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O mundo virtual dos jornalistas.

por Luís Menezes Leitão, em 13.11.16

O jornalismo tem que interpretar a realidade. Não pode tomar os seus desejos pela realidade. Neste aspecto, talvez o mais belo filme de todos os tempos, o Citizen Kane, que é precisamente sobre a manipulação jornalística, já reconhecia que essa manipulação tem como limite os factos. Quando Charles Foster Kane, o dono do Inquirer está a concorrer às eleições, e se perspectivava como vencedor, é apanhado num escândalo matrimonial. O jornal tinha preparado uma primeira página a dizer "Kane elected", mas os directores do jornal recusam-se a passá-la, reconhecendo que, com o voto contra dos puritanos, o dono do seu jornal não tinha hipóteses de ser eleito. A primeira página passou por isso a ser "Charles Foster Kane Defeated: Electoral Fraud". Os factos podem ser manipulados, e são-no frequentemente pelos jornalistas, mas não podem ser alterados.

 

A realidade é que o mundo em que os jornalistas vivem, de Washington D. C. (um bastião ultrademocrata) ou de New York (outro bastião democrata) não representa a América comum. E na América comum Hillary Clinton era profundamente odiada. Apercebi-me disso a primeira vez que visitei os Estados Unidos, ainda no tempo da presidência Clinton. Como é óbvio, quis ir à Casa Branca, e deparei-me lá com uma manifestação furiosa. Julguei que era contra o Presidente, mas verifiquei espantado que era contra a Primeira Dama. Perguntei a razão da manifestação e explicaram-me que ela se estava a meter na política presidencial, o que não era aceitável para uma Primeira Dama, uma vez que não tinha tido o voto popular. E essa imagem da Primeira Dama, que por via do casamento se ingere na presidência do país, ficou no imaginário norte-americano. Afinal de contas a personagem da série House of Cards, Claire Underwood, não representa precisamente esse tipo de Primeira Dama? 

 

Desde então, nunca achei que Hillary Clinton tivesse qualquer hipótese de ganhar a presidência. Não me espantei quando perdeu a nomeação para Obama, e também sempre fiquei convencido de que não iria bater Trump, que já tinha arrasado candidatos republicanos melhores do que ela. O recurso a Michelle Obama, ao próprio Obama e aos cantores nos seus comícios só demonstrava a sua fragilidade, que aliás ficou evidente na noite eleitoral, quando não conseguiu assumir a derrota. Mas os jornalistas continuavam convencidos dessa realidade alternativa e até ao último minuto as televisões americanas recusavam-se a reconhecer a vitória de Trump. Quanto às revistas, já estavam na rua anunciando a vitória de Hillary Clinton, como aconteceu com a Newsweek. Até a Directora da nossa Visão se queixou de ter tido que alterar toda a sua edição em meia dúzia de horas, sendo se calhar por isso que a revista surgiu nas bancas com o título "Oh! Não!". É melhor os jornalistas esperarem pelos verdadeiros factos, antes de começarem com as interpretações sobre os mesmos. Se não, podem acontecer coisas destas.

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Na manhã seguinte à derrota de Hillary Clinton já estava em curso uma suposta campanha em prol da candidatura presidencial de Michelle Obama, em 2020. Nem vou comentar a estupidez política da iniciativa, tão óbvia é: uma das razões da rejeição de Hillary foi a questão "dinástica", pelo que propor imediatamente Michelle só pode servir para a queimar. Nem vou alongar-me sobre a - também óbvia - misoginia desta ideia de que a melhor candidata mulher terá de ter sido necessariamente mulher de um Presidente. A minha questão é outra, e ética: a arrasadora imoralidade deste abandono imediato de Hillary. Não gostavam dela, é isso? Mesmo que seja isso: quando apoiamos alguém, o mínimo olímpico de ética que se exige é que fiquemos ao lado dessa pessoa no momento da sua queda. Que lhe seguremos a mão quando tudo se esboroa, caraças. Pergunto a esses febris corredores de lebres: gostariam que os vossos próximos desertassem no momento de maior dor? Achariam natural? 

