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Presidenciais (27)

por Pedro Correia, em 20.01.11

Cavaco Silva – Uma sombra do que foi noutros tempos. Começou de forma titubeante a campanha, que só pareceu ganhar gás com o tema BPN: um Cavaco momentaneamente vigoroso veio à tona nesses dias. O assunto funcionou também como agregador das hostes, que pareciam adormecidas. Mas o homem que desta vez nem contou com um blogue especial de apoiantes foi incapaz de qualquer golpe de asa. Termina a campanha a pedir uma vitória à primeira volta pelo pior dos motivos: para poupar dinheiro. E com um temor indisfarçável da abstenção.

 

Defensor Moura – O deputado socialista que mal ousou sair do perímetro de Viana do Castelo e chegou a ser notícia nas televisões por "dar um passeio improvisado na rua onde mora" esgotou-se nesta campanha a fazer o papel de lebre para dar alento à de Manuel Alegre, seu camarada de partido e seu colega de Parlamento. A estratégia saiu-lhe às avessas: o BPN funcionou como toque a rebate dos desmobilizados eleitores de Cavaco. A partir daí Moura praticamente desapareceu.

 

Fernando Nobre – O médico independente que muitos socialistas irritados com Alegre apoiam teve boas prestações nos debates televisivos e conduziu no terreno uma campanha que foi ganhando projecção, apesar das tentativas de muitos comentadores de o considerarem irrelevante. Tal como Alegre em 2006, o fundador da AMI utilizou o apelo da cidadania como trunfo eleitoral num país cansado de jogos partidários. Pode vir a protagonizar a maior surpresa da noite do escrutínio.

 

Francisco Lopes – Foi sólido, consistente e esforçado na tarefa de mobilizar os eleitores comunistas. Para esse efeito insistiu sobretudo em percorrer o tradicional circuito do partido, centrado no triângulo Lisboa-Setúbal-Alentejo. A candidatura deu projecção a nível nacional ao mais que provável sucessor de Jerónimo de Sousa no cargo de secretário-geral do PCP. Tenha o resultado que tiver no domingo, este desafio já foi vencido. E para ele, no fundo, era isso que contava.

 

José Manuel Coelho – A maior surpresa desta campanha. Trouxe irreverência à corrida presidencial recorrendo apenas aos seus naturais dotes oratórios e à sua vocação para a "sátira de rua", mordendo à esquerda e à direita com a saudável irreverência de uma personagem vicentina. Deixou de estar confinado ao estatuto de estraga-festas no reduto madeirense, ganhando projecção nacional. Foi o único candidato excluído dos debates. Vai receber bastantes votos de simpatia.

 

Manuel Alegre – Encarnou o papel que menos lhe convinha: o de Mário Soares na campanha anterior. Tal como Soares então, radicalizou excessivamente o discurso, procurando transformar a corrida a Belém numa espécie de ajuste de contas com Cavaco Silva. Esqueceu-se da sábia conduta que ele próprio revelou há cinco anos, quando evitou ataques pessoais e sublinhou que uma vitória de Cavaco não poria em risco a democracia. O discurso radical de esquerda, em sintonia com o BE, distanciou-o de muitos socialistas. Termina esta campanha talvez mais só do que estava em 2006.

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Presidenciais (9)

por Pedro Correia, em 28.12.10

 

  

Debate Defensor Moura-Francisco Lopes

 

Defensor Moura votou favoravelmente o Orçamento do Estado para 2011 mas não tem dúvidas em admitir que "gostava de ter outro Orçamento". A tal ponto que, se não fosse deputado do partido do Governo, teria desfilado sem hesitar nas ruas, marchando em protesto contra o Orçamento socialista durante a recente greve geral.

Confusos? Eu também. Felizmente para o ex-presidente da câmara de Viana do Castelo, este foi o último debate televisivo em que participou na campanha presidencial: cada aparição sua no ecrã arrisca-se a ser um contributo para o anedotário nacional. O frente-a-frente desta noite, na TVI, em que debateu com Francisco Lopes foi mais um bom exemplo disto. Por um lado, acusa Cavaco Silva de não ter feito "todo o esforço para alcançar um acordo estável que permitisse a governação". Por outro, garante que se estivesse no lugar de Cavaco teria dissolvido a Assembleia da República "no início do ano", ainda antes de o segundo Governo de José Sócrates ter cumprido seis meses em funções. Suprema ironia: o Presidente Defensor teria dissolvido o deputado Defensor. Elementar, meu caro Moura.

