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Reino Unido: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 07.06.17

Lembrei aqui quem foram os inquilinos da Casa Branca, ano a ano, durante o último meio século. E aqui foram recordados os titulares do Palácio do Eliseu também durante os mais recentes 50 anos.

Na véspera das eleições legislativas no Reino Unido, em que se confrontam a conservadora  Theresa May e o trabalhista Jeremy Corbyn, recordo hoje quem chefiou o Governo britânico durante o mesmo período.

Volto a segmentar este meio século por cinco blocos, cada qual correspondente a uma década, para uma consulta mais fácil. Pintando de vermelho os primeiros-ministros trabalhistas e de azul os chefes do Governo conservadores. Cumpre acrescentar que nenhum outro partido liderou o Executivo londrino de 1967 para cá.

 

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1967/76

1967 - Harold Wilson

1968 - Harold Wilson

1969 - Harold Wilson

1970 - Edward Heath

1971 - Edward Heath

1972 - Edward Heath

1973 - Edward Heath

1974 - Harold Wilson

1975 - Harold Wilson

1976 - James Callaghan

Predomínio trabalhista nesta década, iniciado durante os chamados Swinging Sixties por terras de Sua Majestade. Com um interlúdio conservador liderado por Edward Heath.

 

 

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1977/86

1977 - James Callaghan

1978 - James Callaghan

1979 - Margaret Thatcher

1980 - Margaret Thatcher

1981 - Margaret Thatcher

1982 - Margaret Thatcher

1983 - Margaret Thatcher

1984 - Margaret Thatcher

1985 - Margaret Thatcher

1986 - Margaret Thatcher

Os anos 80 britânicos tiveram hegemonia conservadora. Com Margaret Thatcher, vencedora de três eleições consecutivas, a impor-se sem discussão.

 

 

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1987/96

1987 - Margaret Thatcher

1988 - Margaret Thatcher

1989 - Margaret Thatcher

1990 - Margaret Thatcher

1991 - John Major

1992 - John Major

1993 - John Major

1994 - John Major

1995 - John Major

1996 - John Major

Segunda década com predomínio conservador: após o longo consulado de Thatcher seguiu-se o mandato de Major, que tinha sido um dos principais colaboradores da Dama de Ferro.

  

 

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1997/2006

1997 - Tony Blair

1998 - Tony Blair

1999 - Tony Blair

2000 - Tony Blair

2001 - Tony Blair

2002 - Tony Blair

2003 - Tony Blair

2004 - Tony Blair

2005 - Tony Blair

2006 - Tony Blair

O "novo trabalhismo" de Blair domina por inteiro a década, grande parte da qual em sintonia cronológica e programática com os EUA de Bill Clinton e a Alemanha de Gehrard Schröder. 

 

                            

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2007/16

2007 - Gordon Brown

2008 - Gordon Brown

2009 - Gordon Brown

2010 - David Cameron

2011 - David Cameron

2012 - David Cameron

2013 - David Cameron

2014 - David Cameron

2015 - David Cameron

2016 - David Cameron

Nova década dominada pelo Tories. E nem a queda de Cameron, provocada pelo Brexit, alterou a cor política na residência oficial de Downing Street, entretanto ocupada por Theresa May.

 

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Balanço: clara prevalência dos governos conservadores ao longo deste meio século (percentagem: 58%). Com cinco primeiros-ministros: Heath, Thatcher, Major, Cameron e May (esta ainda há menos de um ano em funções, pois só ascendeu à chefia do Executivo em 13 de Julho de 2016).

O Partido Trabalhista teve quatro inquilinos em Downing Street durante este período: Wilson, Callaghan, Blair e Brown (42% do total).

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França: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 05.05.17

Recordei aqui quem foram os inquilinos da Casa Branca, ano a ano, durante o último meio século - de Lyndon Johnson, em 1967, a Barack Obama, entretanto substituído por Donald Trump.

Na antevéspera da eleição de um novo inquilino do Palácio do Eliseu, quando se confrontam nesta segunda volta das presidenciais o centrista Emmanuel Marcon e a nacionalista Marine Le Pen, relembro agora quem foram os titulares da Presidência da República Francesa, também durante os últimos 50 anos.

Volto a dividir este período por cinco décadas, para uma consulta mais fácil. Só altero as cores: vermelho para os Chefes do Estado mais conotados com o socialismo, azul para aqueles que assumiram ser conservadores ou liberais.

No final do mês farei o mesmo em relação ao Reino Unido, que irá a votos já em Junho para escolher um novo elenco parlamentar.

 

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1968/1977

1968 - Charles de Gaulle

1969 - Georges Pompidou

1970 - Georges Pompidou

1971 - Georges Pompidou

1972 - Georges Pompidou

1973 - Georges Pompidou

1974 - Giscard d' Eistang

1975 - Giscard d' Eistang

1976 - Giscard d' Eistang

1977 - Giscard d' Eistang

O conservador Pompidou, continuador do gaullismo sem De Gaulle, foi a figura dominante nesta década de transição em França. Até à sua morte prematura.

 

 

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1978/1987

1978 - Giscard d' Eistang

1979 - Giscard d' Eistang

1980 - Giscard d' Eistang

1981 - François Mitterrand

1982 - François Mitterrand

1983 - François Mitterrand

1984 - François Mitterrand

1985 - François Mitterrand

1986 - François Mitterrand

1987 - François Mitterrand

Outra década, mudança de ciclo político em Paris. Com o socialista Mitterrand - derrotado nas presidenciais de 1965 e 1974 - a impor-se enfim na eleição de 1981.

 

 

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1988/1997

1988 - François Mitterrand

1989 - François Mitterrand

1990 - François Mitterrand

1991 - François Mitterrand

1992 - François Mitterrand

1993 - François Mitterrand

1994 - François Mitterrand

1995 - Jacques Chirac

1996 - Jacques Chirac

1997 - Jacques Chirac

Segunda década com predomínio de Mitterrand no Eliseu. Foi até agora o mais longo consulado desde o início da vigência da V República francesa, em 1958.

 

 

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1998/2007

1998 - Jacques Chirac

1999 - Jacques Chirac

2000 - Jacques Chirac

2001 - Jacques Chirac

2002 - Jacques Chirac

2003 - Jacques Chirac

2004 - Jacques Chirac

2005 - Jacques Chirac

2006 - Jacques Chirac

2007 - Nicolas Sarkozy

Um decénio quase completo sob a presença tutelar de Chirac, discípulo político do general De Gaulle. Conservador, beneficiou do voto maciço da esquerda contra Jean Marie Le Pen na segunda volta das presidenciais de 2002.

 

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2008/2017

2008 - Nicolas Sarkozy

2009 - Nicolas Sarkozy

2010 - Nicolas Sarkozy

2011 - Nicolas Sarkozy

2012 - François Hollande

2013 - François Hollande

2014 - François Hollande

2015 - François Hollande

2016 - François Hollande

2017 - François Hollande

Uma década repartida entre a direita e a esquerda. Na segunda metade da década em contraciclo com a Alemanha e o Reino Unido, onde têm predominado os conservadores. A partir de agora abre-se uma incógnita.

 

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Balanço: a direita política dominou o Eliseu em 30 dos últimos 50 anos (percentagem: 60%). Com cinco presidentes: De Gaulle, Pompidou, Giscard, Chirac e Sarkozy.

O Partido Socialista só teve dois inquilinos no palácio presidencial durante este meio século: Mitterrand e Hollande. Este último sai sem deixar saudades.

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Síndrome de Stendhal e tal

por Bandeira, em 27.01.17

José Bandeira

(Foto: Um homem atacado pela síndrome de Stendhal em plena Santa Croce, num momento místico captado por este seu criado. A igreja está escura para que não se veja o quanto é feia.)

O grande crítico vitoriano John Ruskin (a quem por vezes acendo velinhas e cuja foto quero muito em versão magneto de frigorífico) diz que a basílica florentina de Santa Croce não passa de uma espécie de mal amanhada despensa de frescos, túmulos e turistas, não forçosamente por esta ordem. O alvo dele é praticamente tudo o que não passou pelo crivo do arquitecto original, Arnolfo di Cambio, cujo estilo aprecia e ao qual, num rasgo de genialidade que ainda hoje me tira o sono, deu o nome de... Arnolfo-Gótico.

Permita, galerníssimo leitor, que cite Ruskin em Mornings in Florence (tradução caseira):

“[o leitor] Regressará a casa com a vaga impressão de que Santa Croce é, de algum modo, a mais feia igreja gótica em que alguma vez pôs os pés. Bom, de facto assim é (…)”

E pronto, no que aos ingleses diz respeito é case closed.

Mas de Stendhal, que não era crítico de arte, vitoriano muito menos e as más-línguas chegam a jurar francês, dir-se-ia que apreciou Santa Croce, que foi o primeiro local turístico que visitou, pelo que percebo das suas notas de viagem, aquando de uma visita à cidade toscana. Tanto assim que, em saindo da basílica, o autor do jamais concluído O Rosa e o Verde (cores que, digo-o a título de curiosidade, abundam nos mármores florentinos), trocou os passos, sofreu uma espécie de vertigem, quase desfalecia. A citação que se segue é traduzida de Naples, Rome et Florence:

“Havia atingido aquele ponto emocional onde se cruzam os sentimentos apaixonados e as sensações celestiais que nos dão as Belas-Artes. Em saindo de Santa Croce, sofri um acelerar do coração, aquilo que em Berlim chamam 'nervos'; a vida exauria-se dentro de mim, caminhava com receio de cair.”

O fenómeno, que atingia um sem-número de outros visitantes de Florença, depressa se tornou conhecido como “Síndrome de Stendhal”; e no Ospedale di Santa Maria Nuova inaugurou-se um serviço – que viria a tornar-se muito conceituado – dedicado ao estudo dessa estranha condição clínica que atinge aqueles que sofrem os efeitos da exposição excessiva a obras de arte. Ignoro se o serviço ainda funciona, a bem da tradição espero que sim, se bem que continue a achar que o mal de Stendhal era falta de brioches e cappuccino.

“E como… ahm… como ultrapassou Stendhal a desagradável situação?”, ouço perguntar, de Moleskine e caneta em riste, o plantivo leitor, recordado de haver sentido algo de semelhante numa exposição de aguarelas de um Artista Local na junta de freguesia do seu bairro.

Pois ultrapassou-a, respondo eu, sentando-se num banco e lendo poesia – à época, o ansiolítico mais eficaz, até porque se podia tomar com álcool. Muito álcool.

 

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O dia em que não nos rimos

por Bandeira, em 30.12.16

Um dos meus aforismos predilectos (tanto assim que serviu de epígrafe ao meu primeiro blogue, em 2005) é do humorista e escritor setecentista Nicolas Chamfort: “O dia em que não nos rimos foi o dia que desperdiçámos”. Não acredito que não ache isso belo. Vale toda uma estante da mais empedernida filosofia, uma biblioteca apinhada de volumes de “auto-ajuda” e até um cherne na grelha com batatinha a murro que certa vez comi num restaurante da Praia da Tocha.

 

Chamfort deixou-se arrebatar pelos ideais da Revolução Francesa, mas acabaria escrevendo contra os excessos que via surgindo. Detido e torturado no período do Terror, foi libertado apenas para ser de novo ameaçado com a prisão. Preferindo “morrer livre a ser reconduzido como escravo”, quis matar-se; mas o tiro inábil despedaçou-lhe caprichosamente o nariz e parte substancial da mandíbula, deixando-o com vida e lucidez. Então Nicolas lançou mão de uma faca de cortar papel e procurou uma artéria vital. Sem sucesso. Os repetidos golpes no peito com o literário instrumento, notoriamente incapaz da violência que lhe era exigida, não puseram termo ao tormento de Nicolas. Desfigurado e sofrendo horrores, aquele que foi um dos mais incompetentes suicidas da História veria passar ainda um ciclo de quatro estações antes de soltar o suspiro final.

 

Não posso saber se aconteceu, mas eu gosto de imaginar que Chamfort foi capaz de rir disso (para que nem tudo tivesse sido desperdiçado) no dia em que ele morreu.

 

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Havia em Constantinopla, hoje Istambul, uma grande estátua equestre que representava o imperador Justiniano segurando um orbe com uma das mãos e levantando a outra na direcção do Leste. Os bizantinos acreditavam que a mão tinha o poder mágico de fazer parar exércitos e que o Império não cairia enquanto a bolinha se mantivesse no seu lugar.


A verdade é que ela tombava com frequência, tanta que as pessoas evitavam passar-lhe por baixo, mas depressa voltavam a colocá-la no sítio e calceteiros disfarçavam a depressão no pavimento com bonitos mosaicos de padrões em trompe l'oeil.

 

No ano da desgraça de 1453, o otomano Maomé II fendeu as muralhas de Constantinopla, quero dizer: não ele, claro, mas os projécteis de um canhão mastodôntico inventado por um húngaro a quem os bizantinos não haviam podido pagar e que, em vista disso, se passara para o lado muçulmano. Constantino XI morreu defendendo as pedras da brecha por onde a cidade foi tomada, mas havia já quem dissesse que ele voltaria pela mão do anjo que o tirara da batalha e o levara para uma gruta sob a cidade, onde o adormecera e enfaixara da cabeça aos pés porque achava que essa era a coisa certa a fazer e estava com tempo.

 

Tal especulação não era agradável aos ouvidos do conquistador, o cujo de imediato exigiu a presença da imperial cabeça senão. Os seus homens encontraram o corpo de Constantino, que reconheceram pelas meias púrpura com pequenas águias bordadas, mas a cabeça havia sido cortada, como aliás as de praticamente todos os defensores; cada época seus costumes. Não houve remédio senão retirar do monte de cabeças ensanguentadas aquela que aos turcos pareceu melhor se adaptar à figura do imperador.

 

Mantido na ignorância de tais dificuldades, Maomé II ordenou que a cabeça fosse dependurada da mão com que a estátua de Justiniano mandava parar o Oriente. Isso mostraria aos bizantinos que as histórias sobre o regresso do seu imperador “não tinham pés, apenas cabeça”, e todos ririam muito e achariam que ele era engraçado.

 

Mas os habitantes de Constantinopla, olhando a estátua, diziam uns para os outros baixinho:

 

“Hahahaha, eu conheço o Constantino e aquela não é a cabeça dele.”

 

Isso reforçou a crença na lenda do imperador adormecido; e começaram a circular pela cidade desenhos perturbadores representando um homem enfaixado guardado por um anjo.

 

Muitos anos durou a crença. Até que, no século XIX, um navio inglês vindo do Egipto aportou à cidade carregando antiguidades várias, entre as quais uma múmia a que as autoridades turcas deram de imediato ordem de prisão, pois julgaram ver nela a figura do imperador; e acusaram os ingleses de pretenderem restaurar Constantino XI no trono do Império Romano do Oriente.

