Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ó glória de mandar, ó vã cobiça

por Pedro Correia, em 10.06.17
 

Ao tomar posse como primeiro-ministro do XVIII Governo Constitucional, em Outubro de 2009, José Sócrates retomou uma antiga tradição da política portuguesa citando um verso de Camões que andava um pouco esquecido: “Esta é a ditosa pátria minha amada.” 

Vem n’ Os Lusíadas, um clássico que ainda seduz políticos contemporâneos da mesma forma que seduziu o Rei D. Sebastião quando, segundo se julga, Luís de Camões lho leu pela primeira vez, no início da década de 1570, no paço real. "Esta é a ditosa pátria minha amada, / À qual se o Céu me dá que eu sem perigo / Torne com esta empresa já acabada, / Acabe-se esta luz ali comigo”, escreveu Camões no canto III, 21ª oitava, d’ Os Lusíadas. É uma das mais belas quadras desta obra matricial da língua portuguesa cujo grau de popularidade se afere bem pela presença de muitos dos seus versos na nossa linguagem de todos os dias.

Com efeito, é vulgar aludirmos à "ocidental praia lusitana” (canto I-1), àqueles que foram "dilatando a fé e o império” (I-2), aos que "se vão da lei da Morte libertando” (I-2), ao "engenho e arte(I-2) ou ao "peito ilustre lusitano (I-3). São igualmente familiares, até a quem não leu uma só linha do vasto poema, versos como estes: "Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta!” (I-3); "Vós, poderoso Rei, cujo alto Império / O Sol, logo em nascendo, vê primeiro” (I-8); "(...) julgareis qual é mais excelente, / Se ser do mundo rei, se de tal gente” (I-10); "Duma austera, apagada e vil tristeza” (canto X-145).

 

Os Lusíadas é uma obra marcante também pelas figuras que cria ou recria.

As Tágides ("E vós, ó Tágides minhas, pois criado / Tendes em mim um novo engenho ardente”, I-4); Vasco da Gama, o "forte capitão” (I-44); a deusa Vénus, defensora dos portugueses, que "novos mundos ao mundo irão mostrando” (canto II-45), pois "se mais mundo houvera, lá chegara” (canto VII-79); Inês de Castro, aquela "que depois de ser morta foi rainha” (III-118); o Velho do Restelo com as suas imprecações ("Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Dessa vaidade a que chamamos fama”, canto IV-95); ou o sinistro Adamastor ("Cheios de terra e crespos os cabelos, / A boca negra, os dentes amarelos”, canto V-39).

Já para não falar das incursões autobiográficas do autor no seu poema, como aquela em que se retrata como alguém que tem "numa mão sempre a espada e noutra a pena” (VII-79).

Ou quando, projectado em interposto navegador no célebre episódio da Ilha dos Amores, nos ensina que "Melhor é experimentá-lo que julgá-lo / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo” (canto IX-83).

 

Camões foi um mestre na arte do aforismo em forma de verso, como Os Lusíadas bem testemunham.

Eis alguns desses aforismos: "É fraqueza entre ovelhas ser leão” (I-68)"Sempre por via irá direita / Quem do oportuno tempo se aproveita” (I-76); "Quanto mais pode a fé que a força humana” (III-111); "Um baixo amor os fortes enfraquece” (III-139); "É grande dos amantes a cegueira” (V-54); "Contra o Céu não valem mãos” (V-58); "Quem não sabe a arte, não na estima” (V-97); "Fraqueza é dar ajuda ao mais potente” (IX-80).

Não admira que o nosso maior poeta continue a seduzir políticos: foi ele quem ensinou que "toda a terra é pátria para o forte” (canto VIII-63). Foi ele que tão bem soube cantar essa "ínclita geração” (IV-50) que se aventurou no ponto exacto "onde a terra se acaba e o mar começa” (VIII-78)".

Foi no entanto também Camões quem ensinou – aludindo a D. Fernando I – que "um fraco rei faz fraca a forte gente” (III-138).

Este é um verso que não imaginamos em nenhum discurso de posse. O que não quer dizer que não seja igualmente digno de reflexão.

Texto reeditado

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (123)

por Pedro Correia, em 29.01.17

2017-01-02 15.42.26.jpg

 

Évora, Janeiro de 2017

Autoria e outros dados (tags, etc)

É um nightmare!

por Teresa Ribeiro, em 28.01.17

AAEAAQAAAAAAAAZQAAAAJGQ4ZDE4MzY2LTYxYzgtNDY5ZS05Mz

 

Hoje quando saía de casa olhei o céu e imediatamente saltou dos confins da minha memória a expressão "chove a potes". Sorri de mim para mim. Essas palavras faziam parte do fraseado da minha avó. Acho que já não as oiço há anos. Há expressões que carregamos de tanta ternura que quando as usamos é como se fosse um agasalho. Por isso gosto de as revisitar. No entanto o que se usa agora, mais que nunca, são os vocábulos de importação. Comecei por ouvi-los com mais insistência em reuniões de trabalho (kick off, meeting point, status, fee, statement, empowerment, boost, icebreaker, core business...). Mas agora é também quando penduramos o heterónimo que usamos no trabalho: entre amigos saltam frases como "foi um nightmare", "nada como um pouco de facetime", "ele é um risk taker", "precisamos de quality time".

O que se passa connosco? Já houve quem respondesse aos meus protestos insinuando que estou uma bota de elástico (oops! shall I say "elastic boot"?) e que globalização também é isto. A mim o que me parece é que continuamos tendencialmente saloios, sempre deslumbrados com o que é estrangeiro e prontos a descartar ou desvalorizar o que é nosso. Se assim não fosse não haveria tanta gente a abraçar o Acordo Ortográfico sem pestanejar. No mundo empresarial, então, é um a ver se te avias. Como se resistir à adopção do "aborto", pelo menos até ver como isto fica, fosse um sinal de decadência. Whatever...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (122)

por Pedro Correia, em 16.01.17

2016-12-06 23.54.46.jpg

 

Vinho do Douro Projecto Amizade

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (121)

por Pedro Correia, em 03.12.16

2016-12-01 14.57.17.jpg

 

Évora, Rua de Chartres

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (120)

por Pedro Correia, em 01.12.16

2016-12-01 14.56.40.jpg

 

Évora, hoje

Autoria e outros dados (tags, etc)

Até à náusea

por Pedro Correia, em 21.10.16

Reitero o meu frontal repúdio por esta expressão que há dez dias escuto e leio até à náusea, sem reserva nem pudor, envolta na pirotecnia tablóide em sessões contínuas que hoje serve de padrão dominante ao jornalismo. Como se um ser humano, seja quem for, possa confundir-se com alguma peça de caça e a Lei de Lynch fosse uma conquista civilizacional, celebrada em hossanas no espaço mediático.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Já não sabem escrever português?

por Pedro Correia, em 18.10.16

«A configuração da nova prestação de deficiência materializar-se-á de forma a permitir uma integração de diferentes objectivos na arquitectura actual do sistema, tendo por referência a Lei de Bases, através de uma componente base, inspirada num princípio de cidadania, associada à compensação de encargos não específicos que derivam da condição de pessoa com deficiência ou incapacidade e de um complemento, que visa o reforço do princípio de solidariedade, enquanto elemento chave da cidadania.»

Excerto da proposta de lei do Orçamento do Estado para 2017 hoje destacado por António Bagão Félix no Público - já expurgado do acordês que o tornaria ainda mais ilegível.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 15.09.16

«Comparando o léxico de Mau Tempo no Canal, de 1944, com o romance de um autor contemporâneo, percebe-se que cerca de 20% desapareceu. A língua portuguesa está confinada ao seu ersatz, uma espécie de substituto ligeiro, uma língua de anúncios de aeroporto, de fala de supermercado. A escola é muito responsável pelo desastre, preferindo a pobreza do léxico, desculpabilizando os erros, parlapatando - esquecendo que quem fala e escreve mal pensa mal.»

Francisco José Viegas, no Correio da Manhã

Autoria e outros dados (tags, etc)

À atenção do MNE

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.09.16

 

Inocência-Mata_GLP_01.jpg

 (Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro, daqui)

 

"Quando não preciso de falar uma língua esta não é útil porque a sua importância tem a ver com a sua utilidade. Toda a língua tem a economia da sua utilidade. Línguas não úteis tendem a morrer, isto é conhecimento comum."

