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Petite histoire

por António Manuel Venda, em 31.05.17

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A apanha do fim da tarde, depois de subir a dez metros de altura (poderão os ramos das cerejeiras chegar aos dez metros de altura?). Cerejas e mais cerejas, e folhas e mais folhas. Recordo agora, a escrever, os lamentos dos piscos e dos melros ao darem por mim enchendo os cestos. E também os de umas quantas arvelas e, se não estou em erro, felosas. E os de um solitário papa-figos que na falta de figos maduros se empanturra de cerejas, e de croissants de chocolate se de manhã eu perco de vista a mesa da rua com o pequeno-almoço. O papa-figos francês doido por croissants e adepto do Saint Étienne… Vive bem no alto de um dos sobreiros maiores, a um esvoaçar apenas da rota do avião que liga o aeroporto de Faro ao de Orly, uma vez por outra com escala na Funcheira. Aos domingos o papa-figos costuma espreitar pelos vidros da janela da sala por causa da Sport TV e dos resumos do championnat. Cheguei a abrir a janela, mas ele nunca entrou. Por ser reservado, claro, e pareceu-me que por algum receio da minha colecção de pequenos caretos, principalmente do extraordinário careto de Podence, o meu preferido e também (não é para rimar) o mais aguerrido. Deve ver em cada careto um pequeno espantalho a raiar o tecnológico, típico produto da revolução digital com uma pitada de tradição, que aqui na serra dos dois dinossauros adormecidos, a de Monchique sobre os algarves, até fica bem. Podia continuar este relato horas a fio (o que serão horas a fio?). Convém, no entanto, não exagerar.

 

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Com a noite

por António Manuel Venda, em 09.03.17

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Estava a cair. Era o que sentia. De repente, como se o chão estivesse muito longe e não a suportar-lhe os pés. Como na verdade estava. Sim, sentia o chão muito longe, a quilómetros e quilómetros. E ele caía, para lá, para onde tinha os pés bem firmes. Quanto tempo demoraria a ir esborrachar-se precisamente no sítio onde estava? Não conseguia perceber. Achava até que não havia tempo para perceber fosse o que fosse. Caía tão depressa!... Era de noite. Tão, tão de noite!... Parecia-lhe. Só isso. Quase um palpite. Como se estivesse em condições de dar palpites… Quando seria o terrível embate com o chão que pisava? Daí a dois segundos? Não. Dois segundos desapareciam-lhe sem mais nem menos da vida. Resolveu pôr a coisa em dez minutos. Pensou um pouco… Dez minutos era um tempo razoável. Isso demorava a passar. Dez minutos a cair sem bater onde tinha os pés. Decidiu ficar com esses dez minutos. E foi-se habituando. Caía, mas tinha algum poder de decisão. Arriscou brincar um pouco. Duas horas… Qualquer entidade que estivesse a mandar naquela queda poderia não gostar da brincadeira. Ou poderia não ligar. Ter outras quedas com que se preocupar. De gente mais importante. A noite ainda ia curta. Nela cabia bem um período de duas horas. Até de mais horas. Bem mais. Umas cinco ou seis. Passou para sete. Depois veria. Quando chegasse o dia. Divertiu-se com a rima. Quase que conseguiu suspender um pouco a queda. Talvez até conseguisse. Se arranjasse forças. Ali na noite a caminho do chão onde estava com os pés bem firmes. Duas rochas. Os seus pés feitos duas rochas. Como se ele próprio os tivesse plantado. Duas árvores, então. Ficava melhor do que rochas. A noite era assim. Dava para jogar com as palavras. Mesmo em queda. Aquilo tinha alguma piada. Mesmo que no fim ficasse todo esborrachado. Um cão que passasse nem lhe aproveitaria os bocados. Nem uma gineta. Se calhar nem um bando de corvos. Nunca tinha visto corvos por ali. Só cães. E uma vez uma gineta. Linda, com uma cauda esplendorosa. Fuças meio esquisitas, mas a beleza da cauda compensava. Parecia o cabelo de um jogador do Paços de Ferreira, só que de outra cor e meio ao contrário. Àquela hora da noite, enquanto caía, lembrava-se dos animais que poderiam comer os seus restos e do cabelo estranho de um jogador do Paços de Ferreira. De um jogador não: de um futebolista. Convinha identificar a modalidade. Futebol, a sua preferida. Futebol de onze. Campeonato profissional. Tinha sido tão mau o último jogo. Um a um em casa, contra uma equipa um tudo nada melhor do que a do Paços de Ferreira. E ele estava lá. Como diria um amigo de todas as horas, até das más: ele estava lá no seu lugar de sofredor. A maneira como via o jogo era tão mais inteligente do que a maneira como o treinador parecia ver. Quanto ao presidente, não se pronunciava. Era deixá-lo andar às voltas e mais nada. As coisas haveriam de melhorar. Não podia ser tudo uma cambada (vá lá, um grupinho) de estúpidos e só ele ver o que havia para fazer. Na sua equipa. Muito superior, claro, à do Paços de Ferreira. De repente pareceu-lhe cair mais depressa. Talvez o peso da desilusão do empate. Ou a incapacidade do treinador. Ou na volta do presidente. Bom, em relação a este não queria pronunciar-se. Retirou a frase com «na volta». Podia retirar. Ele próprio, só ele é que decidia. Em determinados assuntos. Decidiu nesse momento não cair. Continuava a noite. Um frio de rachar. Pensou um pouco… Mudou «de rachar» para «do caraças». Um frio do caraças o daquela noite. Fez força nos pés, puxou-os do chão. Primeiro o direito. Depois o esquerdo. Sentia que começava a andar. O chão ali a pouco mais de um metro e oitenta dos seus olhos. Podia até, se quisesse, apressar o passo. Sentiu um odor estranho no ar. Odor? Não. Um aroma. Achou melhor mudar para aroma. Um inexplicável aroma que decidiu classificar como de felicidade. Tinha a noite escura por companhia. Por companheira, aliás. Decidiu, com ela, pôr-se mesmo a caminho.

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A Lena do bibe encarnado

por Marta Spínola, em 04.01.17

No João de Deus, onde andei dos 3 aos 10 anos (para sempre na minha cabeça, ou "pela vida fora João de Deus"), a referência para anos diferentes é a cor do bibe. Quem lá andou ou anda, orienta-se assim -"estávamos no bibe castanho", "em que bibe andas?", "Qual é o teu bibe este ano?", é uma coisa que nos fica, lá  está, pela vida fora. 

A Lena do bibe encarnado era uma das educadoras da altura em que eu estava no dito bibe (o dos 4 anos). Não era a minha, mas acompanhava os almoços, ficava connosco em alguns recreios, e por isso havia contacto. 

Eu tinha medo da Lena. A memória que tenho é de uma senhora um pouco ríspida, apesar de me lembrar de a ver sorrir - um sorriso de lado, só com um canto da boca -, de poucas palavras connosco. Tive um episódio com ela que me ficou sempre: uma vez, ao almoço, pus de parte o bocadinho mais apetitoso do peixe (quem nunca?) para ser o último. Aquele estava mesmo bom para ser o último a saborear. A Lena, que estava na supervisão dos almoços, apareceu por trás de mim, pegou no meu garfo, e misturou o peixe todo, enquanto dizia "o peixinho é para comer todo!". E eu chocadissima, mas em silêncio, que nem me atrevia a responder a adultos, muito menos aos que me metiam medo. Lembro-me que o meu pensamento imediato foi: "Nãoooooo! Eu não sou aqueles meninos que não gostam de peixe!".  E não era. 

A Lena tinha um dom: contava histórias como ninguém. Naqueles intervalos em que não podíamos ir brincar para o jardim, e ficávamos no salão, contava-nos histórias. Era uma narradora nata, tinha o tom certo, a entoação perfeita, fazia cada personagem sem grandes teatros mas de uma forma que eu, ainda sem saber ler, os vivia como os dos livros que li mais tarde. Contava-nos histórias, e eu ficava presa em cada palavra até ao fim.

Ouvi "A guardadora de patos", "A princesa e o sal", entre outras, muitas vezes. A que me marcou mais, tanto que nem a versão Disney a suplantou, foi "A Bela e o monstro". A Lena contava-a tão bem, que eu via a fera (não sei se ela não lhe chamaria fera) nas suas torres, serpenteando e perdendo a pele no fim da história. Ontem vi uma rosa numa cúpula de vidro, anunciando a nova versão de "A Bela e o monstro", e mais uma vez me lembrei da Lena e os recreios em dias de chuva, a ouvir histórias.  

Nos bibes que se seguiram, gostava sempre de tudo, mas tinha pena de já não fazer parte daqueles intervalos de histórias de encantar - ficaram sempre no bibe encarnado. Era encantada que eu ficava, juro.

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Bem acima dos relâmpagos

por António Manuel Venda, em 14.10.14

Aproximou-se da sua terra, já na estrada de uma das montanhas altas, e abrandou a marcha do carro ainda mais do que aquilo a que os quatro dias quase sem dormir o obrigavam. Uma noite de tempestade a tocar as 21 horas. Centenas de quilómetros nas pernas, no acelerador, no travão e na embraiagem. Milhares de palavras ditas e centenas de palavrões reprimidos. Duas mãos mágicas (no mau sentido) dentro do crânio a apertarem-lhe o cérebro. E um monstro que no pensamento recorrentemente o atormentava.

Ele tinha isso tudo e muito mais. Tinha com que se preocupar. Até com o tremor do corpo causado pelo sono, pelas mãos mágicas e pelo monstro. Mas contemplava os relâmpagos acendidos nas nuvens negras que pairavam sobre as luzes da cidade lá ao fundo, junto ao mar. Era bom, dali onde o céu estava com estrelas, ver o fogo dos relâmpagos, tentar adivinhar onde apareceria o próximo, e depois pensar na ilusão de óptica, uma maravilha incompreensível para ele, a ilusão de que estava mais acima dos que os próprios relâmpagos que ameaçavam incendiar a cidade.

Às tantas já nem levava o carro a quarenta à hora. O motor parecia estar para morrer, ou para dormir como ele próprio estava. Por isso foi fácil travar. Dois veados bem à frente na estrada, a fugirem das luzes do carro, ao contrário do que fazem as lebres, que sempre as procuram como se essas luzes fossem as luzes da ribalta das lebres. Ele tinha ouvido falar dos veados na serra, já os tinha visto inclusive, mas nunca assim a testarem a aderência do alcatrão. E imaginava que eram muitos, com tanta floresta, com a abundância de água da nova barragem e sem o incómodo dos leões e dos tigres das áfricas. Ali estavam dois, ligeiros a treparem a ribanceira que levava a um eucaliptal. Pensou num casal, já depois de terem desaparecido. Tinha acabado de jogar a selecção em Paris. Na volta os veados regressavam de algum sítio onde tivessem conseguido ouvir o relato, ou mesmo de onde tivesse sido possível assistir à transmissão televisiva.

