Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Gorden Kaye (1941-2017)

por Diogo Noivo, em 24.01.17

GordenKaye.jpg

 Morreu o maior sex symbol da Britcom, protagonista de uma das melhores séries de televisão de sempre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O pesado manto da desmemória

por Pedro Correia, em 17.01.17

maria-cabral-gi_770x433_acf_cropped[1].jpg

 

“Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta dor portuguesa

tão mansa quase vegetal.”

Alexandre O’ Neill

 

Estranho país, este. Matamos os nossos heróis, os nossos ídolos, os nossos astros. Matamo-los pela inveja, pelo ressentimento, pelo cinismo, pelo ódio atávico a quem tem sucesso. Matamo-los, no fim de tudo, pelo esquecimento. É a pior forma de morte cívica – e também aquela que é praticada com maior desenvoltura nos nossos dias. Ignorar o que merece ser enaltecido e valorizado é um crime de lesa-humanidade e lesa-cultura.

Nenhum esquecimento me assombra mais do que o das nossas divas do teatro e do cinema. Mulheres que deslumbraram incontáveis espectadores nas plateias e se apagam na penumbra do ocaso, como se nunca tivessem entusiasmado multidões de adeptos na flor da idade. Mulheres como Milu, Leonor Maia, Laura Alves, Isabel de Castro, Maria Dulce, Maria Eugénia, Madalena Sotto. Sobre elas caiu o pesado manto da desmemória: é a forma habitual que temos neste país de sepultar os nossos melhores quase sempre ainda em vida.

 

Surge agora a notícia da morte de Maria Cabral, que numa França ou numa Itália teria sido venerada sem hesitação por ininterruptas legiões de cinéfilos. Por cá suscitou aplausos inflamados em dois filmes que a impuseram como inconfundível rosto de uma geração – a que ansiava pela liberdade num país ainda a preto e branco.

Dois filmes que se tornaram invisíveis: O Cerco (António da Cunha Telles, 1970) e O Recado (José Fonseca e Costa, 1972). Dois filmes banidos do nosso mercado, olvidados das cinematecas, omitidos pela própria RTP no seu canal memória. Como se contivessem um estigma, como se nos relatassem fragmentos proibidos de uma sociedade que ninguém quer relembrar.

 

Maria Cabral morreu esquecida da pátria que tantos dos seus talentos tem condenado ao desterro, no desfecho de um longo exílio voluntário em Paris. À semelhança de tantas figuras da nossa literatura, da nossa música, do nosso espectáculo, da nossa televisão.

Apagou-se longe como se nunca cá tivesse estado. Como se aquele rosto iluminado por uma prodigiosa fotogenia nunca nos tivesse visitado. Como se aqueles olhos e aqueles lábios e aquela pele jamais tivessem suscitado paixões arrebatadoras a quem os vislumbrou na tela - corpórea beleza, eterna e fugaz como todas as pulsões da vida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um adeus de até já

por Pedro Correia, em 10.01.17

 

Acabo de escutar as intervenções emocionadas de Isabel Soares e João Soares no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, durante as solenes exéquias do pai de ambos. Foi um momento exemplar de dignidade e elevação a que se associaram todas as instituições do Estado, todos os representantes partidários e uma galeria de ilustres convidados estrangeiros.

Somos tão invadidos pela vulgaridade e pela grunhice no nosso quotidiano mediático que quase estranhamos estes momentos de recolhimento e solenidade propícios à meditação sobre a frágil condição humana, impostos pela lei da vida e pelo luto nacional na hora em que nos despedimos de um político de excepção como Mário Soares.

Arrepiante foi escutar a lacrimosa do Requiem de Mozart naquele cenário. O mesmo em que Soares, em Junho de 1985, pôs a sua assinatura - com Felipe González, novamente hoje ali presente - na cerimónia da adesão dos dois países ibéricos à então CEE. Arrepiante também foi escutar a saudosa voz bem timbrada de Maria Barroso, que partiu ano e meio antes do marido, recitando os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste, de Álvaro Feijó.

«Quando eu morrer — e hei de morrer primeiro / Do que tu — não deixes de fechar-me os olhos / Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos / E ver-te-ás de corpo inteiro. // Como quando sorrias no meu colo. / E, ao veres que tenho toda a tua imagem / Dentro de mim, se, então, tiveres coragem, / Fecha-me os olhos com um beijo. // (...) Não um adeus distante / Ou um adeus de quem não torna cá, / Nem espera tornar. Um adeus de até já, / Como a alguém que se espera a cada instante. // Que eu voltarei. Eu sei que hei de voltar / De novo para ti, no mesmo barco / Sem remos e sem velas, pelo charco / Azul do céu, cansado de lá estar. // (...) E, se quiseres partir e o coração / To peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino / Talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?»

Como tantos portugueses, assisto comovido à cerimónia. Ficam-me a reverberar os acordes sublimes do Requiem e as sílabas do belíssimo poema que aquela gravação de Maria Barroso projecta para a eternidade.

Tento reter estes instantes. Antes que a poluição sonora nos invada novamente o recato do domicílio, com as berrarias do futebol mescladas de música pimba, graçolas rascas e vídeos imbecis das "redes sociais". Sem estética, sem gosto, sem grandeza. Tudo ao contrário do que acabámos de escutar agora.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O legado de Mário Soares

por Pedro Correia, em 07.01.17

 Mário Soares (com Lopes Cardoso, Salgado Zenha, Sottomayor Cardia, Francisco de Sousa Tavares e outros) na manifestação da Fonte Luminosa, em Lisboa (19 de Julho de 1975)

 

Em democracia, só existe uma forma legítima de mudar os titulares das instituições políticas: pelo voto. E quem nos ensinou isto, numa sucessão de actos exemplares durante os anos de brasa da revolução, foi um homem chamado Mário Alberto Nobre Lopes Soares, que hoje morreu aos 92 anos. Um homem que no Portugal pré-constitucional, quando a guerra civil esteve por um fio, enfrentou a "rua" com notória coragem física e um desassombro cívico que a História (com H maiúsculo) registará. A "rua", instrumentalizada pelo Partido Comunista e pela extrema-esquerda, não valia afinal mais de 15% nas urnas, como muitos concluiram com espanto ao fazer-se a contagem dos primeiros votos.

Personalidade cheia de contradições, como em regra sucede às figuras que deixam a sua impressão digital nos acontecimentos históricos, Mário Soares acertou no essencial. Ao fracturar a esquerda, deslocando-a para o centro. Ao evitar um novo conflito religioso no Portugal revolucionário, demonstrando ter aprendido as traumatizantes lições da I República. Ao apontar a Europa como novo destino português em alternativa às crepusculares rotas do império e sem demasiadas ilusões sobre as veredas da "lusofonia".

Mas o que mais lhe devemos foi ter participado na primeira linha do combate pela instauração no nosso país de uma democracia autêntica -- aquela que assenta no sufrágio livre, periódico e universal. Com argúcia e ousadia, Soares disputou a "rua" aos comunistas, desmonstrando-lhes em comícios como o da Fonte Luminosa -- como De Gaulle fizera ao promover o gigantesco desfile dos Campos Elíseos na ressaca do Maio de 68 -- que o espaço público não é uma espécie de coutada particular das forças extremistas. E nunca deixou de fazer a indispensável pedagogia da vontade popular expressa nas urnas, mesmo quando isso ia contra o ar do tempo, como sucedeu no histórico frente-a-frente televisivo com o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em 6 de Novembro de 1975.

Esse é o Soares que a História recordará.

Texto reeditado

Autoria e outros dados (tags, etc)

So long, Leonard

por Helena Sacadura Cabral, em 12.11.16

20045489_6rWqo[1].jpg

Ando deliberadamente em época de más noticias. Leonard Cohen foi o meu companheiro de momentos menos felizes em que só ouvir a sua voz me tirava de amarguras. E foi também companheiro fiel das musicas que, ao som da sua voz, dancei nos braços de quem amava.

Só isto bastaria para sentir a sua partida. Acresce que gostava e gosto do que escreveu. Às vezes e sem sabermos bem porquê há almas que tocam a nossa e ficam para sempre ligadas às recordações que não queremos esquecer.
Com Cohen, como com Aznavour, a idade não conta, porque aquilo que nos toca é intemporal. Vou, por isso, ter muitas saudades deste velho canadiano, que foi jovem ao mesmo tempo que eu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

So long, Leonard

por Pedro Correia, em 12.11.16

 

      

      

      

      

       

      

 

 Leonard Cohen in memoriam.

Todas estas foram aqui canções do século. Hallelujah passou na voz de K. D. Lang.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Avalanche

por Inês Pedrosa, em 11.11.16

Morreu Leonard Cohen. Eu ter-lhe-ia dado um Nobel qualquer. Por exemplo, o da química. O meu corpo e a minha alma explicam porquê, desde que, aos 11 ou 12 anos, ouvi pela primeira vez esta canção. So long, Leonard. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Menos uma figura de referência

por Pedro Correia, em 27.10.16

Joao-Lobo-Antunes[1].jpg

 

De raros compatriotas podemos dizer que são figuras de inequívoco prestígio nacional. Era assim João Lobo Antunes - grande médico, grande cientista, grande escritor, grande humanista, grande intelectual, grande cidadão.

Cheguei a mencioná-lo aqui no DELITO DE OPINIÃO como um possível candidato a Presidente da República - cargo em que, sem desprimor para o actual titular, tenho a certeza de que representaria exemplarmente os portugueses e este País que ele tanto amou.

O seu desaparecimento, de algum modo prematuro, deixa-nos um pouco mais desamparados. Por andarmos tão carecidos de personalidades inspiradoras num tempo em que a mediocridade impera e a mediania se exibe travestida de excelência.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A minha "conversa" com João Lobo Antunes

por Alexandre Guerra, em 27.10.16

Tinha-me cruzado com o Professor João Lobo Antunes por duas ou três ocasiões, por motivos profissionais, mas nunca tinha falado (e nunca falei pessoalmente) com ele. Desses breves momentos, nunca fiquei com a ideia de que seria uma pessoa simpática, pelo contrário, daquilo que ia vendo e conhecendo do Professor João Lobo Antunes, enquanto personalidade pública, sempre o considerei algo elitista e pouco acessível (nada que me incomodasse), mas nunca tive dúvidas quanto à sua rara envergadura intelectual e, sobretudo, quanto à sua firmeza nas convicções ideológicas que tinha.

Em Maio último, por razões que um dia poderei contar, tive o privilégio de trocar alguns e-mails com João Lobo Antunes. Fiquei esmagado com a sua dureza de argumentos intelectuais e ideológicos. O professor foi impiedoso comigo, mas ao mesmo tempo concedeu-me o privilégio de poder rebater e contra-argumentar, tendo eu as devidas réplicas da sua parte.

Divergimos naquilo que era o âmago da questão, com João Lobo Antunes a expor os seus argumentos de uma forma duríssima, como nunca ninguém me tinha confrontado. Ao projectar a sua intelectualidade e ao exprimir as suas convicções, acabei por perceber que João Lobo Antunes me tinha concedido um estatuto merecedor do seu tempo e atenção.