Francisco Lopes mal precisaria de abrir a boca para ter ganho este debate. Ganhou-o, de facto, mas por ter revelado um discurso mais objectivo e muito mais coerente em matérias tão diversas como a crítica à especulação dos mercados e a necessidade de "aumentar a produção industrial", apontando exemplos concretos. Pareceu apenas esquecer o limite dos poderes constitucionais do Presidente da República, a quem não compete a definição das grandes linhas económicas do País: alguém devia informar o candidato comunista que as atribuições do Chefe do Estado foram consideravelmente reduzidas na revisão constitucional de 1982. Mas voltou a marcar pontos na questão do BPN, como já o fizera no debate que o opôs a Cavaco Silva, considerando-o um "escândalo nacional". Defensor Moura, que também se mostra muito indignado com o caso BPN, deixou ontem por comentar uma questão directa da moderadora, Constança Cunha e Sá, sobre o caso Face Oculta. Dois pesos, duas medidas.

Seria de esperar algo diferente daquele que é capaz de ser o único português hoje capaz de apontar a catastrófica Grécia como um exemplo a seguir só para levantar a bandeira da regionalização?

 

Vencedor: Francisco Lopes

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Frases do debate:

 

Lopes  - É um escândalo nacional ter havido um acordo entre o Governo e o Presidente da República para adquirir os prejuízos do BPN. (...) Hoje está cada vez mais claro que essa intervenção não devia ter sido feita.

Defensor - O clientelismo e a corrupção são tolerados pelos portugueses desde o mais baixo nível. (...) O Presidente da República deve ser intolerante com os negócios ilícitos.

Lopes  - É necessário haver o máximo entendimento possível. A questão é saber em torno de quê. Se é em torno deste rumo dos últimos 30 anos que afundou o País e que vai continuar a afundá-lo de forma dramática em 2011, não.

Defensor - É preciso acabar com o dinheiro vivo no apoio aos partidos e às campanhas eleitorais. Deve haver a maior transparência no apoio aos partidos.

Lopes - Considera-se dinheiro vivo um reformado pagar uma quota de dois euros ao seu partido e que ele é um potencial corrupto. Mas se alguém passa milhões da banca para um partido isso já é aceitável. (...) Os partidos não devem ser sucursais dos grandes grupos económicos nem departamentos do Estado.

Defensor - Durante este ano o Presidente da República teve uma actuação muito abstencionista.

 

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A 'gaffe':

 

"É nas crises que se fazem as grandes transformações. Veja-se o que está agora a fazer a Grécia. Na Grécia está-se a fazer a regionalização."

Defensor Moura

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Presidenciais (5)

por Pedro Correia, em 21.12.10

 

  

Debate Cavaco Silva-Francisco Lopes

 

Aníbal Cavaco Silva, que há cinco anos jurou defender a Constituição, garantiu esta noite aos portugueses que Portugal não é um país totalmente independente. Há qualquer coisa de paradoxal nesta declaração: um dos deveres do Chefe do Estado consignados na lei fundamental é garantir a independência nacional.

Confusão do candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS? Esta é a hipótese mais benigna - e funciona a crédito do opositor de Cavaco no debate da TVI, moderado por Constança Cunha e Sá. Francisco Lopes foi assertivo e contundente. Depois de um começo titubeante com Fernando Nobre e de ter revelado excesso de nervosismo frente a Manuel Alegre, o comunista esteve agora claramente melhor. Colou ao Executivo socialista o Presidente que se gaba de nunca ter vetado um diploma do Governo e incomodou Cavaco com uma alusão ao caso Banco Português de Negócios no dia em que se soube que o Governo tem a intenção de injectar mais 500 milhões de euros nesta entidade falida. Sem meias palavras, lembrou que o ex-presidente do BPN foi "colaborador de Cavaco Silva e financiador da sua última campanha legislativa".

O tema BPN é nesta campanha claramente o mais incómodo para Cavaco, que agora promete empenhar-se numa "magistratura activa" - o que indicia que terá pecado por passividade nestes seus cinco anos em Belém. Foi, de resto, muito curioso ouvi-lo hoje gabar-se dos seus méritos enquanto primeiro-ministro, entre 1985 e 1995, como se estivesse em causa uma eleição legislativa e não a sua eventual recondução na Presidência da República. Curioso e sintomático.

