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A tragédia espanhola

por Luís Naves, em 18.07.16

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Dias de confusão

Era sábado, 18 de Julho de 1936, há 80 anos. As notícias, ainda confusas, começaram a surgir através das agências, indicando que decorria uma sublevação das tropas espanholas em Marrocos. Os jornais levaram vários dias a compreender o que verdadeiramente se passava. Começou assim, pelo menos do ponto de vista da opinião pública portuguesa, uma das mais brutais guerras civis europeias, que duraria três anos. A república espanhola já esperava um golpe das direitas, essa foi mesmo a notícia principal do Diário de Lisboa no dia 16. Era uma questão de tempo antes de haver uma rebelião, mas ninguém se prepara para um conflito prolongado e a guerra civil só foi possível porque o golpe falhou e, de súbito, a Espanha estava dividida em duas zonas, com dois exércitos (enfim, eram três zonas, porque o lado rebelde ocupava dois territórios sem continuidade). Nenhum lado se podia render.

Ao longo da primeira metade do ano de 1936 (o ano da morte de Ricardo Reis), a agitação em Espanha tinha sido tremenda. A 13 de Julho fora assassinado em Madrid um deputado monárquico, Calvo Sotelo, cuja família se refugiou em Portugal, recebida em Lisboa no meio de grande emoção. A figura de maior destaque na estação do Rossio, quando os exilados foram esperar a viúva do deputado e os seus quatro filhos, era indiscutivelmente o general Sanjurjo, infeliz exemplo do homem certo no sítio errado e no momento errado. A liderança da rebelião devia ter sido dele, mas à frente do golpe estavam outros generais, nomeadamente um relativamente desconhecido, Francisco Franco.

Soube-se mais tarde que o Exército Espanhol de Marrocos não teria atravessado o estreito de Gibraltar sem ajuda de uma ponte aérea da aviação da Alemanha nazi e também se sabe hoje que alguns aviões alemães fizeram escala para reabastecimento em território português. Salazar tinha de saber disto: no fundo, ajudou a salvar a rebelião, que esteve à beira de soçobrar naqueles primeiros dias frenéticos, marcados por fuzilamentos sumários dos militares apanhados no lado errado.

 

Acidente em Cascais

A 20 de Julho, Portugal foi palco de um dos episódios cruciais da Guerra Civil de Espanha. O general Sanjurjo, (ao centro na imagem), que vivia exilado no Estoril e era facilmente a figura militar mais prestigiada do lado rebelde, morreu num acidente de aviação que a imprensa portuguesa narrou em reportagens detalhadas. O general tentava chegar a Burgos e embarcou num pequeno avião que, à descolagem, não terá conseguido evitar as árvores no topo da pista de má qualidade, na actual quinta da marinha, em Cascais. O avião caiu, aparentemente por perder a hélice, e o piloto foi projectado da cabina, tendo ficado apenas com ferimentos ligeiros.

O general não teve tanta sorte: ia na parte de trás e levava uma pesada mala (com a farda), que impedia a sua movimentação naquele espaço exíguo. Testemunhas disseram que o avião pareceu levar demasiado peso e não conseguiu, por muito pouco, evitar as árvores, no entanto houve testemunhos contraditórios que não coincidem com esta história plausível, nos quais não se menciona o choque com o arvoredo, mas súbita perda de altitude. Estava um dia esplêndido. O voo para Burgos não apresentava dificuldade e a máquina voara anteriormente sem problemas. O piloto era um dos melhores, mas nunca se apurou se houve erro humano.

O facto é que Sanjurjo não conseguiu sair a tempo do aparelho, ou ficou preso pela mala ou teria ficado contundido na queda, não se sabe. Houve um incêndio, as pessoas que se tinham despedido do general não conseguiram correr a tempo para apagar as chamas. Enfim, Sanjurjo morreu carbonizado.

