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A ler

por Diogo Noivo, em 18.08.17

 

Vamos ganando, de Jorge Galindo, na Jot Down.

 

 

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O primeiro atentado

por Diogo Noivo, em 18.08.17

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Era mais um dia normal de serviço no restaurante. Mas em poucos segundos tudo mudou: um engenho explosivo colocado junto ao balcão foi detonado matando 18 pessoas e destruindo uma parte importante do restaurante "El Descanso", situado no quilómetro 14 da estrada Madrid-Barcelona. Foi no dia 12 de Abril de 1985. Cerca de 16 anos antes dos atentados de 11 de Setembro, nos Estados Unidos da América, Espanha sofria o seu primeiro ataque jihadista. Esta acção terrorista foi reivindicada por uma organização intitulada Jihad Islâmica, embora os detalhes da operação - autores materiais e morais, propósito, perfil da organização, etc - ainda hoje estejam por esclarecer.
O atentado de ontem em Barcelona é mais um episódio repugnante e condenável de uma longa e tortuosa história. Em Espanha, a Catalunha é a região com maior incidência de actividade jihadista desde há bastantes anos. De resto, como refere Ignacio Cembrero no livro La España de Alá, 50 das 98 mesquitas e oratórios salafistas sinalizados pelo Ministério do Interior estão na Catalunha. Por lá passaram organizações terroristas de diferentes países, da Argélia ao Paquistão. O problema é grave, mas não é novo. Em suma, e enquanto a poeira não assenta, importa evitar análises apocalípticas e especialistas de ocasião.

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Os pregadores do modo de vida

por Inês Pedrosa, em 25.05.17

Em contraponto aos hábitos do islamismo radical, é comum ouvirmos a expressão “o nosso modo de vida”. Ora uma das alegrias fundadoras das sociedades democráticas e laicas é a de, ao contrário das ditaduras (de esquerda ou de direita, se é que esta distinção faz algum sentido prático para alguém), não definirem nenhum “modo de vida” – nem sequer, para raiva dos invejosos de serviço, “estilos de vida”. O estreitamento da democracia que temos vindo a sofrer nas últimas décadas, alegadamente por causa da crise financeira internacional, tem feito o seu caminho nos corredores mentais das pessoas, afunilando-os também. A ideia, milhões de vezes repetida, de que não há alternativa à austeridade, acabou por diminuir os sonhos e as expectativas de populações inteiras, empurrando-as para os caminhos da desistência – esse monstro que nos impede de criar verdadeiras alternativas.

 As ciências e as artes têm demonstrado, desde o início do mundo, que a vida é um mar de possibilidades. Da invenção da agricultura à luz eléctrica, da anestesia às viagens a Marte, a humanidade não parou de encontrar outros “modos de vida” diferentes dos estabelecidos. Há um problema de base quando quase metade da riqueza mundial está nas mãos de 1% dos seres humanos – e um estudo recente da Oxfam prevê o agravamento deste descalabro nos próximos dois. Garantir um equilíbrio mundial que passa por uma redistribuição da riqueza não é uma questão de “modo de vida”, mas de civilização. À medida que o conceito de “competição” se foi tornando central e obrigatório na cartilha económica e ética dos tempos modernos, descartou-se o termo “civilização” para abolir a ideia, tida por primária, de comparação. Interessante paradoxo, que entretanto faz muito mal a muita gente.

 Na sequência do massacre à redacção do Charlie Hebdo, esgotada a união inicial em torno do choque, entrou-se no tempo do “mas” com o seu cortejo de elucubrações filosóficas escapistas – incluindo aquela, aventada por boas e cultas almas, de que a “nossa liberdade de expressão”, descendente de Lutero e de especificidades europeias, deve parar à porta da não-liberdade dos outros, que não têm a mesma genealogia. É o esplendor do paternalismo condescendente (e cobardolas, pormenor pouco filosófico mas pertinente). Recordo que hoje mesmo (se nada mudar entre a terça-feira em que escrevo e a sexta em que este texto é publicado) será de novo chicoteado em praça pública, na Arábia Saudita, um homem que entendeu, apesar de árabe, ter direito a pensar pela sua própria cabeça. E que milhões de seres humanos são torturados e mortos apenas por quererem pensar e viver livremente. A liberdade não admite “mas” – e, sobretudo, não pode continuar a ter filhos e enteados, consoante as culturas. O terrorismo de Estado é tão terrorista quanto aquele que não tem sede nem nação.

 Um conjunto de opinadores supostamente liberais aproveitou o massacre para dizer que ele resulta da atenção da Europa às chamadas “causas fracturantes” em vez de se preocupar com a segurança e a economia. Como se a atribuição de direitos a mulheres e homossexuais impedisse os restantes aspectos da governação. A mensagem implícita é a de que a manutenção de sociedades mais “tradicionais” não excitaria tanto os radicais islâmicos. A eterna mensagem do medinho e da resignação. Não, isso é que não é modo de vida.

      

Publicado no jornal Sol,23.5.2015

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As jihads

por Diogo Noivo, em 20.07.16

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Assistimos quase diariamente a indivíduos que se dizem muçulmanos evocar conceitos e práticas do Islão para cometer ou justificar atrocidades indizíveis. Esta atitude, para além de merecer um repúdio sem paliativos, deve convidar-nos a um esforço de escrutínio pois só compreendendo a ameaça poderemos encontrar formas para a eliminar. Vejamos os exemplos da jihad e do suicídio, práticas que o terrorismo contemporâneo colocou sob o foco da atenção mediática – e que, curiosamente, tanto os terroristas como os detractores do Islão vêem como dogmas religiosos.

 

Ao contrário da convicção comum, a palavra jihad é pré-islâmica. No idioma árabe moderno, esta palavra abrange um amplo espectro semântico, que vai da «luta de classes» ao conflito clássico entre o que é novo e o que é antigo. No Corão e nas demais fontes religiosas, a jihad assume duas formas: a jihad maior (jihad al-akbar) e a jihad menor (jihad al-ashgar). A jihad maior consiste no esforço reflexão e auto-crítica que qualquer crente deve empreender com vista a tornar-se um melhor muçulmano. Por sua vez, na jihad menor cabe a conversão dos não-crentes – o esforço de proselitismo comum à generalidade das religiões – e a defesa da comunidade muçulmana face a uma agressão externa. A importância de cada uma destas duas facetas da jihad, bem como a maneira como foram interpretadas, variou enormemente ao longo da História em função do contexto político vivido e consoante a região em causa. Assim, aquilo que os extremos (islâmicos e anti-islâmicos) dizem ser um dogma indeclinável é na verdade um conceito heterodoxo bastante sensível à vida social e política em cada momento.

 

Tal como a jihad, o suicídio está longe de ser consensual na doutrina e na jurisprudência islâmica. O historiador Bernard Lewis afirma não existir qualquer fundamento doutrinário ou legal no Islão que valide os autores morais e materiais dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos da América. A opinião de Lewis é especialmente interessante pois, para além de ser um dos mais conceituados estudiosos do mundo islâmico (e, na minha modesta opinião, um dos melhores), foi ele quem cunhou a ideia de «choque das civilizações», mais tarde desenvolvida e popularizada por Samuel Huntington. Lewis, que confere à História e à tradição um peso substancial na observação do mundo árabe, e por isso é frequentemente acusado de ser partidário da "excepção árabe"*, demonstra que, de acordo com os cânones do Islão, a violência contra mulheres e crianças é expressamente proibida. Por outro lado, refere Lewis, o suicídio é um pecado punido com a condenação eterna do pecador à repetição incessante do seu acto. Assim, e sendo muito resumido, de acordo com Bernard Lewis este e outros atentados, para além de crimes hediondos, são também actos de blasfémia do ponto de vista islâmico, já que os suicídios e a violência são perpetrados em nome de Alá.

