Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Faixa-do-meio-CS-e1410947670414[1].jpg

 

Um editorial não é uma crónica. Convém que os membros da direcção de um jornal sejam os primeiros a não estabelecer confusões entre os dois géneros jornalísticos. Com clareza e rigor.

A crónica reflecte uma visão pessoal, necessariamente muito subjectiva e de preferência original sobre um tema qualquer à escolha do autor. Pode ser até sobre o bei de Tunes, para evocar o clássico exemplo de Eça de Queirós, quando era afectado por uma súbita crise de inspiração ou vogava num deserto de ideias. "Em Tunes há sempre um bei; arrasei-o", confessou o escritor, com óbvia ironia, em carta a Pinheiro Chagas.

O editorial, pelo contrário, reflecte a posição do próprio jornal. Não é escrito na primeira pessoa do singular e abarca uma gama mais reduzida de temas - debruçando-se de preferência sobre um dos assuntos dominantes da actualidade noticiosa do dia.

 

No editorial de hoje do El País podemos ler a posição do mais influente periódico espanhol sobre a rede de corrupção que afecta o PP madrileno. O editorial do Guardian pronuncia-se em termos críticos sobre a convocação de eleições legislativas antecipadas no Reino Unido, ontem anunciada por Theresa May. O editorial do Washington Post emite um forte juízo crítico sobre o recente referendo turco, ganho tangencialmente por Erdogan.

Por cá, nas direcções de jornais, há quem confunda editorial com crónica. Escrevendo sobre irrelevâncias na primeira pessoa do singular, confundindo opinião própria com opinião do jornal. Exemplo? Aqui vai um, também de hoje: «Como tantos outros portugueses, quando viajo numa estrada com três faixas tenho uma tendência quase irresistível para seguir pela do meio. Viajar na faixa central coaduna-se com a velocidade moderada a que conduzo e permite-me manter as opções em aberto.» Começa assim o editorial do i, assinado por José Cabrita Saraiva, "subdirector executivo" (passe a redundância).

Como se estivesse numa conversa de café, a cavaquear entre amigos.

 

Tanto se fala hoje na crise do jornalismo. Pois essa crise começa precisamente em pormenores como este: um membro da direcção de um jornal não fazer a mais remota ideia do que é um editorial. Num país que, noutros tempos, contou com uma Agustina Bessa-Luís, um Vitorino Nemésio, um David Mourão-Ferreira, um Francisco de Sousa Tavares, um Mário Mesquita ou um Vicente Jorge Silva entre os editorialistas da imprensa.

Vai um abismo entre uma época e outra.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um traço de união 27 anos depois

por Pedro Correia, em 06.03.17

publico_n1_600[1].jpg

 

Trabalhar no Público foi uma experiência única, irrepetível. Ter integrado a equipa da fundação do jornal - que andou durante meses a fazer números zero - foi ainda mais gratificante. Orgulho-me de ter figurado nessa primeira equipa daquele que continuo a considerar o melhor jornal diário jamais feito em Portugal.

O Público foi mais do que um jornal: foi um estado de espírito, que perdurou muito para além do espaço físico em que era elaborado. Refiro-me ao Público mais genuíno, o original, aquele que foi concebido e concretizado por um jornalista de excepção, o Vicente Jorge Silva. Que tinha como marcas editoriais a qualidade de escrita, a atenção à imagem, a valorização da ciência e da cultura, a recusa de um olhar paroquial sobre a actualidade noticiosa. E a irreverência, sempre a irreverência, contra os sucessivos poderes de turno.

Características que constituem traços de união entre os que por lá passaram. Isso ficou bem evidente neste sábado, quando nos juntámos no restaurante O Manjar do Marquês, em Pombal - uma das catedrais gastronómicas portuguesas. Éramos cerca de 120, dois terços vindos de Lisboa, os restantes oriundos do Porto.

 

Foi o meu baptismo no género, relutante que costumo ser às romagens de nostalgia, mais próprias da Liga dos Antigos Combatentes. Mas gostei muito de lá ir. De rever camaradas das lides jornalísticas que há muito não via, de conhecer enfim outros com quem nunca me tinha cruzado e sobretudo de confirmar como são sólidos os elos de cumplicidade entre diferentes gerações de jornalistas que tiveram o Público como denominador comum, em diferentes fases da vida do periódico - que ontem celebrou 27 anos de existência, já com poucos sobreviventes do ano da fundação no seu quadro redactorial.

Lá estavam o Joaquim Fidalgo, o João Seabra e o Carlos Lopes (dinâmicos organizadores deste encontro periódico de ex-jornalistas do Público). E o Fernando Sousa, meu parceiro ainda mais antigo de jornalismo, além de colega aqui no DELITO. E tantos outros: o Joaquim Trigo de Negreiros, a Sofia Branco, o Manuel Queiroz, a Paula Torres de Carvalho, o Rui Cardoso Martins, o Luís Francisco, o Jorge Baptista, o Pedro Caldeira Rodrigues, o José Vítor Malheiros, o António Granado, a Isabel Gorjão Henriques, o João Ramos de Almeida, a Lurdes Dias, a Joana Ferreira da Costa, a Ana Gerschenfeld, o Martins Morim, o Fernando Correia de Oliveira, a Anabela Natário, o João Manuel Rocha, o José António Cerejo, a Eunice Andreia, a Ana Machado, a Christiana Martins, o Rui Ferreira e Sousa, a Ivone Ralha, o Aníbal Fernandes, o José Queirós, a Cristina Sampaio.

Uma atmosfera única, de algum modo simbolizada nas festivas fotografias que reuniram três dos cinco membros da primeira direcção do jornal, ali presentes. O Vicente, o Jorge Wemans, o Fidalgo.

 

thumbnail_20170304_151135[1].jpg

 

Naquele momento pensei: se esta equipa voltasse a reunir-se não em torno de um caloroso almoço que se prolongou até ao fim da tarde mas de um projecto jornalístico, os leitores poderiam ter a certeza do que aí encontrariam: ousadia, desassombro, inovação, rigor e qualidade. Características que vão faltando, no todo ou em parte, ao jornalismo contemporâneo e que explicam boa parte do seu divórcio com as crescentes exigências da cidadania portuguesa.

O Vicente saberia explicar isto melhor que eu, num daqueles seus editoriais que nunca receavam suscitar polémica. Num tempo em que nenhum jornalista precisava de pedir licença para emitir opinião. Num tempo em que não havia responsáveis editoriais prontos a mudar de perspectiva sobre o mesmo assunto da noite para a manhã, medíocres cultores da blague de Groucho Marx: "Se as minhas ideias não lhe agradam, arranjo já outras."

Autoria e outros dados (tags, etc)

Independente

por Tiago Mota Saraiva, em 31.01.17

(publicado ontem no i)

 

É um qualificativo largamente sobrevalorizado nos dias que correm. Numa qualquer discussão não é invulgar fazer-se uma nota prévia de independência como argumento de autoridade sobre os demais.

No jornalismo actual a independência é uma vaca sagrada. Ainda que a experiência jornalística marcante dos anos 90, homónima do adjectivo, tenha estado longe de ser independente como o seu título sugeria, permanece uma interpretação mitológica do ser independente.

No recente Congresso dos Jornalistas, Pedro Tadeu – director na Global Imagens, colonista no DN e militante do PCP – propôs que os jornalistas registassem uma declaração de interesses. A organização do congresso esqueceu o seu nome e posição no jornalismo, para titular no seu site: “Jornalista do PCP defende registo de interesses”. Mesmo que não estivesse em representação do partido e não se conheça a sua posição sobre o que Tadeu defendeu – sendo, para o caso, pouco relevante titular a sua militância – quem escreveu e quem detinha a direcção editorial do site, não tiveram dúvidas em manter o título. Tendo passado pelo referido congresso históricos militantes de outros partidos em nenhuma outra peça se titulou militâncias.

No jornalismo actual glorifica-se a independência cuidando-se pouco da isenção e da pluralidade. Como leitor, entendo que não devo exigir independência a um jornalista, ainda que possa achar relevante ter uma ideia sobre as suas filiações. Quando leio um artigo sobre o Benfica posso achar relevante saber que o seu autor é do Sporting. Esse dado informa o leitor, mas não qualifica ou desqualifica o artigo. O jornalista deverá procurar escrever de uma forma isenta e registando a diversidade de factos e opiniões que considera relevantes sobre a matéria.

A reivindicação de um jornalismo independente é uma batalha falsa que, em limite, obriga o cidadão-jornalista a uma semi-clandestinidade sobre o que pensa. Não será por acaso que, no momento em que há mais gente a bater com a mão no peito afirmando-se independente, as redacções vão ficando mais pobres de jornalismo e os órgãos de comunicação social menos plurais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 30.01.17

450849[1].jpg

 Rita e Catarina Almada Negreiros com a avó, Sarah Afonso (1983)

 

1

Confesso-me cada vez mais farto do culto da banalidade, da apologia da irrelevância, da propagação do mau gosto em doses cavalares: o jornalismo anda a copiar o pior das redes sociais. Com o mesmo esquematismo, a mesma superficialidade, a mesma falta de memória.

Quantas vezes não vos sucedeu já, como sucede com frequência comigo, comprar jornais que não vos apetece ler por absoluta falta de matéria noticiosa digna desse nome?

 

2

Voltei a fazer o exercício este fim de semana ao comprar vários jornais num quiosque: encontrar lá assunto com interesse é quase como pesquisar agulha no palheiro. Deparamos com a despudorada invasão da privacidade das chamadas "figuras públicas", o boato travestido de notícia, a conversa de porteira armada em "análise política", o crime mais boçal erigido em matéria informativa de excelência, a sistemática tentativa de nivelar tudo por baixo.

Felizmente ainda existem inesperados oásis de qualidade, remando contra a maré dominante. Ao folhear a revista Magazine, adquirida com o Diário de Notícias, deparo com uma entrevista de rara qualidade às duas netas de Almada Negreiros, Rita e Catarina. Que evocam recordações do avô, uma das figuras mais relevantes da cultura portuguesa do século XX, e também da avó, a pintora Sarah Afonso. É uma entrevista longa, para ler devagar, saborear. Com revelações familiares, mas sem indiscrições. Uma entrevista com linguagem elegante, com emoção contida, como quase já não se usa. Estão de parabéns as entrevistadas e a jornalista Alexandra Tavares-Teles, que tão bem soube dialogar com elas.

 

3

Descubro no suplemento de outro jornal - o P2, do Público - uma crónica que me prende igualmente a atenção. É assinada por uma redactora deste diário, Maria João Lopes, e também vai contra a corrente, sublinhando a importância do olhar, insubstituível no percurso diário de um profissional da informação. O universo de um jornalista não pode confinar-se às quatro paredes de uma redacção, por maior que esta seja, nem a um ecrã de computador, por mais longe que pretenda conduzir-nos. Nada no mundo virtual substitui o mundo real. Com os seus ruídos, os seus odores, as suas rugosidades, as suas asperezas, a sua inesperada e estonteante fragmentação.

A cronista fala-nos um pouco de tudo isto. "Andar a pé conta-me tantas histórias como abrir o jornal todos os dias. Faz-me falta andar a pé horas, perceber que essa ideia dos tempos mortos afinal não existe, que esse tempo morto está vivo. Um repórter tem de andar a pé, sem medo de se perder e de perder tempo. Porque vai chegar muitas vezes (ou sempre) a lado nenhum. Mas aí vai haver, claro, uma história para contar".

Nada tão fora de moda, nada tão urgente. Valeu a pena comprar o Público só para ler este texto que incentiva os repórteres a caminhar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

15976980_1417844864916153_6307512897608075657_n.jp

Para quem assistiu, na passada Sexta-feira, à inédita mesa redonda com dezanove directores de jornais, rádios e televisões nacionais no âmbito do 4º Congresso dos Jornalistas que decorreu no Cinema São Jorge, em Lisboa, não teve muitas razões para sair de lá entusiasmado com a dinâmica e conteúdo do debate. Talvez se deva ao facto de há anos a esta parte se discutirem os mesmos problemas e a eterna questão do “futuro” do jornalismo, sem que se encontre uma qualquer solução mágica para a criação de um modelo sustentável. Além do mais, continuam-se a notar os mesmos vícios e defeitos de uma classe que, em Portugal (e aqui há grandes diferenças em relação a outros países), há muito devia ter feito um exame de auto-consciência e parado para pensar sobre os seus próprios erros. Aliás, este teria sido o primeiro passo para que os responsáveis pelo jornalismo no nosso país começassem por admitir as suas falhas.

 

Não deixa também de ser sintomático que entre 19 directores dos mais importantes meios de comunicação social do país ali presentes só estivessem lá duas mulheres, Graça Franco (RR) e Mafalda Anjos (Visão). E o mais extraordinário é que lendo os vários artigos de imprensa que têm saído sobre o Congresso não se vê qualquer referência a este facto embaraçoso, para um sector que advoga estar na vanguarda das ideias e do pensamento. Porém, não hesitam em fazer essas contas quando se estão a referir a um Governo ou a uma administração de uma entidade pública ou grande empresa privada. Ainda mais revelador da inconstância deste sector em Portugal, é constatar que a maioria dos directores ali presentes têm entre um a dois anos dessas funções.

 

Seria saudável que esse processo introspectivo já tivesse ocorrido mas, infelizmente, não aconteceu e, por isso, não é de estranhar quando se ouve Ricardo Costa (SIC) a admitir que a qualidade do jornalismo que se faz naquela televisão ou no Expresso (onde foi director) é hoje muito menor do que há uns anos. A oferta é mais vasta, mas a qualidade diminuiu. E o problema, como disse ainda Ricardo Costa, nem se coloca ao nível das audiências, mas sim nos modelos de negócio que sustentam os órgãos de comunicação social. Também Pedro Santos Guerreiro (Expresso) considera que nunca houve tanta oferta tecnológica e uma audiência tão vasta para se informar, mas o problema é como valorizar financeiramente o produto que se disponibiliza, quase sempre de borla. Uma ideia partilhada também pelo director do Público, David Diniz, que valoriza as ferramentas tecnológicas que existem hoje em dia para se poder conhecer melhor os hábitos dos leitores.

 

Foi quase unânime entre os vários directores de que a gestão do “negócio” está cada vez mais presente no seu quotidiano, a admitirem que dedicam bastante tempo a assuntos que pouco ou nada têm a ver com temas editoriais. Quase todos disseram que gostariam de investir mais tempo nestas matérias, no entanto, também admitem que as horas que perdem nas áreas de marketing ou de recursos humanos é uma outra forma de estarem a contribuir para a sobrevivência ou evolução do seu meio de comunicação social.

