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Seis Dias que abalaram o Médio Oriente*

por João Pedro Pimenta, em 18.06.17

Passou agora meio século desde a Guerra dos Seis Dias, uma das operações mais retumbantes do século XX. Israel estava nas vésperas do seu vigésimo aniversário, uma curta existência caracterizada por duas guerras e a resistência a um cerco por parte dos (muito maiores) vizinhos árabes. Em fundo, a Guerra Fria, de que a região era um dos principais cenários, sobretudo desde 1956 e a Crise do Suez, após a qual a URSS se tinha voltado definitivamente para o Egipto, ao passo que os EUA continuavam a apoiar o estado judaico. O país liderado por Nasser consolidara o seu estatuto de potência regional, apesar do falhanço na constituição da República Árabe Unida com a Síria. E em 1967, precisamente por receio de um ataque israelita à Síria, o Egipto exigiu a retirada das tropas da ONU presentes no Sinai desde 1956, iniciando um bloqueio ao estreito de Tiran, que dá acesso ao golfo de Aqaba e é a única saída de Israel para o Mar Vermelho, e consequentemente o Índico. Um tal bloqueio, impedindo a livre circulação marítima de um estado, era uma declaração de guerra implícita.

 
Entre 5 e 10 de Junho de 1967, e em reacção ao cerco do Egipto e a crescentes hostilidades de outros estados árabes, Israel viu-se forçada a actuar mesmo sem a protecção de qualquer outro aliado. As forças armadas israelitas desencadearam um ataque aéreo fulminante e em massa sobre todas as bases áreas egípcias, arrasando por completo a aviação inimiga em apenas doze horas. O ataque era arriscado, porque deixou Israel sem qualquer protecção aérea, mas constituiu um rude golpe na moral (e no material) do Egipto e espantou o mundo pela audácia, rapidez e eficácia. De imediato, os blindados israelitas penetraram no Sinai, com auxílio da aviação (e sem o perigo de ataques da aniquilada aviação egípcia), cortaram o acesso a Gaza (onde tinham a oposição das forças palestinianas) e confinaram os carros de combate egípcios a terrenos de escassa mobilidade. Em dois dias, as forças árabes estavam dispersas, destruídas ou em fuga, ao passo que as israelitas atingiam o Canal de Suez e a extremidade do Sinai, tomando Sharm-el-Sheik e controlando o estreito de Tiran.

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A Norte, e depois de sangrentos combates, a infantaria de Israel tomou os montes Golan a uma Síria equipada com armamento soviético mas com deficiente treino e fragilizada pelas purgas entre os oficiais, como consequência dos vários golpes de estado.
A Jordânia, que se tinha colocado do lado dos aliados árabes confiando na força do Egipto, ensaiou alguns ataques de artilharia, o que levou à entrada das forças de Israel na Cisjordânia no dia 6, e à ocupação daquele território, incluindo a Cidade Velha de Jerusalém, o que implicou sangrentos combates rua a rua com os encarniçados resistentes, ainda que os lugares santos da cidade não tivessem sofrido danos. A ocupação do território de aquém-Jordão e sobretudo dos lugares santos de Jerusalém teve um simbolismo religioso e político extraordinários. Israel cumpria o velho sonho de se reapoderar da sua capital histórica, além de permitir aos judeus o acesso ao Muro das Lamentações, impedido pelas forças jordanas desde 1948.

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A breve guerra, que em seis dias aniquilara forças árabes muito superiores em número - formando um cerco que parecia inquebrável - e dera a Israel o controlo de um território maior que o originário, surpreendeu pela eficácia extrema, superior à da Blietzkrieg alemã. Moshe Dayan, ministro dos negócios estrangeiros, e Yitzhak Rabin, o chefe das forças armadas, ganharam um estatuto de líderes militares de excepção e são hoje considerados como dos melhores estrategas do século XX. Nasser, o popular presidente do Egipto, tinha sido tremendamente humilhado, ao contrário do que acontecera em 1956, e resignou ao cargo, mas daria meia volta depois de manifestações a seu favor. A Jordânia ficou na prática confinada à Transjordânia. Quanto aos territórios ocupados, e apesar da condenação da ONU (sobretudo dos estados árabes), continuariam na posse de Israel, que argumentou com as necessidades da sua própria protecção. Haveria ainda mais uma guerra, em 1973, até que a paz com o Egipto de Sadat, anos mais tarde, em Camp David, permitiria a devolução do Sinai. Quanto a Gaza, permaneceria ocupada até à retirada unilateral em 2005. Os Montes Golan e a Cisjordânia continuam na posse irredutível de Israel há 50 anos, sem alterações à vista. E os judeus, salvo alguns contratempos provocados pelos vizinhos palestinianos, continuam a poder rezar no Muro das Lamentações.
 
