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Fora de série (balanço)

por Pedro Correia, em 21.06.16

Durante cinco semanas mantivemos aqui uma série colectiva de textos - mais uma, a juntar a várias outras publicadas no DELITO - intitulada Fora de Série. Precisamente sobre as séries, mais remotas ou mais recentes, que nos marcaram enquanto telespectadores.

Fica a recapitulação, em jeito de balanço:

 

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Competiu-me dar o pontapé de saída, a 15 de Maio. Escrevendo sobre ALL IN THE FAMILY / UMA FAMÍLIA ÀS DIREITAS.

 

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Seguiu-se o Luís Naves, a 16 de Maio. Com ESPAÇO 1999, um clássico televisivo de ficção científica.

 

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A primeira menina - e terceira autora - a chegar-se à frente foi a Marta Spínola, que escreveu a 17 de Maio. Sobre HILL STREET BLUES / A BALADA DE HILL STREET.

 

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A 18 de Maio, a Patrícia Reis trouxe-nos aqui outra série de boa memória: WE'LL MEET AGAIN.

 

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Também inesquecível é a série escolhida a 19 de Maio pelo Sérgio de Almeida Correia, número cinco deste lote: LA PIOVRA / O POLVO.

 

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A ficção científica regressou a 20 de Maio, desta vez pela pena do Luís Menezes Leitão, autor de um texto sobre STAR TREK / O CAMINHO DAS ESTRELAS.

 

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21 de Maio entrava em cena o João André, escrevendo sobre BLACKADDER.

 

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PIPI DAS MEIAS ALTAS, conhecida produção sueca, foi a série escolhida pela Isabel Mouzinho num texto aqui publicado a 22 de Maio.

 

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Originalidade: a mesma série - LES GALAPIATS / OS PEQUENOS VAGABUNDOS - mereceu dois textos, com pontos de vista muito diferentes, assinados pelo José Navarro de Andrade23 de Maio e pela Ana Vidal a 24 de Maio.

 

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O Diogo Noivo entrou em cena a 25 de Maio, com um texto sobre X FILES / FICHEIROS SECRETOS. Série que tem andado por aí outra vez, para satisfação de muitos nostálgicos...

 

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26 de Maio o Rui Rocha lembrou-nos LING CHUNG, um herói do Oriente.

 

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Veio então o João Campos, partilhando connosco a 27 de Maio as recordações que guarda de SLEDGE HAMMER!

 

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BONANZA, clássico dos clássicos, não podia faltar: passou por cá a 28 de Maio. Pela pena do Fernando Sousa.

 

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E OS SOPRANOS chegaram a 29 de Maio. Com a Teresa Ribeiro a lembrá-los cá no blogue.

 

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Foi então o momento de lembrar a série espanhola VERÃO AZUL, que marcou toda uma geração. Com texto da Francisca Prieto, publicado a 30 de Maio.

 

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Chegou depois DUARTE & COMPANHIA, pela mão do Alexandre Guerra. Um quase-clássico português, aqui lembrado a 31 de Maio.

 

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E quem não se lembra de MacGYVER? Também ele passou pelo DELITO, a 1 de Junho, recordado pela Ana Lima.

 

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Uma das mais hilariantes séries de sempre marcou igualmente presença cá no blogue: FAWLTY TOWERS, de que nos falou o José António Abreu a 2 de Junho.

 

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ERA UMA VEZ O ESPAÇO, série de animação, foi lembrada aqui a 3 de Junho pelo Adolfo Mesquita Nunes.

 

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Outra série de animação, NARANJITO / FUTEBOL EM ACÇÃO, mereceu destaque a 4 de Junho, num texto do António Manuel Venda.

 

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Chegou então o célebre SEINFELD, de que nos falou o José Maria Gui Pimentel a 11 de Junho.

 

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E a série encerrou a 19 de Junho com um texto da Ana Cláudia Vicente. Sobre SIX FEET UNDER / SETE PALMOS DE TERRA.

 

Vinte e três textos no total.

Espero que tenham gostado.

Não tardaremos a lançar nova série colectiva cá no blogue. Prometo dar notícias muito em breve.

 

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Fora de Série (22)

por Ana Cláudia Vicente, em 19.06.16

Acenando a Alan Ball, autor da série, escolho começar por um fim. À mais miúda dos irmãos Fisher, Claire, caberá o guiar o epílogo de uma parte da história da sua família. Este será contado em tom e ritmo consideravelmente distantes de qualquer dos episódios das cinco temporadas de Six Feet Under / Sete Palmos de Terra: rápido, sem quês, entre a comoção e o ridículo para quem durante anos acompanhou todos os que desaparecerem e (re)aparecem no tempo desta melopeia: 

Vemos Claire (Lauren Ambrose) partir depois de crescer numa família que lida diariamente com o que, no nosso tempo e na nossa parte do mundo, a maioria tenta mais ou menos esforçadamente fazer de conta não (ha)ver: a morte. Assim sendo, a casa dos Fisher é também sede de agência funerária homónima, fundada por Nathaniel (Richard Jenkins), primeira baixa do primeiro episódio, a qual precipitará o regresso do seu filho mais velho, Nate (Peter Krause), e a recomposição do modo de viver de todos eles.

 

Treslendo um pouco a premissa desta série colectiva de posts, escolhi a história dos Fisher porque esta marcou a minha juventude, mais exactamente o seu fim. Guardo-a como a primeira da minha vida adulta. E sim, para adultos: dura, explícita, baralhante, grotesca, espiritual, angustiada. Pude vê-la porque passou na RTP2, tinha eu entre vinte cinco e os vinte sete ou vinte e oito anos; a personagem mais próxima da minha idade era David (Michael C. Hall), o filho do meio, o que tentava ser tudo para todos até já não o poder nem o querer. Muitas outras substanciais personagens nos foram apresentadas nesses anos, desde logo Ruth (Frances Conroy), a matriarca incompleta; ou Brenda, Federico, Keith e as suas famílias; George, Lisa, Maggie.

O melhor desta série não foi, pelo menos para mim, o ângulo talvez mais referenciado, de ilustração de um tempo e um espaço onde a morte e os seus ritos (ponto de partida de cada episódio) são fonte de estupefacção. O melhor foi, de longe, a representação do convívio entre os que ainda vivem e os que já partiram, qualquer que seja a interpretação (metafísica, onírica, psicológica) que dele possamos fazer. Como aqui:

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Fora de série (21)

por José Maria Gui Pimentel, em 11.06.16

Seinfeld – a série sobre nada, sobre tudo

 

Servindo esta rubrica para invocar uma série que nos tenha marcado durante a infância ou juventude, o normal seria escolher uma série de que fosse contemporâneo. Não é, porém, esse o caso de Seinfeld, cujo primeiro episódio foi para o ar vinte bons anos antes de eu descobrir que existia um café chamado Monk’s. Foi por isso quando o hype da série já há muito se tinha extinguido, mesmo em Portugal, que eu descobri Jerry Seinfeld – alter-ego do humorista homónimo –, George Constanza – alegadamente uma espécie de superego de Larry David, o outro criador –, Kramer – a personagem mais plana da série, mas genialmente conseguida – e Elaine, uma personagem feminina tão distante do típico cérebro feminino que só poderia mesmo ter sido criada por dois homens.

 

Desde que vi o último episódio, e ao contrário do que tende a suceder, a minha relação com a série tem vindo a estreitar-se, em lugar de se esbater. E é por isso que julgo ser uma boa candidata a figurar nesta rubrica. Com efeito, são inúmeras as situações do dia-a-dia em que dou por mim a lembrar-me de determinado episódio em que aquela mesma situação – por norma, insignificante, corriqueira até, mas recorrente – acontecia, colocando-se sobre essa mundanidade um tipo de análise minuciosa que o sentido do ridículo normalmente nos retrai de ensaiar.

 

À distância de alguns anos, houve em Seinfeld alguns elementos distintivos que desde logo me atraíram e que continuo a admirar – se é que se pode usar palavra tão carregada para uma série de espírito tão assumidamente leviano.

 

Um deles é justamente essa ligeireza, que se traduz num despretensiosismo desarmante. Pode haver série mais despretensiosa do que uma cujos criadores definem famosamente como sendo “um programa sobre nada”? É certo que uma comédia de situação (sitcom) dificilmente terá as pretensões de um Sopranos – para nos mantermos no domínio do entretenimento –, mas é muito típico tentar comprar alguma dignidade perene recorrendo a alguma dose de pedagogia. Além do mais, as séries, mesmo de comédia, têm (ou tinham, até ali) uma forte componente de “lamechice”, explorando a identificação do público com os sentimentos e as dores das personagens.

 

Nada disto acontecia em Seinfeld, cujos criadores preconizavam abertamente: “no hugging, no learning”. Seinfeld era, por isso, assumidamente leviano e anti-sentimental. Ao mesmo tempo, defini-lo como um programa sobre nada preparava o espectador para se poder falar “sobre tudo” – tudo aqui significando <aquilo que normalmente ficaria abaixo do limiar de sofisticação (já reduzido) da televisão>. Seinfeld troca, assim, o enfoque típico no relacionamento entre as personagens e na exposição dos seus sentimentos pela exploração das inconsciências das normas sociais, sobre todo o tipo de tópicos – mesmo os mais íntimos –, pela análise detalhada dos pequenos e prosaicos pormenores da rotina diária e pela exposição da interacção entre os ímpetos egoístas e futilidades das personagens, menos nobres do que outros sentimentos, mas irresistivelmente reais.  

 

Todo o tipo de situação mundana, mais ou menos íntima, era, assim, passível de ser analisada e dissecada, e de sobre ela se teorizar. Como alguém notou, é a “construção do dia-a-dia como algo antropologicamente estranho”. É a estranheza dessa análise que gera a comicidade. Até porque essa análise é assumidamente leviana e imatura e, por isso, desprovida de qualquer auto-censura.

 

Assim, às personagens é permitido proferir, à vez, as maiores enormidades ao mesmo tempo que testam os limites do aceite socialmente. Essa racionalidade, aliada à leviandade da abordagem, produz nas quatro personagens principais comportamentos imaturos, declaradamente pouco sofisticados, e com um substrato de amoralidade, cujo único freio é a noção flexível da fronteira do que é socialmente aceite.

