanha e Berlim, a vida na cidade, ressentimentos e singularidades. Muito portanto num pequeno livro de 222 páginas em tom humorístico e divertido.

A leitura implica um tu com que se possam trocar impressões, um interlocutor que se possa rir connosco ou opor-se ao que bebemos nos livros, um duelo de palavras e ideias. Para minha grande pena só dois livros de Kaminer estão traduzidos em Português O panorama literário alemão virou uma página acompanhando os ventos de mudança na Alemanha e na Europa. Wladimir Kaminer é um dos mais lidos escritores de língua alemã, por cá quase um desconhecido. Para quando mais um Kaminer em português, senhores editores? Até lá deixo-vos com uma pequena amostra: "Um professor esforça-se por explicar a um pioneiro o que é o comunismo numa linguagem acessível. 'O comunismo é', diz ele, 'quando tens de comer morangos com natas todos os dias ao pequeno-almoço'. ‘Mas eu não gosto de morangos com natas’ responde o pioneiro. 'Não interessa', esclarece o professor, 'vais comê-los na mesma, quer gostes quer não'."

 


É isto que acabei de ler, Laura. Passo o testemunho ao Luis M. Jorge. O que estás a ler, Luís?  

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Estou a ler "A Confraria do Vinho" (6)

por Laura Ramos, em 22.11.11

‘La lumière ne se fait que sur les tombes’, dizia Leo Ferré. Esta verdade irritava-me e citei a frase muitas vezes para me insurgir contra a ideia de predestinação dos grandes artistas à injustiça do anonimato e à implacabilidade da dura sobrevivência. Não tinha de ser assim, uma sociedade culta devia saber reconhecê-los em vida e obrigar-se a dar a cada dom sublime o seu merecido mecenas. Avec le temps, aprendi com Ferré que, de facto, para esses poucos a vida é quase sempre um gosto e seis vinténs. Mas nem por isso deixei de sentir uma emoção acrescida perante um talento que se tenha encarniçado contra as marés da sorte e sobrevivido à indiferença dos seus contemporâneos.

John Fante foi isso mesmo: um escritor americano filho de italianos pobres imigrados no Colorado, cujo pai assentava tijolos com brios de escultor e vivia entregue à bebedeira constante, às permanentes infidelidades à mulher e ao quase desprezo pelos filhos, numa espiral autoritária e primitiva que marcou o escritor para sempre.

A Confraria do Vinho é assumidamente autobiográfico e um dos últimos livros publicados por este ‘Hemingway italo-americano’, como lhe chamaram, girando em torno dos derradeiros dias do pai, quando o escritor, já casado e a viver em Malibu, regressa penosamente à casa da família perto de Sacramento e à vida entre os paisani, dominados pela idolatria às vinhas de Musso, afogados em chianti (o leite das suas segundas infâncias), eternos malandros deambulando pelas tascas à espera de se atirarem a qualquer rabo de saias.

O livro tem momentos de humor inesquecíveis, perpassados de uma sensibilidade extrema, ainda que esta se revele - nas palavras do narrador, Henry Molise – através de uma escrita que, sendo vigorosa e directa, varia entre os timbres opostos da crueza distante e do afecto profundo, à medida que se embrenha pelas descrições da vida em San Elmo, a terra onde nasce e de onde parte o mais cedo que pode, absolutamente determinado a entregar-se à paixão da escrita (uma obsessão que o consome depois de conhecer autores como Dostoyevsky, Steinbeck, Jack London, Fitzgerald, Wolfe e Chandler).

Fante até isso revive: os tempos em que, entregue a si próprio, longe do gueto italiano, é mais um homeless que desce ao fundo dos horrores da privação. Procura trabalho desesperadamente, não tem dinheiro e chega a dormir debaixo das pontes como um clochard. E quando consegue a estabilidade mínima (um quarto, uma cama, uma máquina de escrever) começa a produzir contos e histórias soltas para vários jornais e revistas, como o Evening Post, a Harper’s e a Esquire, mas é a debilidade económica que o leva a tomar em definitivo o ofício de argumentista de Hollywood, actividade pelo que ficará sobretudo conhecido. Com uma produção muito irregular, e apesar de publicar obras de grande envergadura, John Fante jamais conseguirá o estatuto de verdadeiro escritor. Será só em 1980, três anos antes da sua morte, que o poeta Buchovsky consegue, num ultimatum à sua editora, que a principal obra do escritor (Ask the Dust) seja reeditada, provocando um revivalismo da produção de Fante que o devolve à sua justa dimensão, mais de 40 anos depois da sua primeira publicação.