* Agradeço a inspiração à crónica da Antena 1 com o mesmo nome e sobre o mesmo assunto

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A guerra na Europa.

por Luís Menezes Leitão, em 20.12.16

Num só dia tivemos um atentado em Berlim, outro atentado em Zurique e o assassinato do embaixador russo em Ancara por parte de um polícia turco, que gritou vivas a Alepo, cidade que acaba de ser reconquistada ao Estado Islâmico pelas forças governamentais sírias, com o apoio da Rússia. É manifesto que estamos perante uma verdadeira guerra no terreno, de que o conflito sírio é apenas um balão de ensaio, assim como a guerra civil espanhola, que precedeu a II Guerra Mundial. A Europa encontra-se neste momento ocupada por verdadeiras quintas-colunas, onde o inimigo pode estar à espreita em qualquer canto, podendo ser o motorista do camião que circula na estrada ou até mesmo um agente de autoridade, preparados para a qualquer momento lançar o ataque. Precisamente por isso a Europa tem que deixar de enfiar a cabeça na areia como a avestruz e preparar-se para se defender, até porque a América já não vai estar disponível para financiar a sua defesa. É mais que tempo de a Europa perceber que enfrenta uma guerra no seu território e mobilizar-se para combater. Porque não haja ilusões: se a guerra põe naturalmente em risco o bem-estar dos europeus, nada fazer perante a guerra será seguramente muito pior.

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A guerra relevante.

por Luís Menezes Leitão, em 28.07.16

Neste post, o Diogo sustenta que descrever a actual situação como uma guerra não só é irrelevante do ponto de vista operacional como oferece legitimação política às organizações que pretendemos eliminar. É o argumento típico dos políticos europeus, que persistem em negar a realidade em ordem a continuar a defender políticas inconsequentes. É assim que em toda a imprensa se insiste em falar no "auto-proclamado" Estado Islâmico, como se o mesmo não ocupasse territórios na Síria e no Iraque. Mas os sinais da guerra estão à vista de todos. Quando em França os líderes religiosos exigem protecção armada para os locais de culto ou quando na Baviera a própria população pede a colocação de militares na rua, é manifesto que passámos a fase da mera criminalidade, a que se pode reagir com a simples protecção e investigação policial. Neste momento a Europa está em guerra e a guerra combate-se com exércitos. Negar isso é negar a realidade e deixar a Europa continuar debaixo de fogo.

 

Quem se recusou a negar a realidade foi o Papa Francisco. Numa corajosa comunicação aos jornalistas, acaba de dizer que "a palavra que tem sido sucessivamente repetida é insegurança, mas verdadeira palavra é guerra. Vamos reconhecer a verdade: o mundo está num estado de guerra fragmentada. Agora existe uma guerra. É talvez uma guerra não orgânica, mas está organizada e é guerra. O mundo está em guerra porque perdeu a paz". 

 

Sábias palavras de quem todos os dias assiste ao massacre dos seus fiéis por parte de combatentes fanáticos, sem que nada se faça para combater a ameaça. Após o 11 de Setembro, os Estados Unidos perceberam que tinham sido atacados e por isso tinham que travar uma guerra. A Europa, porém, parece que voltou a 1453, insistindo em discutir o sexo dos anjos enquanto os turcos atacam Constantinopla. Valha-nos o Papa que percebeu muito bem o que está em causa.

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Guerra ao ódio

por Tiago Mota Saraiva, em 15.11.15

Ontem, pediram-me do i que participasse numa série de artigos de opinião sobre os atentados em Paris. Ali deixei o meu contributo para a discussão do tema.


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É na política que somos todos

por Tiago Mota Saraiva, em 14.11.15

Hoje choca-nos. Sentimo-nos próximo. Reconhecemos as ruas de Paris e aquelas expressões de pânico parecem-nos familiares. Procuramos contactar quem conhecemos em Paris. Apetece-nos prestar solidariedade. Uma solidariedade que de pouco vale às vítimas - os mortos, sobreviventes e todos os que lhes estão próximos. 
É no campo da política que podemos agir. É aí que somos todos.
Perceba-se, de uma vez por todas, que mais policiamento e controlo não é garante que não volte acontecer. Abordar o problema desta forma apenas nos garante que acontecerão novos massacres cada vez com mais perdas do lado dos que passeiam na rua.
Este também é o tempo de mandar calar todos os que levantam dúvidas sobre os motivos da crise dos refugiados. É disto que fogem.
Repito, o que podemos fazer é agir politicamente. Contribuir para a paz e não espalhar a guerra. Hoje é um bom dia para avaliar as consequências da guerra ao terror, da existência da NATO e do papel que tem tido na escalada desta guerra.

