Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Um homicídio "por engano"

por Pedro Correia, em 16.11.17

Um homicídio foi ontem notícia. Mas com uma diferença em relação àquilo que é habitual sabermos: este foi cometido por um elemento de uma corporação policial. A notícia foi divulgada ontem, à hora do almoço, nos telediários de três canais em sinal aberto, cada qual à sua maneira.

Transcrevo aqui as diferentes versões e proponho aos leitores que me indiquem qual entendem ser a mais correcta e porquê. Podendo, naturalmente, comentar outros aspectos relacionados com este crime.

 

SIC, 13.16: «A PSP matou uma mulher por engano durante a madrugada passada em Lisboa. A polícia confundiu o carro da vítima com uma viatura em que fugiam os assaltantes de um multibanco. Este desfecho trágico aconteceu na Segunda Circular.»

 

TVI, 13.18: «Uma mulher foi morta esta manhã durante uma perseguição policial em Lisboa, numa operação destinada a capturar elementos de um gangue que de madrugada tinha assaltado um multibanco em Almada. A vítima mortal não estava relacionada com o crime cometido na Margem Sul do Tejo.»

 

RTP, 13.19: «Uma mulher morreu esta madrugada, em Lisboa, depois de baleada pela polícia. Seguia num carro que não parou numa operação policial que os agentes da PSP tinham montado para deter os assaltantes de um multibanco. Sabe-se agora que a mulher que morreu não tinha nada a ver com o assalto.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Questão de acento

por Pedro Correia, em 15.11.17

Porque persistirão os nossos canais televisivos em escrever Zimbabué se todos os jornalistas pronunciam Zimbábue?

Custará assim tanto transferir o acento para a sílaba tónica?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os novos pelourinhos em papel

por Pedro Correia, em 09.11.17

556e148929aee5c43bf0d1c805558e4e[1].jpg

Ela era a estrela do momento nos ecrãs televisivos. Ele era o ministro em ascensão no firmamento político cá do burgo - culto, apessoado, bem falante. Tiveram os seus dias de glória na imprensa cor-de-rosa - a que dispõe de carteira profissional sem nunca se sujeitar ao severo controlo deontológico que baliza a conduta das restantes publicações.

Superado esse tempo de esplendor na relva, virou-se a página. Veio o estupor nas trevas, em total contraste com as soalheiras manhãs de outrora. A imprensa continuou atenta, mas já sem vestígios do tom rosado. Essa imprensa que só é cordata e amável para quem está sob o foco das luzes da ribalta. Aos outros, aos que estão na sombra e no silêncio, condena-os sem os escutar, sentenciando-os sem remissão a penas com efeitos perpétuos em forma de manchetes e capas de onde está ausente qualquer presunção de inocência dos visados.

 

Muito se tem escrito, em tons de justa indignação, sobre o apedrejamento mediático daquela profissional dos ecrãs televisivos que tem visto a sua vida indecorosmente devassada, sem o menor respeito pela reserva da intimidade garantida no texto constitucional a todos os cidadãos portugueses - ao ponto de até os seus dois filhos menores serem utilizados como arma de arremesso contra a própria mãe.

Falta sublinhar um dos aspectos mais lamentáveis deste triste caso: na primeira linha desse apedrejamento têm figurado as chamadas revistas femininas - escritas por mulheres, dirigidas por mulheres.

Questiono-me o que sentirão elas da mulher concreta que visam, em capas sucessivas, sem remorso nem piedade. Questiono-me se alguma vez farão esse imprescindível exercício intelectual inerente ao jornalismo responsável que nos manda colocar, ao menos por instantes, no papel dos visados pelos nossos textos e pelos nossos títulos.

 

Algum do pior machismo vem surpreendentemente de onde menos se espera. Mulheres contra mulheres - tolerantes com eles, inclementes com elas.

Tanto se fala agora em mudança de mentalidades, mas aqui não vejo qualquer sinal de maturidade cívica ou conquista civilizacional: só vislumbro retrocesso a um passado de má memória. Os velhos pelourinhos dos nossos tetravós ressurgem hoje em forma de papel impresso. E todos os dias reclamam novas vítimas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Manchetes de antologia (1)

por Pedro Correia, em 20.10.17

pag01CA[1].jpg

 

Salvo melhor opinião, a manchete de hoje do Correio dos Açores, que aqui reproduzo com a devida vénia, desrespeita alguns princípios básicos da técnica jornalística:

1. Evitar sobrecarregar um título com dados estatísticos;

2. O mais importante deve ser mencionado logo de início, não no fim;

3. Inútil usar 12 palavras quando bastariam cinco: "Perde testículo em Ponta Delgada".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Em tempos de "pós-verdade"

por Pedro Correia, em 08.10.17

 

Como uma mentira grosseira acabou por dar a volta ao mundo, travestida de "verdade".

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

ob_f5ccf0_image[1].jpg

 

Este é o dia mais absurdo da nossa vida pública. O chamado "dia de reflexão" que o Estado impõe aos cidadãos, com pose paternalista e condescendente, instituindo a mordaça ritual aos meios de comunicação como se precisássemos de 24 horas para formarmos uma intenção de voto na sombra e no silêncio. Na era das redes sociais, onde tudo se escrutina e se debate em tempo real à margem dos clássicos circuitos da informação, aliás cada vez mais em crise, este anacronismo já devia ter sido banido da lei eleitoral portuguesa.

Esta é a minha primeira reflexão no inútil dia que parece congelado e congelar-nos no tempo - contemporâneo da imprensa estatizada e do canal único de televisão, que transmitia a preto e branco.

 

A segunda resulta da minha perplexidade perante a existência de 9,5 milhões de eleitores registados num país que tem apenas 8,6 milhões de habitantes em idade adulta. Há portanto 900 mil "eleitores" em excesso - gente entretanto falecida ou emigrada que não foi riscada dos cadernos eleitorais, o que permite as habituais parangonas de alerta contra a "gigantesca abstenção" dos portugueses.

"Em 2013 houve 47,4% de portugueses que não quiseram escolher os seus representantes no poder local", repetem acriticamente os jornais que restam e os canais de televisão que subsistem, transformando o erro factual em notícia sem jamais questionarem a óbvia falsidade destes números. Estamos perante um caso grosseiro de "abstenção técnica", eufemismo utilizado pelos burocratas de turno e pelo jornalismo preguiçoso para justificar o injustificável.

 

Limpeza urgente dos cadernos eleitorais e fim da obsoleta jornada de "reflexão": eis o meu modesto contributo cívico para este dia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O jornalismo perdeu por goleada

por Pedro Correia, em 16.09.17

Será talvez pleonástico, mas a RTP cumpriu a sua obrigação de serviço público, sem aspas. Anteontem à noite, ao juntar no mesmo estúdio os 12 candidatos à presidência da Câmara de Lisboa, num debate bem moderado por António José Teixeira. Oportunidade para ouvirmos alguns dos que actuam no chamado "campeonato dos pequenos", com aspas. Só assim denominado porque outros canais televisivos, como a  SIC e a TVI, decidiram apostar apenas nos mesmos - os do costume, os de sempre.

Critério jornalístico, dizem. Se a pauta que aplicam aos candidatos fosse aplicada pelos espectadores às televisões, nunca ambas, TVI e SIC, teriam destronado o canal público.

 

À mesma hora em que os doze de Lisboa debatiam na RTP, a TVI dava um exemplo inverso, de mau jornalismo, ao reunir num debate cinco dos sete candidatos à câmara de Loures (e porquê Loures e não Odivelas, ou Sintra, ou Matosinhos, ou Almada, ou Gaia, ou Barreiro?) apenas para dar palco ao estridente e histriónico candidato do PSD. Que foi o primeiro a falar, por amável deferência da imoderadora Judite Sousa, e também o único que falou o tempo todo, monopolizando a sessão. Tudo menos um debate, afinal.

Vendo bem, o que estava ali em jogo era uma tentativa quase desesperada da TVI de roubar por 90 minutos - o tempo que dura, em regra, um desafio de futebol - um protagonista habitual da sua concorrente CMTV, que já a ultrapassou em audiência nos canais por cabo. O cabeça de proa do PSD, travestido de Tea Party em Loures, teve o seu momentinho de glória perante a benevolente Judite e o ar acabrunhado dos figurantes neste pseudo-debate onde o melhor da política, que todos dizem ser a que se desenrola no plano autárquico, deu lugar ao pior do futebol.

 

Levado ao colo pela jornalista incapaz de arbitrar, o tipo que só quer aparecer e diz tudo o que possa dar-lhe audiência no campeonato dos cromos televisivos - incluindo injuriar sportinguistas, destratar ciganos e mandar às malvas o Código Penal - ganhou por goleada. Derrotando não os rivais que com ele surgirão nos boletins de voto mas o jornalismo sem aspas, que ainda enaltece a isenção e o pluralismo como imperativos éticos e virtudes cívicas.

As autárquicas só serviram de pretexto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O idiota virou menino

por Pedro Correia, em 13.09.17

 

Aparente plagiador e péssimo tradutor. L' Idiot (O Idiota) foi traduzido por Sonhos de Menino.

 

 

Levantamento do Blitz aqui. Jornalismo a sério.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Use já e pague depois (ou nunca)

por Pedro Correia, em 07.09.17

free[1].gif

Anda para aí um enorme alarido sobre viagens de políticos patrocinadas por empresas privadas. Acho muito bem que este assunto seja investigado até à exaustão. Espero, sobretudo no caso dos autarcas, que se siga a pista destas deslocações em matéria de eventuais favorecimentos directos ou indirectos às entidades responsáveis pelos generosos convites. Partindo sempre do princípio que não existem almoços grátis.

Encaro no entanto com alguma ironia esta profusão de virgens ofendidas, agora prontas a rasgar vestes em colunas de jornais e ecrãs televisivos. Porque é um segredo muito mal guardado que os órgãos de informação sempre foram brindados com viagens na modalidade "tudo pago" - das mais diversas proveniências e para os mais variados (e por vezes principescos) destinos. De resto, quanto mais alto se sobe na hierarquia dos jornais e televisões, mais generosos se tornam estes pacotes de viagens.

 

Nem precisamos de recuar muito no tempo. No último mês, e só a título de exemplo nada exaustivo, registei estes "patrocínios" de peças jornalísticas, devidamente identificados em várias publicações.

"A jornalista esteve alojada a convite do Sapientia Boutique Hotel"

"Esta reportagem foi realizada com o apoio de Azores Airlines e SATA"

 "A jornalista esteve alojada a convite do White Exclusive Suites & Villas"

"O jornalista viajou a convite da TAP"

"A jornalista viajou a Kingston [Canadá] a convite da Frulact"

"O repórter viajou a convite do Turismo de Alicante e da Costa Branca"

 "A jornalista viajou a Fez a convite do turismo de Marrocos em colaboração com a Solférias"

"O jornalista viajou a convite da Brisa"

 

Estas viagens à borla ocorreram, em certos casos, nas mesmas publicações que mais têm destacado os passeios dos políticos, por vezes em tom de compreensível indignação.

Haverá quem suponha que os parâmetros éticos de uns não devem aplicar-se a outros. Respeitando as opiniões alheias, naturalmente, permito-me discordar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Jornalixo científico e reflexos sociais

por João André, em 05.09.17

Há uns tempos surgiu um artigo no Independent que andou a dar a volta por Facebook e alguns blogs. O artigo do Independent, que tinha por título "Atheists are less open-minded than religious people, study claims" citava o estudo de um investigador da Université Catholique de Louvain onde este apresentava os resultados da análise das posições de pessoas religiosas e não religiosas a afirmações que analisavam a sua abertura de espírito.

 

O primeiro aspecto que na altura me incomodou foi a forma como os comentários ao partilhar a notícia do Independent (ou subsequentes) pareceram incidir apenas sobre o título da notícia, dando como adquirido que os ateus são simplesmente menos tolerantes que pessoas religiosas, assim, sem quaisquer outras considerações. As pessoas religiosas apresentaram a notícia como prova que são mais tolerantes e as não religiosas atacaram o estudo sem notar mais do que o facto de sair de uma universidade católica, como se a origem fosse automaticamente desqualificadora de rigor.

 

Em qualquer dos casos é pena. Primeiro porque o título da notícia equipara pessoas "não crentes" a "ateus" (algo que o título do artigo também faz). Depois porque qualquer conclusão retirada do artigo do independent é abusiva, dado que o artigo em si é curto, pouco informativo sobre o estudo e não apresenta as devidas ressalvas que qualquer estudo científico de qualidade deve apresentar.

 

A mais importante destas é o facto de o artigo salientar que é um estudo preliminar e que a amostra é pequena (por exemplo: os prticipantes que se declararam como ateus ou agnósticos constituíam 60% da amostra - dificilmente corresponde à realidade de qualquer sociedade moderna, por muito secular que seja. Por outro lado, os resultados indicaram que em certos indicadores, os não crentes demonstravam menos abertura de espírito a outros conceitos e noutros demonstravam mais. Ou seja, comportavam-se tal e qual os crentes: nalguns aspectos são mais dogmáticos e noutros menos. Aquilo que o artigo terá trazido de forma mais clara é precisamente o facto que os não crentes não são sempre mais tolerantes. Isto deveria ser óbvio, mas é também para isso (para provar ou contrariar a sabedoria "popular") que a ciência existe. [outras leituras sobre o artigo/notícia].

 

O que o artigo do Independent demonstra novamente em relação aos jornais é como estes estão mal equipados para tratar os assuntos científicos. Não os compreendem, lêem o essencial, fazem meia dúzia de perguntas de algibeira aos autores (quando fazem) e escrevem as conclusões mais sensacionalistas de que forem capazes. Aquilo que a disseminação do artigo vem provar, por outro lado, é que os consumidores destas "notícias" por via das redes sociais aceitam a primeira linha do cabeçalho do post, não lêem o que têm em frente, não compreendem o que lêem se o fizerem e que quando criticam o fazem através do preconceito mais à mão (neste caso: "os ateus são obviamente intolerantes" ou "tinha que ser de uma universidade católica").

 

No fundo, isto não passa do mesmo ciclo que refere o Pedro. Jornalixo, apenas aplicado à Ciência.

 

[Pequena nota: refiro o nome francês da universidade porque há duas universidades belgas que seriam traduzidas da mesma forma, a referida acima e a Katholieke Universiteit Leuven. No passado eram uma e a mesma universidade e apenas se separaram por idiomas em 1968. Penso que ainda existem sinergias entre elas, especialmente no que diz respeito a bibliotecas, administração e algumas iniciativas, mas para todos os efeitos são universidades diferentes]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do jornalismo ao jornalixo

por Pedro Correia, em 31.08.17

As chamadas "redes sociais" são hoje a maior rede de amplificação de mentiras no quotidiano português. Qualquer aldrabice ali posta a circular ganha eco imediato, com opiniões definitivas cavadas em trincheiras, sem ninguém cuidar da verdade dos factos.

Nos últimos dias isto ficou bem evidente na absurda polémica dos caderninhos de apontamentos pré-escolares com capas a azul e cor-de-rosa, com centenas de pessoas a pronunciar-se sobre algo que nunca tinham visto nem faziam a menor ideia do que era. Bastaram uns bitaites no Twitter para logo a bola de neve engrossar. Da "rede social" a estória saltou para todos os media e destes para um obscuro organismo oficial pomposamente designado Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, e daqui para o gabinete do ministro adjunto do primeiro-ministro, que fez um inédito apelo público à retirada desses cadernos do mercado - onde se encontravam, sem qualquer polémica, desde Julho de 2016!