 

Uma dimensão constantemente presente é a dificuldade das personagens em lidar com as regras que a sociedade impõe. Particularmente interessante neste aspecto é a interacção das personagens com o politicamente correcto e a sua entrada inexorável - que veio para ficar - na esfera da intimidade. Ficou-me marcada, pela sua presciência, a dificuldade inesperada de Jerry e George em convencerem o mundo de que não eram um casal gay, limitados na argumentação pela necessidade em que – eles mesmos, personagens com um toque de amoralidade –  se viam de terminar cada frase com “not that there’s anything wrong with that”. Paradoxalmente, deste modo, uma série que os criadores alardeavam como de “no learning” acaba por, socraticamente, por provocar e questionar a audiência.

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Fora de série (19)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 03.06.16

Explicar por que razão uma série de desenhos animados como ‘Era uma Vez o Espaço’ me atraiu tanto é um exercício de especulação. Foi a minha primeira série, no sentido em que foi a primeira vez que ansiei por novos episódios, em que me sonhei personagem, em que quis colecionar tudo o que existia e não existia sobre os desenhos animados. E a música do genérico é, ainda hoje, uma das canções da minha vida, com força suficiente para me fazer regressar a um tempo em que tudo ainda fazia sentido.

Mas como explicar este interesse, quando tinha 7 ou 8 anos? O que pode justificar este fascínio? Não sei responder com sinceridade, embora hoje possa, revendo e conhecendo melhor a série, perceber alguns dos aspectos que merecem ser destacados. Refiro dois.

Comecemos pelo tema, o espaço, ideal para atrair a atenção de qualquer criança. Havia no enredo uma aproximação aos temas clássicos da ficção científica, um planeta consciente, robôs que se revoltam, civilizações esquecidas, etc…, expostos de uma forma pouco comum nos desenhos animados sobre o espaço.

Havia naquela história, muitas vezes inspirada na mitologia grega, em que as armas não matavam e os bons eram liderados por uma mulher, uma preocupação em explorar os temas de uma forma mais filosófica: democracia, religião, morte, tolerância, diversidade. Talvez por isso, havendo bons e maus, a história se passasse num ambiente apesar de tudo pacificado, em que espécies diferentes conviviam em harmonia, em que a ciência e a razão dominavam como fontes de prosperidade e em que uma das protagonistas não era ariana.

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E agora a música, do Michel Legrand, com orquestra sinfónica, que atravessa toda a série. Poucos desenhos animados se terão dado a este luxo, de juntar um grande compositor e uma orquestra de propósito para acompanhar as cenas espaciais das personagens. Ainda hoje essas composições têm força suficiente para tornar esta série numa série de culto, embora ofuscada por séries como Espaço 1999 ou Gallactica, que na altura competiam também pelo público infantil. Ora escutem.

Não sei se isto ajuda a explicar por que razão esta série me marcou tanto. Mas não deixa de ser uma boa forma de despertar a curiosidade de quem ainda não conhece esses desenhos animados, muito diferentes aliás dos restantes da mesma série ‘Era uma Vez’ (os mais populares, em Portugal, davam pelo nome de ‘Era uma Vez a Vida’). Quanto ao mais, tudo o que esta série me faz recordar, tudo o que nela me inspira, não caberia aqui. 

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Fora de série (18)

por José António Abreu, em 02.06.16

Decisões, decisões. Depois do Pedro Correia escolher Tudo em Família, considerei optar por MASH, outra das grandes séries cómicas norte-americanas da década de 1970, cujo episódio final, transmitido em 1981 (numa altura em que a qualidade até decaíra bastante) bateu todos os recordes de audiência (foi apenas ultrapassado em 2010, pela final do Super Bowl). Ou, já que a Ana Vidal e o José Navarro de Andrade abordaram ambos Os Pequenos Vagabundos, que tal escrever sobre Os Famosos Cinco, a série com aquele genérico em que os quatro miúdos e o cão se afastavam pelos campos? Ou ainda, no âmbito das séries de acção de qualidade duvidosa – também eu fingi ser o Ling Chung, Rui Rocha –, por que não Os Soldados da Fortuna (como todos os meus colegas, gostava do maluco, Murdoc, e não via despromoção alguma na circunstância de George Peppard ter 'evoluído' de procurar gatos com Audrey Hepburn para mascar charutos com Mr. T) ou Os Três Dukes (ah, o General Lee, voando por cima dos riachos com a bandeira da confederação no tejadilho, e os calções curtos da prima Daisy…).

Mas não. Resolvi que abordaria antes uma das séries que mais tensão me causaram na adolescência: Os Contos do Imprevisto, baseada nos pequenos concentrados de suspense e malevolência escritos por Roald Dahl. Porém, logo após a escolha, apercebi-me de que só conseguia lembrar-me da história em que um tipo apostava – contra a perda de um dedo – que o seu isqueiro acenderia à primeira tentativa dez vezes seguidas. Por entre a perturbação de não recordar mais nada, consola-me o facto de recordar perfeitamente a tensão que aquele episódio originou em mim.

E decidi então escrever sobre Fawlty Towers.

Comecemos pelo título, fabuloso trocadilho que me escapava na altura, reflectido na placa com o nome do hotel que, de episódio para episódio, ia perdendo letras ou apresentando-as por ordem incorrecta. Farty Towels foi uma criação de John Cleese e de Connie Booth, casados na altura da emissão da primeira temporada de episódios, em 1975 (na BBC; em Portugal passou mais tarde), divorciados quatro anos depois, aquando da segunda (talvez por isso, a primeira é melhor). Cleese, o mais irascível dos Monty Python, era Basil Fawlty, dono e gerente de um pequeno hotel em Torquay, a «Riviera britânica». Booth também participava na série, desempenhando o papel de Polly, a empregada. Havia ainda Prunella Scales (no papel de Sybil, a autoritária mulher de Basil) e Manuel, o empregado espanhol (já lá vamos).

A génese da série é uma piada em si mesmo. Cleese teve a ideia quando os Monty Python ficaram instalados no hotel Gleneagles, situado precisamente em Torquay, e o dono se revelou um tipo intratável, atirando um mapa a um cliente, criticando as maneiras à mesa de Terry Gilliam (o Python norte-americano das animações) e escondendo atrás de uma estrutura do jardim a pasta de Eric Idle (o Python de Always Look at the Bright Side of Life), abandonada por momentos enquanto este e Cleese aguardavam um táxi (o dono do hotel alegou recear que contivesse uma bomba). Cleese e Booth voltariam mais tarde e aprofundariam o trabalho de investigação em torno do sujeito. (Informação acessória e sinal dos esforços a que me dou ao escrever estas coisas: o Gleneagles não surge no TripAdvisor; ou já não existe ou está abaixo do nível mínimo da escala.)

Faw ty T wers é um sucesso a vários níveis. Enquanto o Flying Circus tinha um humor frequentemente estranho e erudito, Fa l y To e s operava (e ainda opera) tão bem em registos sofisticados (o ressentimento com os alemães, o desprezo pela cultura norte-americana, a ironia para com o passado colonial da Grã-Bretanha) como a níveis de percepção imediata, quase revisteira (os inúmeros momentos no limiar do slapstick, a forma como Basil tratava Manuel – mas já lá vamos). O génio estava até em conjugar os dois níveis sem mostrar costuras ou esforço aparente: o crescendo de insultos de Basil aos hóspedes alemães (iniciado por uma preocupação maníaca em garantir que ninguém mencionaria a guerra - tão maníaca que revela o desejo oposto - e culminado na explosão final em que adopta o passo de ganso – uma especialidade de Cleese) é tão eficaz para quem apanha todas as alusões como para quem (como eu, na altura da primeira emissão em Portugal) se ri essencialmente do grau de ridículo a que os esforços de Basil o sujeitam. Cleese referiu muitas vezes em entrevistas posteriores que não se pode ter pena das personagens, que é essencial levar uma situação até ao limite, e, apesar do génio de várias outras personagens que desenvolveu e interpretou, nunca terá feito isso tão bem como nesta série.

Duas notas, ainda: a faceta aparentemente tão portuguesa do tão orgulhosamente inglês Basil Fawlty e – é agora – o espanhol Manuel.

Há trinta e cinco ou quarenta anos, não pensei em nada disto, claro. Limitei-me a rir às gargalhadas, perante um razoável grau de incompreensão dos meus pais, a quem séries estrangeiras nunca atraíram por aí além. Mas, pelo menos em dois aspectos fundamentais, Basil, caricaturalmente inglês no comportamento orgulhoso, hirto, sexualmente retraído, podia afinal também ser português. O primeiro é a forma como mente e esconde coisas da mulher (é verdade que exasperante, até por ter razão muitas vezes). O segundo necessita de exemplos. Quando é preciso abrir uma porta no hotel, Basil contrata a empresa com pior reputação, por ser mais barata. Quando, motivado pelo desejo de privar com a alta sociedade, tenta impor as noites gourmet, acaba traído pelo carro, cuja manutenção descurou. Quando ouve dizer que o hotel vai receber a visita de inspectores públicos (a ASAE lá do reino), preocupa-se finalmente com aspectos que deviam ser regras de higiene do dia-a-dia mas preocupa-se ainda mais (e, oh, tão excessivamente) com identificá-los e bajulá-los. Quando faz quinze anos de casado, esquece-se da data. E, logo no início, quando questionado sobre os motivos da contratação de Manuel, admite que, muito embora ele seja pouco inteligente e não domine a língua inglesa, fica barato. Se não anda por aqui uma costela portuguesa, então as pessoas são mesmo iguais em todos os inúmeros cantinhos deste planeta. Ou os portugueses especialmente adequados a personagens de sitcom.

Manuel, finalmente. Há trinta e tal anos, eu desmanchava-me a rir com ele mas, sendo honesto, devo admitir que o encarava de forma não muito distinta daquela com que encarava o velhote careca do Benny Hill: um saco de pancada. Mas Manuel merece outra análise. Desde logo, merece que se reflicta sobre o quão politicamente incorrecto se podia ser em televisão. Hoje, uma personagem tão maltratada geraria ataques das brigadas bem-pensantes. Mais: justificar erros e dificuldades com um revirar de olhos e a observação «É de Barcelona» originaria artigos inflamados em jornais e blogues espanhóis (bom, talvez apenas nos da Catalunha). Se não acreditam, leiam alguns dos comentários aos clips existentes no Youtube. Depois, Manuel merece a admissão de que, em registo de comédia, nos é divertido assistir a uma relação de maus-tratos porque, mais cedo ou mais tarde (e não será uma boa comédia se isso não suceder), aquele que maltrata acaba pior do que o maltratado. (Uma das razões pelas quais Benny Hill já não funciona para mim é precisamente esta regra ser violada com frequência.) Finalmente, merece o carinho inerente a qualquer personagem trapalhona mas bem-intencionada e (muito importante) deferente. Fosse ele mais activo e respondão (e tinha todas as razões para o ser), talvez o achássemos irritante. Porém, não obstante Sybil Fawlty o comparar com um macaco (sim, é racista, mas, como Basil, Sybil está longe de ser um modelo de virtudes), Manuel assemelha-se mais a um cão: após cometer erros, fica, de orelhas baixas e olhar triste, à espera do castigo. Com uma vantagem (talvez surpreendente, considerando que é de Barcelona) em relação a todos os cães que até hoje encontrei: sempre vai ajudando na limpeza da casa (*). No fundo, descontando o bigode, Manuel é o ser humano ideal para se ter por perto. Em F  l y    ers ou noutro lado qualquer.