Ao longe continuavam os relâmpagos. Sem o som da trovoada, por causa da distância ou dos comentários gritados que chegavam de Paris no rádio do carro. Ele continuava a marcha, lenta – pelo cansaço, pela visão do fogo sobre a cidade junto ao mar e pelos cuidados com os veados que podiam aparecer de repente, embora com elegância, sem as corridas todas trangalhadanças dos javalis. Pensou nessa elegância dos veados e lembrou-se de um jogador da selecção que corria com a bola muito controlado e sempre de cabeça levantada, ao contrário de outros que corriam parecendo a qualquer momento ir afocinhar, de tanto meterem os cornos no chão. Infelizmente esse jogador já não estava em actividade, de contrário talvez a selecção pudesse ter ganho em Paris e agora os comentadores não gritassem tanto. Talvez desse para ouvir os relâmpagos mesmo àquela distância da cidade que dali das montanhas parecia fácil de dominar.

Havia uma zona, mais à frente, onde costumava parar. Aí a estrada atravessava propriedades da família e ele gostava de olhar mesmo que fosse na escuridão da noite para os tempos que já tinha perdido da infância. Tantos deles passados ali. Parou e saiu do carro. Mesmo a tremer. Mesmo quase a dormir. Mesmo com a gritaria de Paris. Afastou-se um pouco do carro para olhar bem o fundo do vale onde costumava brincar. Tão escuro agora. Teve de imaginar o vale. E depois, já perdido na imaginação, viu que se aproximavam quatro luzes. Ficou confuso. A sua imaginação não tinha como bem pouco tempo antes a capacidade de fazer aparecerem luzes. Nem outras capacidades. Estava a perder tanta coisa… Até que percebeu. Logo. Nem um minuto depois. Essa parte não era imaginada. Enquanto se via uma criança a brincar no fundo do vale, com a avó a chamá-lo para o almoço, ao mesmo tempo aproximavam-se dois veados. Também ali na propriedade da família. Pareceu-lhe uma fêmea com uma cria. Pela diferença de tamanho e pelo cuidado do maior com o pequenino. Foi junto ao carro que se assustaram. Ele pensou nos comentadores de Paris. Na gritaria em que insistiam por causa da derrota da selecção. Na puta que os pariu (ou nas putas). Pensou nisso e até disse mesmo «puta que os pariu». Com exclamação e não seguindo o acordo ortográfico.

Como se escreveria «puta que os pariu» seguindo o acordo de 1990? Na volta era o mesmo. Ou então algo verdadeiramente capaz de surpreender. «Puta que pariu o acordo», pensou, até sem pontuação. Já não imaginava nada, nem a criança que ele tinha sido a brincar no fundo do vale iluminado pelo sol, livre da escuridão que agora o engolia. Os dois veados tinham desaparecido para uma zona de montado. Ele sorriu, com a ideia de ter veados na propriedade da família. Um sorriso a tremer, obviamente. Um sorriso que ele conseguia fazer mesmo tendo o cérebro espremido e apanhando com os tormentos do monstro. Voltou a entrar no carro, desligou o rádio e preparou-se para os últimos quilómetros do percurso. Não sabia se em breve iria morrer ou não. Como toda a gente.

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Um jogo difícil

por António Manuel Venda, em 20.07.14

 

Um espanto regressar aos jogos de futebol do meu filho mais velho, desta vez nos torneios de Verão, à noite. Ao ver as fotos que tirei com o telemóvel (esta é uma delas), dou com ele sempre a empurrar a equipa para a frente, num jogo que me parece dos mais difíceis, pois os adversários (de camisola laranja) surgem por todos os lados do campo, sempre difusos, como se fossem fantasmas. Lembro-me de que perguntei o resultado à chegada e a equipa do meu filho já estava a perder por três a zero. Aqueles fantasmas, ou extraterrestre, pareciam mesmo terríveis. Apareciam e desapareciam. Transformavam-se. Confundiam a equipa do meu filho. Lembro-me de o ver tranquilo, mesmo assim. Chamei-o quando ele se aproximou e ele olhou-me, e fez-me um gesto de adeus muito rápido. Um erro quase fatal. Surgia nesse momento, nem imagino de onde, um adversário em posição de marcar, e o meu filho só teve tempo de atirar com ele ao chão. Pensei que o fantasma, ou extraterrestre, se iria desmaterializar completamente. Mas não. Ele apenas se levantou para marcar o livre, e estranhamente nessa altura pareceu-me humano, tão humano que até atirou a bola por cima da baliza. Foi como que um momento de viragem. A equipa do meu filho acabou por marcar um golo, inimaginável contra adversários de tantos poderes. E logo a seguir outro. E depois o golo do empate. Três a três. Os fantasmas, se de facto o fossem, pareciam de repente pouco à vontade neste mundo. Os extraterrestres, se em vez de fantasmas fossem isso, pareciam com dificuldades por estarem num planeta chamado Terra e ainda por cima a jogarem, a desaparecerem e a reaparecerem num campo de terra batida. Talvez num relvado não se deixassem empatar. Eu ganhei confiança. A equipa do meu filho ganhou confiança. Mas os adversários também pareceram ganhar confiança. Uma força superior que os comandava, por certo. E eles passaram a desaparecer e a reaparecer ainda de uma forma mais frenética. Voltaram a marcar. E a equipa do meu filho também. Um jogo louco na parte final. Lembro-me de um momento, quase a acabar, em que o resultado passou para seis a quatro. A equipa do meu filho perdia. Ele tinha a bola nos pés, passou o meio campo pela esquerda, mudou um pouco para a zona central e rematou. Um golo de longe, com a bola a levar uma força tal que nem o guarda-redes precisou de desaparecer para ela entrar. Creio que lhe passou através do corpo e só a rede foi capaz de segurá-la. Seis a cinco. Já não havia tempo. Mas contra aqueles fantasmas, ou extraterrestres, de camisola laranja desmaterializada (talvez uma versão moderna da cor de burro a fugir, que fica sempre um bocado difusa), até não era mau de todo. A equipa do meu filho tinha dado uma luta tremenda. Eu olhava para o árbitro, para ver quando ele apitava. Mas nada. O homem não apitava. Parecia esperar pelo empate. Concentrei-me no meu filho, que tinha acabado de receber a bola do seu guarda-redes. Vi-o avançar de novo pela esquerda, passando a certa altura - pareceu-me - inclusive pela desmaterialização de um defesa adversário, e já perto da baliza, sem hipóteses de rematar, fez a bola chegar a um colega que ostentava o pomposo nome do primeiro rei de Portugal. Já tinha marcado três golos. O rei, se pudesse ver, não se sentiria envergonhado. O jogo ia acabar e eu vi o empate. Quando o colega do meu filho rematou eu tive a certeza disso. Mas o guarda-redes (fantasma?, extraterrestre?), não consegui perceber por quê, não se desmaterializou. E defendeu com a cabeça, naquele instante uma cabeça humana, capaz de suster a bola antes que ela fosse bater na rede. E o árbitro apitou com os seis a cinco. Os fantasmas correram felizes pelo campo. Ou seriam extraterrestres? Agora quase não dava para vê-los. Alguma coisa seriam. E a equipa do meu filho esteve a uma cabeça por desmaterializar de conseguir empatar com eles. Quando eu estava de regresso a casa, já fora da cidade, pelo meio da estrada dos sobreiros, vi uma estranha luz a atravessar vagarosamente a noite nos céus. Uma coisa grande. Era isso a luz. Um enorme volume iluminado. Pensei logo que era a equipa adversária da do meu filho a ir também para casa, fosse lá a casa onde fosse, noutro mundo, noutro planeta, numa estrela, sei lá... Sei lá o que pensei. Fiquei apenas a ver. Aquele volume iluminado. Uma luz. Tão lenta. E de repente a ganhar uma velocidade vertiginosa. Até se desmaterializar com um barulho que achei bonito, eu sozinho na noite na estrada dos sobreiros. Um barulho que me fez lembrar o piar de um mocho. Mais nada.

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Microconto multiplicativo

por António Manuel Venda, em 06.07.13

Ao mesmo tempo resolveram atribuir mais responsabilidades ao tipo dos pontos finais, o tal que quando falava metia um ponto final a cada três ou quatro palavras e que por isso conseguia sem grande dificuldade fazer em qualquer altura o milagre da multiplicação das frases. Por exemplo, se fosse preciso informar a comunidade de que lá na segurança social apreciavam os carros de alta cilindrada, para não ficarem atrás do Zorrinho, falava assim: «Nós aqui na segurança. Social apreciamos os. Carros de alta cilindrada. Para não ficarmos. Atrás do Zorrinho.»

Ainda tinham chegado a tentar aliciá-lo para adjunto das finanças, por causa daquilo da multiplicação, depois de alguém ter dito (entre dois suópes) que ele se multiplicava frases talvez também soubesse multiplicar dinheiro. Uma voz feminina, que se apressou a acrescentar que inclusive a respeito de carro de alta cilindrada não haveria problema. Mas o tipo dos pontos finais disse que não sabia multiplicar dinheiro. Desbaratar ainda vá que não vá… («Não sei multiplicar. Dinheiro desbaratar ainda. Vá que não vá.»)

 

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Microconto com pastéis de nata

por António Manuel Venda, em 06.07.13

Claro que se começou logo a falar de o tipo dos pastéis de nata ir com os porcos. «Ele vai com os porcos! Ele vai com os porcos!» Só se ouvia dizer isto. Até que a certa altura chegou alguém, provavelmente de Marte, que perguntou: «Mas ele quem?» Teve logo resposta: «Ora quem?! O pastel de nata, perdão, o tipo dos pastéis de nata? É ele que vai com os porcos!»

Por coincidência, nessa altura chegou o tipo dos pastéis de nata. Fez-se logo silêncio. Um silêncio, como se diz na política, ensurdecedor. «Talvez ele não tenha entrado a tempo de perceber», acabou por segredar uma senhora, a meio de um suópe, a um colega que era bastante conhecido por cuspir gafanhotos. O homem dos gafanhotos ameaçou um sorriso, mas em menos de nada recuou. O tipo dos pastéis de nata tinha tomado conta do púlpito instalado à pressa para a declaração do chefe. Do púlpito e, é claro, do microfone. «Não, eu não vou com os porcos!!!», gritou. «Eu vou é ficar livre dos porcos!!!» E desapareceu para nunca mais ninguém o ver.

 

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Microconto em diálogo

por António Manuel Venda, em 05.07.13

– A tipa dos suópes nem pensar!

– Mas ela faz os melhores suópes de Lisboa!...

– Nem que fizesse os melhores suópes do mundo!

– Isso já seria pedir demais, senhor doutor.

– Ouça!... Você tem alguma coisa contra o vesgo?

– Nada.

– Então ponha o vesgo!

 

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Microconto

por António Manuel Venda, em 01.07.13

Fazia, pelo que se falava à boca pequena, os melhores suópes de Lisboa. No palácio, quando foi preciso escolher alguém, lembraram-se logo dela.