 

Tudo isto em apenas 24 horas e sem que se estabelecesse uma versão contraditória: estava em curso um linchamento colectivo e ululante, passatempo favorito das "redes". Ninguém fez caso do que disse  Susana Baptista, responsável pelas publicações infanto-juvenis da Porto Editora, ninguém ouviu a autora, Catarina Águas - licenciada em Educação de Infância na Escola Superior de Educação de Lisboa -, ou as ilustradoras dos tais cadernos, Ana Valente e Rita Duque. Todas do "genero" feminino, todas profissionais respeitáveis, todas ignoradas. Como se estivesse em causa uma empresa de vão de escada e não a maior editora portuguesa, com uma reputação alicerçada em sete décadas nos domínios da pedagogia e da didáctica.

Foi preciso um humorista - neste caso Ricardo Araújo Pereira - repor a verdade dos factos para a polémica se esvaziar quase tão depressa como tinha começado. Sem carteira profissional de jornalista, ele fez o que qualquer bom jornalista deveria ter feito: apurar o que realmente se passava, sem emprenhar de ouvido.

Este episódio envergonha os jornalistas portugueses. E ajuda a explicar por que motivo todos os títulos da imprensa continuam a cair a pique, como demonstram os calamitosos números referentes ao primeiro semestre de 2017 agora divulgados pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação.

 

maxresdefault[1].jpg

 

Anteontem, embora com menos destaque, aconteceu uma história semelhante, também iniciada nas redes sociais. Sobre os supostos maus-tratos dados a um galo numa remota aldeia do concelho de Seia: o bicho, garantiam os arautos da pós-verdade refastelados nos seus sofás lisboetas sem nunca terem posto os pés na referida povoação, seria morto à paulada, com requintes de sadismo. Com a ave "agonizando lentamente fruto da malvadez".

Foi quanto bastou para que o PAN salivasse de indignação. A coisa meteu comunicado oficial do partido animalista, denúncias ao Ministério Público e à Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária. De imediato os órgãos de informação reproduziram tudo isto - uma vez mais, sem apurarem os factos, como mandaria a deontologia profissional.

Parecia um filme de terror. Com o ligeiro problema de ser mentira. Como a Câmara Municipal de Seia, presidida pelo socialista Carlos Filipe Camelo, se encarregou de esclarecer, desfazendo o boato. Entretanto, lamentavelmente, apenas o Jornal de Notícias tinha cumprido o dever jornalístico, estabelecendo o contraditório ao ouvir as pessoas daquela aldeia que desmentiram a atoarda sem rodeios numa peça escrita pela jornalista Madalena Ferreira (infelizmente não disponível em versão digital no momento em que escrevo estas linhas).

 

Galo-galinhas-e-pintos-20170212010236[1].jpg

 

Acontece que as redes estão-se nas tintas para a verdade. Essa "turba inorgânica", como bem lhe chama Francisco Mendes da Silva, quer indignar-se o tempo todo contra não importa o quê. Tal como os viciados em drogas duras, os junkies das caixas de comentários dos jornais - os mesmos que espalham qualquer atoarda no Twitter e no Facebook - fazem prova de vida berrando por escrito sobre assuntos acerca dos quais nada percebem, nada querem perceber e têm raiva a quem perceba.

Isto explica que as putativas agressões ao tal galo só existente na delirante imaginação do PAN tenham dado azo à habitual javardice histérica, com dezenas de pessoas disparando contra um alvo afinal inexistente.

 

Uma vez sem exemplo, aqui transcrevo algumas dessas opiniões, colhidas ao longo de 24 horas na caixa de comentários da edição electrónica do JN, para se avaliar bem o nível intelectual desta gente:

«Haja vergonha! Haja respeito por seres que sentem como nós!»

«Quais são as origens dessa barbaridade? Religião ou vudu?»

«Voltamos à idade da pedra mas da pior forma. É que nessa época matava-se para comer, agora mata-se por diversão.»

«É uma tradição de merda e já devia ter acabado.»

«Outra tradição para atrasados mentais... já não basta os doentes de Barrancos...»

«Que façam tradição com os seus familiares. Não têm que o fazer a seres inofensivos que estão ali por obrigação.»

«E que tal serem eles e a sua "tradição de caca" a levarem paulada?»

«Estes divertimentos de merda à custa do sofrimento dos animais pôem-me doente. Que tal substituir o galo pela besta (humana) lá da aldeia?»

«Sugiro para as pessoas que são a favor deste tipo de tradições seguirem a minha nova tradição: amarrar um de vocês e bater-lhes com um barrote até morrerem.»

«Podem substituir o galo pelo António Costa?»

 

fake-news[1].jpg

 

No meio deste vendaval de imbecilidades, uma  leitora ainda tentou repor a verdade: «Se há uma coisa que abomino é a falta de profissionalismo jornalístico e a política suja que se pratica no nosso pais. Para aqueles que gostam de opinar sem o devido conhecimento, informo que morte do galo é na verdade a morte do ovo: não andam à palauda ao galo mas ao ovo .»

Como era de calcular, ninguém fez caso: os "factos alternativos" são muito mais sedutores do que a verdade nua e crua.

Assim vamos andando: dispara-se primeiro e reflecte-se depois. Com o genuíno jornalismo praticamente em vias de extinção, entretanto absorvido pelas "redes". Cada vez mais travestido de jornalixo: vociferante, acéfalo, populista, irresponsável e mentiroso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Flagrantes do país real

por Pedro Correia, em 25.08.17

mw-860[2].jpg

 Foto António José/Lusa

 

O País continua a arder pelo terceiro mês consecutivo. Há incêndios nomeadamente em Oleiros, Guarda, Sertã e Sabrosa, combatidos por 2254 bombeiros e 21 meios aéreos. Só ontem, mais seis bombeiros ficaram feridos - um deles em estado muito grave, forçando a sua evacuação para o hospital de Santa Maria, em Lisboa - e pelo menos oito habitações foram destruídas pelas chamas que vão cercando aldeias e devastando áreas florestais e agrícolas. A Polícia Judiciária já deteve 78 pessoas, número que quase duplica o do ano passado por esta altura. Não admira: segundo o presidente da Liga dos Bombeiros, "há mão humana em 98% dos incêndios e 80% têm origem criminosa".

A Comissão de Inquérito à tragédia de Pedrógão, que provocou 65 vítimas mortais, prossegue o seu pachorrento trabalho: as conclusões hão-de vir lá para o cair da folha outonal, passados os calores estivais e as eleições autárquicas. À espera que o tempo decorra, e que os fogos se apaguem naturalmente pela chuva que um dia há-de chegar, o Governo tarda em encarar de frente o problema, que exige medidas drásticas, incluindo a reposição das extintas equipas de guardas florestais e a formação de um corpo profissionalizado de bombeiros especializados no combate permanente a estes fogos. Não nos iludamos: está em curso uma calamidade ambiental e climática. Enfrentamos um autêntico atentado à segurança nacional, como bem acentuou Viriato Soromenho-Marques, aconselhando o Executivo a "decretar um longo estado de emergência nas áreas florestais".

Podemos esperar sentados: assim que os órgãos de informação se cansarem de vez de reportar o rasto destruidor dos incêndios no Portugal mais pobre e desprotegido, a Lisboa mediática retomará, festiva e faiscante, as prioridades tribais que a formatam durante quase todo o ano, em circuito fechado, ditadas pelo amiguismo travestido de jornalismo. Talvez por isto, os diários vendem cada vez menos e vários vão-se arrastando em dolorosa agonia, enquanto os noticiários televisivos perdem espectadores a ritmo acelerado.

O país profundo, o que não se movimenta no eixo Chiado-Príncipe Real nem tem protagonistas a monopolizar cabeçalhos e setas viradas para cima na imprensa, vai tentando a sorte e derrapando na estrada. Desde Janeiro, já se registaram em Portugal 81.124 acidentes rodoviários, com 320 mortos - mais 51 do que no período homólogo de 2016 - e 26.757 feridos. E nos primeiros seis meses de 2017 os portugueses perderam, em média, 3,1 milhões de euros por dia em apostas sem prémio no jogo legal.

Há anos assim, em que nos bate à porta o azar. Chamemos-lhe assim ou outra coisa qualquer.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A missão do jornalismo

por Pedro Correia, em 16.08.17

Há dias, na primeira página de um jornal, li o seguinte título: "Dona da MEO convida mais de 50 trabalhadores a rescindir contratos".

Adoro estes doces eufemismos dos tempos modernos. Eufemismos como o dos recentes "furtos" de Tancos, pondo de lado a rude palavra "roubo", que ainda há pouco ouvíamos proferir a torto e a direito a propósito das mais diversas situações. Ou até a despropósito.

A MEO quer despedir mais de 50 trabalhadores. Tão simples como isto. E tão incómodo, compreendo. Nada que um jornal deva ocultar. Porque a missão do jornalismo é relatar a verdade, não silenciar ou camuflar factos incómodos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Venezuela: repressão e silêncio

por Pedro Correia, em 07.07.17

cc060717x012f10_crop1499300857620.jpg_258117318[1]

 Hordas de apoiantes de Maduro assaltando o Parlamento em Caracas

 

O regime proto-ditatorial de Nicolás Maduro, que tem espezinhado todas as liberdade cívicas na Venezuela e conduzido o país a extremos de indigência e miséria, foi ainda mais longe esta quarta-feira ao permitir que milícias paramilitares, armadas até aos dentes, invadissem o Parlamento de Caracas e agredissem selvaticamente diversos deputados da oposição, funcionários e vários jornalistas.

Foi mais um passo rumo à transformação total do "socialismo" venezuelano numa tirania pura e dura. Desde Abril, 90 manifestantes anti-Maduro foram assassinados pelas chamadas "força da ordem" só porque protestavam pacificamente na rua contra o regime. Há dois meses, a Amnistia Internacional alertava o mundo contra a "caça às bruxas" desencadeada em Caracas contra políticos da oposição, incluindo governadores e deputados. Enquanto os esbirros armados pelo regime reprimem a todo o momento o que resta da liberdade de manifestação num país que tem uma das taxas de  inflação mais elevadas do planeta e o segundo maior registo de homicídios per capita do hemisfério ocidental.

 

No seu relatório anual de 2016 sobre os atentados à liberdade de imprensa no mundo, a prestigiada organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) alertava: «Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro possui as suas próprias artimanhas para combater os media: aquisições realizadas por amigos seus (como nos casos do jornal El Universal e do canal Globovisión) seguidas de vagas de despedimentos, asfixia da imprensa pela supressão do acesso ao papel de impressão, o que já conduziu ao encerramento de 22 jornais, ou ainda uma lei que criminaliza todo o  conteúdo que possa "questionar a autoridade legítima constituída".»

Em apenas um ano, sem surpresa, a Venezuela baixou da 117.ª posição para o 139.º lugar - num total de 180 países - na Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa dos RSF.

 

Espero sinceramente que o Sindicato dos Jornalistas, sempre tão atento às ameaças internacionais à liberdade de imprensa, se pronuncie - com idêntica celeridade à que teve no chamado "caso" Sebastião Pereira - sobre as mais recentes agressões aos profissionais da informação na Venezuela. Tal como fez a 3 de Julho, quando visou o Presidente norte-americano Donald Trump, e nesse mesmo dia ao insurgir-se contra as medidas censórias registadas em Hong Kong.

A minha expectativa é grande, embora não se fundamente em precedentes dignos de registo. Consultando o sítio do Sindicato dos Jornalistas, verifica-se que as mais recentes alusões à Venezuela remontam a 2010. Muito antes da chegada de Maduro à presidência do país, portanto.

Desde então, silêncio.

 

Mas vou esperar. Sentado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não, senhor. Não mesmo. Por muito que nos queiram fazer acreditar, o maior escândalo jornalístico associado à tragédia de Pedrógão Grande não é um artigo publicado no El Mundo sob pseudónimo, nem a reportagem da Judite, nem a impreparação dos jornalistas, nem a repetição das frases feitas, nem a exploração abusiva dos sentimentos e das emoções. Tudo isso levanta naturalmente interrogações deontológicas e é susceptível de crítica cerrada. Mas há pior. Vejamos os factos. Temos, desde logo, 64 vítimas mortais, ao que parece 12 desaparecidos e centenas de feridos. É uma das maiores tragédias humanas à escala planetária provocada por um incêndio florestal. Temos depois a política da floresta e de prevenção e combate a incêndios mais do que questionável ao longo de décadas. Temos os Kamov que não voam e não servem para combater fogos. Temos o SIRESP cuja aquisição está envolta em suspeitas sérias e que não funcionou em várias situações de emergência já conhecidas em 2016. Temos carrinhas com antenas que não comunicam. Temos uma estrada que não foi fechada e onde morreram mais de quatro dezenas de pessoas. Temos o camião de frio da Protecção Civil que não funciona. Temos a origem do incêndio que é preciso apurar para lá das versões pré-estabelecidas. Tudo isto são factos que um jornalista experiente deveria querer conhecer e aprofundar. Como compreender então que, entre outros, Paulo Baldaia e Fernanda Câncio se tenham apressado, no DN e com os cadáveres ainda quentes, a decretar a inevitabilidade do sucedido? Como é possível que tenham prescindido imediatamente, perante tudo isto, da função essencial de jornalista que é fazer perguntas? Este sim é o elefante no meio da sala do jornalismo português, o escândalo que é preciso investigar. Com que propósito, em nome de que interesses, a mando de quem abdicaram das perguntas para abundar nas respostas?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Sebastião Pereira sou eu

por Pedro Correia, em 24.06.17

"Caos en el mayor incendio de la historia de Portugal: 64 muertos, un avión fantasma y 27 aldeas evacuadas." Foi este o título da peça do El Mundo de 21 de Junho que perturbou o Governo e mobilizou a guarda pretoriana do poder, que parecia hibernada em pleno Verão.

Tudo normal. Mas nunca imaginei que o Sindicato dos Jornalistas - organismo que tem como incumbência e dever a defesa dos interesses socio-profissionais dos jornalistas - se envolvesse com tanto fervor no assunto, emitindo 48 horas depois da publicação da notícia um comunicado em que garante não haver "qualquer registo de documento profissional" acerca do nome Sebastião Pereira, o autor do texto. Nesses escassos dois dias, o SJ teve tempo de indagar a direcção editorial do El Mundo e os sindicatos espanhóis, "informando-os sobre o caso e pedindo cooperação para o esclarecer".

 

Gostaria de ver o Sindicato dos Jornalistas, agora mobilizado na batalha da propaganda contra quem ousou publicar além-fronteiras uma peça tão incómoda para Sua Excelência o Presidente do Conselho de Ministros, pronunciar-se com tamanha rapidez contra os despedimentos maciços de jornalistas nos órgãos de informação, a crescente proletarização da profissão e o incumprimento de elementares obrigações contratuais pelas entidades patronais.

Quanto à identidade do misterioso correspondente que tanto tem alvoroçado São Bento, não vale a pena enviarem mais correios electrónicos para a redacção do El Mundo nem incomodarem as estruturas sindicais espanholas: o Sebastião Pereira sou eu.

Ao contrário do que alegam alguns usurpadores, incluindo este e este.

 

Mais esclareço que escolhi Sebastião por ter nascido em São Sebastião da Pedreira e Pereira em homenagem ao ex-ministro Pedro Silva Pereira, que num destes dias encontrei num supermercado.