No final, e depois de ter literalmente arrasado os meus pontos de vista, embora eu me tenha mantido firme em relação àquilo que defendia, o Professor João Lobo Antunes despediu-se de uma forma que nunca irei esquecer e que tanto me orgulha. Só um homem de tal inteligência, sofisticação e elegância responderia o que ele respondeu. Mas isso, fica só para mim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mário Wilson

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.10.16

thumbs.web.sapo.io-2.jpeg

 (1929-2016)

 

"Só nós sentimos assim"

Obrigado, meu capitão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A última "pomba" do Médio Oriente

por Alexandre Guerra, em 28.09.16

is_1922972c.jpg

Desde que me lembro de ter alguma consciência política e sensibilidade para as questões do mundo, que convivo quase diariamente com o conflito do Médio Oriente, seja em momentos de maior ou menor intensidade. Não estarei a exagerar se disser que aquela realidade israelo-palestiniana me tem acompanhado ao longo da vida, onde aliás já tive o privilégio de estar por mais que uma vez. Havia três figuras que faziam parte desse meu mundo: duas já morreram há uns anos; Ytzhak Rabin, em 1995, e Yasser Arafat, em 2004. E a terceira figura era Shimon Peres, que morreu esta manhã. Todos eles foram em tempos das suas vidas "falcões", que lutaram pela sua terra, mas morreram como "pombas" na tentativa de encontrar uma solução de paz para um conflito milenar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Barbosa de Melo

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.09.16

Barbosa de Melo.jpg

(Foto: LUSA) 

(1932-2016)

 

Foi um senhor. Como este são cada vez menos. A república, a democracia, o pensamento e a seriedade ficam muito mais pobres. Paz à sua alma.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Entre a lágrima e o sorriso

por Pedro Correia, em 26.08.16

De longe em longe somos surpreendidos pela notícia do desaparecimento de alguém que imaginámos imortal. Aconteceu-me em Abril de 2015 com Manoel de Oliveira, que partiu aos 106 anos: parecia-me inacreditável que um homem iniciado na aventura do cinema ainda na era do mudo, parceiro de tantas cenas com Vasco Santana na mítica longa-metragem A Canção de Lisboa, se mantivesse entre nós. Aconteceu-me há dias com o professor Moniz Pereira, personalidade que tanto admirei, campeão em várias modalidades e treinador de campeões - desde logo o incomparável Carlos Lopes, primeira medalha de ouro olímpica portuguesa: permaneceu connosco até aos 95 anos, despedindo-se no termo de uma vida cheia e a vários títulos exemplar.

Também na música acredito que vários dos meus ídolos são imortais. Gente maiúscula, que na maior parte dos casos já seduzia multidões muito antes de eu nascer e continua por aí: Vera Lynn (99 anos), Charles Aznavour (92 anos), Tony Bennett (90 anos), Juliette Gréco (89 anos), Harry Belafonte (89 anos), Chuck Berry (89 anos), Sonny Rollins (85 anos), João Gilberto (85 anos), Omara Portuondo (85 anos), Little Richard (83 anos), Jerry Lee Lewis (80 anos), Kris Kristofferson (80 anos) e Hermeto Pascoal (80 anos).

 

Toots Thielemans (1922-2016) 

 

Quando um nome grande da música se apaga sinto-me como quando era pré-adolescente, ao descobrir que afinal não existia Pai Natal.

Voltou a acontecer esta semana, ao saber da notícia do falecimento de Toots Thielemans: sempre o escutei, fascinado, desde que me lembro. Este belga míope e sem aura de vedeta era o homem dos desafios impossíveis em matéria musical: foi ele quem trouxe a harmónica para o jazz, casando o instrumento de que era exímio praticante com um género mais associado ao piano ou ao saxofone.

Foi um casamento longo e de inegável sucesso. Thielemans atravessou décadas no primeiro plano da arte musical, cativando sucessivas gerações que o ouviram em palco ou nos registos discográficos. E também no cinema, onde se escuta na abertura de Boneca de Luxo (1961) e na inesquecível banda sonora do pungente Cowboy da Meia-Noite (1969).

Tocou com quase todos os nomes grandes da música que lhe foi contemporânea - de Benny Goodman e Charlie Parker a Paul Simon, de Sidney Bechet e Miles Davis a Diana Krall. Passando por Ella Fitzgerald, Bill Evans, Dinah Washington, Dizzy Gillespie, Stéphane Grappelli, Oscar Peterson, Quincy Jones, George Shearing, Pat Metheny, Stevie Wonder, Milton Nascimento ou Elis Regina.

Reparem neste delicioso duo com a intérprete de Águas de Março em que Thielemans transforma o assobio em instrumento de luxo na mais célebre das suas composições, Bluesette:

 

 

A festa da música, a festa da arte, a festa da vida. Também por isto Toots Thielemans - que nos deixou esta terça-feira, aos 94 anos, apagando-se durante o sono - me parecia imortal.

Numa das ocasiões recentes em que foi homenageado na sua Bélgica natal este modesto cidadão do mundo que apenas queria ser um artesão esforçado, quase como se pedisse desculpa pelo talento, afirmou que na sua idade já só podia mover-se "nesse pequeno espaço existente entre a lágrima e o sorriso".

Legou-nos a música - e também esta suave sabedoria de vida que conservou até ao fim. Gigante sem parecer que o era, rumo ao pôr-do-sol enquanto os mágicos acordes da sua harmónica soavam já na eternidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ivo Pitanguy

por Helena Sacadura Cabral, em 07.08.16

ivo_pitanguy-777x437.jpg

 

Nunca fiz uma plástica. E espero não fazer, porque isso seria sinal de que algo teria acontecido, que me desfigurara. Nunca critiquei quem as faz, embora pense que elas são, na maioria dos casos, sinal de falta de confiança em si próprio. Mas nada tenho a opor, desde que isso contribua para um maior bem estar pessoal. Só que, ou eu tenho demasiada confiança em mim, ou me acho uma pessoa especial, ou tenho um medo terrível que me estraguem o que possuo, com o qual convivo há imenso tempo, e de que gosto muito.

Há uns anos, num almoço de lampreia em casa de amigos comuns, o meu querido Fernando Póvoas dizia-me que se eu fosse à sua clínica, ele me tirava 5 quilos e eu ficava óptima. Dei uma tremenda gargalhada e disse-lhe que quem levasse o meu coração, teria que levar o pacote todo, incluindo esses cinco quilitos. Continuámos bons amigos, eu não perdi e até aumentei o peso e quem levou o meu coração levou tudo no pacote, sem ter havido reclamação.

Vem isto a propósito da morte de Pitanguy, a quem muitas mulheres devem o terem passado a gostar de si próprias, numa altura da vida em que, acreditam, tudo está perdido. Apesar de não haver nada mais falso!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

1071371_orig[1].jpg

 Mário Moniz Pereira com Carlos Lopes em Janeiro de 1976: seis meses depois, o segundo conquistaria a primeira medalha olímpica de atletismo para Portugal

 

Mário Moniz Pereira foi um dos raros portugueses de excepção que tiveram o privilégio de ser homenageados várias vezes em vida: Medalha de Mérito Desportivo, Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, Comenda da Ordem da Instrução Pública, Medalha de Mérito em Ouro, Ordem Olímpica, Leão de Ouro com Palma, Grande Oficial da Ordem do Infante

Ao contrário do que é costume nas sociedades latinas em geral e na portuguesa em particular, mais dadas à veneração dos mortos.

 

Foi também o melhor representante da cultura leonina, pelo ecletismo de que sempre deu provas no seu  percurso pessoal enquanto praticante de ginástica, futebol, andebol, basquetebol, ténis, ténis de mesa, hóquei em patins, natação, tiro, equitação e esgrima.

Onde mais se distinguiu foi no voleibol, tendo sido duas vezes campeão nacional (1953/54 e 1955/56), a última também como treinador. E acima de tudo no atletismo, começando pelo título de campeão universitário de Portugal no triplo salto: aqui, como treinador e dirigente com o pelouro das modalidades, conquistou tudo quanto havia para conquistar: provas e campeonatos no plano nacional, europeu, mundial e olímpico. Com destaque para a primeira medalha de ouro portuguesa em Olimpíadas, obtida por Carlos Lopes em Los Angeles, na inesquecível madrugada de 13 de Agosto de 1984, quando nenhum português conseguiu dormir.

 

Mas na hora da despedida do Senhor Atletismo, ilustre sócio n.º 2 do Sporting Clube de Portugal, conclui-se com tristeza que faltou a homenagem que ele mais desejaria: o regresso da pista de atletismo ao estádio do clube.

Pista que o pioneiro Estádio José Alvalade orgulhosamente possuía e foi utilizada por milhares de atletas - em benefício da instituição leonina e do desporto português. Pista que a partir de 1979 passou a ser de tartan, por insistente reivindicação de Moniz Pereira, no rescaldo da medalha de prata obtida na prova dos 10.000 metros dos Jogos Olímpicos de Montreal por Carlos Lopes, o mais brilhante dos seus pupilos. Pista que se perdeu em 2003: o projecto encomendado a Tomás Taveira - só virado para o futebol, esquecendo o ecletismo que é marca distintiva do Sporting - não a contemplava. Nem foi possível reparar o erro, apesar de o custo final do novo estádio ter excedido em 75% o montante inicialmente estipulado.

De todas as homenagens, esta teria sido a que ele preferiria. Foi a única que ficou por concretizar.

Publicado originalmente aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mário Moniz Pereira (1921-2016)

por Pedro Correia, em 31.07.16

O Senhor Atletismo - campeão e treinador de campeões, um dos maiores desportistas de todo os tempos, o homem que nas décadas de 70 e 80 pôs o País a correr - acaba de perder a última corrida. Só a morte o venceu, ultrapassada já a meta dos 95 anos.

Era um grande sportinguista, respeitado por pessoas de todos os quadrantes. Um grande desportista, um grande cidadão, um grande português. Era, em suma, um grande Senhor. Com uma personalidade exemplar - a todos os níveis. Desportivo, artístico, cívico.

Infelizmente temos entre nós cada vez menos figuras verdadeiramente nacionais. Mário Moniz Pereira era uma delas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Como se o golo fosse só para nós

por Pedro Correia, em 26.07.16

Aos olhos de um miúdo, não há melhor escola para aprender a ver futebol do que as tardes passadas nos estádios em companhia do pai. Aconteceu comigo. Ainda hoje recordo os nomes de futebolistas antigos que o meu pai ia desfiando enquanto víamos as partidas ao vivo, as histórias que me relatava a propósito dos desafios de outros tempos e as noções tácticas e técnicas do jogo que me ia passando nesses momentos irrepetíveis.

As modas mudam muito, mas certas tradições vão-se mantendo. Para um garoto destes dias, continua a ser emocionante ter a oportunidade de ver ao vivo os jogadores que figuram nas cadernetas de cromos, relíquia que persiste em acompanhar cada menino, temporada após temporada, no decurso das gerações.

 

Artur[1].jpg

Já era assim no meu tempo. Já era assim no tempo daqueles que me antecederam. Ainda hoje recordo a emoção que senti ao conseguir um autógrafo do Jacinto João após um jogo da Taça UEFA contra o Arad da Roménia à saída dos balneários do estádio do Bonfim. Juntei o autógrafo ao cromo do jogador, craque do Vitória de Setúbal, juntamente com o José Maria, o José Mendes, o Guerreiro, o Octávio Machado e o José Torres. E foi com imenso orgulho que o exibi aos colegas da escola.

Além do Sporting, sempre com lugar à parte, outra equipa em destaque nessa caderneta era a da Académica – a equipa dos “estudantes”, como então se dizia. Merecia-me especial admiração, incutida pela arguta pedagogia paterna, por demonstrar que o futebol não era incompatível com os estudos. Com Rui Rodrigues, Rocha, Vítor Campos, José Belo, Gervásio, Manuel António e um tipo que dava nas vistas por ser muito louro. Chamavam-lhe ‘ruço’ e tinha o mesmo apelido que eu. O Artur Correia.

 

Ele e o Rui Rodrigues – um defesa elegante, que cultivava a arte de desarmar sem falta – viriam a decepcionar-me quando se transferiram para o Benfica. Mas fui acompanhando o percurso do ‘ruço’, um lateral de enorme mobilidade, que percorria o corredor direito num constante vaivém e sabia centrar com precisão. Eram dois jogadores que gostaria de ter visto no Sporting.