 

Então cortaram a múmia em pedaços, e hoje poucos são os que acreditam que o imperador vai regressar, pelo menos em boas condições.

 

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Nota bene: este texto é de 2008 - mas não quis deixar de recapitular nestes dias em que todos, uns mais, outros menos, recapitulam.

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França: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 25.11.16

Lembrei aqui quem foram os inquilinos da Casa Branca, ano a ano, durante o último meio século - de Lyndon Johnson, em 1967, a Barack Obama, agora na recta final do seu mandato.

Como estamos a seis meses da eleição presidencial francesa, em que François Hollande - caso se recandidate - se arrisca a sofrer uma derrota de proporções históricas, é hoje a vez de recordar quem foram os inquilinos do Palácio do Eliseu desde 1967.

Volto a dividir este período por um período de cinco décadas, para uma consulta mais fácil. Só altero as cores: vermelho para os Chefes do Estado mais conotados com o socialismo, azul para aqueles que assumiram ser conservadores ou liberais.

Em breve seguir-se-á outro país.

 

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1967/76

1967 - Charles de Gaulle

1968 - Charles de Gaulle

1969 - Georges Pompidou

1970 - Georges Pompidou

1971 - Georges Pompidou

1972 - Georges Pompidou

1973 - Georges Pompidou

1974 - Giscard d' Eistang

1975 - Giscard d' Eistang

1976 - Giscard d' Eistang

O conservador Pompidou, continuador do gaullismo sem De Gaulle, foi a figura dominante nesta década de transição em França. Até à sua morte prematura.

 

 

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1977/86

1977 - Giscard d' Eistang

1978 - Giscard d' Eistang

1979 - Giscard d' Eistang

1980 - Giscard d' Eistang

1981 - François Mitterrand

1982 - François Mitterrand

1983 - François Mitterrand

1984 - François Mitterrand

1985 - François Mitterrand

1986 - François Mitterrand

Outra década, mudança de ciclo político em Paris. Com o socialista Mitterrand - derrotado nas presidenciais de 1965 e 1974 - a impor-se enfim na eleição de 1981.

 

 

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1987/96

1987 - François Mitterrand

1988 - François Mitterrand

1989 - François Mitterrand

1990 - François Mitterrand

1991 - François Mitterrand

1992 - François Mitterrand

1993 - François Mitterrand

1994 - François Mitterrand

1995 - Jacques Chirac

1996 - Jacques Chirac

Segunda década com predomínio de Mitterrand no Eliseu. Foi até agora o mais longo consulado dede o início da vigência da V República francesa, em 1958.

 

 

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1997/06

1997 - Jacques Chirac

1998 - Jacques Chirac

1999 - Jacques Chirac

2000 - Jacques Chirac

2001 - Jacques Chirac

2002 - Jacques Chirac

2003 - Jacques Chirac

2004 - Jacques Chirac

2005 - Jacques Chirac

2006 - Jacques Chirac

Um decénio completo sob a presidência de Chirac, discípulo político do general De Gaulle. Conservador, beneficiou no entanto do voto maciço da esquerda contra Jean Marie Le Pen na segunda volta das presidenciais de 2002.

 

 

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2007/16

2007 - Nicolas Sarkozy

2008 - Nicolas Sarkozy

2009 - Nicolas Sarkozy

2010 - Nicolas Sarkozy

2011 - Nicolas Sarkozy

2012 - François Hollande

2013 - François Hollande

2014 - François Hollande

2015 - François Hollande

2016 - François Hollande

Uma década repartida em partes iguais entre a direita e a esquerda. Na segunda metade da década em contraciclo com a Alemanha e o Reino Unido, onde predominaram os conservadores.

 

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Balanço: a direita política dominou o Eliseu em 31 dos últimos 50 anos (percentagem: 62%). Com cinco presidentes: De Gaulle, Pompidou, Giscard, Chirac e Sarkozy.

O Partido Socialista teve dois inquilinos no palácio presidencial durante este meio século (percentagem: 38%). Com apenas dois titulares: Mitterrand e Hollande.

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EUA: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 02.11.16

Em vésperas da eleição presidencial norte-americana, vale a pena lançar um olhar retrospectivo pelo último meio século, lembrando quem foram os anteriores inquilinos da Casa Branca e a que partido pertenciam.

Faço aqui essa evocação recorrendo às cores tradicionais do Partido Republicano (vermelho) e do Partido Democrata (azul) para identificar os presidentes que dominaram cada ano deste meio século. E dividindo este período por cinco décadas, para uma consulta mais fácil.

Tenciono fazer o mesmo em breve com outros países já com eleições marcadas a curto prazo.

 

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1967/76

1967 - Lyndon Johnson

1968 - Lyndon Johnson

1969 - Richard Nixon

1970 - Richard Nixon

1971 - Richard Nixon

1972 - Richard Nixon

1973 - Richard Nixon

1974 - Richard Nixon

1975 - Gerald Ford

1976 - Gerald Ford

Década dominada por presidentes republicanos, que ocuparam a Casa Branca durante oito anos. Nixon foi a figura principal.

 

 

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1977/86

1977 - Jimmy Carter

1978 - Jimmy Carter

1979 - Jimmy Carter

1980 - Jimmy Carter

1981 - Ronald Reagan

1982 - Ronald Reagan

1983 - Ronald Reagan

1984 - Ronald Reagan

1985 - Ronald Reagan

1986 - Ronald Reagan

O Partido Republicano voltou a ser a força dominante, com Reagan ocupando a presidência durante seis anos desta década.

 

 

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1987/96

1987 - Ronald Reagan

1988 - Ronald Reagan

1989 - George Bush

1990 - George Bush

1991 - George Bush

1992 - George Bush

1993 - Bill Clinton

1994 - Bill Clinton

1995 - Bill Clinton

1996 - Bill Clinton

Outra década com maioria republicana. Figura dominante: Bush, somando os quatro anos da sua presidência ao período em que foi vice-presidente com Reagan.

 

 

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1997/06

1997 - Bill Clinton

1998 - Bill Clinton

1999 - Bill Clinton

2000 - Bill Clinton

2001 - George W. Bush

2002 - George W. Bush

2003 - George W. Bush

2004 - George W. Bush

2005 - George W. Bush

2006 - George W. Bush

Voltou a haver predomínio republicano ao longo deste período: Bush - filho do antigo presidente - ocupou a presidência em 60% deste período.

 

 

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2007/16

2007 - George W. Bush

2008 - George W. Bush

2009 - Barack Obama

2010 - Barack Obama

2011 - Barack Obama

2012 - Barack Obama

2013 - Barack Obama

2014 - Barack Obama

2015 - Barack Obama

2016 - Barack Obama

Nenhuma dúvida: década dominada pelo primeiro presidente com origem africana. Também a única com maioria democrata.

 

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Balanço: o Partido Republicano dominou a Casa Branca em 28 dos últimos 50 anos (percentagem: 56%). Com cinco presidentes: Nixon, Ford, Reagan, Bush pai e Bush filho.

O Partido Democrata dominou os 22 anos restantes (44%). Com quatro presidentes: Johnson, Carter, Clinton e Obama.

 

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"Ficar calado equivale a mentir"

por Pedro Correia, em 12.10.16

 

O melhor discurso do século XX foi proferido faz hoje 80 anos, em Salamanca, por um filósofo basco prontamente condenado à morte civil. Constituiu um dos mais relevantes exemplos de coragem cívica, inteireza moral e ética política de que há memória.

Ocorreu na fase inicial da guerra civil de Espanha, na cidade de Salamanca, no dia 12 de Outubro de 1936. Foi proferido de improviso, na universidade desta urbe castelhana, pelo reitor vitalício do secular estabelecimento de ensino, o basco Miguel de Unamuno, figura cimeira da cultura espanhola.

Unamuno, um intelectual ferozmente independente, tecera fortes críticas ao rumo descontrolado do regime republicano que vigorou em Espanha entre 1931 e 1936, tendo acolhido com palavras de simpatia o alzamiento em Julho de 1936. Durou pouco a sua adesão ao golpe liderado pelo general Franco: os morticínios das primeiras semanas de guerra revelaram-lhe a verdadeira natureza da rebelião, nacional só de rótulo.

No início de Outubro, reuniu-se com Franco para lhe pedir clemência por diversos amigos de esquerda que tinham sido detidos em território controlado pelos falangistas. Esforço inútil: acabaram quase todos fuzilados.

Nesse dia 12, perante o governador civil de Salamanca, o bispo da diocese e a esposa de Franco, o general Millán Astray - inválido da guerra em Marrocos - proferiu uma diatribe contra o País Basco e a Catalunha, considerando-os "cancros do corpo da nação", terminando a sua arenga com a frase que criara para divisa da Legião Espanhola: "Viva a morte!" enquanto os braços se erguiam na saudação fascista.

 

Unamuno, já então um senhor de 72 anos, poderia ter-se remetido a uma atitude de cómoda indiferença. Mas não foi capaz. Levantou-se dignamente e pronunciou estas palavras de modo pausado mas firme:

"Esperais as minhas palavras. Conheceis-me bem e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. Por vezes, ficar calado equivale a mentir. Porque o silêncio pode ser confundido com concordância. Quero fazer alguns comentários ao discurso - para chamar-lhe assim - do general Millán Astray, que se encontra entre nós. Deixando de lado a ofensa pessoal que pressupõe a sua repentina explosão contra vascos e catalães. Eu próprio, como sabeis, nasci em Bilbau. O bispo [apontando para o prelado], queira ou não queira, é catalão de Barcelona."

Fez uma pausa. E prosseguiu:

"Mas acabo de escutar o insensato e necrófilo grito 'Viva a morte!' E eu, que passei a vida a cultivar paradoxos que irritavam alguns incapazes de entendê-los, tenho de dizer-vos, como especialista na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. O general Millán Astray é um inválido. Não é necessário dizermos isto em voz baixa. Ele é um inválido de guerra. Também Cervantes o foi. Mas, por desgraça, há hoje em Espanha demasiados mutilados. E, se Deus não nos ajudar, em breve haverá muitíssimos mais. Atormenta-me pensar que o general Millán Astray pudesse ditar as normas da psicologia das multidões. De um mutilado a quem falte a grandeza espiritual de um Cervantes é de esperar que encontre um terrível alívio ao ver como se multiplicam os mutilados em seu redor."

 

O general, acometido de fúria perante estas palavras, começou então a gritar: "Abaixo a inteligência! Viva a morte!" Provocando a entusiástica adesão dos falangistas ali presentes, que gritaram em uníssono com ele.

Mas Unamuno ainda não tinha terminado. E concluiu assim:

"Este é o templo da inteligência. E eu sou o seu sumo-sacerdote. Estais profanando o seu recinto sagrado. Vencereis porque tendes, de sobra, a força bruta. Mas não convencereis. Para convencer há que persuadir. E para persuadir necessitaríeis de algo que vos falta: razão e direito na vossa luta. Parece-me inútil pedir-vos que penseis em Espanha. Tenho dito."

 

Palavras que soaram como denúncia da fanática brutalidade dos esbirros de Franco. Palavras que custaram o cargo e a vida a Unamuno: de imediato destituído das funções de reitor, confinado a prisão domiciliária, o filósofo basco viria a morrer dois meses mais tarde, no último dia desse ano tão trágico.

Mas o eco das suas palavras, fruto de uma vontade indómita, prolongou-se muito para além dos horrores daquela guerra. Como admirável exemplo de resistência contra a barbárie - tenha a cor que tiver, seja em que época for.

 

Imagem: Unamuno (ao centro, de barbas) abandonando a Universidade de Salamanca a 12 de Outubro de 1936, acossado por falangistas. Faz hoje 80 anos.

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Nomes para quase todos os gostos

por Pedro Correia, em 05.10.16

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Ao longo de 770 anos da monarquia portuguesa, houve apenas 16 nomes no cargo supremo do Estado – 15 masculinos e um feminino. Concretamente, sentaram-se no trono seis reis de nome Afonso, outros seis de nome João e cinco reis chamados Pedro. Nomes de monarcas foram também Sancho (dois reis), Dinis (um), Fernando (dois), Duarte (um), Manuel (dois), Henrique (um), Sebastião (um), Filipe (três), José (um), Miguel (um), Luís (um) e Carlos (um). Além de duas rainhas chamadas Maria, que ascenderam ao trono por morte ou abdicação de seus pais, D. José e D. Pedro IV.

A implantação da república, faz hoje 106 anos, permitiu elevar à chefia do Estado alguns nomes próprios que seriam inimagináveis num monarca. Só a república nos deu Teófilos, Sidónios, Bernardinos, Óscares, Higinos e Américos. Só em república alguém chamado Aníbal atingiu o cume da pirâmide do Estado.
Mas o nome mais republicano, aparentemente, é António – único com que foram baptizados presidentes dos três ciclos republicanos ao longo deste século. Na I República houve António José de Almeida (1919-23), único presidente que completou o seu mandato durante os anos inaugurais do regime. No Estado Novo, pontificou o presidente António Óscar Fragoso Carmona (1926-51), o de mais longo mandato republicano. E no regime subsequente ao 25 de Abril de 1974 já vamos em três chefes do Estado com esse nome: António Sebastião Ribeiro de Spínola (1974), António dos Santos Ramalho Eanes (1976-86) e Aníbal António Cavaco Silva (2006-16).
Curiosamente, sendo António um nome tão português, nunca houve um rei António, legalmente reconhecido como tal, embora D. António, prior do Crato, tenha chegado a ser proclamado monarca em 1580 por sectores do povo, inconformados – ao contrário das supostas elites – com a anexação a Espanha. Já Manuel é um nome comum a reis e presidentes: o primeiro Chefe do Estado republicano foi Manuel de Arriaga (1911-15), o último da I República foi Manuel Teixeira Gomes (1923-25). E também tinha esse nome o primeiro líder do regime ditatorial – o marechal Manuel Gomes da Costa (1926).
 

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Nenhum presidente português terá sofrido tanto no exercício do mandato como o almirante João de Canto e Castro. Não só porque ascendeu ao poder quando era ministro da Marinha, na sequência da trágica morte de Sidónio Pais, baleado na estação do Rossio, em Lisboa, a 14 de Dezembro de 1918, mas também porque era monárquico. E viu-se forçado a reprimir a revolta monárquica de Janeiro de 1919, restabelecendo a legalidade republicana contra as suas convicções mais íntimas. O seu mandato durou dez meses. Morreu 15 anos depois, totalmente retirado da vida política.
No século XIV, Portugal esteve quase a ter uma rainha chamada Beatriz: era a filha única do rei D. Fernando, falecido em 1383. Mas as cortes de Coimbra negaram-lhe essa pretensão, entregando a coroa a uma nova dinastia, protagonizada pelo Mestre de Aviz, D. João I. Outros príncipes reais faleceram antes de chegar a reis: D. Afonso (seria o VI), filho de D. João II, em 1491; D. Teodósio, primogénito de D. João IV, em 1653; D. José (seria o II), filho de D. Maria I, em 1788; e D. Luís Filipe, filho de D. Carlos, em 1908.
Joaquim Teófilo Fernandes Braga (1915), Bernardino Luís Machado Guimarães (1915-17; 1925-26), Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (1917-18), José Mendes Cabeçadas Júnior (1926), Francisco Higino Craveiro Lopes (1951-58), Américo de Deus Rodrigues Thomaz (1958-74), Francisco da Costa Gomes (1974-76), Mário Alberto Nobre Lopes Soares (1986-96) e Jorge Fernando Branco de Sampaio (1996-2006) foram os outros chefes do Estado republicanos. Há sete meses chegou ao Palácio de Belém Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa.
Nenhum Sancho, nenhum Dinis. Nem Henrique, Filipe, Miguel ou Carlos. E sobretudo nem vestígio de Maria: até hoje não houve nenhuma mulher na chefia do Estado republicano.
Neste ponto a monarquia estava mais avançada.
 