 

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A tal história de reis

por Marta Spínola, em 19.03.13

A propósito deste post do Pedro, lembrei-me de um episódio a que assisti numa aula na universidade. 

O meu curso, ainda que por acabar, é História. Tenho para mim que se há coisa simples em História é perceber que se um Afonso é II ou III é porque antes dele houve um ou dois. E sempre achei que não era preciso explicar isto a uma criança. Mal sabia eu...

 

Estava no quarto ano, numa aula do terceiro porque tinha de fazer ainda História Moderna Geral desse ano. Era a aula das 8 da manhã, aquela não era a minha turma, tudo me aborrecia, e eu sentava-me logo na primeira fila para tirar apontamentos e nem me distrair. 

O professor falava nessa manhã sobre a sucessão de Carlos VIII, "que não tendo descendência masculina directa, foi então sucedido pelo primo Luis XII". Apontamento tiradinho, pronta para continuar.

Alice não, a Alice quis saber, quis indagar, estranhou e avançou: "Pode repetir?" e o professor, paciente, simpático, repetiu: "como Carlos VIII não tinha descendência masculina directa, quem lhe sucedeu foi primo, Luis XII, o parente mais próximo". Mas a estranheza da Alice estava noutra questão, e não  hesitou, juro que ainda a vejo encostar a caneta ao lábio antes de atirar: "Mas isso não faz muito sentido, pois não? Devia ser Luis IX." (a numeração romana é minha, ela pensou em "9º", tenho essa convicção). 

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Calvin Coolidge e as galinhas

por Pedro Correia, em 21.10.12

 

Há muitas histórias – reais ou apócrifas – relacionadas com ex-presidentes dos Estados Unidos. A minha preferida tem a ver com aquele que foi um dos mais obscuros e porventura menos competentes inquilinos da Casa Branca ao longo de todo o século XX: o republicano Calvin Coolidge, que ocupou a presidência entre 1923 e 1929.

 

Ia certa vez Coolidge em visita a umas propriedades rurais, acompanhado da mulher, Grace, quando ao passarem por um galinheiro a senhora Coolidge perguntou ao proprietário quantas vezes o vistoso galo que ali se encontrava praticava sexo com as galinhas. “Dezenas de vezes, minha senhora”, respondeu-lhe o sujeito, porventura algo embaraçado com aquela súbita curiosidade feminina. “Faça o favor de informar o meu marido”, retorquiu-lhe a primeira dama.

 

Coolidge não se ficou. Tinha também uma pergunta destinada ao agricultor: “E o galo faz sempre isso com a mesma galinha?” Resposta imediata do sujeito: “Oh, não. Ele escolhe sempre uma galinha diferente.” Coolidge rematou então: “Faça o favor de informar a minha mulher.”

 

Ignoro se isto alguma vez aconteceu, mas passou à posteridade como se tivesse acontecido, o que para o caso vem a dar no mesmo. Como dizia aquela personagem do filme de John Ford, “quando a lenda se torna facto, imprime-se a lenda.”

 

Imagem: Calvin e Grace Coolidge numa varanda da Casa Branca

 

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Perguntas de Algibeira, #1

por Ana Cláudia Vicente, em 15.10.12

 [Filipe Duarte e Maria João Bastos, adaptação televisiva de Equador, 2008]

 

O que é que possui alguns profissionais da escrita portugueses que os leva a conceber recorrentemente personagens femininas como, por exemplo, Ann Jameson (vide Equador, Miguel Sousa Tavares) ou Clarissa Warren (vide Linhas de Wellington, Carlos Saboga)? De onde vêm estas jovens, sempre britânicas e de boas famílias, que em pleno séc. XIX se dão bíblica e alegremente a protagonistas nacionais, entre vários outros personagens (para desgosto dos anteriores), como se estivessem a passar o Verão de 1982 na Praia da Rocha? 

 

 [Marcello Urgeghe e Victória Guerra, Linhas de Wellington, 2012]

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O contador de histórias

por António Manuel Venda, em 22.08.12
 
Na foto (que acompanha a respectiva biografia), o homem que deu origem a uma personagem que entra em três livros meus: o contador de histórias Raposo do Besteiro. Costumava encontrá-lo em miúdo, pelas ruas de Monchique, no Algarve. Joaquim Inês, tido como a única pessoa da minha terra a participar na batalha de Little Bighorn, ao lado do famoso general Custer, quase um século antes do dia do seu nascimento.
(clicando na imagem dá para ler a biografia)

 

 

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Maradona esteve brilhante

por António Manuel Venda, em 13.08.12

 

Chamemos-lhe, por exemplo, Gabriel García Márquez. Ou antes, chamemos-lhe Diego Armando Maradona, que provavelmente ainda é mais conhecido do que o escritor colombiano. É uma das personagens desta história, que aconteceu há alguns anos, em Portugal, durante o primeiro aniversário de uma livraria. Maradona – talvez devesse chamar-lhe García Márquez, já nem sei – estava convidado.

Foi no primeiro aniversário de uma livraria, durante um leilão de livros em que eu próprio dei ajuda. Fiz sugestões para a preparação do programa e também forneci alguns contactos, além, obviamente, de carregar umas boas caixas de livros. Um dia, na preparação da festa, tinha surgido a ideia de fazer o leilão. A ideia foi-se desenvolvendo e então tomou-se a decisão de o leilão ser de livros de viagens, com os próprios autores dos livros escolhidos a marcarem presença. Tudo iria acontecer no largo da câmara, junto à entrada da livraria, e esperava-se que acorressem umas centenas de pessoas.

Muitos dos escritores convidados aceitaram, e entre eles havia gente conhecida, como José Eduardo Agualusa, Miguel Sousa Tavares, Clara Pinto Correia, Robyn Davidson, José Megre, Manuel João Ramos, Miguelanxo Prado ou José Manuel Fajardo. Cada um teria um livro para ser leiloado, depois de dizer algumas palavras, como complemento do texto ou da ilustração que pelo próprio punho teria colocado numa das páginas em branco.

Claro que para fazer o leilão tinha de ser convidada uma pessoa importante, conhecida no meio, digamos assim, literário. Foi então que surgiu a ideia de convidar o tal Gabriel García Márquez de cá, ou antes, o tal Diego Armando Maradona, ou Mário Vargas Llosa, ou Eusébio da Silva Ferreira, enfim, o que se queira. Talvez Maradona seja o melhor. E foi mesmo convidado. As pessoas da livraria achavam que ele não ia aceitar, mas a verdade é que aceitou. Cá o nosso Maradona aceitou.

Bom, lá chegou o dia do aniversário, com várias iniciativas, até que ao fim da tarde ia começar o leilão. Os escritores que tinha confirmado a presença estavam todos, e tinham devolvido os livros com o texto, o desenho e o autógrafo. Os que só se tinham comprometido a devolver o livro também tinham cumprido. O largo da câmara estava cheio, confirmava-se mesmo a presença de centenas de pessoas. Eu tinha carregado muitas caixas de livros. Tudo corria bem, tirando o caso de Diego Armando Maradona. Não estava presente. Nem ia estar, apesar de ter o nome no programa, confirmado e reconfirmado. Tinha telefonado a dizer que um problema de última hora o impedia.

E então, para fazer o leilão, de repente as pessoas da livraria lembraram-se de mim. Foi desta forma que eu me vi no meio dos escritores, com um pequeno martelo para assinalar cada arrematação. Lembro-me de que havia um Benfica – Porto ao mesmo tempo e que dava na televisão. Se fosse o Sporting a jogar seria uma catástrofe, pensei, mas assim… Curiosamente, o jogo não tinha desmobilizado a assistência. Ainda pensei que poderiam ter vindo pelo Maradona, e depois pensei que ele próprio, o nosso Maradona, era capaz de estar ausente por causa do jogo. Daquele ou de outro qualquer.

Acho que fui escolhido por também ser escritor, embora os convidados fossem dos conhecidos e eu não. Lá me apresentaram, a dizer que era o substituto do leiloeiro Diego Armando Maradona, que também tinha publicado livros e essas coisas. Aí notei que pouca gente da assistência se importou, o que me levou a pensar que estavam mesmo interessados nos autores e nos livros a leilão. Confirmei-o depois, com os valores obtidos em cada martelada.

Lembro-me de que guardei os apontamentos que ia tomando, por isso posso ainda confirmar os valores. Estávamos nos últimos tempos do escudo. O livro de José Eduardo Agualusa, «Um Estranho em Goa», por exemplo, com o preço base de três mil e quinhentos escudos, foi vendido por vinte mil. O de José Manuel Fajardo, «Terra Prometida», que partiu de quatro mil e quinhentos, chegou aos vinte e um mil, o de José Megre, «Trinta Anos de Viagens», com uma base de sete mil e quinhentos escudos, atingiu vinte e cinco mil. Miguel Sousa Tavares (as crónicas de «Sul») ficou-se pelos dez mil, mas Manuel João Ramos («Histórias Etíopes») chegou aos doze e Miguelanxo Prado («Carta de Lisboa») aos quinze. Robyn Davidson («Lugares Desertos») chegou a dez mil e quinhentos escudos e Clara Pinto Correia atingiu os sete mil («The Big Easy»). Pelo meio, ainda foi leiloado um CD com músicas de Lula Pena, uma cantora portuguesa na altura radicada no Luxemburgo, que ia actuar a seguir. Ela não conseguiu conter o espanto quando viu o CD chegar a dezasseis mil e quinhentos escudos. E também foi leiloada uma foto do fotógrafo Vasco Cunha Monteiro, integrada numa exposição sobre uma viagem à Patagónia que estava patente na livraria (e o que é certo é que a foto chegou aos cinquenta e dois mil escudos).

Tudo isto, principalmente para quem anda pelo mundo dos livros, parece muito dinheiro. Ainda por cima tratando-se de autores vivos e parte deles presentes no leilão e a fazerem intervenções. Foi uma surpresa para mim. E também para os autores participantes. José Eduardo Agualusa, antes de regressar ao hotel onde devia descansar um pouco para depois apanhar o avião de regresso a Berlim, onde então estava a viver, veio ter comigo e disse-me: «Pá, tu és mesmo bom!» Por momentos pensei que ele tinha algum dos meus livros e que se calhar andava com ideias de cravar-me um autógrafo, mas logo percebi o que ele queria dizer, ao ouvi-lo falar de novo: «Pá, tu vendeste um livro meu por vinte contos, um livro que nem chega aos três nas livrarias! Tu és mesmo bom!»

Ou seja, o leilão foi um sucesso. As pessoas quiseram falar com os escritores, e eu, com quem ninguém parecia querer falar, afastei-me da mesa e fui ver se era preciso ajudar nalguma coisa, talvez carregar umas caixas de livros se as pessoas já tivessem esgotado os das mesas onde iam fazendo as vendas – de livros, de comidas e de bebidas.