O Governo português teve dificuldade em demonstrar às autoridades de Madrid que desconhecia em absoluto aquele voo clandestino. O embaraço foi minimizado pela violência das notícias que chegavam de Espanha. Na altura, os rebeldes conspiravam em Lisboa, mas os republicanos tinham a sua presença. Aliás, muitos espanhóis estavam aqui de férias e ficaram retidos durante semanas, antes de conseguirem regressar à respectiva zona. Também havia muitos refugiados que não se metiam em política.

Ao longo da guerra civil de Espanha, Portugal manteria uma relação ambígua com os dois lados do perigoso conflito. Há um exemplo menos famoso dessa ambiguidade: no final do Verão, as autoridades não impediram que se instalassem cerca de mil refugiados num campo do lado de cá da fronteira, nos arredores de Barrancos. Fugiam da brutalidade (das forças marroquinas)  da coluna que acabaria por executar um massacre em Badajoz. No caso de Barrancos, foram todos salvos, transportados de comboio para Lisboa e depois por barco para território republicano, numa altura em que o conflito já era uma matança sem quartel. Houve na altura umas pequenas notícias sobre este episódio, mas foi tudo discreto. Recentemente, foi publicado um livro que conta a história deste campo de refugiados na Herdade da Coitadinha, Contra as Ordens de Salazar, de Pedro Prostes da Fonseca, ajudando a dar maior visibilidade a um tema cuja divulgação tem sido sobretudo académica.

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O Governo de Cinco Minutos

por Luís Naves, em 11.11.15

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O Pedro Correia fez referência, mais abaixo, a um episódio da Primeira República, o governo de cinco minutos, e não resisto a publicar aqui um excerto de um texto que escrevi há dois anos (e que não publiquei antes) sobre este estranho acontecimento. O chefe de governo, Francisco Fernandes Costa (1857-1925), na imagem, foi nomeado pelo presidente e estava a realizar a primeira reunião com os ministros que escolhera quando uma turba excitada interrompeu os trabalhos. Sob ameaça, Fernandes Costa apresentou imediatamente a sua demissão. A situação política era volátil, o país estava em crise financeira e os radicais dificultavam a participação da direita no poder, neste caso de um especialista em finanças. O que provocou o protesto foi a inclusão de ministros ‘sidonistas’, ligados ao presidente Sidónio Pais, que fora assassinado meses antes. O texto baseia-se na leitura dos jornais do dia.

 

“Gastou-se demais. Gasta-se demais. Esta é, com efeito, a verdade incontroversa”, assim escrevia o editorialista do Diário de Notícias, na edição de 16 de Janeiro de 1920. Na véspera, 15 de Janeiro, Lisboa vivera um dia memorável, com a nomeação de um novo governo, chefiado por Francisco Fernandes Costa e que manifestações ruidosas forçaram a demitir-se mesmo antes de tomar posse, no que ficou conhecido como o episódio do “governo dos cinco minutos”. Vivia-se um período de grande instabilidade política, a ponto de nessa manhã terem corrido boatos sobre “nutrido tiroteio” na zona da Rotunda. Fora afinal um falso alarme, as descargas do motor de um automóvel avariado na Avenida da Liberdade.

Os partidos tinham organizado um governo liderado pela facção liberal dos republicanos, à direita, mas havia grupos que reclamavam um “gabinete nacional”, ou seja, sem sidonistas (partidários do falecido presidente Sidónio Pais). Apesar das fortes medidas de segurança, o presidente António José de Almeida perdeu o controlo da situação. Conhecido o elenco do governo, logo se organizaram comícios na Praça do Comércio e desfiles pela cidade, até ao Rossio, com cenas de pancadaria e até o atropelamento acidental de um pobre mendigo, que segundo o Diário de Notícias ficou muito maltratado nas pernas.

Os ministros reuniram pela primeira e última vez no gabinete do chefe do governo, na Junta de Crédito Público*. Segundo contou o próprio Fernandes Costa, na sua carta de demissão, “o edifício foi invadido, em tumulto, por muitas pessoas, enquanto muitas mais se aglomeravam nas portas do edifício, as quais, em altas invectivas contra o referido ministério, protestavam contra a sua constituição, reclamando a formação de um ministério nacional”. Foi assim inviabilizada à força a solução Fernandes Costa. O governo anterior, demissionário, de Sá Cardoso, manteve-se até Março de 1920, quando foi formado um gabinete independente, o 23º da Primeira República (descontando juntas revolucionárias e governos provisórios). Por sua vez, esse governo independente duraria três meses, o que era uma eternidade, em comparação ao efémero 22º, o mais curto de sempre”.