 

 

(*) Estic fent broma. M'encanta Barcelona e els barcelonins (especialment Messi).

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Fora de série (17)

por Ana Lima, em 01.06.16

Se referir o seu nome – Angus -, poucos saberão de quem estou a falar. Mas se vos lembrar que pedaços de chocolate, clipes, cartões, pastilhas elásticas, moedas, relógios, elásticos de cabelo, brincos ou qualquer objecto que possa estar à nossa mão podem servir para provocar explosões, abrir algemas, recarregar baterias ou até desarmar mísseis; tenho a certeza que todos saberão a quem me refiro: Macgyver, pois claro!

Esta série, realizada por Lee David Zlotoff, acompanhava um ex-agente das Forças Armadas, especialista em conseguir resolver problemas (e alguns eram tramados) utilizando, para tal, objectos simples do dia a dia. O sucesso foi enorme em muitos países. Por cá não foi excepção. A sua capacidade para resolver grandes conflitos sem usar armas (o mais próximo era o seu inseparável canivete suiço), deixava-nos presos ao ecrã, por mais inverosímeis que fossem as situações. Os conhecimentos de física e química, a inteligência e capacidade de observação do protagonista, que o levavam a vencer os inimigos, faziam dele um herói diferente, numa desconstrução dos heróis típicos, e isso só fazia crescer a nossa admiração. E o esperado momento em que as preocupações eram ultrapassadas e no rosto aparecia aquele sorriso era mágico.

A música do genérico era também um elemento marcante e mal a ouvíamos aí estávamos nós a deixar as tarefas que tínhamos em mãos para correr para a frente do televisor: "Agora não posso, mãe. Está a começar o MacGyver"...

 

Na altura em que a série estreou nos EUA (1985) a guerra do Vietnam tinha terminado há apenas 10 anos e as suas consequências na sociedade americana ainda se faziam sentir com intensidade. Por outro lado, Ronald Reagan, presidente na altura, levava a cabo uma política de intensificação da guerra fria e de intervenção em vários locais no mundo, que muitos apelidavam de imperialista e belicista. Não sei se estes factos se podem ou não ligar com esta ideia de um herói que atinge os seus objectivos sem as armas tradicionais (defendidas tão abertamente, na altura, pela América e pelo seu presidente), mas podemos pensar que sim.

Podemos também, analisando o sucesso por cá, lembrar que a facilidade em lidar com o improviso também diz muito aos portugueses, habituados que estão a serem (ou pelo menos a dizerem que são) engenhosos e desenrascados. Ora ali tinham um exemplo que demonstrava que, mesmo sem meios à disposição, se podem atingir os nossos fins.

Coincidência ou não parece que o regresso deste herói está marcado para breve. Claro que Richard Dean Anderson já não fará o papel do homem que dá nome à série. O mesmo acontecerá com os restantes actores. E provavelmenente o velho casaco também não será o mesmo. Aliás parece que, nesta nova versão, se pretende voltar atrás no tempo, ao estilo "prequela", como se diz agora. Mas haverá certamente um Murdoc (a luta entre os bons e os maus continua a fazer sentido) e alguma tensão romântica entre o novo MacGyver e uma ou mais raparigas que com ele se cruzem nas suas aventuras (um outro elemento clássico).

Boa ou má a nova série não se poderá comparar com a que vimos há umas décadas atrás. Para além da série em si as circunstâncias não são as mesmas. E nós também não somos os mesmos.

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Fora de série (16)

por Alexandre Guerra, em 31.05.16

Quando o Pedro Correia lançou o desafio desta nova rubrica, a dificuldade que nos assaltou de imediato foi o que escolher. Foi como se fôssemos umas crianças numa loja de brinquedos e nos dissessem que só podíamos escolher um brinquedo para levar. Neste caso, não é difícil de imaginar a dispersão de cada um de nós, em regressar aos tempos de infância e juventude e escolher apenas uma das muitas séries que marcaram essas fases das nossas vidas. Porque, a verdade é que não houve apenas uma, mas sim várias séries que nos agarraram à televisão e onde se cumpria religiosamente o hábito semanal de assistir a mais um episódio à hora marcada, porque, se por qualquer motivo falhássemos, já nada havia a fazer. O tempo dos youtubes, dos DVD, das box da tv cabo ainda eram coisa do futuro.  

 

Já aqui foram recordadas séries que marcaram diferentes infâncias e adolescências. No que me diz respeito, foram mencionadas algumas que me agarraram literalmente ao ecrã na segunda metade dos anos 80 e no íncio dos anos 90, tais como Sledge Hammer, Ficheiros Secretos, Blackhadder, O Polvo, A Balada de Hill Street ou o Espaço 1999. E muitas outras poderia referir, quase todas de produção britânica ou norte-americana. Mas, com todo o orgulho, posso dizer que uma das séries que mais gostei de ver e que ainda hoje recordo ou revejo (está a passar na RTP Memória) com alegria e saudade, é de produção nacional e dá pelo nome de Duarte e Companhia. Penso que a partir daqui já não preciso de escrever mais nada... 

 

Episódio "O Artista do Crime". Hilariante o diálogo inicial entre o Duarte e o Tó.

 

Pensando hoje um pouco sobre essa série, estamos obviamente perante algo muito datado, que reflectia um Portugal ainda muito atrasado, uma Lisboa algo "provinciana", uma população "cinzenta", ou seja, havia um contraste brutal na cor e na dimensão daquilo que nos chegava através das séries que vinham dos Estados Unidos e aquilo que os episódios do Duarte e Companhia nos mostravam. Portanto, não foi a dimensão do "espectáculo" que me contagiou, mas sim a ingenuidade de tudo aquilo, os personagens irrealistas, a rivalidade infantil entre o "Átila" e o "Lúcifer" e respectivos bandos, os diálogos que tinham tanto de cómico como de absurdo, criando um ambiente sempre alegre e, apesar de tudo, de convivência pacífica entre todos, onde até as cenas de pancadaria mais pareciam um ajuntamento de amigos do que outra coisa.

 

Duarte (interpretado por Rui Mendes) ao voltante do seu Dois Cavalos e o seu parceiro Tó (cujo papel era desempenhado pelo saudoso António Assunção) eram os polícias que tinham a difícil (nem tanto) missão de combater Átila (Luís Vicente) e Lúcifer (Guilherme Filipe), mafiosos e gangsters à portuguesa, que tinham tanto de tolos como de inofensivos. Pelo meio, havia um grupo de personagens absolutamente hilariantes, como o Japonês, o Albertini, o Rocha, a Joaninha ou a temida sogra do Duarte. Ainda hoje, tenho gravado na minha memória muitos dos nomes, das cenas, das falas, de muitos dos episódios do Duarte e Companhia.

 

A série passou inicialmente na RTP na segunda metade dos anos 80, estando agora a ser retransmitida na RTP Memória. No entanto, penso que já estão editadas em DVD quase todas as temporadas. É daquelas coisas que vale sempre a pena rever, porque é boa disposição garantida.

 

Episódio "A cadeira do Poder". A estupidez foi sempre um característica reinante nos bandos do Átila e do Lúcifer

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Fora de Série (15)

por Francisca Prieto, em 30.05.16

O Verão Azul dava à quarta feira à tarde da minha pré-adolescência e passava-se numa vila balnear perto de Málaga.

Na altura eu passava férias no parque de campismo de Ferragudo, de maneira que sonhava com o dia em que, montada na bicicleta, integraria um grupo como o do Verão Azul. Claro que eu queria ser a Bea, a rapariga de cabelo comprido por quem todos os rapazes se batiam. E queria que o Javi gostasse de mim porque, para além de ser loiro, tinha uma sunga Speedo último grito da moda balnear.

Um dia quase consegui estar à altura da Bea, lá na cafetaria do parque de campismo. Uns rapazes de dezasseis anos meteram conversa comigo e quando me perguntaram a idade eu tive vergonha de dizer que só tinha doze e avancei para a maior mentira da minha vida: disse que tinha treze.

O Verão Azul fazia-nos caminhar pelo verão algarvio embalados pelo tralalá do genérico. E era uma série muito realista porque tinha uma data de pais às direitas que, de copo de whisky na mão, não tinham qualquer pudor em recorrer ao antigo método pedagógico de distribuir lambadas sempre que um filho se armava em esperto. Só o Piranha levou para cima de meia dúzia num dia em que resolveu levar a cabo uma greve de silêncio.

Era este realismo que me lançava para dentro do ecrã da televisão e me fazia conversar com as personagens como se fossem meus amigos. Fartei-me de comer gelados com o Quique, de dar conselhos à Desi, que era a feiosa do grupo, de passear pelas ruas de Ferragudo com o Pancho, que sabia tudo sobre pesca, e de derramar lágrimas verdadeiras pela morte do bom e velho Chanquete.

Claro que os meus filhos não percebem nada destes dramas quando os obrigo a passar os DVDs da série, com uma pobre imagem desbotada. Julgam que é ficção científica. Mas a verdade é que o meu coração ainda palpita de cada vez que oiço assobiar as notas dos azuis verões de antigamente.

 

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Fora de série (14)

por Teresa Ribeiro, em 29.05.16

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Até as séries começarem a disputar o cinema a sério, fenómeno bastante recente, andei um pouco alheada da ficção televisiva. Mais do que a concorrência da Internet, o que mais me afastou foi a moda do alinhamento dos enredos por temporadas, tão mais intermináveis quanto maior fosse o seu sucesso de audiências. Não me apetecia morder o isco e depois ficar presa a caprichos ficcionais ditados mais por prazos contratuais do que pelo talento dos argumentistas. Enquanto as boxes não nos vieram libertar dos horários de transmissão dos programas, salvando-nos também dos penosos intervalos para a publicidade, evitei fidelizar-me. Mas há sempre uma excepção. A última série antes da era da TV on demand que me amarrou à cadeira, fez adiar compromissos e reservar o serão, foi Os Sopranos. Até do tema do genérico eu gostava e se há coisa que eu não aprecio é rap...