Passados uns dias, saiu no jornal da terra um trabalho sobre a festa. O leilão era o grande destaque. Fui logo ler o texto. Falava-se do projecto da livraria, mas sobretudo dos escritores, dos livros a leilão e dos valores atingidos (trocando alguns em relação ao que eu tinha colocado nos meus apontamentos). A meio da leitura, tive a esperança de que falassem de mim, que tinha sido apresentado para fazer o leilão em vez do grande Maradona. Mas nada. Fui avançando no texto, e nada, mesmo nada. Só a livraria, os livros, os escritores, e até a enorme assistência que tinha enchido o largo da câmara. Tentei colocar-me no meu lugar, pensando até que se falassem de mim como leiloeiro também poderiam dizer das minhas andanças a carregar caixas de livros. E também a dar uma ajuda na zona das mesas de venda de livros, de comidas e de bebidas. Ou seja, eu não tinha que estar a pensar aquelas coisas. Por isso avancei no texto. Mais pormenores dos escritores presentes, com alguma insistência em José Eduardo Agualusa e José Manuel Fajardo. Bem merecida, pelo menos era o que eu pensava. Gostava muito dos livros deles, e inclusive no leilão tinha falado um pouco de cada livro – «Um Estranho em Goa», que tinha lido num Verão, no Algarve, na praia, e a viagem escrita pelo espanhol, que tinha acabado uns tempos antes, depois de ter lido outro livro dele, pequenino, chamado «Carta do Fim do Mundo». De outros escritores no leilão eu também conhecia os livros, e por isso tinha falado deles, e nos casos em que não conhecia por aí além tinha-me refugiado em considerações mais genéricas, inclusive sobre o respectivo autor.

Eu pensava nisto a ler o texto do jornal, aproximava-me do fim e já me tinha esquecido do desejo de ver lá o meu nome a dizer que tinha sido o leiloeiro, ou se quisesse uma linguagem mais elaborada a dizer que tinha tido a meu cargo o leilão dos livros. Mas nada.

Até que a duas linhas do fim, de repente, um parágrafo acabava. E depois, a abrir o último, pequenino, dei com uma frase que me captou ainda mais a atenção. Comecei a ler devagar, tentando apanhar bem cada palavra: «Conduziu – o – leilão – de – forma – brilhante…» Por momentos pensei que mais do que aqueles escritores famosos, uns pelo facto de serem escritores, outros pelo facto de serem famosos de outras coisas e também terem escrito livros, por momentos pensei que no meio deles eu ia ser o grande destaque. Pensei que ia receber, talvez, o maior elogio da festa do primeiro aniversário da livraria. Em vez de avançar até ao fim da frase, decidi recuar, para lê-la toda de seguida, sem pausas. Voltei ao início do pequeno parágrafo e li: «Conduziu o leilão, de forma brilhante…» Já ia lançado a dizer o meu nome, mas não. No jornal o que escreviam era que quem tinha conduzido o leilão de forma brilhante tinha sido, já se vê, Diego Armando Maradona. O nosso Maradona. Como aliás vinha no programa.

 

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Convite

por António Manuel Venda, em 20.07.12

Disse-me que tinha sido convidado para secretário de Estado e inclusive o nome da pasta. Disse-me também que recusou, e eu nem lhe perguntei por quê. Perguntei apenas quem tinha feito o convite, para ver se sacava o nome do novo ministro. Não me quis dizer. De qualquer maneira adiantou-me que o convite não tinha sido do tipo que vai ser o novo ministro, mas de outro. Quanto ao ministro que já tem um par de patins postos, disse-me que vai bem de vida, que não precisa de se preocupar, porque o lugar que lhe arranjaram é bom.

Somos amigos há uns anos, eu e a pessoa que me disse que ainda por estes dias recusou o convite para secretário de Estado. Quando me vem com histórias como esta do convite, costumo dizer-lhe: «Vives num país muito estranho!» Desta vez também lhe disse isso. E ele, como habitualmente, respondeu: «Deixa estar que o teu não fica atrás!»

 

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baixinho

por Patrícia Reis, em 07.04.12

Tudo pode ser dito baixinho. Se pensares bem até os gestos têm um som e este pode ser baixinho.

 

A mãe nunca aprovara, mas agora pouco importa, nunca foi capaz de fazer nada baixinho, de dizer ou pensar e não seria, decerto, agora que iria começar nessa árdua tarefa de não perturbar o mundo, de ser como os demais.

 

As pessoas.

 

Dizia a mãe. E ela que sim. A mala da escola cheia de cadernos com poemas, frases.

 

Olha como andas vestida.

 

E ela a experimentar vestidos leves, soltos, de verão, com cor, a ser outra pessoa. A mãe a dizer que o irmão podia, ela era rapariga, era diferente.

 

Baixinho.

 

Não. Ela nunca fizera nada do que lhe tinham dito e isso, era agora óbvio, baralhava e perturbava a paz comum. Ou talvez não. Agora a família dependia dela e, não querendo reduzir nada, nem tirar o som a qualquer palavra, a mulher limitou-se a aceitar a tarefa sem deixar de dizer exactamente o que pensava sobre o assunto, qualquer assunto. Mesmo que as pessoas. Ou que fosse mal visto. Mesmo não sendo homem. Vestindo todos os vestidos que bem entende. De preferência sem soutien. E a mãe a dizer

 

Não tens nenhum soutien lavado? Parece impossível.

 

Ou outro disparate qualquer já que "parece impossível" sempre lhe soou mal.

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Um guru, duas tascas genuínas

por António Manuel Venda, em 11.10.11

 

Uma vez convidei um guru para uma conferência em Lisboa. Nem interessa aqui o tema genérico, basta apenas referir que na parte dele falou sobre o mundo digital. Lembro-me de que aquilo que ele tentou transmitir à assistência, ainda que se calhar isso fosse pedir-lhe demais, foi uma «perspectiva do futuro»; futuro que se calhar, na altura, era aquele que agora vivemos. Convenhamos que é algo que parece difícil, alguém dar uma perspectiva do futuro, principalmente quando não se trata de um bruxo, de um astrólogo ou até, com um bocadinho de sorte, de um analista político. Mas o guru lá se desenrascou, inclusive deixando algumas das pessoas que tinham acabado de ouvi-lo completamente deslumbradas. Pareceu-me que ele conseguiu mesmo dar a tal «perspectiva do futuro», principalmente porque ao longo de uma hora, para a tarefa do mostrar o futuro, socorreu-se sempre quer dos grandes ensinamentos do passado, quer das angústias quotidianas do ser humano. E é bem sabido que o futuro não é mais do que o reflexo daquilo que aconteceu no mundo e, também, do que está a acontecer em cada momento.

Terá sido por tomar como ponto de partida o passado, e talvez pelas reflexões sobre o presente, que o guru, a certa altura, falou da tasca portuguesa, da genuína tasca portuguesa. E o exemplo que deu foi o de uma onde se servia caracóis, não querendo com isso dizer que fosse sinal de genuinidade servir caracóis. Ajudaria, mas o importante, mesmo o mais importante, era um letreiro na porta a dizer «á caracóis»; «á sem h», obviamente, porque se não fosse assim já não seria uma tasca genuína, pelo menos na opinião do guru. Eu ouvi-o dizer isto e apeteceu-me interrompê-lo, mas contive-me. Deixei para o final, para quando pudéssemos falar um pouco. E assim foi. Mais tarde, terminada a intervenção, disse-lhe que tudo bem, que o «á sem h» podia ser um sinal de genuinidade, mas que na minha terra, em Monchique, no Algarve serrano, havia uma tasca que eu considerava bem genuína e que tinha «há com h», um «há» correctamente escrito.

- Ó meu amigo! - admirou-se o guru. - Isso não pode ser!

- Pode, então não há-de poder! - disse eu.

E nem precisei de acrescentar que a genuinidade, na tasca que eu conhecia, chegava ao ponto de quando alguém cuspia para o chão aparecer logo a dona com um balde de serradura para tapar o cuspo. E isto quando o caso não metia algum escarro...

- A verdadeira tasca portuguesa é aquela do «á caracóis», sem h, - insistiu o guru.

- ...

Bem, o que é certo é que não consegui convencê-lo, nem mesmo quando lhe disse que na Serra de Monchique as coisas eram – são – um bocado diferentes daquilo a que ele por certo estava habituado. Na Serra de Monchique havia sempre algo mais. Até nas tascas, incluindo as que não eram genuínas. Quanto mais naquela, que na minha opinião representava o máximo da genuinidade.

- Então diga lá, meu amigo, porque é que essa tal tasca que tem «há com h» é genuína.

Eu, é claro, disse. Mais ou menos assim:

– Pois essa tasca, que até nem tenho a certeza de que sirva caracóis, mas é bem provável que sirva, e moelas, e passarinhos fritos, e pão com presunto, e chouriço assado, além do vinho e da aguardente, e das inevitáveis cervejas que já não são propriamente uma marca de genuinidade, essa tasca, tem um letreiro à porta onde está escrito «há pitroil». Há com h.

Disse, claro que disse, mas apesar dos meus esforços não consegui convencer o guru da genuinidade da tasca do balde da serradura. Nem a ele, nem a uma pessoa que acabou por apanhar a conversa a meio. Essa pessoa até me disse que aquilo do «pitroil» não era por causa de estar escrito como se calhar a dona da tasca dizia, mas antes por causa da palavra inglesa «oil», que o mais certo era estar escrita no depósito do camião que fazia a entrega do petróleo.

Enfim, desisti. E confesso que pensei em não me meter noutra discussão do género. Inclusive, já tive ocasião de me pôr à prova, quando em conversa com umas pessoas assim a tocar o intelectual intensivo se começou a falar de expressões de uso corrente em diversas terras, principalmente do norte de Portugal. Ora, eu estava tão escaldado com aquilo das tascas que o mais que conseguia fazer era dizer «ah», ou «muito bem», a cada expressão das mais esquisitas que os meus interlocutores atiravam para a mesa. Podia ter tentado brilhar com o «calitro», expressão tão popular da zona de Monchique, o eucalipto, ou com outras coisas do género. Mas não me atrevi. Ainda precisava de deixar passar um tempo, depois daquilo da conversa com o guru. Nem recorri ao já celebérrimo «béque-me», simplificação de qualquer coisa como «parece-me», ou «tenho a ideia de que». E o «béque-me» já me valeu uma ou outra coroa de louros em conversas por esse país fora.

Curiosamente, uns dias antes da conferência, no Porto, já eu me tinha retraído, mesmo estando a história das tascas ainda, obviamente, para acontecer. Ia para tomar o pequeno-almoço, e sabendo das confusões de outras pessoas de fora da cidade com os pedidos, resolvi não arriscar. Queria um galão, mas para me prevenir pedi um copo de leite, que era o que tinha visto numa tabela de preços que estava no balcão. E como não queria o galão quente pedi ao empregado para o trazer morno.

«Aquilo deve ser o galão», pensei.