 

FANTE, John
'A Confraria do Vinho'                          

(The brotherhood of the grape)  
tradução de Luís Ruivo
editorial Teorema, 2007

colecção "outras estórias"

capa: Fernando Mateus

isbn 978-972-695-723-2


Passo agora a palavra à Leonor: - O que estás a ler quando não escreves?

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Estou a ler... alcoviteirices (5)

por João Carvalho, em 18.11.11

 

Se fosse há ainda não muito tempo, teria de dizer-vos que estava a ler o "Manual de Acolhimento do Centro Hospitalar de Gaia", vejam só. Afastada esta que mais parece uma nota de humor negro, tenho de confessar que estou a ler (imaginem) Amantes dos Reis de Portugal, um livro de segredinhos e mexericos históricos de alcova que tive de interromper há já vários meses e em que repeguei agora.

Não, não posso cair na tentação alcoviteira de agitar camas e reposteiros, sedas e damascos, linhos e estopas; tão-pouco devo deixar que se escapem alfazemas e suores ou outros aromas e odores. Não posso, porque seria injusto. O trabalho de quase 400 páginas é sério na pesquisa profunda e no modo fundamentado como expõe as histórias da História que são propostas: «o "estatuto" das amantes dos Reis de Portugal», entre «o proibido e o legitimado».

 

Dir-se-ia que um tema destes só poderia ser escrito por mulheres, certo? Deixo isso aqui à vossa consideração. Ora vejam só: uma Professora Auxiliar do Departamento de História, uma licenciada em História e Mestre em História Moderna e uma doutorada, as três da (ou pela) Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, co-autoras deste livro.

Com elas, percorremos a Dinastia Afonsina, recuada ao nascimento do Reino e à relação de D. Henrique e D. Teresa, a Dinastia de Avis, que arranca com um bastardo feito rei, a Dinastia Filipina, em que só o do meio é fiel à sua rainha, e a Dinastia de Bragança, o longo período de um regime que caminha para uma agonia cheia de pecados que ainda hoje desafiam os nossos sentidos.

 

Narrativas que devassam a vida na Corte em séculos de Monarquia, através de passos disfarçados e de olhares fugidios, carregados de culpa? Intromissão concupiscente e lânguida em camarins e docéis, antecâmaras e quartos, corredores escuros e lugares esconsos da Casa Real? Nada disso: «este não é um livro de história frívola, anedótica e muito menos voluptuosa que pretenda estudar um tema tão apelativo, mas nem por isso menos complexo», conforme garantem as autoras.

Nos matrimónios de Estado e na sucessão dinástica, não raro «os afectos secundarizavam-se face às estratégias políticas régias». Procriar, assegurar o nascimento de um varão e ultrapassar as eventuais frustrações dos soberanos (das rainhas, em especial) nesse capítulo essencial justificavam um padrão comportamental que colocava a política em primeiro lugar (ou nela se escudava para cobrir ilicitudes), em amplos períodos da História de antanho. Já noutros períodos mais chegados, com princípios morais menos elásticos e políticas mais adaptadas à realidade para que a continuidade da nação não fosse posta em perigo, passaram a considerar-se bem menos recomendáveis os devaneios incontidos do poder.

 

«Por detrás da história oficial dos reis portugueses e dos seus casamentos de Estado com princesas de toda a Europa, esconde-se uma história de paixões arrebatadoras, filhos ilegítimos e amores ilícitos que nunca foi contada.

Damas da rainha, prostitutas, barregãs, negras, escravas, cantoras líricas, atrizes, mulheres do povo ou senhoras da alta burguesia, todas competiam pela atenção e pelos favores do rei.»

Escrito por historiadoras, tem o mérito de integrar a historiografia portuguesa sem discussões, numa abordagem inesperada e inédita. E nem sequer perde tempo a decidir se voluptuosidade se escreve com p ou sem p, ou se capela-mor é com hífen ou sem hífen, porque a escrita, essa, passa ao lado do "novo acordo ortográfico" sem pestanejar.

 

É a tua vez, Laura. Conta-nos lá o que andas a ler.