Aproveito a oportunidade para revelar que também utilizo ocasionalmente as assinaturas  Repórter XFradique Mendes, Dennis McShade  e  Bob Dylan - sem ter feito vénia nem pedido autorização ao Sindicato dos Jornalistas, falha de que muito humildemente me penitencio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O mistério do jornalista Sebastião Pereira.

por Luís Menezes Leitão, em 23.06.17

Como esta notícia bem demonstra, foi praticado um crime grave em Portugal. Há um indíviduo que escreve para o El Mundo, intitulando-se Sebastião Pereira, e que, com inaudita má fé, informou o povo espanhol de que a carreira política do nosso querido Primeiro-Ministro pode estar em risco com os incêndios. Que ignomínia! Nunca o nosso amado Primeiro-Ministro ou sequer o mais obscuro Secretário de Estado deste governo pode ter a carreira política em causa com um incêndio que matou apenas 64 pessoas.

 

Mas felizmente que já está a decorrer uma investigação jornalística séria que descobriu que o nome Sebastião Pereira não está registado como jornalista e se trata de alguém que se esconde sob um pseudónimo, violando todas as regras da deontologia. Não sabem que o uso do pseudónimo é expressamente proibido para qualquer jornalista? Não sabem que Mário Castrim se chamava mesmo assim? E têm alguma dúvida de que o Primo Basílio, o Agapito Pinto e o Agapito Pinto Filho, que em tempos escreveram no Correio da Manhã, eram pessoas reais e que nada têm a ver com um senhor que por acaso hoje até ocupa o palácio de Belém?

 

Há que esclarecer rapidamente o mistério do torpe jornalista que se esconde sob o pseudónimo de Sebastião Pereira. Deve ser seguramente alguém ao serviço de interesses ocultos, que não querem que o país continue a viver como habitualmente, feliz sob a gestão do excelso governo da geringonça. Este, demonstrando a sua enorme queda para a literatura, reage aos incêndios perguntando, como António Lobo Antunes, "que farei quando tudo arde"? E, quando o referido jornalista for apanhado, impõe-se rapidamente que ele seja imolado pelas suas horrorosas blasfémias em auto-de-fé no terreiro de Belém. Isto se entretanto não tiver surgido qualquer outro incêndio que se possa aproveitar para o efeito.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do sublime ao grau zero

por Alexandre Guerra, em 23.06.17

20140428-lens-silva-slide-K0TL-blog480.jpg

Através da lente de João Silva, vê-se Ken Oosterbroek, morto durante os incidentes de Tokosa, África do Sul, a ser carregado pelo seu colega Gary Bernard/18 de Abril de 1994

 

Durante algum tempo, quando era mais jovem e iniciava o meu percurso universitário no curso de Relações Internacionais, tive um recorte de jornal com esta fotografia colado na parede do meu quarto. A imagem abria uma janela para realidades dramáticas, mas ao mesmo tempo alimentava-me o sonho que um dia ambicionava concretizar. Muito por inspiração do meu pai, poucas dúvidas tinha na altura de que iria ser jornalista. Mas ao contrário dele, a minha paixão puxava-me para a área do jornalismo de internacional (o que veio a acontecer). A política nacional pouco me interessava, o que eu queria mesmo era acompanhar as grandes questões do mundo e lançar-me ao desafio supremo: ser repórter de guerra. No âmbito da política internacional, ainda tive o privilégio de fazer umas coisas engraçadas, para lá do tradicional jornalismo de takes da Reuters, da AFP ou da AP, e quanto a reportagem de guerra, tive a oportunidade de passar o primeiro verão explosivo da intifada de al-Aqsa na Palestina e Faixa de Gaza (jornalistas portugueses nem vê-los). Rebentavam bombas todas as semanas em Telavive e Jerusalém e os “territórios ocupados” viviam a ferro e fogo, sob o cerco das Forças de Segurança Israelitas. Voltei lá no ano seguinte por uns dias, quer a Gaza, quer a Ramalhah e, por coincidência, apanhei o bombardeamento à Mukata de Yasser Arafat.

 

Voltando à fotografia, ela lembrava-me também que os verdadeiros jornalistas de guerra (e não aqueles que dizem que são) podem às vezes ser eles as próprias vítimas das “histórias” que cobrem, mas mesmo assim sem nunca perderem o seu sentido profissional e, sobretudo, de missão. Os lamentos e os choros ficam para depois. Mas afinal o que se vê nesta fotografia? Vê-se o fotojornalista Ken Oosterbroek a ser carregado pelo seu colega Gary Bernard, depois de ter sido morto num fogo cruzado entre elementos da força de manutenção de paz e apoiantes do ANC na cidade sul-africana de Tokoza, a 18 de Abril de 1994, poucos dias antes das primeiras eleições livres pós-Aparheid. Só que esta imagem, de certa maneira icónica pelo que representa, só é possível vê-la porque naquele momento lá estava João Silva, fotojornalista luso-sul-africano, que, perante a morte do seu amigo, manteve o sangue-frio e, refugiando-se atrás da lente, fez aquilo que tinha que fazer. O seu trabalho.

 

Morria assim um dos quatro elementos do famoso Bang Bang Club que, além de Silva e de Oosterbroek, contava ainda com Kevin Carter e Greg Marinovich. Autênticos companheiros, destemidos repórteres de guerra que durante anos trouxeram ao mundo os horrores dos conflitos através das suas lentes. Os quatros fotojornalistas, todos eles premiados, cobriram juntos a violência na África do Sul durante vários anos até 1994, ano das eleições que deram a vitória a Nelson Mandela e que puseram fim ao regime de Apartheid.

 

A violência e a pressão psicológica a que estiveram expostos, ao longo de quase toda uma vida profissional, e os acontecimentos dramáticos de Tokoza, acabaram por levar ao suicídio de Carter, logo em Julho de 1994. Mais tarde, em 2000, Silva e Marinovich lançaram o livro The Bang Bang Club: Snapshots from a Hidden War, no qual os dois fotojornalistas espelharam as suas experiências, angústias e medos. Mas o sofrimento no seio do "clube" continuou, tendo João Silva, durante muitos anos fotojornalista no New York Times, sofrido um grave acidente em Outubro de 2010, ao pisar uma mina durante uma patrulha de soldados americanos em Kandahar. As suas duas pernas abaixo do joelho ficaram estilhaçadas, mas a sua máquina continuou a disparar. Com um enorme espírito de sacrifício e a ajuda de próteses fornecidas pelo Exército americano, João Silva recuperou, voltou ao activo e até o próprio Barack Obama fez questão de o receber na Sala Oval.

 

Perguntará o leitor a que propósito escrevo este texto. Escrevo-o porque, acima de tudo, considero que o (bom) jornalismo, seja ele de guerra, de sociedade ou de cultura, é essencial para termos uma sociedade livre e democrática. O que acima escrevi contempla uma ideia genérica de princípios concretos que devem nortear o jornalista. Sacrifício, coragem, inteligência, humildade, camaradagem, bom senso, princípios que se deveriam aplicar no quotidiano de qualquer jornalista, seja aquele que esteja a tentar entrar em Raqqa, como aquele que faz a cobertura de um assalto numa bomba de gasolina em Odivelas ou aquele que acompanha um comício de uma qualquer campanha eleitoral. São princípios orientadores de uma profissão que se quer sublime, mas que, infelizmente, em Portugal, chegou ao grau zero. É um exercício penoso e lamentável, para quem, como eu, e por força das circunstâncias profissionais, se vê obrigado a acompanhar quase ao minuto tudo o que se vai dizendo ou escrevendo nos órgãos de comunicação social, tudo o que os “jornalistas” vão twittando ou postando no Facebook, perdendo a compostura e a noção de respeito pela sua própria profissão, toda a arrogância e vaidade camufladas de pseudo-sabedoria. Mas é nestes momentos que gosto de voltar a olhar para a fotografia de João Silva e relembrar a história do Bang Bang Club para continuar a acreditar que ainda há jornalistas dignos desse privilégio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A dor da gente não sai no jornal

por Pedro Correia, em 19.06.17

mw-860[1].jpg

 Foto Miguel A. Lopes/Expresso

 

Há a impreparação, claro: muitos desses jornalistas atirados por caprichos da agenda "a cobrir o incêndio lá para as Beiras" numa redacção de Lisboa não fazem a menor ideia onde fica Pedrógão Grande. Os órgãos de informação para os quais trabalham - muitos com vínculos precários - também não fazem, nem querem saber: ao longo do ano o pobre Portugal do interior só surge na notícia quando lá ocorre uma desgraça.

Há o uso e abuso dos lugares-comuns, como é óbvio. "O ar é irrespirável"; "o cenário é indescritível"; "as chamas lavram" - não é possível encontrarem outro verbo sem recorrerem a esta pobre metáfora tão mal aplicada? Nada que admire: a exigência é cada vez menor também a este nível. Como podia ser de outra forma quando tantas chefias exercem o primado da incompetência?

Há o inevitável estrelato da profissão, que nesta fugaz incursão pelo País esquecido chega a ser obsceno ao fazer da tragédia um espectáculo para cativar audiências: ei-lo há dois dias a disparar redundâncias junto às cinzas ainda fumegantes com o mesmo alvoroço e a mesma incontinência verbal de quem cobre uma campanha política ou um "evento" social.

Mas o pior é a incapacidade revelada por tantos jornalistas de descolarem da agenda política. Muitos - felizmente não todos - estão ali mais preocupados com "a chegada a qualquer momento" do Presidente da República, do primeiro-ministro ou da ministra da Administração Interna. Indiferentes à desgraça alheia, como se deambulassem pelos Passos Perdidos do Palácio de São Bento. Oiço-os neste frenesim institucionalista e logo me vêm à memória aqueles versos da cantiga do Chico Buarque, que hoje faz 73 anos: "A dor da gente não sai no jornal".

Autoria e outros dados (tags, etc)

O esquecimento e a desmemória

por Pedro Correia, em 29.05.17

Caroline with her father, President John F. Kennedy

 

Em quatro dos cinco jornais diários generalistas de âmbito nacional que ainda se publicam em papel entre nós, não há hoje uma linha sobre o centenário de John Fitzgerald Kennedy, nascido a 29 de Maio de 1917.

Se o 35.º Presidente dos EUA tivesse sido futebolista, certamente não faltaria espaço para a efeméride num país onde dois canais de televisão supostamente especializados em "notícias" ocupam mais tempo a palrar sobre as tricas do futebol do que sobre qualquer outro tema.

Gastam-se demasiadas palavras a propósito da crise do jornalismo contemporâneo enquanto faltam exemplos concretos que configurem a tradução prática dessa crise - que é de modelo editorial, acima de tudo.

Pois aqui está um. Que devia envergonhar estes jornais que cultivam o esquecimento e se comportam como se a desmemória fosse uma virtude.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um país futebolizado

por Pedro Correia, em 16.05.17

palloneCalcio[1].jpg

 

Vivemos por estes dias mergulhados na futebolização do País. As pantalhas dedicam horas sem fim à conversa de taberna sobre bola transposta para os estúdios televisivos. Os partidos manipulam militantes, tratando-os como membros de claques de futebol. Os debates políticos estão cheios de metáforas associadas ao chamado desporto-rei. E a linguagem mediática imita o pior dos jargões ouvidos nos estádios, anunciando divergências ao som de clarins de guerra.

Há dois aspectos a ter em conta neste fenómeno: um é o factor de identidade tribal potenciado pelos clubes desportivos. Em regra este é um factor positivo: o ser humano necessita de mecanismos de afinidade grupal e quando faltam outros, mais tradicionais, o desporto - ou, no caso português, apenas o futebol - potencia-o como forma de preencher algum vazio deixado pelos restantes (família, igrejas, sindicatos, partidos, academias, etc.)

Outro - muito diferente e claramente negativo - é o da diabolização do antagonista. Este é um fenómeno com ramificações muito diferentes, e algumas bem recentes, influenciadas pela linguagem dicotómica das redes sociais, que tendem a ver tudo a preto e branco, numa réplica do imaginário infantil (cowboys & índios; polícias & ladrões, etc) transfigurado para a idade adulta.

 

O eco que os meios de informação tradicionais fazem do que se publica na Rede, amplificando tudo de forma acrítica e seguidista, vai produzindo cada vez mais estragos.

A crise financeira dos media conduziu nos últimos anos a drásticas alterações de âmbito editorial. A deontologia jornalística manda auscultar todas as partes com interesses atendíveis numa determinada história, obrigando também o jornalista a não eleger uma "verdade" sem pelo menos registar a soma das "verdades" em disputa. Acontece que a urgência de conseguir leitores e audiências tem levado muitos jornais e televisões a "queimar etapas" e a elevar o tom do relato noticioso, desvirtuando-o.

Os adversários tornaram-se inimigos, os desafios transformaram-se em batalhas, os saudáveis confrontos derivaram para devastadoras guerras.

 

Somar a febre do futebol à necessidade imperiosa de estancar quebras de tiragens dos jornais e fugas dos telespectadores para canais temáticos alternativos dá nisto: visões extremadas onde a emoção substitui o raciocínio, toda a moderação é considerada imprestável e o "vencedor" proclamado dos debates é invariavelmente o que berra mais que os outros.

Eis-nos mergulhados num caldo de cultura que nada augura de bom.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Jornalismo a sofrer de amnésia

por Pedro Correia, em 02.05.17

IMG_0025[1].jpg

 Paulo VI e Salazar: fotografia do Século Ilustrado, Maio de 1967

 

A asneira anda cada vez mais à solta nas redacções. Sem revisores de textos, sem editores com capacidade ou competência para detectar erros, com jornalistas cada vez mais impreparados, os periódicos debitam disparates a uma velocidade estonteante.

Enquanto leitor atento, vou anotando estes erros como reflexo condicionado de mais de duas décadas passadas a rever textos alheios em redacções de jornais. Devo confessar que nesta matéria já quase nada me impressiona. Mas ainda consegui arregalar os olhos de espanto ao ler na contracapa da última edição do Expresso um par de erros do tamanho da Sé de Braga. Numa notícia que encima a página, sob o título "Só Salazar não deu tolerância de ponto". A propósito da próxima vinda do Papa Francisco a Portugal.

 

Escreve o semanário fundado por Francisco Pinto Balsemão - em prosa anónima - que em 1967, quando pela primeira vez um Papa visitou Fátima, "o ditador recusou encontrar-se com Paulo VI, depois de o Papa ter recebido, em Roma, representantes dos movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas".

É difícil escrever tantos disparates em tão pouco espaço. Bastava o anónimo escriba do Expresso dedilhar na Rede para logo lhe aparecerem imagens do encontro entre Salazar e Paulo VI, que aliás forçou o então Presidente do Conselho a deslocar-se à Cova da Iria pela sua recusa de visitar Lisboa. Uma dessas imagens, muito conhecida, ilustra este texto.

 

De resto, jamais Salazar poderia irritar-se com a audiência papal aos dirigentes dos movimentos africanos (Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos) pois já estava fora do poder quando esse encontro ocorreu, a 1 de Julho de 1970 - mais de três anos após a vinda de Paulo VI a Fátima e precisamente 26 dias antes do falecimento do fundador do Estado Novo, substituído em Setembro de 1968 por Marcelo Caetano.

Se algo ainda pode conferir utilidade aos jornais é a capacidade de nos transmitirem conhecimentos ou avivarem a memória. Mas como poderá isso acontecer se as redacções andam cada vez mais ignorantes e amnésicas?

 

 

ADENDA: Toda a peça é lamentável, começando pelo título. Salazar não "deu" tolerância de ponto: decretou o dia 13 de Maio de 1967 feriado nacional. Como é do conhecimento generalizado, um feriado dispensa do trabalho muito mais gente do que a tolerância de ponto, destinada aos funcionários públicos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quando o cão morde no homem

por Pedro Correia, em 26.04.17

Cada vez me convenço mais que o país e o mundo que povoam o tempo de antena dos doutos tudólogos acampados noite após noite nas pantalhas nada tem a ver com o mesmo país e o mesmo mundo reflectidos nos telediários das estações que lhes dão guarida.

