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Beaux Toujours (5)

por Inês Pedrosa, em 07.05.17

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Jamie Foxx 

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Girls, Fleabag, Roth, Steiner e sexo

por José António Abreu, em 20.02.17

Há uns anos, ao ver os primeiros episódios da série Girls (tão recente e já tão imitada que até fica difícil recordar quão inovadora foi),  lembrei-me de O Animal Moribundo, de Philip Roth. A certa altura, o professor David Kepesh afirma:

Enquanto cresci, o homem não era emancipado no reino sexual. Era um homem de segunda apanha. Era um ladrão no reino sexual. Surripiávamos uma apalpadela. Roubávamos sexo. Adulávamos, suplicávamos, lisonjeávamos, insistíamos - todo o sexo exigia luta, tinha que ser disputado aos valores, senão à vontade da rapariga.

Mais tarde, referindo-se à actualidade (de 2001), acrescenta:

Aparecem antigas namoradas de há vinte e trinta anos. Algumas já se divorciaram numerosas vezes e outras têm andado tão ocupadas a afirmarem-se profissionalmente que nem tiveram a oportunidade de casar. As que ainda estão sós telefonam-me para se queixarem daqueles com quem se encontram. Os encontros são detestáveis, os relacionamentos são impossíveis, o sexo é um risco. Os homens são narcisistas, não têm sentido de humor, são doidos, obsessivos, autoritários, grosseiros, ou então são muito bem-parecidos, viris e cruelmente infiéis, efeminados, ou são impotentes, ou são simplesmente demasiado estúpidos. (*)

 

A abordagem da revolução sexual ocorrida na década de 1960 é quase sempre feita partindo da perspectiva feminina. Antes de qualquer outra análise, salienta-se o modo como a pílula e a evolução dos costumes libertaram as mulheres para o sexo sem (demasiados) receios. Mas a liberdade feminina também representou o fim da submissão masculina a qualquer tipo de compromisso. O facto de, ao longo das últimas décadas, as mulheres terem exigido e obtido não apenas o mesmo estatuto no que respeita ao sexo, mas poder total sobre os seus corpos - incluindo o de terminar gravidezes indesejadas - foi extraordinariamente libertador para os homens. O esforço de cortejar, apoiar, assumir responsabilidades tornou-se-lhes opcional, em especial quando favorecidos pelo sorteio genético (i.e., quando atraentes). Nem sequer as regras do politicamente correcto - em muitos sentidos, a prisão dos tempos actuais - os forçam ao que quer que seja: adquirida a igualdade, as mulheres perderam o direito a queixarem-se de terem sido iludidas. Durante séculos, no mundo «civilizado», os homens viram-se obrigados a conjugar instintos e convenções sociais. Agora, estão livres para dar largas ao egoísmo. Às acusações de insensibilidade, podem responder que se limitam a «dar espaço» às mulheres; que estão a «respeitar» a «autonomia» delas.

 

Nos primeiros tempos de Girls, esta realidade saltava à vista. Hannah desesperava com a passividade de Adam. Para ele, a relação apenas parecia existir enquanto decorria o acto sexual. Em todos os outros momentos, Hannah sentia-se esquecida: ele não telefonava, não respondia às mensagens, demonstrava indiferença quando a encontrava. Fleabag, uma série de 2016 produzida pela BBC e pela Amazon, escrita e interpretada por Phoebe Waller-Bridge, atinge um novo extremo. Apresenta uma mulher que parece vogar entre relações sexuais sem significado (mas não sem consequências), nas quais se submete (sem ser explicitamente forçada) a actos que tem dificuldade em racionalizar. Tudo estaria bem se não as usasse como forma de evitar enfrentar o vazio e a infelicidade que a dominam. Fleabag vai tão longe que se permite incluir um indivíduo nada atraente e bastante irritante no séquito de homens que não têm qualquer dificuldade em ir para a cama com ela.

 

 

Sejamos francos: nas últimas décadas, o sexo tornou-se um produto de consumo como qualquer outro; mais uma forma semidescartável de sentir algo, totalmente desligada de sentimentos profundos. Em 1975, Woody Allen afirmava: «O amor é a resposta, mas enquanto se espera pela resposta, o sexo coloca perguntas interessantes.» A resposta continuará a mesma, mas as perguntas parecem ter vindo a perder interesse. Se a consequência óbvia de tanto desejo de independência (por parte das mulheres como por parte dos homens) é a solidão, a consequência óbvia de tanto sexo (real, imaginado, visualizado em ecrãs e na rua) só pode ser a banalização do acto e dos termos que se lhe referem. Em Os Livros que Não Escrevi, George Steiner dedica um capítulo à linguagem do erotismo. Considera-a - como ao próprio acto - cada vez menos subtil, mais baseada nos códigos instituídos pelo cinema, pela televisão, pela publicidade. Escreve ainda: Será fascinante descobrir os novos factores de complexidade e os contributos enriquecedores que poderão vir das correntes feministas. Produziram já uma poesia poderosa e uma prosa acusadora. Poderá a sua política da sensibilidade ser causa de novas orientações e de uma criatividade nova nos dialectos do amor? Até ao momento, os indícios nesse sentido são marginais. O que parece prevalecer entre as mulheres emancipadas é a adaptação, quase desdenhosa, do que eram a obscenidade e a licenciosidade clandestina do discurso masculino.(**)

Talvez não apenas do discurso. Talvez de todo o comportamento. Sexualmente, as mulheres parecem-se cada vez mais com os homens. Mas isso - a acreditar em exemplos como Girls e Fleabag, eles próprios, será conveniente ressalvá-lo, provenientes da cultura cinematográfica e televisiva - não parece torná-las felizes. À liberdade, que neste campo tende a equivaler a quantidade, contrapõe-se a estandardização (nada é novo, pouco permanece tabu), e o novo poder masculino: um egoísmo assumido, que a igualdade torna inatacável.

Sobra a desilusão. Ou a busca de uma «novidade» cada vez mais extrema. Para mulheres, como para inúmeros homens, quando nada no sexo nem na linguagem do e sobre o sexo for misterioso, talvez actos como o que encerra o filme O Império dos Sentidos ou o que encerrou a vida do actor David Carradine (as referências do entretenimento são afinal úteis e variadas) constituam a única solução lógica.


____________________

(*) Edição Dom Quixote, 2006, p. 61 e 91, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

(**) Edição Gradiva, 2008, p. 132, tradução de Miguel Serras Pereira.

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Numa parede do Porto.

 

Na série britânica Love, Nina, adaptação de Nick Hornby de um livro de memórias de Nina Stibbe, há um momento em que alguém pinta desenhos obscenos nos passeios do bairro onde decorre a acção. Várias personagens reúnem-se em torno de um deles e debatem identidade e possíveis motivações do autor. George, a editora literária a que Helena Bonham Carter dá corpo, defende que, obviamente, terá sido um homem, porque as mulheres não andam por aí a fazer desenhos no pavimento; pelo menos, acrescenta, não em número estatisticamente relevante.

Olho para a frase acima e pergunto-me se George estaria certa - e, nesse caso, que diabo se passa na cabeça de um homem capaz de a escrever.

Claro que Love, Nina decorre no início da década de 1980. Talvez hoje em dia mais mulheres pintem coisas no chão e nas paredes. Não daria um grande sinal do rumo da evolução feminina (há actos tipicamente masculinos que, podendo remeter para instintos antigos de marcação do território, são hoje apenas estúpidos) nem faria com que esta mensagem ficasse aceitável, mas sempre a tornaria um pouco menos ilógica.

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Beaux Toujours (4)

por Inês Pedrosa, em 19.11.16

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Robert Downey Jr. 

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Beaux Toujours (3)

por Inês Pedrosa, em 16.11.16

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Javier Bardem

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Beaux Toujours (2)

por Inês Pedrosa, em 15.11.16

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 Caetano Veloso 

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Beaux Toujours

por Inês Pedrosa, em 14.11.16

Nova secção, com vénia a Pedro Correia. 

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    Marcello Mastroianni 

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Meia-idade

por José António Abreu, em 11.03.16

No que me diz respeito, chegar perto dos cinquenta e começar a apreciar raparigas com idade para serem minhas filhas gera uma perturbação não mais do que ligeira. Pior é perceber que algumas delas são filhas de amigas e/ou colegas que fizeram - e, em muitos casos, ainda fazem - parte das minhas fantasias.

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Caramba, já nem disfarçam...

por José António Abreu, em 25.09.15

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 Cada vez mais relegados para segundo plano.

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Quer dizer então que estavam mesmo convencidos que Deus criou Eva a partir de uma costela de Adão? Ihihih! Onde é que já se viu? Desculpem lá, mas quem é que acredita numa história dessas? Duma costela... Ele há com cada um. Crendices é o que é! Mas pronto. O que importa agora é que fiquem informados sobre o que realmente aconteceu.

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Entre homens...

por Helena Sacadura Cabral, em 15.06.15

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Eles estavam no bar de um bom hotel. Já tinham falado de tudo e mais alguma coisa. Ambos empresários, criticavam a política como se dela fizessem parte. Um, situacionista, ainda não estava contente com a TSU e defendia que a mesma teria de descer mais. O outro nem queria ouvir falar da dita embora não se percebesse porquê. Finalmente falaram de mulheres.

- Tu já viste a sorte do Zé?
- Sorte porquê?
- És parvo ou quê? Então o gajo não anda com a Marta?
- É pá, mas a Marta é casada com o teu sócio.
- Por isso mesmo. Aquela já tem editor responsável...
- Ah! De facto, é um ponto de vista. Não tinha pensado nisso.
- Pois é. Ele é que a sabe toda. Assim alarga o negócio!

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Futebol, esse desporto ignorado

por José António Abreu, em 09.06.15

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 Blergh, gajas!

 

O Eurosport está a transmitir o Campeonato do Mundo de Futebol Feminino. Eu, que nem ligo a futebol, fiquei ontem durante algum tempo a ver onze suecas (todas louras, muitas delas giras) enfrentando onze nigerianas (todas negras, várias delas giras). Descontando a inevitabilidade biológica de apresentarem menos poder de fogo do que os homens (no sentido futebolístico da expressão, que noutros até me parece que tinham mais), jogavam bem. Marcaram-se seis golos, três para cada lado. Como tantas vezes sucede no futebol masculino (mas estou em crer que com menor risco de lesões dolorosas), num deles a bola passou entre as pernas da guarda-redes. Igualmente como no futebol masculino, as jogadoras abraçaram-se para celebrar e parece que por vezes fazem questão de levantar a camisola. Como no futebol masculino, várias tinham tatuagens e/ou penteados esquisitos. Como no futebol masculino, algumas eram propensas a fazer faltas e outras a atirarem-se para o chão. Como no futebol masculino, a bola era redonda (no ecrã; ouvi dizer que, na realidade, é esférica), o relvado verde e, nos placards laterais, a FIFA apelava ao fair play. Exactamente como no futebol masculino, há quem diga que no final ganha a Alemanha. Mas a SportTV esteve-se nas tintas para o campeonato (valha-nos isso), nos noticiários nacionais ninguém lhe liga e as audiências não devem ser famosas. Decididamente, custa-me perceber os adeptos do futebol. Muitos andam para aí armados em macho e, no fim de contas, só apreciam homens.

