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Seis Dias que abalaram o Médio Oriente*

por João Pedro Pimenta, em 18.06.17

Passou agora meio século desde a Guerra dos Seis Dias, uma das operações mais retumbantes do século XX. Israel estava nas vésperas do seu vigésimo aniversário, uma curta existência caracterizada por duas guerras e a resistência a um cerco por parte dos (muito maiores) vizinhos árabes. Em fundo, a Guerra Fria, de que a região era um dos principais cenários, sobretudo desde 1956 e a Crise do Suez, após a qual a URSS se tinha voltado definitivamente para o Egipto, ao passo que os EUA continuavam a apoiar o estado judaico. O país liderado por Nasser consolidara o seu estatuto de potência regional, apesar do falhanço na constituição da República Árabe Unida com a Síria. E em 1967, precisamente por receio de um ataque israelita à Síria, o Egipto exigiu a retirada das tropas da ONU presentes no Sinai desde 1956, iniciando um bloqueio ao estreito de Tiran, que dá acesso ao golfo de Aqaba e é a única saída de Israel para o Mar Vermelho, e consequentemente o Índico. Um tal bloqueio, impedindo a livre circulação marítima de um estado, era uma declaração de guerra implícita.

 
Entre 5 e 10 de Junho de 1967, e em reacção ao cerco do Egipto e a crescentes hostilidades de outros estados árabes, Israel viu-se forçada a actuar mesmo sem a protecção de qualquer outro aliado. As forças armadas israelitas desencadearam um ataque aéreo fulminante e em massa sobre todas as bases áreas egípcias, arrasando por completo a aviação inimiga em apenas doze horas. O ataque era arriscado, porque deixou Israel sem qualquer protecção aérea, mas constituiu um rude golpe na moral (e no material) do Egipto e espantou o mundo pela audácia, rapidez e eficácia. De imediato, os blindados israelitas penetraram no Sinai, com auxílio da aviação (e sem o perigo de ataques da aniquilada aviação egípcia), cortaram o acesso a Gaza (onde tinham a oposição das forças palestinianas) e confinaram os carros de combate egípcios a terrenos de escassa mobilidade. Em dois dias, as forças árabes estavam dispersas, destruídas ou em fuga, ao passo que as israelitas atingiam o Canal de Suez e a extremidade do Sinai, tomando Sharm-el-Sheik e controlando o estreito de Tiran.

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A Norte, e depois de sangrentos combates, a infantaria de Israel tomou os montes Golan a uma Síria equipada com armamento soviético mas com deficiente treino e fragilizada pelas purgas entre os oficiais, como consequência dos vários golpes de estado.
A Jordânia, que se tinha colocado do lado dos aliados árabes confiando na força do Egipto, ensaiou alguns ataques de artilharia, o que levou à entrada das forças de Israel na Cisjordânia no dia 6, e à ocupação daquele território, incluindo a Cidade Velha de Jerusalém, o que implicou sangrentos combates rua a rua com os encarniçados resistentes, ainda que os lugares santos da cidade não tivessem sofrido danos. A ocupação do território de aquém-Jordão e sobretudo dos lugares santos de Jerusalém teve um simbolismo religioso e político extraordinários. Israel cumpria o velho sonho de se reapoderar da sua capital histórica, além de permitir aos judeus o acesso ao Muro das Lamentações, impedido pelas forças jordanas desde 1948.

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A breve guerra, que em seis dias aniquilara forças árabes muito superiores em número - formando um cerco que parecia inquebrável - e dera a Israel o controlo de um território maior que o originário, surpreendeu pela eficácia extrema, superior à da Blietzkrieg alemã. Moshe Dayan, ministro dos negócios estrangeiros, e Yitzhak Rabin, o chefe das forças armadas, ganharam um estatuto de líderes militares de excepção e são hoje considerados como dos melhores estrategas do século XX. Nasser, o popular presidente do Egipto, tinha sido tremendamente humilhado, ao contrário do que acontecera em 1956, e resignou ao cargo, mas daria meia volta depois de manifestações a seu favor. A Jordânia ficou na prática confinada à Transjordânia. Quanto aos territórios ocupados, e apesar da condenação da ONU (sobretudo dos estados árabes), continuariam na posse de Israel, que argumentou com as necessidades da sua própria protecção. Haveria ainda mais uma guerra, em 1973, até que a paz com o Egipto de Sadat, anos mais tarde, em Camp David, permitiria a devolução do Sinai. Quanto a Gaza, permaneceria ocupada até à retirada unilateral em 2005. Os Montes Golan e a Cisjordânia continuam na posse irredutível de Israel há 50 anos, sem alterações à vista. E os judeus, salvo alguns contratempos provocados pelos vizinhos palestinianos, continuam a poder rezar no Muro das Lamentações.
 
