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gorish

por José Navarro de Andrade, em 02.08.12

 Jasper Johns, "Three Flags", 1959

Brent Godfrey, "Flag", 2008 

Antes de morrer, Christopher Hitchens, o irredutível, forçou uma saída em grande e fez correr, não sangue mas fel. O alvo? Um velho de 84 anos, rico, impotente, pose de patrício: às vezes Calígula outras César Augusto, destituído de qualquer gota de amor, supinamente inteligente, absolutamente laureado – Gore Vidal.

Fosse anos antes teria sido um duelo de titãs, mas em 2010 foi uma refrega de moribundos, repleta de ressentimentos recíprocos. Ambos representavam, sabiam-no, a morte de uma esquerda intranquila e insaciável, que perdeu muito, sem descobrir muito bem o que ganhou. Uma esquerda com dúvidas e céptica, oposta à tradição e aos seus comodismos, com que cerceia a plena liberdade individual. Não era aquela esquerda que já sabe tudo antes de acontecer, a que ganha sempre em qualquer circunstância, para a qual 300 passos trás vão ser um dia 600 para a frente, já foi cientificamente escrito e a História, esse unicórnio, o provará.

No final de 2009, Vidal dá uma amaríssima entrevista ao “The Independent”, quase macabra, tanto que chegou a ser comentada a decência do jornalista, por ter exacerbado e explorado os rancores de um ancião.

É crível que por esta altura já Vidal tinha concluído que na novela o seu vulto não alcançaria o dos seus arqui-inimigos Truman Capote e Norman Mailler (que in illo tempore lhe atirara um copo à cara e lhe dera uma cabeçada), que também se odiavam reciprocamente. E como ensaísta batia-lhe a sombra de Tom Wolfe – detestavam-se, claro. Não obstante, a coletânea de artigos “United Sates”, um título que deve ser lido literal e conotativamente, prevalecerá como uma peça suprema do ensaísmo americano, ou seja, do século.

Ao longo da entrevista Gore Vidal profere brutalidades tais como:

Acerca da sua mãe: “she told me that rage made her orgasmic. I didn’t think to ask if sex did the same.” Pergunta-lhe então o jornalista: “Mas ao fim de todos estes anos não sente alguma compaixão por ela? Não.”

Sobre Timothy McVeigh: “He was a noble boy.” Matou inocentes? “So did Patton, so did Eisenhower!”

Sobre os Kennedy: “Who cares what they were like as people? That’s just show business.”

Sobre si próprio: “To me hell is the United States of today.”

Na "Vanity Fair" Hitchens replica com um artigo intitulado “Vidal Loco”, ele que tinha sido o herdeiro designado de Vidal e já começava a ter indícios de sofrer de cancro. Do ex-mestre diz que profere: “more crass notions of Michael Moore or Oliver Stone being expressed in language that falls some distance short of the Wildean ideal.” Terminando de uma forma dramática: “I have no wish to commit literary patricide, or to assassinate Vidal’s character—a character which appears, in any case, to have committed suicide.”

Valerá a pena ler estas peças, e assistir aos derradeiros fulgores de duas mentes brilhantes já fatigadas pela desilusão. Hitchens morreu em Dezembro passado, Vidal anteontem.

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Gore Vidal

por José António Abreu, em 02.08.12
Com atraso (sem férias mas com inércia adequada a elas, a minha vida fica estranha nos meses quentes), uns quantos excertos, meio ao calhas, de Navegação Ponto por Ponto, de Gore Vidal (edição Casa das Letras, com tradução – não propriamente brilhante – de José Luís Luna):

 

Saul Bellow aparecia de vez em quando em Roma, normalmente sozinho. Teve cinco mulheres, mas como eram todas tão parecidas nunca memorizei os nomes.