 

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Aqui entre nós, a expressão da guarda-redes sueca é deliciosa mas a silhueta da atacante nigeriana constitui pura poesia.

 

Fotos: Kevin C. Cox/Getty Images North America, pescadas na net.

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Vermes comandados pelo cérebro que não têm

por José António Abreu, em 31.03.15

Os homens são capazes de ignorar a fome e ir à procura de um par. Um novo estudo feito numa espécie de vermes comprovou que a culpa não é propriamente deles, mas sim do seu cérebro.

No Observador, por Carolina Santos.

 

Confesso: a primeira coisa que fiz, ainda antes de ler o artigo, foi verificar se tinha sido escrito por uma mulher. Em primeiro lugar pela deliciosa associação entre homens e vermes (eu sei que o estudo foi mesmo realizado em vermes mas talvez fosse mais correcto e abrangente usar «machos» em vez de «homens»). Depois pela igualmente deliciosa facilidade com que se aceita a extrapolação do comportamento dos referidos vermes para o ser humano, deixando de lado eventuais diferenças a nível de  - sei lá - número de neurónios. Finalmente pelo ainda mais delicioso recurso à velha dicotomia corpo-mente, na tentativa magnânima de desculpar essas criaturas vermiculares e desprovidas de neurónios, os homens (obrigado, Carolina; se vieres ao Porto nos próximos tempos avisa e vamos jantar, OK?; ou então até podemos saltar o jantar, que para mim é secundário). Porque a culpa (e tanto haveria a dizer sobre o facto de, mesmo após a ciência justificar o comportamento, poder continuar a associar-se-lhe o conceito - a ter de culpar-se alguém, que tal escolher Deus?) é do cérebro, não é propriamente dos homens. Só uma mulher podia considerar que quaisquer seres humanos - machos, fêmeas, hermafroditas - se definem por factores externos ao cérebro.

 

Nota 1. Como o meu sentido de humor não é partilhado por alguns leitores do Delito - mas Kafka também se ria ao ler as suas histórias aos amigos e poucos leitores delas fazem o mesmo desde então -, fica o alerta: este texto contém ironia e pretende ser uma provocação benigna.

 

Nota 2. Não, não estou a comparar o que escrevo ao que Kafka escrevia. Em contrapartida, a minha vida é quase tão excitante quanto foi a dele.

 

Nota 3. Agora vou dar descanso aos neurónios que não tenho, parar com estas notas e entreter-me a observar as mulheres que andam por aqui, OK?

 

Nota 4. Estranho. Estou com fome.

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Questão de idade?

por Helena Sacadura Cabral, em 04.03.15

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Se um homem mais velho casar com uma mulher mais nova, toda a gente considera normal. Se, ao invés, uma mulher mais velha casar com um homem mais novo, muita gente ainda fica surpreendida. E, até, nalguns casos, chocada. Porquê? O que é que justifica a reacção negativa?

Em certos países esta opção é já bastante comum entre as chamadas “famosas”, que não costumam preocupar-se muito com a diferença etária, dado o estatuto especial de que gozam. Todavia, longe dos holofotes, muitas mulheres não hesitam e namoram rapazes mais novos. São elas que conhecem as vantagens e os inconvenientes que a diferença de idade pode trazer a um relacionamento. 

Do ponto de vista sexual, na cama, a diferença de idade não importa muito, dizem os clínicos. Quem já passou por isso, limita-se a afirmar que “que basta ambos quererem e tudo será muito bom”.

O problema pode surgir no dia a dia em que as coisas não são assim tão simples". Hoje já muitas mulheres de 40 anos preferem homens que tenham, no máximo, a mesma idade delas.  Porque são independentes e entendem que não têm por missão ficar em casa a aturar as vicissitudes de um marido mais velho.

Ora é aqui que reside o cerne da questão. Antigamente o homem mais velho era o garante da sobrevivência da mulher. Para muitas, para cada vez mais isso já não é válido. Ora se assim é, que justificação pode haver para censurar uma relação em que o homem seja mais novo que a mulher?

Acresce que se a menopausa pode trazer ao sexo feminino problemas clinicamente solúveis, eles não são, nos dias que correm, menores nem maiores do que aqueles que surgem no sexo masculino da mesma idade...

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Ressaca do vitorianismo

por José António Abreu, em 14.02.15

 

Lytton Strachey, o amigo de Woolf com quem ela esteve comprometida a certo ponto, teve numerosas relações homossexuais, muito embora também ele tenha assentado num arranjo de longa duração, no seu caso com Dora Carrington, uma jovem mulher que o adorava, e o marido dela, Ralph Partridge, que ele adorava.

Sandra M. Gilbert, introdução a Orlando, de Virginia Woolf, edição Penguin Classics. Tradução minha.

 

Resta a questão: quem adorava a Dora? Desde que Ralph a adorasse, era o triângulo perfeito.

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À primeira vista e para sempre

por José António Abreu, em 05.02.15
(Um comentário deixado há dias num post da Francisca Prieto leva-me a republicar este texto, de Novembro de 2010. Rush lançou entretanto Subtle Bodies, editado em Portugal pela Quetzal naquela coisa a que a maioria das editoras nacionais chama português. Obviamente, comprei-o em inglês.)
 _________________________
 

Norman Rush, em entrevista à The Paris Review:

 

INTERVIEWER

So which novelists were you reading on your own?

 

RUSH

Conrad and Dostoevski above all. Conrad continued to be a huge revelation to me about serious political thinking taking place in a novel. Under Western Eyes and, especially, The Secret Agent. Dostoevski meant Notes From Underground and The Idiot, especially, though it’s very hard to privilege one of his books over another. All were important to me.

But the most significant literary moment at Swarthmore came when I met Elsa. Elsa was everything. I was only there a few months before we met but—she would do a much better job with these stories. Shall we invite her to join us?

 

INTERVIEWER

Why not?

 

ELSA

Well. Do you know Swarthmore? It was in their main building, in a quite formal parlor with velvet sofas and big oil paintings. I was sitting on one of these sofas with—my God, it was heaven!—young men all around, talking to me. At least five. Maybe eight. Some were sitting on the floor.

 

INTERVIEWER

All competing for your attention?

 

ELSA

I was naïve. I was eighteen. I’d only had one boyfriend and never got over being shy with him, so I didn’t think of myself as holding court. I just thought, Gosh, this is fun! No good dates in high school and now all of these conversations, with clever men asking my opinion about philosophy to show how sophisticated they were. At some point a mysterious stranger appeared in the doorway, wearing a black coat. He stood and listened for a minute, and when someone asked me a question—I wish I could remember what; I’ve thought of it many times—this man in the doorway said, “You don’t have to answer that.”

 

RUSH

I thought the question was intrusive.

 

ELSA

I actually wasn’t upset by the question, though I did understand what this man in the doorway meant. Then one of my couch suitors said something provocative, and the man gave a reply that infuriated them all. He said—instead of arguing, he said—

 

RUSH

I gave them a reading recommendation.

 

ELSA

And they hated it. He said, Why don’t you read such and such? Which is very annoying, of course. It’s a way of saying, “You’re not equipped to have this conversation with me.” I wish I could remember the book he recommended, though in a way it doesn’t matter, because Norman has done that so many times in his life.

 

RUSH

She means that I’ve often been aggressively, unpleasantly authoritative.

 

ELSA

Correct. Though at the time, I was smitten. I went back to my dormitory and told everyone that I’d met the man I want to be with forever. I was completely taken by his gestalt. And even later, after we’d married and departed Swarthmore, I remained this way, though when I disagreed with him, I certainly said so.

 

Rush fez setenta e sete anos a 24 do mês passado. Publicou o primeiro livro, Whites, em 1986, já depois dos cinquenta, e desde então apenas mais dois (tem o quarto quase pronto). Em parte, tal deve-se ao facto de em 1978 ter queimado tudo o que escrevera até então. Reside numa zona rural do Estado de Nova Iorque, na casa que partilha com Elsa há quarenta e nove anos. Escreve no sótão, em três máquinas de 1955 (duas Royals, uma Underwood) colocadas lado a lado (usa uma das Royals para a primeira versão do texto, a segunda para revisões, a Underwood para apontamentos). Organiza gigantescos dossiers com as características das personagens e depois permite que estas definam o rumo dos acontecimentos. Elsa torna-se leitora e revisora assim que a primeira versão da primeira vintena de páginas está escrita. Marca a vermelho as passagens que lhe suscitam dúvidas e discute-as com Norman; umas são alteradas, outras não. Diz que ele já foi mais intransigente. Norman admite embaraço por uma frase de Mating (National Book Award em 1991), que decidiu manter no texto apesar de contestada por ela (parecia-lhe inadequada a uma personagem feminina), ter sido escolhida por um crítico, em cinco centenas de páginas, como exemplo de falta de verosimilhança. Diz que Elsa é excelente a habitar as personagens. Parecem estar em paz, com a vida e um com o outro, mas nem sempre terá sido assim. Enquanto jovem, Norman era politicamente radical. Foi condenado a dois anos de prisão por recusar combater na guerra da Coreia, tendo escrito uma carta a Eisenhower explicando que era pacifista e se opunha a qualquer tipo de violência (não usou o estatuto de objector de consciência porque este implicava acreditar numa religião e ele também recusava fazer isso). Após abandonar Swarthmore com Elsa, quis que vivessem em comunas. Elsa estava grávida e detestou a experiência mas, negando-se a renunciar à visão que tivera naquele primeiro encontro (que ele era o homem com quem iria passar o resto da vida*), não desistiu. Com o tempo, foi-o transformando numa pessoa menos radical. E ele sabe-o: But I'll tell you, her patience with my arcane fiction was part of a greater patience, over a sort of battle we waged for years. Some couples don't ask much of one another after they've worked out the fundamentals of jobs and children. Some live separate intellectual and cultural lives, and survive, but the most intense, most fulfilling marriages need, I think, to struggle toward some kind of ideological convergence. I was a sectarian leftist when we met. Radicalism was essential to my self-definition. So there had to be a long period of argument and discussion before I developed, let's say, a less immanentist view of social change. Also—and this is relevant to Mortals—I was sort of a stage atheist when we first got together. I just couldn't believe religion was still happening. She had a much more humane view of the whole business. De entre os vários empregos que tiveram, Norman trabalhou como livreiro e professor e Elsa como tecedeira, designer e professora de design. No final dos anos setenta e início dos oitenta, trabalharam para o Peace Corps no Botswana, país onde decorre a acção dos três livros de Norman (o próximo passar-se-á nos Estados Unidos). Na dedicatória de Mortals, o último publicado (em 2003), que vou finalmente tirar do lugar da estante onde espera ser lido desde que as referências sempre tão admiravelmente isentas de incerteza deste filho da mãe e um preço absurdamente baixo para um calhamaço hardcover de 700 páginas me fizeram encomendá-lo à Amazon, Rush escreveu: For my Muse and Critic, with gratitude for the last ten years of extraordinary forebearance, creative impatience, unfailing love. Elsa, you are unique. Pode muito bem ser excesso de optimismo (algo de que sou culpado ainda muito mais vezes do que provavelmente se justificaria) ou distorção de leitura induzida pelo efeito conjunto do sono (passa da meia-noite) e da necessidade de ir ao oftalmologista mas vou guardar o número da revista como prova de que tanto o amor à primeira vista como o amor eterno (bom, pelo menos até à morte) são realidades humanas. E de que ambas se podem dar bem com espíritos fortes e na presença de livros. Muitos livros.
 