* Agradeço a inspiração à crónica da Antena 1 com o mesmo nome e sobre o mesmo assunto

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A última "pomba" do Médio Oriente

por Alexandre Guerra, em 28.09.16

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Desde que me lembro de ter alguma consciência política e sensibilidade para as questões do mundo, que convivo quase diariamente com o conflito do Médio Oriente, seja em momentos de maior ou menor intensidade. Não estarei a exagerar se disser que aquela realidade israelo-palestiniana me tem acompanhado ao longo da vida, onde aliás já tive o privilégio de estar por mais que uma vez. Havia três figuras que faziam parte desse meu mundo: duas já morreram há uns anos; Ytzhak Rabin, em 1995, e Yasser Arafat, em 2004. E a terceira figura era Shimon Peres, que morreu esta manhã. Todos eles foram em tempos das suas vidas "falcões", que lutaram pela sua terra, mas morreram como "pombas" na tentativa de encontrar uma solução de paz para um conflito milenar.

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Dentro do quadro azul

por Patrícia Reis, em 11.02.15

 

O soldado mantém-se quieto, calado. Consegue cheirar o seu suor, o seu sexo, a sua boca seca, o azedo do medo. Tem 19 anos. Apenas 19 anos. O carro andou aos solavancos e o homem ao volante, gritou qualquer coisa em árabe. Havia um padrão preto e branco de um kaffiyeh.
Lembrou-se das imagens de Yasser Arafat, cartazes que viu em criança, com a legenda “sempre contigo”, há muito tempo, antes de Ramallah, da velhice, da doença, do hospital em Paris, da morte. Nessa altura ele, o soldado de 19 anos no carro a fugir à vida, tinha beijado e penetrado a sua primeira mulher.
O cheiro a sexo era distinto de tudo o resto. Tinha sido num fim de tarde, em casa dos pais dela, no centro de Telavive, um bairro de gente com dinheiro. Ele dissera:

Não sabia que a tua família tinha dinheiro.

Dizes bem, a minha família. Eles e eu: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Fora um momento erótico, ela a roçar-se nele com os jeans apertados, o soutien preto a despontar da camisa. A erecção doía-lhe. Doía-lhe tanto. As gotas de suor no vale dos seios dela, entre as pernas, na barriga, junto ao mundo que é a forma do umbigo.
Ela disse que não era preciso ter pressa e chupara-o até ao orgasmo e no desalento de tudo aquilo, ali no sofá, com a cnn a dar o boletim meteorológico do mundo, sentou-se em cima dele, no sexo ainda erecto, branco de esperma, e começou a mexer-se em cima dele até que o desejo regressou e ela riu, quase num tom jocoso, celebrando:

Ah, 17 anos.

Ela tinha 20. Uma velha. Uma veterana. Acabara de sair dos dois anos de exército obrigatório, tinha estado em Goa, fumado e metido todo o tipo de pastilhas. Agora, em Israel, ia trabalhar com o pai, dono de uma empresa de ferramentas com contratos milionários com o Japão. De dois em dois anos regressaria ao exército, para reciclagem. Até aos 45 anos o exército seria uma rotina. A ideia de que o país é quem o defende era uma lengalenga desde criança, uma voz constante. Somos um pais jovem, temos inimigos, somos os eleitos do sofrimento de Deus.

Pode ser que tenha sorte e um dia mate um filha da puta de um árabe.

