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Alguns argumentos sobre a questão catalã

por Luís Naves, em 12.11.14

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Decorre neste blogue um debate sobre a interpretação dos resultados da consulta popular na Catalunha e queria acrescentar alguns argumentos. Peço antecipadamente desculpa pela dimensão do texto, mas as questões são complexas.

Como afirma Luís Menezes Leitão, em texto anterior, os catalães têm todo o direito de se tornarem independentes, se assim o quiserem. Podemos, no entanto, duvidar que o queiram. Os resultados da consulta são, no mínimo, ambíguos. A votação pela independência foi esmagadora, mas o facto é que dois em cada três eleitores não se deram ao trabalho de ir votar. Para os independentistas, trata-se de um mau resultado. Para quem queira negociar com o poder central, foi um triunfo. Comparando com o referendo escocês, onde a participação rondou 80%, a consulta catalã sugere que apenas votaram eleitores já convencidos.

Em democracia só contam os votos expressos, é verdade, mas aqui temos outros elementos a considerar: a consulta não era legal e os eleitores não tinham obrigação cívica de votar, a primeira pergunta continha forte ambiguidade e os interesses económicos em jogo são demasiado complexos. Numa reportagem que fiz na Catalunha, há uns anos, perguntei a uns empresários (catalães) sobre a independência e eles fugiram da pergunta como o diabo da cruz. Não era bem o que queriam, pois dependiam do mercado espanhol. Outro exemplo: Barcelona é a capital da indústria editorial em língua castelhana, que controla um dos maiores mercados mundiais do sector livreiro. Os escritores catalães escrevem em castelhano, a diferença entre vender mil livros ou cem mil. A questão linguística catalã é tão folclórica como a escocesa.

 

 

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O muro e a transição

por Luís Naves, em 10.11.14

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A queda do Muro de Berlim não foi um acontecimento estritamente alemão, antes o símbolo da reunificação da própria Europa. Ao longo dos últimos 25 anos assisti à transição dos países do bloco socialista para o sistema liberal. Vi como era antes da mudança, testemunhei episódios revolucionários e fui assistindo às vicissitudes da transformação, sobretudo na Hungria. Apesar de ter proporcionado desenvolvimento e liberdade, a transição foi um processo também traumático, ainda mal compreendido em Portugal. Na primeira década, uma geração perdeu a segurança no emprego e muita gente mergulhou na pobreza. Empresas socialistas foram compradas por tuta-e-meia, nomeadamente pela concorrência ocidental, através de testas-de-ferro, só para serem desmanteladas. Os ocidentais ficavam com menos um competidor, os testas-de-ferro ganhavam dinheiro com os terrenos e as luvas. Assim se fizeram fortunas de conhecedores que souberam aproveitar a privatização apressada da economia, passando directamente do aparelho repressivo para a burguesia capitalista.

 

 

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As luzes que se acenderam na Europa

por Luís Naves, em 09.11.14

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O dia 9 de Novembro de 1989 teve enorme importância simbólica. A meio do Verão desse ano, dezenas de milhares de alemães de leste aproveitaram as primeiras brechas na chamada 'Cortina de Ferro' para fugir do seu país e a onda de refugiados atingiu tal dimensão, que o regime comunista da Alemanha Oriental não podia resistir muito tempo. Devido ao pânico da hierarquia, tudo se precipitou a 9 de Novembro. A dissolução da fronteira entre dois sistemas políticos antagónicos teve o seu ponto culminante no derrube do muro que dividia em dois a cidade de Berlim, mas o campo socialista estava já em pleno colapso e a Rússia perdia a Guerra Fria.

O muro era uma ferida com origem na divisão que resultou da Segunda Guerra Mundial. A sua destruição permitiu a reunificação da Alemanha, que 25 anos depois se tornou a força dominante da União Europeia. O dia crucial de 9 de Novembro de 1989 corresponde a um capítulo fundamental de outra narrativa, esta mais extensa, sobre a supremacia na Europa. Nos últimos 500 anos, o assunto mais importante da política europeia tem sido a definição do controlo de uma faixa de territórios onde se concentra a riqueza, a população e o principal património do continente. Esta faixa é perfeitamente visível do espaço, sobretudo de noite, e vai desde o sul de Inglaterra e dos Países Baixos ao norte de Itália, de Paris até Varsóvia ou Budapeste. No passado, quem controlou esta região, controlou a Europa.