 

A juntar-se a estas questões de “negócio”, há aquilo que João Paulo Baltazar (Antena 1) classificou de “agenda asfixiante”, onde os jornalistas estão cada vez mais sujeitos a uma multiplicidade de acções que os deixam sem tempo para reflexão e investigação. Aliás, a falta de tempo foi uma das principais queixas dos directores. O mote de João Paulo Baltazar é, por isso, certeiro: “Fazer menos, fazer melhor, pensar mais."

 

É verdade que, com a imposição da realidade do digital e das redes sociais, começaram a ser ensaiadas diferentes formas de adaptação do jornalismo aos novos tempos da comunicação e informação. As soluções de vanguarda vieram sempre do universo anglo-saxónico ou então de jornais como o El País, mas nem sempre com os resultados esperados. É uma descoberta que ainda está a ser feita. O tão esperado retorno no digital nunca chegou, apesar de alguns jornais terem dados interessantes para mostrar. É inegável que a emergência de inúmeras plataformas comunicacionais veio alterar por completo a forma de se consumir informação, seja num jornal, televisão ou rádio.

 

Em Portugal, essa tentativa de adaptação aos “novos tempos” aconteceu de forma muito mais lenta e, olhando para aquela mesa redonda, percebe-se, mais uma vez, que o jornalismo no nosso país sofre de problemas muito específicos, apesar de muitas vezes se tentar “vender” a ideia que são comuns ao que se passa noutras realidades. A verdade é que muitos desses problemas exclusivos da nossa realidade nacional têm a ver com a própria arrogância, presunção, corporativismo e até mesmo incompetência com que muitos “senhores” do jornalismo encaram a profissão. E como se isso não bastasse, o jornalismo e os jornalistas portugueses, ao contrário do que acontece noutros países, nunca tiveram um escrutínio a sério. O papel de entidades como o Sindicato dos Jornalistas ou a Comissão da Carteira está perto da irrelevância e nem sequer vale a pena falar do princípio da auto-regulação, até porque para isso acontecer era preciso que todos os directores e jornalistas tivessem a noção de responsabilidade e brio profissional naquilo que fazem e hoje em dia é duvidoso que tal aconteça. Quanto ao espírito crítico dos próprios leitores e consumidores de informação, está tudo dito: cada vez disponibilizam menos dinheiro para ter informação, ou seja, valorizam cada vez menos aquilo que jornais, televisões e rádios produzem. E enquanto tudo isto assim for, por mais congressos e lamentos que se façam, nunca será possível elevar o jornalismo português para outro patamar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não, isto não pode ser o jornalismo em 2017

por João André, em 13.01.17

Nos últimos dias explodiu uma bomba de Carnaval adiantada nos EUA. O site de notícias Buzzfeed decidiu publicar um relatório, não confirmado, de um espião britânico especialista sobre a Rússia, onde estaria indicado que a Rússia teria material incriminatório sobre Donald Trump e que o poderia usar para influenciar o futuro presidente dos EUA.

 

A razão para o relatório dar este barulho todo está ligada a próprio Trump. É de facto possível vê-lo a cair na "honey trap". E possível imaginá-lo a compremeter outros para aassegurar algumas promessas que fossem para si vantajosas. É possível imaginá-lo como cedendo aos jogos de Putin ou sua entourage. É, portanto, credível nas conclusões.

 

Só que isso por si só não pode ser razão para justificar a publicação do relatório por parte de um meio de comunicação social que quer ser credível. É uma das regras de ouro do jornalismo: verificação independente. Tudo o que seja menos que isso é perseguição, especulação e falta de ética. Mesmo nas páginas de opinião tal documento estaria mal.

 

A primeira emenda da constituição dos EUA protege enormemente a liberdade de imprensa. Por vezes dá a sensação de ser demais, mas no geral os benefícios compensam enormemente os problemas. Isso significa que o site Buzzfeed consegue estar relativamente a salvo, especialmente com a sua indicação que o relatório não tinha confirmação. Só que isso não os deve deixar a alvo da condenação pública. A publicação de tal relatório pode de imediato ser usada para atacar Trump com informação, na melhor das hipóteses incerta, e na pior falsa. Isso não é estratégia de um bom meio de comunicação social. É a estratégia de lixo como o Breitbart "News".

 

O pior foi no entanto a justificação do editor chefe do Buzzfeed, escrevendo aos seus trabalhadores, que é «assim que vemos a função dos jornalistas em 2017». Ou seja, publicação de relatórios não verificados, escrevendo que os americanos podem decidir por si próprios. e sem fazer uma avaliação crítica ou proceder a uma investigação independente. Por outras palavras, o site Buzzfeed está a resumir o trabalho dos repórteres à função de multiplicadores de boatos com um mínimo de comentário paralelo, pouco menos que aquilo que bloggers fazem.

 

É indiferente qual o alvo de tal acção ou quem a comete. O jornalismo não é isto. Isto é o que fazem os sites de clickbait e notícias falsas. Do jornalismo espera-se mais, é por isso que está, sob uma forma ou outra, protegido pela constituição de qualquer estado de direito onde exista liberdade. A minha opinião sobre Trump não se modificou (talvez tenha piorado), mas qualquer pessoa merece um jornalismo correcto. Ao negar tal ao próximo presidente dos EUA, o site Buzzfeed não só se nega a fazê-lo como presta um péssimo serviço ao jornalismo em 2017.

 

PS - como é óbvio não deixarei qualquer link para o relatório.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Falta uma Ordem de Jornalistas

por Pedro Correia, em 13.01.17

 

19364619_fla2y[1].jpg

 

A memória colectiva é cada vez mais curta, mas os leitores lembram-se ainda do que aconteceu há um ano: dois dos mais influentes órgãos de informação portugueses iniciaram uma série de fantásticas revelações sobre uns tais “papéis do Panamá” que prometiam abalar as oligarquias dominantes. Reuniram equipas de trabalho, destinaram espaço nobre e manchetes garrafais ao assunto e juravam que estava de volta o “jornalismo de investigação”.

O que aconteceu? De súbito, as violas foram guardadas no saco. Não houve revelação bombástica alguma, as equipas de reportagem dissolveram-se e os mesmos órgãos de informação que trombeteavam rios de autopromoção contra a corrupção ancorada em supostos paraísos fiscais remeteram-se ao silêncio. Nunca mais ouvimos falar nos “papéis do Panamá”, tudo regressou à habitual anestesia colectiva, dominada pelo futebol, agenda política e  “casos de polícia”, entremeados por graçolas de “redes sociais” para divertir a plebe.

 

Decorre agora o quarto Congresso dos Jornalistas – o primeiro que se realiza em Portugal desde 1998. Gostava que ali se levantassem várias vozes questionando o que aconteceu aos “papéis do Panamá”. Gostava que também que os congressistas tivessem a ousadia de perguntar a si próprios por que motivo a pressão de uns quantos inviabilizou até hoje o aparecimento de uma Ordem de Jornalistas, semelhante às que regulam as mais diversas profissões – médicos, advogados, arquitectos, farmacêuticos, engenheiros, psicólogos, enfermeiros, biólogos, economistas, notários, nutricionistas, veterinários.

Disseram-nos na altura, numa frase de forte efeito, que “os jornalistas não podem ser metidos na Ordem”. Acontece que, sem Ordem, generalizou-se o desemprego e multiplicou-se a precarização, marginalizando e condenando à irrelevância muitos dos melhores quadros jornalísticos.

Ao contrário do que referiu ontem Marcelo Rebelo de Sousa, interveniente na sessão inaugural (o que não deixa de ser irónico), o jornalista não deve ser “antipoder”. O jornalista deve, isso sim, exercer de forma ilimitada o único poder que está ao seu alcance – o poder de fazer perguntas, no livre exercício do direito à dúvida que neste ofício se institui em dever deontológico. Sem nunca esquecer que um jornalista não é um juiz. Existe para mostrar, relatar, descrever, explicar. Não existe para condenar liminarmente ninguém e muito menos para pendurar seja quem for em pelourinhos públicos.

 

Perguntem - sem preconceitos ideológicos nem condicionalismos de qualquer espécie - se deve haver Ordem de Jornalistas. Mas perguntem sobretudo quando irá ela surgir. Para regular o acesso à profissão, dignificá-la, combater a proletarização galopante dos seus quadros e traçar fronteiras claras entre quem merece e quem não merece ser portador de carteira profissional em função de parâmetros deontológicos muito rigorosos e adaptados aos novos desafios e às novas exigências deste ofício.

Falar sem agir nesta direcção é chover no molhado. E passar mais dezanove anos de contínua e resignada degradação profissional, até ao próximo congresso. Se então ainda restar alguém no jornalismo em Portugal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Director, um lugar precário

por Pedro Correia, em 05.01.17

Directors Chair[1].png

 

Há oito meses, escrevi aqui um artigo que dava nota de um facto inimaginável há poucos anos: não existe hoje cargo tão precário num órgão de informação como o de director.

Isto afecta toda a cadeira hierárquica, introduzindo um factor adicional de perturbação no funcionamento das empresas jornalísticas. Os directores - que deviam ser uma referência de estabilidade junto dos restantes profissionais - estão afinal sujeitos aos estados de alma de quem os tutela na estrutura accionista. Duram em funções quase tão pouco tempo como os treinadores de futebol: em apenas 14 jornadas do campeonato nacional da modalidade, já  nove treinadores - metade do total - foram substituídos.

As "chicotadas psicológicas" sucedem-se no jornalismo. O que contribui para o descrédito e a desvalorização social da profissão, que já foi uma das mais conceituadas em Portugal.

 

Em Abril dei nota no DELITO de uma estatística relevante: 16 títulos jornalísticos (72,7% do total) tinham directores em funções havia menos de dois anos.

Desde então já se registaram várias mudanças. Bárbara Reis anunciou em Maio que deixaria a direcção do Público, ao mesmo tempo que se tornava conhecida a transferência de David Dinis da TSF para o diário da Sonae, dando por sua vez lugar na rádio a Arsénio Reis, que ali iniciou funções há quatro meses. Em Junho, André Macedo demitiu-se de director do Diário de Notícias, sendo substituído em Setembro por Paulo Baldaia. Também em Junho, João Garcia cedeu o lugar de director da revista Visão a Mafalda Anjos.

André Macedo não chegou a completar dois anos no posto cimeiro do DN: só lá esteve 22 meses, antes de se transferir para a RTP, onde é hoje director-adjunto.

João Garcia foi director da Visão durante um ano exacto.

David Dinis não permaneceu mais de quatro meses ao leme da TSF.

Bárbara Reis foi excepção: aguentou-se sete anos à frente do Público.

 

Entretanto o Diário Económico, que vegetava já só na edição digital, encerrou de vez. Passou a haver duas novas publicações - ambas na área económica, o que é um significativo sinal dos tempos: o Jornal Económico, surgido em Setembro com Vítor Norinha como director, logo promovido a director-geral da empresa proprietária, passando o seu anterior lugar a ser ocupado a partir de Dezembro por Filipe Alves, até aí director-adjunto; e desde Outubro o Eco - só com edição em linha -, sob a direcção de António Costa.

Veremos se vieram para ficar, como rezava um antigo slogan publicitário de uma marca de automóveis.

 

Balanço: de 23 títulos jornalísticos, apenas sete - menos de um terço - têm directores há mais de dois anos. E só um ultrapassou a década nestas funções - caso absolutamente excepcional.

Fica o registo destes resistentes:

Vítor Serpa (director do diário A Bola desde 1992).

Octávio Ribeiro (director do Correio da Manhã desde Março de 2007)

Graça Franco (directora da Rádio Renascença desde Janeiro de 2009)

José Manuel Ribeiro (director do jornal O Jogo desde Maio de 2011)

Rui Hortelão (director da revista Sábado desde Novembro de 2013)

António Magalhães (director do Record desde Setembro de 2014)

Afonso Camões (director do Jornal de Notícias desde Outubro de 2014)

 

Certamente não por acaso, três destes sete profissionais trabalham no mesmo grupo editorial - a Cofina, que se assume assim como uma aparente ilha de estabilidade no meio das convulsões que agitam o sector.

Mais curioso é o facto de entre os sete veteranos figurarem os responsáveis máximos dos três diários desportivos portugueses. Felizmente para eles, os jornais que dirigem noticiam "chicotadas psicológicas" no futebol mas parecem pouco afectados por elas.

Ao contrário de muitos outros, num tempo em que o jornalismo imita o pior do futebol.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pacheco e a "excepção" comunista

por Pedro Correia, em 15.12.16

mw-860[1].jpg

 Foto: Fernando Veludo/Lusa

 

O recente congresso do PCP em Almada foi a expressão mais acabada de um acto litúrgico transposto para a política: nada se discutiu, nada se pôs em causa. Todos os delegados se sucederam na tribuna, numa coreografia pré-estabelecida com rigor mecânico, repetindo a velha litania comunista sem o mais leve sobressalto de dúvida.

Foi um congresso que terminou no momento em que começava. Porque tudo já estava decidido de antemão. Para fora do "partido com paredes de vidro", na expressão algo irónica de Álvaro Cunhal, nada transpareceu - aliás com a lamentável cumplicidade de um jornalismo complacente.

 

Registou-se debate interno sobre o adiado processo de sucessão de Jerónimo de Sousa?

Houve críticas à notória subalternização do PCP na impropriamente chamada "geringonça"?

Terão soado alertas perante a contínua descida do partido nas sondagens à custa do PS?

Mulheres comunistas ter-se-ão atrevido a contestar a absurda menorização de género na cúpula partidária, incluindo o Comité Central, onde a representação feminina ronda os 26%?

Escutaram-se vozes de perplexidade perante a acumulação de um  rico património imobiliário no partido que diz representar os pobres?

Alguém terá arriscado insurgir-se contra o facto de o PCP figurar na primeira linha da defesa desse controverso privilégio que isenta igrejas e partidos do pagamento do IMI?

 

Perguntas que permanecem sem resposta.

Nem um sussurro a respeito de qualquer destes temas se escutou no congresso de Almada: o PCP subsiste em larga medida à margem do escrutínio mediático, o que constitui um atestado de incompetência ao nosso jornalismo político, bafejado com a surpreendente condescendência de Pacheco Pereira, em regra tão exigente na necessidade de conferir transparência aos mecanismos de decisão política, não apenas em Portugal mas ao nível das estruturas comunitárias.

Dois pesos, duas medidas.