 

As evocações religiosas apresentadas por jihadistas para legitimar o terror em nome de Alá têm objectivos essencialmente políticos e resultam de uma leitura deturpada e sectária do Islão (motivada por ignorância ou por oportunismo), o que faz desta religião uma espécie de teste de Rorschach: a interpretação diz-nos mais sobre o intérprete do que propriamente sobre aquilo que é interpretado.

 

 * Por vezes designada “casulo árabe” ou “maleita árabe”. Segundo esta linha de argumentação, os antecedentes históricos do povo árabe e a herança doutrinária do Islão impedem o aparecimento de formas de governo democráticas. Por outras palavras, há um atavismo no espaço geo-linguístico composto pelo Norte de África e pelo Médio Oriente que é contrário às liberdades individuais e à participação política dos cidadãos.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 04.06.16

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Livro um: O Islão e o Ocidente, de Jaime Nogueira Pinto

Edição D. Quixote, 2015

350 páginas

 

Muito se fala no fundamentalismo de matriz islâmica e nas atrocidades do Dito Estado Dito Islâmico (fórmula cunhada por Nuno Rogeiro que adopto com a devida vénia). Mas poucos sabem explicar, com minúcia e clareza, a dimensão histórica, social e religiosa dos devotos do profeta Maomé, que rivalizam com a fé cristã em expansão global.

Religião maioritária em largas dezenas de países que se estendem de Marrocos à Indonésia, o islamismo continua a ser lamentavelmente ignorado nas suas múltiplas facetas, reduzidas à vulgata caricatural pelo jornalismo dominante, cada vez mais superficial e preguiçoso. É por isso de saudar este ensaio sério, isento e muito bem informado que Jaime Nogueira Pinto nos traz em 13 capítulos densos mas de fácil e apelativa leitura proporcionada pelo estilo fluente do autor, que nunca sacrifica o rigor dos factos às suas opiniões sobre a matéria nem transige com qualquer proselitismo de pacotilha inspirado pelo ar dos tempos.

O Islão e o Ocidente é uma visão serena e lúcida, embora não isenta de perspectiva crítica, aos dramáticos desafios que nos são lançados pelo antigo Islão armado com novíssima e sofisticada tecnologia. Sem esquecer que dentro das vastas fronteiras do mapa islâmico se agita um mundo multipolar, longe do monolitismo que a indústria mediática tantas vezes apregoa.

Chegamos ao fim desta obra mais esclarecidos, mais bem informados e mais dotados de pistas de análise para entender o perturbante vínculo entre política e fé sob a bandeira do crescente muçulmano. De raros livros actuais se pode dizer o mesmo.

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A luta pela verdadeira jihad

por Diogo Noivo, em 12.01.16

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Aparentemente, Gaza é o mais recente palco das antigas e recorrentes lutas fratricidas entre jihadistas. Num artigo publicado na New York Review of Books, Sarah Helm relata o conflito entre o Hamas e o auto-denominado Estado Islâmico – ou Daesh, preferência do nosso Pedro Correia –, uma disputa que pode empurrar a região para uma espiral de violência com consequências imprevisíveis.

O desafio não é novo para o Hamas. Em 2009 publiquei um artigo [download] onde, entre outros aspectos, analiso o conflito entre o Hamas e a organização jihadista Jund Ansar Allah (JAA). Numa primeira fase, não apenas por afinidade ideológica, mas também por convergência de interesses, o Hamas contemporizou com vários grupos jihadistas, entre os quais o JAA, um pequeno grupo próximo da al-Qaeda. Quando este último, para além de atacar Israel, pôs em causa a autoridade política e as credenciais islamistas do Hamas, o assunto acabou em banho de sangue. Naquela altura o Hamas saiu vitorioso. Fazendo fé no relato de Sarah Helm, a história repetiu-se na transigência e pode estar prestes a repetir-se no desfecho sangrento. Acontece que o Daesh, ao contrário do JAA, não é uma pequena organização e, por isso, está por saber quem sairá vencedor.

Há, contudo, uma curiosidade que creio valer a pena mencionar. Dá-se a ironia de que o Hamas esteja a ser vítima do seu próprio veneno. Durante anos, sempre que a Fatah/Autoridade Palestiniana iniciava negociações com Tel Aviv, terroristas do Hamas lançavam rockets contra Israel, dinamitando assim qualquer hipótese de diálogo. Agora que o Hamas tem responsabilidades de governo e parece estar disposto a dialogar com Israel, são os grupos pró-Daesh a recorrer à velha táctica bombista do Hamas. A vida na oposição é sempre mais inconsequente.

Ainda que o chamado “islamismo radical” seja frequentemente entendido de maneira indiferenciada, como um todo coerente e homogéneo, a verdade é que existem profundas diferenças entre as várias organizações e movimentos que se inscrevem no espaço do radicalismo de inspiração islâmica. É essa diversidade que explica o habitual arremesso de acusações de apostasia e de conduta herética entre radicais, especialmente entre aqueles que seguem a via terrorista. Deserções, conspirações e cisões são marca identitárias do jihadismo contemporâneo, o que nos deve obrigar a reflectir sobre a tão propalada ideia de uma frente jihadista comum contra o Ocidente. Aqui, como na maior parte das coisas, a realidade insiste em ser mais complexa.

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Submissão - a história de um suicídio

por Teresa Ribeiro, em 03.05.15

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Quando Michel Houellebecq foi fustigado nas redes sociais e nos media com acusações de xenofobia e de incentivo à islamofobia por ocasião do lançamento, em França, de "Submissão", defendeu-se afirmando que o seu novo romance não era uma provocação, na medida em que nele não dizia coisas que considerasse fundamentalmente falsas só para irritar.

E o que ele dizia em "Submissão" é que em 2022, depois de um conturbado segundo mandato de François Hollande, o líder do novo partido Fraternidade Muçulmana chegaria ao poder após a segunda volta das presidenciais. Um feito só possível graças à aliança que propôs aos socialistas e à UMP, de centro-direita, para derrotar Marine Le Pen, vencedora da primeira volta. Com instinto político e sentido de oportunidade, o islamita conseguia o impensável.

A par de insultos, Houellebecq também recebeu louvores e houve mesmo quem o considerasse um visionário, colocando-o a par de George Orwell e Aldous Huxley. "Afinal" - argumentaram os seus apoiantes mais entusiastas - "numa Europa devastada pela crise económica, social e de valores, cansada dos seus políticos e já sem fé na democracia seria assim tão absurdo o islão penetrar, qual cavalo de troia, no sistema politico-partidário tradicional e conquistar o poder?"

O romancista francês mais traduzido no mundo, vencedor do prémio Goncourt, bestial e besta conforme as opiniões, em "Submissão" fala sobretudo da decadência da Europa. A ideia da reconquista do ocidente pelo islão é uma hipótese académica de que se serve para incendiar o circo (apesar de o ter negado) e também pretexto para regressar ao seu tema preferido: a irreformável natureza humana.