Durante a Guerra Fria, uma fatia substancial da zona central do Continente esteve sob controlo soviético. Esta extensão do império russo entrou em graves dificuldades nos anos 70, incapaz de prosseguir a competição económica e militar com os Estados Unidos e respectivos aliados. Moscovo não conseguiu manter sob seu controlo países mais ricos do que a Rússia e foi o descontentamento crescente das populações submetidas que levou ao colapso da Cortina de Ferro. Os oprimidos resolveram o assunto, sendo interessante observar que a Alemanha, como potência, foi a maior beneficiária de um processo que não iniciou e no qual as autoridades embarcaram, de início, com algum temor.

Passaram 25 anos sobre a Queda do Muro de Berlim e podemos observar que este foi sem dúvida um dos episódios mais felizes da História recente. Nos chamados países de leste, cem milhões de europeus vivem agora em sociedades livres e prósperas. A Alemanha reunificada é a maior potência europeia, mas está firmemente ligada à França, Holanda, Itália e Polónia, sem esquecer a NATO. Existe portanto um equilíbrio: a Alemanha não é demasiado forte nem demasiado fraca, necessita dos seus parceiros e estes necessitam dela. Pela primeira vez na sua História, não tem inimigos nas fronteiras. Em vez de um cerco de hostilidade, há um cerco de alianças. Ninguém esquece que foi nos momentos de extrema fraqueza ou de hegemonia alemã que, segundo a poderosa imagem de Edward Grey (ministro britânico em 1914), "as luzes se apagaram na Europa". A frase foi proferida há cem anos, quando começou a I Grande Guerra, e seria necessário esperar por 1989 para que a luz tivesse de novo uma verdadeira oportunidade. 

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Terra Distante

por Luís Naves, em 08.11.14

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Em Terra Distante, um agradável western de Anthony Mann, de 1954, Jimmy Stewart interpreta um individualista sem causa, de psicologia complexa, com um lado negro e cujas motivações não são de todo claras. As restantes figuras estão divididas entre cínicos e vítimas. Os primeiros movem-se pela ganância, que é a origem do mal, como vai recitando um dos mineiros mais pessimistas. No final, o bem triunfa, mas assistimos com certo fascínio às transformações episódicas do nosso herói, que pode ser cruel e violento ou fingir sem hipocrisia uma inocência que não possui.

Os mineiros procuram ouro numas montanhas perto do Alasca e que pertencem ao Canadá. A propósito de geografia, vemos o contraste entre a ordem de um país tutelado pelo Estado de direito e outro onde só existe a desordem, o território do capitalismo selvagem, onde reina a injustiça do mais forte. É interessante verificar como Hollywood foi sempre fortemente ideológica, mesmo num banal western: aqui, encenava-se o confronto entre uma comunidade trabalhadora e os interesses estreitos da minoria exploradora e sem escrúpulos, que não hesitava em recorrer à maior violência.

O bem geral triunfa, mas só depois de o herói compreender que tem de se colocar do lado da justiça. O amor perde, de certa maneira, pois não é possível conciliar a o fundo bondoso do aventureiro com a paixão algo irracional da sua alma-gémea, Ruth Roman. Também não podemos concluir que o poder do Estado seja a solução ideal, pois a autoridade canadiana tem falta de meios, hoje diríamos que parece sofrer políticas de austeridade, forçando homens com a vocação de solitários, como é o caso de Stewart, a tomarem conta da questão. Tirando estas ideias mais datadas, o filme tem a alma do cinema clássico americano, com ritmo e estrutura, densidade de personagens, diálogos sem tiradas literárias e a inexcedível credibilidade dos actores.

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A vida invalidada

por Luís Naves, em 05.11.14

“Sem saírem de casa, os autores de novelas, mesmo os mais anónimos, podem viajar prescindindo da reserva de hotel ou de bagagens complicadas, basta-lhes ocupar a imaginação das personagens que inventam, podem até deslocar-se no tempo e ignorar as regras. Todos os que gostam de escrever viajam barato”.

Escrevi este parágrafo e depois retirei-o do texto onde estava. Na realidade, não sabia muito bem o que fazer com ele.