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Imagens: D. Afonso Henriques (1); Manuel de Arriaga (2); D. Maria I (3); João Canto e Castro (4)

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As duas Espanhas

por Pedro Correia, em 18.07.16

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«Nos duele esta España eterna.»

Pedro G. Cuartango

 

No 80.º aniversário do início da Guerra Civil de Espanha, hoje assinalado, é patente que as marcas deste conflito permanecem cristalizadas em sectores políticos e mediáticos do país. Há referências insistentes às “duas Espanhas” – a franquista e a republicana – e reedita-se em colunas de jornal o espírito de trincheira que dilacerou o país durante um triénio sangrento – de Julho de 1936 a Março de 1939. Não falta quem procure fazer tábua rasa do espírito da transição protagonizada nos anos imediatos do pós-franquismo pelo Rei Juan Carlos e pelo então primeiro-ministro Adolfo Suárez, um dos mais hábeis estadistas europeus da segunda metade do século XX.

A Lei de Amnistia, de 15 de Outubro de 1977, e a Constituição, aprovada pelas Cortes em 31 de Outubro de 1978, selaram um pacto duradouro entre essas duas Espanhas que se defrontaram ferozmente nos campos de batalha. Desenterrar os fantasmas do passado é de uma irresponsabilidade sem limites, numa proporção inversa ao espírito de concórdia que animou todos os sectores da sociedade espanhola naqueles dias de recuperação da liberdade após os anos de chumbo do franquismo – da Aliança Popular liderada por Manuel Fraga Iribarne, ex-ministro de Franco, ao Partido Comunista de Espanha (PCE), onde então pontificavam figuras quase mitológicas, como La Pasionaria e o poeta Rafael Alberti, além do próprio secretário-geral, Santiago Carrillo.

 

No debate da Lei de Amnistia, falando precisamente em nome do PCE, o sindicalista Marcelino Camacho, líder histórico das Comissões Operárias, deixou bem claro que o seu partido tinha “enterrado os seus mortos e os rancores”, decidindo “apagar o passado de uma vez para sempre”. Pondo assim em prática a política de reconciliação nacional aprovada pelo Comité Central em Junho de 1956.

 

É criminoso fomentar o mito das duas Espanhas. Convém ter sempre presente, a propósito disto, um dos mais notáveis discursos de que há memória no país vizinho, proferido no município de Barcelona em 1938, pelo presidente espanhol Manuel Azaña. A guerra estava no auge, com centenas de milhares de vítimas já contabilizadas, e anteviam-se ainda muitos combates sangrentos. Azaña proferiu então as palavras que se impunham - mas que ninguém parece ter escutado durante décadas:

“Quando a tocha passar a outras mãos, a outros homens, a outras gerações, se alguma vez sentirem que lhes ferve o sangue iracundo e outra vez o génio espanhol voltar a enfurecer-se com a intolerância e o ódio e o apetite de destruição, devem pensar nos mortos e escutar a lição que nos transmitem: esses homens que caíram embravecidos na batalha, lutando magnanimamente por um ideal grandioso e que agora, abrigados na terra materna, já sem sentirem ódio nem alimentarem rancor, enviam-nos com o fulgor da sua luz, tranquila e remota como a de uma estrela, a mensagem da pátria eterna que diz a todos os seus filhos: paz, piedade, perdão.”

 

Estas palavras imortais de Azaña, figura trágica desses anos em que o incêndio de Espanha antecipou a mais devastadora de todas as guerras, deviam ressoar hoje como o dobre de um sino em sinal de alerta. Quem não aprende com os erros da História está condenado a repeti-los.

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A Spatha e o Gladius

por Bandeira, em 10.05.16

Como deve ter sido aterradora para um disciplinado legionário romano, essa visão de milhares de bárbaros inteiramente nus, deslizando nos seus escudos como snowboarders pelas pistas nevadas dos Alpes, os corpos e os cabelos pintados e urrando como alguém que acaba de descobrir que lhe cobraram duas garrafas a mais na conta do restaurante. Mas suponho que o efeito se diluísse um pouco após a primeira carga do inferior ferro celta no scutum romano. Imagine um gigante – quero dizer, gigante quando comparado com um legionário baixinho: com 1,60m um romano já arranjava namorada –, guedelhudo, pintado com motivos de papel de parede do início dos anos 70, meio enterrado na neve, querendo muito emprestar alguma dignidade ao acto de tentar endireitar a lâmina da sua espada.

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Notas políticas (2)

por Pedro Correia, em 10.11.15

O segundo executivo de coligação PSD/CDS liderado por Passos Coelho, derrubado escassos 11 dias após a tomada de posse, figuraria em quarto lugar entre os governos de mais curta duração desde a proclamação da república se a sua exoneração produzisse efeitos a partir de hoje.

Álvaro de Castro (primeiro-ministro só durante dez dias, à frente do 27º Governo republicano, de 20 a 30 de Novembro de 1920) e António Maria da Silva (que liderou o 36º Governo durante sete dias, entre 30 de Novembro e 7 de Dezembro de 1922) estiveram ainda menos tempo em funções. Mas o recorde absoluto cabe a Francisco Fernandes Costa, líder do 22º Governo, empossado e exonerado no mesmo dia, a 5 de Janeiro de 1920 .

Chamou-se, com toda a propriedade, o "governo dos cinco minutos".

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Onde acabam as utopias ou «O mais humano dos homens»

por José António Abreu, em 07.11.15

Ao ler Zazúbrin, pensamos finalmente num terceiro autor, mestre no domínio do sarcasmo político e do ódio de classe: Vladímir Lenine. E principalmente no seu estilo telegráfico, que nem John dos Passos ou Hemingway seriam capazes de sonhar. Para compreender todo o realismo de Zazúbrin, é preciso ler alguns telegramas desse «homem, o mais humano dos homens», como o qualifica a propaganda do partido.

 

«Ao camarada Zinóviev, em Petrogrado:

Camarada Zinóviev! Acabamos de saber hoje, no Comité Central, que em Petrogrado os operários querem responder ao assassínio de Volodarski com um terror de massas e que você os impediu. Protesto energicamente! Fazer isso é comprometer-nos: mesmo nas resoluções do Soviete agitamos a ameaça do terror de massas, mas assim que se trata de passar à acção, travamos a iniciativa revolucionária, perfeitamente justa, das massas. Isso é impossível! É preciso encorajar a energia e o carácter de massas do terror.»

26 de Novembro de 1918

 

«Ao comité executivo de Penza:

É indispensável aplicar um terror de massas sem piedade contra os kulaks, os popes e os guardas brancos. Fechar os suspeitos num campo de concentração fora da cidade. Telegrafar execução.»

9 de Agosto de 1918

 

«Ao camarada Fiódorov, presidente do comité executivo de Nijni-Nóvgorod:

Em Nijni prepara-se manifestamente uma insurreição dos guardas brancos. É preciso mobilizar todas as forças, aplicar imediatamente o terror de massas, fuzilar e deportar as centenas de prostitutas que embebedam os soldados, os antigos oficiais, etc. Sem perder um minuto.»

9 de Agosto de 1918

 

«Ao camarada Chliápnikov em Astracã:

Aplique todas as suas forças em apanhar e fuzilar os prevaricadores e os especuladores de Astracã. É preciso ajustar contas com essa escumalha de modo que nunca mais se esqueçam.»

12 de Dezembro de 1918

 

«Telegrama ao camarada Pajkes em Saratov:

Fuzilem sem perguntar nada a ninguém e sem delongas imbecis.»

22 de Agosto de 1918

 

Hoje os reformadores oficiais do sistema soviético atribuem todos os pecados a José Estaline, filho de sapateiro, embranquecendo o governo de Vladímir Lenin, filho de professor, «justo e justificado», porque se começamos a criticar também esse período da história soviética, o partido perderá tudo o que lhe resta, e em primeiro lugar a justificação do seu poder actual. Lenine criou a Tcheka num dos seus primeiros decretos. Os bolcheviques, que tinham tomado o poder através de um golpe de Estado militar (eles próprios não qualificavam Outubro de 1917 como revolução; esse mito nasceu mais tarde), não poderiam continuar a ocupá-lo sem essa máquina de extermínio e de terror. De facto, a história do poder soviético é precisamente a história da Tcheka, desde os primeiros anos do terror «de classe», entre os mais cruéis que existiram, até à transformação da Tcheka-NKVD no KGB moderno, cuja esfera de acção abrange todas as coisas, passando pelo período estalinista que custou a vida a milhões de vítimas (os historiadores chegam hoje a um número superior a trinta milhões de mortos).

 

Do prefácio de Dmitri Savitski ao livro O Tchekista, de Vladímir Zazúbrin, editado em 2012 pela Antígona com tradução de António Pescada. Tanto o prefácio como o livro tiveram publicação original em 1989, apesar do segundo - ler crítica aqui - estar escrito desde 1923. Os telegramas foram recolhidos pelo russo Venedikt Eroféiev. Como seria de esperar, Zazúbrin acabou fuzilado (em 1938).

 

Dedicado a quem, ainda hoje (ver comentários), tenta usar Estaline para desculpar Lenine.

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As coisas são o que são

por Pedro Correia, em 13.10.15

Se a lógica que alguns socialistas defensores da "unidade de esquerda" para entronizar o derrotado António Costa em São Bento tivesse sido levada à prática nas quatro décadas de vigência da Constituição de 1976, Mário Soares e António Guterres - eleitos sem maioria absoluta - nunca teriam sido primeiros-ministros. É quanto basta para se perceber até que ponto a prática constitucional ameaça ser distorcida por estes dias.

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Brincar às independências

por Pedro Correia, em 23.09.15

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O actual mapa político da Europa regeu-se até 2008 por um princípio basilar da Conferência de Ialta: nenhuma independência unilateral deve ser reconhecida no Velho Continente ao sabor de conveniências de circunstância, sob pena de tornar cada vez mais instáveis as relações internacionais. Desenhar fronteiras de acordo com critérios étnicos, religiosos, linguísticos ou de tribo, com o aval de analistas politicamente correctos, pode ser uma tentação para alguns caudilhos regionais mas é um acto indigno de estadistas.

O perigoso precedente foi inaugurado nesse ano pela "independência" do Kosovo, caucionada pelos Estados Unidos para punir a Sérvia e estribada num inaceitável predomínio étnico que legitimaria - por exemplo - o imediato levantamento insurreccional no País Basco contra os estados espanhol e francês. Moscovo respondeu também em 2008 com o reconhecimento das "independências" da Abcásia e da Ossétia do Sul, protectorados russos na Geórgia. A criação destes "bandustões" no Cáucaso demonstrou uma brutal incoerência: os russos, aliados da Sérvia, tinham estado na primeira linha dos protestos contra a "independência" do Kosovo, já para não falar na asfixia do movimento secessionista na Chechénia.

 

Aberta a caixa de Pandora em pleno século XXI, parece que recuámos duzentos anos na história. Eis-nos novamente no início do século XIX, nacionalista e fragmentário. Com a Bélgica sempre prestes a implodir devido ao interminável conflito entre flamengos e valões. Com os húngaros que não deixam de agitar-se na Voivodina e na Transilvânia. Com galeses e escoceses, sem falar de parte dos irlandeses do norte, de costas viradas para Londres. Com as eternas clivagens regionais no frágil estado italiano, onde se elevam vozes radicais pela independência da Padânia, capitaneadas pela Liga Norte. Com as crescentes aspirações dos autonomistas corsos em clivagem aberta com o centralismo jacobino do Estado francês. Com as reivindicações históricas germânicas, ciclicamente renovadas em círculos extremistas, à restituição da Alsácia e da Lorena (em França) e de Trentino-Alto Ádige (na Itália). Com fortes minorias étnicas aspirando à reconfiguração do mapa político em países como a Letónia, a Macedónia e a Croácia. Com a guerra civil de média intensidade que se prolonga no leste da Ucrânia entre russófilos e russófobos. Com os problemas territoriais mal cicatrizados entre polacos e alemães, finlandeses e russos, húngaros e romenos. Com os conflitos seculares entre gregos e turcos, centrados na ilha de Chipre, dividida desde 1974.

 

Num mundo que se vai organizando em blocos regionais para enfrentar os desafios da globalização, a Europa caminha em passo trocado, separando-se em vez de se unir. Visto de outros continentes, aquele em que vivemos surge como um reduto cada vez mais frágil e bipolar, sedento de reavivar glórias passadas enquanto cede à permanente tentação da utopia.

Ressurge agora a pulsão nacionalista na Catalunha, que nunca foi um Estado independente. As eleições autonómicas de domingo estão a ser transformadas numa espécie de plebiscito à independência da região, que goza de órgãos políticos próprios dotados de amplos poderes, reconhecidos na Constituição espanhola de 1978. E alguns elementos mais extremistas sonham já com uma "grande Catalunha livre", que integre o arquipélago das Baleares, parte do País Valenciano, uma parcela oriental do território aragonês, Andorra, a Alta Sardenha e o departamento francês dos Pirenéus Orientais, onde se integra  o Rossilhão. Tudo em nome de pretensos direitos históricos, mais que contestáveis.

O presidente autonómico, Artur Mas, já prometeu que proclamará em 2017 a "República Catalã" se as forças pró-independência tiverem maioria simples no elenco parlamentar que resultará deste escrutínio - bastando-lhes para o efeito um lugar a mais do que a soma das forças constitucionalistas. É uma tese absurda: não existem declarações de independência quando apenas metade da população, no máximo, aspira a tal objectivo. A independência ou é um projecto colectivo ou não é nada. 

A Catalunha será sempre os que os seus cidadãos decidirem, mas num quadro de legalidade democrática. Não será uma minoria iluminada de catalães a decidir por todos. Muito menos os catalães "bacteriologicamente puros", que aliás são minoria na Catalunha. As famílias catalãs e castelhanas ou andaluzas ou valencianas ou aragonesas estão misturadas há séculos. E ainda bem.