A moral da máfia, em que me iniciei com a trilogia de O Padrinho, voltava a fascinar-me. James Gandolfini, no papel da sua vida, entrava-me em casa todas as semanas, tão vulnerável quanto brutal e eu, durante o tempo que durava cada episódio, suspendia de boa vontade a minha vida para viver a dele e surpreender-me com as minhas próprias contradições: como é que eu podia sentir simpatia por um assassino? Ainda por cima aquele burgesso sanguinário não fazia nada o meu tipo, só que expunha-se de uma forma... a natureza humana no que tem de mais perturbador era exposta de uma forma naquela série, que tocava as raias da pornografia.

Tecnicamente próxima da perfeição, a saga concebida por David Chase  transcendia o mundo da máfia. Além das actividades da "rapaziada", acompanhávamos a evolução da família disfuncional de Tony Soprano - com uma Edie Falco a encarnar a sua mulher, Carmela, sempre maravilhosa - e as suas inesquecíveis sessões de psicoterapia, o toque de originalidade da série.

 

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New York Times considerou-a "provavelmente a melhor obra da cultura popular americana dos últimos 25 anos". Foi a primeira série de um canal por cabo a ser nomeada para um Emmy. Durante os oito anos em que esteve em exibição, de 1999 a 2007, foi sempre nomeada na categoria de melhor série dramática e por duas vezes ganhou o prémio. David Chase enquanto autor também foi galardoado por três vezes. Nessa categoria a série recebeu 21 nomeações além de outras tantas pelo desempenho dos seus actores, nomeadamente Gandolfini, que levou para casa três Emmys. Mas do palmarés de Os Sopranos constam toda a sorte de prémios, dos Globos de Ouro aos Guilds.

Terá o gangue da série comprado votos? Com a máfia nunca se sabe... A mim, como já revelei, sequestraram-me, amarraram-me à cadeira e... se eu tivesse aqui a psicanalista dele perguntava-lhe... mas acho que não estou errada se disser que a coisa evoluiu para algo próximo do síndroma de Estocolmo. Durante 50 minutos por semana, ali presa ao ecrã, dei comigo a relativizar ou, pior ainda, a compreender todas as  malfeitorias do Tony. E que adrenalina isso me dava!

À hora de Os Sopranos não estava para ninguém. Se alguém me interrompesse, habilitava-se. Era bem capaz de levar com um tiro no meio da testa. Só por causa das coisas.

 

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Fora de série (13)

por Fernando Sousa, em 28.05.16

Há uns meses andava eu numas arrumações quando encontrei um pedaço de papel pardo com uma letra esquisita, a lápis, com um nome, Ben Cartwright, e uma morada de que só eram nítidas três letras: NBC. Bingo!! Era a prova definitiva que nalgum ponto do meu passado tinha privado com a família feliz de Nevada! Num segundo fiquei com o papelito na mão e a cabeça no tempo em que ainda havia heróis, não sei se se lembram... Eram os anos 60 e a tv por cá era uma menina. Já tinha deixado o Zorro e entretinha-me aos domingos com o Stingray, o submarino da World Aquanaut Security Patrol, do capitão Troy Tempest. O pedaço de pacote de açúcar amarelo tivera a morada do patriarca grisalho da Ponderosa, o Ben Cartwright, ele próprio, o da Bonanza, a série de David Dortort exibida pela NBC entre 1958 e 1973, para quem tencionava escrever não sei para quê, talvez para lhe contar das noites em que esperava, no café Monserrate, ansioso pelo mapa a arder e o tema musical do guitarrista Tommy Tedesco que me ficou nos ouvidos – a mim e ao Johnny Cash (Ring of Fire: The best of Johnny Cash, 1963).

 

 

Sabia lá eu, aos 10 anos, onde era Nevada e a fazenda desta família de ganadeiros e madeireiros podre de rica, nas margens do Lake Tahoe, ou a poeirenta Virginia City, com rolos de urze nas ruas, do xerife Roy Coffee (Ray Teal), sofria apenas pelo regresso dos quatro magníficos a cavalgarem na minha direcção!! A semana para mim era o espaço entre dois episódios da saga, a primeira do seu género transmitida assim pela tv, pelo menos cá, a preto e branco, só me escapa o dia – tenho ideia de que era aos sábados, alguém aí que me ajude... O epicentro era sempre a casa de Ben, interpretado por Lorne Greene, de onde ele administrava os 2600 quilómetros quadrados de vacas e madeiras de Ponderosa, além da família, e ajudava Coffee contra bandidos e trapaceiros. Viúvo três vezes e com um filho de cada mulher, Adam (Pernell Roberts), Eric, o gordo e ingénuo “Hoss” (Dan Blocker) e Joseph ou “Little Joe” (Michael London), o velho fazendeiro geria tudo com fé, trabalho e se fosse preciso a murro, e como batia bem! De todos de quem eu gostava menos era de Adam, que um dia desapareceu do saloon onde eu ia todas as semanas, soube mais tarde que tinha deixado a história e emigrado, acho que por uma questão de cachet, ouvi dizer, preferindo o bonacheirão e o sempre-apaixonado Joe Pequeno. Ah, e o Hop Sing, o cozinheiro chinês, com quem o caçula passava a vida a meter-se pelos cozinhados e por comer os erres. Às vezes também havia mulheres, que era quando aquilo ficava sem tiros nem graça. Bonanza era uma novidade por combinar ladrões de gado, batoteiros, garimpeiros e um grupo de homens honrados, generosos e bravos, geneticamente bons, americanos por definição portanto, fora do registo de banditismo puro, duelos ou carroças a fugirem de navajos em Monument Valley... Um western de princípios, a harmonia no Oeste, nem de outra forma teria durado o que durou, e passado na nossa RTP. Evidentemente a série foi acompanhada de uma colecção de fotogramas (com coloração manual, uma estreia, distribuída cá pela APR) e eu fui um dos que a começou e não acabou, pois eles saíam repetidos nas saquetas e a semanada era curta, pelo que trocava os que tinha a mais pelos que não tinha ou ganhava-os aos outros nas escadinhas do Sintra-Cinema na “chapadinha”: dando um golpe seco com a mão em concha sobre cromos que seriam meus se o vácuo os virasse de rosto. Foi assim que uma vez ganhei um cromo do Adam e noutra perdi um do “Joe”... Depois a Bonanza acabou, Lorne Greene entrou em mais trinta dos seus 65 filmes, Michael Landon fez Uma Casa da Pradaria (1974) e Um Anjo na Terra (1984), onde interpreta um papel ridículo, cresci, vim a descobrir que o Nevada era também o estado da misteriosa e muito restrita Área 51, que ainda deve ser, os heróis foram-se ao entardecer e eu fiquei desse tempo com um pedaço de papel pardo a dizer Ben Cartwright e três letras, NBC, prova de que algures no meu passado privei mesmo com a família de Ponderosa. 

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Fora de série (12)

por João Campos, em 27.05.16

É muito provável que os nossos filhos e netos olhem um dia para os filmes e para as séries dos anos 80 e pensem: aquela gente era louca. Olhando nós para trás, não admira: perante o mundo cada vez mais entricheirado, mais intolerante, mais politicamente correcto e mais mal humorado, o atrevimento e a irreverência daquela década não tão distante quanto isso parece quase remetê-la para os confins longínquos da História. Não tenhamos ilusões: muitas produções dos eighties não chegariam hoje à pré-produção, pela certeza de que iriam ferir susceptibilidades num mundo onde o humor mais atrevido se tornou numa espécie em vias de extinção.

 

A série que vos trago hoje não teria qualquer hipótese de passar pelo politicamente correcto deste ano da graça, mas com muito pouca graça, de 2016: Sledge Hammer!. Numa época em um espirro vai ofender um ou outro grupo, as tropelias do polícia violento, misógino, e machista interpretado de forma inspirada por David Rasche iriam fazer a Internet - o palco de todas as indignações contemporâneas - esgotar o stock de forquilhas e archotes virtuais. Pouco importaria que a série fosse uma sátira especialmente bem conseguida ao Dirty Harry de Clint Eastwood e à tradição de bad cop dos anos 70. Pouco importaria que o registo propositadamente exagerado dos episósios em momento algum permitisse dar alguma seriedade às tiradas do inspector Sledge Hammer. Para as brigadas da indignação selectiva, nada daquilo seria admissível.

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Para mim e para o meu melhor amigo de infância, Sledge Hammer! não só era admissível como era uma delícia. É claro que não compreendíamos a sátira da série (nem teríamos as referências para tal), mas nem por isso deixávamos de nos divertir imenso com aquele humor deadpan, a ver Sledge Hammer desenrascar-se apesar da sua inusitada incompetência, a causar enxaquecas ao inesquecível Capitão Trunk e a safar-se de sarilhos diversos graças à determinação da sua segunda parceira Dori Doreau (a primeira, como se sabe, era a Magnum de calibre .44 pela qual Sledge Hammer seria capaz de colocar as mãos no fogo).

 

À distância destes anos, já não me consigo recordar qual era a minha idade exacta quando descobri Sledge Hammer!, ou em que canal a série passou (provavelmente na RTP, mas talvez já tenha sido na SIC daqueles primeiros e revolucionários anos). Mas lembro-me de vê-la, e da marca indelével que deixou: as imagens perduraram na minha memória, mesmo quando durante anos tentei, sem sucesso, recordar-me do título daquela série com o polícia maluco que falava com a Magnum. Enfim, maravilhas da Internet: o título foi recuperado e a série foi revista. Continua exagerada, atrevida e muito, muito divertida. E, ironia das ironias: ainda que seja profundamente filha do seu tempo e impossível de ser concebida noutra época que não nos anos 80, talvez a sua sátira seja mais actual e pertinente hoje, trinta anos volvidos, neste novo e estranho milénio.