Ele, no sofá, depois do sexo, sem prestar atenção à conversa, sem saber o que dizer, lembrou-se da boca dela e do cheiro do perfume no seu pescoço. Não queria saber de árabes. Não queria saber de autocarros a explodir, sirenes a passar. Desde sempre que fora treinado para aquilo. Viver em Israel. É-se treinado para viver ali, naquele sítio inventado.
Uma bomba caí hoje, amanhã já está tudo normal, não há sinais. Como é que se sabe se a explosão foi grande? Se foi mortal? Espera-se pelas ambulâncias. Quantas mais forem, mais mortos, quantos mais mortos, menos devemos querer saber. Palavras da mãe.
A mãe, olhos azuis, loira, unhas de gel, um passaporte cheios de carimbos dos países do mundo. A mãe que lê para combater as bombas, os árabes, o holocausto e até as 25 horas de jejum do Yom Kipur, o dia perdão, da purificação do espírito. Mãe é um bicho universal, dissera ela, a rapariga ao seu lado. Ele discordou mas calou-se. Antes de ser mãe, é-se judia, antes de ser mãe, é-se israelita, da Alemanha, da Polónia, da Rússia. Como o filho de Isaque, filho de Abraão, Jacob que luta com um anjo do senhor e torna-se o primeiro guerreiro israelita, mudando de nome, tornando-se Israel.
Agora nos carro, depois dos túneis junto a Gaza, Giled lembra-se dela, da voz dela. O medo que sente está para lá da dor no ombro, na mão partida, vermelha e inchada, os dedos que não fecham. O medo faz-lhe lembrar coisas idiotas. Ela, a mãe, o professor a dizer que adiar os estudos para ir para o exercito era uma pausa, uma brincadeira.

No meu tempo é que era à séria.

Nada podia ser mais sério do que isto. Giled já nem tenta abrir os olhos. Fica com eles cerrados a tentar ver outras coisas. Alguém o irá buscar. Alguém o irá salvar. Nunca ficará por ali. Nunca ninguém é deixado para trás. O pai desesperado por trocarem soldados palestinianos, terroristas pretensamente do Hamas, por corpos de soldados israelitas. A mãe a concluir:

Só te desespera a troca dos mortos pelos vivos porque não é o teu filho que tens de enterrar.

Giled percebe agora que toda a vida que planeou pode desaparecer à velocidade de um segundo não contabilizado. Todos os seus planos trocados, embrulhados, desfeitos pela vida. A vida trocou-me as voltas, pensa. O ombro dói cada vez mais e a mão está a latejar. Alguém o arrasta para fora do carro, brutal. Sente o seu corpo magro contra a chapa do carro, a areia da rua, as pedras de uns degraus que sobe trôpego. Nada será como planeou. Nada. Em Israel assumir que a idade é uma bênção parece uma coisa estranha. Giled deixa-se escorregar por uma parede que o arranha. Não tem camisola, a farda, a chapa de identificação, tudo o que é, ou era, o seu nome e origem. O pai dizia, tantas vezes, tantos almoços: um soldado é a sua unidade. Até agora não lhe ocorreu pensar nos companheiros, sente o estômago, sente frio, sente dor, mas não sente preocupação com os outros. Não tem que ver com ser boa pessoa, é sobrevivência. Instinto. Tem a cara inchado do murro que levou, um gesto inesperado.
O homem da kaffiyeh entra no quarto e diz-lhe

Passaram umas horas. Eles dizem que vêm vingar-te. Que nenhum soldado é abandonado. Tu sentes-te abandonado?

Giled não responde. O homem agacha-se lentamente, fica à altura dos olhos dele. Tem um sorriso ligeiro. Olha para a mão inchada, com a ponta do dedo pressiona o ombro. Levanta-se.

Não é desta que vais morrer, soldado. Ainda não é agora. Quando chegar a tua hora, aviso. Não te preocupes. Eu cumpro sempre com a minha palavra.

Giled pensa que não sabe pensar em árabe. Que a diferença essencial entre eles é uma só: eles não têm medo de morrer.

Eu tenho. Eu tenho medo de morrer.

A sua voz, a meia voz, desperta-o por fim para a verdade de tudo aquilo. Ao fundo, na parede, está uma tela grande em tons de azul, rasgados por brancos rosados. Giled começa a chorar. O seu futuro é aquele quadro desconhecido. Não vai ver mais nada.

(Gilad Shalit, 19 anos, foi raptado na Faixa de Gaza em Junho de 2006 pelo Hamas. Voltou a casa em Outubro de 2011, depois da libertação de presos palestinianos.)

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Verão de 2014

por Rui Herbon, em 25.08.14

A Europa está de férias: as auto-estradas de França registam engarrafamentos de quilómetros, as pessoas procuram o mar ou refugiam-se nas montanhas, muitos andam colados ao seu telemóvel procurando saber o que ocorre no mundo — vivem a realidade a golpe de títulos mediáticos. Quando começou a Grande Guerra, faz agora cem anos, o escritor austríaco Stephan Zweig encontrava-se de férias perto do porto belga de Ostende. Relatava que os turistas se deitavam na praia junto às suas barracas de cores vivas ou se banhavam no mar, as crianças faziam voar os seus papagaios, os jovens dançavam frente aos cafés ou no passeio junto ao muro do porto. Toda a gente se divertia amigavelmente. 