* São sempre as mulheres a sabê-lo primeiro e a agir de modo a que possa ser verdade. Contudo, o patamar de dificuldades que estão dispostas a suportar para manter a visão afigura-se-me cada vez mais baixo. (Com honrosas excepções, os homens nunca foram bons no campo do auto-sacrifício em nome do interesse da companheira.)

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No dia em que Manoel de Oliveira festeja 106 anos

por Pedro Correia, em 11.12.14

 

O melhor filme português de sempre

 

Durante muito tempo, quando fazia a mim próprio a pergunta sobre qual seria o melhor filme português de sempre, hesitava na resposta.

Podia ser A Canção de Lisboa (1933), extraordinária comédia 'à portuguesa', como muito mais tarde se convencionou chamar -, prodígio de escrita cinematográfica, ímpar entre nós, com um trio de actores em estado de graça e uma agilíssima realização do arquitecto Cottinelli Telmo. Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva ainda hoje, tantas décadas depois, provocam gargalhadas no espectador com os seus diálogos saídos da inspiração de Chianca de Garcia e José Gomes Ferreira. É um filme cheio de momentos antológicos, como o da ida do falso veterinário Vasquinho ao jardim zoológico e a sua frase "Chapéus há muitos".

Podia ser O Pai Tirano (1941), outro filme único na nossa cinematografia - prova evidente de que o seu realizador, António Lopes Ribeiro, era não só um produtor de rasgo e um divulgador de mérito mas também um cineasta capaz de assinar um trabalho que transcendeu a sua época. Como Jean Renoir faria muito mais tarde em A Comédia e a Vida, aqui também o cinema e o teatro se enlaçam na banal existência quotidiana, gerando de caminho um singular retrato de um certo Portugal desses anos em que a guerra assolava o mundo. É um filme cheio de segundas intenções, começando pelo próprio título, e também percorrido por momentos antológicos protagonizados por excelentes actores, como Ribeirinho, Teresa Gomes, de novo Vasco Santana e uma fugaz diva do cinema português chamada Leonor Maia que passaria a ser conhecida por Tatão, o nome da sua personagem em O Pai Tirano. Haverá maior enlace entre a comédia e a vida?

 

Mas além destes dois houve sempre outro. Um filme que vi na altura apropriada, ainda criança. Porque é de crianças que trata. E não me lembro de mais nenhum produzido antes dele, em Portugal ou qualquer outra paragem, que soubesse tratar o mundo infantil de forma tão sensível e tão credível. Desde os instantes iniciais, com aquele inesquecivel pré-genérico que culminava no súbito aparecimento de um comboio em grande velocidade e um grito de horror. Falo de Aniki-Bóbó (1942): nada sabia do nome do realizador nem daquelas informações adicionais que fui acumulando sobre esta primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, produzida por Lopes Ribeiro. Mas impressionou-me como nenhuma outra, naquela época, esta história de uns meninos humildes na Ribeira do Porto que poderia servir de metáfora à condição humana. Adorei a personagem da menina Teresinha, aqueles cenários naturais que prenunciavam o fabuloso neo-realismo italiano e aquela pronúncia genuína e autêntica dos actores, nenhum deles profissional excepto Nascimento Fernandes.

(Sublinho o papel do sotaque porque é um pormenor técnico totalmente descurado nos filmes portugueses contemporâneos: hoje todos falam da mesma maneira nas longas-metragens, independentemente do lugar onde nasceram ou onde residem as personagens. Infelizmente a pronúncia do Norte quase desapareceu do cinema nacional.)

 

Pormenor interessante: Oliveira, que seria depois considerado o mais artificial dos nossos cineastas, assinou aqui aquele que seria durante muito tempo um dos filmes portugueses rodados em atmosfera mais real. Um pouco à semelhança de um Picasso, que subverteu as formas depois de mostrar ao mundo que sabia reproduzi-las com mestria clássica.

São poucos os filmes pelos quais nos apaixonamos e que conseguimos admirar em simultâneo. Aniki-Bóbó é um deles. Cada vez que o revejo vou consolidando a mnha convicção de que se trata do melhor filme português de todos os tempos.

Não sou o único a pensar assim: a Sight & Sound, uma das mais prestigiadas publicações sobre cinema à escala mundial, elaborou há uns anos a lista das 500 melhores películas de sempre. Só há uma portuguesa. Qual? Aniki-Bóbó.

Texto reeditado

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Meu Capitão

por Pedro Correia, em 25.04.14

 Salgueiro Maia fotografado por Alfredo Cunha (Lisboa, 25 de Abril de 1974)

 

Um verdadeiro herói nunca se considera herói. Cumpre o seu dever não por ser um dever mas por urgente imperativo de consciência. Dá o nome, a cara, o peito às balas e se for preciso a vida pela causa que crê ser mais justa entre todas as causas.

Um verdadeiro herói pensa em si próprio só depois de pensar nos outros. Avança sem temor com a noção exacta de que joga tudo numa ínfima fracção de tempo -- conforto, carreira, promoções, anonimato. Ficando a partir daí exposto ao escárnio imbecil de todos os cobardes -- aqueles que nunca dão um passo fora do perímetro de segurança mas quando a poeira assenta logo surgem muito expeditos a julgar os outros. A julgar aqueles como tu: os que arriscam, os que experimentam, os que se atrevem a romper as malhas de um quotidiano medíocre. Os que trocam a palavra eu pela palavra nós. Os que nunca se conformam.

Um verdadeiro herói é aquele que deixa a sua impressão digital nas insondáveis rotas do destino humano. Tu ousaste mudar um país. Não pelo sangue, não pelo ódio, não pela intriga -- mas pelo gesto, pelo rasgo, pelo exemplo. Sabendo como é ténue a fronteira entre glória e drama quando alguém irrompe de madrugada pronto a desafiar os guiões da História.

Foste um herói ao comandar a patrulha da alvorada, Fernando Salgueiro Maia. Voltaste a ser um herói quando decidiste retirar-te ao pôr-do-sol deixando outros pavonear-se sob o clarão dos holofotes. Recusaste ficar exposto na vitrina. Recusaste servir de bandeira. Recusaste ser "vanguarda revolucionária". Recusaste ser antigo combatente. Recusaste dar pretextos para dividir. Tu que foste um poderoso traço de união entre os portugueses naquelas horas irrepetíveis em que tudo podia acontecer.

Saíste do palco: aquela peça já não te dizia respeito.

E nunca a tua grandeza se revelou tão evidente como no momento em que abandonaste a ribalta, regressando à condição de homem comum. Indiferente a ladainhas e louvores. Longe da multidão que fugazmente te acenou na mais límpida de todas as manhãs. Sem outra medalha além desta: eternamente graduado no posto de capitão da liberdade.

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Recordando Medeiros Ferreira

por Pedro Correia, em 20.04.14

 

Há pessoas que partem cedo de mais. Aconteceu há um mês, com José Medeiros Ferreira. Neste Domingo de Páscoa apetece-me recordar a excelente entrevista que concedeu em Novembro ao jornal i, muito bem conduzida pelos jornalistas Rita Tavares e Luís Claro.

Nem entrevistado nem entrevistadores imaginavam, mas esta conversa acabaria por ter o valor de um testamento. Por ser a última entrevista do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, uma das vozes mais estimulantes das últimas quatro décadas da política portuguesa.

É um documento impressionante. Tenho-o arquivado na pasta dedicada às melhores entrevistas que já li. E hei-de citá-la com frequência nos tempos que hão-de vir. Porque Medeiros Ferreira, com a inteligência e a elevação intelectual que o caracterizavam, sabia falar para um tempo que já não seria o seu.

 

Deixo aqui alguns excertos. Todos de uma lucidez arrepiante:

«Em 1992 Portugal teve a primeira presidência da União Europeia e, por essa razão e não por qualquer raciocínio económico ou financeiro, resolveu aderir ao sistema monetário europeu, cujas negociações a Grã-Bretanha tinha declinado. Portugal avançou, mesmo aceitando uma taxa de câmbio que sobrevalorizava o escudo.»

«A primeira grande talhada na competitividade internacional da economia portuguesa foi dada pelos nossos negociadores financeiros: o ministro das Finanças e o governador do Banco de Portugal, no dia 4 de Abril de 1992.»

«O governo de Guterres até fez uma missa em Madrid e disse que sobre a pedra do euro - a literatura evangélica é muito poderosa, tal como a pedra onde Pedro assentou a Igreja - era aquela sobre a qual ia assentar a União Europeia. O euro foi uma âncora continental para a Alemanha, depois da unificação, ficar amarrada à União Europeia.»

«Tenho esperança na racionalidade do comportamento internacional dos Estados. Não tenho nenhuma esperança na capacidade de previsão programática ou na capacidade ideológica de uma social-democracia em frangalhos, desde que se tornou numa espécie de colónia do liberalismo. Quando os filhos dos sindicalistas passaram a ingressar nas boas universidades ocidentais perderam a liberdade de espírito.»

 

ADENDA: não celebro o título do Benfica, mas gostaria muito que José Medeiros Ferreira, benfiquista do coração, cá estivesse para celebrar a conquista do campeonato nacional de futebol.

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A ténue luz que se apagou de vez

por Pedro Correia, em 23.03.14

 

Nenhum político em Espanha foi tão aplaudido, nenhum político foi tão vilipendiado. Nenhum foi tão enaltecido em tão curto tempo. Nenhum acabou tão solitário como ele.

