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Combate ao lugar-comum

por Pedro Correia, em 08.05.14

 

Em jornalismo, muitas vezes, a melhor regra é não haver regra. Voltei a pensar nisto há dias, depois de ler na imprensa um chorrilho de confrangedores lugares-comuns a propósito da recente morte de Gabriel García Márquez. Parecia um concurso de clichês, qual deles o pior.

Até que peguei na revista Veja, que raras vezes me decepciona. E leio enfim um obituário imaginativo sobre o grande escritor colombiano. Que começa assim:

«Passados muitos anos, diante da notícia da morte do escritor, seus leitores haveriam de recordar o dia em que Gabriel García Márquez os levou a Macondo e os apresentou aos Buendía, uma estirpe trágica condenada a 100 anos de solidão, e cujos membros eram propensos aos mais estranhos fins - um ancião da família fundiu-se à vegetação do quintal, uma moça reclusa em um convento fugiu voando, alçada por borboletas, um bebê com rabinho de porco foi carregado por formigas.»

Brilhante paráfrase, afinal, do parágrafo de abertura de Cem Anos de Solidão. Uma fórmula imaginativa a que chegaram os autores da prosa, Jerônimo Teixeira e Rinaldo Gama. Numa lógica de combate ao lugar-comum.

Confirma-se: a melhor regra é não haver regra alguma.

 

Texto publicado inicialmente aqui

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Quanto vale um secador de cabelo?

por Rui Rocha, em 23.04.14

 

Gabo já tinha publicado algumas obras. Apesar disso, a vida corria-lhe com aperto, restrições e penúria. Naquele ano de 1967, consumia-se no esforço de encontrar editor para o novo livro. As portas, todavia, mantinham-se fechadas. Que era demasiado longo. Que não era aquilo que as pessoas procuravam. Por essa altura, na Argentina, Luis Herss concluíra um ensaio sobre os dez escritores mais representativos da, assim se dizia, Nova Literatura. É possível que no mesmo momento em que Herss abriu a porta do gabinete de Paco Porrúa para lhe apresentar o seu trabalho, a milhares de quilómetros dali mais uma porta de um editor se estivesse a fechar na cara de Gabo. Servir-lhe-ia certamente de consolo saber que alguma coisa, chamemos-lhe providência, se tinha já posto em marcha para alinhar os cordelinhos que vão tecendo o futuro em proveito do seu enorme talento. Todavia, esse ainda não era o tempo de Gabo. Para já, a única certeza que tinha era que aquele livro tão grande era um grande livro. Tudo o resto, era angústia. Paco Porrúa, esse conhecia já nove dos dez escritores referidos por Herss. Quis conhecer o décimo. As rodas dentadas da engrenagem que levariam Gabo ao sucesso continuavam a mover-se lentamente. O contacto com Porrúa foi estabelecido, apesar das dificuldades. Os trâmites burocráticos foram vencidos. A certa altura, a luta de Gabo pela publicação do novo livro estava à distância do envio do manuscrito pelo correio. Uma e outra vez tomamos o sucesso pela sua manifestação no momento em que se concretiza. Como se não houvesse caminho, pedras para desviar, dúvidas, escolhas dolorosas, fracassos e redenções. Para um escritor a quem a roda da fortuna ainda não tinha favorecido, o envio de um manuscrito com centenas de páginas pode constituir um escolho quase insuperável. O custo do correio, do México para a Argentina, pode ser bem mais do que aquilo que alguém pode pagar quando no bolso tem apenas a fórmula mágica que permite dar sentido às palavras e desorganizar o mundo. Foi preciso escolher. Para reduzir o custo, o manuscrito seria dividido em duas partes. Seguiriam os primeiros dez capítulos num primeiro envio. Depois, logo se veria. Mesmo assim, era maior o peso da encomenda do que os pesos mexicanos que Gabo tinha na carteira. Mercedes ficaria sem secador, vendido em estado de necessidade a alguma vizinha para completar a importância necessária. À saída dos correios, Mercedes não pode evitar um comentário: olha, Gabo, agora só faltava que a novela não prestasse... Ao que parece, com a atrapalhação própria de quem pressente um encontro com a história, no momento do envio Gabo trocou os volumes e acabou por seguir, por engano, a segunda metade do livro. Tal não impediu que Porrúa assumisse definitivamente as rédeas do futuro e que acelerasse os passos necessários à publicação. O que lera bastara para se convencer de que estava perante uma obra prima. Agora que Gabo perdeu a memória,  podemos até duvidar que as coisas se tenham passado exactamente assim. Mas, se apreciamos o realismo mágico da escrita, não há motivo para não acreditar que a magia da realidade tenha sincronizado o espaço, o tempo e estas circunstâncias nos dias que precederam a publicação de Cem Anos de Solidão. E que o facto de o livro não se ter perdido com a memória do seu autor se deve, em boa parte, ao valor em pesos mexicanos do secador de Mercedes. 