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Fury

por José Gomes André, em 11.11.14

Um dos mais preciosos - e simultaneamente mais trágicos - factos do nosso tempo é o de vivermos numa Europa onde (quase) ninguém teve a experiência da guerra. Por isso ela é tantas vezes invocada em vão, pois desconhecemos os seus horrores, a sua miséria, a forma como conduz a uma absoluta desumanização. Nunca como hoje fomos tão indiferentes à nossa própria memória. E como diz o célebre poema de Santayana, aqueles que não conhecem a história estão condenados a repeti-la.

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A guerra no horizonte.

por Luís Menezes Leitão, em 26.07.14

 

 

A revista Time está convencida de que o abate do avião da Malaysia Airlines por parte dos rebeldes pró-russos corresponde a um regresso à guerra fria. Efectivamente, a situação faz lembrar o abate do avião da Korean Airlines pela URSS sobre a ilha de Sacalina em Setembro de 1983, quando a guerra fria estava no seu auge. Parece-me, no entanto, que o que se está a passar não representa qualquer regresso à guerra fria. Por muito que Putin queira reconstituir o antigo espaço soviético, o back in the USSR não é hoje mais possível. O que se está a passar é antes um regresso a 1914. Na altura também houve um crime bárbaro, o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand pelo terrorista Gravilo Princip, o que serviu de motivo para que a guerra se iniciasse para esmagar todos os "sérvios regicidas". Agora, porque os rebeldes russófonos da Ucrânia cometeram também o bárbaro crime de abater um avião civil, Putin é sumariamente declarado culpado desse crime e a União Europeia vai aplicar sanções para mergulhar a Rússia na recessão. Parece assim que todo o povo russo vai agora expiar uma culpa colectiva pelos crimes cometidos pelos rebeldes pró-russos da Ucrânia.

 

Quem conhece um pouco da história da Rússia, sabe perfeitamente que estas sanções não vão vergar a Rússia, só podendo pelo contrário conduzir à guerra. Primeiro, é evidente que Putin não pode deixar de apoiar os russos da Ucrânia, sob pena de ser considerado um traidor na Rússia, o que facilmente acontecerá em virtude da fúria nacionalista que esta ameaça de sanções já está a gerar. Segundo, mesmo que suporte um verdadeiro inferno, o povo russo sempre resistiu aos ataques ao seu país. Quando Napoleão conquistou Moscovo, os russos entregaram-lhe a cidade em chamas, obrigando-o à retirada. Na segunda guerra mundial, mesmo depois de terem sofrido vinte milhões de mortos, os russos vergaram as tropas de Hitler, obrigando-as a retirar e ocuparam Berlim. Terceiro, o isolamento mundial também nunca assustou a Rússia. Estaline não hesitou em adoptar a fórmula do socialismo num só país, isolando a Rússia do resto do mundo, quando a revolução mundial desejada por Lenine não se verificou.

 

Não tenho dúvidas de que, se Putin for colocado entre a espada e a parede, terá que optar pela espada. É por isso que me parece que nesta história das sanções à Rússia, os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo. A guerra não irá assim ser fria. Quem vai ter frio será o norte da Europa, quando falhar o abastecimento do gás russo. Já a guerra será muito quente. No fundo 2014 está a replicar 1914. Sem que ninguém se aperceba, andam todos a preparar o apocalipse.

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Outras perspectivas

por João André, em 21.07.14

A tragédia na Ucrânia é enorme, infelizmente não se limita apenas aos passageiros de um avião. Não sei se será um dia possível saber exactamente o que se passou com este caso. Provavelmente os rebeldes receberam uns mísseis terra-ar, umas instruções básicas sobre como os utilizar, e pensaram estar a abater algum avião militar ucraniano. Isto não desculpa nada, mas é importante saber aquilo que se está de facto a passar, até porque os separatistas (ou as forças armadas ucranianas) não teriam, qualquer interesse em abater um avião de passageiros.

