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welcome to my life

por Patrícia Reis, em 21.07.17

Cheguei de Itália - a belíssima - há uma semana. Já não me lembro de ter ficado de papo para o ar sem fazer nada, mirando vagamente as vinhas da Toscana ou espreitando a gente pelas praias de Roma. Sim, tenho problemas graves de memória, está visto. Acontece que desde que cheguei aconteceu tudo, ou quase tudo, do autoclismo que avariou, ao carro que não tinha gasolina nem óleo (pânico!), a textos que eram para ser mas depois não foram, a sessões de terapia individual, de grupo, no espelho e apenas para mim mesma, idas à província, vários livros à espera, sessões de fotografia, objectos estranhos e alguém à minha frente a dizer: gosto de comer. Há ainda toda a cena bizarra da inscrição do meu filho mais novo na faculdade (inscreveu-se, por esta ordem, em filosofia, ciências da comunicação e sociologia, todos os cursos na universidade Nova), ou dos cães que precisavam de ser vacinados, mas afinal não. O meu filho mais velho acredita que eu não percebi a mensagem (não perguntem, é demasiado), e a minha mãe diz que há pessoas que morrem com menos stress. Hoje é sexta-feira. Dizem-me que há vitaminas fixes, mas não fui à farmácia, fui à dentista que é um fado só meu e permanente. Ah, Itália? Foi maravilhoso.

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Sem grandes dramas

por Alexandre Guerra, em 30.11.16

A Itália é um país fascinante por diversas razões. Politicamente, sempre foi um laboratório para todo o tipo de experiências. Nos últimos 70 anos teve 63 governos, mas a verdade é que, com mais ou menos instabilidade, a Itália lá vai funcionando no seu estilo muito próprio e ao mesmo tempo sedutor e único. No Domingo, realiza-se um importante referendo sobre várias alterações constitucionais, as mais importantes desde a II GM, entre as quais a diminuição da relevância do Senado naquele sistema político. As sondagens indicam que o primeiro-ministro Matteo Renzi se arrisca a perder a votação, mas mesmo que isso aconteça, acredito que a Itália, com toda a sua classe e arte, olhará para todo este processo sem grandes dramas.

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 Apresentadora da RAI3, com um dos seus célebres decotes/Foto actualizada

 

Segundo aquilo que se leu na imprensa, desde a semana passada que vigora um novo código de indumentária na RAI (televisão pública italiana), para que as suas pivots de informação tenham “uma imagem mais recatada, menos provocadora”. Decotes, vestidos justos e outros trajes que possam ser considerados mais arrojados estão proibidos. Em qualquer outra televisão pública europeia ou de outra parte do mundo esta medida até passaria despercebida e até poderia ser compreensível. Mas fazer isto na RAI é quase o mesmo que vestir uma tanga ao David de Miguel Ângelo. 

 

A Itália é um país fascinante a vários níveis e a RAI é também um pouco o espelho da realidade daquele país, com tudo o que tem de bom e de mau. A arte, a história, a cultura, a beleza, a elegância, o prazer, a gastronomia, a paisagem, tudo se conjuga de uma forma desorganizada, mas ao mesmo tempo irresistível. E com a política italiana passa-se o mesmo. Apesar de, por vezes, ser dominada por uma total ausência de ordem e lucidez, a verdade é que é impossível ficar-se indiferente ao que por lá se vai passando. De certa maneira, assemelha-se a uma arena romana que vai servindo para entreter o povo, onde tudo é possível, mesmo as maiores barbaridades, mas os aplausos não deixam de soar.

 

Em Itália tudo é vivido com intensidade, paixão e irracionalidade, para o melhor, mas também para o pior. Nada é inconsequente. Só em Itália se encontram fenómenos como o da deputada Cicciolina (hoje seria apenas uma pequena excentricidade, mas como explicar uma coisa destas ainda nos anos 80?) ou de Silvio Berlusconi (imagine-se, o político que se manteve durante mais tempo no cargo de primeiro-ministro desde a II GM). Ou nos anos mais recentes, o da ascensão meteórica de um palhaço (no sentido literal) na cena política transalpina. É por isso que o sistema político italiano é um autêntico laboratório. Em Itália tudo é possível e tudo é aceite com a maior das normalidade. Regras e normas ficam para os europeus "normais", já que os italianos preferem a incerteza do dia seguinte e a animação da anarquia sistémica. Mas, o curioso é que o sistema político italiano lá vai funcionando. À sua maneira, é certo.

