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A quarta revolução (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.04.14

Se há figura consensual na história contemporânea da China, essa figura é representada por Sun Yat-Sen. Venerado na província de Guangdong e em Macau, presente em milhares de livros e documentários, com bustos e estátuas espalhados um pouco por todo o lado, identificando pontes, estradas e edifícios, sem esquecer as múltiplas casas que lhe foram atribuídas e são religiosamente preservadas, quanto mais não seja porque lá pernoitou uma vez, a sua herança tem servido a todos, de um e do outro lado do estreito da Formosa. Como exemplo e fonte inspiradora das mais arrojadas realizações todos reclamam a sua herança. Recordo-me de que quando, há quase três décadas, desembarquei pela primeira vez nestas paragens, ter procurado conhecer essa figura mítica que tanto nacionalistas como comunistas reclamavam como sendo sua. Mas o que mais me marcou em toda a sua obra foi uma pequena frase que durante anos fez parte da primeira página do Taipei Times e que dizia qualquer coisa como, e cito de memória, " um povo esclarecido é um povo iluminado". Na altura, Taipé era famosa pelas edições contrafeitas das melhores obras, que chegavam a reproduzir sem adendas os erros das primeiras edições originais, fosse de enciclopédias, livros técnicos de medicina, direito ou engenharia, ou de clássicos da história e da literatura. A sua herança cultural, e o esforço que fez pela educação do seu povo, é uma imagem reconhecida e que perdura.

Vem isto a propósito de mais um contraste que me foi dado verificar durante esta minha rápida passagem por Cantão e que aqui recordo. Em meados de 1988, estando envolvido com mais alguns colegas num projecto jurídico, ao tempo assessorado por um reputado especialista em direitos asiáticos do Instituto Max Plänck, tive o privilégio de fazer uma visita à Universidade de Sun Yat-Sen, nesta mesma cidade de Cantão. Ali fomos recebido por um professor de idade avançada, antigo combatente do Exército Popular de Libertação e velho resistente apanhado no turbilhão da Revolução Cultural, que depois de uma dura reabilitação fora finalmente integrado naquele estabelecimento de ensino. Queixava-se ao tempo o nosso anfitrião da falta de livros e da contradição que era perante essa realidade dirigir o departamento de Direito daquela universidade à qual o "Pai da Nação" dava o nome. É que para além do seu legado político, Sun Yat-Sen constituíra a força inspiradora para a fundação, dois anos depois da sua morte, em 1927, da primeira biblioteca pública moderna de Cantão e era a isto que ele se referia.

Pois bem, em 1 de Abril de 2013 foi encerrado o velho edifício, para dar lugar a uma construção moderníssima, que cumprirá dentro de um mês o primeiro aniversário, onde são actualmente disponibilizados mais de 3,2 milhões de livros, ou seja, cerca de pouco mais de metade do total de volumes da actual biblioteca.

Com dez pisos, luz natural em abundância, uma área de cem mil metros quadrados, lugares para quatro mil leitores, mais de 425 000 e-books, mais de 1,8 milhões de dissertações e de 3,5 milhões de "conference papers", uma imensidão de revistas e jornais, com uma área especial para invisuais, salas reservadas para preparação de teses, mais de cinco centenas de computadores públicos e a mais moderna tecnologia, a que não faltam máquinas de desinfecção para os livros que podem ser emprestados para leitura domiciliária, trata-se de mais uma das novas obras de excepção da cidade.

O que ali mais chama a atenção é a constante afluência de público,  a imensa quantidade de gente que entra e sai sem se atropelar e sem fazer barulho, seja para devolver exemplares emprestados, rigorosamente depositados nos locais próprios com o auxílio de um cartão digital, ou para se reabastecer de novos, sem esquecer as centenas e centenas de crianças agarradas aos mais variados livros, da banda desenhada ao Petit Prince, cujos pais só a muito custo conseguem arrancar das salas de leitura. Depois é vê-los carregados de sacos com livros pela rua e jardins fora. Curiosamente, ou talvez não, a biblioteca está aberta diariamente, das 9 às 21h, incluindo domingos. E, não obstante encerrar às quartas-feiras, está aberta, imagine-se, todos os dias feriados, dias em que as famílias têm mais disponibilidade para a leitura.

Lá dentro, sem ruído, sem telemóveis a vibrarem ou a tocarem, nem portáteis a fazerem-se anunciar, toda aquela gente trabalha, estuda, entretém-se, diverte-se, exercita os neurónios e aprende. Tudo isto num edifício que é mais uma jóia arquitectónica.

Dir-me-ão que num país em que ainda está bem presente a memória de Tiananmen, como em Hong Kong se comprova pela recente iniciativa de alguns cidadãos de promoverem a construção de um monumento às suas vítimas, tudo isto será relativo. Admito que sim, sem qualquer dificuldade. Nasci e cresci entre gente que se habituou a cultivar, preservar e transmitir os valores da cidadania, da cultura e da liberdade de pensamento, e que foi capaz de fazê-lo nas condições mais adversas. Mas também sei que um censor é por natureza estúpido e que não há censura que resista ao chamamento da liberdade. A geração mais jovem, mesmo a que não saiu das famílias que constituem hoje as elites do PCC, já cresceu a aprender inglês, vendo a CNN e a BBC, estudando em Honolulu, Vancouver, São Francisco ou Boston, e são cada vez mais os que se habituaram a viajar e fazer férias no estrangeiro.