Se Houellebecq tivesse imaginado um assalto ao poder pela força, "Submissão" não seria tão interessante. Bem mais  insidiosa é a doce passagem de testemunho por via democrática que descreve e a sugestão de  que o islamismo pode vencer as reservas ocidentais com mais facilidade do que seria de supor desde que administrado em doses certas:

"Ben Abbes evitara sempre comprometer-se com a esquerda anticapitalista; compreendera perfeitamente que a direita liberal ganhara a "batalha das ideias", que os jovens se tornaram empreendedores e que hoje em dia o carácter incontornável da economia de mercado era unanimemente aceite. O verdadeiro traço de génio do líder muçulmano era ter percebido que as eleições não se iam decidir no campo da economia mas no campo dos valores e que, também a esse nível, a direita se preparava para ganhar a "batalha das ideias", sem sequer precisar de combater (...) No respeitante à reabilitação da família, da moral tradicional e implicitamente do patriarcado, abria-se à sua frente toda uma avenida, que a direita não podia aproveitar, e a Frente Nacional muito menos, sem ficarem com o carimbo de reaccionárias ou mesmo de fascistas (...) Só ele, Ben Abbes, estava ao abrigo de qualquer perigo. Paralisada pelo seu anti-racismo essencial, a esquerda nunca fora capaz de o combater, ou sequer de mencionar".(pág. 135) 

Habituados que estamos a considerar as teocracias islamitas a anos-luz da nossa superioridade civilizacional admitir, ainda que teoricamente, alguma vulnerabilidade do nosso sistema é reconhecer que a distância que nos separa é reversível. Como? A  natureza humana, esse traço de união entre civilizações, será sempre a chave para todos os enigmas, sugere o autor.

De que forma poderiam as elites políticas e intelectuais sucumbir ao charme do islão? Houellebecq explica, tal como explica o que levaria o povo a aceitar a mudança sem levantar grandes ondas:

"Provavelmente é impossível, para as pessoas que viveram e prosperaram num determinado sistema social, imaginarem-se na pele daqueles que, nunca tendo podido esperar nada desse mesmo sistema, encaram a sua destruição sem especial receio" (pág.53), cogita o personagem que conduz esta história, um intelectual autocentrado, que nunca se interessou por política, que a bem dizer nunca se interessou por nada e cuja relação mais próxima que mantém é com o escritor do século XIX que foi tema da sua tese de doutoramento.

Este tom desapaixonado contamina toda a narrativa passando nas entrelinhas l'air du temps, um misto de apatia, individualismo e alheamento cívico. Mas é quando cita Arnold Toynbee, através de um outro personagem, um professor universitário de meia idade rendido ao dinheiro dos sauditas e às delícias da poligamia, que Houellebecq transmite a mensagem essencial do livro: "as nações não morrem assassinadas, suicidam-se". E a estocada vai para as elites que nos governam, não para os muçulmanos.

Quem levou a sério e acusou a sua tese de falta de consistência política não considerou que a ambivalência desta obra, que mistura referências reais com pura ficção, e acontecimentos plausíveis com desfechos improváveis, é um objectivo. Sendo o islão, nos tempos que correm, "o outro" o escritor usa-o simplesmente para nos confrontar. Para nos falar do que está podre no reino da civilidade e da democracia, mas como é de seu timbre fá-lo sem moralismos ou quaisquer outros constrangimentos. 

A viver com escolta policial desde que o Charlie Hebdo sofreu um atentado (a capa da edição que então estava nas bancas era sobre o recém-lançado "Submissão"), Michel Houllebecq  é odiado pelos islamitas mas também, sem surpresa, pelas elites intelectuais mais engagées, tanto à direita como à esquerda. Penso que pelas contas dele não se terá saído nada mal, até porque com este seu sexto romance está a facturar como nunca...

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O veneno do medo

por Pedro Correia, em 20.02.15

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 Foto AFP

 

É, desde já, uma das imagens mais terríveis deste ano ainda no início: um homem queimado vivo dentro de uma jaula onde estava preso como se fosse um animal selvagem.

Foi outra vítima do autoproclamado Estado Islâmico, o mais sanguinário movimento terrorista contemporâneo, que recua no terreno – como sucedeu há dias, em Kobane, numa batalha ganha pelas forças curdas – mas vai progredindo nos circuitos mediáticos. Porque cada vídeo com estes homicídios difundido nas redes sociais constitui um marco na estratégia de propaganda do fundamentalismo islamita que injecta nas sociedades contemporâneas aquilo a que o poeta mexicano Octavio Paz chamava “o veneno do medo”.

Vídeo após vídeo, fotografia após fotografia, somos inoculados pelo veneno do medo ministrado pelas bestas totalitárias. Que no Iraque, na Síria, no Níger, na Nigéria, no Iémene e em tantos outros países lapidam mulheres, desmembram homossexuais, crucificam cristãos, enterram crianças vivas. Com um ódio letal que nenhuma crença religiosa autoriza, nenhuma ideologia justifica, nenhuma doutrina é capaz de explicar.

O homem, um piloto jordano, chamava-se Moaz al Kasasbeh. Foi assassinado da forma mais bárbara – “executado”, como lhe chamaram os cultores de sofismas. E morto milhares de vezes depois disso nas redes sociais que reproduziram aquela cena macabra com a tranquila frivolidade utilizada dias mais tarde para difundir imagens do aniversário de Cristiano Ronaldo. Como se o culto da morte e a festa da vida fossem a mesma coisa.

 

Publicado originalmente no jornal i

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A Europa rendida ao medo (9)

por Pedro Correia, em 12.02.15

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A exibição de L' Apôtre [O Apóstolo], da cineasta Chéyenne Carron, foi adiada em algumas salas francesas, a pedido das autoridades, para evitar "riscos de ataques". Motivo? A comunidade islâmica poderia sentir-se "provocada" pelo filme, centrado num jovem muçulmano francês convertido ao cristianismo.

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A Europa rendida ao medo (8)

por Pedro Correia, em 04.02.15

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Uma  exposição sobre a censura através da história no centro cultural de Welkenraedt (Bélgica) foi encerrada "por precaução" 24 horas após abrir ao público. A exposição incluía um painel sobre o Charlie Hebdo e a censura religiosa contemporânea.

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A Europa rendida ao medo (7)

por Pedro Correia, em 02.02.15

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Um festival de cinema em Tournai (uma das capitais culturais da Bélgica) foi adiado devido a ameaças terroristas. Neste certame estava prevista a exibição do filme Timbuktu, produção franco-mauritana que tem como pano de fundo o extremismo islâmico.

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Não é uma guerra de civilizações

por Pedro Correia, em 30.01.15

Porque é impossível dar o nome de civilização à barbárie.

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Intolerância

por Teresa Ribeiro, em 13.01.15

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Quando se fala de intolerância relativamente aos imigrantes, por norma aponta-se o dedo aos povos anfitriões, partindo do princípio discutível de que é a quem recebe e está em maioria que devem ser cobradas as responsabilidades relativas ao bom convívio com as comunidades acolhidas. Mas o multiculturalismo deve pressupor uma abertura recíproca.

Não duvido que a esmagadora maioria dos muçulmanos emigrados no ocidente aspiram a viver em paz com os seus vizinhos infiéis, mas ao seguirem valores que antagonizam os nossos torna-se difícil evitar reservas de parte a parte. Quando vou à loja do indiano e encontro lá regularmente a mulher e a filha púbere, ambas de cabeça tapada e olhos no chão, sinto que aos olhos dele elas são mulheres puras enquanto que eu e a minha filha, que nos deixamos tocar descaradamente pelos olhos de todos os homens com quem nos cruzamos na rua, o não somos.