E acabei mesmo por ver um deles de verde e branco. O Artur, que em 1977 se transferiu para Alvalade. Lá permaneceu três épocas, vencendo a Taça de Portugal em 1978 e sagrando-se campeão nacional em 1980. Um ano de glória, um ano de infortúnio: quatro meses depois do título, jogando já nos Estados Unidos, sofreu um AVC que o afastou para sempre do futebol. Tinha apenas 29 anos. Começava aí uma longa via crucis só agora terminada, quando nos deixou de vez. No ano passado tinham-lhe amputado uma perna – supremo sofrimento para quem, como ele, tão bem jogou futebol.

 

SE226WC5.jpg

Artur Correia com a Taça de Portugal conquistada pelo Sporting (1978) 

 

Lembrei-me ontem do meu pai quando soube da notícia da morte do Artur Correia. Porque o último jogo que vi ao vivo com ele, nas bancadas do Estádio Nacional, foi o único em que o Artur marcou com a camisola da nossa selecção. A 1 de Novembro de 1979, num desafio de qualificação para o Campeonato da Europa do ano seguinte.

Recordo-me perfeitamente. Os noruegueses marcaram primeiro, gelando o estádio. A nossa equipa acusou o golo e andou perdida em campo. Até que o Artur pega na bola lá atrás, avança com ela com uma vontade indómita de virar o resultado, ultrapassa todos os adversários e dispara uma bomba a mais de 30 metros da baliza, num remate muito bem colocado. Empatava a partida, a sorte do jogo virava. Viríamos a ganhar 3-1.

Foi um golo do outro mundo: nunca mais o esqueci. Estávamos na curva sul do estádio, um pouco acima da baliza norueguesa. Abracei-me ao meu pai como nos tempos em que ainda colava cromos na caderneta. E ele abraçou-se a mim como se eu fosse ainda o catraio que antes levava pela mão, de jogo em jogo.

Parecia que aquele golo tinha sido marcado só para nós.

 

Iria tornar-me adulto, depois rumei a outras paragens, não regressei com o meu pai ao futebol - nem em pensamento. Até agora, mal soube que o Artur perdera a  última partida no traiçoeiro campeonato da vida.

Voltei a abrir a velha caderneta, desenterrei os autógrafos do pó do arquivo, imaginei-me a falar com uma remota voz infantil. E senti que o Pai me escutava, de polegar erguido, apaziguando todos os meus receios: “Tenho a certeza de que vamos vencer.”

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Se for preciso corte metade"

por Pedro Correia, em 06.07.16

image[1].jpg

Nuno Rocha (1933-2016) 

 

Vejo-me nas fotografias, miúdo ainda, naquele grupo em que todos eram mais velhos que eu. Mas tratávamo-nos por tu e as hierarquias eram muito mais diluídas nessa época, apesar de circular nas redacções uma frase importada das casernas: “A antiguidade é um posto”. Na hora de bulir, todos arregaçavam as mangas e aceleravam o passo: ninguém ia pavonear-se para as televisões armado em general, todos se comportavam como soldados.

Vejo-me a entrar naquela Redacção, num primeiro andar ao Príncipe Real que na sala maior funcionava como piso térreo, enquanto desfilava perante mim uma espantosa galeria de personagens de um romance que talvez ainda venha a ser escrito. Uma delas era o director do jornal, um portuense transplantado para Lisboa que ganhou fama como repórter do Diário Popular. No célebre “baile do século”, oferecido pelo magnata Antenor Patiño e realizado na última noite da vida política de Salazar, furou o veto à entrada de jornalistas disfarçando-se de empregado de mesa. Pôde ser assim o único a contar a história.

 

O director escrevia artigos copiosos – linguados, como se dizia no jargão profissional da época – que não tinha a menor paciência para rever.

Um dia, era eu ainda estagiário, chamou-me para que lhe corrigisse os erros de ortografia. E logo partia para outra prosa. Às vezes dava-me a impressão de que ele escrevia sozinho metade daquele semanário, contínuo sucesso de vendas, que ostentava como título de glória um comício em Almada em que o general Vasco Gonçalves lhe chamou “pasquim”.

Chamava-se Tempo, feliz título que define toda uma época já passada e que não regressa. Os nossos maiores concorrentes eram dois outros semanários (Expresso e O Jornal), a informação processava-se a um ritmo muito mais vagaroso do que o actual, podíamos dar-nos ao luxo de guardar notícias para só divulgar na quinta-feira.

E toda a gente lia jornais: eram frequentes as tiragens acima dos cem mil exemplares, números impensáveis para os dias de hoje. Havia quem comprasse só para ler um colunista: o Manuel de Portugal, por exemplo, era um sucesso sem par. Recebíamos chamadas de cidadãos anónimos a perguntar se podíamos “transmitir uma palavra de agradecimento àquele senhor que tanto gosto de ler”.

 

O director dos artigos copiosos era o Nuno Rocha. Morreu ontem, aos 83 anos, esquecido do mundo, alheado do fluxo informativo que durante tantas décadas o fez produzir um número incontável de notícias.

Desaparece num momento em que o jornalismo se transfigura por completo, frágil como nunca, transformado num voraz mecanismo reprodutor de desempregados em série, sem metade do prestígio social que teve nas décadas precedentes. A relação polifacetada do jornalista com a vida transformou-se numa relação estritamente monogâmica com um ecrã de computador.

O servo da gleba ressuscitou no servo da tela.

 

Nessa altura, não. Havia tempo para trabalhar no duro e tempo para nos afastarmos do som estridente das máquinas de escrever e dos telefones que não paravam de tocar, alargando horizontes, convivendo, fazendo amizades, conhecendo mundo. O Nuno Rocha tinha muitos defeitos, mas sabia dar oportunidades a quem começava. Aos 20 anos, pôs-me um bilhete de avião nas mãos e enviou-me como repórter para uma eleição na Grécia. Aos 21, mandou-me entrevistar figuras como Jorge Amado, Alvin Toffler (morreu por estes dias), Björn Borg e Jorge Jardim. Aos 22, deu-me carta branca para reformular o suplemento de artes e espectáculos, com novos temas, novos colaboradores e novo grafismo.

Continuava a escrever copiosamente, continuava a viajar como se não houvesse amanhã, ditando prosas ao telefone das mais diversas paragens. Na redacção, sempre sentado à secretária, o Chefe Peixe Dias conferia-lhe a pontuação e abria-lhe parágrafos nos textos com paciência de bom samaritano.

Chamávamos-lhe assim mesmo: Chefe – algo que nunca chamei a mais ninguém. Hoje só os cozinheiros merecem tal título, o que se adequa muito ao ar do tempo.

 

Ali, naquele semanário de direita onde não faltava gente de esquerda, fiz amizades para a vida. A Teresa e o Fernando, que me acompanham no DELITO. O António Ribeiro Ferreira, o Paulo Portas, o Carlos Santos Pereira, o Paulo Reis, o Ramos André, o Júlio Santos, o Carlos Pires, o António Duarte (o que será feito dele?), o Luís Marinho, a Helena Vieira, o Paulo Camacho, o António Fontoura, a Anabela Saint-Maurice, a Ana Guedes, o Jorge Nuno Oliveira, o Horácio Piriquito, o Jorge Botelho Moniz, o Vítor Pereira, o João Líbano Monteiro, a Eva Cabral, a Leonor Ribeiro da Silva, o Alcides Pinto, o Eduardo Sousa, o Augusto Teixeira, o Luís Costa Ribas, o Alfredo Canana. O Octávio Saldanha, o José Vasconcelos, o Ilídio Barreto e o Jorge Alves Oliveira, que nunca mais vi.

E tantos outros: Raul Alves Fernandes, Palmira Correia, Gouveia de Albuquerque, Isabel Atahide Cordeiro, Luís Fraga, Wilton Fonseca, Jorge Massada, Noé Ramos, Piedade Paulo. Alguns que já cá não estão: a Margarida Viegas, o Händel de Oliveira, o José Neto, o Albano Matos, o João Isidro, o Carlos Basto, o Jorge Pereira de Almeida, o José Paulo Canelas.

Aprendi quase tudo quanto conheço nesta profissão com quase todos eles. Porque então havia tempo para os mais velhos ensinarem os mais novos. E para os mais novos levarem na cabeça dos mais velhos. E corrigirem os textos. E reescreverem tudo desde o início, se fosse necessário.

 

Hoje imprime-se o erro sem que ninguém o detecte. Porque anda tudo a cem, porque cada um só sabe de si, porque todo o homem é uma ilha e a profissão deixou de ser um vasto arquipélago. E o jornalista – agora convertido em “profissional multimédia” nesta era já sem chefes em que a antiguidade deixou de ser um posto para ser posta de lado – quase perdeu até direito ao nome. É um número numa folha de cálculo.

Nunca a tecnologia foi tão desenvolvida. Nunca se esteve tão à distância do mundo real.

As “fontes” deixaram de ser criaturas de carne e osso, interlocutores a quem era possível encarar olhos nos olhos: tornaram-se seres virtuais, uma voz ao telefone, dois correios electrónicos, três sucintas mensagens num telemóvel.

Hoje ninguém se daria ao incómodo de se disfarçar de empregado para penetrar na festa de um Patiño: as dondocas que lá estivessem encarregavam-se da “reportagem” com trinta selfies a ilustrar. Saía na página quatro do jornal gratuito, três minutos para ler no metro, com títulos replicados nos rodapés das televisões e das farmácias de serviço entre o mais recente atentado no Bangladeche e a nova tatuagem da velha estrela do futebol.

 

O Nuno Rocha, meu primeiro director num jornal a sério, já cá não está para relatar os factos da semana. Nem o Chefe João Peixe Dias poderia voltar a aparar-lhe a prosa enquanto cofiava o bigode em gestos nervosos, de eterno cigarro a arder-lhe nos dedos.

“Se for preciso corte metade”, dizia o director. E o Chefe cortava. Outros tempos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Elie Wiesel: nunca esqueceremos

por Inês Pedrosa, em 03.07.16

19745377_sLn63[1].jpg

 

Morreu hoje, 2 de Julho, aos 87 anos, a última das grandes vozes literárias do Holocausto: Elie Wiesel. "Noite" narra a sua experiência de prisioneiro nos campos da morte de Auschwitz e Buchenwald, de onde foi libertado aos 16 anos. Enquanto o lermos, enquanto passarmos a sua palavra, Wiesel continuará vivo. E os milhões de assassinados do horror nazi não serão esquecidos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Muhammad Ali (1942-2016)

por Luís Menezes Leitão, em 05.06.16

Nasceu Cassius Clay e foi com esse nome que se tornou famoso no mundo do boxe. Não hesitou, porém, em mudar de nome quando se converteu ao islamismo, essencialmente por influência de Malcom X, que também tinha abolido o seu apelido. Clay era um apelido herdado do patrão de escravos e ele queria usar um nome livre. Por isso obrigou o mundo inteiro a tratá-lo por Muhammad Ali.

 

Ali não era apenas um pugilista. Era também um activista político, que gostava de marcar com clareza as suas posições. Em 1967 recusou-se a combater no Vietname, dizendo que nada tinha contra os vietnamitas, já que nenhum deles alguma vez lhe tinha chamado Nigger. Por isso expulsaram-no do boxe e chegaram a condená-lo a uma pena de prisão, mas Ali voltaria a retomar a carreira, anulando a condenação. Os seus combates de 8 de Março de 1971 com Joe Frazier (Fight of the Century), de 24 de Janeiro de 1974 com George Foreman em Kinshasa (Rumble in the Jungle) e de 1 de Outubro de 1975 em Manila, novamente com Joe Frazier (Thrilla in Manila) marcaram a história do boxe. 

