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O Papa esquecido

por Pedro Correia, em 12.05.17

 

Pela minha vida já passaram cinco Papas. Vi três deles: Paulo VI em Roma, João Paulo II e Bento XVI em Lisboa. Não estive ainda com o Papa Francisco e João Paulo I teve um mandato tão breve - e hoje tão esquecido - que mal chegou a exercer o magistério como condutor da Igreja Católica. Ele que dizia preferir, acima de tudo, ser "catequista de paróquia".

Recordo a emoção generalizada - no mundo católico e não só - quando Albino Luciani foi apresentado urbi et orbi como sucessor do Trono de Pedro, a 26 de Agosto de 1978, adoptando um nome composto - e quebrando assim uma regra ancestral - em homenagem aos seus predecessores imediatos, João XXIII e Paulo VI. Recebeu logo o cognome de "Papa do Sorriso" pelos modos afáveis que revelou ao assomar à varanda da Basílica, no Vaticano.

Deixou um rasto efémero e meteórico na Igreja - mas uma memória indelével em quantos o viram sorrir naquele dia estival, contrastando com a gravidade solene do antecessor. É de João Paulo I que me lembro com frequência quando vejo ou escuto Francisco: sinto-os irmanados pelo mesmo espírito fraterno e caloroso. E nunca deixo de me emocionar com as últimas palavras do Papa Luciani - que visitara Fátima em 1977, como patriarca de Veneza - proferidas perante uma assembleia de católicos italianos a 27 de Setembro de 1978.

"O povo da fome interpela de maneira dramática o povo da opulência. A Igreja estremece perante este grito de angústia. (...) Ninguém tem a prerrogativa de usar em exclusivo um bem em seu benefício, além do necessário, quando existem pessoas que morrem por não ter nada."

Horas depois o sorriso apagou-se para a eternidade, envolto em silêncio e mistério: caía o pano nos austeros aposentos do Palácio Apostólico. O pontificado de João Paulo I durou só 33 dias.

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Como por milagre

por Pedro Correia, em 03.05.17

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Há dias houve um ínfimo mas muito mediático clamor numa fracção da ala bloquista do grupo parlamentar do PS contra a concessão da "tolerância de ponto" decretada pelo Governo aos funcionários públicos a 12 de Maio, dia da chegada do Papa Francisco a Fátima. Pretexto invocado: tal medida fere o princípio da "laicidade do Estado", que andou esquecido na recente Sexta-Feira Santa, feriado obrigatório em Portugal sem um sussurro de indignação daqueles deputados. Como se tal princípio fosse de geometria muito variável. 

Curiosamente, em nenhum momento vi os referidos parlamentares preocupados com uma consequência imediata da mais recente decisão governamental: acentuar a chocante desigualdade registada num país que funciona a duas velocidades - a da administração pública e a da economia privada. Com esta a ter salários mais baixos, jornadas laborais maiores, aposentações mais tardias e sobretudo o espectro do desemprego sempre presente, enquanto vai financiando a primeira, domínio exclusivo das "tolerâncias de ponto".

Devia assim António Costa ter procedido de maneira diferente com alguém que o falecido ex-Presidente Mário Soares afirmava "idolatrar" e a jornalista Teresa de Sousa considera "mais inspirador do que qualquer líder europeu"? Não. Porque este Francisco que está prestes a desembarcar em solo português como peregrino católico não merece menos do que o seu predecessor Bento XVI, que em 2010, quando cá esteve, levou o primeiro-ministro José Sócrates a decretar medida idêntica - alargada aliás à tarde de 11 de Maio em Lisboa e à manhã de 14 de Maio no Porto.

Apesar de eu presumir que alguns deputados socialistas talvez pensem assim, pois em 2013  recusaram subscrever um voto de congratulação da Assembleia da República pela ascensão ao trono de São Pedro do ex-arcebispo de Buenos Aires, primeiro Papa não-europeu em 1200 anos.

Alguns deles, como por milagre, são bem capazes de estar agora com ele em Fátima.

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Santa Páscoa!

por Teresa Ribeiro, em 15.04.17

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Dedico este post aos católicos que são assim, como a criatura de Deus que aparece na foto, quando vêm à discussão assuntos polémicos sobre a sua Igreja e que rilham os dentes quando lhes falam do seu Papa Francisco,"esse 'comuna' que só veio desestabilizar".

Em tempo de Páscoa, por favor meditem nas palavras do padre Anselmo Borges, que transcrevo a partir da entrevista que deu ao Expresso, para esta última edição, e cuja leitura integral recomendo:

"É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima"; "A Igreja é misógina"; "A Igreja não pode impor como lei aquilo que Jesus entregou à liberdade. É preciso acabar com as vidas duplas" (a propósito do celibato obrigatório dos padres); "A hierarquia vive na ostentação e não se bate pelos direitos humanos"; "Este Papa é um cristão no sentido mais radical, não é apenas baptizado, ele segue Jesus". 

São críticas velhas, mas quando vêm de um homem da ICAR com a sua envergadura intelectual, têm outro valor.

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Para reflectir neste feriado

por Pedro Correia, em 26.05.16

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Procissão do Corpus Christi em Lisboa, com a presença do Rei D. Manuel II (1908)

 

É o dia certo para aplaudir outra medida do Governo. Esta tem uma importância acrescida no plano simbólico, o que a torna ainda mais digna de realce. E - tal como a do Simplex 2016, que saudei aqui - também tem um impacto directo na vida dos portugueses. Refiro-me à reposição das quatro datas do calendário laboral que haviam sido retiradas em 2012 da lista dos feriados nacionais - sem uma justificação plausível, sem resultar de imposição dos credores externos que tutelavam as nossas finanças públicas, sem sequer um estudo de impacto orçamental que as tornasse credíveis no estrito plano contabilístico. Foi um erro lapidar do anterior Executivo: nos momentos de crise, há que fazer um apelo reforçado aos valores comunitários que estes feriados de algum modo celebram.  "Uma coisa completamente tonta", como na altura salientou Marcelo Rebelo de Sousa.

Sendo justo e acertado o aplauso a António Costa por ter anunciado de imediato o regresso ao bom senso neste domínio, não pode passar sem um severo reparo crítico a atitude pusilânime da hierarquia católica, que há quatro anos acedeu sem um sussurro de protesto à supressão do Dia do Corpo de Deus e do Dia de Todos os Santos - datas solenes do calendário litúrgico e com longa tradição de prática votiva entre nós - da lista de feriados oficiais.

Assistia plena razão à Igreja, no plano institucional e moral, para reclamar contra o banimento oficial das duas festas cristãs que forçou até uma troca de documentos diplomáticos entre Lisboa e o Vaticano por incluir matéria contida na Concordata, tratado internacional celebrado entre o Estado português e a Santa Sé. Mas optou pelo silêncio, como se lhe fosse indiferente a opinião da cidadania católica e não entendesse o grave precedente que aquela decisão governamental abria no equilíbrio sempre delicado entre um Estado aconfessional e uma sociedade com matriz religiosa.

Esse perturbante silêncio de então contrasta de forma chocante com o alarido actual em torno das previstas alterações ao modelo dos contratos de associação celebrados entre o Ministério da Educação e algumas dezenas de estabelecimentos escolares, parte dos quais geridos pela Igreja. Apetece perguntar como Jesus no Evangelho: "O que vale mais? O ouro ou o santuário que tornou o ouro sagrado?" (Mateus, 23-17)

Matéria que justifica meditação neste dia que volta a ser feriado.

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Não, não, senhores Bispos

por Rui Rocha, em 26.02.16

Estão enganados. O cartaz do Bloco de Esquerda não ofende crentes nem não crentes só por o serem. Ofende a inteligência. De quem quer que a tenha. Por isso, melhor seria se guardassem a indignação para a utilizarem, por exemplo e para não irmos mais longe, contra instituições que promovem uma visão do mundo em que cabe às mulheres um papel de obediência e subordinação.

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"Servir a personas, no a ideas"

por Pedro Correia, em 20.09.15

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 Foto AFP

 

Acompanho em directo, através do canal televisivo Cubavisión, a homilia do Papa Francisco na missa campal realizada na Praça da Revolução, coração da Havana comunista.

Uma homilia notável, de que destaco estas palavras, que ecoam as de Jesus mencionadas no Evangelho de São Marcos (9,30-35): "Quien quiera ser el primero, ser el más importante, que sea el último de todos y el servidor de todos. Quien quiera ser grande, que sirva los demás y no que se sirva de los demás. Servir significa, en gran parte, cuidar la fragilidad. Servir significa cuidar de los frágiles de nuestras familias, de nuestra sociedad, de nuestro pueblo. Son personas de carne y hueso, con su vida, su historia y especialmente con su fragilidad, las que Jesús nos invita a defender, a cuidar y a servir. (...) Nunca el servicio es ideológico, ya que no se sirve a ideas, sino que se sirve a las personas. (...) Quien no vive para servir no sirve para vivir."

Entre os que o escutavam, na primeira fila da imensa multidão ali concentrada, estava Raúl Castro.

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Por mim, agora ficou tudo muito claro, ó Padre Marina De Cascais. Se na Idade Média só sabiam produzir fogo a partir do atrito entre duas pedras ou pauzinhos, não seria de esperar que os cristãos de então ateassem fogueiras com fósforos, isqueiros ou maçaricos. Aliás, se dispusessem de maçaricos, esses cristãos provavelmente nem precisariam de fogueiras, não é? Da mesma forma, se por absurdo vivêssemos numa sociedade ainda poluída com um certo bafio machista, certamente não seria justo pedir à Igreja Católica que negasse o papel subalterno da mulher. Ou, para irmos um pouco mais atrás na história, se por acaso os romanos tivessem tido em determinado momento o hábito de sacrificar cristãos na arena do Coliseu, é evidente que seria abusivo interpretar tais práticas à luz das regras dos jogos de sociedade em que gostamos de entreter, agora, os nossos serões.