Como o próprio T***p acabou por dizer no discurso da vitória (depois de ter passado a campanha eleitoral a insultá-la soezmente e até a prometer mandá-la para a prisão, é preciso não esquecer), Hillary Clinton tem uma vida inteira de dedicação ao serviço público. Em 1977, co-fundou a associação Advogados em Defesa das Crianças e Famílias do Arkansas. Entre 1979 e 1992, liderou a reforma do sistema de ensino do Arkansas. O seu plano de saúde (de 1993) era muito mais avançado do que o de Obama - tão avançado que não conseguiu que fosse aprovado. Entre 1997 e 1999, criou o Programa de Seguro de Saúde para Crianças, a Lei da Adopção e da Segurança Familiar e a importantíssima e inovadora Lei dos Adoptivos Indepententes. Como secretária de Estado de Obama, visitou mais países do que qualquer dos seus antecessores e incentivou o acesso das mulheres aos cargos de poder. Terá cometido erros, evidentemente: só quem não faz nada não os comete. E foi sujeita a um escrutínio e a uma crueldade que não se aplica a nenhum político do sexo masculino: a eleição de T***p é prova disso. Ah, é que T***p não era político, e por conseguinte não sofre de nenhum dos múltiplos vícios de que essa classe padece - é esta a lengalenga do populismo triunfante. Sabem que 87% do dinheiro da Fundação Clinton é mesmo aplicado em programas destinados a melhorar o mundo? Quantas fundações portuguesas conhecem que façam isto? E o que fez T***p em prol do seu semelhante?      

O empenhamento e a capacidade política de Hillary pareceram-me sempre muito maiores do que os de Bill - que, aliás, várias vezes tem afirmado que foi ela quem o empurrou para a política. Tive pena que não fosse ela a candidata em 1992; evidentemente, não teria qualquer hipótese, nessa época. Nem agora a teve, não só porque a misoginia custa muito mais a ultrapassar do que o racismo, mas também por ser a mulher de um ex-presidente. Até das infidelidades do marido a acusaram: T***p chegou a dizer publicamente que, se Hillary nem sequer conseguia satisfazer o marido, certamente não conseguiria satisfazer a América. Sim, é nisto que ainda estamos. Ou que cada vez mais voltamos a estar. Poucos meses antes de morrer, em 1993, Natália Correia disse-me que não tinha vontade de continuar a viver porque o início do milénio seguinte seria de acentuado retrocesso civilizacional, e preferia não assistir a isso. Lembro-me muitas vezes dessas palavras proféticas. 

Não é só T***p nem o que ele significa; é o facto de, no lado pretensamente oposto ao racismo, ao sexismo, ao isolacionismo e à arrogância que o dito cujo representa, se encontrar gente para a qual palavras como lealdade e solidariedade não representam nada. Este cavalo perdeu a corrida? Apostemos já noutro, adiante. É a febre do next, a ambição sem freio nem reflexão, uma visão da existência como gigantesca onda a surfar, de sucesso em sucesso. Quando lhes dizemos: «tenham vergonha», espantam-se do nosso arcaísmo. Boa sorte com esse modo de vida.  

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Previsível.

por Luís Menezes Leitão, em 09.11.16

Durante imenso tempos os jornalistas andaram a fazer uma futurologia completamente absurda sobre as eleições americanas, construindo castelos no ar que era evidente que não resistiriam ao mais leve sopro da realidade. Disseram que o Partido Democrata ia ganhar o Senado, que Hillary Clinton já tinha assegurado 303 votos no colégio eleitoral e que tinha 90% de hipóteses de ganhar a eleição. A certa altura o absurdo foi tão grande que até se pôs a hipótese de Hillary Clinton ganhar o Texas, desde sempre um bastião republicano.

 

Sempre me pareceu que esses jornalistas estavam a tomar os seus desejos pela realidade. Ora, a realidade é que Hillary Clinton sempre foi uma candidata fraca, não conseguindo entusiasmar nenhum eleitor e tendo, pelo contrário, elevadíssimos índices de rejeição no eleitorado. Por isso inicialmente teve que recorrer a Michelle Obama, e mais tarde chamou o próprio Obama, que se envolveu na campanha eleitoral de uma forma que não me lembro de um presidente em exercício alguma vez ter feito pelo seu sucessor. E nos seus comícios teve que recorrer a celebridades como Jay-Z ou Beyoncé para conseguir gerar algum entusiasmo, facto que o próprio Trump não deixou de salientar. Foi por isso uma péssima decisão do Partido Democrático em escolher Hillary Clinton como candidata. Bernie Sanders podia ser um candidato mais à esquerda, mas tinha algumas hipóteses de bater Trump. Hillary Clinton, com os níveis de rejeição que sempre teve nos eleitores americanos, até pelo Rato Mickey seria derrotada.