A ler, reler e reflectir a excelente e incisiva entrevista que a Prof. Inocência Mata deu ao Jornal Tribuna de Macau. Para os que andam a dormir na forma e enchem a boca com a língua portuguesa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Injúria póstuma a Graça Moura

por Pedro Correia, em 29.08.16

368889[1].jpg

 Foto Nuno Ferreira Santos / Público

 

Mais do que uma desconsideração intelectual, constitui uma injúria que um organismo público como a Imprensa Nacional Casa da Moeda utilize o nome de Vasco Graça Moura para atribuir um  prémio literário destinado a distinguir uma obra forçosamente escrita em acordês.

 

O grande poeta, ensaísta, ficcionista e tradutor já cá não está para zurzir os responsáveis daquela instituição com a verve que todos lhe conhecíamos e a paixão que sempre colocou nesta batalha de ideias. Mas até por isso é dever de todos os seus amigos e admiradores insurgirem-se contra o abuso que constitui a associação de Graça Moura a um prémio que exige a utilização das normas ortográficas que ele sempre combateu.

Não há outra leitura possível do artigo 10.º do regulamento do concurso, escrito na ortografia que o autor de Naufrágio de Sepúlveda abominava: “O autor premiado aceita que a INCM execute uma revisão literária dos originais, na qual sejam eliminadas todas as incorreções [sic] ortográficas ou gramaticais, e resolvidas as inconsistências com as normas de estilo adotadas [sic] para a publicação do Prémio INCM/Vasco Graça Moura.”

Como alertou Octávio dos Santos, num artigo no Público que chamou pela primeira vez a atenção para o caso, a administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, por ele contactada, confirmou por correio electrónico: "O texto vencedor será publicado de acordo com a ortografia do Acordo Ortográfico de 1990."

De resto, a tocante preocupação da INCM pelas "incorreções" [sic] devia começar pela própria redacção deste regulamento: onde se lê "usa" em vez de "sua" no artigo 9.º, n.º1 (curioso lapso, daqueles que em linguagem freudiana costumam merecer o rótulo de acto falhado).

 

Além do inaceitável paternalismo que revela, só lhe faltando vir acompanhado da antiga "menina dos cinco olhos", o artigo 10.º impõe carácter obrigatório à escrita acordística, fazendo tábua rasa dos mais elementares princípios de liberdade intelectual.

Como Octávio dos Santos justamente questionou: "Será possível que na INCM não exista quem conheça e tenha lido o Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos nacional, que também reflecte e replica legislação e jurisprudência internacionais, e que dá inequivocamente a todos os artistas a prerrogativa de utilizarem e de verem respeitada a linguagem que eles quiserem?” 

Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Teixeira de Pascoaes, entre outros escritores que foram firmes adversários da reforma ortográfica de 1911, ficariam liminarmente excluídos deste concurso se por acaso cá estivessem e quisessem concorrer.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quando terrorista parece turista

por Pedro Correia, em 17.06.16

«Hoje ninguém mais discute que, apesar de ser uma língua só, temos a variante brasileira e a variante portuguesa, iguais em quase tudo mas diferentes especialmente no vocabulário (o que é natural) e na pronúncia (como pode ser constatado em qualquer canal da TV portuguesa).

Na pronúncia portuguesa, há uma forte tendência de queda das vogais átonas. "Pelotão", na voz dos âncoras da RTP, soa como "plutão". Luís Fernando Veríssimo conta que assistiu a uma chamada sobre os atentados de Paris e demorou a perceber que o "turismo" de que tanto falavam era, na verdade, "terrorismo". Esse processo teve um impacto direto na pronúncia dos pronomes átonos, que lá ficaram anêmicos, praticamente reduzidos a uma mera consoante. Em "dá-me", por exemplo, o "me" é realizado como /m'/, em "devo-te", o "te" vira /t'/, literalmente uma cuspidinha.

Aqui no Brasil, porém, ocorreu exatamente o contrário: o sol dos trópicos fez muito bem às vogais, deixando gordos e saudáveis nossos pronomes.»

 

Cláudio Moreno, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor d' O Prazer das Palavras, em artigo de opinião na revista Veja 

Autoria e outros dados (tags, etc)

17196719_e7v7g[1].jpg

 

Acredito que os portugueses ainda se pronunciarão em referendo sobre o chamado "acordo ortográfico" de 1990, vigente desde 2011 no país oficial mas votado ao desprezo pelo país real. A esmagadora maioria dos portugueses não sabe escrever em acordês nem está interessada nisso.

Enquanto o referendo não se realiza, a opinião sobre o AO90 é emitida pelos nossos escritores - os mais qualificados utentes do idioma de Camões, Vieira, Camilo, Aquilino e Nemésio. Na sua esmagadora maioria, recusam exterminar as supostas consoantes mudas, recusando a ortografia acordística.

Interrogo-me: como é possível impor regras ortográficas que os escritores rejeitam em número tão expressivo?

São autores de várias gerações, diferentes tendências políticas e diversos estilos literários. Mas com este ponto em comum.

Aqui deixo os nomes deles, por ordem alfabética, prometendo alargar a lista à medida que alguém me for assinalando omissões - o que agradeço desde já:

 