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DG, Valentino ou intimissimi?

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.03.14

(fotografia eliminada)

 

Depois de ter percorrido vários sites da imprensa italiana e de ter visto várias fotografias da tomada de posse do novo governo de Matteo Renzi, fiquei com sérias dúvidas sobre se a fotografia publicada da nova ministra da Reforma do Parlamento não teria sido objecto de "retoques" informáticos por parte de alguma comunicação social ou bloggers italianos. O caso não seria virgem e, na dúvida, perante outras fotos que vi da mesma cerimónia, sem poder confirmar onde estaria a verdade, optei por eliminar a que foi publicada neste blogue, bem como os comentários entretanto feitos. Pelo facto, apresento as minhas desculpas aos leitores. Em consciência, outra coisa não poderia ter feito.

 

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Um case study

por Helena Sacadura Cabral, em 17.02.14
O líder do Partido Democrático italiano, Matteo Renzi, acaba de ser oficialmente indigitado pelo Presidente Giorgio Napolitano a formar um novo executivo e assegurar a liderança do governo de coligação entre o PD e o centro-direita na sequência da demissão (forçada) de Enrico Letta na semana passada. Aos 39 anos, será o primeiro-ministro mais jovem na história do país.
Prevê-se que, na sexta-feira, o novo primeiro-ministro esteja em condições de apresentar a sua equipa no Senado e pedir um voto de confiança ao seu programa de governo. 
“A situação é difícil mas tenho energia e empenho”, declarou, garantindo que a sua perspectiva é que a legislatura cumpra o seu “horizonte natural”, até ao ano de 2018.

A incógnita do momento tem que ver com as negociações com Angelino Alfano, o líder do Novo Centro-direita (o partido que constituiu quando se afastou do Povo da Liberdade de Silvio Berlusconi), cujo apoio no Senado é fundamental para a viabilização do novo governo.

 
A Itália é, de facto, um case study na política...

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No domingo passado distraí-me e acabei assistindo aos comentários do Professor Marcelo na TVI (*). A dada altura, ele explicou-nos (a nós, telespectadores, e a uma embevecida Judite de Sousa) que os resultados das eleições italianas, parecendo originar um problema de difícil resolução, revelar-se-ão afinal muito positivos, na medida em que obrigarão Angela Merkel a prestar atenção às reivindicações dos países do Sul. Segundo o Professor Marcelo, os alemães não ligam peva (o termo é meu mas o sentido é dele) à Grécia, nem a Portugal, nem sequer à Espanha, mas respeitam a Itália e sabem que esta lhes pode causar um montão de problemas bicudos (a expressão é minha mas o sentido é dele). Minutos depois, escalpelizando já o tema da alteração das condições dos empréstimos europeus a Portugal e à Irlanda, o Professor Marcelo anunciou que, obviamente, os prazos serão alargados e a curva de pagamentos suavizada mas que não se pode avançar demasiado depressa por necessidade de desenhar formas que, disfarçando a cedência dos governos dos países credores, evitem alienar os seus cidadãos e permitam as aprovações parlamentares necessárias. Referiu explicitamente a Alemanha e o jogo de cintura a que Angela Merkel, em pleno ano de eleições, se vê forçada.