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Tudo como as mães, menos celebrar missa

por Rui Rocha, em 09.05.15

Depois de há uma semana ter mostrado ao mundo como se pode instrumentalizar de forma cretina o drama de uma criança para promover uma cruzada, o Padre Portocarrero de Almada decidiu agora dedicar uma crónica ao tema da exploração das mulheres trabalhadoras. O cerne da questão estará, na palavra do bondoso sacerdote, na hostilidade e desconfiança com que as entidades patronais encaram a maternidade. Está bem visto e é verdade. Aliás, se dúvidas houvesse, aí teríamos o exemplo das irmãzinhas dos conventos do Estado do Vaticano que, afastadas que estão da condição da maternidade por chamamento e voto de castidadade, gozam de imediato de uma assinalável paridade de tratamento face aos bispos, arcebispos e cardeais purpurados. Percebe-se assim o notável grito do padre tão pio em favor das mulheres: que as mães possam ser tudo o que quiserem profissionalmente e que as suas filhas possam fazer tudo, como as mães. Tudo menos, naturalmente, celebrar missa.

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O evangelho dos marginalizados

por Pedro Correia, em 12.03.15

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«Amados irmãos novos cardeais, com os olhos fixos em Deus e na nossa Mãe, exorto-vos a servir a Igreja de tal maneira que os cristãos - edificados pelo nosso testemunho - não se sintam tentados a estar com Jesus, sem quererem estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial. Exorto-vos a seguir Jesus crucificado em toda a pessoa marginalizada, seja pelo motivo que for; a ver o Senhor em cada pessoa excluída que tem fome, que tem sede, que não tem com que se cobrir; a ver o Senhor que está presente também naqueles que perderam a fé, que se afastaram da prática da sua fé ou que se declaram ateus; o Senhor, que está na cadeia, que está doente, que não tem trabalho, que é perseguido; o Senhor que está no leproso, no corpo ou na alma, que é discriminado. Não descobrimos o Senhor se não acolhermos de maneira autêntica o marginalizado. Recordemos sempre a imagem de São Francisco, que não teve medo de abraçar o leproso e acolher aqueles que sofrem qualquer género de maginalização. Verdadeiramente, amados irmãos, é no evangelho dos marginalizados que se joga, descobre e revela a nossa credibilidade.»

 

Palavras de Francisco no remate da homilia da missa com os novos cardeais em Roma, a 15 de Fevereiro. Palavras que fazem qualquer católico orgulhar-se deste Papa, eleito há dois anos - data que amanhã se comemora.

Nesse mesmo dia 13 de Março de 2013 escrevi no DELITO sobre o cardeal Bergoglio: «Apareceu com ar despojado, fraterno, repassado de fragilidade humana. De braços caídos, sem pedir aplausos, com um sorriso tímido, parecia querer dizer aos mil e trezentos milhões de crentes que o reconhecem a partir de hoje como dirigente espiritual que está disposto a aceitar este imenso desafio que o destino lhe proporciona embora não se sinta verdadeiramente digno dele».»

À medida que o tempo passa, cada vez encontro mais motivos que corroborem a excelente impressão inicial transmitida por este homem que foram «buscar ao fim do mundo», como o bispo de Roma disse dele próprio nessa sua primeira aparição no balcão da Basílica de São Pedro.

 

E, a propósito, é para mim cada vez mais incompreensível o sectarismo de certa esquerda portuguesa, que recusou associar-se ao voto parlamentar de congratulação pela eleição do primeiro Papa não-europeu em 1200 anos. PCP, Bloco de Esquerda, 'Verdes' e seis deputados do PS - Pedro Delgado Alves, Mário Ruivo, Miguel Coelho, Isabel Moreira, Elza Pais e António Serrano - dissociaram-se desse singelo voto, que se limitava a isto: «A Assembleia da República, reunida em sessão plenária, saúda o Estado do Vaticano, a Igreja Católica e todos os que professam a sua fé, pela eleição do novo Sumo Pontífice.»

Alguns deles - os comunistas - não hesitaram meses depois em colocar-se ao lado da feroz ditadura norte-coreana, também num voto parlamentar. Amarrados ao seu persistente dogmatismo, entre o pontífice capaz de cruzar continentes apregoando a libertadora mensagem de Cristo e Kim Jong-un, preferem o tirano de Pyongyang, que condena todo um povo à servidão.

Deviam, também eles, meditar sobre a homilia papal que invoca o evangelho dos marginalizados. Com "disponibilidade total para servir os outros" como "único título de honra" do humanismo cristão. Contra todos os cálculos, contra todos os riscos, contra todos os medos.

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Incardinados e dóceis:

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Prazeres de Canelas

por Rui Rocha, em 17.11.14

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Prazeres sai da casa caiada na Rua do Frengo exactamente 30 minutos antes do início da missa. O nevoeiro da manhã esbate o contorno da sua silhueta austera que se move, em passos ligeiros, sobre o chão empedrado das ruelas do centro de Canelas. Veste-se sempre de forma modesta e decente. Mais ainda ao Domingo. A saia tapa o joelho e um pouco mais. A camisolinha de malha comprada na feira de Espinho cobre os braços e a parte de baixo do pesoço. Os sapatos são rasos, como devem ser. Não ambicioneis coisas altas, mas acomadai-vos às humildes, lera nas Escrituras. Dobra a última esquina antes de avistar a Igreja. Olha, como sempre faz, para a Rua do Padre Costa que se desenha à sua esquerda. Um santo, o Padre Costa. Merecia outro reconhecimento. Prazeres não consegue reprimir um suspiro que contém, na sua imensa fragilidade, uma infinita piedade por todas as malfeitorias sofridas, aqui, agora e sempre, pelos justos da Igreja. Retoma imediatamente a compostura. O dia não está para desfalecimentos. Apressa o passo apesar dos cansaços que lhe desafiam os movimentos. As camisolas pretas tinham dado mais trabalho do que previra. O mais difícil fora escolher frase. De tantas que lhe vieram à cabeça, Deus quis que acabasse por escolher aquela: Cristo foi traído – Quem o traiu retirou as consequências.  Direitinha ao Bispo do Porto: pega lá que já almoçastes. E o ensaio dos cantos… Minha Nossa Senhora! Mas, no final, a Laida, a Tona, a neta do Tobias e a Micas tinham decorado as falas: Peço-vos perdão pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não amam. Os dados estão lançados. Vão ficar com as orelhas a arder, os vendidos que forem à missa. Quando chega ao adro da Igreja faltam dez minutos para a homilia. Um olhar em redor confirma que já lá estão os que devem estar. Com gestos rápidos, abre o saco de ginástica da Puma e distribui as camisolas. As do coro ensaiado também já estão prontinhas. A tensão sobe enquanto o nevoeiro se dissipa. Dois minutos depois, o gajo chega. Acompanhado pela GNR, todo borrado de medo mas a dar ares de galifão. Os vendidos entraram na Igreja a passo. Deus lhes perdoe. Ouvem-se vozes, afinadas e pias, em cântico: Peço-vos perdão pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não amam. As camisolas já vestidas nos corpos dos que, na primeira fila, gritam e empurram. Prazeres sorri. Um trabalho bem feito. O melhor ainda está para vir. Não perdes pela demora galifão. Quarenta e cinco minutos depois, termina a missa. As mesmas camisolas, os mesmos cânticos. O padreca tenta sair, escoltado pela GNR. Prazeres vai buscar forças não sabe a que santo e grita-lhe com quantas forças o Senhor lhe dá: badalhoco, tem apresentação, corta o cabelo e a barba! A pequena cruz com um Cristo que traz ao peito salta e faz-lhe um lanho no pescoço. O padreca desaparece do adro no carro onde foi metido à pressa pela GNR. O resto do Domingo passa-se do jeito que Deus quer, interrompido aqui e ali pelo regozijo provocado pelas imagens do triunfo sobre o padre Albino que passam nos telejornais da RTP. O relógio da igreja bate as 10 da noite. Prazeres apressa de forma quase imperceptível as orações. Depois de assegurar que a porta do único quarto de cama da casa onde vive sozinha está fechada, dirige-se ao roupeiro onde guarda uma pequena caixa escondida num fundo falso de uma gaveta. Afasta o rosário que trouxe de uma viagem da paróquia à Terra Santa e, enquanto aconchega contra o peito uma fotografia do padre Roberto, murmura com a voz a tremer: ah meu sacana, que ainda me fazes perder...

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Pope don't preach

por Teresa Ribeiro, em 07.06.14

Coerente com a divisa "crescei e multiplicai-vos" o Papa puxou as orelhas aos crentes que optam por ter cães  e gatos em vez de filhos, acusando-os de comodismo. Percebo-o, está no seu papel. Mas se há ditame cristão injusto é esse que aponta a reprodução como um dever. Da multiplicação sem critério à procriação controlada deu-se um passo civilizacional gigante, pois optar por não ter filhos quando não se sente esse apelo ou fazer questão de os desejar em vez de simplesmente tê-los reflecte um apreço infinitamente maior pela vida humana.