 

“Para que serve a União Europeia?”, perguntou a minha mulher imaginária, antes de explicar que a roupa não tinha tamanhos normalizados, as calças 44 eram diferentes das homólogas alemãs. Sem ter resposta lógica, saí da loja (chamem-lhe divórcio) caminhei pela rua Augusta e vi um homem estátua, a fazer de conquistador mongol. Subi ao pedestal e fiquei ali um pouco, sem pensar: de vez em quando, mudava de expressão e fazia cara de mau para os turistas, que achavam graça e deixavam uma moeda numa caixa de cartão que se abria mais abaixo. Pelo ar, pairava o cheiro a castanhas assadas.

Cansei-me depressa e continuei o caminho, se é que tinha algum. Logo ao fim da rua, cruzei-me com uma pessoa conhecida e o tipo desviou a vista, para não ter de falar comigo. Senti-me um intruso na vida dos outros, senti-me embaraçoso. Fiquei a pensar naquele desencontro, naquilo que eu fizera e que levara esse outro a desviar a vista para evitar cruzar-se comigo e ter de me apertar a mão, poupando assim duas palavras de falsa amabilidade, talvez até duas palavras de comiseração e pena, enfim, ia de qualquer forma referir que estava tudo bem, na normalidade habitual, mas ele deve ter pensado que não havia pachorra para ouvir desgraças e que as suas já lhe bastavam. Ninguém viu o meu aceno para a atmosfera, à excepção talvez do mongol, que mudou subitamente de expressão, de semblante neutro para aspecto aterrorizador.

Quando cheguei ao metro, ia a assobiar Here comes the sun, a tentar recordar a letra, havia uma réstia de calor, um farrapo que deslizava do sol envergonhado e, ao descer as escadas, cruzei-me com um doido cuja vida tentara imaginar no outro dia. Fui o tempo todo a observar as pessoas apressadas, os nervosos e os críticos, os impacientes e os que já desistiram, caras entristecidas e corpos cansados. Quando cheguei à minha estação, já me tinha esquecido da melodia que vinha a assobiar. Seria Across the Universe? Uma estrangeira não podia passar a cancela e dizia-me que tinha o bilhete pago para todo o dia, embora dissesse invalidado. Era jovem e simpática, uma personagem de novela romântica: abri-lhe a cancela com o meu bilhete e ela agradeceu-me com um sorriso que me pagou o dia.

Só mais tarde percebi que eu próprio já não podia passar a cancela. Insisti, mas o meu bilhete dava invalidado, assim dizia o visor, pois as máquinas são mais espertas do que pensamos e sabem que ninguém sai de um sítio duas vezes seguidas. Assim, estou preso no metro. Ando pelos corredores sombrios e vazios, entro nas composições e saio onde me apetece. Só não consigo passar pela cancela e isso impede-me de regressar à vida normal. Nos subterrâneos da cidade, as pessoas nunca se cumprimentam e, por isso, ainda não encontrei alguém que não me cumprimentasse de propósito. Estou a assobiar Across the Universe. Aqui, não há frio e não chove; há outros como eu, raros, que vão ficando neste labirinto. É isso o que fazemos, por aqui vamos ficando, com a vida invalidada.

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Os palhaços macabros

por Luís Naves, em 29.10.14

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O fenómeno está a alastrar em cidades francesas, mas parece ter origem na Califórnia, também numa pequena cidade. Pessoas vestidas de palhaços surgem em poses suficientemente ambíguas para poderem ser consideradas arrepiantes. No fenómeno francês, apareceram palhaços nas ruas, armados e em atitudes ameaçadoras, naquilo que se poderia definir como brincadeira de mau-gosto, mas logo surgiram grupos de autodefesa anti-palhaços, também armados. Isto foi ao ponto de Lille não ter dado autorização para um desfile chamado zombie walk, no âmbito da festa americana conhecida por Halloween.

A tudo isto se pode juntar uma história de motins e histeria colectiva, também em França, durante a exibição de um filme de terror sobre uma boneca maléfica. As pessoas têm muita imaginação, mas há aqui mais qualquer coisa, talvez isto seja um sinal dos medos colectivos que as sociedades têm acumulado, medos esses que a fantasia do cinema de terror alimentou de forma particularmente eficaz com esta personagem do palhaço que esconde o psicopata. Vendo bem, é uma ideia particularmente criativa, pois transforma uma figura trágico-cómica, que fez rir as crianças durante séculos, no seu perfeito oposto. Como está ligado ao imaginário infantil, o palhaço é particularmente assustador.