Adolfo Suárez, o homem que conduziu com habilidade florentina e uma vontade férrea a transição espanhola da ditadura para a democracia em dois anos vertiginosos, entre 1976 e 1978, morreu há poucas horas. Morrer, neste caso, talvez não seja a expressão mais correcta: seria melhor dizermos, como sugere Juan Cruz numa excelente prosa publicada no El País, que a ténue luz que ainda o iluminava se apagou de vez. A doença de Alzheimer, que lhe fora diagnosticada em 2003, mantivera-lhe relativamente incólume o corpo mas fora-lhe remetendo o espírito para parte incerta.

 

Foi um dos raros políticos que admirei sem reservas. Pela missão que levou a bom porto de reconciliar os espanhóis, incompatibilizando-se à vez com todos os sectores políticos, entre bombas da ETA e atentados extremistas cometidos a um ritmo quase diário naquele final da década de 70 por todos os inimigos da democracia, oriundos da esquerda e da direita. Sofreu ameaças de morte, foi alvo das mais torpes injúrias, mil vezes lhe vaticinaram um prematuro obituário político: ele soube resistir a todas as adversidades. Com uma assombrosa coragem física e moral.

 

 

Ficou na memória colectiva de todos os democratas -- em Espanha e não só -- aquele momento crucial, ao fim da tarde de 23 de Fevereiro de 1981, quando o Parlamento em Madrid foi tomado de assalto por oficiais golpistas armados até aos dentes enquanto decorria o debate de investidura do executivo liderado pelo seu sucessor, Leopoldo Calvo-Sotelo. Ao grito de "Todos no chão!", soltado pelo líder dos golpistas entre vários tiros intimidatórios, só dois civis se mantiveram sentados nos seus lugares do hemiciclo, sem se sujeitarem ao ditame do pistoleiro: Adolfo Suárez e o então líder comunista, Santiago Carrillo.

Aquele gesto de verticalidade do chefe do Governo cessante no que poderia ter sido o último dia da sua vida fez mais pela pedagogia democrática em Espanha do que mil discursos de cem políticos.

 

Tal como Churchill, despedido pelos eleitores britânicos no Verão de 1945, logo após ter ganho a guerra aos nazis graças à sua coragem inquebrantável, também ele recebeu guia de marcha depois de ter cumprido uma missão que parecia utópica: lançar as bases de uma democracia sólida num país que fora dilacerado pela mais sangrenta guerra civil dos tempos modernos e por quatro décadas de regime ditatorial. Uma das frases que proferiu nesses exemplares anos da transição espanhola podia bem servir-lhe de lema: "Posso prometer e prometo."

Ninguém como ele -- a par do Rei Juan Carlos -- fez tanto para pôr fim às "duas Espanhas" que sempre se encararam com ódio homicida e visceral. Ninguém como ele acabou por ser tão desprezado por ambas -- numa prova evidente de que a política devora muitos dos seus melhores talentos. E só a doença, somada aos dramas familiares que o afectaram, acabou por reabilitá-lo junto de quase todos quando não podia fazer sombra a ninguém.

Nessa altura Adolfo Suárez era já uma espécie de personagem póstuma ainda em vida. Perdeu a memória da missão histórica que desempenhou, deixou de reconhecer até os parentes mais próximos. Quando em 2008 o seu amigo Juan Carlos o visitou na residência madrilena para lhe entregar em mão a mais alta condecoração civil espanhola, limitou-se a perguntar-lhe com aquele sorriso desarmante que conservara de outros tempos: "Quem és tu?"

 

Por vezes questiono-me até que ponto degenerou a política europeia para termos deixado de ver à nossa volta homens com a envergadura de um Adolfo Suárez. Homens tocados por um sentido de elementar decência que os levam a servir da melhor maneira os concidadãos deixando as nações que governam mais respeitadas, mais dignas e mais livres. E que depois se afastam rumo ao crepúsculo, sem aguardarem honrarias nem esperarem o reconhecimento ou até a mais elementar gratidão dos contemporâneos, apesar de terem deixado a sua marca impressa no destino histórico. Bastando-lhes a convicção da missão cumprida e a certeza de terem contribuído para transformar o mundo num lugar mais habitável.

 

Leitura complementar:

Um homem já com lugar na História

Grandezas e misérias da política

As duas Espanhas

Suárez não sonhou com esta Espanha

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Um bocado feio

por José António Abreu, em 23.03.14

É terrível ser um bocado feio. Um bocadinho não é grave, pelo menos para os homens: com um mínimo de confiança, pode transformar-se a pitada de fealdade em algo de atractivo; no detalhe que faz a diferença. (Para as mulheres é mais difícil: os gostos dos homens são limitados e as mulheres tendem a amplificar a importância de qualquer pequeno defeito, o que lhes diminui o nível de confiança e – uma coisa leva à outra – a capacidade de atracção.) Nesta sociedade assente na imagem, ser horrivelmente feio é péssimo mas, ainda assim, tem um certo pathos: a fealdade pode assumir-se, num desafio às convenções e num teste às inseguranças alheias (poucas pessoas estão confortáveis com a hipótese de serem consideradas politicamente incorrectas). Ser muito feio pode usar-se como o José Castelo Branco usa a roupa, os gestos e a maquilhagem: como que desafiando constantemente os outros a achá-lo ridículo. Lixado mesmo é ser um bocado feio. Não um bocadinho, não muito, apenas um bocado. Algo que não dê para disfarçar nem para transformar em statement. Que não provoque curiosidade (como um pouco) nem desejo de não ferir (como muito). Por mais que se faça, pelo menos sem recurso à cirurgia, nada altera significativamente a situação. É como ser chato: existe-se mas ninguém quer estar por perto. Sim, é terrível ser um bocado feio. Ou melhor: deve ser.

 

(Republicado.)

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Tolice

por José António Abreu, em 17.12.13

Sei demasiado sobre rapazes para ter uma perspectiva sentimental a seu respeito. Também fui um deles e sei o que isso significa; ou seja, que há um tolo ou um homem apaixonado no seu interior que luta por se libertar.

Robertson Davies, O Quinto da Discórdia. Edição Ahab, tradução de Maria João Freire de Andrade.

 

Gostava de conhecer a versão original para perceber que termo foi traduzido por «tolo». Provavelmente «fool», que também serve. Julgo entender o «ou»: pode libertar-se um tolo (no sentido de parvalhão, de macho com o nível de sensibilidade de um tractor velho sacolejando uma charrua em piso empedrado*) ou um homem apaixonado. Mas, neste caso, mesmo levando em conta que a paixão nem sempre é dirigida a outro humano mas a uma causa, a um assunto, a um animal doméstico, não ocorre sempre uma aglutinação? Não é ponto assente fazer parte da condição de homem apaixonado uma boa dose de tolice? Aliás, conquanto por norma apenas se consiga percebê-lo em retrospectiva e até apenas depois de dissipados os efeitos de uns quantos actos irreflectidos, não constituirá a tolice um dos aspectos mais positivos da paixão – aquele que estilhaça a imagem construída e torna os homens (como, de resto, as mulheres) mais humanos? Nenhum cão, gato ou ave do paraíso tem capacidade para detectar tolice na forma como age quando fortemente atraído por algo. Só os humanos a têm. Só os humanos conseguem perceber que estão a ser tolos e, por conseguinte, pelo menos em teoria, deixar de o ser. Não o fazendo, os humanos constituirão até os únicos tolos genuínos. Sendo que, na sua versão mais benigna (mais leve, mais etérea, mais slapstickiana), a tolice é também o oposto do cinismo, outra característica eminentemente humana. Deixemos então claro: ser tolo é muito diferente de ser estúpido ou parvalhão. Ser estúpido ou parvalhão é sempre mau. Ser tolo é frequentemente uma coisa boa.

Ou assim espero. Até um humano ligeiramente cínico como eu precisa de ilusões.

 

* Sim, podem ficar impressionados: analogias destas vêm-me sem esforço.

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Não te dignificam os homens,

por Gui Abreu de Lima, em 23.07.13

 

erva daninha. Não te respeitam porque é fácil ignorar-te. Sabes porque te ignoram? Porque podes mais que eles. Que basta a chuva, que aguentas o sol, que te contentas superiormente com a vida. Que és a vida. Tomaram-te os homens, erva daninha. Sem ânsias, no espaço que é teu, sorrindo ao que pisa e passa, a olhares que não te deitam e à admiração que nem te devotam. És efémera, hastezinha, e os homens temem a impermanência. Vives pouco, e não se contentam com pouco. A tua grandeza não passa das solas dos seus sapatos.

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Meia-idade

por José António Abreu, em 18.07.13

Pergunta:

A crise da meia-idade é real?

 

Resposta:

Claro que sim. Mas:

1. Não atinge apenas os homens;

2. Não é verdade que se caracterize por estes passarem a olhar mais para raparigas novas; os homens passam a olhar (ainda) mais para todas as mulheres;

3. Ir atrás das mais novas é apenas bom senso no meio da loucura.

 

(Republicado. Não devido a qualquer post publicado ontem pelo Pedro Correia, que fique bem claro.)

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Igualdade de género

por José António Abreu, em 15.07.13

Falo ao telefone com uma lisboeta que não conheço de lado nenhum sobre assuntos de trabalho. Saliento um ponto qualquer. Ela replica: «Ó querido, mas isso queria eu!» Fico um tudo-nada perturbado, não apenas pelo «ó querido» mas pela frase completa e, acima de tudo, pelo tom em que é pronunciada. Sinto-me como se tivesse acabado de descobrir estar metido num casamento semi-gasto, no qual subsiste alguma ternura mas onde já não se esconde a impaciência. Ainda por cima, casado com uma mulher que, repito, nem conheço pessoalmente e que usa expressões como «ó querido». Mas depois, durante o resto da conversa, que dura mais do que o necessário porque ela tem que dizer tudo pelo menos três vezes (um defeito mais português do que feminino), o meu problema é mesmo conter a vontade de a tratar do mesmo modo. É que «ó querida, eu percebi à primeira» vem tão a propósito... Mas resisto. Ainda era acusado de assédio sexual. Ou, no mínimo, de machismo.

 

(Republicado, cá por coisas.)

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Pois, mas era mesmo isto...

por José António Abreu, em 12.07.13

Ele era um adulto consciente de que não podia ter tudo, tal como uma mulher alegre e ao mesmo tempo deprimida em seu nome.

Norman Rush, Whites. Tradução minha.