Voltei a perceber isso ontem à noite quando o Jornal da Noite da SIC foi incapaz de narrar algo mais relevante aos seus telespectadores do que o facto de uma menina ter sido mordida por um cão.

Sempre me garantiram que notícia era o homem abocanhar o animal e não o contrário. Afinal eu e muitos andávamos iludidos. Qualquer irrelevância ascende hoje à dignidade de foco central de um bloco informativo.

E se ainda me sobrassem dúvidas, teriam ficado desfeitas ao ouvir este destaque noticioso logo após a já mencionada peça de abertura: "Julia Roberts foi a Madrid e emocionou-se ao conhecer Cristiano Ronaldo."

Senti por isso que ontem, à sua maneira insólita, os estúdios de Carnaxide produziram uma espécie de 25 de Abril jornalístico. Cruzando uma linha fronteiriça sem retorno. Nada voltará a ser como já foi.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Faixa-do-meio-CS-e1410947670414[1].jpg

 

Um editorial não é uma crónica. Convém que os membros da direcção de um jornal sejam os primeiros a não estabelecer confusões entre os dois géneros jornalísticos. Com clareza e rigor.

A crónica reflecte uma visão pessoal, necessariamente muito subjectiva e de preferência original sobre um tema qualquer à escolha do autor. Pode ser até sobre o bei de Tunes, para evocar o clássico exemplo de Eça de Queirós, quando era afectado por uma súbita crise de inspiração ou vogava num deserto de ideias. "Em Tunes há sempre um bei; arrasei-o", confessou o escritor, com óbvia ironia, em carta a Pinheiro Chagas.

O editorial, pelo contrário, reflecte a posição do próprio jornal. Não é escrito na primeira pessoa do singular e abarca uma gama mais reduzida de temas - debruçando-se de preferência sobre um dos assuntos dominantes da actualidade noticiosa do dia.

 

No editorial de hoje do El País podemos ler a posição do mais influente periódico espanhol sobre a rede de corrupção que afecta o PP madrileno. O editorial do Guardian pronuncia-se em termos críticos sobre a convocação de eleições legislativas antecipadas no Reino Unido, ontem anunciada por Theresa May. O editorial do Washington Post emite um forte juízo crítico sobre o recente referendo turco, ganho tangencialmente por Erdogan.

Por cá, nas direcções de jornais, há quem confunda editorial com crónica. Escrevendo sobre irrelevâncias na primeira pessoa do singular, confundindo opinião própria com opinião do jornal. Exemplo? Aqui vai um, também de hoje: «Como tantos outros portugueses, quando viajo numa estrada com três faixas tenho uma tendência quase irresistível para seguir pela do meio. Viajar na faixa central coaduna-se com a velocidade moderada a que conduzo e permite-me manter as opções em aberto.» Começa assim o editorial do i, assinado por José Cabrita Saraiva, "subdirector executivo" (passe a redundância).

Como se estivesse numa conversa de café, a cavaquear entre amigos.

 

Tanto se fala hoje na crise do jornalismo. Pois essa crise começa precisamente em pormenores como este: um membro da direcção de um jornal não fazer a mais remota ideia do que é um editorial. Num país que, noutros tempos, contou com uma Agustina Bessa-Luís, um Vitorino Nemésio, um David Mourão-Ferreira, um Francisco de Sousa Tavares, um Mário Mesquita ou um Vicente Jorge Silva entre os editorialistas da imprensa.

Vai um abismo entre uma época e outra.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um traço de união 27 anos depois

por Pedro Correia, em 06.03.17

publico_n1_600[1].jpg

 

Trabalhar no Público foi uma experiência única, irrepetível. Ter integrado a equipa da fundação do jornal - que andou durante meses a fazer números zero - foi ainda mais gratificante. Orgulho-me de ter figurado nessa primeira equipa daquele que continuo a considerar o melhor jornal diário jamais feito em Portugal.

O Público foi mais do que um jornal: foi um estado de espírito, que perdurou muito para além do espaço físico em que era elaborado. Refiro-me ao Público mais genuíno, o original, aquele que foi concebido e concretizado por um jornalista de excepção, o Vicente Jorge Silva. Que tinha como marcas editoriais a qualidade de escrita, a atenção à imagem, a valorização da ciência e da cultura, a recusa de um olhar paroquial sobre a actualidade noticiosa. E a irreverência, sempre a irreverência, contra os sucessivos poderes de turno.

Características que constituem traços de união entre os que por lá passaram. Isso ficou bem evidente neste sábado, quando nos juntámos no restaurante O Manjar do Marquês, em Pombal - uma das catedrais gastronómicas portuguesas. Éramos cerca de 120, dois terços vindos de Lisboa, os restantes oriundos do Porto.

 

Foi o meu baptismo no género, relutante que costumo ser às romagens de nostalgia, mais próprias da Liga dos Antigos Combatentes. Mas gostei muito de lá ir. De rever camaradas das lides jornalísticas que há muito não via, de conhecer enfim outros com quem nunca me tinha cruzado e sobretudo de confirmar como são sólidos os elos de cumplicidade entre diferentes gerações de jornalistas que tiveram o Público como denominador comum, em diferentes fases da vida do periódico - que ontem celebrou 27 anos de existência, já com poucos sobreviventes do ano da fundação no seu quadro redactorial.

Lá estavam o Joaquim Fidalgo, o João Seabra e o Carlos Lopes (dinâmicos organizadores deste encontro periódico de ex-jornalistas do Público). E o Fernando Sousa, meu parceiro ainda mais antigo de jornalismo, além de colega aqui no DELITO. E tantos outros: o Joaquim Trigo de Negreiros, a Sofia Branco, o Manuel Queiroz, a Paula Torres de Carvalho, o Rui Cardoso Martins, o Luís Francisco, o Jorge Baptista, o Pedro Caldeira Rodrigues, o José Vítor Malheiros, o António Granado, a Isabel Gorjão Henriques, o João Ramos de Almeida, a Lurdes Dias, a Joana Ferreira da Costa, a Ana Gerschenfeld, o Martins Morim, o Fernando Correia de Oliveira, a Anabela Natário, o João Manuel Rocha, o José António Cerejo, a Eunice Andreia, a Ana Machado, a Christiana Martins, o Rui Ferreira e Sousa, a Ivone Ralha, o Aníbal Fernandes, o José Queirós, a Cristina Sampaio.

Uma atmosfera única, de algum modo simbolizada nas festivas fotografias que reuniram três dos cinco membros da primeira direcção do jornal, ali presentes. O Vicente, o Jorge Wemans, o Fidalgo.

 

thumbnail_20170304_151135[1].jpg

 

Naquele momento pensei: se esta equipa voltasse a reunir-se não em torno de um caloroso almoço que se prolongou até ao fim da tarde mas de um projecto jornalístico, os leitores poderiam ter a certeza do que aí encontrariam: ousadia, desassombro, inovação, rigor e qualidade. Características que vão faltando, no todo ou em parte, ao jornalismo contemporâneo e que explicam boa parte do seu divórcio com as crescentes exigências da cidadania portuguesa.

O Vicente saberia explicar isto melhor que eu, num daqueles seus editoriais que nunca receavam suscitar polémica. Num tempo em que nenhum jornalista precisava de pedir licença para emitir opinião. Num tempo em que não havia responsáveis editoriais prontos a mudar de perspectiva sobre o mesmo assunto da noite para a manhã, medíocres cultores da blague de Groucho Marx: "Se as minhas ideias não lhe agradam, arranjo já outras."

Autoria e outros dados (tags, etc)

Independente

por Tiago Mota Saraiva, em 31.01.17

(publicado ontem no i)

 

É um qualificativo largamente sobrevalorizado nos dias que correm. Numa qualquer discussão não é invulgar fazer-se uma nota prévia de independência como argumento de autoridade sobre os demais.

No jornalismo actual a independência é uma vaca sagrada. Ainda que a experiência jornalística marcante dos anos 90, homónima do adjectivo, tenha estado longe de ser independente como o seu título sugeria, permanece uma interpretação mitológica do ser independente.

No recente Congresso dos Jornalistas, Pedro Tadeu – director na Global Imagens, colonista no DN e militante do PCP – propôs que os jornalistas registassem uma declaração de interesses. A organização do congresso esqueceu o seu nome e posição no jornalismo, para titular no seu site: “Jornalista do PCP defende registo de interesses”. Mesmo que não estivesse em representação do partido e não se conheça a sua posição sobre o que Tadeu defendeu – sendo, para o caso, pouco relevante titular a sua militância – quem escreveu e quem detinha a direcção editorial do site, não tiveram dúvidas em manter o título. Tendo passado pelo referido congresso históricos militantes de outros partidos em nenhuma outra peça se titulou militâncias.

No jornalismo actual glorifica-se a independência cuidando-se pouco da isenção e da pluralidade. Como leitor, entendo que não devo exigir independência a um jornalista, ainda que possa achar relevante ter uma ideia sobre as suas filiações. Quando leio um artigo sobre o Benfica posso achar relevante saber que o seu autor é do Sporting. Esse dado informa o leitor, mas não qualifica ou desqualifica o artigo. O jornalista deverá procurar escrever de uma forma isenta e registando a diversidade de factos e opiniões que considera relevantes sobre a matéria.

A reivindicação de um jornalismo independente é uma batalha falsa que, em limite, obriga o cidadão-jornalista a uma semi-clandestinidade sobre o que pensa. Não será por acaso que, no momento em que há mais gente a bater com a mão no peito afirmando-se independente, as redacções vão ficando mais pobres de jornalismo e os órgãos de comunicação social menos plurais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 30.01.17

450849[1].jpg

 Rita e Catarina Almada Negreiros com a avó, Sarah Afonso (1983)

 

1

Confesso-me cada vez mais farto do culto da banalidade, da apologia da irrelevância, da propagação do mau gosto em doses cavalares: o jornalismo anda a copiar o pior das redes sociais. Com o mesmo esquematismo, a mesma superficialidade, a mesma falta de memória.

Quantas vezes não vos sucedeu já, como sucede com frequência comigo, comprar jornais que não vos apetece ler por absoluta falta de matéria noticiosa digna desse nome?

 

2

Voltei a fazer o exercício este fim de semana ao comprar vários jornais num quiosque: encontrar lá assunto com interesse é quase como pesquisar agulha no palheiro. Deparamos com a despudorada invasão da privacidade das chamadas "figuras públicas", o boato travestido de notícia, a conversa de porteira armada em "análise política", o crime mais boçal erigido em matéria informativa de excelência, a sistemática tentativa de nivelar tudo por baixo.

Felizmente ainda existem inesperados oásis de qualidade, remando contra a maré dominante. Ao folhear a revista Magazine, adquirida com o Diário de Notícias, deparo com uma entrevista de rara qualidade às duas netas de Almada Negreiros, Rita e Catarina. Que evocam recordações do avô, uma das figuras mais relevantes da cultura portuguesa do século XX, e também da avó, a pintora Sarah Afonso. É uma entrevista longa, para ler devagar, saborear. Com revelações familiares, mas sem indiscrições. Uma entrevista com linguagem elegante, com emoção contida, como quase já não se usa. Estão de parabéns as entrevistadas e a jornalista Alexandra Tavares-Teles, que tão bem soube dialogar com elas.

 

3

Descubro no suplemento de outro jornal - o P2, do Público - uma crónica que me prende igualmente a atenção. É assinada por uma redactora deste diário, Maria João Lopes, e também vai contra a corrente, sublinhando a importância do olhar, insubstituível no percurso diário de um profissional da informação. O universo de um jornalista não pode confinar-se às quatro paredes de uma redacção, por maior que esta seja, nem a um ecrã de computador, por mais longe que pretenda conduzir-nos. Nada no mundo virtual substitui o mundo real. Com os seus ruídos, os seus odores, as suas rugosidades, as suas asperezas, a sua inesperada e estonteante fragmentação.

A cronista fala-nos um pouco de tudo isto. "Andar a pé conta-me tantas histórias como abrir o jornal todos os dias. Faz-me falta andar a pé horas, perceber que essa ideia dos tempos mortos afinal não existe, que esse tempo morto está vivo. Um repórter tem de andar a pé, sem medo de se perder e de perder tempo. Porque vai chegar muitas vezes (ou sempre) a lado nenhum. Mas aí vai haver, claro, uma história para contar".

Nada tão fora de moda, nada tão urgente. Valeu a pena comprar o Público só para ler este texto que incentiva os repórteres a caminhar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

15976980_1417844864916153_6307512897608075657_n.jp

Para quem assistiu, na passada Sexta-feira, à inédita mesa redonda com dezanove directores de jornais, rádios e televisões nacionais no âmbito do 4º Congresso dos Jornalistas que decorreu no Cinema São Jorge, em Lisboa, não teve muitas razões para sair de lá entusiasmado com a dinâmica e conteúdo do debate. Talvez se deva ao facto de há anos a esta parte se discutirem os mesmos problemas e a eterna questão do “futuro” do jornalismo, sem que se encontre uma qualquer solução mágica para a criação de um modelo sustentável. Além do mais, continuam-se a notar os mesmos vícios e defeitos de uma classe que, em Portugal (e aqui há grandes diferenças em relação a outros países), há muito devia ter feito um exame de auto-consciência e parado para pensar sobre os seus próprios erros. Aliás, este teria sido o primeiro passo para que os responsáveis pelo jornalismo no nosso país começassem por admitir as suas falhas.

 

Não deixa também de ser sintomático que entre 19 directores dos mais importantes meios de comunicação social do país ali presentes só estivessem lá duas mulheres, Graça Franco (RR) e Mafalda Anjos (Visão). E o mais extraordinário é que lendo os vários artigos de imprensa que têm saído sobre o Congresso não se vê qualquer referência a este facto embaraçoso, para um sector que advoga estar na vanguarda das ideias e do pensamento. Porém, não hesitam em fazer essas contas quando se estão a referir a um Governo ou a uma administração de uma entidade pública ou grande empresa privada. Ainda mais revelador da inconstância deste sector em Portugal, é constatar que a maioria dos directores ali presentes têm entre um a dois anos dessas funções.

 

Seria saudável que esse processo introspectivo já tivesse ocorrido mas, infelizmente, não aconteceu e, por isso, não é de estranhar quando se ouve Ricardo Costa (SIC) a admitir que a qualidade do jornalismo que se faz naquela televisão ou no Expresso (onde foi director) é hoje muito menor do que há uns anos. A oferta é mais vasta, mas a qualidade diminuiu. E o problema, como disse ainda Ricardo Costa, nem se coloca ao nível das audiências, mas sim nos modelos de negócio que sustentam os órgãos de comunicação social. Também Pedro Santos Guerreiro (Expresso) considera que nunca houve tanta oferta tecnológica e uma audiência tão vasta para se informar, mas o problema é como valorizar financeiramente o produto que se disponibiliza, quase sempre de borla. Uma ideia partilhada também pelo director do Público, David Diniz, que valoriza as ferramentas tecnológicas que existem hoje em dia para se poder conhecer melhor os hábitos dos leitores.

 

Foi quase unânime entre os vários directores de que a gestão do “negócio” está cada vez mais presente no seu quotidiano, a admitirem que dedicam bastante tempo a assuntos que pouco ou nada têm a ver com temas editoriais. Quase todos disseram que gostariam de investir mais tempo nestas matérias, no entanto, também admitem que as horas que perdem nas áreas de marketing ou de recursos humanos é uma outra forma de estarem a contribuir para a sobrevivência ou evolução do seu meio de comunicação social.