Confesso. Tenho uma relação de ódio com todas essas vestes que simbolizam a submissão feminina. Não odeio o indiano, que até é bem simpático para a freguesia, mas odeio alguns dos seus valores. Do lado de lá, não duvido, passa-se o mesmo. Quando se seguem princípios de vida incompatíveis, os choques culturais são inevitáveis.

Já li muitos textos a tentar justificar as pulsões assassinas dos putativos jihadistas nados e criados no ocidente. Todos falam da nossa intolerância e arrogância, politizam o discurso enumerando exemplos de atrocidades cometidas no passado e no presente, como se a maldade fosse um exclusivo nosso. Mas convém não esquecer que apesar das diferenças partilhamos a mesma natureza. A semente do mal faz parte do ADN  de "fiéis e infiéis" - para usar a terminologia deles. E se nós, ocidentais - recorrendo agora ao léxico dos católicos - pecamos pela soberba por nos acharmos superiores ao nível científico, tecnológico, cultural e civilizacional também eles o fazem quando reclamam para si mais do que a superioridade ética e moral, a superioridade tout court.

A nossa intolerância tem as costas largas. 

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Da complacência do mundo muçulmano

por Teresa Ribeiro, em 11.01.15

A propósito do massacre do Charlie Hebdo, dos jihadistas que o perpetraram e dos extremistas islâmicos em geral, escreve Miguel Sousa Tavares:

"Deus é apenas a desculpa e o pretexto para a sua imensa cobardia. A deles e a de todos os muçulmanos, clérigos ou leigos que, pelo silêncio ou pela conivência ideológica, deixaram que a imagem do Islão esteja hoje irremediavelmente associada em muitos espíritos à da simples bestialidade humana"

(...)"O que temos de levar a sério é a complacência do mundo muçulmano para com aqueles que invocam a sua fé e a sua doutrina para espalhar o terror e minar os fundamentos das sociedades livres em que vivemos" - excertos da sua crónica da edição de ontem do Expresso

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A linguagem dos assassinos

por Pedro Correia, em 29.10.14

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Televisões que se presumem sérias, praticantes de um jornalismo considerado rigoroso, difundiram por estes dias a imagem de um repórter britânico que se encontra cativo do autoproclamado Estado Islâmico, funcionando portanto como porta-voz compulsivo desta organização terrorista.

Mesmo sabendo isto, as televisões emitem esta mensagem adulterada, fazendo-a passar à primeira vista por informação isenta. É um acto de lesa-jornalismo. Pior: é um alto de lesa-civilização. Estamos a recuar perigosamente em matéria de princípios sempre que pactuamos com a violência terrorista, mesmo que seja insidiosa e encapotada, como sucede neste caso.

E o problema não se centra só nas imagens que procuram banalizar o mal. Repare-se na linguagem tantas vezes adoptada para descrever os bárbaros assassínios de jornalistas, decapitados a sangue-frio depois de serem forçados a confessar aquilo que não pensam e noutras circunstâncias jamais diriam: foram "executados", proclamam vozes neutrais na televisão, sem um assomo visível de indignação cívica. Fosse outro o contexto, fossem outros os algozes, falar-se-ia em crime, chacina, massacre. "Execução" tem uma conotação burocrática, quase legal, quase consentida, quase compreensível.

O primeiro erro, aliás, é chamar Estado Islâmico a um movimento inorgânico que utiliza a bandeira do islão como mero pretexto para dar largas ao mais básico instinto sanguinário. Um bando de pistoleiros, mesmo vasto e bem armado, não pode confundir-se com Estado algum. E nenhuma religião deve caucionar a violência homicida, aliás cometida em larga medida, neste caso, contra os próprios irmãos de fé.

Usar a linguagem dos assassinos é o primeiro passo para atenuarmos os seus crimes.

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Duplicidade e cobardia

por Teresa Ribeiro, em 13.10.14

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"Darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão" (Êxodo, 21; 23)

"Não deixarás viver a feiticeira" (Êxodo 22; 17)

"Quando se encontrar no meio de vós um homem ou uma mulher que faça o que é mal aos olhos do Senhor teu Deus (...) apedrejá-los-ás até que morram" (Deuteronómio 17; 2 - 5)

 

Também nós, cristãos, travámos a nossa guerra santa. Dos autos de fé à evangelização a fio de espada transcrevemos a sangue muitas passagens do nosso livro sagrado. Mas isso foi há séculos. Desde  então fizemos o longo caminho que consagrou o respeito pela vida humana. Algo sem paralelo noutras culturas. Orgulho-me desta marca civilizacional, por constituir a maior prova de que é possível superar os estreitos limites da natureza humana e alcançar algo maior. 

Sou cristã não católica e ainda que seja muito crítica em relação à ICAR, reconheço que embora contradiga algo de fundamental na mensagem cristã, que prega a igualdade de todos os seres humanos perante Deus, a hierarquia facilita a sua afirmação no mundo e uma certa coerência doutrinária.

Os islamistas não têm um chefe supremo, mas várias coutadas, umas mais influentes que outras, representando diferentes correntes. Estas circunstâncias explicam dificuldades e constrangimentos de comunicação para o exterior, mas não desculpam a ausência de concertação de posições face ao que se passa actualmente no mundo islâmico, o seu mundo. 

Os moderados juram que o seu Corão é fundamentalmente uma mensagem de amor pela humanidade. Assumem-se como pacifistas, demarcam-se dos movimentos extremistas e recolhem-se no recato das suas orações, esperando que os infiéis lhes resolvam os problemas de má Imprensa. Há dias, o chefe da comunidade islâmica em Portugal, Abdool Karim Vakil, interrogado numa entrevista ao Expresso sobre a escalada de terror que se tem observado no Iraque e na Síria, respondeu: "Também há cristãos terroristas, hindus terroristas, judeus terroristas. O ser humano é assim. Matar é um pecado muito praticado." E seguiu, afirmando: "Também existem fanatismos na política. Há muitos fanatismos, cristão, judaico, hindu, etc. O do islão é mais mediático."

À pergunta: "Não acha que deve haver uma condenação mais forte e uma demarcação mais taxativa dos moderados em relação aos extremistas?", respondeu: "Eu abstenho-me de fazer comentários. Telefonam-me a pedir opinião, eu queria evitar falar muito."

Sobre a guerra de morte entre sunitas e xiitas, repetiu como um realejo: "Fanatismo existe em muitos lugares." Na mesma linha de raciocínio, sobre a discriminação das mulheres pelo islão, argumenta: "A mulher é inferiorizada em muitas sociedades. Em Portugal a mulher não tinha os mesmos direitos. Não podia votar."

Tudo é relativizado por este homem de paz. Sobre os jihadistas: "Não são assassinos por natureza. Julgam que estão a fazer o bem." As suas atrocidades são reprovadas com um lacónico: "O islão não prega isso."

Sobre os bombistas suicidas e a ficção das 70 virgens no paraíso, comenta: "O que se há-de fazer? Estou feliz por em Portugal não haver isso."

O que se há-de fazer?! Pilatos não diria melhor. Estes moderados-não-me-comprometa não põem a cabeça no cepo. Preferem deixar o trabalho sujo para os infiéis.