Ali tinha uma profunda vaidade, considerando-se sempre o maior. E para mim, quando acompanhei durante a minha adolescência os seus combates de boxe, era-o efectivamente. O seu estilo de combate era demolidor e ele próprio o definiu: pairava como uma borboleta e picava como uma abelha. Por isso lembro-me perfeitamente do choque que sofri quando num dia de 1978 o vespertino A Capital surge com a primeira página a dizer "Rei Ali derrotado por Spinks". Para mim era inconcebível que um gigante como Muhammad Ali pudesse ser derrotado por um pugilista menor, que num único combate lhe roubou todos os títulos do boxe.

 

O mito acabou aí. Muhammad Ali ainda voltaria a combater com Spinks, recuperando o título, mas, em lugar de se retirar, insistiu em defrontar Larry Holmes. Nessa altura antecipei o que se iria passar. Holmes aconselhou Ali a retirar-se em glória, mas ele insistiu em combater e continuou com a gabarolice do costume, garantindo que iria esmagar Holmes. Na altura apareceu de bigode e inventou um terceiro nome para si próprio ("Dark Gable"), que nunca pegaria. Mas em 3 de Outubro de 1980, no Caesars Palace em Las Vegas, num combate que ficou conhecido como The Last Hurrah, Ali seria derrotado ao 10º round. Nessa altura já eram evidentes os primeiros sinais da doença de Parkinson, tanto assim que Ali foi obrigado pela Comissão de Boxe do Nevada a fazer um exame neurológico na Clínica Mayo, mas apesar disso, numa decisão muito criticada, a Comissão autorizou o combate. E como não poderia deixar de ser, o resultado foi que Larry Holmes trucidou Muhammad Ali.

Ali passaria o resto da vida a lutar contra a doença de Parkinson. Para uma pessoa como ele, que achava que vencia sempre e para quem o impossível não era um facto mas uma opinião, até o Parkinson poderia ser vencido. Chegou a dizer: "Quem é esse Parkinson, a quem ganhou e em que livro de recordes está?". Nos restantes anos da sua vida ficaria a conhecer muito bem esse adversário e de facto combateu-o até à exaustão. Ontem perderia finalmente o combate da sua vida, mas ficou a lenda do maior pugilista de todos os tempos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pintores sem prazo de validade

por Pedro Correia, em 27.05.16

 

Querubim_Lapa_Costureiras_1949[2].jpg

Costureiras, quadro de Querubim Lapa (1949)

 

"Leva muito tempo tornarmo-nos jovens"

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O'Keeffe (que morreu aos 98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Ticiano (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Cruzeiro Seixas (95 anos), Albert Bertelsen (94 anos), Júlio Pomar (90 anos), Leon Kossoff (89 anos), Manuel Cargaleiro (89 anos), João Abel Manta (87 anos), Arnulf Rainer (86 anos), Jasper Johns (86 anos), Nikias Skapinakis (85 anos) e Frank Auerbach (85 anos).

 

Lembrei-me disto há dias, ao saber que o grande Querubim Lapa se despediu de nós, com 90 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Morreu Paulo Varela Gomes

por Helena Sacadura Cabral, em 30.04.16

19546178_efsa5[1].jpg

 
"...Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro -- já não estaria aqui se assim não fora".

Estas são palavras do Professor Paulo Varela Gomes, ao tempo já em luta contra um cancro que há quatro anos lhe aparecera. Escritor, historiador de arquitectura e crítico, vai fazer muita falta a todos quantos o apreciavam e ao próprio país.
A primeira vez que ouvi falar no apelido Varela Gomes foi ao meu saudoso amigo Sérgio Sabido Ferreira, médico que o operou, a quando do golpe de Beja, sob forte fiscalização militar. Não o conhecia de lado nenhum. Fê-lo porque era um homem de carácter e um médico que jurara salvar vidas. 
Depois havia de ouvir falar da amizade que se teceu entre o seu filho Paulo e o meu filho Miguel. Viveram algumas perigosas aventuras juntas e uma delas foi a constituição do MAESL - Movimento dos Estudantes do Ensino Secundário- que deu origem à detenção de cerca de 150 estudantes, entre eles Portas e Varela Gomes.
Nessa ocasião, um energúmeno da PIDE havia de me telefonar às 11h da noite dizendo-me que o meu filho estava detido - tinha 13 anos - tendo-me invectivado de tudo e mais alguma coisa, antes de me dizer que o fosse buscar. Lá encontraria a mãe Varela Gomes e uma centena de pais a aguardar a saída dos filhos. O nosso encontro foi surreal, eu furiosa de ele me não ter avisado, ela orgulhosa da detenção, a dar-me lições de política. Finalmente o Miguel apareceria de cabeça rapada já por volta das 3 da madrugada. Se encontrasse, de novo, o homem que lhe fez aquilo, teria o prazer de o descompor. Isto se não me chegasse a ele para o esbofetear. E eu era uma mulher de mão pesada...
O tempo havia de me tornar sua admiradora, mesmo quando não concordava com ele. Julgo que se terá tornado católico no fim da sua vida. Mas o que me leva a admirá-lo mais ainda foi a dura luta que travou contra essa malvada doença que também levou o Miguel. Adoeceram em tempo próximo e o Paulo subirá ao céu a tempo de celebrar o dia do aniversário do amigo, que é amanhã!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tão longe e tão perto, Zé Paulo

por Pedro Correia, em 13.04.16

P7140006[1].JPG

 

Sentimos que começamos a envelhecer quando cada vez mais gente à nossa volta nos trata por você em vez de tratar por tu. Na segunda-feira despedi-me de uma pessoa que me tratava por tu há 33 anos - outra pessoa que parte cedo de mais, outra pessoa com quem ficaram tantas conversas por partilhar. Foi o José Paulo Canelas, um grande profissional do jornalismo, um amigo de décadas.

 

Éramos absurdamente novos, absolutamente infatigáveis, ingenuamente crentes de que seríamos capazes de tornar realidade todos os sonhos. Eu editava na altura o segundo caderno do semanário Tempo, um dos jornais com maior tiragem à época, e havia decidido remodelá-lo alterando-lhe o grafismo e até o nome - passou a chamar-se Fim de Semana. Obtive luz verde da direcção para contratar novos colaboradores e colunistas - de uma geração mais jovem e com uma linguagem mais arejada e dinâmica.

Entrou assim em cena o José Paulo, que passou a ter a seu cargo duas páginas de temas desportivos - era já então a área que preferia. Trabalhámos juntos, semana a semana, durante quase três anos: posso garantir que foi um dos raros colaboradores que não falharam um prazo. Oferecia sempre mais do que lhe era pedido em textos que me chegavam irrepreensíveis às mãos - ao contrário de outros, que precisavam de ser profundamente alterados ou mesmo refeitos de alto a baixo após julgamento sumário e condenação à guilhotina.

Finda esta experiência, reencontrámo-nos durante alguns meses na revista Nova Gente, onde fui um fugaz subchefe de Redacção. Trabalhávamos imenso mas divertíamo-nos na mesma proporção naquela indescritível cave em Queluz onde não decorria um dia sem um toque surreal. Com histórias que davam para um bom livro, garanto-vos. Ou para trechos de filmes de um Buñuel ou um Fellini.

 

Depois os nossos destinos separaram-se. Eu saí de Portugal, andei dez anos por fora, cumpri o sonho de dar a volta ao mundo. Ele seguiu a rota do jornalismo desportivo, para a qual tinha genuína vocação: passou pela Gazeta dos Desportos e pelo Record, e chegou a subdirector do diário O Jogo. Como sucede a quase todos nós, sucedeu-lhe então uma inesperada alteração de rota, especializando-se noutra área do jornalismo: chegou a director da revista TV 7 Dias e era agora subdirector da TV Guia, embora em situação de baixa há cerca de um ano.

Foi quando exercia funções directivas n' O Jogo que, estando eu de regresso ao País e sem trabalho, recebi um telefonema dele a convidar-me para editor do jornal em Lisboa. Algo que jamais esqueci, jamais esquecerei. Só quem nunca passou pelo desemprego é incapaz de avaliar a importância destes gestos.

 

Na igreja do Santo Condestável, ao princípio da tarde de segunda-feira, dizia-me o Fernando Sousa, seu primo-irmão, que o José Paulo Canelas, por mais atarefado que andasse, nunca perdia de vista os amigos e tentava sempre ajudá-los. Sou testemunha directa desta generosidade. Sempre discreta, muito à maneira tímida dele, quase como se precisasse de pedir licença para nos mostrar que tinha um coração enorme.

Naquele momento triste, reencontrando após tantos anos parte da "minha" equipa da Nova Gente, foi possível sorrirmos juntos ao lembrarmos episódios irrepetíveis em que fomos protagonistas. O espírito do Zé Paulo permanecia intacto, ali connosco.

Por breves instantes, inspirados por ele, voltámos a ser miúdos outra vez. De uma alegria contagiante, de uma energia inesgotável, com a sensação de que não há metas impossíveis e temos um tempo sem limite pela frente.

Tratamo-nos todos por tu e combinámos jantar. O Zé Paulo vai lá estar também.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Where have all those songs gone?

por Pedro Correia, em 28.03.16

 

Este ano, ainda sem atingir um quarto de duração, está a ser terrível para a música. Pelo desaparecimento de vários nomes grandes desta arte, nas suas mais diversas facetas.

Em Janeiro vimos partir Pierre Boulez, David BowieOtis Clay, Hubert Giraud (que compôs canções célebres da canção francesa, como Sous le Ciel de Paris e Mamy Blue), Black (que nos legou Wonderful Life), o guitarrista dos Eagles, Glenn Frey (inesquecível, o seu contributo em temas como  Hotel California e Tequila Sunrise), Michel Delpech (com o seu eterno  Wight is Wight) e dois pilares dos Jefferson Airplane, Paul KanterSigne Toly Anderson.

Em Fevereiro desapareceu Maurice White, vocalista dos Earth, Wind & Fire. Logo seguido de Dan Hicks e Rey Caney. E este Março que ainda não chegou ao fim já se despediu, entre outros, de Naná Vasconcelos, do grande George Martin (que bem mereceu o cognome de Quinto Beatle pela roupagem musical que deu a Eleanor RigbyShe's Leaving Home  e  A Day in Life, entre tantos outros temas) e Frank Sinatra Jr.

Um mês que viu partir também, de forma trágica, um dos ícones da minha adolescência: Keith Emerson, compositor e teclista do trio Emerson, Lake & Palmer. Escutei-os inúmeras vezes - tardes sem fim, noites intermináveis, até os discos se gastarem de tanto rodar sob a agulha: Tarkus, Pictures at an Exhibition, Brain Salad Surgery, Works.

Emerson, segundo li nas notícias, andava deprimido há meses. A depressão tê-lo-á levado a "pôr termo à vida", como se escreve no modo eufemístico tão em voga em certas redacções que cultivam um estilo inócuo e contentinho. Com ele - e creio poder falar pela minha geração melómana - é um pouco mais da nossa juventude que parte também, num adeus irreversível aos dias em que cantávamos Lucky Man. Crentes de que as manhãs inundadas de sol jamais teriam fim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um triste adeus ao Sr. Contente

por Pedro Correia, em 14.03.16

ng1319309[1].jpg

 

Grande actor – de teatro, cinema e televisão – Nicolau Breyner era uma das raras figuras de indiscutível dimensão nacional: tornou-se popular junto de portugueses das mais diversas gerações. Começou a trabalhar muito cedo, no início da década de 60, e ainda coexistiu nos palcos com gigantes da arte de representar, como António Silva e Ribeirinho. E trabalhou até ao fim, com jovens colegas que tinham idade para serem seus netos.

Artista multifacetado, tão à vontade na comédia como no drama, também evidenciava qualidades humanas que amigos e colegas têm recordado desde que, há um par de horas, soubemos todos da inesperada notícia do seu falecimento. Num meio muito fértil em invejas e rivalidades de todo o tipo, poucos conseguiram ser tão consensuais como ele. Apesar de estar nos antípodas da correcção política e nunca ter escondido as suas convicções – no plano estético, ideológico e até religioso.