 
A Europa - cada vez mais interdependente - não deve brincar às independências, dando lastro aos nacionalismos. Sempre redutores, sempre identitários, sempre com traços xenófobos centrados no ódio ao "estrangeiro".

Não esqueçamos: no século XX os nacionalismos exacerbados, postos em confronto, provocaram 80 milhões de mortos no Velho Continente. Tudo quanto contribua para o seu arrefecimento - e já nem falo na sua diluição - será sempre uma boa notícia para a Europa.

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"Dr. Brüning assumed office on March 29th, 1930, with a damnosa hereditas in the shape of the Young Plan, which had been negotiated by his predecessors, and the complete absence of any Budget. In view of the continued refusal of the Reichstag to take the financial situation seriously, Dr. Brüning in July, 1930, took the extreme step of advising President von Hindenburg to utilise his power under Article 48 of the Constitution to prorogue the Reichstag. For the subsequent two years the financial policy of Germany has been directed through a series of Emergency Decrees which by means of a system of increased taxation and drastic economy essayed to balance the Budget. Salaries of civil servants were cut to a point of 10 per cent to 13 1/2 per cent, lower than they were during the years 1927-1930, and the salaries of Reichsministers were decreased by 30 per cent. (...) at the beggining of June 1931 the deficit on the Budget was estimated at some £ 47 million. It was at this moment that Dr. Brüning came to London to the Chequers Conference. For some weeks before he had been urgently advised to declare the inability of Germany to meet her Reparations payments even without the ninety days´notice required under the Young Plan. (...) There can be no doubt, however, that both official and public opinion in Germany expected and believed that he would return from England with the approval of the British Government for the declaration of a moratorium, and it was in preparation for this both at home and abroad that President vom Hindenburg´s Manifesto to the German people was issued on June 6th. (...) These burdens of taxation and economy cuts, together with the complete lack of sucess of German´s foreign policy, provided ample grist for the Nazi mills." - John W. Wheeler-Bennett, The German Political Situation - Address given at the Chatham House on June 20th, 1932, International Affairs (Royal Institute of International Affairs 1931-1939), Vol. 11. No. 4 (Jul. 1932), p. 460-472

 

"Debt crises made the major international depression - the world slump of 1929-32 - much more severe and damaged the international political order. The German collapse is a terrifying demonstration of the long-run political as well as economic effect of debt crises. The German central state and the municipalities had borrowed so much that already in 1929 the most conservative and respectable American bankers had become skeptical about German conditions. `The Germans,` J. P. Morgan, Jr., concluded pithily, were fundamentally `second-rate people`, and he stopped his house from lending. (...) In the summer of 1931, a crisis erupted - caused by massive German capital flight and by German fears of political instability. (...) Despite their restraint in the crisis, the foregin banks were blamed for the collapses (a characteristic illustration of the first principle of debt crises: someone else is responsible for them). In 1932 and 1933, it was one of the most appealing parts of the Nazi party´s propaganda campaings that German´s misfortune was the result of a conspiracy of international and Jewish financiers. And after the Nazi seizure of power, the high volume of foreign debt tied into Germany was even used as a weapon of diplomacy. (...) The German case illustrates a second principle of debt crises as well: frozen debt can be used to devastating effect in a sort of blackmail attempt. The more highly indebted a country - and the more hopeless its situation when it comes to repaying debt - the more likely itis to adopt an agressively nationalist stance, and the more likely it is to believe that the fault lies with the creditors, not the debtors: the creditors should be made pay for their past immorality." - Harold James, Deep Red - The International Debt Crisis and Its Historical Precedents, American Scholar, June 1, 1987, pp. 331-341.    

 

Sabe-se o que aconteceu depois. Lausanne não foi a primeira, nem a segunda, nem a última vez que os alemães, a despeito da sua incapacidade, receberam um perdão de dívida. Este acordo mereceu a oposição dos nazis, que queriam a demissão dos negociadores. Esperavam um perdão total da sua dívida e não apenas parcial. Hoje, uma solução que salve o euro, a face da Grécia e dos credores, recolocando os extremistas no seu lugar, parece ser mais premente do que andar a bater no infeliz Tsípras e no Syriza. Mas há quem não veja isso. A Aurora Dourada, Nigel Farage, Mme. Le Pen, os "nacionais-populistas" lusos, todos continuam à espreita de uma oportunidade. Memória curta, para não dizer outra coisa.

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Churchill: um herói do século XX

por Pedro Correia, em 24.01.15

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De entre as figuras que se impuseram no século XX, fosse para o bem ou para o mal, Winston Churchill foi a mais importante para a humanidade, e foi também a mais amável de todas. Não há outra personalidade da qual se possam extrair tantas lições, em especial para a juventude: a tirar partido de uma infância difícil; a aproveitar ao máximo todas as oportunidades, físicas, morais e intelectuais; a ousar em grande, para reforçar o êxito e ultrapassar os inevitáveis fracassos; e a ter ambições elevadas, aplicando-lhes toda a energia e paixão, sem deixar de cultivar a amizade, a generosidade, a compaixão e a elevação moral."

Paul Johnson, Churchill

 

Winston Spencer Churchill, filho de um aristocrata inglês e de uma beldade norte-americana, recebeu notas medíocres como estudante e jamais foi tratado com afecto pelo pai, um indivíduo propenso a depressões. Tinha todos os requisitos para ser considerado uma "criança problemática", de acordo com um jargão agora muito em voga, mas foi o mais bem sucedido político britânico de todos os tempos.

Era, simultaneamente, um homem de reflexão e um homem de acção. Escreveu excelentes obras, como The World Crisis (1923/27) e Aftermath (1929). Os seis volumes das suas memórias sobre a II Guerra Mundial - na qual foi um dos grandes protagonistas -, concluídos em 1951, tinham vendido mais de seis milhões de exemplares só em língua inglesa dois anos mais tarde, quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Pintou mais de 500 quadros - "mais do que muitos pintores chegaram a pintar em toda a vida", como acentuou Paul Johnson na biografia do homem que foi deputado durante 55 anos, ministro (do Interior, da Marinha, das Colónias e das Finanças) durante 31 e primeiro-ministro - em dois mandatos - durante quase nove.

 

Morreu faz hoje meio século, aos 90 anos, após uma vida intensa: combateu como militar em 15 batalhas em quatro continentes (Cuba, Índia, Sudão, África do Sul na guerra dos Boers e Flandres durante a I Guerra Mundial), e recebeu 14 condecorações de guerra. Viu a morte várias vezes à sua frente, mas nunca perdeu a alegria de viver. Publicou quase dez milhões de palavras ("mais do que muitos escritores profissionais publicam ao longo de toda a vida"), teve um casamento feliz que durou 56 anos e terá bebido perto de 20 mil garrafas de champanhe, a sua bebida favorita.

Expressões hoje de uso corrente foram cunhadas ou popularizadas por ele - Médio Oriente, Cortina de Ferro, "sangue, suor e lágrimas". Foi o primeiro político a fazer com os dedos o V da vitória, gesto que quase todos os outros depois dele adoptaram. Era um grande caçador e um viajante infatigável: deu várias vezes a volta ao mundo. Desportista, praticou pólo até aos 53 anos. Não escondia o fascínio pelo cinema. Adorava conduzir e tinha brevet de aviador.

Cometeu muitos erros, mas acertou nas opções essenciais. Como quando levantou a sua voz solitária no Reino Unido contra o avanço das hordas nazis que na década de 30 iam devorando a Europa, país após país. Ou quando criticou sem reservas o seu antecessor, Neville Chamberlain, adepto do "apaziguamento" com Hitler. "Toda a história do mundo teria sido diferente se ele não tivesse assumido o poder em 1940", assinalou ontem o jornalista John Simpson na BBC.

Disfrutava de autoridade natural mas nunca se levou excessivamente a sério: no auge do seu poder, todos os britânicos lhe chamavam Winston.

 

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Se existem figuras exemplares, Churchill foi uma delas. "Era um homem de coragem, que é a mais importante de todas as virtudes, e um homem de fortaleza, que é a companheira da coragem - recursos que são inatos, mas que também podem ser cultivados, e que Churchill cultivou toda a vida", escreveu Paul Johnson na excelente biografia do homem que se bateu quase isolado contra Hitler.

O historiador britânico é um admirador confesso de Churchill, com quem se cruzou uma vez, quando tinha apenas 17 anos. Foi em 1946. O então adolescente perguntou-lhe: "Senhor Churchill, a que atribui o sucesso que teve na vida?" Resposta pronta do político que no ano anterior emergira como um dos vencedores da II Guerra Mundial: "À conservação da energia. Nunca se levante se pode estar sentado, nunca se sente se pode estar deitado."

 

Um liberal de sempre, Churchill nunca se deixou abater pelos desaires e costumava dizer, cheio de razão: "Não há nada mais esgotante do que o ódio."

Na biografia que lhe dedicou (Churchill, Alêtheia, 2010) Johnson prestou justiça àquele que foi talvez o maior tribuno parlamentar do século XX, dotado de uma eloquência que nunca deixou de ser temperada com uma pitada de humor. Mesmo nos momentos mais dramáticos, como sucedeu a 4 de Junho de 1940, ao discursar na Câmara dos Comuns na qualidade de recém-empossado primeiro-ministro, já com Paris ocupada pelas tropas nazis. "Lutaremos nas praias, lutaremos nas pistas de aterragem, lutaremos nos campos e nas cidades, lutaremos nas montanhas. Lutaremos sem jamais nos rendermos", afirmou, numa alocução que se tornou célebre.

Logo acrescentando, num aparte em sotto voce: "E lutaremos com ancinhos e vassouras porque não teremos mais nada."

Winston era assim.

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A última manhã de John Kennedy

por Pedro Correia, em 22.11.14

 

Imagens que permaneceram inéditas durantes longos anos. Imagens que ainda hoje comovem e impressionam. As da última manhã de vida de John Fitzgerald Kennedy, 35º presidente dos Estados Unidos, assassinado numa sexta-feira, faz hoje 51 anos. Ao pequeno-almoço em Fox Worth, perante duas mil pessoas, ofereceram-lhe um típico chapéu texano que ele prometeu usar na segunda-feira seguinte, na Casa Branca.

Nunca viria a cumprir a promessa. Tudo porque a chuva matutina em Dallas deu lugar a um radiante sol de Outono. Foi quanto bastou para que a capota do Lincoln Continental, a limusina do presidente, fosse recolhida e o veículo rodasse descapotável pelas ruas da cidade.

"Um caloroso acolhimento ao presidente. Não houve perigo de qualquer espécie. E não há vestígio de reacções adversas à visita presidencial. Foi um grande espectáculo: Dallas não voltará a ver outro durante muito tempo", declarou o jornalista que relatava a emissão televisiva em directo no momento em que a caravana presidencial fazia a curva em cotovelo na Praça Dealey, virando à esquerda para entrar na Elm Street.

A última curva na vida de Kennedy. Segundos depois das palavras insolitamente proféticas do jornalista, um tiro disparado de uma janela do terceiro andar de um armazém de livros escolares desfez a caixa craniana do homem mais poderoso do planeta, mudando a história dos EUA.

Um golpe do acaso conduziu ao fatídico desfecho, pressionando o dedo que o assassino já tinha no gatilho. E tudo poderia ter sido bem diferente: bastaria que a chuva tivesse continuado a cair em Dallas durante mais um par de horas.

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A inapagável palavra Liberdade

por Pedro Correia, em 08.11.14

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«Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.»

 

 

Eu fui lá e vi.

Lembro-me como se fosse hoje. Foi numa manhã fria e cinzenta de Abril, por meados da década de 80. Tinha eu 21 anos e estava em Berlim com três colegas de profissão: a Isabel Stilwell, o Luís Marinho, o Jerónimo Pimentel. Nesse dia fomos ao outro lado. Cruzando o Muro da Vergonha que desde 1961, por imposição dos soviéticos, rasgava a meio a antiga capital do Reich. Como incisão de bisturi na pele, separando bairros da mesma cidade, fracturando ruas dos mesmos bairros, até fragmentando casas das mesmas ruas que permaneceram emparedadas durante aquelas tristes décadas em que Berlim-Ocidental, na certeira definição de John Kennedy, era a fronteira mais avançada do mundo livre.

Cruzámos a linha divisória por via ferroviária, na estação de metropolitano de Friedrichstrasse, após termos sido forçados a trocar marcos ocidentais por marcos orientais artificialmente cotados em paridade pelo regime comunista, à revelia do valor real das moedas, como condição para transpor aquela fronteira artificial na cidade dividida.

Éramos muito poucos a fazer aquele percurso. Quase todos vinham em sentido inverso, de lá para cá. E eram todos velhos, que marchavam num silêncio mais eloquente que mil discursos. A ditadura de Erich Honecker só permitia deslocações de 24 horas a cidadãos aposentados.

 

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Do lado de lá, tudo diferente. A começar pelo muro - na verdade, duas muralhas paralelas (a segunda foi erguida em 1962) separadas por uma extensão de 100 metros, denominada Faixa da Morte pelos berlinenses. Riscado e coberto de grafitos na face virada para Berlim Ocidental, imaculado na metade comunista da cidade, de onde aliás ninguém podia acercar-se dele. Rodeado de redes metálicas electrificadas, implacavelmente resguardado por soldados armados até aos dentes em 302 torres de vigilância dispersas por 66 quilómetros de extensão.

Símbolo sinistro da Guerra Fria.

Símbolo supremo da falência de um sistema que prometia libertar os homens e afinal só os mergulhou na escravidão.

 

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Arrepiava a escassez de transeuntes do lado de lá.

Arrepiava ver as majestosas Portas de Brandemburgo colocadas em terra de ninguém, no termo da Unter der Linden, a maior avenida de Berlim.

Arrepiava o silêncio dominante. Em perfeito contraste com o fervilhante bulício da Berlim ocidental, "burguesa" e "capitalista".

Atravessámos a pé uma larga avenida onde não passavam carros e logo fomos interceptados pelo apito de polícias que acorreram ao nosso encontro exigindo inspecção minuciosa de passaportes. Acabaram por nos deixar prosseguir, mas com um solene aviso: proibido atravessar fora das passadeiras. Mesmo numa avenida onde quase não víamos circular veículos, excepto uns decrépitos Trabants leste-alemães, fontes ambulantes de poluição.

Tínhamos de gastar os marcos orientais, que só ali eram aceites. Era hora de almoço, procurámos algum sítio onde pudéssemos matar a fome. Mas naquela imensidão desértica a oferta turística estava reduzida a quase nada. Depois de muito procurarmos, lá nos enfiámos num sell service na Alexanderplatz, de tabuleiro na mão, a comer umas salsichas envoltas em gordura a preços astronómicos. E sem mais nenhum cliente por perto.