 

Escreve Margaret MacMillan no seu livro sobre as causas que levaram à guerra de 1914-18 que em Maio do ano anterior, no breve interlúdio entre as duas guerras balcânicas, os primos Jorge V de Inglaterra, Nicolau II da Rússia e Guilherme II da Alemanha se reuniam em Berlim para o casamento da única filha do kaiser. Nada fazia pressagiar que dentro de um ano estariam os três em guerra, uma guerra que ninguém queria e que toda a gente temia fatalmente. Tentou-se travar a Áustria para que não declarasse guerra à Sérvia após o atentado de Serajevo, pressionou-se a Rússia para que não entrasse no conflicto em aliança com a França e a Inglaterra. O que um punhado de homens quis evitar sucedeu de forma calamitosa para toda a Europa: mais de nove milhões de mortos. Ninguém o queria mas todos, inclusive a opinião pública, se entregaram àquela carnificina humana com entusiasmo. 

 

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Não há lados neste assunto

por Patrícia Reis, em 31.07.14

http://www.tabletmag.com/.../hamas-killed-160-palestinian...

Não aguento a violência. Se Israel isto, o Hamas aquilo? Quero é que acabe. E se Deus se zangar e chegar cá abaixo e disser: acabou-se. Era bem feita.

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O meu post abaixo sobre Israel e Palestina provocou alguns ataques à minha posição, como sempre se verifica quando se toca neste assunto. O principal referiu-se a um ponto muito simples (e compreensível): porque razão eu pareço criticar apenas Israel e colocar todas as responsabilidades pela paz nesse lado da barricada? Dado que toquei muito pela rama a questão das culpas, a confusão é normal. Não voltarei agora ao assunto das culpas, tentarei antes explicar um pouco a questão das responsabilidades por uma outra via, a moral.

 

No caso Israel/Palestina temos dois lados. Por um lado há Israel, que é indubitavelmente um Estado poderoso e que administra até certo ponto a vida nos territórios palestinianos. A Faixa de Gaza é nominalmente independente mas está incrustada em Israel e os acessos aos seus portos e espaço aéreo são também controlados por Israel.

 

O que temos é então uma parte que detém poder e, da mesma forma, obrigações. A primeira obrigação, ou melhor, imperativo, é devida aos seus cidadãos, àqueles que escolheram viver sob a protecção do Estado de Israel. Devem ter segurança física mas também económica, religiosa, moral, etc. Ninguém duvida que Israel protege os seus cidadãos e que vai inclusivamente ao ponto de arriscar a condenação internacional. Este é a principal razão de existência do Estado de Israel e é respeitada à risca.

 

Há no entanto outra obrigação moral: Israel ocupou ou exerce controlo sobre territórios onde habitam pessoas que não são cidadãos israelitas. Tê-lo-à feito para cumprir a sua primeira obrigação (ou imperativo moral), a de defender os seus cidadãos (deixemos de lado por um momento considerações militares ou políticas). Seja como for, ocupou ou controla esses territórios e, assim sendo, acresce também uma obrigação moral sobre as populações dos mesmos.

 

Como se pode ver esta obrigação moral? Certamente que secundária à de protecção dos seus próprios cidadãos. A meu ver, uma obrigação moral deverá ser subordinada a um imperativo. Israel não deve, sob nenhuma forma, deixar de prestar as melhores condições possíveis aos seus cidadãos para poder prestar apoio aos territórios que ocupa. Mas se por um lado não necessita de lhes dar o mesmo nível de protecção, por outro tem a obrigação de não lhes retirar - ou ameaçar - a protecção de que gozam por estarem ocupados.

 

Israel goza, neste jogo de forças, de todo o poder. Se amanhã decidisse destruir todos os territórios palestinianos e executar ou expulsar todos os palestinianos, certamente que o conseguiria. Sendo um estado que respeita o direito moral de outros seres humanos, não o faz. Mas sendo o lado todo-poderoso, é sobre Israel que recai a obrigação de proteger os palestinianos. Não é apenas sobre o Hamas ou sobre a Autoridade Palestiniana, porque estes têm pouco ou nenhum poder, mas antes sobre o lado mais poderoso e que, mesmo passivamente, tem o poder de vida ou de morte sobre os palestinianos.