Lopes foi também eficaz na forma como incluiu Cavaco entre os responsáveis desta crise. "Houve uma acção estratégica com o pior da política do actual governo", declarou o comunista. No próximo ano - acentuou - "milhões de portugueses vão ficar mais pobres." E concluiu: "[Cavaco] foi a voz não de Portugal, mas dos especuladores".

Cavaco Silva, procurando olhar de frente as câmaras, acusou o comunista de "repetir sempre as mesmas palavras". Na sua perspectiva, "o futuro de Portugal não se trata com radicalismos, com extremismos, com ilusões, com retórica". Aqueles que - como o candidato do PCP - "insultam os mercados internacionais estão a prejudicar seriamente o País e a lançar mais trabalhadores no desemprego". Faltou-lhe esclarecer os eleitores como é que Portugal ficará melhor com o Orçamento do Estado para 2011, que ele tão categoricamente apadrinhou. Um orçamento que introduz cortes no subsídio social de desemprego e no abono de família, entre outros, à revelia de tudo quanto o Governo havia prometido.

Foi quase como se José Sócrates estivesse neste debate por interposta pessoa. É incómodo para Cavaco, certamente. Mas as coisas são o que são.

 

Vencedor: Francisco Lopes

 

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Frases do debate:

 

Cavaco - A situação financeira do País é crítica. Exige um Presidente com muitos conhecimentos.

Lopes - O Orçamento do Estado para 2011 é um pacote de afundamento e agravamento das injustiças sociais.

Cavaco - Os portugueses não esquecem quem criou o 14º mês para os pensionistas, quem integrou os trabalhadores agrícolas no sistema geral da segurança social, quem pôs fim a 65 mil salários em atraso na península de Setúbal, quem trouxe a Autoeuropa para Palmela. Quando saí do Governo a dívida externa líquida de Portugal era zero.

Lopes - O povo português não esquece que foi Cavaco Silva quem disse que Portugal iria integrar o pelotão da frente da União Europeia. Estamos no pelotão da frente do desemprego, da decadência, da destruição do aparelho produtivo. Quem assume a responsabilidade por Portugal estar na cauda da Europa?

Cavaco - O futuro de Portugal não se trata com radicalismos, com extremismos, com retórica, repetindo sempre as mesmas palavras. (...) Eu considero-me uma pessoa responsável. Não quero lançar mais portugueses no desemprego. Deus nos livre se o Presidente da República não medir as palavras que usa.

Lopes - Quem não mediu as palavras suficientemente sobre os mercados foi o candidato Cavaco Silva.

 

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A 'gaffe':

 

"Nenhum país da Europa é totalmente independente. Somos todos interdependentes."

Cavaco Silva

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Presidenciais (4)

por Pedro Correia, em 19.12.10

 

 

Debate Francisco Lopes-Manuel Alegre

 

Nunca me lembro de ter visto o PCP tão pouco internacionalista como nos dias que correm. O discurso anti-europeu, noutros tempos bandeira de Paulo Portas e Manuel Monteiro, foi apropriado pelos comunistas portugueses, actuais campeões do isolacionismo. Falam permanentemente em "soberania nacional", bradam contra tratados já tão remotos como os de Maastricht e Amesterdão, revelam saudades do velho escudo. "O euro significou 20% da perda de competitividade do nosso país", declarou esta noite o candidato do PCP, Francisco Lopes, no debate que o opôs a Manuel Alegre na SIC. Clara de Sousa bem se esforçou para introduzir alguma dinâmica, mas em vão: foi até agora o mais monótono e maçador dos debates desta campanha presidencial. Alegre, ao contrário do que sucedera com Fernando Nobre, tratou Lopes com grande amabilidade. Nunca o criticou e chegou mesmo a elogiá-lo: "A candidatura de Francisco Lopes é uma candidatura positiva que contribui para o debate e a clarificação de posições." Pressentia-se o incómodo de Lopes, que procurou - sem sucesso - apontar a Alegre pecadilhos tão variados como o apoio ao Orçamento do Estado para 2011, os tratados europeus e "a política do Governo". Alegre, que passou uma legislatura inteira a criticar o Executivo do PS, pode bem com estas acusações, respondendo a Lopes da forma adequada: com total indiferença. Lembrando, de passagem, que é candidato a Presidente da República e não "a outra coisa qualquer". Secretário-geral do PCP, por exemplo.