 

É uma tragédia, como escrevi, mas a pior é que vai ocorrendo directamente no terreno. Os ucranianos vão sendo usados pela Rússia e Europa num combate geoestratégico pela dominância política na região sem que alguém pense nas consequências que tal tem nas pessoas em si. Como em muitos outros conflitos do género, o monstro começa a querer pensar pela sua própria cabeça e a sair do controlo do dono. Penso ser esse o caso com os separatistas e Putin, que poderá ter cada vez menos controlo sobre eles. Do lado do governo ucraniano é possível que se mantenha unido para já, a ver vamos o que sucede no futuro.

 

Entretanto vamos esquecendo outras consequências enquanto a Europa sua num Verão morninho. Dentro de uns meses começará o frio, ligar-se-ão os aquecedores na Europa Central e ver-se-à que não vem calor nenhum. Não haverá gás. Nos países ricos comprar-se-à gás aos EUA. Nos outros morrerão pessoas. Na Ucrânia... bom, difícil pensar. E entretanto a Rússia irá ficando sem dinheiro e cada vez mais entranhada em si mesma.

 

Houve no passado quem avisasse para o risco de uma balcanização da Rússia. Putin e o dinheiro do petróleo e do gás natural conseguiram impedir esse efeito - até agora. Quando passam 100 anos do início da Guerra Mundial de 1914-1945, talvez não seja má ideia lembrar nos equívocos que a iniciaram ao fim de um longo período de paz.

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A guerra no horizonte.

por Luís Menezes Leitão, em 27.04.14

 

Os antigos romanos, com a sua infinita sabedoria, diziam: "Si vis pacem para bellum". Ou seja, se queres a paz, prepara-te para a guerra. Infelizmente, no entanto, o actual Ocidente perdeu totalmente essa perspectiva e arrisca-se a deixar desencadear uma guerra mundial, por total incapacidade de previsão e antecipação das consequências das decisões estratégicas que tomou.

 

Barack Obama, talvez confortado por a Academia de Estocolmo lhe ter dado o Nobel da Paz mal se sentou no cargo, apostou totalmente no isolacionismo americano, abandonando a postura intervencionista que desde Reagan sem excepção os Presidentes Norte-Americanos vinham seguindo. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi o de que a América deixou de ser temida no mundo, sem deixar de ser odiada. Hoje, qualquer milícia pró-Rússia na Ucrânia acha que pode livremente tomar reféns, da mesma forma que os estudantes iranianos tomaram a Embaixada Norte-Americana em Teerão durante a presidência de Carter, que se mostrou incapaz de fazer fosse o que fosse. E como se isso não bastasse, o inenarrável Presidente da Coreia do Norte insulta o Presidente Norte-Americano, ao mesmo tempo que prepara mais testes nucleares, sabendo-se bem com que fim.

 

Quanto à União Europeia, que tem mostrado durante a crise financeira que tem muito pouco de união e ainda menos de europeia, limita-se a satisfazer os desejos de hegemonia de Berlim. Precisamente por isso mergulhou de cabeça na crise ucraniana apoiando precipitadamente um governo de extremistas formado na Praça Maidan, o que teve como contraponto a revolta das populações russas do país. Depois de a Rússia já ter anexado o que lhe interessava, ou seja a Crimeia, sem precisar de disparar um tiro, assiste-se a uma verdadeira guerra civil, em que de um lado estão os "terroristas" e do outro os "nazis", enquanto os desgraçados dos observadores da OSCE são mandados para uma zona de guerra observar não se sabe o quê, sendo logo feitos reféns e qualificados como prisioneiros de guerra, sem que ninguém tome qualquer medida de retaliação.

 

Enquanto na Ucrânia e na Coreia do Norte os sinais de guerra são cada vez mais ameaçadores, a resposta do Ocidente continua a ser ridícula. As agências de rating consideram a dívida da Rússia como lixo financeiro, julgando que em caso de guerra os investidores continuarão a comprar dívida como se nada se passasse e a seguir os prestimosos conselhos destas agências. O Governo interino da Ucrânia acusa a Rússia de querer a terceira guerra mundial. E Obama acusa a Rússia de não levantar um dedo para resolver a crise ucraniana. Quanto à Europa, amarrada pelo colete de forças do euro, não tem quaisquer condições de ter a mínima presença militar, assobiando agora para o lado do sarilho que causou na Ucrânia. Continuem com os cortes orçamentais, deixem os países europeus sem defesa, e vão ver aonde vamos parar.

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Just Wellington

por José Navarro de Andrade, em 15.03.12
Robert Alexander Hillingford
 
Esta sublime carta de Tolkien que o Rui Rocha teve a feliz ideia de nos dar a conhecer, fez-me lembrar outra, também de uma bizarra actualidade.