 

Amantes dos Reis de Portugal

Paula Lourenço (coord.), Ana Cristina Pereira e Joana Troni

Edição: A Esfera dos Livros

1.ª ed.: Novembro/2008

2.ª ed.: Dezembro/2008

3.ª ed.: Dezembro/2008

Imagem da capa: Geoffrey Clements – Corbis

ISBN 978-989-626-136-8

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Estou a ler hei-de dizer-vos o quê

por João Carvalho, em 15.11.11

Recebo com gosto a chamada que o nosso João Campos me lança aqui por baixo, deixando por minha conta o quinto post desta série sobre as nossas leituras. Venho apenas dar uma satisfação, uma vez que a bola fica do meu lado.

Acontece que deixo amanhã o meu Porto-natal e regresso finalmente à minha morada açoriana dos últimos anos. A ligação aérea que vou fazer irá ocupar-me uma boa parte do dia, até à noitinha. Além disso, depois de amanhã estarei de volta às funções que interrompi em Fevereiro passado.

Visto isto — e assegurada que está a continuidade desta série — o mais provável é que só lá para o fim-de-semana consiga alinhavar um texto à altura da responsabilidade. Mesmo assim, não hão-de perder pela demora, se pensavam que iam livrar-se de mim tão facilmente.

O prometido é devido, como diz um conhecido conterrâneo meu.

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Enfim, deixem-me agora dar continuidade à jogada que o passe de belo efeito e mestria técnica do José (o meu futebolês anda cada vez melhor) proporciona. E continuo com a confissão de uma falha: não estou a ler este livro. Na verdade, já o li há alguns dias, mas como a alternativa seria, uma vez mais, escrever sobre um livro de ficção científica, opto antes por a banda desenhada. Melhor ainda: para a banda desenhada em Português de Portugal (o bom e velho). Falo do álbum As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II - Apocalipse, escrito por Filipe Melo, desenhado pelo argentino Juan Cavia e colorido pelo também argentino Santiago Villa. É a sequela a um álbum lançado em 2010 que conheceu um enorme sucesso (actualmente está esgotado): As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy. Em jeito de paródia à pulp fiction, ao cinema de terror, aos filmes de "série B" (e não só) e à cultura pop, a narrativa acompanha Eurico, um distribuidor de pizzas (no segundo volume trabalha num call center), João Vicente "Dog" Mendonça, detective do oculto, Pazuul, um demónio com seis milénios no corpo de uma miúda de seis anos, e a cabeça de uma gárgula - um grupo no mínimo estranho que, sem querer, vai salvar o mundo (três vezes em dois álbuns) na cidade de Lisboa. 

 

Invulgar? Sem dúvida. Junte-se a este improvável grupo de (anti)heróis as ilustrações soberbas de Cavia e Villa (basta ver a imagem da Ponte 25 de Abril sob o céu vermelho do Apocalipse - em baixo - ou as Torres das Amoreiras rodeadas por uma praga bíblica de gafanhotos) e a história atribulada, satírica e extremamente divertida de Filipe Melo para se chegar à conclusão de que esta obra é, de facto, única na BD portuguesa. E não só: a popularidade de Dog Mendonça e Pizzaboy já saiu do rectângulo, e os autores foram convidados a publicar alguns capítulos especials pela Dark Horse - a maior editora independente de banda desenhada norte-americana, com títulos consagrados como Sin City de Frank Miller. 

 

Já agora: o primeiro álbum contou com um prefácio de John Landis, realizador consagrado responsável, entre outras coisas, pelo filme de culto An American Werewolf in London e pelo mais famoso videoclip de todos os tempos: Thriller, de Michael Jackson. O segundo álbum, por seu lado, conta com prefácio de George Romero, que desde o clássico Night of the Living Dead dispensa quaisquer apresentações. 

 

Em resumo: para quem gosta de BD, é leitura mais do que recomendada. 

 

E a série continua com o João Carvalho.

 

 

 

As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II - Apocalipse

Argumento: Filipe Melo

Ilustração: Juan Cavia

Cor: Santiago Villa

Tinta da China, 2011

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Estou a ler "China: its History and Culture" (3)

por José Maria Gui Pimentel, em 14.11.11

 

Qualquer jogador de futebol sabe que não se deve desaproveitar uma bola passada sem querer, e por isso aproveito o esférico que o jaa me enviou, tabelando no José Gomes André.