 

Ora, Donald Trump pode ser conhecido por the Donald, mas não é o Pato Donald. Pode ser extremamente grosseiro, arrogante, provocador e insultuoso, mas é inteligente, ou não teria tido o sucesso que teve nos negócios. Por isso nunca poderia ter sido subestimado, nem se poderia confiar que os eleitores americanos, que o conhecem muito bem há décadas, se escandalizariam com revelações sobre a sua linguagem desbragada.

 

Bastava, aliás, recordar a forma estrondosa como Trump ganhou a nomeação republicana, arrasando candidatos muito mais favoritos, exactamente com o mesmo estilo, para se perceber que Hillary Clinton — que só tinha vencido tangencialmente Bernie Sanders — teria extrema dificuldade em responder ao discurso populista de Trump, de nostalgia pelo regresso ao sonho americano. Ora, o que se viu foi que muitos eleitores alinharam fervorosamente nesse discurso, mesmo nas minorias que Hillary Clinton dava como asseguradas. Na verdade, os media criaram uma ficção de favoritismo absoluto de Hillary Ciinton, que nunca existiu nesta eleição. Por isso, ontem, confrontada com a realidade, Hillary Clinton nem foi capaz de fazer o discurso de derrota, só o tendo feito há momentos.

 

Sun-Tzu escreveu que aquele que se conhece a si mesmo e conhece o inimigo, pode garantir a vitória, mas quem conhece o tempo e o terreno a alcançará de forma absoluta. Manifestamente dos dois candidatos, só Trump percebeu o terreno que pisava: o de um país revoltado, frustrado com a globalização e ansioso pelo regresso ao proteccionismo e ao sonho americano, que ele lhe prometia. Foi por isso o vencedor da noite. Hillary Clinton não percebeu o que o marido tinha percebido ser decisivo para ganhar umas eleições: "It's the economy, stupid!".

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A segunda edição é para quando?

por José António Abreu, em 09.11.16

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O futuro é um lugar imprevisível

por José António Abreu, em 09.11.16

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1.

Será interessante ver se Donald Trump - claramente alguém que não se preocupa com o detalhe ou com a coerência - irá aplicar muitas das medidas que defendeu. Sendo certo que o Partido Republicano controlará Câmara dos Representantes e Senado, muitos dos seus elementos discordam de Trump; porém, o poder tende a atenuar divergências. E os eleitores estão à espera de mudança - em parte, a que Obama prometeu e não concretizou.

 

2.

Se Hillary Clinton perdeu, Obama é o outro grande derrotado da noite. A eleição de Trump permite verificar quão insatisfeitos estão os norte-americanos com a sua presidência. Tivesse Obama conseguido os resultados que muitos por cá - e por lá - lhe atribuem, Clinton teria vencido. Pessoas satisfeitas não querem mudança - ainda por cima, com elevadíssimo grau de risco.

 

3.

Algumas medidas parecem certas. Por exemplo, o fim do Obamacare e o adiamento de qualquer medida para controlar a venda e posse de armas. Do ponto de vista de um europeu, são questões irrelevantes, exclusivamente de política interna. Há, no entanto, três temas com alcance global: o eventual proteccionismo económico, a política externa e a política monetária. Em nenhum deles o comportamento de Trump pode ser dado como adquirido.

 

4.

No campo da Economia, depois de tudo o que disse e das expectativas que criou, Trump está forçado a fazer algo. O TTIP já morrera durante a presidência Obama, mas veremos o que sucede com o NAFTA, que muitos congressistas republicanos têm apoiado, e em que bases se estabelecerá a relação com a China. Seja como for, o comércio global irá quase certamente ressentir-se. Quem hoje celebra, poderá rapidamente constatar que fechar fronteiras não significa mais riqueza - especialmente no caso de países pequenos como Portugal, que apenas poderão crescer captando recursos no exterior.

 

5.

Vladimir Putin foi o outro grande vencedor do dia. Uns Estados Unidos focados na política interna e desinteressados da NATO abrem-lhe as portas para todos os impulsos. Resta saber em que moldes Trump procurará cumprir a promessa de acabar com o Daesh. E se, mais cedo ou mais tarde, como sucedeu a George W. Bush, não acabará arrastado para conflitos que deseja evitar. Para Israel (mas também para a Palestina), os riscos acabam de aumentar exponencialmente.