Planeamento familiar à parte, essa modernice que tanto incomoda a Igreja, há ainda que levar em conta os efeitos da economia na vida dos casais em idade fértil. Eu sei que Francisco foi lesto a denunciar a "economia que mata", mas cedendo à tão católica nostalgia dos tempos em que as pessoas se multiplicavam como animais, esqueceu-se que muitos dos casais que optam por cães e gatos podem só estar a adiar os bebés que planeiam ter, não por comodismo mas porque não os querem criar sem condições. Alguém os pode criticar por isso?

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Uma data especial!

por Helena Sacadura Cabral, em 27.04.14

Hoje gostaria de ter estado nas celebrações de santificação de João XXIII e de João Paulo II. Pela primeira vez dois Papas são santificados ao mesmo tempo que um Papa e o seu antecessor assistem juntos a tal cerimónia.
A fé é algo que se não discute. Ou se tem ou não se tem. Mas para um crente não ter fé não o dispensa de lutar por ela. Sei do que falo, porque os meus Pais deixaram ao meu critério essa escolha. Por isso, apenas fui baptizada aos 19 anos e de forma muito consciente. A fé não foi, portanto, algo que tenha nascido comigo. É, sim, algo por que luto diariamente, que todos os dias me faz confrontar comigo própria, que guia os meus passos e que, julgo, me torna uma pessoa melhor. Mas percebo quem não tem fé e admiro quem, sem esse suporte, vive a sua vida com a maior dignidade.
Talvez por tudo isto, gostaria muito de ter assistido a estas cerimónias. Mas já me dou por feliz de ter vivido o tempo suficiente para, através da televisão, ter podido assistir a elas neste mês de Abril de tão más recordações.
Eu sei que estas palavras só tocam uma parte daqueles que me lêem. Mas o testemunho também serve para que aqueles que não acreditam possam entender aqueles que crêem.

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Nihil obstat

por Rui Rocha, em 27.04.14

Já está. O Papa Francisco declarou hoje santos João XXIII e João Paulo II perante centenas de milhares de fiéis de todo o mundo. Pelo visto, à cerimónia assistiram 98 delegações de Estados e organizações internacionais, incluindo 24 chefes de Estado e monarcas, do Rei de Espanha a Robert Mugabe. Sei como são tortuosos os caminhos do Senhor, mas talvez fosse caridade cristã informar o Presidente do Zimbabué que o Vaticano ainda certifica santos mas já não vende indulgências. São tradições que se perdem e é pena. Imagine-se, por exemplo, o jeito que não daria por estes dias às crianças do Corno de África aquela coisa da multiplicação dos pães. O certo é que houve milagres, embora de outra natureza. São João Paulo II fez, só à sua conta, dois. E São João XXIII cometeu um. Temos portanto dois Papas e milagres temos três que é, como se sabe, a conta que Deus fez. Pelo que, se recorrêssemos à estatística que é uma outra forma de produzir milagres (veja-se a já estafada questão dos dois frangos comidos por um só mas que estatisticamente divididos por dois dão um frango a cada um), sairia a coisa à média de milagre e meio por Papa hoje santificado. Mas a manipulação, de números ou outra, não é para aqui chamada. Os milagres agora certificados em folha azul de vinte e quatro linhas foram devidamente analisados, estudados, escrutinados e finalmente reconhecidos por uma comissão de sábios e peritos lúcidos e independentes que aplicou no processo, Deus me perdoe, verdadeiro rigor científico. Veja-se o caso, por exemplo, de um dos milagres de São João Paulo II. Floribeth Mora Dias tinha um aneurisma que a medicina não podia curar. A 1 de maio de 2011, às duas da manhã na Costa Rica, esta católica acompanhou pela televisão a beatificação do Papa polaco, apesar de habitualmente não conseguir “acordar normalmente” e voltou a adormecer. “Às oito da manhã ouviu uma voz no quarto que lhe dizia "levanta-te”, recordou. Apesar de estar sozinha, voltou a ouvir "levanta-te, não tenhas medo” e identificou a origem do apelo numa revista comemorativa da revista de João Paulo II, com o Papa polaco na capa, com as mãos levantadas. E pronto, macacos me mordam se não estava curada sem necessidade daquelas mezinhas que o Bruxo de Fafe obriga os seus clientes a emborcar. Natureza diferente têm os outros dois milagres papais. Para que não se diga que santos da casa não os fazem, a cura dirigiu-se desta vez a membros da própria Igreja. João Paulo II curou a freira Marie Simone Pierre que sofria de Parkinson. E João XXIII salvou a religiosa  Caterina Capitani de morrer devido a uma perfuração gástrica hemorrágica. Ora aqui confesso a minha decepção. Apesar de maravilhosos, estes dois milagres, não desfazendo, parecem-me poucochinho. Noto que João Paulo II e João XXIII conseguiram curar as religiosas das suas doenças mas, apesar dos seus imensos poderes, foram incapazes de as fazer celebrar missa.

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Os cobóis já andam aos tiros

por Teresa Ribeiro, em 20.04.14

Francisco, no seio católico, não é um nome, é um manifesto. Ao adoptá-lo, Bergoglio sabia que ia provocar o primeiro sobressalto não só na hierarquia, mas nos católicos que se identificam com ela. Em pouco tempo demonstrou também que a escolha do nome do frade, que foi perseguido e ostracizado pela Igreja, não foi um acto isolado de provocação. A cada gesto tem incomodado todos os que se habituaram a fazer do catolicismo uma coreografia e da relação com Deus uma estética ou um pretexto para o exercício narcísico da auto-indulgência.

Não por acaso se diz como piada que "Cristo foi o primeiro comunista da História". A doutrina que vem nos evangelhos e que ele tem usado como palavras de ordem contra o poder financeiro e a injustiça social está a irritar quem espera da religião apenas uma caução moral para o que faz na sua vidinha. E quanto mais o mundo, não só o católico, mas também o cristão em geral se rende aos seus encantos, maior é a desconfiança da casta que não se revê nesta apologia dos ditames esquerdóides de Jesus. 

Sempre mais descomplexados na sua relação com o dinheiro, os cristãos americanos gritam aos quatro ventos o que os seus confrades europeus, entre os quais muitos tugas, resmungam em surdina: Este Papa é marxista!

O ridículo pode matar muita gente, mas nunca os americanos da direita trauliteira.

Ler também:

 

 www.rushlimbaugh.com/daily/2013/11/27/it_s_sad_how_wrong_pope_francis_is_unless_it_s_a_deliberate_mistranslation_by_leftists

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Uma questão de (falta de) fé

por Pedro Correia, em 28.03.14

 

«Sair em direcção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direcção nem sentido.»

Papa Francisco, na exortação apostólica A Alegria do Evangelho

 

Barack Obama, de visita ao Vaticano, pede ao mundo para "ouvir a voz do Papa". É um apelo desnecessário: o mundo escuta a voz de Francisco. O mundo católico, o mundo agnóstico, até o mundo ateu.

"O Bispo de Roma, que os cardeais encontraram no fim do mundo, verifica que a situação dos povos que se mantiveram mais ou menos ligados ao seu ministério não lhe deixa esquecer a que enfrentou na maior parte da sua vida de sacerdote", destaca Adriano Moreira.

O socialista Pedro Silva Pereira, também católico assumido, não esconde a sua admiração pelo argentino que "já logrou uma proeza notável: fez renascer a esperança na renovação da Igreja Católica".

Mário Soares, que nunca foi católico, confessa ter como "ídolo" o chefe da Igreja Católica.

Francisco Louçã, descrente em matéria religiosa, elogia a "clareza do discurso" do Sumo Pontífice e não tem dúvidas pelo menos nisto: "É um Papa alegre e não encontramos nele outro calculismo que não seja o da sinceridade."

Até a inabalável esquerda.net adverte: "Seria um erro que as forças progressistas ignorassem as mudanças no Vaticano."

 

Perante tudo isto, surpreende-me ainda hoje que em Março de 2013, quando a Assembleia da República aprovou um voto de saudação pela eleição do primeiro Papa não-europeu em 1200 anos, três forças políticas tenham recusado associar-se a esta congratulação: BE, PCP e Verdes. Uma recusa partilhada por seis deputados do PS, o que ainda mais me surpreende.

Foram 30 parlamentares no total -- alguns deles revelando mais intolerância pelo representante máximo da religião com maior número de fiéis do globo do que pelo ditador da Coreia do Norte.

Tanto mais surpreendente quanto o inócuo texto que recusaram aprovar se limitava a isto: "A Assembleia da República, reunida em sessão plenária, saúda o Estado do Vaticano, a Igreja Católica e todos os que professam a sua fé, pela eleição do novo sumo pontífice."

 

Todo o mundo é composto de mudança. Interrogo-me quantos de entre eles não estarão hoje arrependidos de não terem votado de outra maneira. Francisco -- o líder mundial mais procurado no Google e mais presente no Twitter, a mais influente personalidade do planeta segundo a Fortune, eleito Pessoa do Ano pela Time -- ensina que "os valores tendem sempre a reaparecer sob novas formas, e na realidade o ser humano renasceu muitas vezes de situações que pareciam irreversíveis".

Interrogo-me quantos deles não diriam hoje, como disse Obama no momento em que se avistaram: "É maravilhoso conhecê-lo. É uma grande honra. Sou um grande admirador seu. Muito obrigado por receber-me."