 

Foi há pouco – muito pouco – tempo que assimilei por completo um facto de que me vinha apercebendo lentamente nos últimos anos, designadamente a dimensão da Civilização Chinesa, e o facto de esta ter sido, até aos Descobrimentos, não só garantidamente rival como, muito possivelmente, mesmo superior àquilo a que simplisticamente chamarei Civilização Ocidental. Por um lado – decerto – por culpa própria, por outro também devido a um sistema de ensino enviesado, o meu olhar perante a História foi sempre eurocêntrico (bem sei que este termo já é usado para outro fim). O Livro “China: its History and Culture”, de W. Scott Morton e Charlton M. Lewis (este último creditado apenas na 4ª edição, visto que escreveu essencialmente a parte de História contemporânea) é uma concisa e eficaz introdução à enorme História da China. Uma História que, embora não deixe de ser fragmentada, é bastante mais unida do que a nossa, em virtude de factores muito específicos: China throughout its history has been comparatively isolated owing to geographical barriers. The vast Pacific Ocean on the east, the impassable gorges of the Burma border and the inhospitable plateau of Tibet to the south and west, and the arid and sparsely populated lands of Central Asia and Mongolia to the northwest and north have caused China to have less than average contact with other major civilizations and to develop its own way of life in relative isolation (pp.5).


O livro tenta, até ver com algum sucesso, contar de um modo simultaneamente apelativo e organizado as várias componentes da História – política, religiosa, económica, social, cultural, artística, etc – realçando o facto de os períodos bons num determinado aspecto não o serem necessariamente noutras vertentes. As diferenças nos campos da Religião e da Arte são as mais evidentes, até porque, designadamente no primeiro caso, continuam a manifestar-se hoje em dia, quando a China é considerada por alguns inquéritos o país mais ateu do mundo, uma categorização que, aplicada àquela cultura, é claramente desadequada. In China there was no creation myth, no source of divine law outside nature. Nature thus partook of the divine, and moral law was securely fixed in human authority, as represented by the sage kings, the Zhou founders, and Confucius. Religion for the Chinese has a practical rather than a highly mystical concern; likewise, Chinese philosophy has to do primarily with ethics and conduct in actual life, and not to any great degree with abstract questions such as are dealt with in Western metaphysics. There are notable exceptions: Buddhism, coming from India, is both mystical and intellectually complex, while Daoism does deal with Being and Nonbeing. But the practical, this-worldly tendency is inherent in Chinese religion and philosophy and finds its fullest expression in the dominant school of Confucius (pp.32). Mais à frente, Morton destaca outro factor importante: the Chinese have never felt that to hold one belief it is necessary to exclude others (pp.65)


No campo da Arte, embora a pintura tenha, tal como no Ocidente, lugar de destaque, é na paisagem e não no retrato que esta atinge o seu expoente máximo, uma realidade a que não é estranha a referida ligação do Divino à natureza. Deste modo, while the eye of the Western artist takes in the scene from the level of the average man five or six feet above the ground, the Chinese artist works from a raised viewpoint, on a hillside opposite the scene, as it were, so that he is delivered from too much teasing detail in the foreground and can obtain an overview of the whole.


Ao nível da História política, mais do que as diferenças, são as semelhanças que impressionam face à Civilização ocidental, uma vez que até aos Descobrimentos (e, mesmo depois destes, até ao século XIX) não houve praticamente contacto entre os dois mundos. É especialmente curioso e, em certo sentido, desconcertante, o modo como duas grandes civilizações como a chinesa e a romana coexistiram sem praticamente qualquer contacto, porém, em ambos os casos, atingindo um desenvolvimento civilizacional espantoso. It is evident that the Chinese knew more about Rome than the Romans knew about China. The dynastic histories of the Later Han and subsequent shorter dynasties contain these statements in their summary accounts: The people of Ta Ts’in (Rome) have historians and interpreters for foreign languages as the Han have. The walls of their cities are built of stone. They cut their hair short, wear embroidered garments, and ride in very small chariots. Their rulers only govern for a short time and are chosen from among the most worthy men. When things go badly they are changed. [An anachronism at this point, referring to the consuls under the Republic—C.P.F.] The people of Ta Ts’in are big men. . . . They dress differently from the Chinese. Their country produces gold and silver, all kinds of precious goods, amber, glass and giant eggs (ostrich eggs). From China by way of An Hsi (Parthia) they obtain silk which they re-spin into fine gauze. (…) The Ta Ts’in are honest. Prices are fixed and grain is always cheap. The granaries and public treasury are always full. (…) The Ta Ts’in first sent envoys to us (in 166 a.d.).