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O avanço do Estado Islâmico

por Rui Herbon, em 26.09.14

O Estado Islâmico avança com desordem e sem atender a fronteiras. É a facção mais extrema do islamismo radical. Ocupa zonas do Iraque e da Síria. É uma cópia conceptual dos califados de há quase mil anos. Os Estados Unidos e a França bombardeiam as imprecisas posições dos novos terroristas, que degolaram vários cidadãos ocidentais e ameaçam voltar a fazê-lo, espectáculos filmados que se retransmitem através das redes globais. As pessoas que viviam no Curdistão iraquiano e sírio atravessam massivamente a fronteira com a Turquia — mais de 130.000 nos últimos dias. 

 

Esta guerra é uma profunda aberração. Os curdos lutaram durante mais de trinta anos contra a Turquia. Paradoxalmente, é agora a Turquia a acolher por razões humanitárias milhares de curdos procedentes da Síria e do Iraque. Esses curdos não são bem-vindos pelos que na Turquia lutaram contra Ankara. A mobilidade forçada de grandes dimensões é sempre conflituosa. Mas o facto da Turquia aceitar centenas de milhares de curdos indica até que ponto o Estado Islâmico é concebido como um perigo para a estabilidade na zona e para a sobrevivência de etnias, culturas e antigas religiões que, como a cristã, povoam aquelas terras desde há quase vinte séculos.

 

A agência de refugiados da ONU pede desesperadamente ajuda para mitigar dentro do possível este drama humano de bárbaras dimensões. Se o Estado Islâmico controlar a cidade de Kobane terá  um enclave para dominar toda a região. Está em marcha uma coligação que agrupa mais de trinta países, incluindo vários estados muçulmanos. Os bombardeamentos americanos e franceses atingem os fundamentalistas, mas Tony Blair pediu a entrada de forças terrestres se se quer derrotar definitivamente o Estado Islâmico.

 

Obama venceu duas eleições prometendo sair do Afeganistão e do Iraque, e agora volta à guerra para destruir um grupo terrorista que está a formar um novo estado, apagando as fronteiras entre a Síria e o Iraque e enviando centenas de milhares de refugiados para a Turquia.

 

A política, sobretudo a internacional, é imprevisível. Mas há que dizer que a guerra iniciada em 2003 contra Saddam Hussein, justificada pelas inexistentes armas de destruição massiva, foi um erro cujas consequências estamos todos a pagar. A alegria com que se lançavam bombas sobre Bagdade retornou na forma da amargura de centenas de milhares de mortos, deslocados e desesperados. Está tudo pior que em 2003. Os efeitos da tristemente célebre cimeira dos Açores continuarão a fazer-se sentir e o seu cabal apuramento só poderá ser medido dentro de pelo menos mais uma década.

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Verão de 2014

por Rui Herbon, em 25.08.14

A Europa está de férias: as auto-estradas de França registam engarrafamentos de quilómetros, as pessoas procuram o mar ou refugiam-se nas montanhas, muitos andam colados ao seu telemóvel procurando saber o que ocorre no mundo — vivem a realidade a golpe de títulos mediáticos. Quando começou a Grande Guerra, faz agora cem anos, o escritor austríaco Stephan Zweig encontrava-se de férias perto do porto belga de Ostende. Relatava que os turistas se deitavam na praia junto às suas barracas de cores vivas ou se banhavam no mar, as crianças faziam voar os seus papagaios, os jovens dançavam frente aos cafés ou no passeio junto ao muro do porto. Toda a gente se divertia amigavelmente. 

 

Escreve Margaret MacMillan no seu livro sobre as causas que levaram à guerra de 1914-18 que em Maio do ano anterior, no breve interlúdio entre as duas guerras balcânicas, os primos Jorge V de Inglaterra, Nicolau II da Rússia e Guilherme II da Alemanha se reuniam em Berlim para o casamento da única filha do kaiser. Nada fazia pressagiar que dentro de um ano estariam os três em guerra, uma guerra que ninguém queria e que toda a gente temia fatalmente. Tentou-se travar a Áustria para que não declarasse guerra à Sérvia após o atentado de Serajevo, pressionou-se a Rússia para que não entrasse no conflicto em aliança com a França e a Inglaterra. O que um punhado de homens quis evitar sucedeu de forma calamitosa para toda a Europa: mais de nove milhões de mortos. Ninguém o queria mas todos, inclusive a opinião pública, se entregaram àquela carnificina humana com entusiasmo. 

 

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O atoleiro

por Rui Herbon, em 29.04.14

Dizem que os milagres existem e, a ser verdade, deve sê-lo especialmente na terra onde convivem os três deuses do monoteísmo. Ainda que, neste caso, a palavra conviver seja um pouco excessiva. E se falo em milagres é porque a possibilidade do acordo entre o Hamas e a Fatah contribuir para a paz é mais própria da teologia que da geopolítica. Na realidade pode até temer-se o contrário. É certo que pode tratar-se de uma manobra estratégica e não real, com Abas tentando mover as peças num tabuleiro virtual, mas, mesmo que não se efective e que tudo seja apenas fumo na guerra da propaganda, o acordo alimenta a outra guerra, a que não é nada virtual. Em qualquer caso deita por terra as últimas tentativas da administração Obama, via John Kerry, de conseguir qualquer espécie de solução para o problema israelo-palestiniano, uma vez que o primeiro-ministro israelita, Netanyahu, já afirmou que «quem escolher o Hamas não deseja a paz», e Abas fez essa escolha.

 

É difícil imaginar que o acordo chegue a bom porto ou seja duradouro, tanto pela rivalidade entre as diversas facções como pelos interesses não só políticos como económicos que se movem de ambos os lados do território. Não esqueçamos que a luta palestiniana é um grande negócio para os dirigentes da causa, com a fortuna dos Arafat como grande escola, mas, inclusive no caso de que pela primeira vez se tratasse de uma vontade política real, o branqueamento do Hamas que dito acordo significa dinamita por longo tempo qualquer negociação com Israel. Primeiro porque o Hamas não aceita a existência do estado hebraico e toda a sua filosofia se baseia na respectiva destruição. Segundo, porque o Hamas representa os interesses iranianos, a par do Hezbollah libanês, e toda a sua estratégia passa por preparar-se para o terrorismo e não para a mesa de negociações. Terceiro, porque um acordo desta natureza afasta os sectores mais razoáveis da liderança palestiniana, ao mesmo tempo que reforça a preponderância do Hamas, e isso implica islamismo radical e violência organizada. É evidente que num futuro longínquo o Hamas poderia ser um interlocutor nas negociações, mas deveria mudar tanto de pele como de alma. E esse é o grande problema: Abas não só não conseguiu nenhuma mudança na natureza radical e violenta do Hamas como, aceitando o acordo, legitimou dita natureza, o que derruba o frágil plano de Kerry. Mais uma vez as notícias que nos chegam da zona não são boas e vislumbram-se dias difíceis: um acordo contra-natura, um plano bem intencionado dinamitado na origem e uma organização terrorista legitimada sem que tenha abandonado os seus propósitos violentos. Bad deal, bad news.