Acabámos por gastar a maior parte do dinheiro num sucedâneo de táxi que nos conduziu pela zona mais monumental de Berlim - que devido a um capricho do destino permaneceu após a II Guerra Mundial sob a tutela soviética da cidade - e numa breve incursão aos arrabaldes, onde havia uns bairros operários de aspecto moderno e finalmente pessoas a circular na rua.

No regresso, ainda entrámos num Armazém do Povo, com vários pisos, na esperança de gastarmos parte do dinheiro que nos sobrara. Mas a esmagadora maioria das prateleiras estava vazia. Não havia clientes, só funcionárias que nos ignoraram olimpicamente.

Trouxe de lá uns postais manhosos. O meu único recuerdo palpável da Berlim comunista.

 

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Foi o meu baptismo do "socialismo real" no segmento oriental da maior cidade germânica, na então denominada República Democrática Alemã - que nada tinha de democrático e tudo tinha de repulsivo logo ao primeiro olhar.

No regresso, enquanto nos cruzávamos novamente no posto fronteiriço com os velhos agora de regresso a casa após fugazes visitas a familiares no Ocidente, sentimo-nos testemunhas privilegiadas da História, no tempo e no espaço.

Mil vezes a caótica, barulhenta, transgressora Berlim Ocidental do que a organizada, vigiada e silenciada Berlim-Leste - a cidade de maior progresso e com maior prosperidade económica do bloco socialista, como rezava a propaganda.

Nos dias imediatos, observei ainda com mais atenção o "muro de protecção antifascista" mandado erguer por Nikita Krutchov "a pedido" do ditador comunista alemão Walter Ulbricht em 13 de Agosto de 1961 para impedir a contínua sangria de alemães de Leste, sobretudo jovens, rumo ao Ocidente. Três milhões e meio tinham escapado nos 15 anos anteriores.

De tantos em tantos metros, levantava-se uma cruz branca em memória de cidadãos do Leste alvejados mortalmente pela implacável guarda fronteiriça comunista ao procurarem fugir da ditadura.

Morreram largas dezenas ou mesmo centenas entre 1962 e 1989.

O primeiro foi um operário de 18 anos chamado Peter Fechter. O último - escassos sete meses antes da queda do muro - foi um estudante de 20 anos chamado Chris Gueffroy.

Só por terem ousado ser livres.

 

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Às vezes não há como ver para descrer.

Eu fui lá e vi.

Faz amanhã 25 anos, festejei com irreprimível alegria a queda do Muro da Vergonha. Festejei-a com os magníficos versos de Paul Éluard com que saudei o fim de outras ditaduras: «E pelo poder de uma palavra / Recomeço a vida / Nasci para te conhecer / Para te chamar // Liberdade.»

Nessa noite inesquecível de 9 de Novembro de 1989, milhares de habitantes de Berlim puderam pela primeira vez transpor a fronteira livres da absurda ameaça de poderem morrer alvejados pelos agentes do Estado. E também com eles, embora a milhares de quilómetros de distância, celebrei essa palavra tantas vezes pervertida e conspurcada na boca e no gesto de ditadores de todos os matizes, de todos os quadrantes, de todas as ideologias.

Uma palavra que não tem fronteiras, barreiras, Muro em Berlim.

A incómoda, imprevisível, inapagável palavra Liberdade.

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Penso rápido (54)

por Pedro Correia, em 01.10.14

Releio o fabuloso livro de memórias de Stefan Zweig, intitulado O Mundo de Ontem. Foi, dramaticamente, um livro-testamento: o célebre escritor judeu austríaco, refugiado no Brasil, suicidou-se em Janeiro de 1942 logo após a conclusão deste manuscrito.

Retenho, em particular, o capítulo em que Zweig nos descreve a atmosfera europeia nas semanas que antecederam a I Guerra Mundial. "Se hoje, reflectindo com toda a calma, perguntarmos por que motivo a Europa entrou na guerra em 1914, não encontramos uma única razão plausível e nem sequer um pretexto. Não estavam em jogo ideias, mal estavam em jogo as pequenas regiões fronteiriças; não encontro outra explicação que não seja o excesso de energia, consequência trágica daquele dinamismo interno que se tinha vindo a acumuilar ao longo desses 40 anos de paz e que queria agora libertar-se com toda a violência. Cada Estado adquirira subitamente uma sensação de força e esquecera-se de que o outro sentia exactamente o mesmo: cada um queria ainda mais e cada um queria tirar partido do outro."

Um testemunho dilacerante. E cheio de lições para os dias de hoje: a paz é a mais frágil conquista das civlizações contemporâneas. E nunca está plenamente garantida: é um erro profundo pensar o contrário.

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Será talvez o dia 17 de Setembro de 1788. Um exército composto por cerca de 100.000 homens fiéis ao Imperador José II está estacionado nas imediações da cidade de Karánsebes. Combate-se a enésima guerra entre os impérios austro-húngaro e otomano. O exército dito austríaco é, a bem da verdade, uma sociedade das nações. Integra, para além de austríacos, contingentes das diversas nacionalidades e regiões que compõem o Império. A maior parte do efectivo não fala alemão, circunstância que, como se verá, trará trágicas consequências. Antecipando a evolução do exército no terreno, vários batedores partem do acampamento com a missão de detectar a presença do inimigo. O certo é que turcos nem vê-los. Encontram, isso sim, um grupo de saltimbancos que vende schnapps. O calor do Verão despede-se por estes dias e puxa pela sede. Os batedores compram vários barris e vão bebendo para entreter o tempo enquanto esperam pelo grosso do exército. As horas passam e chega finalmente ao local um contingente de infantaria composto por lombardos, eslavos, austríacos e romenos. E se é uma lei da vida que o sol, quando nasce, é para todos, não é menos verdade que a sede também não escolhe gargantas. Se os batedores têm para beber, os de infantaria não querem beber menos. O problema é que, e mantemo-nos ainda no domínio das leis imutáveis que regem as humanas existências, o consumo de álcool raramente permite aclarar critérios e decisões. Os de infantaria querem a sua parte, os batedores recusam e barricam-se à volta das barricas. O que vale por dizer que se barricam duas vezes. Argumento puxa argumento, empurrão leva a empurrão, até que, de uma das partes, um soldado dá um tiro, instalando-se definitivamente a confusão. Com borracheira, porrada, algaraviada e tiro à mistura, uma parte dos contendentes, provavelmente a menos sóbria, presume que chegaram os turcos. Rompem a gritar Turcii, Turcii, Turcii, o pânico instala-se, correm em todas as direcções. Um oficial austríaco vai de gritar Halt, Halt, Halt, coisa que até se compreende pois impõe-se, nestas circunstâncias, uma voz de comando curta e directa. Mas o diabo é tendeiro. Os lombardos, eslavos e romenos não percebem alemão e, ali onde o oficial diz Alto, percebem Alá, grito de guerra do inimigo. O caos é total, mas as coisas vão ainda piorar. Aproxima-se do local novo contingente de tropas do exército austríaco. Perante a confusão que vê ao longe, um oficial de cavalaria convence-se de que os seus companheiros de armas estão a ser atacados pelos otomanos. Sem demora, ordena uma carga, de sabre em riste, contra aqueles que acredita serem os inimigos. Esta mesma carga é observada, entretanto, desde um outro ponto próximo, por um contingente de artilharia que também integra o exército austríaco. Nenhuma dúvida, pensa outro oficial: a cavalaria turca está a investir contra os nossos. Diligente, manda abrir fogo contra cavalos e cavaleiros. Completamente aterrorizados, os soldados disparam, investem e carregam já contra tudo e contra todos. Na debandada final, uma última humilhação. O cavalo do próprio José II espanta-se e o Imperador vê-se subitamente a exercer o império, de cócoras e encharcado, no meio de um riacho. Várias horas depois, fazem-se as contas. O exército austríaco sofre dez mil baixas provocadas exclusivamente por fogo amigo e sem os otomanos terem mexido uma palha. Durante anos e anos, esta foi justamente considerada a batalha mais estúpida da história. Só alguns séculos depois se realizaram os debates entre os candidatos às primárias do PS.

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Os sonâmbulos.

por Luís Menezes Leitão, em 29.08.14
Aproveitei este período de férias para ler o livro Os sonâmbulos (The Sleepwalkers), de Christopher Clark, que explica perfeitamente como a Europa se deixou de disparate em disparate arrastar para a guerra em 1914, que levou à destruição dos países envolvidos e à reformulação geopolítica do continente. O autor demonstra claramente como a causa próxima do conflito, o tiro disparado pelo sérvio bósnio Gravilo Princip, foi afinal o simples rastilho de uma guerra que foi desencadeada pela inconsciência dos governantes europeus, que se deixaram arrastar de escalada em escalada até à guerra total.  

 

É precisamente o que hoje se está a passar na Ucrânia. Sempre achei que a questão ucraniana tem que ser tratada com pinças, uma vez que é um estado dividido ao meio entre um ocidente pró-europeu e um leste pró-russo e cuja importância estratégica para a Rússia é absolutamente decisiva. Lenine dizia que os soviéticos podiam perder a cabeça mas não podiam perder a Ucrânia e Putin tem exactamente o mesmo posicionamento. Precisamente por isso desde a queda de Ianukovitch que me parece que tudo se encaminha para um confronto directo do Ocidente com a Rússia. A situação poderia ter sido evitada com a eleição de Poroshenko, mas este optou por esmagar a rebelião de Donetsk e Lugansk pela força das armas, lançando o exército ucraniano contra os rebeldes. Ora, era evidente que Putin não iria permitir o esmagamento dos rebeldes russos na Ucrânia, pelo que quanto mais vitórias Poroshenko tivesse no terreno, mais se tornaria inevitável a intervenção da Rússia. No fundo, a situação não é diferente da guerra da Coreia, em que a tomada de Pyongyang por McArthur arrastou imediatamente a China para o conflito, obrigando os EUA a voltar a recuar para sul do paralelo 38, uma vez que a única alternativa — e que foi proposta por McArthur — era uma guerra nuclear dos EUA com a China.

 

 

Neste momento, já é a própria diplomacia alemã a reconhecer que a situação na Ucrânia ameaça ficar fora de controlo. O que me espanta é que a diplomacia alemã não se tenha apercebido disso desde o início. Mais uma vez, o que isto lembra é 1914. O Kaiser e o Czar trocavam telegramas em que se tratavam carinhosamente por Willy e Nicky, enquanto arrastavam os seus países para o apocalipse.

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Penso rápido (45)

por Pedro Correia, em 27.08.14

Devemos ter sempre a noção muito clara que a democracia é um bem precioso mas extremamente frágil. E há quem se aproveite dela, a todo o momento, para a exterminar. O populismo, a demagogia, os nacionalismos, a xenofobia, o radicalismo identitário são instrumentos políticos de que se usa e abusa - à esquerda e à direita - para estrangular a democracia. Não devemos perder de vista as lições da história. Em 1900, na chegada ao século XX, muitos pensadores e um número incontável de políticos embriagados de "optimismo" e "modernidade" vaticinaram um mundo de imparável progresso. Ninguém imaginava então que esse seria o século dos maiores morticínios registados desde sempre e das mais tenebrosas ditaduras. Ninguém supunha que nesse mesmo século então emergente seria inventada a mais terrível das palavras: totalitarismo.
Nada mais ilusório do que o optimismo histórico, nada mais enganador do que a noção de que existe necessariamente um "final feliz" e redentor na sucessão dos ciclos históricos.

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Penso rápido (44)

por Pedro Correia, em 26.08.14

O progresso. Se há palavra malbaratada, desvirtuada, pervertida, vilipendiada é a palavra progresso - sempre pronta a ser usada e abusada por todos os vendedores de ilusões. Alguns dos maiores torcionários de que há memória usaram-na em discursos e até em livros. Em nome do progresso, matou-se e torturou-se. Sob a bandeira do progresso, o homem é constantemente empurrado com excessiva frequência de regresso às cavernas. Invoca-se o progresso como se fosse um dogma, pratica-se o retrocesso como se fosse inevitável.

Nada há de tão perverso na política como esta novilíngua destinada a iludir as mais legítimas aspirações dos povos. Danton, um dos próceres da Revolução Francesa, chegou a enaltecer a guilhotina como conquista civilizacional e símbolo de um futuro radioso. «O verbo 'guilhotinar', notai, não se pode conjugar no passado. Não se diz: 'Fui guilhotinado'.»

Palavras proferidas na véspera da sua morte, a 5 de Abril de 1794: foi vítima da guilhotina, na sequência de uma conspiração liderada por Saint-Just, que costumava proclamar: «Ninguém pode governar inocentemente.» Provavelmente tinha razão: o próprio Saint-Just viria a ser executado a 28 de Julho, com apenas 26 anos, acusado de ser "inimigo do povo". De nada lhe valera o brilhantismo das suas intervenções enquanto mais jovem deputado eleito para a Convenção Nacional.

Foi a primeira revolução de grande envergadura a devorar os seus filhos - e esteve muito longe de ser a última. Porque nenhum discurso inflamado por cartilhas partidárias é capaz de alterar a natureza humana.

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A morte em directo

por Pedro Correia, em 22.08.14

 

Foi o primeiro filme de grande impacto que nos mostra um estadista assassinado quase em directo. Aconteceu a 9 de Outubro de 1934, em Marselha, momentos após o desembarque na segunda maior cidade francesa do Rei Alexandre da Jugoslávia. O cortejo automóvel em que seguia, ao lado do ministro francês dos Negócios Estrangeiros, rodara poucas centenas de metros quando o monarca foi assassinado à queima-roupa por um anarquista búlgaro, no banco traseiro de uma viatura parcialmente aberta.

Tudo aconteceu a curtíssima distância de um operador de câmara da Pathé, que colhia imagens para um cinejornal (precursor dos telejornais naquela época). O facto de o motorista ter também morrido de imediato, com o pé pressionando o travão do automóvel, facilitou a recolha de imagens, que não tardaram a dar a volta ao mundo, exibidas nas salas de cinema.

Tudo isto aconteceu, note-se, três décadas antes de outro magnicídio com imagens captadas em directo: o do presidente norte-americano John Kennedy, em 22 de Novembro de 1963. Apesar de haver dezenas de fotorrepórteres e operadores de câmara profissionais no local, apenas um cineasta amador, chamado Abraham Zapruder, captou o preciso instante em que o crânio do inquilino da Casa Branca era estilhaçado pelo terceiro tiro disparado da mortífera carabina de Lee Harvey Oswald.

Vinte e seis segundos que a América jamais esquecerá. Mas que só foram vistos na íntegra em 1975: na altura, as imagens foram consideradas demasiado chocantes para serem exibidas na televisão.

 

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Penso rápido (37)

por Pedro Correia, em 04.08.14

A União Europeia, um projecto visionário, está a ser confrontada com as suas contradições. Por toda a parte despontam ancestrais ódios étnicos e seculares disputas fronteiriças que pareciam adormecidas voltam à tona. O nacionalismo tornou-se moeda corrente. Países que eram referência absoluta de progresso, como a Dinamarca, voltam a fechar as fronteiras enquanto os partidos xenófobos ganham terreno eleitoral em cidades tão cosmopolitas como Londres, Helsínquia, Amesterdão, Viena e Marselha.