 

Agora é também claro que Hamas e Autoridade Palestiniana têm responsabilidades morais. Devem poder proteger os seus compatriotas, especialmente porque lhes foi dado o mandato para isso. Têm para além disso um imperativo moral ainda maior que o de Israel de não colocar em perigo os palestinianos através das suas acções. Só que estes imperativos e obrigações morais não são mutualmente exclusivos nem são um jogo de soma zero. A falha do Hamas em cumprir o seu imperativo moral não acarreta uma obrigação moral de Israel de exercer mecanismos de compensação nem permite que Israel negligencie a sua obrigação moral de protecção dos palestinianos. Enquanto cumpre o seu imperativo moral, Israel não pode esquecer a sua obrigação. Ou seja, não deve colocar em risco as vidas de quem vive sob a sua protecção para defender aqueles que tem de proteger, a não ser que a primeira impeça a segunda.

 

E é aqui que podemos deixar temporariamente a dimensão moral e entrar na dimensão política. Necessita Israel de colocar em risco as vidas palestinianas para proteger as israelitas? Haverá naturalmente que o defenda, mas eu entendo que não. Israel tem sistemas de defesa que protegem bastante bem as vidas israelitas. A ameaça do Hamas é relativamente menor, embora seja óbvio que qualquer vida perdida é uma tragédia. Na contabilidade, no entanto, e apenas olhando para os custos da ofensiva, mais israelitas terão perdido a vida em Gaza indirectamente devido às acções de Israel do que em Israel devido às acções directas do Hamas.

 

É fácil argumentar que todas as vidas têm o mesmo valor e isso é indubitavelmente verdade para mim. Para o Estado de Israel ou para os Palestinianos, isso não é assim. O imperativo moral israelita é para com os seus cidadãos. A vida de outros terá que ser secundária. Ainda assim, e seguindo a minha lógica argumentativa acima, Israel não pode ignorar completamente as vidas palestinianas para defender as israelitas. Um mal - os ataques indiscriminados do Hamas - não podem justificar outro - os ataques indiscriminados de Israel - especialmente quando um dos lados detém quase todo o poder no balanço de forças.

 

PS - peço desculpa a quaisquer filósofos que leiam a minha desastrada tentativa de abordar este assunto. Não terei conseguido transmitir o meu ponto de vista de forma correcta, mas peço indulgência para a forma. Tenham um pouco de paciência ao ler.

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Ciclos de vinganças

por João André, em 21.07.14

E entrtanto, em Israel, um exército lá vai avançando à bruta sobre um dos territórios mais densamente povoados do mundo em busca de inimigos que se escondem no meio da sua própria população. Fora o serviço social que presta à própria população, não tenho qualquer simpatia pelo Hamas, como não tenho simpatia por gente que ataca civis, independentemente das suas justificações.

 

Da mesma forma também não tenho simpatia por um Estado que abusa do seu poder desproporcionadamente superior para entrar pelos territórios palestinianos adentro sabendo que irá matar muita gente de forma indiscriminada. Quaisquer comentários que acusem o Hamas de ser o responsável por essas mortes dizem mais de quem os escreve/diz do que qualquer coisa em si mesmos.

 

Já muitas vezes o defendi. A única solução para a espiral de violência em Israel e na Palestina é que um dos lados decida, por uma vez, não retaliar. Que aceite que, por má que seja a solução, algumas mortes hoje pouparão muito mais vidas no futuro. Sendo o lado mais poderoso e o único que pode proteger passivamente a sua população (o sistema "Cúpula de Ferro" tem conseguido manter a zero as vítimas dos rockets artesanais do Hamas), Israel seria a solução lógica para tomar esse passo, não retaliando e, idealmente, começando a considerar libertar (ou pelo menos negociar) com Marwan Barghouti.

 

Israelitas e palestinianos parecem os membros de duas famílias sicilianas num filme estereotipado sobre a Mafia. Ninguém sabe porque razão se começaram a matar, mas cada morte acarreta nova obrigação de vendetta. A solução para o problema, semelhante à de cima ou outra qualquer, passará provavelmente por uma má paz, mas esta será semrpe preferível à melhor das guerras.

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Breve história da terra dita santa

por Rui Herbon, em 12.07.14

 

Mais informação AQUI.