 

* O actual edifício do Ministério das Finanças

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A cruzada das crianças mais parece tirada de um livro de ficção. Rodeada de lendas, motivo para romances e narrativas populares que distorceram um pouco o que se conhece da realidade, esta peregrinação aconteceu de facto no início do século XIII, quando a civilização europeia sofria vagas de ardor religioso, num tempo em que a vida era curta, marcada pela superstição, dominada pela doença e pela violência extrema do quotidiano.

Esta foi uma época de fé ilimitada, em que os poderes sobrenaturais explicavam o destino humano. Foi também um tempo de guerra religiosa, o que implicou tradicionalmente violência extrema e sem quartel. A história da Cruzada das Crianças envolveu vários milhares de jovens, mas eram de baixos estratos da população, o que significa que este enorme drama deixou rastos históricos ténues. De forma apropriada, um dos protagonistas era pastor, ocupação que do ponto de vista simbólico tinha ligação imediata ao cristianismo e à religião.

Em 1212, ocorreu uma vasta movimentação de europeus que tem intrigado os historiadores. Sendo difícil distinguir a parte factual da parte lendária, sabe-se que a Europa do início do século XIII viveu num clima de intensa religiosidade, que podia ter criado uma civilização fanatizada. Nesse mesmo ano, foi mobilizado um vasto exército cristão que combateu em Espanha, proporcionando ali uma vitória esmagadora sobre os sarracenos, em Navas de Tolosa, no Verão de 1212, onde ficou definitivamente estabelecido que os cristãos iriam dominar a Península. Curiosamente, nesta batalha participou um contingente português, embora sem a presença do rei, Afonso II, que era doente e enfrentava graves problemas internos. O monarca, cujo cognome é o Gordo ou o Gafo, era neto de Afonso Henriques e ascendera ao trono em 1211, aos 26 anos.

Em simultâneo, ocorreu uma mobilização militar cristã no centro da Europa, cujo objectivo foi o de sufocar uma perigosa heresia que ganhara vasto apoio popular. Conhecido por Cruzadas Albigenses, este episódio provocou grande mortandade no sudoeste da França. A guerra duraria entre 1209 e 1229, saldando-se pela eliminação dos heréticos Cátaros, uma seita maniqueísta que acreditava no poder do bem e do mal, portanto, também na capacidade criadora de Satanás. A Igreja recorreu a meios extremos para eliminar os hereges, que foram mortos, expulsos das suas propriedades ou convertidos à força. A inquisição, criada neste período, continuaria a reprimir as populações muito depois da guerra ter terminado. Houve extraordinária perturbação económica e muitas pessoas deambulavam sem rumo.

 

 

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O poder é demasiado transitório e há muitos exemplos de homens poderosos que quase chegaram aos píncaros da glória, perdendo tudo num único momento em que a sorte conspirou contra eles. Estes casos deviam ensinar que todos os projectos políticos contêm a semente do seu eventual fracasso e que a ambição tem um lado ilusório e, normalmente, uma relação próxima com a futilidade.

Na lista dos grandes fracassos onde os protagonistas eram os homens mais poderosos do seu tempo brilham os nomes de dois romanos, Marco Licínio Crasso e Públio Licínio Valeriano, separados um do outro por cerca de três séculos, o primeiro associado ao auge do poder de Roma e o segundo ao início do suave declínio desta civilização. Os exércitos romanos tiveram frequentes colisões com os persas, em torno do controlo do Médio Oriente, nomeadamente dos territórios da Síria e da Mesopotâmia que coincidem com a zona hoje contestada pelo autodenominado Estado Islâmico (curiosamente, os descendentes dos romanos, os ocidentais, e os descendentes dos persas, os iranianos, estão do mesmo lado no combate aos terroristas do autodenominado Estado Islâmico, que ninguém reconhece).