 

Foto: Saul Loeb

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Não basta olhar: é preciso ver

por Pedro Correia, em 13.03.14

 

As primeiras impressões são as que mais contam. Releio o que escrevi faz hoje um ano, aqui no DELITO, sobre o recém-eleito Papa Francisco. Nunca tinha ouvido falar do cardeal Jorge Mario Bergoglio. Aquelas linhas foram redigidas de forma espontânea por efeito exclusivo do que acabara de ver e escutar, em directo do balcão principal da Basílica de São Pedro, tal como centenas de milhões de pessoas um pouco por todo o globo.

"Há-de receber os grandes do mundo, há-de ter reis e presidentes a pedir-lhe a bênção, há-de escutar incontáveis ovações. Mas hoje, no balcão da basílica, parecia não ambicionar nada mais do que ser irmão de todos nós", escrevi então. Os 12 meses entretanto decorridos só reforçam essas primeiras impressões, atestando a profunda autenticidade do sucessor de Bento XVI, um Papa que chegou "do fim do mundo", como ele disse de si próprio.

Francisco -- como preferiu chamar-se em homenagem ao santo de Assis, príncipe supremo do despojamento e da humildade, é hoje uma das raras personalidades que gozam da simpatia generalizada à escala universal com o seu jeito afável mas desassombrado. Realmente inconfundível.

 

Recordo-me bem desse fim de tarde de 13 de Março de 2013. E também das lamentáveis atoardas que nos dias imediatos alguns por cá se apressaram a divulgar sobre o novo chefe da Igreja Católica, apontando-o sem sombra de hesitação como cúmplice da tenebrosa ditadura argentina. Com aquele automatismo típico das "redes sociais", em que se dispara primeiro e se reflecte depois, logo os ecos da atoarda se propagaram. E nem o desmentido categórico de uma voz autorizada, a do Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquível, bastou para travar a torrente de impropérios.

Destacou-se nesta lamentável missão o professor Fernando Rosas, que como historiador tinha a obrigação de ser mais criterioso na selecção das suas fontes. Utilizando o púlpito televisivo em que costuma perorar, na TVI 24, surgiu a dizer coisas como esta: "O passado dele não é muito animador. Observo com reserva um Papa que foi duro com Kirchner e mole com a ditadura."

 

Curiosamente, nunca mais ninguém reincidiu nestas atoardas. Pelo contrário, Francisco é hoje mencionado como referência por alguns daqueles que há um ano, sem o conhecerem, se apressaram a denegri-lo antes de passarem a confessar-se seus admiradores. Invocam o Papa Francisco, utilizam-no como fonte de autoridade moral, repetem com ele que "esta economia mata".

Falharam por completo nas primeiras impressões. Por arrogância intelectual e humana, por aversão atávica à Igreja, por estarem condicionados pelo preconceito.

E falharam sobretudo por olharem sem ver. Porque o Francisco de hoje era já aquele que assomou à varanda na Praça de São Pedro, intitulando-se não Papa mas mero bispo de Roma e pedindo com humildade aos fiéis para rezarem por ele.

Humildade que nunca abandonou de então para cá.

Com a força inequívoca do seu exemplo, digno de um genuíno discípulo de Jesus, tornou-se fonte de inspiração para todos, partilhem ou não da sua fé.

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Perguntas a D. Manuel Clemente

por Rui Rocha, em 08.02.14

Certo. Tudo muito certo. Mas, nesse caso, nos países onde estes são uma minoria, exactamente que direitos dos católicos podem ser referendados? E, já agora, mesmo em Portugal e a título de exemplo, o grupo minoritário que se obriga ao celibato por exercer o sacerdócio está disponível para ver referendados quais dos seus direitos?

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Mau Maria

por Teresa Ribeiro, em 26.11.13

Não é por acaso que o culto mariano tem um papel fulcral na liturgia católica. A tolerante Virgem Maria toda ela doçura e perdão sempre me pareceu a intermediária ideal numa religião que caminhou na História ao lado do poder temporal. Jesus, ao invés, é incómodo. Não por acaso há quem lhe chame, por provocação, "o primeiro comunista da História". Francisco, que os sectores mais conservadores da Igreja acusam de populismo, pauperismo e demagogia tem fundamentado os seus discursos reformistas na mensagem de Cristo que consta dos evangelhos. Mas para algumas criaturas de Deus invocar a cada passo a fonte doutrinária de uma religião que tem raiz revolucionária é inquietante. Da mensagem essencial habituaram-se a apreciar a música, não necessariamente a letra, pois que esta, na sua génese como agora, se destina a pôr em causa o status quo.

Estes estetas de alma conservadora, capazes de matar pelo direito à vida, odeiam quando o discurso papal resvala para a qualidade de vida.

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Papa sofre quando papel das mulheres na Igreja é reduzido à servidão.

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Maria e as outras

por Teresa Ribeiro, em 15.08.13

Declaração de interesses: fui educada na corrente evangélica da religião cristã (que os católicos designam por protestante), mas como vivo num país católico é impossível não ter assimilado, ainda que com uma distância crítica, a sua cultura religiosa. Como tal, ao contrário do que muitos defendem, considero que os assuntos da igreja católica também me dizem respeito. De resto, se se orgulha da sua vocação universalista a ICAR só tem é que se abrir às críticas do mundo.

Vem esta introdução a propósito de um artigo que li no jornal sobre o sacerdócio das mulheres, um dos temas fracturantes do catolicismo. Não pretendo discorrer sobre o machismo da hierarquia católica, pois estou ciente de que não acrescentaria nada de novo à discussão. Permitam-me antes que exponha a perplexidade que este assunto desperta na minha alma protestante. Quando medito nele pergunto-me sempre como é que o culto mariano, que nós não praticamos e que a nossos olhos se revela como uma incompreensível subalternização de Jesus Cristo, pode conviver com esta teimosa exclusão das mulheres.  A resposta que vislumbro é perversa: esse culto, que enaltece a abnegação da virgem - a qualidade mais evidente na figura de Maria - serve para a Igreja estabelecer o seu guia comportamental para as mulheres: Sejam como ela. Perdoem as nossas ofensas e renunciem a tudo, que para pecar já cá estamos nós.

Malditas na sua génese, mães do pecado original, para se purificarem o melhor mesmo é as mulheres passarem directamente ao estado gasoso. Nessa qualidade terão até os machistas mais empedernidos a beijar-lhes os pés, dando ao mundo provas de humildade e do infinito respeito que lhes despertam as mulheres em abstracto e as santas no concreto.

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Francisco ou Francisco I?

por Pedro Correia, em 17.03.13

 

Surge a dúvida nas redacções na hora de escrever o nome escolhido pelo novo Papa: Francisco ou Francisco I? A resposta foi dada pelo próprio chefe da Igreja Católica ao ser anunciado, no balcão principal da basílica de São Pedro, pelo decano do colégio cardinalício: Francisco. Apenas Francisco. Com efeito, o numeral ordinal só se aplica numa sequência que envolva pelo menos dois. Daí o facto de mencionarmos também os reis de Portugal à luz deste critério: D. Dinis, D. Duarte, D. Sebastião ou D. Miguel, que não tiveram continuadores onomásticos, são designados assim mesmo, sem numeral. Que resulta absurdo quando é usado ocasionalmente em alusões a uma "Avenida D. Carlos I" (em Lisboa) ou a uma "ponte D. Luís I" (no Porto). Pelo simples motivo de que Portugal apenas teve um rei com cada um destes nomes.

De resto, é esse igualmente o critério na Igreja Católica: Pedro foi o primeiro Papa. Só Pedro. Porque nunca houve um Pedro II. Nem haverá. Porque se houvesse, reza uma velha superstição, seria o último.

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Bergoglio, Rosas e Esquível

por Pedro Correia, em 14.03.13

O Bloco de Esquerda consegue marcar presença em qualquer debate televisivo: só falta mesmo vê-lo envolvido também nas discussões para a eleição do novo presidente do Sporting.

Ontem à noite, num canal televisivo, lá vimos o professor Fernando Rosas - um dos quatro fundadores do Bloco - perorando numa dessas tertúlias televisivas a propósito, vejam lá, da eleição do novo Papa. Começou logo, sem rodeios, por declarar-se ateu - o que em princípio não o recomendaria a estar presente num debate entre quatro pessoas sobre a Igreja: num país que tem vários milhões de católicos, certamente não foi por falta de alternativas que ele ali estava. Se o mesmo critério for aplicado num futuro debate sobre o próximo líder do Bloco de Esquerda (Deus conserve a liderança bicéfala de Catarina Martins e João Semedo por muitos e bons anos), não ficarei surpreendido por ver em estúdio alguém que esteja para a política como Rosas está para a religião.

 

O que disse neste debate o mais famoso ex-fumador de cachimbo da esquerda portuguesa? Nada que não se previsse: o Bloco impõe o seu caderno reivindicativo em todas as circunstâncias - e como tal, enquanto "cidadão do mundo", Rosas apressou-se a enunciar o seu ao Papa, chefe de uma religião em que não crê.

Para merecer a indulgência do ilustre historiador, o ex-arcebispo de Buenos Aires terá de cumprir a agenda bloquista em matéria religiosa, isto é: pronunciar-se contra o "capitalismo selvagem e a irracionalidade neoliberal", assumindo-se como "um Papa dos oprimidos".

Mas, despido de paciência evangélica, Rosas não perde tempo a lançar um anátema sobre o sucessor de Bento XVI, do alto da consabida superioridade moral que serve para qualquer militante bloquista encarar o mundo. Ele, que duas horas antes talvez nem tivesse alguma vez ouvido falar em Jorge Mario Bergoglio, já estava ali na pantalha a dardejar o seu verbo inflamado contra o pontífice recém-eleito: "O passado dele não é muito animador. Observo com reserva um Papa que foi duro com Kirchner e mole com a ditadura."