 

Nesses tempos, os editores estavam quase tão perplexos como hoje quanto ao modo de atrair leitores numa época do cinema e da arrivista televisão. Resolvi-lhes o problema completamente por acaso. Como ainda me interessava por política, tinha continuado a ir à televisão sempre que possível para falar do estado do país, o que agradava a Carson e a poucos mais – muito poucos – convidados. Um deles era Hugh Downs, a discreta estrela do programa Today. Nesses tempos sem pressas, ele e eu sentávamo-nos a uma mesa com o New York Times entre os dois e conversávamos – muito moderadamente – acerca das notícias do dia, com intervalos para a publicidade, meteorologia e o noticiário. Quando a editora de Juliano, Little Brown, me pediu para ir à livraria dela, em Houston, promover o livro, disse que me parecia inútil mas que, se eles insistissem, iria. Deram-me uma data que tentei cancelar porque entrava em conflito com uma entrevista no programa Today de Hugh Downs. «Por que não fazer ambas as coisas?, perguntou o meu editor. «E dizer umas palavras acerca do livro no programa.» Expliquei-lhe que falávamos sobretudo de política. «Então faça uma excepção», disse-me. E foi o que fiz. Falei brevemente do livro enquanto Downs o segurava de braço estendido no ar como se fosse o Santo Graal. A seguir, saí do estúdio e apanhei o avião para Houston onde Ted Brown da livraria epónima me disse: «Não só esse programa de televisão vendeu todos os exemplares que tínhamos em stock como també, segundo parece, todos os exemplares que existiam em Houston. Tudo isso numa só manhã.» Juliano tornou-se rapidamente o sucesso literário número um da lista do Herald Tribune (o New York Times – sempre consistente – listou-o mais abaixo, mas, uns anos depois, puseram milagrosamente o meu Lincoln em segundo lugar durante dois anos, quando ocupava o primeiro na Publishers Weekly). De qualquer modo, o resto pertence à história da edição quando os editores empurraram os seus escritores para os programas de televisão, todos contentes por conseguirem tanta publicidade gratuitamente. Com o tempo, claro está, e embora os poderes inventivos dos romancistas fossem realmente extraordinários, os espectadores cansaram-se de vê-los a dizer que absolutamente tudo nos seus romances era absolutamente verdade e tinha-lhes realmente acontecido como descreviam. Capote até chegou a declarar ter inventado um romance não fictício (sic) acerca de um assassinato verdadeiro.

 

Vladimir Nabokov (o qual nunca encontrei) e eu gostamos de trocar insultos elaborados através da imprensa. Nabokov disse numa entrevista que a conversão de Graham Greene ao catolicismo lhe parecia completamente falsa, mas que sabia, através de fontes seguras, que eu tinha ido a Roma. Estas farpas, como Vera Nabokov lhes chamava, terminaram quando eu comentei numa entrevista ser bastante estranho que os dois maiores escritores russos tivessem ascendência africana. Antes de ele ter ter tempo para responder, a morte pôs termo a estas joviais trocas de palavras.

 

Em 1976, fui eleito para a Academia Norte-Americana de Artes e Letras, uma augusta assembleia à qual William James, mas não o irmão, Henry, recusou pertencer. Também recusei a minha eleição. Quando uma pessoa interessada me perguntou porquê, citei William James, que tinha dito que não gostava de muitas das inclusões assim como das exclusões. Como insistissem, acrescentei que «já fazia parte do Diner's Club». Isso foi citado aqui e ali e, embora os revisionistas da academia gostassem de dizer que eu não escrevera isso na minha carta de rejeição, disse-o realmente a um funcionário desta congregação de imortais americanos. Um quarto de século mais tarde, quando o nosso milénio se aproximava do fim, o presidente da academia (um primo devido a um casamento que deixou de ser meu primo devido a um subsequente divórcio e novo casamento em que fui substituído, nesse grau de parentesco, por Jackie Kennedy), esse velho amigo e estimado colega romancista-historiador, Louis Auchincloss, disse que tinha chegado a altura de eu me portar de forma responsável e de aceitar a antiga nomeação de boa vontade, pois, uma vez que se é eleito, é-se instalado para sempre, quer se queira quer não, no Parnasso. Fui, assim, devidamente instalado e, a seguir, foi servido um lauto jantar. Umas duas dúzias de académicos e os seus amigos, muitos dos quais não via há anos, encheram um enorme salão ao lado da sala de jantar com as suas cadeiras de rodas, o que me fez pensar nos carros eléctricos do parque de diversões Glen Echo, perto de Washington DC.

