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Gentil Martins: opiniões ou bocas

por João André, em 17.07.17

Em 1955, Albert Einstein escreveu o prefácio para o livro de Charles Hapgood, o qual se dedicava a (tentar) destruir a teoria do movimento dos continentes [1]. Hapgood não gostava do conceito e parecia ser defensor da ideia de pontes terrestres entre continentes para explicar a existência de espécies semelhantes (quando não a mesma espécie) de animais terrestres e plantas em continentes diferentes e não adjacentes. Mais tarde, a teoria da deriva dos continentes (na realidade de placas, mas isso confirmou-se apenas mais tarde) acabou por se afirmar, devido ao trabalho de outros cientistas.

 

Em 2007 James Watson, um dos cientistas premiados com o Prémio Nobel da Química por terem descoberto a estrutura do ADN, fez declarações no sentido de os africanos serem menos inteligentes que "nós" (ocidentais brancos, presume-se). Apesar de este ser um tópico muito controverso, há cada vez mais indicações de os resultados do passado em que Watson se basearia serem muito devidos a condições socio-económicas (e ambientais) e também a questões de percepção (uma auto-percepção do grupo a que se pertence como menos inteligente foi positivamente correlacionado com resultados piores em testes de QI). O irónico foi que, pouco tempo depois das declarações de Watson, os resultados de análises ao seu ADN tenham indicado uma forte componente africana subsariana.

 

Esta introdução serve apenas para indicar que o argumento de autoridade é dos piores que existem em discussões sérias. Um especialista é, por definição, tal apenas e só no seu campo de especialidade. Quanto mais lato for o campo, menor será a sua competência. Quando terminei a minha tese de doutoramento eu poderia ser considerado o principal especialista mundial no tema (para quem tenha curiosidade: o uso de membranas de matriz mista para conversões enzimáticas), mas era um tema com um único especialista: eu próprio. Se eu começasse a expandir o campo (membranas de matriz mista, membranas em geral, membranas em conversões enzimáticas, etc, eu deixava rapidamente de ser um especialista e passava ser pouco mais que um leigo).

 

Isto veio-me à memória acerca da polémica sobre as declarações de Gentil Martins. Uma das defesas feitas (por outros) em seu nome foi o seu passado como médico, como alguém que sempre lutou por aquilo em que acreditou e que muito fez pela nossa sociedade. Tudo isto é verdade, mas não torna as suas declarações (quaisquer que sejam, mesmo que apenas sobre o tempo) mais ou menos válidas. Estas devem ser sustentadas por si mesmas.

 

Deixo então o argumento de autoridade de lado e olho apenas para as declarações proferidas por alguém a um jornal: «[A homossexualidade] é uma anomalia, é um desvio da personalidade». Ora esta visão está já mais que desmontada e demonstrada como falsa. Entrar por argumentos técnicos que podem ser encontrados por quem o deseje não adianta nada (ademais por alguém que, como eu, é apenas leigo). Deixo um único link, para alguém que já pegou neste assunto múltiplas vezes, a Ana Matos Pires, no jugular.

 

Vis também um outro argumento: que Gentil Martins tem direito à sua opinião. Aqui há duas perspectivas que devem ser analisadas. A primeira é a do direito à opinião, mas a existência de um direito não torna a pessoa imune ao dever. Aliás, o facto de existir um direito deveria estar sempre associada ao dever correspondente. Neste caso, o direito à opinião deve vir associado ao dever de apoiar essa opinião em factos, não preconceitos. Gentil Martins não o fez. Como deveria ser lembrado, toda a gente tem direito à sua opinião, mas não aos seus factos. Além disso há que lembrar que o direito à opinião não o escuda de ataques à mesma.

 

O outro lado do direito relaciona-se a quem profere a opinião. Nota: aqui contradigo-me quando aponto a importância da posição de Gentil Martins, mas faço-o conscientemente. Se a importância da opinião de Gentil Martins não deve ser sobrevalorizada apenas por vir de quem vem, já o alcance da mesma deve ser considerado. Gentil Martins é uma voz com peso e relevância, pelo que a sua contribuição, especialmente num debate feito com argumentos que poderão teoricamente tocar na sua área de especialidade, é importante. Por isso mesmo a opinão de Gentil Martins tem que vir apoiada por factos e sustentada por estudos actuais e deve reflectir, senão a opinião dominante (não tem que o fazer), pelo menos uma oposição a ela que tenha sustentação mínima.

 

Gentil Martins não deu, portanto, uma opinião. Transmitiu a sua preferência pessoal. Vindas de mim, se alguém me quisesse entrevistar, tais declarações seriam apenas "uma boca". Vindas de Gentil Martins, desta forma, não chegam a formar uma opinião.


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[1] - A Short History of Nearly Everything, de Bill Bryson. Capítulo 12, "The Earth Moves", edição em pdf.