 

 

Como tantos de nós, lembro-me dele desde sempre. Na televisão (onde em 1975 fez parar o País com o seu programa Nicolau no País das Maravilhas, em que popularizou o duo “Sr. Feliz e Sr. Contente”, ao lado de um Herman José em início de carreira). Na telenovela (onde foi pioneiro em 1982, como autor e actor, com a sua Vila Faia, que rompeu o monopólio brasileiro). No teatro (não esqueço a magnífica actuação dele em 2005 na peça Esta Noite Choveu Prata, monólogo de Pedro Bloch, em que se repartia por três personagens). E no cinema, em filmes tão diversos como A Vida é Bela?! (de Luís Galvão Teles, 1982), a cuja estreia assisti, e Os Imortais (de António-Pedro Vasconcelos, 2003), com um inesquecível desempenho no papel do inspector Joaquim Malarranha. O último foi há pouco mais de um ano, noutro filme de Vasconcelos, Os Gatos Não Têm Vertigens, em que fazia um papel emocionado e emocionante ao lado de Maria do Céu Guerra.

Entrevistei-o duas vezes, uma das quais durante um jantar que partilhámos há pouco mais de uma década no Estoril em que deixou bem evidente outra faceta que tantos têm sublinhado: era um magnífico conversador. E um homem gentil, que também sabia escutar.

 

 

Nicolau, o Sr. Contente, teve uma vida cheia, repleta de episódios que dariam para vários livros e muitos filmes. Partiu hoje sem avisar, como por vezes lhe sucedeu em vida quando decidia pôr fim a uma etapa e iniciar outra. Para ele o tédio era uma espécie de pecado mortal.

Deixa-nos um pouco mais pobres e muito mais tristes. Mas com a recordação inapagável do seu talento, capaz de suscitar lágrimas e provocar sorrisos – numa perfeita simbiose da dualidade humana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

So long, Nancy

por Pedro Correia, em 08.03.16

Ronald_Reagan_and_Nancy_Reagan_aboard_a_boat_in_Ca

 

Um bom exemplo de obituário jornalístico: a evocação de Nancy Reagan (1921-2016) por Lois Romano no Washington Post.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Interventivo e activo até ao fim

por Pedro Correia, em 19.01.16

1be98d8e-6afb-4709-892d-f973d43c586c[1].jpg

 

Fui apanhado de surpresa, como aconteceu com quase todos nós. Ainda há dois dias o vi nas imagens televisivas, num almoço de apoio a Maria de Belém. Tinha a voz sumida e um aspecto mais frágil do que era costume, mas supus que estivesse engripado. António de Almeida Santos, que estava a poucos dias de completar 90 anos, era um daqueles homens que parecem não ter idade. Sempre aparentou ser mais jovem do que o bilhete de identidade indicava. Praticava ginástica diariamente, com disciplina espartana, e não deixava de dar umas braçadas de natação durante as férias estivais - incluindo na Beira Alta, região do seu berço e dos seus afectos mais profundos.

 

Era de uma elegância requintada - ia a escrever antiga, como quase já não  há. Elegância física mas também no trato social e na vida cívica. Calejado em duras contendas políticas, desde os tempos da academia coimbrã, nunca deixou de respeitar os adversários. Não me recordo de uma só ocasião em que lançasse algum sarcasmo insultuoso ou uma palavra de menosprezo gratuito a quem não pensasse como ele. Pelo contrário, não perdia uma oportunidade para fazer a pedagogia da tolerância, infelizmente tão arredada dos nossos costumes actuais.

Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente e de manter com ele muitas conversas nos meus tempos de jornalista parlamentar. Já escrevi algumas vezes sobre essa época em que nos corredores da Assembleia da República circulavam algumas das melhores personalidades da nossa vida política. Personalidades como João Amaral, José Medeiros Ferreira e Maria José Nogueira Pinto, por exemplo - infelizmente já desaparecidas.

Aprendi alguma coisa com todas elas. E não esqueço essas lições.

 

Almeida Santos tinha sempre uma palavra amável, um momento disponível, um gesto fraterno para os jovens jornalistas que o procuravam na tentativa - nem sempre conseguida - de obter uma notícia. Nunca elevava o tom de voz, jamais perdia a compostura, parecia incapaz de se imaginar num inacessível pedestal. Como se ali não estivesse um homem com currículo e biografia, que foi ministro, presidente da Assembleia da República, conselheiro de Estado, presidente do PS, um dos principais legisladores da democracia portuguesa. Um homem que parecia conhecer toda a gente e ter estado em todos os momentos decisivos da vida nacional do último meio século - incluindo o processo de descolonização, que lhe valeu severas críticas cujos ecos não se dissiparam por completo.

Tinha a aparente modéstia característica das pessoas realmente influentes. Na política, como na vida, foi um verdadeiro maratonista: preferia seguir pelo seu passo enquanto via avulsos velocistas acelerar à sua volta para se estamparem três curvas adiante.

Era uma daquelas pessoas que pareciam eternas. Até por isso a inesperada notícia da sua morte, há um par de horas, me deixou tão consternado.

 

Guardarei dele a memória de um senhor sábio e paciente, de pose amena e voz pausada, cioso da sua privacidade sem esquecer que nenhum homem é uma ilha, capaz de resistir à cruel erosão do tempo como se o calendário fosse um aliado e não um inimigo.

Daí ter permanecido interventivo e activo até ao fim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Alan Rickman (1946 - 2016)

por João Campos, em 14.01.16

alan rickman_hans grubber.jpg

Hans Grubber. Xerife de Nottingham. Alexander Dane/Dr. Lazarus. Severus Snape. E outros, tantos outros. 

 

Dias depois de David Bowie nos deixar, parte também o grande Alan Rickman. Se me permitem, 2016 está a ser uma bela treta. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

David Robert Jones

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.01.16

(8/01/1947 - 10/01/2016)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Primeiro de Dezembro à vista

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.11.15

vela laranja.jpg

"As informações recolhidas nas reuniões com os parceiros sociais e instituições e personalidades da sociedade civil confirmaram que a continuação em funções do XX Governo Constitucional, limitado à prática dos a[c]tos necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos, não corresponderia ao interesse nacional." - Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República 

 

Espero que a coligação PSD/CDS-PP não se esqueça de propor um voto de louvor à actuação do Senhor Presidente da República. É o mínimo. O homem não conseguiu fazer melhor. E não foi por falta de esforço ou por se esquecer dos amigos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

So long, Maureen

por Pedro Correia, em 24.10.15

quietman_maureen-ohara[1].gif

 

Maureen O' Hara, a fogosa irlandesa que seduziu dois dos maiores mestres do cinema, John Ford e Alfred Hitchcock, materializou-se de filme em filme como uma singular força da natureza. Hitch deu-lhe o estrelato em A Pousada Jamaica (1939), última longa-metragem que rodou em Inglaterra antes de rumar a Hollywood. Ford imortalizou-a numa sucessão de obras-primas, com destaque para  O Vale Era Verde (1941) e O Homem Tranquilo (1952). Nesta última película, repleta de cenas memoráveis, nenhuma se sobrepõe à do longo beijo que lhe rouba um John Wayne totalmente arrebatado por esta ruiva que não se vergava a homem algum.

 

5140f02830d5c.image[1].jpg

 

Tinha uma presença inconfundível no ecrã, onde sobressaía pela sua personalidade intensa e por aquela beleza solene que parecia insuflada por um sopro de eternidade.

Era uma das raras pontes que ainda nos ligavam ao cinema dos primórdios. Contracenou com Henry Fonda, James Stewart, Alec Guinness, Tyrone Power, Errol Flynn, Dana Andrews, Rex Harrison, Charles Laughton, Joel McCrea, John Garfield, Anthony Quinn, Melvyn Douglas, Ray Milland, Robert Young, Clint Eastwood. Conhecia bem Portugal, onde aliás rodou um filme intitulado Lisbon (em que escuta Anita Guerreiro a cantar o clássico Lisboa Antiga).

Retirou-se cedo dos estúdios de Hollywood, no início da década de 70. Ainda faria um filme em 1991 e trabalhou esporadicamente na televisão quando já tinha sido elevada à categoria de mito. Era uma das raras e mais queridas lendas vivas do cinema. Morreu hoje, tranquilamente, aos 95 anos. Deixando-nos a nós, que fomos seus fãs, com vontade de revisitar os seus melhores filmes em sessões contínuas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Assim a lembraremos

por Luís Naves, em 24.10.15

How_green_was_my_valley_from_web-detail-main.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O príncipe

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.10.15

FB_IMG_1444140899935.jpg

(Fotografia de Paulo Cabral Taipa)

 

"Meu Deus, como a sua presença eleva o nível da conversa!", disse-me Swann como que para se desculpar diante de Bergotte, ele que no meio dos Guermantes adquirira o hábito de receber os grandes artistas como bons amigos a quem se procura apenas dar a comer os pratos de que gostam, jogar os jogos ou, no campo, praticar os desportos que lhes agradam. (...) Eu dissera-lhe tudo o que sentia com uma liberdade que me surpreendera (...). Do mesmo modo que os padres, que têm a maior experiência do coração, podem melhor perdoar os pecados que não cometem, também o génio, que tem a maior experiência da inteligência, pode compreender melhor as ideias mais opostas às que constituem o fundo das suas próprias obras." - Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, Volume II, À Sombra das Raparigas em Flor 

 

Conheci-o em Novembro de 1986, num jantar em casa de um companheiro da juventude de meu pai. Eu chegara à cidade no dia anterior. Tinha vinte e quatro anos. Quando me conheceu perguntou-me o que fazia. Tímido, acabado de aterrar, lá lhe respondi, com a deferência devida para com quem é simpático, agradável, e nos recebe em terra estranha fazendo jus a um sorriso largo e bondoso sem nos conhecer de lado nenhum. Como se me conhecesse há uma eternidade. Disse-me para no dia seguinte ir ter com ele, ou quando quisesse, para tomarmos um café, ele estaria por lá. Lá era o Banco Nacional Ultramarino, em Macau. E ele era uma estrela. Ele era o Brás Gomes.

Frequentara a Escola Naval, de onde não saiu almirante, mas como em todos os locais por onde passava deixou um rasto de amigos, de companheiros, de conhecidos e desconhecidos que o admiravam. Pela simplicidade, pelo trato, pela educação. Com amigos comuns no ramo naval, nesse tempo voltámos a ver-nos várias vezes, nas mais diversas circunstâncias, em reuniões de amigos e em cerimónias oficiais. Sempre jovial, sempre bem disposto, uma referência onde quer que estivesse.

Amante das coisas boas da vida, gostava de estar com os seus amigos, de um bom convívio, de uma boa gargalhada, de uma refeição generosa ou de um vinho de excepção, transportava consigo toda a herança de um império. Da Índia aos pântanos da Guiné-Bissau, por onde andou no tempo da outra senhora. Tinha histórias e recordações de todo o lado, que relatava com prazer enquanto puxava do seu Lancero ou do seu Churchill.  

Quando Carlos Móia, de quem era amigo, chegou à vice-presidência do Benfica, conseguiu convencê-lo a trazer a equipa de futebol a Macau. Então treinada pelo grande capitão, Mário Wilson, tive o prazer de com ele ver, num épico final de tarde, o Benfica golear (8-0) a jovem e inexperiente Selecção de Macau.

O José Manuel Brás Gomes era a porta para tudo. Pelo BNU, em Macau, passou muita gente, muitos directores, mas ali Portugal tinha sempre um rosto e um nome: o dele.