 

 

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Público e de preferência gratuito

por Luís Naves, em 27.10.14

 

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Por vezes lemos textos com os quais discordamos, mas que nos fazem pensar. Foi o caso deste artigo de Luís Valente Rosa, na Revista Visão, a propósito de um artista que assina com o pseudónimo Bansky e que se tornou famoso no Reino Unido devido às suas provocações. O texto da Visão parece apoiar a ideia da arte pública e da extrema democratização do acesso, esquecendo que os artistas precisam de ter rendimento ou não haverá obras de arte. O artigo levanta de forma indirecta outra questão, que tem mais a ver com os mecanismos da fama e os truques do comércio.

É curiosa a separação que o autor faz das diferentes expressões artísticas, omitindo que a pintura só é adquirida por pessoas extremamente ricas devido à circunstância de cada obra ser única (por isso se chamam coleccionadores e também há especuladores). As cópias nada valem, até podem dar prisão se forem vendidas como originais, e a boa pintura de autores desconhecidos tem valor quase nulo. A questão das reproduções aplica-se de igual forma na literatura ou na música. Podemos ouvir Bach na grafonola, mas é uma reprodução. Se quisermos ouvir o original, precisamos de uma orquestra, de um coro, de uma organização que forneça as partituras e pague aos artistas. Até podemos complicar: há quem só aceite a interpretação com instrumentos da época. Nem falo da música contemporânea, que é raramente tocada, pois os compositores importantes são desconhecidos do público. Quem é que ouviu obras de Sofia Gubaidolina, Arvo Part ou Gyorgy Kurtag? E só incluí os indiscutíveis*.

  

 

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Fiquei feliz com o casamento de George Clooney, que é um rapaz da minha criação. Todo aquele ambiente de Hollywood clássico, o amor tirado de um livro de Hemingway, tudo isto encanta. Eu e o George nascemos no mesmo dia e, tendo em conta a diferença horária, julgo que nascemos mais ou menos à mesma hora. Somos gémeos de ascendência gémeos e no signo chinês ambos búfalo, mas desconheço os detalhes e as implicações, julgo que estarão envolvidos o yin, a água e o metal. Ambos temos aspecto de pessoas felizes e, se fôssemos cantores de ópera, ele seria o barítono que tentava impedir o meu amor com a soprano (felizmente, não canto, mas sou tenor).

Pelos meus cálculos, nasceram 380 mil pessoas nesse dia, mais ou menos um par de milhares e algumas centenas. Isto inclui apenas aqueles que sobreviveram ao primeiro ano de vida e é naturalmente uma estimativa grosseira. Muitos dos rapazes e raparigas da nossa criação já faleceram, vítimas de doença, acidentes, conflitos, mas julgo que haverá dezenas de milhares ainda vivos. É natural que os últimos morram algures na década de 70 deste século.

Se eu e o George nascemos no mesmo segundo, o que não sendo provável é apesar de tudo possível, haverá duas outras pessoas no planeta que também nasceram nesse segundo. Não sei se estarão vivas, mas teria sido bem pensado enviar um convite para o casamento. Nunca estive em Veneza. 

 

 

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Um encontro feliz

por Luís Naves, em 25.09.14

 

No mais recente livro de Patrícia Reis, O que nos Separa dos Outros, o narrador tem 54 anos. Eu tenho 53 e, tal como o protagonista, vejo com espanto e certa melancolia os efeitos do tempo na vida que passa.

A afinidade entre leitor e livro é um encontro feliz a que chamamos habitualmente qualidade literária. Por isso decidi escrever esta nota de leitura. A novela foi ontem apresentada em Lisboa, lê-se sem dificuldade, sinal inconfundível de boa escrita. A autora escolheu uma forma simples, o monólogo interior, mas o tema é complexo: perda, sensação de fracasso, a ideia de que se gastou uma vida inteira para quase nada. O narrador, um professor de escrita ou talvez escritor falhado, enfrasca-se em Macau a observar a empregada chinesa de um bar anónimo, a falar com ela em imaginação (como se a rapariga pudesse perceber as palavras dele). Temos ali o cansaço e o desencanto, a impossibilidade de comunicar, a fantasia sobre a vida dos outros.