 

Termino com uma pequena história, que nunca destacaria não fosse a sua inegável graça: A famous scholar at court, Dong Fangsuo, was more fortunate. He was discovered to have drunk a potion of an elixir of immortality prepared for the emperor. Wu Di (importante Imperador da dinastia Han: 156 AC-87 AC) was furious and ordered him to be killed, to which Dong Fangsuo, with admirable presence of mind, saved himself by replying, “If the elixir was genuine, your Majesty can do me no harm; if it was not, what harm have I done?


Morton, W. Scott and Lewis, Charlton M. – China: Its History and Culture, 4th ed (2004)

McGraw-Hill

 

E agora chuto a bola ao João Campos.

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Estou a ler Uma Mentira Mil Vezes Repetida (2)

por José António Abreu, em 07.11.11
A Ivone passou-me a bola mas, na altura, eu nem me dei conta, o que suponho constituir prova suficiente de que o mecanismo de defesa que me permite não ver indicações cujo objectivo seja fazer-me trabalhar mais está a funcionar correctamente. (Nota: trata-se mesmo de não ver e não de fingir não ver, que isso seria batota.) Ainda assim, não escapei ao repto e, porque no 'Delito' o alfabeto começa onde um homem (ou, neste caso, uma mulher) quiser (para grande alívio do Adolfo, que já admitiu ter ficado farto de ser o primeiro a ser chamado na escola), cabe-me continuar a série de textos sobre os livros que cada um de nós anda a ler.

 

Ora bem, estou a ler pelo menos três mas dois de forma irregular: Os Crimes dos Viúvos Negros, de Isaac Asimov, livro que há uma semana e tal me fez passar uma vergonha na Fnac, e Mortes Imaginárias, de Michel Schneider. Sendo formados por textos curtos e independentes (contos no primeiro caso, ensaios no segundo), vou-lhes pegando quando acabo outras obras. Quanto ao terceiro livro, aquele que estou verdadeiramente a ler no momento, é Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo. Peguei-lhe na Sexta-Feira, cumprindo uma promessa feita dias antes a mim mesmo de que, acabado o livro que então estava a ler, a minha próxima leitura sairia de um montinho na minha mesa da sala com quatro obras recentes de autores portugueses contemporâneos: Uma Mentira Mil Vezes Repetida; O Retorno, de Dulce Maria Cardoso; Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho; e Por Este Mundo Acima, da minha colega delituosa Patrícia Reis (já agora, façam-me o favor de manter em segredo o facto de eu ainda não ter lido o livro dela, ok?). Por que escolhi a do Marmelo? Hmmm, querem mesmo saber? Os que responderam «não» façam o favor de se mudar imediatamente para o Arrastão ou para o Blasfémias. Os restantes merecem a verdade: tenho um fetiche por chapéus de coco desde os tempos em que Mr. Steed era tão cool usando um que conseguia ter Mrs. Peel como parceira (estranhamente, a minha relação com os guarda-chuvas é cem por cento impessoal ou até um pouco antagónica).

 