Certamente que haverá pelas pátrias desse mundo outros parecidos com o José Manuel. Duvido é que haja algum igual. E nem sei se Portugal, algum dia, depois de ficar sem império, voltará a ter outro assim. Conhecia meio-mundo, e não precisava de conhecer a outra metade porque, em contrapartida, todo o mundo o conhecia. Não havia quem chegasse de Portugal, da China, do Brasil ou dos Estados Unidos, sem nunca ter posto os pés em Macau, que não trouxesse um cartão, uma carta, uma recomendação ou o número de telefone dele. Para simplesmente falar com ele, levar-lhe um abraço de alguém, encontrar um parceiro de negócios ou ser aconselhado sobre um bom restaurante. O número de negócios que proporcionou entre portugueses, chineses, macaenses e até alguns marcianos que lhe apareceram à frente é incontável. E a muitos ajudou a construírem fortunas.

Não havia vez alguma que o encontrasse que não tivesse um sorriso, uma palavra amiga, um abraço para oferecer. Até quando o Benfica perdia. Um dia, depois de alguns anos infindáveis e miseráveis, disse-lhe que se quisesse ser candidato eu apoiá-lo-ia para a presidência. Há tempos repeti-o entre amigos. Ele sorria, ria-se, piscava-me o olho e arrancava mais uma fumaça.

Apaixonado pelo ténis e pelo golfe, que praticava com assiduidade, recordo-me de com ele ter acompanhado o primeiro Open de Macau a contar para o circuito internacional. Corria mundo para jogar golfe. Um dia encontrei-o em Guam com a sua inseparável companheira, sua mulher, onde tinha ido experimentar os novos campos. Recordo-me, também, de uma manhã ter ido ter com ele ao banco, tendo ele acabado de chegar de férias. Perguntei-lhe onde tinha estado dessa vez. O olhar cintilante e um sorriso ainda mais largo abriram-se para me dizer duas palavras mágicas: St. Andrews! "Mas estava frio", acrescentou logo a seguir.

Não sei ao certo quantos governadores de Macau passaram por ele. Não sei quantos lhe ficaram a dever favores, muitos, atenções, gentileza, simpatia, boa educação. Nunca cobrou nada a ninguém. Nem aos chatos. E fazia questão que fosse mesmo assim. Era um tipo de uma seriedade à prova de bala. Podia ter saído do BNU e ter tido todas as "avenças" que quisesse, só que a sua liberdade, o seu espírito livre e rebelde, a sua honradez e o seu carácter nunca o permitiram. O José Manuel Brás Gomes podia ter sido Governador de Macau. E teria sido, seguramente, o melhor Governador de Macau. Porque o José Manuel Brás Gomes era acima de tudo um construtor de pontes, de estruturas sólidas e duradouras, que ainda por cima sabia conservar com elegância.  

De vez em quando contava histórias do fim do mundo, fazia-nos rir a bom rir. E, todavia, nunca ninguém lhe ouviu uma inconfidência ou soube da boca dele o que não pudesse ser conhecido. Sabia histórias de reis e de rainhas, de ricos e de pelintras simpáticos, do Spínola, de comandos e de fuzileiros, porque teve de lá andar com eles, e também de sacanas da pior espécie e de filhos da puta, que ele também conheceu alguns e distinguia-os à légua. Sabia os nomes deles todos. E gostava tanto de esquerdistas, de comunistas ou de socialistas, entre os quais sabia que eu me incluía, como gostava de sportinguistas. Porém, duvido que algum tivesse deixado de ser seu amigo ou de lhe dar um abraço por essa razão. O José Manuel era franco, leal, directo, um modelo de cavalheiro. Um senhor.

Ultimamente tive o privilégio de estar com ele com mais frequência. Estava com mais disponibilidade, fosse no Clube Militar, do qual era membro da direcção, ou noutro lado qualquer. Encontrava-o regularmente às sextas-feiras, nas reuniões do nosso "Comité Central". Nos últimos tempos não apareceu. Não podia. Falei com ele ao telefone, há duas semanas, como muitas vezes fazemos com os "camaradas" ausentes sempre que nos reunimos. Não sabia quando regressaria. Avisei-o de que iria ver os jogos com o Galatasaray e o Boavista. Confidenciou-me que ainda estaria por Lisboa nessa altura. Disse-me para lhe ligar quando chegasse, para irmos almoçar. Já não chegarei a tempo.

O príncipe, o José Manuel Brás Gomes, foi-se hoje embora. Vamos todos sentir a sua falta. A esta hora estará a cear noutras paragens, construindo novas pontes. Ou a acender um charuto entre amigos. Rindo a bom rir, espalhando classe, educação e muita liberdade. Era o que melhor sabia fazer.

Portugal, mais do que a muitos outros, fica a dever-lhe o fim honroso do império. Sozinho ele valia por um exército.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Je suis Vilhena

por Pedro Correia, em 03.10.15

GaiolaAberta__68[1].jpg

imagesG6X3N5IQ.jpg

imagesWIF3W0Y4.jpg

img_222341532_1411332590_pbig[1].jpg

0economia[1].jpg

Soares[1].jpg

Inconfundíveis desenhos de um dos dos maiores autores satíricos portugueses do século XX: José Vilhena (1927-2015)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma Senhora

por Pedro Correia, em 07.07.15

18253618_RzvD3[1].jpg

Maria Barroso com Augusto Figueiredo na peça Benilde ou a Virgem Mãe (Teatro Nacional, (1947)

 

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Há pessoas assim: capazes de nos cativar com um sorriso bondoso, uma palavra certeira, um olhar meigo, um gesto sereno, um tom de voz pausado. Maria de Jesus Simões Barroso Soares - Maria Barroso, como todos os portugueses a conheciam - tinha todos os atributos que enunciei. E vários outros - desde logo uma extraordinária coragem moral que a fez enfrentar todas as vicissitudes desde muito jovem. Franzina de corpo, mas com uma enorme fortaleza de espírito, enfrentou os esbirros da ditadura com uma inteireza arrepiante num tempo em que tudo apelava à demissão cívica. Por motivos de perseguição política, foi expurgada do chamado Teatro Nacional - uma página vergonhosa na nobre Casa de Garrett - e viu-se forçada a passar ao lado de uma carreira de actriz para a qual sentia genuína vocação.

Renunciou a muita coisa, mas nunca aos valores em que acreditava. Sem nunca assumir pose virtuosa, gesto próprio dos fariseus - "túmulos caiados", na expressão bíblica que Sophia transpôs para um dos seus mais arrebatadores poemas.

 

Maria Barroso dizia poesia com uma dicção perfeita, reforçada com uma nota emotiva bem reveladora do seu carácter. Na noite mais escura, ela soube dizer a palavra não. E quando outra ditadura, de sinal contrário, pairou sobre o Portugal revolucionário, lá estava ela novamente, no lado certo. Em defesa da liberdade, por um país onde mais ninguém fosse vítima de poderes arbitrários, contra qualquer delito de opinião.

Alguns chamam-lhe agora, nesta hora em que partiu, "antiga primeira dama". Detestável expressão, decalcada dos Estados Unidos, subentendendo uma relação de subalternidade em relação a Mário Soares, seu marido durante 66 anos. Nada mais inapropriado do que este rótulo jornalístico de importação. Como se Maria Barroso não fosse uma pessoa autónoma - nas ideias, nas convicções, no estilo, na atitude - para além dos laços de ternura solidificados por décadas de convívio com o homem que amou.

 

Vi-a muitas vezes, até há pouco tempo, nos locais mais inesperados. Olhando com atenção as novidades editoriais na Livraria Barata, saindo com uma amiga de uma sessão vespertina de cinema no Alvalade, encaminhando-se para a missa na "sua" igreja do Campo Grande. Nunca deixei de sentir admiração por ela, tal como - tenho a certeza - acontece com a esmagadora maioria dos portugueses. Quase como se fosse uma pessoa da nossa própria família, o que nos gera um íntimo sentimento de luto desde o início desta manhã, quando foi conhecida a notícia da sua morte. Que nem por já ser aguardada deixa de ser menos comovente.

 

Era sofisticada e simples, elegante sem sombra de presunção, lutadora convicta sem uma palavra de ódio dirigida aos seres menores que soube enfrentar com dignidade nas circunstâncias mais difíceis.

Uma Senhora.

 

Leitura complementar: a última entrevista de Maria Barroso. A Luís Osório, no jornal i.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Laura Antonelli

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.06.15

laura antonelli.jpg(28/11/1941 - 22/06/2015)

Confesso que já não me recordo qual terá sido o primeiro filme que vi dela. Sei que vi muitos. Alguns mais do que uma vez, apenas pelo prazer de vê-la, de ouvir a sua voz, de ver o seu sorriso, de admirar a sua beleza. Durante décadas o cinema italiano fez sonhar os adolescentes e os homens de todo o mundo. Pelas mais diversas razões. Mas havia uma verdadeiramente incontornável: a mulher que ele nos dava era o modelo. A mulher. Da Cardinale à Lollobrigida, da Loren à Muti, da Belli à Mangano, sem esquecer a Vitti e a Sandrelli, qualquer uma delas quando aparecia era mais fabulosa do que a outra. Cada filme que surgia era um pretexto para a discussão. Qual a mais bela, qual a mais desejada, qual aquela com que qualquer um de nós viveria a vida inteira numa ilha deserta do Pacífico Sul ou nas andanças do trânsito de Roma. Entre todas havia uma que, não tendo nascido em Itália, mas em Pula, na Croácia, fazia sempre a unanimidade. Fosse pelo olhar, ao mesmo tempo doce, voluptuoso e, de certo modo, perdido no tempo, pelo torneado do seu corpo ou pelo calor da sua voz. Os filmes que víamos nem sempre eram aplaudidos, muitas vezes não passando de comédias palavrosas e barulhentas. Só que todos eles tinham alguma coisa em comum. Ela estava em todo o lado. Nos cartazes dos filmes, nas revistas que chegavam de França ou de Itália, ao lado de Belmondo ou de outro figurão qualquer, na capa da Playboy, nas imagens de Cannes e de Veneza. O filme que talvez a tenha tornado mais conhecida é de um realizador, Salvatore Samperi, que só pelo nome poucos portugueses conhecerão. Malizia (1973) terá sido o filme do deslumbramento, mas antes, durante a década de Sessenta, já tinha dado nas vistas em mais de uma dúzia de filmes. Depois, durante os anos Setenta e Oitenta seria protagonista de mais umas dezenas de filmes e mini-séries de televisão, realizados, entre outros, por homens como Chabrol, Risi, Comencini, Bolognini, Salerno e Visconti (L'innocente, 1976). O seu último filme data de 1991(Malizia 2000). Durante alguns anos enfrentou acusações relacionadas com o tráfico de droga, de que viria a ser ilibada já neste século, e de consumo de estupefaciantes. Depois de ter sido o rosto da beleza e do erotismo do cinema italiano, refugiou-se num pequeno apartamento de uma estância balnear, Ladispoli, situada a pouco mais de três dezenas de quilómetros do centro de Roma. Encontrada por uma empregada doméstica, morreu só, como terá vivido durante muitos anos, sem que se saiba exactamente há quantos dias teria falecido. Sem resposta ficará, uma vez mais, a pergunta de se saber até que ponto a beleza, o sucesso, a fama, o esplendor, as luzes da ribalta, contribuem para vidas infelizes, solitárias, e finais tristes. Para o caso também já não fará qualquer diferença. E para quem um dia se deslumbrou com a Antonelli, ficará sempre a imagem de uma diva tão terrena quanto inacessível. Não era uma mulher como as outras. Nunca foi uma actriz como as outras. Havia qualquer coisa que a tornava diferente das outras, mais real, e não era só a sua elegância ou o seu erotismo. Num cartaz do Condes, na Almirante Reis, quando a vislumbrava do eléctrico a puxar as meias, na fachada do velho Cinema Roma ou na do Monumental, Laura Antonelli foi a imagem mais real do sonho. Da carne em ecrã gigante e sem efeitos especiais. A imagem, digo bem, porque o sonho, esse, permanecerá para sempre. Como sempre foi. E renovar-se-á, eventualmente com outro nome, sob uma outra luz. De geração em geração.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nuno Melo

por João Campos, em 09.06.15

Numa carreira muito preenchida, fez também um dos mais memoráveis e divertidos anúncios televisivos dos anos 90. Deixou-nos hoje, demasiado cedo. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gonna miss you around here

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.05.15

Já não poderá rever The life of Riley, mas estou certo de que lá em cima não lhe negarão o direito de repousar ao som dos blues. As lendas são eternas. Nós é que temos de lhe agradecer e de nos curvarmos perante a sua obra.

website-side-bannerv2.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Até já, Ana Vicente

por Patrícia Reis, em 20.04.15

Morreu a escritora Ana Vicente, defensora dos direitos das mulheres

 
Morreu a escritora Ana Vicente, defensora dos direitos das mulheres
 
 

Ana Vicente foi professora, tradutora, investigadora, e autora de mais de uma dezena de livros sobre questões de género, História, biografia, e obras para crianças.