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Os resistentes

por Helena Sacadura Cabral, em 24.05.13

 
Aquietem-se, porque não é de política que vou falar. É de homens. Os que guardo nas minhas lembranças. 
Aquietem-se de novo, porque também não é acerca dos meus amores que vou escrever. Esses estão no meu coração, guardadinhos a sete chaves. Vou falar-vos dos homens que estão na minha memória e que embalaram as minhas paixões.
São vários. Na música, quatro: Sinatra, Montand, Cohen e Aznavour. Georges Moustaki é da mesma fornada mas não ocupava o lugar dos outros. Vinha na segunda linha. Acaba de morrer. Ficará o registo da sua voz, já que o da imagem se degradou muito. Quando veio a Lisboa já era um velho. Ao contrário dos outros dois vivos que citei, nos quais o passar dos anos foi menos cruel.
No cinema Redford mantém-se entre aqueles por quem a minha pressão sanguínea acelerou. E vou ficar triste, se ele partir antes de mim.
Estas figuras contam nas suas rugas - e ainda há quem queira apaga-las! - a história de um meio século, ao qual eu tive a sorte de pertencer. As vozes, essas, com os olhos fechados, eu distinguiria qualquer delas à distância.
Redford, no meu caso, personifica "aquele" homem com quem se tem o direito de sonhar. Aos vinte, aos trinta, aos cinquenta, aos noventa! Felizmente, o coração só envelhece nos electrocardiogramas...

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“Passei a beijar os meus amigos”,

por Gui Abreu de Lima, em 03.04.13

“é bom beijar homens”, foram umas palavras de Lobo Antunes que tiraram dos fundilhos o que pensara: nesta coisa de as mulheres se beijarem, dos homens e das mulheres se beijarem, de nos cumprimentarmos com beijos, de pais beijarem filhos, os filhos os pais, os tios e os sobrinhos, os avós, os netos, sempre aos beijos... e eles não. Os amigos não, os irmãos também não. Os homens não dão beijos uns aos outros. Pelam-se por beijos, mas não dão. Palermas.

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Pontas de nariz

por José António Abreu, em 04.02.13

O frio é mais democrático do que o calor. No Verão, os corpos adquirem todos os seus factores diferenciadores. Mulheres e homens comparam-se e, dependendo do resultado obtido, sentem vontade de sorrir em triunfo ou de se esconderem no ralo do passeio mais próximo. Uma mulher atraente conhece o efeito que as suas (dela, caro leitor do sexo masculino, dela) pernas tonificadas saindo de uma mini mini-saia exercem em homens heterossexuais e em mulheres com pernas menos tonificadas (oh, se conhece) e sente-se muito bem com isso (oh, se sente). O Verão faz-nos atingir os píncaros da vaidade e do egoísmo. (Disclaimer: as frases anteriores não significam que o autor destas linhas, doravante designado por autor destas linhas, seja incapaz de apreciar os meses de Verão, em especial quando mulheres atraentes com pernas tonificadas saindo de mini mini-saias andam nas suas redondezas, por doloroso que tal circunstância às vezes seja; o autor destas linhas está até disponível para admitir ser este o único tipo de masoquismo que aprecia.) Já durante o Inverno, enterradas em dezassete camadas de roupa grossa, as diferenças esbatem-se: existem muito menos factores diferenciadores entre pontas de nariz enregeladas, espreitando de golas, garruços, cachecóis e protectores de orelhas, do que entre pernas tonificadas saindo de mini mini-saias. No Inverno, encontramo-nos também disponíveis para um maior grau de empatia: sabemos o que as outras pessoas estão a sentir e sabemos que é exactamente o mesmo que nós próprios estamos a sentir. Acredito que algumas mulheres atraentes (e homens, que hoje em dia os há preocupados com cada coisa) encarem como um desperdício trazerem um corpo tão bem torneado por baixo de tanta roupa, não podendo assim esfregá-lo na cara das outras pessoas (imagem não-literal, embora passível de gerar efeitos literais). Poderá até ser por isso que muitas afirmam detestar o Inverno (aproveito para confessar que, levando em conta as demonstrações de sangue quente que as caracterizam, nunca percebi por que motivo as mulheres sofrem mais com o frio do que os homens) e que algumas procuram contrariar o poder do termómetro e manter bem visíveis as pernas tonificadas e todos (enfim, quase todos) os restantes argumentos que a genética e/ou dezenas de horas de ginásio lhes concederam, quanto mais não seja através de uma curiosa moda actual que consiste em usar uma espécie de collants grossos sem saia ou calças por cima (como, para mais, são usados com botas de cano alto, uns calçõezinhos tufados e, voilá, estaríamos perante a moda masculina do século XVI). Seja como for, mais leggings, menos leggings (é o nome certo, certo?), quase todos os assomos de vaidade são levados pela primeira rajada de vento cortante que obrigue a meter as mãos debaixo dos braços e bater com os pés no chão. (Fica difícil manter a altivez enquanto, mãos enfiadas debaixo dos braços, se bate com os pés no chão; quem não acreditar, que experimente em frente a um espelho.) O que nos traz de volta à questão da igualdade entre pontas de nariz. Colocando a coisa de modo tão directo e politicamente incorrecto quanto, com os dedos enregelados como estão (é segunda-feira de manhã e o aquecimento ainda não está ligado), consigo pôr: há por aí uma enorme quantidade de atraentes pontas de nariz femininas para cujas possuidoras – silly me, tão facilmente passível de ser distraído por pernas tonificadas saindo de mini mini-saias  – eu não olharia duas vezes no Verão.

 

(Reescrito a partir de uma versão anterior para espicaçar a Ana Vidal.)

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Procurai, que diabo!

por Gui Abreu de Lima, em 12.12.12


A tua guerra, essa luta que travas contra todos a quem chamas oponentes, é só tua. Começou, eras menino. Houve uns olhos que te olharam e a denunciaram, um coração em desespero que a partilhou contigo, uma boca que não conseguiu calar a voz amargurada da angústia. Há muitos homens em combate como tu. Que arremessam pedras, disparam tiros e põem bombas durante uma vida inteira. Em toda a esquina topam o inimigo, em cada alma auguram o traidor. Carregam desde meninos a dor de alguém que amaram, devolvem-na ao mundo, espalham-na à volta, sem nunca duvidarem do que sentem. Erguem o indicador sobre quem estiver à mão, ignorando nesse gesto os quatro dedos que apontam em sua direcção. Vem de longe a guerra. Destrói o teu mais intenso amor, a tua paz, a fraternidade que tanto apregoas. Há muito, muito tempo, eras tu tão pequenino, e foi profundamente injusto, insano, inconsequente.

Homens, procurem a origem do vosso inferno. A razão da vossa guerra. Revejam o que vistes em meninos. De que misérias fostes testemunhas caladas, entre os jogos de bola, o caminho da escola, os fins de tarde, as manhãs de sábado, os passeios de domingo, a ida à missa? Na vossa cama, à mesa de jantar, no silêncio aterrador da madrugada? Do que sentistes, talvez não tereis lembrança. Ou surgirão vagas recordações de uma criança amedrontada. Mas ficai certos: dentro de vós, como num papiro milenar, estão todas as vivências impressas ao pormenor. Têm a forma de terríveis consequências e poder sobre a vossa condição. Desabrocham como ervas entre as vossas opiniões, acções, reflexões. Toldam o timbre das vozes e manipulam os gestos mais naturais. Homens, não se detenham. Procurai a origem do vosso inferno, a razão de toda a guerra.

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Símiles que nunca uma mulher entenderá

por José António Abreu, em 30.11.12

Os olhos dela eram faróis bi-xénon iluminando a escuridão.

Tinha mamas empinadas como um chapéu do Totti.

A sua voz conseguia ser tão suave como um Aventador ao ralenti e tão agressiva como um tema do Trent Reznor. 

Respondia melhor ao toque dos dedos que um oled capacitivo.

De mini-saia e sapatos de salto alto parecia um carro desportivo com jantes de vinte polegadas.

Tinha contornos com mais polígonos do que Mona Sax ou Lara Croft e também era muito mais perigosa.

Ao fazer amor, mudava de ritmo como uma caixa de dupla embraiagem.

Amá-la era um call of duty, que ela o amasse uma medal of honor.

Domá-la era tão impensável como controlar sem mãos uma Panigale a alta velocidade.

Tinha um riso tão cristalino como o tweeter das melhores Sonus Faber.

Sabia usar o corpo de tal modo que o remetia para os clássicos da Private.

Carícias dela faziam-no vibrar mais do que o Dualshock.

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Substitutos

por José António Abreu, em 16.10.12

 

Desconheço se ela cantou isto no concerto do mês passado em Lisboa. Fica aqui com uma dedicatória às raparigas desiludidas com os homens e em busca de alternativas. Mas atenção: alguns babam-se, outros largam muito pêlo e quase todos acabam por constituir excelentes pretextos para os homens meterem conversa.

 

Adenda 1: O "quase todos" exclui chihuahuas, que qualquer homem digno do termo (instintivamente sei o que é mas não me peçam para explicar) despreza, bem como pitbulls, dobermans e rottweilers, que qualquer homem sensato receia.

 

Adenda 2: Por outro lado, uma mulher a passear um rottweiler tem de ser especial...

 

Adenda 3: Mas não. Há riscos que não compensam.

 

Adenda 4: Hmmmmm...

 

Adenda 5: Bom, se a situação se apresentar logo se vê.

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Artificialidade - história em duas partes

por José António Abreu, em 14.10.12

Parte I

Não gostava das mamas. Achava-as demasiado pequenas. Sentia-se tão insegura acerca delas que lhe perguntava repetidamente se não preferiria que fossem maiores. Ele respondia que não, que nem sequer gostava de mamas demasiado volumosas e que as dela não eram pequenas, eram perfeitas, mas ela não acreditava. Menos de um ano após o casamento decidiu colocar implantes. Ele resmungou. Não era necessário e, para mais, era caro. Mas ela estava determinada e ele acabou por ceder. Com as mamas novas, ela passou a comprar blusas e vestidos mais provocantes. Mas havia um problema: tinha uma cintura ligeiramente gorda. «Preciso de fazer uma lipoaspiração», declarou uma noite, cerca de seis meses depois da colocação dos implantes mamários. Ele argumentou que não tinham dinheiro suficiente, que andavam a adiar a compra de um carro desde o casamento, que o apartamento ainda quase não tinha móveis, que os juros do empréstimo podiam subir, mas foi inútil. Após a lipoaspiração, ela sentiu-se melhor durante uns tempos. Depois decidiu arranjar os dentes. «Mas o que têm os teus dentes de mal?», perguntou ele. «São tortos, e amarelos. Já viste os actores e os apresentadores de televisão americanos? Têm todos dentes fantásticos! Por que é que não hei-de ter uns assim?» Milhares de euros depois, ela tinha dentes falsos tão belos que sorria mesmo ao receber más notícias. Progressivamente tirou todos os sinais do corpo, alisou a pele do pescoço, injectou botox nos lábios e em torno do olhos, colocou umas maçãs do rosto mais salientes, corrigiu a ligeira (ele nem a conseguia ver) proeminência das orelhas, fez uma rinoplastia para cortar dois milímetros ao nariz e instalou seis piercings, um dos quais o fazia perder a erecção durante o acto sexual, por receio de lesões graves. Por fim, ele fartou-se. Depois de anos a visitá-la em clínicas e hospitais, anunciou-lhe que a ia deixar. «Vais pedir o divórcio?», perguntou ela por entre os lábios inchados após mais um injecção de botox. «Não», respondeu ele, «não estou a pensar no divórcio.» Apesar dos anos já decorridos, requereu e conseguiu a anulação do casamento, alegando que aquela não era mais a mulher com quem casara, nem sequer uma verdadeira mulher, mas um ser artificial, quase totalmente sintético. À porta do tribunal, as últimas palavras que lhe dirigiu foram: «Lamento, mas eu preciso de verdadeiro contacto humano.»