 

Se tivesse esperado um pouco mais, se soubesse informar-se melhor antes de se pronunciar sobre o que ignora, o professor Rosas teria lido a declaração de Adolfo Pérez Esquivel, o prestigiado Nobel da Paz argentino, que em declarações à BBC não deixa lugar a dúvidas: "Bergoglio não teve nenhuma ligação à ditadura." 

Abalará esta declaração as flamejantes certezas dos censores morais? Certamente que não. Podem proclamar-se ateus, como Fernando Rosas, mas adoram pregar no púlpito. Nunca se enganam e raramente têm dúvidas.

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Simplesmente Francisco

por Pedro Correia, em 13.03.13

Mal acabei de ver o novo Papa assomar ao balcão da Basílica de São Pedro, lembrei-me de um dos seus predecessores: Albino Luciani, patriarca de Veneza, que passou à história como o efémero João Paulo I, pontífice por 33 dias.

Também ele apareceu com ar despojado, fraterno, repassado de fragilidade humana. De braços caídos, sem pedir aplausos, com um sorriso tímido, parecia querer dizer aos mil e trezentos milhões de crentes que o reconhecem a partir de hoje como dirigente espiritual que está disposto a aceitar este imenso desafio que o destino lhe proporciona embora não se sinta verdadeiramente digno dele.

 

 

As primeiras palavras que dirigiu à multidão foram as mais inesperadas, por serem tão simples: "Boa noite." Passou logo ali uma corrente afectiva entre quem falava e quem ouvia: muitos dirigentes políticos deviam aprender com momentos destes - em comunicação não é preciso inventar nada, basta ir à essência das ideias e das palavras. A roda já foi inventada há muitos milhares de anos...

 

Jorge Mario Bergoglio - argentino de 76 anos, jesuíta, filho de um imigrante italiano, diplomado em Engenharia Química - é o primeiro titular do Vaticano oriundo do continente americano, o maior viveiro de fiéis católicos do planeta. Vivia num modesto apartamento em Buenos Aires, deslocava-se em transportes públicos, cozinhava as suas próprias refeições, aprecia tango, gosta de ver jogos de futebol e de encorajar os jovens a descobrir Cristo entre os pobres.

Escolheu um nome simples, sem antecedentes no trono de Pedro e portanto sem numeração. Simplesmente Francisco. Como Francisco Xavier, o santo missionário que deixou o coração em Goa. Como Francisco de Assis, que se despojou de todos os bens materiais para melhor servir os outros.

Há-de receber os grandes do mundo, há-de ter reis e presidentes a pedir-lhe a bênção, há-de escutar incontáveis ovações. Mas hoje, no balcão da basílica, parecia não ambicionar nada mais do que ser irmão de todos nós.

Francisco, ainda sem a estola papal, começou por pedir que rezassem por ele - outro gesto de inequívoca humildade que me fez lembrar Luciani, o pontífice do sorriso que tão cedo se apagou. E depois, como se estivesse ainda mal refeito da surpresa, afirmou: "Foram buscar-me ao fim do mundo..."

Que o santo de Assis o ilumine na peregrinação iniciada agora. E que no fim da caminhada saiba dizer também, como o outro Francisco disse: "Primeiro faz-se o necessário, depois o que é possível e de repente estamos a fazer o impossível."

Habemus Papam.

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Habemus Papam.

por Luís Menezes Leitão, em 13.03.13

 

Era difícil os cardeais terem escolhido para Papa alguém mais diferente de Bento XVI. Enquanto Ratzinger era um intelectual, avesso a multidões, Bergoglio demonstrou logo na sua primeira aparição pública que se movimenta nelas como um peixe na água. Foi impressionante a empatia que criou junto das centenas de milhares de fiéis que enchiam a Praça de São Pedro. E, embora tivesse pedido duas orações pelo Papa Emérito Bento XVI, ficou claro para todos que a partir deste momento é ele e só ele quem enverga o anel do pescador e que as coisas vão mudar muito no Vaticano. A escolha do nome Francisco é todo um programa de reorientação da Igreja no sentido de missionação universal e de apoio aos pobres, em contrariedade precisamente ao nome de Bento que representava antes a tradição intelectual da unidade da Europa em torno da Igreja. Não é por acaso que Bergoglio tinha sido o preferido no anterior conclave por aqueles que se opunham à escolha de Ratzinger. Com Francisco I a Igreja Católica vai abandonar o seu eixo romano e andar pelos confins do mundo onde os cardeais foram buscar o novo Papa.

 

É impossível ignorar o peso político que tem a escolha de um novo Papa. Embora Estaline tivesse uma vez perguntado quantas divisões tinha o Vaticano, é evidente que é enorme a influência de alguém que é o chefe religioso de centenas de milhões de pessoas. E, ou muito me engano, ou, ao contrário de Ratzinger, este novo Papa vai ter uma intervenção pública constante de defesa dos mais desfavorecidos perante a crise económica que assola o mundo. Há uma nova realidade no Vaticano com que os governantes mundiais passam a ter que contar.

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What if?

por Ana Vidal, em 12.03.13

Por estes dias, a Capela Sistina é uma espécie de Clube do Bolinha: "Minina não entra". Talvez para compensar, os purpurados usam saias de rendinhas, chapéus engraçados e sapatos de cetim encarnado.

Enfim, faites vos jeux, senhores cardeais. Para vos iluminar, aqui fica este conclave... de sol. What if God was one of us, hein?


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Um bispo voando sobre um ninho de cucos

por Rui Rocha, em 10.03.13

Está um pobre de Cristo com os olhos e os ouvidos postos no Vaticano, sempre em estado de prontidão, à espera de um sinal do Espírito Santo, de uma manifestação do Divino, de uma inspiração do Altíssimo, e eis que a roda dos milagres aponta, pasme-se, para Bragança. Ali nos fazendo ver não um, mas uma catrefada deles. O primeiro consistiu, nada mais, nada menos, no facto de o Bispo de Bragança-Miranda ter voado. Literalmente, não na acepção mística. E sem bater as asinhas. Não muito, é certo. Coisa de 2 ou 3 metros, dizem os que viram e não foram poucos. O segundo no de D. José Cordeiro ter saído ileso de uma aterragem que, tudo somado, teve os seus melindres. O terceiro, mas seguramente not the least, no de o representante do Gabinete de Comunicação da Diocese ser o padre Fernando Calado. O quarto no de este, apesar disso, ter falado. Na ocasião, para esclarecer integralmente o assunto. O quinto no de o nosso Cordeiro de Deus, apesar de toda a pobreza e contrição que prega e vai recomendado, ter encontrado financiamento suficiente para se fazer transportar num Passat CC, sabendo nós, louvado seja o Senhor, ao preço a que está o dinheiro. O sexto no de o voo do Bispo contribuir decisivamente para a revitalização do sector automóvel potuguês. Se formos a ver, foi o Clio do leigo para a sucata e o Volkwagen do Bispo para o estaleiro. Tudo material que fica carecido de substituição. O sétimo no de a Sagrada Família, utilizando como  utilizava, um burro como meio de transporte, sem ABS, airbags ou rodas direccionais, ter conseguido sempre escapar a qualquer acidente. O último no de se terem salvo do embate um ninho de cucos e os seus condóminos, coisa que, não sendo verdade, ajuda muito a compor o título.

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Entretanto, no Vaticano

por Rui Rocha, em 07.03.13

Se bem percebi, e de acordo com a prática habitual, nas reuniões e encontros preparatórios do Conclave os cardeais devem tentar perceber quais de entre eles são papáveis.

 

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Bento XVI (2005-2013)

por Pedro Correia, em 02.03.13

 

«Sono semplicemente un pellegrino che inizia l'ultima tappa del suo pellegrinaggio in questa terra.»

Castelgandolfo, 28.2.2013

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Que se linche o teu irmão

por Pedro Correia, em 01.03.13

Por muito menos, este senhor proclamou-se vítima de um linchamento. Agora, estando sob mira pública um irmão na fé, e sem o menor assomo de caridade cristã, ei-lo a acender a fogueira num tema onde todas as precauções são devidas sendo a natureza humana o que é e tendo provocado os assassínios de carácter que já provocou. Repare-se no nível intelectual desta argumentação: "Ouvi que ele tinha tido um comportamento dessa ordem." E desta, que inverte o ónus da prova: "Não possuo quaisquer elementos que provem que isso não é verdade."

Se não é linchamento, imita bem. Sobretudo após o categórico desmentido do visado, a quem não pode ser negado o direito à defesa. E do louvável acto de contrição já assumido por outro interveniente na polémica.

Merece forte penitência por tão ruim pecado, senhor bispo.

 

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 24.02.13

«Quando S. Jerónimo introduz a designação "Lucifer", transforma a expressão "portador da luz", que antes se aplicara a Cristo, no pior inimigo dos homens e de uma concepção de Deus.
O povo irá aprender a temer o "Demo", que é afinal o próprio povo, e ainda "Lucifer" que era designação de Cristo - ou seja iria ter como principal inimigo aquele que traria a luz, que libertaria o povo das trevas.

(... quem quiser, pode continuar a ler aqui:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2012/05/mayday.html)

É claro que etimologicamente se dirá que "demónio" vem de "daimon", e nesse caso será de procurar aí a raiz "democrática", que iludindo dar voto a todos, coloca todos os votos empilhados numa pirâmide zarolha.