 

"O PCP não pode ser analisado com os mesmos critérios dos outros partidos. Tem que se usar outro tipo de critério para o PCP, que não é propriamente um partido político: é uma comunidade muito especial, com códigos próprios", declarou há dias o biógrafo de Cunhal no programa Quadratura do Círculo, da SIC Notícias. Caucionando com estas suaves palavras o manto de silêncio que envolve os comunistas, embalados nas certezas do materialismo dialéctico, do determinismo histórico e dessa espécie de fatalidade biológica que impede um burguês de adquirir "consciência operária".

Como se a tribo vermelha permanecesse imune às paixões humanas. Como se ali não houvesse o que existe nas restantes forças partidárias, por vezes até em doses reforçadas: divergências políticas, animosidades pessoais, carreirismo militante, lutas pelo poder, anátemas à dissidência.

Como se o dever dos jornalistas não fosse iluminar o que é obscuro - seja na burocracia de Bruxelas, seja na oligarquia partidária em Lisboa. Sem excepções de qualquer espécie.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Três livros (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.12.16

A imprensa portuguesa de Macau.jpg

 "(...) [G]ostaria desde já de chamar a vossa atenção para as citações iniciais da obra que de uma forma simples nos introduzem naqueles que são os grandes debates, não só da imprensa portuguesa em Macau, mas do jornalismo e dos media em geral, o que eu resumiria em quatro pontos:

 1. Qual o papel do jornalista no mundo contemporâneo;

 2. Como podem os cidadãos reconhecer a verdade na informação que lhes chega;

 3. Qual o sentido da actividade jornalística;

 4. Como lidar com o gigantesco caudal informativo que nos inunda o quotidiano.

O livro não responde a estas quatro questões, antes nos alerta para elas e para o trabalho de quem faz a imprensa, alcançando-o de um modo singular. Isto é, recorrendo ao passado recente para nos dar uma panorâmica nos seus sete capítulos das diversas fases por que passou a imprensa portuguesa em Macau, das suas preocupações e linhas de orientação, indo até à situação profissional dos jornalistas. Desse modo, é-nos permitido inteirarmo-nos das dificuldades e vicissitudes por que a classe passou e que a preocupam, bem como sobre os seus dramas, incertezas e perspectivas, tarefa executada sem esquecer uma abordagem dos principais instrumentos jurídicos que regulam, ainda que imperfeitamente, a profissão, o que é conseguido pela mão experiente do Dr. Frederico Rato.

Para além de registar o cuidado colocado na investigação e redacção dos textos de José Carlos Matias — que me fez regressar aos anos conturbados do vieirismo tardio —; de Diana do Mar — dando conta das dezenas de jornalistas que fizeram da Tribuna, do Ponto Final e do Hoje Macau o que são e de como na adversidade é possível trilhar um caminho —; de Sónia Nunes — cujo sintetismo e espírito analítico importa ressaltar; de Marco Carvalho — que nos deixou um retrato cuidado da nova classe —; e de ter havido o cuidado de se registar a opinião de quem lê a imprensa; do conjunto de capítulos do livro saliento, em especial, a interessante abordagem que é feita em "Olhares cruzados sobre a imprensa", onde o Prof. João Figueira conversa com os directores dos jornais Tribuna de Macau e Hoje Macau, com o editor do Clarim, com o director de uma empresa de publicações e consultoria, com o chefe de informação e programas portugueses da TDM-Rádio Macau e com um jornalista que sendo hoje proprietário de um jornal também foi seu director.

Aspectos como a subsidiação pública, o reflexo desta na liberdade de imprensa, a formação e o percurso de profissionais que demandaram Macau não foram descurados, o que contribui para a actualidade e acutilância da discussão, oferecendo-nos uma imagem rigorosa do salto qualitativo que ocorreu com a injecção de sangue novo.    

Como o título da obra denuncia, a abordagem é feita na perspectiva dos últimos quinze anos, prazo relativamente curto para historicamente se retirarem conclusões. É, todavia, tempo suficiente para se adquirir uma visão global das incertezas e se poder projectar o futuro, que é aquilo que hoje preocupa jornalistas, editores e os cidadãos de Macau em geral, entre os quais me incluo. (...)" (Excerto das notas que guiaram a apresentação que me foi confiada, 05/12/2016, Fundação Rui Cunha)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Consequências

por Alexandre Guerra, em 04.12.16

Desconhecia até ontem quem era Michael Finkel, quando vi o filme True Story, baseado em factos reais. Não foi tanto a história do filme que me prendeu a atenção, mas sim uma das cenas iniciais que ocorre em 2002, em que Finkel, na altura tido como um jornalista de topo do New York Times, é despedido daquele jornal porque adulterou uma reportagem sobre escravatura infantil na Costa do Marfim. Para quem gosta de bom jornalismo, é reconfortante ver a implacável conversa que a sua editora e, presume-se, o chefe de redacção tiveram com Finkel para o confrontar com o seu erro e imputar-lhe as devidas consequências por ter infligido danos à reputação do jornal, à causa do combate à escravatura infantil e, sobretudo, ao jornalismo de referência. Felizmente, e uma vez que os erros acontecem, seja de forma involuntária ou por má fé, o jornalismo de referência anglo-saxónico tem-se revelado absolutamente impiedoso no "julgamento" destes casos e nas respectivas consequências. Mas, infelizmente, esse escrutínio não tem sido uma prática seguida por outros jornais (ditos de referência) em diferentes países, nomeadamente Portugal. É lamentável como ao longo dos anos, jornalistas e jornais de referência nacionais têm cometido os maiores atentados ao jornalismo sem que alguém seja demitido ou peça desculpa aos leitores. São vários os casos vergonhosos que me vêm memória, mas cujas consequências na defesa do jornal, do jornalismo e do interesse do leitor ainda aguardo para ver.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O DN sem Liberdade

por Pedro Correia, em 20.11.16

mw-860[1].jpg

Prémio Valmor 1940 deixa de ter um jornal lá dentro 

 

Este domingo é um dia muito triste na vida secular do Diário de Notícias. Mas é também um dia triste para Lisboa e para o jornalismo português. A capital perde um dos seus principais símbolos iconográficos – o primeiro edifício construído de raiz para albergar um jornal em toda a Península Ibérica deixa de ter um jornal lá dentro.

Por amarga ironia, o que a ditadura e a censura não conseguiram – retirar o DN do seu espaço histórico no topo da Avenida da Liberdade – conseguiram-no os poderes fácticos da democracia: o velho jornal onde escreveram tantas penas ilustres do nosso jornalismo e da nossa literatura, começando pela de Eça de Queirós, acaba de ser remetido para uma parcela de uma torre modernaça, próxima da Segunda Circular. Mais distante do bulício da cidade e do ruído da rua. Mais distante das pessoas concretas, de carne e osso.

Isto sucede quase sem um pestanejar de indignação da nossa “sociedade civil” numa semana em que o País andou dias e noites a discutir se dois presidentes de clubes passaram das palavras aos actos numa quase-briga de corredor num estádio de futebol. É um sinal dos tempos no declinar deste ano em que o Dicionário Oxford elegeu pós-verdade como palavra mais emblemática de 2016. Na era das “redes sociais” e da televisão interactiva, onde a suposta verdade é proclamada por quem berra mais alto, a nova palavra de algum modo assinala o dobre a finados do jornalismo.

 

Muita gente, que utiliza a resignação como flor na lapela, dirá que não havia volta a dar: são os cultores do “inevitável”, para quem todo o esforço de remar contra a maré é sempre inglório. O ar do tempo recomenda esta pose cínica: em regra, as energias são gastas a combater alvos remotos e abstractos – quanto mais longínquos melhor.

E no entanto, ao contrário do que possa por vezes imaginar-se, nem sempre foi assim. Na dobra do século, um movimento de jornalistas do próprio DN levou por diante um bem-sucedido surto de indignação que extravasou das paredes do diário para os meios políticos e culturais do País, travando a anunciada transferência do jornal para um espaço arrendado no edifício do Entreposto, em Moscavide. O Conselho de Redacção, de que fiz parte por eleição dos meus colegas, liderou esse movimento que se prolongou durante meses e foi coroado de sucesso. Graças a ele, o periódico fundado por Eduardo Coelho em 1864 manteve a sede durante mais década e meia na principal avenida de Lisboa.

Como porta-voz do Conselho de Redacção, escrevi um memorando sobre o edifício, inaugurado em 1940, galardoado nesse ano com o Prémio Valmor e que integra a lista do património arquitectónico da capital. Esse memorando chegou a centenas de personalidades de reconhecido relevo na vida pública do País.

Foram-se multiplicando as adesões a esse abaixo-assinado que contestava a transferência do DN. Não esqueço Agustina Bessa-Luís, que encabeçava a lista organizada por ordem alfabética e que do Porto nos dirigiu uma mensagem de inabalável solidariedade. Nem da calorosa mensagem que nos fez chegar José Saramago - entre vários outros escritores, de Lídia Jorge a Mário de Carvalho, de Mário Cláudio a Manuel Alegre. Nem das vibrantes palavras de Manuela de Azevedo, então (como hoje) prestigiada decana dos profissionais portugueses da comunicação social.

 

P1010023[1].jpg

 Painel de Almada Negreiros no piso térreo do edifício

 

Foram meses febris, a contra-relógio, antes da assinatura do contrato de arrendamento das novas instalações. Eu coordenava o processo e funcionava como porta-voz do movimento junto de outros órgãos de informação, a quem dava nota periódica das adesões. Era raro o dia em que não me chegavam novas mensagens, recolhidas por colegas como a Ana Marques Gastão, o Carlos Albino, o José Manuel Barroso, a Céu Neves, a Filomena Naves ou a saudosa Cadi Fernandes, entre vários outros. Da redacção Norte, sem a menor quebra de solidariedade apesar da distância física, chegavam palavras de apoio reunidas pelo Francisco Mangas, pela Ilídia Pinto ou pelo Fernando Madaíl.

Eu encarreguei-me sobretudo dos políticos – incluindo quatro dos cinco dirigentes partidários à época. Francisco Louçã (BE), Carlos Carvalhas (PCP) e Paulo Portas (CDS) foram dos primeiros a aderir à nossa causa. Durão Barroso, que então liderava o PSD, não quis comprometer-se de início. Mas de todos os quadrantes nos chegavam expressivas demonstrações de apoio.

Quando esgotei a lista dos políticos, passei a outros protagonistas da vida pública portuguesa, pedindo uma declaração exclusiva a cada um. O único que ma recusou foi um historiador muito mediático, já falecido, que do outro lado da linha telefónica me disse em tom agreste que as administrações dos jornais tinham “todo o direito” de transferirem as redacções para onde lhes apetecesse. Agradeci-lhe e desliguei: a pessoa em causa acabara de perder um admirador.

 

1825[1].jpg

 Postal publicitário de Stuart Carvalhais anunciando o novo edifício (1939)

 

Decepcionante foi também o comportamento de alguns colegas de redacção, felizmente muito poucos. Uns pareciam mais preocupados em reservar lugares de estacionamento no novo edifício, ignorando a nossa recolha de assinaturas, outros opinaram olimpicamente que se tratava de um esforço inútil e foram à vidinha. É sempre mais fácil apregoar camaradagem do que praticá-la.

O tempo demonstrou que não tinham a menor razão. Conseguimos pôr o assunto na agenda mediática, suscitámos uma onda crítica que foi engrossando semana após semana e forçámos a administração do DN a recuar. O ponto culminante foi o depoimento solidário de Durão Barroso, que me apressei a transmitir ao Pedro Lima, no Expresso. Nesse sábado, o semanário destacou-o em lugar cimeiro nas suas notícias da primeira página. Na segunda-feira seguinte, a administração comunicou-nos que a batalha fora ganha. E eu, que até era (e sou) amigo do secretário-geral do Entreposto, partilhei com indizível entusiasmo o sentimento de profunda satisfação que percorreu a Redacção do DN – satisfação que abrangeu os próprios directores, Mário Bettencourt Resendes e António Ribeiro Ferreira.

Foi apenas há década e meia mas parece ter acontecido há uma eternidade.

 

Desliguei-me em 2013 dos quadros do DN, mas mantenho-me profundamente ligado ao jornal, onde passei 15 anos da minha vida profissional. Não houve um só dia em que não me sentisse orgulhoso de trabalhar naquele edifício projectado pelo arquitecto Pardal Monteiro – com o seu elegante torreão, o seu vasto arquivo subterrâneo abrigado num cofre-forte, a sua emblemática porta-giratória, o seu magnífico átrio com painéis de Almada Negreiros.

A tristeza dos profissionais do Diário de Notícias é a minha tristeza. Uma tristeza ainda mais profunda e dilacerante do que a simples despedida do edifício há 76 anos implantado numa avenida chamada Liberdade: o encerramento deste capítulo na vida do diário mais antigo de Lisboa simboliza também, de algum modo, o fim do jornalismo tal como o conhecemos – enquanto alguns charlatães de turno proclamam que qualquer indivíduo pode “tornar-se jornalista” com uma aplicação móvel ao seu dispor.

Nada mais ilusório neste ano da “pós-verdade”. Como o futuro próximo se encarregará de comprovar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As redes sociais contra o jornalismo.

por Luís Menezes Leitão, em 14.11.16

É uma verdade absoluta que a campanha de Trump demonstrou o poder das redes sociais contra o jornalismo tradicional. Enquanto os media tradicionais barraram completamente Trump, ridicularizando e tornando-o anedótico, e só falando do avanço triunfal de Hillary Clinton, Trump utilizou as redes sociais para fazer passar a sua mensagem, como demonstra o vídeo aqui exibido. E essa mensagem foi clara: vamos recuperar o nosso país de novo, que foi tomado por uma elite criminosa, de que os Clinton são o maior exemplo. A mensagem não passa de um arremedo da teoria da conspiração, mas o facto de ser ignorada pelos media e pela sua adversária só facilitou a vitória de Trump. A primeira regra na política é a de que não se pode subestimar os adversários. E, ao contrário do que julgava Emídio Rangel, hoje as televisões já não vendem Presidentes como quem vende sabonetes. As redes sociais deixaram campo livre para que as mensagens se espalhem independentemente de qual o seu conteúdo e, como se viu, uma mensagem eficiente e bem difundida pode ser o caminho aberto para a vitória.