A crise subsequente ao colapso dos mercados financeiros, com os seus 27 milhões de desempregados, potenciou este cenário. Mas a maior crise -- que é de identidade, de projecto -- já vinha de trás.

A Conferência de Versalhes (1919) e a Conferência de Ialta (1945) estão na origem de muitos dos conflitos europeus: os mapas da maioria das nações do nosso continente foram várias vezes redesenhados, nomeadamente nessas cimeiras internacionais. Fronteiras étnicas, linguísticas, religiosas e até orográficas eram subitamente alteradas a regra e esquadro por decisores políticos situados a milhares de quilómetros de distância.

Como se quisessem apagar os vestígios da História. Esquecendo-se de que a História, mesmo quando parece adormecida, pode sempre regressar a galope. E mais veloz que nunca.

Passou há muito o tempo em que o "projecto europeu" se esgotava numa união comercial. O problema, percebe-se agora, foi o passo ter sido maior que a perna: construiu-se uma união monetária sem verdadeira união política.

Mas a União Europeia ou é uma verdadeira união política ou não será nada de substancial.

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Penso rápido (33)

por Pedro Correia, em 29.07.14

Os acontecimentos mais dramáticos da história mundial podem começar por um motivo fútil. Isto não os torna menos relevantes: uma coisa nada tem a ver com outra. Tal como alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória, à partida, nada tinham de psicopatas: eram homens comuns. Isso não os tornava menos perigosos, longe disso.
O facto é que ninguém -- mesmo ninguém -- fazia a menor ideia, naquele período tão optimista da história mundial, da tragédia que estava prestes a acontecer no início do Verão de 1914. Dois tiros fatais disparados em Sarajevo por um anarquista sérvio contra o herdeiro do trono austro-húngaro e sua esposa, a duquesa de Hohenberg, produziram uma onda de morticínios em cadeia até atingir cerca de 20 milhões de mortos.
Se alguém adivinhasse as consequências, nem Gavrilo Princip teria assassinado Francisco Fernando e Sofia a 28 de Junho de 1914 nem os imperadores e os arquiduques e os presidentes teriam desencadeado a linguagem bélica nas semanas subsequentes nem a imprensa teria incentivado os nacionalismos de turno com algumas das manchetes mais demagógicas, parioteiras e chauvinistas que o mundo conheceu até hoje.
A I Guerra Mundial não era inevitável à partida: tornou-se inevitável pela infinita estupidez humana.

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Penso rápido (32)

por Pedro Correia, em 27.07.14

Não é corrente, mas faz todo o sentido usar a terminologia "Guerra Mundial 1914-1945". Uma guerra de longa duração (três décadas) entremeada por ilusórios períodos de paz e que só terminou verdadeiramente - por macabra ironia - com o início da idade atómica.
Mesmo durante o período que se convencionou chamar paz não faltaram guerras - incluindo algumas das mais devastadoras de que há memória. A guerra russo-polaca, a guerra civil russa, a guerra greco-turca, a guerra sino-japonesa, a guerra civil espanhola.
A ilusão de que haveria uma guerra que poria fim a todas as guerras ou que seria possível alcançar uma paz perpétua semelhante à do Jardim do Éden (sem serpente...) era corrente no início do século XX e não falta literatura da época a atestá-la. Uma ilusão perigosa, pois fez baixar a guarda quando se impunha toda a precaução, em sentido inverso. O primeiro passo para fazer prevalecer a paz é nunca perder a noção de que o conflito é intrínseco à natureza humana.

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Penso rápido (25)

por Pedro Correia, em 15.07.14

Os herdeiros políticos da França de Pétain crescem hoje à custa dos herdeiros da França do general De Gaulle.
O mesmo sucede quando os eleitores gregos favorecem com o seu voto a formação de uma bancada de 21 deputados neonazis no Parlamento de Atenas, estando ainda vivos milhares de cidadãos que ali testemunharam a criminosa invasão grega pelos esbirros de Hitler.
Marine Le Pen e os neonazis gregos são totalmente indiferentes às lições da História - nomeadamente ao cortejo de crimes cometidos pelos regimes que lhes servem de inspiração.
É de uso corrente responsabilizar as forças moderadas pelo crescimento das franjas extremistas. Esta é, no fundo, uma justificação que pouco explica. Já os teóricos nas décadas de 20 e 30 utilizavam argumentos equivalentes, responsabilizando as "democracias decadentes" para conferir alguma aura de "racionalidade" à marcha sobre Roma conduzida por Mussolini em 1922, ao golpe militar de Primo de Rivera na Espanha de 1923 ou à alucinante cavalgada de Hitler rumo ao poder totalitário em Berlim sobre os escombros da República de Weimar.
Sabendo o que hoje sabemos, temos o dever cívico de fortalecer as forças políticas moderadas. Só elas poderão enfrentar com sucesso uma nova vaga de demonização da democracia política com base nos tais conceitos de povo, pátria, nação ou classe que servem para inflamar as massas mas são a receita garantida para um desastre muito superior a qualquer das nossas dificuldades actuais.

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Penso rápido (18)

por Pedro Correia, em 07.07.14

O século XX seria o período da História em que se atingiria a paz perpétua - assim acreditavam muitos pensadores que saudaram a viragem do calendário como uma alvorada de esperança. É certo que havia a Guerra dos Boers na África do Sul e não tardou muito que russos e japoneses se confrontassem num sangrento conflito bélico. Mas em 1905 esses ecos distantes mal chegavam ao coração da Europa. Nesse ano, a visita do Rei D. Carlos de Portugal ao Reino Unido foi acompanhada “com exagerado detalhe” pela imprensa britânica, como salienta Geoffrey Blainey na sua Breve História do Século XX. A caça do monarca aos faisões, lebres e pombos no palácio real de Chatsworth, posto à sua disposição pelo anfitrião, Eduardo VII, empolgava os leitores londrinos que se “deliciavam ao saber que ele apreciava uma luta de bolas de neve junto da tarde do almoço”. Era esse o espírito do tempo. Uma época fugaz de bonomia que não funcionou afinal como prelúdio do "fim da História". Três anos depois, D. Carlos era assassinado no Terreiro do Paço. E em 1914 - faz agora um século - estalava a Grande Guerra, por um motivo fútil. O século que começou com o brilho das luzes mergulharia no eterno retorno às trevas ancestrais. 

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Novas Fronteiras

por Rui Herbon, em 04.07.14

A geografia e as ideias voltam a cruzar-se na História. As fronteiras foram sempre muros imaginários de contenção dos outros: dos bárbaros, dos inimigos, dos supostamente maus. As guerras começam quase sempre por ideias introduzidas em pequenos núcleos de influência que vão estendendo as suas mensagens de ódio ou intransigência às massas, que se entusiasmam facilmente com o novo e com o que promete resolver todos os problemas.

  

A História é geografia, dizia Bismarck, artífice da unidade alemã de 1870 após ter vencido três guerras: contra a Áustria, a Dinamarca e a França. É uma ironia histórica que a unidade alemã tenha sido declarada no palácio de Versalhes depois da vitória na guerra franco-prussiana. As ideias que se transformam em ideologias acabam sempre ameaçando estados vizinhos ou fazendo surgir novos nacionalismos em velhos países.

 

Mas a geografia resiste a sucumbir à globalização. A globalização não tende a criar um estado global, antes impulsiona tendências secessionistas em estados onde há poucos anos esses movimentos não se verificavam — repare-se nos casos da Escócia e da Catalunha. O mundo caminha para grandes transformações nas formas de organizar-se e governar-se. Estas mudanças costumam ser precedidas de grandes tensões sociais.

 

O direito à auto-determinação que começou a aplicar-se genericamente ao caírem o sultão otomano, o kaiser alemão, o czar da Rússia e o imperador austro-húngaro, foi precedido por grandes confrontações bélicas na Europa. Depois da Grande Guerra nasceram os novos países que haviam estado sob o controlo e o domínio dos impérios caídos.

 

Tudo indica que vivemos tempos de grandes transformações sociais, políticas, económicas e de costumes. No fim do processo nascerá uma nova situação, talvez uma nova ordem. O que interessa saber são os custos individuais e colectivos até a geografia desenhar novas fronteiras.

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Há 70 anos

por Pedro Correia, em 06.06.14

«Foi um campo de matança. Espero que nunca esqueçam os pobres diabos que aqui morreram.»

Harry Billinge, antigo combatente na Normandia, hoje com 88 anos, no 70º aniversário do Dia D

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Sempre ao lado da liberdade

por Pedro Correia, em 02.06.14

"Saber calar é tão difícil como saber falar. Ao que sabe calar, todos o entendem."

Rei Juan Carlos, em carta ao seu filho, o novo Rei Felipe de Borbón, citada no livro El Príncipe y el Rey, de José García Abad

 

O anúncio da abdicação do Rei Juan Carlos encerra uma etapa singular na história de Espanha: o seu reinado coincidiu com o mais longo período de paz e prosperidade alguma vez experimentado pelos espanhóis.

"O periodo mais fecundo", como justamente o qualificou o então chefe do Governo Rodríguez Zapatero em depoimento publicado no El País, em Janeiro de 2008, quando se assinalava o 70º aniversário natalício do monarca.

O primeiro-ministro socialista expressava justamente a satisfação da generalidade dos espanhóis, incluindo aqueles que se proclamam republicanos: Juan Carlos conduziu o país a uma exemplar transição para a democracia, colocando-se sempre ao lado da liberdade. É verdade que Espanha enfrenta diversos problemas, com destaque para a actual crise económica e a ameaça de desagregação territorial. Mas, num país onde ainda não cicatrizaram por completo as cicatrizes da mais devastadora guerra civil de que há memória, sem o monarca tudo teria sido muito pior ao longo destas quatro décadas. Para os espanhóis e também para nós, pois somos cada vez menos imunes ao que se passa aqui ao lado.

O Rei pôs fim à ditadura franquista em estreita articulação com o primeiro-ministro Adolfo Suárez, instituiu um regime constitucional exemplar a vários títulos que fez validar por referendo, restabeleceu o prestígio internacional do seu país e devolveu a plena cidadania a todos os espanhóis. Sem distinção de credos, ideologias ou origem regional. 
Sai de cena no momento que livremente escolheu, orgulhoso por legar ao seu filho Felipe, ainda nas palavras de Zapatero, "uma democracia viva, plenamente consolidada e com um futuro promissor".
Tenho a certeza de que a larga maioria dos espanhóis subscreve estas palavras. Com saudades antecipadas do monarca, que não teve como cognome "o Breve", como ironicamente o designava o antigo líder comunista Santiago Carrillo antes de se converter -- também ele -- ao juancarlismo. Um mandato irrepetível que Espanha lembrará num futuro próximo com inevitável nostalgia: Juan Carlos tem já lugar de honra garantido nos futuros manuais de História.

 

Imagem: Juan Carlos e Adolfo Suárez, os dois artífices da transição espanhola

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As palavras também têm história

por Pedro Correia, em 19.04.14

Palácio Quintela, em Lisboa, onde Junot instalou o seu quartel-general em 1807

 

Muitas vezes não fazemos a menor ideia da origem de algumas das expressões coloquiais que usamos. Mas vale a pena investigar de onde vêm e como se foram generalizando.

Várias remontam ao tempo das invasões francesas, na primeira década do século XIX. Uma das mais frequentes relaciona-se com a chegada do general Jean-Andoche Junot a Lisboa, à frente do exército napoleónico, quando ainda se avistavam no horizonte as velas da frota que conduzia a família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 30 Novembro de 1807. Ficou, portanto, a ver navios.

Portugal acabou por ser devastado pelas tropas gaulesas, que aqui praticaram as maiores atrocidades. Mas Junot, indiferente às situações de penúria e de miséria provocadas pelos invasores também em Lisboa, instalou-se no Palácio Quintela, na Rua do Alecrim, com despudorada ostentação, vivendo à grande e à francesa.

Um dos generais que o acompanharam na invasão, Louis Henri Loison, tornou-se tristemente célebre pela ferocidade com que tratava os portugueses que tinham o azar de lhe surgir ao caminho. Por ter perdido o braço esquerdo numa batalha, logo recebeu a alcunha de Maneta. A partir daí, quando alguém se envolvia numa situação complicada ou perigosa, passou-se a dizer que iria pr'ò Maneta.

Derrotados na batalha do Vimeiro em Agosto de 1808, após o desembarque de forças britânicas em Portugal, Junot e as suas tropas retiraram-se para França após encherem navios de tudo quanto puderam na sequência de incontáveis actos de pilhagem em igrejas, palácios e bibliotecas - num dos maiores atentados desde sempre cometidos ao património nacional. Zarparam assim, de armas e bagagens.

 

Duzentos anos depois, os ecos das invasões francesas perduram no nosso vocabulário corrente. Porque também as palavras têm história.

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Os discípulos de Chamberlain

por Pedro Correia, em 09.04.14

Neville Chamberlain cumprimentando Hitler em Munique (1938)

 

É comum ouvir-se por estes dias, a propósito da política de canhoneira aplicada por Vladimir Putin na Ucrânia, um conceito desenterrado dos mais bafientos baús da História.

Que conceito é esse? O de "apaziguamento".

 

Em síntese, os defensores desta tese recomendam a atitude dos três macaquinhos da fábula: há que vendar os olhos, cobrir os ouvidos e emudecer perante sucessivas violações do direito internacional para não indispor os prevaricadores. Se for preciso inverte-se até o ónus da prova, transformando o agressor em agredido e o agredido em agressor. Como o Grande Irmão de Orwell, que instituiu um Ministério da Verdade para melhor disseminar as mentiras enquanto incentivava as massas a urrarem o mais cruel e acéfalo dos paradoxos: "Guerra é paz!"

Não há nada de original nisto. Quando escuto os apóstolos do apaziguamento recordo-me sempre do mais infausto e patético de todos os primeiros-ministros britânicos: Arthur Neville Chamberlain. Céptico perante os aliados, crédulo perante os inimigos. De uma granítica intransigência face às vozes que o alertavam contra os riscos do compromisso a todo o preço, sempre pagos mais tarde a custos elevadíssimos. E de uma benevolência sem limites face à ofensiva totalitária.

De tanto querer a paz, na sua indesmentível boa fé, facilitou o caminho aos promotores da guerra. Da mais sangrenta, devastadora e homicida das guerras.

 

Recordo em particular o acalorado debate na Câmara dos Comuns travado a 25 de Junho de 1937 -- em que, não por coincidência, foi invocado várias vezes o nome de Portugal.