 

Li algures como era estranho o facto de eu me ter candidatado por duas vezes a um cargo público e nunca ter escrito acerca disso nem porquê. Bem, parte desse porquê, em 1960, foi porque Jack Kennedy se tinha casado com Jackie cuja mãe tinha tomado o lugar da minha como Sra. Hugh Dudley Auchincloss. Depois de a minha mãe e eu termos saído da casa de Auchincloss em Virgínia, a mãe e a irmã de Jackie mudaram-se para lá e o meu meio-irmão e a minha meia-irmã tornaram-se irmãos putativos de Jackie. Tantos divórcios e novos casamentos na nossa interligada família criaram numerosas ligações esquisitas bem como nenhumas ligações. Tenho quatro irmãos putativos, filhos do último marido da minha mãe, o general Olds: não só nunca os conheci como também não sei os seus nomes. Oh, que teia emaranhada é tecida quando as divorciadas concebem.

 

Num momento de distracção, aceitei ser presidente do júri do Festival de Cinema de Veneza. Evito habitualmente festivais, entrega de prémios e toda a espécie de burocracia que envolva até mesmo as artes. Não posso imaginar porque é que disse que sim. Disseram-me – avisaram-me! – que havia um júri feminista. Por que não?, pensei. Tinha participado, ou lançado, em dois torneios desse género, do lado das senhoras.

Na primeira votação, um filme realmente horrível realizado por uma dinamarquesa – Syrup (refiro-me ao filme e não à dinamarquesa) – ganhou o prémio atribuído ao melhor argumento.

 

Quando alguém me enviou uma grande lata de caviar, Howard decidiu fazer uma pequena festa só para nós, os Shaw e Greta Garbo. Ao último minuto, Irwin telefonou a perguntar se podia trazer a jornalista Martha Gellhorn. Sempre gostei do que ela escrevia e simpatizava com todas as mulheres que se tinham casado com Hemingway. A pequena festa correu lindamente. Garbo chegou cedo e vestiu imediatamente o blazer de Howard. Gostava de se vestir com roupa de homem e costumava referir-se a si mesmo em termos masculinos. «Onde é que é a casa de banho dos rapazinhos?» era uma das suas expressões favoritas. Foi Ina Claire, a delicada comediante da Broadway, que foi à casa de banho dos rapazinhos logo depois de Garbo sair de lá e, de facto, o assento da sanita estava levantado.

 

Assim que resolvi deixar de me interessar por obituários, o Papa e Saul Bellow morreram.

 

Nos últimos anos, raramente vi Saul. Julgo que a última vez que nos vimos foi quando ele veio visitar-me ao nosso apartamento do Largo Argentina, em Roma. Como ele gostava de Alberto Moravia (cujo nome próprio sempre pronunciava em três sílabas deliberadamente lentas: Al-Bare-Toe), levava-os a um restaurante gerido por uma ordem laica de belas freiras do Terceiro Mundo. Temia que os dois lúbricos velhos mestres cobiçassem estas núbeis cantoras de salmos, mas, afinal de contas, passámos uma noite bastante alegre. A dada altura, falámos da morte e de como esperávamos morrer. Saul mostrou-se muito positivo. «Apenas espero desgastar-me.» E foi o que aconteceu. Era um filósofo utilitário.

 

Quando agora me movo, graciosamente, espero, em direcção da porta marcada Saída, ocorre-me que a única coisa que eu gostava de fazer era ir ao cinema.

 

Boas sessões aí onde estiveres, Gore. Não sejas demasiado duro com Deus.

 

(Uma dúzia de tiradas famosas.)

 

Foto obtida aqui.

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Morreu Gore Vidal

por Patrícia Reis, em 01.08.12

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