Sendo que o Professor Marcelo – desculpe lá, Professor; almas gémeas na paixão pelo ténis, eu até gosto de si – não fez mais do que expressar o que muitos pensam, tudo isto é bonito e de uma coerência inatacável. Ora recapitulemos. Em Itália, castigam-se os políticos por terem ignorado a vontade popular; em Portugal, onde acusações idênticas aos políticos nacionais são às dúzias por hora, aplaude-se – diz-se que é a democracia a funcionar e, num glorioso corolário, exige-se que o governo alemão aprenda a lição e altere o rumo, ainda que contra a vontade dos cidadãos alemães. Em simultâneo, na Alemanha o governo parece utilizar subterfúgios para executar políticas que não corresponderão à vontade popular; em Portugal, com reservas porque continua a dar jeito ter a quem apontar o dedo, aplaude-se – diz-se que já não era sem tempo e exige-se mais. Convenhamos: a começar no PM que sonha ser PR, gostamos da democracia quando ela se molda às nossas tendências para a realpolitik.

 

(*) Pergunto-me sempre se ele teria atingido níveis de fama e respeito similares com um primeiro nome mais comum (tipo António, Carlos ou João) ou fora de moda e, por isso mesmo, ligeiramente incongruente (tipo Anacleto, Barnabé ou Frutuoso). Imagine-se Judite de Sousa dizendo: «É altura do comentário semanal do Professor Anacleto. Boa noite, Professor Anacleto. Que livros nos traz esta semana?»

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A política tem horror ao vácuo

por Pedro Correia, em 02.03.13

 

Os italianos acordaram ontem com uma estranha sensação de vazio, como notava o correspondente em Roma do El País: "Não há Papa, não há Governo e o idoso Presidente da República, Giorgio Napolitano, já avisou que partirá mal termine o seu mandato, o que sucederá dentro de poucas semanas."

 

Em Itália desenham-se três cenários pós-eleitorais: um entendimento "à esquerda" (mas como considerar Beppe Grillo de esquerda se ele dispara em simultâneo contra a esquerda e a direita, e é contra a naturalização ipso facto dos filhos de imigrantes já nascidos em solo italiano, uma bandeira da esquerda no país?), uma "grande coligação" (com um putativo "abraço de urso" de Silvio Berlusconi ao líder do Partido Democrático, Pier Luigi Bersani, que este terá toda a conveniência em recusar, como aliás lhe pedem os militantes de base) ou novamente um Governo de catedráticos extra-política, versão Monti parte II, a designar pelo respeitado Presidente Napolitano, de 87 anos.
Esta última solução - que já não poderia contar com Mario Monti, humilhado nas urnas - perverte os resultados eleitorais e desrespeita a vontade popular. É bom que isto seja dito com clareza a todos quantos se arrepiam com o "populismo" à solta no espectro político europeu. Por mim, não diabolizo as opções populistas desde que decorram dentro do sistema democrático: as minhas precauções nesta matéria são sempre contra o populismo antidemocrático. O que não vai a votos.

 

Se as forças emergentes deste escrutínio (incluindo naturalmente o estreante movimento de Grillo, que obteve 8,5 milhões de votos, elegendo 54 senadores e 108 deputados) não produzirem uma solução governativa, o menor dos males é ouvir novamente os eleitores.

Sempre mais democracia, nunca menos democracia.

Foi, de resto, o que sucedeu na Grécia, em Junho do ano passado. E com bons resultados, atendendo às circunstâncias.

Felizmente a democracia - como a política em geral - tem horror ao vácuo.

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A Europa "grillada".

por Luís Menezes Leitão, em 01.03.13

 

No Brasil usa-se muito a expressão "grilado" no sentido de aborrecido ou preocupado. É precisamente o estado de espírito que grassa na Europa depois do extraordinário resultado obtido por Beppe Grillo nas eleições italianas e do regresso à ribalta de Silvio Berlusconi. Na Alemanha o líder do SPD, Peer Steinbrück, em mais uma demonstração da tradicional arrogância germânica, referiu ter ficado chocado com a vitória de dois palhaços. Talvez lhe devessem ter respondido que os italianos gostam mais de palhaços do que de fantoches. Mário Monti, embora tenha feito um bom governo, não passava de um fantoche dos mercados, nunca tendo sido eleito por ninguém. Foi Primeiro-Ministro e como se viu vale eleitoralmente menos que qualquer cómico que surja na política italiana. Ora, nesta fase de crise não há nada pior que um Governo sem legitimidade democrática. Os aspirantes a Monti que se lembrem disso.