A escritora, investigadora e defensora dos direitos das mulheres Ana Vicente, 72 anos, morreu no domingo, no Estoril, vítima de cancro, disse à agência Lusa fonte próxima da família.

De acordo com a mesma fonte, Ana Vicente morreu em casa, acompanhada pela família.

Nascida em 1943, Ana Vicente licenciou-se em Letras pela Universidade de Lisboa, foi professora, tradutora, investigadora, e autora de mais de uma dezena de livros sobre questões de género, História, biografia, e obras para crianças.

Entre outras atividades, trabalhou na Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, à qual presidiu entre 1992 e 1996, e foi membro de várias Organizações Não Governamentais, incluindo o Movimento Internacional "Nós Somos Igreja".

Entre outras obras publicou "As Mulheres em Portugal na Transição do Milénio" (1998), "As Mulheres Portuguesas vistas por Viajantes Estrangeiros, sec. XVIII, XIX e XX"(2000), "Arcádia -- Notícia de uma Família Anglo-Portuguesa" (2006) na qual relata a história da própria família.

(excerto da notícia do DN)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mariano Gago

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.04.15

gago_jose_mariano_0.png

(16/5/1948 - 17/4/2015)

Podemos ser enormes sem precisarmos de deixar de ser como somos.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 14.04.15

Günter Grass: o nosso século. De Miguel Freitas da Costa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Memória de um jovem de 90 anos

por João André, em 03.04.15

manoel de oliveira nos caminhos.jpg

© - Caminhos do Cinema Português

 

Tal como o Pedro, também eu tive uma pequena experiência com Manoel de Oliveira. Em 1999, estava eu em Coimbra, fiz parte da equipa que organizou os Caminhos do Cinema Português VI. Nessa altura convidámos Manoel de Oliveira para a cerimónia abertura, onde, se a memória não me falha, passámos a versão restaurada de Douro Faina Fluvial.

 

Nessa altura ainda ele tinha uns muito verdes 90 anos de idade, mas para os jovens que éramos, ele parecia já uma figura venerada, um ancião cuja saúde física víamos como necessário cuidar. Assim, no dia em que chegou a Coimbra, de comboio, fomos buscá-lo e lá o levámos, de táxi, para ir jantar à baixa. No momento de pedir a comida, Manoel de Oliveira começa por nos surpreender. Ao invés de pedir um simples peixe grelhado (que era o tipo de comida que esperaríamos de alguém com a sua idade) decidiu-se por outro prato, o qual não recordo mas que seria algo do género de um cozido, uma chanfana ou algo de semelhante.

 

- E para acompanhar, mestre?

- Ora essa. Isto não se come sem vinho. Escolho eu?

 

No final do jantar, durante o qual ele assumiu as despesas da conversa, falando do cinema em geral, do cinema em Portugal, contando inúmeras histórias de vida (tenho dois colegas que a seguir ao jantar pegaram em blocos de apontamentos e escreveram tudo de que se recordaram), tínha bebido o equivalente a três quartos de uma garrafa de vinho e comido uma bela pratada, além da sobremesa.

 

No momento de regressar pedimos-lhe que nos desse uns minutos para ir chamar o táxi.

 

- Ora essa. Então depois deste jantar não vamos de carro. Não podemos ir a pé?

- Claro mestre, mas o caminho ainda é íngreme (a Avenida Sá da Bandeira era capaz de desencorajar a maioria dos jovens).

- Estamos com pressa?

- Não, ainda temos muito tempo até a cerimónia começar.

- Vamos então a pé. A noite está bonita e temos de fazer a digestão.

 

A cerimónia de abertura estava, a meu ver, algo vazia. Esperava algo de mais concorrido dada a presença de Manoel de Oliveira. O Manuel de Oliveira. Senti-me algo triste por isso e por ele, por aquela figura que tinha vindo de tão longe, aos 90 anos, num acto de gentileza, para participar numa iniciativa feita por amadores de vinte e poucos anos.

 

Foi no final dessa cerimónia, onde aceitou uma recordação nossa, que notei o quanto lhe agradou a viagem. Uma actividade destas, organizada precisamente por amadores de vinte e poucos anos era o que lhe dava a energia que precisava. Viu-se depois o enorme prazer que teve em todos os contactos e que lhe davam o aspecto de ter não mais que uns 50 ou 60 anos de idade. Na energia e na bonomia, contudo, era mais jovem que nós.

 

O cinema de Manoel de Oliveira pertence à história. Não será consensual nem ele o desejaria. Em mim deixa por vezes impressão e por vezes indiferença. A pessoa, o homem, esse não deixará a minha memória. Viverá sempre como aquele jovem que um dia espantou os velhos ao pedir vinho e querer subir a Sá da Bandeira.

Autoria e outros dados (tags, etc)

«Não tens pernas para andar?»

por Pedro Correia, em 02.04.15

casamento_de_manoel_de_oliveira[1].jpg

 Maria Isabel e Manoel de Oliveira no dia do casamento (4 de Dezembro de 1940)

 

Há pessoas que imaginamos imortais. Manoel de Oliveira - contemporâneo de Griffith, Chaplin e Eisenstein - começou a trabalhar na Sétima Arte ainda no tempo dos filmes mudos e, enquanto actor, teve um papel de destaque na primeira longa-metragem sonora inteiramente rodada em Portugal (A Canção de Lisboa, 1933). Com uma carreira que se prolongou por oito décadas, obteve o reconhecimento generalizado dos seus contemporâneos - algo de que poucos artistas se podem gabar. Reconhecimento merecido: basta lembrar que é dele o melhor filme português de sempre.

Mas agora, que acabo de saber que o cineasta rumou enfim à eternidade, só me apetece recordá-lo num episódio bem prosaico e terreno. Ele e a esposa, Maria Isabel, vinham com frequência a Lisboa e costumavam instalar-se num hotel situado nas imediações do Marquês de Pombal. Nessas ocasiões almoçavam num restaurante da Rua Eça de Queirós, o Cacho Dourado, onde se come muito bem a preços módicos.

Eu, que à época trabalhava no Diário de Notícias, também costumava almoçar ali. E já me era familiar a presença do simpático casal, que jamais revelava o menor indício de petulância ou presunção. Mestre Oliveira teria 97 ou 98 anos por essa altura e, embora usasse bengala, percebia-se que não necessitava verdadeiramente dela.

Num certo dia, após um almoço tardio (em que não dispensou um copinho de vinho, que apreciava), o cineasta quis saber o que havia para sobremesa. O empregado fez um gesto vago em direcção a uma vitrina que se encontrava ao fundo da sala. E, em jeito de doce repreensão, logo a esposa do cineasta disse ao marido, com aquela intimidade própria dos casais que há muito aprenderam a cultivar a arte do convívio doméstico: «Não tens pernas? Vai lá ver...»

Acto contínuo, mestre Oliveira dirigiu-se à vitrina dos doces. Em passo ligeiro, sem que à primeira vista ninguém lhe atribuísse sequer menos vinte anos do que a data inscrita no seu bilhete de identidade.

Ao tomar conhecimento do seu desaparecimento físico, é deste singelo episódio que me lembro. E volto a sorrir à simples menção daquela frase que ficou a ecoar-me na memória: «Não tens pernas para andar?»

Teve-as até ao fim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A grandeza está nas pequenas coisas

por José Navarro de Andrade, em 29.03.15

No passado dia 2 de Dezembro a Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou o meu livrinho "Terra Firme", uma reportagem com laivos de ensaio, ou vice-versa, sobre uma herdade alentejana. À medida que me iam anunciando o programa comecei a sentir-me um pouco fora de pé: o belíssimo cenário mourisco da Casa do Alentejo? um rancho de cante a abrir a sessão? Um beberete final com vinhos e petiscos da planície? Não seria demais para uma obra de amador? A dimensão da coisa ganhou foros de susto quando mencionaram a magna figura convidada para comentar o livro - e que tinha aceite... Vai ser bom para a minha vaidade, pensei, prestigiar-me com a sua presença nesta cerimónia, decerto protocolar. Pois sim... Em vez das triviais generalidades simpáticas do costume, o cavalheiro, que não me conhecia de lado nenhum e a quem eu fora apresentado à entrada, sacou de um exemplar de "Terra Firme" ouriçado de Post-Its e durante uma hora analisou e dissertou em pormenor, com uma acuidade fulminante e uma desvelada gentileza.

Disseram-me depois que Sevinate Pinto era sempre assim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Herberto Helder

por Helena Sacadura Cabral, em 24.03.15

H. Helder.jpegConheci tardiamente a sua poesia. Ainda bem, porque se tivesse acontecido mais cedo muito possivelmente pouco teria apreciado.

Era um poeta difícil. Obrigava a um esforço de adesão. Mas a experiência que tenho é de que essa reacção é apenas a do primeiro embate.

Ao que se diz, era um homem que, por opção, vivia solitariamente. Mas a sua imaginação ia muito para além dessa solidão, como mostra a sua obra. É um poeta que muitos consideram ao nível de Pessoa. Acabou de morrer!

Autoria e outros dados (tags, etc)

À minha mãe

por Pedro Correia, em 08.03.15

 Shirley Temple (1928-2014)

 

"O tempo prevalece sobre o espaço", ensina o Papa Francisco. Costumo pensar que temos uma relação muito mais equívoca com o tempo do que com o espaço: à medida que os anos fluem, sentimos que os ponteiros do relógio e as folhas do calendário aceleram a sua marcha inexorável.

Mas nem sempre foi assim. Recordo com frequência as longas tardes de meninice, que ainda chegam até mim com o cunho do infindável. Era tudo mais vagaroso então. E sempre soalheiro: não me lembro de um só dia dessa época que não me traga memórias inundadas de sol.

 

Um dos meus prazeres de infância era ver as Tardes de Cinema exibidas ao domingo, na RTP ainda a preto e branco. Nada que se pareça com a de hoje: a estação pública de televisão assumia as funções de cinemateca, proporcionando aos espectadores três ou quatro sessões semanais de clássicos da Sétima Arte.

Quando eu era miúdo, durante o período escolar, só estava autorizado a ver os filmes de domingo. Sempre tive o hábito de fazer listas -- e conservo ainda o inventário de muitas fitas que ia vendo, semana após semana. Mas das primeiras que vi em televisão, na mais remota infância, guardo apenas memórias fugidias. Não tanto das cenas dos filmes, mas da atmosfera que se respirava lá em casa.

A minha mãe, fervorosa cinéfila pertencente à geração que via matinés duplas ao fim de semana e cultivava o cineclubismo, ia-me falando das actrizes e dos actores de que mais gostava, heroínas e galãs do tempo em que ela era menina e moça. Situando-os na época em que se estrearam, narrava-me episódios relacionados com esse período. Episódios do cinema feito vida, episódios da vida feita cinema.