 

A juntar-se a estas questões de “negócio”, há aquilo que João Paulo Baltazar (Antena 1) classificou de “agenda asfixiante”, onde os jornalistas estão cada vez mais sujeitos a uma multiplicidade de acções que os deixam sem tempo para reflexão e investigação. Aliás, a falta de tempo foi uma das principais queixas dos directores. O mote de João Paulo Baltazar é, por isso, certeiro: “Fazer menos, fazer melhor, pensar mais."

 

É verdade que, com a imposição da realidade do digital e das redes sociais, começaram a ser ensaiadas diferentes formas de adaptação do jornalismo aos novos tempos da comunicação e informação. As soluções de vanguarda vieram sempre do universo anglo-saxónico ou então de jornais como o El País, mas nem sempre com os resultados esperados. É uma descoberta que ainda está a ser feita. O tão esperado retorno no digital nunca chegou, apesar de alguns jornais terem dados interessantes para mostrar. É inegável que a emergência de inúmeras plataformas comunicacionais veio alterar por completo a forma de se consumir informação, seja num jornal, televisão ou rádio.

 

Em Portugal, essa tentativa de adaptação aos “novos tempos” aconteceu de forma muito mais lenta e, olhando para aquela mesa redonda, percebe-se, mais uma vez, que o jornalismo no nosso país sofre de problemas muito específicos, apesar de muitas vezes se tentar “vender” a ideia que são comuns ao que se passa noutras realidades. A verdade é que muitos desses problemas exclusivos da nossa realidade nacional têm a ver com a própria arrogância, presunção, corporativismo e até mesmo incompetência com que muitos “senhores” do jornalismo encaram a profissão. E como se isso não bastasse, o jornalismo e os jornalistas portugueses, ao contrário do que acontece noutros países, nunca tiveram um escrutínio a sério. O papel de entidades como o Sindicato dos Jornalistas ou a Comissão da Carteira está perto da irrelevância e nem sequer vale a pena falar do princípio da auto-regulação, até porque para isso acontecer era preciso que todos os directores e jornalistas tivessem a noção de responsabilidade e brio profissional naquilo que fazem e hoje em dia é duvidoso que tal aconteça. Quanto ao espírito crítico dos próprios leitores e consumidores de informação, está tudo dito: cada vez disponibilizam menos dinheiro para ter informação, ou seja, valorizam cada vez menos aquilo que jornais, televisões e rádios produzem. E enquanto tudo isto assim for, por mais congressos e lamentos que se façam, nunca será possível elevar o jornalismo português para outro patamar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não, isto não pode ser o jornalismo em 2017

por João André, em 13.01.17

Nos últimos dias explodiu uma bomba de Carnaval adiantada nos EUA. O site de notícias Buzzfeed decidiu publicar um relatório, não confirmado, de um espião britânico especialista sobre a Rússia, onde estaria indicado que a Rússia teria material incriminatório sobre Donald Trump e que o poderia usar para influenciar o futuro presidente dos EUA.

 

A razão para o relatório dar este barulho todo está ligada a próprio Trump. É de facto possível vê-lo a cair na "honey trap". E possível imaginá-lo a compremeter outros para aassegurar algumas promessas que fossem para si vantajosas. É possível imaginá-lo como cedendo aos jogos de Putin ou sua entourage. É, portanto, credível nas conclusões.

 

Só que isso por si só não pode ser razão para justificar a publicação do relatório por parte de um meio de comunicação social que quer ser credível. É uma das regras de ouro do jornalismo: verificação independente. Tudo o que seja menos que isso é perseguição, especulação e falta de ética. Mesmo nas páginas de opinião tal documento estaria mal.

 

A primeira emenda da constituição dos EUA protege enormemente a liberdade de imprensa. Por vezes dá a sensação de ser demais, mas no geral os benefícios compensam enormemente os problemas. Isso significa que o site Buzzfeed consegue estar relativamente a salvo, especialmente com a sua indicação que o relatório não tinha confirmação. Só que isso não os deve deixar a alvo da condenação pública. A publicação de tal relatório pode de imediato ser usada para atacar Trump com informação, na melhor das hipóteses incerta, e na pior falsa. Isso não é estratégia de um bom meio de comunicação social. É a estratégia de lixo como o Breitbart "News".

 

O pior foi no entanto a justificação do editor chefe do Buzzfeed, escrevendo aos seus trabalhadores, que é «assim que vemos a função dos jornalistas em 2017». Ou seja, publicação de relatórios não verificados, escrevendo que os americanos podem decidir por si próprios. e sem fazer uma avaliação crítica ou proceder a uma investigação independente. Por outras palavras, o site Buzzfeed está a resumir o trabalho dos repórteres à função de multiplicadores de boatos com um mínimo de comentário paralelo, pouco menos que aquilo que bloggers fazem.

 

É indiferente qual o alvo de tal acção ou quem a comete. O jornalismo não é isto. Isto é o que fazem os sites de clickbait e notícias falsas. Do jornalismo espera-se mais, é por isso que está, sob uma forma ou outra, protegido pela constituição de qualquer estado de direito onde exista liberdade. A minha opinião sobre Trump não se modificou (talvez tenha piorado), mas qualquer pessoa merece um jornalismo correcto. Ao negar tal ao próximo presidente dos EUA, o site Buzzfeed não só se nega a fazê-lo como presta um péssimo serviço ao jornalismo em 2017.

 

PS - como é óbvio não deixarei qualquer link para o relatório.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Falta uma Ordem de Jornalistas

por Pedro Correia, em 13.01.17

 

19364619_fla2y[1].jpg

 

A memória colectiva é cada vez mais curta, mas os leitores lembram-se ainda do que aconteceu há um ano: dois dos mais influentes órgãos de informação portugueses iniciaram uma série de fantásticas revelações sobre uns tais “papéis do Panamá” que prometiam abalar as oligarquias dominantes. Reuniram equipas de trabalho, destinaram espaço nobre e manchetes garrafais ao assunto e juravam que estava de volta o “jornalismo de investigação”.

O que aconteceu? De súbito, as violas foram guardadas no saco. Não houve revelação bombástica alguma, as equipas de reportagem dissolveram-se e os mesmos órgãos de informação que trombeteavam rios de autopromoção contra a corrupção ancorada em supostos paraísos fiscais remeteram-se ao silêncio. Nunca mais ouvimos falar nos “papéis do Panamá”, tudo regressou à habitual anestesia colectiva, dominada pelo futebol, agenda política e  “casos de polícia”, entremeados por graçolas de “redes sociais” para divertir a plebe.

 

Decorre agora o quarto Congresso dos Jornalistas – o primeiro que se realiza em Portugal desde 1998. Gostava que ali se levantassem várias vozes questionando o que aconteceu aos “papéis do Panamá”. Gostava que também que os congressistas tivessem a ousadia de perguntar a si próprios por que motivo a pressão de uns quantos inviabilizou até hoje o aparecimento de uma Ordem de Jornalistas, semelhante às que regulam as mais diversas profissões – médicos, advogados, arquitectos, farmacêuticos, engenheiros, psicólogos, enfermeiros, biólogos, economistas, notários, nutricionistas, veterinários.

Disseram-nos na altura, numa frase de forte efeito, que “os jornalistas não podem ser metidos na Ordem”. Acontece que, sem Ordem, generalizou-se o desemprego e multiplicou-se a precarização, marginalizando e condenando à irrelevância muitos dos melhores quadros jornalísticos.

Ao contrário do que referiu ontem Marcelo Rebelo de Sousa, interveniente na sessão inaugural (o que não deixa de ser irónico), o jornalista não deve ser “antipoder”. O jornalista deve, isso sim, exercer de forma ilimitada o único poder que está ao seu alcance – o poder de fazer perguntas, no livre exercício do direito à dúvida que neste ofício se institui em dever deontológico. Sem nunca esquecer que um jornalista não é um juiz. Existe para mostrar, relatar, descrever, explicar. Não existe para condenar liminarmente ninguém e muito menos para pendurar seja quem for em pelourinhos públicos.

 

Perguntem - sem preconceitos ideológicos nem condicionalismos de qualquer espécie - se deve haver Ordem de Jornalistas. Mas perguntem sobretudo quando irá ela surgir. Para regular o acesso à profissão, dignificá-la, combater a proletarização galopante dos seus quadros e traçar fronteiras claras entre quem merece e quem não merece ser portador de carteira profissional em função de parâmetros deontológicos muito rigorosos e adaptados aos novos desafios e às novas exigências deste ofício.

Falar sem agir nesta direcção é chover no molhado. E passar mais dezanove anos de contínua e resignada degradação profissional, até ao próximo congresso. Se então ainda restar alguém no jornalismo em Portugal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Director, um lugar precário

por Pedro Correia, em 05.01.17

Directors Chair[1].png

 

Há oito meses, escrevi aqui um artigo que dava nota de um facto inimaginável há poucos anos: não existe hoje cargo tão precário num órgão de informação como o de director.

Isto afecta toda a cadeira hierárquica, introduzindo um factor adicional de perturbação no funcionamento das empresas jornalísticas. Os directores - que deviam ser uma referência de estabilidade junto dos restantes profissionais - estão afinal sujeitos aos estados de alma de quem os tutela na estrutura accionista. Duram em funções quase tão pouco tempo como os treinadores de futebol: em apenas 14 jornadas do campeonato nacional da modalidade, já  nove treinadores - metade do total - foram substituídos.

As "chicotadas psicológicas" sucedem-se no jornalismo. O que contribui para o descrédito e a desvalorização social da profissão, que já foi uma das mais conceituadas em Portugal.

 

Em Abril dei nota no DELITO de uma estatística relevante: 16 títulos jornalísticos (72,7% do total) tinham directores em funções havia menos de dois anos.

Desde então já se registaram várias mudanças. Bárbara Reis anunciou em Maio que deixaria a direcção do Público, ao mesmo tempo que se tornava conhecida a transferência de David Dinis da TSF para o diário da Sonae, dando por sua vez lugar na rádio a Arsénio Reis, que ali iniciou funções há quatro meses. Em Junho, André Macedo demitiu-se de director do Diário de Notícias, sendo substituído em Setembro por Paulo Baldaia. Também em Junho, João Garcia cedeu o lugar de director da revista Visão a Mafalda Anjos.

André Macedo não chegou a completar dois anos no posto cimeiro do DN: só lá esteve 22 meses, antes de se transferir para a RTP, onde é hoje director-adjunto.

João Garcia foi director da Visão durante um ano exacto.

David Dinis não permaneceu mais de quatro meses ao leme da TSF.

Bárbara Reis foi excepção: aguentou-se sete anos à frente do Público.

 

Entretanto o Diário Económico, que vegetava já só na edição digital, encerrou de vez. Passou a haver duas novas publicações - ambas na área económica, o que é um significativo sinal dos tempos: o Jornal Económico, surgido em Setembro com Vítor Norinha como director, logo promovido a director-geral da empresa proprietária, passando o seu anterior lugar a ser ocupado a partir de Dezembro por Filipe Alves, até aí director-adjunto; e desde Outubro o Eco - só com edição em linha -, sob a direcção de António Costa.

Veremos se vieram para ficar, como rezava um antigo slogan publicitário de uma marca de automóveis.

 

Balanço: de 23 títulos jornalísticos, apenas sete - menos de um terço - têm directores há mais de dois anos. E só um ultrapassou a década nestas funções - caso absolutamente excepcional.

Fica o registo destes resistentes:

Vítor Serpa (director do diário A Bola desde 1992).

Octávio Ribeiro (director do Correio da Manhã desde Março de 2007)

Graça Franco (directora da Rádio Renascença desde Janeiro de 2009)

José Manuel Ribeiro (director do jornal O Jogo desde Maio de 2011)

Rui Hortelão (director da revista Sábado desde Novembro de 2013)

António Magalhães (director do Record desde Setembro de 2014)

Afonso Camões (director do Jornal de Notícias desde Outubro de 2014)

 

Certamente não por acaso, três destes sete profissionais trabalham no mesmo grupo editorial - a Cofina, que se assume assim como uma aparente ilha de estabilidade no meio das convulsões que agitam o sector.

Mais curioso é o facto de entre os sete veteranos figurarem os responsáveis máximos dos três diários desportivos portugueses. Felizmente para eles, os jornais que dirigem noticiam "chicotadas psicológicas" no futebol mas parecem pouco afectados por elas.

Ao contrário de muitos outros, num tempo em que o jornalismo imita o pior do futebol.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pacheco e a "excepção" comunista

por Pedro Correia, em 15.12.16

mw-860[1].jpg

 Foto: Fernando Veludo/Lusa

 

O recente congresso do PCP em Almada foi a expressão mais acabada de um acto litúrgico transposto para a política: nada se discutiu, nada se pôs em causa. Todos os delegados se sucederam na tribuna, numa coreografia pré-estabelecida com rigor mecânico, repetindo a velha litania comunista sem o mais leve sobressalto de dúvida.

Foi um congresso que terminou no momento em que começava. Porque tudo já estava decidido de antemão. Para fora do "partido com paredes de vidro", na expressão algo irónica de Álvaro Cunhal, nada transpareceu - aliás com a lamentável cumplicidade de um jornalismo complacente.

 

Registou-se debate interno sobre o adiado processo de sucessão de Jerónimo de Sousa?

Houve críticas à notória subalternização do PCP na impropriamente chamada "geringonça"?

Terão soado alertas perante a contínua descida do partido nas sondagens à custa do PS?

Mulheres comunistas ter-se-ão atrevido a contestar a absurda menorização de género na cúpula partidária, incluindo o Comité Central, onde a representação feminina ronda os 26%?

Escutaram-se vozes de perplexidade perante a acumulação de um  rico património imobiliário no partido que diz representar os pobres?

Alguém terá arriscado insurgir-se contra o facto de o PCP figurar na primeira linha da defesa desse controverso privilégio que isenta igrejas e partidos do pagamento do IMI?

 

Perguntas que permanecem sem resposta.

Nem um sussurro a respeito de qualquer destes temas se escutou no congresso de Almada: o PCP subsiste em larga medida à margem do escrutínio mediático, o que constitui um atestado de incompetência ao nosso jornalismo político, bafejado com a surpreendente condescendência de Pacheco Pereira, em regra tão exigente na necessidade de conferir transparência aos mecanismos de decisão política, não apenas em Portugal mas ao nível das estruturas comunitárias.

Dois pesos, duas medidas.

 

"O PCP não pode ser analisado com os mesmos critérios dos outros partidos. Tem que se usar outro tipo de critério para o PCP, que não é propriamente um partido político: é uma comunidade muito especial, com códigos próprios", declarou há dias o biógrafo de Cunhal no programa Quadratura do Círculo, da SIC Notícias. Caucionando com estas suaves palavras o manto de silêncio que envolve os comunistas, embalados nas certezas do materialismo dialéctico, do determinismo histórico e dessa espécie de fatalidade biológica que impede um burguês de adquirir "consciência operária".

Como se a tribo vermelha permanecesse imune às paixões humanas. Como se ali não houvesse o que existe nas restantes forças partidárias, por vezes até em doses reforçadas: divergências políticas, animosidades pessoais, carreirismo militante, lutas pelo poder, anátemas à dissidência.