Abel Barros Baptista

Abel Neves

Adília Lopes

Afonso Cruz

Afonso Reis Cabral

Agustina Bessa-Luís

Alexandre Borges

Alice Brito

A. M. Pires Cabral

Ana Casaca

Ana Cássia Rebelo

Ana Cristina Silva

Ana Isabel Buescu

Ana Luísa Amaral

Ana Margarida Carvalho

Ana Marques Gastão

Ana Paula Inácio

Ana Teresa Pereira

Ana Vidal

Ana Zanatti

André Gago

António Carlos Cortez

António Barahona da Fonseca

António Barreto

António Borges Coelho

António Cabrita

António Costa Santos

António de Macedo

António Emiliano

António Feijó

António Guerreiro

António Lobo Antunes

António Louçã

António Manuel Venda

António Modesto Navarro

António Salvado

António Tavares

António Victorino d' Almeida

Armando Silva Carvalho

Arnaldo Saraiva

Artur Portela

Baptista-Bastos

Beatriz Hierro Lopes

Bernardo Pires de Lima

Bruno Vieira Amaral

Carla Hilário Quevedo

Carlos Campaniço

Carlos Fiolhais

Carlos Querido

Casimiro de Brito

Célia Correia Loureiro

César Alexandre Afonso

Clara Pinto Correia

Cláudia R. Sampaio

Cristina Carvalho

Daniel Jonas

David Machado

David Soares

Deana Barroqueiro

Desidério Murcho

Diogo Freitas do Amaral

Diogo Ramada Curto

Dulce Maria Cardoso

Eduardo Cintra Torres

Eduardo Lourenço

Eduardo Pitta

Ernesto Rodrigues

Eugénia de Vasconcellos

Eugénio Lisboa

Fausta Cardoso Pereira

Fernando Alvim

Fernando Dacosta

Fernando Echevarria

Fernando Paulo Baptista

Fernando Pinto do Amaral

Fernando Venâncio

Filipa Leal

Filipe Nunes Vicente

Filipe Verde

Francisco Moita Flores

Francisco Salgueiro

Frederico Lourenço

Frederico Pedreira

Gabriela Ruivo Trindade

Gastão Cruz

Gonçalo Cadilhe

Gonçalo M. Tavares

Helena Malheiro

Helena Sacadura Cabral

Henrique Manuel Bento Fialho

Hélia Correia

Inês Botelho

Inês Dias

Inês Fonseca Santos

Inês Lourenço

Inês Pedrosa

Irene Flunser Pimentel

Isabel da Nóbrega

Isabel Pires de Lima

Ivone Mendes da Silva

Jaime Nogueira Pinto

Jaime Rocha

João Barrento

João Céu e Silva

João David Pinto Correia

João de Melo

João Lobo Antunes

João Luís Barreto Guimarães

João Miguel Fernandes Jorge

João Morgado

João Paulo Sousa

João Pedro George

João Pedro Mésseder

João Pedro Marques

João Pereira Coutinho

João Ricardo Pedro

João Tordo

Joaquim Letria

Joaquim Magalhães de Castro

Joaquim Pessoa

Joel Neto 

Jorge Araújo

Jorge Buescu

Jorge Morais Barbosa

Jorge Sousa Braga

José António Barreiros

José Augusto França

José Barata Moura

José do Carmo Francisco

José Fanha

José Gil

José Jorge Letria

José Manuel Saraiva

José Mário Silva

José Miguel Silva

José Navarro de Andrade

José Pacheco Pereira

José Rentes de Carvalho

José Riço Direitinho

José Viale Moutinho

Júlio Machado Vaz

Lídia Jorge

Lourenço Pereira Coutinho

Luís Carmelo

Luís Filipe Castro Mendes

Luís Manuel Mateus

Luís Naves

Luís Quintais

Luísa Costa Gomes

Luísa Ferreira Nunes

Luiz Fagundes Duarte

Manuel Alegre

Manuel Arouca

Manuel da Silva Ramos

Manuel de Freitas

Manuel Gusmão

Manuel Jorge Marmelo

Manuel Tomás

Manuel Villaverde Cabral

Marcello Duarte Mathias

Margarida Acciaiuoli

Margarida Fonseca Santos

Margarida Palma

Margarida Rebelo Pinto

Maria Alzira Seixo

Maria de Fátima Bonifácio

Maria do Carmo Vieira

Maria do Rosário Pedreira

Maria Filomena Molder

Maria Filomena Mónica

Maria Helena Serôdio

Maria João Lopo de Carvalho

Maria Manuel Viana

Maria Saraiva de Menezes

Maria Teresa Horta

Maria Velho da Costa

Maria Vitalina Leal de Matos

Mariana Inverno

Mário Cláudio

Mário de Carvalho

Mário Zambujal

Marlene Ferraz

Miguel Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Gullander

Miguel Real

Miguel Sousa Tavares

Miguel Tamen

Nuno Amado

Nuno Camarneiro

Nuno Costa Santos

Nuno Júdice

Nuno Lobo Antunes

Nuno Markl

Nuno Rogeiro

Octávio dos Santos

Orlando Leite

Patrícia Baltazar

Patrícia Reis

Paula Morão

Paulo Castilho

Paulo da Costa Domingos

Paulo Guinote

Paulo Moreiras

Paulo Tunhas

Pedro Almeida Vieira

Pedro Barroso

Pedro Chagas Freitas

Pedro Eiras

Pedro Guilherme-Moreira

Pedro Marta Santos

Pedro Medina Ribeiro

Pedro Mexia

Pedro Paixão

Pedro Sena-Lino

Pedro Tamen

Porfírio Silva

Possidónio Cachapa

Rafael Augusto

Raquel Nobre Guerra

Raquel Ochoa

Renata Portas

Ricardo Adolfo

Ricardo António Alves

Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Paes Mamede

Rita Ferro

Rodrigo Guedes de Carvalho

Rosa Maria Martelo

Rosa Oliveira

Rui Ângelo Araújo

Rui Cardoso Martins

Rui Cóias

Rui Herbon

Rui Manuel Amaral

Rui Pires Cabral

Rui Ramos

Rui Vieira Nery

Rute Silva Correia

Ruy Ventura

Sarah Adamopoulos

Sérgio Godinho

Soledade Martinho Costa

Susana Gaião Mota

Sylvia Beirute

Tatiana Faia

Teolinda Gersão

Teresa Salema Cadete

Teresa Veiga

Tiago Cavaco

Tiago Patrício

Tiago Rebelo

Tiago Salazar

Valério Romão

Valter Hugo Mãe

Vasco Luís Curado

Vasco Pulido Valente

Vítor Aguiar e Silva

Vítor Oliveira Jorge

Yvette Centeno

 

Texto originalmente publicado a 7 de Maio.

A lista foi muito ampliada, mencionando agora 260 nomes

Autoria e outros dados (tags, etc)

O país das duas ortografias

por Pedro Correia, em 13.05.16

artsfon.com-65006[1].jpg

 

«Somos o país das duas ortografias

Fernando Pessoa (1928)

 

Raras vezes tem havido um exemplo que ilustre de forma tão acentuada a diferença entre o país legal e o país real como o pretenso "acordo ortográfico" de 1990. A maioria dos portugueses sente-se de algum modo impelida a aplicá-lo, por força de uma resolução do Conselho de Ministros datada de Janeiro de 2011 que só deveria vincular o Governo e organismos sob a sua dependência, mas quase ninguém surge em sua defesa no espaço público. E os poucos que o fazem submetem o essencial do seu argumentário à lógica do "porque sim". Ou, numa versão ligeiramente mais sofisticada, "o melhor é não mexer porque já está assim".

Acaba de acontecer isso novamente com Henrique Monteiro, que, valha a verdade, sempre se distinguiu pelo seu proselitismo acordístico - de tal forma que se apressou a mandar aplicar o AO90 no Expresso, jornal que então dirigia, com uma rapidez digna de um Usain Bolt, em louvor da suposta era de ouro e mel na ortografia portuguesa enfim unificada. Esquecendo dois pormenores básicos: com Angola, Moçambique e restantes Estados ou territórios lusófonos africanos e asiáticos havia já uma ortografia unificada; com o Brasil essa unificação será sempre inatingível. Porque o que mais nos separa dos brasileiros são diferenças fonéticas, lexicais, de vocabulário e pronúncia.

Se eles andam de carona e nós à boleia, ou preferem apanhar o bonde enquanto nós vamos de eléctrico, ou combatem o cancer e nós o cancro, e escrevem Irã e Cingapura ao que nós chamamos Irão e Singapura, essas diferenças jamais serão esbatidas pelo efeito de uma putativa unicidade ortográfica imposta por uns quantos agentes políticos à revelia da comunidade científica nacional. Muito menos por força de um "acordo" que em vez de esbater diferenças antes as acentua ao pretender alterar a grafia portuguesa de palavras como concepção e recepção, sempre escritas assim pelos brasileiros.

 

2 (1).jpg

 

Henrique Monteiro vira agora baterias contra Marcelo Rebelo de Sousa. Pretendendo que o Presidente da República seja alguém que não é: um defensor do AO90. No seu entendimento, o Chefe do Estado só estaria autorizado a pronunciar-se sobre a matéria para aplaudir, como fizeram os seus antecessores Mário Soares e Cavaco Silva, nunca para criticar. Apesar de Marcelo ter sido signatário, logo em 1991, de um primeiro manifesto anti-"acordo" subscrito por 400 personalidades. E de ter publicado no próprio Expresso, mal foi eleito para Belém, um artigo de opinião escrito da forma em que sempre escreveu - sem as regras acordísticas. De resto como acaba de fazer um dos seus antecessores, Jorge Sampaio, num muito publicitado texto de opinião há dias estampado no Público, igualmente na grafia pré-AO90. Desta forma, Sampaio e Marcelo revelam sintonia com a generalidade dos portugueses.

Se o próprio Cavaco, um dos raros entusiastas desta grafia, confessou que continuava a escrever como sempre escreveu, porque não o farão todos quantos discordam dela?

 

2 (2).jpg

 

Segundo o ex-director do Expresso, Marcelo "fez muito mal" em intrometer-se na matéria "porque já milhares de crianças aprenderam a escrever de acordo com as novas regras". Curiosamente, não invocou o mesmo argumento quando o Executivo de José Sócrates, através da  Resolução nº 8/2011, datada de 25 de Janeiro de 2011, mandou aplicar as regras acordísticas daí a escassos meses, na abertura do ano lectivo 2011/12.

No mesmo jornal onde Henrique Monteiro escreve, e que há quase dez anos adoptou as normas acordísticas, vários comentadores e colunistas - Miguel Sousa Tavares, Pedro Mexia, Manuel S. Fonseca, Maria Filomena Mónica, José Cutileiro - continuam a escrever no correctíssimo português pré-AO90. E entre as personalidades já galardoadas com o  Prémio Pessoa - que o mesmo Expresso patrocina - figuram destacados opositores ao acordo, como João Lobo Antunes, Manuel Alegre, Mário Cláudio, Irene Pimentel e Eduardo Lourenço. Já para não mencionar os falecidos Herberto Helder e Vasco Graça Moura, que nunca esconderam divergências sérias em relação à ortografia que o professor Malaca Casteleiro e meia dúzia de iluminados conceberam, a reboque de conveniências políticas, em nome da convergência cultural luso-brasileira sem perceberem que nada disso passa pela convenção ortográfica. Como fica demonstrado pelo facto de o AO90 não ter aberto o mercado brasileiro ao livro português, ao contrário do que algumas almas ingénuas imaginavam.