Então e não é que o homem tirou um pacote de leite branco do frigorífico, creio que meio-gordo, encheu um copo e pôs-se a aquecê-lo!...

- Olhe, desculpe - avisei-o, meio atrapalhado - eu queria com café.

- Ah, quer um galão!... - disse o homem.

- Pois, pois, um galão.

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Surpresas de Lisboa

por António Manuel Venda, em 07.10.11

 

A entrada na faculdade representou para mim uma grande mudança. Talvez porque tivesse andado até essa altura relativamente despreocupado com a situação, acabei por não tomar logo de início as precauções que decorridas algumas semanas já me pareciam mais do que óbvias. No primeiro dia, ainda bem não entrava no edifício, dei de caras com os artolas das praxes. Eu nem me tinha lembrado de que eles existiam. Assim, completamente desprevenido, não consegui evitar que me pintassem a cara de verde e me enchessem o cabelo com creme de barbear e pasta de dentes. Ao princípio não sabia onde havia de me meter, só que depois comecei a ver outros iguais a mim e fui ganhando uma certa coragem. De qualquer forma, arrependi-me milhentas vezes de ter saído de casa de manhã como se fosse apenas mais um dia igual a tantos dos que até aí eu estava habituado.

Foi, na verdade, o meu primeiro grande choque em Lisboa, a primeira de uma longa série de surpresas. Eu ainda não conhecia bem a cidade. Pensando nas coisas agora, até me parece que tudo aconteceu, nem sei, talvez logo nos anos a seguir ao 25 de Abril. Mas foi bem depois… Nos dias de hoje, a comunicação social tudo desmistifica. Creio mesmo que será por essa sua influência crescente que se poderá combater a degradação em que tantas coisas vão continuando. Imagine-se o estado de impunidade em que viveríamos sem a comunicação social a servir de grande montra de misérias, injustiças e vergonhas do nosso dia-a-dia... Mesmo caindo em tantos exageros... Com a justiça que nem vemos, com o ensino a que podemos aspirar, com a saúde que em muitos casos nem sequer nos vai valendo, enfim, com o Estado incompetente, desinteressado e tantas vezes minado pela corrupção o melhor é nem pensar muito.

De facto, Lisboa não estava ainda desmistificada para mim, como agora por certo estará para um jovem recém-chegado. Eu acabava de entrar, no Outono de 1986, numa floresta cerrada. Virgem ou já explorada, eu nem me preocupava com isso, era bem cerrada e isso bastava-me como primeira ideia. O problema da alimentação também não me tinha preocupado grandemente até aí, mas acabou por colocar-se. Era preciso comer barato e, já agora, umas refeições de jeito e sem grandes rebaldarias pelo meio. De entre as cantinas de estudantes, acabei por descobrir uma perto de casa em que dava para comer mais ou menos e até um pouco descansado. De forma que ia lá muitas vezes jantar. Era a cantina da Faculdade de Ciências, sempre com gatos de um lado para o outro e com uma malta um bocado estranha, contudo bem menos incomodativa do que a tropa que nessa altura já começava a invadir os cursos de Gestão.

Uma vez, ainda nos primeiros tempos, fui mais cedo jantar, por isso demorei-me a fazer o percurso pela rua fora. Para minha grande surpresa, mais uma, cruzei-me com um político conhecido, António Guterres. Nessa altura ele não me parecia o tipo sorridente e bem-falante que acabaria por ser depois como primeiro-ministro. O que eu via na televisão, mesmo sendo a televisão de 1986, era um deputado em permanente guerra com tudo e com todos, quase ameaçando cuspir fogo pela boca a cada três palavras. Era a imagem que eu tinha de Guterres e que facilmente teria quem lhe visse as actuações em São Bento. Nesse fim de tarde, porém, ao cruzar-me com ele, a caminho do jantar na cantina dos gatos, não me pareceu que fosse capaz de lançar chamas a partir das goelas. Caminhava pela rua fora, com passada curta e pachorrenta, provavelmente na direcção da sede do partido. Ia todo metido consigo, com um sorrisinho mal disfarçado por baixo do bigode que ainda teimava em usar. Fiquei um bocado a pensar no que teria dado origem a tão grande metamorfose, mas depois disse para comigo que as coisas eram mesmo assim e apressei o passo em direcção à cantina, não fosse algum dos gatos ficar-me com o jantar.

No princípio, eu não tinha professores assim muito conhecidos, ao contrário do que esperava depois de algumas pessoas me terem dito que estava a entrar na melhor faculdade de Gestão do país, a par da Universidade Católica. Só ao fim de algum tempo é que me apareceram dois ou três de quem eu tinha ouvido falar, já bem depois de ter apanhado logo na cadeira de enquadramento de todo o curso com um senhor que costumava perguntar-se, quando estava mais declamativo, o que seria do mundo sem a burocracia. Se calhar, dizia ele a olhar para as caras de parvos dos alunos, os aviões, ali bem perto, no aeroporto da Portela, nem haveriam de conseguir levantar voo. Mas um dia – já ia o curso no terceiro ano – chegou alguém que aparecia nos jornais e na televisão, ainda que estivesse então apenas a iniciar o caminho da fama. Dava as aulas teóricas de «Economia Portuguesa» a todas as turmas, num auditório sempre com duas ou três centenas de desgraçados, e além disso assegurava as aulas práticas da minha turma, que tinha uns 30 alunos. Chamava-se Eduardo Ferro Rodrigues e haveria de chegar a ministro acompanhando Guterres no governo, e ainda por cima sempre bem colocado nas sondagens; antes da desgraça, é claro. Já nessa altura era simpático, ao contrário do Guterres da televisão e, estranhamente, à semelhança do Guterres que caminhava pelas ruas de Lisboa. Destoava um pouco da maioria que nos ia aparecendo, às vezes até de pára-quedas. Ia num Opel Kadett branco, dispensando fato e gravata e quase sempre com o jornal «A Bola» debaixo do braço. Faltava pouco, e quando isso acontecia arranjava uma aula suplementar. Era, por exemplo, o oposto de um cromo do primeiro ano, de «Contabilidade Geral», um sujeito pequenino e com cara de artista de circo que não terá chegado a aparecer nem em cinco aulas, e nessas ocasiões metia-se a convidar alunas para tomar café (não tinha lá muita sorte, talvez se aparecesse mais vezes…). Ferro Rodrigues recorria às aulas suplementares por causa das faltas que dava nas alturas em que havia interpelações ao governo de Cavaco Silva. Ele, de um partido então na oposição, tinha de ir para São Bento falar de determinadas questões para as quais a maioria dos deputados do seu partido não estava preparada. Nem os que andavam lá a fazer figura de corpo presente, nem mesmo os que até botavam discurso. Pelo menos era o que eu ouvia dizer…

Na mesma altura de Ferro Rodrigues, apanhei com outro professor mais ou menos conhecido. Apareceu numa das cadeiras jurídicas e, para surpresa e mal de todos, apesar de parecer um tipo porreiro, lá para meio do ano começou a dizer que um aluno para ter mais do que treze tinha mesmo de ser brilhante. No final correu-nos quase todos a treze, certamente porque não viu em nós nem uma simples réstia de brilho. O homem tinha a mania de filosofar um bocado e às vezes até lançava propostas corajosas. Certo dia saiu-se com a ideia de que os alunos é que deveriam escolher os professores que queriam para cada cadeira, mas depois ficou a pensar um pouco, quando um de nós lhe disse que o mais certo era assim haver professores que ficariam sem alunos. A grande surpresa que o homem me causou, no entanto, não foi esse seu gosto pelo treze e a preocupação com a auto-determinação dos alunos. O que achei estranho foi o facto de ele ir para a faculdade num automóvel do Estado, com um motorista que ficava a secar à espera do fim das aulas, para depois o levar de volta ao gabinete do ministério (ou da empresa pública) em que se abrigava. Era o que se pode chamar um senhor, com direito a tacho arranjado enquanto não chegava a ministro ou algo parecido. Acabaria por conseguir mesmo ser ministro, mas não dos normais, apenas dos da República para uma das regiões autónomas.

Claro que no terceiro ano as coisas já estavam mais calmas para mim. Já não era tanto como nos primeiros meses, quando andava constantemente no meio de coisas que antes nunca tinha esperado que pudessem acontecer; ou seja, eu chegava a dar comigo a pensar até onde haveriam de chegar as surpresas. Mas com o passar do tempo elas próprias, surpresas, tinham começado a ganhar um estranho estatuto de acontecimentos normais. Sei que me lembrei de tudo isto muitos anos depois de entrar para a faculdade, quando num fim de tarde de 1999 conduzia por uma rua estreita de Lisboa, na zona de São Bento, e de repente me surgiu pela frente um homem alto e forte, de fato castanho e já então com uma idade respeitável. Atravessou saído não sei de onde, sem olhar, talvez distraído pela conversa que ia tendo com a rapariga que o acompanhava. Era o ex-presidente da República Mário Soares e eu por pouco não o atropelava, embora me tenha parecido que nem ele nem a rapariga se aperceberam da situação. Depois da pequena travagem que tive de fazer, meti a primeira e conduzi apressadamente até casa, porque ia dar um jogo do Sporting na televisão.

Foto: Horst Evertz

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Os Pachecos

por António Manuel Venda, em 02.10.11

 

Talvez seja um sinal dos tempos, e especialmente dos tempos portugueses, mas a verdade é que muitas vezes assistimos a analogias entre o presente que por cá se vive e o passado de há mais de cem anos que Eça de Queiroz experimentou e sobre o qual tanto escreveu. O Conde d’Abranhos, o Pacheco e tantos outros não hesitam quando se trata de sair-nos ao caminho, mesmo que não andemos ocupados com a leitura de alguma obra de um dos autores de «As Farpas». Vejamos o caso do Pacheco, uma personagem que aparece em «A Correspondência de Fradique Mendes»…

O Pacheco representa alguém sem valor intelectual, uma nulidade, um tonto que só obtém destaque porque vive rodeado de medíocres. Já diz um ditado que em terra de cegos quem tem olho é rei; bom, um Pacheco é sempre o rei na terra dos parvos, sendo que tais monarquias chegam mesmo a contar com diversos reis, tipo harém, mas ao contrário, ou próximo disso. Em «A Correspondência de Fradique Mendes», lê-se a certa altura: «Pacheco não deu ao seu país nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento (...). O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente ele atravessou a vida sobre eminências sociais: deputado, director-geral, ministro, governador de bancos, conselheiro de Estado, par, presidente do Conselho - Pacheco tudo foi, tudo teve, neste país que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado com o seu imenso talento (...). A testa de Pacheco oferecia uma superfície larga e lustrosa. E muitas vezes, junto dele, conselheiros e directores-gerais balbuciavam maravilhados: - Nem é preciso mais! Basta ver aquela testa!»