 

E, no entanto, o desespero pode levar os eleitores a fugir completamente aos partidos tradicionais, mesmo que seja para eleger palhaços. Há uns anos, ficou célebre no Brasil o slogan do palhaço Tiririca: "Vote no Tiririca, pior do que está não fica". E de facto o palhaço Tiririca lá foi eleito para o Congresso, tendo depois renunciado porque o achou um aborrecimento. Beppe Grillo não é, porém, um Tiririca. Goste-se ou não, é alguém que apresentou um projecto eleitoral e conseguiu 25% dos votos, tendo que ser tomado em consideração para a formação de qualquer governo. Não estou a ver como vai ser possível, no entanto, os outros partidos entenderem-se com ele. Mas uma repetição das eleições seria como dizer ao eleitorado que se enganou, o que até poderia reforçar a votação de Grillo.

 

Por cá, tenho igualmente receio que o eleitorado, completamente desesperado por uma governação sem soluções, e com uma crise que todos os dias se agrava, também caia em qualquer canto de sereia de que "pior do que está não fica". Depois dos protestos contínuos a que temos assistido nos últimos dias, vamos ver no que vai dar a manifestação do próximo sábado. 

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Regresso à política

por Pedro Correia, em 28.02.13

 

De facto, não adianta tentarmos varrer a política para debaixo do tapete substituindo políticos por contabilistas e procurando refúgio num discurso que se esgota na magna questão das finanças públicas. O caso italiano, somando-se a tantos outros, aí está para o demonstrar.

Não farei, por agora, qualquer avaliação sobre Beppe Grillo. Interessa-me, isso sim, analisar a eficácia do seu método para conquistar um em cada quatro eleitores italianos, mobilizando-os para o conceito de democracia directa na terceira maior economia da Europa.

Os gurus do comentário não previam isto - e daí também eles terem sido derrotados neste escrutínio.

 

Há três anos, não havia nada. Ou antes: havia um blogue. E foi aí que tudo começou. No blogue de Grillo.

O actor, especializado em papéis de comédia, ficou indignado com a reiterada manutenção na Câmara dos Deputados de parlamentares imputados pela justiça italiana. E lançou uma petição para pôr termo a isso.

Foi uma espécie de rastilho. Pedindo de empréstimo o jargão revolucionário, as condições estavam maduras para algo mais.

Seguiu-se a reivindicação de listas nominais para as eleições aos mais diversos níveis, do voto electrónico para formar listas de deputados, da redução de 25 para 18 anos da idade para escolher os representantes ao Senado, do referendo à manutenção do país na zona euro, do combate sem tréguas à corrupção que mina como um cancro voraz os órgãos políticos em Itália.

Seguiram-se mobilizações impressionantes nas principais praças das maiores cidades do País. Não houve debates televisivos, nem foram necessários: a força da Rede levou Grillo a comunicar directamente com os cidadãos através das redes sociais. Entre os jovens, foi de longe o mais votado nas legislativas. O Le Monde aponta-o sem rodeios como "único verdadeiro vencedor das eleições".

 

Ninguém levava a sério este movimento, intitulado Cinco Estrelas. Hoje é o mais votado na Sicília, domina a câmara de Parma e tornou-se a força política individual com mais representantes no Parlamento - conseguiu eleger 54 senadores e 108 deputados.

"Em Itália não há democracia: há burocracia: um Estado que se exprime através de 350 mil leis, um aparelho judicial paralisado com nove milhões de processos, um Parlamento que funciona com decretos-lei do Governo no qual se senta gente que não foi eleita pelo povo." Palavras de Grillo, o ex-actor convertido em estrela mediática, em entrevista ao El Mundo.

Palavras que poderiam ter sido proferidas por milhões de italianos.

