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O que estou a ler (8).

por Luís Menezes Leitão, em 24.07.13

 

Em boa hora a D. Quixote resolveu reeditar estas Memórias de Humberto Delgado, publicadas originariamente em Londres em 1964, que adquiri na última feira do livro. Sendo esta reedição de 2009, não está escrita felizmente no inenarrável "acordês" com que insistem em maltratar a nossa língua.

 

O livro é fascinante, permitindo-nos conhecer o percurso e o pensamento de uma personagem altamente complexa. Humberto Delgado faz uma avaliação histórica muito rigorosa do país, demonstrando uma erudição incomum. Inicialmente apoiante de Salazar, é curioso como se vai afastando dele por não conseguir concordar com o regime de ortodoxia financeira em que ele mantinha o país, em contraste com a expansão económica que a Europa vivia no pós-guerra em virtude do plano Marshall. Nas suas palavras, os outros países europeus tinham moedas fracas e inflação, mas as pessoas tinham dinheiro. Portugal tinha um escudo forte, sem inflação, mas o povo vivia na miséria. Não consegui deixar de fazer um paralelismo com a actual situação do euro.

 

É muito curioso que Humberto Delgado, que tinha uma posição de prestígio no Estado Novo, como Director-Geral da Aeronáutica, tenha aceite prescindir disso tudo para se envolver numa eleição presidencial, onde sabia desde o início que as cartas estavam viciadas. A explicação que ele próprio dá reside numa frase de Napoleão: "on s'engage et puis on voit". E efectivamente envolveu-se profundamente na campanha presidencial, tendo pronunciado a frase sacrílega para o regime: "Obviamente demito-o!", referindo-se a Salazar. No livro o autor refere as consequências do episódio, que a censura deixou passar, pois julgava que o país ia ficar indignado com Humberto Delgado, apressando-se os jornais a publicar diariamente ridículos comunicados de pessoas diversas, a desagravar Salazar por essa declaração. O efeito foi o contrário, sendo que a enorme adesão popular que Humberto Delgado suscitava fez o regime perceber que o país estava farto de Salazar.

 

Naturalmente que as eleições foram viciadas, como se esperava. Curiosamente Humberto Delgado aguardava uma reacção de indignação geral que não surgiu. Mesmo pessoas próximas encolhiam os ombros quando ele denunciava a fraude eleitoral: "Em Portugal as eleições foram sempre viciadas, até no tempo da Monarquia". O mesmo não se conformou, escolhendo o exílio, de onde procurou comandar a revolta contra o regime. Mas a oposição tradicional ia-se envolvendo nas suas questiúnculas internas, levando a que o regime ainda conseguisse durar mais 16 anos após o mais brutal ataque que sofreu.
O livro por isso diz muito, não apenas sobre um homem excepcional, mas também sobre o verdadeiro espírito do povo português, cuja enorme tolerância lhe permitiu viver 48 anos em ditadura. Não terá sido por acaso que recentemente outro Ministro das Finanças qualificou o povo português como o melhor povo do mundo.
E a Marta Spínola, o que anda a ler?

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