 

* republicado.

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A pieguice

por Helena Sacadura Cabral, em 18.04.14


Não sou piegas. Mas não me importaria nada de o ser, se isso fosse a exteriorização de algo autêntico na minha natureza. Porque é que ser piegas será pior do que não ser? 

No Grande Dicionário da Língua Portuguesa dá-se ao termo a seguinte definição: "pessoa considerada excessivamente sensível ou sentimental; pessoa que é considerada medrosa e assustadiça".

Há ideias feitas sobre a forma como nos devemos comportar e quem saia fora delas é sempre qualificado com um qualquer epíteto. Como este a que o próprio dicionário atribui sentido pejorativo. 

E agora pergunto eu, quem é que tem autoridade para definir o excesso de sentimento ou de medo? Onde está o gráfico comportamental padrão que permite definir a "normalidade" nestas matérias?

Vem este intróito a propósito de uma carta que, há quase década e meia, circula na internet, como sendo de Gabriel García Marquéz, e que constituí uma espécie de despedida da vida de um homem em estado terminal. O texto é muito bem escrito, mas foi considerado talvez demasiado "piegas" para ser do autor do "Cem anos de solidão" que, aliás, desmentiu a sua autoria.

Aqui está o exemplo do que acabo de referir. Não estava em causa a qualidade literária da carta que até se podia confundir com a de Garcia Marquez. O que estava em causa era o "grau" de pieguice que se tolerava ao escritor. Por quem, gostaria eu de saber. De certo, por especialistas - nada piegas - da "natureza humana"...

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Gabriel García Márquez

por Patrícia Reis, em 18.04.14

“Como provar aos homens quão enganados estão ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem - sem saber que envelhecem, justamente, quando deixam de se apaixonar?”

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Um pouco menos de maravilhoso

por João André, em 18.04.14

Ainda hoje tenho Cem Anos de Solidão como um dos livros que mais me marcaram. Não foi o melhor que alguma vez li, mas foi daqueles livros que é lido no momento perfeito. Nessa altura era eu estudante e tinha um certo ideal romântico do mundo. Cem Anos de Solidão transmitiu-me o realismo para o qual eu tendia na altura (andava à volta com os neo-realistas portugueses) e acrescentou-lhe o romantismo (a tal parte mágica) que lhe deu o golpe de asa na minha imaginação. Tinha na altura uma Renault 4, uma "quatruéle" herdada de um avô a que dei, pela sua durabilidade, o nome de Úrsula. O livro é de facto excelente, mas, como disse, distinguiu-se por o ter lido quando o fiz. Voltei a ele há um par de anos e não me agarrou. Não teve a mesma força na minha mente hoje mais cínica.