 

É preciso saber escutar os sinais emanados desta ampla mobilização cívica, de carácter pós-ideológico mas profundamente política. Porque este sinais prenunciam mudanças decisivas nas instituições europeias, que não podem permanecer indiferentes às vozes dos cidadãos. Seria demasiado fácil ridicularizar movimentos como o de Grillo, mas a este suceder-se-ão outros, em qualquer país, todos apontando na mesma direcção: há que aproximar as estruturas políticas da cidadania, sob pena de condenarmos a democracia ao insucesso, um pouco à semelhança do ocorrido nas décadas de 20 e 30 do século passado que serviram de via aberta às piores tiranias que o mundo conheceu.

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A originalidade italiana

por Rui Rocha, em 27.02.13

Não há dinheiro mas não faltam palhaços.

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30% dos eleitores italianos votaram no partido do palhaço rico, 25% escolheram o do palhaço pobre. Ou, vá, menos rico.

 

A economia europeia pode estar em queda mas o mercado das ilusões continua em alta. 30% dos italianos escolheram Berlusconi, sem dúvida na esperança de poderem voltar ao regabofe a que ele os habituou. E dos 35% que, compreensivelmente, optaram por um voto de protesto em relação aos partidos tradicionais (ou tão tradicionais quanto é possível hoje encontrar na política italiana), 7 em cada 10 preferiram um humorista que, garantindo falar a sério, se propôs criar um rendimento mínimo garantido de 1000 euros mensais e reduzir a semana de trabalho para 20 horas a um tecnocrata honesto com provas dadas. A Itália fica à beira da ingovernabilidade e, por essa Europa fora, o último a rir que pague a conta.

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Quem vos lembra?

por Helena Sacadura Cabral, em 13.01.13

 

Não é só em Portugal que a política atinge, por vezes, o grau zero. Em Itália também acontece. Uma adivinha: que demagogo nacional vos lembra este cavallieri? Dão-se alvíssaras. Convenhamos que o nosso produto é ligeiramente melhor!

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E la nave va

por Rui Rocha, em 10.12.12

À esquerda, o abismo da deflação. À direita, o fogo da inflação. 

(a imagem foi tirada daqui)

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Estupefacções

por José António Abreu, em 14.09.12

É impressão minha ou algumas das pessoas que bradaram contra a constituição de um governo sem legitimidade popular em Itália (e muito mais teriam bradado e aquelas que o fizeram tê-lo-iam feito mais alto não fosse ele substituir o liderado por Berlusconi) estão a exigir a constituição de um governo de iniciativa presidencial?

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Cosa Nostra

por José António Abreu, em 18.07.12

Correrei um risco mais elevado chamando Sicília portuguesa à Madeira ou Madeira italiana à Sicília?

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Mais um...

por Helena Sacadura Cabral, em 28.06.12

 

O Banco Monte dei Paschi di Siena, banco mais antigo de Itália, planeia pedir 3,4 mil milhões de euros em ajuda estatal para resolver uma falha de capital descoberta pelo regulador europeu.
O banco transalpino deve ainda tentar angariar mil milhões de euros adicionais junto de investidores privados, de acordo com um comunicado ontem divulgado. O Monte Paschi, terceiro maior banco de Itália em termos de activos, está a proceder a este encaixe, depois de não ter conseguido solucionar o défice de 3,3 mil milhões de euros identificado pela avaliação da Autoridade Bancária Europeia (EBA).

 

Quais se seguirão e quando é que a Itália irá pedir ajuda externa?

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Paralelismos

por Luís Menezes Leitão, em 05.12.11
 
As lágrimas da Ministra do Trabalho italiana são bem elucidativas da tragédia que o novo Governo italiano vai impor aos seus cidadãos. Trata-se de um governo sem qualquer legitimidade eleitoral, que foi para o poder por ter a confiança dos mercados. E a sua tarefa vai ser igualmente arrasar completamente a Itália para esta estar de rastos quando se verificar a inevitável implosão do euro. Claro que neste quadro não deixarão de ocorrer medidas simbólicas ridículas, como a de o Primeiro-Ministro italiano abdicar do seu salário, porque tem fortuna pessoal ou recebe uma pensão de luxo. O gesto tem precedentes históricos elucidativos: Hitler também abdicou do seu salário de chanceler da Alemanha. Não precisava dele, uma vez que estava milionário devido aos direitos de autor que recebia da venda de Mein Kampf em todo o mundo. E ao contrário do que julgam os especialistas de spin este é um gesto que afasta completamente os governantes dos cidadãos comuns. É que estes não podem abdicar do seu salário, e sofrem profundamente quando o mesmo é cortado.