 

3.jpg

 

Chama Henrique Monteiro "país de loucos" a Portugal por ainda estar a discutir o AO90 quase 26 anos após o documento ter sido assinado, a 16 de Dezembro de 1990, no Palácio da Ajuda - com o então secretário de Estado da Cultura, Pedro Santana Lopes, como signatário em nome de Portugal. Não lhe ocorre discorrer sobre a principal causa da persistência da polémica: a profunda inconsistência de um "acordo" que é "um descaso político e jurídico", como lhe chamaram em 2012 os professores da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra José de Faria Costa (actual Provedor de Justiça) e Francisco Ferreira de Almeida. Um "acordo" concebido à revelia dos principais pareceres da comunidade científica portuguesa e contra a vontade da  esmagadora maioria dos nossos escritores, utentes qualificados do idioma.

Um deles, o filósofo José Gil, explicou a questão numa síntese notável: "O acordo mutila o pensamento."

Já em 1986 - quando houve uma primeira tentativa, mal sucedida, de impor ao País um "acordo" que mutilava ainda mais consoantes - Sophia de Mello Breyner Andresen, bem ao seu timbre, marcara uma distância poética face ao disparate ortográfico ao dizer que ação, sem o c supostamente mudo, "parecia o nome de um pássaro", como recorda a filósofa e ensaísta Maria Filomena Molder.

Ironia da história: após alguns políticos terem imposto o AO90 aos linguistas, vem agora um dos raros linguistas que o sustentam procurar impô-lo aos políticos, dizendo ao Presidente da República como  deve comportar-se em matéria ortográfica por inerência das funções que hoje desempenha. Não sei em que alínea da nossa lei fundamental se estriba Malaca Casteleiro para justificar tal absurdo. Deve ter frequentado um curso intensivo de Direito Constitucional sem o País saber, atrevendo-se a dar conselhos a um especialista na matéria. Parafraseando o ralhete dirigido por Henrique Monteiro ao Presidente na última edição do Expresso, eu recomendaria ao professor Malaca que "não é da sua competência nem politicamente avisado" agir assim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Conselho Económico e Social (CES) costuma ser notícia. Ainda hoje o foi, ao anunciar ao País as suas previsões de um débil crescimento do investimento público e de anémica criação de emprego em 2016 devido ao insuficiente aumento das receitas fiscais.

Órgão de consulta do Governo com um presidente escolhido pela Assembleia da República, o CES tem à sua frente um ex-ministro, Luís Filipe Pereira. E já foi dirigido por outros antigos ministros: Nascimento Rodrigues, José Silva Lopes, Alfredo Bruto da Costa e José Silva Peneda. Motivos de sobra para dever estar atento não só às questões económicas e sociais mas também à língua portuguesa, que goza de protecção constitucional. Nunca é de mais recordar o artigo nº 11, n.º 3, da nossa lei fundamental: "A língua oficial [da República Portuguesa] é o Português."

Luís Filipe Pereira não ignora isto. Mas ninguém diria, ao visitar o sítio do CES: abrimos a página principal e deparamos logo com um palavrão: "Contatos".

Assim mesmo, à brasileira, sem respeitar a correcta norma da ortografia portuguesa nem sequer fazer caso do que está contido no chamado "acordo ortográfico" de 1990. Em acordês, convém recordar, "as consoantes c e p são eliminadas em todas as palavras em que não são pronunciadas". Obviamente não é o caso de contacto, palavra em que todas as consoantes são bem sonoras em qualquer das pronúncias portuguesas, independentemente da classe social ou da região do País de quem as pronuncia.

Quando os organismos oficiais são os primeiros a dar estes maus exemplos, distanciando-se da sociedade que pretendem servir, não admira que os erros na escrita da nossa língua se multipliquem por aí. A ausência de regras tornou-se a regra dominante. E tudo isto é encarado com um vago e sonolento encolher de ombros. Como se a língua não fosse nossa. Como se pertencesse a suevos, aborígenes ou patagões.

Autoria e outros dados (tags, etc)

ornitorrinco-2[1].jpg

 

"acordo ortográfico" de 1990, concebido por Cavaco Silva e que José Sócrates mandou ratificar em 2008, surgiu com o propósito de unificar a grafia. Propósito utópico, irrealizável: nunca haverá unidade ortográfica entre os países de língua portuguesa (reparem, por exemplo, como os brasileiros - e só eles - persistem em chamar Cingapura a Singapura).

Não unificou: baralhou ainda mais a ortografia. Passou a haver três normas - a que radica no português europeu com ramificações em Angola, Cabo Verde, Goa, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, a norma brasileira e o modelo híbrido que o AO90 veio introduzir. Híbrido porque nuns casos transformou a nossa ortografia em mero decalque da brasileira enquanto noutros aprofundava as diferenças - como nas palavras recepção, decepçãoexcepcional, introspecçãoexpectativaimperceptível ou espectadores (que alguns aqui no torrão, por motivos que talvez Freud explique, adoram transformar em "espetadores").

 

ornitorrinco-2[1].jpg

 

Instalou-se portanto uma ortografia à la carte que em vez de clarificar só confundiu. E em vez de democratizar, como seria intenção subsidiária dos esdrúxulos legisladores que pariram este ornitorrinco, gerou uma nova aristocracia do idioma, acentuando as distâncias entre os que o escrevem correctamente - por exemplo, sem quebrar famílias lexicais, como em "Egito"/egípcio, "caráter"/característica ou "setor"/sectorial - e os restantes, que se sentem obrigados a usar o acordês embora discordem dele e na intimidade persistam em escrever como sempre escreveram. Seguindo aliás o insuspeito precedente do próprio Cavaco, principal patrocinador político da coisa.

 

ornitorrinco-2[1].jpg

 

Quando passo os olhos pelo Observador fico sempre com a noção desta dualidade, ali cultivada com esmero. Nas peças informativas, destinadas ao "povinho", este jornal digital faz questão de nos bombardear com títulos e entradas em acordês: "Moçambique promete desinfetar a casa"; "Portugal já adotou o novo acordo ortográfico"; "Portugal é eletrónico e este filme ensina-lhe isso"; "Onde para a Viatecla?"  Não porque os jornalistas que assinam estas peças necessariamente assim queiram, mas porque existe uma norma interna que tal impõe. Como se a Resolução do Conselho de Ministros assinada em Janeiro de 2011 por Sócrates que tornou obrigatória a aplicação do AO90 apenas ao "Governo e todos os serviços, organismos e entidades sujeitos aos poderes de direcção, superintendência e tutela do Governo", se estendesse afinal aos restantes organismos, públicos e privados - dos tribunais às empresas, das editoras às redacções de jornais.

Já os selectos artigos de opinião dos habituais colunistas do Observador, em nítido contraste, são na grande maioria escritos em português correcto - ou seja, na grafia pré-acordês. Refiro-me por exemplo aos textos de Rui Ramos, Luís Aguiar-Conraria, Laurinda Alves, Paulo de Almeida Sande, Alexandre Homem Cristo, João Carlos Espada, Mário Pinto, Paulo Tunhas, Helena MatosJoão Marques de AlmeidaCarlos Silva e Maria João Avillez.

Upstairs, downstairs: pura dualidade ortográfica introduzida pelo "acordo" que visava unificar o idioma. Passaram a existir os proletários da escrita e os aristocratas da escrita - os primeiros, forçados a aplicar o AO90; os outros, dispensados da sua utilização.

 

ornitorrinco-2[1].jpg

 

É quanto basta para ilustrar o ridículo deste ornitorrinco legado ao País por Cavaco e Sócrates, que se atreveram a legislar sobre a língua sem conhecimentos sumários da matéria.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (119)

por Pedro Correia, em 24.04.16

lançamento_REVISTA _CAFÉ COM LETRAS_2.jpg

 

Café com Letras, nova revista de literatura

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da opaca linguagem dos juristas

por Pedro Correia, em 22.04.16

Serei sempre favorável a um certo formalismo e ritualismo das instituições. A dignidade do Estado exige o cumprimento de regras, incluindo as ditadas pelo bom gosto e pelo bom senso - até ao nível da linguaguem e do vestuário. Um ministro ou um deputado ou um juiz não devem apresentar-se no exercício de funções como se estivessem no tasco ou na esplanada. Prometer agressões físicas ou concretizar agressões verbais são comportamentos que violam as normas de conduta em democracia, que devem pautar-se pela civilidade e pela contenção dos instintos mais primários, mesmo que estejam na moda as bravatas exaltadas para gáudio das "redes sociais".

Esta é uma questão. Outra, muito diferente, é a linguagem jurídica. Que tem vindo a tornar-se cada vez mais pomposa, arrebicada, hermética e quase ilegível, o que contraria um dos pilares do sistema democrático, tanto ao nível da produção legislativa como da elaboração de acórdãos. Legisladores e juízes, ao contrário do que seria recomendável, omitem demasiadas vezes o princípio da clareza, que - sem esquecer a precisão e o rigor - deve vigorar em todos os seus textos. Esta omissão torna-os com frequência de difícil compreensão para muitos dos seus pares e totalmente imperceptíveis para o cidadão comum.