E, para mim, esse acabava por ser um filme dentro do filme.

"Este vi-o em Angola, num cinema ao ar livre... Ainda me lembro do que senti ao ver esta cena pela primeira vez... Os meus actores preferidos eram o Henry Fonda e o James Stewart: olhava-se para eles e percebia-se que eram pessoas em quem podíamos confiar."

 

 A menina dos caracóis dourados salvou a Fox e deslumbrou o mundo

 

O que seria da nossa vida sem tempo -- e sem tempo para contar histórias?

Eu ia absorvendo o que ela me contava enquanto absorvia também as imagens e as falas que me chegavam do ecrã. Vários desses filmes, nunca mais os vi: já então me pareciam muito antigos, pertencentes a uma era em que a Mãe tinha a minha idade e a Avó, mãe dela, estava grávida das minhas tias mais novas.

Shirley Temple era da geração da minha mãe: tinham apenas dois anos de diferença e criaram-se naquela década de 30 em que a menina dos caracóis alourados salvou a 20th Century Fox da ruína e deslumbrou o mundo. Quem era criança nessa década guardou para sempre a sua imagem risonha, incorporando-a naquele panteão íntimo a que remetemos todas as relíquias do passado cristalizadas num presente perpétuo.

O verdadeiro espectáculo, para mim, era ver a Mãe novamente criança revisitando aquelas fitas da Shirley Temple de que nem sequer o nome guardo. Lembro-me dela a sapatear com um mordomo negro, a descer uma enorme escadaria de mansão sulista, abraçada em lágrimas a um avô de ar bondoso. E pouco mais.

 

Com Henry Fonda e John Wayne em Forte Apache (1948)

 

Certas estrelas de Hollywood tornam-se mitos muito cedo e perduram durante décadas de vida verdadeira sempre ocultas na ilusão desse mito. Aconteceu isso com Shirley Temple, que encontrei pela última vez -- adolescente eu, adolescente ela também, com trinta e tantos anos de intervalo entre nós -- em filmes como Desde que Tu Partiste, de John Cromwell (1944) e Forte Apache, de John Ford (1948). Absurdamente jovem ainda, mas excessivamente velha para se manter fiel à imagem infantil que a indústria cinematográfica lhe reservou.

Não podia haver fugas ao guião: Shirley disse adeus ao cinema e ficou eternamente jovem no celulóide, espécie de retrato de Dorian Gray às avessas, num toque mágico de que só o cinema é capaz.

Oito décadas depois da sua fulgurante estreia em Hollywood, quando muitos de nós já a supúnhamos transformada num pedaço de eternidade, chega-nos a notícia de que a sua morte física só agora se consumou. Ela que foi contemporânea do presidente Roosevelt e conheceu o último grande sucesso de bilheteira no ano em que começou a II Guerra Mundial.

 

O tempo prevalece sobre o espaço. Quando soube da notícia regressei por momentos àquela sala, àquele pesado televisor Blaupunkt de válvulas, àquelas imagens a preto e branco, à companhia da minha mãe outra vez muito jovem ensinando-me a gostar de cinema enquanto me explicava sem explicar que um filme é sempre mais que um filme.

Ao ver a Shirley-menina, também ela voltava à meninice. E neste momento em que escrevo o miúdo sou eu só por disso me lembrar também.

 

Reedito este texto, passando a dedicatória a título. A Mãe já cá não está, mas alegra-me saber que ainda o leu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um homem insignificante

por José Navarro de Andrade, em 23.02.15

10989121_902443146456286_8954533564797811460_n.jpg

O Eng. Ilídio Monteiro foi muita coisa importante na vida, que mereceu devida menção na sua morte. Por mim vale por ter sido pequeno. Sempre que a banda do A.D.R. "O Paraíso" precisava de um instrumento novo, lá ia de bota cardada por aqueles vinhedos fora, fazer uma serenata à porta da sua casa de Vale Fornos, quando sabia que ele lá estava. O homem ouvia a charanga - que por acaso toca com muita afinação - e no fim passava o cheque com um "obrigado". Uma insignificância nunca negada que só favoreceu uma aldeola.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Homenagem ao Albano (1955-2015)

por Pedro Correia, em 19.02.15

Em cima da hora, com bons reflexos jornalísticos, o Fernando falou ontem dele aqui. O DN traça-lhe hoje um extenso perfil que lhe presta homenagem.

Albano de Melo Matos (1955-2015) foi um dos mais competentes jornalistas da sua geração ao longo de um percurso profissional que tive ocasião de acompanhar desde o início. Um percurso que se estendeu durante três décadas e meia -- incluindo 26 anos no Diário de Notícias, onde só não exerceu funções na direcção: foi editor executivo adjunto, grande repórter, editor da cultura e editor do internacional, além de membro do Conselho de Redacção.

Era uma das melhores penas da imprensa portuguesa, como reconhecem colegas dos mais diversos quadrantes. E desapareceu demasiado cedo do convívio dos leitores -- razão primeira e última da profissão de jornalista quando é exercida com manifesta vocação, como era o caso.

Há poucos meses, foi injustamente afastado do DN numa "reestruturação" (eufemismo modernaço e parolo para evitar a todo o custo a incómoda palavra despedimento) do jornal a que permaneceu teimosamente fiel durante 26 anos. Mais do que a esmagadora maioria dos casamentos contemporâneos, quase o decurso de uma vida.

 

Jornalista Albano Matos morreu aos 59 anos

Foto Leonardo Negrão/DN

 

Pagou por ter vestido a camisola do centenário matutino num tempo em que isso não é encarado como qualidade mas como defeito: quem acaba de chegar passa sempre à frente.

Pagou também por não ter visto reconhecido internamente o talento que todos no exterior lhe reconheciam nesta era em que a experiência e a memória são varridas sem remorso das redacções dos jornais, que se tornam cada vez mais amnésicas e monolíticas.

Pagou também por ter padecido de excessiva modéstia -- ele, que era tão orgulhoso -- num tempo em que qualquer mediocridade avulsa se pavoneia sem pudor em bicos dos pés.

 

Durante anos, alimentou o sonho de escrever um romance. Até já tinha título: Uma Italiana em Nova Iorque. Mas não concretizou o sonho devido a outra virtude que acabava por virar-se contra ele: não se levava excessivamente a sério. E respeitava demasiado os escritores (José Cardoso Pires, Nuno de Bragança, Mário-Henrique Leiria, por exemplo, brindando sempre ao catalão Manuel Vásquez Montalbán, outro dos seus eleitos) para se imaginar um deles. Embora não lhe faltasse a verve literária, patente em qualquer dos seus textos. Por vezes até em legendas ou títulos. Lembro-me sempre de um deles, quando escreveu o perfil do Professor Horus, um "vidente" que nos anos 80 esteve muito na moda e fora praticante de pugilismo na juventude: «O astrólogo que veio do boxe».

Bastava ler o título para se perceber que era "do Albano", como todos lhe chamávamos -- sem adornos nem adjectivos escusados, à semelhança da sua escrita. Como bastava ler as linhas iniciais de qualquer artigo, mesmo sem assinatura, para se detectar que vinha dele.

 

Parte demasiado cedo, com apenas 59 anos -- separado abruptamente da profissão que amou e serviu com espírito de missão. Merecia -- e merece -- ver uma colectânea de textos seus editada em livro. São tantos, e tão bons, sepultados nos arquivos de diversos jornais - desde a Reconquista, da sua terra natal (Castelo Branco), até ao DN. Passando pelo Tempo, onde o conheci em 5 de Dezembro de 1980 -- horas após a trágica morte de Francisco Sá Carneiro, data que prenunciava um destino jornalístico para qualquer dos dois.

 

Espero que esse livro venha a ser editado. E tomo a liberdade de transcrever já aqui um desses textos, com a devida vénia à sua memória.

....................................................................................

 

AS BESTAS CÉLERES

«Leio, semana a semana (até por dever de ofício), as listas dos livros mais vendidos em Portugal. Apesar das naturais diferenças de uma cadeia de livrarias para outra, essa lista tem uma lógica coerente ao longo de quase todo o ano. Uma lógica que obedece a critérios de promoção, notoriedade do autor, tema mais ou menos na moda, ainda que por razões extraliterárias, etc. Por muito que isso custe a muito boa gente, é até inevitável que assim seja tratando-se de uma lista de livros mais vendidos, é natural que prevaleçam os critérios que presidem à lógica do consumo e do mercado e que seja quase invisível a influência de uma crítica hoje dispersa, errática, amiguista, pouco profissional.

Quando chega o Verão, porém, qualquer aparência de lógica desaparece. Ou as montras das livrarias se põem a dançar com volumes colocados de forma arbitrária ou os compradores rompem subitamente com os seus interesses habituais, a verdade é que as listas de best-sellers se enchem com títulos estranhos, obscuros, inesperados. Mais do que o costume, é nesta altura que faz todo o sentido a célebre expressão de Alexandre O'Neill a "besta célere".

De facto, quando a "besta célere" parte em desfilada não há tendências literárias que se aguentem. Só poderemos lamentar o desperdício de tanta floresta. Como se não fosse já suficientemente trágica a perda de tanto hectare nos incêndios.

Do mal o menos a "besta célere" é, por definição, o livro que todos compram mas ninguém lê. No regresso a casa, já voou e outros candidatos se acotovelam nas livrarias, lançando das capas, cada vez mais berrantes, convite ao potencial freguês.

A "besta célere", escrevia O'Neill, "é feita a pensar num leitor 'espremido' por computador e serve a esse leitor tanto quanto lhe pode servir qualquer objecto de conforto. É um típico produto da chamada indústria cultural. Toma, exteriormente, a forma de livro para melhor se confundir com os verdadeiros livros. É uma espécie de ornamento (do espírito, da estante ou do caixote do lixo...) e cumpre, quase sempre, o seu papel, virada a última folha."

Apesar de tudo, passada a onda, um resquício de racionalidade regressa ao mercado e mesmo as "bestas céleres" adquirem uma certa patine.»

 

Diário de Notícias, 14 de Agosto de 2005

Autoria e outros dados (tags, etc)

Perante o injusto não se calava

por Fernando Sousa, em 18.02.15

Conheci-o no Tempo. Era um devorador de livros, um apaixonado pelo cinema, um comedor de conhecimento. Trabalhava com calma, imune às tensões, incluindo as das horas de fecho. Nunca alimentou peneiras de quarto poder. A ironia era nele uma defesa, não um modo de vida - e se era bom nela! A sua escrita era rigorosa, informada, incisiva se fosse caso disso, e elegante, escrevesse sobre política, cultura ou desporto. Uma vez, por esses anos, desapareceu durante dias sem aviso prévio ou mensagem de doença. Quando o motorista do jornal lhe bateu à porta, encontrou-o com uma barba de dias e um monte de livros à direita, lá lidos, e outro à esquerda, por ler. Admirou-se que andassem à sua procura. Chamava-se Albano Matos, tinha 59 anos, trabalhou no DN até Junho do ano passado, quando o meteram num pacote de dispensáveis e o mandaram fora. Tinha outra coisa rara: perante o injusto, não se calava. Também por isto vai fazer falta. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Luísa Dacosta

por Patrícia Reis, em 16.02.15


Chamamento

Da margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossível jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar.

UM POEMA DE LUÍSA DACOSTA(Via Maria José Ramôa) ChamamentoDa margem do sonho  e do outro lado do mar alguém me estremece sem me alcançar.Um bafo de desejo chega, vago, até mim. Perfume delido de impossível jasmim.É ele que me sonha? Sou eu a sonhar? Sabê-lo seria  desfazer, no vento, tranças de luar.Nuvens, barcos, espumas desmancham-se na noite.E a vida lateja, longe, num outro lugar.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D