 

Claro que é sempre possível reagir a isso, dizendo que Trump ganhou com o apoio de ignorantes, incultos, mal-formados, e gente deplorável. É bem capaz de ser verdade, mas essa é a regra da democracia. Quem não quer que o povo inculto vote, a única coisa que pode fazer é propor o regresso aos tempos anteriores à revolução francesa, em que a nobreza e o clero tudo decidiam de forma culta e esclarecida. Não é seguramente uma solução praticável. Compreender os anseios do povo e saber lidar com eles parece muito mais adequado. E para isso os jornalistas não podem ignorar o que se passa à sua volta.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Trump, Obama e o jornalismo

por Pedro Correia, em 14.11.16

_92388557_obamaaaa[1].jpg

 

1

No meio dos dislates de Donald Trump - que os houve, e graves - ficou por perceber, deste lado do Atlântico, que mérito afinal este candidato teve aos olhos do eleitorado norte-americano. Algum terá, seguramente, caso contrário o "sábio povo" que elegeu Barack Obama em 2008 e 2012 não se transformaria no "estúpido povo" que agora votou como votou.

Acontece que a Portugal, durante a campanha, só chegou o aspecto anedótico, grosseiro e caricatural do candidato. Mais nada. Nenhuma proposta de âmbito social, nenhuma proposta de âmbito económico. Por que motivo a larga maioria da classe trabalhadora branca americana e um segmento significativo dos desempregados de longa duração votaram nele?

Era uma excelente história. Mas ficou por contar nos meios de comunicação portugueses. No meio de tanta reportagem “editorializada” não houve tempo para fazer jornalismo.

 

2

Trump, um milionário que fez questão de pagar a sua própria campanha sem recorrer a fontes de financiamento externas, conseguiu passar a mensagem de que era ele o candidato anti-sistema. Mal ou bem, o escrutínio confirmou esta evidência. Financiador das campanhas de Bill Clinton na década de 90 e recém-filiado no Partido Republicano, o magnata pulverizou o establishment político de Washington.

Isso verificou-se logo nas primárias, em que todos os candidatos da oligarquia partidária foram caindo, um a um (Jeb Bush, Marco Rubio, Ted Cruz), até à desistência definitiva do último que lhe fez frente. E acaba de ocorrer na eleição presidencial: Hillary Clinton (que, com o marido, domina o Partido Democrata há um quarto de século) é a personificação máxima do sistema. Talvez isto explique o facto de 20% dos eleitores que preferiam Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata terem votado Trump.

Porquê? Outra boa história que ficou por contar nos meios de comunicação portugueses, pré-formatados para a "inevitável" vitória de Hillary Clinton. Entre tanta reportagem “editorializada” contaminada pela propaganda de uma facção, não houve tempo para fazer jornalismo.

 

3

Tem faltado por cá um balanço crítico da presidência Obama. Porque a derrota eleitoral de Hillary é também uma derrota de Obama, que aliás se envolveu por completo na campanha – com uma intensidade e uma frequência raras vezes vistas num inquilino da Casa Branca prestes a abandonar o cargo.

De Obama, no entanto, também cá chega apenas a versão benévola disseminada pelos seus diligentes assessores de imagem e aceite nas redacções sem um assomo de interrogação: o homem que mal começou a governar e já recebia o Nobel da Paz, o bom pai de família, culto, sorridente, tolerante, descontraído, elegante e bem humorado - em jantares risonhos, passeios informais, bailes de gala e divertidos talk shows.

Um político com imensas qualidades, sem dúvida, mas cujo mandato foi agora avaliado negativamente pelos eleitores norte-americanos, que recusaram a candidata de Obama e optaram pelo Partido Republicano nas corridas à Presidência dos Estados Unidos, ao Senado e à Câmara dos Representantes. Numa jornada eleitoral em que os republicanos também conquistaram terreno nas eleições para  governadores (onde dispõem da mais larga maioria desde 1922) e para os parlamentos estaduais.

Quais as sombras projectadas pela administração Obama que prejudicaram seriamente Hillary Clinton e arrasaram o Partido Democrata nas urnas? Outra excelente história que não chegou a ser contada. Porque a propaganda se sobrepôs ao jornalismo.

 

4

Uma personagem de um filme de John Ford, jornalista de profissão, proclamava no Velho Oeste: “Quando a lenda se torna facto, imprime-se a lenda.”

Imitando essa figura de ficção, demasiados jornalistas andam por cá a imprimir a lenda, impondo-a como verdade unidimensional. Tudo isto esbarra no entanto com um sério problema: quando os factos desmentem a lenda, toda a construção mediática anterior cai pela base. E o descrédito dos meios de comunicação clássicos amplia-se ainda mais.

Não admira portanto que as pessoas se virem em doses crescentes e maciças para as "redes sociais". Lá, ao menos, e no meio de imenso lixo, acabam enfim por encontrar o indispensável e elementar contraditório que os media tradicionais estupidamente lhes vão negando.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não basta querer para acontecer

por Pedro Correia, em 10.11.16

150904-hillary-clinton-5-gty-629[1].jpg

 

Quem acompanhou o dia eleitoral norte-americano apenas pelo principal serviço noticioso da SIC, ficou certamente estupefacto ao acordar na manhã seguinte com a notícia de que Donald Trump tinha sido eleito Presidente dos Estados Unidos. Nada – mesmo nada – do que aquele canal mostrara no seu Jornal da Noite indiciava algo diferente de uma vitória clara de Hillary Clinton.

No momento em que milhões de norte-americanos votavam nele, Trump foi apresentado aos telespectadores portugueses como uma irrelevância condenada ao fracasso – tom que prosseguiu madrugada adiante no canal de notícias da SIC, onde era quase impossível distinguir opinião de factos entre tanta reportagem “editorializada”.

 

Vale a pena mencionar exemplos concretos.

Logo a abrir, o Jornal da Noite visitou um concorrido local de voto em Manhattan. Espantosamente, segundo garantiu o repórter, todos puxavam para o mesmo lado: “Uma longa fila de eleitores onde, por acaso ou talvez não, não encontrámos ninguém que fosse votar Donald Trump.”

Nos depoimentos recolhidos entre esses eleitores, tudo a preto e branco: ele intolerável, ela extraordinária.

Sobre o candidato republicano: “péssimo”; “execrável”; “vergonhoso”; “louco”; “odeio Trump”.

Sobre a candidata democrata: “É a pessoa mais inteligente, mais bem preparada; “É a mais inteligente, a mais qualificada”.

 

Noutro ponto de reportagem, com outra equipa no terreno, a SIC manteve a nota: “Têm sido óptimas notícias para Hillary Clinton, estas últimas sondagens”; “Consegue a Florida, tudo parece muito bem encaminhado”; “O que temos vindo a ver é que ela pode até superar o recorde de Barack Obama no que diz respeito à participação dos hispânicos”; “Ela tem vindo a construir a sua muralha azul”.

 

Um cenário idílico para a candidata democrata, pois. Cenário que nunca foi posto em causa ao longo de todo o serviço noticioso.

20.08: “As pessoas parecem querer votar contra a América que Trump propõe: uma América muito extremada, muito anti-imigração, muito xenófoba, muito anti-semita. Hillary pode ter feito a sua jogada no sentido de não alienar minorias porque a América é um país de minorias que daqui a 30 anos serão maiorias e creio que o Partido Republicano vai pagar cara esta alienação de votos dos hispanos e sobretudo dos afro-americanos.”

20.56: “As sondagens apontam para que o cenário mais provável seja a vitória de Hillary.”

21.00: “Eleitores queixaram-se de que estão a ser intimidados por apoiantes de Donald Trump.”

Já bem depois da meia-noite, no canal de notícias, ainda a reportagem in loco da SIC transmitia aos portugueses a noção de que "ele [Trump] talvez tenha alguma razão para estar nervoso".

 

Como os resultados demonstraram, não podia ser maior a discrepância entre a realidade e o quadro que a SIC pintou. Sem matizes, sem contraditório, sem um assomo de dúvida que pudesse abalar tantas certezas preconcebidas.

Opinião a mais, factos a menos. Não basta querer - ou crer - para acontecer.

 

Hillary acabou por ser derrotada: a "muralha azul" só existia na propaganda.

Este jornalismo destituído da elementar noção do equilíbrio também perdeu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A decadência do jornalismo

por Pedro Correia, em 09.11.16

imrs[2].jpg

 

«Estabeleceu-se e orientou-se uma tendência para a preguiça intelectual e nessa tendência os meios de comunicação têm uma responsabilidade.»

José Saramago (2001)

 

Alguns correspondentes de canais televisivos portugueses nos Estados Unidos e alguns enviados especiais a Nova Iorque – que mal desembarcam em Times Square logo se transformam em “especialistas” da política norte-americana – foram incapazes, até ao momento, de explicar as causas do sucesso eleitoral de Donald Trump.

Continuam a reduzir o recém-eleito Presidente norte-americano às anedotas. Deles se esperariam que fizessem reportagens mas preferem debitar editoriais defronte das câmaras, dizendo-nos o que pensam sobre o milionário que andou por aí a “insultar tudo e todos”, como um deles repetia ontem à hora do jantar. Sem perceber que a campanha eleitoral terminara já.

 

Andámos assim durante 16 meses.

Trump foi derrubando sucessivas barreiras – contra o establishment republicano, contra a esmagadora maioria da opinião publicada nas cidades-chave, contra a nata do show business que apoiou a sua adversária democrata, contra o  Presidente Obama e a primeira dama - mas a explicação rigorosa e fundamentada para a progressão eleitoral do magnata continuou sem surgir: sobravam apenas anedotas de circunstância.

Eis que Trump vence, conquistando redutos rivais como a Pensilvânia (que elegia candidatos democratas desde 1992) e o Wisconsin (fiel ao Partido Democrata desde 1988). Será o primeiro Presidente republicano a governar com maioria simultânea do seu partido nas duas câmaras do Congresso desde o remoto mandato de Calvin Coolidge, em 1928.

Como é que um homem sem ligações permanentes aos circuitos do poder em Washington, diabolizado na generalidade da imprensa de referência e que nunca exerceu um cargo público (nem senador, nem congressista, nem governador), alcança um êxito tão retumbante nas urnas?

Lamentavelmente, ficou uma excelente história por narrar.

 

Durante ano e meio não houve praticamente uma notícia que aludisse a Trump num contexto favorável, capaz de lhe reconhecer méritos. Já mesmo depois de contabilizados os votos nas urnas, alguns correspondentes e enviados especiais continuam incapazes de fornecer explicações. Viveram durante demasiado tempo em estado de negação, sofrem agora um choque de realidade.

Acabou o tempo em que alguns editorialistas, com a força da sua pena, faziam eleger presidentes. Trump acaba de demonstrar que sem o apoio da chamada elite do jornalismo, e até hostilizando-a abertamente, é possível triunfar nas urnas. Durante a longa campanha eleitoral, passou todas as mensagens que quis e quando quis recorrendo quase em exclusivo às redes sociais.

Um dos marcos desta campanha - pela negativa - ocorreu quando o Washington Post, que em 1974 conseguiu derrubar o presidente Richard Nixon com uma investigação jornalística sólida e séria, optou desta vez por dar destaque a uma alcoviteirice sobre Trump com base numa gravação feita à socapa, em 2005, de uma conversa estritamente privada. Ao nível de qualquer tablóide de vão de escada, o que diz muito sobre os tempos que vivemos.

 

Por tudo isso estas eleições nos Estados Unidos não devem suscitar só reflexões de âmbito político: justificam igualmente uma análise séria sobre o rumo dos meios de comunicação no mundo contemporâneo. Porque, de algum modo, representam também um marco irreversível na decadência do jornalismo clássico, cada vez mais irrelevante.

Ninguém tenha ilusões: há páginas que se viram para sempre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Com a voz embargada de emoção

por Pedro Correia, em 28.10.16

14585471917856[1].jpg

 

Os enviados das mesmas televisões que preenchem o tempo a perorar sobre os presos de consciência em Angola desembarcam em Cuba e desdobram-se em salamaleques perante o "líder histórico" que ali instaurou uma das mais ferozes e persistentes ditaduras do planeta, denunciada em todos os relatórios de organizações como a Amnistia Internacional e os Repórteres Sem Fronteiras. Nem um aludiu à existência de dezenas de presos políticos na ilha-prisão, governada há quase 58 anos por dois irmãos que controlam com mão de ferro o aparelho do Estado, submetendo ao seu ditame todas as instituições políticas, a magistratura e as forças armadas. Nem um fez o mais remoto reparo à inexistência de partidos políticos, de uma imprensa livre, de manifestações contra o Governo e de qualquer outro direito cívico e político - começando pelo épico direito à greve tão idolatrado pelos émulos castristas cá do burgo.

A palavra ditadura foi banida do discurso jornalístico dominante. Ou só é utilizada quando dá jeito, com uma chocante duplicidade lexical em função de indignações muito selectivas. Quando tanto se fala em crise de jornalismo, eis mais um factor que a justifica: a persistente incapacidade dos jornalistas de chamar as coisas pelos seus nomes.

Imaginam um repórter estrangeiro a visitar Portugal nos anos 60, embargado de emoção, a chamar "líder histórico" a Salazar? Pois. É precisamente isso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O mais rico partido de Portugal

por Pedro Correia, em 26.10.16

slide4_1050[1].jpg

 Vista aérea da Quinta da Atalaia (Seixal), propriedade do PCP

 

O PCP queixa-se de ter má imprensa. E de ser sistematicamente ignorado pelos órgãos de informação. Entendo mal estas queixas. Pelo contrário, os comunistas beneficiam por serem muito menos escrutinados do que os restantes partidos pelo olhar inquiridor dos media. Se o fossem, saber-se-ia alguma coisa, mínima que fosse, acerca das divergências que se exprimem entre os muros opacos da sede da Soeiro Pereira Gomes. Mas nem uma palavra perpassa cá para fora sobre tais divergências, o que constitui um atestado de preguiça ou incompetência do jornalismo político português.

Se os jornalistas aplicassem ao PCP a mesma atenção severa e rigorosa que dedicam aos restantes partidos, do CDS ao Bloco de Esquerda, indagariam sobre o motivo que leva uma força partidária que tanto pugna pela igualdade, e faz dela palavra de ordem enquanto ergue o punho direito, tem  menos de 25% de mulheres no seu Comité Central.

Se os comunistas merecessem o mesmo crivo inquiridor saber-se-ia que os numerosos “operários”, “empregados” e “licenciados” com assento no órgão máximo da estrutura dirigente comunista são afinal funcionários do partido e em diversos casos nunca tiveram outra entidade patronal.