Certa vez, ao ser criticado como Ministro do Reino, Pacheco respondeu a um deputado da oposição: «Ao ilustre deputado que me censura só tenho a dizer que, enquanto S. Exa., aí nessas bancadas, faz berreiro, eu aqui nesta cadeira, faço luz!» Pela pena de Fradique, Eça diz-nos: «Pacheco e Portugal, de resto, necessitam insubstituivelmente um do outro. Sem Portugal Pacheco não teria sido o que foi entre os homens; mas sem Pacheco Portugal não seria o que é entre as nações!» Portugal, de facto, deve muito a cada Pacheco que lhe saiu na rifa. E os Pachecos, todos sem excepção, por certo nunca terão agradecido o suficiente a generosidade desta terra.

Há uns anos assisti a um debate em que alguém justificava o facto de Portugal estar muito atrasado a nível europeu num determinado âmbito legislativo precisamente como Pacheco criado por Eça. Dizia esse advogado que «no nosso país não faltam, nunca faltaram e por certo nunca faltarão os célebres Pachecos» e que «então no Direito, ramo do saber que em Portugal alberga universidades ainda de tradição medieval, aí o melhor é nem falar». Segundo julguei perceber, a nossa grande moda, para o advogado, era quase como aquilo do «vá para fora cá dentro», só que com pequenas adaptações, tipo «falar da boca para fora só cá dentro», porque passada a fronteira a maior parte dos nossos representantes remetia-se ao silêncio, para os prejuízos não serem de monta, principalmente os pessoais. E então em Bruxelas, em Estrasburgo e na cidade do Luxemburgo... Enfim, tudo Pachecos, ou melhor, as representações portuguesas ocupadas por Pachecos.

Pode, é claro, perguntar-se o seguinte… Mas como é que é? Desses Pachecos, nunca deve ter havido um único que não levasse para casa ao fim do mês uns bons milhares de euros, fora os extras… Às vezes, até me sinto tentado a acreditar que, na verdade, o mundo – enfim, Portugal – pertence aos Pachecos. Aliás, é um pouco a velha teoria de que o sucesso chega facilmente aos artolas, aos pobres de espírito e aos lambe-notas, perdão, aos lambe-botas. Mas adiante…

O meu amigo Tiago Salazar uma vez escreveu um artigo chamado «A mentira é o pão-nosso de cada dia». Nem vale a pena referir quem por lá se espojava, o curioso será copiar uma citação de Confucio, que aparecia logo a abrir. «Um intelectual escreveu, ao nascer o seu filho: As famílias, quando nasce um filho, desejam que ele seja inteligente. Eu, através da erudição, tendo arruinado a minha vida toda, desejo apenas que a criança se revele ignorante e estúpida. Então ela coroará a sua vida tranquila, tornando-se um Ministro de Estado.» Haverá alguma palavra chinesa para o nosso Pacheco? Se bem que isto dos nomes seja tudo muito relativo... O mesmo Tiago dizia-me pela mesma altura em que escreveu o artigo: «Vê lá, sou jornalista e sempre assinei Tiago Salazar. Agora já não posso assinar de forma diferente, porque é assim que sou conhecido.» Isto porque carregar no nome o Salazar às vezes lhe parecia problemático, principalmente depois do que por cá aconteceu nos tempos vergonhosos do Estado Novo. Eu, a ver se ajudava, perguntei-lhe o nome completo. E ele disse-me que era Tiago Nuno e mais uns apelidos, inclusive Gomes. Arranjei-lhe logo uma solução para assinar os artigos: Nuno Gomes. Mas ele não aceitou, nem mesmo conhecendo o sucesso do ponta-de-lança que agora joga no Sporting de Braga.

A culpa talvez seja do velho Eça. Foi arranjar o Pacheco para ilustrar os chicos-espertos que sempre caracterizaram as nossas urbes e alguns dos nossos campos e depois deu no que deu. Ainda pelos tempos do desabafo do Tiago, Vasco Pulido Valente, numa crónica sobre o então líder do PSD, Durão Barroso – que ainda não tinha chegado nem a primeiro-ministro –, escrevia: «Isto soa a Eça (...). Barroso era um praticante exímio de uma das mais geralmente estimadas, e meritórias, modalidades da política portuguesa: administrar o silêncio. Eu nunca percebi como se administrava o silêncio, excepto estando calado, o que, na minha inconsciência, supunha fácil. Mas parece que o exercício exige talento. Barroso fora um ministro medíocre e o autor do irresponsável acordo de Bicesse. Nada o recomendava para nada, até ao dia em que meteu a viola no saco. Um acto providencial, porque dali em diante toda a gente começou logo a suspeitar [de] que tanta e tão fina mudez escondia com certeza, além de portentosas virtudes, um plano infalível para a salvação do partido e da pátria. (...) Infelizmente Barroso cometeu o erro imenso de abrir a boca, e em seis meses o céu caiu. Um infortúnio que, aliás, não perturbou o PSD. Por sorte, já havia outro silêncio – estrondoso, prenhe, fulgurante, que o doutor Dias Loureiro administrava no sector privado. E que saiu dele, na hora em que finalmente o messias se mostrou à turba? Uma entrevista (...) de um senhor pomposo, sem uma ideia na cabeça.» Durão Barroso e Dias Loureiro, para Vasco Pulido Valente, segundo julguei perceber, eram Pachecos.

Mas, no fundo, isso de alguém ser Pacheco é discutível. Mesmo o próprio nome Pacheco. E se Eça se tivesse lembrado de Valente? Ou de Pulido? Por exemplo, eu assisti uma vez a uma conferência de Durão Barroso enquanto líder da oposição – o mesmo Durão Barroso que várias vezes tinha visto fazer figuras tristes – e precisamente no local onde um dos principais membros do governo de António Guterres fez uma figura de urso difícil de igualar, ele, Barroso, um indiscutível Pacheco para Vasco Pulido Valente, até se saiu mais ou menos. Um amigo meu, antigo Capitão de Abril e na altura da conferência a trabalhar como gestor numa grande empresa portuguesa, dizia-me uns dias depois: «Aquele tipo, ministro ainda por cima, é o que lá na minha terra, ao pé de Leiria, se costuma chamar um burgesso!» Eu perguntei-lhe: «Então e o Durão?» E ele respondeu-me: «Bem, esse, a falar para a malta das empresas, até se desenrasca!»

Nestes reinos todos, a verdade é que não há mesmo nada que não seja discutível. Um «tipo» que para aquele meu amigo «a falar para a malta das empresas» até se desenrascava, para Vasco Pulido Valente era um Pacheco dos de Eça. Lembro-me de que na altura dei comigo a matutar no que pensaria Vasco Pulido Valente da «malta das empresas», se é que sabia o que isso era. Não cheguei a conclusão nenhuma. Nem depois, quando eu próprio me questionei sobre Durão Barroso; nada de especial, apenas se alguma vez, para Vasco Pulido Valente, ele conseguiria chegar a Pacheco Pereira.

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Só que até lá...

por António Manuel Venda, em 27.09.11

 

No mundo nunca faltaram charlatães. A sua ciência, a dos charlatães, bem entendido, não a do mundo, que é muita, variada e sempre dada a evoluir, a ciência dos charlatães, dizia, é intemporal e para ela existem professores até de sobra. Existem, existiram e muitos outros hão-de sair com diploma – e em certos casos com louvor – das universidades da vida. É desta maneira que começa uma das fábulas de La Fontaine, chamada precisamente «O Charlatão». Quer dizer, não começa bem desta maneira, aqui tudo resulta de uma tradução muito livre, porque a verdade é que La Fontaine tinha por costume de escrita ser muito sintético, coisa que não o impedia de ser bem mais incisivo do que aqueles que como eu pecam quase sempre pelo excesso de palavras (ou melhor, até para me adaptar ao século XXI, pelo excesso de caracteres). Mas pronto, adiante...

La Fontaine, mesmo parco nas palavras, deu muita vida às suas composições, e também um tom deveras bem disposto. Era um hábil narrador e malicioso quanto baste para conquistar leitores, quem sabe se até ao fim dos tempos (no caso, obviamente, de os tempos terem um fim marcado). Conseguiu libertar a moral de muitos dogmas, por vezes enraizados não se sabe bem em que serranias, e além disso enriqueceu os preceitos tradicionais com inúmeras reflexões e com uma grande experiência de vida.

A fábula «O Charlatão» trata de um atrevido mistificador que se comprometeu a ensinar a um burro a arte da retórica. Comprometeu-se perante o rei, não perante o burro, nem tão-pouco perante o dono, porque com esses dois, já se vê, o caso nem daria para La Fontaine escrever uma fábula. Era perante o rei o comprometimento, de forma que assim o caso tornava-se mais sério. A verdade é que o tal homem, o charlatão, jurou fazer do burro um brilhante orador, mas só ao fim de dez anos de aturados exercícios e também de alguma teoria, que fica sempre bem nos conteúdos programáticos, nem que seja só para fazer vista perante o rei. Como recompensa de tal tarefa, o homem recebeu logo à cabeça uma avultada soma em dinheiro. E pouco se importou com a ameaça da forca em que seria pendurado se no final do prazo não mostrasse ao soberano o seu êxito com o burro. Pelos vistos, escasseavam oradores na corte.

A moralidade da fábula é a seguinte: projectar coisas para prazos longos é um enorme erro, uma loucura. Porque até lá, até que chegue a data fixada, como diz o charlatão na fábula, «le roi, l'âne ou moi, nous mourrons» («o rei, o burro ou eu, um pelo menos há-de morrer», isto de novo em tradução muito livre).

Quando passei pela universidade, tive um professor de Gestão que se fartava de elogiar os japoneses porque, segundo assegurava, planeavam a duzentos e cinquenta anos. Não sei onde o homem foi descobrir semelhante coisa, mas a verdade é que a história do planeamento a duzentos e cinquenta anos era habitual nele. Provavelmente nunca tinha lido La Fontaine, ou se tinha guardava o facto só para si, sem sequer se arriscar a tecer uma crítica que fosse ao criador de fábulas.

O que diria esse tal professor de Gestão se ouvisse falar de uma história que alguns consultores precisamente de Gestão costumam contar sobre o longo prazo, uma história em que se diz que, afinal, o longo prazo não é mais do que dez minutos? Uma vez, no Algarve, um senhor – japonês, ainda por cima – respondeu exactamente assim a uma pergunta do jornalista António Pérez-Metello sobre o que era o longo prazo: «O longo prazo? Bem, isso são dez minutos!» Não se tratava de um japonês qualquer, um turista, por exemplo, a ver se torrava no calor algarvio. Era um antigo presidente da Sony, um senhor chamado Akio Morita, tido como um guru imagine-se de quê… Claro, da Gestão. Apesar de os anos terem ido passando, a resposta dos dez minutos para o longo prazo continua a ser citada com alguma frequência em certos meios, ou porque fica bem, ou porque se está a falar de coisas como a futuro ser já amanhã, ou vivermos não em tempos de turbulência mas sim de completa imprevisibilidade. Enfim, os consultores lá sabem, assim como o guru japonês sabia e o jornalista português, a partir daquele dia no Algarve, por certo também ficou a saber.