O livro de Patrícia Reis tem uma escrita transparente e despretensiosa, sem floreados ou excesso de imagens, deixando aos leitores amplo espaço para imaginar as omissões do enredo. Em O Que nos Separa dos Outros por causa de um copo de Whisky (na versão longa do título) há pequenas passagens de grande intensidade dramática e personagens apenas esboçadas, mas que sentimos em toda a sua riqueza humana. A mãe do narrador, por exemplo, que vemos aflita durante um funeral e depois, senil, num lar de idosos: “Quando se vê ao espelho, será que pensa em alguma coisa?”. Ou o falecido irmão, um solitário, cujo desespero nunca chegamos a perceber.

O narrador, silencioso e fatigado, observa uma chinesa ligeiramente estrábica, tenta adivinhar a vida dela e vai desfiando memórias, num fluxo de pensamento falsamente aleatório. Por vezes, interroga-se sobre a personagem muda que julga observar: “Não consigo perceber que idade tens. É intrigante”. Em ruído de fundo da sua mágoa está o suicídio do irmão (que talvez seja acidente), o casamento nulo e a falta de amor, o desaparecimento do pai (porventura outra história complicada).

A escritora conseguiu ligar os diferentes fios da intriga num conjunto harmonioso e um leitor não pode deixar de sentir a solidão destas figuras dispersas. A melhor paisagem para confessar o que ninguém ouve é um lugar estrangeiro. Num bar do outro lado do planeta, na companhia de um copo de whisky, a personagem tenta recordar o que durante a inexorável passagem do tempo se perdeu na sua vida: “Esse desconhecido é-me confortável. Faço o copo rodar na minha mão, as pedras de gelo a diluírem-se, e tenho pena dessa morte lenta da água”.

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Controlar o passado

por Luís Naves, em 28.08.14

As interpretações mais comuns sobre o livro de George Orwell, 1984, centram-se nos perigos da tecnologia e na omnipresença da vigilância. Segundo essa visão, a maior originalidade do romance está na personagem do Grande Irmão (Big Brother) que vê e controla tudo aquilo que as pessoas fazem.

Há outra forma de olhar para este livro, como crítica arrasadora do estalinismo e da dupla linguagem que define o combate político, fenómeno que existiu nas ditaduras comunistas. O romance tenta reflectir sobre o totalitarismo e o esmagamento do indivíduo pelo colectivo, mas a maior originalidade estará porventura na novilíngua que o regime tenta criar, sobretudo na ideia de que a simplificação da linguagem é um mecanismo de limitação da liberdade.

O romance gira também em torno da alteração do passado, que assegura a longevidade da ditadura. A personagem principal, Winston Smith, tem essa função, actualizar os documentos, ou seja, a rescrita das fontes históricas, mas a vigilância continua a ser o elemento mais citado do livro, sempre como exemplo, quando surgem inovações tecnológicas que sugerem acumulação de poder (acções policiais, a espionagem que intercepta chamadas, as teorias de conspiração sobre grupos de influência). E, no entanto, as tecnologias têm funcionado contra a ideia de Big Brother, muito mais no sentido da fragmentação, dificultando o controlo da informação por um único utilizador. A questão do controlo da privacidade é fundamental no livro, mas não representa a lição central para o nosso tempo.

Onde o livro se torna mais inquietante e até presciente é no tema da novilíngua ao serviço do poder e do duplopensar, ou seja, na capacidade da política de dizer uma coisa e o seu contrário. A actualidade tem excesso de dados, mas as tecnologias digitais facilitaram a alteração do passado. No tempo em que o livro foi escrito, 1948, mudar uma fotografia exigia uma técnica elaborada, mas agora trata-se de uma banalidade. Por outro lado, a realidade é incerta, pois determinada informação pode ou não ter sido manipulada, sendo difícil detectar as fraudes. Esse é o autêntico Grande Irmão que sobrevive do romance de Orwell: quem controla o passado, controla o futuro.

Há outros elementos de génio em 1984, por exemplo o uso da guerra para reforçar o controlo das elites sobre as massas, a destruição do amor e a eliminação de palavras, sem as quais deixa de ser possível formular certas ideias.