Também etimologicamente não se dirá que "diabo" significaria "rico"... mas já se disse em tempos idos.
Por isso, o povo teme a ira dos diabos (ricos, mafarricos), e para isso confia que os "ricos" o protejam do "demónio", ou seja, de si próprio. Algo em que estão implicitamente de acordo, porque os "ricos" também não querem ser vítimas do "demónio"-povo.

A ideia é que para que o povo seja ordeiro, cordeiro, há um sacrifício "cabrão", que Abraão fez, e que veneramos em nome da Paz-coa (coar é filtrar, digamos, uma paz filtrada).
Acrescenta-se que "venerar" virá de Vénus que, enquanto estrela da manhã, é Lucifer, pois anuncia a alvorada.

Uns são ovelhas, e os pastores temem ser bodes expiatórios, porque se os pés-de-cabra abrem portas, também os denunciam na figura de "cabrões". Isso e os chifres, cifras que se traduzem em cifrões.

Mas, como diria o outro, são tudo trocadilhos... e por isso, se não há pressão, qual é a pressa?
Não se passa nada!»

 

Do nosso leitor Da Maia. A propósito deste texto da Ana Vidal.

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Mais um sinal do altíssimo?

por Teresa Ribeiro, em 22.02.13

Os escândalos sexuais parecem não querer abandonar a Santa Madre Igreja. Se o que o jornal italiano La Repubblica publicou ontem é verdade, Bento XVI fez bem em resignar. Este escândalo não é para octogenários com insuficiência cardíaca, mas pode e deve ser matéria de reflexão para o senhor que se segue. Quem sabe não será esta série de casos um sinal do altíssimo para se acabar de vez com o celibato obrigatório dos padres.

Recalcamentos sexuais estão na origem de muitos comportamentos desviantes e, ao contrário do que a Igreja sustenta, dificultam a concentração e diminuem o rendimento no trabalho.

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A douta ignorância

por Ana Vidal, em 20.02.13

Quem me conhece sabe como sou crítica em relação à igreja católica. Sou cristã por opção, mas isso não significa que aprove aquilo que os católicos fizeram ao longo dos tempos com a mensagem original de Cristo, admirável e verdadeiramente revolucionária. Tudo foi deturpado por razões bem humanas (mas indesculpáveis), trocando a liberdade e a responsabilidade individual que era proposta aos homens pela disciplina do medo, instaurada através da terrível mas eficaz fórmula "pecado-culpa-castigo". E assim tudo regressou de novo a terrenos mais seguros para quem gosta de exercer poder sobre os outros, aqueles outros que, por sua vez, preferem uma cartilha de pecados e virtudes por onde possam guiar os passos sem risco de excomunhão. Enfim, esta é uma pacífica mas insanável divergência que discuto habitualmente com amigos católicos desde que penso pela minha cabeça. Sou lúcida, curiosa e rebelde demais para não questionar dogmas impostos, para não querer saber o que esteve na sua génese, para não rejeitá-los se me parecem absurdos, desactualizados ou injustos.


Mas, se condeno a manipulação, condeno-a em todas as frentes. Tanto quanto as imposições irritam-me as críticas acéfalas, baseadas numa ignorância desonesta ou preguiçosa que tem como única intenção armar escândalo e alimentar ódios fáceis. Já não bastava sermos todos especialistas em macro-economia, agora também somos todos teólogos e doutorados em latim.

Este vídeo - que se refere a um hino Pascal supostamente demoníaco - foi posto a circular na net e tornou-se viral num ápice, exactamente como se pretendia. O título já diz tudo, para quem nem sequer o trabalho de o ouvir quiser ter. Mas, goste-se ou não da igreja católica, goste-se ou não de Bento XVI e da atitude que tomou, é de uma pobreza confrangedora perorar sobre aquilo de que não se percebe patavina só para fazer coro com a maioria. Para o que também a mim pareceu estranho à primeira impressão, procurei e encontrei explicações de quem entende alguma coisa do assunto. E descobri que Lucifer, em latim, significa apenas "portador de luz". A palavra está assim presente em varias orações da Igreja, em latim, e não se aplica evidentemente ao Diabo. Lucifer era o maior de todos os Anjos e não perdeu o nome apesar de abandonar Deus, de tal maneira que esse nome foi dado a muitos cristãos dos primeiros tempos e até existe um S. Lucifer. Em suma, descobri que a tradução apressada (se não propositadamente deturpada) que aparece no video, está longe de ser a mais correcta.


Gosto de argumentos, não de batotas.

 

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Ela estava lá

por Pedro Correia, em 12.02.13

 

Saber latim possibilitou à jornalista Giovanna Chiri, da agência italiana Ansa e credenciada no Vaticano, um dos furos mediáticos mais relevantes de que há memória: presente ontem de manhã numa cerimónia no Vaticano que parecia pouco apelativa, do ponto de vista jornalístico, ela testemunhou (e entendeu) as palavras de Bento XVI e poucos minutos depois, às 11.46 (hora local), transmitia ao mundo a grande novidade em primeira mão: a primeira renúncia de um Papa desde 1415 - o ano da início da expansão portuguesa, no reinado de D. João I, com a conquista de Ceuta.

Dois méritos revelados nesta história, tão significativa, tão exemplar - e que acaba por constituir notícia dentro da notícia muito mais relevante da saída de cena do dirigente supremo da Igreja Católica. O mérito da cultura, do conhecimento, da aprendizagem de línguas - mesmo de uma língua considerada "morta" como o latim. E o mérito de estar no local e poder escutar de viva voz estas palavras de Bento XVI ainda tão recentes mas já com tanta relevância muito para além das fronteiras do universo religioso: "Cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério de Pedro."

Um jornalista nunca deve desvalorizar à partida a possibilidade de uma boa história. Porque a história acontece quando menos se espera. E às vezes até se escreve com H maiúsculo, como ontem sucedeu.

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Raio atinge cúpula de São Pedro horas depois de Bento XVI renunciar.


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Louvado seja o Senhor

por Rui Rocha, em 12.02.13

Confesso que não sei onde tanta modernice nos vai levar. Falam agora da possibilidade de o sucessor de Bento XVI ser um cardeal negro. Se isto continuar assim, um dia, Deus me perdoe, ainda teremos uma mulher a ocupar o lugar de Pedro.

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Non habemus Papam

por Pedro Correia, em 11.02.13

 

Vi, ao vivo, três Papas. Paulo VI em Roma (1978), João Paulo II em Lisboa (1982), Bento XVI também em Lisboa (2010). Sempre associados a um magistério que só terminaria com o desaparecimento físico de qualquer deles. Nunca imaginei que fizesse sentido a expressão "Papa demissionário".

Já faz, desde esta manhã.

Num tempo em que qualquer irrelevância se torna manchete, eis-nos perante uma verdadeira notícia. E se o romance As Sandálias do Pescador, de Morris West, antecipou em década e meia o pontificado de Karol Wojtyla, o homem que emergiu da igreja do silêncio, a renúncia de Joseph Ratzinger era de algum modo prenunciada há dois anos num filme visionário: Habemus Papam, de Nanni Moretti.

Ficção e vida entrelaçadas, tornando ainda mais insondáveis os desígnios de Deus.

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Só isso justifica que tenha prescindido da vaca e do burro e que deixe ficar o Gaspar.

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Mal passado, por favor

por José Navarro de Andrade, em 09.11.12

 

Afinal em que ficamos?

Quando um bispo profere uma diatribe contra o capitalismo, a esquerda aplaude a mãos ambas.

Quando Isabel Jonet, talvez com excessiva candura, diz a mesma coisa embora a partir de outro ângulo, cai o Carmo e Trindade.

Um das razões porque o actual Papa merece toda a consideração ideológica de quem se lhe opõe, é porque ele, brilhante teólogo, colocou as coisas em pratos limpos: a Igreja Católica nunca se acomodou nem se acomodará aos princípios do Iluminismo. Alguns desses princípios, aliás de vincada índole protestante, são a legitimidade da acumulação da capital – os judeus, lembram-se? –, a certificação do esforço individual, a bondade da progressão social.

Além da Fé e da Esperança, a Caridade integra o motto do catolicismo. A frugalidade, a temperança, são os valores que devem levantar-se contra o consumismo desenfreado. A parcimónia e a modéstia opõem-se à especulação e ao enriquecimento, os quais, cegam a virtude e roçam a imoralidade. A gratidão e a obediência, são barreiras à propensão capitalista para o tumulto e àquela nefasta espécie de inquietação social que faz os homens quererem sempre ter mais do que já têm. Sim, quanto mais conservador é o discurso clerical, mais se assemelha às bandeiras de uma certa esquerda portuguesa. Tão arreigado quanto isto é o pior da herança salazarista que persiste em não desaparecer, tão amplo quanto isto é o arco nacional contra a livre iniciativa.

Isabel Jonet limitou-se a reiterar os valores morais que sempre defendeu, os quais costuma pôr em prática com boa-fé e boa-vontade. Para quem nunca os partilhou, embora considere louváveis os resultados, qual é a surpresa?

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Tragicomédias

por Ana Vidal, em 24.10.12


 

A moda da stand-up comedy tomou conta deste país, decididamente. De repente, tornámo-nos um povo de cómicos, debitando piadas em qualquer palco, com qualquer público que se preste a ouvir-nos. Já não bastava as estrelas da canção que todos os pais portugueses julgam ter em casa, e que promovem com a convicção inabalável de chegar a ver lançadas no estrelato internacional as suas pequenas Madonnas, agora descobrimos a nossa veia de comediantes. Sobram-nos os motivos e os temas, é certo, sobretudo no que toca ao humor negro. Mas falta-nos quase sempre aquela dose mínima de sofisticação, de ironia e de subtileza que faz dos ingleses os reis da graça inteligente. Há excepções, evidentemente, mas essas são conhecidas e reconhecidas. A maioria é um desastre.