Houve perguntas da moderadora que ficaram sem resposta: o comunista recusou responder se preferia ver Portugal fora do euro, o socialista nada disse sobre o seu eventual desejo de receber o voto do ex-amigo Mário Soares. De resto, Alegre cortejou sem rodeios o eleitorado comunista. Lembrando ter sido ele o autor do preâmbulo da Constituição da República, que continua a apontar o "caminho do socialismo" para Portugal, e mostrando-se indignado com a "ofensiva especulativa dos mercados financeiros contra os órgãos democráticos de países democráticos".

Não faltaram críticas a Cavaco. A mais convincente veio de Alegre: "Cavaco Silva acrescentou problemas ao funcionamento do sistema, até pela maneira como promulga as leis, manifestando dúvidas e reservas. É um factor de instabilidade, até pela maneira como exerce os mais simples poderes, como o de promulgar leis." Não falou mais que Lopes, não falou muito diferente, mas falou melhor.

Vencedor: Manuel Alegre

 

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Frases do debate:

 

Lopes - O Orçamento do Estado para 2011 vai cair em cima do povo português em cada dia de cada mês do próximo ano.

Alegre - Não há estabilidade política sem estabilidade social.

Lopes - O candidato Manuel Alegre associou-se à votação dos tratados europeus.

Alegre - Eu sempre discordei do Tratado de Maastricht. (...) Eu se fosse Presidente da República já teria pedido uma audiência à senhora Merkel e ao Presidente Sarkozy.

Lopes - O Presidente [Cavaco], em vez de ser a voz de Portugal, foi a voz dos mercados.

Alegre - [Cavaco] acrescentou pessimismo ao pessimismo.

Lopes - [Cavaco] foi o padrinho deste orçamento.

Alegre - A pobreza não deve ser explorada para fins de campanha eleitoral.

 

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A 'gaffe':

 

"Fui a única candidatura que tomou uma posição portanto que este orçamento portanto não devia ser aprovado. Portanto o rumo do País tem que ser outro e há uma responsabilidade portanto do PS e do PSD portanto que está muito patente neste orçamento."

Francisco Lopes

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Presidenciais (1)

por Pedro Correia, em 14.12.10

 

  

Debate Fernando Nobre-Francisco Lopes

 

Terminou há pouco, na RTP, o primeiro debate televisivo desta campanha presidencial. Entre dois estreantes nestas andanças: Fernando Nobre e Francisco Lopes. O primeiro ganhou vantagem desde a intervenção inicial, surgindo claramente ao ataque: separou águas, incluiu o candidato comunista entre os representantes do "sistema" que diz combater e afirmou-se como o único independente de todos quantos agora correm rumo ao palácio de Belém. Para ele, este não foi um debate menor nem condenado apenas a cumprir tempo de antena.

Francisco Lopes não estava, visivelmente, preparado para lhe dar resposta. Ainda insinuou por duas vezes uma ligação do médico a Mário Soares e acusou Nobre de ter apoiado o Orçamento do Estado para 2011, considerando-o o "orçamento possível". O adversário chamou-lhe mentiroso: o verniz estalava logo nos primeiros minutos do frente-a-frente, para surpresa da própria moderadora, Judite Sousa.

Nobre esgrimiu a independência como virtude pessoal e a sua experiência internacional enquanto médico como principal carta de recomendação perante os eleitores, referindo-se depreciativamente à "retórica" do comunista. "Eu sou frontal e directo. Não tenho medo. Não é qualquer um que esteve em Beirute em 1982. O senhor esteve?", questionou. Lopes aludiu à "falta de coerência e de clareza" do candidato rival. Mas, claramente, não estava ginasticado para um confronto deste género: o seu adversário é o Governo, o seu cavalo de batalha é a "política de direita". Ora Nobre não integra o Governo e nesta altura do campeonato ninguém faz a menor ideia se é de esquerda ou de direita. Talvez nem ele próprio. Paradoxalmente, isto pode constituir um trunfo eleitoral. Como, de resto, se verá.

 

Vencedor: Fernando Nobre

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Frases do debate:

 

Lopes - Sou o único candidato presidencial que teve uma posição contrária quanto à aprovação do Orçamento do Estado.