Os antigos persas eram difíceis de bater no seu terreno, como aprenderia Crasso, cuja cabeça cortada serviu de adereço teatral, e como aprendeu, três séculos mais tarde, o imperador Valeriano, cuja aventura acabou de forma ainda mais humilhante, na vergonha do cativeiro e, depois da morte, com o corpo empalhado e transformado em troféu de parede.

 

 

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Em todos os grandes países houve revoltas populares famosas, mas nenhuma se compara a um movimento que abalou a China entre 1850 e 1864, provocando a morte a mais de 20 milhões de pessoas e, segundo autores de referência, talvez a 30 milhões. A ser correcta esta estimativa, o número de vítimas terá superado o da Primeira Guerra Mundial. É um valor espantoso e difícil de imaginar. Conhecida por Taiping Tianguo, que significa ‘Reino Celeste da Grande Paz’, esta revolta começou no sul da China e foi uma resposta à profunda humilhação que o país (e a dinastia Qing, de origem manchu) tinha sofrido às mãos dos europeus, a começar pelos ingleses, na chamada Guerra do Ópio, entre 1839 e 1842.

Usando em combate um navio a vapor com rodas de pá, os britânicos devastaram com facilidade as fortalezas do Rio das Pérolas e destruíram a frota chinesa em Cantão. O conflito foi desigual, a ponto da China ainda hoje não ter digerido a derrota. Aliás, pode argumentar-se que a civilização chinesa sofreu uma humilhação e esteve perto do colapso. O desequilíbrio de forças tem uma explicação certamente complexa, onde cabe a incompetência do poder imperial, o azar e a inovação, mas o facto é que os ingleses actuaram com uma brutalidade que mesmo então era difícil de aceitar. Hoje, as razões da guerra seriam totalmente incompreensíveis, pois tratava-se de obrigar a China a importar ópio, droga cujo consumo sem restrições afectava a saúde de muitos chineses.

A tese das diferenças tecnológicas entre as duas forças não convence todos os autores. Segundo John Keay (1) “em canhões e navios, o fosso tecnológico não era assim tão grande”, a diferença maior esteve no que a “China pré-industrial e a Europa pós-industrial fizeram com essa tecnologia e a confiança com que foi manuseada”. Os dirigentes militares Qing tentaram um único contra-ataque naval, que se transformou num desastre: em poucos dias, foram destruídos 71 juncos e a baixa de Cantão foi arrasada. No tratado que se seguiu, os ingleses obtiveram o direito de erguer um porto em Hong Kong.

 

 

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No século XVI, um dos maiores prémios da exploração asiática era o controlo das ilhas Molucas, onde se produziam algumas especiarias importantes. Aquele arquipélago (na actual Indonésia e que surge muitas vezes escrito como Ilhas Malucas) era distante e sobre ele pouco se sabia na Europa, como pouco se sabia sobre a Ásia e o Índico, o que explica o enorme interesse no Tratado dos Descobrimentos, livro escrito pelo português António Galvão e publicado em 1563, já depois da morte do autor. A obra, a primeira do seu género, tornou-se muito famosa no século XVII e foi traduzida para inglês em 1601, quando as outras potências europeias começavam a interessar-se em estabelecer os seus próprios impérios.

Galvão foi um militar exemplar e participou em múltiplas acções de combate na Índia Portuguesa e nas costas de África. Tinha uma carreira irrepreensível, foi governador das Molucas e, apesar da coragem e honestidade dos seus serviços, regressou a Portugal, para viver na pobreza e até o seu funeral foi pago por esmolas. O editor do livro, Francisco Sousa Tavares, lamentava o tratamento dado ao autor seu amigo e a “fraqueza da natureza humana, que vindo ele  (António Galvão) a Portugal com grande confiança, que pelo que tinha feito devia ser mais favorecido e honrado, que só trouxera cem mil cruzados, se achou muito enganado, porque nele não achou outro favor ou honra, senão a dos pobres miseráveis, quero dizer, o do hospital: onde o tiveram dezassete anos, até que dele morreu e dele lhe deram o lençol para o amortalhar” (1).