 

Parte II

Livre para viver sem ser obrigado a levar em consideração desejos alheios, com o salário à disposição (ela não ganhava mal, mas ele ganhava melhor), ele instalou-se num apartamento e começou a mobilá-lo com os objectos que sempre sonhara ter. Na sala colocou um televisor de cinquenta e cinco polegadas, ligado a um leitor de blu-ray, às três principais consolas de jogos e a um sistema de som surround com sete canais principais mais subwoofer. No quarto instalou um televisor mais pequeno e um sistema de som ligeiramente menos potente. Para a cozinha escolheu um combinado com ecrã de televisão e sintetizador de voz, capaz de cuspir cubos de gelo, gerir stocks e recomendar o consumo dos produtos mais saudáveis, e um microondas com sensores de humidade que adequavam tempo e potência da cozedura aos alimentos colocados no interior e um pequeno ecrã colorido onde surgiam gráficos, animações e a indicação dos parâmetros utilizados nos últimos cinquenta pratos cozinhados. Na casa-de-banho instalou uma banheira de hidromassagem com dezenas de jactos, programação digital e mais um ecrã de televisão. Passou a lavar os dentes com uma escova eléctrica e a barbear-se com uma máquina eléctrica de cabeça oscilante, que tinha um ecrã pequenino onde surgia a indicação de carga e do desgaste das lâminas. Comprou ainda uns auscultadores sem fios e outros com fio, um telemóvel novo, topo de gama, um computador, um iPod, um iPad, duas máquinas fotográficas e várias objectivas, uma câmara de vídeo e uma impressora de qualidade fotográfica. Adquiriu também um aspirador que trabalhava sozinho e uma passadeira de exercício possuidora do seu próprio ecrã de televisão, com dúzias de programas distintos simulando a corrida em sítios tão exóticos como a Quinta Avenida e a Passagem de San Bernardino. Instalou sensores de presença ligados às luzes e um sofisticado sistema de comando que lhe permitia controlar quase todo o equipamento a partir do telemóvel. Por fim comprou um carro com caixa automática, chave inteligente, sensores de luz e de chuva, alerta de mudança de faixa, sistema de navegação e de telefone com reconhecimento de voz, e capacidade para estacionar sem intervenção humana. Depois de tudo isto sentiu-se finalmente feliz. Quando pensava na mulher de quem se separara, abanava a cabeça, incapaz de entender como pudera aguentar tamanha artificialidade durante tanto tempo.

 

(Republicado.)

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Exaspera-me com frequência, enternece-me de vez em quando, há períodos em que se ausenta, outros em que me domina e consegue ser insidioso ao ponto de, em mais ocasiões do que eu gostaria de admitir, chegar a parecer-me a melhor parte de mim. No fundo, tudo expectável mas, ainda assim, perturbador. Não entendo, muito menos controlo, o meu lado feminino.

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Adulação

por José António Abreu, em 19.08.12

O caso de Virgília tinha alguma gravidade mais. Ela era menos escrupulosa que o marido: manifestava claramente as esperanças que trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortesias, atenções e afagos que poderiam render, pelo menos, um codicilo. Propriamente, adulava-o; mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma cousa que a dos homens. Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se com a afeição. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma fraqueza física dão à ação lisonjeira da mulher, uma cor local, um aspecto legítimo. Não importa a idade do adulado; a mulher há de ter sempre para ele uns ares de mãe ou de irmã, – ou ainda de enfermeira, outro ofício feminil, em que o mais hábil dos homens carecerá sempre de um quid, um fluido, alguma cousa.

Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.

 

Será precisamente pela superior garantia de «servilidade» que muitos homens até preferem a adulação de outros homens. Por isso e por tradicionalmente constituir uma demonstração mais evidente de poder. Quanto à adulação feminina, consegue, de facto, ser parecida com afecto: resta saber se por exclusiva responsabilidade das mulheres, se por leituras enviesadas e quase sempre de índole sexual (aliás, muito pouco coadunáveis com a imagem de uma mãe ou de uma irmã) dos homens. Ainda assim, é importante manter presente que vivemos tempos muito diferentes dos de Machado de Assis. Tempos em que as mulheres agem frequentemente de formas muito parecidas com as dos homens e em que os homens dão excelentes enfermeiros.

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Por que vão as mulheres juntas à casa de banho?

a) Porque receiam ir desacompanhadas a locais que não conhecem e onde, ainda por cima, vão ter de se despir;

b) Porque querem trocar notas sobre os companheiros;

c) Porque querem trocar notas sobre a própria aparência;

d) Porque não podem correr o risco de deixar as outras irem sozinhas, sabendo que regressarão com penteado e maquilhagem retocados;

e) Porque fazê-lo é uma oferta de amizade (ou, pelo menos, de não agressão) às mulheres com quem estão;

f) Porque a ideia de ficarem sozinhas a aturar os homens é demasiado assustadora;

g) Porque seguem uma regra não escrita (ou – o que sei eu? – se calhar escrita) que exige que nunca fiquem junto dos companheiros das outras mulheres enquanto elas vão à casa de banho;

h) Porque desejam espreitar a marca do material de maquilhagem das outras mulheres;

i) Porque precisam desesperadamente de tirar os sapatos;

j) Porque precisam desesperadamente de pedir comprimidos para a dor de cabeça que a conversa com os homens lhes está a causar;

l) Porque precisam desesperadamente de vomitar ou de usar drogas (pode ter a ver com a conversa dos homens);

m) Porque estão condicionadas por milhares de filmes e séries televisivas;

n) Porque não resistem à existência de espelhos a menos de cinquenta metros;

o) Porque têm medo do que vão ver no espelho e preferem estar acompanhadas e falando de trivialidades quando o momento chegar;

p) Porque imaginam que isso deixa os homens ponderando se elas voltarão (às vezes, deixa);

q) Porque, apesar de serem os homens quem consegue ficar sentado na casa de banho durante horas, adoram casas de banho (de resto, parece que as femininas tendem a ser bonitas e bem arranjadas);

r) Porque, para além de terem bexigas pequeninas, sofrem de um síndroma psicológico que as leva a ter vontade de urinar sempre que alguém dá a entender precisar de o fazer;

s) Porque em grupo, e de modo a evitar as eternas filas na casa de banho feminina, podem sempre invadir a masculina, ficando uma a barrar a entrada aos homens (ou não, se estes forem atraentes);

t) Porque aproveitam para fazer sexo num dos cubículos enquanto, cá fora, os homens se gabam de as ter no papo;

u) Porque estão na dúvida se o que sentem é excitação ou vontade de urinar e não querem correr o risco de ir para a cama com um homem sem ter a certeza;

v) Porque querem discutir o que diabo têm de fazer para conseguir que os idiotas com quem estão se decidam a levá-las para a cama;

x) Todas as anteriores;

z) Nenhuma das anteriores.

 

Por que não vão os homens juntos à casa de banho?

a) Porque raramente têm vontade de urinar ao mesmo tempo;

b) Porque não querem correr o risco de descobrir que os outros têm pénis maiores;

c) Todas as anteriores.

 

(Repescado.)

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Andréa, proprietária de um blogue chamado A Ponto, respondeu a sério ao meu semi-estapafúrdio (permitam-me alguma condescendência comigo mesmo) post anterior. Remetendo para um texto escrito em 2009, lembrou um estudo publicado na Visão, onde ficava evidente que, quando o tema é sexo, as mulheres portuguesas mentem tanto como os homens, só que em sentido inverso. E escreveu: Seremos tão mal vistas pela abstinência como pelo excesso, seja lá o que isso for. É esta frase que eu gostava de realçar porque Andréa tem toda a razão. Um homem sempre precisou de um currículo de experiências sexuais. E quanto mais preenchido estivesse, melhor. Por seu lado, até há poucas décadas as mulheres enfrentavam uma situação bastante diferente. Sexo com poucos homens era fundamental, sexo com muitos (sendo «muitos» um termo tão relativo que podia – e em alguns recantos deste belo planeta ainda pode – começar em um) transformava-as em meretrizes (que é uma maneira suave de dizer «putas»). Hoje, não sendo já estranho que uma mulher possua um historial de parceiros sexuais, ainda não é exactamente bem visto que ele seja demasiado longo. Mas (não quero fugir à dúvida da Andréa) o que é demasiado? Praticamente qualquer número desde que a avaliadora seja outra mulher, com razões (reais ou imaginadas) para não gostar da primeira, ou mais do que o parceiro do momento. (Quanto a este último ponto, gostaria de salientar algumas excepções; homens com tendência para o papel de «salvador», homens que apenas pretendem sexo, homens de uma incrível saúde mental, homens com cinquenta, sessenta ou setenta anos que querem provar ainda funcionarem tão bem como os de vinte e adolescentes em processo de iniciação sexual poderão não ligar a tais desequilíbrios.) Mais curioso do que este limite superior (as mentalidades alteram-se devagar) é verificar como, numa aproximação à lógica masculina, parece também ser hoje mal visto que uma mulher tenha ido para a cama com um número reduzido de parceiros – e a virgindade, então, passou a doença: pensemos no modo como olhamos para as jovens daqueles clubes em que se jura virgindade até ao casamento. Sinal dos tempos, da liberdade sexual feminina e talvez da enorme quantidade de séries televisivas que, na última década, década e meia, têm apresentado – e glorificado – mulheres sexualmente muito activas. Porém, tudo isto não deixa de configurar uma situação de relativa injustiça. Enquanto um homem tem que ir para a cama com umas quantas mulheres e depois o Céu é o limite (partindo do princípio de que os anjos não são afinal do sexo feminino), as mulheres parecem ter que se manter dentro de balizas mal definidas. Nem abstinência nem excesso, como a Andréa escreveu. A boa notícia é que a situação tende a corrigir-se e, em breve, também para as mulheres o Céu será o limite. Até porque nem elas nem os homens lá conseguirão entrar.