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Ferocidade

por Luís Naves, em 22.08.14

Se o autor não é vedeta da TV ou poeta fofinho, a assinatura é provavelmente irritante. Falo por mim, o que escrevo não é dirigido a leitores que partem para a leitura com preconceitos inabaláveis. Li um texto muito inteligente de uma autora que escreve no Jornal de Negócios, Eva Gaspar, e ela falava deste maldizer pouco informado que tomou conta do espaço mediático e que se espalha nas redes sociais como uma infestação de cogumelos tóxicos. Há pessoas que não entendem a diferença entre discordar com argumentos e discordar sem eles. Há comentadores que dão palpites sobre tudo e mais alguma coisa, com sentenças definitivas sobre temas que desconhecem, ideias vagas sobre coisas complexas; há também muitos que contestam o outro apenas pela cor da gravata, pelo respectivo lado na trincheira e por julgarem o opositor irritante ou ainda porque lhes apetece, por terem acordado com os pés fora da cama e com azia no estômago. Não faltam razões para a maledicência superficial e cruel, mas julgo que um dos motivos da crispação é razoavelmente racional: foi criado um clima pessimista e negativo, as notícias trazem sistematicamente o lado mau da sociedade e visam sempre a vertente escandalosa dos supostos factos. Algumas pessoas acreditam ingenuamente que, sendo o mundo assim, a liberdade de expressão deve funcionar como valor absoluto, incluindo apenas a irresponsabilidade e o vazio.

 

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Não há verdadeiros diários

por Luís Naves, em 21.08.14

Não há verdadeiros diários, apenas o impulso de escrever todos os dias. Não seria possível colocar a verdadeira existência nestas linhas, embora seja possível tentar a representação aproximada de certas impressões e detalhes - o mapa do metro de Londres; um dicionário de língua húngara, daqueles com ilustrações de objectos; o capitão Haddock a espreitar pelo ombro de Tintim, num avião que vai a cair; pilhas de livros mal arrumados; longos cabelos castanhos da beldade burguesa numa gravura barata (como é que se chama o quadro original?); a pintura em seda que comprei em Islamabad, sobre as delícias do vinho, em pseudo-estilo Mogul; a minha gata de três cores que interrompe estas linhas (acho que está com fome ou a pedinchar carinho) - pois, não há verdadeiros diários, só combates com as palavras, a busca dos rumores do mundo, a insensatez das coisas, vozes na multidão, o romance que não anda, dúvidas, as dúvidas. Só há fragmentos do dia, livros fabulosos que outros escreveram, há hipócritas, azarados e bondosos, há o que não vale a pena e o que interessa, memórias desencontradas, murmúrios e conversas, amores e desilusões, tragédia e continuidade. Há textos insuficientes e títulos impossíveis, pois não se resume assim, dia a dia, o que nos passa pela cabeça.

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Incerteza

por Luís Naves, em 29.07.14

Na sociedade portuguesa instalou-se um mal-estar que está a levar os políticos a ensaiar a fuga para a frente, feita de promessas que não poderão ser cumpridas. O País empobreceu e está crivado de dívidas que não consegue pagar. Os Portugueses adquiriram uma profunda noção de humilhação nacional e o pior é que a doença não passa, os sintomas não aliviam, gritam-se diagnósticos alucinados.

O clima de incómodo insustentável não se limita a dividir a sociedade, mas cria na vida uma sensação de falta de soluções. Portugal tem hoje uma política mais crispada, crescente descrédito das instituições e da democracia. Já ninguém discute o futuro, pois ninguém acredita que ele exista. O declínio parece irreversível.

O País continua a enfrentar problemas recorrentes. As crises do último século estiveram ligadas a desequilíbrios orçamentais ou problemas financeiros com base em incerteza nas contas públicas. Foi o que nos afundou também desta vez e é o que ninguém deseja debater de forma séria.

No actual regime democrático tem aumentado a estabilidade do sistema (os governos parecem sobreviver mais tempo), mas no passado, quando se deparou com crises difíceis, Portugal escolheu caos ou ditadura, matando à nascença qualquer ímpeto reformista.

Não teremos contas públicas equilibradas sem a reforma corajosa do Estado Providência, mas se todos os nossos problemas forem encarados como enigmas insolúveis, não haverá saída. O mal-estar pode conduzir ao impasse, levar a escolhas erradas, populismo ou revolução, que implicam o isolamento do País e a sua condenação à pobreza por muitas décadas.

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