Nobre - Está a dizer uma inverdade, para não dizer uma mentira. (...) Um Presidente da República deve ser independente, livre, suprapartidário. Eu não sou candidato porque um comité central de um partido decidiu.

Lopes - A minha candidatura é uma candidatura de verdade. Não recorre à mentira. Desde os 17 anos luto pela liberdade e pela democracia.

Nobre - Eu faço política internacional há 30 anos e nos cenários mais dramáticos. O senhor já viu a pobreza extrema? Já viu corpos esmagados à sua frente? Já viu uma criança com fome a correr atrás de uma galinha que levava um bocadito de pão na boca? Fala de coisas que desconhece. É pura retórica. O senhor, que fala tanto em desemprego, já criou algum emprego?

Lopes - Eu sou originário de uma terra do interior, testemunhei a pobreza no nosso país. Enfrentei os maiores obstáculos, a que Fernando Nobre nunca se sujeitou.

Nobre - Eu sou livre, não dependo de ninguém. Não tenho experiência partidária - e ainda bem que não tenho.

Lopes - A minha candidatura é a única que não tem compromisso com as políticas actuais.

Nobre - O senhor é funcionário de um partido político há 30 anos. O senhor pertence a um sistema político perverso, caduco, ultrapassado, retórico.

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A 'gaffe':

 

"Em mais de 30 décadas já dignifiquei o meu país em todo o mundo."

Fernando Nobre

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O regime fâcista

por André Couto, em 01.11.10

 

"Turma! O trabalho de casa para hoje é a ficha formativa da n.º 23. O menino Chico Lopes, para além disto, tem de repetir cem vezes a palavra "fascista", não vá um dia querer candidatar-se a Presidente da República."

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A entrevista

por Pedro Correia, em 30.08.10

 

- Esta é a sua primeira entrevista como candidato à Presidência. Pretendemos saber um pouco mais a seu respeito.

- Boa noite. Portanto os trabalhadores portanto explorados portanto por este governo de direita. Nós defendemos...

- Não pretendíamos falar muito de política. Para já, só queríamos saber um pouco de si.

- Defendemos a mudança da política portanto contra o governo de direita portanto que explora os trabalhadores.

- Mas os portugueses não o conhecem. Quem é o senhor afinal?

- Um comunista portanto integrado no colectivo portanto nós pensamos que estas políticas de direita portanto só prejudicam os trabalhadores.

- É casado? Tem filhos?

- Portanto nós lançámos esta candidatura para fazer a diferença portanto o que importa é alterar a política...

- Desculpe, mas não respondeu à minha pergunta. Gostava de saber se é casado e tem filhos.

- Hum... Vivo em união de facto e tenho duas filhas portanto a nossa intenção com esta candidatura é defender os trabalhadores...

- E nos tempos livres? O que faz quando não exerce actividade política?

- Sempre ao serviço do povo trabalhador portanto o colectivo decidiu apresentar esta candidatura...

- Desculpe, não está a responder ao que lhe perguntei. Como ocupa os seus tempos livres?

- Hum... No contacto com a natureza portanto há que pôr fim portanto a esta política de direita que já dura há mais de trinta anos e portanto de exploração das classes trabalhadoras...

- E de onde é natural?

- Nós defendemos portanto uma verdadeira política de esquerda...

- Desculpe, mas não está a responder. Pretendia saber onde nasceu.

- Hum... Nasci numa terra da Beira onde vou de vez em quando portanto com esta política de direita...

- E gosta de ler? Lê nos tempos livres?

- Nós pretendemos que esta candidatura portanto esteja ao serviço das classes trabalhadoras e do povo português portanto contra o grande capital monopolista...

- Desculpe, mas não me respondeu. Perguntei-lhe que livros costumava ler.

- Hum... Leio ensaios políticos portanto nós exigimos o fim desta política de direita...

- E não lê romances?

- O PS é igual ao PSD portanto e ao CDS na política de direita portanto contra os trabalhadores...

- Desculpe, não me respondeu. Costuma ler romances?

- Hum... Já li romances de José Saramago e Álvaro Cunhal nós pretendemos...

- Mas só lê autores comunistas?

- Uma candidatura portanto que esteja mesmo ao serviço dos trabalhadores...

- Desculpe, mas não me respondeu. Só lê autores que sejam comunistas?