Trata-se de uma resposta de Wellington a uma inquirição ministerial de Londres. A data é de 1812 quando Wellington, recorde-se, comandava a Campanha Peninsular contra o exército de Napoleão.

 

Senhores,

 

Enquanto marchavam de Portugal até a uma posição que permite a aproximação a Madrid e às forças francesas, os meus oficiais têm diligentemente cumprido as vossas demandas, que foram enviadas por um navio de S.M. de Londres para Lisboa e daí despachadas até ao nosso quartel-geral.

Arrolámos as nossas selas, arreios, tendas e mastros de tenda e toda a sorte de artigos miúdos pelos quais o governo de Sua Majestade me tornou responsável. Despachei relatórios acerca do carácter, perspicácia e disposição de todos os oficiais. Cada artigo e cada cêntimo foi contabilizado, com duas lamentáveis excepções para as quais suplico a vossa indulgência.

Infelizmente a soma de um shilling e nove pence [muito grosso modo o equivalente actual a €1] continua por contabilizar no dinheiro de caixa de um batalhão de infantaria e tem havido uma hedionda confusão na quantidade de frascos de compota entregues a um regimento de cavalaria durante uma tempestade de areia em Espanha.

Este repreensível descuido pode estar relacionado com a pressão das circunstâncias, já que estamos em guerra com a França, um facto que pode surpreender-vos, senhores de Whitehall.

Isto traz-me ao assunto do momento, o qual é requerer que me elucidem sobre as instruções dadas pelo governo de Sua Majestade, de modo a que possa perceber melhor porque arrasto um exército nestas áridas planície. Eu interpreto que forçosamente será uma de duas missões, tais como enumero abaixo. Levarei a cabo uma delas com o melhor das minhas capacidades, mas sou incapaz de tratar de ambas:

1 Treinar em Espanha um exército de escriturários britânicos fardados, para proveito dos contabilistas e amanuenses em Londres, ou talvez,

2  Tentar que as forças de Napoleão sejam escorraçadas de Espanha.

 

O Vosso obediente servo,

 

Wellington

 

O original pode ser lido aqui.

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Do Medo

por Laura Ramos, em 06.11.11

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A derrota e a vergonha

por Pedro Correia, em 30.10.09

 

Às 8 da manhã do dia 21 de Junho de 1942, as tropas britânicas sitiadas na fortaleza de Tobruk, no norte de África, rendiam-se às divisões comandadas por Erwin Rommel, após terem sofrido baixas consideráveis. No seu quartel-general da Alemanha, Hitler rejubilou, entregando a Rommel o bastão de marechal. Ao receber a má noticia em Washington, onde conferenciava com o presidente Roosevelt, Churchill desabafou: “A derrota é uma coisa, a vergonha é outra.” Os britânicos tinham sido derrotados mas não deviam envergonhar-se. Tinham-se batido até ao limite das suas forças. Um ano mais tarde, recuperariam Tobruk.

A que propósito me lembrei deste emblemático episódio da II Guerra Mundial? É que ele constitui uma exemplar lição de vida. A desonra é perder sem sequer dar luta. Vale para todas as épocas e para as mais variadas circunstâncias – e também na política, que é a continuação da guerra por outros meios.

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As lições de McNamara

por Jorge Assunção, em 14.07.09

 

Robert Strange McNamara deixou este mundo no passado dia 6 de Julho de 2009, com 93 anos. A história da sua vida confunde-se com alguns dos períodos mais conturbados da história mundial do século passado. Em 2003, através do brilhante documentário de Errol Morris, Sob a Névoa da Guerra: Onze Lições da Vida de Robert S. McNamara, parte desses momentos e algumas das lições, segundo McNamara, que dai podemos retirar ficaram registadas para a posteridade.

É um homem com o peso da culpa sobre os ombros aquele que nos é apresentado, sem que este, contudo, alguma vez manifeste essa mesma culpa ou aceite sequer discuti-la. No documentário, este refere a primeira recordação de que tem memória, a celebração em terras norte-americanas da vitória na primeira guerra mundial, lembrando como as ruas se encheram de gente, no dia em que a felicidade triunfou sobre o medo da pandemia que então também afectava o mundo, onde as pessoas saíram para a rua sem qualquer máscara de protecção como que a festejar o fim de uma peste maior. McNamara recorda Woodrow Wilson e a sua ingenuidade quando afirmou a propósito dessa guerra que "ganhámos a guerra que terminou com todas as guerras". Mal sabia Wilson como estava errado e como a não concretização desse sonho atormentaria McNamara nos anos vindouros.

 

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