 

6.

Para o bem e para o mal, a acção dos Bancos Centrais tem sido decisiva no equilíbrio do castelo de cartas em que a Economia se transformou. Irá Trump permitir uma correcção dos mercados, que terá sempre reflexos violentos na vida diária das pessoas? Parece-me improvável. Trump anunciou investimento público; necessita de uma Economia capaz de lhe fornecer o dinheiro necessário (ainda que artificialmente). E mais: Trump é um especulador e um milionário; fará tudo para evitar prejuízos.

Evidentemente, os desejos dele podem mostrar-se irrelevantes. Ninguém segura um castelo de cartas depois de ele estar em queda.

 

7.

Nos países mais prósperos, onde as últimas décadas criaram a ilusão de que era possível manter os níveis de enriquecimento e protecção social sempre a subir, as pessoas andam insatisfeitas. É compreensível. Menos compreensível é que exprimam a insatisfação de forma irracional, votando para acabar com algo em vez de para construir uma alternativa coerente. Inevitavelmente, uma alternativa surgirá; contudo, numa época em que globalmente se vive muito melhor do que em qualquer outra na História, ela pode revelar-se bastante pior do que a situação de partida. Será então demasiado tarde para lamentos. Isto aplica-se à eleição de Trump, mas também à vitória do «sim» no referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, à vitória do Syriza na Grécia, à quase-eleição de Norbert Hofer na Áustria (no dia 4 de Dezembro ver-se-á se o «quase» está a mais), à eventual vitória de Marine LePen em França, aos resultados do Podemos em Espanha ou do AfD na Alemanha, etc., etc., etc.. Quando se unem todos os pontos, a imagem final é assustadora. Mas é o que é, e não vale a pena cair em lamentos. Ou talvez apenas para constatar que a expressão «que possas viver em tempos interessantes» terá resultado da adulteração de uma mensagem defendendo exactamente o contrário.

 

(Foto recolhida na net; não consegui determinar o autor.)

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São loucos, estes americ... Romanos, pois!

por Marta Spínola, em 09.11.16

Vamos cá a ver: havia duas possibilidades e nunca houve uma maioria clara de Hillary Clinton. Não é que haja uma surpresa com Trump, a questão para mim não é tanto ele, que com o seu discurso desta manhã deixou em aberto um caminho para a moderação. Também é ele, que fez uma campanha de palhaço (literalmente) rico e venceu. Veremos o que por aí vem, que remédio.

Deixo a análise política para quem a sabe fazer, eu gosto (ou não) é de observar as pessoas. E o que continua a chocar-me é que as pessoas gostam de um bom circo, mesmo na vida real. Gostam ao ponto de levar circo ao poder para verem mais. Talvez também seja culpa dos canais pagos, pelo menos o presidente tem de dar em sinal aberto, e é entretenimento garantido. O que me preocupa de momento é que quem votou o fez ou porque crê naquela conversa da família americana - quando nem a dele o é! -, ou, e arrisco que pior, quem riu muito com ele, as suas alarvidades e grosserias. Isso não é frontalidade, é circo.

Já sei que a Hillary tem imensos defeitos e "ele é péssimo mas ela também é má" (e foi esta conversa que a vez perder, não tenhamos ilusões), e não sabemos, nem saberemos, como seria se fosse ela a eleita. Agora já está. Olho para trás e vejo como o meu choque com a reeleição do W Bush, parece tão ingénuo perto do de hoje.

Esta campanha foi só circo, e a minha fé na seriedade das pessoas está cada vez mais fraquinha. Sendo eu uma pessoa que adora rir e não reconhece limites ao humor, já vêem o que a ignorância me assusta.

Se falarmos no circo romano, há choque e horror, era um absurdo e uma barbárie. O pão e circo como campanha é uma coisa muito mal vista, mas só à distância de uns séculos. Vemos mal ao perto.

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Confesso: é penoso assistir a “noites eleitorais” dominadas por tudólogos que nada percebem sobre coisa nenhuma mas são capazes de perorar horas a fio sobre não importa o quê. Voltou a acontecer nesta longa emissão televisiva em que se sucediam as mais assombrosas declarações de ignorância sobre a vida real dos Estados Unidos proferidas por gente que observa o mundo pelo buraco da fechadura do eixo Chiado-Príncipe Real.