  

 

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Na geografia da aventura, é por vezes difícil distinguir os heróis dos falhados e os patriotas dos traidores. Estas incertezas existem em muitas figuras do passado, talvez à excepção dos regicidas, que eram os criminosos mais detestados entre todos, mesmo em forma tentada, pouco importava, esses eram crimes demasiado graves. Matar ou tentar matar o rei mereceu sempre máxima violência na justiça estatal, de forma a que não houvesse rasto dos corpos dos assassinos ou sequer dos seus motivos.

Um dos mais importantes regicidas portugueses foi o esquecido escrivão Domingos Leite Pereira, executado em Lisboa em 1647, após tentar assassinar o rei D. João IV. O seu motivo parece ter sido banal (ciúmes), e estes seriam ainda por cima infundados, pelo que a história oficial carece de certa consistência ou teremos de avaliar o protagonista como homem pouco inteligente e muito manipulável.

Se resultasse, o atentado podia ter mudado a História do país: o rei teria morrido numa altura em que a independência de Portugal era periclitante. A conjura teve ramificações externas e o caso incluiu um pouco de tudo: sexo, espionagem, guerra e traição.

  

 

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A história das duas mulheres piratas é contada num livro primoroso publicado em 1724, The General History of the Pirates, assinado por um capitão Charles Johnson, com várias edições e também conhecido por Uma História Geral de Roubos e Crimes de Piratas Famosos (1). O autor tinha tal domínio da técnica literária que existiu durante muito tempo a suspeita de ser o pseudónimo de Daniel Defoe, o autor de Robinson Crusoe. Parece que não é assim: o livro terá mesmo sido escrito por um antigo pirata. As suas fontes não são conhecidas, mas grande parte da narrativa baseou-se em factos ou em lendas que circulavam entre os marinheiros, talvez até em histórias vividas. 

Num dos capítulos do livro do capitão Johnson apareciam os nomes de duas mulheres, Mary Read e Anne Bonny, que integravam a tripulação do temível capitão John Rackam, que assolou os mares das Caraíbas por volta de 1720. De início, toda a gente pensava que neste relato o autor deixara à solta a fantasia, mas as duas mulheres piratas existiram mesmo. Johnson conta como ambas se defenderam em tribunal mostrando os ventres inchados. A justiça britânica não executava grávidas e foi assim que elas evitaram o enforcamento.

  

 

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Sabemos hoje que Marte é um planeta inóspito e deserto, com uma superfície avermelhada devido à presença de óxido de ferro e com atmosfera demasiado fina para conseguir captar calor. Distante do Sol em média 50% mais do que a Terra, as suas temperaturas são extremamente baixas e nos pólos chegam a ser inferiores ao ponto de congelação do dióxido de carbono (-190 graus centígrados). A fraca densidade da atmosfera marciana é um mistério, talvez efeito da extinção do campo magnético que permitiu a acção dos ventos solares, havendo a possibilidade de um impacto catastrófico ter arrancado uma fatia da antiga atmosfera.

O quarto planeta do sistema solar tem exercido forte fascínio. Observado já pelos egípcios e gregos, foi baptizado com o nome do deus da guerra dos romanos. Na Era Moderna, houve gerações de astrónomos que tentaram desvendar os seus segredos, mas no final do século XIX uma falsa descoberta excitou a imaginação do mundo científico, contaminando de forma irreversível a cultura popular. Em 1877, houve excelentes condições para a observação do planeta Marte. Foi nesse ano que se descobriram dois pequenos satélites, Deimos e Fobos (Terror e Medo) que serão possivelmente asteróides capturados pela força da gravidade do planeta. Nesse mesmo ano, um eminente astrónomo do Observatório de Milão, Giovanni Schiaparelli, descreveu o que lhe pareciam ser “canais” na superfície marciana. Schiaparelli fez desenhos pouco detalhados onde havia zonas escuras, a que chamou mares, e zonas claras, que denominou continentes. E, entre os dois, aquilo a que chamou “canali”, linhas finas que pareciam ligar as diferentes zonas.