Recebesse o PCP um foco semelhante ao que ilumina as restantes forças políticas e saber-se-ia tudo sobre o discretíssimo circuito das receitas financeiras comunistas, qual o seu montante concreto e quem as administra. Saber-se-ia por exemplo para que serve e quem utiliza as imponentes Quinta da Atalaia e Quinta do Cabo, implantadas à beira-Tejo, nos 362 dias do ano em que não albergam a Festa do Avante! Saber-se-ia sobretudo quem são os guardiães deste templo financeiro com sólidos alicerces na propriedade privada – aqueles que realmente dominam os circuitos de decisão no partido colectivista.

Se fossem escrutinados de forma exigente pela comunicação social, alguém indagaria como conseguiram os comunistas reunir um património imobiliário equivalente ao dos outros partidos todos somados e valorizá-lo em dois milhões de euros entre 2012 e 2015, ampliando-o de 13 milhões para 15 milhões no apogeu nacional da “crise do sistema capitalista” que tanto dizem combater mas de que aproveitam como nenhum outro, percorrendo sem rebates de consciência as alamedas do lucro. Assim talvez ninguém se espantasse por saber, como há dias se soube, que os comunistas pagarão em 2017 cerca de 50 mil euros em IMI, apesar de os edifícios adstritos à actividade partidária estarem isentos deste imposto.

Em vez de se queixar o PCP devia congratular-se por continuar a funcionar sem contraditório como porta-voz dos pobres sendo afinal um partido rico. O mais rico de todos os partidos em Portugal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Até à náusea (parte 2)

por Pedro Correia, em 22.10.16

 

TVI:

GNR monta caça ao homem na região de Trás-os-Montes

 

Correio da Manhã:

Caça ao homem em Vila Real continua

 

RTP:

Caça ao homem é intensa em Aguiar da Beira

 

O Jogo:

As imagens da "caça ao homem" em Arouca

 

i:

Caça ao homem em São Pedro do Sul depois de tiroteio em Aguiar da Beira

 

Viseu Mais:

GNR faz caça ao homem em S. Pedro do Sul

 

Rádio Cruzeiro:

Caça ao homem na Serra da Arada

 

Jornal de Leiria:

Leiria está a ajudar caça ao homem

 

Jornal de Notícias:

As imagens de uma noite de caça ao homem

 

Rádio Renascença:

GNR mantém forte dispositivo na caça ao homem

 

SIC:

Coordenação da caça ao homem criticada

 

Expresso:

Coordenação da caça ao homem criticada

 

Porto Canal:

Entidades queixam-se da falta de coordenação entre polícias na caça ao homem

 

Diário de Notícias:

Falta de coordenação entre polícias na caça ao homem preocupa governo

 

Espalha Factos:

Caça ao homem leva CMTV a máximo do ano

 

TSF:

Caça ao homem continua

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Até à náusea

por Pedro Correia, em 21.10.16

Reitero o meu frontal repúdio por esta expressão que há dez dias escuto e leio até à náusea, sem reserva nem pudor, envolta na pirotecnia tablóide em sessões contínuas que hoje serve de padrão dominante ao jornalismo. Como se um ser humano, seja quem for, possa confundir-se com alguma peça de caça e a Lei de Lynch fosse uma conquista civilizacional, celebrada em hossanas no espaço mediático.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Jornalismo, dizem eles

por Inês Pedrosa, em 04.10.16

phpThumb.php

No sábado passado houve celebração internacional conjunta dos idosos e da música. O Presidente da República foi à Casa do Artista, que apresentou um curto espectáculo musical, e prestou homenagem à minha querida amiga Nini Remartinez, antiga cantora do dueto Irmãs Remartinez, que aos 97 anos é uma das pessoas mais jovens e inspiradoras que conheço. Como o Presidente chegou rodeado de câmaras de televisão, à noite passeei pelos telejornais em busca da reportagem da visita. Na RTP, mostraram o Presidente a falar do sigilo bancário, à porta da Casa do Artista, sem qualquer referência ao local e ao motivo da visita. Sobre o dia do idoso, o telejornal do canal público de televisão apresentou uma reportagem sobre a crescente obesidade dos mais velhos, por preferirem dietas pouco saudáveis. A TVI foi mais longe no esticar dos princípios deontológicos do jornalismo: utilizou o coro de crianças que cantou para o Presidente na Casa do Artista como ilustração do "coro das críticas da esquerda" ao veto presidencial da lei sobre a quebra do sigilo bancário. Nem uma referência à instituição, à homenagem, ou ao anúncio feito por Marcelo de que realizaria em breve, na Presidência, um evento conjunto com a Casa do Artista. Só a SIC apresentou, depois das declarações sobre o sigilo bancário, uma reportagem sobre o evento em que tais declarações haviam sido feitas.

O bom-senso e a boa educação mandariam que, em visitas oficiais a instituições de solidariedade ou cultura, o Presidente se limitasse a falar dos temas das visitas. Isso não evitaria o uso abusivo de imagens ( no caso, ainda por cima, de crianças), mas obrigaria a chamar a atenção dos meios de comunicação para o assunto ou a instituição em causa. Os afectos não podem ser só cenário, pois não?        

Autoria e outros dados (tags, etc)

Só lá faltou o Barbas

por Pedro Correia, em 09.09.16

JRN.RE.27467-140422[1].jpg

 

A TVI inaugurou esta semana um novo "formato": a entrevista sem contraditório. Anteontem, no seu canal de notícias, esta estação televisiva teve como convidado especial o presidente do Benfica. Durante uma hora e cinco minutos.

José Alberto Carvalho estava lá, em pé, a assistir com um sorrriso embevecido. Mas a entrevista foi conduzida por três adeptos do clube dos encarnados: Domingos Amaral, Pedro Ribeiro e Diamantino Miranda. Sentados ao lado do presidente da agremiação a que pertencem.

Nenhum deles integra os quadros da TVI, tanto quanto sei. E não faltam jornalistas por lá que bem poderiam exercer aquela função. Mas a direcção editorial optou por este original formato, que levou o ex-jogador encarnado Diamantino a dar o pontapé de saída com estas comoventes palavras: "Luís Filipe Vieira é conhecido, entre os benfiquistas e não só, como um dos presidentes - senão o único - que tem demonstrado um grande respeito pelos actuais jogadores e pelos antigos jogadores. E eu posso prová-lo."

Estava dado o tom à nova modalidade: a entrevista puxa-saco. Aguardo agora com interesse as futuras entrevistas da TVI 24. Quando lá tiver o presidente do Sporting, um painel de adeptos leoninos prontos a questionar Bruno de Carvalho. Quando lá for o líder do PSD, um trio de militantes sociais-democratas. Quando lá for o primeiro-ministro, só correligionários de António Costa.

Paz e sossego, conversa mole, solo de violino, manteiga no pão, mais sorrisos embevecidos: infotainment no seu melhor. Espero que da próxima vez seja também dado tempo de antena ao Barbas: porque não há-de ser ele um dos "entrevistadores" de Vieira? Se for preciso até lhe passam carteira profissional de jornalista.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Por favor não acordem São Bento

por Pedro Correia, em 17.08.16

Mais de cem mil hectares de terreno florestal, agrícola e urbano arderam já desde 6 de Agosto em Portugal - o equivalente à area de oito concelhos na Grande Lisboa (incluindo Cascais, Sintra, Loures, Mafra e o da capital), como ontem a SIC revelou numa boa peça jornalística que fugiu aos lugares-comuns do tema.

Matéria de emergência nacional? Nem por sombras. Suas excelências, os deputados, permanecem a banhos: o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, não achou por bem convocar uma sessãozinha parlamentar de emergência para o adormecido palácio de São Bento, encerrado para férias. Espero que ao menos alguns representantes da nação andem por esse país em chamas a ajudar a apagar fogos. Refiro-me a fogos reais, não aos habituais fogos políticos

A impropriamente chamada "época de incêndios" propicia entretanto um desfile de autarcas nas televisões. Surgem como porta-vozes de populações em desespero e exigem - como lhes compete - apoio financeiro destinado à rápida recuperação de haveres perdidos. Só lamento nunca ter ouvido até hoje um repórter perguntar a um desses autarcas quanto investiu a respectiva câmara municipal em prevenção de fogos ao longo dos meses que ficaram para trás.

Continuamos a ser um país que prefere chorar os danos do que impedi-los. Por isso esta triste história se vai repetindo ano após ano, Verão após Verão. Sem prevenção, com as matas à mercê dos incendiários e uma incalculável riqueza nacional reduzida a cinzas. E também sem perguntas incómodas dos jornalistas, não vá algum senhor autarca sentir-se incomodado e algum senhor deputado franzir o sobrolho por lhe perturbarem a bem remunerada sesta estival.

 

ADENDA: Fogos em Portugal já são responsáveis por 54% da área ardida em toda a União Europeia

Autoria e outros dados (tags, etc)

O dom da ubiquidade

por Pedro Correia, em 10.08.16

Apresentação1.png

 

Já havia a fórmula "dois em um", no mercado dos champôs. Hoje, no reino do futebol, há "um em dois". Sem ilusão de óptica, em qualquer banca ao pé de si. Escolha a versão que mais lhe convier. Ou faça como eu, que não escolhi nenhuma.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Se for preciso corte metade"

por Pedro Correia, em 06.07.16

image[1].jpg

Nuno Rocha (1933-2016) 

 

Vejo-me nas fotografias, miúdo ainda, naquele grupo em que todos eram mais velhos que eu. Mas tratávamo-nos por tu e as hierarquias eram muito mais diluídas nessa época, apesar de circular nas redacções uma frase importada das casernas: “A antiguidade é um posto”. Na hora de bulir, todos arregaçavam as mangas e aceleravam o passo: ninguém ia pavonear-se para as televisões armado em general, todos se comportavam como soldados.

Vejo-me a entrar naquela Redacção, num primeiro andar ao Príncipe Real que na sala maior funcionava como piso térreo, enquanto desfilava perante mim uma espantosa galeria de personagens de um romance que talvez ainda venha a ser escrito. Uma delas era o director do jornal, um portuense transplantado para Lisboa que ganhou fama como repórter do Diário Popular. No célebre “baile do século”, oferecido pelo magnata Antenor Patiño e realizado na última noite da vida política de Salazar, furou o veto à entrada de jornalistas disfarçando-se de empregado de mesa. Pôde ser assim o único a contar a história.

 

O director escrevia artigos copiosos – linguados, como se dizia no jargão profissional da época – que não tinha a menor paciência para rever.

Um dia, era eu ainda estagiário, chamou-me para que lhe corrigisse os erros de ortografia. E logo partia para outra prosa. Às vezes dava-me a impressão de que ele escrevia sozinho metade daquele semanário, contínuo sucesso de vendas, que ostentava como título de glória um comício em Almada em que o general Vasco Gonçalves lhe chamou “pasquim”.

Chamava-se Tempo, feliz título que define toda uma época já passada e que não regressa. Os nossos maiores concorrentes eram dois outros semanários (Expresso e O Jornal), a informação processava-se a um ritmo muito mais vagaroso do que o actual, podíamos dar-nos ao luxo de guardar notícias para só divulgar na quinta-feira.

E toda a gente lia jornais: eram frequentes as tiragens acima dos cem mil exemplares, números impensáveis para os dias de hoje. Havia quem comprasse só para ler um colunista: o Manuel de Portugal, por exemplo, era um sucesso sem par. Recebíamos chamadas de cidadãos anónimos a perguntar se podíamos “transmitir uma palavra de agradecimento àquele senhor que tanto gosto de ler”.

 

O director dos artigos copiosos era o Nuno Rocha. Morreu ontem, aos 83 anos, esquecido do mundo, alheado do fluxo informativo que durante tantas décadas o fez produzir um número incontável de notícias.

Desaparece num momento em que o jornalismo se transfigura por completo, frágil como nunca, transformado num voraz mecanismo reprodutor de desempregados em série, sem metade do prestígio social que teve nas décadas precedentes. A relação polifacetada do jornalista com a vida transformou-se numa relação estritamente monogâmica com um ecrã de computador.

O servo da gleba ressuscitou no servo da tela.

 

Nessa altura, não. Havia tempo para trabalhar no duro e tempo para nos afastarmos do som estridente das máquinas de escrever e dos telefones que não paravam de tocar, alargando horizontes, convivendo, fazendo amizades, conhecendo mundo. O Nuno Rocha tinha muitos defeitos, mas sabia dar oportunidades a quem começava. Aos 20 anos, pôs-me um bilhete de avião nas mãos e enviou-me como repórter para uma eleição na Grécia. Aos 21, mandou-me entrevistar figuras como Jorge Amado, Alvin Toffler (morreu por estes dias), Björn Borg e Jorge Jardim. Aos 22, deu-me carta branca para reformular o suplemento de artes e espectáculos, com novos temas, novos colaboradores e novo grafismo.

Continuava a escrever copiosamente, continuava a viajar como se não houvesse amanhã, ditando prosas ao telefone das mais diversas paragens. Na redacção, sempre sentado à secretária, o Chefe Peixe Dias conferia-lhe a pontuação e abria-lhe parágrafos nos textos com paciência de bom samaritano.

Chamávamos-lhe assim mesmo: Chefe – algo que nunca chamei a mais ninguém. Hoje só os cozinheiros merecem tal título, o que se adequa muito ao ar do tempo.

 

Ali, naquele semanário de direita onde não faltava gente de esquerda, fiz amizades para a vida. A Teresa e o Fernando, que me acompanham no DELITO. O António Ribeiro Ferreira, o Paulo Portas, o Carlos Santos Pereira, o Paulo Reis, o Ramos André, o Júlio Santos, o Carlos Pires, o António Duarte (o que será feito dele?), o Luís Marinho, a Helena Vieira, o Paulo Camacho, o António Fontoura, a Anabela Saint-Maurice, a Ana Guedes, o Jorge Nuno Oliveira, o Horácio Piriquito, o Jorge Botelho Moniz, o Vítor Pereira, o João Líbano Monteiro, a Eva Cabral, a Leonor Ribeiro da Silva, o Alcides Pinto, o Eduardo Sousa, o Augusto Teixeira, o Luís Costa Ribas, o Alfredo Canana. O Octávio Saldanha, o José Vasconcelos, o Ilídio Barreto e o Jorge Alves Oliveira, que nunca mais vi.

E tantos outros: Raul Alves Fernandes, Palmira Correia, Gouveia de Albuquerque, Isabel Atahide Cordeiro, Luís Fraga, Wilton Fonseca, Jorge Massada, Noé Ramos, Piedade Paulo. Alguns que já cá não estão: a Margarida Viegas, o Händel de Oliveira, o José Neto, o Albano Matos, o João Isidro, o Carlos Basto, o Jorge Pereira de Almeida, o José Paulo Canelas.