 

Adenda: O que isto tudo significa para as relações de longo termo – bom, essa é outra questão. Que o aumento da taxa de separações e a diminuição do número de partos talvez ajude a explicar. A liberdade também tem custos.

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ou não

por Patrícia Reis, em 12.01.12

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A dias

por José António Abreu, em 11.01.12

As mulheres sempre acusaram os homens de, após algum tempo de relação, tenderem a tratá-las como empregadas domésticas. Para não variar, estão apenas parcialmente correctas: é verdade que, passada a fase dos arroubos de romantismo, o que os homens desejam mesmo é uma mulher a dias. Mas não para lhes limpar a casa (bom, isso também, se puder ser); uma mulher a dias no sentido de estar presente durante umas horas três ou quatro dias por semana, com horário e serviço nocturnos incluídos, e que depois os deixe em paz. No fundo, o mesmo que imensas mulheres desejam dos homens.

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Ainda há heróis

por Pedro Correia, em 23.12.11

Uma imagem para a História: Aleksandr Dubcek e Václav Havel durante a Revolução de Veludo (1989). Foto de Justin Leighton.

 

O século XX ficou marcado, de uma ponta a outra, por demasiadas figuras sinistras -- tiranos, torcionários, carrascos do seu povo e de outros povos. Amarga ironia da história: sabemos muitas vezes com mais facilidade de cor os nomes desses déspotas do que os daqueles -- bem mais raros -- que contribuíram para tornar o mundo melhor.

Um político cujo nome merece a pena ser decorado e recordado pelas gerações futuras é Václav Havel. Dramaturgo, pensador, antigo preso político, fundador e activista da Carta 77, grande figura de referência ética contra o regime imposto em Praga pelos blindados soviéticos em Fevereiro de 1948 e Agosto de 1968, conduziu em 1989 a Revolução de Veludo mobilizando milhões de checos e de eslovacos contra a ditadura comunista. E nesse processo -- tendo a seu lado Aleksandr Dubcek, o malogrado arquitecto do "socialismo de rosto humano" estrangulado pelas tropas do Pacto de Varsóvia com o aplauso do PCP -- demonstrou toda a sua fibra de resistente, toda a sua coragem física e política, toda a sua enorme envergadura moral. Com uma oratória persuasiva e galvanizadora, apelou às melhores energias dos compatriotas que o ajudaram a derrubar a burocracia despótica do "socialismo real" checoslovaco, espécie de estalinismo mitigado, medíocre máquina trituradora de aspirações e sonhos.

Na pátria de Kafka, esta foi uma das revoluções mais bem sucedidas de que há memória. Sem um tiro, sem derramamento de sangue. Graças à enérgica liderança de Havel -- democrata assumido, pacifista convicto, crente na virtude da tolerância como forma de mobilizar vontades e de cativar até os inimigos da liberdade.

Este homem íntegro, vertical, serviu o seu povo como Chefe do Estado e após o cumprimento do mandato presidencial soube regressar da melhor forma à condição de cidadão comum. Que é pouco. Mas que é tudo.

No preciso momento em que escrevo estas linhas decorre o seu funeral em Praga. Confesso: são linhas comovidas. Porque Havel foi uma das figuras da política internacional que mais admirei. Graças a ele, e a alguns outros, posso gabar-me de ter vivido numa época com heróis de carne e osso.

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Como é fácil entender os homens

por Ana Vidal, em 14.08.11

Nas provas da America's Cup (Cascais)

 

- Passa-me aí os binóculos, Amélia. Depressa, depressa!

- Mas eu agora estou a ver um barco... espera aí, já dou.

...

...

- Pronto, toma lá. Qual é o barco que querias ver?

- Barco? Oh, agora já não interessa.

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XY

por José António Abreu, em 11.08.11

Pergunta de algibeira: por que será que estes «manifestantes» que partem montras e saqueiam lojas em nome de mais justiça social são quase todos do sexo masculino? As mulheres não sentem problemas similares, talvez piores?

 

Pista: pela mesma razão que também não se vêem muitas mulheres nas claques de futebol que vandalizam áreas de serviço em nome de um clube.

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A funny mind

por José António Abreu, em 22.07.11

The love of a woman with a funny mind is the definition of paradise, he thought.

Norman Rush, Mortals. Edição Jonathan Cape.

 

Inteiramente verdade. Bom, também não faz mal que a mulher possua outros atributos, incluindo aqueles mais tridimensionais. O próprio Ray Finch, a personagem que tem este pensamento, adora outras características de Iris, a mulher com quem está casado. Mas a funny mind é, de facto, a mais importante (mais do que a pura inteligência, que frequentemente a acompanha). A funny mind não é banalizada pela familiaridade, permite surpresas regulares, momentos de distensão em que se é recordado do motivo por que se gosta daquela pessoa. Nenhuma característica física tem este poder, ou pelo menos não o tem eternamente. Degenerescências médicas à parte, ainda que por vezes abalada pelas dificuldades da vida, a funny mind consegue resistir à passagem do tempo. Mais: nas mulheres como nos homens, revela-se extremamente útil para aprender a relativizar os seus efeitos, limitando-os ao plano físico.

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Amartya Sen

por Laura Ramos, em 12.03.11

 

Se a Economia é a ciência da análise e da previsão de como as sociedades usam os recursos escassos e a correspondente produção de bens (valores), procurando a sua utilização eficiente, jamais perceberei porque é que, na maioria dos casos, os profissionais do foro se auto-reduzem a uma função de "prático-de-folha-de-excel", sem capacidade para observar e compreender os comportamentos, sem visão de enquadramento histórico, sem sentido humanístico dos fenómenos que dissecam afanosamente na mesa cirúrgica (aliás, mais frequentemente na mesa de autópsias, o que já diz bastante sobre a matéria...).

 

Nada é tão raro como encontrar um economista culto.

E no entanto, quanto nós precisávamos de ter muitos discípulos de Amartya Sen, que nunca se desgarrou dessa ideia nuclear e anti-determinista de liberdade na escolha, de desenvolvimento inteligente e de progresso útil, à escala do Homem.

O Nobel da Economia merece luz e palco até ao fim dos dias.

A trapalhada desta última década só lhe veio a dar razão.

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Good luck, Mr. Darcy!

por Laura Ramos, em 11.02.11

 

Finalmente!

Na calha para o Óscar de Melhor Actor pelo papel em The King's Speech.

Raramente concordaram comigo... mas Colin Firth é, há muito tempo, um dos meus fingidores favoritos.

Por isso, embora estas coisas de Hollywood costumem despertar-me um interesse morno, este ano vou torcer muito, mesmo muito, para que o meu Mr. Darcy predilecto ganhe a estatueta (aposto que nas suas mãos até perdia aquele ar de troféu do volfrâmio).

Seria absolutamente merecida.

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Um homem comum na Casa Branca

por Pedro Correia, em 15.11.10

 

Naquela quinta-feira, dia 12 de Abril de 1945, havia chuva em Washington. Às 19.09, um homem de 60 anos, natural do Missouri, de óculos com lentes grossas e estatura acima da média, tomava posse como 33º Presidente dos Estados Unidos. Finda a cerimónia, que durou menos de um minuto, o empossado beijou a Bíblia sobre a qual prestara julgamento.
Esse homem fora vice-presidente apenas 82 dias por escolha de Franklin Delano Roosevelt, falecido duas horas e 24 minutos antes da singela cerimónia de posse na Casa Branca. A um gigante da política norte-americana, que conduzira com sucesso o país no combate à grande depressão e nas encruzilhadas da II Guerra Mundial, sucedia “o típico americano médio”, como assinalou o jornalista Roy Roberts, no Kansas City Star, acrescentando: “Que teste à democracia se funcionar!”
Nessa noite, Harry Skipp Truman deitou-se um pouco mais tarde do que era costume, depois de comer uma sanduíche de peru e beber um copo de leite. Terminava o dia mais longo da sua vida, em que certamente rememorou as críticas recebidas na imprensa oito meses antes, quando Roosevelt surpreendeu tudo e todos ao escolher para vice-presidente, no seu último e brevíssimo mandato, este senador que nunca frequentara a universidade, passara a infância e a juventude numa humilde zona rural e viajara apenas uma vez na vida – em 1918, como capitão de artilharia, quando chegou a França para combater na I Guerra Mundial.
Truman terá certamente recordado também os editoriais demolidores com que a imprensa o brindara no Verão anterior. A Time chamara-lhe “medíocre”, o Post-Gazette, de Pittsburgh, garantira que era “um dos mais fracos vice-presidentes” de sempre. Richard Strout, no New Republic, desabafara: “Pobre Truman. E pobre povo americano.”
 
No momento em que tomou posse, Harry Truman tornou-se o comandante supremo das forças armadas norte-americanas, com 16 milhões de efectivos em guerra. O 9º Exército encontrava-se às portas de Berlim, a última ilha das Filipinas fora reconquistada aos japoneses, 400 superfortalezas despejavam bombas diárias sobre Tóquio. A guerra custara já 196.999 vidas americanas. Mesmo assim, o estado-maior, em Washington, previa que durasse mais seis meses na Europa e ano e meio no Pacífico.
Logo na primeira conferência de imprensa, no dia a seguir à posse, Truman exibiu o estilo franco e directo que o celebrizou. “Rapazes, se souberem rezar, rezem por mim. Quando ontem me contaram o que acontecera, foi como se a lua, as estrelas e todos os planetas caíssem em cima de mim”, disse aos jornalistas. Dez anos depois, escreveria nas suas memórias: “Quando Roosevelt morreu, senti que havia um milhão de homens mais qualificados que eu para lhe suceder. Mas a tarefa estava a meu cargo – e tinha de ser feita.”
 
“Nenhum outro Presidente americano tomou decisões tão difíceis nos primeiros quatro meses de mandato, relacionadas com a criação da ONU, a presença ameaçadora do Exército Vermelho na Europa de Leste, a bancarrota britânica, o horror do Holocausto e o advento da era nuclear no Novo México, Hiroxima e Nagasáqui”, escreveu David McCullough na sua monumental biografia Truman (1992), que lhe valeu o Prémio Pulitzer. Um livro fundamental para viajarmos aos 2841 dias da presidência deste homem que jogava póquer, tocava piano e bebia bourbon, chamava “aquário” à Casa Branca e não ligava nada às sondagens. “Até onde chegaria Moisés se tivesse encomendado uma sondagem no Egipto?”, costumava dizer Truman.
Roosevelt, com quem reuniu apenas duas vezes enquanto vice-presidente, jamais o pusera a par dos assuntos da guerra. E nem o informara da sua ida à cimeira de Ialta. Mas ele tinha “uma imensa determinação”, como dizia Churchill. Conseguiu defraudar as piores expectativas a seu respeito. A três meses das presidenciais de 1948, a Newsweek pediu a 50 analistas um vaticínio eleitoral: todos apostaram na vitória do republicano Thomas Dewey contra o democrata Truman. A Life fez uma capa com Dewey, chamando-lhe “o próximo Presidente”. E o Baltimore Sun concluiu: “Votar nele seria uma tragédia para o país e o mundo.”
 