  

 

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No início de 1885, no auge do Império Britânico e da Era Vitoriana, ocorreu uma famosa derrota militar que inflamou os jornais do mundo civilizado e o coração de muitos jovens ambiciosos com sonhos de seguir a carreira das armas. O herói desta história, Charles Gordon, foi brutalmente morto e degolado no final do cerco de Cartum, mas o império viria a vingá-lo anos mais tarde, condenando ao esquecimento o vencedor da batalha.

De forma perturbadora, e apesar do contexto ser outro, certos elementos da saga de Gordon são imitados por situações do presente. O general inglês estava ao serviço do governo egípcio, liderado por uma elite de origem otomana, mas na realidade orientado do exterior, pois o Egipto era na época um protectorado inglês, embora tivesse desde 1819 o seu próprio pequeno império africano. A insustentável dívida pública egípcia era gerida pelos credores, os ingleses, que nomeavam o ministro das Finanças egípcio e controlavam todas as despesas. Este protectorado foi alargado ao exército em 1882. O Quediva do Cairo, supostamente tributário do Império Otomano, pertencia na realidade ao Império Britânico.

Entretanto, os interesses egípcios no Sudão estavam a ser contestados por uma rebelião fundamentalista islâmica chefiada por um homem chamado Mohammed Ahmed, que se reclamava descendente do Profeta e dizia ser o Mahdi (as correntes messiânicas sunitas acreditam na profecia de que haverá um enviado, sucessor de Maomé). Os Mahdistas estavam em plena Jihad (guerra santa) e estavam até a vencê-la. O Sudão encontrava-se já sob seu controlo, à excepção da capital, Cartum, cidade criada pelos egípcios na confluência do Nilo Azul e do Nilo Branco, e onde havia uma poderosa guarnição.

O cerco de Cartum, iniciado em 1884, tinha grande importância para as duas partes. As vidas paralelas de Mohammed Ahmed e Charles Gordon convergem na noite de 25 para 26 de Janeiro de 1885, quando, pressionado pela chegada iminente de um exército de resgate, o Mahdi decidiu dar o golpe final na cidade, que resistira 320 dias. Consta que não houve sobreviventes na guarnição egípcia de 7 mil homens, mas talvez essa informação seja propaganda posterior. O general Gordon tinha 52 anos, o Mahdi 44.

 

 

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Constantinopla, hoje Istambul, era uma cidade esplendorosa e imensamente rica para os padrões do século VI. A capital do Império Bizantino sobrevivera por milagre às invasões bárbaras, que tinham transformado o ocidente da Europa numa zona de devastação. No tempo do imperador Justiniano, Constantinopla fez a derradeira tentativa militar, pelo menos a última considerada séria, para recuperar a metade perdida do velho império romano. As expedições foram lideradas por um general notável, Belisário, mas a maré que arrastava para o fundo era demasiado forte e todos estes esforços deram em pouco. Bizâncio viria a controlar a Itália ainda durante um curto período, mas já não escondia a sua própria fraqueza.

A queda da civilização romana teve motivos complexos, por exemplo, a natureza violenta da época e a fragilidade dos regimes imperiais, elementos que saltam à vista num incidente que ocorreu no início do reinado de Justiniano e ao qual o imperador sobreviveu com  dificuldade. Conhecido por revolta de Nika, este episódio de histeria teve vários protagonistas, incluindo o general Belisário e a imperatriz Teodora. A revolta terminou em banho de sangue e mostrou os efeitos da febre do desporto, neste caso, também dos malefícios do excesso de rivalidade entre duas claques: verdes e azuis.