Como se o dever dos jornalistas não fosse iluminar o que é obscuro - seja na burocracia de Bruxelas, seja na oligarquia partidária em Lisboa. Sem excepções de qualquer espécie.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Três livros (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.12.16

A imprensa portuguesa de Macau.jpg

 "(...) [G]ostaria desde já de chamar a vossa atenção para as citações iniciais da obra que de uma forma simples nos introduzem naqueles que são os grandes debates, não só da imprensa portuguesa em Macau, mas do jornalismo e dos media em geral, o que eu resumiria em quatro pontos:

 1. Qual o papel do jornalista no mundo contemporâneo;

 2. Como podem os cidadãos reconhecer a verdade na informação que lhes chega;

 3. Qual o sentido da actividade jornalística;

 4. Como lidar com o gigantesco caudal informativo que nos inunda o quotidiano.

O livro não responde a estas quatro questões, antes nos alerta para elas e para o trabalho de quem faz a imprensa, alcançando-o de um modo singular. Isto é, recorrendo ao passado recente para nos dar uma panorâmica nos seus sete capítulos das diversas fases por que passou a imprensa portuguesa em Macau, das suas preocupações e linhas de orientação, indo até à situação profissional dos jornalistas. Desse modo, é-nos permitido inteirarmo-nos das dificuldades e vicissitudes por que a classe passou e que a preocupam, bem como sobre os seus dramas, incertezas e perspectivas, tarefa executada sem esquecer uma abordagem dos principais instrumentos jurídicos que regulam, ainda que imperfeitamente, a profissão, o que é conseguido pela mão experiente do Dr. Frederico Rato.

Para além de registar o cuidado colocado na investigação e redacção dos textos de José Carlos Matias — que me fez regressar aos anos conturbados do vieirismo tardio —; de Diana do Mar — dando conta das dezenas de jornalistas que fizeram da Tribuna, do Ponto Final e do Hoje Macau o que são e de como na adversidade é possível trilhar um caminho —; de Sónia Nunes — cujo sintetismo e espírito analítico importa ressaltar; de Marco Carvalho — que nos deixou um retrato cuidado da nova classe —; e de ter havido o cuidado de se registar a opinião de quem lê a imprensa; do conjunto de capítulos do livro saliento, em especial, a interessante abordagem que é feita em "Olhares cruzados sobre a imprensa", onde o Prof. João Figueira conversa com os directores dos jornais Tribuna de Macau e Hoje Macau, com o editor do Clarim, com o director de uma empresa de publicações e consultoria, com o chefe de informação e programas portugueses da TDM-Rádio Macau e com um jornalista que sendo hoje proprietário de um jornal também foi seu director.

Aspectos como a subsidiação pública, o reflexo desta na liberdade de imprensa, a formação e o percurso de profissionais que demandaram Macau não foram descurados, o que contribui para a actualidade e acutilância da discussão, oferecendo-nos uma imagem rigorosa do salto qualitativo que ocorreu com a injecção de sangue novo.    

Como o título da obra denuncia, a abordagem é feita na perspectiva dos últimos quinze anos, prazo relativamente curto para historicamente se retirarem conclusões. É, todavia, tempo suficiente para se adquirir uma visão global das incertezas e se poder projectar o futuro, que é aquilo que hoje preocupa jornalistas, editores e os cidadãos de Macau em geral, entre os quais me incluo. (...)" (Excerto das notas que guiaram a apresentação que me foi confiada, 05/12/2016, Fundação Rui Cunha)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Consequências

por Alexandre Guerra, em 04.12.16

Desconhecia até ontem quem era Michael Finkel, quando vi o filme True Story, baseado em factos reais. Não foi tanto a história do filme que me prendeu a atenção, mas sim uma das cenas iniciais que ocorre em 2002, em que Finkel, na altura tido como um jornalista de topo do New York Times, é despedido daquele jornal porque adulterou uma reportagem sobre escravatura infantil na Costa do Marfim. Para quem gosta de bom jornalismo, é reconfortante ver a implacável conversa que a sua editora e, presume-se, o chefe de redacção tiveram com Finkel para o confrontar com o seu erro e imputar-lhe as devidas consequências por ter infligido danos à reputação do jornal, à causa do combate à escravatura infantil e, sobretudo, ao jornalismo de referência. Felizmente, e uma vez que os erros acontecem, seja de forma involuntária ou por má fé, o jornalismo de referência anglo-saxónico tem-se revelado absolutamente impiedoso no "julgamento" destes casos e nas respectivas consequências. Mas, infelizmente, esse escrutínio não tem sido uma prática seguida por outros jornais (ditos de referência) em diferentes países, nomeadamente Portugal. É lamentável como ao longo dos anos, jornalistas e jornais de referência nacionais têm cometido os maiores atentados ao jornalismo sem que alguém seja demitido ou peça desculpa aos leitores. São vários os casos vergonhosos que me vêm memória, mas cujas consequências na defesa do jornal, do jornalismo e do interesse do leitor ainda aguardo para ver.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O DN sem Liberdade

por Pedro Correia, em 20.11.16

mw-860[1].jpg

Prémio Valmor 1940 deixa de ter um jornal lá dentro 

 

Este domingo é um dia muito triste na vida secular do Diário de Notícias. Mas é também um dia triste para Lisboa e para o jornalismo português. A capital perde um dos seus principais símbolos iconográficos – o primeiro edifício construído de raiz para albergar um jornal em toda a Península Ibérica deixa de ter um jornal lá dentro.

Por amarga ironia, o que a ditadura e a censura não conseguiram – retirar o DN do seu espaço histórico no topo da Avenida da Liberdade – conseguiram-no os poderes fácticos da democracia: o velho jornal onde escreveram tantas penas ilustres do nosso jornalismo e da nossa literatura, começando pela de Eça de Queirós, acaba de ser remetido para uma parcela de uma torre modernaça, próxima da Segunda Circular. Mais distante do bulício da cidade e do ruído da rua. Mais distante das pessoas concretas, de carne e osso.

Isto sucede quase sem um pestanejar de indignação da nossa “sociedade civil” numa semana em que o País andou dias e noites a discutir se dois presidentes de clubes passaram das palavras aos actos numa quase-briga de corredor num estádio de futebol. É um sinal dos tempos no declinar deste ano em que o Dicionário Oxford elegeu pós-verdade como palavra mais emblemática de 2016. Na era das “redes sociais” e da televisão interactiva, onde a suposta verdade é proclamada por quem berra mais alto, a nova palavra de algum modo assinala o dobre a finados do jornalismo.

 

Muita gente, que utiliza a resignação como flor na lapela, dirá que não havia volta a dar: são os cultores do “inevitável”, para quem todo o esforço de remar contra a maré é sempre inglório. O ar do tempo recomenda esta pose cínica: em regra, as energias são gastas a combater alvos remotos e abstractos – quanto mais longínquos melhor.

E no entanto, ao contrário do que possa por vezes imaginar-se, nem sempre foi assim. Na dobra do século, um movimento de jornalistas do próprio DN levou por diante um bem-sucedido surto de indignação que extravasou das paredes do diário para os meios políticos e culturais do País, travando a anunciada transferência do jornal para um espaço arrendado no edifício do Entreposto, em Moscavide. O Conselho de Redacção, de que fiz parte por eleição dos meus colegas, liderou esse movimento que se prolongou durante meses e foi coroado de sucesso. Graças a ele, o periódico fundado por Eduardo Coelho em 1864 manteve a sede durante mais década e meia na principal avenida de Lisboa.

Como porta-voz do Conselho de Redacção, escrevi um memorando sobre o edifício, inaugurado em 1940, galardoado nesse ano com o Prémio Valmor e que integra a lista do património arquitectónico da capital. Esse memorando chegou a centenas de personalidades de reconhecido relevo na vida pública do País.

Foram-se multiplicando as adesões a esse abaixo-assinado que contestava a transferência do DN. Não esqueço Agustina Bessa-Luís, que encabeçava a lista organizada por ordem alfabética e que do Porto nos dirigiu uma mensagem de inabalável solidariedade. Nem da calorosa mensagem que nos fez chegar José Saramago - entre vários outros escritores, de Lídia Jorge a Mário de Carvalho, de Mário Cláudio a Manuel Alegre. Nem das vibrantes palavras de Manuela de Azevedo, então (como hoje) prestigiada decana dos profissionais portugueses da comunicação social.

 

P1010023[1].jpg

 Painel de Almada Negreiros no piso térreo do edifício

 

Foram meses febris, a contra-relógio, antes da assinatura do contrato de arrendamento das novas instalações. Eu coordenava o processo e funcionava como porta-voz do movimento junto de outros órgãos de informação, a quem dava nota periódica das adesões. Era raro o dia em que não me chegavam novas mensagens, recolhidas por colegas como a Ana Marques Gastão, o Carlos Albino, o José Manuel Barroso, a Céu Neves, a Filomena Naves ou a saudosa Cadi Fernandes, entre vários outros. Da redacção Norte, sem a menor quebra de solidariedade apesar da distância física, chegavam palavras de apoio reunidas pelo Francisco Mangas, pela Ilídia Pinto ou pelo Fernando Madaíl.

Eu encarreguei-me sobretudo dos políticos – incluindo quatro dos cinco dirigentes partidários à época. Francisco Louçã (BE), Carlos Carvalhas (PCP) e Paulo Portas (CDS) foram dos primeiros a aderir à nossa causa. Durão Barroso, que então liderava o PSD, não quis comprometer-se de início. Mas de todos os quadrantes nos chegavam expressivas demonstrações de apoio.

Quando esgotei a lista dos políticos, passei a outros protagonistas da vida pública portuguesa, pedindo uma declaração exclusiva a cada um. O único que ma recusou foi um historiador muito mediático, já falecido, que do outro lado da linha telefónica me disse em tom agreste que as administrações dos jornais tinham “todo o direito” de transferirem as redacções para onde lhes apetecesse. Agradeci-lhe e desliguei: a pessoa em causa acabara de perder um admirador.

 

1825[1].jpg

 Postal publicitário de Stuart Carvalhais anunciando o novo edifício (1939)

 

Decepcionante foi também o comportamento de alguns colegas de redacção, felizmente muito poucos. Uns pareciam mais preocupados em reservar lugares de estacionamento no novo edifício, ignorando a nossa recolha de assinaturas, outros opinaram olimpicamente que se tratava de um esforço inútil e foram à vidinha. É sempre mais fácil apregoar camaradagem do que praticá-la.

O tempo demonstrou que não tinham a menor razão. Conseguimos pôr o assunto na agenda mediática, suscitámos uma onda crítica que foi engrossando semana após semana e forçámos a administração do DN a recuar. O ponto culminante foi o depoimento solidário de Durão Barroso, que me apressei a transmitir ao Pedro Lima, no Expresso. Nesse sábado, o semanário destacou-o em lugar cimeiro nas suas notícias da primeira página. Na segunda-feira seguinte, a administração comunicou-nos que a batalha fora ganha. E eu, que até era (e sou) amigo do secretário-geral do Entreposto, partilhei com indizível entusiasmo o sentimento de profunda satisfação que percorreu a Redacção do DN – satisfação que abrangeu os próprios directores, Mário Bettencourt Resendes e António Ribeiro Ferreira.

Foi apenas há década e meia mas parece ter acontecido há uma eternidade.

 

Desliguei-me em 2013 dos quadros do DN, mas mantenho-me profundamente ligado ao jornal, onde passei 15 anos da minha vida profissional. Não houve um só dia em que não me sentisse orgulhoso de trabalhar naquele edifício projectado pelo arquitecto Pardal Monteiro – com o seu elegante torreão, o seu vasto arquivo subterrâneo abrigado num cofre-forte, a sua emblemática porta-giratória, o seu magnífico átrio com painéis de Almada Negreiros.

A tristeza dos profissionais do Diário de Notícias é a minha tristeza. Uma tristeza ainda mais profunda e dilacerante do que a simples despedida do edifício há 76 anos implantado numa avenida chamada Liberdade: o encerramento deste capítulo na vida do diário mais antigo de Lisboa simboliza também, de algum modo, o fim do jornalismo tal como o conhecemos – enquanto alguns charlatães de turno proclamam que qualquer indivíduo pode “tornar-se jornalista” com uma aplicação móvel ao seu dispor.

Nada mais ilusório neste ano da “pós-verdade”. Como o futuro próximo se encarregará de comprovar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As redes sociais contra o jornalismo.

por Luís Menezes Leitão, em 14.11.16

É uma verdade absoluta que a campanha de Trump demonstrou o poder das redes sociais contra o jornalismo tradicional. Enquanto os media tradicionais barraram completamente Trump, ridicularizando e tornando-o anedótico, e só falando do avanço triunfal de Hillary Clinton, Trump utilizou as redes sociais para fazer passar a sua mensagem, como demonstra o vídeo aqui exibido. E essa mensagem foi clara: vamos recuperar o nosso país de novo, que foi tomado por uma elite criminosa, de que os Clinton são o maior exemplo. A mensagem não passa de um arremedo da teoria da conspiração, mas o facto de ser ignorada pelos media e pela sua adversária só facilitou a vitória de Trump. A primeira regra na política é a de que não se pode subestimar os adversários. E, ao contrário do que julgava Emídio Rangel, hoje as televisões já não vendem Presidentes como quem vende sabonetes. As redes sociais deixaram campo livre para que as mensagens se espalhem independentemente de qual o seu conteúdo e, como se viu, uma mensagem eficiente e bem difundida pode ser o caminho aberto para a vitória.

 

Claro que é sempre possível reagir a isso, dizendo que Trump ganhou com o apoio de ignorantes, incultos, mal-formados, e gente deplorável. É bem capaz de ser verdade, mas essa é a regra da democracia. Quem não quer que o povo inculto vote, a única coisa que pode fazer é propor o regresso aos tempos anteriores à revolução francesa, em que a nobreza e o clero tudo decidiam de forma culta e esclarecida. Não é seguramente uma solução praticável. Compreender os anseios do povo e saber lidar com eles parece muito mais adequado. E para isso os jornalistas não podem ignorar o que se passa à sua volta.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Trump, Obama e o jornalismo

por Pedro Correia, em 14.11.16

_92388557_obamaaaa[1].jpg

 

1

No meio dos dislates de Donald Trump - que os houve, e graves - ficou por perceber, deste lado do Atlântico, que mérito afinal este candidato teve aos olhos do eleitorado norte-americano. Algum terá, seguramente, caso contrário o "sábio povo" que elegeu Barack Obama em 2008 e 2012 não se transformaria no "estúpido povo" que agora votou como votou.

Acontece que a Portugal, durante a campanha, só chegou o aspecto anedótico, grosseiro e caricatural do candidato. Mais nada. Nenhuma proposta de âmbito social, nenhuma proposta de âmbito económico. Por que motivo a larga maioria da classe trabalhadora branca americana e um segmento significativo dos desempregados de longa duração votaram nele?

Era uma excelente história. Mas ficou por contar nos meios de comunicação portugueses. No meio de tanta reportagem “editorializada” não houve tempo para fazer jornalismo.

 

2

Trump, um milionário que fez questão de pagar a sua própria campanha sem recorrer a fontes de financiamento externas, conseguiu passar a mensagem de que era ele o candidato anti-sistema. Mal ou bem, o escrutínio confirmou esta evidência. Financiador das campanhas de Bill Clinton na década de 90 e recém-filiado no Partido Republicano, o magnata pulverizou o establishment político de Washington.

Isso verificou-se logo nas primárias, em que todos os candidatos da oligarquia partidária foram caindo, um a um (Jeb Bush, Marco Rubio, Ted Cruz), até à desistência definitiva do último que lhe fez frente. E acaba de ocorrer na eleição presidencial: Hillary Clinton (que, com o marido, domina o Partido Democrata há um quarto de século) é a personificação máxima do sistema. Talvez isto explique o facto de 20% dos eleitores que preferiam Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata terem votado Trump.