Com honrosas excepções (das quais destaco Miguel Monjardino e Nuno Rogeiro), nesta longa noite americana, que foi a do naufrágio eleitoral do Partido Democrata, assistimos ao triunfo da ignorância, incapaz de perceber as causas políticas e sociológicas da vitória de Donald Trump e do esmagador domínio do Partido Republicano – que venceu as eleições para a Casa Branca, para o Senado, para a Câmara dos Representantes, para a maioria dos parlamentos estaduais e para a maioria dos governadores que foram a votos.

Sucediam-se banalidades na pantalha. “Os Estados Unidos são um país muito grande”, balbuciava Fulano, preenchendo tempo de antena antes da contagem dos votos. “Normalmente as sondagens nos EUA não falham”, alvitrava Beltrano enquanto os boletins eram contabilizados. “O partido que neste momento tem mais problemas é o Republicano", asseverava Magano, recém-aterrado de Marte. "Ninguém estava à espera que uma coisa destas acontecesse”, escandalizava-se Sicrano após o apuramento dos resultados, passando um atestado de incompetência a si próprio.

Para cúmulo, foram buscar um "especialista em sondagens” que, incapaz de acertar na maioria das pesquisas de opinião que tem feito em Portugal, surgiu nos ecrãs como putativo connaisseur da sociologia eleitoral norte-americana. Tinha o currículo adequado para falhar. E falhou mesmo: pouco depois da meia-noite apresentava ao País um mapa com os Estados do  Michigan, da  Pensilvânia e do  Wisconsin pintados de azul – a cor do Partido Democrata. Infelizmente para ele, a realidade encarregou-se de o desmentir.

Nada a que não esteja habituado.

Do mal o menos: sobre a Virgínia esta sumidade não se pronunciou. “Só conhecendo a Virgínia bem, que eu sinceramente não conheço”, justificou-se. Como se conhecesse algum dos outros 49 Estados norte-americanos.

Hillary Clinton, claro, foi a grande derrotada da noite eleitoral. Mas não está só: tem a companhia destes tudólogos. São em número cada vez maior: mal cabem na bolha do Chiado onde se imaginam a recriar o mundo.

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Hoje milhões de americanos (correcção: noter-americanos; nova correcção: estado-unidenses) irão às urnas. Cerca de 40 milhões já o terão feito por recurso ao voto antecipado. Se há democracias maiores, esta é a mais importante do mundo e mesmo quem não gosta do país terá dificuldades em o negar.

 

Na escolha do próximo presidente há 6 candidatos possíveis, 4 com visibilidade nacional mas só 2 têm reais possibilidades de vencer. Pessoalmente não subscrevo a tese do voto útil, especialmente num país como os EUA. Mesmo que um voto mais de acordo com a consciência e ideologia de cada um (em Gary Johnson para os Libertários ou Jill Stein para os Verdes, por exemplo) leve à eleição de alguém de quem não se goste, o país tem fundações democráticas sólidas que evitariam que uma presidência, independentemente da figura, acabasse num desastre consumado. Se o voto útil acontecer, deve ser porque o medo da eleição de alguém não desejado se sobrepõe às preferências individuais.

 

Não vou escrever muito sobre Donald Trump. A sua personalidade pública (aquela que podemos ver) é a de um ignorante, misógeno, xenófobo, racista, brutamontes, mitómano, egomaníaco e narcisista (estas duas também parecem fazer parte da sua faceta privada). Isso, por si só, é suficiente para o desqualificar de qualquer presidência.

 

Falar em Hillary Rodham Clinton é questionar a razão para o ódio que lhe é dirigido. Parece em parte provir da sua ambição, mas faz sentido perguntar se a de outros homens teria sido questionada. A sua parte na reforma (falhada) do sistema de saúde aquando da presidência de Bill Clinton também parece contribuir. Igualmente o seu muito criticável hábito de secretismo (que levou ao caso dos e-mails em servidores privados) a torna alvo de desconfiança. Não ajuda que seja uma mulher que não gere empatia, sendo mais cerebral e fria que aquilo que se esperaria. Contudo, nada que não se veja noutros políticos.