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Os conselhos do Conselho

por Rui Herbon, em 09.04.14

 

 

Tenho a honra, ou não, de apresentar-lhes o Conselho de Ideologia Islâmica, cuja missão terrena é, segundo a sua página, a de avisar o governo paquistanês sobre as leis que são repugnantes para o islão. Como o Conselho é um organismo semi-oficial, as suas decisões não são irrelevantes, nem inocentes. Por sorte, não são de cumprimento obrigatório, mas no frágil e complexo Paquistão é evidente que não são avisos menores. Não esqueçamos que esse país é considerado a mãe de todos os problemas ligados ao integrismo islamita. Portanto, se o órgão que os assessora na delicada relação entre as leis civis e a charia islâmica diz o que diz, a dimensão do problema dispara.

 

Façamos as apresentações deste interlocutor entre a palavra de Deus e a do governo paquistanês. Estas são as últimas lindezas consideradas anti-islâmicas: não aceita os testes de ADN como prova em casos de violação, porque deve manter-se o preceito islâmico de quatro testemunhas oculares masculinas. Quer dizer, se a mulher não for violada em público não há castigo. Também negou a penalização dos que fazem falsas acusações de blasfémia, que permanecem impunes. Se tivermos em conta a perseguição de cristãos e outras minorias sob essa acusação ou pretexto, e a morte de muitos deles, a questão tão-pouco é menor. E, para terminar o rol de exemplos, o Conselho também protestou contra a ideia de que o homem que queira casar-se com outra mulher – a poligamia é legal para os homens – deva pedir permissão às mulheres da casa.

 

Mas o que me leva a chamar à colação tão simpático organismo é a sua última bondade, a de considerar contrária ao islão qualquer legislação que proíba o nikah (casamento com meninas). Na sua extrema misericórdia, consideram que não se pode perpetrar o rukhsati (consumação sexual) se ainda não têm o período, mas sabe-se perfeitamente que nem esse subtil princípio se cumpre. A má notícia, pois, é que estes conselhos da santa inquisição em versão muçulmana não estão proscritos à categoria de extremistas alucinados, senão que conformam o corpo legal de muitos países islâmicos. A boa notícia é que cada vez têm menos aceitação. Por exemplo, o parlamento de Sindh, uma das quatro províncias paquistanesas, pediu a dissolução do Conselho, secundado pela mobilização de dezenas de entidades ligadas aos direitos humanos. Se a mulher é, portanto, o centro da maldade nesta ideologia misógina e violenta, também é o centro das lutas dos muçulmanos que querem acabar com o poder do integrismo. Deviam tê-lo em consideração alguns que, no ocidente, no seu afã por defender a multiculturalidade, acabam por converter estes radicais nos interlocutores das comunidades islâmicas.

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Allah-o-Akbar!

por Fernando Sousa, em 30.10.13

O xeque Ali al Hemki, membro do Conselho dos Estudiosos da Arábia Saudita, emitiu uma fatwa, um decreto islâmico, proibindo as viagens a Marte, noticiou o jornal Ah Hayat, citado pela EFE - e o DN. Allah-o-Akbar! Quem comprou bilhetes, aconselho que os devolva. 

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A decadência de uma civilização

por José Navarro de Andrade, em 23.09.12

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O ódio à 'rua islâmica'

por Pedro Correia, em 31.03.11

 

As revoltas populares no Magrebe e no Médio Oriente têm servido de pretexto, a vários colunistas na imprensa portuguesa, para debitarem o seu ódio contra as sociedades islâmicas em geral e os países árabes em particular. Não me lembro há muito de ver textos tão rasteiros e tão boçais, em que se traça de cada árabe o retrato de um fulano manipulável, demente, violador de mulheres, saqueador de bens e um terrorista em potência, às ordens dos extremistas mais fanáticos. Um desses colunistas, alarvemente, chegou a proclamar-se islamófobo em prosa digna de um Ahmadinejad – bastaria trocar “islâmico” por “judeu” no referido arrazoado.

Esses articulistas (alguns dos quais certamente com ascendência árabe) nem reparam, nesta visceral aversão à “rua islâmica”, que os seus textos expressam um radicalismo simétrico ao daqueles que  pretendem denunciar. E esquecem que, se os atentados matam, também as palavras podem matar. O primeiro passo para uma bomba assassina é sempre um texto a escorrer ódio.

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Jean Daniel e os Velhos do Restelo

por Pedro Correia, em 17.03.11

 

Fascina-me esta tendência de tantos colunistas da imprensa portuguesa de lançarem anátemas sobre as mudanças em curso no mundo. Ainda agora se viu, nestes dias, a propósito das revoltas populares que derrubaram as decrépitas ditaduras da Tunísia e do Egipto: de súbito, descobrimos que em Portugal era imensa a legião de fãs de Mubarak e Ben Ali - a tal ponto foram derramadas lágrimas de pesar pelo fim dessas tiranias nas colunas dos nossos jornais. Profissionais do pessimismo, daqueles que se gabam de em mil novecentos-e-troca-o-passo terem vaticinado que tudo daria para o torto, desataram a garantir que o fim das ditaduras árabes marcará o início de um ciclo de terríveis cavalgadas do islamismo mais fanático, capaz de perturbar o nosso doce modo de vida e de impor à bomba as suas crenças. A democracia é incompatível com o mundo islâmico, asseguram. Esquecendo, muitos deles, que aplaudiram a invasão norte-americana do Iraque em 2002 precisamente em nome dos valores democráticos. Curiosa concepção de democracia, que só vale se for imposta à bala...

Penso nisto enquanto releio no El País uma entrevista com Jean Daniel, ex-director do L’ Express e do Nouvel Observateur, um dos mais prestigiados jornalistas europeus – testemunha privilegiada de tantos acontecimentos históricos, desde a II Guerra Mundial. Aos 90 anos, mantém um olhar de esperança perante a vertiginosa sucessão de factos que são notícia dos telejornais de hoje e têm já garantido um lugar na História. “Maravilha-me ter vivido o suficiente para ver um negro chegar à Casa Branca, ou os tunisinos e os egípcios revoltando-se contra os respectivos ditadores. A importância destas rebeliões não está no que possa suceder, mas no simples facto de terem ocorrido”, sublinha este decano do jornalismo que há muito aprendi a admirar.

Se Jean Daniel fosse português, faria um discurso carregado de nuvens negras e maus presságios: por cá, ninguém consegue congregar tão vasto auditório como os profetas da desgraça. Mesmo quando não têm razão nenhuma, o que aliás sucede quase sempre.

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A revolta das mulheres árabes

por Pedro Correia, em 28.02.11

 

"Nas imagens das manifestações, onde estão as mulheres da Líbia, da Tunísia, do Bahrein, do Iémen?", questionava há dias Inês Serra Lopes, na sua habitual coluna de opinião da terceira página do i. Lembrando, e com razão, que "sem mulheres não há revolução". Por saboroso acaso, a resposta vinha logo na página seguinte da mesma edição, em texto assinado por Nicholas Kirstof, escrito em Manama, capital do Bahrein, para o New York Times (de que o i tem o exclusivo em Portugal). "Não se deixe levar pela campanha maliciosa lançada pelos ditadores segundo a qual um Médio Oriente mais democrático será fundamentalista, anti-americano ou opressivo para as mulheres. Para começar, têm-se visto muitas mulheres nas ruas a exigir mudanças (mulheres de uma força impressionante, vem a propósito lembrar!)", escreve este jornalista galardoado duas vezes com o Pulitzer.

Espero que a Inês fique mais tranquila com estas palavras escritas por quem tem acompanhado os protestos ao vivo. E a Maria João e a Joana também.