Não sei como será Cantão daqui a mais vinte anos, nem se por essa altura a imagem tutelar de Mao continuará a aparecer nas caixas lacadas de charutos que rivalizam, em qualidade e beleza, com as produzidas pela Zino ou pela Cohiba. Sei que Great Wall já não é só nome de aguardente ou de uma construção, feita à força de braços, visível a partir da Lua. É também marca de charutos chineses, produzidos com tabaco indonésio, e que tenta conquistar o mercado internacional e os exclusivos clubes de aficionados dos puros. Tudo isto significará muito pouco, pois sim. Só que num país que caminha, apesar dos recentes problemas demográficos, para os mil e quinhentos milhões de almas, quase 20% da população mundial, que tem crescido a dois dígitos e que desde o último congresso do PCC viu fixado esse limite para uns módicos 7,5%, nenhum destes sinais deverá ser desprezado.      

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A quarta revolução (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.04.14

Já não me recordo se a última vez que estive em Guangzhou, entre nós, portugueses e ocidentais, mais conhecida por Cantão, foi há mais de 20 ou se há 25 anos. Sei, no entanto, que foi há bem mais de duas décadas. E de todas as vezes anteriores em que lá estive, ou que por lá passei a caminho de outros destinos, fiz o percurso entre Macau e essa cidade de barco, subindo o delta do rio, de carro, por estradas e caminhos miseráveis, e algumas vezes pelo ar, a partir de Zhuai, em helicópteros velhos da Sikorsky, que pingavam líquidos vários a partir de diversos pontos na cabine quando este meio de transporte se tornou numa alternativa para nos fazer poupar tempo.

Volvidos todos estes anos regressei para ver se me apercebia da evolução verificada e das mudanças entretanto concretizadas. A conclusão a que chego é que a quarta revolução está em marcha. Pouco mais de um século passou desde que Sun Yat-Sen, a partir do berço de Wuchang, desencadeou a primeira revolução (Outubro de 1911), pondo termo ao domínio Qing e proclamando a República da China. Agora, cem anos depois da revolução nacionalista, passada a revolução de 1949 (Mao) e a era de Deng, dando corpo ao "Chinese dream", reafirmado por Xi Jinping no momento em que este assumiu a liderança do PCC, aí está a terceira cidade chinesa a comprovar a velocidade da mudança e a rapidez com que se sai da pobreza para a liderança da nova era tecnológica.

(Zhujiang New Town, vista norte do Grand Hyatt)

As oito horas de barco, as quase seis horas de carro que levava de Macau a Cantão na década de 80 do século passado, foram agora substituídas pelos pouco mais de 50 minutos que ligam a cidade fronteiriça de Zhuai-Gongbei à Guangzhou South Station, percurso que actualmente se realiza num comboio climatizado de alta velocidade, com duas classes e circulando à tabela. O barco semanal foi substituído por comboios-bala que saem de 30 em 30 minutos. Ainda me lembro de em 1 de Maio de 1986 ter visto milhares de homens trabalhando, sem a ajuda de máquinas, na construção da auto-estrada Zhuai/Cantão. Nunca mais me esqueci da data exactamente por ser o Dia do Trabalhador e dos estaleiros ao longo da velha estrada estarem todos decorados com bandeiras coloridas do tipo das que ainda hoje se vêem na Festa do Avante. Duas décadas depois a China tem a maior e mais densa rede de comboios de alta velocidade do mundo. Cantão, onde a circulação era difícil e lenta, cheia de pó e sempre em obras, tem hoje uma rede de metropolitano com 9 linhas que cobrem mais de 260km de extensão. Aquele que era o meu hotel preferido, em Shamian, o White Swan, está fechado para obras de remodelação. A nova cidade deslocou-se para Tianhe e as decrépitas lojas da Beijing Lu deram lugar a moderníssimos centros comerciais onde a Prada discute espaços com a Rolex ou a Porsche. Os velhos hóteis foram substituídos por dezenas de novos hotéis, do Ritz-Carlton ao Grand Hyatt, do Sofitel ao Hilton. A cerveja Tsintao morna que nos era oferecida pode agora ser servida gelada ou facilmente trocada por uma Heineken, uma Stella Artois ou uma Kronenbourg. A cidade viu crescerem os parques e as monumentais torres de escritórios da última geração. As bicicletas foram substituídas; primeiro por motociclos, depois por utilitários japoneses e carros da gama alta alemã. A quantidade de gente que hoje fala inglês não tem comparação possível com o que acontecia há vinte anos, quando era raríssimo, mesmo dentro dos poucos bons hotéis que havia, encontrar alguém que falasse um inglês aceitável. A cidade foi sede dos Asian Games em 2010 e o esforço que então foi necessário fazer reflecte-se na nova arquitectura da cidade, nos edifícios inteligentes, nos novos e amplos espaços verdes, na criação de uma nova mentalidade com preocupações ecológicas e ambientais. Cantão é hoje a imagem de uma China muitíssimo mais moderna, jovem e insatisfeita, que continua a procurar avidamente o progresso.

(Huacheng Road a partir do flyover que liga o Guangzhou International Finance Center ao GTLand Plaza)

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