Mas se a ciência dos charlatães me faz lembrar do tal professor que tinha a mania do planeamento a longo prazo – «looooongo», como diz uma personagem de um conto que em tempos escrevi –, mais me faz ainda lembrar de certas figuras que em vez de se meterem a dar aulas enveredam pelos sempre destravados caminhos da política. Quando não acumulam, obviamente. Penso por vezes nessas figuras, assim como penso na fábula do charlatão. E tudo pelo ruído que continuamente muitas delas teimam em fazer. Prometendo, prometendo, sempre prometendo. Para o futuro. Como outras figuras antes terão feito, num passado cujo futuro terá sido precisamente o presente dos novos prometedores. Assim pode-se sempre fazer promessas. Para um futuro lá bem à frente, até sem teimosias de que o horizonte atinja os duzentos e cinquenta anos; às vezes, bastam sete ou oito para horizonte das promessas, sete ou oito anos, e para medida há também a opção de usar legislaturas. «O desafio que temos pela frente, e isto é um compromisso de honra, é para ser vencido até ao final da legislatura. Quanto ao outro desafio…»

Entretanto, o mundo, o nosso mundo, há-de seguir sempre aos pulos, mesmo que não avance muito. Se calhar não morremos todos até ao final da legislatura, só que até lá...

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Uma onda, talvez

por António Manuel Venda, em 13.09.11

 

Isto já tem uns anos. Foi logo a abrir o século, ou melhor, o milénio. Realizou-se em Lisboa um encontro de escritores a que chamaram «Jornadas Ibero-Americanas de Literatura». Decorreu na Casa Fernando Pessoa, no bairro de Campo de Ourique, e nas diversas sessões participaram vários escritores de língua castelhana e de língua portuguesa. Eu integrei o painel de uma das sessões, depois de ter sido surpreendido uns meses antes com um convite feito através de uma chamada para o telemóvel. Mesmo não sabendo do que é que devia falar, aceitei estar presente. Depois, quando soube, fiquei um bocado pensativo, até a dizer a mim próprio que o melhor teria sido não ter aceite o convite. Havia sessões com títulos como «jornalismo e literatura», «contando histórias» ou «recontando a história»; nelas eu talvez estivesse à vontade, mas numa chamada «um mar de palavras», aí eu já não sabia muito bem.

De forma que no início da sessão eu estava um bocado preocupado. Era dos últimos a falar e a verdade é que não tinha muitas certezas sobre o que iria dizer. Mas depois de ouvir alguns dos outros participantes, percebi que o melhor seria ficar tranquilo. Eles ou contavam histórias ou liam excertos dos respectivos livros; nada de referências ao «mar de palavras», com excepção de Jacinto Lucas Pires (o outro português da sessão) e sobretudo do extraordinário escritor angolano Manuel Rui, de quem eu tinha lido um pequeno livro notável chamado «Quem me Dera Ser Onda». Ou seja, por pouco que eu falasse de «mar de palavras», nunca haveria de destoar.

Bom, sobre o tal «mar de palavras», ainda por cima na Casa Fernando Pessoa, o que me apetecia dizer era qualquer coisa como «ó mar salgado de palavras, quanto do teu sal são lágrimas dos escritores de Portugal», mas acabei por não o fazer. Falei foi das duas línguas irmãs, a portuguesa e a castelhana, imensas, ricas, belas, com uma infinidade de soluções. Com a diferença de a castelhana, onde quer que seja falada, ter musicalidade, e a portuguesa só a ter à custa da ajuda dos brasileiros e dos povos africanos lusófonos. Sem eles, a língua portuguesa seria apenas boa para contar, e não para cantar e contar, como a castelhana. Gosto da língua portuguesa como da castelhana e fiz a minha intervenção como se se tratasse de uma só língua, de um único mar imenso de palavras. Transmitindo a esperança de que possamos sempre navegar juntos nessa imensidão, mesmo que por vezes as águas não sejam as mais calmas.

No final, curiosamente, fiquei com a ideia de que valeu a pena ter sido colocado naquele tema; não precisava de me refugiar em histórias, porque o «mar de palavras» não metia medo. Recordo-me de que Manuel Rui, que fez uma intervenção brilhante sobre o mar – «seja o que for o mar, um homem ou uma mulher» –, também mostrou algumas reticências quanto ao tema, creio que proposto pelo chileno Luis Sepúlveda, que fazia de moderador das várias sessões… «Será que hoje, com este assunto para abordar e com este moderador, é que vamos ter o verdadeiro naufrágio de Sepúlveda?», perguntou logo a abrir.

Por falar em «Naufrágio de Sepúlveda», mesmo o verdadeiro, um romance de Vasco Graça Moura, não perco a oportunidade de contar um episódio que aconteceu no jantar que a então vereadora da cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Maria Calado, ofereceu aos escritores participantes no encontro. Foi num restaurante da zona de Santa Apolónia, mesmo junto ao rio e por sinal bem in – o Bica do Sapato, do qual eu tinha ouvido dizer que um dos sócios era o actor John Malkovich. Na minha mesa, entre outras pessoas, calhou uma senhora que, ao ver-me de fato e gravata, perguntou-me:

– Você é da câmara, não é?

Disse-lhe que não, que era um dos escritores. E acrescentei:

– Mas sou dos desconhecidos e venho directamente do trabalho.

– Ah!... – admirou-se a senhora.

– Tive o dia cheio de reuniões... – desculpei-me.

– Que engraçado! E qual é o seu trabalho?

– Sou gestor.

Depois de ouvir a minha profissão, ou melhor, uma das minhas profissões da altura, ou talvez devesse dizer actividade, a senhora contou que estava na Comissão dos Descobrimentos – não disse «trabalho na...», disse «estou na...», o que se calhar tinha o seu fundo de verdade. Ao ouvir falar em Comissão dos Descobrimentos, não resisti a falar-lhe de uma vez ter ganho um prémio literário que era promovido pela dita comissão.

– Só que nunca mo entregaram – acrescentei.

A senhora não se atrapalhou.

– Isso deve ser coisa do tempo do Graça Moura – disse ela. – Há quanto tempo é que foi?

Respondi que tinha sido havia já uns anos.

– Pois – disse ela.

Acabei por perguntar-lhe:

– Mas não acha que o que conta são as instituições, não as pessoas que entram e saem?

A senhora fez um sorriso de condescendência e depois disse qualquer coisa como «ó meu jovem...», e a seguir meteu conversa com o editor Manuel Hermínio Monteiro, que viria a falecer algum tempo depois.

Para acabar em beleza, conto um episódio que achei extraordinário. No final da sessão em que participei na Casa Fernando Pessoa, uma outra senhora foi falar comigo. Creio que esta não tinha nada a ver com a Comissão dos Descobrimentos. Era uma senhora de pele escura, o que me fez pensar que poderia ser natural de uma das ex-colónias portuguesas. Falava com entusiasmo de Manuel Rui. A certa altura, perguntou-me:

– Você, que eu ouvi já só na parte final a falar tão apaixonadamente da língua portuguesa e da língua castelhana, diga-me, de que país é?

Respondi-lhe que era de Portugal.

– Hum!... É de Portugal... – pareceu ela estranhar.

E eu confirmei:

– Sim, sou de cá.

Mas às vezes, como diria um dos miúdos do livro de Manuel Rui, o que eu queria mesmo era ser era ser onda.

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Uma notícia também exige adjectivos

por Pedro Correia, em 21.10.10

 

Durante anos, ouvimos repetir a ladainha: a escrita jornalística, de carácter noticioso, deve estar totalmente despojada de adjectivos. Esta defesa intransigente de uma prosa jornalística “pura", sem qualificativos, sob a inspiração da clássica escrita de agência noticiosa norte-americana, cede na prática à imposição dos factos. Uma prosa despida de adjectivos, ao contrário do que indicavam as regras clássicas, acaba por ser muitas vezes a negação do verdadeiro espírito jornalístico, que resulta de uma estreita cumplicidade entre o autor da peça e o leitor.

Querem uma prova? Veio na primeira página do passado dia 12 num dos jornais mais clássicos do planeta: o Times, de Londres. O texto da manchete, dedicada à odisseia dos mineiros chilenos, arrancou com este parágrafo: “After 69 agonising days, the dramatic rescue of 33 miners trapped far beneath Chile’s Atacama desert was finally ser to get underway last night.”

Reparem: dois adjectivos em quatro linhas deste curto texto. Que ficaria muito mais pobre sem os termos “dramático” e “agonizante”. O jornalismo não deve recear o adjectivo justo, claro, preciso, envolvente, apaixonante e apaixonado. Como esta destacada notícia do Times bem demonstra.

E como evitar a utilização de termos valorativos na narração desta história - uma das mais marcantes não só do ano mas também da década? Tudo está bem quando acaba bem. De respiração suspensa, o mundo acompanhou a inédita operação de resgate dos mineiros chilenos, que contou com o incentivo permanente do Presidente da República, Sebastián Piñera. Uma situação limite, que em circunstâncias normais conduziria à morte dos 33 trabalhadores encurralados a 700 metros de profundidade. Mais de dois meses depois do acidente que os deixou enclausurados numa mina de cobre, os 32 chilenos e o seu companheiro boliviano voltaram enfim a ver a luz do dia. Em ambiente de mobilização colectiva, numa altura da história do mundo tão marcada pelo individualismo galopante, em ambiente de solidariedade, numa fase em que os egoísmos nacionais pontificam, estes heróis dos nossos dias regressaram à superfície reconduzindo-nos de algum modo ao imaginário de Júlio Verne: a viagem ao centro da Terra é a última utopia possível neste planeta. Uma utopia que, numa escala limitada, estes homens concretizaram com sucesso. Inesquecível foi o momento em que o último mineiro, Luis Urzúa, cantou o hino nacional chileno abraçado a Piñera. Sem distinções sociais ou políticas de qualquer espécie – naquele minuto, eram apenas dois seres humanos partilhando um irrepetível instante de alegría.

Foi um dos momentos mais marcantes de um ano que já tinha sido tragicamente assinalado, a 27 de Fevereiro, por um brutal sismo no Chile. País mártir. País de esperança também. Um exemplo para a humanidade inteira.

Como escrever uma notícia destas sem adjectivos?

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Antes Wittengstein que tal sorte

por Pedro Correia, em 27.06.10

 

Fernando Henrique Cardoso foi um excelente presidente do Brasil. Mas é um dos mais entediantes sociólogos da língua portuguesa, como está bem patente no seu livro Perspectivas para uma Análise Integrada do Desenvolvimento – um título que já diz quase tudo sobre a capacidade de atracção da sua escrita.