Porquê? Outra boa história que ficou por contar nos meios de comunicação portugueses, pré-formatados para a "inevitável" vitória de Hillary Clinton. Entre tanta reportagem “editorializada” contaminada pela propaganda de uma facção, não houve tempo para fazer jornalismo.

 

3

Tem faltado por cá um balanço crítico da presidência Obama. Porque a derrota eleitoral de Hillary é também uma derrota de Obama, que aliás se envolveu por completo na campanha – com uma intensidade e uma frequência raras vezes vistas num inquilino da Casa Branca prestes a abandonar o cargo.

De Obama, no entanto, também cá chega apenas a versão benévola disseminada pelos seus diligentes assessores de imagem e aceite nas redacções sem um assomo de interrogação: o homem que mal começou a governar e já recebia o Nobel da Paz, o bom pai de família, culto, sorridente, tolerante, descontraído, elegante e bem humorado - em jantares risonhos, passeios informais, bailes de gala e divertidos talk shows.

Um político com imensas qualidades, sem dúvida, mas cujo mandato foi agora avaliado negativamente pelos eleitores norte-americanos, que recusaram a candidata de Obama e optaram pelo Partido Republicano nas corridas à Presidência dos Estados Unidos, ao Senado e à Câmara dos Representantes. Numa jornada eleitoral em que os republicanos também conquistaram terreno nas eleições para  governadores (onde dispõem da mais larga maioria desde 1922) e para os parlamentos estaduais.

Quais as sombras projectadas pela administração Obama que prejudicaram seriamente Hillary Clinton e arrasaram o Partido Democrata nas urnas? Outra excelente história que não chegou a ser contada. Porque a propaganda se sobrepôs ao jornalismo.

 

4

Uma personagem de um filme de John Ford, jornalista de profissão, proclamava no Velho Oeste: “Quando a lenda se torna facto, imprime-se a lenda.”

Imitando essa figura de ficção, demasiados jornalistas andam por cá a imprimir a lenda, impondo-a como verdade unidimensional. Tudo isto esbarra no entanto com um sério problema: quando os factos desmentem a lenda, toda a construção mediática anterior cai pela base. E o descrédito dos meios de comunicação clássicos amplia-se ainda mais.

Não admira portanto que as pessoas se virem em doses crescentes e maciças para as "redes sociais". Lá, ao menos, e no meio de imenso lixo, acabam enfim por encontrar o indispensável e elementar contraditório que os media tradicionais estupidamente lhes vão negando.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não basta querer para acontecer

por Pedro Correia, em 10.11.16

150904-hillary-clinton-5-gty-629[1].jpg

 

Quem acompanhou o dia eleitoral norte-americano apenas pelo principal serviço noticioso da SIC, ficou certamente estupefacto ao acordar na manhã seguinte com a notícia de que Donald Trump tinha sido eleito Presidente dos Estados Unidos. Nada – mesmo nada – do que aquele canal mostrara no seu Jornal da Noite indiciava algo diferente de uma vitória clara de Hillary Clinton.

No momento em que milhões de norte-americanos votavam nele, Trump foi apresentado aos telespectadores portugueses como uma irrelevância condenada ao fracasso – tom que prosseguiu madrugada adiante no canal de notícias da SIC, onde era quase impossível distinguir opinião de factos entre tanta reportagem “editorializada”.

 

Vale a pena mencionar exemplos concretos.

Logo a abrir, o Jornal da Noite visitou um concorrido local de voto em Manhattan. Espantosamente, segundo garantiu o repórter, todos puxavam para o mesmo lado: “Uma longa fila de eleitores onde, por acaso ou talvez não, não encontrámos ninguém que fosse votar Donald Trump.”

Nos depoimentos recolhidos entre esses eleitores, tudo a preto e branco: ele intolerável, ela extraordinária.

Sobre o candidato republicano: “péssimo”; “execrável”; “vergonhoso”; “louco”; “odeio Trump”.

Sobre a candidata democrata: “É a pessoa mais inteligente, mais bem preparada; “É a mais inteligente, a mais qualificada”.

 

Noutro ponto de reportagem, com outra equipa no terreno, a SIC manteve a nota: “Têm sido óptimas notícias para Hillary Clinton, estas últimas sondagens”; “Consegue a Florida, tudo parece muito bem encaminhado”; “O que temos vindo a ver é que ela pode até superar o recorde de Barack Obama no que diz respeito à participação dos hispânicos”; “Ela tem vindo a construir a sua muralha azul”.

 

Um cenário idílico para a candidata democrata, pois. Cenário que nunca foi posto em causa ao longo de todo o serviço noticioso.

20.08: “As pessoas parecem querer votar contra a América que Trump propõe: uma América muito extremada, muito anti-imigração, muito xenófoba, muito anti-semita. Hillary pode ter feito a sua jogada no sentido de não alienar minorias porque a América é um país de minorias que daqui a 30 anos serão maiorias e creio que o Partido Republicano vai pagar cara esta alienação de votos dos hispanos e sobretudo dos afro-americanos.”

20.56: “As sondagens apontam para que o cenário mais provável seja a vitória de Hillary.”

21.00: “Eleitores queixaram-se de que estão a ser intimidados por apoiantes de Donald Trump.”

Já bem depois da meia-noite, no canal de notícias, ainda a reportagem in loco da SIC transmitia aos portugueses a noção de que "ele [Trump] talvez tenha alguma razão para estar nervoso".

 

Como os resultados demonstraram, não podia ser maior a discrepância entre a realidade e o quadro que a SIC pintou. Sem matizes, sem contraditório, sem um assomo de dúvida que pudesse abalar tantas certezas preconcebidas.

Opinião a mais, factos a menos. Não basta querer - ou crer - para acontecer.

 

Hillary acabou por ser derrotada: a "muralha azul" só existia na propaganda.

Este jornalismo destituído da elementar noção do equilíbrio também perdeu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A decadência do jornalismo

por Pedro Correia, em 09.11.16

imrs[2].jpg

 

«Estabeleceu-se e orientou-se uma tendência para a preguiça intelectual e nessa tendência os meios de comunicação têm uma responsabilidade.»

José Saramago (2001)

 

Alguns correspondentes de canais televisivos portugueses nos Estados Unidos e alguns enviados especiais a Nova Iorque – que mal desembarcam em Times Square logo se transformam em “especialistas” da política norte-americana – foram incapazes, até ao momento, de explicar as causas do sucesso eleitoral de Donald Trump.

Continuam a reduzir o recém-eleito Presidente norte-americano às anedotas. Deles se esperariam que fizessem reportagens mas preferem debitar editoriais defronte das câmaras, dizendo-nos o que pensam sobre o milionário que andou por aí a “insultar tudo e todos”, como um deles repetia ontem à hora do jantar. Sem perceber que a campanha eleitoral terminara já.

 

Andámos assim durante 16 meses.

Trump foi derrubando sucessivas barreiras – contra o establishment republicano, contra a esmagadora maioria da opinião publicada nas cidades-chave, contra a nata do show business que apoiou a sua adversária democrata, contra o  Presidente Obama e a primeira dama - mas a explicação rigorosa e fundamentada para a progressão eleitoral do magnata continuou sem surgir: sobravam apenas anedotas de circunstância.

Eis que Trump vence, conquistando redutos rivais como a Pensilvânia (que elegia candidatos democratas desde 1992) e o Wisconsin (fiel ao Partido Democrata desde 1988). Será o primeiro Presidente republicano a governar com maioria simultânea do seu partido nas duas câmaras do Congresso desde o remoto mandato de Calvin Coolidge, em 1928.

Como é que um homem sem ligações permanentes aos circuitos do poder em Washington, diabolizado na generalidade da imprensa de referência e que nunca exerceu um cargo público (nem senador, nem congressista, nem governador), alcança um êxito tão retumbante nas urnas?

Lamentavelmente, ficou uma excelente história por narrar.

 

Durante ano e meio não houve praticamente uma notícia que aludisse a Trump num contexto favorável, capaz de lhe reconhecer méritos. Já mesmo depois de contabilizados os votos nas urnas, alguns correspondentes e enviados especiais continuam incapazes de fornecer explicações. Viveram durante demasiado tempo em estado de negação, sofrem agora um choque de realidade.

Acabou o tempo em que alguns editorialistas, com a força da sua pena, faziam eleger presidentes. Trump acaba de demonstrar que sem o apoio da chamada elite do jornalismo, e até hostilizando-a abertamente, é possível triunfar nas urnas. Durante a longa campanha eleitoral, passou todas as mensagens que quis e quando quis recorrendo quase em exclusivo às redes sociais.

Um dos marcos desta campanha - pela negativa - ocorreu quando o Washington Post, que em 1974 conseguiu derrubar o presidente Richard Nixon com uma investigação jornalística sólida e séria, optou desta vez por dar destaque a uma alcoviteirice sobre Trump com base numa gravação feita à socapa, em 2005, de uma conversa estritamente privada. Ao nível de qualquer tablóide de vão de escada, o que diz muito sobre os tempos que vivemos.

 

Por tudo isso estas eleições nos Estados Unidos não devem suscitar só reflexões de âmbito político: justificam igualmente uma análise séria sobre o rumo dos meios de comunicação no mundo contemporâneo. Porque, de algum modo, representam também um marco irreversível na decadência do jornalismo clássico, cada vez mais irrelevante.

Ninguém tenha ilusões: há páginas que se viram para sempre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Com a voz embargada de emoção

por Pedro Correia, em 28.10.16

14585471917856[1].jpg

 

Os enviados das mesmas televisões que preenchem o tempo a perorar sobre os presos de consciência em Angola desembarcam em Cuba e desdobram-se em salamaleques perante o "líder histórico" que ali instaurou uma das mais ferozes e persistentes ditaduras do planeta, denunciada em todos os relatórios de organizações como a Amnistia Internacional e os Repórteres Sem Fronteiras. Nem um aludiu à existência de dezenas de presos políticos na ilha-prisão, governada há quase 58 anos por dois irmãos que controlam com mão de ferro o aparelho do Estado, submetendo ao seu ditame todas as instituições políticas, a magistratura e as forças armadas. Nem um fez o mais remoto reparo à inexistência de partidos políticos, de uma imprensa livre, de manifestações contra o Governo e de qualquer outro direito cívico e político - começando pelo épico direito à greve tão idolatrado pelos émulos castristas cá do burgo.

A palavra ditadura foi banida do discurso jornalístico dominante. Ou só é utilizada quando dá jeito, com uma chocante duplicidade lexical em função de indignações muito selectivas. Quando tanto se fala em crise de jornalismo, eis mais um factor que a justifica: a persistente incapacidade dos jornalistas de chamar as coisas pelos seus nomes.

Imaginam um repórter estrangeiro a visitar Portugal nos anos 60, embargado de emoção, a chamar "líder histórico" a Salazar? Pois. É precisamente isso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O mais rico partido de Portugal

por Pedro Correia, em 26.10.16

slide4_1050[1].jpg

 Vista aérea da Quinta da Atalaia (Seixal), propriedade do PCP

 

O PCP queixa-se de ter má imprensa. E de ser sistematicamente ignorado pelos órgãos de informação. Entendo mal estas queixas. Pelo contrário, os comunistas beneficiam por serem muito menos escrutinados do que os restantes partidos pelo olhar inquiridor dos media. Se o fossem, saber-se-ia alguma coisa, mínima que fosse, acerca das divergências que se exprimem entre os muros opacos da sede da Soeiro Pereira Gomes. Mas nem uma palavra perpassa cá para fora sobre tais divergências, o que constitui um atestado de preguiça ou incompetência do jornalismo político português.

Se os jornalistas aplicassem ao PCP a mesma atenção severa e rigorosa que dedicam aos restantes partidos, do CDS ao Bloco de Esquerda, indagariam sobre o motivo que leva uma força partidária que tanto pugna pela igualdade, e faz dela palavra de ordem enquanto ergue o punho direito, tem  menos de 25% de mulheres no seu Comité Central.

Se os comunistas merecessem o mesmo crivo inquiridor saber-se-ia que os numerosos “operários”, “empregados” e “licenciados” com assento no órgão máximo da estrutura dirigente comunista são afinal funcionários do partido e em diversos casos nunca tiveram outra entidade patronal.

Recebesse o PCP um foco semelhante ao que ilumina as restantes forças políticas e saber-se-ia tudo sobre o discretíssimo circuito das receitas financeiras comunistas, qual o seu montante concreto e quem as administra. Saber-se-ia por exemplo para que serve e quem utiliza as imponentes Quinta da Atalaia e Quinta do Cabo, implantadas à beira-Tejo, nos 362 dias do ano em que não albergam a Festa do Avante! Saber-se-ia sobretudo quem são os guardiães deste templo financeiro com sólidos alicerces na propriedade privada – aqueles que realmente dominam os circuitos de decisão no partido colectivista.

Se fossem escrutinados de forma exigente pela comunicação social, alguém indagaria como conseguiram os comunistas reunir um património imobiliário equivalente ao dos outros partidos todos somados e valorizá-lo em dois milhões de euros entre 2012 e 2015, ampliando-o de 13 milhões para 15 milhões no apogeu nacional da “crise do sistema capitalista” que tanto dizem combater mas de que aproveitam como nenhum outro, percorrendo sem rebates de consciência as alamedas do lucro. Assim talvez ninguém se espantasse por saber, como há dias se soube, que os comunistas pagarão em 2017 cerca de 50 mil euros em IMI, apesar de os edifícios adstritos à actividade partidária estarem isentos deste imposto.

Em vez de se queixar o PCP devia congratular-se por continuar a funcionar sem contraditório como porta-voz dos pobres sendo afinal um partido rico. O mais rico de todos os partidos em Portugal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Até à náusea (parte 2)

por Pedro Correia, em 22.10.16

 

TVI:

GNR monta caça ao homem na região de Trás-os-Montes

 

Correio da Manhã:

Caça ao homem em Vila Real continua

 

RTP:

Caça ao homem é intensa em Aguiar da Beira

 

O Jogo:

As imagens da "caça ao homem" em Arouca

 

i:

Caça ao homem em São Pedro do Sul depois de tiroteio em Aguiar da Beira

 

Viseu Mais:

GNR faz caça ao homem em S. Pedro do Sul

 

Rádio Cruzeiro:

Caça ao homem na Serra da Arada

 

Jornal de Leiria:

Leiria está a ajudar caça ao homem

 

Jornal de Notícias:

As imagens de uma noite de caça ao homem

 

Rádio Renascença:

GNR mantém forte dispositivo na caça ao homem

 

SIC:

Coordenação da caça ao homem criticada

 

Expresso:

Coordenação da caça ao homem criticada

 

Porto Canal:

Entidades queixam-se da falta de coordenação entre polícias na caça ao homem

 

Diário de Notícias:

Falta de coordenação entre polícias na caça ao homem preocupa governo

 

Espalha Factos:

Caça ao homem leva CMTV a máximo do ano

 

TSF:

Caça ao homem continua

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Até à náusea

por Pedro Correia, em 21.10.16

Reitero o meu frontal repúdio por esta expressão que há dez dias escuto e leio até à náusea, sem reserva nem pudor, envolta na pirotecnia tablóide em sessões contínuas que hoje serve de padrão dominante ao jornalismo. Como se um ser humano, seja quem for, possa confundir-se com alguma peça de caça e a Lei de Lynch fosse uma conquista civilizacional, celebrada em hossanas no espaço mediático.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Jornalismo, dizem eles

por Inês Pedrosa, em 04.10.16

phpThumb.php

No sábado passado houve celebração internacional conjunta dos idosos e da música. O Presidente da República foi à Casa do Artista, que apresentou um curto espectáculo musical, e prestou homenagem à minha querida amiga Nini Remartinez, antiga cantora do dueto Irmãs Remartinez, que aos 97 anos é uma das pessoas mais jovens e inspiradoras que conheço. Como o Presidente chegou rodeado de câmaras de televisão, à noite passeei pelos telejornais em busca da reportagem da visita. Na RTP, mostraram o Presidente a falar do sigilo bancário, à porta da Casa do Artista, sem qualquer referência ao local e ao motivo da visita. Sobre o dia do idoso, o telejornal do canal público de televisão apresentou uma reportagem sobre a crescente obesidade dos mais velhos, por preferirem dietas pouco saudáveis. A TVI foi mais longe no esticar dos princípios deontológicos do jornalismo: utilizou o coro de crianças que cantou para o Presidente na Casa do Artista como ilustração do "coro das críticas da esquerda" ao veto presidencial da lei sobre a quebra do sigilo bancário. Nem uma referência à instituição, à homenagem, ou ao anúncio feito por Marcelo de que realizaria em breve, na Presidência, um evento conjunto com a Casa do Artista. Só a SIC apresentou, depois das declarações sobre o sigilo bancário, uma reportagem sobre o evento em que tais declarações haviam sido feitas.