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O feitiço do tempo

por Pedro Correia, em 26.02.11

João Pereira Coutinho, hoje no Correio da Manhã: «A revolução de 1789 acabou por degenerar no Terror jacobino. Por que motivo, então, esta evidência é tão difícil de perceber no caso árabe?»

Vasco Pulido Valente, hoje no Público: «O que havia em França em 1789-94 era uma total ausência de instituições capazes de promover e defender as liberdades. (...) Como hoje na África do Norte.»

 

Espero que os nossos "líderes de opinião" transitem rapidamente do século XVIII para o século XIX. A ver se daqui a uns alguns meses começam a compreender finalmente o que se passa no mundo árabe do século XXI.

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A imparável revolta no mundo árabe

por Pedro Correia, em 25.02.11

«Radical Islamists have long been the Arab world's presumed revolutionaries, but these fights do not belong to them. In a region that had rotted under repression, a young generation has suddenly found its voice. Pushing ahead of their elders, they have become intoxicated with the possibility of change. As with Europe's triumphant overthrow of communismo in 1989, or even its failed revolutions of 1848, upheaval on such a scale can transform societies.»

Editorial da Economist

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Mirar o Cairo e ver o Apocalipse

por Pedro Correia, em 10.02.11

 

 

Depois de José Pacheco Pereira, também Vasco Graça Moura se debruça, angustiado, sobre os perigos do fundamentalismo islâmico num texto de pendor apocalíptico em que não há uma só linha de congratulação pela queda de Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egipto - ditadores que perfaziam 53 anos somados de mandato, com o requinte suplementar, no caso egípcio, de que já estava praticamente assegurada a sucessão para um dos rebentos do cleptocrata, travestindo a república em monarquia, em jeito de regresso aos tempos faraónicos do rei Faruk.

Bom estilista do idioma, Graça Moura compõe o seu texto no DN em jeito de valsa lenta que vai acelerando e crescendo de emoção à medida que os parágrafos se sucedem.

 

Primeiro parágrafo: «O mundo ocidental deveria olhar com grande apreensão as perturbações consecutivas que ali [Tunísia e Egipto] estão a acontecer e ameaçam alastrar rapidamente aos restantes países islâmicos do Médio Oriente e do Norte de África.»

Segundo parágrafo: «Está na cara que [as coisas] vão correr mal, mesmo muito mal.»

Quarto parágrafo: «O rastilho do fundamentalismo islâmico alastrará imparavelmente pelos caminhos da Al-Qaeda a todo o mundo árabe, ainda por cima com o risco de também acabar por envolver a Turquia.»

Quinto parágrafo: «O Ocidente não está já em condições de se defender, por falta de valores éticos e cívicos que foi dissipando em nome de uma permissividade politicamente correcta e desastrosa.»

 

Custa-me entender três coisas.

Primeira: que um democrata não se congratule calorosamente, em termos inequívocos, com a queda de um ditador.

Segunda: que seja sempre invocado o exemplo do Irão de 1979 como uma espécie de garantia prévia de que os movimentos pró-democracia no mundo islâmico estão condenados a ser mal sucedidos. Que eu saiba, a Indonésia também é um país islâmico - é aliás o maior país islâmico do globo - e transitou com sucesso da ditadura para a democracia no final da década de 90.

Terceira e última: que não se perceba que todos estes persistentes receios são afinal a prova mais evidente de que as ditaduras foram incapazes de travar o passo à ameaça fundamentalista. E como poderiam ter sido, designadamente no Egipto, sob o mando despótico e decrépito de Mubarak?

Lamento, sinceramente, que Graça Moura não tivesse espaço, tempo ou paciência para acrescentar um parágrafo ao seu texto. Um parágrafo em que aludisse à corrupção, à pobreza, às desigualdades, à repressão, às eleições fraudulentas, à censura aos meios de informação, à falta de liberdades fundamentais no Egipto. Por um simples motivo: este quadro confrangedor é que constitui o maior caldo de cultura do extremismo islâmico. Não perceber isto é não perceber o fundamental.

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Um teste decisivo a Obama

por Pedro Correia, em 03.02.11

 

 

Já não é possível o Ocidente continuar indiferente perante o que está a ocorrer no Egipto. A teimosia de um só homem em permanecer agarrado ao poder despótico que conserva desde 1981 ameaça mergulhar o país num banho de sangue. Tivemos a primeira amostra disso há poucas horas, quando bandos de arruaceiros claramente incentivados pelo agonizante regime de Hosni Mubarak carregaram contra manifestantes ordeiros e pacíficos que há vários dias aí se concentravam reivindicando direitos fundamentais: liberdade de expressão, liberdade de voto, liberdade de imprensa.

No conforto ocidental, onde há muito estes direitos estão adquiridos, continua a haver quem agite o papão do extremismo islâmico para negar aos egípcios aquilo de que nenhum de nós prescindiria a pretexto algum. São os mesmos que alertaram contra os riscos do "marxismo" numa América Latina livre dos tiranetes de caserna, os mesmos que alertaram contra o "caos" em que se transformaria a Europa submetida ao império soviético quando a democracia ali vigorasse, os mesmos que lamentaram a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã em nome da sacrossanta realpolitik, os mesmos que ainda hoje choram a queda de Ferdinand Marcos nas Filipinas e elogiaram a "firmeza" da clique chinesa que esmagou os estudantes de Tiananmen.

Este é um momento crucial no mandato de Barack Obama. Um momento em que terá de decidir se apoia sem ambiguidades o movimento pró-democracia no Egipto, sem escutar os estrategos que lhe recomendam "prudência", ou se prefere manter-se equidistante no conflito insanável entre o ditador e o seu povo. Enquanto escrevo estas linhas escuto mais uma Cassandra doméstica alertar a plebe para os riscos do "perigo islâmico". Esquecendo que o Xá e a cegueira dos seus apoiantes de longa data em Washington foram o ninho que permitiu ao extremismo de Khomeini chocar o ovo da serpente.