Aprendi quase tudo quanto conheço nesta profissão com quase todos eles. Porque então havia tempo para os mais velhos ensinarem os mais novos. E para os mais novos levarem na cabeça dos mais velhos. E corrigirem os textos. E reescreverem tudo desde o início, se fosse necessário.

 

Hoje imprime-se o erro sem que ninguém o detecte. Porque anda tudo a cem, porque cada um só sabe de si, porque todo o homem é uma ilha e a profissão deixou de ser um vasto arquipélago. E o jornalista – agora convertido em “profissional multimédia” nesta era já sem chefes em que a antiguidade deixou de ser um posto para ser posta de lado – quase perdeu até direito ao nome. É um número numa folha de cálculo.

Nunca a tecnologia foi tão desenvolvida. Nunca se esteve tão à distância do mundo real.

As “fontes” deixaram de ser criaturas de carne e osso, interlocutores a quem era possível encarar olhos nos olhos: tornaram-se seres virtuais, uma voz ao telefone, dois correios electrónicos, três sucintas mensagens num telemóvel.

Hoje ninguém se daria ao incómodo de se disfarçar de empregado para penetrar na festa de um Patiño: as dondocas que lá estivessem encarregavam-se da “reportagem” com trinta selfies a ilustrar. Saía na página quatro do jornal gratuito, três minutos para ler no metro, com títulos replicados nos rodapés das televisões e das farmácias de serviço entre o mais recente atentado no Bangladeche e a nova tatuagem da velha estrela do futebol.

 

O Nuno Rocha, meu primeiro director num jornal a sério, já cá não está para relatar os factos da semana. Nem o Chefe João Peixe Dias poderia voltar a aparar-lhe a prosa enquanto cofiava o bigode em gestos nervosos, de eterno cigarro a arder-lhe nos dedos.

“Se for preciso corte metade”, dizia o director. E o Chefe cortava. Outros tempos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um dos melhores títulos do ano

por Pedro Correia, em 01.07.16

No hay Cristiano sin Quaresma

(Do jornal desportivo espanhol Marca)

Autoria e outros dados (tags, etc)

A marcha da desinformação na TV

por Pedro Correia, em 27.06.16

Ontem à noite todos os telediários portugueses - mesmo com correspondentes e enviados a Madrid - caíram na esparrela das sondagens, que em Espanha falham por sistema. Confundindo projecções com números reais, sem um sobressalto de dúvida, foram desinformando os portugueses sobre o resultado da eleição para o novo Parlamento espanhol.

Foi preciso que um par de comentadores, sem carteira de jornalista, repusesse a verdade dos factos. O que, reconheçamos, não abona nada a favor dos profissionais da informação.

Eis o filme dos acontecimentos:

 

RTP, 19.02: «Deu-se o sorpasso, essa expressão italiana que dominou esta campanha. Esta coligação de Pablo Iglesias, unido aos comunistas, consegue ultrapassar o Partido Socialista.»

RTP, 19.03: «O PP de Mariano Rajoy desce pelo menos dois lugares no Congresso em termos de deputados. Este é um terramoto político. É um abalo sem precedentes em Espanha.»

TVI, 19.57: «A principal mudança no sufrágio de hoje foi a passagem do Podemos para segundo lugar, ultrapassando o PSOE.»

SIC, 19.59: «O Unidos Podemos acaba por ser o grande vencedor da noite e é nesta coligação que pode estar a chave para o futuro governo espanhol.»

TVI, 21.02: «O Podemos deve ultrapassar o PSOE como segunda força política. Em termos de deputados, há a possibilidade de uma maioria de esquerda.»

SIC, 21.13: «A grande surpresa aqui é o segundo lugar do Unidos Podemos.»

 

Este, repito, foi o discurso jornalístico. Que se prolongou por mais de duas horas nas pantalhas lusas.

Felizmente havia comentadores - um em estúdio, outro em Madrid - a recomendar moderação, mais atentos aos factos do que à espuma.

O primeiro foi Paulo Portas, recém-contratado como comentador de temas internacionais da TVI. Eram 21.03 quando ele alertou, falando em directo da capital espanhola: «O resultado dos votos contados aponta para um sentido completamente diferente das sondagens.»

Dez minutos mais tarde, na SIC, Luís Marques Mendes também deitava água na fervura: «Aquilo que foram as sondagens à boca das urnas não está a confirmar-se na contagem dos votos.»

Tinham ambos razão. Os jornalistas é que andavam distraídos: foram os últimos a saber.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os votos da imprensa britânica

por Pedro Correia, em 23.06.16

É curioso avaliar as linhas editoriais dos jornais pelas primeiras páginas da imprensa britânica de hoje. Nos tablóides, o Brexit ganha por maioria absoluta. Com o Sun a soltar um berro patrioteiro, chamando "Dia da Independência" a esta quinta-feira em que 46 milhões de eleitores são chamados a escolher se querem o Reino Unido dentro ou fora da União Europeia.

O Daily Mail, outro diário eurofóbico, estampa em letras garrafais quatro supostas "mentiras" propaladas pelos parceiros comunitários de Londres. E o Daily Express, sem vocação nem paciência para subtilezas, transforma toda a capa num grito de guerra favorável à saída.

Só o Mirror, único tablóide conotado com a esquerda trabalhista, navega na direcção contrária - e com a mesma falta de subtileza. Comparando o Brexit a um gigantesco "salto no escuro" ilustrado da forma possível, com um vertiginoso abismo que poderia servir de ilustração ao Inferno de Dante - que lá no jornal talvez alguém conheça, da selecção brasileira e do campeonato alemão.

 

             sun.750[1].jpg daily_mail.750[1].jpg

             daily_express.750[1].jpg  mirror.750[1].jpg

 

Na chamada imprensa "séria", que por vezes se leva demasiado a sério sem justificação para tal, o tom é mais comedido. Mas o espírito de trincheira está lá, embora envolto em rodriguinhos semânticos e gráficos.

O vetusto Times puxa por uma manchete supostamente anódina mas onde o verbo escolhido é precisamente leave [sair], palavra-chave dos eurofóbicos. Opção semelhante à do Guardian, embora enfileirando na facção oposta: no título principal deste diário de centro-esquerda lá surge a palavrinha stay, que funciona como lema da militância eurófila.

Um pouco mais escondido, mas ainda assim em destaque, é o remain que o Independent exibe no segundo título mais destacado da sua capa. Nada a ver com a histeria do Mirror, claro. Mas um leitor atento percebe que também aquele título tão independente prefere afinal manter o reino de Sua Majestade ancorado na União Europeia.

O mais sóbrio e contido é o Financial Times, que tem uma linha editorial pró-Europa mas não confunde jornalismo com militância política. Talvez esteja fora de moda, neste tempo em que a lógica das chamadas "redes sociais" infecta os conteúdos informativos, mas ainda não foi inventado modelo melhor.

Por isso, e sem desprimor para os demais, é a este periódico que tiro o meu chapéu. De coco.

 

             2 (2).jpg 2 (1).jpg

             4 (2).jpg 4 (1).jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

Charlie à água

por João Campos, em 22.06.16

Contaram-me o episódio cedo, mas só há pouco vi as imagens de Cristiano Ronaldo a tirar o microfone da mão do jornalista da Correio da Manhã TV e a atirá-lo para um lago (ao microfone, não ao jornalista). Ligo o computador e, nas poucas redes sociais que frequento, vejo gente a delirar com o acto do capitão da selecção portuguesa. Que foi bem feito (perante tão atrevida pergunta: Ronaldo, preparado para este jogo hoje?). Que a CMTV merece isso e pior. Que mesmo bom seria ver Ronaldo a atirar todos os microfones da CMTV para a água. Que o Correio da Manhã "comete crimes todos os dias" (a sério). E o meu facebook é muito restrito; nem faço ideia do que se andará a dizer nos twitters, nos comentários do youtube ou das notícias dos jornais online. 

 

Lembra-me aquela ocasião em que tanta gente aplaudiu de pé Marinho e Pinto pela "repreensão" a Manuela Moura Guedes há uns anos na TVI. Porque a emissora de Queluz praticava um mau jornalismo, porque Moura Guedes era agressiva, porque - pecado capital! - tinha "opiniões" (só os mais distraídos terão ficado surpreendidos quando o herói de tanta gente naquela noite acabou por se revelar num demagogo de primeira ordem, felizmente reduzido à sua irrelevância numa eleição recente).

 

Seria decerto interessante saber quantos destes maduros que hoje aplaudem Cristiano Ronaldo pelo arremesso do microfone também aplaudiram Marinho e Pinto naquela ocasião. Mas mais interessante ainda seria saber quantos dos que hoje verberam um jornal e um canal de televisão nas redes sociais foram "Charlie" nas mesmas redes sociais, manifestando-se pela liberdade de imprensa e de expressão perante um ataque atroz a ambas. É que são justamente estas liberdades que, afinal, defendem de forma tão cínica como selectiva: se for aquilo que consideram ser "bom jornalismo" (e isto é tão subjectivo!), deve ser protegido de tudo e de todos; já se for mau jornalismo, merece ser silenciado por demagogos e futebolistas, merece escárnio na irrelevância dos púlpitos virtuais, merece uma extinção que só peca por tardia. Sem perceberem que a liberdade de imprensa abrange tanto tablóides como os ditos "jornais de referência", ou que a liberdade de expressão não é compatível com os humores variáveis das trincheiras onde toda a gente se enfia em fúria hoje em dia: é aceitarmos ouvir palavras com que concordamos e palavras das quais discordamos. 

 

No fundo, sem perceberem que só dão força àqueles que mais desprezam estas e outras liberdades.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Prémio Multiópticas

por Pedro Correia, em 04.06.16

«De Daniel Adrião, o homem que apresentou uma moção contra António Costa e até concorreu a secretário-geral contra António Costa nas eleições directas, ainda não há sinal, ainda não o vimos por aqui no congresso do PS esta manhã.»

Repórter da SIC, em directo, enquanto Adrião discursava no púlpito do congresso

Autoria e outros dados (tags, etc)

Coisas que nenhum Acordo Ortográfico resolve

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.05.16

"Tem toda a obra traduzida em Portugal o escritor que ontem foi anunciado como vencedor do Prémio Camões, o mais importante da língua portuguesa."

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vão-se catar.

por Luís Menezes Leitão, em 24.05.16

Até agora o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa na presidência tem sido um absoluto desastre, não se percebendo para onde quer ir o Presidente. Apesar de ter sido eleito pela Direita, só tem feito o jogo da Esquerda, chegando ao ponto de querer minimizar as péssimas notícias que todos os dias surgem, lançando areia para os olhos dos portugueses. A viagem que fez a Moçambique, onde propôs ser mediador entre o Chefe de Estado do país visitado e um simples guerrilheiro, deve ficar nos anais da História como o maior absurdo diplomático alguma vez praticado por um Presidente, mesmo contando com aquela vez em que uma intervenção de Jorge Sampaio levou a África do Sul a expulsar o embaixador português.

 

Há, porém, um ponto em que Marcelo tomou uma iniciativa louvável: a abolição do acordo ortográfico. É verdade que a intervenção dos talibans do costume, para quem o acordo ortográfico é o mais sagrado de todos os textos religiosos, de uma verdadeira inspiração divina, o fez recuar em toda a linha. Talvez para o castigar pela ousadia, o Diário de Notícias resolveu escrever que o Presidente foi visitar o Conservatório Nacional e comprou um "cato triste". Confesso que ao ler esta notícia, fiquei a pensar a que se referia o texto: ao político romano Catão, o Velho? Ao Kato, o chinês das artes marciais, que costumava acompanhar o Green Hornet? Ou será que o Presidente, cansado do cão que lhe deram os militares, decidira antes comprar um gato?

Mas depois, ao ler o texto, percebi que se falava antes de plantas, portanto o que o Presidente comprou foi um cacto, segundo explicou para não ficar demasiado optimista. Bem precisa o Presidente do tal cacto para perceber os espinhos das políticas que este governo, que tanto tem apoiado, anda a causar todos os dias ao país. E a imagem do cacto é um excelente aviso aos portugueses, que terão na planta, que acumula água no deserto, um exemplo da necessidade de poupança para os tempos negros que se avizinham.

Já em relação àqueles que continuam a querer à força obrigar toda a gente a escrever desta forma absurda, digo simplesmente: vão-se catar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

E reincide

por Diogo Noivo, em 18.05.16

Nuno Saraiva diz-nos esta semana que o mundo está perigoso. Por via democrática, afirma, o mundo anda a eleger déspotas. Convenhamos que o fenómeno não é novo, mas, claro, quando achamos que o mundo nasceu connosco tudo nos parece uma novidade.

No entanto, é curioso assistir à inflexão de pensamento de Nuno Saraiva de uma semana para a outra. Na semana passada, o jornalista do Diário de Notícias jubilava com o regresso da ideologia à política. Em boa verdade, era apenas o elogio da ideologia – o regresso identifiquei-o eu. Mas esta semana insurge-se contra a ideologia. Os tiranetes que Nuno Saraiva critica, dos Estados Unidos da América à Ásia, têm em comum programas políticos fortemente ideológicos e, na maioria dos casos, abertamente nacionalistas. São, portanto, o expoente máximo da ideologia na política. E obtêm bons resultados eleitorais porque fazem política usando ideologia. Na semana passada, Nuno Saraiva escrevia que “aquilo que se exige a um governo, seja ele qual for, é que cumpra e respeite a ideologia à boleia da qual foi eleito”. Esta semana a ideologia é nefasta.

Como é evidente, mais do que discutir a existência ou não de ideologia, o que se deveria discutir é a adesão das várias ideologias aos valores e às instituições que fundam o Estado de Direito Democrático. Mas isso obrigaria o jornalista a reequacionar a sua opinião sobre os partidos que sustentam o actual Executivo. O que, como é óbvio, não interessa. Logo, o que na semana passada era bom, nesta já é mau. Se continuo a ler o Diário de Notícias acabo esquizofrénico.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Fim da História e os Homens que Temos

por Diogo Noivo, em 12.05.16

Neste editorial do Diário de Notícias, Nuno Saraiva afirma, e bem, que a existência de uma agenda ideológica de esquerda no Governo é natural e expectável. Escreve mesmo que “um dia destes ainda os ouviremos [a “direita”] exigir a queda do governo porque, vade-retro, só faz política”. Seja bem-vinda a política e seja bem-vinda esta leitura da nossa vida pública.