 

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Fora de série (11)

por Rui Rocha, em 26.05.16

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Do fundo da memória, desse mesmo tempo em que esperávamos o início da transmissão  televisiva a mais de meia tarde olhando para a mira técnica, em que o indicativo da Eurovisão prenunciava quase sempre os Jogos sem Fronteiras (quando não calhava tratar-se de uma transmissão da filarmónica de Viena para profunda decepção deste que aqui escreve), em que Vasco Granja pronunciava o nome de Tex Avery e os olhos já brilhavam, recupero vagas imagens de loucas correrias de hordas de guerreiros, de bandeiras ao vento, de artes marciais improváveis, de códigos de honra inquebráveis apesar das maiores vilanias. Ling Chung era um herói. E Ling Chung era eu quando segurava um ramo que se assemelhava à sua espada para correr pelo quintal da avó Palmira com o cabelo ao vento (e meu Deus, como em Espinho fazia vento) em perseguição do ignóbil Cau-Chi, ou lá como se chamava. E invariavelmente o Cau perdia, dobrado o cobarde, ali de joelhos onde o quintal acabava. Perdia o Cau e perdiam os morangueiros que o avô Adriano tinha plantado que nisto de perseguições a tiranos não podia o herói afastar-se do seu caminho da justiça cá por coisa de meia-dúzia de morangos. Claro que até os heróis cometem erros. Ling Chung cometia-os na série, mas nunca desistia. E eu, embora menos, também cometi alguns quando no Sisto, Silvalde, Espinho, Distrito de Aveiro, nos anos 70 do século XX, entrava na pele do justiceiro que vivera na dinastia Song. Ou não terei cometido um erro naquela tarde de Verão em que, empunhando a espada-ramos, zurzindo-a em todas as direcções, defendendo os imaginários companheiros de Ling Chung da injustiça, enfiei tamanha bordoada no Monteiro que andava a sulfatar as fruteiras que o homem perdeu o controlo da escada e aterrou de bruços no meio das couves-pencas? Cometi pois. E nestes casos há que saber recuar quando a batalha está perdida para evitar maiores danos. Retirei a todo o vapor, correndo mais do que Ling Chung correra em qualquer episódio, enquanto o Monteiro Cau-Chi me perseguia, com metade da cara azul do sulfato e a outra metade vermelha do impacto da aterragem. E só parei na cozinha, recuado já em linhas defensivas, bem atrás da saia da minha mãe. Que embora não aparecesse na série, o Ling Chung também havia de ter mãe que devia gostar muito dele. E pronto. Para os que não viram ou já não se lembram, se não me engano, o Ling Chung era aquele que está ali em cima de amarelo. E digo se não me engano porque já não me lembro muito bem dele, embora me lembre como se fosse hoje da cara do Monteiro Cau-Chi  com o nariz espetado entre as pencas ou, visto de outro ângulo, com as pencas espetadas no nariz.

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Fora de série (10)

por Diogo Noivo, em 25.05.16

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A propósito do vício da nostalgia, Pedro Mexia escreveu que compramos “as séries de televisão de que gostávamos na adolescência, mesmo que a magia não resista à revisitação”. Creio que a magia não resiste à revisitação quando esta é feita por outrem. Isto é, quando alguém decide ir ao passado recuperar uma fórmula de sucesso e arrastá-la para o presente. Tal como ligar a uma ex-namorada às 3 da manhã para reatar uma relação perdida no tempo, estas reanimações de experiências já vividas acabam quase sempre de forma nefasta. A 10ª temporada de Ficheiros Secretos, composta por 6 episódios e emitida este ano, confirma a regra. Vi esta última temporada com o temor de quem sabe que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes – mesmo que se trate de um lugar catódico. E o temor confirmou-se. Mas já lá vamos. Comecemos pela série original, emitida entre 1993 e 2002, pela cadeia televisiva Fox (chegou a Portugal um ano mais tarde pela mão da TVI e está agora a ser emitida na RTP Memória).

 

 

The Truth is Out There

Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson) são os agentes do FBI responsáveis por investigar casos paranormais. Evidentemente, as mentes medianamente ilustradas olharão com desdém para a série. À primeira vista, a coisa resume-se a monstros e a discos voadores, tudo assuntos de gente que se entretém com pouco. Mas nos Ficheiros Secretos nada é o que parece ser.

O tema central de X-Files é a desconfiança em relação ao Estado. Trata-se de uma crítica aos abusos da política e aos poderes fácticos que sequestram o Estado. Aliás, parte do brilhantismo da série reside precisamente nas várias referências a um dos casos mais célebres de abuso de poder por parte de um governo: Watergate. Por exemplo, o ‘X’ que Fox Mulder desenhava com fita adesiva na janela do seu apartamento, sinal usado para convocar o misterioso informador que sabia mais do que dizia (na verdade, ao longo das 9 temporadas Mulder teve vários informadores), é uma alusão directa à pequena bandeira encarnada que o jornalista Bob Woodward colocava na sua varanda quando desejava falar com Deep Throat, o informador que delatou Watergate. Fiéis ao caso que inspirou a série, os encontros de Mulder com as suas fontes eram conversas de meias palavras e ocorriam sempre em ambientes lôbregos, dignos sucessores dos locais sombrios e discretos onde Woodward e Deep Throat se reuniam.

 

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Contudo, as reminiscências da História contemporânea dos EUA não se ficam por aqui. O personagem Smoking Man, também conhecido por Cancer Man, interpretado por William B. Davis, mais do que o vilão de serviço e a personificação dos poderes ocultos que corrompem a democracia, é um elo permanente à memória colectiva norte-americana, em particular, às várias teorias da conspiração que dão cor ao passado recente dos EUA. Segundo X-Files, o Cancer Man assassinou Martin Luther King, assassinou JFK e fez de Lee Harvey Oswald o bode expiatório. Enfim, de eventos desportivos memoráveis a guerras civis no estrangeiro, o Cancer Man fez História, condicionando-a e alterando o seu curso em momentos determinantes, sempre embrulhado num manto difuso onde a conspiração e o mito são intencionalmente confundidos.

Entre 1993 e 2002, os Ficheiros Secretos pautaram-se por guiões impecavelmente escritos. Os monólogos em off de Mulder e Scully, que muitas vezes abriam os episódios, são peças com qualidade literária indiscutível. Vale a pena referir ainda que as nove temporadas iniciais da série estão marcadas por inúmeras pistas mais ou menos ocultas, essenciais para entender a história de fundo, mas também para compreender a construção dos personagens. Veja-se, a título de exemplo, a Twin Paradox Theory, de Albert Einstein. Em traços gerais, os possíveis para o leigo que sou, Einstein demonstrou que dois irmãos gémeos, por força do movimento e da inércia, podem ter idades diferentes. Portanto, duas criaturas idênticas e nascidas ao mesmo tempo podem estar separadas por anos – e por todas as experiências contidas nesse hiato. Ora uma das ideias centrais por detrás da dinâmica entre Mulder e Scully é precisamente esta teoria de Einstein. E o espectador atento e curioso podia descobrir a relação. Logo no primeiro episódio da primeira temporada, vemos a tese de doutoramento de Dana Scully, intitulada “Einstein’s Twin Paradox Theory: A New Interpretation”. Umas temporadas mais tarde, já não me recordo exactamente quando, é o Cancer Man a referir-se a esta teoria de Albert Einstein num contexto que claramente apontava para a dupla de protagonistas. Diga-se que estas pistas ocultas fizeram escola: que seria da série Lost –Perdidos sem os Ficheiros Secretos?

 

A revisitação falhada

O regresso da série ao fim de 14 anos gerou uma expectativa tremenda. Mas, como referi no início deste post, foi uma decepção total. Desapareceram as referências às grandes teorias da conspiração da política norte-americana, os diálogos podiam ter sido escritos por uma criança em idade pré-escolar, e o ambiente soturno que caracterizou as temporadas anteriores foi substituído por um registo de sitcom. Voltámos para os braços da ex-namorada, mas o tempo passou e ela mudou. Esta 10ª temporada teve, contudo, um grande mérito: valorizar ainda mais as 9 temporadas originais e fazer dos X-Files uma série de culto imune às agruras da passagem do tempo.

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Fora de série (9/2)

por Ana Vidal, em 24.05.16

Nota prévia: No último jantar do Delito, onde foi lançada a ideia da série colectiva “Fora de série”, eu e o Zé Navarro de Andrade declarámos ao mesmo tempo que escolhíamos “Les Galapiats” (“Os pequenos vagabundos”, na tradução portuguesa). O mais engraçado é que foi também num uníssono imediato que repetimos as palavras que retivemos na memória até hoje, e de alguma forma nos marcaram para sempre: “C’est féerique!”. O que quer dizer que escolhemos ambos esta série pelas mesmas razões: uma paixão assolapada pelos protagonistas. Por isso combinámos escrever ambos sobre ela.

 

 

Pois é, Zé, nesse tempo não falavam os animais mas falavam as hormonas, e como! Ou melhor, gritavam, impunham-se, passavam à frente de tudo sem dó nem piedade. No teu caso (e no de muitos outros rapazinhos, aposto) com efeitos imediatos, traduzidas em furores físicos descontrolados. No meu, e no de tantas outras adolescentes românticas e ingénuas como eu, traduzidas em paixões sofridas, tão arrasadoras como inconsequentes.

 

Mas atenção, isto não é assunto com que se brinque: Jean-Loup foi o meu primeiro grande amor, e nem sequer posso dizer que fosse um amor “ virtual” já que, para mim, era a pura realidade. Se querem saber, acho que nem fazia ideia do nome do actor. Só agora descobri que se chamava Philippe Normand ou Philippe Cantrel, diferentes apelidos que usava como actor ou como cantor. Talentoso, hein? Foi uma paixão que levei tão a sério que condicionou totalmente os primeiros anos da minha vida amorosa, a ponto de só me ter permitido cair de amores por um rapaz (finalmente tangível, aleluia) parecidíssimo com o meu herói. Jean-Loup, o parisiense de férias na Bélgica, tinha criado na minha cabeça sonhadora um padrão, o meu modelo de príncipe encantado. Mais tarde, na mesma linha, veio Alain Delon, quem sabe se porque eu o imaginava como uma espécie de Jean Loup em adulto. O meu namorado de carne e osso era realmente parecido com ambos, e só não ponho aqui uma fotografia do dito (a prova inquestionável do que afirmo) porque não sei se ele lê o Delito.

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Por outro lado, e como não podia deixar de ser, havia a Marion-des-Neiges, a protagonista, para o Zé o supra-sumo da perfeição feminina aos 12 anos e para mim a rival odiada, deslavada e débil mental, sempre a precisar da protecção do meu herói e incapaz de uma proeza por conta própria. Bah.

