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Vizinhos, mas de ao pé de casa

por António Manuel Venda, em 06.09.11

 

Houve um tempo em que um amigo, lá de vez em quando, costumava entregar-me alguns textos escritos ao correr da pena, sem uma segunda leitura, ou seja, sem grandes preocupações de depurar um pouco o original. Eu fazia as correcções, procurando limitar-me às gralhas, mas por vezes não conseguia deixar passar coisas que também ele, com uma leitura cuidada, por certo haveria de detectar. Assim de repente, lembro-me de duas frases que acabei por alterar, embora isso até possa ser discutível, porque eram, de facto, preciosidades. A primeira dizia assim: «Naquela noite regressei a casa acompanhado por uns vizinhos que moravam ao pé de mim» (cortei a parte final, «que moravam ao pé de mim»). E a segunda: «Revi os conhecidos, cumprimentei os amigos e conheci pessoas que ainda não tinha conhecido antes» (substituí a última parte por «conheci novas pessoas»).

Quase todos os que escrevem estão sujeitos a este tipo de situações. Serão caso raro, por certo, aqueles que conseguem colocar directamente no papel (ou no ecrã do computador) os textos definitivos. Uma vez ouvi dizer que Virgílio Ferreira tinha essa capacidade, mas normalmente as pessoas têm de melhorar ou corrigir as primeiras versões daquilo que fazem. Em maior ou menor grau, mas têm. José Cardoso Pires, por exemplo, até escrevia mais do que uma versão dos seus romances. António Lobo Antunes diz que produz apenas uma ou duas páginas por dia, certamente por ter um processo muito complexo de escrita. José Riço Direitinho, segundo me contaram, também escreve muito pouco, trabalhando a linguagem ao máximo.

Ora, aquele meu amigo costuma escrever de seguida, ao sabor da imaginação, sem reler. Assim, as gralhas sobrevivem, tal como os pleonasmos, as repetições e outras coisas. E tanto material nem sequer pode ser aproveitado pelos académicos como recursos estilísticos. Isto, é claro, se as coisas continuam como no tempo das minhas aulas de Português do ensino complementar, quando eu andava mais uma data de desgraçados quase sempre à procura dos tais recursos, que em muitos casos de estilísticos pouco ou nada tinham.

Para a minha professora de Português desses tempos não bastava levar Camões, com «Vi claramente visto o lume vivo», ou o Diabo dos autos de Gil Vicente a dizer «Subi, subi pera cima». De forma que lá andávamos em correrias desenfreadas, à procura de pleonasmos e demais recursos, enfim, estilísticos. E também medíamos orações, por exemplo, coisa que, devo confessar, me ajudou menos em termos literários do que os livros aos quadradinhos com as aventuras do fabuloso guarda rural norte-americano Tex Willer. O que veio a revelar-se útil foi o autêntico sistema de salve-se quem puder que apanhei durante aqueles dois anos. As aulas eram uma prova terrível, onde os alunos passavam por um leque de situações perfeitamente inaceitáveis, de pressão, algum terror e muita humilhação. A professora, que era uma autêntica psicopata, punha as coisas bastante difíceis para nós. Daí que fosse preciso andar um pouco como na guerra, sempre de olhos bem abertos, para ir sobrevivendo. Uma palavra mal escrita, por exemplo, dava não sei quantas dezenas de repetições em casa, e isso, há que reconhecê-lo, ensinava qualquer um. Eu tinha sempre muitas para repetir, não porque fosse de dar erros, mas porque com a minha letra um bocado despachada cada palavra com um «m», por exemplo, era logo assinalada, ou porque o «m» tinha quatro pernas, ou porque tinha cinco, ou afinal porque parecia mais um «n» do que outra coisa. No fundo, lá bem no fundo, talvez eu até devesse agradecer a essa professora sinistra que nos fazia correr atrás de perífrases, pleonasmos, contrastes (ou antíteses), cacafonias, regionalismos, maravilhosos pagãos (e maravilhosos cristãos, não sei se para equilibrar), imagens e sinestesias (ou confusões de sentidos). O exemplo que ela dava neste último caso era «aquele cheiro soube-me tão bem», mas nunca revelava qual era o cheiro, ficando as coisas sempre num certo suspense. O suspense, curiosamente, nunca nesses dois anos teve direito a figurar na lista dos recursos estilísticos.