Millôr Fernandes pegou nesta obra de 323 páginas e de lá extraiu este excerto tão esclarecedor (aviso desde já que convém tomar balanço antes de começar a ler): “Em síntese, reconhecendo a especificidade das distintas formas de comportamento, a análise sociológica trata de explicar os aparentes ‘desvios’, através da determinação das características estruturais das sociedades subdesenvolvidas e mediante um trabalho de interpretação. Não é exagerado afirmar que é necessário todo um esforço novo de análise a fim de redefinir o sentido e as funções que as classes sociais têm no contexto estrutural da situação de subdesenvolvimento e as alianças que elas estabelecem para sustentar uma estrutura de poder e gerar a dinâmica social e económica.”
De fazer perder o fôlego a qualquer um.
Millôr, humorista consumado, compara a prosa de Fernando Henrique Cardoso com a de Ludwig Wittgenstein, autor do Tractatus Logico-Philosophicus, de que Bertrand Russell certa vez disse: “Não entendi nada. Mas é genial.” Pois Millôr, na sua coluna da revista Veja, chega à conclusão que o austríaco que revolucionou a filosofia do século XX – “a que FHC chama de século vindouro” – produziu textos bem mais acessíveis do que o do ex-presidente brasileiro. E fornece um exemplo, extraído precisamente do Tractatus Logico-Philosophicus: “O sentido total do livro pode ser sintetizado nas seguintes palavras. O que pode ser dito pode ser dito claramente e aquilo sobre o que não podemos falar devemos passar por cima, silenciar.”
De regresso à prosa de Fernando Henrique Cardoso, segue nova peça de artilharia apta a fulminar qualquer leitor: “As duas dimensões do sistema económico, nos países em processo de desenvolvimento, a interna e a externa, expressam-se no plano social, onde adoptam uma estrutura que se organiza e funciona em termos de uma dupla conexão: segundo as pressões e vinculações externas e segundo o condicionamento dos factores internos que incidam sobre a estratificação social.”
Mais excertos de Perspectivas para uma Análise Integrada do Desenvolvimento? Antes Wittgenstein que tal sorte.
 
Imagem: Ludwig Wittgenstein (1889-1951)

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O fotógrafo estava lá

por Pedro Correia, em 25.06.10

 

Esta foto de Alfred Eisenstaedt tornou-se um ícone do século XX. Foi captada no dia 14 de Agosto de 1945, em Nova Iorque, quando largos milhares de pessoas acorreram a Times Square para festejar o fim da II Guerra Mundial. Entre a multidão, estava uma enfermeira chamada Edith Shain, de 27 anos, e um jovem marujo de quem nunca se conheceu o nome. Por um capricho do destino, o militar decidiu dar um beijo arrebatado à enfermeira. Não se conheciam, não sabiam nada um do outro. Após aquele impulso, ele largou-a e perdeu-se na multidão. Ela nunca soube quem ele era, ninguém jamais conseguiu identificá-lo. A própria Edith só no final da década de 70 assumiu ser ela a mulher do retrato.

Mas o fotógrafo estava lá. O instantâneo de Eisenstaedt, publicado na revista Life, deu a volta ao mundo. Tornou-se um símbolo de uma era - e uma mensagem de paz destinada a todas as gerações. Edith regressou à Times Square, para outras fotos, que reproduziam aquela imagem iconográfica de há 65 anos. A última vez foi em 2008. "A felicidade era indescritível", recordou então a antiga enfermeira, regressando àqueles dias felizes que se sucederam à vitória norte-americana sobre os japoneses no Pacífico. E quanto ao beijo? "Foi muito demorado."

Edith Shain acaba de falecer, aos 91 anos. Mas a imagem que inesperadamente a imortalizou viverá para sempre. Por constituir uma prova irrefutável de optimismo, para além de todos os escombros provocados por todas as guerras. Há sempre um amanhã.

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Polónia: outra partida do destino

por Pedro Correia, em 11.04.10

 

Há uma ironia trágica na morte do Presidente polaco a bordo do avião que se despenhou em solo russo. Até parece que a História persiste em pregar contínuas partidas de mau gosto a um povo que conheceu na pele toda a dimensão do mal no século XX.

Vítima de dois totalitarismos cúmplices, que a retalharam no mapa antes de a dividirem no terreno com a brutal invasão de 1939, a Polónia tem sérias razões de ressentimento histórico. Foi o primeiro alvo sangrento dos blindados de Hitler, que concebia o solo polaco como um vasto prolongamento natural da Alemanha. E foi também vítima de Estaline, que na hora do levantamento de Varsóvia, em 1944, mandou estacionar os seus soldados a poucos quilómetros da capital polaca, deixando massacrar os resistentes que se erguiam numa luta heróica mas desigual contra os nazis já em debandada. Os resistentes suplicavam por armas, e Churchill estava disposto a enviá-las através de uma ponte aérea, mas Estaline negou autorização aos aviões de Londres para atravessarem o espaço aéreo soviético, condição essencial para concretizarem o seu objectivo: milhares de polacos desarmados foram assim condenados à morte.

Quatro anos antes, o ditador de Moscovo mandara liquidar a elite militar da Polónia num bosque cujo nome passou desde então a ser sinónimo de ignomínia: Katyn. Era para lá que pretendia dirigir-se Lech Kaczynski, selando de vez o contencioso histórico com a Rússia, no seu trágico voo em direcção à morte. Como se o destino caprichasse, uma vez mais, em pregar uma partida de mau gosto à pátria de Copérnico e Chopin. Como se um círculo macabro se fechasse, unindo de algum modo o massacre de 1940 ao brutal acidente de aviação que ontem deixou a Polónia de luto.

 

 

Publicado hoje no DN

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A meio de uma história, de repente acontece isto (2)

por António Manuel Venda, em 20.11.09
«Continuava a conduzir devagar. A certa altura já ia tão devagar que uma mulher pôde abrir a porta e tentou meter-se dentro do carro. Era uma das portas de trás, tanto que ela deparou com as duas cadeirinhas de bebé dos meus filhos. Foi isso que a fez desistir, batendo depois a porta com toda a força que parecia ter. Pude então prosseguir a marcha e quando já ia numa zona da rua em que era um simples condutor anónimo e não o herói que tinha enfrentado os romanos, parei, abri o vidro e interpelei um velhote que como tanta gente andava de um lado para o outro:
– Olhe, por favor…
Ele aproximou-se.
– Sabe dizer-me o que é que se passa?
O velhote olhou para mim, incrédulo. E disse:
– O quê?! O amigo chegou agora?! Está um barco de romanos no porto, todos de espadas em punho e com bolas de fogo a arder para atirarem à cidade!
– Pensei que era uma actividade do programa «Allgarve»...
– Antes fossem esses malucos!... – disse o velhote. – Isto palpita-me que ainda vai acontecer alguma desgraça. Contaram-me que o único tipo que os enfrentou foi um num carro azul-escuro.
Dito isto, o velhote desatou a correr. Como muita gente. Iam na direcção da marginal. E eu lá me meti de novo a arrancar com o carro, o meu carro azul-escuro sobre o qual o velhote nem tinha feito comentários. Sentia-me a salvo, mas a curiosidade era muita. Eu queria voltar para trás para ir ver no que tinha dado tudo aquilo. Então dispus-me a continuar com o carro, para virar à esquerda assim que fosse possível e depois regressar à marginal. Conhecia mais ou menos bem a cidade, de forma que isso não seria difícil. Lembrei-me de que tinha de ir até ao estádio, de que era a melhor opção, e aí, junto ao estádio, seria fácil encontrar a estrada que me levaria de novo à marginal. Podia até voltar para trás nessa altura, se avistasse os romanos já desembarcados, quem sabe entretidos nalguma pilhagem.
Ia nestes pensamentos, já numa outra rua, quando de repente, do lado esquerdo, dei com o meu nome escrito numa parede.»

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A meio de uma história, de repente acontece isto

por António Manuel Venda, em 18.11.09

«Como é que um deputado quase sem cabeça não é uma figura pública?», perguntou-se o pai do pequeno Tukie, apenas em pensamento.

A verdade é que nunca o tinha visto. Costumava estar atento ao mundo da política, apesar de o considerar um mundo demasiado sujo, mas nunca tinha visto aquele deputado, que no ecrã da televisão aparecia com muita gente à volta, num alvoroço.
– A criatura não é de cá! – disse o deputado.
O pai do pequeno Tukie pensou que ele se estava a referir a alguma pessoa que não era de Beja, mas passados uns segundos percebeu que não, que ele se estava a referir à lebre que tinha dentro da gaiola. E que quando dizia «não é de cá» queria dizer que não era não apenas de Beja, não apenas do Alentejo, não apenas de Portugal, não apenas da Europa – comunitária ou não –, mas do próprio planeta. A lebre – ou melhor, como dizia o deputado, «a criatura» – não era do planeta Terra. Nem ela nem outras três iguais a ela, que o deputado lamentava terem conseguido fugir.
– Serão apanhadas, é claro! – disse um homem muito gordo, de farda cinzenta.
O deputado virou-se para ele e concordou:
– Exactamente, senhor cabo.

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A limpo

por António Manuel Venda, em 05.04.09

Estou a passar a limpo um dos meus «contos municipais». Chama-se «O fugitivo». O presidente da câmara consegue escapar da minha terra fazendo-se passar por mim. Não sei quantas páginas de confusões, mas no fim o homem safa-se mesmo.

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Excerto de um romance

por António Manuel Venda, em 14.01.09

Era assim a oposição, só assuntos sigilosos, bem sigilosos, como aquele, tratado ali mesmo, ao lado dos paços do concelho, nas traseiras da igreja, cujo padre, dizia-se, andava a flirtar com a vereadora responsável pelo pelouro da cultura, flirtar, quer dizer, como traduziriam alguns, rebolar-se, mas disso não interessava falar, para não arranjar confusões que depois certamente seriam tomadas como calúnias, e ainda havia o custo da chamada, enfim, o que interessava, para já, era marcar uma data para a reunião, agrupar as hostes e avançar com a coisa, ou melhor, com as coisas, as grandes coisas, para ver se de uma vez por todas resolviam o problema do concelho, se o voltavam a pôr no mapa, se é que alguma vez algum mapa já o tinha referido, quer dizer, havia um velho mapa dos tempos do domínio árabe que tinha escrito um nome parecido, se bem que um bocadinho a norte da sede do concelho, e o mapa estava em Lisboa, nem a vereadora ligava, o que não era para admirar, se fosse alguma coisa do senhor padre ainda vá que ligasse, mas disso não interessava falar, por causa das calúnias, e a conta, sempre a conta, de Lisboa não mandavam dinheiro para a concelhia e depois cada um que se desenrascasse com o telemóvel particular, e pensar que ainda havia quem acreditasse nas palavras de um deputado do partido, um que representava a região e que às vezes aparecia, em dias de festivais gastronómicos, já se vê, conversa, só conversa, que para os membros de cada direcção concelhia o partido ia mandar de Lisboa telemóveis com plafonds de minutos, cinquenta minutos, cem minutos, o deputado, como é que ainda havia quem acreditasse no deputado, mas quando ganhassem a câmara ia haver telemóveis à discrição, e depois, bem, depois...

 

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