 

Este ódio que ela gera à direita é ainda mais estranho pelo simples facto de ela ser, mesmo dentro do panorama político americano, tudo menos uma esquerdista (os americanos preferem o irónico “liberal”). Na política americana ela deveria ser colocada no centro, com alguns pontos mais à esquerda mas nunca por muito. Na Europa ela seria colocada firmemente no território da democracia-cristã, num centro-direita claro.

 

Como seria a sua política como presidente? Provavelmente aborrecidamente sólida. O seu currículo como secretária de estado ou senadora indica que é conhecedora dos dossiers mas prefere avanços feitos por pequenos passos, sólidos mas sem aventuras. Também tem hábito de conseguir obter colaborações com republicanos, mesmo alguns que eram visceralmente contra ela. Não parece guardar (muitos) rancores e engole por vezes o orgulho para atingir os seus objectivos.

 

É vista pela esquerda como demasiado próxima aos grandes grupos empresariais. Isto é um facto. As suas presenças no circuito de discursos nos EUA trouxe-lhe uma fortuna agradável e forte proximidade a CEOs e outras figuras do mundo empresarial e financeiro dos EUA. No entanto isso deveria ser uma vantagem. Tais personalidades conseguem ter sempre acesso a qualquer presidente: os montantes que controlam ou influenciam, directa ou indirectamente, garante-o. Ter na presidência alguém que conhecem e com quem conversaram no passado garante um diálogo mais certo que aquele que Bernie Sanders (por exemplo) conseguiria. Isso poderá permitir mudanças a leis ou reformas que de outra forma veriam a oposição dessas pessoas.

 

A forma como Clinton aceitou incorporar propostas de Sanders também poderá jogar a seu favor na presidência. Pode lançar para a arena propostas mais à esquerda do que desejaria para, após a sua rejeição, propôr alternativas que incialmente preferiria. Sendo Clinton uma política orientada para procurar consenso, isso ajudá-la-ia imenso.

 

O principal obstáculo será sempre um congresso (e talvez um senado) controlado pelos republicanos. Isso em si não é mau. O sistema de checks and balances dos EUA procura precisamente esses equilíbrios entre os vários órgãos executivos (se bem que ter ambas as câmaras a operem-se-lhe pode ser demais). O obstáculo é que muitos republicanos começam a ver o valor de optar por uma política de terra queimada e de ataque ao sistema político de Washington, sem permitir a mais simples sombra de compromisso. Isso poderá levá-los a rejeitar toda e qualquer proposta de uma presidente Clinton, mesmo que vá de encontro aos seus interesses e ideias. No entanto, mais uma vez, a alternativa seria pior.

 

Do lado democrata, a alternativa era Bernie Sanders, alguém de quem eu estaria mais próximo ideologicamente. Num cenário europeu Sanders estaria talvez no centro esquerda (depende do país: nos países escandinavos até poderia assemelhar-se por vezes a um centrista). Só que nos EUA ele está tão à esquerda que teria oposição não apenas dos republicanos (mesmos em recorrerem a intransigências) mas também de muitos democratas. Tivesse ele sido escolhido como candidato democrata contra Trump e o cenário seria o de um frente a frente entre um futuro de parálise e outro de incompetência.

 

Penso que os americanos/norte-americanos/estado-unidenses acabarão por escolher Clinton. Escolher Trump será um desastre não por si mesmo (os checks and balances manter-se-iam) mas porque muitos representantes republicanos sentiriam a necessidade de o apoiar, quanto mais não seja para aproveitarem a onda. A escolha de Clinton é pouco apelativa pelo que promete, mas é sólida e basta em si mesma pelo aspecto transformativo que possui (a eleição da primeira mulher presidente após a eleição do primeiro presidente negro). É aborrecida mas isso não é necessariamente mau. No entanto, se finda a contagem Trump acabar na Casa Branca (e deitar fora os outros retratos presidenciais para os substituir pelo seu próprio), a culpa será em grande parte do próprio Partido Democrata.

 

PS: sobre a rejeição da esquerda a Hillary Clinton e os comentários de Slavoj Žižek, basta ler este comentário de Alexandra Lucas Coelho. Não subscrevo a sua visão de Clinton (embora não tenha o seu conhecimento específico), mas a sua análise é claríssima.