Era a primeira vez que Chamberlain ali discursava sobre política internacional desde que fora empossado como chefe do Governo conservador britânico, no mês anterior. E logo ali ficou bem patente o seu anseio em levar à prática uma política de "apaziguamento" com as feras totalitárias que faziam da guerra civil espanhola terreno experimental para um incêndio muito mais vasto que não tardaria a deflagrar no mundo.

Comentando a aparente resignação de Berlim na sequência do recente afogamento de um navio alemão ao largo da costa espanhola, o antecessor de Churchill não hesitou em elogiar o regime de Hitler por "ter demonstrado um grau de moderação que devemos reconhecer". O massacre de Guernica, cometido pela tenebrosa Legião Condor, ocorrera dois meses antes...

Incapaz de ler os sinais da História, Chamberlain pedia "cabeça fria" no Parlamento britânico e recomendava aos próprios jornalistas que "medissem as palavras" para não ferir as susceptibilidades dos inimigos da democracia. E rematou assim, cego perante as evidências: "Se todos formos prudentes, pacientes e cautelosos seremos capazes de salvar a paz na Europa."

 

O antigo primeiro-ministro liberal David Lloyd George respondeu-lhe da melhor maneira. Observando sem rodeios que Hitler violara já três acordos internacionais subscritos pelo Estado alemão. Ao inutilizar o Tratado de Versalhes (1919) reintroduzindo o serviço militar obrigatório. Ao rasgar o Pacto de Locarno (1925), invadindo e remilitarizando a Renânia. E ao transformar em letra morta o Acordo de Não-Intervenção na Guerra Civil de Espanha (1936), disponibilizando instrutores, armamento e aviação a Franco.

E Lloyd George retorquiu a Chamberlain: "Precisamos de cabeças frias, sim, mas também de corações fortes."

Solidários com os que sofrem as agressões, não com aqueles que as praticam. E aprendendo sempre com as lições da História.

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Não sabe se a História o absolverá.

por Luís Menezes Leitão, em 31.03.14

 

"A História me absolverá" corresponde a uma célebre alegação de defesa de Fidel Castro no julgamento de Moncada em 16 de Outubro de 1953 em que, em vez de terminar pedindo a sua absolvição pelo Tribunal como habitualmente fazem os advogados, terminou declarando irrelevante que os juízes proferissem a sua condenação, pois apenas lhe interessava a absolvição da  História: "Condenadme, no importa. La historia me absolverá". A repercussão causada por esse discurso seria o rastilho que levaria à revolução que derrubou Fulgencio Baptista.

 

Passos Coelho, pelos vistos, não se importa minimamente com a História, uma vez que perguntado se esperava a absolvição desta, respondeu com um singelo "não sei". Conclui-se assim que Fidel Castro pode ter atirado Cuba para o desastre, mas ao menos tinha convicções. Passos Coelho nem isso tem. A sua política resume-se assim a aplicar o Diktat germânico, qualquer que ele seja. Faz lembrar Groucho Marx: "Those are my principles, and if you don't like them... well, I have others."

 

 

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Linha de rumo

por Pedro Correia, em 04.03.14

 Manifestação popular contra os tanques de Moscovo durante a invasão de Praga (Agosto de 1968)

 

Polónia, 17 de Setembro de 1939

 

Finlândia, 30 de Novembro de 1939

 

Lituânia, 15 de Junho de 1940

 

Estónia, 16 de Junho de 1940

 

Letónia, 16 de Junho de 1940

 

Hungria, 4 de Novembro de 1956

 

Checoslováquia, 20 de Agosto de 1968

 

Afeganistão, 24 de Dezembro de 1979

 

Geórgia, 7 de Agosto de 2008

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 04.03.14

 

 

Portugal e a Grande Guerra 1914.1918

Coordenação de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes

História

(edição Verso da História, 2013)

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Em louvor de Clement Attlee

por Pedro Correia, em 26.02.14

 Attlee com a mulher, Violet, logo após a vitória eleitoral dos trabalhistas em 1945

 

Clement Richard Attlee (1883-1967) era um homem destituído de carisma. Um esforçado militante de esquerda que, superando inúmeras crises nas suas hostes, alcançou em 1935 a liderança do Partido Trabalhista britânico.

Estavam então no poder os conservadores -- primeiro liderados por Stanley Baldwin, depois por Neville Chamberlain. Quando ocorreu a guerra -- a mais devastadora de todas as guerras -- outro conservador, Winston Churchill, ascendeu à chefia do Governo londrino.

Attlee podia ter-se refugiado na trincheira partidária. Mas não: assumiu uma atitude patriótica, aceitando integrar o executivo liderado por Churchill. Sempre na segunda linha, inicialmente apenas como ministro, depois como vice-primeiro-ministro -- posto até aí inexistente, criado especialmente para ele.

Foi de uma lealdade inquebrantável a Churchill durante os cinco penosos anos de guerra. O governo de unidade nacional -- que integrava ainda os liberais, além dos conservadores e dos trabalhistas -- funcionou sempre como um bloco. Sem que a liderança de Churchill fosse alguma vez discutida, sem que a lealdade de Attlee fosse alguma vez posta em causa.

 

Vencida a guerra, em Maio de 1945, a coligação dissolveu-se e realizaram-se eleições. E os mesmos britânicos que aplaudiram a gestão de Churchill durante o conflito que deixou o Reino Unido depauperado, tanto em vidas humanas como nas finanças públicas, disseram nas urnas que era tempo de confiar a outro político os destinos do país.

Ganhou Attlee, com 47,7%, contra 36% de percentagem atribuída aos conservadores: pela primeira vez o Partido Trabalhista dispunha de uma larga maioria na Câmara dos Comuns. E nos anos seguintes, sob a sua liderança, a esquerda britânica assumiu o poder. Governando com tanta eficácia a Grã-Bretanha em tempo de paz como Churchill a governara nos dias incertos da guerra.

Depois de enterrar os mortos, chegara o tempo de cuidar dos vivos -- como ensinou o nosso Marquês de Pombal. Attlee soube cuidar dos vivos: lançou as bases do Serviço Nacional de Saúde britânico, de base universal e gratuita, alargou a segurança social e delinelou um ambicioso programa de habitação pública -- marcos modelares daquilo a que por estes dias chamamos "Estado Social". De tal maneira modelares que Churchill manteve-os inalterados quando regressou ao poder, em Outubro de 1951.

 

Attlee, o político sem carisma, é hoje recordado como um dos melhores primeiros-ministros britânicos de todos os tempos. Quando morreu, em Outubro de 1967, o Guardian acertou em cheio ao prever que a passagem do tempo só engrandeceria a sua figura. Assim aconteceu. Uma sondagem realizada pelo Times em 2010 considerou-o o mais qualificado de todos quantos governaram no século XX.

 

Porquê?

Porque soube agir em dois tempos, conforme as circunstâncias exigiam: baixou bandeiras partidárias quando era esse o seu dever patriótico no momento em que a soberania britânica estava em risco e foi recompensado por isso com dois mandatos sucessivos que lhe permitiram enfim aplicar o seu programa de vastas reformas sociais. Deixando o país numa situação de pleno emprego e a crescer ao ritmo de 3% ao ano.

 

Por vezes lembro-me de Attlee ao analisar o percurso de certos políticos contemporâneos. E concluo sempre que o seu exemplo ganharia em ser seguido por todos quantos, manifestamente equivocados, ambicionam o máximo para o momento seguinte. Como se não houvesse amanhã. Como se o decurso do tempo funcionasse como adversário e não como aliado. Como se a política não fosse sobretudo um exercício inteligente e laborioso de persuasão e persistência. Como se os livros de História pesassem menos do que as manchetes da manhã seguinte.

 

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Outros tempos, outros costumes

por Pedro Correia, em 03.02.14

Em Dezembro de 1962, Salazar chamou o seu ministro do Ultramar - tido como uma das figuras mais reformistas do regime - e comunicou-lhe a intenção de alterar a linha de rumo seguida desde Abril de 1961 que levara, entre outras inovações, à abolição da lei do indigenato nos territórios então oficialmente designados por províncias ultramarinas.
"Nós acabamos de mudar de política", anunciou o presidente do Conselho.
"Então acaba de mudar de ministro", limitou-se a retorquir o interlocutor, que se chamava Adriano Moreira. Dito e feito: abandonou o Executivo e nunca mais reassumiu um posto governativo.
Hoje é possível mudar de política mantendo inalterado o elenco ministerial. Mais do que possível, é moeda corrente. Não faltam exemplos para o provar.
Imagem: Adriano Moreira em 1961, durante uma visita oficial a África como ministro do Ultramar

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1914: tão longe e tão perto

por Pedro Correia, em 25.01.14

       

 

Entre os nomes mais obscuros que marcaram o século XX inclui-se o de Gavrilo Princip. Poucos se lembrarão hoje de quem se trata. Era um jovem sérvio residente em Sarajevo, capital da Bósnia ocupada pelo Império Austro-Húngaro. De saúde frágil e pequena estatura, pertencia a uma sociedade secreta eslava denominada Mão Negra. A 28 de Junho de 1914, durante uma visita a Sarajevo do herdeiro da coroa austro-húngara, Francisco Fernando, um capricho do destino colocou o jovem no trajecto do príncipe: Princip disparou vários tiros do seu revólver Browning, matando-o.

Eram os primeiros disparos da I Guerra Mundial -- o mais sangrento conflito de que houve registo até então. Prolongou-se até 1918 -- ano em que Gavrilo Princip morreu de tuberculose numa prisão da Boémia. Para trás ficava um macabro cortejo de 20 milhões de mortos.

Vai fazer cem anos: tão longe e tão perto. Quase nada, numa perspectiva histórica.

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O fim do sonho em seis segundos

por Pedro Correia, em 22.11.13

 

Meio século depois, o mistério permanece. Quem foi o cérebro do assassínio de John Fitzgerald Kennedy? O 35º presidente dos Estados Unidos terá sido vítima de um psicopata de 24 anos, munido de uma espingarda de 12 dólares que o alvejou com dois tiros certeiros ao fim da manhã de 22 de Novembro de 1963 em Dallas, pondo fim em seis fatídicos segundos ao sonho americano?

Poucos acreditam hoje nesta versão do atirador solitário, tanto mais que o suposto homicida, Lee Harvey Oswald, viria por sua vez a ser assassinado, dois dias após a morte de Kennedy, na própria sede da polícia de Dallas por um indivíduo ligado à Mafia, chamado Jack Ruby.

A verdade é que nasceu aí a chamada “maldição Kennedy”, que viria a fazer outras vítimas. Três delas mulheres de algum modo ligadas ao jovem presidente que permaneceu apenas 1037 dias na Casa Branca.

 

A primeira foi amante de Kennedy entre 1961 e 1963. Chamava-se Mary Pinchot Meyer: era uma das mulheres mais deslumbrantes de Washington naquela época. Segundo os registos da Casa Branca, entrou 13 vezes no edifício naqueles dois anos – a última visita ao presidente ocorreu escassos dias ante do crime de Dallas. O seu fim foi igualmente trágico: em Outubro de 1964, quando passeava junto a um canal em Georgetown, foi alvejada com dois tiros – um na cabeça, outro no coração. O assassino nunca foi capturado.

Outra tragédia envolveu uma jornalista da estação televisiva ABC, que gozou de uma fugaz celebridade. Lisa Howard tinha 37 anos em 1963, quando funcionou como intermediária entre Kennedy e Fidel Castro. Deslocou-se várias vezes a Havana, nesse ano, e tornou-se íntima dos dois dirigentes, formalmente inimigos. A morte de Kennedy inviabilizou a aproximação a Cuba. Lisa não tardou a ser despedida da ABC. A 4 de Julho de 1965, ingeriu uma dose fatal de barbitúricos.

Outra celebridade televisiva da época era Dorothy Kilgallen, única jornalista que conseguiu entrevistar Jack Ruby na prisão e se preparava para contar a história dele num livro. Também ela apareceu morta, no seu apartamento, a 8 de Novembro de 1965. Os capítulos do manuscrito sobre Ruby nunca foram encontrados.

 

Uma das mortes mais misteriosas de pessoas ligadas a John Kennedy ocorreu escassos dez dias após o assassínio do presidente. A 2 de Dezembro de 1963, Grant Stockdale, grande amigo de Kennedy, caiu de uma janela do seu gabinete, situado no 13º andar de um prédio de escritorios em Miami. Não deixou bilhete de suicídio.

Stockdale, corretor da Bolsa e antigo embaixador norte-americano na Irlanda, andaria com problemas financeiros e a notícia do assassínio de Kennedy ter-lhe-á agravado uma depressão. Mas não faltou quem especulasse que alguém o empurrara da janela para calar segredos ligados ao trágico fim do presidente. Meses antes, quando velejavam em Palm Beach, Kennedy perguntara-lhe: “Achas que vou ser assassinado?” A pergunta – premonitória – ficou a pairar para sempre na memória perturbada de Grant Stockdale.

“Teria Oswald agido sozinho?”, questionava a capa da Life, na edição de 25 de Novembro de 1966. Muitos recusam ainda hoje acreditar nisso. E a maldição Kennedy permanece.

 

 

Imagens:

1. John Kennedy

2. Mary Pinchot Meyer

3. Grant Stockdale com Kennedy

4. Lisa Howard com Fidel Castro

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Sou amigo do Filipe Verde há quase trinta anos (como custa escrever estas quantidades) e é também por isso, por esta minha fidelidade à ideologia do amiguismo, que aqui venho divulgar este "Exploradores Portugueses e Reis Africanos" (editado por A Esfera dos Livros), o livro que agora escreveu com Frederico Rosa. O qual será apresentado ao público no próximo dia 22 (terça-feira) em Lisboa, na livraria Bertrand no Chiado, por aquela hora do fim da tarde. Acontece ainda que o Filipe é o tipo com a mente mais brilhante que eu conheço (sim, sei do piroso que isto soa), opinião que já bloguei a propósito do lançamento do seu luminoso livro "O Homem Livre", o qual deveria ser presença constante nas estantes mas que me parece meio esgotado, e que continuo a recomendar como obra máxima do pensamento actual em Portugal. O Filipe Verde tem ainda a rara capacidade de pensar denso e escrever leve (entenda-se: muito bem), tornando acessível o seu pensamento de Homem Livre, nada sujeito a modismos e a obrigações de lojas, clubes ou capelas. Com tudo isto até parece que quero desmerecer o co-autor Frederico Rosa, mas não é o caso, é apenas eco de o desconhecer, apenas o ouvi uma vez, há anos, numa informadíssima comunicação, daquelas que denotam um intelectual de mão-cheia.

 

O livro destes dois antropólogos intenta uma releitura das viagens portuguesas em África durante XIX, visitando o calcorrear de Lacerda e Almeida, António Gamito, Rodrigues Graça, Silva Porto, Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Henrique de Carvalho, cruzando o olhar da antropologia, da história e da literatura. Coisa pensada não para especialistas mas sim para quem se possa e queira interessar, seja sobre o período histórico, seja sobre África, seja sobre essa coisa da construção dos discursos sobre o longínquo (e quantas vezes tornado exótico). Em termos de apelar a um repensar da história começa muito bem, logo com o título, nisto de "...Reis Africanos", pontapeando o velho olhar sobre o caos (apolítico) africano, o primitivismo sempre presente, com várias roupagens ...