 

Cá em Portugal também tivemos medidas simbólicas ridículas, como pôr os governantes a viajar em classe turística, ao mesmo tempo que se mantêm compras de automóveis de luxo. Mas pelo menos os nossos governantes não choram, até se riem quando discutem medidas de austeridade. Vamos para o abismo, mas vamos de cara alegre.

 

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Europa, 2011

por Pedro Correia, em 28.11.11

Notícias frescas da eurozona: Itália à beira da recessão, no próximo ano o desemprego continuará a disparar em Espanha, a Economist vaticina o colapso do euro. E os nossos vizinhos até já admitem sem rodeios um cenário de regresso à peseta.

"Mereceste reinar", escreveu Quevedo num soneto dedicado a Filipe III. De quantos dirigentes europeus contemporâneos poderá um historiador futuro dizer o mesmo?

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"Não se metam na política"

por Pedro Correia, em 22.11.11

 

Não há políticos no Governo italiano, liderado pelo ex-comissário europeu Mario Monti. Há sete professores, dois advogados, um banqueiro, um almirante, um jurista, uma antiga delegada da polícia... A intenção é clara: demonstrar aos italianos que chegou a hora de "limpar" o país desse vírus que é a política. Outra coisa não seria de esperar desta equipa governativa que se destina a regenerar Itália para mostrar obediência à Comissão Europeia e ao directório franco-alemão. Monti acumula as funções de chefe do Executivo com as de ministro das Finanças -- um gesto destinado a reforçar o seu perfil de salvador das arcas públicas. Contra a investida desembestada dos mercados que fizeram cair o seu antecessor, Silvio Berlusconi, aliás pessoa nada recomendável a vários títulos.

O novo Governo (na foto, com o Presidente Giorgio Napolitano) tem 16 ministros (em vez dos 23 existentes no consulado de Berlusconi) com uma respeitável média etária -- 63 anos -- e constitui desde já um parêntesis na cena política do país: não resultou de eleições e nenhum dos seus membros é dirigente partidário. Um parêntesis que se prevê longo: não deve haver legislativas em Itália antes de 2013. Ao viabilizarem este Executivo, os deputados italianos prestam assim caução a um corpo estranho à lógica partidária. O que, no limite, põe em causa o maior pilar da democracia representativa.

Não importa: os mercados reagiram bem. A Bolsa de Milão fechou de imediato com uma subida de 0,79%. Isso é o que mais interessa. Se faltam os votos depositados nas urnas, ao menos não faltem as acções em alta.

Daqui a uns meses, talvez esta comissão de sábios agora empossada em Roma consiga demonstrar ao mundo as virtualidades de uma democracia onde os partidos se tornaram meros adereços. Já não disputam o poder: apenas o legitimam.

Após mais de 30 anos como ditador, o general Franco costumava recomendar a quem o visitava no Palácio do Pardo: "Faça como eu, não se meta na política." A cínica sabedoria do caudilho frutifica em Roma quatro décadas depois.

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Europa sob o espectro da bancarrota

por Pedro Correia, em 16.11.11

 

Portugal sofre severas medidas de contenção da despesa pública e privada. Mas é uma ilusão pensar que, face à situação de penúria a que chegámos, haveria hoje alternativa ao programa de austeridade em curso. Basta reparar nas notícias que nos chegam de outros países europeus. Na vizinha Espanha, que regista a maior diferença entre ricos e pobres de toda a União Europeia, a economia estagnou: uma pessoa fica sem emprego a cada 20 segundos e de cinco em cinco minutos uma empresa fecha as portas. Eis a triste realidade: há hoje um milhão e quatrocentos mil lares espanhóis sem qualquer receita oriunda do trabalho.