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O atoleiro

por Rui Herbon, em 29.04.14

Dizem que os milagres existem e, a ser verdade, deve sê-lo especialmente na terra onde convivem os três deuses do monoteísmo. Ainda que, neste caso, a palavra conviver seja um pouco excessiva. E se falo em milagres é porque a possibilidade do acordo entre o Hamas e a Fatah contribuir para a paz é mais própria da teologia que da geopolítica. Na realidade pode até temer-se o contrário. É certo que pode tratar-se de uma manobra estratégica e não real, com Abas tentando mover as peças num tabuleiro virtual, mas, mesmo que não se efective e que tudo seja apenas fumo na guerra da propaganda, o acordo alimenta a outra guerra, a que não é nada virtual. Em qualquer caso deita por terra as últimas tentativas da administração Obama, via John Kerry, de conseguir qualquer espécie de solução para o problema israelo-palestiniano, uma vez que o primeiro-ministro israelita, Netanyahu, já afirmou que «quem escolher o Hamas não deseja a paz», e Abas fez essa escolha.

 

É difícil imaginar que o acordo chegue a bom porto ou seja duradouro, tanto pela rivalidade entre as diversas facções como pelos interesses não só políticos como económicos que se movem de ambos os lados do território. Não esqueçamos que a luta palestiniana é um grande negócio para os dirigentes da causa, com a fortuna dos Arafat como grande escola, mas, inclusive no caso de que pela primeira vez se tratasse de uma vontade política real, o branqueamento do Hamas que dito acordo significa dinamita por longo tempo qualquer negociação com Israel. Primeiro porque o Hamas não aceita a existência do estado hebraico e toda a sua filosofia se baseia na respectiva destruição. Segundo, porque o Hamas representa os interesses iranianos, a par do Hezbollah libanês, e toda a sua estratégia passa por preparar-se para o terrorismo e não para a mesa de negociações. Terceiro, porque um acordo desta natureza afasta os sectores mais razoáveis da liderança palestiniana, ao mesmo tempo que reforça a preponderância do Hamas, e isso implica islamismo radical e violência organizada. É evidente que num futuro longínquo o Hamas poderia ser um interlocutor nas negociações, mas deveria mudar tanto de pele como de alma. E esse é o grande problema: Abas não só não conseguiu nenhuma mudança na natureza radical e violenta do Hamas como, aceitando o acordo, legitimou dita natureza, o que derruba o frágil plano de Kerry. Mais uma vez as notícias que nos chegam da zona não são boas e vislumbram-se dias difíceis: um acordo contra-natura, um plano bem intencionado dinamitado na origem e uma organização terrorista legitimada sem que tenha abandonado os seus propósitos violentos. Bad deal, bad news.

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Salut les Paganiens

por Laura Ramos, em 19.09.11
É...
E nem sempre foi com música.

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Um conflito sem fim

por Laura Ramos, em 06.09.11

Andamos tão ocupados com as últimas da  Primavera árabe e as tristes figuras de Kadhaffi  e Bashar Assad, que quase nos esquecemos das tensões noutros lugares massacrados e, aliás, bem próximos.

 

Um sofrimento já gasto, de tão falado?

 

Nem de propósito, este documentário regista os acontecimentos do dia 1 de Setembro passado, no Royal Albert Hall, em Londres. por altura da primeira actuação da  'Orquestra Filarmónica de Israel'.

Cá fora, numa manifestação pacífica, bandeiras e cartazes empunhados por manifestantes de ambos os lados: Fim à ocupação de Israel. Palestina livre.  Israel: estamos convosco. Filarmónica de Israel: o tapa-vergonhas?

Mas lá dentro, prepara-se o happening.

No final da primeira actuação da orquestra convidada, o grupo coral  Beethovians for boycotting Israel atravessou-se, da plateia, cantando em simultâneo a "Ode à Alegria", com letra adaptada às palavras de ordem palestinianas.

 

É a confusão total pelo meio da assistência, dividida entre os dois pólos da contenda (diz o vídeo, claro, dedicado aos músicos palestinianos).

 

 

Triste Palestina.

Triste e condenada Israel.

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Um assassinato menos reprovável

por Pedro Correia, em 16.06.10

Excerto de um diálogo travado numa caixa de comentários, nada vicentina, do blogue 5 Dias:

 

JDC - O assassinato de uma criança israelita é menos reprovável que o de uma criança palestiniana? Isto significa que o valor da vida de uma criança depende do lado da barricada?