 

Na impossibilidade genética de imitar os britânicos, acabamos por cultivar um cruzamento entre a piada revisteira e ordinarota (registo em que éramos bons, pelo menos) com uma confrangedora colagem ao humor que aprendemos - mas não apreendemos - com a infindável repetição de séries americanas. Que também as há óptimas, não duvido. Mas que não nos basta passar a beber café por uma caneca, comer hamburgers com ketchup e andar em casa de meias de lã com sola de borracha para nos transformarmos em genuínos Seinfeld's, disso também não tenho a menor dúvida. Chega a ser deprimente o desfile de mediocridade de hordas de aspirantes a "cómicos" nos canais televisivos, absolutamente seguros do seu talento, como se a comédia não fosse a mais difícil e ingrata das artes de palco.

 

O fenómeno é irreversível, e já ultrapassou há muito as fronteiras do razoável. Relato-vos um caso que presenciei, há pouco tempo, numa missa de sétimo dia. Sim, é verdade: a "piadomania" também já chegou à igreja, e manifesta-se nas alturas mais inconvenientes. Perante uma assembleia consternada por uma morte prematura, duríssima, o padre resolveu fazer-se engraçado. Disse, entre outras inacreditáveis patetices, que rezava o terço a caminho de casa, a conduzir: "Uma ave-maria e uma aceleradela, uma santa-maria e um pé no travão", acompanhando esta descrição edificante com um gesto de braços e um estalar de dedos que lembrava o vira do Minho. Ainda estávamos mal refeitos da surpresa e já outra graçola vinha a caminho, no elogio fúnebre: "O ... era um artista. Fez muito do que se pede a um homem para que deixe memória na sua passagem por esta vida. A mim, por exemplo, falta-me tudo: nunca escrevi um livro, nunca plantei uma árvore e nunca tive um filho. Pelo menos até agora... ainda!" E sublinhava o "ainda!" com um sorriso malandreco e um inclinar de cabeça, como a sugerir que tencionava tratar nessa mesma noite de colmatar a lacuna. Toda a homilia que se seguiu foi no mesmo tom de stand-up comedy, perante uma plateia contrita pela total ausência de tacto numa ocasião daquelas.

 

Devo acrescentar que nada tenho contra o casamento e a sequente procriação dos padres católicos. Pelo contrário, penso que uma conjugalidade autorizada poderia talvez contribuir para contrariar as estatísticas da desertificação de vocações. Mas esta declaração em tom de piada fácil, completamente deslocada do contexto, deu-me vontade de vaiar o padre-humorista ali mesmo, como se faz aos maus actores que mais valia fossem aprender o muito honrado ofício de pedreiro.

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Pretérito prefeito

por Rui Rocha, em 29.07.12

Gerhard Müller, o novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, considera que a exclusão das mulheres da ordenação sacerdotal na Igreja Católica segue a vontade e chamamento de Cristo. Se virmos bem, é capaz de ter razão. Os apóstolos eram todos homens. Já então, para que eles pudessem acompanhar Jesus na proclamação da Boa Nova, era preciso que ficasse alguém a trabalhar. Assim sendo, presumo que não será nada fácil mudar este estado de coisas. A menos que, um dia destes, Deus nos envie uma filha para salvar as mulheres (e, já agora, se tiver tempo, também os homens que andamos bem precisados). Com um bocado de sorte, a filha de Deus calha de ser negra e ficamos logo com dois problemas resolvidos: o do machismo e o do racismo. Pensando bem, melhor seria que viessem duas filhas, sendo a segunda chinesa. Para além do racismo e do machismo, ainda dávamos um passo de gigante no domínio de outros direitos humanos.

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Quatro perguntas

por Pedro Correia, em 17.07.12

1. Enquanto capelão das forças armadas, e como tal inserido na hierarquia militar com a patente de major-general, deve o bispo Januário Torgal Ferreira continuar a prestar lealdade a um Governo que, nas suas próprias palavras, é "profundamente corrupto"?

 

2. Os chefes dos três ramos das forças armadas revêem-se de algum modo nestas declarações e, em caso negativo, romperão o silêncio para dizerem o que pensam?

 

3. Sendo o estado português laico o que justifica a manutenção em funções de um bispo católico das forças armadas?

 

4. Em nome da necessidade de conceder equidade de tratamento às diversas confissões religiosas, garantia decorrente do artigo 13º da Constituição da República, não deveria a hierarquia militar incluir igualmente nas fileiras castrenses, talvez também com o posto de major-general e respectivo "suplemento de condição militar", um rabino, um imã, um bonzo e um xamã?

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A vontade da Santa Sé.

por Luís Menezes Leitão, em 09.05.12

 

Desde que D. Afonso Henriques decidiu dar a independência a este cantinho à beira-mar plantado que, com excepção do tempo dos Filipes, não temos um Governo tão subserviente aos ditames do estrangeiro. Primeiro o Governo obedece atento, venerador e obrigado, a todas as medidas que venham da troika, por mais disparatadas que as mesmas sejam e, como se viu, estarem a arrasar totalmente o país. Depois, nesta história dos feriados, uma iniciativa absolutamente ridícula e que só demonstra uma falta de consideração pelos símbolos nacionais como não há memória em Portugal, acabou por transformar a extinção dos feriados religiosos numa suspensão por cinco anos porque "é a vontade da Santa Sé". Pelo vistos, para o Governo, se é a vontade da Santa Sé, ou da Santa Troika, amen. Mas como nem a Santa Sé, nem a Santa Troika se importam com os feriados que comemoram a independência do país ou o regime republicano, esses serão definitivamente extintos. Se o Ministro da Economia tivesse um pingo, já não digo de sentido de Estado, mas de vergonha na cara, voltava atrás com esta absurda proposta de extinção de feriados e poupava-nos a este triste espectáculo da humilhação do Estado Português e dos seus símbolos nacionais, a que todos os dias somos forçados a assistir.

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Um estudo da Universidade Católica revela que existem menos católicos em Portugal (86,9% da população há 12 anos contra 79,5% actualmente). Em comentário de circunstância, o porta voz da Conferência Episcopal declarou a propósito que o essencial é a qualidade e não a quantidade. Se a qualidade se mede pelo compromisso dos católicos com os ritos e actividades da igreja, os resultados não são, todavia, muito animadores. Na verdade, mais de metade são católicos nominais (nunca vão à missa) ou praticantes ocasionais ou irregulares (vão à missa até 11 vezes por ano). Entretanto, o dado mais contundente no que diz respeito ao afastamento progressivo da população da matriz católica encontra-se no quadro em que se analisa a posição religiosa por escalão etário:

 
No escalão até 24 anos, apenas 61% dos inquiridos se dizem católicos. E no escalão entre 25 e 34 anos os católicos são menos de 70%. Isto é, não só a ICAR está a perder fiéis, como revela uma progressiva incapacidade de cativar o interesse das pessoas à medida que a sua idade baixa. Não faltarão explicações para o facto. Pela minha parte, atrevo-me a sugerir que a ICAR nunca poderá constituir uma proposta atractiva para uma população que, nascida em liberdade e educada num contexto em que a igualdade da mulher se tornou inquestionável, não encontra na proposta católica mais do que o reconhecimento relutante e, aparentemente, a contragosto, dessa realidade. A retórica católica sobre a protecção dos mais fracos não se compreende, hoje em dia, se não incluir, mais do que a tolerância perante essa igualdade, um compromisso forte no sentido do seu reconhecimento e da sua promoção ali onde ela ainda faltar.

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Preso por dar vivas à liberdade

por Pedro Correia, em 10.04.12

 

«Protege-te dos vacilantes /

Porque um dia saberão o que não querem»

Heberto Padilla

 

Vários dias depois, interrogo-me sobre o destino daquele homem que se encheu de coragem e gritou "abaixo o comunismo, viva a liberdade" pouco antes do início da vasta missa campal celebrada pelo Papa na Praça Antonio Maceo, em Santiago, segunda maior cidade de Cuba. Foi um grito insensato, atendendo ao contexto, mas as figuras tocadas pelo heroísmo não costumam caracterizar-se pela sensatez.

Vejo e ouço rostos e nomes de assassinos diariamente nas páginas dos jornais e nas imagens dos telediários. Por lamentável contraste, ignoramos tantas vezes a identidade destes heróis solitários que ousam proclamar em voz bem alta o que milhões de concidadãos pensam em países agrilhoados e amordaçados. Ao ver aqueles fugazes segundos de reportagem televisiva em que vários esbirros da ditadura cubana rodeavam o indivíduo e o levavam para parte incerta, pensei que aquela era a perfeita metáfora de uma revolução falhada: 53 anos após a vitoriosa entrada dos barbudos da Serra Maestra em Havana, basta alguém proclamar uma frase em louvor da liberdade para ser riscado da convivência cívica.

Infelizmente, nada que deva surpreender-nos: em Cuba qualquer cidadão pode ser detido a todo o momento com acusações tão vagas e tão implacáveis como "faltar ao respeito aos símbolos pátrios", algo que muitos comunistas portugueses associariam de imediato à ditadura salazarista embora estejam sempre na primeira linha do aplauso ao chamado "socialismo cubano".