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Making America great again

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.10.16

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O meu amigo R.M. (espero que ele não se zangue por eu citá-lo aqui) lembrou-se de que em tempos tivemos o New Deal, de Roosevelt. Depois chegou o "Yes, we can", de Obama. E a seguir veio "Grab them by the pussy, Making America Great Again", de Trump.

Por este andar, digo eu, lá para Novembro (se não for já para semana), somos capazes de vir a ter o "We got him by the balls", de Hillary Clinton.

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Trump e outros populismos

por José António Abreu, em 11.08.16

A maior tragédia da candidatura de Donald Trump seria a sua eleição. Felizmente, tal começa a parecer improvável.

A segunda maior tragédia da candidatura de Donald Trump - como, de resto, da maioria dos populismos, sejam estes de direita ou de esquerda - é distorcer o debate, afastando-o dos temas e das soluções que verdadeiramente importaria discutir.

As políticas de Barack Obama, que Hillary Clinton prosseguirá, são passíveis de inúmeras críticas: o aumento exponencial da dívida, a que correspondeu apenas um crescimento tímido da Economia; os riscos gerados pela política financeira, de - não obstante a retórica em contrário - apoio a Wall Street; a estagnação dos níveis salariais; o recrudescimento da violência racial; a tendência para o aumento de impostos; as hesitações e contradições da política externa. Seria fundamental que existisse uma oposição à altura, chamando a atenção para estas e outras questões (mas questões verdadeiras, não as que se baseiam em números inventados ou em sensações, como o putativo aumento da criminalidade) e avançando com propostas alternativas, concretas e viáveis. No mínimo, a discussão forçaria o Partido Democrata a clarificar e a refinar propostas. Nada disso está a acontecer. As frases ocas de Trump, a sua incoerência e a sua incapacidade para manter a discussão no plano das ideias (invariavelmente, e ao melhor estilo autocrático, ele responde a críticas de cariz político com descabelados - perdoe-se-me o trocadilho - ataques pessoais) deixa terreno aberto a Clinton para que possa ser eleita não apenas com relativa facilidade mas sem ver o seu programa devidamente escrutinado.

Isto é terrível para a democracia. Os populismos são perigosos por criarem realidades alternativas e fazerem muitas pessoas acreditar no impossível, mas também por (1) levarem os adversários a entrar por seu turno na baixa política dos ataques pessoais e das promessas irrealistas (ou, a prazo, prejudiciais), (2) diminuírem a extensão e qualidade do debate sobre o que verdadeiramente é possível fazer, e (3) queimarem pontes para compromissos futuros. Mesmo que os populistas não vençam as eleições, a conjugação destes factores aumenta a probabilidade de que sejam (ou continuem a ser) implementadas políticas erradas. E o resultado de políticas erradas é o aumento da insatisfação e dos populismos. O círculo vicioso perfeito. O círculo vicioso em que o Partido Republicano se deixou aprisionar. (A terceira maior tragédia da candidatura de Donald Trump é o modo como fragiliza o partido de Abraham Lincoln, ainda que - sejamos honestos - o processo tenha começado antes dela.) O círculo vicioso que, com ligeiras variantes, elegeu o Syriza, deu força ao Podemos, ao UKIP, à AfD e à Frente Nacional, destruiu o PASOK e ameaça o PSOE, e poderá vir a esvaziar ou a fragmentar o PS, se - e talvez fosse mais adequado escrever «quando» - o falhanço da demagogia em curso forçar uma crise.

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Uma espécie de casa dos segredos

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.07.16

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Primeiro saiu o malfadado artigo da New Yorker que deixou o vendedor de banha da cobra a espumar, a que logo se seguiram as ameaças. Depois veio aquele discurso na Convenção Republicana da barbie Trump que deu origem ao hilariante comunicado de Meredith McIver. Ficámos então a saber que não só houve plágio, o que até aí todos negaram, como lá bem no fundo aquela tropa de matronas, agentes imobiliários e pregadores é admiradora dos democratas. É claro que aquilo não é o Watergate, mas como escreve Ryan Lizza, estes episódios esclarecem muita coisa. Quem não esteve pelos ajustes foi Ted Cruz. E o caso não é para menos, porque com um circo na estrada onde não falta rapaziada como Chris Cox, estou convencido de que Hillary Clinton só não vencerá folgadamente se der uma conferência de imprensa em topless. Oxalá que ninguém se lembre de lhe propôr isso. Para pior já basta assim.  