Mas basta de falar de mim. Do que trata Uma Mentira Mil Vezes Repetida, se é que a ficção trata alguma vez de alguma coisa? Tão simples que se conta numa frase: trata das histórias escritas por Marcos Sacatepequez, um autor do Belize que levou à falência todas as editoras que o publicaram e cujo corpo sem vida andou a passear pelo mundo em resultado de um conflito legal entre a viúva e o governo da Guatemala antes de desaparecer em parte incerta, e também de acontecimentos da vida de Albrecht, um marinheiro flamengo que se julga amaldiçoado depois de partilhar um navio com o cadáver de Sacatepequez, e ainda do facto de um e outro serem personagens de Cidade Conquistada, a monumental obra de Oscar Schidinski, um desconhecido escritor húngaro que em fuga ao nazismo terá passado por Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial antes de também ele desaparecer num navio efectuando a travessia do Atlântico (a menos que, como alvitra Afonso Cão, um mendigo de Gondomar que o conheceu em Lisboa, tenha ido para a Argentina e ficado famoso com o nome de Jorge Luis Borges), e ainda da circunstância de Cidade Conquistada e o seu autor serem afinal obra de um portuense que aproveita o tempo de que dispõe na sequência da generosa reforma por invalidez que, aos trinta e seis anos de idade, lhe foi atribuída em resultado de uma grave doença de pele causada pelo «implacável stresse do funcionalismo público» para se sentar nos transportes públicos agarrando um volumoso calhamaço de mil e duzentas páginas com o título Cidade Conquistada, que ele próprio encheu de textos avulsos retirados da internet (entre os quais um de Borges) e mandou depois encadernar, o qual lhe serve de pretexto para meter conversa com os outros passageiros, a quem conta episódios da vida de Schidinski e histórias de Sacatepequez (como a excelente O homem-zebra, pretensamente incluída em Cidade Conquistada e que abre Uma Mentira Mil Vezes Repetida), salientando quão injusto é um escritor de tal calibre permanecer desconhecido da maioria do público, tudo na esperança de, incapaz de escrever um livro de sucesso ele mesmo (apesar de algumas brilhantes ideias tidas no passado mas antecipadas por escritores como José Saramago e Almudena Grandes), acabar por se tornar num intelectual famoso, convidado para colóquios e programas televisivos como especialista maior num autor monumental e enigmático. (Ponto1: Eu não garanti que se explicava numa frase? Ponto 2: Não é curioso como essa frase, oficialmente a mais longa que alguma vez escrevi, parece acabar cedo demais? Uma pessoa começa a ler, activa o regulador de velocidade e depois está distraída quando é preciso travar...) Ah, só mais um pormenor: tudo isto (o portuense nos transportes públicos, o livro do autor húngaro e as personagens desse mesmo livro) é afinal obra de um portuense, Manuel Jorge Marmelo, que anda há meses a colocar no seu blogue crónicas de viagens de autocarro pela cidade do Porto.

 

Confusos? You won't be, after this week's episode of... Soap. (Credo, duas referências a séries televisivas de culto no mesmo post. Ainda bem que miúdos com menos de trinta anos não lêem textos deste tamanho ou entrariam em parafuso.) A verdade é que, lendo o livro, torna-se fácil distinguir os vários planos e isto constitui um elogio tanto à forma como ele se encontra estruturado como escrito. Uma Mentira Mil Vezes Repetida encaixa-se naquela corrente literária em que, por inserção de vários níveis de ficção, e pelo modo como esta se intercala com e sobrepõe à realidade (também ela parcial ou totalmente ficcionada), se questiona o papel da literatura na vida comum, e cujos expoentes máximos são gente como Jorge Luis Borges (obviamente, mencionado no livro de forma nada acidental), Italo Calvino, Enrique Vila-Matas e Roberto Bolaño. Terceiro livro de Manuel Jorge Marmelo que leio (após Os Fantasmas de Pessoa e As Sereias do Mindelo), Uma Mentira Mil Vezes Repetida ameaça ser o melhor. Porém, encontrando-me apenas a meio, não posso emitir um juízo concludente nem contar-vos como acaba. Posso apenas desejar que o narrador não se veja afectado pelo anunciado corte de linhas nos transportes públicos.

 

E agora cabe-me passar a vez. O que é que andas ler, José Gomes André

  

Marmelo, Manuel Jorge Uma Mentira Mil Vezes Repetida

Quetzal Editores (2011)

Col. Língua Comum

ISBN 9789725649725

(Nota: Apesar de ser uma edição da Quetzal, Uma Mentira Mil Vezes Repetida encontra-se em português.)

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Estou a ler A Mecânica da Ficção (1)

por Ivone Mendes da Silva, em 03.11.11

 

Ontem, na caixa de comentários ao post que escrevi sobre releituras, resolvemos iniciar uma série nova no Delito: Estou a ler

Mais me valia ter estado caladinha, em dieta de posts. Coube-me começar a série, que avançará por ordem alfabética. Um por dia.

Como lá disse, de momento releio A Mecânica da Ficçãode James Wood. Não me perguntem o porquê da releitura. Não sei.

Lembro-me de ter estado, há dias, a escrever num mail uma frase de Mau tempo no canal , “Margarida não ia triste nem alegre: ia embrulhada no casaco cinzento, de gola puxada para cima”, porque era uma excelente frase para ilustrar o que pretendia dizer, mudada a cor do casaco.