Porém, vemos aqui uma das principais mudanças na opinião publicada no nosso país. Há uns anos, não muitos, as litanias da imprensa viam nas decisões entendidas como sendo ideológicas – privatizações, concessões a privados, redução da tributação das empresas, entre outras – expressões de sectarismo. Escrevia-se na altura que Portugal precisava de consensos, de acordos, de pactos de regime. A ideologia era portanto um anacronismo perigoso que impedia o país de tomar o caminho correcto. Passados seis meses, a ideologia volta a ser política. Sem sobressaltos ou ruído. E ninguém se ri.

Autoria e outros dados (tags, etc)

ornitorrinco-2[1].jpg

 

"acordo ortográfico" de 1990, concebido por Cavaco Silva e que José Sócrates mandou ratificar em 2008, surgiu com o propósito de unificar a grafia. Propósito utópico, irrealizável: nunca haverá unidade ortográfica entre os países de língua portuguesa (reparem, por exemplo, como os brasileiros - e só eles - persistem em chamar Cingapura a Singapura).

Não unificou: baralhou ainda mais a ortografia. Passou a haver três normas - a que radica no português europeu com ramificações em Angola, Cabo Verde, Goa, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, a norma brasileira e o modelo híbrido que o AO90 veio introduzir. Híbrido porque nuns casos transformou a nossa ortografia em mero decalque da brasileira enquanto noutros aprofundava as diferenças - como nas palavras recepção, decepçãoexcepcional, introspecçãoexpectativaimperceptível ou espectadores (que alguns aqui no torrão, por motivos que talvez Freud explique, adoram transformar em "espetadores").

 

ornitorrinco-2[1].jpg

 

Instalou-se portanto uma ortografia à la carte que em vez de clarificar só confundiu. E em vez de democratizar, como seria intenção subsidiária dos esdrúxulos legisladores que pariram este ornitorrinco, gerou uma nova aristocracia do idioma, acentuando as distâncias entre os que o escrevem correctamente - por exemplo, sem quebrar famílias lexicais, como em "Egito"/egípcio, "caráter"/característica ou "setor"/sectorial - e os restantes, que se sentem obrigados a usar o acordês embora discordem dele e na intimidade persistam em escrever como sempre escreveram. Seguindo aliás o insuspeito precedente do próprio Cavaco, principal patrocinador político da coisa.

 

ornitorrinco-2[1].jpg

 

Quando passo os olhos pelo Observador fico sempre com a noção desta dualidade, ali cultivada com esmero. Nas peças informativas, destinadas ao "povinho", este jornal digital faz questão de nos bombardear com títulos e entradas em acordês: "Moçambique promete desinfetar a casa"; "Portugal já adotou o novo acordo ortográfico"; "Portugal é eletrónico e este filme ensina-lhe isso"; "Onde para a Viatecla?"  Não porque os jornalistas que assinam estas peças necessariamente assim queiram, mas porque existe uma norma interna que tal impõe. Como se a Resolução do Conselho de Ministros assinada em Janeiro de 2011 por Sócrates que tornou obrigatória a aplicação do AO90 apenas ao "Governo e todos os serviços, organismos e entidades sujeitos aos poderes de direcção, superintendência e tutela do Governo", se estendesse afinal aos restantes organismos, públicos e privados - dos tribunais às empresas, das editoras às redacções de jornais.

Já os selectos artigos de opinião dos habituais colunistas do Observador, em nítido contraste, são na grande maioria escritos em português correcto - ou seja, na grafia pré-acordês. Refiro-me por exemplo aos textos de Rui Ramos, Luís Aguiar-Conraria, Laurinda Alves, Paulo de Almeida Sande, Alexandre Homem Cristo, João Carlos Espada, Mário Pinto, Paulo Tunhas, Helena MatosJoão Marques de AlmeidaCarlos Silva e Maria João Avillez.

Upstairs, downstairs: pura dualidade ortográfica introduzida pelo "acordo" que visava unificar o idioma. Passaram a existir os proletários da escrita e os aristocratas da escrita - os primeiros, forçados a aplicar o AO90; os outros, dispensados da sua utilização.

 

ornitorrinco-2[1].jpg

 

É quanto basta para ilustrar o ridículo deste ornitorrinco legado ao País por Cavaco e Sócrates, que se atreveram a legislar sobre a língua sem conhecimentos sumários da matéria.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A paixão do jornalismo no News Museum

por Alexandre Guerra, em 26.04.16

“É a maior experiência de Media e Comunicação da Europa.” É desta forma que o News Museum se apresenta no seu site e posso garantir, porque tive o privilégio de o visitar antes de ser inaugurado na noite de 24 para 25, que não é exagero. Aliás, conta quem sabe, este novo espaço dedicado à história do jornalismo e comunicação é bastante superior àquele que já existe há alguns anos em Washington. Na verdade, da parte dos responsáveis do News Museum, houve um cuidado em inovar e apresentar algo diferenciado ao que já existia. O resultado é simplesmente surpreendente, numa mistura muito bem conseguida entre o conteúdo e a forma.

 

Este projecto teve o contributo de vários profissionais da comunicação, nomeadamente de grandes referências do jornalismo em Portugal, de meios de comunicação social, e envolveu, seguramente, um investimento de muitos milhares de euros e o recurso a “know how” e software desenvolvido de raiz por algumas das empresas do grupo LPM Comunicação.

 

O News Museum representa um marco importante em Portugal a vários níveis. Não apenas pelo projecto em si, que é simplesmente obrigatório para quem gosta de jornalismo e comunicação e para quem cultiva o conhecimento da história e da sociedade contemporâneas, mas também porque materializa a visão daquilo que, como eu falava com alguém durante a visita, é um projecto inédito de gestão de reputação e notoriedade. Algo a que em Portugal não estamos habituados a ver por parte do sector privado, já que, normalmente, tudo o que é criado em termos de oferta do conhecimento à sociedade ou é feito à “sombra” do Estado ou é desenvolvido por empresas que durante décadas foram monopolistas e que hoje se apresentam como “privadas”, e quase que têm uma obrigação moral de servir a comunidade para além dos serviços que “cobram”.

 

O News Museum não surge de qualquer obrigação empresarial, mas sim de uma espécie de filantropia misturada com um legítimo interesse próprio. Embora tenha sido concretizado por uma equipa específica, é a Luís Paixão Martins que se deve a sua criação, o mesmo que há cerca de trinta anos trouxe para Portugal conceitos e metodologias de comunicação insitutucional para o mundo económico, empresarial e, mais tarde, político. A verdade é que houve um antes e um depois do LPM no que à disciplina das “public relations” em Portugal diz respeito. Tornou-se num dos homens mais relevantes da comunicação institucional em Portugal, se não o mais importante, construindo uma reputação sólida e uma empresa de sucesso, e hoje dá corpo àquilo que é, sobretudo, um monumento vivo e interactivo à paixão do jornalismo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 26.04.16

«Me invadió la tristeza y la angustia de asistir a la larga y dolorosa decadencia de un oficio ejercido con alma. La misma angustia de mi gente: los periodistas que han hecho grande el diario y que ahora sólo pueden - sólo podemos - pedir que se nos despida con la dignidad que merecemos.»

Lucía Méndez, "La dignidad de mi gente", no El Mundo

Autoria e outros dados (tags, etc)

Só é óptimo se parecer péssimo

por Pedro Correia, em 24.04.16

20120926_ZubrinDDTNaples[1].jpgSoldado americano utiliza DDT para prevenir malária (Nápoles, Janeiro de 1944)

 

Vi há dias um interessante debate sobre o rumo e o destino da chamada "comunicação social" num programa televisivo da RTP3, O Último Apaga a Luz, dedicado à análise dos media contemporâneos. Sem clichês, sem chavões, sem o pensamento pronto-a-papaguear que é habitual escutarmos noutros programas. Com Joaquim Vieira, Raquel Varela, Rodrigo Moita de Deus e Virgílio Castelo.

A certa altura a Raquel Varela disse uma frase que não resisti a transcrever aqui: "A comunicação social está permanentemente a mostrar aquilo em que a Humanidade é incapaz e a ocultar aquilo de que a Humanidade é capaz."

 

Penso com muita frequência nisto: o discurso jornalístico reflecte hoje uma crescente tabloidização da realidade, descrevendo-a como um local infrequentável. O mundo retratado na generalidade dos órgãos de informação contemporâneos está povoado de calamidades e cadáveres, de fobias de todo o género, de anátemas lançados ao modo como vivemos e convivemos.

O sangue vende como nunca, o medo instala-se, o temor de sair à rua devido a um milhão de causas - desde os assaltos nos multibancos aos raios ultra-violetas potenciados pelo "aquecimento global" - induz cada um a entrincheirar-se nas quatro paredes domésticas, trocando o real pelo virtual.

"O inferno são os outros" - nunca a frase de Sartre pareceu tão actual como nos nossos dias.

 

E no entanto há outro mundo que pulsa e vibra além das manchetes da imprensa. Um mundo que "não sai no jornal", parafraseando o verso de Chico Buarque. Esta semana, ao fundo de uma página interior do El País, na secção de Tecnologia e Ciência, li este título: "Europa livre de malária".

A Organização Mundial de Saúde declarou este continente onde habitamos finalmente imune à doença, que matou 438 mil pessoas em todo o mundo só no ano passado e era endémica no sul da Europa - incluindo Portugal - até à geração dos meus pais. Vinte dois mil soldados norte-americanos adoeceram com malária na Sicília durante a campanha militar para a conquista da ilha, no Verão de 1943. Apenas no pós-guerra os mosquitos portadores da doença começaram a ser combatidos com eficácia, graças à generalização do DDT, o primeiro pesticida moderno.

Uma boa notícia, portanto. E daí ter sido varrida para a parte inferior da hierarquia informativa. Não é má, não transmite receio nem angústia - portanto, não vende. Logo me lembrei, perante este exemplo concreto, de uma reunião de editores no Diário de Notícias. Ousei sugerir que todos os anos - num dia apenas, coincidindo com o aniversário do jornal, a 29 de Dezembro - fizéssemos aquilo que me parecia, e parece ainda, um estimulante exercício intelectual: produzir uma edição em que todos os temas fossem escritos num ângulo positivo. Seguindo o princípio de vermos o copo meio-cheio, não meio-vazio.

Quase todos os meus colegas olharam para mim como se eu estivesse afectado por loucura momentânea. E logo a questão foi arrumada em duas palavras: "Não vende."

 

A mesma lógica que leva o fim da malária na Europa a merecer apenas uma nota de rodapé: de acordo com este raciocínio dominante, só as más notícias parecem verdadeiramente boas.

Se em vez de mau for péssimo, ainda melhor.

Mas - convicto ainda de ter apresentado uma sugestão que devia ter merecido luz verde nessa reunião de editores, há mais de uma década - interrogo-me: se só a tragédia e a catástrofe "vendem" por que motivo continuam a fechar tantos jornais?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 16.04.16

«A comunicação social está permanentemente a mostrar aquilo em que a Humanidade é incapaz e a ocultar aquilo de que a Humanidade é capaz

Raquel Varela, (O Último Apaga a Luz, RTP3)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Aos papéis

por João Campos, em 15.04.16

A história dos Panama Papers promete ser longa (até porque por cá o Expresso e a TVI parecem querer fazer render o peixe enquanto a montanha dá à luz uma ninhada de ratos), sinuosa e particularmente dada à demagogia - o assunto será decerto mais complexo para as perspectivas a preto e branco da maioria dos paineleirostudólogos da televisão portuguesa. Claro que noções de complexidade e de nuance são coisas que pelos vistos escapam à TVI, aparentemente determinada em falar do caso nos mesmos moldes, mas com linguagem menos refinada, dos programas de comentário futebolístico que infestam os três canais de notícias do cabo. Faz lembrar aquela bela expressão inglesa: if you can't dazzle them with brilliance, baffle them with bullshit. É mesmo a única explicação que encontro para a emissora de Queluz se ter lembrado, para comentar o caso em horário nobre, de Marinho Pinto e Raquel Varela. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

À mercê da ira de um deus menor

por Pedro Correia, em 14.04.16

12370634_E38vp[1].jpg

Durante anos, o cargo de director de jornal funcionava como patamar supremo da profissão, a que apenas uns poucos acediam. Mas funcionava também como um patamar de estabilidade: um director tornava-se o rosto da publicação que liderava, dava-lhe o cunho da sua personalidade, imprimia-lhe o seu estilo. Desde logo porque tinha tempo e espaço para isso.

Sei bem do que falo. Trabalhei com excelentes directores, de quem guardo gratas memórias – grandes profissionais, como o Vicente Jorge Silva, o Joaquim Vieira ou o Mário Bettencourt Resendes, só para mencionar três exemplos.

Hoje, ao contrário do que sucedia nos tempos em que me iniciei no jornalismo, a função de director degradou-se de modo irremediável. Tornou-se instável e acidental. O contingente jogo de cadeiras nas direcções dos órgãos de informação acelerou num ritmo vertiginoso: são raros os profissionais que aguentam nos cargos. Muitos são apeados por gestores e administradores que, nada percebendo de jornalismo, aludem ao fracasso dos outros para ocultarem falhas próprias. Como nos ensinou Freud, "os fracassos são muitas vezes desejados pelo inconsciente".

 

Escrevo estas linhas a propósito da saída de Helena Garrido da direcção do Jornal de Negócios. Como é costume nos meios informativos actuais, em que se esconde muito mais do que se revela, quase nada se divulgou sobre as causas desta inesperada substituição, para mim injustificável. Há um comunicado lacónico em que se dá nota da mudança, anuncia-se o nome do sucessor e a orquestra continua a tocar. Como se a curiosidade jornalística embatesse nesse poderoso tabu que é o escrutínio do próprio jornalismo.

Conheço a Helena Garrido, trabalhei com ela no Diário de Notícias e enquanto leitor atento faço uma avaliação muito positiva do seu mandato como directora do Negócios. Despediu-se com um “Até sempre”, num texto sucinto e digno. É uma partida que lamento.

 

Ela dirigia o Negócios desde Novembro de 2013: manteve-se durante dois anos e quatro meses. Pode não parecer, mas aguentou acima da média actual nos cargos directivos dos media portugueses. Dos 22 directores dos órgãos de informação de carácter nacional (televisão, rádio, jornais e agência noticiosa), só cinco ocupam essas funções há mais de três anos. E metade iniciou-as desde Março de 2015, o que diz muito sobre a instabilidade do cargo. Apenas um ultrapassou a década como director: Vítor Serpa, que lidera A Bola desde 1992. Algo impensável em qualquer outro jornal.