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Bernie

por Alexandre Guerra, em 11.05.16

Bernie Sanders é um fenómeno político espectacular. Não tanto pelos resultados que tem alcançado nas primárias do Partido Democrata (embora de digno registo, tendo em conta a poderosa máquina de Hillary Clinton), mas sobretudo pela onda de entusiasmo que criou numa parte considerável do eleitorado norte-americano. Seria (tal como foi) impensável para qualquer analista ou comentador, até há poucos meses, que uma personalidade como o senador de Vermont pudesse sequer ser considerado um actor para ser levado a sério à escala nacional, atendendo àquilo que ele é e à forma como se apresentou aos americanos. No sistema político americano, políticos como Sanders, conotados com um proibitivo socialismo "vermelho", muito para lá da esquerda do Partido Democrata, foram sempre vistos como autênticos "párias", aos quais estava interdito qualquer acesso aos grandes palcos das disputas da política nacional. A verdade é que, tradicionalmente, a América sempre tolerou mais os políticos de correntes à direita do GOP do que à esquerda do Partido Democrata. Não importa agora aqui estudar o porquê dessa realidade, mas a questão central é que o sistema político dos Estados Unidos teve sempre mais espaço para a projecção nacional de figuras como Joe McCarthy, Sarah Palin ou Ted Cruz. Efectivamente, olhando para as décadas a seguir ao pós-II GM, pode-se constatar que Sanders é, porventura, o político (talvez o único) assumido de esquerda e socialista que mais projecção nacional conseguiu. 

 

A ascensão de Sanders ao estrelato nacional e a sua penetração nos "hearts and minds" de muitos americanos há de ser, a seu tempo, um "case study" e que, em parte, poderá ser explicado pelo distanciamento temporal ao fim da Guerra Fria e do fantasma "comunista", se tivermos em conta que muito do eleitorado que aquele candidato tem cativado é jovem. Além disso, como ainda há dias uma jovem apoiante de Sanders dizia na CNN, aquilo que para muitos americanos é visto como extrema esquerda, na Europa é considerado apenas de centro-esquerda, ou seja, mainstream, e daí não vir mal ao mundo. E é precisamente esta leitura que muitos jovens eleitores norte-americanos começam a fazer, alguns sem qualquer memória da ameaça "vermelha" e libertos dos preconceitos e medos da Guerra Fria. Para muitos destes jovens, inclusive, os despojos do comunismo fazem hoje parte de uma cultura pop muito apreciada. 

 

Dificilmente Sanders retirará a nomeação a Hillary, mas de todo este processo é sem dúvida ele quem mais personifica o "tempo novo" na política americana. Apesar dos seus 74 anos, encontrou um novo filão de eleitorado, com muitos jovens, que viram no seu discurso uma esperança e uma alternativa. De certa maneira, encontra-se aqui algum paralelismo com o que aconteceu com Barack Obama nas primárias de 2008 e, curiosamente, também contra a poderosa máquina de Hillary. 

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Na América

por Helena Sacadura Cabral, em 03.03.16

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Depois da "Super Tuesday" tudo começa a ficar mais claro no que ao resultado final das eleições primárias norte-americanas diz respeito.

No campo democrata, creio que Hillary parece imbatível e que Sanders, tido como da ala dos candidatos mais liberais, irá perder. A vida da provável candidata democrática não será contudo fácil, dada a excessiva exposição política que Clinton lhe trouxe.

Mas se o voto negro e o de algumas minorias estiver garantido, é muito possível que a vejamos no lugar que antes foi do marido. O que fazer a este, em caso de vitória, é que me parece uma questão importante, a menos que a Casa Branca deixe de ter mulheres...

Trump, por seu lado, provou que dificilmente alguém o superará no campo republicano. Cruz e Rubio podem arrumar as botas, porque o tempo deles já foi.

O que irão os republicanos fazer com uma candidatura que não corresponde à imagem real do partido? Esta é a outra pergunta que não pode deixar de ser posta...

Parece assim que Hillary, face a Trump, terá a vida facilitada em Novembro. Mas a América, de quem os europeus tanto gostam, às vezes traz tristes surpresas.

Esperemos que não, porque, confesso, há muito tempo que espero que Hillary seja colocada no lugar que, do meu ponto de vista, lhe compete de direito!

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