Que associação de ideias fiz, não vo-la sei contar, o certo é que, dali a instantes, estava sentada no sofá a beber chá dos Açores e a ler, a reler, A Mecânica da Ficção.

James Wood é um renomado crítico literário, com aversões e admirações como qualquer bom crítico que se preze e, actualmente, professor de Prática da Crítica Literária em Harvard.

Neste livro, conduz-nos ao longo de pequenos capítulos aforísticos entre metáforas e diálogos, como se de uma visita guiada se tratasse. Wood aponta, mostra, chama a atenção. De Iris Murdoch a Tolstói, de Saramago a Joyce, de Proust a Virginia Woolf, de Updike a Shakespeare, de Coetzee a Flaubert, está lá tudo. Quase tudo.

Eu que me prendo, às vezes, nos emaranhados gongóricos de algumas frases e estilos e, por muito que não queira, acabo sempre por voltar ao damasco ondulado de certas formas de dizer e de contar as coisas, não deixo, não quero deixar nunca, de me deslumbrar com a capacidade iluminadora de parágrafos como este:

 

Em Sea and Sardinia, Lawrence descreve as pernas curtas do rei Vítor Manuel; mas refere-se às “suas pequenas pernas curtas”. Tecnicamente, não há necessidade para “pequenas” e “curtas” na mesma frase. Se Lawrence fosse um estudante, o seu professor teria escrito “redundância” na margem da folha e riscado um dos adjectivos. Mas se repetirmos a frase em voz alta, o que é redundante passa a ser inevitável. A frase precisa das duas palavras, porque só as duas juntas produzem o efeito cómico. E “pequenas” não significa exactamente o mesmo que “curtas”: as duas desfrutam da companhia uma da outra; e “pequenas pernas curtas” é mais original que do “curtas pernas pequenas”, por ser mais eufónico, mais absurdo, forçando-nos a tropeçar ligeiramente – um tropeção de pernas curtas – no ritmo inesperado.

 

Estou sempre disposta a que me ensinem a ler melhor. Estou convicta de que ler melhor é viver melhor.

E agora passo ao jaa.

 

Wood, James A Mecânica da Ficção

Tradução de Rogério Casanova

Livros Quetzal (2010)

Col. Textos Breves

ISBN 9789725648551

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Leituras

por Leonor Barros, em 24.09.11


Quem nunca leu o rótulo do frasco de champô que atire a primeira pedra.

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Boas notícias

por Leonor Barros, em 14.09.11

Peço desculpa aos profetas da negritude, aos cavaleiros das trevas deste país à beira do abismo, aos arautos da desgraça e do apocalipse, por vir destruir esta manhã de sol com uma boa notícia mas isto é uma óptima notícia. Ler sempre. Ler mais.

 

imagem: Raquel Marín via O Silêncio dos Livros

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Grão a grão...

por José António Abreu, em 05.07.11

No último editorial que escreveu enquanto director da Ler, Francisco José Viegas anuncia para Setembro a implementação do acordo ortográfico na revista. É pena. Mas estamos em crise. E se, por falta de opção, pode vir a existir um momento em que eu comece a comprar livros, jornais e revistas escritos segundo o acordo, esse momento não será em Setembro de 2011. Para mim e por enquanto, a decisão da Ler representa uma poupança de cinco euros por mês.

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Ler

por Pedro Correia, em 08.06.11

O dia de hoje. Do Rui Herbon, na Jugular.

Uma vitória e uma derrota sem surpresas. De António Cruz Mendes, n' A Formiga de Esopo.

Só uma demissão esta noite?! De José Medeiros Ferreira, no Córtex Frontal.

Notas soltíssimas sobre a noite eleitoral e adeus pepinos. Da Ana Cristina Leonardo, no Vias de Facto.

Seis notas actuais. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Pedalar. De João Rodrigues, no Ladrões de Bicicletas.

Maratonas em noites de eleições. Da Joana Lopes, no Entre as Brumas da Memória.

Lições de vida... De Margarida Corrêa de Aguiar, na Quarta República.

Papel azul de 25 linhas. Do Gabriel Silva, no Blasfémias.

Eu, ganso. Do Rui Vasco Neto, no Sete Vidas como os Gatos.

O romeno que admirava Salazar. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Baixa de culto. Do João Tunes, n' Água Lisa.

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