 

“C’est féerique!” (nessa altura aprendíamos francês, aquela frase ficou-me atravessada no coração como um dardo, ainda antes de ler a legenda), referia-se aos bosques mágicos do Canadá e era dita no último episódio pela delambida Marion ao meu Jean-Loup, no momento da despedida de ambos, convidando-o a ir visitá-la um dia ao seu país. A sonsa. E eu sem nada de feérico para a troca: nada de florestas mágicas, só uma vilória rural com meia dúzia de pinheiros quase milenários, é certo, tudo o que restou do histórico e outrora famoso Pinhal da Azambuja. Uma vilória sem castelos de pontes levadiças nem tesouros perdidos por resgatar, onde o mais excitante que acontecia eram as largadas de touros, na feira de Maio, pelas ruas em que se misturavam poeira, febras na brasa e mil bebedeiras. A vida não é justa.

 

Por isso, por favor, não me contem o que sucedeu com o passar dos anos a Jean-Loup na vida real. Não quero saber. Deixem-me recordá-lo assim, um galã imberbe e aventureiro, de melena nos olhos, com solução para tudo e uma esperteza ilimitada para desmascarar malfeitores e salvar vítimas inocentes. Deixem-me retê-lo na memória desses anos de todas as ilusões, na versão “retrato do artista enquanto jovem” que me incendiava a imaginação e me povoava a mente e o coração, mesmo durante as aulas. A não ser, claro, que tenha casado com a idiota da Marion e estejam ambos obesos, num sofá qualquer em Montréal, a comer pipocas e a ver reality shows. Isso sim, seria a minha vingança servida fria. Gelada.

 

(A despedida e o célebre “C’est féerique!” – ver min 22.27)

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Fora de série (9)

por José Navarro de Andrade, em 23.05.16

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Foi no tempo em que os animais ainda não falavam, quando não eram sencientes nem semi-humanos, tal como nós, outrora, também fomos semi-deuses. Não falavam mas já cometiam proezas extraordinárias, como Skippy, o canguru, que conseguiu pôr as patitas no volante e impedir in extremis que um jipe se despistasse; ou Flipper, o golfinho, que apanhava malfeitores nas águas da Flórida bem antes de Miami Vice. “No one you see is smarter than he”, cantava o genérico, logo, sendo televisão, não podia ser mentira. Bem mais espertas estas alimárias que o Rin Tin Tin, limitado a ladrar quando lhe faziam uma pergunta e punha todo a gente a terminar o episódio a rir.

Nesses tempos, como se sabe, não havia sexo em Portugal, pelo menos para quem fosse filho único e ainda não frequentasse os últimos anos do liceu e concomitantes bailes de garagem. As miúdas eram uma miragem distante, uma inexistência tanto formal como prática. Até que em 1971, fizera eu 12 anos, passou na televisão a série “Os Pequenos Vagabundos”.

Portugal era uma estopada, porque na aldeia onde passava parte das férias grandes nunca consegui topar bandos de ladrões para desvendar e criminar como sucedia sistematicamente aos Cinco em Inglaterra e agora a estes miúdos belgas. Por isso, cada episódio de “Os Pequenos Vagabundos” só reforçava o meu cepticismo. Mas veio a cena final e a minha vida mudou. Marion, a loiríssima e intangível Marion, que havia enturmado com os rapazes sem que os pais a proibissem – uma inverosimilhança – convida Jean-Loup (um par de lambadas naquelas fuças andei eu a prometer-lhe durante toda a série, só com inveja dele) a ir visitá-la Montreal, e remata com os olhos em alvo: “c’ést feérique…” Uma frase, apenas uma, e a testosterona referveu em ebulição dentro de mim como nunca dantes a sentira, e foram noites intermináveis e seguidas a masturbar-me debaixo dos lençóis derramando, de certeza, o equivalente à população da China. Nenhuma Marion me falou assim e ainda hoje não encontrei em filme ou série cena tão mal interpretada e tão devastadora como aquela. Também é verdade que só se sofre os 12 anos uma vez na vida.

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Fora de Série (8)

por Isabel Mouzinho, em 22.05.16

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Quando eu era pequena não tinha autorização para passar muito tempo em frente da televisão. Talvez por isso, tudo o que via exercia sobre mim um especial fascínio. Foi assim que, durante muito tempo, me diverti com as peripécias de Samatha, a "feiticeira" e com os seus trejeitos de nariz que serviam para arrumar a casa ou resolver as mais insólitas situações, diante da perplexidade de um marido desajeitado, que fingia não entender os seus poderes especiais.

Mais tarde, ainda antes de me perder de amores pelos olhos verdes do Jean-Loup, de "Os Pequenos Vagabundos", a série de culto que na época fazia suspirar todas as meninas acabadinhas de entrar na adolescência, eu quis ser como a Pipi das Meias Altas, aquela miúda ruiva, sardenta, de tranças muito espetadas, que vivia sozinha com um cavalo e um macaco, que se pendurava nas árvores e fazia mil diabruras, numa irreverência que parecia não ter limites, permitindo-se quebrar todas as regras, e sair-se sempre bem.

A série, - um original sueco, feita a partir de três livros de literatura infanto-juvenil de Astrid Lindgren,- que acompanhei com paixão, misturava liberdade, aventura e brincadeira, num mundo onde tudo parecia permitido. A Pipi era uma personagem a meio caminho entre a realidade e a ficção, uma rapariga como nós e ao mesmo tempo muito diferente, que alimentava o nosso imaginário infantil num tempo em que a televisão ainda era só a preto e branco.

E lembro-me, vagamente, da desilusão que senti quando a actriz que fazia de Pipi na série passou por Lisboa e, vista assim, sem tranças e sem a habitual caracterização, me pareceu afinal uma rapariga como as outras.

Há pouco tempo voltei a ver uma fotografia de Inger Nilsson, que tem agora 56 anos. Nem parecia a mesma. A verdade é que já passaram alguns anos e o tempo deixa marcas em todos nós. Mas, ainda que os tempos sejam outros e muita coisa seja diferente, há determinadas vivências, típicas da adolescência, que não mudam nunca; e há séries que nos marcam para sempre.

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Fora de série (7)

por João André, em 21.05.16

 

«I have a cunning plan».

 

Para quem conhece a referência, poucas outras palavras conseguirão provocar riso tão facilmente sem qualquer outra referência ou contexto. Referências a criados semi-escravos e só tangencialmente humanos, líderes tão incompetentes que não conseguem vestir calças, pares cujo ódio está tão repleto de bonomia que o veneno que pinga de todas as sílabas pode ser dispensado e recebido com sorrisos sinceros. Tudo isto preenche o universo Blackadder, a série de comédia que conseguiu um segundo lugar na votação da BBC sobre as melhores britcoms (o vencedor foi uma série pouco conhecida em Portugal - Only Fools and Horses - brilhante mas com referências muito específicas temporal e geograficamente).

 

 

Em Portugal passava na RTP2 à hora do telejornal, para meu azar. Com apenas uma televisão em casa - e já tinha sorte - eu tinha de esperar que o meu pai não estivesse em casa para poder mudar de canal e poder rir-me um bocado (a minha mãe aceitava mais facilmente perder as notícias da noite). Havia no entanto um pequeno obstáculo: o humor dependia de tal forma do conhecimento de inglês (muitas piadas eram intraduzíveis) e de história, preconceitos ingleses, tradições, etc, que só consegui começar a apreciar convenientemente a série alguns anos mais tarde, quando a redescobri. Ainda hoje, quando tenho todas as séries, os episódios especiais e até as raridades, vou descobrindo pequenas pérolas que me escaparam no passado, mesmo enquanto me rio perdidamente das piadas que sei virem a seguir.

 

 

Dentro das 4 temporadas, a mais fraca é, excepcionalmente, a primeira. Blackadder é apresentado como uma versão de Mr. Bean (a personagem que mais é identificável com Rowan Atkinson). Um idiota fraco, sem ideias ou convicções, apenas ganância sem fim e escrúpulos inexistentes. Nesta série os seus acompanhantes (Baldrick à cabeça) são inteligentes e oferecem os melhores planos. O rei é já a personagem de autoridade brutal mas não idiota, apenas completamente desinteressado nos seus filhos - Edmund Blackadder é constantemente chamado de "Edna"). O texto era já excelente, mas o efeito cómico ainda algo diluído pelas diversas personagens e sem a secura que caracterizou as restantes temporadas.

 

A partir da segunda temporada, é quase impossível referenciar uma sem as outras. Os temas atravessam todas as temporadas e não existe uma linha temporal que obrigue a seguir os episódios por ordem. A principal excepção será sempre o episódio final (4ª temporada), que exclui toda e qualquer continuação (pelo menos com aquelas personagens). Esta é talvez a temporada que mais escapa ao tom genérico de sátira bem humorada das séries, referenciando a vida nas trincheiras (café de lama e rato estufado são o prato du jour) e acaba com um dos finais mais amargos que seria de esperar para uma série de comédia, com os principais protagonistas a correrem para as suas mortes. Todo o episódio aliás nos prepara para esse final, incluindo o momento em que, julgando ter escapado esse destino, três personagens interpretam o silêncio nas trincheiras como o armistício que assinalaria o fim da Grande Guerra de 1914-17 (um momento de grande comédia, hilariante e cruel ao mesmo tempo).

 

 

Pessoalmente não consigo apontar temporadas preferidas, tendo antes momentos preferidos. Como episódio é difícil fugir ao episódio, na 4ª temporada, em que o Capitão Flashheart irrompe pelos ecrãs (já tinha surgido noutra forma na segunda temporada). São no entanto os pequenos diálogos entre Blackadder e Baldrick que ficam mais presentes. Aliás, muitos dos diálogos de Blackadder acabam por ser essencialmente solilóquios em que este lamenta a sua sorte e condição («The path of my life is strewn with cowpats from the Devil's own satanic herd!»). Pérolas das séries, escolhidas sem critério:

 

 

Baldrick, get the door.

- Who's using the family brain cell at the moment?

Blackadder: Ah, Melchett! Greetings! I trust Christmas brings you its traditional mix of good food and violent stomach cramp. / Melchett: And compliments of the season to you, Blackadder. May the Yuletide log slip from your fire and burn your house down.

- I should've known not to trust a man with the mental agility of a rabbit dropping!

My head feels like there's a Frenchman living in it.

- They are so poor that they are forced to have children as a cheap alternative to turkey at Christmas.

She is famous for having the worst personality in Germany and, as you can imagine, that's up against some pretty stiff competition.

He's madder than Mad Jack McMad, the winner of last year's "Mr. Madman" competition.

A man may fight for many things: his country, his principles, his friends, the glistening tear on the cheek of a golden child. But personally I'd mud wrestle my own mother for a ton of cash, an amusing clock, and a sack of French porn. You're on.

The greatest work of fiction since vows of fidelity were included in the French marriage service.