Renato Teixeira - JDC, é inexorável, é triste, mas é mesmo assim.

 

Para que não restem dúvidas: há mesmo quem considere que o valor da vida de uma criança depende do lado da barricada.

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Ódio velho não cansa

por Pedro Correia, em 09.06.10

 

O ódio primário aos judeus gera textos como este. Que tem apenas o mérito de ser escrito sem qualquer máscara politicamente correcta: cada parágrafo, cada frase, cada palavra limitam-se a escorrer ódio indisfarçado, ódio em estado puro. O autor chama-se Carlos e é de extrema-esquerda. Mas podia chamar-se Jean Marie e ser de extrema-direita. Os extremos tocam-se, unem-se, complementam-se, nutrem-se mutuamente do ódio ao judeu, que por vezes chega camuflado com a capa de uma certa modernidade mas é velho como o mundo: "E porque é que nós humanos temos de tolerar a existência de um estado que nunca fez outra coisa em 60 anos de existência se não violar todas as regras mínimas da convivência humana??", dispara o autor, na sua prosa canhestra. Ora aqui está uma frase que poderia ser subscrita pelo líder histórico da Frente Nacional francesa, para não recuarmos a outros políticos de outras épocas, com e sem bigode.

Achei significativa a necessidade que o autor sentiu em sublinhar que é "humano". Lendo o que escreveu, certamente haverá quem tenha as maiores dúvidas.

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Ódio à solta em antena aberta

por Pedro Correia, em 02.06.10

Esta manhã, a Antena 1 abriu os seus microfones à voz do "povo" que fervia de indignação contra Israel. Só escutei alguns minutos, mas foi quanto bastou para ouvir as coisas mais espantosas. Coisas como estas:

 

"Hitler só cometeu um erro na II Guerra Mundial: não ter exterminado apenas os judeus."

"Os judeus são por natureza insociáveis."

"É pena que não haja um país que de um momento para o outro perca a cabeça e extermine Israel."

"A comunidade internacional tem de tomar medidas contra o Estado nazi de Israel."

 

Repito: só escutei alguns minutos. Mas foi o bastante para ter ouvido proclamações carregadas de ódio racial, reles exclamações xenófobas, frases negacionistas pretendendo "desculpabilizar" o nazismo e até instigações abertas ao genocídio. Tudo a pretexto das lamentáveis mortes ocorridas a bordo do navio turco ao largo de Gaza, imputáveis ao Governo e às forças armadas de Israel.

Há quem possa chamar a isto serviço público. Eu não.

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Os fins não justificam os meios

por Pedro Correia, em 02.06.10

 

"Lamento as mortes, mas..." Bem gostaria eu de ver banidas estas adversativas do debate político, seja a propósito de que tema for. Acaba de acontecer como tentativa de atenuar as circunstâncias do desproporcionado ataque israelita a uma embarcação sob bandeira turca ao largo de Gaza que provocou dez mortos. Ainda há pouco assistimos à mesma proliferação de mas a propósito da violência urbana em Atenas que causou três vítimas mortais. Como se o combate à pobreza ou à exclusão desse uma espécie de caução ao homicídio, ainde que involuntário.

A morte de um único ser humano em caso algum pode constituir um pormenor de somenos, inteiramente descartável à medida de conveniências ideológicas ou considerações de facto. “Neste momento, lançam-se bombas sobre os eléctricos em Argel. A minha mãe poderá ir num desses eléctricos. Se isso é a justiça, prefiro a minha mãe.” Palavras de Albert Camus, proferidas em 1957, quando as bombas da Frente de Libertação Nacional, que se opunha ao domínio colonial francês, semeavam o terror na Argélia. A luta anticolonial era justa? Só até ao ponto em que não fazia derramar o sangue de inocentes.

As palavras de Camus valeram-lhe inúmeras críticas. Mas o autor d' A Peste tinha razão: os fins não justificam os meios, a violência não é revolucionária, o assassínio é intolerável seja sob que pretexto for e revista as formas que revestir, a "sociedade nova" com que muitos sonham não pode ser erguida sob um amontoado de cadáveres. Para ser ainda mais directo: nenhum desígnio político justifica a perda de uma vida humana. Na Grécia ou em Gaza.