 

Já a releitura de O Amor em Tempos de Cólera deu-me mais prazer que a primeira leitura. Suponho que poderei reler o livro novamente dentro de 10 ou 20 anos e continuarei a gostar dele, a encontrar nele novas texturas que me toquem. É um livro diferente. O mesmo poderia dizer de O Outono do Patriarca. Se Cem Anos de Solidão foi lido de uma assentada, numa febre de dois ou três dias mal dormidos e com aulas ignoradas, O Amor em Tempos de Cólera foi sorvido, em ambas as leituras, ao longo de uma ou duas semanas, sem pressas. O Outono do Patriarca andou pelo meio. Sempre que lhe peguei fui lendo sôfregamente, como se não pudesse esperar pela próxima sala, pela próxima extravagência. Depois de dois ou três círculos, no entanto, a vertigem tomava conta de mim e não me sentia capaz de pegar no livro durante quase uma semana. Nessa altura pegava de novo no livro e voltava à leitura sòfrega até à quase exaustão.

 

O único livro de que não gostei - embora seja certamente defeito meu - foi Crónica de uma Morte Anunciada. Demasiado curto para me prender a imaginação e com uma claustrofobia que não me tocou mas me fez sentir desagrado. É um livro ao qual terei que regressar um dia. Já O General no seu Labirinto sofreu por ter sido o livro em que tentei pegar após O Outono do Patriarca. Não consegui passar da página 5, esgotado. É um livro que sinto, intrínsecamente, ser daqueles que me encherá perfeitamente mas ainda não, ainda não...

 

Depois temos os outros, "menores". A Revoada, que me fez lembrar um cruzamento entre O Outono... e o Cem Anos... Gostei muito d'O Relato de um Náufrago. Não era grande literatura, mas pareceu-me um belo cruzamento entre crónica jornalística e romance. A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile foi mais um livro de histórias, a flutuar entre o auto-elogio envergonhado e o romance de viagem. Deu prazer na leitura mas foi esquecido pouco depois. Doze Contos Peregrinos não tinham a leveza de um Luís Sepúlveda, e eram por isso mais difíceis, mas demonstraram-me também o fosso entre os dois escritores.

 

Gabriel García Marquez não foi o melhor escritor do século XX, longe disso. Terá sido um merecido prémio Nobel da Literatura, com toda a polémica que tal implica. Foi um autor que deixou algumas obras-primas e alguns (apenas) bons livros. Foi no entanto alguém que usou a sua imaginação e a sua arte para nos maravilhar e envolver. E por isso, se mais nada, merece ser recordado pelo que nos deixa.

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Gabriel García Márquez

por Patrícia Reis, em 18.04.14

Gabriel García Márquez deu-me muitas horas de conforto, de magia, leituras com lágrimas e riso.
Sempre que preciso de um sentido, uma ideia melhor da Humanidade existem os seus livros e os livros são a melhor forma de o homenagear.
É ler e dar a ler.
Em "Amor em tempos de cólera" escreveu:
"Ele ainda era demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as coisas más e amplia as coisas boas, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado."

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Gabo a caminho de Macondo

por Pedro Correia, em 17.04.14

 

"Muchos años despues, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo."

Início de Cem Anos de Solidão (1967)

"El día en que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 de la mañana para esperar el buque en que llegaba el obispo."

Início de Crónica de uma Morte Anunciada (1981)

 

Era um dos mais extraordinários prosadores de sempre em língua castelhana. Era uma das vozes literárias mais eloquentes e originais da América Latina. Era o expoente máximo daquilo que se convencionou chamar "realismo mágico".  Era um dos mais justos galardoados de que há memória com o Nobel da Literatura. Era a prova viva -- uma entre tantas -- de que o jornalismo constitui o melhor ofício para um candidato a escritor.

Edificador de sonhos, cultor do sortilégio da palavra escrita, criador de personagens inconfundíveis, Gabriel García Márquez partiu hoje numa viagem sem regresso a Macondo. Ao encontro de Malquíades e dos Buendía, de Ursúla Uguarán e de Santiago Nasar.  

Viveu para contar. Deixando-nos sem anos de solidão.

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