Skirt? Ha! If only. When I joined up we were still fighting colonial wars. If you saw someone in a skirt you shot him and nicked his country.

In one short evening I've become the most successful impresario since the manager of the Roman Coliseum thought of putting the Christians and the Lions on the same bill.

Never, in all my years, have I encountered such cruel and foul-minded perversity! Have you ever considered a career in the church?

what we are talking about in privy terms is the latest in front wall fresh air orifices combined with a wide capacity gutter installation below.

Just because I can give multiple orgasms to the furniture just by sitting on it, doesn't mean that I'm not sick of this damn war: the blood, the noise, the endless poetry.

Captain Darling? Funny name for a guy isn't it? Last person I called darling was pregnant twenty seconds later.

The Teutonic reputation for brutality is well-founded. Their operas last three or four days. And they have no word for "fluffy".

 

O segredo da série passava então pela sua escrita mas também pela qualidade dos actores. Não é fácil fazer vezes sem conta o mesmo comentário, com pequenas variações de texto e de timing e conseguir sempre o efeito cómico pretendido. Rowan Atkinson conseguia o seu propósito porque estava tão longe da sua persona televisiva habitual. Tony Robinson consegui o milagre de aparecer como a pessoa mais estúpida da História. Stephen Fry dava corpo a personagens fortemente beligerentes e cúmulos do machismo. Hugh Laurie (hoje o mais conhecido do grupo graças a House) repetia o milagre de aparecer idiota com o cúmulo de o fazer com personagens distintas. Tim McInnerny, Miranda Richardson e Patsy Byrne empregavam o seu brilhantismo de palco às personagens e uma galeria de outros excelentes actores britânicos ia aparecendo de tempos a tempos (Robbie Coltrane, Jim Broadbent ou Miriam Margolyes são exemplos).

 

O episódio mais recente de exibição pública foi Blackadder: Back and Forth (link para o filme no YouTube), exibido na passagem de ano de 2000. De tempos a tempos repetem-se os rumores que uma nova série, um filme ou um novo episódio estarão em preparação. Os actores confirmam e depois negam os rumores. McInnerny terá dito que preferia que os espectadores mantivessem na memória as personagens como eram, não como os actores são hoje. Não me importo. Qualquer nova temporada que arriscasse estragar o brilhante trabalho do passado seria má ideia. O final da 4ª temporada foi o ponto final perfeito: um avançar resignado, mas sempre espirituoso, para o fim.

 

 

Quanto aos planos de retomar, que fiquem como todos os planos em Blackadder: cunning, mas no fim inconcretizáveis e falhados.

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Fora de série (6).

por Luís Menezes Leitão, em 20.05.16

Star Trek, que entre nós ficou conhecida, como O Caminho das Estrelas, é talvez a série de televisão mais bem sucedida de sempre. Criada por Gene Roddenberry em 1966, gerou imediatamente inúmeros seguidores, apaixonados pelas aventuras do capitão James T. Kirk (William Shattner), Mr. Spock (Leonard Nimoy), Leonard Mckoy (DeForest Kelley) e Montgomery Scott (James Dohonan). O sucesso foi tanto que os produtores não resistiram a fazer render o peixe, levando à criação de seis séries de Star Trek: The Original Series, The Animated Series, The Next Generation, Deep Space Nine, Voyager e Enterprise. Como também não podia deixar de ser, a série passou rapidamente ao cinema, levando à produção de nada menos do que doze filmes: Star Trek: The Motion Picture, Star Trek II: The Wrath of Khan, Star Trek III: The Search for Spock, Star Trek IV: The Voyage Home, Star Trek V: The Final Frontier, Star Trek VI: The Undiscovered Country, Star Trek Generations, Star Trek: First Contact, Star Trek: Insurrection, Star Trek Nemesis, Star Trek, Star Trek Into Darkness. E, como não poderia deixar de ser, já se anuncia para 22 de Julho de 2016 um novo: Star Trek Beyond. E também se anuncia que em 2017 a série regressará mas, como também agora se tornou frequente, exclusivamente para a internet. A série ainda hoje vende mais do que pãezinhos quentes.

 

Diz-se que o autor se inspirou nas Viagens de Gulliver, mas a mim parecia-me mais a epopeia dos descobrimentos portugueses. A série começava com um genérico a referir: "Espaço: a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise na sua missão de cinco anos a explorar estranhos novos mundos, a procurar novas formas de vida, e novas civilizações, a ir onde nenhum homem tinha ido antes". E terminava sempre com a leitura do diário de bordo do capitão Kirk, referindo o ano estelar 5.000 e qualquer coisa, cujos textos ninguém sabia se seriam alguma vez recuperados.

Em termos científicos a série tinha seres estranhos, tendo até inventado uma língua própria para os falantes de um dos planetas: o klingon, de que muitos fãs passaram a ser fluentes. Mas o que era irresistível era o teletransporte do Capitão Kirk, sempre antecedido pela frase Beam me up, Scotty. E especialmente o Mr. Spock, um cruzamento de um homem terrestre com uma habitante do planeta Vulcano, cuja serenidade nas situações de perigo gelava todos os espectadores. Carl Sagan, que criticava os erros científicos das séries de ficção, dava precisamente o exemplo de Spock como o erro mais colossal: Cruzar um homem com uma habitante de um planeta estranho? Seria mais fácil cruzar um homem com uma couve. A série ignorava toda a teoria da evolução.

star-trek-spock-1[1].jpg

Mas a verdade é que o erro científico que era Spock foi talvez a maior causa do sucesso da série, devido ao desempenho do brilhante actor que era Leonard Nimoy. O seu sucesso foi tanto que a personagem nunca mais o largou. O actor bem lutou contra isso, escrevendo uma biografia intitulada I am not Spock, mas acabou por se render, escrevendo um segundo volume que se chamou precisamente I am Spock

 

50 anos depois da sua criação esta série continua activa e bem viva. E pelo sucesso que tem tido, se calhar no ano estelar 5.000 e qualquer coisa ainda haverá gente a vê-la…

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Fora de série (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.05.16

 

O aparecimento da primeira mini-série aconteceu em 1984. Não me recordo se foi logo nesse ano que começou a passar na RTP, mas foi sem dúvida um momento marcante para quem sempre preferiu o cinema à televisão. Desconheço se todas as sequelas passaram em Portugal porque no final da década de Oitenta e durante quase uma dezena de anos, antes do final do Século XX, vivi fora de Portugal. Nessas ocasiões limitava-me a seguir a série irregularmente através das gravações que me chegavam.

Em 1980 eu fora admitido na Faculdade de Direito de Lisboa e já nessa altura uma das minhas preocupações recorrentes era o combate à corrupção, ao clientelismo político, à promiscuidade entre a política e os negócios e à forma como em Portugal se usava e abusava dessa instituição nacional que era a "cunha". O fenómeno mafioso desde sempre me interessara e alguns livros e filmes italianos e norte-americanos dos anos 60 e 70 haviam atraído a minha atenção. Quando em Itália, em Setembro de 1982, tomou posse a Segunda Comissão Anti-Máfia, depois dos homicídios de Pio La Torre e do célebre general Dalla Chiesa, presidente da Câmara de Palermo e símbolo da luta contra a Máfia siciliana, assassinado em 3 de Setembro desse ano, passei a acompanhar com mais atenção tudo o que rodeava esse combate.

Foi, pois, com particular atenção que segui e me tornei um incondicional da série italiana O Polvo, La Piovra no original. A actualidade do tema, o magnífico trabalho dos seus autores, realizadores e guionistas, onde surgiam nomes consagrados como Damiano Damiani e Sandro Petraglia, um naipe de actores de primeira água, imediatamente me agarraram aos seus episódios rodados em diversos locais (Roma, Milão, na Suiça, em Nova Iorque, etc.) mas com a maioria das cenas centradas na pequena vila siciliana de Trapani. Muito anos mais tarde quando viajei pela Sicília e percorri as estradas das suas aldeias e cidades, vendo alguns grafitti nos muros e paredes, por várias vezes me recordei de La Piovra.

A figura incontornável do Comissário Corrado Cattani, encarnada por um esplêndido Michele Placido, que fora destacado de Milão para investigar a morte do seu colega Augusto Marineo, o realismo das cenas, numa altura em que o que se passava no quotidiano se misturava com a ficção da série televisiva, algumas mulheres lindíssimas – Florinda Bolkan, na pele da Contessa Olga Camastra, mas também Barbara de Rossi, fazendo de Marquesa Rafaella, Patricia Millardet, esta na figura da magistrada Silvia Conti, Marie Lafôret, entre outras – e uma banda sonora excepcional – recordo que Riz Ortolani e Ennio Morricone foram dois dos autores – tornaram O Polvo numa série de culto em Itália e nalguns países europeus entre os quais Portugal.

Em determinada altura terá havido dificuldade de contratar actores italianos e muitos dos papéis foram desempenhados por actores franceses. Bruno Cremer, Paul Guers e François Périer foram alguns dos franceses que passaram pel'O Polvo. Na mesma altura em que a ficção tomava conta das televisões agudizava-se a luta anti-máfia. O Comissário Corrado Cattani acabaria ele próprio por ser assassinado na quarta série, sendo substituído nas quinta e sexta séries por um outro protagonista, Vittorio Mezzogiorno.

Algum tempo depois tomaria posse a Terceira Comissão Anti-Máfia que pôs em destaque as ligações entre as organizações mafiosas e algumas lojas maçónicas. Os atentados de 1992 contra os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borselino, a operação Mani Pulite e o fim da Primeira República italiana, que conduziu à alteração das leis do financiamento partidário e à reforma dos partidos, reforçariam a importância da série televisiva quando esta se predispôs a trazer ao conhecimento de vastíssimas audiências os meandros da promiscuidade entre o crime, uma certa advocacia, a actuação de alguns polícias, os negócios da construção civil, da droga e da política, as leis do silêncio e "a moral dos imorais".

O Polvo antecipou os livros de Roberto Saviano e alertou uma boa parte da opinião pública portuguesa e europeia para a dimensão do fenómeno mafioso e as relações deste, nas diversas formas que assume, com a actividade política e os partidos políticos. Chegou a passar nos Estados Unidos da América e na Rússia, tendo sido a série italiana de maior sucesso de todos os tempos.

Para além de ter servido para entreter milhões de telespectadores durante mais de uma década e meia (em Itália terminaria em 2001), La Piovra serviu para abrir muitas consciências, completando o aspecto lúdico e ficcional com o indispensável papel formativo e pedagógico que é apanágio do bom cinema e da melhor televisão.