No Império Bizantino havia uma paixão louca por corridas de cavalos, geralmente quadrigas (carroças de quatro cavalos) associadas a equipas apoiadas por claques que usavam bandeiras de uma determinada cor. As divisões sociais reflectiam-se nos grupos que assistiam às corridas e que ocupavam secções específicas do hipódromo. Originalmente, havia quatro cores, mas no início do século VI os vermelhos e os brancos tinham sido absorvidos pelos verdes e azuis, que se transformaram gradualmente em facções políticas, vagamente ligadas ao povo (verdes) e aos aristocratas (azuis), embora isso não seja assim tão linear. As claques (ou facções) tinham lideranças informais, influência social e estavam frequentemente envolvidas em episódios de violência, a propósito de muitos temas diferentes, incluindo questões teológicas que incluíam ramificações políticas. Verdes e azuis disputavam os favores do imperador, a quem era exigida uma espécie de neutralidade que pairava acima das tradicionais rivalidades.

 

 

 

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Uma das mais extraordinárias histórias de espionagem ocorreu nos pacatos salões vienenses, em vésperas da Primeira Guerra Mundial. A personagem principal do drama, o coronel Alfred Redl, traiu o seu país durante uma década, foi desmascarado e pagou com a vida, mas o fracasso caiu inteiramente sobre o exército traído. É um mistério como este caso foi possível: por vezes, uma estranha teimosia impede as pessoas inteligentes de verem o óbvio.   

O escândalo rebentou em Maio de 1913, devido a uma notícia incómoda sobre o suicídio de um coronel do exército austro-húngaro, Alfred Redl. A informação, que incluía o picante de alusões veladas à homossexualidade da vítima e à sua eventual traição, fora obtida por um jornal regional na Boémia, embora o furo jornalístico fosse consequência de mero acaso: segundo a lenda, o jornalista que redigiu essa primeira notícia era dono de um clube de futebol onde jogava uma das testemunhas acidentais do suicídio do coronel, testemunha essa que foi ameaçada de despedimento se não contasse a história. Apesar de tudo, o jornal falhava no essencial, a verdadeira posição do militar, mas desencadeou o interesse da imprensa de Viena, que conseguiu ligar os fios, lançando um escândalo político de enormes proporções, que enlameava os altos escalões militares austríacos e a própria monarquia.

A razão era simples: até ao ano anterior ao obituário, o coronel Redl tinha sido chefe dos serviços de informação militares austro-húngaros, sendo o responsável máximo pela contra-espionagem, ou seja, pela detecção de eventuais agentes inimigos nas fileiras, além de ter acesso ao conhecimento de redes de espionagem no exterior e planos militares do Estado-maior. Aliás, Redl chefiara a investigação sobre a existência de uma possível toupeira de alto nível, que se verificou ser ele próprio.

  

 

 

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Dentro de semanas, a Escócia votará em referendo se pretende manter-se ligada ao Reino Unido ou se prefere a independência. O resultado da consulta é incerto. A união com a Inglaterra teve momentos em que quase ocorreu a ruptura, tendo a última rebelião armada, dos clãs das Terras Altas, Highlander, terminado apenas em 1746, 39 anos após o acto da união.

Na realidade, Inglaterra e Escócia tiveram relações conflituosas durante séculos, mas a formação de cada um dos reinos não se explica sem a interacção com o vizinho. Nas décadas anteriores à união, consumada em 1707, a economia escocesa sofrera com a concorrência do comércio inglês e com uma sucessão de más colheitas. Os conflitos entre clãs eram endémicos.

Os motivos que conduziram à união das duas coroas são numerosos e complexos, mas um deles destaca-se pelo insólito: em 1698, a Escócia tentou estabelecer uma colónia no actual Panamá, na baía de Darien, mas o fracasso da iniciativa consumiu grandes quantidades de capital e levou muita gente à falência. Darien ajuda a explicar o apoio da aristocracia feudal escocesa à união com os ingleses e o fracasso do império escocês foi, sem dúvida, uma das bases para três séculos de Reino Unido.