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O ódio ancestral aos judeus

por Pedro Correia, em 26.01.09

 

Depois de José Saramago ter comparado a recente ofensiva militar de Israel na Faixa de Gaza ao Holocausto, banalizando assim as atrocidades nazis, outro comunista da linha dura, o impagável Miguel Urbano Rodrigues, desbobina o seu vesgo rancor contra o Estado judaico com argumentos muito semelhantes à extrema-direita que faz do anti-semitismo uma bandeira política. Aqui fica parte da sua prosa, debitada num recente workshop realizado no Líbano:

"O bombardeamento e a invasão de Gaza confirmam que o Estado confirma que o Estado sionista de Israel pratica uma politica exterior neonazi.
Uma pirâmide de mentiras sinaliza a estrada do tempo que conduziu a chacinas como as de Sabra, Shatila e Jenin e à construção actual do Muro israelense.
Na base dessas mentiras está o mito básico, aquele que estimulou o regresso dos judeus à 'Terra Prometida' dos antepassados.
A esmagadora maioria dos judeus que vivem hoje no Estado de Israel não descendem do povo que invocam. A aventura da diáspora judaica, suporte das teses de Theodor Herzl sobre o 'regresso à pátria perdida', foi montada sobre uma inverdade histórica.

(...)

"A agressividade actual dos governantes e militares israelenses não é portanto um fenómeno circunstancial. Tem raízes milenares.
O movimento sionista nasceu ideologicamente agressivo numa época em que contou com a simpatia da intelligentsia europeia e norte-americana, justamente indignada com o anti-semitismo que se manifestava nos repugnantes pogromes da Polónia e da Rússia."

Sobre o recém-empossado Barack Obama, cai de imediato esta peça de artilharia, tambem assinada por Rodrigues: "Nomeou para chefe do seu gabinete na Casa Branca Rahm Emmanuel, um sionista fanático, mantém à frente do Pentágono Robert Gates, outro sionista, e definiu Jerusalém como «una e indivisível." O homem ainda nem começou a governar e já está a levar bordoada da extrema-esquerda mais caceteira...

Urbano Rodrigues, com o seu estilo primário, tem pelo menos o mérito de expor com toda a clareza o que outros pensam mas não se atrevem a proclamar com tanto à-vontade, nomeadamente em certos blogues da esquerda radical: uma feroz aversão à história, à religião e à cultura judaica. Qualquer plumitivo de extrema-direita, de cabeça bem escanhoada, podia debitar umas linhas semelhantes às que transcrevi acima, sem necessidade de alterar praticamente uma vírgula. Os extremos tocam-se. Isso é patente, mais do que em tudo o resto, no ódio irracional e ancestral aos judeus. Já Hitler e Estaline, fanáticos anti-semitas, estavam unidos por esse traço comum.

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Saramago e os 'judeunazis'

por Pedro Correia, em 13.01.09

Há muitas páginas controversas no percurso literário e jornalístico de José Saramago. Mas poucas são tão inacreditáveis como as que o Nobel da Literatura acaba de escrever no seu blogue, O Caderno de Saramago, a propósito do ataque do exército israelita ao Hamas na Faixa de Gaza. O escritor compara a investida da tropa de Telavive às atrocidades nazis. Fala em "genocídio" e chega ao ponto de considerar que o que ocorre em Gaza supera aquilo que Hitler accionou contra os judeus durante o Holocausto. Exagero meu? Eis as palavras textuais do escritor: "O exército israelita, esse que o filósofo Yeshayahu Leibowitz, em 1982, acusou de ter uma mentalidade 'judeonazi', segue fielmente, cumprindo ordens dos seus sucessivos governos e comandos, as doutrinas genocidas daqueles que torturaram, gasearam e queimaram os seus antepassados. Pode mesmo dizer-se que em alguns aspectos os discípulos ultrapassaram os mestres."

Banaliza-se o Holocausto, relativiza-se o império do mal nazi comparando-o a qualquer conflito armado contemporâneo, seja ele qual for, estabelece-se uma equivalência moral entre Hitler e os actuais dirigentes do estado judaico. Qual o efeito prático de tudo isto? Branquear a página mais negra da história humana, que se traduziu no assassínio sistemático e meticuloso de seis milhões de seres humanos às ordens de um estado totalitário, onde qualquer dissidência equivalia a morte.

É ainda mais chocante que seja um Nobel da Literatura a estabelecer esta equivalência moral, inadmissível a qualquer título.

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