 

tw_plastic-letters-by-l_avi[1].gif

 

Leio, por exemplo, num acórdão do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, que determinado jogador  "tentou obstar esse desiderato".

Poucos minutos depois, consultando o preâmbulo do decreto-lei 69/2014, da Presidência do Conselho de Ministros, deparo com este naco de prosa: "Considerando a transversalidade da missão e das atribuições do GNS e da Autoridade Nacional de Segurança, bem como a dire[c]ta dependência destas entidades do Primeiro-Ministro, entende-se que o GNS é o serviço indicado para albergar o CNCSeg na fase inicial do seu funcionamento, modelo que, contudo, será obje[c]to de avaliação no final do ano 2017, período que se antecipa necessário para a completa estruturação e funcionamento em cruzeiro do referido Centro, com vista a uma decisão sobre a manutenção do arquétipo agora definido ou a evolução para uma completa autonomização do CNCSeg."

 

tw_plastic-letters-by-l_avi[1].gif

 

Ninguém fala assim. Ninguém escreve assim - ou ninguém deveria escrever assim - fora de um restrito círculo de juristas firmemente convencidos de que escrever "difícil" é escrever bem. E questiono-me se existe real necessidade, por parte de magistrados ou legisladores, de recorrer a um vocabulário e até a uma sintaxe que em tudo se distanciam da linguagem comum.

Autoria e outros dados (tags, etc)

14812527_RlaWq[1].jpg

Símbolo da República, no blogue E Deus Criou a Mulher

 

Na sequência da louvável proposta do Bloco de Esquerda de mudar a designação de Cartão de Cidadão para Cartão de Cidadania, e com a intenção de aprofundar este combate revolucionário contra a linguagem sexista e a misoginia gramatical, venho por este meio sugerir uma revisão sem demora da Constituição da República Portuguesa que estabeleça um tratamento simétrico entre os géneros.

Algumas alterações ao texto constitucional que considero mais urgentes:


Artigo 4.º: «São CIDADÃOS portugueses todos aqueles que como tal sejam considerados pela lei ou por convenção internacional.»

A palavra cidadãos atenta contra o princípio inatacável da igualdade de género, ofendendo a sensibilidade de mais de 50% das pessoas que possuem cidadania portuguesa.

O novo artigo 4.º deverá ser redigido desta forma: «Têm a CIDADANIA portuguesa TODAS AQUELAS E TODOS AQUELES que como tal sejam CONSIDERADAS E CONSIDERADOS pela lei ou por convenção internacional.»


Artigo 7.º: «Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios da independência nacional, do respeito dos direitos do HOMEM...»

A menção exclusiva aos seres pertencentes ao género masculino está eivada de preconceitos sexistas que urge extirpar da Constituição.

O novo artigo 4.º deverá ser redigido desta forma: «Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios da independência nacional, do respeito dos direitos DA MULHER, DO HOMEM E DAS PESSOAS TRANSGÉNERAS...» 


Artigo 9.º: «São tarefas fundamentais do Estado: (...) Defender a democracia política, assegurar e incentivar a participação democrática dos CIDADÃOS na resolução dos problemas nacionais.»

Deparamos novamente com este termo, inaceitável numa Constituição verdadeiramente inclusiva e democrática, que combata os últimos resquícios dos privilégios patriarcais na nossa linguagem jurídico-política.

O novo artigo 9.º deverá ser redigido desta forma: «São tarefas fundamentais do Estado: (...) Defender a democracia política, assegurar e incentivar a participação democrática DAS CIDADÃS E DOS CIDADÃOS na resolução dos problemas nacionais.»


Artigo 10.º: "O POVO exerce o poder político através do sufrágio universal, igual, directo, secreto e periódico, do referendo e das demais formas previstas na Constituição.»

Vocabulário falocêntrico inaceitável: todos os substantivos de género masculino devem ser rasurados da posição dominante que conservam na linguagem exclusivista da lei fundamental.

O novo artigo 10.º deverá ser redigido desta forma: «AS ELEITORAS E OS ELEITORES EXERCEM o poder político através do sufrágio universal, igual, directo, secreto e periódico, do referendo e das demais formas previstas na Constituição.»

 

Depois de extinguir os "cidadãos" há que eliminar o "povo". Em nome da inclusão. É assim a revolução em marcha. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (118)

por Pedro Correia, em 17.04.16

978791[1].jpg

 

António Costa

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um século de arte austríaca

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.03.16

20160330_103012.jpg

Se ainda não viu, ainda está a tempo de visitar a estupenda mostra de pintura austríaca, cobrindo um século entre 1860 e 1960, que está patente no Museu de Arte de Macau. Dividida em Sonata, Andante, Minuet e Finale, a exposição reúne 89 obras de 34 colecções de entidades públicas e privadas. Partindo do evento designado como Secessão de Viena, no século XIX, podemos apreciar obras de Klimt, de Schiele, de Moser, de Kokoschka, de Pauser, de Olga Wisinger-Florian e de muitos outros. Naturezas mortas, auto-retratos, paisagens de montanha e do campo, algumas de cidades de Itália, como Positano e Nápoles, também de Xangai, cenas do quotidiano, circos e alguns nus belíssimos. 

20160330_102000.jpg

Lamentável é que a língua portuguesa continue a ser tão maltratada pelas entidades oficiais da RAEM. O estatuto de igualdade das línguas é cada vez mais uma miragem. Dos discursos oficiais à prática dos serviços públicos, dos tribunais à cultura, sem esquecer o que aconteceu recentemente na Universidade de Macau, a língua portuguesa continua a levar tratos de polé sem que as autoridades oficiais portuguesas lhe dêem a atenção que o assunto merece.

Aquilo de que a comunidade chinesa se queixava, com razão, no período anterior a 1999, e que durante tanto tempo foi descurado pelas autoridades portuguesas, e depois tão mal e tão tardiamente resolvido pelo último soba que por cá andou, é agora alegremente praticado pelas entidades responsáveis da RAEM, inclusive num domínio como o da cultura e num Museu, um dos mais importantes da cidade, numa mostra com características internacionais.

Como pode dizer-se que Macau é uma cidade de turismo, virada para o turismo, multicultural e aberta ao mundo e a quem nos visita, quando uma exposição tão importante como "Um século de arte austríaca 1860-1960" nem sequer tem um catálogo bilingue? Já nem digo em português, que isso é um resquício colonial, mas ao menos em inglês. Quando procurei o catálogo disseram-me que desta vez só havia em chinês. E neste nem os nomes dos pintores aparecem de outra forma que não seja em caracteres chineses. Também as explicações relativas a cada obra só existem em chinês, bem como os painéis informativos relativos aos pintores. Com excepção do painel da entrada e dos que abrem cada uma das partes da exposição, que surgem em chinês, português e inglês, o resto é tudo só para falantes e leitores chineses.

E se isto é assim num Museu de Arte e numa cidade que se diz internacional, quando ainda estamos a mais de trinta anos do final do período de transição, imaginem em que estado chegará a Língua Portuguesa a Dezembro de 2049. A avaliar pelo interesse e abastardamento a que tem sido votada pelas entidades oficiais de cá e de lá, presumo que será vista como uma lamentável excentricidade da Lei Básica da RAEM e da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre a Questão de Macau com a qual ninguém se importa e que só serviu para alguns pavões retirarem dividendos políticos e receberem as bugigangas alusivas, que sem qualquer pudor ainda penduram ao peito.

20160330_102429.jpg

(Sergius Pauser, 1896-1970, O Leitor)

20160330_102142.jpg

(Anton Lutz, 1894-1992, Mulher Nua)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Começar de novo

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.03.16

Unknown-2

Num país que continua a ter meio milhão de analfabetos, isto é, gente que não sabe ler nem escrever, a desastrada (e inaceitável) intervenção do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior na Assembleia da República pode ter muitas explicações. A começar pelo nervosismo. Essa será uma parte da história mas que, apesar de tudo, não a tornará desculpável.

A um primeiro-ministro que conjugava o verbo haver no plural junta-se agora um ministro que diz "interviu", em vez de interveio, e "tinhemos", em vez de tenhamos. O currículo do ministro pode ser o melhor do mundo, mas não há acordo ortográfico nem reforma educativa que remedeie o que aconteceu.