- Hum... Também já li portanto autores de outras tendências mas nós portanto lançámos esta candidatura para que o povo português portanto esteja representado na Presidência da República...

- Para finalizar: a Coreia do Norte é uma democracia?

- Os trabalhadores... contra o governo de direita... nós... portanto... portanto... portanto... portanto... 

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Francisco Lopes

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.10

Tive oportunidade de acompanhar a entrevista que Francisco Lopes deu à TVI24. Lembrava-me de já o ter visto e ouvido, mas sempre devidamente enquadrado pelo "Colectivo". Fosse na Assembleia da República ou nas imagens das reuniões do partido a que pertence. A conversa de ontem foi a primeira em que foi possível ver o indigitado candidato presidencial do PCP sozinho no palco. Sozinho? Aparentemente assim terá sido, mas ao longo de toda a entrevista o que ficou foi a marca do "Colectivo". A escolha do candidato foi uma decisão do "Colectivo". Os objectivos da candidatura foram definidos pelo "Colectivo". Ele próprio integra três órgãos do partido que são emanações de um grande "Colectivo". O "camarada Chico Lopes" é a imagem do "Colectivo".

Quem não conheça a política portuguesa e a acção do Partido Comunista Português até é capaz de pensar que o "Colectivo" é um partido dentro do próprio partido. O "Colectivo" é hoje a marca mais visível da despersonalização do colectivo e dos seus militantes.

É evidente que nem Francisco Lopes nem nenhum outro dirigente comunista, ávidos de mais "democracia e socialismo" e no seu afã de combaterem "as políticas de direita" e defenderem os interesses dos "trabalhadores", estarão disponíveis para analisar o papel do "Colectivo". As presidenciais não são o momento adequado, dirão eles. Mas o "Colectivo", percebe-se do seu discurso, é o elemento castrador da individualidade dos militantes do partido. Nunca nenhum deles o reconhecerá.

O candidato é apresentado como electricista de profissão e quadro do partido. Sendo ele profissional do PCP desde Setembro de 1974, faz-me espécie que o candidato ainda seja apresentado como electricista. A não ser que durante todas estas décadas em que trabalhou para o partido também estivesse incumbido da instalação e fiscalização das instalações eléctricas nos centros de trabalho do PCP. Mas o "Colectivo" decidiu que fosse apresentado como tal e ele assume. Para o "Colectivo", apresentar o candidato como electricista é a única maneira de ainda o manter ligado à classe operária, aos trabalhadores, àqueles que andam por aí a bulir à margem do "Colectivo", pagando impostos, votando nos outros partidos. Ter uma profissão identificada com o operariado, com o proletariado urbano, é uma imagem do "Colectivo". Porque o "Colectivo" vive de imagens, de figurações, de sombras.

No palco onde o candidato Francisco Lopes se move tudo é grandioso, magnânimo, corajoso, trabalhador, solidário. O "Colectivo" é tudo isso. 

A realidade é que a vida não é um palco. A política também não. Morto Álvaro Cunhal, o PCP ficou órfão. E continua. Quando Jerónimo de Sousa fala não é ele quem articula as palavras. É o "Colectivo". Quando o PCP apresenta um candidato não é o PCP quem o apresenta. É o "Colectivo". O "Colectivo" é agora o tutor do partido. O fazedor de mentalidades. O guardião do rebanho. O "Colectivo" é, afinal, o big brother da democracia portuguesa. O "Colectivo" é que é o verdadeiro candidato presidencial. Francisco Lopes é apenas mais uma das faces do "Colectivo". A sua boca. Esta é também a razão para o PCP nunca ter conseguido apresentar um verdadeiro candidato presidencial. E as percentagens que os seus candidatos próprios obtêm em tais eleições serem normalmente sofríveis e abaixo das suas expectativas.

A verdade é que o PCP não tem em democracia a coragem e o estofo que teve na ditadura. O partido continua a precisar da sombra para se movimentar. Faz-lhe falta a clandestinidade para se impor. Na ditadura o colectivo tinha um líder. Agora vive da sua memória, escondido atrás do "Colectivo". Os actuais dirigentes não passam no teste dos holofotes das câmaras porque eles próprios temem o "Colectivo". A democracia torna tudo demasiado transparente. Por isso é que a candidatura de Francisco Lopes não passa de mais uma fraude política.

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