 

Enfim, o lançamento é daqui a uma semana. E se alguém daqui (do in-blog) parta para assistir (os tipos falam bem, já agora) peço para ir lá ao Filipe Verde e entregar um abraço ido do jpt, qu'isto de viver longe tem recompensas mas também tem destas coisas, o perder os bons momentos dos nossos. 

 

Para quem não tiver disponibilidade fica o desafio, o de folhear o livro a deixar-se tentar, a ver se gasta os quase vinte euros (em podendo, e pelo que já li, justificar-se-á).

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"Por vezes, ficar calado equivale a mentir"

por Pedro Correia, em 28.08.13

 

Falei ontem, evocando-o a propósito da passagem do 50º aniversário, daquele que considero o segundo melhor discurso proferido no século XX. Hoje quero falar do melhor de todos - muito menos comentado, muito menos mediatizado, sem a repercussão universal que teve o de Martin Luther King. Mas que constituiu um dos melhores exemplos de coragem cívica, inteireza moral e ética política de que há memória.

Ocorreu na fase inicial da guerra civil de Espanha, na cidade de Salamanca, no dia 12 de Outubro de 1936. Foi proferido de improviso, na universidade desta urbe castelhana, pelo reitor vitalício do secular estabelecimento de ensino, o basco Miguel de Unamuno, figura cimeira da cultura espanhola.

Unamuno, um intelectual ferozmente independente, tecera fortes críticas ao rumo descontrolado do regime republicano que vigorou em Espanha entre 1931 e 1936, tendo acolhido com palavras de simpatia o alzamiento em Julho de 1936. Durou pouco a sua adesão ao golpe liderado pelo general Franco: os morticínios das primeiras semanas de guerra revelaram-lhe a verdadeira natureza da rebelião, nacional só de rótulo. No início de Outubro, reuniu-se com Franco para lhe pedir clemência por diversos amigos de esquerda que tinham sido detidos em território controlado pelos falangistas. Esforço inútil: acabaram quase todos fuzilados.

Nesse dia 12, perante o governador civil de Salamanca, o bispo da diocese e a esposa de Franco, o general Millán Astray - inválido da guerra em Marrocos - proferiu uma diatribe contra o País Basco e a Catalunha, considerando-os "cancros do corpo da nação", terminando a sua arenga com a frase que criara para divisa da Legião Espanhola: "Viva a morte!" enquanto os braços se erguiam na saudação fascista.

 

Unamuno, já então um senhor de 72 anos, poderia ter-se remetido a uma atitude de cómoda indiferença. Mas não foi capaz. Levantou-se dignamente e pronunciou estas palavras de modo pausado mas firme:

"Esperais as minhas palavras. Conheceis-me bem e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. Por vezes, ficar calado equivale a mentir. Porque o silêncio pode ser confundido com concordância. Quero fazer alguns comentários ao discurso - para chamar-lhe assim - do general Millán Astray, que se encontra entre nós. Deixando de lado a ofensa pessoal que pressupõe a sua repentina explosão contra vascos e catalães. Eu próprio, como sabeis, nasci em Bilbau. O bispo [apontando para o prelado], queira ou não queira, é catalão de Barcelona."

Fez uma pausa. E prosseguiu:

"Mas acabo de escutar o insensato e necrófilo grito 'Viva a morte!' E eu, que passei a vida a cultivar paradoxos que irritavam alguns incapazes de entendê-los, tenho de dizer-vos, como especialista na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. O general Millán Astray é um inválido. Não é necessário dizermos isto em voz baixa. Ele é um inválido de guerra. Também Cervantes o foi. Mas, por desgraça, há hoje em Espanha demasiados mutilados. E, se Deus não nos ajudar, em breve haverá muitíssimos mais. Atormenta-me pensar que o general Millán Astray pudesse ditar as normas da psicologia das multidões. De um mutilado a quem falte a grandeza espiritual de um Cervantes é de esperar que encontre um terrível alívio ao ver como se multiplicam os mutilados em seu redor."

 

O general, acometido de fúria perante estas palavras, começou então a gritar: "Abaixo a inteligência! Viva a morte!" Provocando a entusiástica adesão dos falangistas ali presentes, que gritaram em uníssono com ele.

Mas Unamuno ainda não tinha terminado. E concluiu assim:

"Este é o templo da inteligência. E eu sou o seu sumo-sacerdote. Estais profanando o seu recinto sagrado. Vencereis porque tendes, de sobra, a força bruta. Mas não convencereis. Para convencer há que persuadir. E para persuadir necessitaríeis de algo que vos falta: razão e direito na vossa luta. Parece-me inútil pedir-vos que penseis em Espanha. Tenho dito."

 

Palavras que soaram como denúncia da fanática brutalidade dos esbirros de Franco. Palavras que custaram o cargo e a vida a Unamuno: de imediato destituído das funções de reitor, confinado a prisão domiciliária, o filósofo basco viria a morrer dois meses mais tarde, no último dia desse ano tão trágico.

Mas o eco das suas palavras, fruto de uma vontade indómita, prolongou-se muito para além dos horrores daquela guerra. Como admirável exemplo de resistência contra a barbárie - tenha a cor que tiver, seja em que época for.

 

Imagem: Unamuno (ao centro, de barbas) abandonando a Universidade de Salamanca a 12 de Outubro de 1936, acossado por falangistas espanhóis

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Uma ignorância histórica espantosa.

por Luís Menezes Leitão, em 27.07.13

 

 

Passos Coelho apela a acordo com o PS para "clima de união nacional".

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A vitória

por jpt, em 08.07.13

 

Queira-se ou não, avalia-se o efeito intelectual da longa, múltipla e complexa história na prática dos homens. E nisso os "europeus" cultos - aqueles que comungam feixes, nacos, de uma vasta tradição -, oriundos que sejam dos mais diversos berços e continentes, diversificam-se um pouco d'outros homens pela partilha, mesmo que inconsciente, de referências até desvalorizadas, como se meras "estórias" (essa horrível palavra). Uma, fundamental, é esta (aqui em vulgar versão wikipedia). Conhecê-la ou não a conhecer é das coisas que mais aparta os homens. Pois nem tudo é a "razão" e tanto é "cultura".

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Depois do bisanço da ficção científica, segue-se – naturalmente, pois – um livro de História.

 

Esta História de Portugal não esconde ao que vem, pretendendo assumidamente constituir uma nova obra de referência na historiografia portuguesa, incorporando “os resultados das pesquisas e reflexões das mais recentes gerações de historiadores”. Como tal, e embora se procure um “texto legível e claro”, existe sempre uma primazia do conteúdo sobre a forma, o que pode tornar a sua leitura menos aliciante para algum público. Mas não poderia ser de outra forma.

 

Ao longo da obra (que ainda estou a ler – apenas para não fugir ao espírito da série, claro está) são evidentes várias “marcas” da abordagem que os autores pretenderam utilizar.

Antes de mais, é clara a intenção dos autores não só de fornecer uma análise imparcial mas – mais do que isso – de dar ao leitor os elementos necessários para este elaborar a sua própria opinião; estando assim praticamente ausentes conclusões definitivas em relação à acção de determinada personagem histórica. Claro que esta opção faz-se em parte sacrificando a atracção do interesse do leitor, mas numa obra com este propósito não poderia ser de outra forma. Na mesma linha, os autores procuram de um modo muito claro fugir aos episódios mais romanceados da História portuguesa, dando exclusividade ao valor intrínseco de cada evento. Fazem-no de um modo, porventura, exagerado, passando ao lado de episódios cuja referência viria completamente a propósito e em que se gastaria não mais do que meia dúzia de palavras. Acresce que há episódios e detalhes que, pelo seu carácter simultaneamente representativo e inusitado (aos olhos contemporâneos), constituiriam exemplos perfeitos para determinadas ideias expostas, ao mesmo tempo que ajudariam a manter o interesse do leitor (o que, não sendo o objectivo primário do livro, não deixa de ser importante).

 

Outro aspecto em que me teria agradado outra perspectiva diz respeito à comparação internacional. Um livro deste tipo teria muito a ganhar em dar maior relevo a uma perspectiva mais relativa da nossa História face à História da Europa e do Mundo. Claro que tal implicaria um livro mais espesso, mas determinadas análises extensivas que o livro contém tornam-se, sem essa contextualização, relativamente espúrias. Em todo o caso, imagino que na análise da idade contemporânea (a cargo de Rui Ramos) esse tipo de comparações seja mais frequente.

 

Finalmente, é perceptível a dificuldade dos autores ao longo do texto em conciliar uma linha necessariamente cronológica com o objectivo declarado de expor as dimensões “política, económica, social e cultural” da História de Portugal. Por vezes, essa gestão torna-se algo confusa, quando o texto se concentra durante longas páginas numa dessas dimensões (ou mesmo a diferentes frentes dentro de cada uma) em detrimento do fio condutor cronológico.

 

Em suma, e apesar de algumas vertentes em que é porventura menos feliz, trata-se de uma obra inegavelmente completa – a vários níveis – e, sobretudo, fresca, na medida em que possibilita uma apreciação simultaneamente esclarecida e imparcial, dentro dos dados verdadeiramente fidedignos que nos chegaram até hoje, os quais, particularmente na idade média, estão longe de ser abundantes e claros. 

 

Siga a série, com o José Navarro de Andrade.

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A frase que falta

por Pedro Correia, em 07.05.13

 

«Je parle. Il le faut bien. L’action met les ardeurs en oeuvre.

Mais c’est la parole qui les suscite.»

Charles de Gaulle, Mémoires de Guerre

 

Às vezes basta uma frase. Uma simples frase pronunciada no momento certo. Charles de Gaulle pronunciou várias que passaram à história. Dois exemplos: "A França perdeu uma batalha mas não perdeu a guerra", em Londres (1940); "Viva o Quebeque livre!" , em Montreal (1967). Mas aquela em que mais tenho pensado nestes dias foi pronunciada em Argel, no dia 4 de Junho de 1958, na varanda da sede do governo geral daquele que era então o mais emblemático território ultramarino francês. "Je vous ai compris", bradou o general, ovacionado pela multidão compacta na praça, nas ruas e nos edifícios fronteiros.

A França encontrava-se numa das suas horas mais difíceis, à beira da guerra civil, quando a decrépita classe política parisiense fora chamá-lo dias antes à sua aldeia para salvar o país, pela segunda vez em duas décadas. A guerra da Argélia e um surto imparável de conflitos sociais ameaçavam tornar ingovernável o país que De Gaulle resgatara dos nazis apenas 14 anos antes.

Uma das primeiras decisões do general foi viajar a Argel. Cerca de um milhão de franceses viviam então em território argelino, devastado pelos sangrentos conflitos entre os militares enviados de Paris e a guerrilha da Frente de Libertação Nacional, que reivindicava a independência.

Os franceses argelinos, na sua esmagadora maioria (incluindo Albert Camus, galardoado meses antes com o Nobel da Literatura), queriam manter a ligação à pátria-mãe que remontava a 1830, mesmo conscientes dos horrores da guerra e das fracturas que o conflito da Argélia provocava na sociedade gaulesa. E foi isso mesmo que exprimiram a De Gaulle naquele dia de Junho - há quase 55 anos - numa das manifestações mais participadas de que há memória.

O general, escutando a voz da rua, proclamou: "Compreendo-vos." E foi acolhido com um imenso vozear de aplauso por todas aqueles que, sem o saberem, engrossariam em breve a longa legião de derrotados da história.

 

Há hoje as versões mais desencontradas sobre o real significado desta frase que confirmou De Gaulle como efémero herói dos pieds noirs, os intransigentes da Argélia francesa (muitos dos quais argelinos de terceira ou quarta geração). Uns admitem que se deixou contagiar pela efervescência da multidão e lançou aquele grito como símbolo de adesão simbólica à união franco-argelina sob a bandeira tricolor. Outros enaltecem-na como símbolo supremo do cinismo em política: no fundo, De Gaulle dizia uma coisa enquanto pensava o seu contrário, como se veria quatro anos mais tarde, ao impulsionar os acordos de Evian que abririam caminho à independência da Argélia, sob a liderança da FLN, e ao impressionante êxodo de centenas de milhares de franceses forçados a dizer adeus a uma terra a que chamavam sua.

Há ainda quem sugira que o general se limitou a exprimir, de forma inconsciente, uma evidência: o carácter irredutível dos franceses que viviam na Argélia tornaria mais dolorosa mas não menos inevitável a via da negociação entre Paris e a guerrilha argelina rumo à independência.

Todos concordam no entanto que esta frase, fossem quais fossem as reais motivações do recém-designado chefe do Governo francês (que ascenderia meio ano depois ao Palácio do Eliseu), permitiu a De Gaulle ganhar tempo, ampliar a sua margem de manobra e congregar um apoio popular sem o qual não lhe teria sido possível fazer ressurgir a França do caos em que mergulhara devido à irresponsabilidade dos políticos da IV República.

Bastou uma frase, muito mais ambígua do que parecia. E às vezes é isso mesmo que falta: uma frase. É sempre nos pormenores que devemos procurar o segredo da diferença entre vitória e derrota em política.

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A tal história de reis

por Marta Spínola, em 19.03.13

A propósito deste post do Pedro, lembrei-me de um episódio a que assisti numa aula na universidade. 

O meu curso, ainda que por acabar, é História. Tenho para mim que se há coisa simples em História é perceber que se um Afonso é II ou III é porque antes dele houve um ou dois. E sempre achei que não era preciso explicar isto a uma criança. Mal sabia eu...

 

Estava no quarto ano, numa aula do terceiro porque tinha de fazer ainda História Moderna Geral desse ano. Era a aula das 8 da manhã, aquela não era a minha turma, tudo me aborrecia, e eu sentava-me logo na primeira fila para tirar apontamentos e nem me distrair. 

O professor falava nessa manhã sobre a sucessão de Carlos VIII, "que não tendo descendência masculina directa, foi então sucedido pelo primo Luis XII". Apontamento tiradinho, pronta para continuar.

Alice não, a Alice quis saber, quis indagar, estranhou e avançou: "Pode repetir?" e o professor, paciente, simpático, repetiu: "como Carlos VIII não tinha descendência masculina directa, quem lhe sucedeu foi primo, Luis XII, o parente mais próximo". Mas a estranheza da Alice estava noutra questão, e não  hesitou, juro que ainda a vejo encostar a caneta ao lábio antes de atirar: "Mas isso não faz muito sentido, pois não? Devia ser Luis IX." (a numeração romana é minha, ela pensou em "9º", tenho essa convicção). 

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