O ideal era voltarmos todos à Cartilha de João de Deus, a uma edição actualizada e aumentada, e que as televisões organizassem alguns concursos que, em vez de mostrarem analfabetos a dizerem asneiras e a exibirem os cus e as mamas à hora do jantar, ou que ande a perguntar aos concorrentes o preço dos electrodomésticos, os obrigasse a responder a questões sobre a cultura e a língua portuguesa. Um concurso que atribuísse prémios chorudos, em euros, e levasse os concorrentes a estudarem os tempos verbais, os advérbios, os pronomes e a fazerem provas de composição, talvez pudesse operar milagres. E, quem sabe, se até não poderia contar com o patrocínio do Presidente da República eleito e das fundações que por aí temos para levar todo o país a reaprender a ler, a escrever e a dizer. Eu também; que com estes exemplos que nos chegam em cada dia que passa vou desaprendendo e esquecendo o pouco que me ensinaram.

Autoria e outros dados (tags, etc)

19317794_HlYrJ[1].png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vergílio: a luz da escrita

por Pedro Correia, em 28.01.16

1027640[1].jpg

 

«Não deixes que te abandone o milagre de escrever. Não deixes que a miséria do teu corpo escureça com a sua sombra a pequena luz da tua escrita.»

Vergílio Ferreira, Escrever

 

É confrangedor verificar a facilidade com que hoje se desfazem as bibliotecas familiares. Encontro vestígios dispersos destas colecções organizadas nos alfarrabistas que frequento e procuro recolher tudo quanto posso: não é raro encontrar pequenas pérolas desbaratadas por gente que não fazia a menor ideia do que deitava fora.

Anoto isto para realçar a importância das bibliotecas familiares na formação de quem teve o privilégio de beneficiar com elas. Recordo o respeito quase solene com que pela primeira vez entrei na biblioteca do meu avô, já era criança crescida, e como demorei os olhos a decifrar as letras das lombadas. Recordo o convívio familiar com os volumes acumulados na biblioteca do meu pai ("o escritório", assim chamávamos àquela divisão) e as longas horas que lá passei. Cada um daqueles livros era uma janela aberta sobre o mundo.

De início, era eu miúdo, o Pai incentivava-me a permanecer ali encarregando-me de uma tarefa que desempenhei com zelo: abrir as páginas dos livros que vinham por guilhotinar da tipografia, como naquele tempo tantas vezes sucedia. Exerci com gosto essa função durante alguns anos, sempre que um novo título ali entrava - e eram muitos, de vários géneros.

 

Cântico[1].jpg

Foi assim, munido de um corta-papéis com cabo de ébano, que tive pela primeira vez nas mãos uma obra de Vergílio Ferreira. O nome, Cântico Final, nada me dizia.

Mas senti uma curiosidade adolescente de espreitar as linhas iniciais. E logo essa prosa me arrebatou como se nenhuma outra eu tivesse lido até então.

«Por uma manhã breve de Dezembro, um homem subia de automóvel uma estrada de montanha. Ma­nhã fina, linear. O homem parou um pouco, enquanto o motor arrefecia, e olhou em volta, fatigado. Aqui estou. Regressado de tudo. Pelo vale extenso até a um limite de neblina, viam-se aqui e além indícios brancos de aldeias, brilhando ao sol. Que dia é hoje?

Pelos campos perpassava uma alegria estranha, tal­vez do sol e daquele fundo silêncio a toda a volta, sem uma voz repentina das que sobem e vibram nas manhãs de trabalho. E de súbito lembrou-se: para o fundo do vale, ouviu o dobre dos sinos do Freixo. Manhã de domingo, manhã de infância, sinos de ou­trora.»

 

Nunca me tinha acontecido com nenhum escritor, raras vezes voltou a acontecer: Vergílio Ferreira conquistou-me com aquelas primeiras linhas. Peguei no livro editado pela Portugália e percorri-o com a mesma sensação de enamoramento pelo nosso idioma que voltaria a sentir com todos os outros que dele fui lendo ao longo dos anos: Aparição, Manhã Submersa, Vagão J, Alegria Breve, Mudança, Estrela Polar, Nítido Nulo, Rápida, a Sombra, Para Sempre, Até ao Fim, Na Tua Face, Em Nome da Terra.

 

Logo_centenario2-300x138[1].jpg

 

Nem todos me conquistaram: Rápida, a Sombra e Nítido Nulo, por exemplo, sempre me pareceram romances falhados. Mas a sedução da prosa do autor de Escrever - que viria a prolongar-se na sua escrita ensaística e diarística, sem esquecer os contos - jamais deixou de me tocar.

Prosa poética, no mais profundo e visceral sentido da expressão, tantas vezes abastardada. Prosa limpa, límpida, luminosa. Prosa de um escritor maior, que nunca solucionou um conflito íntimo entre a razão e a emoção capaz de o sobressaltar a cada passo e que transparecia da sua escrita.

Prosa que não deixei de ler como um rito iniciático a esta língua que nos serve de traço identitário e nos elevou através dos séculos desde os humildes confins da tribo à nobre condição de povo.

Prosa incapaz de nos deixar indiferentes. E à qual sempre regresso em eventuais crises de inspiração. Vergílio Ferreira - cujo centenário hoje evocamos, como a Isabel Mouzinho já assinalou aqui - merece ser lido e relido. Felizmente tem uma editora apostada em tratar o seu espólio literário com o carinho e o respeito que merece: a Quetzal acaba de lançar as 1000 Frases de Vergílio Ferreira (obra organizada pelo nosso Luís Naves) e lançará em 2016 novos títulos da sua obra completa. Incluindo o segundo romance, Onde Tudo Foi Morrendo, com as alterações introduzidas pelo autor à versão inicial, da década de 40, e o "meu" Cântico Final, também há longos anos ausente dos escaparates.

 

vf[1].jpg

 

Falta fazer regressar Vergílio Ferreira aos programas escolares, como a Isabel justamente também reclama. Essa seria a melhor homenagem que o País oficial poderia prestar-lhe em ano de centenário (e do 20º aniversário da sua morte, ocorrida a 1 de Março de 1996).

Para que adolescentes sem acesso a uma biblioteca familiar, neste tempo em que a memória é encarada como um estorvo e nos iludimos a todo o instante com a fugaz eternidade do "presente", se deixem também hoje seduzir por esta prosa ímpar. Tal como aconteceu comigo quando tinha essa idade propícia a todos os encantamentos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (117)

por Pedro Correia, em 10.01.16

 

NGP_01_16_CAPA_ABERTURA[1].jpg

 

Revista National Geographic Portugal

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (116)

por Pedro Correia, em 13.12.15

IS865KZS.jpg

 

Revista Meios & Publicidade

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (115)

por Pedro Correia, em 12.12.15

Capa-1ª-Edição-da-Forbes-Portugal-Dez.-2015[1].

 

Revista Forbes Portugal

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (114)

por Pedro Correia, em 06.12.15

Cartaz-_A-tragédia-optimista-707x1024[1].jpg

 

A Tragédia Optimista, em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite (Almada).

[O título da peça foi alvo da tesoura censória do canal público de televisão, que decidiu amputar parte do título em nome da fidelidade cega ao acordês.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (113)

por Pedro Correia, em 28.11.15

2015-09-12 21 55 57.jpg

 

Espectáculos de Filipe La Féria

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (112)

por Pedro Correia, em 22.11.15

2015-09-22 20.32.16.jpg

 

Manifestação de lesados do BES em Paris (SIC Notícias, 5 de Setembro)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (111)

por Pedro Correia, em 21.11.15

2015-09-05 17.54.38.jpg

 

Manifestação popular (canal de notícias da RTP, 5 de Setembro)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Como se tivéssemos nascido ontem

por Pedro Correia, em 03.11.15

17552363_ZYKAC[1].jpg

 (Imagem: blogue Bic Laranja)

 

Já nem falo do L dobrado de importação, ironicamente aceite sem pestanejar nesta terra onde o mais disparatado dos convénios autorizou o extermínio corrente das consoantes "mudas" para "aproximar a escrita da fonética". Já nem falo da festa de importação, quando não faltam tradições festivas portuguesas crescentemente votadas ao esquecimento.

Falo de Lisboa, um dos nossos mais belos topónimos, desfigurada a todo o momento ao ser substituída pela tradução em inglês. Não por capricho estrangeiro, mas por decisão local - neste caso com a chancela oficial da Câmara Municipal de Lisboa, através da Junta de Freguesia de Arroios. Como se algum turista, por mais bronco que seja, ignore como se escreve e diz o nome da capital portuguesa, fundada há mais de dois mil anos, quando os habitantes do que viriam a ser os Estados Unidos da América ainda faziam fogo com dois pauzinhos.