Mas a professora, certo dia, ficou sem palavras (o que numa professora de Português é de assinalar, e então naquela...). Foi a única vez. A pergunta de abertura era sempre para mim, porque como eu pertencia à letra «A» – só havia mais outro assim nesse ano, o Artur – ficava logo no primeiro lugar da sala, naquela altura disposta em «U» por causa de umas experiências pedagógicas que acabariam por não dar em nada. De forma que se eu não respondesse a mulher ia percorrendo a turma de aluno em aluno até ouvir a resposta certa. Se ninguém acertasse, ela virava-se para o primeiro (logo por azar, eu) e presenteava-o com um enxovalho de todo o tamanho e, pior do que isso, de argumentação bem aprimorada. «Os teus ‘Maias’ não são iguais aos meus!», ou «Onde é que os compraste, em Monchique?», foram alguns dos mimos que me calharam. Mas chegou a haver pior («Sabes, rapariga, as vacas costumam andar nos campos! Como é que podes entrar na escola nessa figura?!» – razão: uso de mini-saia). Bom, o que é certo é que naquele dia eu consegui passar a prova sem grandes estragos, e os colegas seguintes, melhor ou pior, também passaram. O que fez com que um dos dos últimos lugares, o João Lúcio, também acabasse por ter direito a uma pergunta, chamemos-lhe assim, de arranque.

Foi por isso o João Lúcio quem teve a honra de fazer calar a professora pela única vez naqueles dois anos de guerra. Era um aluno médio, mas talvez dos mais inteligentes da turma em termos emocionais. Ou seja, e não me deixando derivar para os conceitos da moda nos meios ligados às empresas, era um autêntico mestre do desenrascanço. O João Lúcio levou com uma pergunta terrível, ou melhor, não foi bem uma pergunta, foi um desafio.

– Lúcio!! – gritou a professora. – Faz-me um retrato físico e psicológico do gigante Adamastor!!

Eu pensei logo que ia haver confusão, pois ele ia de certeza embatucar com aquilo, e então lá viria a peixarada do costume. Pelo menos eu imaginava o que se passaria se a pergunta tivesse sido para mim; de certeza que eu haveria de começar a analisar o gigante à minha maneira e a maluca interromper-me-ia logo na segunda ou na terceira frase para me desancar. Porque para ela dava a ideia de que o gigante tinha existido mesmo, que havia fotos, depoimentos gravados, até algumas reportagens perdidas nos arquivos da televisão do Estado, etc, etc, etc. Enfim, eu não conseguiria sair da sala sem uma tremenda humilhação.

O João Lúcio começou por olhar para o tecto, enquanto a professora esperava com as mãos ferradas nas ancas. E daí a uns segundos, a medo, começou a falar:

– Pois, o Adamastor era monstruoso, era grande...

A professora interrompeu-o logo, procurando ridicularizá-lo:

– Evidentemente, se era monstruoso tinha mesmo de ser grande!

Ela não admitia pleonasmos aos alunos, só aos autores que deixava que estudássemos. Foi então que chegou a resposta do João Lúcio, imediata, certeira, definitiva:

– Eu conheço pessoas que são pequenas e que mesmo assim são monstruosas.

A professora ficou sem fala. Os minutos passaram e nada, até que o toque da campainha a anunciar o fim da aula acabou por salvá-la. Ela não devia passar muito do metro e cinquenta de altura. Nesse dia, compreendi que nem tudo o que parece um pleonasmo é verdadeiramente um pleonasmo. Quem conseguir, nestas linhas, reconhecer a minha professora de Português nos dois anos do complementar, numa escola de Portimão, saberá por certo o valor da resposta do João Lúcio. Quanta coragem ele teve, como se arriscou até a ser confrontado com alguma tentativa da professora em fazê-lo suspender das aulas – ainda era possível, mesmo estando nós já a meio da década de 1980 e com o criminoso de Santa Comba em sítio seguro.

Já agora, para acabar com um pleonasmo mesmo pleonasmo, aquele de que mais me recordo não é de uma obra literária. Ouvi-o num banco, em Lisboa, por sinal um banco norte-americano. Um dos directores recebeu-me, perguntou-me se aceitava um café e depois começou a falar-me dos «valores», da «missão» e de mais uma série de coisas da «instituição». Até que chegou a uma altura em que, para explicar como é que faziam a «gestão do risco de crédito», se pôs a falar de «medidas preventivas». E comentou:

– Sabe, nós aqui não aceitamos qualquer cliente. Para entrar na nossa instituição, é preciso ter um certo back ground para trás!

Ainda hoje estou à espera de que me apareça alguém capaz de melhor.

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