Os italianos, confrontados igualmente com uma grave crise, têm um novo primeiro-ministro que não se sujeitou ao teste do voto popular: é um economista apartidário, que goza da plena confiança de Bruxelas e avisa desde já que tenciona permanecer no poder pelo menos até 2013. Os países onde se vai instalando o espectro da bancarrota começam a recorrer a economistas que surgem com inevitável aura de "salvadores", o que se traduz numa "profunda desconfiança na democracia representativa", alerta o politólogo Angelo Panebianco nas páginas do Corriere della Sera. Há razões para recear o pior num país cuja dívida ultrapassa já os 120% do produto interno bruto, cifrando-se em 1,9 biliões de euros.

A Grécia -- onde outro tecnocrata favorito da Comissão Europeia, Lucas Papademos, acaba de substituir o desacreditado socialista Georgios Papandreou como primeiro-ministro -- necessita de uma remessa imediata de oito mil milhões de euros, sob pena de não haver dinheiro para salários e pensões já em Dezembro. Em certas zonas do país, a taxa de desemprego ronda os 70%. E 17% dos estabelecimentos comerciais de Atenas fecharam definitivamente as portas.

Recordistas europeus da fuga aos impostos, os gregos continuam a desafiar as regras da austeridade tal como sucedia em Janeiro de 2010, quando a Comissão Europeia acusou Atenas de "irregularidades sistemáticas" no envio de dados fiscais para Bruxelas. Na Grécia não há cadastro de propriedades e a esmagadora maioria dos utentes de transportes públicos utiliza-os sem pagar bilhete. Um movimento intitulado "Não pagamos" congrega ali já pelo menos 30 mil pessoas. O problema é se os contribuintes alemães, holandeses e finlandeses também começam a dizer "não pagamos": como irá a Grécia continuar a salvaguardar salários e pensões?

Bélgica e Áustria são outros dois países sob ameaça. Entretanto, em França (corte de 500 milhões em despesas do Estado previsto para 2012) e no Reino Unido (um milhão de jovens desempregados) começaram a vigorar as medidas de contenção orçamental mais duras de que há memória em tempo de paz. Olhemos para estes e outros países antes de fazermos juízos definitivos sobre as ramificações da crise em Portugal. E deixemo-nos de ilusões: não existe de momento alternativa à austeridade. Desde logo pelo mais simples dos motivos: não há dinheiro. Só um irresponsável ou um imbecil pensa o contrário.

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Cria corvos e ficarás sem olhos

por Pedro Correia, em 12.11.11

 

Milhares de pessoas festejam esta noite em Roma a queda de Silvio Berlusconi. O homem que mais marcou a política italiana nos últimos 20 anos viu-se forçado a abandonar o poder na sequência das pressões conjugadas de Bruxelas e dos 'mercados'.

Sou insuspeito de simpatias por Berlusconi: várias vezes escrevi contra a sua falta de sentido de Estado, a sua duvidosa moralidade na gestão dos assuntos políticos e a ténue fronteira que separava a sua condição de empresário com a de responsável governativo. Mas esta saída do poder, nos termos em que ocorre, preocupa-me muito mais do que me alegra. E devia preocupar também aqueles que se manifestam a favor desta mudança política em Roma. Porque o designado sucessor de Berlusconi, Mario Monti, é um homem da confiança da superestrutura de Bruxelas, um tecnocrata puro e duro que ascende à liderança do Governo italiano não pelo voto popular mas por pressões da oligarquia financeira. A mesma que na Grécia já foi decisiva na substituição do socialista Georgios Papandreou por outro tecnocrata, Lucas Papademos.

Um velho provérbio espanhol que cito com frequência vem a propósito de tudo isto: "Cria cuervos y te comerán los ojos." Seria bom que não aplaudíssemos a chegada dos corvos. Eles andam aí.