O bom-senso e a boa educação mandariam que, em visitas oficiais a instituições de solidariedade ou cultura, o Presidente se limitasse a falar dos temas das visitas. Isso não evitaria o uso abusivo de imagens ( no caso, ainda por cima, de crianças), mas obrigaria a chamar a atenção dos meios de comunicação para o assunto ou a instituição em causa. Os afectos não podem ser só cenário, pois não?        

Autoria e outros dados (tags, etc)

Só lá faltou o Barbas

por Pedro Correia, em 09.09.16

JRN.RE.27467-140422[1].jpg

 

A TVI inaugurou esta semana um novo "formato": a entrevista sem contraditório. Anteontem, no seu canal de notícias, esta estação televisiva teve como convidado especial o presidente do Benfica. Durante uma hora e cinco minutos.

José Alberto Carvalho estava lá, em pé, a assistir com um sorrriso embevecido. Mas a entrevista foi conduzida por três adeptos do clube dos encarnados: Domingos Amaral, Pedro Ribeiro e Diamantino Miranda. Sentados ao lado do presidente da agremiação a que pertencem.

Nenhum deles integra os quadros da TVI, tanto quanto sei. E não faltam jornalistas por lá que bem poderiam exercer aquela função. Mas a direcção editorial optou por este original formato, que levou o ex-jogador encarnado Diamantino a dar o pontapé de saída com estas comoventes palavras: "Luís Filipe Vieira é conhecido, entre os benfiquistas e não só, como um dos presidentes - senão o único - que tem demonstrado um grande respeito pelos actuais jogadores e pelos antigos jogadores. E eu posso prová-lo."

Estava dado o tom à nova modalidade: a entrevista puxa-saco. Aguardo agora com interesse as futuras entrevistas da TVI 24. Quando lá tiver o presidente do Sporting, um painel de adeptos leoninos prontos a questionar Bruno de Carvalho. Quando lá for o líder do PSD, um trio de militantes sociais-democratas. Quando lá for o primeiro-ministro, só correligionários de António Costa.

Paz e sossego, conversa mole, solo de violino, manteiga no pão, mais sorrisos embevecidos: infotainment no seu melhor. Espero que da próxima vez seja também dado tempo de antena ao Barbas: porque não há-de ser ele um dos "entrevistadores" de Vieira? Se for preciso até lhe passam carteira profissional de jornalista.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Por favor não acordem São Bento

por Pedro Correia, em 17.08.16

Mais de cem mil hectares de terreno florestal, agrícola e urbano arderam já desde 6 de Agosto em Portugal - o equivalente à area de oito concelhos na Grande Lisboa (incluindo Cascais, Sintra, Loures, Mafra e o da capital), como ontem a SIC revelou numa boa peça jornalística que fugiu aos lugares-comuns do tema.

Matéria de emergência nacional? Nem por sombras. Suas excelências, os deputados, permanecem a banhos: o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, não achou por bem convocar uma sessãozinha parlamentar de emergência para o adormecido palácio de São Bento, encerrado para férias. Espero que ao menos alguns representantes da nação andem por esse país em chamas a ajudar a apagar fogos. Refiro-me a fogos reais, não aos habituais fogos políticos

A impropriamente chamada "época de incêndios" propicia entretanto um desfile de autarcas nas televisões. Surgem como porta-vozes de populações em desespero e exigem - como lhes compete - apoio financeiro destinado à rápida recuperação de haveres perdidos. Só lamento nunca ter ouvido até hoje um repórter perguntar a um desses autarcas quanto investiu a respectiva câmara municipal em prevenção de fogos ao longo dos meses que ficaram para trás.

Continuamos a ser um país que prefere chorar os danos do que impedi-los. Por isso esta triste história se vai repetindo ano após ano, Verão após Verão. Sem prevenção, com as matas à mercê dos incendiários e uma incalculável riqueza nacional reduzida a cinzas. E também sem perguntas incómodas dos jornalistas, não vá algum senhor autarca sentir-se incomodado e algum senhor deputado franzir o sobrolho por lhe perturbarem a bem remunerada sesta estival.

 

ADENDA: Fogos em Portugal já são responsáveis por 54% da área ardida em toda a União Europeia

Autoria e outros dados (tags, etc)

O dom da ubiquidade

por Pedro Correia, em 10.08.16

Apresentação1.png

 

Já havia a fórmula "dois em um", no mercado dos champôs. Hoje, no reino do futebol, há "um em dois". Sem ilusão de óptica, em qualquer banca ao pé de si. Escolha a versão que mais lhe convier. Ou faça como eu, que não escolhi nenhuma.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Se for preciso corte metade"

por Pedro Correia, em 06.07.16

image[1].jpg

Nuno Rocha (1933-2016) 

 

Vejo-me nas fotografias, miúdo ainda, naquele grupo em que todos eram mais velhos que eu. Mas tratávamo-nos por tu e as hierarquias eram muito mais diluídas nessa época, apesar de circular nas redacções uma frase importada das casernas: “A antiguidade é um posto”. Na hora de bulir, todos arregaçavam as mangas e aceleravam o passo: ninguém ia pavonear-se para as televisões armado em general, todos se comportavam como soldados.

Vejo-me a entrar naquela Redacção, num primeiro andar ao Príncipe Real que na sala maior funcionava como piso térreo, enquanto desfilava perante mim uma espantosa galeria de personagens de um romance que talvez ainda venha a ser escrito. Uma delas era o director do jornal, um portuense transplantado para Lisboa que ganhou fama como repórter do Diário Popular. No célebre “baile do século”, oferecido pelo magnata Antenor Patiño e realizado na última noite da vida política de Salazar, furou o veto à entrada de jornalistas disfarçando-se de empregado de mesa. Pôde ser assim o único a contar a história.

 

O director escrevia artigos copiosos – linguados, como se dizia no jargão profissional da época – que não tinha a menor paciência para rever.

Um dia, era eu ainda estagiário, chamou-me para que lhe corrigisse os erros de ortografia. E logo partia para outra prosa. Às vezes dava-me a impressão de que ele escrevia sozinho metade daquele semanário, contínuo sucesso de vendas, que ostentava como título de glória um comício em Almada em que o general Vasco Gonçalves lhe chamou “pasquim”.

Chamava-se Tempo, feliz título que define toda uma época já passada e que não regressa. Os nossos maiores concorrentes eram dois outros semanários (Expresso e O Jornal), a informação processava-se a um ritmo muito mais vagaroso do que o actual, podíamos dar-nos ao luxo de guardar notícias para só divulgar na quinta-feira.

E toda a gente lia jornais: eram frequentes as tiragens acima dos cem mil exemplares, números impensáveis para os dias de hoje. Havia quem comprasse só para ler um colunista: o Manuel de Portugal, por exemplo, era um sucesso sem par. Recebíamos chamadas de cidadãos anónimos a perguntar se podíamos “transmitir uma palavra de agradecimento àquele senhor que tanto gosto de ler”.

 

O director dos artigos copiosos era o Nuno Rocha. Morreu ontem, aos 83 anos, esquecido do mundo, alheado do fluxo informativo que durante tantas décadas o fez produzir um número incontável de notícias.

Desaparece num momento em que o jornalismo se transfigura por completo, frágil como nunca, transformado num voraz mecanismo reprodutor de desempregados em série, sem metade do prestígio social que teve nas décadas precedentes. A relação polifacetada do jornalista com a vida transformou-se numa relação estritamente monogâmica com um ecrã de computador.

O servo da gleba ressuscitou no servo da tela.

 

Nessa altura, não. Havia tempo para trabalhar no duro e tempo para nos afastarmos do som estridente das máquinas de escrever e dos telefones que não paravam de tocar, alargando horizontes, convivendo, fazendo amizades, conhecendo mundo. O Nuno Rocha tinha muitos defeitos, mas sabia dar oportunidades a quem começava. Aos 20 anos, pôs-me um bilhete de avião nas mãos e enviou-me como repórter para uma eleição na Grécia. Aos 21, mandou-me entrevistar figuras como Jorge Amado, Alvin Toffler (morreu por estes dias), Björn Borg e Jorge Jardim. Aos 22, deu-me carta branca para reformular o suplemento de artes e espectáculos, com novos temas, novos colaboradores e novo grafismo.

Continuava a escrever copiosamente, continuava a viajar como se não houvesse amanhã, ditando prosas ao telefone das mais diversas paragens. Na redacção, sempre sentado à secretária, o Chefe Peixe Dias conferia-lhe a pontuação e abria-lhe parágrafos nos textos com paciência de bom samaritano.

Chamávamos-lhe assim mesmo: Chefe – algo que nunca chamei a mais ninguém. Hoje só os cozinheiros merecem tal título, o que se adequa muito ao ar do tempo.

 

Ali, naquele semanário de direita onde não faltava gente de esquerda, fiz amizades para a vida. A Teresa e o Fernando, que me acompanham no DELITO. O António Ribeiro Ferreira, o Paulo Portas, o Carlos Santos Pereira, o Paulo Reis, o Ramos André, o Júlio Santos, o Carlos Pires, o António Duarte (o que será feito dele?), o Luís Marinho, a Helena Vieira, o Paulo Camacho, o António Fontoura, a Anabela Saint-Maurice, a Ana Guedes, o Jorge Nuno Oliveira, o Horácio Piriquito, o Jorge Botelho Moniz, o Vítor Pereira, o João Líbano Monteiro, a Eva Cabral, a Leonor Ribeiro da Silva, o Alcides Pinto, o Eduardo Sousa, o Augusto Teixeira, o Luís Costa Ribas, o Alfredo Canana. O Octávio Saldanha, o José Vasconcelos, o Ilídio Barreto e o Jorge Alves Oliveira, que nunca mais vi.

E tantos outros: Raul Alves Fernandes, Palmira Correia, Gouveia de Albuquerque, Isabel Atahide Cordeiro, Luís Fraga, Wilton Fonseca, Jorge Massada, Noé Ramos, Piedade Paulo. Alguns que já cá não estão: a Margarida Viegas, o Händel de Oliveira, o José Neto, o Albano Matos, o João Isidro, o Carlos Basto, o Jorge Pereira de Almeida, o José Paulo Canelas.

Aprendi quase tudo quanto conheço nesta profissão com quase todos eles. Porque então havia tempo para os mais velhos ensinarem os mais novos. E para os mais novos levarem na cabeça dos mais velhos. E corrigirem os textos. E reescreverem tudo desde o início, se fosse necessário.

 

Hoje imprime-se o erro sem que ninguém o detecte. Porque anda tudo a cem, porque cada um só sabe de si, porque todo o homem é uma ilha e a profissão deixou de ser um vasto arquipélago. E o jornalista – agora convertido em “profissional multimédia” nesta era já sem chefes em que a antiguidade deixou de ser um posto para ser posta de lado – quase perdeu até direito ao nome. É um número numa folha de cálculo.

Nunca a tecnologia foi tão desenvolvida. Nunca se esteve tão à distância do mundo real.

As “fontes” deixaram de ser criaturas de carne e osso, interlocutores a quem era possível encarar olhos nos olhos: tornaram-se seres virtuais, uma voz ao telefone, dois correios electrónicos, três sucintas mensagens num telemóvel.

Hoje ninguém se daria ao incómodo de se disfarçar de empregado para penetrar na festa de um Patiño: as dondocas que lá estivessem encarregavam-se da “reportagem” com trinta selfies a ilustrar. Saía na página quatro do jornal gratuito, três minutos para ler no metro, com títulos replicados nos rodapés das televisões e das farmácias de serviço entre o mais recente atentado no Bangladeche e a nova tatuagem da velha estrela do futebol.

 

O Nuno Rocha, meu primeiro director num jornal a sério, já cá não está para relatar os factos da semana. Nem o Chefe João Peixe Dias poderia voltar a aparar-lhe a prosa enquanto cofiava o bigode em gestos nervosos, de eterno cigarro a arder-lhe nos dedos.

“Se for preciso corte metade”, dizia o director. E o Chefe cortava. Outros tempos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um dos melhores títulos do ano

por Pedro Correia, em 01.07.16

No hay Cristiano sin Quaresma

(Do jornal desportivo espanhol Marca)

Autoria e outros dados (tags, etc)

A marcha da desinformação na TV

por Pedro Correia, em 27.06.16

Ontem à noite todos os telediários portugueses - mesmo com correspondentes e enviados a Madrid - caíram na esparrela das sondagens, que em Espanha falham por sistema. Confundindo projecções com números reais, sem um sobressalto de dúvida, foram desinformando os portugueses sobre o resultado da eleição para o novo Parlamento espanhol.

Foi preciso que um par de comentadores, sem carteira de jornalista, repusesse a verdade dos factos. O que, reconheçamos, não abona nada a favor dos profissionais da informação.

Eis o filme dos acontecimentos:

 

RTP, 19.02: «Deu-se o sorpasso, essa expressão italiana que dominou esta campanha. Esta coligação de Pablo Iglesias, unido aos comunistas, consegue ultrapassar o Partido Socialista.»

RTP, 19.03: «O PP de Mariano Rajoy desce pelo menos dois lugares no Congresso em termos de deputados. Este é um terramoto político. É um abalo sem precedentes em Espanha.»

TVI, 19.57: «A principal mudança no sufrágio de hoje foi a passagem do Podemos para segundo lugar, ultrapassando o PSOE.»

SIC, 19.59: «O Unidos Podemos acaba por ser o grande vencedor da noite e é nesta coligação que pode estar a chave para o futuro governo espanhol.»

TVI, 21.02: «O Podemos deve ultrapassar o PSOE como segunda força política. Em termos de deputados, há a possibilidade de uma maioria de esquerda.»

SIC, 21.13: «A grande surpresa aqui é o segundo lugar do Unidos Podemos.»

 

Este, repito, foi o discurso jornalístico. Que se prolongou por mais de duas horas nas pantalhas lusas.

Felizmente havia comentadores - um em estúdio, outro em Madrid - a recomendar moderação, mais atentos aos factos do que à espuma.

O primeiro foi Paulo Portas, recém-contratado como comentador de temas internacionais da TVI. Eram 21.03 quando ele alertou, falando em directo da capital espanhola: «O resultado dos votos contados aponta para um sentido completamente diferente das sondagens.»

Dez minutos mais tarde, na SIC, Luís Marques Mendes também deitava água na fervura: «Aquilo que foram as sondagens à boca das urnas não está a confirmar-se na contagem dos votos.»

Tinham ambos razão. Os jornalistas é que andavam distraídos: foram os últimos a saber.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D