 

 

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Em Março de 1951, o presidente da Argentina, general Juan Perón, anunciou ao mundo que o seu país conseguira o extraordinário feito tecnológico de obter “libertação controlada de energia atómica”, o que significava o domínio da mesma energia produzida no interior do Sol. Perón era um dos líderes mais admirados no mundo, um populista que fazia uma equipa imbatível com a sua mulher, Eva, mais conhecida por Evita Perón, actriz que, seis anos antes, salvara a carreira política do marido convocando um protesto popular que lhe abriu caminho à presidência. O casal tinha carisma invulgar e tentava criar uma potência sul-americana, rival dos dois grandes, misturando políticas sociais, independência económica, nacionalizações, corporações, acções de massas e uma boa dose de autocracia.

Quando o general anunciou que o seu país domara a energia das estrelas, a notícia era credível, pois se havia alguém capaz desse milagre era mesmo Perón. A Argentina teria acesso a energia barata e abundante, seria uma potência industrial, mas infelizmente o anúncio foi prematuro e a notícia era falsa: em vez de conseguir a fusão termonuclear, Perón embarcara num dos episódios mais bizarros e dispendiosos da história da ciência.

 

 

   

 

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Na história universal do fracasso, o Xá da Corásmia permanece como um dos grandes exemplos trágicos de monarcas que, num único erro, perderam tudo o que tinham, neste caso um império que podia ter sido marcante e que, por um azar incrível, merece lugar eterno nos anais do esquecimento.

Hoje poucos sabem o que foi o Império Corásmio, mas na época em que Portugal se formou, esta era uma das forças políticas mais importantes da Ásia Central e talvez uma das mais promissoras em todo o mundo conhecido. Em 1218, foi ali que ocorreu um dos grandes ‘ses’ da História. E se Mohamed II não tivesse insultado o grande Gengis Khan? Quando se verificou este funesto episódio, o império tinha dois séculos de fértil existência e ocupava o actual Irão, parte do Afeganistão e do Cazaquistão e a totalidade do Uzbequistão e Turquemenistão. Era, pois, um território enorme para o seu tempo, governado por uma dinastia sunita de língua turca, que descendia de um antigo escravo. Tudo acabou muito depressa, como se fosse engolido pelas areias do deserto e pelo recuo do Mar Aral.

 

 

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Estava a ver um jogo entre o Equador e as Honduras quando me lembrei que este último país esteve envolvido num dos mais bizarros incidentes da História recente, conhecido por 'Guerra das 100 Horas' ou 'Guerra do Futebol'. O conflito foi travado em Julho de 1969 e envolveu dois países vizinhos da América Central: El Salvador e Honduras. Nos combates e bombardeamentos, que duraram apenas quatro dias, morreram mais de 3 mil pessoas e tudo começou com um simples jogo de futebol entre selecções que procuravam classificar-se para o Campeonato do Mundo do ano seguinte.

Na origem do conflito esteve uma rivalidade regional que se alimentou de um problema económico profundo: as Honduras (dispondo de mais território) tinham na altura 350 mil imigrantes salvadorenhos, sobretudo na zona de fronteira, e estes camponeses estavam a ser maltratados pelo regime do general Lopez Arellano, que era sustentado por grandes proprietários agrícolas, entre estes a poderosa multinacional United Fruit Company, que possuía 10% do território hondurenho. 

A questão da emigração salvadorenha para as Honduras tornara-se um assunto muito emocional dos dois lados, para mais alimentado por histerias nacionalistas. A 8 de Junho de 1969, os dois países enfrentaram-se na ronda de qualificação para o Campeonato do Mundo que se realizaria no México. No primeiro jogo, em Tegucigalpa, as Honduras venceram por 1 a zero, mas houve violência contra cidadãos salvadorenhos. A resposta, a 15 de Junho, em San Salvador, envolveu grande brutalidade: os adeptos hondurenhos foram espancados em plena rua e os jogadores foram vítimas de ameaças físicas. No final do encontro, os jogadores da equipa diziam ter sido uma sorte a derrota por 3 a zero. Seguiu-se um jogo de desempate, em terreno neutro, na Cidade do México, e El Salvador venceu por 3 a 2, após prolongamento.

 

 

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