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Addio, Don Silvio

por João Carvalho, em 08.11.11

Silvio Berlusconi perde a maioria e anuncia a sua despedida, mas não sem dizer que a Itália fica a perder com o seu afastamento. Trata-se de um erro de paralaxe, próprio de quem olha a realidade de esguelha. A Itália já perdeu (andou sempre a perder) com a permanência de Berlusconi. Mas ele ganhou. Ganhou, por exemplo, ao ter feito muitas vezes o que lhe deu na real gana e dispensar-se de encarar a lei. Não faltam motivos para ver nos excessos de Don Silvio um (mais um) retrato de uma geração de políticos europeus que não deixarão saudades. Para qualquer europeu, é menos um cromo. Adeus.

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A foto déjà vu

por João Carvalho, em 07.11.11

 

«Os juros da dívida soberana de Itália atingiram hoje o valor mais alto», na casa dos 6,5 por cento. A foto tem o seu quê de familiar. Berlusconi é o novo Sócrates europeu: alvo de crescentes divergências entre os seus pares, insiste que tem condições para continuar e que não tenciona demitir-se.

Olhando bem para a foto, vê-se a versão italiana de Teixeira dos Santos a avisar o primeiro-ministro de que os juros da dívida externa estão a chegar ao limite (!) de sete por cento. O que, como se sabe, não aquecerá nem arrefecerá a intuição (?) do chefe.

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Vinte cidades que jamais esquecerei (X)

por Pedro Correia, em 24.06.11
ROMA
"Quem alguma vez tenha amado Roma, como só é possível amar quando se é jovem, jamais quererá deixar de a amar."
(Henry James)

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Vinte cidades que jamais esquecerei (III)

por Pedro Correia, em 15.06.11
VENEZA
"O que teremos de pagar por tanta beleza?" (Ezra Pound)



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Berlusconi sabe que, por enquanto, face à falta de alternativas bem organizadas, por parte da oposição, ainda tem mais algum tempo para se manter à tona. Mas o discurso ameaçador não lhe fica nada bem.

Não sei se em Itália é conhecida a expressão "Pela boca morre o peixe" mas o seu significado deve ser bem claro, neste momento,  para Clemente Mastella e Umberto Bossi

Para quem não viu a notícia e está menos familiarizado com a língua italiana Clemente Mastella, líder de um partido, deputado europeu e antigo ministro num dos governos de Berlusconi, concorreu em Nápoles, nas eleições locais e regionais de domingo passado, e prometeu suicidar-se se perdesse para o adversário.  Mas esta promessa peregrina não tem a ver com os calores do Sul. Também o mais conhecido Umberto Bossi, líder da Liga do Norte, prometeu cortar os "tintins" caso não fosse o vencedor em Milão. 

Ora o facto é que ambos perderam e entretanto foram criados grupos no Facebook, com quase 45 mil apoiantes, no caso do primeiro, e 20 mil, no caso do segundo, que lhes relembram as promessas feitas. Claro que todos estes italianos já devem saber que as promessas dos políticos não devem ser levadas muito a sério. Mesmo assim, os políticos em causa, sobretudo Bossi, devem estar a pensar: - "Bolas!"... "Para a próxima, prometo só depilar as pernas"... E será que haverá próxima? Algo me diz que sim porque a dimensão da vergonha, face ao incumprimento das promessas, fica sempre muito aquém da facilidade e predisposição para as fazer .

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Mais outra do novo "duce"

por João Carvalho, em 08.04.09

Silvio Berlusconi prometeu que a região afectada pelos sismos iria ser reconstruída, mesmo sem ver com os seus próprios olhos o quadro mais desolador da catástofre. Com efeito, embora tivesse prometido que ia «visitar pessoalmente as áreas mais atingidas da cidade de L'Aquila», o primeiro-ministro italiano esteve na cidade, mas acabou por não se deslocar até às zonas mais atingidas.

Faltar ao prometido não é coisa completamente desconhecida entre os primeiros-ministros da Europa do Sul. "Sismo" Berlusconi deu um belo exemplo sobre as obrigações de solidariedade e apoio pessoal que cabem aos mais altos responsáveis políticos perante uma tragédia: deve ter receado que lhe caísse algum calhau periclitante em cima do seu conhecido bom-senso...

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