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Imagem que marca (10)

por André Couto, em 17.05.12

Dia Internacional Contra a Homofobia

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Elevadores. Resposta a José António Saraiva

por Leonor Barros, em 11.04.12

Uma belíssima resposta a uma aberração destas já denunciada aqui. Para ler e pensar.

 

Sim. Ando de elevador muitas vezes. Às vezes inclino a cabeça, admito. Muitas vezes uso os braços de modo que ache confortável. Estas coisas acontecem quando começo a pensar em coisas, ou observo o mundo ao meu redor. Creio que algo bastante comum em qualquer pessoa que trabalhe e passe a vida a criar mundos imaginários para cinema. Nasci bom observador, admito que não por escolha, e tive a sorte de encontrar maneira de ajudar a criar emoções e memórias através de imagens em movimento.

Elevadores. Passagens tão temporárias e interessantes. Elevadores sempre me fascinaram, por criarem um espaço forçado de observação. Tão pequeno, mas cheio de detalhes. Quem veste o quê, quem olha para onde, quem tosse quando.

Imagino ser aquele rapaz. Podia perfeitamente ser eu. Aliás, fui eu há uns meses. Em Setembro. Estive em Portugal e trouxe o meu namorado para ele conhecer a minha família, que tanto me adora e respeita, e também para conhecer o país onde cresci, as ruas onde andei e os edifícios que me rodeavam em criança. Sou gay e sempre fui. Nunca tive dúvidas e nunca foi uma escolha. Ninguém escolheria alguma vez ser gay, porque muito provavelmente isso traria uma vida de desafios como ter de educar uma pessoa como José António Saraiva. E já agora, caso isto seja novidade, também ninguém escolhe ser heterossexual.

Ir a Portugal com o meu namorado foi um passeio de redescoberta de um país que sempre me trouxe muitas memórias. Desde memórias péssimas de ser violentamente gozado na escola, a nível físico e psicológico, por ser gay. Desde memórias óptimas a criar um grupo de amigos que nunca me trataram de maneira diferente quando eu inclino a cabeça, ou mexo os braços, ou pouso os pés no chão.

Tive a sorte de ter uma família acolhedora, mas conheço muitos casos em que tal não acontece. Se há coisa que aprendi foi a não julgar os outros. Acho que não há nada mais precioso na vida do que aprender com a individualidade de cada um. Talvez seja por isso que tenha conseguido ser tão bem sucedido tanto em Hollywood como em Silicon Valley.

E, apesar de ser gay, ajudei a criar imagens que marcaram o mundo. Imagens que inspiraram adultos e crianças a acreditarem num mundo melhor. Um mundo em que dois robots se podem apaixonar, ou dois escuteiros se podem conhecer em crianças e viver juntos a vida inteira, ou um mundo em que um astronauta encontre um melhor amigo num simples cowboy. Sem falar de um rato que pode cozinhar… Estes não existem na verdade, mas transmitem um ideal de um mundo em que eu acredito ser possível viver. Em que cada pessoa é como é, e em que cada um de nós tem a oportunidade de trazer algo mágico às pessoas que se cruzam na nossa vida.

Não sei em que mundo o José António Saraiva vive, mas pela maneira como publicamente julga os outros deve ser um espaço bastante triste. Tenho pena de não ter estado naquele elevador, naquele momento. Pelo menos, poderia ter olhado para ele, sorrido e, quem sabe, mostrar que o Portugal de agora é um país muito mais acolhedor do que alguma vez foi. Um país em que posso trazer o meu namorado e criar memórias novas para o resto da nossa vida. Um país em que nos podemos casar como qualquer outra pessoa.

Aqui na Califórnia, sinto-me em casa. Sinto-me em casa porque sei que posso andar de elevador, e muito provavelmente vou conhecer alguém que se calhar com apenas vinte anos criou uma empresa que está a mudar o mundo. Ou alguém que se calhar inclina a cabeça de certa maneira, e me faz sorrir por saber que pertenço a um mundo em que podemos ser verdadeiros, genuínos e nós próprios.

E entretanto vou criando outros mundos imaginários. Que muito provavelmente irão fazer sorrir os filhos, netos ou bisnetos do José António Saraiva.

 

Afonso Salcedo

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Como diz?!

por Helena Sacadura Cabral, em 20.03.12

 

Numa entrevista conjunta com o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair, que se mostrou incomodado mas não fez comentários, a Presidente da Libéria e Nobel da Paz Ellen Johnson Sirleaf defendeu uma lei que criminaliza a homossexualidade. “Gostamos de nós da maneira como somos”, disse.

E eu, confesso, mesmo tendo em atenção os costumes e tradições do país, sinto-me muito desconfortável com a ideia de que uma mulher nobelizada possa fazer tal afirmação. Aqui está um caso em que mais valia estar calada!

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A Rede Ex-Aequo queria levar o combate à homofobia às escolas. Mas tropeçou em dois gabinetes do Ministério da Educação, que consideraram a campanha "ideológica". Aqui fica o cartaz que assustou as cabecinhas medievais dos serviços de Isabel Alçada. Não há pachorra!

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