O problema não reside apenas na facilidade com que se é preso em Cuba. Há "flagrantes violações da dignidade humana" nos cárceres castristas, como alertam opositores à ditadura, entre eles o médico Óscar Elías Biscet, que sabe muito bem do que fala: esteve 12 anos preso por delito de opinião.

Pensava em tudo isto enquanto acompanhava a missa papal em Santiago sintonizando o canal oficial cubano Cubavisión, de que disponho através da TV Cabo. Dir-se-ia um canal devoto, tanta era a solene deferência perante Bento XVI nesta sua inédita peregrinação ao país que Fidel Castro fez proclamar em 1976 como estado ateu até à revisão constitucional de 1992.

 

Escuto com alguma emoção o Credo recitado em coro por largos milhares de vozes. Na primeira fila da assistência à cerimónia litúrgica alinham-se respeitosamente vários membros da nomenclatura cubana, com destaque para o "general do exército Raúl Castro, presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros", como não se cansa de assinalar a locutora da Cubavisión. O irmão mais novo e herdeiro de Fidel saudou o Papa chamando-lhe "Santidade", algo impensável noutros tempos. Quase todos os bens da Igreja Católica foram "nacionalizados" após 1959 e dezenas de sacerdotes acabaram por ser expulsos da ilha, onde o ensino religioso foi proibido. Até 1991 um cidadão cubano tinha de se declarar "não crente" para ingressar no Partido Comunista.

"Ficaram para trás os anos de fanatismo anti-religioso em que as pessoas eram expulsas do trabalho ou da escola só por terem em casa um quadro do Sagrado Coração de Jesus", escreveu Yoani Sánchez no El País. O mesmo jornal que viu o seu correspondente em Havana, Mauricio Vincent, ser expulso da ilha em Setembro de 2011: os seus artigos independentes irritavam as autoridades comunistas.

 

Cuba deve avançar "pelos caminhos da justiça, da paz, da liberdade e da reconciliação", disse o Papa na sua homilia em Santiago enquanto a chuva caía, com persistência muito tropical. As imagens da Cubavisión focavam a multidão compacta, mas quase sempre à distância, com raros planos aproximados. A política contamina tudo - até a realização televisiva. O general Raúl Castro cumprimentou o Sumo Pontífice com uma semivénia respeitosa, a poucos metros da imagem da padroeira cubana, à qual Ernest Hemingway - cubano por opção e adopção - ofereceu a medalha recebida em 1954 pela Academia de Estocolmo que o distinguiu com o Nobel da Literatura.

Hemingway viu-se forçado a abandonar Cuba em 1960, o que lhe apressou a morte. Vivesse ele hoje e talvez acabasse por escrever um romance sobre aquele desassombrado cubano detido simplesmente por dar vivas à liberdade - anónimo herói da vida real. Robert Jordan - o protagonista de Por Quem os Sinos Dobram - gostaria de o conhecer. E era bem capaz de juntar a sua voz àquele corajoso brado solitário.

Foto: Enrique de la Osa (Reuters)

 

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Manuel, in memoriam

por José Navarro de Andrade, em 21.02.12

 

Sou ateu até à medula dos ossos – saí assim. Estou por isso em condições privilegiadas para dizer que hoje morreu alguém que mais se aproximou da ideia que faço de um santo: D. Manuel Falcão, Bispo Emérito de Beja.

Nunca me foi dado ver pessoa tão desprendida dos seus cuidados materiais. Embora pertencesse a uma família abastada, tinha que ser a irmã a mudar-lhe em segredo o guarda-roupa quando os fatos já se encontravam quase no fio. O automóvel de serviço, era ele, sempre que possível, quem o consertava em caso de avaria, dando uso à sua formação de engenheiro. O dinheiro de que dispunha, dissipava-o em pequenos auxílios discretos ou numa obra monumental, lenta e prudente: o levantamento, restauração e conservação do património histórico e artístico da diocese de Beja. Isto dito assim parece coisa institucional e maçadora, mas não era, porque estando entregue a José António Falcão (apesar do nome não tem qualquer laço familiar) tornou-se “apenas” um case study.

Foi em Janeiro de 1975 que Manuel Falcão recebeu o bispado de Beja. É difícil conceber cargo mais complicado, dada a hora e o local. Como ele o desempenhou, se quiserem saber, falem com pessoas de Beja, sobretudo comunistas, que elas vos dirão.

Manuel Falcão não era um homem efusivo e prazenteiro, mas era de trato cordial e sobretudo ponderado. Ou seja, procurava sempre salvar o pecador do seu pecado, em vez de brandir as penas do inferno, por maior que fosse o erro. Sei do que falo e com ele aprendi que o anti-clericalismo é insensato. Percebi também que ser ateu em paz e descanso, sem correr riscos de ver a cabeça separada dos ombros ou acabar com o corpo em chamas, é uma prerrogativa das sociedades cristãs contemporâneas. Bem sei que isto contrasta com alguns preconceitos dominantes, mas é a vida…

Pelo Natal, Manuel Falcão entregava a cada um dos 79 sobrinhos-netos um envelope com €20. Dava-lhes também a responsabilidade de entregarem esse dinheiro à instituição de caridade ou beneficência que entendessem.

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Valha-o Deus, homem

por Rui Rocha, em 17.02.12

D. Manuel Monteiro de Castro, o novo cardeal português, entende que "a mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos”. É de homem. Das cavernas, benza-o Deus. Desde logo, é lamentável que transpareça do discurso uma visão funcional das mulheres. Se bem a conheço, a visão oficial da Igreja Católica apela à integridade ontológica, independentemente de qualquer função. É nessa perspectiva que se entende, por exemplo, a defesa da proibição do aborto. Entendamo-nos. O lugar das mulheres é onde elas quiserem, mesmo que não sirvam para nada ali onde estiverem. O mesmo se aplica aos homens. Sendo que, no caso destes, a probabilidade de não servirem para nada seja lá onde for é bem maior. Tal como a de fazerem ou dizerem asneira. Depois, as palavras de D. Manuel são incompreensivelmente redutoras. Existem tantas funções essenciais para as mulheres em casa, no escritório, na praia ou no campismo que os dois mil e tal anos de história da Igreja Católica não foram suficientes para as enumerar, quanto mais para as perceber. Mesmo admitindo que uma dessas funções não é dizer missa. Mas, para além disso, esta intervenção é profundamente discriminatória. Na verdade, não admito a D. Manuel que me exclua da possibilidade de, a ficar alguém em casa a educar os meus filhos, ser eu próprio a fazê-lo. Pode um ser humano ter uma visão do Paraíso? Acho que sim. No meu caso, passar os dias com os meus filhos, brincar com eles, ajudá-los, ensinar-lhes o pouco que sei, aprender com eles, zangar-me e logo correr a abraçá-los, rirmos e chorarmos juntos, tudo isto me parece a antecipação do Céu em plena Terra. Digo que não tem comparação, não desfazendo, com a função de Cardeal ou de Penitenciário-mor da Santa Sé. Melhor, só mesmo se a minha mulher pudesse estar em casa connosco. Mas isso, de tão bom, tão bom, talvez já fosse pecado. Por isso, espero que D. Manuel, ungido pelo Espírito Santo, possa um dia ver a luz que o ajude a despir-se, em bom recato se a isso a Providência ajudar, do preconceito que a vontade de Deus o fez exteriorizar. Até lá, resta-lhe enfiar o barrete. Cardinalício.

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Da importância das palavras

por Pedro Correia, em 20.08.11

 

Um grupo de manifestantes que protestasse nas ruas de Madrid ou de qualquer outra capital europeia contra a visita de um dirigente espiritual islâmico seria logo rotulado de "antimuçulmano". Os participantes nessa manifestação ganhariam de imediato o epíteto de "islamófobos" e não faltaria quem sublinhasse a necessidade de combater ódios religiosos em nome da liberdade de crença e do respeito pela fé alheia.

Tudo muda quando esse dirigente espiritual é o Papa. Os manifestantes passam a ser "laicos", nenhum deles é descrito como anticatólico e muito menos como vaticanófobo. Os gritos de "Papa nazi", "assassinos", "ignorantes", "pedófilos" e "filhos da puta" com que nestes dias alguns destes "laicos" têm brindado centenas de milhares de jovens católicos inserem-se na naturalíssima liberdade de manifestação que justifica aplauso dos mesmos que se indignariam com uma ruidosa reunião de "islamófobos".

Isto deve fazer-nos reflectir sobre a importância das palavras no espaço comunicacional. Nenhuma delas é neutra, nenhuma delas é irrelevante: todas nos chegam carregadas de ideologia. Compete ao bom jornalismo evitar as armadilhas da linguagem que estabelecem dois pesos e duas medidas para situações similares. Porque o preconceito ataca quando menos se espera. Sobretudo o preconceito daqueles que se proclamam livres de preconceitos.

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Discriminados e perseguidos

por Pedro Correia, em 02.01.11

"O Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo 2010, apresentado pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, revela que, em todo o mundo, o número de cristãos perseguidos é de 200 milhões. Outros 150 milhões são discriminados pela sua religião. A fé cristã é a mais difundida, mas também a mais perseguida. Segundo esta fonte, que analisa a situação de 194 países, aqueles onde se verificam as maiores violações à liberdade religiosa são a Arábia Saudita, Bangladesh, Egipto, Índia, China, Uzbequistão, Eritreia, Nigéria, Vietname, Iémen e Coreia do Norte."

Frei Bento Domingues, no Público de hoje

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