Contra ventos e marés, Truman venceu. E convenceu. Ao cessar funções, em Janeiro de 1953, apresentava uma excelente folha de serviços: a reconstrução da Alemanha e do Japão, o lançamento das Nações Unidas, a criação da NATO, o Plano Marshall, a inédita ponte aérea que permitiu salvar Berlim em 1949. Na frente interna, também tinha motivos para orgulhar-se: criou 11 milhões de postos de trabalho, reduziu a dívida pública, evitou o colapso económico que todos anteviam e jamais aconteceu.
Na última das suas 324 conferências de imprensa como Presidente, a 15 de Janeiro de 1953, sublinhou: “Quando a história disser que o meu mandato assistiu ao início da Guerra Fria, dirá também que nestes oito anos iniciámos o caminho para a vencer.” Acertou em cheio.
Na hora da partida, a mesma imprensa que lhe lançara pedras ovacionava-o em editoriais. “É um homem com muitos opositores e poucos inimigos, e com muitos mais que o apoiam e gostam dele”, escreveu o insuspeito Walter Lippmann.
“Dever cumprido”, disse Truman ao deixar a Casa Branca. Poucos presidentes tiveram tantos motivos como ele para pensar assim.

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A segunda morte de António Feio

por Pedro Correia, em 10.08.10

 

Conheci António Feio ainda antes de ele se chamar António Feio. Explico melhor: nessa altura todo o País o conhecia por Luisinho. Era assim que se chamava a personagem do miúdo que ele representava naquela que foi a primeira telenovela portuguesa. Muito antes de Vila Faia e de o próprio termo telenovela estar popularizado em Portugal. Era ainda no tempo da TV a preto e branco, no final dos anos 60, e essa telenovela chamava-se Gente Nova. Foi um fenómeno de popularidade nessa época, concorrendo apenas com a série televisiva norte-americana O Fugitivo.

Eu era um miúdo nessa altura, bastante mais novo do que o Luisinho que via no ecrã, adolescente já embora sem perder a cara de garoto que afinal acabaria por conservar durante toda a vida. Mas fazia os possíveis por não perder cada episódio desse “folhetim”, como então eram conhecidas as telenovelas, adaptando o termo clássico popularizado pela imprensa oitocentista.

Sou incapaz de reconstituir hoje pormenores da trama: lembro vagamente que o Luisinho era filho de um casal da classe média. Tinha dois irmãos e era um miúdo irrequieto e desembaraçado. Eventuais complexidades do enredo escapavam obviamente ao meu olhar infantil em busca de modelos e de senhas de identidade. Mas aquilo que recordo bem é do elenco. Já nessa altura tinha o costume de fixar fichas técnicas e fichas artísticas, memorizando os nomes dos actores. Conhecia o David Janssen, protagonista d’ O Fugitivo. E o Don Adams, da série Get Smart. E, claro, a incomparável Elizabeth Montgomery, de Casei com uma Feiticeira. Mas o elenco daquela irrepetível Gente Nova era o primeiro conjunto de actores portugueses que me atraía a atenção. Actores como Rui de Carvalho e Helena Félix, que interpretavam os pais do Luisinho. A loira Leonor Poeira, a morena Henriqueta Maia. O Carlos Queirós – não o seleccionador de futebol, mas o irmão de Florbela Queirós, que viria a radicar-se nos EUA. E, claro, o Luisinho/António Feio, que rapidamente se tornou um dos rostos mais conhecidos do País. Tão depressa o víamos na TV como nas capas das revistas (da Flama à Plateia, do Século Ilustrado à Rádio e Televisão) ou em vistosos cartazes publicitários (lembro-me dele num anúncio de Fosgluten, um “fortificante da memória”).

 

Sabia-o muito doente. Era, aliás, impossível não saber: as publicações mais vampirescas da nossa praça iam dando nota, em parangonas sem qualquer resquício de pudor, da “evolução do cancro” deste actor que tanto fez rir os portugueses sem recorrer à ordinarice nem ao trocadilho fácil. Há pouco mais de um mês vi-o ser entrevistado pela Fátima Lopes na televisão: bastou ver o seu rosto, ouvir a sua fala já arrastada e algo hesitante, reparar naquele olhar que parecia já despojado da centelha da vida para se perceber cruamente que o fim estava próximo. Chegou agora, mais cedo do que muitos esperavam – a morte chega sempre cedo de mais. Os vampiros com carteira profissional de jornalista têm de procurar novos alvos: certamente não lhes faltarão motivos para novas capas que reduzam a estilhaços o direito à privacidade, garantido pela Constituição da República Portuguesa mas diariamente violado com total impunidade.

 

A RTP, que tornou António Feio familiar aos portugueses, tem um canal Memória que bem poderia voltar agora a exibir aquele “folhetim” que nunca mais revi.

Será talvez pedir demasiado à televisão pública: aposto que a primeira telenovela portuguesa já não consta do arquivo da RTP. De uma televisão que foi capaz de apagar grande parte das gravações do histórico Zip Zip e todos os registos do inesquecível concurso A Visita da Cornélia podemos sempre esperar o pior em matéria de conservação e gestão de arquivos. Se for assim, e espero estar enganado, esta seria a segunda morte do Luisinho, desta vez às mãos do “serviço público”. Nada mais feio.

 

Na foto: o jovem António Feio com Carlos Queirós e Henriqueta Maia, seus parceiros no folhetim Gente Nova

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Sobre a decência

por Pedro Correia, em 09.08.10

 

Manuel António Pina, com a qualidade habitual, escreve a propósito da morte de António Dias Lourenço, um militante comunista de sempre - homem íntegro, de convicções firmes, com uma coragem inabalável e um impressionante percurso de lutador que incluiu 17 anos nas prisões salazaristas. Este tempo que lhe foi sonegado pela ditadura não lhe retirou a alegria de viver nem alterou a tenacidade com que sempre defendeu as suas convicções. Tive o privilégio de falar algumas vezes com ele: já com uma idade muito avançada, mantinha a fibra de resistente. Era uma lenda viva entre os comunistas mas jamais se comportava como tal. E nunca o ouvi referir-se a um adversário político em termos deselegantes, o que é um exemplo para muitos outros que são incapazes de separar a crítica do insulto e confundem o confronto de posições com a piada rasteira ou a insinuação soez.

Um verdadeiro senhor, que aos 95 anos se despediu da vida com a certeza de ter sido, a cada momento, coerente com os seus ideais. De quantos outros políticos se poderá dizer o mesmo?

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Foi um privilégio trabalhar com ele

por Pedro Correia, em 03.08.10

 

Lembrei aqui há dias, a propósito da morte de José Saramago, um gesto de Mário Bettencourt Resendes enquanto foi director do Diário de Notícias: convidou o Nobel português a regressar à redacção do jornal onde trabalhara em 1975, pondo fim simbólico a um longo desencontro entre o escritor e o jornal por motivos que são do conhecimento público. Fez isto à esquerda, com Saramago. Fez o mesmo à direita, com João Coito. Os grandes jornais devem funcionar como instituições, assumindo o seu passado - feito de luzes e sombras - e cada momento da sua história. O Mário estava certo ao pensar assim. Mas os gestos a que me refiro são também particularmente significativos por revelarem uma faceta essencial deste homem bom que na madrugada de ontem morreu após um tenaz combate contra a doença que o atingiu demasiado cedo: ele sabia ser um traço de união entre pessoas das mais diversas tendências e sensibilidades. E fazia isso com gosto, calor humano e uma certa grandeza natural que se coadunava em absoluto com a sua personalidade.

Trabalhei diariamente com ele no DN durante sete anos, entre 1997 e 2004, e guardo do Mário a melhor das recordações como director. Mantinha a porta do gabinete aberta, em comunicação permanente com a redacção, e nunca regateava uma palavra de incentivo e estímulo a todos no jornal, particularmente aos jornalistas mais jovens. Gabava-se - e com razão - de ter um raro instinto para descobrir talentos e percebia como poucos a importância da motivação nas empresas jornalísticas modernas embora jamais se esquecesse de recomendar aos recém-chegados que não basta a competência técnica: é igualmente necessária a qualidade humana.

Sentia natural orgulho por ter conduzido o DN a líder do mercado, no seu segmento de audiência, depois de anos de duro despique com o Público, o concorrente mais directo. Isso, porém, nunca o fez perder de vista o essencial: no cerne da actividade jornalística existe uma insubstituível missão social que não deve ser confundida com guerras de audiências destinadas a angariar uns quantos anúncios a qualquer preço ou a atrair uns tantos leitores através da manchete que berra em vez da manchete que informa e esclarece.

Há pouco, ao regressar do velório na igreja de São João de Deus, enquanto percorria a pé a avenida de Roma, ia pensando como o Mário sabia coleccionar amizades enquanto outros, nesta profissão por vezes tão ingrata, vão coleccionando inúteis rancores e incompreensíveis agravos. Pela vida fora encontramos dois géneros muito diferentes de pessoas: aquelas que gostam de se rodear de muros e as que preferem construir pontes em direcção aos outros. A natureza vital do Mário levava-o a construir essas pontes - nas mais diversas direcções e nas mais diversas circunstâncias. Casos como o dele vão sendo cada vez mais raros neste pequeno mundo cheio de desencontros que é o da "comunicação". Onde hoje afinal se comunica tão pouco e de forma tão deficiente. Onde a tendência imediata é ver adversários onde apenas deveria haver interlocutores.

Trabalhar com o Mário Bettencourt Resendes foi um privilégio. Não só pelas lições profissionais que dele recebemos mas também pelas lições de vida que soube transmitir-nos naqueles anos tão estimulantes para o jornalismo português. Há poucos meses, com a convicção que sempre punha nas grandes causas relacionadas com a profissão, deixou bem claro em entrevista ao i: "Quando um jornalista é confrontado com uma situação em que seja óbvio que o interesse público manda violar a lei, o jornalista deve fazê-lo."

Vai fazer-nos falta. Mas o exemplo dele fica.

 

LER:

Sobre o Mário. Do Pedro Rolo Duarte.

Uma pessoa de categoria. Do Duarte Calvão.

Mário. Do Luís Naves.

O Mário deixou-nos. Do João Severino.

Mário Bettencourt. Do Francisco José Viegas.

Mário Bettencourt Resendes. De José Pimentel Teixeira.

Mário Bettencourt Resendes - um longo abraço. De José Medeiros Ferreira.

 

Foto: Alexandre Almeida (jornal i)

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