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Existem várias formas de paralisar a argumentação sobre questões religiosas. Desde logo, há quem defenda que a religião não se discute. Esta posição vem, normalmente, de quem professa uma determinada religião. E significa, na verdade, que não se discute essa determinada religião que é professada. Já todas as outras são  passíveis de discussão. Do alto da superioridade moral da religião que não se aceita discutir. Uma outra forma consiste em manifestar uma intransponível equidistância relativamente a todas as religiões. É uma posição própria de quem está ou quer colocar-se fora do círculo religioso. Dela decorre, por exemplo, que quando existe um conflito extremado entre correntes religiosas, se possa sair airosamente dizendo que estamos perante radicalismo de ambas as partes. O que nos alivia do pesado fardo de tomar partido por uma delas. Ora, parece-me que nenhuma das duas posições é aceitável. Explico. A religião, para os que a professam, não constitui um mero caminho interior, individual, de ligação com o divino. A religião apela a uma ideia de comunidade e de prática. Nessa medida, de exteriorização. Que tem impacto na sociedade dos Homens. O respeito pela fé professada por cada um não pode ser entendido como dirigido à religião em si mesma. Pelo contrário, resulta do respeito pela radical liberdade e dignidade  do indivíduo nas suas múltiplas expressões: artísticas, culturais, profissionais e, naturalmente, religiosas. Daí que a religião possa e deva ser discutida sempre que as suas manifestações contendam ou se desviem do projecto social comum. Por outro lado, a equidistância acaba por levar à mesma consequência de não questionar o essencial. Queira-se ou não, o fenómeno religioso é uma das manifestações mais evidentes do ser humano. Mesmo os que se colocam de fora, devem admitir este facto como dado histórico inquestionável. Como dado inquestionável é a importância da religião na conformação do substrato social de valores. Deste modo, não se deve prescindir de comparar religiões pelas consequências que estas têm nas sociedades humanas. Como não se pode deixar de comparar o estado de evolução das diversas sociedades, sempre tendo presente que a sociedade perfeita não existe e que o valor fundamental é a dignidade humana. O que está aqui em causa é que a única forma de dar resposta a quaisquer actos de violência religiosa é uma intervenção  que garanta a liberdade e a igualdade dos cidadãos. De todos eles. Mas, isto não significa neutralidade. Significa uma defesa sem quartel de todos os que são acossados pela sua crença religiosa. E um ataque igualmente intransigente a todas as formas de perturbação da liberdade de expressão, religiosa ou outra, dos cidadãos. Neste particular, não podem ser colocados em pé de igualdade os que condenam qualquer forma de violência e aqueles outros que, perante actos violentos como os ocorridos em Alexandria em 31 de Dezembro de 2010, se remetem a um ensurdecedor silêncio. Da mesma maneira que não merecem o nosso silêncio todos os que têm da convivência religiosa a interpretação estrita que resulta do versículo 5:5 do Corão: O you who believe! do not take the Jews and the Christians for friends; they are friends of each other; and whoever amongst you takes them for a friend, then surely he is one of them; surely Allah does not guide the unjust people. Precisamente a interpretação que é negada por tantos muçulmanos mas que se ouvia nos últimos tempos na boca de certos Imãs em algumas mesquitas de Alexandria. Tal como não se pode calar a condenação a representantes da Igreja copta que afirmaram que os muçulmanos são convidados no Egipto. Perante situações como estas, ou quaisquer outras em que seja questionada a tolerância e a convivência pacífica, não serve calar. Importa afirmar os valores da dignidade humana. Os únicos relativamente aos quais se justifica uma defesa activa e radical. Que deve sobrepor-se a uma certa moda do religiosamente correcto. E que, se não vejo mal, só podem ser protegidos no contexto de uma organização social laica e interventiva em que, como diz Savater, as crenças filosóficas ou religiosas sejam um direito de cada um. Mas, não o dever de ninguém e menos ainda a obrigação geral da sociedade no seu conjunto. O que é precisamente o contrário de ser-se anti-religioso.

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Contra a "perigosa" Anne Frank

por Pedro Correia, em 16.11.09

 

«Preparei mentalmente as palavras que havíamos de dizer, caso a policia voltasse. Com certeza era preciso confessar-lhes que éramos 'mergulhados'. Ou eles eram bons holandeses - e então estávamos salvos - ou eram pró-nazis e então aceitavam dinheiro!

- Tira o rádio - suspirou a srª van Daan.

- Queres que o deite ao fogão? Se nos encontrarem, já não importa que encontrem também o rádio.

- Então encontram também o diário da Anne - disse o pai.

- E se o queimássemos? - propôs a pessoa mais medrosa do nosso grupo.

Este momento e aquele em que eu tinha ouvido as sacudidelas da Policia na porta giratória, foram para mim os mais terríveis.

- O meu diário não! O meu diário só será queimado comigo!

Graças a Deus, o pai já nem me respondeu.»

Excerto do Diário de Anne Frank

 

O Diário de Anne Frank é "um livro perigoso" por estar "carregado de emoção", ser "dramático e teatral", e suscitar simpatia pelos judeus. Pensava eu que só um nazi, descendente ideológico das bestas humanas que deixaram morrer a pequena Anne no campo de extermínio de Bergen-Belsen, em 1945, poderia fazer considerações deste género sobre um dos mais comoventes relatos de que há memória do quotidiano de uma família acossada pelos horrores da guerra - neste caso, na cidade de Amesterdão ocupada pelas hordas de Hitler, entre 1942 e 1944. Mas não. Também o Hezbollah - o Partido de Deus, movimento extremista que tem espalhado o terror no Médio Oriente - pensa o pior do Diário de Anne Frank, reduzindo-o ao rótulo de mera  "propaganda sionista", como referiu a estação televisiva Al-Manar, um dos mais destacados veículos de disseminação do fundamentalismo islâmico na região.

Os protestos foram de tal maneira estridentes que bastaram para pôr fim ao estudo da obra numa escola privada de língua inglesa em Beirute, banindo-a do programa lectivo. "Estas escolas respeitáveis ensinam aos seus alunos a alegada tragédia vivida por esta rapariga enquanto sentem vergonha de lhes falar da tragédia do povo libanês, da tragédia do povo palestino, da tragédia do povo do sul sob a ocupação sionista", protestou um dirigente do Hezbollah, Hussein Hajj Hassan. Percebe-se a lógica do protesto: se o Holocausto nunca existiu, como crêem estes fanáticos, a tragédia de Anne Frank, morta aos 15 anos, só pode ser "alegada". E nem o testemunho abonatório de alguns dos mais influentes leitores deste Diário, como Nelson Mandela, os faz mudar de opinião.

Há uma linhagem histórica que une Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, aos actuais dirigentes do Hezbollah: comungam do ódio visceral aos judeus, prestam o mesmo culto à violência e partilham o gosto atávico pela censura de obras literárias. Incapazes, portanto, de entender estas palavras que Eleanor Roosevelt dedicou à obra imortal de Anne Frank: "Um dos mais argutos e tocantes comentários sobre a guerra e o seu impacto nos seres humanos que jamais li."

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Gostava que a morte não fosse assim

por Pedro Correia, em 08.11.09

Birth or Death? There was a Birth, certainly,
We had evidence and no doubt. I had seen birth and death,
But had thought they were different; this Birth was
Hard and bitter agony for us, like Death, our death,
We returned to our places, these Kingdoms,
But no longer at ease here, in the old dispensation,
With an alien people clutching their gods.
I should be glad of another death.

T. S. Eliot

 

Na Somália vigora a lei islâmica, que não perdoa: o adultério é punido com o apedrejamento até à morte. Foi o que aconteceu a Abas Hussein Abidarahman, de 33 anos, executado defronte de 300 pessoas por ter confessado o "crime": a agonia durou sete minutos, como relata a BBC. À mulher foi por enquanto poupada a vida. Motivo: está grávida. A execução só deve ocorrer após o nascimento da criança concebida em "pecado", que será confiada a uns parentes que aceitem tomar conta dela. Queira Alá que não tenha o triste destino dos pais. Ou da menina de 13 anos que morreu também lapidada em Outubro de 2008 em Kismayo, igualmente na Somália, por presumível "adultério". Garantiu o pai que a rapariga fora violada por três soldados, pormenor que o tribunal islâmico terá considerado irrelevante.

Por muito que queiramos fechar os olhos a estes factos, em nome do relativismo cultural, do respeito pelas 'tradições islâmicas' ou do longo cortejo de 'pecados do homem branco' em África que jamais deixam de ser expiados, eles existem. Teimosamente, persistentemente, existem. E conseguem por vezes até ser transformados em notícia, apesar de não ser rara a execução dos mensageiros. E não se passam num tempo remoto, envolto em trevas medievais, algures num inacessível reino de pesadelo: estas violações diárias dos mais elementares direitos da espécie humana ocorrem no mesmo instante e no mesmo planeta em que esgotamos a nossa indignação a clamar contra o milho transgénico ou os animais de circo.

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