Embora a grande distância deste caso único, é já considerável a longevidade no exercício do cargo de Octávio Ribeiro (que dirige o Correio da Manhã desde Março de 2007), Graça Franco (directora da Rádio Renascença desde Janeiro de 2009) e Bárbara Reis (que iniciou as actuais funções no Público em Novembro de 2009). Depois vieram José Manuel Ribeiro (director do diário O Jogo desde Maio de 2011) e Rui Hortelão (à frente da revista Sábado desde Novembro de 2013).

 

Os restantes 16 títulos jornalísticos (72,7% do total) têm directores há menos de dois anos.

Vou mencioná-los por ordem cronológica de entrada em cena: André Macedo (Diário de Notícias, Setembro de 2014); António Magalhães (Record, Setembro de 2014); Afonso Camões (Jornal de Notícias, Outubro de 2014); Sérgio Figueiredo (TVI, Janeiro de 2015); Paulo Dentinho (RTP, Março de 2015); João Paulo Baltazar (Antena 1, Março de 2015); João Garcia (Visão, Junho de 2015); Pedro Camacho (Lusa, Outubro de 2015); Mário Ramires (Sol e i, Dezembro de 2015); Miguel Pinheiro (Observador, Fevereiro de 2016); David Dinis (TSF, Março de 2016); Pedro Santos Guerreiro (Expresso, Março de 2016); Ricardo Costa (SIC, Março de 2016); e Raul Vaz prepara-se para ficar à frente do Negócios. Transitando do Diário Económico, que dirigia desde Abril de 2015. Entretanto o Económico, agora só na versão digital, passou a ter direcção conjunta de Filipe Alves e Mónica Silvares. Por tempo incerto.

Vários deles, imitando Sísifo, empurram a pedra montanha acima - esforço inglório de heróis precários à mercê da ira de um deus menor.

 

Leitura complementar: Homens e mulheres para queimar

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tudo está bem quando acaba bem

por Pedro Correia, em 10.04.16

Com um editorial um pouco mais musculado do que na véspera, o Público saudou ontem a demissão de João Soares, considerando que se tratou da "única saída digna" para o efémero ministro da Cultura. Foi pena o jornal ter descoberto isto com 24 horas de atraso - facto tanto mais insólito quanto estavam em causa ameaças a dois conhecidos colunistas do matutino. No editorial anterior, recorde-se, o Público nunca exigiu a demissão de Soares. E chegou mesmo a escrever que a eventual saída deste ministro  "podia trazer mais dissabores do que sossego a António Costa", algo que mais ninguém concluiu.

O anónimo editorialista da edição de ontem não deve portanto ser o mesmo anónimo editorialista de sexta-feira. Porque o mais recente já escreve que "fora do governo, por mais 'salutares bofetadas' que prometa aos seus detractores, [Soares] não será uma sombra para a governação".

O Público, em editorial, desmente-se a si próprio. Tudo está bem quando acaba bem.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

João Soares, Costa e o 'Público'

por Pedro Correia, em 08.04.16

ng6433633[1].jpg

Foto Miguel A. Lopes/Lusa 

 

Depois de um ministro (Carlos Borrego) ter sido forçado a abandonar o Governo de Cavaco Silva por contar uma anedota de mau gosto e de José Sócrates ter apontado a porta de saída a outro ministro (Manuel Pinho) por simular um par de cornos em plena sessão parlamentar, dirigindo-se a um deputado da oposição, João Soares deixou de ter condições para permanecer no Governo após ter escrito o que escreveu no seu Facebook. Foi a primeira baixa no Executivo de António Costa, há pouco mais de quatro meses em funções, e certamente aquela que o primeiro-ministro menos lamentará: é tranquilizante, para ele, saber que existe um troublemaker a menos no Conselho de Ministros.

A demissão foi tornada pública só ao fim da manhã de hoje. Mas tornou-se irreversível logo ontem à noite, no momento em que Costa pronunciou as seguintes palavras: "Já recordei aos membros do Governo que, enquanto membros do Governo, nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do Governo." O português pode não ser primoroso, convenhamos, mas o significado político desta expressão era inequívoco: restava a Soares remover os pertences pessoais do seu gabinete.

 

O que espanta, lendo os jornais desta manhã já após o anúncio da saída do ministro da Cultura, é a assombrosa frouxidão do editorial do Público - afinal o diário que deveria sentir-se mais visado no polémico texto de João Soares. Duplamente visado, aliás, pois o agora ex-governante prometia dar bofetadas a um par de colunistas deste matutino, Augusto Seabra e Vasco Pulido Valente.

Esperava-se que hoje o jornal reagisse em termos enérgicos. Pura ilusão. A anónima pena de turno ao editorial calça luvas de pelica, enverniza a prosa e nem lhe ocorre exigir ao chefe do Governo que ponha termo à curta carreira ministerial de Soares. Pelo contrário, chega ao ponto de escrever: "Afastar João Soares do Governo podia trazer mais dissabores do que sossego a António Costa." Prometer "bofetadas" e condicionar seriamente a liberdade de crítica de dois dos seus mais antigos colaboradores não basta, pelos vistos, para indignar hoje o jornal que Vicente Jorge Silva fundou.

Raras vezes tenho lido um editorial tão timorato e conformado - espelho, só por si, da profunda crise do jornalismo português. Felizmente Costa nem sequer o leu.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O discurso da ditadura

por Pedro Correia, em 21.03.16

Em Cuba não há opositores. Há "dissidentes", como lemos e ouvimos a toda a hora. É espantoso como o léxico oficial da mais velha ditadura do hemisfério ocidental, feroz repressora dos direitos humanos, consegue contaminar o discurso jornalístico dos países com liberdade de imprensa. Pela mesma lógica, um Álvaro Cunhal ou um Mário Soares, por exemplo, nunca teriam sido opositores a Salazar: não passariam afinal de "dissidentes" do regime.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A palavra eu vence a palavra nós

por Pedro Correia, em 19.03.16

selfie1[1].jpg

 

"Nunca devemos confundir movimento com acção", ensinava Hemingway. Tenho-me lembrado com frequência desta frase sábia que parecia antecipar o tempo actual, em que tudo se banaliza. É um tempo de anestesia colectiva, potenciado pelo efeito reprodutivo da internet, das redes sociais, dos canais de notícias, da televisão em fluxo contínuo. Já quase nada surpreende, já quase nada escandaliza ninguém. E o mais chocante nesta permanente girândola de imagens em movimento é o facto de as "consumirmos" (palavra muito em voga) numa total falta de enquadramento hierárquico de valores, proporcionada pela diluição do jornalismo clássico que funcionava como mediador neste circuito.

Hoje tudo é importante. O que equivale a dizer que nada é importante. Somos bombardeados com imagens de "famosos" a levar com frívolos baldes de água fria intercaladas com o vídeo do jornalista americano prestes a ser decapitado por um carrasco encapuzado, exibido até à náusea por todos os meios disponíveis como veículo de propaganda da face mais repugnante do islamismo radical. E depois disto voltam os baldes de água fria. Ou o bebé assassinado pelo pai. Ou um banco em crise. Ou a contratação do enésimo "reforço" para um clube de futebol. Ou outro homicida ovacionado por "populares" à entrada de um tribunal neste país de alegados brandos costumes. Ou mais um avião que cai sabe-se lá onde, derrubado sabe-se lá por quem.

Nada choca, nada impressiona, nada fica, nada se retém numa sociedade narcísica onde se dilui a noção de privacidade à medida que tudo se "partilha" no instagram e no facebook, e que elege as selfies como supremo grito da moda: virar a câmara não para o mundo ou para os outros mas para o próprio fotógrafo que transforma o foco digital em espelho. A palavra eu sobrepondo-se à palavra tu e à palavra nós.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sim, Senhor Ministro (18)

por Pedro Correia, em 18.03.16

article-0-031009E80000044D-711_634x400[1].jpg

 

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Como é que o Times conheceu este relatório governamental antes de mim?

Bernard Woolley, secretário particular do ministro - Houve uma fuga de informação, senhor ministro.

Ministro - Isso sei eu. Mas é matéria confidencial! Eu próprio só tive acesso a uma cópia ontem à noite.

Bernard - Pelo menos não estava classificado como "restrito"...

Ministro - Que quer isso dizer?

Bernard - "Restrito" significa que viria nos jornais de ontem. "Confidencial" significa que só vem na imprensa de hoje.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Homens e mulheres para queimar

por Pedro Correia, em 17.03.16

Expendable29[1].JPG

 Cena do filme They Were Expendable, de John Ford (1945)

 

Fala-se muito na crise do jornalismo contemporâneo. Mas, entre os factores desta crise, é quase sempre omitido um dos principais: a gritante incompetência de muitos proprietários de órgãos de informação, que não têm cultura mediática e por vezes são totalmente destituídos de dinâmica empresarial. Usam títulos prestigiados dos media como mero veículo de promoção pessoal ou plataforma intermédia para negócios de outro tipo, ao ritmo voraz das ervas daninhas.

Por vezes são pessoas que não lêem um jornal e desprezam profundamente o universo jornalístico. Não têm sequer formação académica ou humanística que lhes forneça a convicção de que a existência de meios prestigiados de comunicação social é um requisito fundamental das democracias. E seriam incapazes de parafrasear Thomas Jefferson, que preferia a existência de jornais sem haver governo a um governo com ausência de jornais.

 

É imensa a lista dos periódicos desaparecidos no último quarto de século em Portugal. Boa parte deles foi confiada na pior altura às piores pessoas, que lhes ditaram ou apressaram o fim. O primado dos ignorantes e dos trampolineiros, rodeados de pequenas cortes de gente medíocre e totalmente divorciada da missão de serviço público que deve ser desempenhada pelos títulos jornalísticos, condenou muitos deles a uma acelerada extinção enquanto outros, já mortalmente feridos, vegetam em penosa e prolongada agonia.

Largas centenas de genuínas vocações jornalísticas foram amputadas ao longo destes anos em que assistimos ao maior êxodo de profissionais de que há memória neste ofício em contínua degradação salarial e social – aqui tão depreciado enquanto noutros quadrantes, como no Brasil, é cada vez mais valorizado.

 

O que vemos por cá? Jornalistas dispensados, afastados, saneados, emprateleirados, escorraçados. Só por terem experiência, cabelos brancos, pesarem mais na folha salarial – numa visão míope do custo/benefício. Enquanto é recrutada mão-de-obra quase escrava para as redacções – sem contratos, sem direitos, sem salários dignos. Nenhum jornalismo digno desse nome pode ser exercido, de forma continuada, em empresas onde existem editores a trabalhar 14 horas por dia, seis dias por semana, com todo o desgaste e o peso da responsabilidade que isso implica, e a levarem para casa 700 euros. Enquanto alguns dos proprietários ou administradores dessas empresas exibem obscenos sinais exteriores de opulência, indiferentes às situações de desespero humano que vão gerando em seu redor.

Conheço diversos jornalistas que comem apenas uma vez por dia para poderem pagar a renda ao fim do mês.

 

diario_nova.destaque[1].jpg

 

Por estes dias, mais um título prestigiado da imprensa portuguesa – o Diário Económico – atravessa um momento gravíssimo.

Foi mal gerido, mal administrado, mal dimensionado por quem quis dar o passo maior que a perna. Sobreviveu a múltiplas crises internas que se somavam às naturais dificuldades provocadas pela reconversão tecnológica do sector e à endémica crise financeira da última década. Mas, como outros antes dele, foi duramente atingido pela incompetência de um dos William Randolph Hearst de pacotilha que pululam por aí – desses que abrem e fecham jornais como se fossem mercearias ou lojas de penhores sem nunca deixarem de pavonear-se nas festas da moda.

Há meses que no Económico os salários deixaram de ser pagos com regularidade. Muitos profissionais abandonaram entretanto o jornal. Mas vários outros permanecem lá, com a angústia que adivinho. Sentem-se como aqueles soldados do filme de Ford, They Were Expendable (Homens Para Queimar, na versão portuguesa). As dificuldades são tantas e o desrespeito da entidade patronal por eles é tão notório que cumpriram um dia de greve no passado dia 10. Sem meios, sem motivação, sem perspectivas de futuro, cada edição que vai saindo tornou-se um pequeno milagre quotidiano.

Leitor regular do jornal que sou, e amigo de alguns, é para todos que envio um forte abraço solidário. Eles, os que sofrem, são a parte boa do empreendimento. Enquanto quem os colocou nesta situação, a erva daninha, se comporta como se fosse digno de apreço público. Sem sobressaltos de consciência, sem um pingo de vergonha.

 

ADENDA: o Diário Económico publica amanhã a última edição em papel.

Autoria e outros dados (tags, etc)

So long, Nancy

por Pedro Correia, em 08.03.16

Ronald_Reagan_and_Nancy_Reagan_aboard_a_boat_in_Ca

 

Um bom exemplo de obituário jornalístico: a evocação de Nancy Reagan (1921-2016) por Lois Romano no Washington Post.

Autoria e outros dados (tags, etc)

2016-03-06%2010.24.04[1].jpg

 

Falamos tantas vezes na crise do jornalismo português sem perceber que a perda de qualidade dos conteúdos informativos é um fenómeno contemporâneo que ultrapassa em larga medida as nossas fronteiras. Repare-se, por exemplo, nesta notícia inserida na edição de ontem do El Mundo, um dos principais jornais espanhóis e assinada por uma destacada jornalista da secção política daquele diário.

Avança o periódico que o Rei Filipe VI poderá deslocar-se a Lisboa na semana que vai começar para comparecer na cerimónia de posse do "novo Presidente de Portugal, Marcelo Caetano".

Ninguém lá no jornal deve ter reparado no disparate que se escrevia. Nem jornalista, nem editor, nem chefe, nem director, nem revisor de texto (que aliás já não há). Hoje em dia é assim, tanto cá como noutros países: a ignorância impera. E vive amancebada com o pedal do acelerador: os tempos são propícios ao gatilho fácil por influência das chamadas "redes sociais", que disparam mais rápido do que a própria sombra.

Confirmar o que se escreve? Tanto faz. Depois logo se vê.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A relevância da fraternidade

por Ana Lima, em 05.02.16

Rezava assim, esta tarde, na introdução a esta notícia, a página de Facebook do Público: "Mais pormenores sobre o caso que levou à detenção de José Veiga e do irmão de Santana Lopes." 

Portanto, neste caso, as figuras importantes são um indivíduo de nome José Veiga e um indivíduo que tem um irmão de nome Santana Lopes. A minha dúvida é: José Veiga será filho único?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D