Um nome de ancestrais ressonâncias helénicas que a cada passo pervertemos sem o menor traço de amor-próprio, nesta nossa forma tão pacóvia de abdicarmos de um idioma falado por mais de 250 milhões de pessoas no mundo enquanto entoamos loas à "lusofonia" por mera conveniência política de ocasião.

Falar e escrever "estrangeiro" é o desporto preferido dos basbaques cá do burgo. Que traduziam Portugal em francês no tempo do Eça e hoje o traduzem em inglês com sotaque americano.

Como se tivéssemos nascido ontem. Como se não tivéssemos uma língua e uma cultura dignas de nos orgulhar a todo o tempo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Há mais pequena ventania cai"

por Pedro Correia, em 19.09.15

À coisas espantosas, não à?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O léxico mingua. Camilo conglobava uma miríade de vocábulos hoje alóctones. Qual filigrana rococó, Aquilino desembuçava concatenações multifárias e buriladas. Hoje, bulhufas. Mas as sarandalhas palmeiam. Pascácios conjecturando-se paladinos do discernimento coagem a aceleração da declividade, assestando vitupérios na Internet sobre almas ensimesmadas que se afoitam à geração de verbetes prenhes de ímprobas lexias. Pelejar é supervacâneo. Antes arriar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ninguém pára para pensar

por Pedro Correia, em 05.05.15

2015-05-05 17 20 56.jpg

 

Este ano comemora-se, pela primeira vez, o 5 de Maio como Dia Internacional da Língua Portuguesa. Associando-se às comemorações com o proselitismo acordístico que há muito o caracteriza, o Jornal de Notícias imprimiu hoje, com grande destaque na primeira página, aquele que se candidata ao título mais absurdo do ano na imprensa cá do rectângulo: "Fisco para venda automática de casas penhoradas".

É daqueles títulos que qualquer indivíduo se sente incapaz de entender à primeira. Ou à segunda. Ou até à terceira leitura. Contrariando assim as mais elementares regras jornalísticas, que recomendam um português correcto, claro, compreensível. Tudo quanto não existe nesta frase indecifrável.

E afinal nem era preciso inventar nada. Bastava repetir o título da notícia da página 12 para a qual remete o da capa: "Fisco trava venda de casas penhoradas". Este sim, é claro e compreensível. E não induz o leitor em erro. Nem trata a língua portuguesa a pontapé.

Mais fácil ainda: bastaria um simples sinal gráfico para desfazer qualquer dúvida. O acento agudo na palavra pára. Que - tal como sucede com o acento circunflexo que distingue o verbo pôr da preposição por - se destina precisamente a desfazer as incertezas da homografia, que contaminam a mensagem jornalística. Como qualquer aprendiz do ofício tem obrigação de saber no momento em que redige um artigo e sobretudo ao elaborar um título.

Eis uma forma original de comemorar o novo Dia Internacional da Língua Portuguesa: dando destaque àquela que é, de todas, talvez a mais estúpida regra contida no chamado "acordo ortográfico". E logo na primeira página - aquela que mais chama a atenção. Às vezes até parece que ninguém pára para pensar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (110)

por Pedro Correia, em 26.02.15

terceiro sector modelo[1].jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vanguardismo de opereta

por Pedro Correia, em 21.01.15

Alguns apologistas do chamado acordo ortográfico defendem-no com zelo passional alegando que o fazem em nome do progresso. São incapazes de perceber que o progresso nada tem a ver com isto. Ou até terá, mas no sentido contrário ao que pretendem.

Progresso tem a ver com literacia. E as sociedades com maiores índices de alfabetização são precisamente aquelas que têm uma ortografia consolidada há séculos e jamais necessitaram de “reformas” unificadoras neste domínio. Britânicos e norte-americanos, por exemplo, nunca precisaram de acordo algum para limarem as suas notórias divergências ortográficas, que não constituem obstáculo para a compreensão mútua – pelo contrário, só enriquecem o inglês partilhado pelos compatriotas de Shakespeare e Mark Twain, cada qual com o seu sotaque.

Quanto mais estabilizada estiver a ortografia de uma língua, maior é o correspondente índice de alfabetização dos utentes desse idioma. E o inverso também se aplica em países como o nosso: Portugal produziu três profundas reformas ortográficas em menos de um século sem com isso deixar de ser um dos países com menores índices de literacia da Europa.

 

maquina_de_escrever[1].jpg

 

Pensei em tudo isto ao ler o mais recente comunicado da Procuradoria-Geral da República, alusivo à audiência que o director do Jornal de Notícias solicitou a Joana Marques Vidal. Neste comunicado, Afonso Camões é alternamente referido como “director” e “diretor” do referido matutino.

Se ao mais elevado nível das instituições estatais perdura a indefinição sobre a ortografia, não custa imaginar as incertezas do cidadão comum sobre este mesmo tema. Pouco admira, portanto, que tantas “reformas” acabem por fabricar legiões de analfabetos funcionais, incapazes de redigir o mais simples texto de acordo com o quadros normativo. Porque a norma, nesta matéria, continua a oscilar ao sabor de vontades políticas de ocasião: muda o regime, logo muda a ortografia.

Foi assim na transição da monarquia constitucional para a I República, e desta para o Estado Novo, e da ditadura para a democracia.

 

Os que insistem em abolir as chamadas consoantes mudas, arrancando as raízes etimológicas da escrita como se fosse um indício de progresso, estão afinal condenados a perpetuar os humilhantes padrões de iliteracia vigentes entre nós. O fosso entre o nosso idioma e as grandes famílias ortográficas europeias não é sintoma de avanço mas de retrocesso civilizacional.

Entretanto, os auto-intitulados “progressistas” que tanto se gabam de escrever “diretor”, como se fosse o último grito da moda, continuarão a escrever “director” em inglês, “director” em espanhol, “directeur” em francês e “direktor” em alemão.

O “progresso” ortográfico, à luz deste vanguardismo de opereta, termina algures na ligação rodoviária entre Elvas e Badajoz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vasco Graça Moura

por Isabel Mouzinho, em 03.01.15

lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.
 
(Vasco Graça Moura faria hoje 73 anos. E faz-nos muito falta...)

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Excessão" de iliteracia

por Pedro Correia, em 12.12.14

excessc3a3o[1].png

 (via Aventar)

 

O colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, já esteve no topo das melhores escolas portuguesas. E continua a ser um dos mais procurados por pais com posses acima da média que pretendem proporcionar boa educação aos filhos.

Acontece que, por estes dias, os anteriores níveis de excelência deste estabelecimento de ensino parecem pertencer ao passado. Uma escola que sabe educar e formar os seus alunos não propaga o anafabetismo funcional utilizando em textos informativos internos palavras como "excessão", que não constam em dicionário algum - antes, durante ou depois da aprovação dessa "fraude" que é o acordo ortográfico de 1990, como lhe chama Inês Pedrosa na sua coluna de hoje no semanário Sol.

"Sintoma de uma época que despreza a memória e vive em esquecimento acelerado, este acordo ignora voluntariamente a história e o trajecto da Língua. É mais um passo no caminho do desprezo pela riqueza e pela força da Língua Portuguesa", sublinha justamente a escritora no seu artigo. Os sintomas de analfabetismo funcional que se vão multiplicando à nossa volta são consequência directa desse "acordo" que propicia uma espécie de ortografia à la carte, em que a norma convive com o erro em grau crescente sem reparo nem sanção.

E como poderia ser de outra maneira se  os erros mais escabrosos surgem com chancela oficial, estampados no Diário da República?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (109)

por Pedro Correia, em 04.12.14

2014-11-27 15 04 01.jpg

Lisboa, Dezembro 2014

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (108)

por Pedro Correia, em 02.12.14

Cavaquinhos[1].jpg

 

Exposição colectiva nacional - 70 cavaquinhos, 70 artistas

(até 11 de Janeiro no Mosteiro dos Jerónimos)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nem como se lê nem como se diz

por Pedro Correia, em 28.08.14

Certos defensores do "acordo ortográfico", inimigos confessos da etimologia, afirmam que uma língua deve ser escrita «como se lê». Isto é puro disparate: se a escrita antecede a leitura, como é que a norma ortográfica pode estar condicionada por algo que lhe sucede em vez de a preceder?
Outros afirmam que uma língua deve ser escrita «como se diz», pretendendo subordinar a ortografia à fonética. «A língua tem factores de carácter histórico que não podem ser desconsiderados», objectou o historiador brasileiro Jaime Pinsky, pronunciando-se sobre o tema num debate ontem realizado em São Paulo, no âmbito da 23ª Bienal Internacional do Livro.