 

la piovra.jpg

 

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Fora de série (4)

por Patrícia Reis, em 18.05.16

«We’ll meet again, don’t know how, don’t know when...»

Assim reza a canção e faz parte das minhas memórias afectivas por causa de uma série fora de série. Eu teria onze ou doze anos e, todas as semanas, como ritual, ficava a ver mais um episódio de We’ll Meet Again, produção britânica, exibida em 1982. Mais importante do que o cenário – Inglaterra rural e base norte-americana pronta para combater Hitler e os seus terrores – o que me importava verdadeiramente eram as histórias de amor, em especial uma que me inquietava semana a semana: da médica Helen Dereham (Susannah York) e do major Jim Kiley (Michael J. Shannon). Como é que uma mulher respondia assim, com tanta rapidez? E como é que podia ser tão bonita? E como é que...

Eram as minhas perguntas. Logo no primeiro episódio, quando Helen e Jim se conhecem – na berma da estrada junto a um ferido – ela não demonstra qualquer constrangimento. Sabe o que se passa e exige que o ferido seja levado no seu carro. O major, americano, rola os olhos e diz I should take care of this myself. Mal sabia ele – ou eu – que estava ali a mulher da sua vida, por sinal casada com um senhor que fica numa cadeira de rodas, que serviu a causa dos Aliados e é gentil. Tão gentil que nunca percebi se intuiu o affair que a mulher manteve com o dito major durante episódios e episódios.

Como o próprio nome indica, o futuro talvez fosse mais feliz, mas estavam condenados a viver vidas separadas. Susannah York encheu-me as medidas, era a minha actriz preferida (na altura eu só conhecia duas actrizes pelo nome, esta e Julia Andrews – et pour cause?) É evidente que a série tinha mais sumo, muitas histórias paralelas, rapazes americanos apaixonados por meninas inglesas, encontros e desencontros, traições e o fantasma de Hitler, logo do perigo ou da morte. We’ll meet again marcou-me ao ponto de ter comprado a série em DVD há uns anos e, ao contrário do que aconteceu com outros produtos televisivos datados, ter ficado presa à história e à excelência dos actores. Uma boa história não perde qualidade. Se não tiveram oportunidade de ver, deixo-vos um conselho: vejam na net os primeiros episódios disponíveis. Basta ir ao doutor youtube.

 

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Fora de série (3)

por Marta Spínola, em 17.05.16

Lembro-me de quando à terça ao serão havia sempre uma série policial. O "Polvo" dava às terças, "Modelo e Detective",  "Dempsey and Makepeace", "Crónica do Crime". Todas deram à terça.

Havia um padrão no serão da TV: concursos às segundas, filmes à quarta, debates à quinta, filmes à sexta. A terça era o dia das séries policiais e foi assim que conheci a minha favorita: "A Balada de Hill Street". Ou "Hill Street Blues", se preferirem.

Na esquadra de Hill Street acompanhávamos os agentes, individualmente ou em duplas no seu dia a dia, desde o carismático roll call ("let's be careful out there", mais tarde "let's do it to them before they do it to us") à cerveja ao fim do dia no bar onde todos se encontravam.

Eu era criança quando dava à noite, mas revi mais tarde numa reposição, e voltei a adorar, agora com mais atenção e noção. Fui apaixonada pelo officer Renko e o seu companheiro Bobby Hill, adorei cada rosnar de Belker, respeitei e chorei o sargento Esterhaus.

Gosto muito de séries e filmes do final dos anos 70, início dos 80. É série que se vir à venda não hesito em comprar.

Deixo o genérico, um hino.

 

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Fora de série (2)

por Luís Naves, em 16.05.16

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Vi pela primeira vez a série britânica Espaço 1999 a preto e branco e depois vi-a a cores, o que alterava muitos dos elementos visuais e a tornava (digamos assim) ainda mais espectacular. A primeira série de episódios era melhor do que a segunda e a minha visão juvenil, mais ingénua, é distinta da adulta. Não fixei os pormenores das histórias, mas lembro-me que alguns episódios agarravam ideias que lera nos pequenos volumes da colecção Argonauta. Sim, julgo que havia ali umas imitações. Claro que A Quinta Dimensão é muito melhor, Star Trek tem mais fama e vence na caracterização das personagens, nunca vi Outer Limits, dizem que é fantástica, e os alemães já tinham feito uma coisa parecida com a série inglesa, Orion, a Patrulha do Espaço, que só conheço do youtube. A velhinha ficção-científica de televisão tem muito que se lhe diga.

A questão das personagens é importante. Não há grande pachorra para o comandante Koenig e para a sua namorada, a doutora já-não-lembro-do-nome, não há paciência para o moralismo de algumas histórias, onde vemos Koenig a destruir civilizações inteiras em nome do politicamente correcto da época — não me refiro a 1999, mas a 1974. Aliás, em matéria de personagens, sempre preferi a Tania, que se não me engano fala pela primeira vez no episódio 8, para dizer, com forte pronúncia da Turíngia Ocidental: “Comandante, estamos a ser invadidos”. É uma das melhores deixas da televisão daquele tempo.

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Tania (no centro da imagem) é muito gira e fica bem naqueles fatinhos anos 70, com calças à boca-de-sino e as elegantes faixas coloridas no braço esquerdo; o vermelho fica-lhe a matar. Infelizmente, os produtores não tiveram dinheiro para lhe dar um papel mais relevante e ela desapareceu nos confins daquele universo. Esta minha visão de adulto cheio de carências afectivas não coincide com a minha observação a preto e branco, onde, confesso, a personagem Tania não existe. Sem cor, Espaço 1999 era uma boa ideia de princípio: uma base inteira, colocada na Lua, projectada para o exterior devido a uma explosão acidental que alterava a órbita do nosso satélite. As naves espaciais pareciam fantásticas e julgo que se mantêm possíveis como veículos lunares. Em princípio, a base talvez sobrevivesse a um problema daqueles, mas teria sido melhor uma fuga antes que a distância aumentasse.

11657.jpg

 

Do ponto de vista científico, a Lua não poderia viajar pelo espaço até outros sistemas (as distâncias são tão vastas, que levaria séculos, a aceleração não era suficiente sequer para o abandono do sistema solar), mas entretanto descobriu-se que poderá haver muitos planetas solitários, ejectados dos respectivos sistemas, que vagueiam pelo espaço vazio: talvez um deles tenha uma base Alpha com habitantes que, presos àquele destino solitário, ali tenham ficado a viver, mantendo frágeis estufas para produzir alimentos e oxigénio, centrais de energia e reciclagem dos seus pobres recursos. Teoricamente, é possível.

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O que não parece tão provável é a má liderança de Koenig, cujas frequentes histerias e crises místicas vão impedindo a base alpha de criar a sua própria civilização (não sei a razão, mas veio à memória este filme de Pabst, A Rainha de Atlântida), pois os habitantes da base tentariam recriar no meio do cataclismo uma vida própria, sem os laços que os ligavam ao mundo antigo, usando os territórios infinitos da imaginação e da nostalgia, ao serviço das enormes possibilidades da sobrevivência. Foi esta hipótese que me encantou e que me fez sonhar com outras histórias. E não será para isto que serve a ficção, para nos fazer inventar qualquer coisa de adicional?

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Fora de série (1)

por Pedro Correia, em 15.05.16

 

Bastavam os primeiros acordes do genérico para me porem colados ao ecrã. Um genérico fabuloso, com um casal de meia-idade entoando uma cançoneta ao piano no recato doméstico. Os versos da cançoneta diziam tudo sobre a intenção satírica desta série da CBS. Nunca os esquecerei.

 

Boy the Way Glenn Miller played

Songs that made the hit parade.

Guys like us we had it made,

Those were the days.

 

E logo um zoom nos introduzia na residência de Archie Bunker. O irascível, antipático, furibundo Archie Bunker - uma das mais perenes personagens da ficção televisiva de todos os tempos. O típico americano médio, cheio de preconceitos sociais, culturais e raciais. Reaccionário até à medula, apoiante cego de Richard Nixon e da guerra do Vietname, inimigo figadal dos ventos da História que nesses idos de setenta prometiam uma revolução cultural no país mais poderoso do planeta.

 

And you knew who you were then,

Girls were girls and men were men,

Mister we could use a man

Like Herbert Hoover again.

 

Um dos mais deliciosos ingredientes da série era o modo como subvertia o dogma então vigente sobre a classe operária como vanguarda social. Archie era operário - "explorado pelo capital", um remediado sem horizontes -, o que não o impedia de destilar ódio contra os imigrantes que vinham "roubar-nos os postos de trabalho". Contra os negros, "delinquentes por natureza". Ou contra os judeus, que "assassinaram Cristo". Conservador empedernido, rogava pragas ao desconserto de um mundo onde todas as peças lhe pareciam subitamente fora do lugar. Daí nasciam as homéricas discussões que mantinha com o genro, Mike, um intelectual de esquerda que lhe servia de contraponto ao exibir uma fé inquebrantável no progresso.

 

Didn'i need no welfare state,

Everybody pulled his weight.

gee our old LaSalle ran great.

Those were the days.

 

All in the Family (que uma feliz tradução portuguesa baptizou de Uma Família às Direitas ao ser exibida na RTP) tinha diálogos de cinco estrelas, que nos faziam rir até às lágrimas, tornando Archie num ícone popular, malgré lui e as ideias que propagava. Algumas das suas expressões incorporaram-se no vocabulário comum, como "fecha a matraca" (a ordem da praxe para mandar calar a incomparável Edith, a mulher que lhe aturava todos os caprichos) ou "cabeça de abóbora" (o feroz qualificativo que reservava ao genro). Era uma série de texto, mas também de actores, servida por um quarteto de intérpretes de luxo. Carroll O'Connor (Archie), Jean Stapleton (Edith), Sally Struthers (a filha, Gloria) e Rob Reiner (o genro, que na vida real se tornaria realizador de filmes inesquecíveis, como Misery ou When Harry Met Sally). Era um tempo em que nos podíamos rir de todos os tiques e de todos os dogmas. Antes da televisão padronizada, liofilizada, industrial e politicamente correcta.

"A 'seriedade' não costuma ser um sinal inequívoco de sabedoria, como julgam os pasmados: a inteligência deve saber rir", como nos ensinou Fernando Savater. É nisso que penso ao rever hoje cada episódio desta extraordinária série que psicanalizava a classe média americana e se mantém actual, superando as barreiras da moda, do gosto e do tempo. Porque a América de Archie Bunker não morreu: apenas se alterou o suficiente à superfície para continuar tão tacanha como dantes.

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