Está cheio de razão: o primado da fonética anula o espírito normativo que deve conformar toda a convenção ortográfica, instituindo uma escrita à la carte. Se em Lisboa, por exemplo, não falta quem diga mêmo em vez de mesmo, tar em vez de estar ou joálho em vez de joelho, escreva-se assim. Se em Braga se diz barrer em vez de varrer, escreva-se assim. Se em Beja se diz pinhêro em vez de pinheiro, escreva-se assim.
É uma lógica que não aguenta dois segundos de análise. Nem dois segundos de discussão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Em Angola não há só petróleo

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.08.14

"O reconhecimento da fragilidade do texto do AO90 é praticamente consensual e há cidadãos dos países da CPLP, que, por falta de um prontuário ortográfico que lhes sirva de referência, misturam as duas ortografias, incluindo os próprios professores. O que se pressupunha que iria unir a grafia em português, nunca se irá concretizar, tal como a maior difusão internacional da Língua Portuguesa e uma maior facilidade da aprendizagem para o próprio idioma. Para que serviu afinal o Acordo Ortográfico?" - Wa Zani, Jornal de Angola, 27/08/2014

Autoria e outros dados (tags, etc)

A língua em constante evolução

por Pedro Correia, em 27.08.14

Ouço a todo o momento à minha volta o verbo "desamigar". Sinto-me marginalizado: até hoje ainda ninguém me "desamigou".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Onra aos omens onestos

por Pedro Correia, em 15.08.14

Como era de esperar, os brasileiros não estão satisfeitos com o "acordo" ortográfico. E avançam já com novas sugestões para desfigurar ainda mais a ortografia portuguesa: eliminar a consoante H no início das palavras e substituir CH por X.

Genial. Homens honestos tornam-se omens onestos da noite para o dia e a honra encurta-se para onra. Tudo a golpe de engenharia legislativa liderada por analfabetos funcionais.

Mais fantástico ainda é o método sugerido para aprovar o novo pacote de alterações ortográficas: organizar uma "videoconferência". E porque não por SMS para encurtar razões?

Ou muito me engano ou não tardarão uns imbecis a defender o mesmo por cá. Há (ou "á"?) gente capaz de apanhar qualquer comboio - ou trem - desde que esteja em andamento.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Saber escrever, saber escutar

por Pedro Correia, em 02.08.14

 

O Joel Neto escreve aqui algo que há muito penso também sobre tradução: é infelizmente cada vez maior o número daqueles que entre nós cultivam a tradução literal de textos literários, à margem de considerações estéticas, como se estivessem a traduzir um relatório árido e burocrático. Sem entenderem, como o Joel salienta -- e muito bem -- no diálogo com um leitor na caixa de comentários do seu blogue, que "um livro inglês traduzido para português é um livro português. As únicas regras a que tem de submeter-se são as do português. Inclusive do ponto de vista melódico".

Não perceber isto é nada perceber de essencial nesta matéria.

 

Qualquer texto em português, ainda que possua matriz estrangeira, torna-se património da nossa língua. Com as suas particularidades, o seu ritmo, a sua semântica muito própria, a sua inconfundível eufonia. Porque cada idioma tem a sua própria cadência musical. Não sabe escrever quem não sabe escutar.

O sujeito elidido ou subentendido é uma dessas características que conferem subtileza ao nosso idioma. Enquanto noutras línguas, designadamente o inglês, as regras determinam a menção expressa do sujeito, a nossa regra impele-nos à omissão do nome ou até do pronome assim que ele nos tenha sido apresentado.

Um exemplo básico:

"Clara went away. She left everything behind."

Não faz sentido traduzir este trecho assim:

"Clara foi embora. Ela deixou tudo atrás de si."

Mas já fará sentido traduzi-lo desta maneira:

"Clara partiu. Deixou tudo para trás."

 

 

A propósito, não sei se já repararam. Esta é uma das maiores diferenças entre os diálogos pretensamente "naturais" ou "realistas" das telenovelas e os diálogos da vida real:

- Ó João, vamos sair esta noite?

- Não posso, Maria. Tenho que trabalhar.

- Ó João, mas tu tinhas prometido...

- Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo.

São duas pessoas lado a lado num sofá (nunca falta um enorme sofá em qualquer telenovela). Tudo muito solto e despachado. Único problema: ninguém na vida real fala assim. Quantas vezes mencionamos o nome da pessoa que se encontra ali em casa, à nossa frente, trocando connosco umas frases banais do quotidiano?

Estamos perante um truque retórico que os autores dos guiões utilizam para ajudar os espectadores a memorizar o nome das personagens. Mesmo à custa da verosimilhança que dizem cultivar com esmero e afinal desmentem em cada frase.

 

A tradução literária, quando é competente, não se ocupa apenas do idioma: ocupa-se da qualidade da escrita. Não numa pretensa fidelidade à letra original levada ao extremo, mas na fidelidade ao espírito do autor para melhor o reproduzir no texto traduzido.

É aliás neste sentido que se diz com frequência que As Minas de Salomão, de Henry Rider Haggard, "ganharam" qualidade literária na célebre tradução de Eça de Queirós. Ou, em sentido inverso, ainda hoje nos chegam os ecos da tradução francesa do romance A Selva, de Ferreira de Castro, feita por Blaise Cendrars -- que alguns garantem ser superior ao original.

 

Como é frequente dizer-se, o tradutor trai. É um facto. E ainda bem: nunca nenhum texto, ao ser transposto para outro idioma, será traduzido de forma competente através de uma simples colagem de vocábulos.

Costumo ilustrar isto com títulos de filmes. Nunca saberemos quem se lembrou de traduzir Gone With the Wind por E Tudo o Vento Levou, algo muito mais intenso e radical. Mas devemos estar gratos a tal pessoa. Porque o título português, que se tornou uma expressão idiomática, faz sentido no contexto e adequa-se ao conteúdo. "Levado (ou levada?) pelo Vento", tradução literal na voz passiva, deixa-nos tão indiferentes como se estivéssemos a contemplar uma parede de tijolos.

E nunca poderemos agradecer bastante a quem se lembrou do título Bem-Vindo, Mr. Chance para baptizar em português a obra-prima de Hal Ashby protagonizada por Peter Sellers. Ao ponto de não faltar quem garanta que o título original deste filme de 1979 é "Welcome, Mr. Chance".

Não é: chama-se Being There.

Mas algum de nós guardaria dele tão boa memória se algum burocrata de turno, como se recebesse um relatório para traduzir, lhe tivesse chamado "Estando Ali"?

 

Em cima: fotograma do filme Bem-Vindo, Mr. Chance

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (107)

por Pedro Correia, em 24.07.14

Governo-Sombra (TVI 24)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (106)

por Pedro Correia, em 23.07.14

 

Sporting TV

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dislate ou diz late?

por Pedro Correia, em 22.07.14

«Não tenho por hábito fazer sensura mas não tulero insultos, difamações e desrespeito, pelo que apagarei comentários infames e com grande probabilidade bloquiarei no meu Facebook o autor/a.»

A frase é de uma deputada da nação, supostamente licenciada em Antropologia, e está a causar furor (se eu fosse "antropólogo" talvez escrevesse foror) nas redes sociais. Alega a senhora que estava muito cansada à hora a que escreveu aquela frase, digna de antologia, nesse espelho público da ignorância privada que é o Facebook. Diz ainda que se esqueceu (ia eu já a escrever esquesseu...) de aplicar o corrector ortográfico para evitar aquelas gralhas mentais que lhe saíram das pontas dos dedos.

Mesmo assim - cansaço (será cançasso?) a mais e corrector a menos - nada justifica três erros de palmatória numa só frase. O que diz quase tudo sobre a falência do nosso modelo de ensino e sobre a falta de exigência dos estados-maiores partidários na hora (será ora?) de recrutar militantes para a frente parlamentar.

Eu, se pudesse, bloquiava deputados com excesso de tulerância ao dislate. Será dislate ou diz late? Vou ali espreitar o curretor e volto já.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resistência activa ao aborto ortográfico (105)

por Pedro Correia, em 07.07.14

Manifestação de médicos (Jornal da Noite, SIC, hoje)

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D